O Bolchevique

Orgão de propaganda da Liga Comunista
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ANO II - NO6 - nov/2011 - R$5

LÍBIA A queda de Trípoli revela um novo equilíbrio de forças mundial POLÊMICA Aqueles que “uivam com os lobos” e aqueles que ficam neutros na guerra da Líbia NOVA CRISE O imperialismo enfrenta a maior crise econômica, financeira e política desde a década de 30’

71 ANOS DO ASSASSINATO DE LEON TROTSKY Dedicar a vida à construção do partido trotskista internacional do proletariado é a única homenagem justa a Lev Davinovich
OCUPAÇÃO DA ROCINHA - RJ

O que está

SUPLEMENTO:

Artigos do FolhA do trAbAlhAdor

por trás da militarização dos bairros proletários

USP
Por uma luta consequente contra a polícia e por uma universidade a serviço dos trabalhadores
O Bolchevique No6 - Novembro de 2011

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Carta ao Leitor Avançar na construção da imprensa leninista e proletária
Antes de mais nada, necessitamos de um jornal; sem ele não será possível realizar de maneira sistemática um trabalho de propaganda e agitação múltipla, baseada em sólidos princípios, que em geral constituem a tarefa principal e permanente da social-democracia” (Lenin, Por onde começar, 1901)

assinatura solidária de 24 números - 100 reais
Contacte-nos: liga_comunista@hotmail.com

O Bolchevique

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ultima edição dO Bolchevique foi impressa em junho. Neste intervalo de cinco meses nos dedicamos a criar um novo órgão publicitário de nossas idéias, o Folha do Trabalhador, um boletim para agitação operária de distribuição em massa. O reaquecimento da luta de classes este ano nos conduziu a criar uma publicação mais ágil para acompanhar as greves dos bancários, correios e judiciários federais, a greve geral dos estudantes da USP, a resistência da luta pela moradia nos bairros proletários contra os despejos ocasionados pela Copa do mundo de Futebol e, principalmente, as lutas proletárias da cidade de Guarulhos, onde abrimos um importante trabalho militante. Trata-se de um boletim feito por trabalhadores de vanguarda e avançados, principalmente para a agitação entre a juventude trabalhadora e os proletários médios, a fim de elevar o nível de compreensão política de nossa classe. A princípio, a Folha do Trabalhador aborda os problemas imediatos da agitação, crônicas do movimento operário, vinculando cada problema estreito e local às necessidades da luta de toda a classe trabalhadora pela revolução socialista. O jornal não tem preço de capa, mas será mantido através da contribuição voluntária dos próprios leitores, tanto do ponto de vista financeiro quanto em informes para a preparação dos artigos. Como se define em sua página inicial: “A Folha do Trabalhador é uma publicação impulsionada pela Liga Comunista, por trabalhadores e estudantes independentes dos patrões e dos governos patronais. A Folha do Trabalhador não é apartidária, está a serviço da construção do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, um instrumento de luta que ainda não existe e que é vital para a nossa vitória estratégica. Colabore conosco espontaneamente com o que puder”.

Embora reproduzamos aqui alguns artigos do Folha do Trabalhador, O Bolchevique se especializará em ser um órgão de propagada da LC, será inteiramente colorido, trazendo artigos mais analíticos, densos, de muitas idéias dirigidas a vanguarda combativa dos trabalhadores. Como nOs Bolcheviques anteriores, a questão Líbia, país que é o principal alvo da ofensiva neocolonizadora do momento, ocupa um espaço de destaque nesta sexta edição, com declarações do Comitê Antiimperialista, organismo de frente única do qual participamos desde o início das operações militares do imperialismo no país africano, e do Comitê de Ligação pela IV Internacional, agrupamento que a LC criou para aprofundar as relações político-programáticas com o Socialist Fight da Grã Bretanha. Enquanto a sexta edição dO Bolchevique não vinha a público, foram publicados 4 FdT e o nosso blog, nosso terceiro “organizador coletivo” continuou ativo, não contentando-se em acompanhar jornalisticamente os acontecimentos principais da luta de classes, mas sobretudo tirando lições necessárias para fazer nossa organização política avançar, conquistar militantes dedicados a hercúlea tarefa de construir o partido mundial da revolução socialista. Foi um passo atrás na publicação de nosso orgão de propaganda impresso para dar vida a um novo trabalho de agitação do qual o movimento operário é carente, tendo que se contentar com os boletins sindicais dos Sindicatos ou restritos às oposições que se dirigem quase que exclusivamente a uma categoria. A partir de agora O Bolchevique voltará a sua regularidade anterior com vistas a tornar-se mensal. Desejamos uma boa leitura aos ativistas que nos acompanham convidando-os a escrever para criticar-nos, aprimorar nossa imprensa e integrar-se a nossa luta.

O Bolchevique - Outubro de 2010

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À esquerda, as 4 edições do FdT. Acima, os 5 números dO Bolchevique e à direita, a primeira edição em inglês The Bolshevik

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Uma ruptura com o maoísmo em direção ao trotskismo
A Liga Comunista publica a carta de ruptura de Ernesto Lopes com a Liga Operária. O camarada é trabalhador de uma importante categoria de Guarulhos. Em um momento histórico de profunda desmoralização da vanguarda de esquerda entre a classe operária, a LC é brindada com esta adesão ao seu programa, reafirmando o acerto de nossa jovem corrente por reconstruir o trotskismo principista dentro do proletariado.
Carta de ruptura com a Liga Operária Aos companheiros da Liga Operária! Venho neste momento comunicar publicamente meu desligamento de toda atividade militante, bem como toda relação “formal” que me vincula à Liga Operária. Minha região de atuação politica nestes quase dois anos junto aos companheiros, foi entre os trabalhadores da cidade de Guarulhos. Fazendo uma avaliação de minha militância junto à Liga Operária, acredito que as divergências de caráter teórico-programático são gritantes, e ao longo do tempo estas divergências foram ganhando corpo e se tornaram enormes, por isso, não vejo mais motivo de estar dentro da organização. Tentarei esclarecer o mais breve possível os principais pontos onde discordo dos companheiros referente a questões teóricas: 1- CARACTERIZAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA Os companheiros caracterizam o Brasil como um país semifeudal pelo fato de se manterem no país relações totalmente arcaicas de produção como, por exemplo, o latifúndio, sem, no entanto, fazer uma análise mais aprofundada sobre o caráter da colonização brasileira. Assim ignoram o desenvolvimento desigual e combinado da formação socioeconômica de nossa sociedade, onde neste processo se mesclaram formas arcaicas de estruturação econômica como o escravismo, que há muito já tinha desaparecido na Europa, com uma colonização voltada para as exportações de matéria prima para o mercado capitalista que crescia internacionalmente. Portanto, a formação econômica e social do Brasil se deu no bojo do crescimento e internacionalização do capitalismo como sistema dominante, o que deixa claro que a colonização foi de caráter capitalista, onde a mão de obra escrava se interligava à uma produção mercantil, sendo ela mesma um dos itens mais comercializados na época. Além disso, a sociedade feudal se caracterizava por não produzir senão valores de uso, fato que não ocorreu com a colonização brasileira, onde os produtos agricolas eram exportados diretamente para o mercado europeu. Depois de várias transformações em sua economia, o Brasil permanece preso e totalmente submetido à divisão mundial do trabalho, onde sua “especialidade” se encontra nas exportações de commodities, fato que impulsionou principalmente com a globalização neoliberal, a penetração do capital financeiro no campo e sua aliança com a agro-indústria junto ao latifundio, aprofundando a dominação imperialista no campo brasileiro, promovendo desemprego massivo entre os trabalhadores rurais e consequente êxodo rumo às grandes cidades, aumentando ainda mais as fileiras do proletariado. Desta forma, como um pais pode ser semi-feudal, se a maioria esmagadora de sua população vive nas periferias das grandes cidades: segundo o censo do IBGE de 2010, 84% da população brasileira vive em áreas urbanas, enquanto a população rural é de 15%; o próprio IBGE em um estudo de 2009 sobre a composição do

CORRESPONDÊNCIA

A política de convivência pacífica com o imperialismo iniciada por Mao Tsé Tung pavimentou o caminho da restauração capitalista no Estado Operário chinês
PIB nacional, aponta que a Agropecuária teve uma participação de 6,1% nesta composição, enquanto outros setores como Serviços e Industria, tiveram uma participação muito maior, sendo 68,5% e 25,4% respectivamente cada, apesar do pais ser um dos maiores exportadores de produtos primários do mundo, números que refletem que 90% dos trabalhadores responsáveis pela quase totalidade da econômia do país está nas cidades e não mais no campo. O próprio setor ligado a produção de etanol passa por um processo de completa desnacionalização e concentração; segundo reportagem da revista “Caros Amigos” de número 172 deste ano, afirma que “hoje, o setor de etanol tem a participação de 22% do capital internacional...”, empresas imperialistas como a Shell por exemplo, vem adquirindo usinas nacionais e aprofundando ainda mais o controle do capital estrangeiro sobre o setor, mostrando a tendência cada vez mais crescente do aprofundamento da dominação capitalista no campo. Esta discussão é importante, poís a definição social e econômica de tal sociedade exige um determinado programa que norteará a estratégia politica dos revolucionários, podendo decidir a sorte de uma revolução como nos mostra a experiência russa de 1917. Assim tentarei demonstrar outro ponto de divergência teórica com os companheiros, que diz respeito ao caráter da revolução brasileira. 2 - REVOLUÇÃO DE NOVA DEMOCRACIA OU SOCIALISTA? Esta pergunta nos remete de volta a caracterização da sociedade brasileira, poís dessa forma se exigirá programas diferentes rumo a transformação da sociedade.
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como a análise cientifica da sociedade brasileira, nos mostra que o Brasil é um país semicolonial, com um capitalismo atrasado, desenvolvido tardiamente e totalmente condicionado pela burguesia imperialista, tendo como tarefa central para libertá-lo a revolução socialista. Naturalmente isso significa que as tarefas democráticas históricas como reforma agrária, independência nacional e etc., que as burguesias nacional por sua covardia frente a seus amos imperialistas foram incapazes de levar adiante, só podem ser resolvidos através da ditadura do proletariado apoiado no campesinato. É interessante notar, que não se trata apenas de um debate teórico subjetivo, trata-se de um programa real da emancipação da classe mais revolucionária que já existiu, o proletariado, e sua tarefa histórica de livrar todos os explorados do jugo da sociedade de classes. Neste contexto, um programa que tenta impor uma revisão descarada em parte da teoria marxista poderemos classificá-lo do que, além de revisionista? Por outro lado, esta politica de alianças com setores da burguesia “progressista” mostrou-se desastrosa para o proletariado em vários países, significando derrotas históricas que se reflete até os dias de hoje. Com toda sinceridade companheiros, acredito que a aplicação do método marxista para a questão da revolução brasileira, passa necessariamente pela aplicação da teoria da revolução permanente às particularidades nacionais, e da urgência extrema do partido bolchevique brasileiro como vanguarda consciente da classe. 3 - A QUESTÃO LIBIA E A GREVE DOS BOMBEIROS Em ultima análise, gostaria de terminar tocando levemente nestas duas questões citadas acima. Com relação à Líbia, a quase totalidade da esquerda brasileira manteve uma posição totalmente contrária ao marxismo apoiando descaradamente o golpe de estado bancado pela CIA e a OTAN que bombardeavam civis, esquecendo de que numa luta entre um estado imperialista contra um país oprimido, devemos estabelecer uma frente única com as forças de resistência militar do segundo, pois uma vitória imperialista significaria o fortalecimento deste para continuar saqueando os povos oprimidos pelo mundo e maior sobrevida do imperialismo decadente. Com relação à greve dos bombeiros a mesma posição revisionista prevalece na quase totalidade daqueles que reivindicam o marxismo, inclusive daqueles que não apoiaram o motim policial bombeiro, mas reivindicaram a sua reforma, através da desmilitarização desta corporação, quando o marxismo historicamente reivindica a destruição de todo aparato repressivo policial do estado burguês. Neste caso, significou uma capitulação barata aos repressores do povo trabalhador gerando grande deseducação politica entre as massas. Infelizmente, os companheiros compactuam com estas posições contrárias ao marxismo, significando um grande retrocesso politico e ideológico característico do momento histórico em que vivemos, onde se combina as condições objetivas para a revolução social e a crise de direção do proletariado. Depois de tudo que foi dito companheiros, gostaria de deixar claro que simpatizo e me identifico com as análises politicas dos companheiros da Liga Comunista, do qual me aproximei na condição de simpatizante, e que por outro lado, meu rompimento com os companheiros da Liga Operária é de caráter puramente politico, não tendo absolutamente nenhuma motivação pessoal. As mais sinceras saudações comunistas, Ernesto Lopes 19-08-2011

O jornal Nova Democracia defende o “Respeito a propriedade da burguesia nacional (média burguesia), na cidade e no campo” e dá garantias ao capital nacional contra a revolução socialista
Ao definir o Brasil como um país semifeudal, consequentemente os companheiros caem na velha cantilena menchevique de revolução por etapas enterrada pela história. Assim como os mencheviques em 17, defendem que na primeira etapa da revolução o proletariado esteja totalmente preso à burguesia nacional “progressista”, para só depois pensar no socialismo. De acordo com o caderno de teses da Liga Operária, no seu ponto que trata da estratégia revolucionária para o Brasil, em seu titulo já se percebe claramente a semelhança com o programa etapista menchevique, o titulo diz: “Construir o programa democrático [?] e estratégico dos trabalhadores”. Logo em seguida, no seu primeiro ponto, o programa revolucionário de Nova Democracia diz respeito não ao programa marxista da criação de um estado proletário, mas ao “Estabelecimento da República Popular do Brasil”, em uma ampla frente que inclui a burguesia dita “progressista” e logo em seguida no seu quinto ponto defende a seguinte posição antimarxista: “Respeitar e assegurar a propriedade da burguesia nacional (média burguesia), na cidade e no campo”. Ora, se continua havendo propriedade burguesa, continua havendo exploração e classe. Portanto, na ‘Nova Democracia’ continuariam havendo patrões tanto no campo quanto na cidade explorando trabalhadores. A função dos comunistas revolucionários não é assegurar a propriedade da burguesia, qualquer que seja ela, contra a luta dos trabalhadores; esta concepção da Liga Operária nega por completo a necessidade de uma revolução social para estabelecer a ditadura do proletariado em aliança com os camponeses pobres, assim como nega também o materialismo histórico, caindo num idealismo vulgar e sua falsa esperança de estabelecer uma colaboração de classes ‘progressista’. Ao contrário, junto com os grandes do marxismo, acredito que as condições objetivas para a revolução socialista só não estão maduras como já começam a apodrecer, que as forças produtivas da sociedade dentro dos marcos do capitalismo não só não se desenvolvem mais como já começam a retroceder se tornando forças destrutivas, que o capitalismo em sua fase imperialista mais do que nunca limitou as burguesias semicoloniais em seus sócios menores que comem de suas migalhas, tornandoos totalmente conservadores e contra revolucionários. Portanto, sem nenhuma pretensão teórica, tanto os dados

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CORRESPONDÊNCIA

Saudação internacionalista dos condutores do Socialist Fight e Grass Roots Left/Unite ao nascimento da Folha do Trabalhador

BALANÇO DO ATO POLÍTICO - SARAU PELA REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE

Comitê Antiimperialista realiza uma rica homenagem política e cultural ao aniversário da Revolução de Outubro

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O Grupo Socialist Fight (Luta Socialista, em português) envia suas mais calorosas saudações a Folha dos Trabalhadores. Sou Secretário Nacional da corrente sindical Grass Roots Left (Raízes de Esquerda) e motorista de ônibus de Londres. Cansados de ver todas as campanhas salariais nossas serem traídas pela burocracia sindical que vende as lutas dos condutores, nós formamos a Grass Roots Left após lançarmos a candidatura de base de Jerry Hicks a Secretaria Geral do Unite, o nosso Sindicato que é o maior na Grã-Bretanha, para combater essa burocracia a fim de proteger nossos salários, as condições de trabalho e o futuro de todos os trabalhadores. Estamos muito satisfeitos que uma organização semelhante a nossa está lutando no Brasil com os mesmos objetivos e princípios. Estamos confiantes de que podemos desenvolver nossas lutas em conjunto levando a cooperação internacional dos condutores e de todos os trabalhadores. Esta é uma parte vital e indispensável da luta pelo socialismo a nível internacional, o nosso principal objetivo e estamos confiantes que o alcançaremos. Fraternalmente, Gerry Downing Secretário Nacional do Grass Roots Left (a título pessoal)

Felicitações
Oi, eu vi e li a folha do trabalhador. Achei essa iniciativa muito importante, porque expressa a necessidade da LC em fazer diferente do que acabou acontecendo com o JLO, cujo o jornal já não tinha nenhuma função prática e sim informe publicitário de intelectualizado de “esquerda “. Para os companheiros é um passo muito importante, e para a construção de uma luta consistente e consciente. A FDT trazendo questões vividas pelos trabalhadores daqui e fazendo a ligação com a exploração imperialista é uma ponte onde se torna mais fácil pensar a realidade. É a ponte entre o programa mínimo e o programa máximo, como ensina o “Programa de transição”. Avante, camaradas! Patrícia Galvão, Rio de Janeiro, 19 de Setembro de 2011

o dia em que a Revolução Bolchevique completou seus 94 anos, o comitê Antiimperialista realizou um ato político no Espaço Cultural Latino Americano, localizado no tradiconal bairro operário do Bixiga, centro de São Paulo. Aos adereços combativos e revolucionários tradicionais daquela casa se somaram pôsteres e cartazes soviéticos contra o imperialismo, em defesa da URSS, contra a ofensiva nazista, a alienação religiosa, o estupro e o anti-tabagismo. Dando um ar militante a homenagem, na mesa da atividade estavam representados os agrupamentos que constroem o Comitê Antiimperialista: o NATE, a Liga Comunista, o Espaço Cultural Mané Garrincha e a Refundação Comunista. Os oradores de cada um dos grupos destacaram a importância do acontecimento para a história da humanidade, o avanço no pensamento e na criatividade humana que nos legou o processo que desembocou em outubro de 1917, a importância do partido bolchevique de Lenin e Trotsky para o sucesso da revolução e a degeneração stalinista. Também foi mencionada pelos oradores que a política stalinista de socialismo em um só país e convivência pacífica com o imperialismo preparou a ruína da URSS através da restauração capitalista o que conduziu a abertura de um período desfavorável na luta de classes para os trabalhadores. Sendo esta derrota ocorrida há 20 anos de grande influência na atual ofensiva militar imperialista (Iugoslávia, Afeganistão, Iraque, Palestina, Haiti, Líbano), cujo último crime foi a sanguinária tomada de Sirte pela OTAN (VER DECLARAÇÃO DO COMITÊ ANTIIMPERIALISTA: OTAN mata Kadafi e imperialismo bombardeia, lincha e executana Líbia). Também intervieram na parte política do evento ativistas de outros agrupamentos e sindicalistas combativos. Na parte cultural da homenagem, a atividade foi brindada com a declamação de poemas revolucionários aberta por ninguém menos que Liberto Solano Trindade, ex-sindicalista, sambista e filho de Solano Trindade (um dos maiores poetas do Brasil. Fundador do teatro negro no Brasil, fundador do Teatro Popular Brasileiro – TPB). Liberto nos brindou com a declamação de poesias de seu pai, ao que foi seguido por várias pessoas do plenário que também recitaram versos de Maiakovsky, Iessiênin e Carlos Drummond de Andrade. Em seguida, o Sarau continuou com duas atrações de primeira grandeza, o casal Graça da Terra, cantando Violeta Parra e música popular brasileira e o grupo Cravos da Madrugada, que nasceu em homenagem a Revolução Portuguesa, mas que participou da comemoração fazendo espetaculares interpretações de Geraldo Vandré, Zeca Afonso e Silvio Rodrigues e fazendo uma parceria com Liberto Solano Trindade. Por fim, o conjunto dos participantes da atividade cantou em coro a Internacional Socialista.

Mesa do ato-sarau com representantes do NATE, ECMG, LC e RC no dia 25 de outubro no ECLA
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“Diversão popular” nada, mais repressão contra os pobres e mais lucros para os ricos
do Folha do Trabalhador # 3, outubro de 2011

A MAFIOSA COPA DE DILMA, CBF E FIFA

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xplorando a paixão da população pelo futebol, está sendo montado um esquemão mafioso entre governos Dilma-Alckmin-Kassab, Fifa, multinacionais patrocinadores, cartolas, grande mídia, jogadores mercenários, CBF e empreiteiras que, há 3 anos da Copa, já vem rendendo super-lucros aos capitalistas. E, como todo enriquecimento da burguesia baseia-se no saque aos trabalhadores, desta vez não é diferente. De forma direta ou indireta, as massas são prejudicadas e assaltadas, seja pela especulação imobiliária, que elevou assombrosamente o valor dos aluguéis e imóveis, seja pelos despejos de dezenas de milhares de famílias pobres por causa das obras dos Megaeventos (Copa e Olimpíadas), seja pelo aumento dos custos de vida decorrentes. No primeiro caso, trata-se de um efeito agravante da crise financeira nas bolsas de valores. Os especuladores do mundo estão transferindo seu capital para o ouro e para os imóveis que no Brasil sofrem uma sobrevaloração devido também aos Megaeventos. Mas o esquemão está apenas começando e não por acaso setores da burguesia, acreditando que dirigir o Ministério dos Esportes em vésperas de Copa e Olimpíadas é muita areia para o caminhãozinho da quadrilha de Orlando Silva, trataram de escandalizar sua corrupção para tomar este Ministério da mão do PCdoB. Afinal, a Associação das Empreiteiras, a Abdib e a CBF já orçaram em R$ 112 bilhões o custo só com a Copa. SOB A DITADURA DA FIFA Neste processo o Brasil passará a ser controlado pela mafiosa multinacional Fifa que, sob a Lei Geral da Copa, ditará desde o preço de ingressos, vistos de entrada no país, para competidores e espectadores, tendo exclusividade no marketing e na transmissão dos eventos e até realizando a tipificação de novos crimes e novas varas para julgá-los. Trata-se de um verdadeiro Estado de exceção, ou seja, uma ditadura onde a população, além de

não poder assistir aos jogos pelo exorbitante preço dos ingressos, também perderá o direito de ir e vir. Tudo é justificado em nome de “agilizar as obras”, desde o fabuloso negócio da privatização dos aeroportos, que elevará o valor das passagens aéreas, até a flexibilização da lei de contratações para obras públicas, criando um “regime diferenciado” que esconde o valor dos orçamen-

tos e libera geral o superfaturamento das construções a fim de distribuir a rodo o dinheiro estatal para bancos e empreiteiras nacionais e multinacionais. Para obter super-lucros nos Megaeventos, os capitalistas impõem a super-exploração das massas. É esta escravidão que assassina operários nas obras da Copa e contra a qual os trabalhadores da construção civil do Maracanã (RJ) e do Mineirão (MG) se rebelaram em greve. Contra esta ditadura, os nossos irmãos negros sul africanos fizeram 32 greves em 2010. Logo, a Copa do mundo não é nossa, e sim mais uma jogada deles contra nós. Precisamos nos organizar, se não, nossos inimigos de classe ganharão de goleada. Fique atento camarada, enquanto te exploram, tu gritas gol. Por isto, a FdT defende a revelação imediata de toda a contabilidade, dos prazos e projetos da Copa, que o esporte seja estatal, gratuito, sob o controle dos trabalhadores e voltados para a diversão e o bem-estar dos mesmos! Abaixo os grandes capitalistas que exploram a paixão popular!

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A MAFIOSA COPA DE DILMA, CBF E FIFA

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Encontro organiza à resistência aos despejos e elege representantes por local de moradia na zona leste de São Paulo

ssim como os operários da construção civil do Maracanã e em Belo Horizonte, a população trabalhadora que tem sua moradia ameaçada pelas obras da Copa começa a se organizar. No dia 17 de setembro ocorreu na zona leste de São Paulo o Encontro das Comunidades pelo Direito a Moradia organizado pelo COMITÊ POPULAR ITAQUERA COPA PARA QUEM? e pelo MOVIMENTO NOSSA ITAQUERA. Participaram mais de 400 pessoas pertencentes às Comunidades da Caititu, Vila Progresso, Pacarana, Zorrilho, Três Cocos, Pedreira I, Vila da Paz, Miguel Ignacio Curi e Francisco Munhoz Filho. Cada uma das 9 comunidades participantes elegeu seus representantes por local de moradia. Uma das condições da população na preparação da atividade foi que nenhum pré-candidato às eleições do próximo ano tivesse direito a voz para fazer proselitismo com o movimento. Há uma clara prevenção das Comunidades para uma resistência coletiva aos despejos e contra todas as alternativas de remoção dos moradores da região para albergues, ou para bolsas aluguéis, em favor da especulação imobiliária patrocinada pelos governos Dilma, Alckmin e Kasab. A disposição da FIFA, multinacionais, empreiteiras e do mercado imobiliário, a prefeitura de Kassab e o governo tucano concederam R$ 478 milhões para as obras do estádio em Itaquera e outras vinculadas à Copa. O governador Alckmin contribuirá com R$ 70 milhões só para o aluguel de uma estrutura móvel de arquibancada para atingir o mínimo de lotação exigido pela Fifa. Só na região, 16 favelas, 5 mil famílias podem ser atingidas pelos despejos motivados pelas obras da Copa, da Radial Leste e do Parque Linear.

Plenário do Encontro das Comunidades em Defesa da Moradia

“Vai ser bom para os ricos e os pobres que se lasquem”
Abaixo, o Folha do Trabalhador reproduz uma uma pequena entrevista realizada com quatro delegados eleitos representantes da Comunidade do Caititu no Encontro. Os delegados são um casal de professores, uma dona de casa e uma técnica em enfermagem. Para preservar os companheiros nesta verdadeira guerra contra dos ricos contra os pobres, o FdT publica a entrevista sem revelar o nome dos mesmos. FdT: Qual a importância do Encontro? R: O Encontro foi importante para o processo de mobilização, para resistir aos despejos, para nos organizar. E caso haja remoções, se elas forem inevitáveis, que se dê moradia digna para a gente viver. FdT: O que vocês acham da Copa e do Itaquerão? R: Não somos conta a Copa ou contra o Estádio [o Itaquerão], mas do que adianta trazer beleza para nossa cidade,... o que a gente vai ganhar se para construirem um Estádio vão tirar nossa casa? FdT: Quantas famílias vão ser atingidas na Comunidade de vocês? R: Só na beira do Rio podem ser despejadas 2 mil famílias. Esta Copa vai ser boa para os ricos e os pobres que se lasquem. FdT: Como estão pensando em resistir? R: É preciso unir os moradores para resistir aos ataques do poder público e privado, fazer manifestações. Não queremos albergues ou bolsa-aluguel, queremos moradias dignas iguais ou melhores do que as que temos e na própria região onde vivemos.
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O QUE APRENDEMOS COM AS GREVES DE CORREIOS E BANCÁRIOS

Ditadura do Capital e peleguismo: Dilma, banqueiros e burocracia sindical unidos contra as greves

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Centenas de trabalhadores revoltados contra o governo do PT de Dilma e o TST, que determinou o fim da greve dos carteiros queimam a bandeira do PT
prendemos com as derrotas de ontem para vencer amanhã. As greves dos trabalhadores dos correios e dos bancos foram derrotadas pelo governo e pelos banqueiros, patrões destas categorias. continuaram em greve. Os trabalhadores resistiram heróica e bravamente a todos os ataques desferidos pelo governo, banqueiros e burocratas contra sua luta. Mas, apesar de toda esta resistência heróica, e da busca desesperada dos trabalhadores por uma alternativa política para superar os golpes dos pelegos governistas, as burocracias sindicais anãs da CSP-Conlutas (PSTU) e Intersindical (PSOL) mostraram que não passam de auxiliares na traição, sugerindo a divisão das assembléias por banco, apoiando os acordos criminosos da burocracia maior com o governo e comemorando em conjunto com os pelegos a nossa derrota. DILMA, DITADORA DO CAPITAL CONTRA TRABALHADORES Fica claro que o “direito” de greve, na prática, não existe e as greves são proibidas pelos órgãos da “justiça burguesa” como o Tribunal Superior do Trabalho (TST). Hoje, o que foi assegurado no artigo 9º da lei nº 7.783/89 na Constituição Federal não passa um mecanismo formal para domesticar o movimento sindical brasileiro e retirar-lhe sua autonomia. Na prática, quando os trabalhadores se levantam em defesa de melhores condições de vida, é letra morta, mostrando que a “democracia” no capitalismo é o direito dos ricos super-explorarem os operários, portanto, uma ditadura do capital sobre o povo pobre. Isso ficou patente nesta greve onde o governo Dilma através do TST interveio atacando os trabalhadores com total cumplicidade das centrais, federações e sindicatos burocratizados. 28 DIAS NOS CORREIOS Esta categoria é composta por 110 mil trabalhadores braçais do serviço público que recebem como salário base 807 reais. Depois de 28 dias de greve -- a maior dos últimos 15 anos -- e com adesão de mais de 70% da categoria, a burocracia sindical da Federação Nacional dos Trabalhado-

As duas fortes greves contaram com a participação de 80% de adesão dos trabalhadores (nos bancos públicos, no caso do bancários). Foram greves nacionais e houveram importantes marchas coletivas destas categorias que vem enriquecendo suas experiências políticas ao lutarem todos os anos contra os governos do PT. O governo de Dilma e os burocratas dos sindicatos de tudo fizeram para liquidar o movimento. O Banco do Brasil impetrou um “interdito proibitório” (instrumento jurídico para forçar os bancários a voltar ao trabalho) antes mesmo do primeiro dia de greve. Mas isto não intimidou aos bancários que sabiam que o BB havia lucrado às suas custas R$6 bilhões só no primeiro semestre de 2011. Em seguida foram ameaçados de descomissionamento e corte dos dias parados, mas isto só fortaleceu a greve bancária. Nos correios, os trabalhadores derrotaram o golpe do Comando de Negociações da Fentect que no dia 04/10 fechou acordo criminoso com a Justiça, que abria mão dos dias parados. Apesar da Fentect orientar a aprovação da proposta nas assembléias do dia seguinte, todas as assembléias dos 35 sindicatos que compõem a Federação rejeitaram o acordo. O acordo também previa um reajuste miserável, desconto dos dias parados e banco de horas. Os trabalhadores continuaram a greve porque também sabiam que com sua derrota passaria a privatização da ECT. Em seguida, a Ministra do Planejamento, Miriam Belchior, ameaçou cortar os dias parados da mesma forma como Lula fazia: “O presidente Lula já dizia, greve não é férias”. O governo do PT tornou-se claramente inimigo do direito dos trabalhadores a fazerem greve. Mas os bancários e carteiros não se intimidaram e

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res em Empresas de Correios e Telégrafos, FENTECT, controlada por PT, PC do B, PSTU e PSOL, compactuou com a proposta miserável da direção dos Correios e do TST de reajuste de 6,87%, aumento linear de R$ 80, desconto de sete dias parados e compensação dos outros 21 aos sábados e domingos, com o valor da hora de trabalho equivalente a da semana, sem receber as porcentagens acrescidas às horas, por ser fim de semana como manda a lei. Nem se discutiu a revogação da MP 532 que impulsiona a privatização da empresa, que era justamente uma das principais pautas dos trabalhadores, significando uma derrota da categoria não pela falta de combatividade, mas pela política traidora e conciliatória da burocracia da FENTECT. Apesar de julgar que a greve não era abusiva, o TST interveio atacando o direito dos ecetistas. O presidente do TST estipulou multa diária de R$ 50 mil sobre a FENTECT caso continuasse a greve, significando que, ao contrário do que diz os apologistas do governo petista, não existe nem sombra de governo progressista, o que temos é sim um governo totalmente comprometido com os interesses do grande capital imperialista de olho na privatização dos Correios que significará um dos maiores saques à nação em todos os tempos. 21 DIAS DOS BANCÁRIOS No Brasil existem 484 mil bancários que realizaram a maior greve dos últimos 20 anos, fechando 9.254 agências em todo o país. A greve foi encerrada após 21 dias de paralisação, por obra da política traidora dos burocratas do CONTRAF/CUT, onde apesar de grande mobilização dos trabalhadores, a burocracia traidora aceitou um acordo miserável de 9 %, abaixo até mesmo da já ultra rebaixada pauta inicial de 12,8 %, significando um “aumento real” de 1,5 %. Uma vergonha! Insultante se compararmos este índice miserável aos estratosféricos lucros dos banqueiros da CEF e do BB; Só no 1º semestre de 2011, os sete maiores bancos do país lucraram R$ 26 bilhões, graças as políticas pró-banqueiro do governo entreguista de Dilma, através das taxas de juros mais altas do planeta e das péssimas condições de trabalho dos bancários; alto índice de denúncias contra o assédio moral, diminuição no número de agências, significando acumulo de funções aos funcionários e super-exploração, além do grande arrocho salarial que sofre a categoria, onde em alguns bancos as perdas salariais chegam aos absurdos 100%. Mas tudo isto ainda vai piorar, assim como os carteiros, os bancários terão que “compensar” os dias parados até 15 de dezembro, com 2h de trabalho a mais por dia, medida que contribui para aumentar o já insuportável assédio moral nos bancos. OS PELEGOS, ESPINHA DORSAL DA DOMINAÇÃO CAPITALISTA O maior saldo destas duas greves para as categorias foi o desgaste político sofrido pelo governo, pelo PT e PCdoB e seus auxiliares sindicais do PSOL e PSTU, por um lado, e pelas passeatas unificadas intersindicais por outro, o que abre a perspectiva futura de assembléias comuns contra o governo que é o patrão da CEF, BB e ECT. Por sua vez, como de costume, os burocratas sindicais da FENTECT (PT, PC do B, PSTU e PSOL) e da CONTRAF/ CUT, serão premiados com cargos e verbas na direção das empresas estatais e fundos de pensão. Em ambas categorias, as comissões de negociação não votadas pelas bases realizaram uma ação de sabotagem articulada com a arqui-reacionária justiça burguesa, patrões e governo, decretando burocraticamente o fim das greves antes sequer da consulta aos bases nas assembléias.

Ato unificado dos carteiros e bancários no dia 30 de setembro em São Paulo
No FdT#2 alertamos “Greve vitoriosa começa com organização de base radicalizada para derrotar as manobras da burocracia sindical testa-de-ferro de Dilma e dos banqueiros!”. A greve foi derrotada exatamente pelas manobras das burocracias completamente livres do controle de suas bases e contra as mesmas. Fica claro que a burocracia sindical, independente de qualquer categoria profissional, é agente dos patrões e do governo infiltrada em nossas lutas para derrotá-las e precisa ser expulsa como fura-greves e sabotadora inimiga da vitória de nosso movimento pela organização democrática e de base dos trabalhadores. Nos últimos meses, devido a degradação crescente do nível de vida das massas exploradas, vêm crescendo a quantidade de greves no país, porém, os burocratas são sempre capazes de desviar as revoltas para a via morta da conciliação de classes, resultando na derrota completa inclusive da luta imediata e econômica, como ocorre em outros países como Grécia, Portugal, Inglaterra e etc., onde apesar das diversas greves gerais e manifestações espontâneas das massas, a burocracia consegue manobrar no sentido de manter intacto a sociedade burguesa pela falta de uma direção revolucionária proletária. O QUE FAZER? Assim, a lição que a classe operária deve tirar disso tudo, é que é preciso logo no primeiro momento radicalizar as greves e ocupar com a greve o local de trabalho. Alguns dirão que estas medidas não fazem parte da cultura dos trabalhadores brasileiros. Terão que passar a fazer, do contrário se arruinará a única classe progressista e capaz de tranformar esta miséria em que vivemos em uma vida digna e justa. Também não é verdade que os trabalhadores de nosso país sempre foram cordeirinhos bobos e alegres, tivemos centenas de lutas heróicas em nossa história como Canudos, Palmares, a revolta dos marinheiros e esta luta dos carteiros e bancários foi um exemplo de luta e resistência tenaz. A libertação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores, isto implica na necessária organização independente de nossa classe frente aos patrões, seu Estado, seus partidos e seus agentes em nosso meio que são os burocratas sindicais. Para conquistar esta independência é urgente construir um partido revolucionário dos trabalhadores, como foi o Partido Bolchevique da Rússia, para organizar uma revolução socialista no Brasil, tomar o poder das mãos dos exploradores, como primeiro passo para a construção de uma nova sociedade, voltada para as satisfações das necessidades humanas.
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REPRESSÃO AOS CAMELÔS EM SÃO PAULO

Kassab aprofunda política repressiva contra o direito ao trabalho dos ambulantes em favor de uma reurbanização mais lucrativa para o grande capital

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omo vem fazendo desde que assumiu a prefeitura de São Paulo em 2006, Gilberto Kassab aprofunda ainda mais sua política de segregação e perseguição contra o direito ao trabalho dos camelôs e de toda a população trabalhadora, impondo um verdadeiro Estado de Sítio à serviço do capital. O prefeito da cidade de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), desde que assumiu a gerência municipal em 2006, na época pertencente ao falido partido burguês Democratas (DEM), vem perseguindo implacavelmente os trabalhadores ambulantes através de um conjunto de políticas cada vez mais repressivas e de clara higienização social. Da mesma forma como reprime constantemente os camelôs da rua 25 de Março – maior centro de comércio popular da América Latina – Kassab vem impedindo agora que os camelôs dos arredores da “Feirinha da Madrugada” do Brás, região central de São Paulo, trabalhem, utilizando contra os ambulantes a animalesca tropa de choque da PM à serviço das grandes redes logistas. A desculpa utilizada pela prefeitura, e amplamente difundida pelo monopólio da comunicação burguesa contra os trabalhadores, é o surrado discurso do combate à pirataria e ao comércio de mercadorias “ilegais”, o que pela lógica, obrigaria a atuação repressiva também contra a loja de luxo da burguesia Daslu, onde segundo denúncias do site de noticias Terra, a loja teria sonegado US$ 10 milhões de dinheiro público, ficando totalmente impune e permanecendo com suas atividades criminosas. http://noticias.terra.com.br/ brasil/interna/0,,OI590097-EI306,00.html Kassab vem impondo sobre toda a população trabalhadora do município um verdadeiro Estado de Exceção, militarizando a administração pública municipal, onde atualmente todas as sub-prefeituras estão sendo gerenciadas por coronéis da polícia militar. Além disso, também aplicou a lei “Cidade Limpa”, que na prática favorece às grandes redes comerciais, bancos e etc., implementou sob o pretexto de combate ao comercio ilegal a “Operação Delegada”, que através de convênio com a PM institucionaliza o “bico” dos policiais militares e azeitando as engrenagens repressivas contra os trabalhadores ambulantes. Além disto, todo mundo sabe que a maior parte da “mercadoria ilegal” apreendida vai ser depois repartida entre os mafiosos agentes do aparato repressivo. Trata-se de um assalto a mão armada, legalizado pelo Estado capitalista, agente dos grandes empresários, realizado covardemente contra trabalhadores desempregados que perderam inclusive o direito de serem “legalmente” escravizados. O fascistinha Kassab também sancionou a “Lei do Pedestre”, para lançar sobre os motoristas toda a culpa pelo caos do trânsito na cidade, favorecendo a indústria das multas, reprimiu violentamente as manifestações de estudantes que no início do ano protestavam contra o aumento abusivo das passagens de ônibus, persegue diariamente moradores de rua utilizando carros-pipa para impedi-los de dormir durante a noite em locais públicos, além de reprimi-los com a famigerada Guarda Civil Municipal (GCM) e tomou muitas outras medidas antipopulares de caráter ditatorial, visando manter os trabalhadores sob vigilância do Estado burguês,

políticas típicas de ditaduras militares protegendo os lucros da burguesia. OS CAMELÔS RESISTEM BRAVAMENTE CONTRA A REPRESSÃO DA PM E DA GCM Desde o dia 24 de outubro, os trabalhadores ambulantes das imediações da Feirinha da Madrugada resistem bravamente. Em defesa de seus trabalhos, os camelôs organizaram durante uma semana, na região central de São Paulo, grandes manifestações contra a política ditatorial de Kassab, sendo reprimidos violentamente pela tropa de choque de Alckmin (PSDB) através de bombas de efeito moral e cassetetes, da mesma forma como nesta semana fez na USP, espancando e prendendo arbitrariamente estudantes e funcionários. É importante destacar que tamanha repressão e truculência contra os trabalhadores da região do Brás por parte da prefeitura tem o objetivo claro de expulsar a população trabalhadora de uma região super-valorizada pela especulação imobiliária, para a qual existem megaprojetos de construção de shoppings e hotéis de luxo, que formarão o chamado “Circuito das Compras”. Para isso, as polícias de Kassab e Alckmin vem tentando dividir ao máximo o movimento, colocando os trabalhadores legalizados contra o conjunto dos camelôs e fragmentando a resistência dos trabalhadores, a fim de fazer uma reestruturação mais lucrativa do centro da cidade para o grande capital. É necessário que os camelôs intensifiquem os protestos, gerando uma crise política no governo Kassab, como único meio para que os trabalhadores continuem defendendo seu “ganha-pão”, direito cada vez mais negado pela burguesia e seus capachos do naipe de Kassab e CIA, assim como é importante também neste momento a solidariedade de toda a classe operária à heróica luta dos camelôs em defesa de sua sobrevivência.

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este momento, a luta dos estudantes da USP é o conflito de maior dimensão da conjuntura nacional e o que mais polariza as opiniões nos locais de trabalho. É também a melhor expressão no Brasil da onda de descontentamento da juventude com a nova ofensiva burguesa gerada a partir das crises capitalistas. Não por acaso, toda a burguesia e sua imprensa venal tratam de demonizar o movimento que heroicamente resiste a investida fascista de militarização da principal universidade do país pelo governo tucano de Alckmin e seu interventor na USP, o Reitor João Grandino Rodas. Mas, enquanto a greve geral estudantil amplia-se e ganha solidariedade nacional, DCE e ADUSP articulam uma conciliação com o interventor Rodas. Dois dias depois do fatídico 08 de novembro, quando os estudantes responderam em massa, com uma assembléia de duas mil pessoas, à invasão da USP pela tropa de choque da PM com helicópteros e cavalaria que prendeu 72 estudantes, foi realizada uma manifestação pelo centro de São Paulo com 5 mil pessoas que ganhou a solidariedade de pessoas que passavam nas ruas, dos sem teto que ocupam vários prédios ociosos, de secundaristas que reivindicam o direito de cursar o ensino superior sem o funil do vestibular. Em seguida, foi realizado um ato político e, à noite, uma nova assembléia na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco. PSOL E PSTU ESTÃO CONTRA A AÇÃO DIRETA DOS ESTUDANTES E A FAVOR DA CONCILIAÇÃO COM O INTERVENTOR E DE UMA REPRESSÃO ALTERNATIVA Já durante o ato, Plínio de Arruda Sampaio, que foi o candidato a presidente pelo PSOL nas eleições de 2010, que supostamente foi prestar solidariedade a nossa luta na USP, condenou a mais corajosa medida dos estudantes contra o acordo Rodas-PM, a ocupação da Reitoria, ação direta que divide águas entre os que lutam decididamente pelo Fora PM e Fora Rodas e os que buscam um acordo com Rodas pela instalação de um sistema de repressão menos ostensivo, uma repressão alternativa. Não por acaso o slogan do DCE é “Segurança SIM, PM não!”. Plínio disse: “Eu acho que os caras lá que fizeram a invasão poderiam ter tido outra forma de protestar pra não criar problemas”, pelo quê foi repudiado e vaiado por manifestantes em cima e em baixo do carro de som e aplaudido pelo representante do DCE. Com esta declaração, Plínio deu continuidade à política de seu partido que dirige o DCE e CAs, os quais, juntamente como o PSTU, manobram e burocratizam as assembléias para isolar os setores mais combativos do movimento, da mesma forma como a raivosa imprensa burguesa demoniza o conjunto de nossa luta e sobretudo a ocupação da Reitoria. A ADUSP e o DCE se opõem a uma das consignas principais da greve geral, o “Fora Rodas!”. Desde o primeiro confronto, quando foram presos três estudantes acusados de fumar maconha no campus, estas duas entidades se colocaram contra o movimento, inclusive fazendo um cordão de isolamento contra os manifestantes para ajudar a PM a levar os jovens presos para a delegacia. Assim como Plínio de Arruda expressou o alinhamento do PSOL com todos aqueles que tratam de isolar a ação direta estudantil, Rui Braga, militante do PSTU, também tratou, através da Folha de São Paulo, de atacar a ocupação da Reitoria, como um erro, e minimizar a repressão do Rodas, colocando um sinal de igual entre o movimento e a repressão, dizendo “foi um erro combatido por outro”.

Nenhuma trégua ao interventor Rodas, nem a Alckmin nem a PM!

USP

Assembléia na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco no dia 10 de novembro e FdT ESPECIAL USP conseguiu controlar a mesa diretora dos trabalhos e aprovar uma audiência pública com o interventor tirano que mandou torturar e prender estudantes, desmoralizando e descaracterizando a luta pelo “Fora Rodas!”. Os estudantes combativos e o comando de greve não podem se contentar em fazer uma política de pressão sobre o DCE, os CAs, o PSOL e o PSTU, como tem feito vários grupos de oposição ao DCE que em nome da unidade alimentam ilusões nesta direção como a LER-QI, que na Assembléia da quinta-feira dia 10/11 distribuiu um panfleto em que fazia o seguinte apelo choroso: “O PSOL E O PSTU DEVEM REVER SUA POLÍTICA E APONTAR PARA O TRIUNFO DO MOVIMENTO”. Precisamos combater esta direção traidora e conciliadora, pois ela seguramente nos conduzirá à derrota, como já vemos no desvio da luta para uma audiência com o reitor. O comando de greve, eleito com representatividade nos cursos em greve, deve dirigir as assembléias, e não permitir que o DCE o faça. É preciso que os estudantes grevistas participem em massa desta “audiência pública” com toda sua indignação, estando bem alerta para repudiar qualquer tentativa de reconciliação entre o DCE e a ADUSP e Rodas. “ACABOU O AMOR, ISTO AQUI VAI VIRAR UM INFERNO!” Não está posta, neste patamar que chegou nossa luta, nenhuma possibilidade de dialogarmos com o interventor. Ainda que Rodas tivesse sido eleito democraticamente, e este não é o caso, qualquer chance de diálogo teria se extinguido quando ele invocou o braço armado da repressão estatal sobre nossas cabeças. O movimento estudantil não pode mais aceitar este tirano facínora na direção da USP que, a mando do governo do Estado e em conluio com ele, faz o dia-a-dia na Universidade semelhante aos anos de chumbo da ditadura militar. Não queremos fazer acordo nenhum com Rodas. Nosso grito é Fora Rodas! Por uma Universidade pública à serviço da classe trabalhadora, e controlada pelos que nela estudam e trabalham. Nossa reivindicação é que seja destruída toda a estrutura arcaica e feudal de poder que atualmente existe na USP e engessa o livre desenvolvimento do saber dentro da Universidade e a mantém refém de um projeto elitista, cujo fim é a formação de quadros burgueses e pequeno-burgueses para servir aos interesses do capital, ou, em outras palavras, a “educação” de filhinhos-de-papai devidamente filtrados pelo vestibular. São eles que querem uma USP militarizada e reservada para mimados. Que se constitua na USP uma outra forma de administração, um governo da Comunidade Universitária composto por estudantes, trabalhadores e professores, e com maioria estudantil. Que o vestibular seja extinto, e os filhos dos trabalhadores tenham pleno acesso ao ensino superior público, gratuito e de qualidade. RETIFICAÇÃO DE NOSSA POSIÇÃO SOBRE A USP ADOTADA NO BOLCHEVIQUE #5

O DCE, que desde o princípio foi contra o movimento, controla as assembleias usando a velha tática de encabeçar o movimento para desviá-lo para a conciliação. Por exemplo, na assembléia do dia 10, foram aprovadas bandeiras importantes como “Fora PM de toda a Sociedade”, mas o DCE tratou de alterar o que foi aprovado para registrar em ata como se pode ver no site do DCE “Fora a PM violenta de toda a sociedade” falseando a posição política adotada pelos estudantes porque é contra a bandeira do fim da PM, e induzindo ao pensamento de que pode haver uma polícia não violenta – afinal o PSOL defende a ocupação dos morros pela polícia e a instauração de UPPs em todos os morros cariocas, como reivindica policialescamente o deputado psolista Marcelo Freixo. O DCE e os CAs tentaram a todo custo evitar as ocupações da FFLCH, mas não conseguiram, depois foram contra a ocupação da Reitoria suspendendo uma assembleia no meio para que esta deliberação não fosse aprovada, mas não conseguiram novamente. Mesmo depois da invasão da Reitoria pela tropa de choque e da prisão de quase uma centena de lutadores, se opuseram à deflagração da greve geral estudantil no dia 08, mas perderam a votação na maior assembleia da USP nos últimos tempos. Todavia, na última assembleia, do dia 10, na Faculdade de Direito, o DCE

No momento em que, aproveitando-se da morte do estudante Felipe Ramos Paiva, iniciava-se uma nova ofensiva militar de Rodas e Alckmin na USP, a LC defendeu nO Bolchevique #5 a consigna “Fora PM do Campus!”, a qual agora avaliamos ser incompleta e não corresponder ao nosso programa, pois o correto é reivindicarmos não apenas a expulsão da PM da USP, mas a completa extinção do conjunto do aparato repressivo capitalista, o braço armado da burguesia contra os trabalhadores e, no caso, contra a resistência operária e estudantil à privatização da Universidade.

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OCUPAÇÃO DA ROCINHA - RJ

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O que está por trás da militarização dos bairros proletários

o último dia 13/11,mais de 4 mil militares, entre policiais do BOPE, policiais civis, bombeiros, fuzileiros navais, policia rodoviária federal, batalhão de choque ,Caveirão, tanques blindados da Marinha, helicópteros e etc., montaram uma verdadeira operação de guerra a fim de invadir mais uma favela carioca para a instalação outra UPP (Unidade de Policia Pacificadora) de Sergio Cabral (PMDB) e Dilma (PT).A bola da vez agora são Rocinha, maior favela da América Latina com 120 mil habitantes, Vidigal e Chácara do Céu, através da falsa desculpa do combate ao tráfico de drogas. Como em outras ocupações militares, os moradores dessas comunidades sofrem com as flagrantes violações de seus direitos democráticos elementares como ir e vir; crianças, mulheres e idosos são constrangidos constantemente através das abordagens truculentas dos soldados e mais um conjunto de medidas totalmente repressivas vêm sendo utilizadas contra a comunidade pobre como, por exemplo, a proibição de ouvir som alto, toques de recolher e etc., medidas características de ditaduras militares. A SERVIÇO DE QUEM? Com a aproximação da copa do mundo e das olimpíadas, as grandes corporações capitalistas nacionais e estrangeiras, desde a especulação imobiliária até a indústria bélica, veem grandes possibilidades de lucro através de negociatas que resultarão em maior repressão às comunidades pobres, seguida de despejos e higienização social como vem ocorrendo pelo Brasil afora. A prova disso é que nem bem a Rocinha havia sido ocupada pelos verdugos de farda, e já se projeta uma valorização de até 100% nos imóveis da região, o que faz com que a burguesia intensifique ainda mais sua política contra os pobres, através do aprofundamento de medidas de caráter cada vez mais segregacionistas, expulsando os cidadãos pobres para as regiões mais distantes dos grandes centros, tornando as áreas dominadas pela especulação imobiliária completamente elitizadas. Outro setor da burguesia que também vem lucrando muito com a política anti povo de Sergio Cabral, é a indústria bélica. Segundo informa o site do Instituto Brasilano di Scienze Criminali Giovanni Falcone, (http/ibgf.org.br/index.php?/matéria=173) a indústria de armas no Brasil fatura em média U$$ 290 bilhões anuais, sendo que boa parte dessas cifras astronômicas são decorrentes de contratos com governos estaduais, municipais e etc., que vem aplicando, à serviço da burguesia e do imperialismo decadente, políticas de guerra contra a população pobre e trabalhadora, visando dessa forma desvalorizar ainda mais a força de trabalho de nossa classe e aquecer a economia capitalista em crise, que se torna em sua fase imperialista cada vez mais dependente de todo tipo de guerra contra os povos, desenvolvendo forças destrutivas em detrimento das necessidades humanas, e mostrando a verdadeira face do sistema capitalista. Isto explica os altíssimos gastos com segurança pública do governo Sergio Cabral: enquanto os trabalhadores sofrem com um péssimo serviço de saúde pública, o governo prioriza os gastos que envolvem diretamente a repressão: para a saúde foram gastos R$ 4,2 bilhões enquanto segurança pública, R$ 4,9. COMBATE ÀS DROGAS ? Por outro lado, é importante que se diga que a polícia não

Trabalhadores, crianças, mulheres e idosos são intimidados pelos soldados da “pacificação”
está no morro para combater o tráfico como nos é vendido falsamente pela mídia burguesa. O próprio traficante “Nem”, preso durante as ocupações, declarou recentemente que metade do lucro obtido com a venda da droga no Rio vai parar diretamente nas mãos dos policiais, que são clientes direto do tráfico varejista. Segundo pesquisas recentes, a droga está entre os itens mais comercializados do mundo, ficando atrás apenas do petróleo e das armas, e de acordo com estes estudos, os grandes bancos, como por exemplo o Santander, são imensos “lavadores” de dinheiro do tráfico internacional que movimenta bilhões. Portanto, o comércio de drogas tem como seus principais impulsionadores os grandes magnatas do capital, bandidos de “colarinho branco”, que se utilizam das políticas repressivas de seus lambe botas como Sergio Cabral e Dilma, para rebaixar ainda mais as condições de vida das massas trabalhadoras e favorecer seus lucros às custas do sangue da população pobre que sofre no seu dia-a-dia a mais cruel covardia por parte dos agentes da repressão, que não são mais que assassinos fardados à serviço do Estado burguês, ressaltando que, não por acaso, a polícia do Rio de Janeiro é uma das mais violentas do mundo. POR COMITÊS POPULARES DE AUTO-DEFESA Com a crise do capital, combinada com a preparação e realização de megaeventos esportivos no país, a burguesia aprofunda ainda mais os ataques contra a população trabalhadora, seja através de cortes orçamentários em áreas sociais, como os R$60 bilhões que já foram desviados por Dilma até agora à serviço do grande capital, ou através das políticas assassinas de invasões das comunidades pobres como vem ocorrendo agora no Rio, feito este que nem sequer a ditadura militar conseguiu realizar. Desta forma, a única alternativa que resta aos trabalhadores destas comunidades, é a criação de organizações por locais de moradia para resistir às políticas ditatoriais dos governos burgueses. Como recentemente noticiou A Folha do Trabalhador nº3, em artigo reproduzido nesta edição dO Bolchevique, na zona leste de São Paulo, os moradores vem se organizando em comitês em defesa da moradia. Nós da Liga Comunista, acreditamos que estes comitês precisam se transformar em comitês de auto-defesa, como único meio de derrotar as políticas de caráter semifascista de Cabral e Dilma a favor do imperialismo.

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ESPECIAL 11/09/2001-2011 - 1/3

O SIGNIFICADO DOS ATAQUES AOS EUA, OS DEZ ANOS DA NOVA CRUZADA IMPERIAL E A LUTA ANTIIMPERIALISTA HOJE

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ranscorrida uma década dos atentados do 11 de setembro, toda a mídia mundial trata de dar um destaque especial aos acontecimentos. Fizemos o nosso balanço dos mesmos na contramão da opinião pública fabricada nas grandes redes de notícias burguesas, acreditando que o marxismo revolucionário tem muito mais a dizer sobre este episódio que abriu o século XXI. O 11/09 COMO EXPRESSÃO DA REAÇÃO DOS OPRIMIDOS APÓS DUAS DÉCADAS DE OFENSIVAS HISTÓRICAS DO IMPERIALISMO Nas duas últimas décadas do século passado as potencias imperialistas EUA, com Reagan, e Grã Bretanha, com Tatcher, tomaram a iniciativa de desatar uma nova ofensiva anti-operária mundial. Esta ofensiva combinou duros ataques ao próprio proletariado1, com o incremento da corrida armamentista contra a URSS através da Guerra no Afeganistão2 e um massivo bombardeio ideológico anticomunista com a política de reação democrática. Toda esta escalada logrou um enorme salto de qualidade com a contra-revolução na URSS e no Leste Europeu, uma derrota histórica para o proletariado e todos os povos oprimidos que alavancou a restauração do capitalismo naquelas nações e a privatização, precarização e aprofundamento da pilhagem nas demais nações do globo. Foi justamente em meio e devido a esta ofensiva, apelidada de globalização neoliberal, e das guerras sanguinárias nos Bálcãs e no Golfo Pérsico que a história pregou uma peça ao imperialismo, fabricando as condições para o maior ataque já sofrido pelos EUA em seu território continental.3 A “guerra ao terror” em nome do revanchismo aos ataques sofridos pelos EUA representa uma terceira onda desta ofensiva, marcando a primeira década do século. A crise econômica de 2008 e a crise iniciada em 2011 marcariam a quarta onda desta ofensiva sem que tenha ocorrido nas últimas três décadas uma alteração qualitativa na correlação de forças entre as classes favorável à luta do proletariado. Em 1979, no Irã e na Nicarágua, foram as últimas vezes que as massas tomaram o poder e modificaram o regime político contra os interesses colonialistas, sem, no entanto, terem avançado para o estabelecimento de um governo próprio, porque tiveram seus cursos

confiscados pelas direções fundamentalista e frente populista, respectivamente. Foi exatamente para impedir que insurreições populares pudessem gerar novos Vietnams (vitorioso sobre os EUA em 1975) que os governos conservadores de Reagan e Tacher trataram de retomar a ofensiva. NÃO FORAM MEROS ATOS ISOLADOS DE VIOLÊNCIA COMETIDOS POR INDIVÍDUOS FRUSTRADOS, FOI UMA AÇÃO PLANEJADA E CONDUZIDA POR UM PLANO ORGANIZADO Segundo o livro “Plano de Ataque” de Ivan Santana, o 11 de setembro de 2001 começou a ser planejado em 1993, depois de um atentado contra a sede da CIA em Nova Iorque, localizada no mesmo WTC. Oito anos depois, no 2º ataque ao WTC, os 19 homens da rede Al-Qaeda sequestraram quatro aviões para jogá-los contra prédios que simbolizavam o poder norte-americano. Duas das aeronaves atingiram as Torres Gêmeas do complexo World Trade Center (Nova York) a aproximadamente 790 e 950 km/h cada uma, destruindo ou abalando severamente oito edificações (WTC1, WTC2, WTC4, WTC5, WTC6, WTC7, Marriot Hotel e a Ponte Norte). Outra aeronavae bateu no Pentágono (Washington). Um quarto avião caiu ou foi derrubado na Pensilvânia antes de atingir o seu alvo. Um quinto avião estava incluído no plano inicial da Al-Qaeda e programado para atingir a Casa Branca, mas poucas semanas antes do ataque um piloto foi preso e os demais suicidas foram redistribuídos para ocupar 4 e não mais 5 aeronaves. ENGELS, LENIN E A IV INTERNACIONAL: O MARXISMO REVOLUCIONÁRIO NA DEFESA INCONDICIONAL DA RESISTÊNCIA DOS POVOS OPRIMIDOS CONTRA SEUS ALGOZES COLONIZADORES E OS FILISTEUS PACIFISTAS REFÉNS DA OPINIÃO PÚBLICA DEMOCRÁTICA BURGUESA A grande mídia burguesa, seguida pela pequena burguesia condena os atentados e caracteriza-os como meros atos de “terror individual”. Do outro lado, extremamente minoritários, os marxistas revolucionários têm uma caracterização e uma posição distinta. Para nós, trata-se de uma reação dos povos oprimidos com atos de uma guerra popular e assimétrica. A tradição marxista sobre o tema nada
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tem a ver com o centrismo kautiskista adorador da luta parlamentar e sindical reformista que condenou o terror vermelho empregado pela URSS contra a coalizão imperialista invasora da época (1918 - 1921). Os atentados não caíram do céu, nem foram atos de vingança individual e desesperada. Foram uma reação planificada por anos aos massacres e cruzadas seculares particularmente aos povos árabes e muçulmanos, que dispuseram seus filhos entre os guerrilheiros responsáveis pela missão suicida. Os ataques foram uma resposta militar dos povos oprimidos realizada por meios completamente “irregulares”, os únicos encontrados pelos “bárbaros” das terras longínquas capazes de atingir o coração do monstro imperialista, em Nova Iorque e Washington. Foram os únicos meios que os séculos de destruição e pilhagem imperialistas permitiram aos dominados. Sobre este tema, Engels faz a seguinte análise da guerra entre a Inglaterra e a China: “mas o que acontecerá se os chineses engajarem contra as tropas britânicas uma guerra nacional e se seu barbarismo fosse completamente destituído de escrúpulos para lançarem mão das únicas armas que sabem utilizar? Os chineses do presente possuem evidentemente um espírito diferente daquele que mostraram na guerra de 1840 a 1842. Na época, o povo era calmo e deixou que os soldados do Imperador chinês combatessem os invasores e, após a derrota, se submeteram ao inimigo com um fatalismo oriental. Mas no presente, ao menos nas províncias meridionais onde o conflito até o presente está circunscrito, a massa do povo toma parte ativa, de forma fanática, na luta contra os estrangeiros. Os chineses envenenam o pão da colônia européia em Hong-kong, no atacado e com a mais fria premeditação (alguns pães foram enviados a Liebig para exame. Encontraram vestígios de arsênico, o que mostra que já havia sido incorporado à massa. No entanto, a dose de arsênico era tão forte que provocava vômito e neutralizava os efeitos do veneno). Eles embarcam com armas escondidas a bordo dos vapores de comércio e, no meio da rota, massacram a tripulação e os passageiros europeus e tomam o navio. Eles seqüestram, roubam e matam todo estrangeiro ao alcance da mão. Mesmo os trabalhadores (coolies) que emigram para países estrangeiros se amotinam e, coordenadamente, a bordo de todos os barcos de emigrantes; lutam por seu controle e preferem ir para o fundo com a embarcação em chamas, mas não se rendem... A política de pirataria do governo britânico provocou este ataque violento universal de todos os chineses contra todos os estrangeiros e lhe deu o caráter de uma guerra de extermínio. O que pode fazer um exército contra um povo que recorre a tais meios de luta? Onde, até onde, poderá penetrar no campo inimigo, como poderá lá manter-se? Os negociantes civilizados que bombardeiam cidades indefesas, estupram e matam podem condenar este sistema como covarde, bárbaro e atroz; mas que importância darão os chineses a esta condenação a seus métodos se forem bem sucedido? Dado que os britânicos os tratam como bárbaros, não podem negar-lhes o benefício completo do seu barbarismo. Se seus seqüestros, seus ataques de surpresa, seus massacres noturnos são o que nós chamamos de covardes, os negociantes civilizados não deveriam esquecer-se nas suas dissertações que os chineses não po-

deriam resistir aos meios de destruição europeus fazendo uso de seus meios de guerra ordinários. Resumindo, em lugar de falar de moralidade sobre as horríveis atrocidades dos chineses, como o faz a empavonada imprensa inglesa, faríamos melhor em reconhecer que se trata de uma guerra pro aris et focis [pelos nossos altares e lares], uma guerra popular pela conservação da nacionalidade chinesa, com todos os seus preconceitos ultrajantes, estupidez, ignorância, seu barbarismo pedantes, como queiram, mas, de qualquer modo, uma guerra do povo. E numa guerra popular os meios empregados pela nação insurgente não podem ser vulgarmente avaliadas segundo as regras de conduta reconhecidas em uma guerra regular, nem segundo qualquer padrão abstrato, mas apenas pelo grau de civilização da nação insurgente. Mas onde está o exército para formar uma base de operações fortificada e guarnecida de tropas na costa [chinesa], para superar todo obstáculo no caminho, para deixar destacamentos encarregados de assegurar as comunicações com o flanco e seguir em bom estado e bem preparado, com todo poderio de uma força formidável diante das defesas de uma cidade do tamanho de Londres, situada a uma centena de milhas da base de apoio deste exército?” (A Pérsia e a China, maio de 1857). Assim como os chineses não dispunham das condições logísticas para edificar um exército capaz de defender seu país e marchar para o combate contra o inimigo colonizador em Londres, também os afegãos barbarizados por séculos de guerras e dominação não dispõem de condições de enfrentar em uma guerra regular e ordinária o inimigo invasor e menos ainda de marchar com um exército em direção a Nova Iorque. Nem por isto renunciaram à própria defesa, optaram então pelo seqüestro das aeronaves de passageiros estadunidenses e lançaram-se com elas para a morte contra os símbolos maiores da dominação econômica e militar dos EUA. Assim como Engels, Lenin saiu em defesa dos métodos guerrilheiros contra a condenação moral dos socialistas filisteus aos mesmos. “Dizem: as ações de guerrilhas desorganizam o nosso trabalho. Apliquemos este juízo à situação depois de dezembro de 1905, à época dos pogroms das centúrias negras e do estado de sítio. O que é que desorganiza mais o movimento em tal época: a ausência de resistência ou a luta de guerrilhas organizada? Comparemos a Rússia central com a sua periferia ocidental, como a Polônia e o território letão. É indubitável que o movimento revolucionário em geral e o movimento social-democrata em particular estão mais desorganizados na Rússia central do que sua periferia ocidental. Naturalmente que não nos passa pela cabeça concluir daqui que o movimento social-democrata polaco e letão estão menos desorganizados graças à guerra de guerrilhas. Não. A única coisa que daqui decorre é que a guerra de guerrilhas não é culpada da desorganização do movimento operário socialdemocrata na Rússia de 1906”. (Lênin, A Guerra de Guerrilha, setembro de 1906). Assim como também nenhuma organização de resistência guerrilheira, seja na Colômbia seja no mundo árabe, com todos os seus desvios e programas reacionários, pode ser culpada pelo fato de que os

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que se dizem marxistas revolucionários traíram a luta antiimperialista e socialista renunciando a construir o partido mundial da revolução socialista no seio das massas mais oprimidas do planeta, superando as ilusões depositadas pelas mesmas nas organizações de resistência alheias ao programa marxista. Também os trotskistas na década de 1930 seguiram o mesmo método analisando os atentados a bomba na luta de libertação nacional irlandesa contra o imperialismo britânico. Reproduzimos um trecho da revista norte-americana da IV Internacional na época de Trotski, The New International, publicada pelos trotskistas da Liga Comunista da América (Communist League of America - CLA) e, posteriormente do Partido Socialista dos Trabalhadores (Socialist Workers Party - SWP) de 1934 a 1936 e de 1938 a 1940. Na análise do levante das massas irlandesas em 1939, um dos redatores da revista, William Morgan, assinalou: “Bombas estão explodindo novamente na Irlanda e na Inglaterra. Sob o próprio nariz do Ministério do Interior em Londres, sob o monumento aos reis ingleses em Belfast, sob as paredes das prisões onde milhares de patriotas irlandeses cumpriram suas penas e sob os escritórios alfandegários ao longo da fronteira do Ulster, explosões altas e repentinas marcam o 23º aniversário da Semana da Páscoa. E estas explosões não são meramente comemorativas. Elas servem para lembrar o mundo da luta pela independência nacional de um povo que combate sem tréguas por setecentos anos contra o mais poderoso e impiedoso opressor de todos os povos coloniais: a classe dominante do Império Britânico. Ao compreender que, sem as forças combinadas da classe operária irlandesa e dos trabalhadores ingleses e as forças revolucionárias nas colônias, a independência nacional não pode ser conquistada completamente, não podemos simplesmente dispensar os bombardeios atuais como inúteis ou reacionários. Eles não são meros atos isolados de violência cometidos por indivíduos consternados e frustrados. Eles são, pelo contrário, cuidadosamente planejados e conduzidos de acordo com um plano organizado elaborado por revolucionários que, eles mesmos, admitem que as bombas são apenas o primeiro passo na renovação da luta. Estes homens sabem e estão se planejando para os passos necessários para unir as forças de oposição. As bombas estão servindo para chamar a atenção para o Exército de Ocupação agora na Irlanda e o retorno da repressão que precedeu a última guerra. Os revolucionários em toda parte devem se mobilizar para apoiar o movimento para arrancar a liberdade e a independência do ‘maior senhor de terras da Europa’ e, assim, ao desferir um golpe no coração da maior potência imperialista do mundo, liberar as forças da revolução em todos os países coloniais antes que a guerra engolfe a humanidade em uma luta para destruir a si mesma pelos lucros e o poder do capitalismo” (The New International, vol. V, nº 4, abril de 1939). Não nos surpreenderá que os “11 de setembro” do futuro sejam ainda mais sanguinários do que o primeiro. O século que leva a sua marca está só começando e a opressão extremada imperialista e secular que motivou os atentados não alivia a dor das massas sequer por um breve instante, pelo contrário, se recrudesce mais e mais a cada dia. O que pode se esperar do povo afegão depois do massacre

de mais de 400 prisioneiros desarmados quando se revoltaram no forte de Quala-e-Jhangi e depois que um número maior tenha tido a mesma sorte na tomada de Tora Bora? O que podem os EUA esperar do povo iraquiano depois das torturas do complexo penitenciário de Abu Ghraib e dos massacres de Basra? O que podemos esperar da ira palestina depois dos bombardeios com urânio empobrecido, dos massacres, das expansões colonas, do massacre da frotilha de solidariedade internacional que carregava medicamentos pelo exército nazi-israelense? De forma visionária e quase exclusiva na autêntica intelectualidade marxista, o sociólogo Octavio Ianni assim classificou os atentados de 11 de setembro em sua última entrevista concedida a Folha de São Paulo antes de seu falecimento. “A inquietação social, política e cultural é intensa e pode resultar em protestos espetaculares. Classificar os atentados como loucura terrorista é simplificar o problema. Os atentados têm raízes nas condições sociais extremamente difíceis experimentadas por povos agredidos pelas corporações transnacionais e que estão sendo induzidos a entrar na globalização a ferro e fogo. O ataque de 11 de setembro atingiu dois pilares simbólicos dos EUA: o militar, com o ataque ao Pentágono, e o financeiro, no ataque às torres gêmeas... [os] atentados foram ações revolucionárias. O que importa numa ação dessas não são as intenções dos agentes.” OS REVISIONISTAS SE ESCONDEM ATRÁS DA CONDENAÇÃO AO “TERRORISMO INDIVIDUAL”, DA TEORIAS DO “AUTO-ATAQUE” E DOS “DOIS DEMÔNIOS”. Caracterizando o 11/09 como um mero ato de “terrorismo individual”, a esquerda que se diz antiimperialista esgrima um diagnóstico propositadamente errado para sacar uma conclusão covarde, muitas vezes camuflada de citações marxistas de crítica a este método. Seguindo neste raciocínio, dizem que é preciso repudiar igualmente os atentados terroristas e as guerras de Bush, condenando assim os “dois demônios” e situando-se bem longe da luta real em um terceiro campo ideal acima do bem e do mal. É uma teoria típica do pacifismo pequeno burguês. A maioria das organizações que se dizem dos trabalhadores a adotaram. Uma outra teoria criada para fechar uma explicação e lavar completamente as mãos acerca do necessário posicionamento frente ao ato político em si, é a de que os ataques foram planificados na própria Casa Branca, na CIA e no Pentágono. Quem primeiro propagou a teoria do auto-ataque em escala cinematográfica foi a ala democrata do próprio imperialismo, através do cineasta Michael Moore com o seu Fahrenheit 11/09. Moore acusou em seu documentário ao governo republicano de ter sido conivente com os atentados. Em 2004, o cineasta suplicou publicamente, ajoelhado, em rede de TV, para Ralph Nader não concorrer às eleições presidenciais daquele ano a fim de não dividir os votos de esquerda da oposição anti-Bush; naquela eleição ele apoiou a pré-candidatura democrata do general Wesley Clark e em 2008 apoiou Obama. Os grupos mais organizados a sustentar estas teorias, como o 911Truth.org, reúnem até parentes dos mortos e dos atentados e apresentam declarações de arquitetos e engenheiros. Sobre o WTC, sustentam que as torres caíram por implosões controladas, acionadas após a coalizão dos aviões. No caso do ataque ao Pentágono, os defensores do auto-ataque vão mais além, negam até que foi uma aeronave que atingiu o prédio, afirmam que a explosão de parte da fortaleza central do comando planetário do imperialismo que matou 125 funcionários da instituição só poderia ter sido obra de um míssil lançado pelos próprios EUA. Tais “teóricos” possuem dificuldades para explicar a existência de uma lista de 64 pessoas (passageiros, tripulantes e guerrilheiros) mortos com parentes vivos que confirmam que eles estavam no vôo e o encontro de uma caixa preta e dos destroços do avião.
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Esta teoria despreza qualquer possibilidade de contra-ataque militar por parte dos povos oprimidos ao imperialismo e reforça o mito da invulnerabilidade do território continental dos EUA. Depois de todos os golpes militares patrocinados pela CIA mundo afora, do treinamento aos ditadores e torturadores fornecido pela Escola das Américas, do pinochetismo, de Guantánamo,... não apostamos que existam limites para a crueldade do imperialismo ianque, que inclui na lista de suas vítimas a própria população estadunidense, muitas vezes cobaia e carne de canhão do grande capital ianque. Não duvidamos que a guerra civil preventiva contra os povos oprimidos seja a atual doutrina do Estado imperial e que Bush poderia ser tão facínora quanto Nero ou Hitler, tendo o primeiro ateado fogo em Roma e o segundo queimado o parlamento alemão para culpar cristãos e comunistas, respectivamente. No entanto, vejamos como esta teoria é falsa e só beneficia aos próprios EUA. É verdade também que Bush precisava de uma nova guerra para alimentar o complexo militar industrial e se apropriar de uma parcela maior de petróleo planetário, pois os países muçulmanos possuem 66% do total das reservas petrolíferas enquanto os EUA mal possuem 2% das reservas de petróleo do planeta. O Iraque possui cinco vezes mais petróleo que os EUA e, a Líbia, duas vezes. Após os atentados foi desatada a “guerra ao terror” que para ser vencida precisava da recolonização dos países islâmicos, recolonização que Obama continua agora sob o manto da “primavera árabe”. Ou seja, é verdade que o imperialismo precisava da nova cruzada desatada pelos falcões de Bush que passou a ser justificada em nome de proteger a América de outros 11 de setembro. Todavia, para um Estado imperial, é preciso guarnecer a qualquer custo o mito de sua invulnerabilidade. Particularmente para os EUA, a invulnerabilidade de seu território, expressão de sua incontestável superioridade militar é a espinha dorsal que lastreia o valor do dólar desde o fim do acordo de Bretton Woods. Assim como tempo é dinheiro, a invulnerabilidade é capital político e em espécie. Como podem os papéis pintados e carimbados pela Casa da Moeda estadunidense (o FED) terem um valor inconteste, como pode os EUA imporem ao mundo a sua condição de xerife planetário e como pode dispor do medo das potências imperialistas concorrentes se suas próprias defesas conspiram e se auto-atacam levantando suspeitas de sua capacidade de defender seu território, seus símbolos econômicos e, sobretudo, seus quartéis generais da CIA e do Pentágono onde justamente se formula o seu domínio militar sobre o planeta? A importância fundamental deste acontecimento foi justamente o fato de ter posto em questão que o gigante que a todos domina tem pés de barro, tem um calcanhar de Aquiles. Como declarou o sociólogo Octavio Ianni: “Eu acho que devemos analisar com frieza, com objetividade o que aconteceu no dia 11 de setembro. Então, vejam bem, um ataque terrorista, que ganha significado, eu vou mais adiante, que ganha o significado de um ato político, pela reação que se adotou. Agora, quando nós recuperamos o que é a história do predomínio, da hegemonia norte-americana no mundo, desde 46, nos damos conta de que foi destroçada a experiência de Arbenz na Guatemala, foi destroçada a experiência de Sukarno na Indonésia, foi destroçada a experiência de Allende no Chile, etc. [A hegemonia norte-americana] começou a ser posta em causa no dia 11 de setembro de 2001 O que aconteceu no dia 11 foi o seguinte: as elites norte-americanas descobriram que os Estados

Unidos são vulneráveis. Isso é um fato político da maior importância na história do mundo. E mais, no dia 11 de setembro, o mundo descobriu que a soberania norte-americana no mundo é vulnerável. Não, é cedo, ainda é cedo. Mas não vamos ser ingênuos de imaginar que a hegemonia norte-americana é perene. Não nos iludamos. A soberania holandesa declinou, a soberania alemã declinou, a soberania do estado czarista declinou, a soberania dos Estados Unidos vai declinar. Isso é um dado da história. Tudo é histórico. Então, não há por que nós nos impressionarmos com o fato de que, de repente, um maluco resolveu mostrar que os Estados Unidos são vulneráveis. Isso não tem nada demais, é um dado da história. Caiu a Bastilha, caiu o Muro de Berlim, caíram as torres gêmeas do World Trade Center. É provável que o que houve no dia 11 de setembro seja um fato muito mais relevante do que parece, pelas suas implicações posteriores e pelas suas raízes. Porque, não nos iludamos, se aconteceu o que aconteceu, é porque algo muito grave estava acontecendo no mundo. Não se trata apenas da loucura de um indivíduo. Trata-se de processos, de impasses, de problemas extremamente graves.” (Entrevista coletiva do sociólogo Octavio Ianni ao programa Roda Viva, 26/11/2001, http:// www.rodaviva.fapesp.br/materia/45/entrevistados/ octavio_ianni_2001.htm). A “PRIMAVERA ÁRABE” E A AL QAEDA A Casa Branca e seus meios de comunicação do mundo todo tem repisado a argumentação de que uma vez que não se vê nenhuma vinculação entre a Al Qaeda e a primavera árabe, está provado que o grupo guerrilheiro não tem nenhuma expressão popular e que o antiamericanismo dos atentados de 11 de setembro de 2001 não representa o legítimo sentimento das massas árabes. Portanto, as massas árabes não seriam antiimperialistas nem anti-sionistas. Não? Primeiro que a tão propalada “primavera árabe” ainda não produziu nenhuma mudança de regime na África ou no Oriente Médio. Na Tunísia e no Egito o que se vê são governos cotinuístas que amortecem as aspirações populares com a combinação de repressão e promessas de medidas democráticas para o futuro. Inclusive no Egito, o odiado ditador Mubarak que representava a fachada civil para o regime militar deu lugar ao regime militar escancarado. Mas, de súbito, rompendo a calmaria estabelecida pela manipulação da “primavera” e a contenção imposta pelo “novo” governo títere militar, os manifestantes egípcios acabam de invadir a Embaixada Israelense no Cairo e atear fogo em duas viaturas de polícia após uma tensa semana em que “as relações entre os dois países atravessam uma fase delicada desde a morte de cinco policiais egípcios assassinados em 18 de agosto em um ataque das forças israelenses na região de Eliat, que faz fronteira com o Egito. O Egito foi o primeiro país árabe a fazer um acordo de paz com o Estado hebreu em 1979.” (AFP, 09/09/2011). Mas engana-se quem pensa que a Al Qaeda ficou de fora da “primavera árabe” e engana-se mais ainda quem pensa que ela anda atuando em conformidade com seus discurso contra os interesses do imperialismo na região... FRANKSTEIN E A AUSÊNCIA DA DIREÇÃO REVOLUCIONÁRIA Embora, como nos ensinou Octavio Ianni, a intenção dos agentes tenham pouco valor diante dos desdobramentos de suas ações, para nós marxista vale a pena entender um pouco mais sobre sua nature-

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za. E para não dizer que desprezamos completamente os mitos, ilustraremos o fenômeno da Al Qaeda com um mito mundial: Frankstein. Pela carência de uma força política autenticamente revolucionária que canalizasse todo o ódio das massas oprimidas contra a opressão imperialista a história se utilizou de forças fundamentalistas burguesas, os Talibans e a Al Qaeda, para executar o mais espetacular dos ataques ao imperialismo. Por ironia da história, a Al Qaeda que foi patrocinada pelo imperialismo na década de 1980 contra a ocupação do Afeganistão pela URSS, na década seguinte, expressaria todo o seu ódio contra a opressão imperialista que sofreram após a expulsão das tropas soviéticas e a primeira guerra do golfo. O mesmo Saddan Hussein, armado pelos EUA durante a Guerra Iraque X Irã vem a ser o inimigo número um da Casa Branca poucos anos depois. Na Palestina, temos outro exemplo histórico de quando a criatura se volta contra o criador. A princípio, antes da primeira intifada (1988), EUA e Israel estimularam a existência do Hammas para impulsionar um “contrapeso” fundamentalista contra a influência da OLP na Palestina. Mas, entre 1995 e 2006, com a degeneração pró-imperialista da OLP, o Hammas passa a representar para amplas massas palestinas uma organização de resistência contra Israel por coordenar atentados suicidas e lançamentos de mísseis Qassam contra alvos israelenses, até vencer a maioria das cadeiras para o Parlamento palestino em 2006. Depois do 11/09 dezenas de outros atentados foram supostamente assumidos ou atribuídos a Al Qaeda. É fato também que alimentar a existência de um inimigo perigoso serve para justificar os investimentos de quase U$ 5 trilhões na “guerra ao terror”. Mas, o filho pródigo a casa torna, a mesma Al Qaeda que é perseguida mundialmente pela CIA, pelo menos na Líbia, por alguns dólares e por uma espécie de pragmatismo burguês fundamentalista que aspira fazer da Líbia uma nação teocrática como pretenderam no Afeganistão, recebe armamentos da mesma CIA para participar da ação golpista contra o regime de Gadafi ao lado da CNT. Segundo reporta Thierry Meyssan: “Sábado, 20 de Agosto, às 20 horas, ou seja, durante o Iftar, quando os muçulmanos se reúnem para quebrar o jejum do Ramadan, a OTAN lançou a “Operação Sirene”. As Sirenes são os alto-falantes das mesquitas que foram utilizados para lançar um apelo da Al Qaeda à revolta. Imediatamente células adormecidas de rebeldes entraram em ação. Tratava-se de pequenos grupos muito móveis, que multiplicaram os ataques. Os combates da noite fizeram 350 mortos e 3000 feridos. A situação estabilizou-se na jornada de domingo. Um barco da OTAN atracou ao lado de Trípoli, entregando armas pesadas e desembarcando jihadistas da Al Qaeda, enquadrados por oficiais da Aliança. Os combates reiniciaram-se à noite. Eles atingiram uma rara violência. Os drones e os aviões da OTAN bombardeiam todos os azimutes. Os helicópteros metralham as pessoas nas ruas para abrir o caminho aos jihadistas.” (Carnificina da OTAN em Trípoli, Global Research, 22/08/2011). A Al Quaeda, a guerrilha heterogênica que mais funciona como uma franquia, e da qual algumas células na Alemanha e EUA cumpriram nos ma missão relativamente progressista na luta antiimperialista há dez anos, realiza hoje, na Líbia, uma missão completamente reacionária, corrompida e a serviço do mesmo imperialismo e deve ser derrotada por uma autêntica luta de resistência antiimperialista assim como ao CNT e o conjunto da coalizão pirata da OTAN. A CAMINHO DO IV REICH A característica essencial do fascismo é o fato de ser uma guerra civil preventiva das classes dominantes contra os explorados e opri-

A imprensa burguesa mundial registra que a guerra que sempre foi um elemento externo da política expansionista, desta vez, repercute nos EUA midos pelo capitalismo. Na “guerra ao terror” desencadeada por Bush e continuada por Obama foi lançado mão dentro dos EUA e em escala global de métodos que antes a CIA aplicava no interior dos Estados nacionais por intermédio de governos militares de países da América Latina, Ásia, África. A exemplo da multinacional do terror Estatal imposta na América Latina durante a década de 1970, a “guerra ao terror” do século XXI criou uma versão ampliada da “Operação Condor”. Em escala global foram capturando pessoas em qualquer parte do mundo sem ordem ou processo judicial para colocá-las em campos de concentração clandestinos, não somente em Guantánamo, mas também na Romênia, Polônia, Lituânia, Iraque, Tailândia, além de prisões especiais no Afeganistão. A expressão mais macabra e conhecida destas operações fascistas foram o julgamento e execução de Saddan Hussein e a caçada e execução de Osama Bin Laden. No “país das liberdades individuais”, os EUA, foram suprimidas as dissidências internas, para vigorar amplamente a espionagem doméstica, a tortura, a anulação de garantias constitucionais, liberdades civis e direitos humanos. Foram realizadas batidas policiais em massa contra muçulmanos dentro dos EUA. O governo ordenou o registro de todos os homens muçulmanos entre 18 e 25 anos de idade originários primeiro de nove países e depois de 19. Nos últimos dez anos, os EUA realizaram mais guerras, mais ataques e ocuparam mais países que em qualquer outro momento de sua história (Iraque, Afeganistão, Paquistão, Líbia, Yemen, Somália, Haiti, Palestina, Líbano) e para quem acreditava que as quarteladas na América Latina eram coisa do passado, orquestrou um golpe militar em Honduras. Apesar das promessas de Obama de desativação de Guantánamo ou de retirada das tropas do Iraque, a máquina mortífera criada
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por Bush segue funcionando e aprimorando-se. O contingente militar ianque no Iraque apenas muda de farda, trocando o uniforme militar oficial pelo das multinacionais mercenárias paramilitares como a Blackwater e outras tantas. No Afeganistão, a administração do Partido Democrata triplicou o legado de Bush para 100 mil soldados invasores e assim como a manutenção de Guantánamo contraria as promessas, não duvidamos que sejam criadas novas justificativas contra a retirada das tropas prometidas para 2012, ainda mais agora com a nova crise econômica exigindo novos investimentos em forças destrutivas. Os EUA e a OTAN instituíram seu direito a matar qualquer suspeito de terrorismo em qualquer parte do mundo com um drone (avião não tripulado). O jornalista especialista em armamentos Roberto Godoy, destaca que os drones ou UAVs na sigla em inglês “representam a mais importante revolução tecnológica decorrente dos atentados de 2001.” (O Estado de São Paulo, 04/09/2011). O drone mais avançado dos 47 modelos existentes é o RQ-4 Global Hawk, da Northroup Gruman, que custa US$ 39 milhões e possui autonomia de vôo de 36h, podendo decolar de uma base afegã e ser pilotado de bases terrestres nos EUA. “Só em 2010, estima-se que aviões não tripulados dos EUA tenham atacado 120 vezes o Paquistão, suposto aliado dos EUA contra a Al Qaeda. Entre 600 e 1000 pessoas teriam morrido” (idem). Os drones são uma força aérea robô que reduzem o número de baixas militares e os custos políticos internos da guerra para o imperialismo invasor4. No entanto, diante desta imensa superioridade militar do IV Reich, alguns filisteus buscam impor limites morais para as ações de resistência dos povos oprimidos. SÓ A RECONSTRUÇÃO DA IV INTERNACIONAL PODE DETER O IV REICH Apesar de ações ousadas como o 11 de setembro e até de excepcionalmente poderem derrotar os invasores de forma episódica e defensiva como ocorreu no Líbano em 2006, as direções burguesas como o Hezbollah, Taliban, Al Qaeda, Saddan Hussein, Gadafi, Assad ou o governo teocrático iraniano, traem a luta pela libertação nacional e tendem a capitular ante a ofensiva imperialista. Seu programa não serve para emancipação das massas mas para aliená-las de seus interesses históricos. Isto coloca inteiramente a responsabilidade por realizar uma luta de libertação nacional conseqüente nas mãos da direção do proletariado. Somente o proletariado organizado como partido revolucionário pode conduzir a luta pela plena independência política e econômica do país em direção ao estabelecimento de um Estado operário. Somente a unidade classista e internacionalista entre as massas oprimidas e o poderoso mais estupidificado e adormecido proletariado estadunidense pode derrotar o imperialismo ianque, assentando o golpe de misericórdia no coração do monstro imperialista. Com esta perspectiva estamos inteiramente solidários as suas lutas imediatas e econômicas deste momento contra os bilionários cortes efetuados por Obama que castigarão ainda mais os já castigados setores mais precarizados da classe operária estadunidense. O grande vilão responsável por qualquer legítima reação furiosa dos povos oprimidos contra os EUA é a nazista classe dominante ianque, a ela deve ser cobrada a conta pelas mortes do 11 de setembro. Estamos confiantes que o dia o proletariado mundial fará estes senhores pagarem tudo o que devem, para isto, deve ficar claro que apesar de defenderem o legítimo direito da resistência recorrer às armas que souberem e puderem manejar nesta guerra global, nenhuma ação, por mais espetacular que seja, poderá por si só realizar a tarefa titânica que só pode ser realizada por obra da revolução proletária. Somente um autêntico e destemido partido antiimperialista mundial poderá cumprir esta tarefa, este partido, dos marxistas revolucionários de nosso tempo, é a IV Internacional comunista reconstruída.

Notas

1. Com as derrotas históricas das greves a) dos controladores de vôo dos EUA em 1981, quando 12 mil foram demitidos sumariamente após 48h de iniciada a paralisação furada pela burocracia da AFL-CIO e b) dos mineiros britânicos em 1984-85, através de uma verdadeira operação de guerra interna, chamada na época de “Falklands-Malvinas sindical”, a maior operação anti-greve desde a greve geral de 1926 onde uniram-se a sabotagem da aristocracia sindical do TUC e a selvagem repressão policial 2. A corrida armamentista, a aposta na economia destrutiva produziu efeito inverso nos EUA e na URSS, ou seja em um Estado capitalista e em um Estado operário. O armamentismo, ao destruir as forças produtivas dinamiza a economia imperialista, queimando capital constante e reduzindo os efeitos da crise de superprodução. Mas, na economia do Estado operário, isolado pela política de “socialismo em um só país” da burocracia stalinista, contribuiu fortemente para exaurir a economia da URSS e dos países do Pacto de Varsóvia, pavimentando o caminho da restauração capitalista. 3. É errôneo afirmar que foi o primeiro ataque em seu território continental. Pancho Villa foi o primeiro a “invadir” os EUA em represália a ingerência dos EUA sobre o México em apoio ao governo inimigo de Villa e do campesinato pobre, Carranza. Villa tomou de assalto a pequena cidade de Columbus no Novo México que abrigava, nas suas proximidades, um forte de cavalaria em Camp Furlong, com uns 350 milicianos. Na madrugada do dia 9 de março de 1916, as tropas de Villa, uns 500 homens atacaram o forte, saquearam e atearam fogo na cidade. No dia seguinte, as manchetes dos jornais norteamericanos estamparam com estardalhaço o acontecimento. Villa havia sido o primeiro guerrilheiro em toda a história a invadir os Estados Unidos. Foi um pandemônio e o presidente ianque, Woodrow Wilson, ordenou uma expedição punitiva para caçar Villa. Pancho Villa tornou-se o primeiro inimigo dos Estados Unidos a ser caçado implacavelmente no exterior. Tratou-se da maior operação militar que os norte-americanos fizeram desde o fim da guerra contra Espanha em 1898 com aviões, caminhões e veículos de combate, além de uma força expedicionária de 4.800 homens. Em 21 de junho de 1916, um destacamento norte-americano desentendeu-se com a população do lugarejo que resistiu à passagem de soldados estrangeiros por dentro da sua cidade, havendo troca de tiros e mortes das duas partes. Este incidente quase levou os EUA a declarar a guerra contra o México. Mas, reconhecendo a inutilidade da expedição punitiva e o desgaste que a presença das tropas norte-americanas trazia tanto para o governo dos EUA quanto para o colaboracionista governo mexicano de Carranza, Wilson decidiu retirar seus soldados que já chegavam a 10.690 homens do solo mexicano. 4. Segundo o historiador Moniz Bandeira em Carta Maior, 06/09/2011, os drones já mataram, desde 2001, mais de 2.000 supostos militantes e civis. O presidente Obama incrementou essas operações, sem arriscar a vida de soldados, bem como o emprego de uma outra organização militar, que matou e interrogou mais supostos terroristas e Talibans do que a CIA, desde 2001. Trata-se do Joint Special Operations Command (JSOC), à qual está subordinada a U.S. Navy SEAL’s (Sea, Air and Land Teams), integrante do Comando de Operações Especiais (USSOCOM), unidade encarregada de operações terrestres e marítimas, guerra não-convencional, resgate, terrorismo e contraterrorismo etc. Foi um comando do SEAL’s que assassinou Osama Bin Laden, no Paquistão, em 2 de maio de 2011. O tenente-coronel John Nagl, assessor de contra-insurgência do general David Patraeus no Afeganistão, considerou o JSOC uma maquina de matar contra o terrorismo em uma escala quase industrial (“an almost industrial-scale counterterrorism killing machine”). Tratase, na realidade, de um comando de esquadrões da morte do Pentágono. Comandos do SEAL’s atuaram na Líbia, assim como da Direction générale de la sécurité extérieure (DGSE), da Brigade des forces spéciales terre (BFST), subordinada ao Commandement des opérations spéciales (COS), M16 (Inteligence Service) e Special Air Service SAS (Special Air Service) como se fossem árabes, os chamados “rebeldes” não teriam avançado muito além de Bengasi. No dia 20 de agosto, dia em que acabou o jejum do Ramandan, um navio da OTAN desembarcou no litoral da Líbia com armamentos pesados, antigos jihadistas e tropas especiais do JSOC, dos Estados Unidos, BFST, da França, e SAS, do Reino Unido, sob o comando de oficiais da OTAN, que procederam à conquista de Trípoli. Esse foi o resultado da Resolução 1.973, do Conselho de Segurança Nacional, autorizando a Santa Aliança (Estados Unidos, Inglaterra e França) a proteger os civis na Líbia e que ela aproveitou para legitimar o direito de intervenção humanitária, para defender seus próprios interesses econômicos, geopolíticos e estratégicos no Mediterrâneo. Os objetivos de Obama são os mesmos de Bush, atendendo aos interesses do complexo industrial-militar. Sem agir unilateralmente, ele deseja realizá-los, transformando por meio da OTAN, de forma a repartir os custos com seus membros, principalmente Inglaterra, França e Alemanha, a fim de evitar que a guerra seja percebida como entre os Estados Unidos e a Líbia ou outro qualquer país.

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ESPECIAL 11/09/2001-2011 - 2/3

A matemática dos carniceiros terroristas imperialistas

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o 11 de setembro de 2001 morreram pouco menos de 3 mil pessoas nos atentados ao WTC e ao Pentágono. Segundo o site Unknown News, que fornece uma estatística detalhada do número de mortos nas guerras no Afeganistão e no Iraque, foram mortos 919.967 pessoas entre civis e militares nos dois países ocupados desde a invasão do primeiro pela coalizão imperialista em 2001 até agosto de 2010. Durante o mesmo período, o site registra um número de 1.739.547 pessoas feridas nos dois países. Sendo que só no Iraque, o total de mortos é de 900.338. http://www. unknownnews.org/casualties.html. A organização Iraq Body Count, que usa uma metodologia diferente (contabiliza apenas as mortes de civis no Iraque que são registradas em jornais ou na TV), apresenta números bem mais conservadores: 111.937 civis mortos somente no Iraque. Em um país devastado pela violência diária, parece improvável que o relatório de cada homem, mulher e criança morta - ou mesmo a maioria das mortes iraquianas - fosse mencionado nos meios de comunicação daquele país. UM MILHÃO DE VIDAS durante esta década foi o que o terrorismo imperialista, que atinge o conjunto do globo, impôs de forma direta apenas aos afegãos e iraquianos. 100 mil vidas por ano! Cerca de 333 vezes mais pessoas foram mortas no Afeganistão e no Iraque do que nos EUA nos ataques de 11 de setembro de 2001. De acordo com dados compilados pelo próprio Departamento de Estado dos EUA, mais de 130 vezes mais pessoas foram mortas nestas guerras e ocupações do que em todos os “ataques terroristas” no mundo entre 1993 e 2004. IMPÉRIO TERRORISTA “CIVILIZADO” VERSUS POVOS OPRIMIDOS BARBARIZADOS O terrorismo dos Estados imperialistas é maior hoje do que em todos os tempos. Concomitantemente a isto, aumenta a resposta dos povos oprimidos através de atentados suicidas, emboscadas, etc., principalmente na Ásia (Afeganistão, Paquistão e Iraque) e na África (Nigéria, Somália,...). Parafraseando Engels, reproduzido na primeira parte deste especial da LC, até onde os invasores imperialistas poderão penetrar e manter-se nas nações ocupadas frente a esta crescente resistência antiimperialista? Os terroristas “civilizados” que bombardeiam cidades indefesas, estupram e matam podem condenar este sistema como covarde, bárbaro e atroz; mas que importância darão os povos oprimidos na Ásia e na África a esta condenação se forem seus métodos bem sucedidos? Dado que a OTAN, a ONU e os EUA os tratam como bárbaros,

Em vermelho, mortos no 11/09/2001; em cinza, baixas dos EUA no Afeganistão e no Iraque; em azul, vítimas civis no Afeganistão; em verde, vítimas civis no Iraque
não podem negar-lhes o benefício completo do seu barbarismo. Se seus seqüestros, seus ataques de surpresa e suicidas, seus massacres noturnos são o que nós chamamos de covardes, os terroristas “civilizados” não deveriam esquecer-se nas suas dissertações de que os chineses não poderiam resistir aos meios de destruição europeus fazendo uso de seus meios de guerra ordinários. Em 2 de maio de 2011, o presidente Barack Obama anunciou oficialmente que Osama Bin Laden tinha sido morto, no Paquistão, por um comando especial dos Estados Unidos que invadiu o país de surpresa naquela madrugada e massacrou o inimigo, afirmando que a justiça tinha sido feita. “Foi feito justiça. Nesta noite, tenho condições de dizer aos americanos e ao mundo que os Estados Unidos conduziram uma operação que matou Osama Bin Laden, o líder da Al Qaeda e terrorista responsável pelo assassinato de milhares de homens, mulheres e crianças.” Os custos financeiros de toda esta cruzada sanguinária, orçada em pelo menos US$ 5 trilhões, segundo a Brown University, são pagos pelo parasitismo imposto aos próprios países ocupados, à classe trabalhadora dos EUA e aos trabalhadores do mundo inteiro. Mas, diante do maior império do medo de toda a história humana, as vítimas do terror reagem como podem, aprendendo com seus próprios algozes. Nos últimos 20 dias, organizações guerrilheiras de resistência fizeram
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saltar pelos ares a sede da ONU na Nigéria, a Embaixada dos EUA em Cabul e o quartel general da OTAN no Afeganistão. Todos os anos, no 11 de setembro nós não podemos esquecer da primeira vez em que esta data tornou-se sinônimo de massacre. Em agosto deste ano, o governo chileno anunciou uma nova estatística de vítimas da ditadura do general Augusto Pinochet iniciada no 11 de setembro de 1973: entre torturados, desaparecidos e mortos, 40 mil pessoas, 14 vezes mais do que o número de mortos no WTC. A conta do terror imperialista não pára, só uma revolução mundial poderá detê-la. A matança segue na Líbia. Em apenas 100 dias de bombardeios da OTAN sobre o país africano aprovados pela ONU “para poupar a população líbia de um massacre perpetrados por carniceiros” já se soma a trágica cifra de 6.121 civis mortos e feridos. Este foi o saldo parcial da “Operation Odyssey Dawn”. Os dados foram apresentados pelo Ministério da Saúde líbio e confirmados pela Sociedade do Crescente Vermelho da Líbia e pela Universidade Nassar de Trípoli. O IV REICH IANQUE É AINDA (E MUITO) MAIS SANGUINÁRIO QUE O III REICH ALEMÃO Nos territórios ocupados pela Alemanha, a Wehrmacht (forças armadas da Alemanha durante o Terceiro Reich) tinha como prática executar 10 civis inimigos para cada soldado alemão morto. Os números estão aí estão para mostrar que levando-se em conta apenas o quesito contagem de corpos (ou seja desprezando a imensa superioridade militar do Reich ianque com bombas atômicas, armas químicas com urânio empobrecido, mísseis,

drones, etc.) e apenas sobre o Afeganistão e o Iraque (excetuando-se Haiti, Palestina, Líbano, Somália, Costa do Marfim), o imperialismo nazi-ianque de Bush e Obama é 33 mais destrutivo que o nazismo do terceiro reich de Hitler. Vale destacar que o regime nazista de Hitler durou 12 anos (1933-1945). A governança dos EUA sobre o planeta seguiu do fim da segunda guerra até agora, um domínio pelo menos cinco vezes maior. Os nazistas não tiveram oportunidade de desenvolver plenamente nem lançar a bomba atômica sobre os outros povos. Os EUA exterminaram milhares em Hiroshima e Nagasaki. Anos depois, despejaram toneladas de agente laranja sobre milhares de vietnamitas. As guerras de rapinas do imperialismo ianque não cessam, só se multiplicam. O nazismo ianque é o sucessor turbinado do nazismo alemão. Como assinalava Trotsky, “a crença em um automatismo do desenvolvimento é o traço mais característico do oportunismo”. Longe das perspectivas ilusórias em torno do aprimoramento democrático do capitalismo, a tendência do imperialismo é o aumento da repressão, mais belicismo e o recrudescimento do domínio pela força para controlar as contradições crescentes e as disputas inter-imperialistas, que, ainda não avançaram do terreno comercial e diplomático para o militar. O extremo oposto, mas não menos estúpido, é a crença no catastrofismo fatalista, a fé de que um dia o imperialismo chegará a uma situação sem saída e se auto-implodirá. Os revolucionários devem reconhecer como legítimas as ações de resistência das organizações guerrilheiras contra o imperialismo e defendê-las politicamente da perseguição do império. Afinal, como nos ensinou um dos fundadores dos EUA, Thomas Jefferson, “quando a injustiça torna-se lei, a resistência torna-se um dever”. Mas, tanto pelos limites superestruturais destas ações, quanto pela política das direções guerrilheiras, subordinadas às vacilantes e traidoras burguesias nacionais, estas ações não são suficientes para conquistar a libertação nacional dos povos subjugados. O imperialismo sobreviverá destruindo a humanidade e a natureza até que a única classe revolucionária da sociedade moderna, o proletariado, organize o justo ódio do conjunto dos oprimidos para liquidar o capitalismo através de um partido internacionalista. A possibilidade de libertação da humanidade do vale de lágrimas causado pelo regime de terror imperialista depende inteiramente da revolução mundial.

Cartaz do Debate organizado pelo Comitê Antiimperialista sobre os 10 anos dos ataques do 11S

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Dedicar a vida à construção do partido trotskista internacional do proletariado é a única homenagem justa a Lev Davinovich

71 ANOS DO ASSASSINATO DE LEON TROTSKY

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O 20 DE AGOSTO DE 1940, Leon Trotsky, o principal dirigente da revolução bolchevique ao lado de Lenin, foi atacado mortalmente por um agente de Stalin vindo a falecer no dia seguinte. A revolução bolchevique criou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o primeiro Estado operário do planeta que representava a maior vitória dos trabalhadores sobre os patrões desde o estabelecimento da propriedade privada e a divisão da sociedade entre classes sociais exploradas e exploradoras. Na URSS não havia patrões. Toda a população trabalhadora possuía pleno emprego, saúde, educação e moradia assegurados pelo Estado operário. Mas, os partidos sociais democratas da Europa, que dirigiam o movimento operário, traíram a luta pela revolução e contribuíram com o cerco imperialista para isolar e estrangular a URSS. O bloqueio externo, o refluxo da luta de classes internacional e as dificuldades materiais fizeram surgir uma burocracia no interior da URSS e do partido bolchevique. Após a morte de Lenin, em 1924, uma camarilha de funcionários do aparato do Estado e do Partido se apropriou do poder para obter privilégios materiais sobre os trabalhadores, realizando uma contra-revolução política. Stalin passou a chefiar esta burocracia que representava a degeneração da revolução e do partido. Com sua política de colaboração de classes, de aspiração reacionária à “convivência pacífica” com o imperialismo, esta casta privilegiada comprometeria a existência da URSS e prejudicaria a luta pela revolução mundial. Stalin precisava se livrar da IV Internacional, o partido que defendia a continuidade da luta revolucionária do proletariado mundial. Antes de ser assassinado, o fundador da IV Internacional lutava pela expulsão da burocracia do poder através de uma nova revolução política que preservasse as conquistas obtidas pela expropriação da burguesia e restabelecesse a democracia dos trabalhadores, soviética. Trotsky defendera a URSS, apesar e contra a burocracia stalinista. Inclusive dentro da própria IV Internacional, Trotsky combateu os intelectuais pequeno burgueses que identificavam falsamente o Estado operário burocratizado com a casta parasitária que o burocratizou. Seria como identificar o Sindicato, que deve servir como instrumento de luta dos trabalhadores contra os patrões, com os burocratas que hoje dirigem os sindicatos e traem as greves a serviço dos patrões. Sob a pressão da campanha anticomunista da burguesia que dizia que o stalinismo é o resultado da luta pelo socialismo, estes falsos trotskistas renunciaram à defesa da URSS alegando que não havia mais nada a defender, entregando de lambuja a enorme conquista dos trabalhadores. Por fim, renunciaram também à luta pela construção do partido revolucionário da classe trabalhadora. A LC desmascara hoje os que se dizem trotskistas, mas se recusam a defender Cuba ou a Coréia do Norte da restauração capitalista, sob o cretino argumento de que a restauração já se completou. Diante da ameaça da contra-revolução por agentes externos e/ou internos é necessário chamar uma frente única de ação inclusive com as burocracias contra a restauração capitalista. Os trotskistas ortodoxos reivindicam esta política como defensismo revolucionário. Trotsky reivindicou a frente única de ação para a URSS com Stalin, contra Hitler e contra a ala direita da burocracia stalinista (a fração Butenko) e também para as semi-colônias contra o imperialismo e entre os partidos do movimento operário contra o fascismo. Em qualquer uma destas frentes, os trotskistas não apóiam politicamente ao aliado circunstancial, mas mantém a crítica intransigente contra os mesmos e possuem um programa revolucionário independente. Por isto, a LC defende uma frente única militar com o regime de Gadafi contra o imperialismo e seus agentes contra-revolucionários sediados em Bengasi. A LC defende os Estados operários do bloqueio econômico imperialista e de toda provocação militar-diplomática. Defende a libertação dos “cinco agentes do Estado cubano” presos nos EUA e a todos os lutadores antiimperialistas da base militar ianque de Guantánamo sobre a qual deve ser estendida a revolução cubana, mas não emprestamos nenhum apoio às burocracias dirigentes dos mesmos, contra as quais lutamos para realizar uma revolução política proletária que reverta o curso da restauração expresso, por exemplo, nos recentes ataques ao direito ao pleno emprego desferidos por parte da

própria burocracia Raul Castro Cuba hoje. A IV Internacional, principal obra de Trotsky foi destruída não apenas por obra da guerra de extermínio contra a mesma desferida pela burocracia stalinista. Também foi liquidada politicamente porque após o assassinato do grande revolucionário russo e de seus melhores colaboradores (Leon Sedov, Rudolph Klement, Pietro Tresso, Erwin Wolf, etc.), tomaram conta dela os pequeno burgueses que foram derrotada por Trotsky em seu último grande combate teórico em Defesa da URSS, da dialética materialista, da proletarização do partido, da moral proletária. Recomendamos a todos aqueles que querem se tornar verdadeiros revolucionários a aprender com esta luta teórica e política reunida no livro “Em defesa do Marxismo”. Os que em nome do trotskismo hoje renunciam a lutar para conquistar os trabalhadores para a construção do partido porque por trás de sua demagogia literal-virtual desprezam o proletariado e nada tem em comum com ele, os que estampam a bandeira da IV junto aos dos partidos oportunistas no panteão da frente popular, os que cultuam o espontaneísmo e seguem a reboque da manipulação imperialista do descontentamento das massas, os que renunciam à defesa das posições tomadas tanto no terreno dos princípios como das conquistas revolucionárias, dão continuidade aos crimes de Stalin contra o marxismo revolucionário. A LC caminha no sentido oposto, de romper com a família de filatelistas que compõem a mal chamada “esquerda trotskista”. Uma nova organização apoiada sob outra base social e armada com os genuínos métodos do bolchevismo e de um programa comunista internacional precisa ser construída. Por isto a LC se orienta em direção a operar a fusão da classe mais revolucionária da humanidade, o proletariado, com a única teoria capaz de libertar a classe trabalhadora da barbárie imperialista, o trotskismo revolucionário. Para nós este é o único caminho para a reconstrução da IV Internacional. Agosto é um mês duplamente trágico para os marxistas revolucionários de nosso tempo. Em agosto de 1991 a contra-revolução social capitalista triunfa finalmente na URSS. Passadas duas décadas desta derrota histórica do proletariado mundial, o jornal “O Bolchevique #6”*, trará uma análise do seu significado para a luta de classes hoje. Abaixo, a LC traduziu e publica pela primeira vez em língua portuguesa a homenagem profunda a Trotsky escrita por Jean Van Heijenoort (1912 – 1986), secretário que fez a segurança do dirigente bolchevique de 1932 a 1939. O texto foi publicado pela primeira vez em inglês na revista “Quarta Internacional #7, Volume II”, em agosto de 1941.
* Esta elaboração, assim como sobre o conjunto da restauração capitalista nos Estados Operários, incluindo China, será publicada nO Bolchevique #7. O Bolchevique No6 - Novembro de 2011

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LEV DAVIDOVICH
por Jean Van Heijenoort

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uando Engels faleceu pacificamente em Londres, sob o peso dos anos, como patriarca reverenciado da social-democracia internacional, o século que terminava separava as revoluções burguesas das revoluções proletárias, o jacobinismo do bolchevismo. A transformação do mundo, anunciada por Marx, converter-se-ia na tarefa do momento, e os revolucionários conheceriam vicissitudes sem iguais. De fato, as cabeças dos três maiores dirigentes revolucionários depois de Engels receberam os golpes da reação. O historiador do futuro não deixará de ver aí uma das marcas características da nossa época. Também não deve deixar de notar a origem desses golpes. Lênin teve a cabeça perfurada pela bala da “Socialista Revolucionária” Fanny Kaplan 1. Rosa Luxemburgo teve a cabeça esmagada a golpes de coronhadas de fuzil pelos soldados do “Social Democrata” Noske 2. O crânio de Trotsky foi aberto pela picareta de um mercenário do “Comunista” Stalin. Nossa época de crise, com seus saltos abruptos e seu ritmo febril, consome rapidamente aos homens e partidos. Aqueles que ontem representaram a revolução tornam-se hoje os instrumentos da mais obscura reação. Esta luta entre a direção do processo histórico e seu pesado grilhão, assumiu sua forma mais dramática no duelo entre Trotsky e Stalin, precisamente porque se desenrolou sob a base de um Estado operário já estabelecido. Trotsky – levado ao poder pela explosão revolucionária das massas, passou a ser perseguido e ameaçado, quando as derrotas do proletariado se sucederam converteu-se na encarnação mesma da revolução. Ele foi auxiliado por uma compleição física impressionante. O que primeiro chamava atenção era sua testa, fenomenalmente sublime, vertical, e não acentuada pela calvície. Depois destacavam-se seus olhos, azuis e profundos, com um olhar forte e seguro de sua força. Durante a sua estadia na França, Lev Davidovich precisou viajar muitas vezes incógnito, para simplificar os problemas de sua segurança. Ele teve que raspar o cavanhaque e pentear o cabelo de lado. Porém, quando se tratava de sair de casa e se misturar com o público, eu sempre me preocupava: “Não, é realmente impossível, ... o primeiro transeunte vai reconhecê-lo, ele não pode mudar o seu olhar...”. Logo, quando Lev Davidovich começava a falar, era a sua boca o que chamava atenção. Se ele falasse em russo ou em uma língua estrangeira, seus lábios se esforçavam por pronunciar claramente as palavras. Ele ficava irritado ao ouvir aos outros falarem de forma confusa e precipitada e se impunha sempre a si mesmo uma elocução completamente compreensível e clara. Era unicamente quando conversava em russo com Natalia Ivanovna que seu modo de falar se tornava mais ligeiro e menos articulado, chegando a sussurrar. Em conversas com as visitas em seu escritório, as mãos, a princípio descansando sobre a borda da mesa de trabalho, logo começam a se mover em gestos amplos e firmes, ajudando aos lábios a moldar a expressão de seu pensamento. Seu rosto rodeado de cabelos, o porte de sua cabeça, e todo o equilíbrio do corpo eram fortes e imponentes. Sua estatura estava acima da média, o peito era forte e as costas eram amplas e largas, e em comparação com as costas, suas pernas pareciam um pouco frágeis. É, sem dúvida, mais fácil para alguém que lhe visitou por apenas um dia dizer o que viu no rosto de Trotsky do que para alguém que viveu vários anos e sob várias circunstâncias ao seu lado. O que jamais vi nele foi qualquer expressão de vulgaridade. Tampouco havia nele qualquer traço de ingenuidade. Não lhe faltava uma doçura, originada de uma formidável inteligência sempre disposta a compreender tudo. O que se costumava ver era um entusiasmo juvenil que empregava em tudo que fazia, e ao mesmo tempo uma habilidade para animar aos outros a colaborarem com a tarefa. Quando se tratava de fustigar um

adversário esta alegria rapidamente se transformava em ironia, mordaz e maliciosa, alternada com gestos de desprezo. Quando o inimigo era particularmente canalha, você poderia, por um momento, quase encontrar uma pitada de maldade. Mas retomava sua vivacidade rapidamente. “Nós os venceremos!”, Ele repetia com orgulho. No isolamento da imigração, as circunstâncias mais dramáticas, em que vi Lev Davidovich foram seus conflitos com a polícia, ou incidentes com adversários de má fé. Nessas ocasiões, seu rosto se endurecia, e seus olhos faiscavam, como se neles, de repente, se concentrasse esta imensa força de vontade que só se podia avaliar pela obra de sua vida inteira. Então era óbvio para todos que nada, nada no mundo poderia fazê-lo ceder um centímetro. COMO TROTSKY TRABALHAVA Na vida cotidiana, essa força de vontade dirigia-se a uma rigorosa organização de seu trabalho. Tudo o que desviava sua atenção sem motivo o irritava muito: ele odiava conversas inúteis, visitas não anunciadas, contratempos ou atrasos nos compromissos. Tudo isto, seguramente, sem nenhum pedantismo. Se uma questão importante aparecesse, ele não hesitava um instante em modificar todos os seus planos, mas esta tinha que valer a pena. Se tivesse algum interesse pelo movimento usava seu tempo e sua energia de forma ilimitada, mas era igualmente contido quando o descuido, a leviandade ou a má organização alheia ameaçava desperdiçar sua energia e seu tempo. Ele economizava ao máximo seu tempo, a matéria mais preciosa da qual a vida é feita. Toda a sua vida pessoal era rigidamente organizada por esta qualidade que em inglês se chama “singleness of purpose” 3. Ele estabelecia uma hierarquia de tarefas e o que empreendia levava até o final. Comumente, não trabalhava menos de 12 horas por dia, e às vezes, quando era necessário, muito mais. Ele permanecia à mesa o menor tempo possível, e depois de compartilhar suas refeições durante muitos anos eu não me lembro de jamais tê-lo visto prestar alguma atenção especial ao que comia ou bebia. “Comer, vestir-se, todas estas pequenas coisas miseráveis que temos que repetir todos os dias ...”, ele me disse uma vez. Ele só encontrava distração em uma grande atividade física.

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Uma simples caminhada quase não o relaxava. Ainda que ele caminhasse em silêncio, poderia se perceber que sua mente estava sempre trabalhando. De vez em quando perguntava: “Você respondeu a essa carta?” “Você pode me achar tal citação”. Somente um exercício violento lhe acalmava. Na Turquia, este exercício foi a caça e sobretudo a pesca no alto mar, complexa e agitada, onde o corpo fazia um esforço ilimitado. Quando a pesca tinha sido boa, isto é, muito cansativa, ele retomava o trabalho com vigor redobrado. No México, onde a pesca era impossível, ele inventou a coleta de cactos enormes e pesados sob sol escaldante. É claro que a questão da segurança criou suas obrigações. Durante os onze anos e meio de sua terceira emigração, foi apenas por alguns meses, em determinados momentos durante a sua estadia na França e na Noruega, que Lev Davidovich podia andar livremente, isto é, sem vigilância, no campo, ao redor de sua casa . Como regra, cada uma de suas saídas constituíam-se de pequenas operações militares. Era necessário tomar todas as providências com antecedência, e estabelecer com cuidado o itinerário. “Vocês me tratam como se eu fosse um objeto”, ele disse algumas vezes, dissimulando em forma de brincadeira, uma certa impaciência que havia por trás deste comentário. Ele exigia o mesmo espírito metódico no trabalho dos camaradas que o ajudavam. Quanto mais próximos fossem, menos ele se preocupava com formalidades. Exigia a precisão em tudo: uma carta sem data, um documento não assinado sempre o irritavam, como em geral qualquer desleixo, negligência ou descuido. Fazer bem feito o que se está fazendo, e fazê-lo até o final. Essa regra valia tanto para as pequenas tarefas do diaa-dia como para o trabalho intelectual: conduzir os seus pensamentos até o fim, é uma expressão que, muitas vezes encontramos nos seus escritos. Ele sempre estava muito atento com a saúde daqueles que lhe eram próximos. A saúde é um capital revolucionário que não deve ser desperdiçado. Ele ficava irritado ao ver alguém ler sob pouca luz. É preciso arriscar a vida pela revolução sem hesitar, mas por que estragar seus olhos quando você pode ler confortavelmente e de forma inteligente? CONVERSAS COM TROTSKY Nas conversas com Lev Davidovich os visitantes ficavam impressionados principalmente com a sua capacidade de formular sobre uma situação até então desconhecida por ele. Ele era capaz de integrar a situação em sua perspectiva geral, e ao mesmo tempo sempre dar conselhos imediatos e concretos. Durante a sua terceira emigração, muitas vezes ele teve a oportunidade de conversar com visitantes de países que ele não estava diretamente familiarizado, poderiam ser países dos Balcãs ou da América Latina, os quais ele nem sempre sabia a língua, não acompanhava sua imprensa e nunca tinha tido qualquer interesse particular em seus problemas específicos. Primeiramente ele deixava o seu interlocutor falar, ocasionalmente anotando algumas notas breves sobre um pedaço de papel em frente ao interlocutor, às vezes pedindo alguns detalhes: “Quantos membros tem esse partido” “Não é este político um advogado?”. Então ele falava, e organizava a massa de informações que tinha recebido. Logo distinguia os movimentos das diferentes classes e das diferentes camadas dentro dessas classes, e em seguida, vinculado a estes movimentos logo se revelava o interesse dos partidos, grupos e organizações, e o lugar e a ação dos personagens políticos, até sua profissão e características pessoais, relacionando-se logicamente no conjunto. O naturalista francês Cuvier 4 era capaz de reconstituir todo um animal a partir de um só osso. Com seu vasto conhecimento das realidades sociais e políticas Trotsky poderia realizar um trabalho similar. Seu interlocutor ficava sempre maravilhado de ver quão profundamente ele havia sido capaz de penetrar na realidade do problema particular, e deixava o escritório de Trotsky conhecendo melhor seu próprio país.

Heijenoort e Trotsky em uma das sessões da Comissão Dewey, realizada em Coyacán, México, em abril de 1937

A cada momento se sentia em Trotsky uma imensa experiência, não apenas gravada em sua memória, mas organizada, profunda e largamente meditada. Percebia-se também que a organização desta experiência era realizada em torno de princípios que haviam se tornado indestrutíveis. Apesar de Lev Davidovich odiar a rotina, embora ele estivesse sempre ansioso para descobrir novas tendências, a menor intenção de inovação no âmbito dos princípios fazia com que ele chamasse a atenção: “Você está querendo cortar a barba de Marx”, era a expressão que ele costumava usar para todas estas tentativas de colocar o marxismo de acordo com a moda do momento, e ele não dissimulava seu desprezo por elas. O ESTILO E O MÉTODO DA ESCRITA DE TROTSKY O estilo de Trotsky é universalmente admirado. É, sem dúvida, o estilo que melhor se pode comparar ao de Marx. No entanto, as sentenças de Trotsky são menores que as de Marx, em quem se observa, especialmente nas obras da juventude, uma riqueza de recursos acadêmicos. O estilo de Trotsky atinge seus objetivos por meios extremamente simples. Seu vocabulário, especialmente em seus escritos predominantemente políticos, é sempre bastante limitado. As frases são curtas, com poucas orações subordinadas. Sua força reside no fato de estarem solidamente articuladas, na maioria das vezes com oposições fortemente estabelecidas, mas sempre bem ponderadas. Estes métodos sóbrios dão a seu estilo um grande frescor, uma certa jovialidade. Trotsky em seus escritos é consideravelmente mais jovem do que Marx. Trotsky sabia como tirar proveito da sintaxe russa, cujas inflexões permitem inverter a ordem das palavras dentro de uma frase, dando assim à expressão do pensamento uma força e uma ênfase difíceis de alcançar com os meios limitados das línguas ocidentais modernas. Difíceis de traduzir também. Lev Davidovich exigia uma fidelidade matemática de seus tradutores e, ao mesmo tempo, se rebelava contra as regras gramaticais que não permitiam na língua estrangeira expressar seu pensamento de forma tão concisa e direta. Comparado com o de Lênin, o estilo de Trotsky é superior, por uma larga margem, em sua clareza e elegância, sem perder a sua potência. As sentenças de Lênin, as vezes, tornam-se sobrecarregadas
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e desorganizam-se. Por vezes, parece que seu pensamento é maior que a expressão escrita. Trotsky certa vez disse que em Lenin poderia se descobrir um mujique 5, mas, elevado ao nível da genialidade. Ainda que o pai de Lênin fosse um funcionário público provincial e o de Trotsky um agricultor, é em Trotsky onde se vê o cidadão urbano, ao contrário de Lênin, sem dúvida por causa de sua origem. Isso pode ser visto de imediato na diferença entre os estilos, sem qualquer tentativa de estabelecer uma oposição em outros aspectos dessas duas gigantes personalidades. Quando Trotsky foi deportado para a Turquia, o passaporte que as autoridades soviéticas lhe deram discriminava como profissão: escritor. De fato, ele foi um grande escritor. Se a definição dos burocratas provoca risos é porque Trotsky foi muito mais do que um escritor. Ele escrevia com facilidade, sendo capaz de ditar várias horas sem interrupção. Depois voltava a ler e corrigir com cuidado o manuscrito. Para algumas de suas grandes obras, como a “História da Revolução Russa”, foram escritos antes do texto definitivo dois projetos preliminares, mas, na maioria dos casos, há apenas um projeto. Sua enorme produção literária, que compreende os livros, panfletos, inúmeros artigos, cartas, ligeiras declarações à imprensa e as notas de todos os tipos é, seguramente, desigual. Algumas partes são mais trabalhadas que outras, mas nenhuma frase é descuidada. Pode-se tomar aleatoriamente quaisquer cinco linhas desta formidável obra escrita e ali se reconhecerá sempre um Trotsky inimitável. O volume também é impressionante, dando testemunho de uma força de vontade e uma capacidade de trabalho pouco comuns. Foram catalogados de Lenin trinta volumes como obras completas, além de 35 outros volumes de correspondências e notas diversas. Trotsky viveu sete anos a mais que Lenin, mas seus escritos, de seus grandes livros até suas breves notas pessoais, sem dúvida, compõem um volume três vezes maior. Nos onze anos e meio de sua terceira emigração ele produziu uma obra que honrosamente valeria pelo trabalho de uma vida inteira. Pode-se dizer que a caneta nunca abandonou sua mão, e que mão! ELE VIVE EM SEUS LIVROS Trotsky colocou tudo de si em seus livros. O contato pessoal com o próprio homem não modificava, mas aprofundava e tornava mais precisa a impressão que surgia a partir de uma leitura de suas obras: paixão e razão, inteligência e vontade, todos realizados a um grau extremo, mas ao mesmo tempo misturando um no outro. Em tudo que Lev Davidovich fazia tinha-se a sensação de que ele tinha jogado todo o seu ser. Muitas vezes ele repetiu as palavras de Hegel: Nada de grande se faz neste mundo sem paixão. Ao mesmo tempo, ele só tinha desprezo para com os filisteus que criticavam o “fanatismo” dos revolucionários. Mas a inteligência sempre esteve presente, em perfeita harmonia com o ímpeto. Nisto não havia qualquer sombra de contradição: a vontade era invencível porque a razão enxergava muito além. Seria necessário citar Hegel mais uma vez: Der Wille ist eine besondere denkens weise des. 6 Notas 1. Dora, comumente chamada Fanny Kaplan, atingiu a cabeça de Lênin com uma bala quando ele saía de uma reunião em uma fábrica no dia 30 de agosto de 1918. É possível que a seqüela causada por este tiro tenha sido a origem direta da morte prematura de Lênin. 2. Detida pelos Firecorps “Cuerpos-Francos” sob as ordens do ministro socialista da guerra, Gustavo Noske (1868-1946), Rosa Luxemburgo (1870-1919), dirigente do partido social democrata de Polônia, inspirou a “esquerda” alemã a fundar o grupo Spartacus e depois o Partido Comunista, foi assassinada a golpes de fuzil e seu cadáver foi jogado em um canal, só sendo descoberto meses mais tarde. 3. Singleness of purpose: singularidade de propósito 4. Trata-se de Georges Cuvier (1769-1832) 5. Mujique: camponês russo 6. Der Wille ist eine besondere denkens weise dês: A vontade é uma função particular de pensamento.

LC CONTRIBUI COM DIVULGAÇÃO DE AUTOR TROTSKISTA NO MIA
Tradução realizada pela Liga Comunista abre seção de Jean Van Heijenoort em português no Marxists Internet Archive

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Liga Comunista teve a honra de abrir a seção em português do Marxists Internet Archiv de Jean Louis van Heijenoort Maxime (pronuncia-se highenort). Heijenoort ou JvH (23 de julho de 1912, Creil França - 29 de março de 1986, Cidade do México) foi o secretário pessoal de Leon Trotsky entre 1932-1939, militante trotskista, historiador e pioneiro da lógica matemática. Traduzimos pela primeira vez para o português o belíssimo texto “Lev Davidovich” de Heijenoort, sobre o ESTILO e o MÉTODO de Trotsky, escrito em agosto de 1941, um ano após o assassinato do grande revolucionário russo. O artigo que traduzimos foi publicado pela revista Fourth International, Vol.II No.7, pp.207-209. Até agora, os escritos do autor, inclusive no MIA, eram inéditos em português. A LC agradece pela publicação e edição em HTML dos textos no MIA a Alexandre Linares e Fernando Araújo, o primeiro voluntário e o segundo administrador da seção em português do Arquivo. Publicamos o texto de Heijenoort em memória de Trotsky ao completarem-se 71 anos de seu assassinato por um agente stalinista sob o texto introdutório: “Dedicar a vida à construção do partido trotskista internacional do proletariado é a única homenagem justa a Lev Davinovich”. Esperamos com esta iniciativa contribuir a partir de nossas modestas forças para a divulgação do marxismo revolucionário de nosso tempo, o trotskismo. O QUE É O ARQUIVO MARXISTA NA INTERNET? O Arquivo Marxista na Internet é a mais completa coleção de textos virtuais de esquerda. O MIA (em inglês), cujo endereço é www.marxists.org, é uma biblioteca virtual multilíngue impulsionada pelo trabalho completamente voluntário e sem fins lucrativos, uma biblioteca pública na internet criada em 1990.

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PREPARAR A DERROTA DO GOVERNO CARNICEIRO E FANTOCHE DO CNT/OTAN!

TODO APOIO À RESISTÊNCIA ANTIIMPERIALISTA LÍBIA!

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Reproduzimos abaixo a declaração do Comitê Antiimperialista, do qual a LC faz parte, acerca do assassinato de Kadafi

execução sumária, com requintes de crueldade, humilhação e linchamento de Kadafi, um homem com quase 70 anos e, seu filho e de mais 53 de seus partidários pelos mercenários do CNT, contratados pela coalizão invasora, depois que foram interceptados e alvejados por caças franceses da OTAN, capturados e desarmados, foi um dos capítulos mais sanguinários do golpe de Estado maquiado da bárbara recolonização da Líbia. Além de se apossarem das reservas da Líbia, as maiores do continente africano, os EUA, França, Inglaterra e Cia buscam, como no Iraque, tirar proveito da destruição que causaram depois de bombardear o país por 216 dias a partir da resolução de impor uma zona de exclusão aérea aprovada na ONU. A infraestrutura das cidades líbias foi arrasada por ataques da OTAN e as construtoras multinacionais, principalmente ianques, se apresentam agora para estabelecer contratos financiados pelos Estados imperialistas “para reconstruir a Líbia”, ao mesmo tempo em que imporá sobre a população líbia uma dívida impagável. E os fantoches do CNT como Mahmoud Jibril estão recebendo sua gorjeta como sócios menores desta pilhagem. Para garantir o aumento da pilhagem do país a fim de saciar os vorazes apetites imperialistas, o novo governo fantoche tratará de acentuar a superexploração do proletariado negro africano que trabalha na Líbia e foi uma das primeiras vítimas do terror das hordas lumpens mercenárias de Bengasi. Desde o primeiro momento, o Comitê Antiimperialista condenou a armação golpista orquestrada pelo imperialismo na esteira dos levantes populares na Tunísia e no Egito. Não caímos no conto dos falsos “rebeldes” da CIA. O Comitê Antiimperialista soube muito bem discernir de que lado ficar na guerra entre o imperialismo e um país oprimido, independente do regime que governa este país oprimido. Com esta clareza, decididamente organizamos um importante debate onde compareceram 22 organizações políticas, esta atividade foi seguida de um altivo ato de rua no centro da capital paulista exigindo “Fora o Imperialismo da Líbia!” e Fora a ONU e o exército brasileiro controlado por Lula e Dilma do Haiti, no dia 04 de junho. O Comitê não reivindicou o governo burguês de Kadafi, menos ainda sua trajetória política nos últimos 20 anos, quando depois de ter realizado progressivas nacionalizações do petróleo líbio contra os interesses do imperialismo, ele se reaproximou do grande capital financeiro mundial. A morte dele não o redime destes erros nem da vacilação por retardar o armamento da própria população líbia diante da eminência do ataque dos mercenários da CIA sediados em Bengasi. Mas não podemos deixar de reconhecer a exemplar escolha de Kadafi, que poderia ter fugido do país, se exilado, porém, conforme ele havia jurado desde os primeiros dias dos ataques da OTAN, lutaria até a morte com seu povo contra os invasores e traidores e terminou seus dias combatendo na cidade onde nasceu, Sirte, ao lado dos combatentes que o seguiam, contra a ditadura mais sanguinária já instaurada sobre a terra, a ditadura do estado imperial ianque. Mesmo depois da queda da capital do país, Trípoi, nos últimos dois meses a resistência antiimperialista resistiu heroicamente nas cidades de Bani Walid e Sirte. Vale destacar que Kadafi nasceu sob ocupação fascista italiana e morreu sob ocu-

pação da OTAN. O paralelo não pode ser desperdiçado, incluindo os fatos de a Itália de Berlusconi ter fornecido alguns dos aviões de guerra para a atual coalizão militar que é infinitamente mais poderosa e expansionista que o fascismo de meados do século XX e de que apesar das capitulações de Kadafi, a Líbia era ainda o único país do norte da África que não fazia parte do Diálogo do Mediterrâneo, uma espécie de anti-sala de ingresso na OTAN. Longe do teatrinho cínico feito pela canalha da ONU que finge reivindicar do CNT uma investigação “para saber como Kadafi morreu”, este espetáculo de barbarismo não foi um excesso dos mercenários que supostamente seriam menos civilizados que seus mandantes da Casa Branca e Cia. Foi um marketing do terror do império para assustar adversários como os governos da Síria, Irã, Venezuela, Cuba e Coréia do Norte com o que pode acontecer com eles caso resolvam confrontarse até as últimas conseqüências contra o grande capital imperialista. Por tudo isto, o Comitê Antiimperialista convida ao conjunto dos lutadores sociais e dos agrupamentos políticos comprometidos com a luta antiimperialista no país a organizar atividades de solidariedade e apoio a resistência antiimperialista e antiCNT na Líbia. Nesse sentido, acreditamos que a luta antiimperialista é um passo fundamental da luta contra o capital e todos seus governos pela revolução socialista.
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Aqueles que “uivavam junto com os lobos” e aqueles que tomaram uma posição neutra na guerra contra a Líbia.

Declaração do Comitê de Ligação para a Quarta Internacional (LCFI) 14 de setembro de 2011
“Quem levantou a voz de indignação? Os trotskistas podem reivindicar essa honra. Seguindo o exemplo de seu líder, que pagou com sua vida por sua obstinação, eles lutaram contra o stalinismo até a morte, e foram os únicos que o fizeram. Na época dos grandes expurgos, só podiam gritar sua rebelião no deserto congelado onde tinham sido arrastadas para serem exterminados. Nos campos, sua conduta foi admirável. Mesmo que sua voz tenha se perdido na tundra. Hoje, os trotskistas têm o direito de acusar aqueles que outrora uivaram com os lobos. Não esqueçam, no entanto, que eles tinham a enorme vantagem sobre nós de possuir um sistema político coerente capaz de substituir o stalinismo. Eles tinha algo a que se agarrar em meio a angústia profunda de ver a revolução ser traída. Eles não ‘confessaram’, porque sabiam que suas confissões não serviam nem ao partido nem ao socialismo.” (Leopold Trepper, dirigente da Orquestra Vermelha, organização de espionagem soviética dentro do III Reich no livro de memórias O Grande Jogo, 1972-74)

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amos agora denunciar aqueles que “uivavam junto com os lobos”, usando a mesma ideologia e, muitas vezes, a mesma fraseologia dos mandatários imperialistas para impor a humilhação nacional e subjugação do outro país semi-colonial pelo capital financeiro imperialista. Estes tiveram o seu “04 de agosto” quando tomaram o lado da contra-revolução. Qual o efeito desta orientação destes grupos centristas para a luta de classes se eles não podem buscar a derrota de sua própria classe dominante e seus aliados na guerra contra uma semi-colônia? Qual a perspectiva revolucionária pode agora orientar o trabalho nos sindicatos, nos grupos anti-cortes econômicos, etc. no Partido Trabalhista e na social-democracia se não se pode opor-se ao imperialismo em uma guerra em uma semi-colônia? Na melhor das hipóteses, estes agrupamentos não passam agora de reformistas radicais com tudo o que esta definição implica; capitulação as direções sindicais de esquerda do partido trabalhista e oposição a mobilização das bases proletárias. Se você

não enfrenta o imperialismo em sua mais alta expressão então você também não faz uma luta revolucionária no interior da classe trabalhadora. Que perspectiva revolucionária pode agora orientar a luta contra a ocupação do Haiti liderada pelo Brasil, e contra todos os despejos e toda a repressão impostos pelo capital para lucrar com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil? Devemos construir uma oposição revolucionária dos trabalhadores aos governos como Dilma que se destacam dentre os melhores gestores do capitalismo na América Latina, forçando os trabalhadores a para pagar a crise. Neste momento que a reação triunfante na Líbia prepara novos cortes em gastos públicos contra os trabalhadores em todo mundo, os partidos pequeno-burgueses estão no lado de reação triunfante. Reproduzem com uma maquiagem de esquerda a propaganda de guerra do imperialismo. No século XX, conhecemos os etapismos social-demo-

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crata, menchevique, estalinista e pablista. Eles propunham uma frente oportunista com a burguesia nacional contra o imperialismo, a monarquia e o latifúndio. No início deste século, na guerra pelo domínio da Líbia, nasceu um novo etapismo dentre os grupos de auto-denominados trotskista, um etapismo em favor de uma frente única com o imperialismo, as monarquias e os proprietários de terras tribais contra o regime de Gaddafi e pela recolonização da Líbia . A tática leninista de derrotismo é utilizada pelos revolucionários para impulsionar crises revolucionárias, minando a confiança da classe trabalhadora em sua “própria” classe capitalista. Será que precisamos explicar qual das duas principais classes existentes no globo saiu politicamente fortalecida pela queda de Trípoli? Fazer a pergunta é responder-lhe. Os abutres se reuniram em Paris no início de setembro para fazer a partilha do cadáver econômico e político da Líbia. É uma celebrações prematura pelo imperialismo e seus lacaios os falsos esquerdistas, talvez. Seja como for, todos eles têm seus destinos ligados ao imperialismo agora. Eles não são revolucionários trotskistas, eles vergonhosamente maculam o nome do trotskismo, eles são tão renegados de nossa causa quanto Kautsky foi em seu momento. A LIGA INTERNACIONAL DOS TRABALHADORES - LIT A LIT, corrente dos seguidores políticos na América do Sul do falecido Nahuel Moreno,emitiu uma declaração do Secretariado Internacional da LIT-QI, em 24 de agosto de 2011 com a triunfalista manchete: “Grande vitória do povo líbio e da Revolução Árabe - O povo em armas está destruindo o regime de Kadafi!” E assim continua de modo nauseante rastejam capitulando ao imperialismo até chegar a um trecho avermelhado em que explica em termos “dialéticos” como uma vitória do imperialismo mundial é na realidade uma vitória das forças da revolução mundial... Sendo assim, para a LIT “diante de uma realidade em que Kadafi já não podia conter mais o avanço desenfreado do povo em armas, o imperialismo se apostou em sua queda. Essa é a grande contradição do processo. No meio de uma guerra civil (algo que não ocorreu na Tunísia ou no Egito), o imperialismo se viu obrigado a intervir militarmente para derrubar Kadafi. Mas não pelo fato do coronel ser um “anti-imperialista”, como dizem Chávez e os irmão Castro. Há mais de dez anos Kadafi começou a entregar os recursos petroleiros às multinacionais norte-americanas e europeias. Para o imperialismo, o problema é que Kadafi não podia estabilizar mais o país em meio a uma insurgência popular armada. A contradição é que, no terreno militar, existiu uma unidade de ação entre o imperialismo e as massas para derrubar Kadafi, mas com objetivos totalmente opostos: as massas querem libertar o país da opressão, mas o imperialismo quer deter a revolução para prosseguir o saque das riquezas líbias e do Oriente Médio.” http://www.pstu.org.br/internacional_materia. asp?id=13256&ida=115 O imperialismo que triunfou com o apoio da LIT e d”as massas” (liderados por pró-imperialistas) vai agora começar a contê-las a fim de “continuar saqueando a ri-

Missão “humanitária” dos EUA e OTAN na Líbia, o país que possui as maiores reservas de petróleo da África e a 9a maior do mundo
queza da Líbia e no Oriente Médio”? E os porcos podem voar! É claro que o roubo real começa agora, pois Gaddafi não estava concedendo tudo que eles reivindicavam mas agora eles têm o que querem. Pelo fato da LIT ter recebido alguns trocados da Rainha agora são os homens da rainha, como os vitorianos costumava dizer. A LIT está objetiva e subjetiva de forma canalha internacionalmente a serviço do imperialismo na Líbia. Eles apoiaram diretamente a ocupação da Embaixada da Líbia no Brasil por agentes monarquistas da CIA! O PSTU, o principal partido da LIT, reforçou a invasão desta parte do território da Líbia no Brasil, em Brasília. O PSTU camuflou esta invasão de um país oprimido por forças próimperialistas em nome da democracia “nossos militantes em Brasília estiveram na frente na Embaixada para exigir do governo Dilma a ruptura imediata de relações comerciais e diplomáticas com a Líbia, enquanto perdurar esta ditadura” (site PSTU, 19/08/2011). ALLIANCE FOR WORKERS LIBERTY “A intervenção da OTAN ajudou, impedindo o esmagamento da insurreição em um momento crucial. Isso foi uma coisa boa. Mas esta vitória não pertence à OTAN, que interveio por suas próprias razões. Pertence ao povo líbio que lutou e morreu para se livrar de Kadafi e que permaneceu firme em face de condições muito piores do que nenhum demagogo anti-imperialista da esquerda britânica nunca vai ter de enfrentar... Sabemos que o imperialismo só age em favor de seus próprios interesses, e quando intervém, o faz usando seus próprios e desajeitados meios. Não oferecemos à OTAN nenhum apoio positivo, crença ou confiança. Mas quando uma intervenção é tudo o que existe entre a existência de um movimento revolucionário e sua aniquilação, é irresponsável e moralmente degenerado simplesmente exigir que a intervenção seja suspensa ou se opor sempre a que ela ocorra. Acreditamos que a vitória dos rebeldes justificam essa visão.” (Ênfase nossa) Muitos ex-esquerdistas queixam-se que o imperialismo foi inepto por não bombardear de forma eficaz, daí a crítica de “desajeitado”. Para estes absolutamente canalhas exigir que cessem os bombardeios imperialistas sobre a
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Líbia ou se opor a eles de forma permanente é moralmente degenerado!!! Isto é o que o AWL, apologistas do imperialismo global, do sionismo e dos legalistas na Irlanda, tem a dizer. WORKERS POWER – LFI Em um documeto que só poderia ser escrito por alguém sem qualquer lealdade ao trotskismo ou sequer sem recorrer a fontes distintas da propaganda da Sky News ou a da BBC, o WP, em nome da sua Liga Internacional para a Quinta Inter-nacional (LFI) produziu adeclaração seguinte em 22 de agosto, “A vitória da primeira fase da Revolução Líbia. A revolução na Líbia está realizando um enorme avanço. A combinação de uma revolta em Trípoli e um avanço rápido por combatentes rebeldes na cidade tomou grande parte da capital da Líbia de Kadafi e de seu regime assassino. O avanço dos rebeldes em Tripoli foi aparentemente ajudado pela deserção do comandante das defesas da cidade, que secretamente acordaram com os rebeldes em abrir os portões e recuar suas forças. Ambos osfilhos de Kadafi foram capturados.” Isto é uma completa mentira. Aparentemente, nosso autor não percebeu todos os bombardeiros da OTAN ou mesmo ninguém lhe avisou sobre todas as forças especiais e tropas do Qatar e Emirados Árabes Unidos dirigindo sua “revolução”. Então, eis que ele aponta o dedo para que não se ignore os ‘perigos’, “agora a questão é como será uma Líbia pós-Gaddafi. Como se pode fazer para impedir que os imperialistas da OTAN, que apoiaram o CNT baseado em Benghazi, roubem os frutos da revolução? Há uma ameaça muito real de que as potências da OTAN imponham um governo pró-ocidental na Líbia, liderado por ex-funcionários, militares, policiais e agentes de segurança do antigo regime. Defender a independência da Líbia contra o Imperialismo é a próxima etapa da revolução”. Assim, “Há uma ameaça muito real de que as potências da OTAN irão impor um governo pró-ocidental sobre a Líbia”. Será que eles não fazem isso desde fevereiro sem nenhuma oposição aparente para além de uma bandeira anti-intervenção “Não intervenção estrangeira - Pessoas da Líbia pode controlá-lo sozinho” muito provavelmente plantada pela CIA? Alguns dos grupos de maior dimensão que apoiam os rebeldes estão agora tentando colocar uma maquiagem sobre suas próprias traições, avisando sobre os perigos que ameaçam o novo governo sob um relativo controle dos rebeldes. SOCIALIST APPEAL (IMT) Durante a reportagem sobre a queda de Trípoli do Socialist Appeal (IMT, CMI em português, representados no Brasil pelo grupo petista “Esquerda Marxista”) não há qualquer menção a presença de qualquer uma das Forças Especiais e trata de minimizar a influência do imperialismo na guerra. Dizem-nos, “Sem esta cobertura aérea a tarefa dos rebeldes teria sido mais difícil. No entanto, não se trata de um caso em que a OTAN ganhou a guerra. A guerra foi travada e vencida pelos combatentes

rebeldes em terra. Este é um fato importante e que vai determinar o que acontece nas próximas etapas.” Uma mentira óbvia, sem a OTAN, seus “rebeldes” teriam perdido dentro de uma semana. Eles, então, dizem “O povo líbio não lutou para remover um bando de corruptos gangsteres apenas para substituí-los por outra, gangue ainda mais predatória. Trabalhadores e a juventude da Líbia! Vocês tem demonstrado sua coragem e capacidade de suas ações. Não permita que ninguém arrebate a vitória de suas mãos. Confiem somente a si mesmos, em sua própria força e em suas próprias organizações revolucionárias! A derrubada de Gaddafi foi apenas o primeiro passo. A verdadeira revolução líbia começa agora.” A contra-revolução triunfa e o IMT apenas espera que o mundo não lembre que ele ajudou a impor ao povo da Líbia essa tragédia que se desenrola agora. THE SOCIALIST PARTY (CWI) O Partido Socialista (CIO, cuja seção brasileira é a corrente LSR do PSOL), estão entre os que mais alertam: “Enquanto muitos líbios celebrando estão, os socialistas são claros, ao contrário da expulsão de Ben Ali na Tunísia e Mubarak no Egito, a maneira pela qual Gaddafi foi removida significa que esta vitória para o povo líbio também foi um sucesso para imperialismo. Sem a ação da OTAN como força aérea dos rebeldes ou sem os soldados, as armas, a organização e treinamento que a OTAN e alguns outros países, como a autocracia feudal Qatar forneceram, Trípoli não teria caído para os rebeldes da maneira como foi.” Assim, com uma abordagem mais próxima da realidade para o CWI, a “revolução” foi ganha com o apoio do imperialismo. Estes aqui são mais resolvidos que seus antigos companheiros de Socialist Appeal (IMT), mas fica a dúvida de como a “vitória para o povo líbio também foi um sucesso para o imperialismo.” Não pode haver vitória para o imperialismo e vitória da classe trabalhadora ao mesmo tempo, estas vitórias são mutualmente exclusivas, o avanço de um se faz as custas do outro, sua a ‘soma é zero’ ao invés de haver uma situação de vitória mútua, que o CWI sugere. É claro que o uso da palavra “povo” pode significar que eles aceitam que os capitalistas e os trabalhadores têm, em última análise, os mesmos interesses políticos e econômicos em terras distantes. Mas uma vez você paga a primeira parcela da taxa de proteção à máfia ela sempre volta exigindo mais. THE SOCIALIST WORKERS PARTY O partido Socialista dos Trabalhadores tem um problema semelhante com o imperialismo. Tendo apoiado suas tropas de terra são obrigados agora a advertir contra as conseqüências inevitáveis de sua traição, declararam no dia 24 de agosto de 2011: “À medida que entra em colapso brutal regime de Gaddafi ... Não permita que o ocidente seqüestre a Primavera árabe. A intervenção das potências ocidentais é uma ameaça real para as revoluções árabes. Ele permite que os ditadores possam posar como defensores da independência nacional. Na verdade, é o que vivenciam um momento de desgraça, mas têm contado com o apoio do Ocidente ao longo de

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décadas, o que garante sua aderência do imperialismo. Nem a OTAN nem seus aviões podem trazer libertação. A única maneira de ganhar a verdadeira liberdade e democracia é por nossa própria solidariedade, dentro das revoluções árabes. O anti-imperialismo está na pele dos movimentos político árabe. Não podemos separar a luta por liberdades democráticas da luta para derrotar o imperialismo “. Tudo muito bem, mas realmente como você pode agora começar a lutar contra o inimigo que você ajudou a chegar ao poder? Para quem você está dirigindo seu apelo? Para os ex-agentes de Gaddafi, do CNT pró-imperialistas? Ou para os grupos burgueses muçulmanos que agora lutam entre si pelo controle do espólio? Não tem muito o que reclamar alguém que convida um lobo para casa para matar um rato se ele devorar seu filho. O SU, A QUARTA INTERNACIONAL MANDELISTA A teoria apresentada por Gilbert Achcar (que é um “trotskista” dirigente da Quarta Internacional mandelista) é a de que faltam suficientes bombardeios da OTAN, que foi tão flagrantemente discriminatória e mostrou tanta falta de entusiasmo pela “revolução” que, longe de tentar derrubar Gaddafi, a OTAN teria ido realmente ajudá-lo a sobreviver e, assim, subvertendoos objectivos legítimos dos assassinos contratados pelas companhias petrolíferas ocidentais racistas. Trata-se, na verdade de um ataque neo-con, de direita contra o imperialismo, com um verniz muito supervicial de esquerdismo. Na verdade, este é apenas o tipo de apologia ao imperialismo ao estilo de Kautsky que costumava fazer após e contra a Revolução Russa. Aqui Achcar amargamente se queixa da falta de bombardeios, aprovando a seguinte citação do “Spectator”: “Andrew Gilligan poderia escrever em conformidade com o The Spectator (04 junho): Para todos os rituais encantamentos sobre a intensificação dos ataques e “bombardeios mais pesados ainda,”Os bombardeios são e sempre foram relativamente leves. Em toda a operação, o número de saídas de ataque da OTAN somente uma parte resultou realmente em ataques aéreos, tendo uma média de 57 por dia, menos da metade do número de uma missão muito semelhante da aliança em Kosovo,e uma mera fração do que os EUA e Grã-Bretanha fizeram no Iraque.” A POSIÇÃO DO NOVO PARTIDO ANTI-CAPITALISTA NPA Quanto ao Novo Partido Anti-Capitalista, Kumaran Ira relatou no site WSWS em 06 de setembro “Parte do Novo Partido Anti-Capitalista francês (NPA) aplaudiu a guerra da OTAN para derrubar o regime do coronel Muammar Gaddafi na Líbia, elogiando-a como uma vitória da democracia. Em 22 de agosto, o NPA publicou um comunicado, “Gaddafi caiu, agora a decisão está com o povo.” Declarou ainda: “A queda do ditador Kadafi é uma boa notícia para o povo. O NPA está em plena solidariedade com o processo revolucionário que está em andamento na região árabe.” A alegação do NPA de que a queda do regime Gaddafi pela intervenção imperialistada e da OTAN é “boa notícia “ e um”processo revolucionário”, não

passa de uma “mentira política reacionária”. Na verdade, o direitista presidente Sarkozy da França pôs em prática todas as exigências do NPA nesta guerra, reconhecendo o CNT como o governo legítimo da Líbia, fornecendo armas aos rebeldes e auxiliando-os nos bombardeios contra os bravos soldados líbios que lutaram contra todas as probabilidades esmagadora em defender seu país contra a agressão imperialista. Apesar de terem criticado Gilbert Achcar, por vezes, eles não são essencialmente diferente dele. Nós concordamos com a conclusão do artigo WSWS: “Em última análise, a posição básica do NPA na guerra da Líbia não é diferente da dos setores mais poderosos e reacionários do imperialismo mundial. Como o governo Bush fez enquanto invadiu o Iraque, o NPA avança a mentira de que a guerra imperialista pode ajudar a trazer uma mudança democrática. Ele colocou-se diretamente no campo da reação social.” FLTI A FLTI (LOI / Argentina - WIVL / África do Sul) raivosamente ataca as posições trotskistas do RMG-LC-SF de forma a apresentar os mercenários da OTAN como “revolucionários”. E eles dizem tantas mentiras hilariantes: “Com a ajuda da inteligência e logística para a Quinta Frota dos EUA e do exercito imperialista ianque Kadaffi tenta esmagar o surto heróico revolucionário das massas” (OOI12, Parte II). Como sob efeito de delírios tremens a FLTI acredita que o imperialismo está patrocinando Gaddafi e ao mesmo tempo a insurreição para derrubar Gaddafi! “Estes professores vermelhos do Qina Msebenzi, do Socialist Fight e da Liga Comunista, querem nos fazer crer que o imperialismo deseja derrubar o seu homem forte na Líbia” (Qina Msebenzi, Socialist Fight e a Liga Comunista do Brasil marcham com o agente do imperialismo Gaddafi contra as massas Líbias) “As massas quebraram as instituições estatais no Oriente (algo que pegou de surpresa o imperialismo) e quando eles estavam marchando o imperalismo enviou mercenários do Chade e do Níger para impedir a queda de Gaddafi.”(Ibid.) “Embora haja uma influência pequeno-burguêsa nas milícias que dão suporte a invasão da OTAN, há uma ala esquerda que é abertamente contra Gaddafi, contra qualquer intervenção por parte da OTAN e é contra o capitalismo.” (Ibid.) “A intervenção do imperialismo foi abertamente contra as massas e para apoiar o regime de Gaddafi.” (Ibid.) “Os bolcheviques nunca pediram as armas para Kerensky” (ibid.). Recordemos que de fato Lenin não apenas reivindicou que Kerensky armasse aos operários como pôs em primeiro plano fazer um conjunto de outras reivindicações ao mandatário burguês:
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“Pomos em primeiro plano a intensificação da agitação em favor do que poderíamos chamar de “exigências parciais” a Kerensky: que prenda Miliukov, que arme aos operários de Petrogrado, que convoque as tropas de Kronstadt, Vyborg e Helsingfors a Petrogrado, que dissolva a Duma do Estado, que prenda Rodzyanko, que legalize a transferência das terras dos latifundiários aos camponeses, que introduza o controle dos trabalhadores sobre o trigo e as fábricas, etc., etc.” (Escrito em agosto 30 (12 de setembro), de 1917) http://www.marxists.org/archive/lenin/works/1917/ aug/30.htm. O bizarro caso da FLTI prova que o oportunismo triunfalista em excesso é ruim para a lucidez e para a verdade e é bom para a imagem do imperialismo e seus agentes. Parafraseando Trotsky, mentiras delirantes elevadas a este nível é igual a traição da causa anti-imperialista e do leninismo. Mas e quanto as outras correntes, as que tomaram uma posição “neutra” entre os rebeldes e Gaddafi e declararam como esta a essência do anti-imperialismo. Na categoria deste ‘terceiro campo’ vamos encontrar a Organização Socialista Revolucionária (RSO), o Lutte Ouvrière da França, o Partido da Igualdade Social (SEP, WSWS) e a declaração conjunta da Liga para o Partido Revolucionário (LRP-EUA) e a Liga Socialista Internacionalista (Israel / Palestina Ocupada). ORGANIZAÇÃO SOCIALISTA REVOLUCIONÁRIA RSO A germanófila Organização Socialista Revolucionário (RSO) está baseada na Áustria, Alemanha e Suíça, com laços estreitos com o Lutte Ouvrière da França. Sua posição com relação a Líbia é semelhante a de LO e na prática é neutralista. As Teses do RSO- sobre Anti-imperialismo de 19 mai 2007 se apoiam, obviamente, nos princípios da obra de Stuart King: “A Frente Única AntiImperialista”: um debate com o GOR 30/03/1986. No entanto as “Teses” definem a Frente Unida Anti-Imperialista - AIUF muito estreitamente, sem, portanto, excluir a possibilidade abstrata de uma Frente Única Anti-imperialista, na acepção do IV Congresso Mundial a solução deve afinal ser atribuída, a um papel muito limitado, mesmo na propaganda.” Mas isso é uma posição que poderia ser argumento de em uma única organização ou de grupo International. No entanto, ao contrário do Coletivo Revolução Permanente e do WP (com quem eles não têm relações agora) o grupo, obviamente, tem tais dificuldades internas que fazem com que eles sejam incapazes de tomar qualquer posição concreta sobre a Líbia agora. Sua primeira declaração foi escrita por Stefan Horvath (do RSO de Viena) em 23 de Fevereiro de 2011 e foi feita na medida suficiente para alguém que, obviamente, sabia pouco sobre o país, mas estava tentando dizer algo. Ela terminou com o seguinte: “Existem ainda menos organizações independentes da classe trabalhadora aqui do que no Egito ou na Tunísia, e muito menos partidos operários revolucionários nacionais. E por isso será difícil dirigir a revolução em uma direção socialista. No entanto, se o movimento de mas-

sas na Líbia tiver sucesso para derrubar o odiado chefe de Estado, será mais um marco no desenvolvimento da consciência dos oprimidos na região árabe. E isso não deve ser subestimado.” Bem que poderíamos desculpar o fato de que se suponha que o RSO não conhece a história da região e não tenha notado o entusiasmo com que o imperialismo mundial e a reação árabe estavam apoiando os rebeldes. Nós não obtivemos outra declaração até um mês depois, e esta afirmação tinha ridiculamente evitado todas as controvérsisa inteiramente. “Os governos ocidentais e os seus jornalistas estão mais uma vez com discurso humanitário. Os interesses, no entanto, são sólidos: gás, petróleo natural, controle estratégico da região e se livrar de um regime suspeito. Somos contra esta campanha militar imperialista e espero que ele termina em desastre para os cavalheiros, em Paris, Washington, etc. Nossas posições básicas sobre o antiimperialismo pode ser encontrada aqui.”quarta - feira março 23, 2011, (link para RSO AIUF Teses). E então concluiram. Não há mais nada a dizer sobre a Líbia além de um apelo em defesa dos refugiados, nem mesmo falam da queda de Tripoli. Se você tem uma teoria, você tem que aplicar a sua teoria para a realidade concreta e dizer onde você está se posicionando. A respeito à posição da Lutte Ouvrière - LO, na prática, uma posição neutra entre os rebeldes e Gaddafi, a RSO tem sido incapaz de tomar qualquer posição sobre esta questão mais vital para a classe trabalhadora mundial que dividiu a esquerda internacional entre apologistas do imperialismo e dos rebeldes da OTAN e lutadores princípios trotskistas anti-imperialistas. Dessa forma existe um abandono total do dever internacionalista por parte RSO. A LUTTE OUVRIÈRE - LO O NPA é muito semelhante ao Partido Comunista da França em seu chauvinismo belicista de apoio a aventura imperialista na Líbia. LO, em contraste, parece ser muito de esquerda. Eles não têm organizado manifestações contra a guerra ou reivindicado qualquer tipo de greve, mas eles têm forte oposição ao bombardeio. O LO pontuou que a classe operária era centralmente envolvida nas lutas contra as ditaduras pró-ocidental na Tunísia e no Egito, ainda que sob a liderança das classes médias, mas como Lutte de Classes aponta na Líbia a classe trabalhadora é; “Em grande parte composta de imigrantes vindos de países vizinhos e do resto da África, da Turquia, de Bangladesh ou na China, e foi devastada pelos efeitos da guerra civil e encontra-se completamente atomizada e muitas vezes forçados a fugir dos bombardeios imperialistas e dos pogroms dos quais são vítima de todos os lados, especialmente da oposição a Gadafi”. Mas o LO é muito complacente com os “rebeldes”. Eles dizem que a “ajudar aos rebeldes dá algum crédito aos discursos democrático do líderes imperialistas”, É incrivelmente ingênuo pensar que estes mercenários possam atribuir este crédito aos imperialistas, como se os primeiros estivessem realmente trazendo “a liberdade e a democracia” para o país. E eles não criticam a

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Líbia, 1911 - 2011, da colonização italiana, que veio a ser comandada pelo fascista Mussolini, a recolonização pelas mãos da reação Obama-Cameron-Sarkozy-OTAN-CNT, apoiada pelos pseudo-trotskistas do século XXI postura reacionária do NPA e do PCF. LO nem mesmo defende a derrota militar para a própria classe dominante nesta guerra ou um chamado para uma frente única Antiimperialista com Gaddafi contra ambos os rebeldes e a OTAN. Karl Liebknecht dizia que o principal inimigo está em casa, mas, aparentemente, não é assim para o LO. A DECLARAÇÃO CONJUNTA LRP/EUA – ISL/ISRAEL Em declaração conjunta no dia 08 de abril a Liga pelo Partido Revolucionário (EUA) e a Liga Socialista Internacionalista (Israel / Palestina Ocupada), defendem a seguinte posição: “As massas de forma típica lançaramse a luta contra os castigos dos líderes pró-capitalistas – mesmo às vezes líderes abertamente pró-imperialista - que não representam os seus interesses. Uma das tarefas dos revolucionários é tomar o lado das massas, sempre que eles estão lutando em sua auto-defesa e para fins progressivos, não importa o quanto elas estão sendo enganadas. Mas os revolucionários fazem isso sempre com o propósito de não só construir a melhor defesa imediata, mas também para expor o papel traidor dos líderes pró-capitalistas e suas idéias. Em termos de uma abordagem geral revolucionária, a luta na Líbia não é exceção.” Em 08 de abril já estava muito claro que lado o imperialismo mundial apoiava e por o porquê, eles começaram a bombardeio em massa em 19 de março. Vamos descartar com desprezo a noção absurda de que o imperialismo apoiou a “revolução”, a fim de derrotá-la. Este argumento é tão errado porque ignora o apoio das massas pelo imperialismo e sua intervenção e toma como prova de
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anti-imperialismo dos “rebeldes de Bengasi” uma única bandeira que diz: “NÃO INTERVENÇÃO ESTRANGEIRA - O.Povo líbio pode resolver isso SOZINHO” Isto foi certamente fornecido pela CIA e TODOS os rebeldes apoiaram a resolução “Zona de Excluxão Aérea” e aqueles que se opunham rapidamente aprenderam a manter suas bocas fechadas para permanecer vivos. Também em Bengasi, os linchamentos e decapitações de trabalhadores negros tornaram-se comuns, o que ainda está em curso no território controlado pelos rebeldes. E como pode ser possível se referir a rebeldes como “as massas” e não considerar as massas pró-Gaddafi, que eram reconhecidas como a massa da população da Líbia antes da queda de Tripoli? Não havia nenhuma possibilidade de que os rebeldes poderiam mobilizar qualquer coisa como dois milhões de manifestações em Tripoli antes que ela caísse, e lembre-se aqueles eram manifestações corajosas do antiimperialismo em uma cidade sitiada. E realmente camaradas não podemos pensar em uma única instância de uma luta contra o imperialismo onde “As massas de forma típica lançaram-se a luta com líderes pró-capitalistas – mesmo às vezes líderes abertamente pró-imperialista - que não representam os seus interesses.” Usando a palavra “luta” aqui ordenadamente evita perguntar pelo que elas estão lutando? Mas é claro que as “massas” neste caso estão lutando do lado do imperialismo, que é “sua luta”, e é dever de todos os trotskistas sérios se oporem a essas massas reacionárias e contra-revolucionárias . “Através de sua intervenção militar, os imperialistas se inseriram na luta como o principal inimigo geral e a classe trabalhadora internacionalista defende a sua derrota, apoiando ações de protesto contra a intervenção e de oposição a todos os passos para a tomada do poder por forças como o CNT, que apoia-se no imperialismo. Em vez disso, os revolucionários têm que continuar a lutar para a organização independente dos trabalhadores e dos oprimidos na Líbia, e mais do que nunca defendem a estratégia de trabalhadores internacionais a “Revolução é a única solução.” A linha de defesa da estratégia revolução de trabalhadores internacionais como a única solução em oposição aos frente única militar anti-imperialista foi denunciado por Trotsky, assim, “Na minha declaração para a imprensa burguesa, eu disse que o dever de todos os trabalhadores organizações da China era a participação ativa e na linha de frente da guerra contra o Japão, sem abandonar, por um momento, o seu próprio programa e sua atividade independente. Mas isso é “social patriotismo!” gritam os Eiffelites. “É capitulação à Chiang Kai-shek! É o abandono do princípio da luta de classes! ... A única salvação dos operários e camponeses da China é a luta de forma independente contra os dois exércitos, contra os exercitos chineses da mesma forma contra como os exércitos Jopaneses”. Estas quatro linhas, tiradas de um documento eiffelite de 10 de

setembro de 1937, basta inteiramente para nós dizer: estamos diante de verdadeiros traidores ou de imbecis completos. Mas imbecilidade, elevado a esse grau, é igual a traição, “(grifo nosso) DECLARAÇÃO CONJUNTA HWRS, CWG, RWG, RKOB O grupo dos Trabalhadores Humanista para o Socialismo Revolucionário – HWRS (EUA), o Grupo dos Trabalhadores Comunistas – CWG (Aotearoa / Nova Zelândia), o Grupo Revolucionário dos Trabalhadores RWG (Zimbabwe) e a Organização Revolucionária Comunista para a Libertação, RKOB (Áustria), elaboraram uma declaração conjunto. Mas logo ao olhar esse documento sentimos o quanto ele é absolutamente hilário e reacionário. “Os revolucionários líbios que haviam tomado uma firme posição anti-imperialista nos primeiros dias da rebelião tinham pequenas chances contra o semi-fascista Gaddafi, exceto estabelecer um bloco militar com a OTAN. Neste ponto, o regime semi-fascista de Gaddafi foi derrotado pela insurreição. Isto continua acontecendo na medida em que os revolucionários (!) nutrem ilusões no imperialismo ‘democrático’ ou o quando a sua oposição ao imperialismo assume a forma de radicalismo islâmico.”(Ênfase nossa). Para derrotar o CNT e seus aliados imperialistas as forças revolucionárias devem continuar a luta armada neste momento diretamente contra o imperialismo e todas as facções pró-imperialistas da burguesia nacional que facilitam a rapina imperialistas atraves das concessões, para finalmente conquistar a independência nacional e dar o exemplo para outros Estados árabes em suas revoluções nacionais anti-imperialistas em curso. Nota do RKOB: “... Acreditamos também que a frase “Os revolucionários da Líbia (...) tinham pouco a escolha a não ser entrar em um bloco militar com a OTAN contra o semi-fascista Gaddafi”- está errada. Na verdade, foi uma fraqueza dos Rebeldes não possuir uma estratégia alternative e não emitir um forte apelo para os movimentos de massa nos países árabes e para o movimento operário internacional de voluntários por ajuda material e militar.” 10 de setembro de 2011. Assim, o RKOB assinou uma declaração enquanto discordava fundamentalmente com ela! E os “revolucionários” da CIA não apelaram para a classe trabalhadora porque a lincharam e a decapitaram desde o primeiro dia da”revolução” quando já possuiam um aliado muito melhor, o imperialismo mundial. É claro que “o regime semi-fascista Gaddafi” foi derrotado pela OTAN, e pelos rebeldes contra-revolucionárias, cujo apoio popular nunca foi provado, não teriam nenhuma chance sem os bombardeiros da OTAN. Esperamos que esta avaliação da crise do trotskismo tenha ajudado aqueles que desejam lutar pelo trotskismo, ortodoxo e genuíno leve você a rejeitar os arqui-reacionários que uivavam juntamente com os lobos e também aqueles que não puderam tomar uma posição de princípios em defesa de uma Frente Única Anti-Imperialista com a Líbia contra o imperialismo mundial.

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LÍBIA

A queda de Trípoli revela o novo equilíbrio mundial de forças entre as classes
Declaração do Comitê de Ligação pela Quarta Internacional - CLQI , 18 de setembro de 2011

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a noite de 21-22 de agosto de 2011, Trípoli caiu para os “rebeldes” do CNT, agentes do imperialismo mundial, com o auxílio de bombas da OTAN, das Forças Especiais de vários países imperialistas e das tropas envidadas pelo Qatar e pelos Emirados Árabes Unidos. Apesar do fato de que segue existindo uma potencial resistência, é claro que a OTAN e os seus lacaios, os rebeldes do CNT, desferiram um duro golpe contra a independência da Líbia. Nós não sentimos nenhuma satisfação em ter as nossas piores previsões confirmadas. Na DECLARAÇÃO AOS TRABALHADORES DO MUNDO E À SUA VANGUARDA INTERNACIONALISTA, da Liga Comunista do Brasil, Grupo Revolucionário Marxista da África do Sul e Luta Socialista da Grã-Bretanha, 21 de abril de 2011, nós dissemos:

“A maior prova de que os “rebeldes” líbios não passam de carniceiros agentes do imperialismo é o fato de invocarem o bombardeio da OTAN contra o seu próprio povo, como fizeram os colaboracionistas em todos os momentos da luta de classes, desde Thiers na Comuna de Paris (1871) até o Líbano (2006). A cada dia que passa fica mais evidente que os agentes nativos do imperialismo são meros abrealas para a intervenção multinacional no país. São racistas e xenófobos, inimigos da classe operária negra africana que trabalha na Líbia. Em nome da caçada aos ‘mercenários de Gadafi’, perseguem os negros para de fato desvalorizar ainda mais a força de trabalho no país, preparando-a para a super-exploração da nova era de extrema rapina imperialista. Os ‘rebeldes’ líbios são um bando burguês, de trânsfugas do regime Gadafi a serviço do grande capital internacional.”
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vencido, Assad e outros tiranos teria se fortalecido para reprimir com maior vigor.” O que nós temos a dizer sobre isto? Que certamente esta não é a situação atual. Como Trotsky explicou muito bem sobre a Abissínia, China e Brasil (de maneira hipotética), em 1936, 1937 e 1938, respectivamente. Qualquer vitória do imperialismo reforça o chauvinismo e a reação propagados pela burocracia sindical sobre a classe operária das metrópoles onde o imperialismo deve ser fundamentalmente derrotado, abalando assim o avanço da luta da classe operária mundial. Esta vitória também fortalece as direções pró-imperialistas em todos os demais países envolvidos na “Primavera árabe”. Esta vitória só pode apontar na direção de nossa derrota. O argumento de que a derrota de Gadafi vai permitir que a classe trabalhadora se organize como classe nesta região ignora o fato de que a classe operária é uma classe global; e um ataque sobre seus setores mais organizados não vai facilitar a ação dos demais. Este foi um argumento utilizado por boa parte da vanguarda para aderir a Ieltsin em 1991. Quem considerando-se um marxista sério não reconhece agora que aquele acontecimento [o fim da URSS pela mão de Ieltsin] foi uma vitória para o neoliberalismo imperialista e uma derrota para a classe trabalhadora mundial? Não foi por acaso que este outro “04 agosto” para a maioria da esquerda, estes agrupamentos saíram na defesa da “democracia” em detrimento das relações de propriedade nacionalizadas da URSS. [Fazemos referência aqui ao 4 de agosto de 1914, quando o partido mais identificado com o marxismo revolucionário em todo planeta, a social democracia alemã, votou em favor da concessão de créditos de guerra para o Kaiser para patrocinar a Primeira Guerra Mundial e começar sua matança em massa de toda uma geração de jovens para resolver a crise da queda da taxa de lucro. Acreditamos que assim como em 1914 e em 1991, a posição da maioria dos que se dizem marxistas revolucionários sobre a Líbia também foi um “04 de agosto”, uma traição histórica a luta antiimperialista do proletariado mundial]. Na Líbia, uma derrota do imperialismo não o permitiria restabelecer seu status quo. Gadafi seria obrigado a prometer a re-nacionalização da indústria petroleira e a realizar o armamento das massas. Como Trotsky argumentou sobre o Brasil: “Se a Inglaterra saísse vitoriosa, ela colocaria outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. Se o Brasil, pelo contrário, se saísse vitorioso, isto daria um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo, desferiria um golpe

Nós não fazemos qualquer concessão aos apologistas da burguesia nacional do chamado terceiro mundo que procuram embelezar Gadafi, anular ou desculpar seus crimes contra a classe operária e assim marginalizar a luta política internacionalista do trotskismo pela revolução mundial: “Foi a política anti-operária e neoliberal de Gadafi da última década que pavimentou o caminho desta ofensiva reacionária imperialista. Gadafi estabeleceu novos acordos com o imperialismo, destruindo as conquistas dos processos de nacionalização dos meios de produção e das riquezas energéticas pós-1969. Gadafi proibiu os sindicatos e as greves e realizou acordos racistas anti-imigrantes com Berlusconi, patrocinou a campanha eleitoral do fascistóide Sarkozy, privatizou e fez leilões com as riquezas energéticas da Líbia. Deste modo, o caudilho de Trípoli perdeu popularidade junto à população líbia e africana e alimentou o apetite de setores da burguesia nativa em negociar diretamente com o imperialismo, livrando-se do Clã Gadafi.” Há hoje entre as organizações de esquerda uma idéia muito difundida: “Apesar das contradições do processo, a vitória dos rebeldes na Líbia fortalece as chances da revolta na Síria, Iêmen e no Bahrein. Se Gadafi tivesse

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sobre o imperialismo britânico e daria um impulso para o movimento revolucionário do proletariado britânico. Realmente, é preciso não ter nada na cabeça para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre o fascismo e a democracia. É preciso saber distinguir os exploradores, os escravagistas e os ladrões por trás de qualquer máscara que eles utilizem!” (“A luta anti-imperialista é a chave para a libertação”, Uma entrevista de Leon Trotsky a Mateo Fossa, 23/09/1938) O ponto central de nossa declaração anterior foi o chamado a Frente Única Militar Anti-Imperialista (FUMAI). Nossa posição foi leninista porque mantivemos nossa completa independência política do Imperialismo e de Gadafi. Com esta posição, tivemos uma enorme vantagem sobre outros agrupamentos. Honramos o trotskismo enquanto outros “trotskistas” traíram a sua essência. Acreditamos que esta tática dá continuidade no que há de melhor da tradição de frentes defensivas do bolchevismo e do trotskismo: Rússia 1917 (Kornilov), Alemanha 1933 (Adolph Hitler), Abyssinia 1935 (Haile Selassie), China 1937 (Chiang Kai-shek), Brasil 1938 (Getúlio Vargas). É importante abstrair as lições desta luta sobre a Líbia. Este conceito de defesa tem uma vasta aplicação a outras situações similares. A derrota dos Estados Operários ainda existentes da Coréia do Norte e Cuba, de qualquer nação oprimida semicolonial ou das organizações guerrilheiros que combatem militarmente o imperialismo, como os republicanos irlandeses, as FARC colombianas, o Talibã, os combatentes iraquianos, os maoístas na Índia e no Nepal [onde há um setor a romper com os que ingressaram no governo de coalizão burguês], etc. é uma derrota para a classe trabalhadora global na sua luta contra suas próprias classes dominantes. A luta anti-imperialista é uma parte absolutamente essencial da luta de classes. Ao mesmo tempo, não podemos ser identificados com os falsos trotskistas como Michel Pablo, Ernest Mandel, Guillermo Lora, Nahuel Moreno, James Cannon, Joseph Hansen, Pierre Lambert, Pierre Frank, Alain Krivine, Gerry Healy, etc, que ideológica e politicamente capitularam perante o stalinismo e a pequena burguesia nacionalista semi-colonial, como Tito, Mao, Bella Ben na Argélia, Castro, Gadafi, Saddam Hussein, Yasser Arafat, etc. e muitos outros. Temos que marcar as diferenças de classes na nossa orientação de luta contra o imperialismo. Nós reivindicamos de uma forma crítica mas incondicional a defesa dos estados operários burocratizados, das nações oprimidas e das organizações guerrilheiras contra o imperialismo. Esta é a pedra de toque pela qual julgamos todos os movimentos internacionais; a favor ou contra o capitalismo financeiro global, o imperialismo, ou seja, o inimigo principal de todo progresso

da humanidade. Como o Comintern em seu início, nós consideramos esta como uma extensão natural da tática da Frente Única (FU), na luta de classes nacional, com os dirigentes sindicais do movimento operário, em uma frente sem patrões e contra eles sempre que necessário para levar a luta à vitória. Esta é uma frente única da base a cúpula para desmascarar as falsas direções da classe trabalhadora e mobilizar as massas de forma independente para que estas superem sua direção no decorrer da luta. Este é o princípio central da tática de organização das bases nos sindicatos, sem capitular a burocracia sindical, agitar as massas para mobilizar a classe em uma ação combinada com uma propaganda focada em ganhar para o trotskismo a consciência dos líderes naturais da classe que emergem das lutas mais sérias. Por tudo isto, parafraseando as famosas palavras de Leopold Trepper em sua obra “O Grande Jogo: Memórias do dirigente da Orquestra Vermelha, organização de espionagem russa sobre Hitler na Segunda Guerra Mundial” nós podemos dizer: “Entre o martelo do imperialismo mundial e a bigorna do nacionalismo burguês e do revisionismo centrista, o caminho é estreito para aqueles que como nós ainda acreditavam na revolução mundial.” Os comentários do dirigente da Orquestra Vermelha nos dão coragem, inspiração e determinação de lutar para esclarecer e ganhar para o trotskismo as novas forças de que a revolução mundial vistas nas recentes revoltas populares na Grã-Bretanha, na Grécia, na Espanha, no Chile e em outros lugares. Trepper comentou mais tarde, no mesmo livro: “Quem levantou a voz de indignação? Os trotskistas podem reivindicar essa honra. Seguindo o exemplo de seu líder, que pagou com sua vida por sua obstinação, eles lutaram contra o stalinismo até a morte, e foram os únicos que o fizeram. Na época dos grandes expurgos, só podiam gritar sua rebelião no deserto congelado onde tinham sido arrastadas para serem exterminados. Nos campos, sua conduta foi admirável. Mesmo que sua voz tenha se perdido na tundra. Hoje, os trotskistas têm o direito de acusar aqueles que outrora uivaram com os lobos. Não esqueçam, no entanto, que eles tinham a enorme vantagem sobre nós de possuir um sistema político coerente capaz de substituir o stalinismo. Eles tinha algo a que se agarrar em meio a angústia profunda de ver a revolução ser traída. Eles não ‘confessaram’, porque sabiam que suas confissões não serviam nem ao partido nem ao socialismo.”

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NOVA CRISE ECONÔMICA MUNDIAL

O imperialismo enfrenta sua pior crise financeira, econômica e política desde os anos 30

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Declaração do Comitê de Ligação pela Quarta Internacional - CLQI , 15 de setembro de 2011
militares. O orçamento militar dos EUA corresponde a 43% das despesas mundiais, quase seis vezes mais que seu rival mais próximo, a China. Os EUA têm acusado a China de maquiar os seus gastos militares, mas “não existe este tal ocultamento das despesas militares da China”, contestou Li Zhaoxing, porta-voz da Quarta Sessão da 11ª Assembléia Popular Nacional, em 4 de março deste ano, em uma coletiva à imprensa anunciando o orçamento do país. Seja qual for a verdade dessa alegação o grande desequilíbrio nos orçamento militares não pode ser negado. Mas em termos econômicos, o movimento é diferente. Basta ver o gráfico do PIB. A Ásia passa por um forte crescimento, tendo a China na vanguarda. Os EUA e a Europa estão em declínio, não só relativamente, mas em termos absolutos também. Portanto, as rivalidades imperialistas e as tensões continuam a crescer. De acordo com o site de David Marsh, o Observador Econômico, em 22 de agosto de 2011, “A Alemanha foi forçada a fazer uma escolha: nós ou eles?”: “A reunião entre o presidente francês, Nicolas Sarkozy, e a chanceler alemã Ângela Merkel, que trouxe mais promessas de criação de um “governo econômico” (chamado, inutilmente, de “direção econômica” em alemão), previsivelmente não conseguiu acalmar os mercados. Como não há um comprador final capaz de repelir o contágio do mercado de títulos, o assalto viral chegou agora a Berlim. Muitos empresários apoiadores de Merkel estão desconfortavelmente cientes de que o comprometimento da Alemanha e de outros países credores com o endividamento dos outros

s EUA ainda são a única superpotência importante em termos de poderio militar. O bloco da potência imperialista rival e dos países emergentes composto pela Alemanha e pelos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que se absteve de votar a favor de uma zona de exclusão aérea na Líbia na ONU, se vê forçado a aceitar esta situação. A Alemanha, a Rússia e a China foram obrigadas a aceitar que o poder militar dos EUA e seus aliados Grã-Bretanha, França e outros pequenos países europeus imperialistas não pode ser contestado em uma escala global. É claro que este bloco rival é muito mais fraco, pois não tem poder econômico para substituir o dólar e sua força militar nem de longe se aproxima da força militar dos EUA e seus aliados. Existem, fundamentalmente, duas teorias opostas sobre o imperialismo mundial. Como leninistas não acreditamos que seja possível, em última instância, que os conflitos inter-imperialistas possam ser plenamente resolvidos como pensava Karl Kautsky. Estes conflitos conduzirão, inevitavelmente, a uma Terceira Guerra Mundial em que a saída da revolução mundial estará colocada frente à alternativa da barbárie. Acreditamos que a terminologia sociológica de um mundo multi-polar possa agora receber algum crédito, com o declínio do imperialismo estadunidense e a ascensão das economias asiáticas – estas últimas correspondem a quase 36% do PIB mundial, enquanto os EUA e a UE, detém cerca de 20% cada e o resto do mundo aproximadamente 24%. Mas a relação é muito diferente quando se trata de gastos

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forma eficaz impôs uma moratória em sua dívida internacional) cada onça de ouro valia 35 dólares [A cotação internacional do preço do ouro é realizada pela medida da onça troy que equivale a 31,10 gramas de ouro 24 quilates]. Agora a onça troy custa aproximadamente 1.700 dólares [de 1971 a 2011 o dólar se desvalorizou 4.857% frente ao ouro, uma expressão de que o resto do mundo financia a dívida pública dos EUA]. O estabelecimento de uma divisa global baseada no ouro hoje exigiria ouro a um preço muito mais alto e também exigiria a liquidação das dívidas acumuladas ao longo dos últimos 40 anos desde a decisão fatídica de Nixon, o que está fora de cogitação para o imperialismo. Mas, não há alternativa. Preparar o planeta para o estabelecimento desta moeda global significa incrementar a exploração da classe trabalhadora de forma combinada nas metrópoles e semi-colônias, o que exigiria de fato uma III Guerra Mundial, porque a classe trabalhadora não vai tolerar isso e os imperialismos rivais não aguentam continuar sustentando a economia dos EUA através da manutenção do dólar como moeda de reserva global. O resultado da capacidade do Tesouro dos EUA para imprimir dólares em exercícios de “Flexibilização Quantitativa” obriga aos demais países do mundo a pagar as dívidas dos EUA e, portanto, a financiar os enormes gastos militares dos EUA que visam, em última instância, a guerra contra eles. As manobras da França contra a Itália durante a Guerra contra a Líbia revelam o crescimento do protecionismo no pensamento da classe dominante e uma aparente irracionalidade da unidade entre os invasores. Mas, na realidade estes são interesses de classe perfeitamente racionais dos capitalistas que se sobressaem nesta crise. Os EUA estão provocativamente patrulhando o Mar da China Meridional e fomentando a disputa por quatro grupos distintos de ilhas reivindicados pela China. Um artigo recente do jornal estatal China Daily Times descreveu o Mar da China Meridional como um “segundo Golfo Pérsico”. Segundo um artigo do site WSWS sobre a crise entre os EUA

A acumulação e concentração imperialistas se nutre da miséria crescente dos povos oprimidos de todo mundo, inclusive do povo trabalhador estadunidense
estados do euro marca o fim gradual da própria invulnerabilidade econômica da Alemanha.” A lógica da crise está forçando a Alemanha a escolher pela redivisão do bloco europeu, independente do que seja feito. Se for para salvar a Itália e a Espanha, depois do salvamento da Grécia, Irlanda e Portugal - e a França também está em apuros - como se conseguirá evitar a hiperinflação e um colapso econômico? Como Marsh diz: “Wolfgang Reitzle, o bem conceituado chefe da gigantesca indústria de gás Linde, diz que apoia o euro ‘mas não a qualquer preço’. Kurt Lauk, o chefe do Conselho Econômico democrata cristão de Angela Merkel e ex-diretor financeiro do grupo Daimler e da empresa energética Veba (ex-Eon), chega a cogitar uma ‘reforma monetária’ se as medidas de apoio ao euro não surtirem resultado”. A China que está sendo invocada desesperadamente para comprar dívidas públicas europeias a fim de recuperar o valor do Euro, exige uma nova moeda de reserva internacional estável para substituir o dólar. Mas, no momento, há poucas perspectivas de que estes movimentos venham a acontecer. As guerras no Iraque e na Líbia forçaram os regimes a abandonar o dólar. O Iraque segue o Irã e propõe comercializar o petróleo em euros. A Líbia reivindica usar o ouro como reserva para o dinar, pressionando por um novo movimento internacional pela restauração do padrão-ouro para todas as moedas. “SEGUNDO MERGULHO” PÓS-2008 OU UMA NOVA E MAIOR CRISE GLOBAL? Em que estágio se encontra a crise econômica global? É claro que a teoria do chamado “segundo mergulho” não explica nada. O CLQI suspeita que a atual crise expressa o esgotamento de um ciclo marcado pela hegemonia do padrão-dólar. Estamos entrando em uma nova crise do capitalismo global. Quando Nixon abandonou o padrão-ouro em 1971 (e de

Banqueiros, especuladores e a indústria farmacêutica acusam as famílias de desempregados dos EUA de estarem tentanto jogar com o sistema

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Quanto mais o FED pinta papel para pagar os gastos do Estado imperialista, mais o dólar se desvaloriza. A desvalorização da moeda que não possui qualquer lastro a não ser no seu próprio poder bélico é produto das campanhas militares dos EUA.

DESVALORIZAÇÃO INDUZIDA DO DÓLAR DURANTE O SÉCULO XX

e a China em 26 de Julho de 2011: “O Mar da China Meridional é também a passagem principal para as importações energéticas chinesas. Cerca de 80% de todo o petróleo dirigido à China passa pelo Oceano Índico a partir do Oriente Médio e da África, entrando no Mar da China Meridional, através do Estreito de Malaca. Outras economias asiáticas, incluindo o Japão e a Coréia do Sul, são igualmente dependentes da passagem diária de navios petroleiros através do Mar da China Meridional, fazendo a rota naval um ponto estratégico fundamental” Após a guerra imperialista contra a Líbia, a China, que vem sofrendo uma evidente perda de influência e de contratos comerciais naquele país e no restante do continente africano, fez um alerta contundente aos EUA. Segundo o Times da União Européia em 22 de maio de 2011: “A China alertou oficialmente aos Estados Unidos que o ataque planejado de Washington sobre o Paquistão será interpretado como um ato de agressão contra Pequim. Este aviso contundente representa o maior ultimato recebido pelos EUA em meio século, recordando ao alertas da União Soviética durante a crise de Berlim de 1958-1961 e indica um grave perigo de guerra geral crescente para além de um conflito EUA-Paquistão... Imediatamente após a operação que assassinou Bin Laden, respondendo aos repórteres, o representante da China pediu aos EUA que respeite a soberania do Paquistão. O porta-voz da diplomacia chinesa, Jiang Yu, afirmou de forma categórica, na conferência de imprensa de 19 de maio, que Pequim reivindicava que ‘a soberania territorial e a integridade do Paquistão devem ser respeitadas.’” De acordo com fontes diplomáticas paquistanesas citadas pelo Times da Índia, a China “advertiu em termos inequívocos de que qualquer ataque contra o Paquistão seria interpretado como um ataque à China”. Este ultimato teria sido entregue no dia nove de maio no Diálogo Econômico

Estratégico China-EUA em Washington, onde a delegação chinesa foi liderada pelo vice-primeiro-ministro Wang Qishan e pelo Conselheiro de Estado Dai Bingguo. Os avisos chineses estão implicitamente apoiados por mísseis nucleares, incluindo 66 mísseis balísticos intercontinentais, alguns capazes de atacar os Estados Unidos, além de 118 mísseis faixa intermediária, 36 mísseis lançados por submarinos, e numerosos sistemas de curto alcance.” O que isso significa para o futuro do mundo semi-colonial? É claro que há uma nova guerra de rapina pela África, uma guerra que, aparentemente, não custou uma única vida da OTAN e que irá desembocar no plano que o General Wesley Clark revelou à repórter Amy Goodman na famosa entrevista em setembro de 2001, logo após os ataques ao WTC, onde ele relata uma conversa dentro da alta cúpula do Pentágono: “Eu perguntei: Ainda vamos fazer uma guerra contra o Iraque? Ele disse: Pior que isso! E pegando um papel de cima da mesa, me mostrou e disse: Isto acabou de chegar do Secretário de Defesa. Aqui diz que vamos tomar sete países em cinco anos, começando pelo Iraque e depois a Síria, Líbano, Líbia, Somália, Sudão e terminando pelo Irã.” (Democracy Now, 02/03/2007). Eles estão um pouco atrasados, mas estão chegando lá. Fica claro que a Síria é o próximo alvo, sendo a oposição a Assad, apesar das exigências legítimas dos protestos iniciais, completamente subordinada aos interesses do imperialismo. A “Guerra ao Terror” trouxe morte e destruição para milhões no Iraque, Afeganistão, Paquistão, Somália, Iêmen, etc., mas tem encontrado uma resistência feroz; as vitórias não tem sido fáceis para o imperialismo. As guerras minaram a força econômica e política dos EUA e fortaleceram o Irã como potência regional, o oposto das intenções dos EUA, que estão sofrendo uma derrota no Afeganistão. Além disso, na última década, a ascensão da China avançou em ritmo acelerado, enquanto as potências

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imperialistas mundiais dos EUA e da Europa têm declinado. Agora os tambores de guerra voltam a rugir. Os EUA estão ameaçando novamente o Paquistão e a Síria. O novo governo do CNT na Líbia está ameaçando a Argélia e a guerra contra o Irã parece inevitável. Na verdade, podemos estar vendo guerras precursoras de uma III Guerra Mundial. Mas as conflagrações globais trazem em seu bojo revoluções que para serem vitoriosas precisam se desenvolver em escala global. Temos a certeza de que as revoltas populares na Grã Bretanha que começaram em Tottenham em 06 de agosto, após a polícia ter baleado Mark Duggan, são lições para as revoluções futuras. As revoltas foram um reflexo da profunda raiva e desespero de toda uma geração de jovens para os quais foi negado o futuro, que foram jogados na criminalidade e submetidos a opressão. A economia entra em uma nova fase de crise. A crise do sub-prime e das dívidas dos bancos vem sendo substituída pela crise das dívidas de nações inteiras, crises de dívidas insolúveis. Os comentaristas burgueses voltam a citar Marx e Lenin fazendo referências à crise cambial. Estas revoltas foram o resultado da contenção da luta de classes pelas burocracias sindicais em favor da classe capitalista, como também a luta dos estudantes secundaristas e universitários chilenos exigindo um ensino gratuito e de qualidade expressa a revolta contra a política neo-liberal do governo da extrema direita que provocou terríveis níveis de desigualdade. Estes movimentos foram semelhantes às revoltas da França no final de 2005 e dos piqueteiros na Argentina, em 2001-2. Nos próprios EUA, a potência imperialista mais poderosa que o mundo já viu, onde praticamente os sindicatos foram proibidos após os ataques aos direitos sindicais em Wisconsin em fevereiro de 2011, os relatos do site WSWS sobre as últimas estatísticas da pobreza nos EUA são os

Os EUA são responsáveis por 43% do total de gastos militares do mundo, seguido de longe pela China (7,3%), Reino Unido (3,7%), França (3,6%) e Rússia (3,6%). É isto que dá lastro ao dólar. O que dá garantias a moeda dos EUA, provoca crise e endividamento sobre o mundo por ele dominado.
seguintes: “A taxa de pobreza aumentou quase um ponto percentual completo, de 14,3% em 2009. Foi o terceiro aumento consecutivo anual na taxa de pobreza e o quarto aumento consecutivo anual do número de pessoas que vivem na pobreza. Em 2010 havia 46,2 milhões de pessoas, quase 1 em cada 6 habitantes, vivendo abaixo da linha-oficial da miséria, incluindo 16,4 milhões de crianças. Destes, cerca da metade, ou 20 milhões, foram descritos como vivendo na extrema pobreza, sobrevivendo com menos de metade da renda que o governo dos EUA diz que é necessário para cesta-básica, moradia, roupas e bens de consumo. Essa medida do governo que estabelece uma fronteira para a pobreza - cerca de US$ 22 mil para uma família de quatro e US$ 11 mil para uma única pessoa com menos de 65 - é insuficiente para manter um padrão de vida decente. A medida mais precisa seria o dobro da linha oficial da miséria, ou seja, cerca de US$ 44 mil para uma família de quatro pessoas. Mais de 100 milhões de americanos, 1 em cada 3, estão abaixo deste limiar.” Como Trotsky afirmava, “as leis da história são mais poderosas que o mais poderoso aparelho burocrático”. Os burocratas serão varridos e o conjunto da classe vai voltar a lutar pela sua vida e pelo seu futuro em nível mundial. Isto requer uma nova internacional trotskista, uma quarta internacional recriada. Essa é a tarefa primordial que a crise atual apresenta para todos os militantes marxistas internacionalistas.

As revoltas iniciadas em Tottenham foram um reflexo da profunda raiva e desespero de toda uma geração de jovens para os quais foi negado o futuro, que foram jogados na criminalidade e submetidos a opressão. A economia entra em uma nova fase de crise. A crise do sub-prime e das dívidas dos bancos vem sendo substituída pela crise das dívidas de nações inteiras, crises de dívidas insolúveis.

Para que os trabalhadores saiam da defesa e partam para o ataque, é preciso ter a compreensão da nova conjuntura que se apresenta no horizonte, de crises inter-imperialistas e mais ofensivas contra o proletariado mundial. Só então poderemos estabelecer um programa de ação para organizar a resistência política das massas. Para organizar esta resistência na perspectiva da revolução permanente e internacionalista é que nasce o CLQI.
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“Enviaremos para o Rio a nossa bandeira, nossos militantes e, sobretudo, nossa disposição de luta [...] Estamos com a resistência líbia e contra o governo embusteiro do CNT”
Reproduzimos abaixo a saudação e convocatória do Comitê Antiimperialista, do qual a LC faz parte, ao ato contra a intervenção imperialista e o governo do CNT na Líbia. Companheiros, Recebemos com satisfação a convocatória para o Ato Nacional contra a agressão imperialista à Líbia. O ataque da OTAN já nasceu sujo de petróleo e dólares: mercenários do CNT por terra, bombas imperialistas caindo do céu. Os “rebeldes” não avançariam um metro se não fossem apoiados pelos mísseis da OTAN. A guerra vendida como humanitária pôs a nu toda a sanha burguesa: Kadafi foi capturado vivo, torturado e depois assassinado. Este é o humanismo imperialista. É sintomático. Parte da esquerda se posicionou na trincheira imperialista, com a OTAN e seus mercenários. Agora que Kadafi é um homem morto, a esquerda pró-Otan vai ser forçada a inventar outros álibis para justificar seus posicionamentos. Pouco importa. O fato é que o povo líbio resistirá. Não lhe resta outra opção. É matar ou morrer. Nós do Comitê Antiimperialista também estamos com a resistência líbia e contra o governo embusteiro do CNT. Em 04 de junho deste ano, organizamos um Ato de rua contra o ataque à Líbia e a ocupação do Haiti. Marchamos pelo centro de São Paulo gritando fora Obama da Líbia e fora Dilma do Haiti. Neste 17 de novembro, com grande satisfação, enviaremos para o Rio a nossa bandeira, nossos militantes e, sobretudo, nossa disposição de luta. Companheiros, estamos com vocês! Contem conosco! Saudações antiimperialistas.

O Socialist Fight da Grã Bretanha envia sua saudação ao Comitê Anti-Imperialista e às organizações que constroem o Ato Nacional contra a agressão imperialista à Líbia e o governo fantoche do CNT, no Consulado francês do Rio de Janeiro. Esta é a aplicação prática da frente única anti-imperialista.
Camaradas, Luta Socialista envia calorosas saudações fraternas ao Comitê Anti-Imperialista e as dez organizações que organizam o Ato nacional de solidariedade com a resistência anti-imperialista contra a NATO e o governo fantoche do NTC, no Rio de Janeiro no Consulado francês. Esta é a aplicação prática da frente única anti-imperialista. Na noite de 21-22 de agosto 2011 Tripoli caiu às forças NATO-rebeldes do imperialismo mundial, com o auxílio de bombas da OTAN e as Forças Especiais de vários países imperialistas e as tropas do Qatar e os Emirados Árabes Unidos. Apesar do fato de que a resistência continua poderosa, é claro que a OTAN e os seus lacaios, os rebeldes TNC, desferiram um duro golpe na independência da Líbia. Não é a satisfação de ter os nossos piores previsões confirmaram. Na Declaração sobre a Líbia pela Liga Comunista do Brasil, do Grupo Revolucionário Marxista da África do Sul e Luta Socialista da Grã-Bretanha em 21 de Abril 2011, disse: “A maior prova de que os” rebeldes “não são nada, mas os açougueiros e os agentes líbios do imperialismo é que eles têm invocado bombardeamentos da NATO sobre o seu próprio povo, como fizeram os colaboradores em todos os momentos da luta de classes desde a Comuna de Paris Thiers (1871) para Líbano (2006). A cada dia que passa torna-se claro que os agentes do imperialismo nativas são meramente abrir as patas do gato para a intervenção multinacional no país. Eles são racistas e xenófobos, os inimigos de todos os negros da classe trabalhadora Saara na Líbia. Na busca por “mercenários Gaddafi” eles procuram desmoralizar a força de trabalho no país, preparando-o para a super-exploração de uma nova era de pilhagem imperialista extremas. O líbio “rebeldes” são trânsfugas bando burguesa do regime de Gaddafi em favor da um grande negócio internacionalmente. “ Mesmo na Líbia uma derrota para o imperialismo não teria voltado para o status quo. Gaddafi tinha sido obrigado a prometer a renacionalização da indústria do petróleo e tinha armada das massas. Como Trotsky argumenta o Brasil em 1938, “Se a Inglaterra deve ser vitorioso, ela colocaria um outro fascista no Rio de Janeiro e fortaleceria o controle sobre o Brasil. Se o Brasil, pelo contrário, deve ser vitorioso, ele vai te dar um poderoso impulso à consciência nacional e democrática do país e levaria à derrubada da ditadura Vargas. A derrota da Inglaterra, ao mesmo tempo dar um golpe para o imperialismo britânico e daria um impulso ao movimento revolucionário do proletariado inglês. Verdadeiramente, é preciso ter uma cabeça vazia para reduzir os antagonismos mundiais e os conflitos militares à luta entre o fascismo ea democracia. Sob todas as máscaras é preciso saber distinguir os exploradores, donos de escravos e ladrões! “ Como o Comintern início nós consideramos isto como a extensão natural da Frente Unida (UF) tática na luta de classes interna, com o sindicato e os líderes movimento sindical na luta contra os patrões sempre que possível, sem e contra eles, sempre que necessário para levar a luta para a vitória. Com saudações comunistas. Gerry Downing, Pelo Socialist Fight.

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