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© Copyright 2007, Jaimendonsa.

Capa Lucas Mendonça

Revisão Anton Kabaroski Cao Ypiranga

ISBN 978-85-60864-01-0 1ª Edição 5ª Impressão

(2007) Todos direitos desta edição reservado à VIRTUALBOOKS EDITORA E LIVRARIA LTDA. Rua Benedito Valadares, 560 - centro – 35660-000- Pará de Minas - MG - Brasil Tel.: (37) 32316653 http://www.virtualbooks.com.br e-mail: vbooks01@terra.com.br

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Aos adolescentes que freqüentaram o Animal Games.

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Ela sentada no colo dele. - Rudá! Puts! Que horas são? O sol como uma anaconda cuspindo fogo na janela. Sonho com incêndios por causa deste sol. Rugidos de louças estilhaçadas. O pessoal no café. Amanhecemos: Yáne koéma, diriam meus antepassados. Preciso levantar. Amanda é um saco! Vai pôr a porta do quarto abaixo. Sanguessuga. Não vai me deixar em paz se não levantar. Sabe? Nada se espalha com maior rapidez que uma má notícia. Ouvir com paciência as indagações dela. Mas de que você está falando? É só boato. Não sei de nada disso. Negar até a morte. Cedo pra saber, mas saberá. Meu coração tumultuado, disparado, a única coisa móvel. Um estorvo sair da cama. O instante mais arriscado do dia: o despertar. Nada fácil arrancar um homem do ninho. Todo suado. Sonhos de febre: ela sentada sem cerimônia no colo dele com arzinho atinado e intransigente. Como se nada de anormal tivesse acontecido. Ei, feliz aniversário! A mistura álcool-música-beijo embalou a festinha fuleira. Todo mundo tentando-comeralguém. Não dancei e não apalpei ninguém. Fui passado pra trás. Ontem, rolou o pior. O que aconteceu e o que foi sonho? Amanda terá prazer ao saber do belo par de chifres semeados na testa do irmão, ainda que seja um prazer meio besta. Estamos em disputa pra ver quem se estrepa mais na vida. Formados da mesma substância. - Rudá! Putaquepariu! A voz dela me dá nos nervos. Se não respondo, não me dá sossego. - Vou chegar atrasada por sua causa. - Já vou! Hum! Que fincada! A cabeça parece que vai estourar. Bebi todas. Fogo no estômago. Quantas doses cavalares de Steinhagger? Babei no travesseiro. Corno e babão. Os objetos retomam aos seus lugares. Logo você, Rudá, o sabichão da casa! Como podia imaginar que ela estava me chifrando com Iago? Só de pensar sinto vergonha. Ou melhor, ódio. Aja nervo! Com receio de encarar a turma. Achava que nasci mais sabido que todo mundo. Para ser enganado, basta se considerar mais esperto que os outros. Enfrentar a humilhação. Não temo mais os pés dos móveis avançando sobre a cama em dias de tempestade. Nem deito mais com as luzes acesas com temor de acordar com alguém me observando de outra vida. Vózilda me espiava por sobre seus óculos sem aros. O rosto gordo e rotundo arrematado pelo queixo quadrado, rindo de mim. Me achava um menino medroso, com medo de pés de madeira! A impressão de que alguém respirava ao lado. Era quando até o vento nas folhas me assustava. Silhuetas macabras dançavam na parede do quarto ao compasso dos relâmpagos. A noite chuvosa me atordoava e a boca banguela de Vózilda, torta pro lado, zombava dos meus temores: Só galho seco! Mas os galhos pareciam braços descarnados, mãos cadavéricas arranhando os vidros, recados dos mortos. Imaginação tola. A mão ossuda dela como extensão dos galhos de lá de fora, acarinhando minha testa: Quem vai não volta, fica junto ao Pai-Celestial, ou preso no purgatório, ou pior, no inferno. Mas há qualquer coisa lá fora. Boa parte da noite em vigília. Não são os mortos que nos assustam, mas as incertezas. Ela me mandava virar pro canto e rezar: Deus protege quem reza. Remédio habitual contra medo e insônia. Sentava na minha cama para rezar comigo.

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Se Deus não responde as orações, basta acreditar nelas. Outras preocupações absorvem Deus. Nunca fui bom de oração. Não sei por qual motivo sempre misturei as ave-marias com os pais-nossos. Desconfiava que a oração embaralhada não chegasse aos céus. Se um enorme asteróide fosse se chocar com a terra em uma hora, pode ter a certeza que poucas pessoas iriam rezar. Mais de sessenta por cento tentariam ficar com o amor, a derradeira trepada. Deixei de ter amor ontem. Dedicação frustrada. De uma hora pra outra, sabe-se tudo. O último a ver. Então, acreditava em quem eu amava. Acreditava no amor, em tantos outros absurdos. Os idiotas são sonhadores. Nunca foi um amor pra ela. Não tinha existência fora de mim. Amor não existe desse modo. Tenho outros temores, não acabam, mudam de nome. Outros objetivos, ainda que sejam objetivos breves. Por estes dias, ser visto como um chifrudo será meu maior temor. Calafrio seguido de ardência nauseante e circular no estômago. Pior não podia estar. É a danada da ressaca. Preste a dar a primeira golfada. Pudera, bebi até as bebidas que não tinha direito. Beberia estanho derretido se colocassem no copo. Como pôde sentar no colo dele e sugar sua língua? Logo Iago, um sujeito inútil, e, ainda por cima gago. Caminha com as mãos entrelaçadas à frente, feito mulher. Se não fosse o dinheiro que o pai dele tem, a coisa seria bem diferente. Nunca troquei figurinhas com Iago. Ela sempre em defesa dele. Implica demais com ele, queria só ser seu amigo. E se fosse? Fogo-amigo. Disfarçado, inimigo dobrado. Trata bem um cretino e ele te trairá. A intuição vinha me avisando há tempos. Mais vale um inimigo conhecido que um amigo forjado. Que Deus me proteja dos amigos, que dos inimigos, cuido eu. Se me jogam uma pedra, mostro que sou diferente, jogo logo uns três tijolos. Estou melado. O suor escorre pelo corpo. Mais morto que vivo. Essa fraqueza vai passar e vou me tornar mais lúcido. Vou melhorar. Ontem foi uma noite densa de um dia complicado. Ferido na testa. Fui herói pro Morcegão, companheiro de tempestades. Agüentei bem firme. Mas deu vontade de partir a fuça dos dois. Mantive a linha, ignorei a vadia. Sua safadeza saltava aos olhos, por mais que ela dissimulasse - menos pro besta aqui. Não havia segredo pra ninguém. Era um segredo aberto. Pensei que fosse diferente das demais. A imagem dela dentro de mim uma ficção. A ilusão a perdurar. Dizem que não há paixão sem dor. Nem sei o que a vida pretende me ensinar me deixando cada dia mais fodido. Quando a gente menos espera, sua vida vira de cabeça pra baixo e te leva junto. Hora de reciclar um monte de coisas. Mudarei. Nada de ternura com elas. Deslizar entre elas, em vez de se arrastar por elas. Não me passam mais pra trás. - Rudá! Quem consegue cochilar com ela chamando? O mesmo ritual de todas as manhãs. Segundafeira inicia como o Diabo quer. Continuará batendo na porta se eu não der as fuças. É como se batesse nos miolos. - Amanda, não me enche o saco! Cada vez que abro a boca, a tonteira aumenta. Há certos dias em que seria bom nem acordar. Seria mais prudente ficar na cama. A sombra agitada dos pés dela no raio de luz em baixo da porta.

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- Se apresse! Mamãe e eu não estamos por sua conta! E eu, por conta de quem? Não vai me deixar em paz. Nem vou dar trela. - Detesto chegar atrasada no colégio. Mugindo. Consciente de minha inatividade. Necessidade de chegar cedo pra por as fofocas em dia. Não resta dúvida, serei o prato preferido. Ela se foi, mas voltará. Insistente demais. Precisava mesmo era me virar pra parede e dormir mais um pouco, me envolver em sono profundo, absoluto, sem sonhos, sem movimentos, ir para as regiões intermediárias onde a alma e a carne se fundem. Esquecer no sono a extrema desgraça de ontem, mas não vai dar: prova de matemática hoje, e não estudei porra nenhuma! A prova será sobre matéria explicada na única aula em que perdi baseada no único livro que não li. Tudo colaborando pra me foder. A vida é algo que se faz quando não se consegue dormir. Sem salvação. Não espero nada de bom dos céus. De lá, só vem inundação e raios. O universo só conspira pra te foder! Cadê o desgraçado do relógio? 06h05min. O espinhento do Professor Espinha vai levar a melhor. Nem dá pra dar uma lida rápida e rasteira na matéria antes de zarpar. Um bagaço, chupado e cuspido. Parece que deitei há pouco. Por que não é domingo? Viraria para o canto e dormiria em paz e acordaria renovado, sem ter de aturar o neurótico e debilóide do Professor Espinha. Sempre pior às segundas-feiras. Bichona pirada. Quase sempre me levando para uma situação complicada. Semana passada, o boiola enrustido me pegou colando na hora em que não estava mais colando. Havia sumido com a cola, sem prova não podia me condenar, mas condenou e puniu: Zero pra você! Amassou a prova na minha cara. Bichona! Mostrou quem manda no pedaço. Vacilei. Não podia ter dado mole. Professor ridículo e ruim de serviço tenta pôr, em um único mês, as matérias que no começo do ano não deu. Viva o embuste! O professor faz de conta que ensina e o aluno finge que estuda. Filhodumaégua! O estômago é incapaz de digerir o álcool da noite passada, encarrega o sangue dessa função. A coisa vai demorar. Nada se salva nesta quarta segunda-feira deste mês de abril, de águas mil. O mais cruel dos meses. Um mês complicado em que nasci. Mês do embuste, do carneiro. Chifrudo. Cada um é para o que nasce. Tanto sofrimento por uma garota de quinze anos, quatorze, para ser mais exato. Desde ontem tem cara de vinte. Fuças de quenga! Há certas montanhas onde nunca deveríamos subir. Tinha voado para o nada. Vive-se ou deixa-se viver. Não sou a bala que matou John Lennon, mas levo a culpa. O que contará agora é viver fodendo as safadas. Ao sentir duas bolas encostadas em suas nádegas que não se desespere, o pior já passou, querida! Bem, pra transar requer algum níquel. Elas estão em busca de divertimento. Se você não tem bolso que promete, não transa. Bailam conforme nossos bolsos. Não ter grana atrapalha, e muito! Odeio ficar sem grana. Procurar o que fazer para levantar uma nota. Nem sei como resisto a dias tão bicudos. Destinado a uma vida de dureza. Preciso moldar o meu destino financeiro. Mesada? Esqueça. Nem dela nem dele. O dinheiro que Pairanço recebe da aposentadoria por invalidez mal dá pra cachaça. Pedir algum dinheiro emprestado. A quem? Vózilda de vez enquanto me molhava a mão com alguns trocados. Este sistema de arrendamento secou pra sempre. Pairanço já deve estar de pé. Numas das mãos o copo de cachaça e na outra o abominável cigarro barato, em dedicação matutina. Um rastro de cinza e bactérias por onde passa. Mais uma

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rodada. Nunca a saideira. Espreme até a última gota da garrafa como um caubói perdido no deserto espreme o cantil. Está com o hábito de coçar o saco e pegar nos alimentos. Não agüentamos mais tanta porcaria. Falta disposição para lavar as mãos, tomar banho, escovar os dentes, ser menos imundo. Passa o dia encharcado. Cospe a bile na pia ou no vaso sanitário. Uma águia-butre devora seu fígado, que não se regenera jamais. Agrilhoado. A duração desse castigo não será de trinta mil anos. Não chega até dezembro. Vai se matando aos poucos, de pedaço em pedaço. Cinco dias sem enfiar debaixo do chuveiro. Tomar banho é esnobismo. Mês passado, bateu recorde: um banho só. Sem banho outra vez? Pra quê? - se eu não suei. Um odor de ranço misturado a álcool, nicotina e urina. Sentiu o bafo? Todos têm que sentir meu mau-cheiro. Há dias que dá vontade de pedir pra ele só falar com a mão na frente da boca para conter o bafo, como os indianos pediram ao navegador português Vasco da Gama em viagem à Índia. Vózilda dizia que era o fiofó azedo da casa. Sujo é um dos nomes do Diabo. O que oferece é o fedor. Nem liga mais, entregue às moscas. Veste a mesma roupa até que apodreça no corpo. É o nosso Dom João VI. Ou melhor, por causa de sua rebeldia, é o nosso Che Guevara, El Chancho, o porco, também não gostava de banho e cheirava a rim fervido. O seu maior martírio é não conseguir entorpecer a consciência. O corpo fica bêbado, não a droga da alma. Penso nele por causa da bebedeira de ontem. Tenho medo de me tornar uma cópia fiel dele. Envolvidos pelo mesmo manto. Cadê o uniforme? Um quilo de roupas amontoadas no pé da cama. A bagunça que você faz neste quarto. Não se acha mais nada aqui. Entregue às baratas. Preciso dar um jeito na baderna. Outro dia. Quando sair desta ressaca, vou lavar até o teto. Será uma desgraça para as baratas. É quando o paraíso vira inferno! Três bilhões de baratas nos cercam. Rastejantes, antenas retesadas, as crias imitando os pais. Se fossem empilhada uma em cima da outra, diante do sol, lançariam sombra sobre a Pirâmide de Gizé. Darei cabo em algumas centenas mais tarde. Eterno costume que tenho de deixar tudo pra mais tarde. Nunca tive tempo de arrumar o quarto, nem ao menos de fazer a cama. Amanhã farei, mas o amanhã nunca chega. O intermitente vozerio de Amanda e Inês vindo da cozinha. Rindo à gargalhadas. Fazem a festa. O uniforme deve estar no guarda-roupa. Droga! Ir e voltar num pulo. Ontem me esqueci de tirar pra fora. Da maneira que apaguei, não dava pra lembrar mesmo. Que dificuldade pra voltar a sentar. Não tomei todas as devidas precauções. Luz forte do derramado sol na janela. Dormiu escancarada. Não há nada aqui pra roubar. O franzido galho seco da quaresmeira me visitando. Rodopiantes e rastejantes ciscos da paciente poeira iluminados na corrente morna de ar. Ela dançou com ele um dia antes de me conhecer no Animal Games. Morcegão me contou ontem. Devia ter me contado antes. Mas eu não ia ligar para esse detalhe. Escolheu-o ou foi escolhida por ele? Volúvel mariposa a voar em volta da luz até bater nela e queimar as asas. Iago está gozando a inveja que me causou. Melhor mesmo foi voltar às costas pra eles. Tenho pela frente oitenta ou noventa anos para gastar. Não posso perder tempo com eles.

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Um sino ainda badala entre os miolos. Hell's bell's. Não podia ter bebido tanto. A noite mais estranha de minha vida. Deito outra vez? Se eu ficar nesta de deita-senta-deita-senta não saio nunca. Sob muitos aspectos, a dor nos constrói e nos destrói. Mágoas de amor. Oh! Que rica pobreza! Todos os princípios são difíceis. Melhora ou piora se eu vomitar? Deve vomitar o que faz mal, é a lei. Abranda o corpo. Bicarbonato de sódio lava as tripas. Só se for com água bem gelada pra descer. Surrupiar o frasco é que são elas. Os ratos e os cavalos não conseguem vomitar. A ironia da regeneração: para melhorar tem de piorar. Não valeu a pena. Nunca mais bebo! Mas nunca mais é muito breve. No natal passado, mãe me pegou de cara cheia, cambaleando pela casa, coalhado de dingding, blén-blén e ho-ho! Estava p-da-vida. Não me deixou ir passar o dia no Animal Games. Sem que ela desse pela coisa, em protesto, devorei uma garrafa de vinho seco. Olha como está bêbado! Tenho dois alcoólatras em casa. Não estou bêbado. Arrisquei esboçar o número quatro com as pernas, mas não foi possível. Os bêbados tentam provar que estão sóbrios. Só não me bateu porque eu estava pra lá de Bagdá. Natal tem a obrigação de ser um dia feliz. A maioria das pessoas não consegue ser feliz neste dia. Sou uma delas. Papai-noel esquece muita gente, seja rico ou pobre o velhinho nem sempre vem. Fui tirar as calças sem sentar na cama, me enrolei todo, e caí - catapóft. Bati com a testa na quina da cama, abrindo uma brecha bem feia. Ela veio avaliar o tombo: Acode aqui, Inês! Este desgraçado rachou a testa! O corte foi profundo e saiu muito sangue. Levei cinco pontos no lugar e dois dias pra me pôr de pé sem tonteiras. Por pouco, não comi capim pela raiz. Faltou menos que o beiço de uma pulga. Trago a marca, um sulco esbranquiçado entre os cabelos. Nem nasceu mais pêlo no lugar. Mel acha que a cicatriz é de uma queda de skate. Desde então, tomei gosto por boné de beisebol invertido. Mãe não deixou por menos: Agora sim, cópia idêntica do seu pai. Uns anos antes, um cara quebrou uma garrafa de cerveja na cabeça dele. Foi beber e se meteu numa briga. E, para ocultar a brecha por uns tempos, passou a usar uma boina de um azulmarinho desbotado bem depressivo. Boné de beisebol invertido contra boina tombada. Não sei como ele agüenta amanhecer com um copo de cachaça na mão, curando a ressaca com mais bebida. Se arrastando nos sapatos-chinelos. Por causa dos joanetes, fez rombos imensos nos dois lados dos sapatos, que viraram uma espécie de chinelos. Nem soube como amanheceu com o braço quebrado. Só dei pela falta dele no final da tarde. Encontrei-o bêbado, pra variar, gemendo e tremendo de frio, exprimido entre a cama e o pequeno guarda-roupa. Não quis ir ao Pronto-Socorro pra encanar o braço, ia colar por si. Ajeitou-se com uma tipóia feita de tiras de couro de correias velhas e encanou o braço com dois pedaços de ripas, que tive que arrumar pra ele. A tentativa de encanar o braço foi mal sucedida, ficou com o braço torto, mas não se importou com a deformidade anatômica. Nem se separou mais da tipóia. Reclama que o braço dói por volta da lua-cheia a ponto de ter que aumentar a dose de álcool no sangue. Dá força para suportar as dores.

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Quando se é alcoólatra, qualquer motivo serve pra encher o talo. Simples e prático sistema. Não é tão brilhante, mas ajuda suportar isto aqui. É o que chama de vida. Ninguém aqui em casa se importa com ele. As ações dele vão se repetir em mim? Segundo mãe, somos unha e carne. Estou apenas no começo. A maldição materna está acima, abaixo, em volta, por toda parte. Há sempre alguém a te deixar por baixo. Não falamos a mesma língua. Não vou pegar carona com ela. Bafo terrível. Descobre, e lá vem sermão. Nada de colocar o dedo na tomada logo cedo. Não iria deixar por menos. A facilidade dela em pegar as coisas no ar. Não deixa escapar os pormenores, os detalhes miúdos, mesmo os insignificantes. Atenta. Uma mulher de negócios. Mão-de-ferro sobre mim. Enquanto morar sob seu teto, será como ela quer. - Rudá Massau! É ela! Que faço? Sumir de sua vista. - Pode ir, mãe! Vou de ônibus. - Você quem sabe. E como sei! Salvo, por enquanto. Agora é só sair do alcance de Inês, a empregadinha dedo-duro, pronta para agradar a patroa: Sua mãe é muito boa pra mim. É o problema, segue a risca os mandos da patroa. Sabe que mexo nas suas roupas íntimas, que gosto de espiar o seu traseiro. É bem sacana comigo. Agacha-se de propósito mostrando a calcinha e o cofrinho. Vale a pena ver. Oferece, mas só de longe. Um troço meio pervertido. Deus, o que eu não faria com ela! Tem semana que me pirraça. Não deixa nada à mostra. Isso enlouquece a gente, e ela sabe disso. Todas sabem, e se divertem com isso. Sou apenas uma miniatura masculina. Um aborrescente beirando seu bumbum. Mal-humorada ontem. Não gostou do esbarro no corredor: Não estou de brincadeira. Os tais dias dela. Nunca usa sutiã. Molhada fica mais esguia. Seu hálito cheira a vernônia. Acha que eu devia fazer uso desta planta medicinal. Ia me ajudar, um garoto insubordinado, revoltado e desorganizado. Dois amantes e um filho, morto no ninho. Morreu aos seis meses. Gostava de ser mãe: Sofri tanto, foi arrancado um pedaço de mim. Daqui, posso ouvir seus movimentos pela cozinha. Não vou tomar café. Não vai dá pra descer alguma comida mesmo e, se descer, não vai estacar no bucho. Estou revirado. Pena não ter transado com Mel. Transei com os olhos. Apaixonamos através dos olhos, elas através das orelhas. O trouxa do ano. Fiz tudo quanto pude. Romântico e inverossímil. Quem se sente fascinado por uma garota fica a ponto de perder o juízo e tudo o mais. Pensei que era sabido. Ah, se pudesse, não iria às aulas. O silêncio e a solidão, nesta altura do campeonato, são bem melhores. Enfrentar a turma não vai ser fácil. Palhaço. Vão me encher de perguntas. Se quiserem mesmo ouvir o que aconteceu, perguntem a Mel! Amor com traição, o pouco é muito. Uma enfermidade. Os antigos diziam que era uma infecção contraída pelos olhos, instalada no coração, escravizando os miolos, podendo até levar à morte. Só os de inteligência curta amam. Que amargura na boca! Coração acelerado. Ferrado aos quinze anos. Um náufrago. Estou mais velho. Uma fase da vida em que eu começava a achar que sabia demais. O mais perfeito tempo desapareceu ontem, foi jogado fora, expurgado. O melhor dos tempos é o pior dos tempos. O primeiro amor dói além do suportável. É a primeira morte, pelo menos, dizem os bardos. Ué! Zonzeira de novo. Os miolos estão bambinhos. Coquetel maldito do Morcegão! Dói pra

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levantar, dói pra sentar, dói pra abaixar. Respire fundo, imbecil, isso, solta o ar. Cuidado para não perder o controle. Não devia ter passado na casa dele e bebido aquele troço. Igual a um tiro no peito. Hora perigosa. Não era hora de embebedar, era hora de dormir, sem dano extremo. Mas eu queria desabafar, esquecer. Acha que está preparado para certos lances e se estrepa. Precisava cochilar por umas duas horas, um soninho me faria bem. Sem tempo! Porque não se dorme nunca, não é isso? O tempo anda tão curto e nossa atenção tão impaciente. Não há lugar pra milagres. A dois passos de distância do espelho pareço mais torto. Quem sabe se não são asas encolhidas? Endireita esses ombros. Costas rígidas e eretas se não quiser ficar de ombros metidos para dentro como Pairanço. Esticado. A coluna e as costelas agradecem. Uma palhaçada completa. Geboso. Bagagem desnecessária. A forma defeituosa dos machos. E por que olhar-se nos espelhos? Não há quem não tenha qualquer coisa fora dos eixos. Joelhos esfolados. Uns arranhões, nada mais. Não me lembro de ter caído. Isto é, teve a rasteira dela. Crente que estava abafando. Amnésia alcoólica. A primeira amnésia a gente nunca esquece! Coisa de louco: a quadratura do círculo. Vivendo a vida louca. Recordo de pouca coisa. Cinqüenta por cento do coquetel do Morcegão tinha vodka ordinária. Quando a gente bebe vodka ordinária, o blecaute se instala. Como uma bala no cérebro. Resta uma amostra de mim, pálida amostra. Tudo por causa de Mel. Curioso pensar que, a cada dia, você vai ter de sobreviver a algum tipo de titica e nunca mais será o mesmo. Seus olhos me inflamavam. A curva deles fazia o tour no meu coração. Comecei a dar em cima dela. Quer dançar? Metido a besta. Olhos que não me olhavam, furavam minhas carnes. Uma promessa de alguma coisa demasiado profunda. Uma fornalha ardendo, a labareda me dourava. Obrigado por foder a minha vida. Se não aproximasse, viveria desapontado, sentindo para sempre a oportunidade perdida. Mas terminou. Só sei que acordei. A matéria que acorda. De um jeito encantador, fazia beicinho pra cantar minha canção preferida. Não há mais felicidade. A centelha se apagou. Jurava que era um amor verdadeiro. Foi um momento mágico e único. Só enxergava a labareda vermelha de seus lábios de mel. Iracema. Também, Iracema pode ser o anagrama de América. Bem bolado, não? Será que Alencar pensou nisso? Os críticos vêem coisas que os artistas não viram nem tiveram intenção de criar. Ar pesado. Aumenta o cansaço e a sonolência. Em um canto da casa, minha carne, o espírito em outro lugar, atrapalhado, sem ânimo. Se tivesse ficado com a Venusta. Elásticas e esguias pernas, cabelos sobre o traseiro empinado. Atraente de olhar. Tira o fôlego de qualquer marmanjo. Quinze anos e tem corpo de dezoito. Bem menos complicada, nem corria perigo de traição. Doidona comigo. Pedir e ela fazer. Mas preferimos o difícil. Conquistar. A maldição masculina. No início não aturava era sua doidice de ir a todo tipo de loja de liquidação ou nas feiras improvisadas na praça da matriz. Aporrinhava bem. Não há muitas distrações, quer dizer, nada para fazer nesses lugares, a não ser correr as tendas de quinquilharias. Vidrada em galinhas de cerâmica. Mais alguns meses de encontro e eu teria doutorado em bugigangas. Na última vez que fui numa liquidação com ela, perdeu um tempão olhando ímãs de geladeira. Adorou a canequinha com a inscrição: Este ímã foi roubado por mim. Não tive escapatória, a-

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cabei abrindo mão dos míseros trocados, comprei pra ela. Paguei 10 lascas pelo ímã. Um beijo na face, ruidoso, superficial e úmido, nada mais que isso. Pague a conta e ganhe um beijo. Frígido, sem sal, sem sabor, ao estilo dela. Como diz o lema banal dos economistas: não existe almoço grátis. Mexa-se ou vai perder o ônibus. Vou e volto num pulo só. Peguei! Zonzeira. Só de esforçar me dá vontade de vomitar. A angústia me aperta o estômago. A necessidade de se manter no provisório. Sem alívio! Um beijo é só um beijo. Não faça do beijo um acontecimento único. Não, um beijo é tudo. Aí é que está o problema. O erro é querer rosas sem espinhos. Explicar o que não pode ser explicado. Pobres machos! Bonecos obrigados a se espetarem nelas. Elas também não ajudam. Concílio de loucas. Ah, as calças no guarda-roupa. Amarrotada. Vou assim mesmo. Mãos suadas. As axilas banhadas do mesmo suor. De um tempo pra cá, sou o sujeito mais sem estilo do planeta. Gostava quando ela me ensinava a dançar. Dois-para-a-frente-três-para-trás. Ritmo acelerado. Vertigo: Uno, dos, três, catorce! Aumente o volume, capitão! Ui! Ardendo o esfolado. Se sangrar, vai manchar. Nem ligo ao detalhe. Inês lava. Pena que não possa lavar a sujeira de minha alma. Mais visível que a pele. Ah, ia me esquecendo da Patrícia. Linda. Ficamos por um mês. Não foi bem um namoro. Isto foi antes de virar gótica. O irmão, que nunca foi bom da cabeça, se enturmou com a galera gótica do Cure e a levou a tiracolo. Passou a tingir os cabelos de ruivo. Bem horrível. Agora só se veste de roupas escuras, até a calcinha, que nem a Mortícia Addams. Gosta da cor preta, onde o que está fora não entra e o que está dentro não sai. Não quer refletir a luz, mas apenas absorvê-la. Não sei por qual motivo, mas, hoje em dia, toda vez que boto os olhos nela, penso olhar alguém de outro planeta. Antes, até o aparelho nos dentes dela era charmoso. Só era meio desagradável quando a gente se beijava. A frieza do metal incomodava. Sempre o risco de cortar os lábios. Saboreava com crueldade minha perturbação. Fazia questão de roçar os ferros nos meus dentes: Os homens são tão medrosos! De pé pra terminar de vestir as calças. A zonzeira vai vir outra vez. Só esperar. Agüenta. Não veio. Livre da sensação de estar sendo empurrado ou arremessado pra lugar nenhum. Meio psicológico. Se você fica imaginando coisas, elas acontecem. Patrícia agora ficou meio louquinha. Capricha nas olheiras fundas que chegam a assustar. Faz questão de dormir pouco: Um tédio profundo o viver! Diz trazer na alma a necessidade da revolta contra o irremediável. O essencial no mundo se apaga e se perde e se esfuma. A vida pode ser um palco, mas o elenco é um horror. Pro Morcegão, doida de matar com pedrada. Embriaga-se com os romances de terror de Anne Rice. Sem tempo para ler jornais e revistas cotidianos: Palavras impressas são palavras impressas, nada mais. As idéias estão na cabeça. Aprendi a gostar de alguns autores por causa dela: Baudelaire, Augusto dos Anjos, Poe e William Blake. Sim, o aluado Blake: O amor constrói um paraíso no desespero do inferno. Não aprecio muito é o seu gosto musical: gothic rock, death rock, trip hop, ebm, synthpop, indie e mais outros troços loucos. Tenho de me sentir bem com a música. Dizem que a música começa onde acaba a fala. Tudo acaba em canções, não é mesmo? Não seria a música uma língua perdida, da qual esquecemos o sentido e conservamos apenas a harmonia? Ainda estudando Iluminura. Por falar nisso, dei a ela meu original de poesia pra ser decorado com suas iluminuras e não fez as tais letras capitulares nem me devolveu o original.

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O defeito maior da Pat é apoderar dos objetos alheios na maior cara dura. O que vai, Pat, tem de voltar. Conferir se tem uma cópia eletrônica dele no disco-virtual, caso contrário, vou ter de começar do zero. Leal até na raiz do cabelo ruivo? Não sei. A partir de ontem, desconfio até da sombra. Pelo menos, enquanto esteve ao meu lado, não sentou no colo de ninguém. Vestir a camisa. Manter aceso o suficiente pra sustentar o corpo e a alma. Isso que dá ambicionar o impossível: o amor. Existem sujeitos que não nasceram para amar, sou um desta turma. Meu amor anda junto com o ódio, ou melhor: meu amor virou ódio. Lutei por nada e nada valia a lida. Uma besteira das grandes. Em vão, os sonhos se vão, em queda, impelem a alma para diante, enfunam-se, deslocam-se, deslizam, dão uma reviravolta e fenecem. Tão frágeis e ligeiros. Em si mesmos, em sombras. Que trouxa que fui. Longe de Mel, posso melhorar. Não me domina mais. Amei ontem, odeio hoje. É assim que as coisas acontecem. Esses sentimentos todos serão temporários, espero. Estamos dominados por estranhos sentimentos oceânicos. Só tenho de suportar a maré braba. Os pneus do carro derrapam no piso da garagem. Mãe nunca vai aprender a controlar a embreagem e o acelerador. Buzina disparando. Deve ter fechado algum carro. Fica uma fera quando eu digo que mulher no volante é perigo constante. No dia em que passou – sem querer, querendo - com o pneu do carro por cima do pé do negrão que se negou a sair do meio da rua, por pouco não fomos linchados. A rua era estreita demais para os dois. Ficou uma fera com o negrão abusado - como se a culpa fosse só dele. O que falta? Ah, os tênis. Cadê eles? Debaixo da cama pra azarar a vida. Se a cabeça não rodar, estarei salvo. Miolos chocalhantes. Logo aqui embaixo. Se alguma coisa puder dar errada ela vai dar errada e da pior maneira possível. Lei de Murphy: as pessoas sempre optam pelo jeito errado de construir determinado equipamento se houver duas maneiras diferentes de fazê-lo. Se em três opções, só uma tem chance de dar errado, com certeza dará errado. No café, a torrada escorrega do prato e cai no chão com o lado da manteiga virado para baixo. Na hora de fechar a porta, a chave correta é a última do chaveiro. Apertado ao extremo e o zíper não abre nunca mais. Para falar a verdade, se não tivesse prova de matemática, poderia deitar aqui embaixo e tirar um cochilo. Um lugar fresco e triste. Bem mais fácil de esconder. Eu comigo. Cada um de nós é uma lua e tem um lado escuro que nunca se mostra. Aqui estão os malditos. Esticar mais. Uma ginástica dos diabos. Pronto. Sentemos para calçálos. Ela seria menos notada sem os lábios e as unhas pintadas de cores perolizadas e cintilantes. A pintura revela o que a alma guarda pra si. Tarada por esmalte. Deve ter uns cinqüenta frascos, no mínimo. Contribuí com meu rico e minguado dinheirinho. Tons da pitanga. Faz uso em excesso do escarlate. Não gosto desta cor. Cor de quenga. Sempre foi grosso deste jeito? Não me leva mal, mas gosto de esmalte rosa. Só rosa claro. Bem claro. Uma cor que detesto! Poderia usar de vez enquanto. Vou pensar. Sem saco para desfazer os cadarços. Vamos enfiar de qualquer jeito. Sou como mãe quer: a

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imitação do marido bêbado-sujo-vagabundo. Não tenho cuidado com as coisas, nunca vou possuir coisa alguma. A primeira e a última paixão, a única a me por um belo par de chifres. Foi um determinado tipo de amor que se experimenta, mas não se vive. Não pude fazer grande coisa para atingir a safada. Poule - como Adonai chama as safadas. Poderia ter falado muita porcaria pra ela. Mas não, eu disse apenas uma palavra: Vadia. Disse mais com menos. Que fraqueza! Isto é tonteira das brabas! Uma visão lúcida dos abismos. Estou no limiar. A coisa está feia mesmo. É preciso que eu me habitue. Duvido que alguém tenha amanhecido inteiro com o coquetel do Morcegão. Se não matou, aleijou. Quem estava com a gente? Greg, Stump e Brinquinho, o trio-sem-fêmea. Acompanharam a gente até lá? Não estou certo. Depois do coquetel, é possível que eu nunca volte a ter uma memória saudável. Receita bem suicida: dois drops de hortelã, dissolvidos em leite condensado, meia garrafa de vodka nacional, uma garrafa de cherry que ele surrupiou da adega do namorado da mãe dele. O desgraçado colocou um tipo de comprimido de tarja preta. Não deu pra ver qual era. Todos os ingredientes batidos no liquidificador com cubos de gelo. Uma fórmula bastante aterradora. Diluiu meus pulmões, rins e, por tabela, o fígado. Mas o que é o fígado senão uma coisa morta que vive enquanto você vive? Sobrevivi covardemente. Eficientes kamikazes não voltam para casa após o expediente. Lembro do trio-sem-fêmea em volta da pequena mesa vermelha. Faziam gestos pra eu socar a cara nojenta de Iago. Greg, recostado na cadeira, me observando, era o mais desesperado: Não vai acertar o cara, ô meu? Tá com medo? Não tinha medo, só que não era hora. Daria muita notoriedade a ela. Brigou por minha causa. Além do mais, estávamos na casa dele. Freqüentam a casa dele pra filar. Que deu vontade de estapear os dois, isso deu. Um prolongado aperto no coração. Antes que me dissessem alguma coisa, saí pelo corredor e abri a porta. Um rumor no quarto de porta cerrada. Ela não estava a minha espera. Sentada no colo dele, beijando o fedaputa. Oprimido peito. As raízes são profundas. Eu tive de agüentar. Talvez nunca possa me libertar dela. Só queria mesmo dormir mais. Fechar os olhos. Não precisamos de um ponto sossegado? Exatamente isso. O que havia acontecido ontem deixaria de existir. Respire fundo e tente se livrar da dor. Quede o espelho? Cá estou num tom amarelo-pálido-desagradável. Parece que já se passaram mil anos. Este é um retardado. Por trás de um ar abobalhado e visível lentidão de raciocínio. Pronto para mais um dia? Haverá reparo. Pequeno upgrade ajuda. A primeira vez em que a vira no Animal Games estava com a camisa amarela, em total desespero. Por ela sangraria. Amei como poucos amam. Terei tempo para recompor os estragos. Penso em me encontrar inteiro pela tarde. Nada é fixo e imutável ou cedo ou tarde, pode dar lugar ao que lhe é contrário. Tenho de aliviar a bexiga ou vou explodir. Vamos conferir as horas: 06h07min. O ônibus passa às sete. Tempo de sobra. Pego o ônibus da linha 55, no começo da avenida. A turma evita esta linha. Trajeto arrastado, de múltiplas paradas, livre dos curiosos de plantão. Quero não ser encontrado. Nada fácil atingir o banheiro no fundo do corredor sem ser visto e analisado pela Inês. O cornudo não se exibe e veja como é notado. A turma vai cair de pau em mim. Com todo o gosto. Como foi que você, um cara tão brilhan-

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te, esperto, foi cair nessa roubada? Greg não deixa de ter razão. Lambia demais a garota: Mulher não gosta muito de mela-mela, vai por mim. Estava me tornando um indivíduo de personalidade obsessiva. Todos diziam que eu tinha uma só fixação: Mel. Não queria saber de mais nada, só pensava nela. Uma paixão absurda e doentia que não me amparava, desgastava, pra não dizer o cretinaço que eu ia me tornando. Não dava mais para fingir que não era eu. A razão nunca esteve a serviço da paixão, impotente diante do grito do coração. Daqui pra frente não se iluda com garota alguma. Sinto-me o último dos cretinos. Ligeiro e forte aroma de café torrado. Opressivo. Se parasse no estômago. Uma banana e um gole de café levantariam as forças. Cafeína e potássio. Morcegão curte a ressaca que for, mas encara uma sopa de feijão ralo com macarrão, lingüiça picadinha e bastante alho e cheiro-verde, e reforça com ketchup e mostarda. Pra ele a gororoba levanta até defunto. Tal coisa me mataria. De ressaca, o apetite dele aumenta. Duro ficar por perto quando começa a digestão. Dana a dar puns intermináveis e bem fedorentos. Uma única olhadela pra ele e conclui-se que não bate bem da bola. Usa óculos escuros durante a noite. Ainda bem que parou de usar o ridículo casaco-capa-de-morcego nas noites de sábado. Não dá para ir pra balada com um sujeito vestido daquele jeito. Parece um morcego enrolado nas próprias asas. Vou deixar a porta encostada pra ficar fácil de regressar. Xi, Inês com o cesto de roupas. Que falta de sorte! Não vai dar pra recuar. Não é boba. Se volto pro quarto, me segue. Posso deitar tudo a perder. Aposto que vai parar. Tomar meu tempo. Inspirar e conter a respiração. Rebolantes nádegas volumosas vão passar. Move sem pudor. Funga. Rumina as idéias. Diminui os passos, parando - mudou de idéia no último segundo - não disse? Conheço bem, como a palma da mão. Tarde demais pra mim. Sem escapatória, segurar a respiração e ficar na espreita. O cesto apertado contra os bustos salientes, morenos por natureza. Isso que se chama um detalhe interessante. Coisa boa de ver, mesmo de ressaca. Falar sem soltar ar, uma tremenda barra! O bafo me condena. Finjo que não vou explodir. - Elas já foram. Se não se apressar vai perder o ônibus. - Só se você ficar me enchendo o saco. Careta de desprezo, indo pelo corredor afora com suas deleitáveis partes moventes. Já posso expirar. Anda na ponta dos pés. Montes formidáveis. Algo em que se deitar o dente. Matéria que muito apreciada pode não ser tão bom como sugere. O sugerido é quase sempre mais sensual que o real. Acho que é pecado não olhar. Se der trela ela cronometra os meus limites de tempo: Tem menos de vinte minutos pra chegar ao ponto do ônibus! Agora, tem menos de dez minutos! Não dá mais tempo, acabou de perder o ônibus! Sabida. Espera você bobear pra te ferrar. Funga à distância. Antes achava que nunca assuava o nariz, hoje sei que tem um problema nas fossas nasais. A manhã repleta com sua sinfonia carnal: funga e raspa a garganta o tempo todo. Vamos tirar a água dos joelhos, antes que ele volte. Sua pele exala sabão-de-coco. Meio enjoativo. Com essa ressaca devo evitar odor forte. Há dias em que cheira café com torradas. Nem aí pra mim, me põe doido. Dizem que quando as coisas nos parecem difíceis, ficamos excitados.

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Aborrece-se com esse trabalho doméstico? Claro, quem gosta de trabalhar? Só se for trouxa. Tarde da noite, enfeitada, passinhos apressados, com o sujeito dependurado no cangote. Pensa que na calada da noite quase nada pode ser visto. Não me reconheceu. Fez uma cara engraçada. Uma fuga desastrada. Talvez, na boca da noite, nuazinha, estendida na cama de algum quarto barato, com o marmanjo a cobrir-lhe as nádegas. Não é mais honesta que qualquer outra. Teve a coragem de me dizer que não era ela. Devia ser a prima Adelaide, se parece muito com ela. Não engoli. Era ela. Mãe acha que deveria escolher melhor os namorados, um otário com posse. Não case por amor, case por dinheiro. Ganhará cada centavo. Será o padrão sobre o qual elas devem viver no futuro. Não adianta arranjar um velho ranzinza. O que importa é que o marido cumpra suas obrigações financeiras. Negócio antes do repasto. Dessa servidão, mãe não ficou livre, não tem um marido, mas um encosto. Viúva de marido vivo. Desejam mais um asno que as carregue que um cavalo que as derrube. Sempre encontram uma maneira de se fazer lucrar. Um dia elas foram menos espertas. Mas isso foi há séculos. Nossas expectativas masculinas não passam de ilusões. Chama Morcegão de moleque: Um garoto com os hormônios doidos. Mas simpatiza com ele. Morcegão não perde a oportunidade de passar uma cantada nela: Tô sempre sozinho, Inês, é só miar, que chego-junto. Toma jeito, ó coisa-desmiolada! Passou a pegar no meu pé desde o dia em que me pegou me aliviando no quarto. Levei o maior susto com ela na porta. Não vi a enxerida entrar. Me chamou de indecente: Vou contar pra sua mãe. Ficou na ameaça. Como se não contribuísse para acender meus anseios. Morcegão acha que bobeei. O que é que eu podia fazer? Pra ele, eu tinha que ter trancado a porta e transado com ela numa boa. Morcegão e seus delírios. Pensa que toda mulher está a fim de uma trepada. As coisas não são tão simples assim. Mas que se pode esperar de um colecionador de morcegos? Anda lendo demais Henry Miller. Trópico de Câncer está entre os preferidos. Um livro obsceno digno de ser lido. Leu dezoito vezes Sexus: a crucificação pessoal e encarnada. Opus Pistorum nem sei quantas vezes já leu. A cada leitura, endoida mais. Pensa em sexo dezesseis horas por dia, porque nas outras oito, está dormindo: Tô aqui pra satisfazer a carne, caso contrário, eu seria só espírito, ô meu. Em matéria de sexo, os olhos são sempre maiores que o pênis. Temos violentos apetites, mas logo abandonamos o jantar. Enfaramos com facilidade das coisas. Sua teoria de tornar os morcegos frutívoros em morcegos hematófagos me deu muito trabalho. Deixou que os morcegos passassem fome, assim, quando desse sangue pra eles, tomariam numa boa. Cansei de arranjar sangue no açougue do Pairanço. Sujamos seus focinhos vampirescos, mas de nada adiantou. Os frutívoros continuaram frutívoros. Concluiu que os morcegos precisavam de sangue fresco, colhido na hora. Teve a idéia de roubar uma das galinhas da vizinha do fundo de sua casa. Foi fácil afanar a galinha mais gorda da caduca Nena. Era surda, nem percebeu o berreiro do galo carijó nem os latidos do totó. Fui encarregado de dar cabo na cocota. Aprendi a dar cabo em galinhas com Vózilda. Quase todo domingo ela sacrificava uma penosa para nosso paladar. Pisei nas asas da infeliz e zás! Com um golpe certeiro quase separei a cabeça do corpo. Morcegão assustou com a minha estupidez. Piedade não se pode ter na hora de matar uma galinha. Se tiver dó, ela dura horas pra mor-

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rer. Não tinha outro destino senão espernear até a morte. Arranjamos sangue fresco para os andirás, mas os frutívoros continuaram frutívoros. Aí, ele desistiu de vez da empreitada, senão, teríamos dado cabo em todos eles. Morreram por não saber comer outra coisa. Matamos por natureza. Acres e acres de carne abatida. Com a permissão de Deus, matamos, esquartejamos. Nunca esqueci a primeira vez que Pairanço me levou ao Matadouro. Queria que eu visse a morte de perto. Eu era pequeno demais para estar ali, entre aqueles homens sujos de sangue. Vózilda disse que não se leva uma criança a um lugar tão desgraçado. Fiquei em choque com o poder de vida e morte nas mãos dos magarefes. O boi dependurado na viga, de cabeça para baixo, girava em espasmos enquanto era escalpelado por três magarefes. O couro todo amarrotado era posto de lado. O nome do dono marcado a brasa na ponta da imensa orelha. Desfalecidos olhos negros, monstruosas jaboticabas. Minha imagem boiando nos líquidos de seus olhos. Envolvida pelo brilho da luz florescente no meio do teto, a lâmina sanguissedenta na mão do apressado magarefe, igual a um raio, rasgando carnes, músculos e nervos, tocando os ossos, com ruídos rápidos. Estranha música a tremer, letárgica, fascinante. As veias ejaculavam o sangue tumultuado. Outro carneador fazia suas vísceras macilentas saltarem para dentro do sangüíneo latão sob um som balofo e molhado. Suas carnes cortadas regurgitavam em súplicas, carnes que haveríamos de devorar. Tranquei a porta? Acho que não. Não sinto bem com fechaduras desde o dia em que me tranquei na dispensa pra abocanhar alguns doces escondido e foi um inferno pra safar de lá. Desta vez não foi preciso de Amanda me dedurar. Boca e mão lambuzadas de chocolate foram suficientes. Emanação de eucalipto e limão. Obra da Inês, desodorante por toda banda. Sou forçado a cheirar todo tipo de essência. Anunciou na TV, ela sai em busca da novidade. Mãe consente, aprova a compra dos novos aromas, e tem a quem culpar: A casa fede demais por causa do seu pai, o traste escarra e urina por todo lado. Em cada quina da casa, um desodorante. Inês toma o mundo pelo nariz. O departamento de marketing é seu nariz. Mãe e Amanda na dela. Detesto o aroma de margaridas, me traz asco. Tantas margaridas-amarelas no caixão de Vózilda que nunca desassociei o aroma de margaridas dormidas com enterro. Pra que entupir de margaridas se ela não pode ver nem cheirar? Nem me deram bola. Adorava margaridas. Vasos em todo canto. Na véspera da morte, suas mãos colheram imaginárias margaridas da colcha de crochê. Ia levá-las para a casa de Deus. Sonhei com ela na noite em que morreu. O caixão flutuava acima da sepultura aberta, envolvido por uma intensa e gélida bruma. Não se via o interior, mas sabia que ela estava lá, entre margaridas murchas e ardidas. Acordei com Amanda me dizendo que ela tinha acabado de morrer. Tive uma premonição. Exagero. Já esperavam pela sua morte. Leucemia. Bem vulnerável sobre a cama. Boa contadora de história. Sabia de cor As Mil e Uma Noites. Gostava do jeito que ela falava a palavra degolada: Após dormir com a donzela, o sultão entregava a infeliz ao carrasco para ser degolada. Tão eloqüente que dava gosto ouvir suas histórias. Lambia a ponta do dedo indicador, distraída, para virar a página da Bíblia.

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Eu adorava sua geléia de amora. Dizia que a coroa de espinhos de Jesus Cristo fora feita com espinhos de amora. Ao ver prímulas vermelhas em vasos para serem vendidas na Floricultura, pensava nas chagas de Cristo. Tinha doidice de enrolar o dia-a-dia com religião. Deu idéia e suporte pra minha mãe abrir a Floricultura Bellis: Pelo menos dá pra você sobreviver com as crianças, já que não pode contar com o bugre. Sem isto, acho que estaríamos morando debaixo duma ponte qualquer. Depositaram desinfetante floral no vaso sanitário, azulando a água. Subir com uma pequena revista de sacanagem escondida no meio da Reader's Digest enquanto a podridão não desce. Entre aspas, o rei senta no trono envolto em odores, à espera de excrementos e urina. Vestido unicamente de sua inteireza, irrepreensível perante o trono. Mas, até agora, nádegas. Ossos do ofício. Produzir matérias leves, em certas ocasiões, só alarde, só escândalo, fingidas esperanças. A finalidade não existe, e o valor da vida não pode ser estimado. Preste atenção no zumbido dos intestinos. Um ventríloquo manipulando o boneco. Todo o tralalalá da fala anterior. Os aplausos se diluem no ar. A palavra pesada abafa a idéia leve. Abundância de desarmonia. Repita se necessário. O coração está seco por causa dela. Uma longa e vagarosa tortura. Não vou me livrar com facilidade. Coisas ridículas. Ilusória esperança de despojos. Rir é o melhor remédio. Ridendo castigat moris. Breve reinado, condensações. A alma começa a chegar ao lugar. Um bem para compensar a mesquinhez. Não posso gastar todas as forças em exercícios de compaixão. Bonaparte: mas, que é um trono senão um tamborete de madeira forrado de seda. Mesmo no mais alto trono do mundo, estamos sempre sentados sobre o rabo. Amanda senta com as nádegas sobre as mãos. Cada um de nós tem muito que se incomodar com si mesmo. Piadas de caserna. Uma espécie de ingênuo triunfo. Há um bocado de vaivens pela frente. Que mal me tirará o que não tenho. Então leia, enriqueça o seu vocabulário: Córneos pontudos. Corno: aspudo, binga, cabrão, cabrum, cervo, chavelhudo, chifrudo, conformado, cornudo, faz-deconta, galheiro, galhudo, guampudo, mumu, córneo e córnio. Diz os perfumes que prefere e lhe direi quem você é. Cada quarto com o respectivo sachê: patchuli no de mãe, Amarílis no de Amanda, no meu, colocam as sobras das fragrâncias. Semana passada meu ninho foi aromatizado com água-decheiro misturada a amêndoas. No quartinho do Pairanço, elas desistiram de botar eflúvios. Colocaram bálsamo lá e ele urinou no chão pra pirraçá-las. Mãe não hesitou em deixar o quarto encharcado de urina uns bons dias. O chiqueiro fica como o porco quer. Ele nem ligou. Só para ter certeza de que o odor ardido, similar a xixi de gato, iria recender por um longo tempo, arrumou um vidro de suco de gengibre e bochechou o líquido, borrifando-o em volta do aposento, com bastante gosto. A vez em que urinou num de seus vidros de perfume preferido, a casa quase veio abaixo: Eu ainda mato este traste! Pirraçar é o que ele sabe fazer de melhor. O basculante aberto. Pote de anti-rugas fora da validade, esquecido aqui para aporrinhar. A rosa amofinando no copo de água lodosa. Alguém deu a uma delas. Um amor sem esperança e sem desespero. A flor e a náusea. Um dia a beleza extingue, sobra o caule no lodo e a rosa despida. Murchou e perdeu as pétalas, não por mim.

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Cadê a bunduda da Inês? Não custa dar uma olhadela. Burburinho d'água. Não dá para ver daqui. Vicia. É como software gratuito: no começo, use de graça, aí, você gosta e fica dependente, daí, eles tiram do ar e começam a cobrar. Nuvens ao longe. Dá para ver até uma no formato desagradável de um chifre. Os insensatos rostos ou leões que vemos na configuração de uma nuvem. Acordei, torcendo para que tivesse sido só um pesadelo. A cabeça parece cheia de água morna. Se eu passar mais um dia como ontem, fico maluco. Lá está nossa empregada gostosa de todo o dia. Sem prudência, agachada, apoiando-se nos calcanhares, cofrinho à mostra, se eu pudesse depositar. Rega com o pequeno borrifador as plantas sob o estrato menor da estufa. Nem necessita de um prefácio. Coxas e nádegas expostas diante de lírios carnudos. Não faz o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas. Banhada pela luz malva das orquídeas degeneradas, suspensas. Perturba, ressoa. Molhou o cabelo liso falso, teima em ter cabelos liso-de-índia. Às sextas-feiras se submete à sessão de tortura do alisamento. Ah, a calcinha bege dela secando no varal em desarmonia com nossa roupa. Mãe já pediu pra não misturar suas roupas com as nossas. Abafei uma. O gosto salino e urinoso. Deu falta, só que não teve coragem de reclamar. Odor natural que jamais poderá ser eliminado. Como explicar que havia estendido a calcinha no meio de nossas roupas? Emprestei pro Morcegão, mas o tarado não me restituiu. Acha que tem gosto de queijo suíço. Quando o cheiro exalasse, me devolveria. Só na promessa. Nunca provei queijo suíço. Algo como queijo ardido, então. Son-of-a-bitch. Não vai me devolver. Maldito colecionador de cêdêsemaisdêvêdês e calcinhas. Não gosto quanto ele oferece cigarro a ela e ficam papeando, enquanto dividem o mesmo cigarro. Contrariedade que não dá pra disfarçar. Em tempo de figos, não há amigos. O coração devia ser impermeável. Ali, a essência dela. A mancha encardida que nunca exala. Mesmo lavada, o odorífero não sai. É quando a gente sabe que tem nariz. A pele morena exala uma combinação de canela e cravo-da-índia. De olhos fechados, sinto quando é morena. Caminha no chão e tem uma cabeleira idêntica ao arame. The Dark Lady. Todas as morenas são minhas Gabrielas. Mel pra mim agora fede, se é que traição tem algum odor. Antes as senhoras cheiravam sais e os homens, rapé. Hoje em dia, cheiro a vida da vizinha. Nenhum sinal dela no quintal. A visão daqui não muito privilegiada. Venerar sua gostosura pela janela do meu quarto. Todas as manhãs de domingo se bronzeia na grama, de pernas abertas, musculosas, oscilam inquietas em direção à vidraça. Preocupada com os lados, não com a fachada. Do jeito que mexe, posso ver mais que esperava ver. Um banquete. O mundo foi criado num domingo. Lê revistas de moda, beliscando a grama com os dedos dos pés. Esmalte rosa em contraste com o verde. Morde e larga, como se me beliscasse. Boquete. O que não sinto, imagino. O sonhar nos mantém vivo. Impede-nos de apodrecer como um cogumelo debaixo de uma árvore. Sem os sonhos, envelheceríamos mais cedo. Cuspir na palma da mão anula a aspereza, sonora tocada. Desembesta pele versus pele. Selfservice. O consolo que a gente tem quando o amor não nos alcança. Não saio com facilidade desse campo de concentração. De todas as maneiras possíveis, te tenho! Cabeça, tronco e membro. Long neck. Quase me livro da fimose. A alma parece apenas uma simples respiração do corpo. Flutuando acima, reconfortante. Provoca uma alegria tão intensa

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que me estremece da cabeça aos pés. Uma graça fácil de alcançar. Para uma alegria, mil dores. Pra azucrinar, não existe um domingo que não aparece a tia enrugada, num maiô ridículo, estampado com grandes flores tropicais, pra fazer companhia. Aí, a gostosa senta pra conversar com a estraga-prazeres, me roubando a visão. Aí os sentidos esfriam. Em vez de fada-madrinha, temos uma bruxa-madrinha. Não dá pra mais uma ejaculada. Nem há concentração na lisa com a muxiba do lado. As solteironas, um pé no saco! A felicidade jamais é imaculada. Pô! Respingou urina nos azulejos, nas cerdas da escova de lavar o vaso sanitário. Vai dar rolo. Limpamos pra eles sujarem. Sou eu que lhes desmancho os prazeres. Por pouco não urinei no rolo de papel higiênico. Até o piso recebeu algumas gotas. Direi que escapuliu. Mil motivos pra empregadinha bunduda me odiar. Mãe não deixará por menos. Tenho o pênis fora do prumo, igual ao meu pai. Mais um lugar malcheiroso na casa. Mijadouro. Mas que palavra feia! A princesa Isabel mandou construir mictórios públicos no Rio de Janeiro, e pediu a Visconde de Taunay que inventasse uma palavra para substituir o deselegante vocábulo mijadouro. Que tal mictório? Ótimo, não está muito distante de lavatório. Ninguém mais precisava tirar água do joelho no meio da rua. Deve ter cansado de ver bilau por todas as bandas. O legado paterno incubado na alma e na carne. Todo mundo se inspira em todo mundo. Para Vózilda, o genro não passava de um bugre, um pé-rapado. Nunca forneceu uma vida estável à filha: Sua mãe não casou: defecou. O genro ameaçava cortar o seu pescoço, pelo menos, uma vez por semana. Vingou de outro modo: fez xixi no caixão dela. Maior vexame. Bêbado, em estado deplorável à beira da sepultura, balançava o pinto pra todo lado, tentando acertar o caixão da sogra, benzendo-o: Da urina viestes, à urina voltarás. Até eu, que nada havia com o caso, fui salpicado pela urina. Meus tios deram uma tremenda surra nele, lá mesmo, no cemitério, diante da cova de Vózilda. Três meses para sarar das bordoadas. Quase foi enterrado junto. Alcoolizei o ar do banheiro. Sobre o caixão de Mel. Uma cena bem banal. Prometo urinar sobre o teu caixão. Mel vive dizendo que tenho a boca porca. Tinha que ter mais diplomacia. Se há uma coisa que não gosto é de gente que nunca solta um palavrão ou nem gosta de ouvir um. Penso como Mark Twain: Se não puder xingar no céu, não vou morar lá. Um palavrão diz mais que dez frases. Mastiguei cada sílaba: Vadia! Mil vezes prostituta! A raiva me mordia. Tentei empregar o palavreado mais sujo que podia dizer, mas só consegui dizer: Vadia! Não gaste duas palavras se uma única basta. Recordo que, com um tubo de spray, escrevi na parede da estação do metrô: Mel é uma vadia! Onde arrumei o spray? Sei lá. Sonhei isso? Morcegão vai saber esclarecer. Rabisquei em lugar errado, a turma não vai passar por lá. Houve prazer em escrever? Acabou como um curto desabafo. Imprevisto frêmito pelo corpo. Todos os cabelinhos do braço arrepiados. Acontece muito, toda vez que estou urinando. Dizem que é a foice da morte sobre nossa cabeça. Tânatos. Morte. Um esqueleto encapuzado com uma foice que não ceifa trigo, mas cadáveres. Escapar da morte por um triz. Morre-se uma dezena de vezes por dia. Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais. Pode ser uma alma do outro mundo querendo se conectar comigo. Os mortos vêem o mundo

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pelos olhos dos vivos. Atrás das nossas vidas. Eles espiam e comentam e comentam sobre nosso cotidiano. Eles têm suas estradas. A única recompensa dos mortos é não morrer nunca mais. O povo quando não entende, inventa. A maneira mais eficiente de encontrar algo que desapareceu é dar três pulinhos para São Longuinho. Cisma com palavras, com números. O temido número treze. Só urucubaca. Treze pessoas se reuniram à mesa na véspera da crucificação de Jesus. Todas as coisas são números. O supersticioso não herdará o reino de Deus. O povo em toda esquina é volúvel. Até ontem, minha superstição era Mel. La bella donna della mia mente. Doce, em seguida acerba. Cada um deve seguir o seu caminho, baby. Lua nova saindo de um eclipse solar, mau agouro. Não me diga que a lua está brilhando, quero ver o reflexo num caco de vidro. Treze hoje. Coincidiu. Dia de Santo Antônio: buscarei meu par. O que não tem preço. Orar para encontrar a alma gêmea. Deste instante em diante, vos prometo fazer a minha parte. Pelejar. Sou um náufrago. Não contava com a traição dela. Chocada quando me viu. Saiu logo de cima do colo dele. Ah, está com pressa? Gestos evasivos, alçando as sobrancelhas malignas, contraindo os lábios suspensos: Precisamos conversar. Olhe para mim! Estou fora do jogo. Um beijo no aniversariante, sentada no colo dele. Feliz aniversário! Beijo de virar a cabeça. O quê? Era essa então a surpresa? Nenhum aniversário parece completo sem um beijo de aniversário. Um beijo de despertar: pratibodha. Rápido e quente. Beijo safado! O vocabulário é escasso para dizer o que os lábios podem transmitir. Disse que não fez nada demais. Apenas saudava o aniversariante. Estranho e diferente não cumprimentar desse jeito. Não é isto que você tá pensando, não. A dupla negação é uma forma de afirmar. Ver até onde posso levar este otário no bico. O que seria dos sabidos se não fossem os bestas. Um beijo de tirar o fôlego. A língua dele deslizando por entre seus dentes para explorar as cavidades íntimas de sua boca. Uma mordida leve que ganhou educação. Quantos caminhos até chegar a um beijo? Queria que eu acreditasse na lorota. Antes não tivesse dito nada. Ninguém beija por beijar. Uma vez só é como mil vezes. Um beijo fraternal, só para meus olhos. É comum não beijarmos quem não gostamos. Um ponto de interrogação como um indelével par de chifres. A traição passeia entre paredes. Os chifres nascem. Idênticos à dentadura, demora, mas se acostuma. Evitar o espelho do armarinho. Em poucas palavras, eu não estou com a melhor aparência. Os espelhos fariam bem em refletir mais antes de devolver imagens. Sábado infestaram o corredor com um adocicado incenso indiano. Enrola o estômago. A incumbência de Inês e Amanda em levar preces aos céus: o romântico almíscar, o meditativo sândalo, o inspirado e criativo ópium. Um incenso aceso ao lado de uma vela faz com que os pedidos cheguem mais ligeiro ao plano astral. Desafiam o destino: Acenda uma vela rosa em pratinho branco para favorecer o chamego. Duas velas juntas, numa, o seu nome, na outra, o nome de seu amor. Almas-gêmeas. Escandalosas esperanças. Isto me faz rir. Não faz a menor idéia se dará resultado. Precisamos de uma forcinha a mais, venha ela de onde vier. Se a chama solta moderadas fagulhas no ar: Teu Anjo colocará alguém no teu caminho. Varinhas de timiama por todos os lados. As duas com o troço de fumacinha pra cá: cê-meama, fumacinha pra lá: cê-não-me-ama. Os deuses indianos veneram fumaça nas ventas. Fuligem, também pode ser picumã. Só uns imbecis pra acreditar nesta lorota. Contentam-se com pouco. O prometido nunca será dado.

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Inês, a mais necessitada. Passou dos vinte e cinco anos. O casamento como indiscutível destino. Todo indivíduo quer dominar o destino arranjando um amor. Uma tragédia em dois atos: civil e religioso. Emprega amuletos contra futuros desastres. Figa da sorte na pulseira, na corrente de ouro, contra mau-olhado. Pra mim o polegar entre os dedos representa o órgão masculino penetrando no feminino. Acha que tenho a mente suja: Os homens só pensam em sexo. Falam como se fossem púdicas e nós, os machos, uns depravados. Têm duas armas: cosméticos e lágrimas forjadas. Há que se ter cautela com esta gente que menstrua. A certeza de que o duelo nunca terá fim. Fomos demasiado longe para voltarmos. Pena que não se pode livrar do perfume delas. Pouco se evapora. O espectro nas narinas fica. Spiritus, ar em movimento. Ele viu. Eu vi. O cheiro precede a visão. Mel exala lírio fresco. Dei um frasco a ela. Enganosa pureza. Purpúrea até as sandálias. Eflúvios para cada atmosfera. Um assassino deve ter nas narinas o cheiro sangüíneo. O devasso toma por fragrância as acrimoniosas e azedadas dobras subterrâneas: labia majora, labia minora. A respiração é o vestígio de que há vida na carne. Verdadeiro castigo do Todopoderoso: a vida começando com o ar. Do útero para as rajadas de ar. O homem, apenas um animalzinho odorífero, sem importância. Uma ponte e não um fim. Alguns olores são suportáveis. Não se pode deixar de respirar. Somos culpados sem ter culpa. Pode fechar os olhos para não ver, tapar os ouvidos para não escutar, pode fechar a boca para não falar, mas jamais consegue escapar da respiração, irmã gêmea do faro. Deixei respingar xixi na calça. Mais essa! Grande atraso de vida. Daqui a pouco desaparecem os pingos. Manchou bem. Passa. Não importa quantas vezes balance o bilau, a última gota sempre cai na cueca ou nas calças. Ninguém vai notar e, caso note: uns gatos urinaram em mim. A caixa de papel especial para o excesso de maquiagem pegando poeira. Esta a gente pode fechar. Resto da bondade que sobrou. Sou um cara bom. Nem sempre. Ninguém deve ser elogiado pela bondade quando não tem força para ser mau. Sempre abusam do bem que a gente faz. Ser perverso é um escudo. Ser feroz. Ninguém ataca o leão. Nem somos os mesmos quando estamos diante delas. Perdem-se por completo quando ama uma. Nascidos para fazer pipi e ter dificuldade no amor, aceitos por seus iguais. Mas hoje levantei do leito para nunca mais ser o mesmo. Feita a descarga, lá vamos nós! Apertei mal a válvula. Pra ficar bem fedorento o lugar. Um bochecho de água fria pode aliviar a náusea - ou piorar, revirar as tripas. Os cabelos ficam como estão, espetados. Carão de bugre. A raça não nega. Minha bisavó paterna foi pega no laço. Domada no tapa. Pairanço dizia que ela tinha batoques nas orelhas e no lábio inferior. Devia ser uma figura e tanto. Não quero lavar nem as mãos. Tenho de ir. Tenho pressa. Nova bateria de micróbios. Tal pai, tal o filho. Afinal, para isso que serve um pai. O céu te absolve! Vá, eu te sigo. Livre do ambiente mefítico. No corredor o ar menos carregado, sem resquício de incenso indiano. Com a garganta seca. Dominar o estresse. Habituamos à sombra do trono, à sina de camelo. Isto que o amor com rodeios e floreios faz com a gente. Uma perigosa doença mental. Uma flor roxa que só nasce no coração de trouxa. Nem sinal de Inês. Ruídos da máquina de lavar-roupa. No quarto dos fundos, Pairanço tosse, abre o dia. Se não molhar a palavra, a tosse não cessa. Outro caminho não vê. Desagradável deparar com os próprios destroços. Não pode ser salvo nesta altura.

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Para Vózilda, nunca houve reparo: Tantos homens de posses e sua mãe me escolhe o bugrebêbado! Escolheu a pior parte, e esta não lhe será tirada. Tornar à tenda. Destas paredes, dez anos de solidão me contemplam. Não, quase doze anos. Eu tinha quatro anos quando viemos morar com Vózilda. De uma gradação à outra. Se não fosse por causa dos únicos netos, não teria dado guarida ao casal. Nunca aprovou o ajuntamento deles. É imperdoável que ele ainda se encontre aqui. Raça degenerada de bugres. Uns depravados. E a mochila? Não sei onde foi parar. Lembrei: debaixo da cama. Que lugar! Dá um bocado de trabalho. Desde criança tenho o costume de jogar tudo pra debaixo da cama. Tenho que perder essa piração. Parar com as manias e diminuir os tiques nervosos. As manias são piores que as doenças. Deixar de arquear as sobrancelhas de gaivota e morder o lábio inferior. Sempre desconfiado. Confio desconfiando, e fui passado pra trás. Tenho o hábito de pousar os olhos nas pessoas e não tirar mais. Longos instantes empacado. Mel nunca aprovou: Encara demais as pessoas. Assim vou saber como elas são. Elas se traem a todo o momento. Mas cadê a mochila? Nestas horas a pressão sangüínea aumenta nas têmporas. Se fosse uma girafa, teria cuidado, na ocasião, com os predadores. Eleger a hora certa de beber água. Os membros relaxam. O instante em que abre as pernas abandona as muletas, indefesa contra os predadores, que não perdem a oportunidade de surpreender. Os olhos dilatados como graúdas bagas, muito claras, deslumbrados pelo sol flamejante, detectam algum ardil oculto. Espera a surpresa como única realidade. Pobre girafa. Sabe tanto quanto nós. Corre o risco de explodir a cabeça por causa da pressão sangüínea. Pulsante coração. Um coração em chamas. O Sagrado Coração de Jesus, ainda no quarto que foi de Vózilda, com o sangue a pingar, chamas por cima e em volta uma coroa de espinhos. Um fogo impossível de apagar. Vive-se de maneira desalentada. O meu em disparada bate na goela. Solitário e ridicularizado. O da girafa, dotado de um mecanismo, que regula o fluxo sanguíneo quando levanta a cabeça. No lugar do coração, uma poderosa bomba injetora. No dia-de-são-nunca sofreria por amor. O que eu procurava não estava ali. Cada qual com o seu destino. O que não é destino é frivolidade. Será por que a cabeça dela não explode? Um olhar acima, girante, gigante gingando com jeito de gente. Um grande desafio à biologia. Um homem ou uma mulher com três ou quatro metros de altura quebraria com facilidade a cabeça numa queda. O cérebro bastante afastado do coração evita vertigens. A espera da queda. Sobreviver ao próprio espanto. Flutuar pela vida, de impulso em impulso, no frenesi do espírito. A queda diária de todos nós. Livros mofando. Enquanto agonizo, cem anos de solidão, tempo redescoberto, Ulisses, um homem sem qualidades. Meus rascunhos. Todas as anotações abandonadas. Garatujas ilegíveis. Se alguém pega. Não se escancara para o leitor o canteiro de obras. É necessário rever este conto. Um pouco de todos nós. As feridas secretas. Reler. Sentemos no chão. Seguindo as coordenadas. Um chamamento. Aqui mesmo, o primeiro boteco antes de casa. Certas enseadas são reservadas aos pequenos naufrágios. Conferir primeiro as minguadas notas amarfanhadas no bolso da calça antes de embarcar. Tudo aqui - meu suprimento de migalhas seguro, vai dar pra uns tragos.

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Dois, três sujeitos nas mesas do canto, o mais acabado boceja a desdentada boca, sozinhos como eu, todo o acampar e almejar, à espera de um bom samaritano pra pagar algo ou trocar algumas palavras no intervalo de cada dose. Marujos preferem a companhia um do outro, as mulheres nos azedam. Todos os homens odeiam as mulheres. Todas as mulheres odeiam os homens. O nazareno se cercou de doze discípulos e uma madalena, mesmo assim, um deles o traiu, pudera, não passava de um glutão e beberão. Dizem que amava sua madalena mais que aos outros discípulos, a apóstola preferida, mais íntima - cada um de nós com a sua. Entrando na espelunca. Aviso aos navegantes: prato principal de hoje, carne seca com arroz acima de minhas posses. O analfabeto, com dentes serrilhados de tubarão, escreveu arroz com s. Por favor, uma branquinha e uma loira bem gelada. Antes, correu o olho pelas minhas mãos trêmulas. Deste modo, pousadas sobre o balcão ensebado, tremem menos. Mãe reclamou delas pra mana: tem mão pesada, não gosto, me machuca toda vez que me leva pro banho. Tive que dizer pra ela. Os corretivos não chegam do céu, mas dos parentes. Me chamou de pinguço, como se fosse novidade. Conte outra, velha. Mais alguma coisa? Não, obrigado. Vamos lá. Primeiro trago a branquinha, semimergulho. Um fogo frio, depois a loira, rosas de espuma marulhadas. Que alívio! Da fúria à calmaria. É como se tirasse com a mão as mil dores de mim. Queima esfriando meu estômago. Assisto vôos brancos de gaivotas e esplêndidas medusas. Encharcar o ânimo de álcool pra suportar as banalidades. Sempre mais precário e mais sórdido. Malvisto e censurado pelos poucos parentes, em especial pela cunhada sofisticada: um esqueleto coberto de pouca carne, de voz rouca. Vive falando mal de mim: não passa de um bebum, a esposa a trabalhar, e ele com a mão debaixo do braço, sem fazer nada. Um vagabundo! Vou levando. Tratei de enfiar rápido no bolso da calça a nota de cinco em meio a outras de um. Se mãe percebe que a filha passa os trocados pra mim, não comenta. Foi selado um acordo entre irmãos: vem todo dia me ajudar a dar banho nela, eu te pago. Nem precisa me pagar, vou vir, não por ela, por você. Eu te pago mesmo assim. Você quem sabe. Tarefa executada com precisão, feita e recebida. Sabe que beberei todo o dinheiro. Mana, sou oportunista? - a ponto de dizer: vagabundo, completar aquilo que todo mundo sugere. De jeito nenhum, se não pago você, pago um estranho. Faça o que quiser com dinheiro. Melhor que seja um dos filhos dela, não acha? Estava sem saco pra ir lá, mas precisava dos trocados. Fui. Na mesma hora marcada para que a velha seja transportada ou apenas sustentada no banho. Chego por causa do cobre. Ela queria que fosse o outro filho, lambe a cria preferida, expande a veia do pescoço de tanto esperar o eleito no meu lugar. O agiota azafamado nunca vem, mãe. Não é desocupado como você! Acredita que o filho querido possa fazer milagres em invés de negócios sujos - prefere as meninas às prostitutas. Fornido como um barrão: alguém tem que arrebentar o cabaço delas. Tem os bolsos abarrotados, mesmo sendo de dinheiro do sogro, conta vantagem - se pudesse,

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trocava de sobrenome. Digo pra ela sempre que posso: um anão que foi esticado. Morre de inveja do seu irmão. Sou o mesmo o marinheiro amotinado. Marinheiro nunca foi, um sonhador como seu pai, isso sim. É verdade, nunca zarpamos desta vidinha apagada, nunca pus os olhos na parte aquosa do mundo. Homens menores, condenados por Deus, bebem cachaça e sonham com o mar. Vou ser marinheiro, pai, vou trazer um tesouro pro senhor. Só ela não acreditava em meu mar: se sair um dia desse cu de mundo, trará desgraça de todos os portos, isso sim. O queridinho filho caçula no topo: ele sim, sabe ganhar dinheiro. Sabe sim desfalcar o sogro e quem fica por perto: não estou aqui pra favorecer ninguém, o mundo é do mais vivo. Aprendi tarde da noite que só sobe na vida quem é cara-de-pau. Vou pedir outra dose. Que algo aconteça depressa nem que seja no cérebro. Psiu! Por favor, mais uma branquinha. Vindo. Gorgolejar antes de engolir, o farol em mim, abrasado - um olho entre os cegos. Toda vez entro deslocado naquela casa. Nunca foi minha nau, saí cedo pra me virar, mas sempre de volta. Não me contive. Farejei o que sobrou do jardim das delícias: o mar costeiro do meu pai. Ali, ele assentou flores, todo enflorado, de mãos jardíneas, pregou avencas e lírios, ajardinou alguns sonhos: vou te levar pra ver o mar, filho. Colhido às pinceladas, cingiu o seu, o meu sonho. Apreciava o verde descansado das samambaias: Me traz paz -, as flores azuladas e lilacíneas das verbenas perfumadas e medicinais: sabe, filho, em poção certa, cura doenças oculares - de fato, lembrava olhos acesos, ramo sagrado, arauto de paz e guerra. Sim, fez um ajardinamento babilônico no quintal da casa desolada: meu mar. Do lado direito, negror e agonia: crisântemo, quaresmeira, cravos, cinco vias de Santo Tomás de Aquino, pensara em fazer um olival ali: algo parecido onde o nazareno rezou e suou sangue antes de se entregar. Do lado esquerdo, criou um paraíso: tulipas eretas, belas e vistosas, outras ovadolanceoladas, campanuladas, afuniladas: uma quantidade boa de bebida cabia ali: tem que beber menos, filho. É só por as coisas no eixo, paro. No centro do jardim, o flamboyant – nome a que custei aprender: flamboyer, flambaaiã, flor-do-paraíso, pai - não vingou: com sacro ofício, a mulher o salgou dia após dia. A perene competição entre a lucidez e a soturnez, toda a vida dele a fel por causa dela. Um dia ele se foi: vou pro meu mar. Ela nem quis ir ao enterro: pra mim, já se foi tarde. Determinou que sepultassem, sob ardósias, o jardim dele: vou tapar tudo, por fim nas ervas daninhas e afugentar essa praga de insetos mantida por ele. Uma cobra de avental. Nada sobrou a não ser um circular caminho de ardósia verde-bexiga. Hui! Estou ficando mais repousado. Um albatroz sobre as vagas, bico em gancho, picuinhando, deixando se arrastar. Debaixo dessa atmosfera aberta, tomo noção do tempo decorrido. As lembranças como lampejos de sol sobre as vagas - umh! Pai no topo do muro fincando os cacos de vidros para impedir a escalada dos visitantes a sua madalena. Irra! Se não podia deixar de dividir sua madalena com eles, pelo menos iria dificultar o acesso deles. Há sete demônios dentro dela, filho. Irra! Se não a amasse demais, já teria tocado de casa.

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Chi! Dois dias a fio pra botar todos os cacos ali, enfileirados, tergiversados, encerrados, concisos: um espinho vítreo a cada dois centímetros. Mal o dia alçava e nós lá, embaciados, junto dele: cuidado, pra não se cortar. Puxa! Eu mais audaz remexendo com uma vara a bacia empanzinada de cacos de vidros - cacos?! Não pra mim! São esmeraldas e diamantes, de nanicos a graúdos, mal lapidados, embaralhados como no baú violado pelos piratas na capa violácea do livro: meu tesouro! Pai nem ligando, no cimo - igual a um marinheiro na proa do navio. Bem atarefado em esparramar as massas ralas, escorregadias, de abstruso assentamento, uma peleja. Psit! A mana, do meu lado, pondo sentido, afligida de inveja por causa do meu atrevimento, apertando a boneca de plástico contra o coração, oh! Plena de anseios e cintilantes olhos amendoados, num pisca-pisca sem fim, ambicionava botar a mão no erário exposto. Se eu pudesse ter retido esses momentos afortunados, não cavado os olhos - era um sol oceânico cativo entre colinas. Outra dose, moço. Hum, essa desceu arranhando - tem o travo acre do sal, amarga a vida. Na hora de carregar ela pro banho é sempre uma peleja. Sem olhar pros seus gázeos, em cada olho, um punhal. Ergo seu corpo bem alto - pesada leveza -, reconhece em mim a presença tátil do marido traído. Com terno ódio, tatuo na sua pele a minha, mãe e filho são elos que não se prendem. Meu amor é ódio. Só sei que, sós ou juntos, somos um só acontecimento, cada um se reconhece no outro a própria degradação. Mareante, ziguezagueio de propósito, no ar o corpo dela vibra, a coluna vertebral encurvada estala e seus socos de ossos não me alcançam. Em nome do pai, faço questão de soltar o bafo de pinga sobre sua cara enrugada, podia não me ter parido. É hora de ela explodir em sibilos de cobra: alcoólatra! Nem toma fôlego pra me xingar: Me põe no chão! Apesar do xingatório, entendo a bolorenta, até suportável: tem dois olhos, um nariz e uma boca, e o detalhe mais ridículo: saí da fresta dela. Viver é isso: fazer mal aos outros, se salgar de mágoas. A cerveja esquentando, amargando, abreviada franja de espuma. Com os anos, o apego à vida esmorece ou dana a amargar. Psiu! Outra dose, amigão! Gosto de pirraçar. Amanhã eu volto. Ela nem responde, põe a língua bífida pra fora. A serpe míope acha que pode exibir ao primogênito algo além das muxibas, depois, saca o terço enrolado igual áspide sob o minguado travesseiro. Achocalha-se na cabeceira da cama e, com a toalha de banho, esconde as pernas atrofiadas, aí vem o mesmo ritual de sempre, mãos unidas, palma contra palma, dedo mínimo rugoso, polegar fora de prumo, dedos de gengibre debulhando o rosário, e a boca a guizalhar preces, bem sabe que a impunidade jamais se quita com quinze dezenas de ave-marias e quinze padre-nossos. Pai esbarrou com ela em seu destino, todos esbarram um dia com uma num porto qualquer. Nunca serei de toda sua - nenhum homem escuta o verdadeiro canto da sereia. O amor que se cola ao céu da boca é ingênuo e enfermo.

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Um dia só, imerso no desatino, depois de beber todas, em segredo estocado, me contou: é seu irmão, mas não é meu filho - e o marujo bêbado, chorando, virou pro canto pra esquecer a salmoura da carne. Pai, é verdade o que me contou ontem? Não contei nada. Nunca mais voltei ao assunto. Ela foi pra ele um engodo embrulhado em papel de presente. As mais fervorosas, as mais levianas: o leviatã aspira beatitude, pai. Mesmo após tanto esforço, nada muda, é uma ordinária alma, mas pra ele, foi-é-será: labirinto e quimera. Se pudesse botar os gázeos nela agora, pai, o dedo virou mais osso, toda inundada em papadas, encarquilhada, remexe apenas os lábios, saúde doentia, acho que só agora ficou pronta pros seus olhos, pai! Oi! Mais um. Careço de outro trago - o quinto -, secura ácida e insana. Oba! Mulheres transpondo o vão da porta - é hora do almoço delas, a entrada do boteco como um embarcadouro. Depravados marujos, não, mais para pescadores. Não escolhem o que pescarão em suas redes. Da mesa do canto, o mais acabado pescador se assanha com as sereias passando, arrasta os pés inchados nas sandálias ruídas e a desdentada boca ri-ruindo-se por não poder tocar suas partes a não ser com esses olhos de peixe morto. Só vigia. Sem rede. Por descuido, o pescador poderia embaraçar sua rede nelas e estaria perdido. Silêncio! As sereias se prendem em nós ao acaso. Meu globo ocular fulgura no crânio como lanterna dos afogados. Nenhuma entra, pecadoras arrependidas. As caras-metades passam ao largo! O olho que me olha não me vê. Não brilho em seu olhar, nem vou descobrir suas marés. Apesar do desprezo, o ardor do álcool aviva a alma, saindo esplêndida e pura de seu lume. Além disso, busco a maviosidade de seus cantos, atraído para os baixios do mar. A aguardente represa no estômago navega à ilhota mais remota dos miolos. Tempestade a estibordo, os relâmpagos insistem tanto em meu cérebro que não saí do meio-dia, as ondas se espatifam inteiras contra os rochedos, se retiram sobre os seixos e se entrechocam num vaivém contínuo. Ah, aspiração de marinheiro! Gravar as formas híbridas expostas à luz. O vento vesperal sopra sobre elas, queridas aragens colam os vestidos aos corpos ondulantes, incendeia suas formas. Observo uma a uma, suas bundas e suas coxas andantes e flexíveis, desgarradas em vivas cores. O dar-de-ombros delas. O que esperamos reunidos? Meu olhar ancora em suas formas, olhos mais fracos, mas não se fartam, ancas largas, fornidas, seios pesados, tornozelos inchados, varizes expostas, outras minguadas, magras, não deformadas pelas crias. A preferida, de cabelos ondulados, cor de espiga. Quero teus ombros e dos teus braços abraços, faz um arrastão desesperado no meu peito quando passa. Gosto de apreciar essas sereias que deixam a fábrica sob o gemido magoado de maviosas sirenes. Largam um pouco de si aqui em meus olhos encharcados, mas levam um pouco de mim. A embriaguez se torna avara por formas e, o fulgor sob a pele, ilude a dor. Elas passando a bombordo, só arranjos de cor, e eu, na proa, velando: todo homem tem seu breve momento de trono. No recesso oculto, lembrarei de vocês, queridas mulheres-sereias, isto é, quando os espectros não forem ofuscados pela ressaca, serão cinco contra um, saca-e-ressaca, ao fluxo e refluxo, o fluir

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e o refluir em busca da ondulante e fúlgida grinalda, o corpo confessa. Eca! Pobres lascas de sonhos se aconchegam na mão de anzol. Só a ilusão me mantém abrasado, chama pela chama - sob essa circunstância, a visão da carne é amotinada e demoníaca. Perdido em remo e vela, falo com meu falo. O esgotamento chega a cada onda. Futuroeterno: Serdes fecundos e multiplicai-vos. A esperança obriga a caminhar em círculos. Não é nossa culpa se somos feitos assim. Então, foge das sereias! Uma noite inteira em claro por causa do primeiro beijo de salivas proibidas, e o coração náufrago a palpitar pela intrigada e ignota sereia. Nos silêncios é que se vê. Manter a mão treinada, o caniço sonolento e inconstante, ressecada lesma, fogo mais de cinzas. Abandono de propósito o rastro seco no lençol para ela lavar: separou nossas camas, agora agüente! Mãe trincava de raiva. Tiririca da vida por causa da sujeira na roupa de cama: depravado! A marca de água do autor. Minha mulher lava em silêncio, insatisfeita, recebe pouco amor e parcos gozos. Nunca com coragem de me abandonar - ainda acredita na existência da lua. Gozoucomquem? Se me trai, só em pensamentos. Uma única certeza: até minha cinza será torta. Liberto da maldição paterna, eu traio primeiro, pai - comigo, sem surpresas. Ela bem sabe, não te darei o céu nem as estrelas, Fabiana, tem que viver comigo sua vida de cadela. Só preocupo em rosnar e ladrar, não sou cruel, apenas verdadeiro. Marujo, a saideira, por favor. É, chega, a sede é ilimitada e o dinheiro breve, soa a hora: fecha a conta, por favor. Recolher a vela, ficar à deriva. Precisava ter bebido mais. Sem saldo. Hora de levantar âncora, de se lançar aos sorvedouros, vôos sem asas em nublas rubras nuvens. Aqui está o puto do dinheiro. Quanto deu? Sobejou quase nada, vou ter de pedir mais pra mana, a mana dos bichanos alquebrados e abandonados. Pra todo lugar carrega o preferido abissínio, de pelagem iridescente e olho malvado: filhos que não tive. Tapa-buraco na alma com outro buraco. Sem liberdade de atuação, barganhou as bonecas pelos gatos por causa dos fingimentos doentios da mãe, dependente e mal agradecida: de tanto lidar com esses gatos, já tem o cheiro de morrinha deles. Tudo certo, amigão? Então, inté. Fora do boteco, à deriva, o mar está calmo, mar oleoso, preamar. Nem percebi um promontório com rochas a pique e fendas profundas antes de minha toca. Portulano inútil. Para vante! Passos feitos de partida. Ruela de movimento parado, ar mosaico, saturado de suor, o sol suando, mal se move no último mês do ano. Quem te vê até troca de calçada. Posto a bordo, bem por cima de roucas ondas, só os temporais do mar largo podem me incomodar. Deste cesto de gávea, vejo as janelas da casa. O dente cariado, ou o que resta dele, pulsa na boca: preciso cuspir - aqui mesmo, sangüíneomuco no cimento encardido - dirão que gente cuspindo sangue passou por aqui. Que cacaria! Não se desce inteiro de uma cruz. O colosso que domina o mundo! Circunavegar por pisos despedaçados, marujo de águas acuadas rascunha no passeio em declive. Estou impetuoso, com fibra para afrontar qualquer situação. Sim, o delírio reencontrado, deste modo, o mundo é mais tolerável, simples como um toco de cigarro, ou melhor: um trago. Tufos de capim pelo passeio, musgos verdes pelos vãos do muro. Sargaços lançados a esmo, exaustos da condição de abordagem, vigília enferma, pisoteados por nautas distraídos - ou serão longas crinas melgaças a agonizar sob um sol algáceo?

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Lá vou eu, albatroz de asas tortas, de sonhos naufragados, a cada golpe de asa um estalo de açoite, as dores dos séculos me guiam - um aleijado - voando sozinho, adejando vida afora, mas, livre é quem está mais só. Além, a luz encarnada da tarde ardendo, ornando a orla do mar, que só eu vejo. Búzio incandescente. Mas que calor ô ô ô ô ô ô... No tombadilho, os crepúsculos são mais longos, igual à luz nos agudos cacos de vidros rubribordados do muro, é o mesmo sol que o ocaso me conduziu. Puro destino pra uns, escolha pra outros, ilumina o marujo intrépido de antes, escondido aqui. Lento, bordejando, frente à ilha para o mundo, indo pra casa, único porto a frente, atraído para os baixios do mar, quase soçobrando, existir é um jeito de insistir. Um dia estas águas serão mais serenas. Minha casa - costear pelos fundos. Logo serei mordido pela minha cecília: bebeu outra vez todo o dinheiro? Ouço seu sucessivo canto inebriante. Sem desculpas hoje, ontem, amanhã. Surdo ao canto da sereia: te odeio e te amo. Só queria me fazer ao largo. Meu informe sonho não me abandona, um mar rugidor, cheio de abismos. As coisas pequenas nos impõem hábitos. Duvido de tudo que existe e estou vendo, mãe nunca devia ter me posto no mundo - a culpa não de todo dela, alguém a pôs, maldição adâmica. Maldito símio que desceu das árvores e começou a andar de pé! Se pudesse embarcar, amanhã, outro navio se vai fazer ao mar remoto, mas não leva embarcadiço encanecido. Maré vazante. Resta-me voar, talvez forjar asas de cera, solto em precipícios de ar, ruflando as asas até se enfadar, com os ventos azedos nas fuças a ver as velas a todo tempo, aqui e além, brisas leves enrugando mais as vagas franzidas, colchão macio de nuvens. Mas as alturas não foram feitas para pássaros domésticos, começo a cair direto aos penhascos - de novo na mesma prisão, não há promessa de azul pra nenhum humano. Sem vôo largo, ainda que o céu se precipite, mesmo sob penas emplumadas bate um coração de réptil aqui, então, mareado, rastejo até o vão da porta da cozinha. Bem longe se forma a tempestade, se espalhando contra um céu abalado, contra mim. A cerração baixou cedo e a última estrela se escondeu. Trago sal nos cílios, é preciso estar sempre embriagado. Acabou o dinheiro e estou sem tempo. Minha camisa esquecida no varal, como uma bujarrona estufa, afronta e insulta, vento ruim. A bóia de luz apagada nas profundezas da casa. Vai ser complicado me conduzir até a cama. Não vejo ninguém, um desembarcadouro abandonado, a tempestade chegando. Só há vazio e sombras: todos abandonaram o navio? A tempestade está chegando. Espero que, quando chegar de toda, eu esteja apagado em minha cabine. No fim, o mar rejeitará os entulhos e a maré só trará outras carcaças de sonhos. Encalhado ficarei, a espera ensina. Diversas emendas na página cinco. Precisa ser revisto. Texto retorcido e nodoso. Não decidi sobre o título. Títulos provisórios: Mão Pesada, A traição se faz presente, Uma espécie de maldição, Sanguessugas. Reescrever será fácil. Traição. Agora faz sentido. Incomensurável sentido. Minha escrita não vai além do quintal. Para ser universal basta cantar o quintal. Eu preferia um quintal mais limpo. Amar o cotidiano e não o excepcional. Não se melhora senão o que já existe. Tudo aqui, menos a mochila. Isso reforça a repetida expressão: está sempre no último lugar que você procura.

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Epa, a alça dela. Vem cá! Presa logo entre o pé da cama e da cômoda. Esticar mais. Cheiro madeira molhada. Meu suor penetrando em tudo. Peguei. Nunca tateei pra valer o corpo dela. A ousadia que nunca tive ânimo de cometer. Uma regra de conduta. Pra cima! Todas essas cores desmaiadas. O coração empalado numa costela, talvez estoure. Ela veio esbarrar comigo e eu todo cheio de princípios. Bem cioso, de muita dignidade, são feito os tolos. Inútil respeito. Todo o gênero de desgostos que se tem ao lado delas. Não merecem um pingo de consideração. O sábado em que fiquei com ela na pista de atletismo do colégio. Meio deitada, meio reclinada. A solicitação do corpo. Desmanchada a cabeleira, enlacei sua cintura, abrindo o fecho da blusa. Pincelara rubro batom nos lábios e retocara os supercílios com alegro rímel. Tremeluzente. Rigorosa com suas regras. Bem atrevido estava. Enrubescido. Bebi duas cervejas mornas, no gargalo. O ânimo no fundo da garrafa, a coragem sob o efeito do álcool. Faça minhas vontades. Tenho a certeza que há um gênio na garrafa. Com três copos conquistamos a felicidade, mais três copos, temos o universo nos dedos. Cheguei bem mais perto. Os dedos no bico do seio esquerdo, palpitante coração, grandes e adoráveis olhos verdes sob pálpebras irrequietas e vibrantes, entre o fogo e o amor. Permitiu que eu passasse a mão. Avancei embriagado com meu triunfo. O tempo já não existia. Superexcitadíssima: Você me põe maluca! Bem mais linda excitada. Só não contava com os três ciclistas em nossa direção. Um seguindo o outro. Pior de tudo: Morcegão entre eles. Me deu um treco. Fiquei em pânico. Estão vindo. Quem? Uns caras com Morcegão. Vamos sair daqui, não quero que pensem mal de você. Que se danem esses caras! Não quero que eles comecem a falar mal de você. É mole? Tanta basbaquice. Estúpido constrangimento. Só o néscio aqui não sabia quem ela era. Aos olhos de todos menos aos meus. Detestava quando Morcegão vinha com o papo que eu estava transando com ela: É mulher pra ser trepada, não alisada. Se quiser ver um otário, olhe-se no espelho. Hora de zarpar. Não vou arrumar a cama. Canseira danada só de pensar. O segundo desmazelado da casa. Conto com Inês, caso contrário, o ninho ficará como está. A porta da rua destrancada. Quase sempre aberta de par em par sobre o patamar. Mochila às costas: livre. Me curva os ombros. O peso mal apoiado. Mais pesada que o costume. Latejam os ossos em geral, o joelho e todas as articulações, em particular o fígado. Sol pleno e acompanhante por todo o pátio da casa, nenhuma nuvem o encobre. É outono, mas será um dia abarrotado de luzes e calor. Muita chateação durante o dia. O que vão dizer? Fiquei sabendo que te botaram uma galhada na testa. Mais vale um galo no terreiro que dois na testa. Esqueci de pegar os óculos. Podia também pegar emprestado o MP4 da Amanda sem o consentimento dela. Por música e imagem neste corpo esfolado. Deixa pra lá. Não valerá a encheção

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de saco dela. Crisântemos amarelos na garagem, ao longo da improvisada estufa. Precisam de muita luz, mas não suportam o sol direto. Estou no mesmo ritmo. Folhagens extravagantes. Perfume enjoativo e avassalador. Gosto mais de gerânio, urtiga, madressilva e cedro. Moro numa selva. Tarzan é personagem preferido. Restos de plantas e terra adubada, sacos de fertilizantes, obstruções e entulhos. Vasos de terracota por toda banda. Não é à-toa que Pairanço vive urinando neles. Deste modo, a mulher aprende não entulhar o caminho. À noite em que caiu sobre eles. Pensamos que fosse ladrão. Não sabe se caiu ou foi empurrado. Chegou a legar que sofrera uma tentativa de assalto. Chia toda vez que ela diz que ele só estava babando de bêbado. Aqui, cactos vistosos enterrados em vasos de cerâmicas trabalhadas, imitam Cerâmica Marajoara pra serem vendidos a preços exorbitantes aos desavisados. O preço de tudo e o valor de nada. Há freguês pra todo tipo de produto. Ninguém sabe o que quer comprar, induzidos por outro. Se meu vizinho pode, posso. Invejosos corações. A casa continua sendo e sempre será uma extensão da floricultura. O tilintar do mensageiro dos ventos entre as folhagens. O sopro abana as folhas secas e quebradiças afrouxadas no piso. Tão agitadas quanto às recordações. Janelas como olhos magoados sobre o passeio. Conheça a simbologia oculta de sua casa. Na gastura em que se vive nunca se esquece. As cicatrizes cá estão e não desaparecerão. Uma casa de mágoas. Um ninho do qual devo voar logo. Levar a vida que eu escolher. Todos meus sonhos são sonhos de fuga. Primeiro, tem de aprender a se sustentar. Cheio de projetos, mas sem nenhum método. Ando a procura de um emprego, onde posso progredir. Ocupar-se de pouco para ser feliz. O gerente da livraria Virtualbooks ficou de me descolar um emprego, mas está me levando no bico. Em abril faço dezesseis anos. Talvez no fim do ano - quem sabe? -, é quando as vendas aumentam, aí, podem contratar extras. A livraria me livraria da falta de dinheiro. Mas a idéia de emprego temporário não me agrada. Tenho um currículo banal. A expectativa de que nada vai acontecer. O salgueiro-chorão logo vai se empoleirar no peitoril de minha janela. O vidro trincado: problemas visuais, falta de horizontes e perspectivas. Casa com formato em L. Lar, amargo lar, esconde todos os nossos defeitos! Uma casa má atrai pessoas más. O lar, tão sujo. Não há calma. Em desencontro, acidental. Parece, mas não é. Até o meu nascimento, acidental. O dia do nascimento do desgosto. Pairanço garante que ela não me quis desde o momento em que ficou grávida: Fiz você nela, na marra: te plantei na base do pescoção. Quis tirar, mas sabia que eu cortava seu pescoço. Pelo menos, foi o que ele me garantiu. Nem quis que eu mamasse nos peitos. Peitos de pedra. O dom materno que teimava não ter para o rebento indesejável. Amanda dormia com ela, eu não. Não queria que eu urinasse em sua cama. Existe é porque me descuidei. Teve relações sexuais com ela na marra. Afastada de minhas asas sem plumas. A galinha que chocou o ovo de um estranho volátil. Teria sido melhor que não me houvesse dado à luz. Uma mãe bem temperamental e imprevisível. Dura como pedra: itá. Itasy. Mãepedra.

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Mas quem é minha mãe? E meus irmãos? Conheci esta história através da Bíblia de Vózilda. Serei como o Enviado: foi um cara rude, repreendeu à mãe o tempo todo, brigou com os irmãos, abandonou o lar, renunciou à família e partiu para pregar. Mesmo assim não se livrou por completo deles. Os valores da tribo. Família é como varíola, a gente tem quando criança e fica marcado para o resto da vida. Lar, doce abacaxi. Não há fotos de nós dois. Não se fotografa mãe e filho, a criatura indesejada que havia trazido ao mundo. Ela diz que nunca gostei de tirar foto, sempre me escondia. Feio demais? Uma lombriga branquela de calção imenso, dizem. Trago a alma carregada de ciúmes! Uma perigosa obsessão. O ciúme é monstro que se gera em si mesmo e de si nasce. Não se cura a alma com remédios nem com pajelança. As polidas grades do portão de ferro forjado esquentam. Marcas de pneus no piso. Ela também deixa rastro. A primeira lufada de ar poluído da rua penetra nas narinas. Os cheiros estão vivos demais. O apanhador-de-sonhos na janela do quarto de Amanda se desorienta com a imprevista aragem. Ou com o meio-irmão? O cortinado enrubescido enfuna pela janela como se fosse uma língua intrometida, sibila sobre mim: Chifrudooo! Chifrudooo! Chifrudooo! O ar da liberdade. Favor não deixar o portão aberto. Deixo. Não respeito o desejo de nenhuma fêmea mais. Afrouxado acaba atraindo algum depredador de jardim. Muro baixo, o malandro pula. Estarei livre para sempre das adocicadas e sepulcrais margaridas, e Inês em má situação com a patroa, levando a pior. A casa em frente vazia, para ser alugada. Ontem, pela manhã, um casal esteve percorrendo o interior dela. A mulher do sujeito é bem gostosa. Pena que não posso ver o seu quintal. Pegá-la desprevenida. Contemplaria seus segredos, cada dobra do corpo. O céu escancarado na poça d'água junto ao meio-fio. Ué, choveu durante a madrugada. Não vi muita coisa até ontem. Noventa dias sem enxergar um palmo diante das fuças. Enxerguei de menos. Os porcos não olham para o céu. Fiapos alvos e sinuosos de nuvens no espelho líquido esparramado no asfalto. Caminhos celestiais. Amo as nuvens que piso. Nuvem em forma de baleia. Só nuvens se transformando. Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes. Se pisar macio, ando sobre o céu, onde o Todopoderoso espera e julga. O céu propício está sob os pés como por sobre as cabeças. Um sol enganador reluz nos charcos. Blake fixou os olhos no sol e viu anjos. Eu vejo apenas uma borra de clarão. Céu e terra aí estão como se nada tivesse acontecido. Permaneço entre o céu e a terra. O céu pode esperar. Um pecador contumaz. Um pé no céu e outro no inferno. Algumas lojas abrindo antes das sete horas pra receber os funcionários. Onde está a apetitosa da locadora? Não há sinal dela. Quando deixa o serviço, fica junto à terceira pilastra, em selvagem quietude, com o inseparável cigarro até que um felizardo vem buscar a sua pessoa. Um dia, vamos todos morrer de câncer nos pulmões. O gay da locadora contou pro Morcegão que adora ser possuída por trás. Ele deve temer a concorrência. Com aquele traseiro, seria pecado se não deixasse. Utiliza a mais perfeita parte do corpo. Tem dois lances inesquecíveis: a admirável boca e o esplêndido rabo. Pena que nunca me notou, preferência pelos mais velhos. Cresça e apareça, Peter Pan. O autor da Terra-do-Nunca não cresceu mais de um metro e meio e costumava afirmar que nada aconteceu de importante em sua vida após os doze anos de idade. Que falta de sorte, Cabitu no balcão da padaria.

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As luzes dos mostradores dos dois refrigeradores verticais têm um brilho fantasmagórico por trás das portas de vidro. Pregada no balcão com o diário fio dental entre os dentes. Gata ronronando. A dentuça que limpa as presas na alvorada. Já me viu? Saberá? Nada se espalha com maior rapidez que uma fofoca. Na primeira mesa, um freguês apenas por trás de um jornal. O café esfria diante dele. Não tem em que se concentrar. Com grande interesse em tudo e em todos. Vai me chamar pra ouvir os acontecimentos de ontem. Terei que ouvir todo o cricri. Herdou as manias da mãe, a fuxiqueira da rua. Esperam sempre descobrir algum segredo de todos nós. Alguém sai ileso de uma sindicância? Segredos, todos temos. Camuflamos nos gestos e nas palavras. Se me revelar o seu, eu conto o meu. Sua voz nasalada chega a me irritar. Morcegão tem tesão por ela. Chega a delirar: Ela deve fazer ronrom na hora do pega-pra-capar. Na alma está o que nos excita: os fetiches. Acho os pés dela bonitos. Pés descalços, bem cuidados, arcos pronunciados. Morcegão não aprova minha tara: Tanta coisa pra se reparar numa garota e você vai ligar logo nos pés, cara! A excitação e o prazer de ver, tocar, lamber, cheirar ou beijar os pés delas. Footjob. Jesus gostava de tocar nos pés das pessoas. O que ama muito não será tirado de ti. Todo mundo tão pervertido quanto eu. Morcegão foi descartado na primeira tentativa: Vê se enxerga, atoleimado! Mas qual a garota que vai ficar com o cara que pergunta a todo o momento: você já tem par? - espanta qualquer uma. Não me viu caso contrário teria me chamado. Saberá de qualquer maneira. Outra boca pode contar melhor que a minha. Nem era segredo, apenas para mim. Tagarela com a moça do caixa. Mais que simula ser. Todas elas. No início, anjos que acalentam, em meses, demônios que torturam. Se prestássemos mais atenção, veríamos o que são. Um detalhe revela a alma oculta ou a verdadeira natureza do objeto. Isso me faz lembrar o velho filme Blow-Up, baseado no conto de Cortazar: Las Babas Del Diablo. Morcegão baixou o filme pela web e me deu uma cópia. Tão antigo quanto Pairanço. De bobeira o cara descobre o oculto. Passeando pelo parque, tira fotos sem pretensão alguma, fotografa um casal se beijando, após revelar o filme com sucessivas ampliações da imagem, descobre que registrara um crime. Um fotógrafo que não consegue se comunicar a não ser através das fotografias que vai tirando. Vive a impossibilidade do amor, fixando vertigens. Enxerguei na noite passada. Só não pude fotografar pra por no meu blog. Por falar nisso, onde anotei a senha e o nome de usuário do antigo blog? Pelo sim, pelo não, tomar nota. Como pude esquecer a senha pessoal? Não adianta tentar as combinações mais prováveis. Ir lá e tirar os textos de apaixonite aguda e toda a minha incompetência amorosa. Há o bastante do meu antigo coração. Delete: desculpe, mas a página ou arquivo que você procura não está aqui. Tenho de parar com a mania de criar blogs que nunca visito, nem atualizo. Ninguém mais faz coisa alguma em off-line. Todos ficam sabendo de tudo. A geração que se autopublica. Cabitu pra trás. Não corro mais perigo. Vai ser impossível se livrar da turma. Esconder deles. Se me chamarem de cornudo não vou segurar a raiva, dou umas chifradas. Pairanço se esconde de alguns conhecidos. Não quer que eles vejam a merreca que virou sua

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vida. Apropriado marchar embaixo destes ipês-amarelos. Sombras frescas, quase sagradas. O culto às árvores foi uma das primeiras formas que surgiram de religião. Deuses e deusas de ramos. Um, dois, três, inflando os pulmões para a purificação. Soltando o ar contaminado. Não há ressaca que resiste. Esconder no oco de uma árvore e ver os acontecimentos sem ser notado. Ver todo tipo de sacanagem, como as minhas mãos apalpando as coxas de Amanda. Ela se esfregando em mim. Irmãpluviosa. Irmãchuvisquenta. Aconteceu. Não podia ter acontecido. Muitas vezes, cada vez foi melhor para o corpo e pior para a alma. Após o banho, sentada no meu colo, no balanço de pneu, metida em seu roupão chinês de dragões bordados. Nem vejo seus olhos perniciosos. São mais complicados de reparar, um incêndio sem chamas. Prefiro contemplar o riso lascivo das marias-sem-vergonha, no canteiro ao lado. A alma em total desequilíbrio, é quando o meu coração, bem colado às suas costas, dispara. Não há como fazê-la parar. Nem quero que ela pare. Não é minha irmã enquanto eu tiver vontade de furá-la com meu pênis. Mateus me ensinou um truque. Disse que não ia mais brincar com o primo dessa maneira! Me deu vontade, ué! E ele me dá bombons toda vez, e você não dá nada. Interesseira, com talento de sobra. Ajusta as coxas obstinadas, contraindo os músculos vaginais tenta beliscar meu membro entre suas coxas. O recente truque do primo Mateus. Que mais que o desgraçado te ensinou? Os bordados dragões na seda vermelha dançam seguindo o vôo do seu corpo sobre o meu. Os dragões eram belos enquanto filhos de Deus. Não posso me conter. O poderoso veneno domina o meu espírito. Os malmequeres brancos estremecem junto ao muro de placas de cimento. Sutis momentos de desgraça. Então, veneno, termine tua obra! O jorro vem do subterrâneo encharcando tudo pela frente. Depois do gozo, seu peso parece insuportável, me esmaga a alma. Vai embora, tenho de estudar! Sempre demora partir. Toda vez tenho que empurrá-la do meu colo: Cai fora! É por isso que gosto de brincar mais com Mateus. Não pode ser detida. Age por desafio. A vergonha e o prazer se misturam como um único veneno. Não tenho onde esconder. É a parte mais deprimente. Sinto a emanação ardida de folhas apodrecidas, assemelha ao odor de violeta que procede dos corpos em decomposição. Então, eu apodreço na tarde. Não se descobre nada de pior no mundo que não esteja no quintal. Nunca deveria ter feito. Renunciei a mim mesmo pra encontrar contentamento. Se não tivesse caído em tentação. Mas nunca fui capaz de resistir. Tudo começou quando ela me contou o que o primo Mateus fazia com ela. Também, me vi no direito. Exceto a rola e o pombo, que se unem à irmã, todos demais animais conjugam-se com outras fêmeas. Houve um tempo em que um índio deitava todas as noites com a irmã, não mostrava o rosto e nem falava com ela, para não ser identificado.

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Um dia ela passou tinta de jenipapo no rosto dele, e, mesmo lavando o rosto, a mancha não saiu. Então, descobriu quem dormia com ela. Envergonhado, ele subiu numa árvore que ia até o céu e não desceu nunca mais. Deixou a terra e o lodo, mudo e sisudo, virou lua. Por causa do jenipapo passado nas faces, a lua tem manchas escuras. Não posso virar outra coisa. Tenho que interromper essa relação doentia. Me alivia o corpo, mas desgraça a minha alma. Olha só! Acho que é a apetitosa da locadora na camioneta picape. Reconheço esta delícia de longe. Não erro nunca. Conheço bem a boca larga e o bumbum arrebitado. Fascinação ao sol. Quem é o afortunado? Deselegante barriga de pingüim transbordando por cima do cinto. Ouvem a envelhecida La Bamba, com Richie Valens. O cretino é bem atrasado em se tratando de música. Faz gestos sem parar para impressionar a fêmea. Detesto esses estúpidos que só falam com o corpo. Tenta ser inteligente. Bem-sucedido, pode ser. Mas dinheiro não põe ninguém sabido. Bem vestido, não resta dúvida. Um tanto feio. Devia gastar algum dinheiro para consertar o focinho. Carro do ano. Se tiver carrão, tem mulher bonita no pedaço, uma coisa completa a outra. Passar diante delas assobiando com a chave do carro na mão. Avaliam o sujeito pelo carro. Se mãe me emprestasse o carro, grampeava muita mulher linda. Ficou louco? Nunca vou botar meu ganha-pão na sua mão! Além do mais, só tem quinze anos. Como é mesmo o nome dela? Mitológico. Vamos ver se recordo. Na ponta da língua. A cabeça não anda muito boa. Valquíria! Isso, a que escolhe os guerreiros, a que seleciona os mortos em batalha. Um nome bem adequado. Com essa blusa negra, de alça, sabe o quanto fica deliciosa. Peitinhos em forma de maçã ou de pêra, só uma questão de cuidados. Ela facilita a posição. O poder dado elas para nos envenenar e aniquilar. Aprender mais sobre elas. E não fingir saber o que desconhece, nem sequer desconfia. Serei aquele que sabe. Tantos livros lidos para aprimorar meu estilo e de nada adiantou. Nada sei sobre elas. Pensei que sabia. Fugi para salvar a honra. Honra se ganha e se perde. Sem a camioneta, não mais suportável que eu. Poderia ter coisa melhor, querida. Yo no soy marinero, soy capitan. O jegue continua babando. Olha só, o cretino concorda balançando a cabeça de jumento. Óquéi, um pouquinho de momento mongol pra animar. Dá moleza, otário, que ela te ferra, te bota um par de chifres e aí, pra dirigir, só abrindo um buraco no teto da camioneta. Seja feliz com o otário da vez. Sabem preparar uma armadilha. Mãe é experiente nisso: Use a saia curta azul-safira, Amanda, e a mini-blusa cor de açafrão: vai ficar irresistível. Vestem-se para elas mesmas, nunca para os homens. Insinua gestos fatais diante do espelho oval, novas caras e bocas. Os olhos dançam, cuidam das minúcias. Esta, a minha cara, a cara que aparece, mas não exprime o que sou. Qual o sorriso arrasador? Espelho meu, não me diz como sou, mas sim, como penso que sou como desejo ser, e no contorno, como não sou. Editadas em ritos. Dizem sim e dizem não com a mesma facilidade. Vestidas e maquiadas pa-

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ra serem desejadas. Fascinantes e frustrantes. A preparação supera a própria festa. Apressar os passos. Ando como se tivesse todo o tempo pra gastar. Céu rasgado de safira, tão luminoso como a capa do livro Ulisses. Em curtos passos, bambos passos, em largos passos passeio no passeio. Deito abaixo as habitações erigidas pelas desprovidas formigas. Indigentes aimirim. Ritmo de ressaca ladeira abaixo, lúgubre vôo, curto e tenso, estridulosas pisadas. O mesmo caminho é de descida e de subida. Não há um só instante em que não destruo e não sou forçado a destruir. Quebramos o mundo para o tornar inteiro. Sou um espírito curumim, que carrega o próprio cadáver. Indo de pernas bambas e tênis gastos, pisei. Precisava pisar mais nela. Passos e impasses. Vai ao fundo como uma pedra. O letreiro indica que meu cabeleireiro se mudou para o andar de cima. Barras de ferro por pintar protegem as janelas dos fundos. Acaba de aumentar os preços de maneira descarada. Cortou meu cabelo bem mal da última vez. Nem adiantou reclamar: Seu cabelo não ajuda, tem cabelo rebelde. Cabelo de porco espinho - falou na lata, com aquela boca mole. Antes dos quarenta vai babar, desgraçado! Não fatura o suficiente para se manter rente à rua. O aluguel de cima mais em conta. Não há motivo para subida de preço, então. Tirando vantagem com a mudança. Mudou pra pior. Não importa com a freguesia. As janelas superiores do pardieiro que um raio claro de luz ofusca, lacradas pelas persianas vermelhentas. Dois dedos levantam uma lâmina e dois olhos bisbilhoteiros me avistam, cuidam da vida alheia. O desequilíbrio entre o mundo exterior e seus olhos. Faz a ronda. Pensa que não vejo que ele me vê. Viver só de olhar as outras criaturas que passam pela rua. Ouço através das paredes. Espicha o pescoço em busca de sentido. Mais bem sucedido quando vê a vida de uma única janela. Então, não é o que parece. Eta vida besta, meu Deus! Quem olha através de uma janela aberta jamais vê tantas coisas como quem olha de uma fechada. A missão de recolher informações secretas sem ser notado. Estava em off-line, conectar. Ontem não pude ver a vizinha se lagarteando. Os Deuses de todas religiões também gostam de ficar escondidos, só espiando. Não corra ou vou atirar nas suas costas. Ouvidos ajustados às vibrações do sofrimento humano. Um simples piscar de olhos no tempo cosmológico. Cochila, e as Mels aprontam. Eva pôs tudo a perder. Haveria nada nela senão as ilimitadas das lágrimas humanas. Adão era um cara que ficava na dele. Havia uma fagulha de esperança para os desobedientes. Se quiseres, podes vir. E ela foi disposta a trair sempre. Não sei como ela faz, sei que consegue sempre algo de mim. Mesmo as piores coisas podem ser feitas com as melhores intenções. Os resultados falam por si. Deus ao redor, assistindo, sabe tudo, me vê fazer debaixo das cobertas ou sob uma chuveirada. De nada adianta fechar bem a porta. O que estás a fazer não me agrada. Não se pode contar com a nossa boa vontade. Do outro lado da rua bate menos sol. Continua a subir pelo céu. Atravessar. Ressaca ao sol aborrece. Sempre um bagaço às segundas-feiras. A não ser que meu ânimo seja forte, o dia será um fracasso. Na extrema curva do caminho extremo. Menospreze a decepção. O negrinho sentado no meio-fio, abraçando os joelhos contra o peito, se diverte em lançar reflexos de luz solar nos rostos dos passantes com um pedacinho de espelho. Fulgor minúsculo de sol nascente em ângulo obtuso. Vai me cegar, moleque! Guri-da-periferia-sem-lazer brinca enquanto à hora veloz brinca com nós. Bestial e de pouco

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saber. Encanta-se com ninharia. Pulou da cama cedo pra nos infernizar. Febos dançantes. Ri com deboche quando surpreendido. É da vida nas ruas que mais gosto. As horas são breves, que sejam úteis. Pouca diversão numa vida sem futuro garantido. Nasceu negro, pobre, num país lindo e trigueiro do terceiro mundo. Da cor dos que são perseguidos. Mate ou morra de fome. Essa é a sina. Um país do futuro, estará sempre para ser feito. Um país que nunca existirá. Dizem que não há racistas por aqui. Para inglês ver. Os ingleses nos deram um prazo de sete anos para abolir o tráfico negreiro, mas a Lei elaborada pelo Ministro da Justiça, Padre Feijó, tão confusa sobre o julgamento e as penas impostas aos traficantes de escravos que a sua aplicação era inviável. Remédios fortes e prontíssimos podem salvar a Pátria. O negócio teve que continuar por mais cinqüenta anos. O racista ama muito a si mesmo, ama-se tanto que não tem lugar para os outros. Como os liberais norte-americanos, que dizem aos negros: é meu irmão, mas jamais será meu cunhado. Pátria do evangelho. Religião e Pátria são times imbatíveis, quebram todos os recordes de opressão e derramamento de sangue. Fornecem diferentes respostas para todos os problemas. Se quiseres ser perfeito, vende o que tens, e dá-o aos pobres - não vejo um cristão de fé fazendo isto. Roda de escarnecedores. A vida é mesmo um jogo. Alguém perde para outro ganhar. Quanto mais leis, menos justiça. A justiça não existe em si. De cabeça de juiz e bunda de criança nunca se sabe o que vai sair. O mesmo que esperar consolo das pulgas. Todos os capítulos da Constituição por um Artigo Único: Fica obrigado a ter vergonha na cara. Político honesto é igual a um unicórnio, eu nunca vi, mas deve existir. Esse negócio do coração ser verde-amarelo, branco, azul-anil, vai à putaquepariu! Estão fazendo pior que os norte-americanos. Lá, eles caçaram seus índios à bala, aqui morrem de fome. Bugre serve pra ser morto à míngua. Só estamos limpando a terra. As guerras seguirão enquanto a cor da pele tiver maior significado que a cor da alma. Ascendem incêndios. I have a dream. Viver numa nação em que as pessoas não sejam julgadas pela cor da pele, mas sim pelo caráter, ainda é sonho. Certos homens chegam aqui como homens e, movido pela ambição, partem como deuses. Que o povo não sabe votar ainda vale. A solução do país do jiló-camundongo-do-dendêpernilongo não está em quem está governando, mas em quem deixa governar. Até logo, chatonildo. O joelho lateja. Pulsa mais quando me lembro dele. Desde ontem não sou a mesma pessoa. Mas sou free, não sofro mais. Sem expor os sentimentos. Não ligo mais pra ela. Não fomos feitos um para o outro. Foi colocada perto de mim pra me desgraçar. Vou queimar seus açucarados cartões. O peso total das cinzas, da fumaça, dos gases da combustão, será idêntico ao peso dos cartões e todo oxigênio que reagirá durante a combustão. Deixar o tempo correr e nada de apressar os eventos. Daqui a seiscentas mil horas, morrerei. Isto é, se alguma maldita peste não me pegar antes, aí, já era. Nada é absoluto e imutável. Queria que a Morte me encontrasse plantando meus repolhos. Que horas agora? Apegado ao tempo. A eternidade depende de uma hora. Se jogássemos os relógios fora, ainda estaríamos presos ao tempo. A morte está escondida nos relógios, no balançar deprimido e estafermo de seus pêndulos. Em breve, serei um velho ridículo magoado com o deus Cronos. Foi escasso o tempo me concedido. Antes de Einstein, se pensava que o tempo fluía uniforme, sempre na mesma medida, agora e

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para sempre. O tempo uma constante variável. Com base no passado, o futuro era previsível. Agora, o ontem de amanhã. Hoje, não sou mais o que fui ontem. O tempo deixou de ser absoluto. Lá não estamos e estamos. Quanto mais rápido o relógio, maior o intervalo entre um tique e um taque. Acelerado, breve, perto, já! Vi os dois. Depende do observador. O tempo varia conforme a velocidade em que se encontra o observador. Quanto mais rápido se viaja, mais longo fica cada segundo, em comparação a quem fica parado. Os objetos encolhem na direção do seu movimento e o tempo passa mais devagar. Posso mudar o presente e o futuro, mas não posso mudar meu passado. O lugar para onde devia atirar as coisas inúteis. Espreitar as ocorrências de onde menos se espera. Ela vai continuar sentada no colo dele. As incertezas, em nível subatômico, impedem a previsão do futuro. Bem, posso passar sem ela. O éter não existe. Não dê língua a toda idéia. O futuro é agora. Tão perto de nós! As certezas são substituídas pelas probabilidades. Eu e ela, ele, princípio da incerteza. Um insulto constante. Possível ver o que não existe. Eles juntos. A maior parte dela ainda está em mim. As imagens estereotipadas custam a fenecer. Einstein foi um espanto para sua mãe. Achou que tivesse dado à luz uma criança deformada, um bebê de cabeça pontiaguda. Nasci com a cabeça achatada e olhos mongolóides. Olhos de índio. Para a mãe, um horror: Tinha todos os sintomas de um retardado. Sobrevivi. Deixaram. Se fosse filho de índio não escaparia. Índio aleijado não existe. É morto no ninho. A mãe produz o timbó pro infeliz beber. Não deixa de ser uma matança de inocentes. Chimpanzés e gorilas abandonam as crias defeituosas. Eu tinha acessos de raiva. Num deles, abri uma brecha na cabeça de Amanda com a coronha do meu revólver de brinquedo. Fiz como havia assistido na TV. Mais rápido que um relâmpago. Ouvi um ruído clique-claque não tão convincente como som da TV. A realidade, mais crua. Esperava que mãe me castigasse. Precisava de sua atenção. Foi uma decepção. Não fez nada comigo, fui ignorado. Vózilda que preparava meu sanduíche, veio em socorro: O menino não queria fazer mal à irmã. Enganada comigo, Vózilda, sou capaz de fazer mal até as moscas. Sem interesse pela ascensão e sim pela queda. Não gosto de recordar a porcaria da infância. Tenho vontade de estourar a cabeça de muita gente. É muito simples me irritar. Bem mais fácil me deixar nervoso. Bestial. Algo acontece. Fico alucinado. Persigo as animosidades que se aninham nos ângulos escuros do coração. Se essa escravatura não é má, nada é mau. Não há ninguém que não seja escravo de seus anseios. Um dos professores previu que Herr Einstein não ia ser grande coisa na vida. Todo aluno tem um professor mentecapto na cola. Temos opiniões contrárias acerca do mesmo objeto. Procuro nunca sentar nas primeiras cadeiras. Aroma açucarado no ar. Vem da próxima esquina. Alguém se lambuza de melado. Meio enjoativo para quem está de ressaca. Sem surpresa, imaginei isso mesmo: a bonbonnière ambulante do Negrão. Como sempre, temos doces de frutas secas. Ajuás. Açúcar, farinha de coco e maçã: temos maçã-do-amor. Elas apreciam. Açúcar para as minhas formas redondas.

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De olhos de tireóide ele rola as maçãs no melado reluzente e liquescente da vasilha esmaltada de duvidoso asseio. Que flameje! Sentir-se penetrado de viço e deleite. O freguês não escapa. Com o envelhecido olhar cúpido e com as mãos titubeantes tenta se tornar o flecheiro cego. Amôôôr... - Maçã-do-amôôôr! Olha à esquerda e à direita. A mesma repetição por todo o dia. Comprademim! Comprademim! O caramelo de brilho escarlate envolve as peles lisas das maçãs, alicia olhares. Símbolo máximo da tentação desde que Eva seduziu Adão. Propriedades estimulantes. Uma levíssima seda furta-cor cobrindo as peles delas. Usadas em inúmeras poções mágicas, em rituais eróticos, filtros de amor e encantamentos. O verniz pode ocultar muitos detalhes desagradáveis. Enoja. Fiquei ligadíssimo quando pus os olhos nela pela primeira vez. Mel é o nome dela – foi Viola quem me disse. Tenho de ficar com ela. Não é pro seu bico. Sem essa, Viola! Todas são pro meu bico. Virei o copo de birita, quase me sufocando, e fui pra pista atrás dela. Entusiasmo e álcool, ingredientes necessários para uma boa enxaqueca. Formas geométricas piscando nos olhos, inúmeros mosaicos árabes, sensibilidade ao ruído e náusea aguda. Uma espécie de faxina que ocorre no córtex cerebral. Dancei diante dela. Eu e minhas danças desajeitadas. Danço tão mal como a dentuça da tia Deni. Os irmãos estão até dispostos a pagar umas aulas de dança pra ela. Mas, com uns tragos, passo a ter vocação para qualquer coisa: Vou te ensinar uns truques e alguns passos. Encorajado mais ainda pelo sorriso e olhar de verde âmbar. Lábios inchados como se tivessem sidos picados por abelha. Fragrância quente e felina. Cabelos soltos, enxameados de maneira selvagem sobre ombros bronzeados. Mayflower. Era o mesmo que tentar aproximar da perfeição. Reservada a mim, de uma qualidade especial. Ignorava de onde viria o golpe. A perfeição é um defeito. O gosto da maçã não está na maçã, mas em algum lugar do cérebro. O cerne se encontra nos miolos. Sem chance de provar uma. As aparências nos enganam. A promessa a si mesmo de não levar uma vida cretina nem sempre funciona. O louco é um sonhador acordado - quem foi que escreveu isso? Sem chances de lembrar, vazio de memória. No final, acabamos indo de encontro à morte - zápt! É maneira de a vida te dizer que você foi demitido. Não há castigo mais terrível que o trabalho inútil e sem esperança. Por ela morreria. Traído e abandonado. Um lar para o coração. Não se regressa intacto. Obra alguma é tão importante que não possa ser interrompida. Deus vem e pimba! O artista se foi e ficou a obra inacabada. Nada que havia sido dito se mantém. A segunda parte de Fausto inacabada: És meu. Mozart estava compondo Réquiem para tocar em sua missa de sétimo dia, a fazer sua última brincadeira. Balzac escrevendo cerca de quinze horas por dia, impulsionado por inúmeras xícaras de café. Dêem-me café, vou escrever! Um truque dos seus. Competia com o registro civil francês. Era para abranger todos os tipos conhecidos de homens e mulheres, constaria de muitos volumes. Seguindo sempre o itinerário do sol. O que há de mais belo na vida são as ilusões. Deus nem aí para a produção humana de obras-primas. Todas as obras são inúteis, mas te-

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mos de proceder como se não soubéssemos. O Todopoderoso não oferece um banquete particular ou de caridade, nem dirige uma casa pública de pastagem. Mora no céu e observa tudo o que você faz. Se fizer qualquer ato que Ele não concorde, mandará você para um lugar cheio de fogo e enxofre onde o verme nunca morre e o fogo nunca se extingue. Mas Ele ama você! Basta ser obediente que o castigo nunca vem. A mesma ruazinha. Ontem passei carregado de amores ardentes e voltei embrulhado, botando os bofes pra fora. Atrasei cinco minutos apenas e foi o suficiente para descobrir tudo. Noite de míngua. Pois é, você é bom, mas a concorrência é grande. Entramos na vida de mãos vazias e saímos de mãos vazias. Não sabemos o que está por vir, nem o que se seguirá. Cada qual com ferimentos na alma e no corpo. A soma de vários sofrimentos, zoando com a mesma velocidade de um videoclipe. Que mal fiz antes, se não era nascido? Pedem para reencarnar. Pedi? Ser filho deles. Que bela escolha. Dei-te um corpo sadio, alma é por sua conta. É, temos alma, pode ser separada do corpo no sono, e permanente na morte. Quem garante? Temos uma alma que envelhece com o corpo. Fica-se velho, gagá. Não se conhece mais ninguém, nem mesmo os filhos. A memória se foi, junto com o que sou, mesmo assim, acreditam que deve sobreviver algo depois da morte. Mais se vive, mais se desaprende. Os mortos não devem saber coisa nenhuma. Quando chega a morte, se deixa de ser. Apenas um corpo feito de pó e terra. O que sobra, deixa de ser o que fui. A esperança de muitos que alguma coisa há para os mortos, melhor para os bons que para os maus. Mais que um amontoado de partículas, tem uma centelha da luz e do mistério divinos. Se não houver vida individual após a morte, alguma impressão energética será deixada no universo. A alma imortal habitará o mundo das Idéias. Será? As células continuam vivas depois que a pessoa é considerada como morta. As unhas e o cabelo continuam crescendo até que as reservas do organismo se exaurem. Mas isso continua sendo matéria. Nada além da matéria? Energia. Outro tipo de matéria. A alma é formada de átomos materiais. Massa e energia são duas formas da mesma coisa, e uma não existe sem a outra. Sempre existiu alguma coisa. Em outras eras, noutras esferas, numa outra vida. Cada dia mais gente fica ligada no lance. Perpétuos retornos. Ser o outro. Abrir as carnes a golpes de cabeça. Carne destinada à maldita terra que te pariu. Uns saem pelos pés. Tresloucados, beócios, sábios. Geração alienígena. Perdidos, macérrimos e parrudos, bebem as mágoas do leite materno. Experiências que não podem ser descritas com simples palavras. A vida é muito alucinada para ser entendida. Mesmo que não haja outra vida após a morte, as religiões servem de consolo. E pregam a mesma coisa: a punição aos pecadores. Baseiam-se no medo de muitos e na esperteza de poucos. Mais de cento e vinte religiões espalhadas pelo mundo. Qual seguir? Quando não se acredita em nenhuma religião, o homem encontra-se puro, mais homem, nada pode atingi-lo, nem um ser místico pode salvá-lo a não ser ele mesmo. Os que falam em religião querem nosso dinheiro e nossa liberdade. Na Mongólia, dizem que os cães, ao morrerem, reencarnam em homens. Almas sacudidas, arrebatadas, arrancadas de um golpe. O tumulto que todas as religiões são capazes de fazer.

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Não sei por que diabo tem tanta religião. Um meio para instruir e governar o ignorante. Nada explica. A primeira coisa a entender é que você não entende. Querem só ganhar dinheiro. Uma religião é tão verdadeira como a outra, estoutra, essa outra, aqueloutra. Se descobrissem que Cristo não existiu, as Igrejas continuariam exatamente como antes e poucos pregadores renunciariam a suas vidas de conforto. Haverá sempre crédulos a ouvi-los e doar o rico dinheirinho. Por mais que sofram, não abandonam os sentimentos de religiosidade. Presos a uma fé. A fé humana já se provou resistente a todos os argumentos da lógica. Ou é possível acreditar em Deus e viver sem religião? Deus é uma experiência sensorial e acreditar Nele depende da fé, e da fé apenas. Imutável, incausado e ingovernado. Precisamos de Deus para ser bons. Não sei o que seja DEUS, mas sei o que ele não. A tia do Duceguinho quase cegou de vez o infeliz. Levou-o ao altar de Santa Luzia e o fez tirar os óculos e jogá-los nos pés da Santa: De hoje em diante, não precisa mais deles. Santa Luzia, a protetora dos olhos, vai curar suas vistas. Reze comigo: Santa Luzia, protegei meus olhos e conservai a minha fé para que eu possa contemplar as coisas do céu, livre da cegueira da alma e do corpo. Amém. Dois anos sem usar os óculos, a miopia piorou. Para enxergar tinha que aproximar-se muito dos objetos. Se não tivesse voltado ao oculista rápido, estaria cego. Na ingenuidade, teria arrancado os olhos e os colocados em uma bandeja para serem entregue a devotada tia. Com um golpe de espada cortou a fé religiosa: Não me fale em santos! Hoje devora o que põe em debate a religião. Chegou a decorar tudo sobre o Concílio de Nicéia. Foi nesse concílio que tiraram o lado humano de Jesus. Uma criatura do Pai, não sendo eterno, sem essência divina. Houve um tempo em que não existia. Mas foi decidido para crermos em um só Deus, Pai todo poderoso, Criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis, e em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho de Deus, gerado do Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial do Pai, por quem todas as coisas foram feitas no céu e na terra, o qual por causa de nós homens e por causa de nossa salvação se fez homem, padeceu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu aos céus e virá para julgar os vivos e os mortos. Dois terços Deus, um terço homem. E a coisa espalhou para todos os cantos como um vírus. Sim, a religião é um vírus na mente, tipo: Espalhe-me! Passa de uma geração a outra, uma infecção que salta de uma mente pra outra. Não se dissemina porque é útil, precisamos de algum link divino. É-se sempre mais religioso que se pensa. Vózilda com a mesma pregação dos padrecos. A primeira pessoa que me transmitiu a idéia do céu. Nem pior nem melhor que os céus dos ameríndios. Os índios tinham Jurupari, o legislador, filho de uma virgem. Virgem antes e após o parto. Esqueçam Jurupari. Não há salvação sem Jesus Cristo. Os indígenas rezavam a Nhanderuvuçu e ao mensageiro Tupã. Manipulados pelos jesuítas. Tinham que substituir nossas divindades pelas suas. Deram conta de que tinham perdido a mão e procuraram conter os índios, puxando as rédeas. É melhor esquecer pra sempre esses deuses pagãos. Todo culto pagão é obra de Satanás! Reze muito. Deus quer que você se doe até doer. O máximo que puder de ave-marias e padre-nossos. Ganhar as bênçãos de Deus e usufruí-las no Paraíso. Cheguei a propor a Vózilda que gravássemos a sua voz rezando e a colocássemos pra rodar

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dia e noite, assim seria ouvida por Ele, e conseguiria as bênçãos com mais facilidade. Não era a mesma coisa: Deus precisa ouvir a nossa voz com sentimento, não algo feito por uma máquina. Tem que ter sacrifício na vida. É um bom Pai do Céu. O bom Pai do Céu permitiu que roubassem à terra de meus antepassados, esmagassem o espírito deles, e agora, os sobreviventes devem orar a Ele dia e noite para serem salvos. Então, vamos orar a Deus, Este que sempre permitiu que seus sacerdotes tapeassem os tapuios. O quarto dela parecia uma capela, dois oratórios, com suas respectivas imagens: o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria. Durante a Semana Santa, os santos eram tapados com panos roxos em sinal de luto. Longa semana de penitência e jejum. Pra baixo e pra cima com a surrada Bíblia de capa de couro. Não conheço outro livro religioso que ensine com tanta ênfase a sujeição e a degradação das mulheres. O Deus bíblico era inimigo das mulheres: Multiplicarei a tua dor, e o teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará. Mesmo assim, elas continuam, através dos séculos, arrastando os filhos e os netos para as igrejas. Cegas! Antes os Deuses se debatiam no Olimpo, furiosos entre si, entre mortais. Temos céus por toda parte. O céu dos cristãos, o céu dos mulçumanos, o céu dos hindus e tantos outros céus. Já foi mais fácil chegar aqui e dizer: eu sou Filho de Deus, eu sou o Deus vivo, e arrebanhar dezenas, centenas, milhares, milhões de seguidores. Em se tratando de coisa subjetiva, um bom poema nos leva mais longe que uma reza. Não dá pra acreditar sem questionar o que nos ensinam há mais de dois mil anos. O mundo não é o que parece. A terra não gira em torno do sol, mas segue uma trajetória reta no espaço encurvado pelo sol. Os princípios que regem o cosmos estão também dentro de nós. Com ou sem Deus nunca é o mesmo dia. Toda manhã o velho sol é novo. A religião nos engana, não nos conforta diante da morte. O coração não se satisfaz com pouco. O primeiro templo. Chegamos até aqui, não por causa de religião, mas por nós mesmos: o errado que deu certo. O temor nos torna místico. Descerem das árvores, andarem ereto, comer proteínas, de alguma maneira, abriu os nossos olhos. Iguais aos Deuses. Sou mais crente em me tornar apenas pó. Este mundo me basta. Recuso-me a participar do clube que me aceite como sócio. É inútil fazer com mais o que pode ser feito com menos. Aí vem o mendigo malencarado com os seus trapos. De braços compridos e pés enormes cobertos de pó de asfalto. Uma vez foi branco. Anda a procura de um miúdo. Vai tentar me catar uma grana. Liso, companheiro. Nem aí pra minha pessoa. Não é de se admirar que o mundo esteja tão cheio de corações gelados. Sabe onde atira o anzol. Mendiga as lixeiras. A miséria produz estranhas companhias. Para seu deleite, a cidade despeja triplicadas toneladas de lixo doméstico pelas calçadas. Passa antes do lixeiro. A necessidade é com freqüência a espora do gênio. A mãe da invenção. Debruçado sobre outra sacola. Uma velha revista e parte de um jornal, pra jogar fora, no meio do passeio. Ajuda sujar a cidade mais ainda. Olha só, encontrou meio bolo confeitado. De aniversário? Desgraçado e feliz. Sorte, hein?! Ou azar: estragado? - avalia. Os bens supérfluos tornam a vida supérflua. É pavê ou pacomê? Tem gente que só nascendo de novo. Guardado por dias, azedou: lixo! Envenenado. Perigo

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dar moleza para o azar. Um passo mal dado na borda de um penhasco. Sem capacidade de administrar o meu azar. O destino ou o azar são do mesmo pote. Estes sujeitos têm estômago de avestruz. Comem o peixe podre que comeu o verme que comeu o cadáver do rico. Assim, o rico faz um passeio pelos intestinos de um mendigo. Doce como mel ou amargo como peçonha. O perigo e o prazer andam de mãos dadas. O mal é ter mais olhos que barriga. De alguma utilidade. Comida é comida e sempre acrescenta alguma coisa à carne. O que não me mata me fortalece. Somos corajosos quando não temos nada a perder. A providência socorre os degenerados. Dedos encardidos mergulhando no glacê dormido. Farelos na barba rala e engomada de sujeira. Cedo se almoça sebo. Sou desastrado! Até o azedo tem o gosto de ambrosia. Isso mesmo, coma, esfomeado. Cava-se o túmulo com os dentes. Não foi à festa, mas está comendo do bolo. Nem triste nem feliz, nem coisa alguma. O paladar se forma, não nasce com a gente. O paladar é ofendido pelas coisas amargas, mas também pelas doces demais. Gosto de pimenta malagueta. Deve-se evitar a do Reino, fica grudada no estômago por anos, pode abrir uma úlcera no estômago, pelo menos, era o que Vózilda dizia. Bobagem. O que entra tende a sair. Bem, não é assim. Os tubarões engolem até placas de carro e não conseguem se livrar delas. A boca maior que o ânus. Só mesmo um filhodaputa pra jogar uma placa no oceano. Morcegão nem pode cheirar pimenta. Nem sabe como agüento comer tanta pimenta. Aposta que eu faço sempre as necessidades com um chuveirinho no ânus. O bolo possuía o feitio de um coração. Amor aos pedaços. Comemoraram há dias algum tipo de união. Não há amor mais sincero que o da comida. Vindo atrás de mim, a passo de tartaruga. Estou na dianteira, xará. Não importa quanto tempo se passe nunca me alcançará. Paradoxo: quando chegar ao local onde estou, terei avançado um pouco, de modo que ele nunca será capaz de me alcançar. Eu bem que precisava de um cigarro. Um zinho pra me livrar deste gosto de ferrugem. Pitar um pensativo cigarro. Meu reino por um cigarro! Um só levantaria minhas forças. Atravessar o deserto por um Camel. Não se vende mais Camel em qualquer esquina, é do tempo da Primeira Guerra Mundial. Dizem que os evoluídos não têm apego à coisa alguma, o desejo só traz frustrações e infelicidade. No mundo cristão, a ambição é um pecado. Orai pelos filhos, Senhor, que o egoísmo e a ambição não os desviem do bom caminho. Oram por nós padres e pastores. Mas precisam de muitos donativos. Dê a Deus o que é de Deus. Dízimos, centésimos. As igrejas necessitam de dinheiro. Sustentam os fiéis com o pasto espiritual da doutrina e sacramentos, é mais do que justo que os fiéis sustentem tais templos com uma parte dos frutos que colhem. Trazei o dízimo e eu abrirei as portas do céu. Toma-lá-dá-cá. O ouro ganha nome de donativo, ajuda-para-a-casa-de-Deus. Se os ministros do culto divino estão com Deus, por que precisam do seu dinheiro? Aproveitam de pessoas incultas e ingênuas com fim mercantilista. Já no mundo protestante, enriqueça e preste um serviço à sociedade e mostre o seu valor a Deus. A coisa mais importante entre os homens não é o amor, mas o dinheiro, os desprovidos sabem disso. Se todas as conquistas das religiões fossem eliminadas, alguém notaria a diferença? Dinheiro e santidade, a metade da metade. Falar a todas as línguas. Poder. Sou ambicioso,

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não enxergarei o cume nem quando o atingir. Só paro com a terra da sepultura. Quando ganhei o prêmio de poesia no colégio, mãe não me elogiou, desfez da minha glória: Muito bom desde que isso dê algum dinheiro no futuro, pelo que sei, poetas passam fome. Para o azar dela, terei bastante dinheiro em um futuro bem próximo. A glória, veneno que devemos sorver em pequenas doses. A ambição move o mundo. Não há cume quando se é ambicioso: o céu não é o limite. Deve compreender que eu não sou para brincadeiras. Elogios me acanham, mas, em segredo, imploro por eles. Trago dois poderes perversos: ambição e indigestão. Talvez, sobreviva a mim, mal-amada e desdentada, como a mãe de Napoleão. Serei mais necessário que a mulher que me pariu. Ou vivemos para termos conforto e felicidade ou não vale a pena viver. Temos duas vidas: uma que a gente sonha e outra que a gente vive. Existe o prazer da espera. Neste instante, necessito de um cigarro ou vou morrer de angústia. Vício desgraçado! Aprender a fumar é mais fácil que aprender a beber, e faz um estrago considerado. O alcoólatra nasce predisposto para o álcool e o fumante não, qualquer um pode viciar em cigarro - foi o que o palestrante pregou contra o tabagismo, lá no colégio. Fecha-se o cerco sobre os fumantes. As prefeituras proíbem o fumo em locais públicos e o governo quer aumentar mais ainda os impostos sobre os cigarros. Passeio largo. O cascalho range sob as passadas bambas. Pedregulhos. Estão aqui para serem pisados. Trilha, grila, tritura, larga a amarga carga. Rumores crescem à medida que caminha. Um futuro nublado carrega o horizonte. Nem lestrigões nem ciclopes diante de mim. Ulisses abandonou Ítaca sem saber para onde ia. Resistiu ao amor de uma feiticeira e ela lhe deu o poder de resistir às sereias. Embora não fossem tão bonitas quanto às pintavam. Só pode resistir à tentação quem não puder escutá-las. Foi desleal com a amada. Num casal há sempre um infiel. Trair para não ser traído. Valentia bem covarde. Casal feliz: marido cego e mulher surda. Quem mandou os dois se casarem? Eu estava tão sossegado fora deste mundo excruciante e eles tiveram relações sexuais numa furiosa noite pra me trazer até aqui. Ela, em tom de lamento, lutando consigo mesma durante duzentos e setenta e cinco dias para pôr pra fora a execrada cria. Preferia não parir. O marido deveria ter esfolado uma ao invés de ter relações sexuais com ela. Nada fez senão amá-la, parecia original e delirante. Magia perdida. Arroto. Bem azedo. O travo do álcool cozido nas tripas até a goela. Desculpe este cheiro, no momento, é o que tenho pra oferecer. Continuo repleto de efeitos alcoólicos. Digno de piedade. Mudei nessas últimas horas. A piedade já não me cai bem. Se caminhar mais depressa o sangue circula rápido, teremos mais oxigênio, e a maldita ressaca acaba de vez. Mas, cadê a audácia? Sem calcanhares, sem resistência. Entorpecido até as entranhas. Umas três horas pra queimar todo o álcool nas veias. Vai demorar. Quando aprofundar à tarde. Uma eternidade! Quantas coisas não podem ocorrer em três horas? O tempo só rende quando é bem aproveitado. Não será fácil apagar da mente o estresse de ontem. Muitas noites em uma só. Os piores acontecimentos explodem à noite. Não dá pra dar um control+alt+Del. Caminhar é essencial para a vida, produz a endorfina, a substância responsável pela sensação de prazer e de euforia, promovendo o equilíbrio da mente. Mas não há equilíbrio em mim, malestar sim, disforia. Eu estou num bagaço total. O corpo pedindo arrego. Se caminhar fizesse bem, o carteiro seria a pessoa mais eufórica e teria a profissão mais saudável do mundo.

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Preciso de um líquido nas tripas. Uma pessoa morre mais rápido quando falta água que quando faltam nutrientes. Viver de Luz. Prana. Dispensar a comida e a água. Alimentar-se apenas de energia cósmica oriunda do ar que respira. Algumas algas e bactérias vivem de luz, convertem a energia luminosa em química através da fotossíntese. Alimentação baratíssima. Jasmuheen: Somos seres espirituais e cósmicos, não precisamos comer alimentos sólidos para sobreviver. Sustentados e alimentados pelos reinos etéreos. O sol, fonte de alimento para os respiratorianistas. Então, a fome estaria banida da face da terra, onde uma pessoa, a cada sete, padece de fome. Vózilda jejuava durante a quaresma rememorando os quarenta dias que Jesus jejuou no deserto. Jejuou quarenta dias e quarenta noites, depois teve fome. Eu teria mais sede que fome. Apenas pão e água eram permitidos. Ficava mais morta que viva. Esses sujeitos da Nova Era acreditam na evolução espiritual consciente, não por imposição. Conhecimentos milenares reservado a monges e santos. Tem gente que embarca na onda. Os sensíveis ao sobrenatural. Deve-se manter a mente aberta, mas não tão aberta que o cérebro caia. Boca amargando. O fígado insiste em se dar mal comigo. A tentativa de fazer a ressaca passar não está dando certo. E tudo por um punhado de carne doirada e olhos desapiedados. Tenho de sair dessa. Questão de jogo de cintura. Se não leva alguns tombos pelo caminho, não será salvo. Estava me enrolando, e eu não sabia - se não sabia, desconfiava. Não corri os olhos na bula antes de usar. Não ler as letras miúdas do contrato pode ser ludibriado. Sei que vão rir de mim. Ninguém tão cego a tal ponto. Só os otários catam pêlo em ovo. Arrebentado. Só a pensar, mas as coisas não ficam mais fáceis se eu pensar. Se tivesse refletido mais sobre ela. Quem pensa pouco, erra muito. Parece que todas as fogueiras do inferno estão acesas no meu estômago. Bem, eu devo confessar que estou na desgraça. Comprar um cigarro e um guaraná gelado melhora o marasmo. Disponho de algum tempo. O Boteco do Clementino escancarado. Anúncio de ovos de codorna cozidos, bolo de queijo. O prato campeão: Tutu de feijão com lingüiça na chapa. Aos sábados, uma suculenta feijoada completa. Nomear o mínimo. Sem saco pra atravessar. Nem dá pra descer algo sólido, por enquanto. Líquido é bem-vindo. A quentura do inferno. Clementino não vai querer me vender um cigarro. Tem amolação demais com Pairanço. A escura escadinha espiral que leva ao salão abobadado. Lugar reservado ao carteado. Máquinas de caça-níqueis. Supõem-se, aos fundos, quartos de alugueis para trepadas rápidas. Moabita e Amonita indo ao balcão para pegar suas bebidas. As irmãs-putas magricelas, de peitinhos secos, já tiveram relações sexuais até com o pai. Andam por essas bandas desde o dia em que destruíram a velha rodoviária. Elas gostam do negócio. Uma com ciúme da outra. Quem vai primeiro? Gostam mesmo é de ir juntas pra dar cabo logo no freguês. Rola muita putaria aqui. Uma noite de sábado Clementino lerdou e nós penetramos sobrecarregados de sons. As irmãs-putas dançavam juntas, bem empolgadas. Não chegamos ao salão abobadado. Clementino barrou a passagem: É proibido criança por aqui. Podem cair fora! Uma mosca teria mais privilégio de sobrevoar a espelunca. Quase sussurrei em seu ouvido uma referência obscena à sua queridinha mãezinha. Pairanço deixava sua aposentadoria aqui até o dia que foi expulso. Se eu não tivesse vindo, teria o bucho arrancado pela faca do inclemente botequeiro.

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A lanchonete do pai do Beiçola será a minha salvação. Esquina que me leva ao Animals Games. Passo diante da casa dela. Da casa de Iago. Labirinto de ruas tortuosas. Aqui, o caminho mais longo. Na última parte do caminho para casa. Apenas um breve movimento e lá vem a tempestade. Gera uma transformação inesperada para um futuro incerto. Não devia ter dançado com ela. Eu podia ter evitado. Pequena mudança tem enormes conseqüências. O bater de asas de uma simples borboleta aqui onde estou poderia influenciar o curso natural das coisas e, assim, talvez provocar um tufão do outro lado do mundo. Poderia alterar o curso do clima do planeta para sempre. Habito um mundo prévio. A passarela de cimento maculada com meu verde vômito-de-sopa-de-ervilha. Passei aqui de madrugada, à luz da lua, em meio às estrelas sentenciosas. Atalhar. O criminoso evita voltar à cena do crime. Não quero passar por esta rua tão cedo. Com que cara ficará quando me puser os olhos? Como os olhos dela encontrarão os meus? Ainda pensando nessa mulher! A sombra dela me persegue como um espectro: anga - até que um dia não exista mais nada, nem mágoa, nem amor. Primeira paixão. Rito de passagem. Final da adolescência. Cada tribo segue seus rituais. Saí dos crepúsculos. Isso me torna independente. Desconfio que não possa ser de outra maneira. Posso passar o resto da manhã no Animals Games e mandar o colégio às favas! Uma boa opção. Um lugar legal para cambalear. Passar boa parte das horas úteis e inúteis, vendo coisas engraçadas e desgraçadas na web. Jogar on-line. Jogar conversar fora com os amigos. Bem, pra dizer a verdade, eu odeio o colégio, odeio todas aquelas matérias inúteis. Não se aprende nada após a fase escolar. Devo uma grana pro Animal. Estou enrolando ele. Sem grana, sem ficha pra Internet e batatafrita: Tem de botar algum na minha mão, garoto. Vai para quarta semana que não acerto com ele. Mentir: A mesada está atrasada lá em casa, a grana não anda sobrando. Sou o maior mentiroso do mundo, segundo minha mãe. Todos meus amigos têm mesada, menos eu. Tenho de ralar muito pra conseguir algo. Mas não dá pra levar o Animal no bico, não perdoa: Vou ficar com o prejuízo? Sabe que meu investimento aqui é alto - aí, sem amabilidades, segue com a mesma lenga-lenga de sempre: Aquele computador ali, dez vezes mais potente que o processador usado pela NASA para pôr seus astronautas na Lua em 1969, isto é alta tecnologia, e custa uma grana preta, não posso ficar vendendo fiado. Nem vai adiantar dizer que só quero entrar no dábliudábliudábliu ponto, meu blog e postar uns recados. Também, necessito da versão eletrônica do The Catcher in The Rye, de J. D. Salinger. Pode ser até no pior PC da loja, o Wait-Wait-Wait, o abandonado, de teclado doido, sem acento agudo e a letra h, que vive em stand by e ninguém se atreve a ligar. Meu sorriso de canto de boca, à Elvis, não vai convencê-lo. Compro fiado e peço o troco. A única coisa que eu queria ter aos montes é dinheiro. Maldito-bendito dinheiro, maldito pra ganhar, bendito pra gastar. Se tiver nos seus dias de prosa-ruim, vai ficar irado, mas, no momento, não tenho outra desculpa pra dar. Sem grana, melhor nem passar por perto do Animal Games. Finanças das finanças, tudo são finanças. Tem muito cara ganhando dinheiro honesto sem sair de casa e com investimento inicial zero. Apenas navegando, lendo e-mails ou clicando em anúncios. As possibilidades são muitas. Basta decisão e dedicação. E eu estou perdendo esse trem.

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Mãe cortou a internet lá em casa por causa das putarias que eu estava baixando. Amanda me entregou por nada. O castigo veio em seguida, tirou o PC lá de casa e levou pra Floricultura, debaixo de bronca: Se quer baixar putarias, baixe com o seu dinheiro, e com o seu PC! Lá se foram os meus arquivos. Perdi um punhado de filmes e e-books que é bom nem pensar. Ir à Floricultura pra navegar, sem chance. Quando estou lá, não tira os olhos da tela do computador. Acha que eu só acesso pornografia. Amanda me fodeu direitinho. As mulheres da minha vida estão sendo infernais comigo. Se Morcegão não estivesse trabalhando, podia passar na casa dele e acessar o seu computador-carroça e a sua internet-lesma. Tive de esperar paciente por uma semana, byte a byte, para ter a obra completa da banda The Doors abrigada no HD. Encontrar toda a galera reunida não é boa coisa de se enfrentar. Nem todos vão estar lá. Bancar o maluco. Não vão tirar um sarro da minha cara se eu não deixar. Não sei como faziam pra se divertirem quando não existia a web. Se fosse Sherlock Holmes nosso contemporâneo, com certeza, consultaria informações num site de busca antes de sair perseguindo o criminoso. Acho que todo tipo de tecnologia e conhecimento deviam ser doados e disponíveis sem custos para qualquer cidadão em cada esquina do país. Sonho antigo, reunir em um único lugar todo o conhecimento humano. A grande Biblioteca de Alexandria pretendia conter todos os pergaminhos que circulavam no mundo conhecido. Uma biblioteca universal na web se tornará um único e enorme texto, um livro mundial. Com ajuda da web qualquer barnabé poderá se tornar Shakespeare. Outros Machados e Rosas. Que mais pode o Itamaraty exigir de seus funcionários? Mas nenhum fedaputa de governo vai fazer isso. Quer cidadão bate-orelha. Vote nas putas, porque nos filhos não resolve. Como sempre, o trabalho será feito por nós, cidadãos. Mas não vai dar pra faltar às aulas hoje. O Professor Espinha não repetirá a prova de matemática pra mim. Feche a prova de Matemática e mande o frescão pro inferno! Vem cá, Professor! Vamos falar de maneira franca? Cara a cara? Vamos? Não vou com sua cara! Então, me passe à porra dessa prova logo e vai tomar no fiofó! Ter a certeza de que ninguém vai nos escutar. Minha palavra versus a dele. Mas a corda arrebenta pro lado mais fraco. Mas não posso desafiar a sorte. As coisas não estão ao meu favor. E do jeito em que ando, esfolo um. Vamos ao colégio, andando e suando. A chatice diária. Vem a avenida íngreme, subindo. Cem passos mais acima. Preparo pra mais suadouro. Feita de propósito, pra queimar as pernas. A pista de skate junto à pequena lagoa. Caí naquele ponto. Muito som do velho Bob Marley e skate. O primeiro spine a gente nunca esquece. No dia estava vazia. Pensei que dominava a pista. Um tombo assustador. Eu disse conhecer todos os truques. Descolei o celular do Guto pra falar com ela: Vem logo, te espero na pista de skate. A chuva tentou estragar a festa, mas logo deu lugar a um forte sol. Embriagado com a presença dela. Lançou adrenalina na corrente sanguínea. Aí, desafiei à lei da gravidade. A faísca corroeu parte da madeira do shape na irregularidade do cimento. Ouviu-se uma espécie de rrrrrrruuusssshecatapláft! O skatista para um lado e o skate pro outro. Voltei ao mundo real debaixo de inúmeras dores. Caí feio, como Morcegão caiu ao tentar a manobra 900 graus, na disputa da categoria Best

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Trick. Se não fossem os protetores, teria esfolado todo. Uma extravagância de minha parte. Morcegão tem anos de pista, e é um psicopata em cima de uma tábua com dois eixos e quatro rodas. Sou apenas um ganso apaixonado querendo emplumar pra fêmea. Nem a vi correr em meu socorro. As faces estavam tão rosadas. Perguntou se eu tinha machucado. Só pra sacanear, disse que tinha quebrado algo. Levei a mão ao peito e seus olhos ficaram mais arregalados. Não pude deixar de apreciar o verde da íris. Gostei de ter a sua total atenção. Quebrei a caneta. Ficou bem aborrecida: Que saco! Fala sério, cara! Está passando da conta. Nunca fala sério! Avisei que ia tentar de novo. Tentou me tomar o skate: Não vim aqui pra te ver se espatifar, vou embora. Nem liguei pra ameaça. Fui para a pista manquitolando, mais pelo desafio que pela honra ao esporte. Nem a vi partir com sua boca petulante. Teve efeito de uma ducha fria em cima de mim. Fiquei deslizando de uma rampa à outra, sem ânimo, mortificado pelos ruídos contínuos das rodas na pista de cimento liso. Necessitava de seus olhos. Se subo ao céu, tu lá estás, se me prostro nos infernos, neles te encontras presente. Já levei 138 quedas, a partir daí, parei de contar. A dificuldade não é poder voar, mas cair sempre. Sempre há lugares mais baixos para se ir. A chave de todo ser humano são suas memórias, nos salvam e nos desgraçam. As lembranças não deviam durar muito. Já pensei um bocado a respeito disso. A lanchonete do pai do Beiçola, Bebo&rango, espremida entre a loja de 1001Utilidades e a Cantina Paladar. Aqui mesmo é que vou molhar a garganta e acender um cigarro. Um guaraná desce bem. Líquido, não importa a natureza, regenera. A subida foi dura. Primeiro, tenho de serpentear entre as cadeiras brancas de plástico, mal empilhadas na entrada. Proibido vender cigarro pra menor, mas aqui se compra de tudo. Comércio acima da lei, escola do engano. Epa! Ainda bem que não caiu nenhuma. O freguês é forçado a desviar destas tralhas. Não basta desviar dos momentos ruins da vida. Aposto que perde freguês por causa disto. Quem quer faturar, tem que trabalhar correto, concorrência ao lado. Globalização ao redor. Vamos ver se o atendimento melhorou alguma coisa, porque a recepção deixa a desejar. O caixa continua escondido. O freguês tem de adivinhar onde deve pagar. O pai do Beiçola não saca nadinha de comércio. Onde pus o dinheiro? Aqui. Por trás do caixa de vidro, torce o nariz, gira os olhos zonzos mirando o jornal. Parece tão pesado que não consiga levantar nem um dedo. Reconheço um sujeito azedo logo de cara. De praxe, recebe mal os fregueses. O péssimo atendimento sempre reinando. Não demora fechar as portas. Se for possível, se não for incômodo, quero um guaraná em lata e um cigarro. Tenho cara de mais de dezesseis, não vai me torrar o saco. Além do mais, sabe que sou colega do seu filho, meu pai é freguês. Intricado saber onde ele não é freguês. Faz a ronda dos botecos do bairro. Em alguns estabelecimentos, dizer que sou filho dele é querer ser maltratado, expulso do lugar. Pediu, pague. Mais caro que em qualquer outro lugar. Preço de cinco estrelas, tratamento de

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uma. Aí vão as moedas pelo buraco de meia-lua no vidro seboso. A mão fornida em busca das moedas. Recolhendo as rodelas. Repara o sulco esbranquiçado deixado no dedo pela aliança. Onde foi parar o sinete de ouro? Garantia financeira pra elas. Perdeu a aliança ou separou da mulher? Azedos arranca-rabos conjugais. Beiçola diz que toda semana eles se separam e se ajuntam. Dois sem-vergonhas, entre tapas e beijos. Tirou a coleira, mas ficou o penhor. Para sempre ligado à mulher. Reza o catecismo que uma mulher trouxe o pecado ao mundo. Tendência inata de pecar. Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus. Ficamos privados da perfeição e da perspectiva de uma vida infindável. Castigo divino na desbotada pele. O combate deixou marca, a mancha que não limpa. Um dia, perante Deus, uma união eterna. O que Deus uniu nenhum homem separa. Na prática, a coisa não funciona assim. O ambiente da casa não era mais o mesmo. Não há nada de relevante no amor doméstico. Malandro é o pato que nasce com os dedos colados para não usar aliança. A mãe do Beiçola é bem feiosa. Parece que chupa limão o tempo todo, ainda por cima, estrábica, o olho direito com desvio maior que o esquerdo, mas está apegado a ela. O amor que não é cego, não é amor. Sabendo fazer a coisa com deleite, não há mulher feia. O marido nunca dá trégua. Casou com um cão, obedeça ao cão. Queria que o meu amor morresse de vez! Ninguém assume a responsabilidade. A falha na própria mão fica mais evidenciada. O Deus-nos-acuda do meu ruidoso amor. Estão todos no mesmo ninho. A morte é o segredo do amor eterno. Ontem, estabeleci pontos de referência. Me ame menos. Olhar passadista. Vou à desforra! Ódio e vingança só se cultivam por quem se gostou. Como é horrível odiarmos quem desejávamos amar. Só não conhece o ódio quem nunca amou na vida. Carne de minha carne. Adão foi pai e mãe da própria mulher. De uma costela tirou ela de mim. Os dois teriam de tornar-se uma só carne. Conhecia bem menos que gostaria. Devemos questionar essa criação. Deus pôs mais suas intenções nas flores. Um Deus onisciente e onipotente que cria humanos errantes e os culpa por seus próprios erros. Um criador malsucedido com a obra máxima, triste e derrotada. A ficha pelo buraco oval. - Pega o guaraná no balcão. - E o cigarro? Nem responde, faz rolar o cigarro pelo buraco. Bem amargo. Nunca vai ter paz no coração. Nem pense em redenção. Nem aí para o seu sofrimento. Vai ter de me emprestar o fósforo. Cara mais fechada. A voz de rouquidão reflete os muitos anos de cigarros e cachaça. Fulo com a mulher e com a vida. Se segurando para não mandar o mundo à pê-quê-pê. A banalidade desesperada com que se vive o presente. Nem todos acordam de bom humor todos os dias. Um velho texto chinês diz que quando um homem acorda de manhã de mau humor, sua alma feminina se manifesta, sua anima atua, eu e meu lado escuro. Não pode ser retirado de nós. Acender. A primeira tragada vai aliviar. Aroma de café quente, passado na hora, vindo de algum ponto do recinto. Cheiro bom. Partículas de cafeína suspensas na atmosfera da cidade. A bebida que desliza para o estômago e me

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põe em movimento. Cigarro acendido, uma tragada pra abrandar o mal-estar. Sem paixão. Corrigir-se, impávido, suaviza bem. Impressionante como uma aquisição muito simples pode nos deixar satisfeito, mesmo sabendo que está me matando. Só os humanos tragam deste modo. Os fantasmas não fumam porque poderiam acabar fumando-se a si mesmos. Mas estão sempre famintos. O único ato que nos confere alguma arrogância nos dá câncer. No ar de Roma, partículas de cocaína e maconha, além de cafeína e tabaco. Bafo de café e maconha. O consumo dessas substâncias permanece na atmosfera. Dizem que é um prato cheio pra prejudicar a saúde. Mas o que não prejudica a saúde? Ao balcão de alvenaria, coberto de azulejos róseos, de um mau-gosto danado. Cor-de-rosa cá, menos a vida do proprietário. Pressentimento de que perdurará. O ar carregado, viscoso, impregnado com o cheiro áspero de emanações gordurosas. A rancidez vem do fundo. Óleo de soja saturado. Está de amargar! Pra onde foi o aroma de café? Diluído pela gordura. O sujeito balofo, metido no jaleco creme, frita pastéis. Não havia visto ele por aqui. Algum empregado pára neste estabelecimento? O pai do Beiçola paga mal. Pra ele todos os empregados são dependentes e aduladores: Sorri no dia em que pedem emprego e no dia de pagamento, nos demais dias ficam encostando serviço, de corpo-mole. Nem todos os empregos são o que parecem. Nem aí pra mim. Vou estender a ficha, pro lerdo ver. Ô lesma, me atende logo. Este cheiro está me enjoando. Com passos vagarosos até o freezer horizontal. Um único balconista para a clientela. Fritar e atender. A estratégia: ganhar o máximo com pouco. Está explicado, o gorducho é mais gordalhufo que imagina. Tem que afastar o jarro de refresco de lima pra abrir o freezer. Um abirú. Quanto mais gordo mais lerdo. Uma eternidade para a lesma-gorda achar o guaraná. Deus, dai-me paciência, mas tem de ser já! A tirania da lerdeza. Isso, gordão! Faça hora mesmo, não é você que está aqui se fodendo com o fedor. Saiu do freezer. Até que enfim! Em minha direção suas fuças de suíno. O cachaço me trazendo o guaraná. Graças a Deus! Dá-me isso aqui, leso! Pelo menos, está gelada. Vou dar o fora desta pocilga. Tenho que desviar outra vez das cadeiras. Bando de cevados! Afinal, o ar livre. Refresca a garganta. Sinto o suor aglomerando na axila esquerda. Tô suando que nem um porco. Um cerdo magro. Dizem que o orgasmo de um barrão perdura por trinta minutos. Na próxima encarnação o pervertido Morcegão quer ser um porco: Já pensou, ô meu? Trinta minutos gozando! Óinc-óinc. Ao invés de breves segundos, a dilatada sensação de gozo acima do normal, só permitido a elas. Mais uma golada. É simples não é? Se parar no estômago, sobreviverei. Um cara que transpira mais no lado do coração. A rua acordada com suas desordens e delírios. Placas flamejam aos olhos, aços com máculas, inúmeros caminhos para todos os lados. Nossas atenções se dispersam com fluxos de informação cada vez mais acelerados. O direito de ir e vir quase controlado. O Inferno deve ser semelhante: ruas com placas, e nenhuma possibilidade de esclarecimento. Alvor do sol. Poderoso coaraci ou nheengatu dos meus ancestrais. Dia urbanóide, não resta dúvida. O tempo se mostra caprichoso. O tempo que tudo transforma, transformará meu tempe-

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ramento. A ordem do mundo está em coisas insignificantes e repetitivas que fazemos todos os dias. Nada de novo, assim na terra como no céu. Acontece do mesmo modo. Vida repetitiva em todo ponto que olho, jorrando amofinada. Pai de Beiçola padecendo pela falta da cara metade. Pairanço fenecendo por ter de viver com a sua. Meu amor malbaratado. Muda de casa, mas os problemas são os mesmos. O que acontece com um, acontece com o outro. Tenho de aceitar o comportamento da vadia. Intricado para nós olharmos para trás. Finge que não é com você. A versão do novo herói, trabalhar mais que os antepassados e não possuir nada. Uns mastigam os dias, outros as noites. Nunca retornam nem vão embora. Temos menos força vital que os antecessores e uma necessidade doentia de fazer o amado sofrer. A entrada do céu através dos portões do inferno. Se ganha habilidade especial para alguma coisa, se perde para outras. Fortuna, fama, glória. Os deuses não concedem a todos os homens iguais dons. Todos trazem a necessidade de se destacar com algum talento. Alguns partem abraçados ao louro imaginário. Um dom pode ser uma maldição. Portinari morreu intoxicado pelas tintas que utilizou em seus quadros. Persona non grata vítima do verde, do amarelo e do branco. Sei fazer pouca coisa na vida. Toco de modo razoável guitarra. Dá pro gasto. Um ariano deveria tocar trompete. Tentei imitar Louis Armstrong, mas não deu. Algumas coincidências. Enquanto sua Lucille não entrava em sua vida, amava sua prostituta de Louisiana. Cadê minha Lucille? Ao improvisar, parecia não possuir limites. Tive de me esforçar pra aprender guitarra. Se a banda quer ver um bom guitarrista mesmo, terá de ir ao túmulo de Jimi Hendrix. A melhor banda de um homem só. Sou bom em outras coisas. Caloso batedor de punheta. Não conhecer o próprio valor é ignorar a si mesmo. Terei o mundo aos meus pés. What a Wonderful World. Ah, rabisco alguma poesia. Leio parecido a um demente. Sentir o cheiro das páginas envelhecidas e novas. Tanto lê que treslê. Vivo entre papéis, uma traça-dos-livros. Jesus perdeu o juízo porque leu por muitas vezes seguidas a Torá ainda muito jovem. Li o suficiente para três reencarnações. Minha biblioteca se chama A Babilônia. Ler é mais importante que estudar. Dez livros de uma vez, vinte páginas de cada um por dia. Dez mil palavras de cada, totalizando cem mil palavras por dia. Que nunca o livro fique longe das mãos e dos olhos. Os bons livros são numerosos demais, meu tempo muito curto. Só nos esquecemos do tempo quando bem o utilizamos. Escrever bem uma poesia faz parte que foi lido pelo poeta. Das palavras as mais simples, das mais simples a menor. Livros nascem de outros livros. Se quiser ser lido, faça como o múltiplo homem, escreva de trás pra frente, da direita para a esquerda. Só pelo uso de um espelho o manuscrito poderia ser lido. A única forma de ser lido com profundidade. Bem, meu nome seria mais sonoro: Leonardo. Caco de vidro vira estrela. Pausa. Io sonno un poeta o sonno un imbecile? Meus poemas ainda submersos na mente. Temos autorização para mentir. Horas a fio lutando com as palavras. Um ato solitário e besta. Ofício desgastante. Não sou um leitor imbecil devorador de livros tipo Harry Potter. Já pulei essa fase. Livros bestas para trouxas. Beastsellers. Um caça-níquel literário que infesta o mercado. Os trouxas que lêem Harry Potter, só lêem Harry Potter. Não são capazes de ler outro livro.

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Órfãos de Potter. Prefiro O Senhor dos Anéis, muito superior. Grandioso ciclo de lendas, ambientado num passado mítico da Terra. Governa bem quem governa menos. Tolkien deu uma mitologia à Inglaterra. Se os mundos que ele criou não existem, deviam existir, enquanto o bruxinho é um pé no saco, cara de coruja assustada, o babaquara do milênio. Só ele não sabe que é um poderoso mago. Também, não gosto dos livros de auto-ajuda. Zapeei alguns. Li até demais. Prometem prosperidade e renovada auto-estima. A mesma ladainha de sempre. Amanda os engole. Inês idem. Grandes expectativas não correspondem a resultados grandiosos, apenas pode sair um rato da montanha partida. Suba ao palco e diga uma sentença de efeito ou invente uma historieta palatável, bonitinha, esotérica e ganhe rios de dinheiro encabelando essas trouxas de plantão. Diga um bordão que só engana os bobos. Seja um vidente de quermesse: escreva para um público ávido por auto-ajuda e auto-piedade e venda milhares. Os livros ruins sempre venderam mais que os bons. Augusta cura, nunca desista de seus sonhos, morra com eles. Escrita de quinta, marketing de primeira. Lê este do charlatão que deu certo. Best-seller cheio de chantilly. Dar ao público o que o público quer. Mas até o pior dos livros de auto-ajuda tem uma página boa: a última. Como é regra no campo da auto-ajuda, o maior beneficiário é o autor. Inês e Amanda extraem dos manuais de auto-ajuda às instruções básicas. Oxalá, que venham astros, búzios, bulas, ciganas, signos e orixás pra arrumar nossas vidas, xará. Inspirando, expirando, inspirando. Tente de novo. Erre de novo. Erre melhor. Elas, e outros otários soltos por aí, consomem esses livros e não estão interessados na realidade, mas apenas em muletas que os façam sentir um pouco mais felizes, enquanto os autores faturam alto. Vamos vender bobagem travestida de sabedoria para os palermas que não sabem raciocinar. Quer comprar um palito de fósforo queimado que pertenceu a Elvis? Muitos carecas vendendo remédio pra crescer cabelos. Cada um lê o que lhe está à altura da mente. Leitura fácil, o que seus neurônios permitem. Não resta dúvida que eles garantem a sobrevivência de muitas editoras e livrarias. Como se pode querer tão pouco? Quem os lê, não leria um livro de qualidade. Engasgam com moscas anãs. A incapacidade que têm de utilizar e decodificar recursos mais avançados da linguagem. Ler é uma odisséia. Pela abertura de três milímetros na íris, despejar todo o conhecimento impresso nos miolos. Devorar. Sem diferença entre livro e labirinto. Minha escrita flutua. Em breve, escreverei algo que possa ficar de pé. Quem sabe um romance? Outra vez amanhã, em uma livraria perto de você, caro leitor, amigo meu, meu igual, meu irmão! Um amor canhestro e breve como deve ser o romance sem amor. A morte em outra altura. Não posso seguir a tradição, quero enganar o leitor. Não tenho leitores, mas voyeurs. Basta que um livro seja possível para que exista. Sem virada, sem desfecho, sem enredo. Mas o que é um enredo? Minha vida não tem trama. Um pombo entre outros. Colher os olhos do leitor na rede. E depois? Quero saber mais. Mas isso não basta. As almas das personagens são mais importantes. Se disser que A metamorfose, de Kafka é só um livro sobre um sujeito que vira um inseto, de dorso duro e inúmeras patas, muita gente não leria. Mas o que se lê é o desespero do homem perante o absurdo do mundo.

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Como Mozart, eu não pretendo criar uma linguagem nova, a idéia é utilizar as formas existentes, de maneira ainda não feita. O que me interessa é o acabamento artesanal. Algo como o bardo fez, personagens cheios de dúvidas e contradições. Criador de tantos egos. Deixar isso cozinhando em banho-maria. Escrevo na mente, os fragmentos de coisas que não sei o que são. Folhas de Relva. Eu mesmo, leitor, sou a matéria do meu livro. Pra muitos, até pipi pode ser arte. A obra Oxidação, de Andy Warhol, consiste numa montagem feita com cobre, pigmentos metálicos e urina sobre um pedaço de pano. E vale uma grana preta. Não há dúvidas de que o artista é louco. Alguém compra pra ficar por cima. Vaidade vã, o espelho dos tolos, lamber o próprio cotovelo. Tão vaidosos somos todos. Tão arrogantes que desejaríamos ser conhecidos em todo o mundo. Quanto mais se quer, melhor se quer. Deixar alguma marca. Nunca é demasiado tarde para ser o que sempre se quis ser. Há livros para ler de conta-gotas, outros, de colherada. Ler milhões de palavras para escrever centenas. Um grande escritor, primeiro, um grande leitor. Nasce dos livros que leu. O que leu e plagiou todos. O bom texto não é escrito, é reescrito. De que serve um livro que não nos transporta para outros livros? Não há originalidade. Baudelaire afanou alguns versos de Poe. Shakespeare, sendo todo o mundo e ninguém, pescava material para as peças em obras de Ovídio e Chaucer. O resto era perfumaria. Até Gonçalves Dias descolou sua Canção do Exílio de um poema de Heine. Nenhum artista pode criar do nada. Experiências vividas, lidas ou ouvidas, pressentidas de sexto sentido. Somos a soma de todos. Vou ao cinema em busca de tramas, mas não é a mesma coisa. As imagens apenas descem pela goela - vejo apenas as imagens que o diretor quer - as palavras não, têm de ser ruminadas. No cinema não existe imaginação. Um livro permite coisas que a tela do cinema nunca permitirá. Se eu escrever: a águia atacou o sujeito no alto da montanha. Cada leitor verá a águia e o sujeito a sua maneira. E cada vez que ler a frase acrescentará um detalhe variante conforme a química do seu cérebro e estado de seu espírito. A natureza que escreve é a mesma que lê. A maior surpresa do universo continua ser o homem. Então, o filho caçula do açougueiro-mestiço-bêbado sonha ser bardo. Ainda não é proibido sonhar. São os sonhos que nos fazem grandes ou pequenos. Sou do tamanho dos meus sonhos. O casal de velhos sobre as marcações amarelejadas da faixa de pedestre, em passos indecisos. Endomingados. Breves e atrozes segundos. Cedo caíram na rua. De mãos dadas e com certo alarme. Como serei daqui uns cinqüenta anos, eu e minha cara metade. Ela se esforça para acompanhar o marido - ou irmão? Com o tempo, o casal toma as feições um do outro. Ele sacode a cabeça calva e enrugada. Dois seres que nunca se conhecerão por completo. Temos uma porção de coisas em comum, tanto boas quanto más. Poeira nas rugas. O tempo consome as pessoas. Conheço estes sulcos, eu os fiz. Ah! Como a sua mão me arrasta! Ela fez longa viagem ao lado dele e se frustrou. Antes, a meia voz, dizia: eu te amo, querida. Terei sido eu quem disse? Foi apenas uma alucinação que ela ouviu zunindo no vento. Os mesmos dois suspeitos, ele e o vento. Sem vontade de renunciar. Temos de renunciar ao mundo para compreendê-lo. Ele, mais apressado, à frente, irrequieto chupa as bochechas. Um gênio dos diabos. Ela sob o poder total do marido, dominada. Um semblante de macaca triste.

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Oh, rosa, estás doente! Esse afeto abstruso e sombrio destrói tua vida. Estranhos cortam pelos lados. O olhar dele desconfiado. Temor irresistível de sair de casa e encontrar olhares incógnitos. Em conflito permanente consigo mesmo. Pior que o calor do fogo eterno é a companhia dos outros. O inferno: os outros. Ela prossegue cabisbaixa, esconde o rosto enrugado que um dia exibiu com vaidade. Graças a Deus, vem o meio-fio. Em meio aos outros. Um casal entre outros. Mistura-se à vida que contempla. Estamos no mesmo fluido. Quem observa descobre no outro a própria verdade. Reparar é da natureza do homem. Penso, logo penso que existo. Olhar as mesmas coisas até que elas comecem a falar por si. Sou observado ao mesmo tempo. O que pensam a meu respeito a partir de ontem? Uma pessoa luta e resiste mais quando sendo observada que quando está sozinha. Sozinho, posso dizer e fazer coisas que se envergonharia se estivesse na presença de outros. O que nós estamos procurando é o que estamos olhando. Nós olhamos o mundo, mas o mundo também olha pra nós. A garçonete em frente à lanchonete ajeita os longos cabelos diante do sujeito com pinta de gigolô, saltitante e saliente como deve ser todos os gigolôs. O que tem de mais atraente são os cabelos. Uma mulher atrai os sentidos. Pernas grossas. Sensual até usando pijama. Basta ter olhos certos para elas. Esteja atento! Quer vender, bota fêmea no anúncio. Eis a chave. Ele pára de palitar os dentes e diz algo atrevido à garçonete. Arrisca segurar seu braço. Papo manjado. Ouço o som dos Rolling Stones, Mick Jagger canta a antiga canção Angie. Ela sai fora, com um sorriso de esguelha, sem mais alarmes. Suspira e retoma o assédio. Manhoso e cínico. Osso duro de roer. Ela finge-se indignada. Sorri vexada. Faz menção de bater no rosto dele, mas, bisbilhoteira - a honrada não tem ouvidos -, inclina-se para ouvir outra frase chula cuspida ao pé do ouvido. Ela ri e ele se volta espalitarindo-se. Pode topar. É mais simples ser amante que namorado. Diálogos ocos. Não dá pra serem espirituosos todos os dias. Deixa claro sua intenção de viver um caso sem compromisso. Um jeito sapeca de inclinar que me lembra ela. Em todos os lugares vejo pedaços dela. É possível amar todas em uma única mulher. Não tapeie, para que não seja tapeado. Mick Jagger papou Angie, a mulher do seu amigo David Bowie. As sugestões e o desejo de Mick estão evidentes na canção. Ou Angie é quem pegou Bowie e Jagger na cama? A Igreja diz que os atos homossexuais são contra a natureza. Dizem que o criador do universo se ofende com o que as pessoas fazem peladas. Por que nos fez pelado e com sexo? Nós dois trancados no banheiro do Animal Games. Estávamos bem bêbados. Quando dei por mim, Adonai estava me chupando. Mon Dieu! Envesgando os olhos. Pondo e tirando, pondo e tirando da boca dele. E no final, se é que pode chamar de gozo, ele me encarou com a boca inundada de esperma: Quer que eu engula ou jogue fora? Sem noção. Não diga nada se estiver com esperma na boca. Mostrar serviço no momento inadequado. Bem asqueroso só de pensar. Tosqueira. Deixou de ser meu amigo no dia em que me chupou. Eu podia ter evitado. Mas não: Quer mamar, mame! Estava tão bêbado. Em certas ações não reconhecemos a nós mesmos. O prosa-ruim do Animal pegou a coisa: Não quero saber de vocês dois se trancando no meu banheiro, ouviu? Esse negócio de gays me dá nojo.

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Foi mal. Eu estava bem alcoolizado, mas lembro que Adonai disse pra ele que a espécie humana está caminhando para o bissexualismo e que não há nada de nojento. Isso é o resultado da evolução natural das espécies, mon Dieu! Aí que o cara ficou fora de si: Deus nunca vai deixar isto acontecer! Para Adonai, em breve, teremos um modelo único para a humanidade. O homem não precisa mais de lutar para sobreviver, produz cada vez menos hormônios andrógenos, enquanto a mulher, tendo um papel mais ativo na sociedade, se masculiniza, produzindo cada vez menos hormônio feminino. É o modelo do mundo. Goste ou não, seremos bissexuais, mon ami. Dizem que na cama ninguém é normal. Com a porta fechada e chave pelo lado de dentro impossível se conter. A parte mais feia do corpo é a mente. Vejo a vida tal como está, porque, se fosse diferente, não estaria aqui para observá-la - a isso chamam princípio antrópico. E o que é entropia mesmo? A desordem tende sempre a crescer enquanto a ordem sempre a decrescer. O dono da lojinha de games piratas abrindo a porta. Conhecida como a loja do Capitão Gancho. Logo um punhado de caras vão se acotovelar nos balcões pra comprar o game pirateado ao custo de dez por cento do preço de game original. Bendito game pirata! Uma espécie de unanimidade nacional. Pena que a delegada Rebeca vem estragando a nossa alegria e infernizando os comerciantes. O magricelo dono do comércio clandestino não usa um tapa-olho e nem tem perna-de-pau, mas é um autêntico pirata. Menos ele, se acha uma espécie de Robin Hood: Tiro dos ricos pra vender barato aos pobres. Então, Sherwood é aqui. Não, aqui é a Copyland. Governo algum se preocupa com os direitos autorais. Se houvesse um jeito de taxarem impostos nos produtos pirateados, os detentores dos copyrights iam ficar a ver navio. Que sentido tem o direito autoral e a exclusividade de reprodução se tudo é cópia melhorada de outra cópia? O esperto vai e patenteia: Acabei de inventar. A marca do autor é a sua ausência. A sacada da casa de Desaire. Era uma horrenda fachada vermelho-escuro como sangue de porco. Meu vaso de buganvília sempre viçoso no patamar. Estaria postando ali, de olhos faiscantes em torno dela, se não fosse o pirralho do irmão, tão carrancudo. Não sei o que os pequenos têm contra nós, mas sempre nos acertam os testículos. Não tão boazuda como a vizinha do fundo do meu quintal, mas não é de se jogar fora. Somos feitos desta maneira, metade contemplação desinteressada e metade apetite. Morcegão nos apresentou: Meu parceiro aqui saca tudo de plantas. Pode perguntar que ele responde. Inventou isso de uma hora para outra. Tive de aprender muita coisa sobre as buganvílias só pra bater papo com ela. Banquei o risco. Passei a esquadrinhar os sites sobre buganvílias. Como ter uma aura de essências florais em 24 horas? Pensa que entendo de flores por mãe ter uma floricultura. Já comprou na Floricultura Bellis, conhece minha mãe, meu carrasco. Esse detalhe não me agradou nem um pouco. Patamar polido por muitas mãos. Pensei que seria mais complicado de alcançar. Nem conseguira dormir direito na noite anterior. De tanta aflição, tive de me aliviar pela manhã, antes de encontrar com ela.

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Outros estiveram neste patamar antes de mim. Sou um príncipe não tão encantado. Todo sujeito quer ser o primeiro, mesmo os mais estúpidos. Elas não podem ser contidas. Trepadeiras, lenhosas e espinhosas. Qualquer espécime desse gênero é ambíguo até o fim. Sensíveis aos louvores ao porte físico. Não podem desaparecer sem imprimir algo em nossa alma. Concernentes ao nosso espírito. Dependemos delas. Tomei emprestado da Floricultura Bellis, sem o consentimento de mãe, húmus, farinha de osso, terra vegetal e terra preta para o vaso dela. Crime não punido. Vou ter de pagar com serviços o prejuízo. Expliquei que as buganvílias têm de ser educadas com fios de nylon ao invés de arame por causa do rapidíssimo crescimento dos galhos. O arame acaba ferindo as buganvílias. Logo os ruídos de um skate no assoalho de madeira atrapalharam a minha explanação. É meu irmão. Tá na crise do skate. Deitou a cabeça para trás, procurando ver o abusado do outro extremo do corredor: Ô, pirralho! Pára com o barulho aí. Vi a estrelinha tatuada bem na nuca. Nada parecida com uma ninfa, mas dá pro gasto. A diferença está nas entrelinhas. O olhão dela me olhando. Que luz! Sacudindo-se no skate, deixando um rastro no piso encerado, apareceu o pirralho. Me reparou dos pés à cabeça. A camiseta encardida e furada, à beira da indigência, com a frase estampada: Sou, mas quem não é? A mamãe tá te chamando. Ela abanou a cabeça, acusando o recado. Os seus olhos encontraram os meus. Eu estava sobrando. Vou indo, depois a gente se fala. Não! Fique mais um pouco. Não ligue pra este chato! O irmão manteve a posição de pitbull. Uma influência incômoda sobre ela, como acúleo. Nada é tão ruim que não piore: Mamãe disse procê não demorar. Larga de ser irritante, menino! Saia daqui! O endiabrado, empinado no skate, tinha a língua entre dentes. Cacoete bem ridículo. Se não existir para perturbar não merece nem viver: Mamãe não vai ficar te esperando a vida toda. Quase me virei para dar-lhe um tablefe, ou coisa que o valha. Tinha ou não tinha a forma de uma novela mexicana? Não dava mais. Vim em má hora. Eu e minhas buganvílias. Dei a visita por encerrada. Resignado, fiz um gesto floreado com as mãos: Tchau! A gente se vê. Endireitei a coluna e fui sem olhar para trás. Degrau a degrau, contagem decrescente, com uma súbita raiva voltada contra o irmão dela, contra mim mesmo. Se o pego pela frente quebro o skate dele. Pra descer, todo santo empurra. Oh, Desaire, você não sabe de que escapou. Podia ter sido e não foi. Teria possuído meu coração, todo o resto, se quisesse. Refazem as vitrines. Luzes amareladas no interior. Manequins por baixo de lâmpadas acenando com a cabeça: entrem! Acabam de colocar o preço riscado para um suposto público de perfil incerto. Os bens culturais são mais ou menos roupas ou perfumes. Não basta ser, tem de exibir. Ofertas pipocam por todos os lados. Promoção! Avant-première: os últimos modelitos em bordô sobre fundo verde-limão se iluminam. Liquidam. Tempos bicudos. São capazes de fazer qualquer coisa para tirar grana da gente.

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Passam da conta. Todo o lucro é um roubo. Prosperidade, felicidade e fertilidade. Quase todas as lojas tailandesas são enfeitadas com um pênis de madeira, símbolo de fertilidade e riqueza. As tailandesas apreciam. Entre, compre e seja feliz por algum momento. Fértil mundo consumista. O sonante dinheiro é fundamental. A falta de dinheiro é uma dor a que nenhuma outra se compara. A coisa mais importante do mundo. Representa: saúde, felicidade e beleza, do mesmo modo que a falta dele representa: doença, desgraça e fealdade. O único poder que nunca se discute. Que gostosura de short e blusa cor-de-rosa, um branco que quer ser vermelho. Elas preferem os matizes do vermelho. Coletoras de frutos ao longo de milhões de anos aperfeiçoaram a capacidade de detectar frutos maduros e avermelhados. Boca grande, com olhos de safada. O piercing dourado no umbigo reflete a luz do sol. Um umbigo idêntico a um botão de rosa. Olhar de novo com atenção. Gostosérrima. Acredito que não vivo em vão. Não passa um dia em que não estejamos, por um instante, no paraíso. Se tivesse vindo de óculos poderia encará-la pra valer. Ritmada ao som da música que lhe chega através dos fones de ouvido. Um mínimo de som para um máximo de sentido. Corpo de manequim. Todo homem tem a fantasia de transar com uma boneca. Dependendo da natureza do dia ou da aspiração, uma música para animar ou entristecer. Schumann ouvia as vozes dos anjos e anotava suas músicas, mas logo os anjos se transformavam em demônios. A música antes de qualquer coisa. Uma sucessão de sons e silêncio organizada ao longo do tempo. Existe antes de ser ouvida. Ela perfura o céu. Desce aos infernos. Fico tocado. Tão esplêndida de se olhar. Continuamos na mesma: cabelos loiros, duas mechas ásperas caídas sobre os olhos bem maquiados e os tênis, sem meias. Para os olhos mais exigentes não há um só detalhe destoante. A flor de lótus tem as raízes na lama, mas mantém suas pétalas brancas. Seja como for, a música é efêmera, tal como a beleza e a vida. Engraçado como reparamos os detalhes delas só de pôr os olhos. Como diria Jack, o estripador: Vamos por partes. Não importa o que digam, o importante é amar sempre a próxima. Feita da mesma substância da outra. Com quem acreditava dividir a alma. Detenho nos detalhes, e não no todo. O Diabo mora nos detalhes. Luminosas quando você vê de longe. Deixar se enganar por suas aparências corporais. Caminha e dança sem se importar com os outros. Bem na sua. Careço duma companhia análoga. O efeito sobre mim é estimulante. É imprescindível reparar cada detalhe para recordar quando acordar com ele todo em pé, o escondidinho. Cinco-contra-um. He masturbates. Brincar de fantasma, ela está aqui. Sexo pelo sexo faça você mesmo. Minha vara e meu cajado te consolam - desse jeito, de blasfêmia em blasfêmia, vou direto pro Inferno, sem direito a estágio no Purgatório. Não me fartarei de rever muitas e muitas vezes! Edição dos melhores momentos. Espinhas aos montes. Ou faz mal ou é pecado. Sem fundamento. Nenhuma tarefa é indigna. O sexo é uma piada de Deus às nossas custas. Quem disse? Bette Davis, se não me engano. Uma velha atriz, bem parecida com minha avó. Vózilda apreciava a maldade dos olhos dela, cruel até no olhar. Vózilda tinha os olhos de Bette Davis. O passado de pecados, não expiados, me condena. Amaldiçoado a bater uma até morrer? Fazer justiça com as próprias mãos. O único da turma que não molhou o biscoito. Até o trio-sem-

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fêmea já molhou o biscoito. Já passou da hora de perder a virgindade. Pena que não dá para ver os peitinhos. Chuvisco na tela, fora do ar, estática saltitante, nascimento do universo. Que nervo! Posso ver seu umbigo, mas não posso tocar, bud of love. Se não puder tocar não vai saber desvendar. O toque é tão importante. Nem imagina que seria capaz de fazer por você. I was born to love you. Aspirar e expirar. Rosebud. Relaxa-racha. Meu vício de ver. Um ponto de onde se pode contemplar um mundo. Como o anjo pornográfico, de quinze em quinze minutos apaixono por todas as garotas que me passam diante dos olhos. Na imaginação, sou o maior tarado sexual que existe. Dobrou a esquina turbulenta. Voejo atrás. Abatido, mas vivo. Me toma pela mão. Um bagaço para acossar uma lebre tão ligeira. Dobrando a esquina, mais morto que vivo. O bombardeiro que me trouxe até aqui. Nem rastro dela. Onde se meteu? Por um acaso a perdi no tempo, no espaço. Seus passos não vão se ajuntar aos meus. Devaneio curto. Poderia ir abaixo do umbigo e fenecer. Rosebud - um bom título para uma canção. Qualquer coisa para ser usado na canção demo para a banda Calliphora. Sentir o espanto nos olhos da platéia quando cochichar todos meus segredos mais profundos no microfone. Uma balada-chiclete ajuda vender. Negar quando a regra é vender. Meu amor afetado. O próximo hit. Estamos merecendo um bom lugar ao sol. Antes não sobrava tempo pra dedicar à banda Calliphora. Greg chegou até a parodiar os Eagles: A banda só vai reunir outra vez quando o inferno congelar. A partir de hoje a banda decola. Mel não vai mais me aporrinhar: Todo dia tem ensaio? Não vejo à hora de estrear nosso show ao vivo com a galera entoando os versos de minhas baladas. A banda tem trabalhado na garagem, é hora de sair pro mundo. Isso aí, vamos recuperar o tempo perdido. Mostrar a cara. Faremos sucesso. A vida é uma sucessiva sucessão de sucessões que se sucedem sucessiva, sem suceder o sucesso. Mas fracassei com ela. Não importa. Tente outra vez. Fracasse outra vez. Fracasse melhor. Quase engasguei com a nicotina. Ansiedade demais. Um cara ansioso assim engasga até com oxigênio. Devo ter o pulmão preto. A alma negra como a dos gauleses comedores de pecado. Absorvo os pecados dos agonizantes para que eles tenham condições de ir para o céu. O tabagismo é a vingança dos colonizados. A mensagem que Hollywood passou que fumar era bacana. O direito de poluir o ar. Só ele ou espectro. O cigarro é terrível. Já matou mais que muitas guerras. Que fedor eu faço! O crack é pior. A sobra do refinamento da cocaína faz seus miolos virarem mingau de aveia. Depressivo bafo de bolor. E as visões não são grande coisa. Os salgueiros se contorcem contra o céu claro e as primeiras estrelas arcaicas derretem sobre nós. Não tive coragem de experimentar. Um poço sem fundo. Em dez segundos já instala no cérebro, mas a duração é curta: dez minutos no máximo. É preciso repetir a cachimbada. Ninguém volta ileso. Fácil de conseguir. Com menos de dez pedras o indivíduo já pode ser considerado um dependente. Aí, vem depressão, ansiedade e agressividade. O Maganão perdeu a metade da capacidade cerebral por causa do crack. Perdeu-se um poeta. Eu tinha inveja dos versos dele. Incapaz de se preocupar com mais de uma coisa ao mesmo

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tempo. Olhos de míope sob óculos de aro de lilás. Cabelo verde e roupas escalafobéticas. Dizia ledor de Lovecraft. Morcegão implicava do jeito empolado dele falar: Que exibicionismo! Por que você não diz leitor? Gosto do vocábulo ledor. Dizia que estava em busca do Necronomicon. Aí vinha com a conversa fiada sobre o livro, que narrava histórias de civilizações anteriores à raça humana: Todos os segredos sobre o universo em novecentas páginas: o presente, passado e futuro. Simples leitura é capaz de levar uma pessoa à loucura. Nunca concordou comigo que o Necronomicon era só um livro mencionado por Lovecraft, jamais escrito. O livro existe, sempre existiu. Nele, até a morte pode morrer. Tentou se matar aos quatorze anos, atirando-se de bicicleta no rio. Ficou bem machucado. Uma nuvem escura que caiu sobre seu espírito. Regaçou o queixo no guidão da bicicleta do Morcegão, que ficou puto com ele: Da próxima vez, pega a bicicleta de outro otário! Se drogar foi à saída. Era do tipo do cara que quando distribuía rosas, torcia para que os espinhos fossem mais intensos que as cores das pétalas. Não gostava de advertências do tipo: droga mata. Dava de ombro dizia que todo mundo morre de alguma coisa, mais cedo ou mais tarde, seremos alimentos pros vermes. Essa choradeira não funcionava com ele. Com o pó estava vivo, via luzes: Se pudesse ver o que vejo! Faz esquecer a porcaria de vida que tenho. Roubava nos shoppings para comprar crack. Ficou mongolóide, olhos pregados nas paredes, conversando sozinho. Sentia o ar impregnado de morte. Dizia um punhado de coisas sem sentido. Falava comigo de modo febril. Qualquer diálogo era inútil. Falava pra si mesmo. Tinha um forte ranger de dentes. Bruxismo diurno. Estavam ficando uns cacos na boca. O que mais me incomodava era sua pele estar sempre fria, podia fazer o calor que fosse. Era um toque bem asqueroso. O cara tinha pele de sapo. A turma evitava topar com ele. As pessoas que usam essas drogas pesadas se gastam e se perdem. Dão asas para voar, depois te tiram o céu. Tenho medo de experimentar. O animal que mora em mim, maior que eu. Morreu dormindo. Não foi bem assim, sufocado pelo próprio vômito. Abandonou o vale de lágrimas. Dezessete anos. Uísque barato do Paraguai com doses de heroína. Quis ir embora desse jeito. Jimi Hendrix afogou-se no próprio vômito, após uma noite de drogas. Sua guitarra valia por uma banda inteira. Momento de azar, bem tragicômico. Pior foi Tennessee Williams: morreu por causa da tampa de um frasco de comprimidos para dormir que ele não conseguiu engolir. Hipocondríaco inveterado. A desgraça marca encontro. Precisamos de pouco para que nossos nomes sejam retirados do livro dos vivos. A crença ingênua de que o todo cabe no indivíduo. Somos apenas pra deixar de ser. Não importa a meta, o que vale é a travessia. Somos feitos de estrelas que estavam morrendo. Muitos, suicidas em potencial. A melhor morte é aquela que nos agrada. Acho que eu não teria coragem de me matar. Se bem que, às vezes, tenho vontade de sumir. Dizer que você pensa em se matar tem um efeito forte sobre elas. É uma tática que sempre

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dá bom resultado. Primeiro você começa com aquela conversa fiada que o mundo não te compreende, não consegue uma garota fiel, e, se sente tão depressivo, tão por baixo, que está pensando em estourar os miolos pra se ver livre deste mundo ingrato. Aí, o lado maternal latente nelas passa a funcionar em nosso favor. Querem fazer qualquer coisa pra tirar a idéia de nossas cabeças. Tornam compreensivas, muito generosas. Aí, aproveitamos pra tirar umas casquinhas. Duro quando a coisa não funciona, pega uma suicida pela frente, tão depressiva e maluca, que só pensa em acabar com a vida, e logo propõe: Vamos suicidar juntos? A droga da morte da minha boca pra dela. E aí o papo desanda. E toma pensamentos mórbidos e inquietantes no ouvido da gente. É de lascar! Vira papo tipo Romeu e Julieta, não vai a lugar algum. Nem adianta trocar de assunto. Fracassomania: cachorro correndo atrás do rabo. É tanta choradeira que nem dá pra escutar. Melhor dar no pé. Sempre a Julieta fica desesperada com a partida do Romeu. Ficamos no ensaio. Olha o vira-lata de orelhas engomadas atrapalhando o tráfego. Nem se importa com as pessoas que saem da estação do metrô e disseminam-se pela rua. Buzinas disparadas. Paciente no trânsito não vira paciente no hospital. Cãorajoso, cãorioso. Temo pelo cãozito. Direção oblíqua, em frente! Cãonferido a liberdade. Não é cãomigo. O toco de rabo dança-balança de maneira absurda. Acua-se, avaliando. A placa de sinalização danificada, o A riscado foi urinado. Talvez esteja no poste errado. Recãonhecendo o indício do outro. Cãourinando em cima. Umas gotas aqui, outras ali. Uma bexiga inexaurível. Nem um cãopresente, só ela, a Kdela junto ao gradil. Cãolha. Ainda não o viu. As patas peludas e ensebadas do canicho, no mínimo de esforço, atingem o passeio, adaptase à mudança. Eles, um diante do outro, cãotemplando-se. Farejam o traseiro um do outro. Não se afobe. Se o traseiro tiver resquício do aroma de carne, significa que o cão pertence a um dono de posse. Ele faz o gesto com o rabo: meia volta, volver. Olhos de cãoceânicos. Silêncio pleno de quando se vê a primeira vez. Cãofarejando as íntimas partes da Kdela. Jóia preferida! Não se queixa do cardápio. Não importa a raça. Enfim-ébrio, olhos só pra ela. Desvendar o essencial num vago faro raro. Ela ofendida, rosnadela: cáim! Eu não: kérberros. Fêmea longínqua. Não morde quando só um rosnado resolve. Em disparada do cãocerco. Ele seguindo. Insistir sim, mas de outro modo. Transforma o trabalho em diversão. Juntos, atrapalham o tráfego outra vez. Um beco. Nenhum outro tocará em você. Nenhum outro te terá. Kdela sumiu. Não foi fiel. Cãosumiu mesmo. Atrás do suposto amor, que nos faz mal. Dooby dooby doo, cadê você! Rosnados, ganidos e um final broxante. Não pôde ser só minha. A culpa é minha, por amar desse modo. Kbônofim. Alguns cães acabam sempre com os homens desamparados, esses que têm idéias falsas sobre si mesmo, o que são ou deveriam ser. A veterinária Cânida conversa com os animais nas consultas. Um cão é mais paciente que um

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homem. Dedicar o melhor de si, sabe a quem se dar acima de si mesmo. Os norte-americanos são fissurados em cães. O homem anda desiludido com o bicho homem. Devíamos cumprimentá-las cheirando suas partes íntimas como os cães fazem. Como vai? Hum! Que foi? Que cheiro bom, casca-preciosa? Acha mesmo? Cheira a ferro. Sinto muito, minha volta-de-lua. Sem problema. Odor cálido de colitas, elevando-se através do ar. Nunca descobri o significado exato de colitas na letra de Hotel California. Colitas seria uma gíria usada para maconha. Marijuana. Pro Morcegão é o cheiro de xoxota, ou algo semelhante aos cheiros das putitas. Somos prisioneiros da própria armadilha. Nunca pode ir embora! Cantei essa inhaca mil vezes. Música de véio, alguns cantam para lembrar, alguns cantam para esquecer, mas é legal. Não é qualquer um que entende. A maioria da música atual feita por máquinas. Melodias de uma nota só. Decifrada e pronta para consumo. As antigas não. Tocam na cabeça, uma, duas e mais uma, mais uma. Música tão grudenta, chego a pensar que sou prisioneiro dela. Pro Morcegão, uma música ducaralho, a canção mais sinistra do rock. O nome da banda é bem sugestivo: The Eagles - curto e conciso. Um nome simples e forte pra banda. Os integrantes estavam lendo Carlos Castañeda na época e queriam um nome que tivesse conotação mística. Todos os caminhos são iguais, não levam a parte alguma. Tivemos dificuldade em descobrir o nome para a banda. Calliphora: a primeira mosca a chegar a um cadáver para decompô-lo. Greg tirou o nome de um livro sobre os estágios da morte. Para Adonai, um nome comprido e desajeitado. Ainda não temos uma canção grudenta. Algo que faça as garotas cantarolar o dia todo. Amanda tem o hábito de cantarolar trechos de música. Qualquer situação e lá vem ela com uma letra de musica em cima. Buzina os trechos em meus ouvidos e, sorrindo, como se indagasse: tá aprovando? Canta músicas pela metade. Só sabe essa parte? Não. Sei tudo. Poderia cantar na banda de vocês. Nem pensar! Minha voz é melhor que a voz do Adonai. Só se ele tiver gripado. Passa de uma pra outra canção só pra torrar o saco da gente. É comum acordar com uma música na cabeça. Passar o dia cantarolando o mesmo trecho. Pior que cantarolo os trechos de músicas que nem são de minha predileção. Hotel California foi a primeira música que aprendi a solar na guitarra. Mania de roqueiro. A música é o mais importante, não o solo. Ninguém aprecia mais de sessenta segundos de distorção e microfonia. Na época do lançamento de Hotel California, a mídia sensacionalista chegou a dizer que se a música fosse tocada ao contrário surgiriam mensagens satânicas. Subliminar. As mensagens que entram na mente de contrabando, como os vírus de computador, ficam inertes, dissimulados, e só ativados na hora exata para influenciar todo o sistema. A tela do PC pisca e a frase: Trabalhe mais rápido e LEIA. Você não viu ou pensa que não viu, mas foi anotada no inconsciente. Dizem que aumenta a produtividade dos empregados. Os supermercados instalam som ambiente com frases significativas: Sou honesto e roubar é errado. Atestam que diminuem os furtos. Um desocupado resolveu ouvir o álbum The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd assistindo o filme O Mágico de Oz, de Fleming.

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Quando a canção Eclipse acaba, pode-se ouvir um coração batendo enquanto Dorothy e o Espantalho tentam, em vão, ouvir o coração do Homem de Lata. Eureca! Cara, descobri 100querer. Como se tivesse descoberto a pedra filosofal. A obsessão que temos de enxergar além da realidade. As coisas que não vemos são muito mais poderosas que as que vemos. O Homem Aranha - quem diria? -, para os fanáticos religiosos, invoca SATÃ, toda vez que arremesSA sua Teia, faz o sinal da mÃo chifrada. Simbologia ocultista. Nós, os roqueiros, fazemos uso do sinal a todo instante. Pra mim o sinal é como se eu mandasse todos tomarem no cu duplamente. E é o que estou com vontade de fazer hoje. Toma ESTE meu maior dedo! Jacó concebia o rebanho diante das varas, e as ovelhas davam crias listradas, salpicadas e malhadas. Usando dessa técnica tornou-se um dos homens mais prósperos da época. Está no LIVRO SAGRADO. :>) Esperto o sujeito. O cara beija a garota, a cena escurece, e aparecem os dois na cama fumando. Acabaram de ter relações sexuais - é o que vem em sua mente. Sentada no colo dele. Preencha o espaço do jeito que quiser. Disse que eu estava vendo coisas. PenSA que sou TÃo put@? O que não é dito é muito mais importante que é dito. Uma meia-verdade é uma mentira inteira! Um sol eclipsado pela lua. Lá, lar, outra vez. Pesadelar. :o( mAllStar danado. Vontade de sumir. O dia da Sua quedA. }:( idioTa. NÃo sou mais. }:) VoU TrEpaR cOM todAs piraNhAS! Minha prece. Puro deleite. :-) Ao fundo, um maracá, chocalhando setenta e duas vezes por minuto. Voar alto e viver muito. Pegar o melhor emprego com o melhor SAlário. A repeTiçÃo é o fator básico. Uma gota de água goteja repetidas vezes na rocha e acaba embrenhando-se. Se o ritmo certo faz você balançar o pé, que tipo de ritmo faz você dobrar o punho e dar porrada? Modificar a estrutura química humana com aS combinAções cerTas de freqüências. A cor vermelha muda a pressÃo arterial, o batimento cardíaco, e altera o sistema circulatório inteiro, ATÉ a temperatura do corpo. SAlivava quando ela passava. Ooooh, baby! Alguém esTá na minha cabeça, mas nÃo Sou eu. RodA Teu corpo, processe a dor enraizada no peito. Indo embora. Em águas perigosas requer uma navegaçÃo visual. A pouco fui arrebatado por uma súbita vontade inconSciente de tomar coca-colA. Preto e vermelho = preTo indica sensaçÃo de abafado, apertado e O vermelho relaciona necessidadeS, idolatria, chama muita vigília, cAlor, enTÃo, abafado+calor, dá a sensação de sede. Em teoria é o que funciona. ApenaS a água mata A sede, enTÃo, somos ludibriadoS pela eficácia da marcA. O que é conscienTe nÃo é subliminar. Caminhe pelas ruas entre estranhos e repare nas faces de todos: vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e soberba. É possível ler todas as faces. Nós e eles. Respire. Você toca, vê, prova, sente, ama, odeia, desconfia, salva, dá, negocia, compra, mendiga, empresta, rouba, cria, deStrói, fAz, diz, come e se conhece como um lunáTico, nÃo vai dar em nada. NO FINAL, vencerá a concupiscência da morte. A mais forte mensagem subliminar é mais fraca que uma mensagem direta: você é um chifrudo.

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Ser lerdo é ser lerdo por inteiro, me autogozo. Acho bom rir de mim mesmo, assim tenho a certeza de que o mundo não gira ao meu redor. Capaz de olhar sem dano no espelho é que são elas. Gingando. Existe o desprazer do prazer de saber. Meu suor de impaciência. Mais atordoado, mas pronto para acasalar. Bem que gostaria de transar com uma garota bem fogosa. Pituba pegou uma garota que não parava de transar. Nem dava tempo para refazer as forças. O apetite renovado após três trepadas para valer. Meu querido, até que enfim você subiu! Eu pensei que estivesse satisfeita. Não pense mais. Fantoche na mão dela. Custou se livrar pra não ser devorado. Quarta, quinta, oitava. Na mesma cadência. A boca debaixo é insaciável. Lúmia gosta de se encharcar de perfume antes das pequenas cabeçadas compassadas bem tomadas no lacônico ânus. Adonai me contou. Duas gotas de Tyrá detrás das orelhas. Morrer de gozo cheirando lavanda Yapira. Outra gostosa de saia curta, listrada como zebra. Bem emperiquitada. Na rua, o olhar é atraído, contra a vontade, quando há mulher a vista. Atraídos para a emboscada. Os mesmos olhos que levam as mariposas em direção à lua, e às estrelas, as levam para dentro da chama da vela. Ar de arrogância. Com certa afetação, joga o cabelo ondulado para trás, pretende ser mais que charmosa. Rosto maquiado, perfume pelo corpo e bunda suja, com certeza. Cuidamos do externo. Quem vê cara não vê bunda. Hoje, a maioria de nós, foi ao banheiro, mal se limpou e caiu na rua cedo. Penteados, maquiados e camuflados em bálsamos. Roupas limpas sobre ânus sujos, sem esquecer os gramas de dejetos que transportamos nas tripas. Nosso segredo sujo. Mas ninguém se dobra. A soberba prevalece fora e acima da lista dos vícios capitais, mais que um pecado capital senão a rainha e a raiz de todos os pecados. Somos a imagem de Deus - já pararam para pensar como fazemos deste Deus um ser tão sujo? Ela fita a rua acima, narinas cheirando. Rua agitada, com múltiplas saídas. Semblante desgostoso, o apego fora do coração. Falhou o encontro ao ar livre. Nem tudo se realiza, nem todos os sonhos florescem. Teme a infelicidade, o amante pousou o pé no coração presunçoso. Não se sentia pronto a ir ter com a inimiga. Estava a me enganar com falsos juramentos. Ele não vem, ele me trai. Outra em meu lugar. O que você oferecia em troca? Filial é filial. Mas vou querer saber com que tipo de safada é que tu andas. Necessitamos ser explorados. Se houver choro dela, serão lágrimas falsas penduradas nos cílios, se fecundassem a terra, estaríamos cercados de crocodilos. Uma zebra em disparada. Ele jogou para cima o encontro. Ué! - há um punhado de vocês por aí. Livros e putas podem ser levados pra cama com facilidade. O escolhido foi poupado da imolação, por enquanto. Elas nos desejam o pior: Espero que você seja uma mulher na próxima encarnação. Não deixa de ser um tipo de sorte. Passei minha sorte pra ela no dia em que dei um trevo de quatro folhas para guardar em seu diário e ser feliz para sempre. Vai te dar sorte, Mel. De repente, me sentia afortunado. Influência de Amanda e Inês. Entretida a fazer desenhos numa folha de papel, sem prestar atenção no meu trevo, lançoume um olhar desanimado: Já tenho muita sorte. O executivo, de sapatos mocassim, indeciso na passarela, olha em volta. A busca de um olhar inusitado. Hombre. Saca o celular como quem saca um revólver. Cara de John Wayne: Feo, fuorte e feroz. Atendendo à pressa o impaciente do outro lado. Um duelo ao sol matinal. Deus e o Diabo

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na terra do sol. Afinal, o que é melhor: negociar ou pegar em armas? Mas, como a primeira nem sempre basta, é preciso recorrer à segunda. Duela em defesa dos seus interesses como um leiloeiro trata a mercadoria. Temos o plano do tamanho do seu bolso! Ouvidos de mercador. O valor real das coisas é o esforço em adquiri-las. Nervoso, vive-se num mundo frenético e congestionado de ofertas. É proibida a venda a quem não pertença ao círculo. Sierra Madre: ninguém viu, não sabe onde fica, mas mantém os caçadores de tesouros viajando. Por um punhado de dólares o supérfluo é mais essencial que o essencial. Se estrume vende mais que primaveras, malmequeres e narcisos, encheremos os jarros de esterco. Rastreador. Estava convidado para este encontro sob o sol. Na mira de seu celular. Tem-se mais entusiasmo de tal modo, menos prudente. A lei do mais forte prevalece. Não existe fórmula mágica para ganhar dinheiro, mas técnicas que ajudam a melhorar as decisões, a obter melhores resultados. Ganhe dinheiro com honestidade, se puderes, se não, como puderes. Ser honesto é ser escolhido entre dez mil. Vamos faturar a todo custo. Guarda o celular no coldre. Renegado. O ar de estar sempre a desafiar alguém. Sempre representei eu mesmo. A terra é do Homem. A cada nova visita as veredas parecem mais íngremes e selvagens. Imperdoável. Olhe bem. Meu desprezo será tua herança. Vamos para casa. Após o sinal, deixe sua mensagem: beep! Diligência. Partindo. O celular toca na bolsa da coroa emperiquitada, ao meu lado. Passo metade da vida ao celular. O tlim substituído pelos acordes repetidos do funk. A moda em dia é a mulherada comparar pênis com celular. Natalie saiu com essa: Têm quatro semelhanças: vive dobrado, fica cada dia menor, nunca funciona quando a gente precisa e toda vez que entra num túnel, desliga. Só sei que não quero voltar a ser o cara de antes, cheio de grandes expectativas com relação a elas. Não é um livro que se lê de uma só vez. Antes, era idiota como muitos. Mas foi bom acabar de tal modo. Numa idade crítica, novo demais para umas e atraente para outras. Chega-se inexperiente a cada idade da vida. Faço sucesso entre as menininhas e vexame entre as garotas. Arranjar um jeito de me promover para que todas me disputem a tapa! Lola, a mais desesperada das menininhas na minha cola. Onze anos e já ansiosa por natureza. Bonitinha. Pele sardenta, mais acastanhada pelo sol. Mãozinhas pequenas atirando beijos rápidos. Bem determinada: Se não for com você, não vai ser com mais ninguém. Se não for o quê? Minha primeira transa. Pego de surpresa. A frase dita com orgulho e, ao mesmo tempo, lançando um desafio. Quer me dar a virgindade que não valoriza. Desconfie das intenções e paixões infantis. Muitos apreciam. Pedófilos. Maomé casou-se com Aisha, uma menina de nove anos, filha do melhor amigo. Caminhava para a idade do lobo, corpulento e calvo. Como podia ter tesão pela criança? Não dependia de suas carícias, apenas o que podia ver. Al-nabbi-al-ummi. O pai mesmo a levou até ele. Consumar o casamento após a primeira menstruação. Talvez tenha sido por essa falha que Dante o colocou no Inferno.

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Morcegão vive me pondo em contato com Lola: Ela é novinha, mais crua e não têm muitos cacoetes. Nem seios ela tem. Os seios de uma mulher me excitam não de uma criança. Ah, então é isso - e daí? Tem curvas. Que curvas, Morcegão? Trepa nela, Rudá, antes que alguém te passe a perna! Tenha experiência, cara. Você precisa treinar nas meninas pra não passar vergonha com as vadias. Ele não importa se vou estrepar. Já me fez tomar pileques homéricos. Deve-se acordar a besta nas pessoas, estimular as paixões mais vis. Lola vive mandando recados com os olhos trágicos das louras frustradas. A ponta da língua roçando a camada de carmim dos lábios: Quero ficar com você, do jeito que você quiser ficar. Cheira a leite e quer transar. Enjoativa. Pega no meu pé para valer. Faz todo tipo de perguntas pra todo mundo a meu respeito. Quer saber sobre minha vida, gostos e anseios. Preferível não conhecer meu lado obscuro, menina. Amarra meu biquíni? Pra não ganhar gozação da turma, amarrei seu biquíni. Na casa dela, na piscina dela. Achávamos que ia rolar alguma bebida alcoolizada. Só refrigerante: Pai não quer ninguém aprontando na piscina dele. Me fez amarrar o sutiã umas mil vezes: Tá frouxo. Cara, precisa dar um nó firme! Até que foi engraçado. Que tumulto é este? Dois camelôs correndo rua acima com os tampos das mesas repletos de mercadorias. Não entendi bulhufas. Todos com curiosidade. Roubam nossos olhares curiosos. Ah, já saquei: os fiscais da Prefeitura em cima dos camelôs. O comércio informal de rua. O quarteirão invadido por eles. Alto lá! Agindo cedinho. Problemas pros camelôs? Os de costume. Sem licença não podem comercializar por aqui. Só os legalizados podem trabalhar, ainda que não seja por gosto. Nunca dão sossego. Se pagarem, pode. Propinas encaixam como uma luva. Suborno legal. Denúncias dos lojistas ou de outros camelôs? Jamais saberemos. Sebo nas canelas. Correm com a leveza e a rapidez de um avestruz. Os fiscais, numa espécie de eminência parda, só levam os pés das mesas. O forro de plástico estampado de natureza morta sendo pisoteado. Um truque sujo: esperam assentar praça pra vir tomar a mercadoria. Com certeza, a melhor parte é repartida entre eles. Aos cofres públicos, a sobra das sobras. Dois fiscais, rua acima, perseguindo o vendedor de relógios. Têm de mostrar serviço. Meio tarde para continuar a perseguição. Nunca há pressa. Se ganhassem por serviço aí eles produziriam mais. Os transeuntes torcendo pelos camelôs, vítimas do rapa. A classe média, empobrecida, aderiu ao comércio de bugigangas, quinquilharias e produtos falsificados. Unidos em fuga. A emoção de correr de fiscal. Na rua não dá para ser amigo. Uma mãe para muitos filhos. Sem diferença entre os ambulantes, marreteiros e camelôs, oriundos da economia informal. Conservam-se à distância, confesso que isso irrita os fiscais. Camelô, você é muito esperto. Amanhã, estarão aqui de novo e os fiscais marcando junto. Vamos continuar vendendo. Faremos imundície outra vez. Claro que mandamos. Espertalhões.

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Mas não dá pra ser espertalhão o tempo todo. Bebíamos e comíamos no supermercado Pague-Pouco, jogávamos as embalagens vazias debaixo das gôndolas até que fomos pegos pelo gerente. Mãe teve de pagar parte da conta e a mãe do Morcegão o restante. Mais um quarteirão e eles vão desistir. Em primeiro lugar, o fiscal gorducho ali, o de cara de sapo-boi. Lautercir é o nome do saparrão. Dá pra ler no crachá. Não concursado, nomeado por algum político influente. Conheço o safado. Esteve atuando nossa Floricultura a mando dos concorrentes. Falsos informantes. Um corrupto. Olha só a barriga de chope do sanchopança. Barriga de bufo. O batráquio coaxa. Isso vai render serviço para ele até a hora do almoço. Você é muito lerdo. Vai abrir o apetite. Sabe como afanar o peixe sem o mínimo esforço. Isso vai durar mais alguns minutos, depois voltará ao normal, faz parte da vida, uns correm na frente, outros atrás. Sem dúvida, o Todopoderoso está do lado dos dominantes. O proletário jamais chegará ao reino dos anjos. Lá em cima, na virada da rua, um único camelô, de olhos de falcão. Refeito para reiniciar a luta. Simpático e divertido. O último dos moicanos. Prova o acre e poderoso odor da batalha. Tempos mudados. Nada mais que uma concessão de poderes. No man's land. A liberdade está no poder máximo de controlar o outro. Se quiser por à prova o caráter de um homem, dê-lhe poder. Um homem é forçado a fazer muitas coisas desagradáveis para sobreviver. Nem mesmo trezentos metros de perseguição e todos desistiram. Irritado, o pançudo Lautercir morde o lábio de bufonídeo com força. Sente a necessidade de uma pausa. Olhos esbugalhados por baixo dos óculos de fundo de garrafa, avaliam o fujão. Ainda te pego! Dois homens não podem ficar juntos durante um dia sem que um adquira evidente superioridade sobre o outro. Homo hominis lupus. A origem da desigualdade entre os homens começou no dia em que o primeiro sujeito cercou um terreno e disse: Isto é meu! Ninguém teve a coragem de protestar. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não teriam poupado ao gênero humano se alguém tivesse arrancado as estacas e gritado: Vai te ferrar, filhodaputa! Os frutos e a terra são de todos! Mas ninguém foi capaz de fazer isso. O mercadinho-de-peidos. O patético toldo carcomido pelo tempo improvisa retalhos de luz sobre o passeio. Cheiro de repolho envelhecido, a instabilidade e a metamorfose. A toca do pãoduro do Galego. As bancas de madeira, polidas pelo manuseio, vomitam verduras e legumes de repousados dias. Cebola podre e couve-flor mofada. Um pouco de luz, mesmo que seja um fiapo. Desordem, caos e o escambau. Fedentina danada. Se não tomar cuidado, vomito aqui mesmo. Costuma abrir as portas ao som de Richard Clayderman, num volume tão alto que chega a incomodar a freguesia. Temos de ouvir sua preferência musical até a exaustão. Nauseoso Sabrás que te quiero. Música chorosa num toado bem enjoado. Pianista feito às pressas, pra faturar. Um passaporte para o sucesso fugaz. Mas não é tão ruim. Dá pra ouvir algumas músicas. Aos olhos da inveja, o sucesso é crime. Mas não deixa de ser um tremendo dum pé no saco. Mais vale a inveja que a pena. E cada música tem sua própria aura, não é mesmo? Pelo ouvido se acomoda na alma. Não me lembro de alguma vez de ter sido fechado, nem quando a mulher amanheceu morta. Morcegão acha que ele apagou a mulher pra economizar: Ela comia demais e tinha o vício de limpeza. Devia gastar uma grana limpando o mercadinho. Um centavo poupado, um centavo ga-

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nho. Estrangulou a companheira em momento de insanidade. Pelo menos, é o que pensa Morcegão. Fomos lá ver a morta. Meia dúzia de gatos pingados a fitar a jamanta no caixão. Nariz adunco, boca gorducha e angelical. O relógio parado sobre o retrato do casal. Seis e meia. O relógio parou no momento derradeiro? A morte está escondida nos relógios. Uma foto dela ao lado dele na cristaleira. Uma longa vida de lágrimas, cóleras e silêncios se passaram desde que foi tirada a foto. O galego num canto, sem puxar papo com ninguém. De repente, cobriu os olhos com as mãos e começou a choramingar: Pobre Helena! Amorcito corazon. Que coisa estranha ter partido desse jeito. Claro que nem todos engoliram a choradeira. Lágrimas galegas. Cada lágrima terá a cor que desejar. Nunca gostou dela pra valer. A mulher que lhe convinha. Não era para o prazer, para isso havia as empregadinhas. Apreciava as do pardieiro em frente do Mercadinho. Pegamos ele roçando uma delas no beco: Fique de bico calado. El amor puede ser un pasatiempo y una tragedia. Enterro ordinário, um punhado de terra com sofreguidão, algumas flores atiradas com afobação. Uma sepultura nem boa nem de má qualidade. Contornada por alguns salgueiros chorões. Teus balofos restos jazem tarde aqui. Os mortos se transformam em relva. Meu amor é frio. Esquecida. Não visitará seu túmulo. Nem um ramo de flores: custam caro e murcham logo. Os elefantes têm mais compaixão por seus mortos que muitos humanos, visitam seus restos mortais, e acariciam seus ossos com as trompas. Ela permitia que eu e o Morcegão roubássemos frutas das bancas. Ria cúmplice: Ah, meninos endiabrados! Olhos cercados de olheiras. Pronta pra foder o marido. Mais repulsão que devoção. O olhar dava um suportado bom-dia ou boa-tarde. Ele rosnava, ela obedecia. Señoras y señores, soy un canalla. Penso que ela gostava. Sempre haverá um laço sexual entre vítima e algoz. O direito de regresso antes da fuga. Lá está o sovina, mãos enfiadas nos bolsos, sustentando o bigode-de-andorinha. Figura esguia, de cabelo ralo e pele encarquilhada. Uma lasca perdida entre caixas de nabos. Temperamento bestial dos avarentos. Miserable. Como consegue que as empregadinhas abrem o rabo pra ele? Tudo pra rua, nada pra casa. Morde o lábio e, até pode, a qualquer momento, começar sua lamúria. Com freqüência, faz careta e a boca espuma. Sustém a respiração: Quer comprar, compra, senão, vai à mierda! Aqui o freguês nunca tem razão! O pessimismo cotidiano: as verduras e legumes às moscas. O mercadinho está imundo. Sempre estará imundo. Ela não está aqui pra limpá-lo. Não se deve perder uma escrava. En verdad, estamos sem Clayderman. O CD foi pra cucuia? Gracias a la vida. Omnipresente. O ponto de ônibus. Nenhum conhecido à vista. Ainda bem. Mantenho o ritmo. Segunda-feira, o pior dia da semana. Tampoco el idiota se denomina idiota. Transcender. Flutuar no nada. Ser o no ser. Esa es la cuestión. Preferia não ter visto. Eufóricos e felizes nos braços um do outro, até que me viu. Não é o que você está pensando. Mas eu não ouvia nada senão o bater do coração. Vi um olhar profundo, dissimulado. Uma pancada nas fuças. Tentou escarrar na boca que acabara de beijar: Ele não significa nada pra mim! Quem tenta

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enganar? Palabras, palabras, palabras! O meu estado de espírito está envenenado não pela ressaca, mas pelos acontecimentos turvos da noite passada. Del amor al odio, sólo hay un paso. Se tivesse uma goma de mascar para diminuir o amargo na garganta. Que desassossego. Tenho náuseas mortais. Se pudesse provocar um vômito para aliviar a vontade de vomitar. Poderia comprar mais um tipo de líquido. Com o quê? Quase nada me sobrou nos bolsos. Um troco pro ônibus - e só. Rua transversal, esburacada. O olor úmido de terra removida. Formigas alvoroçadas tentam esquivar-se de meus tênis assassinos. São formigas-de-correição, em vidas nômades. Os insetos que mais se devotam à guerra estão sendo exterminados pelos meus tênis. Têm exércitos com tarefas definidas para cada pelotão. Mas não há genocídios entre eles, somente o homem é capaz disso. Cabos. Quase pisei. Há dias que eles vêm passando fibra ótica por esses lados. Homens com roupas cáqui-desbotado cavando um buraco ao longo da via. Outros nas fendas escuras e asfixiantes. Arrancados do mundo de luz. A sete palmos do chão. Não são formigas. Uns tatus. Alô, o tatu taí? Não o tatu num tá, mas o tio do tatu tá. E quando o tio do tatu tá e o tatu não tá, é o mesmo que o tatu tá? Têm uma meta a cumprir. A clientela endinheirada não pode esperar. Os desejos transportados ao longo de fios na forma de números. Codificados e decodificados de modo veloz. Negócio ou traição passa pelos números. Acima, a tênue claridade matinal a cegar-lhes. Seres subterrâneos a escavar, obscuro lavor. Inumam. Um abalo e eles serão sepultados vivos. Hans Christian Andersen temia ser enterrado vivo. Para terem a certeza que ele estava morto, pediu que cortassem uma de suas artérias. Decorei o nome desse medo: tafofobia. Todo medo surge com a imaginação. Pairanço com medo de cães e trovões. Não sabe quando eles vão atacar. A voz trava na garganta e ele hesita entre ir para o canto ou ficar perto de alguém. Talvez o raio me erre e atinja o imbecil do meu lado. Quem tem medo fica em casa. Com os olhos cheios de terror a espera do próximo estrondo, o eco do ermo: Caiu perto daqui! Se vir o relâmpago, não corre mais perigo. A trovoada estará a um quilometro de distância a cada três segundos que passem entre o relâmpago e o trovão. Quem garante? A infeliz da madrasta dizia pra ele ficar obediente, senão, Deus ia fulminá-lo com seus raios. Toda criança tem uma espécie de Vózilda. Os verdugos repetem pra todos. Pairanço cura-se da bebedeira quando ouve as primeiras trovoadas. Nem ergue a voz contra a chuva pesada. Botaram em sua cabeça de curumim que Deus era um risco imprevisto no céu, de voz bizarra e ululante guincho: tupã-beraba! Da nuvem para o solo. Do solo para a nuvem. Entre nuvens. Inimitável raio: Tupã-cunun. O medo antes do amor e do ódio, a mais básica das emoções. De alguma forma, nos assegura a sobrevivência. Meu medo maior sempre foi das sombras disformes oscilando sobre as paredes em dias de tempestade. Abajur aceso para espantá-las. Influência paterna. O definível sangue que nos une.

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As imagens que os olhos infantis vêem nunca poderão ser destruídas. Os temores que nos metem quando estamos descobrindo o mundo: Tenha medo! A chave-mestra de todas as chavesmestras, a que fecha todas as fechaduras da vida. Os medos se projetam à volta, trocam de nome. Temia que eu me tornasse boiola por gostar de poesia: Coisa pra bicha. Aplaudiu quando me viu com Mel. Os olhos embuçados de álcool como um scanner de radar: Gostei de ver! Feliz com o herdeiro do trono de excrementos por estar se dando bem. Mas meus intentos foram frustrados! O resultado, um zero absoluto. Todos os mares agitando-se em meu coração. Morreria por esse amor. O resultado veio na mesma proporção de meu esforço. Total esgotamento. Mas morto que vivo. Engasgado com meu esgotamento. Todo o dia tem que se defrontar com uma quantidade enorme de esgotamentos. Uma vez fiz um filhote de marreco nadar até o esgotamento. Ele saía da bacia d'água e eu o colocava para continuar a nadar. Um dia todo nesse martírio, e, ao entardecer, começou a nadar de banda, em pequenos círculos, até tombar sem vida. Resistira enquanto teve impermeabilidade nas penas. Pairanço disse que não era filhote de marreco, mas de pato. Tinha bico fino e comprido, cauda comprida, análoga a um leque. O marreco tem bico chato e largo, cauda pequenina, parecendo um pom-pom. Então, o Pato Donald e a família toda são marrecos? O Patinho Feio de Hans Christian Andersen era uma espécie de marreco, que acabava por se descobrir cisne. Shakespeare, o Cisne de Avon. Adonai entre garotas. Um cara que era tratado como um marreco, mas se sentia como um cisne. Tão semelhante a elas. A única coisa que Adonai podia fazer era tentar convencer que não era o que parecia ser. Acha natural gostar de homens e mulheres. Confusão que fazemos entre patos e marrecos. Mais valas pra pular. Sibylla ensina o exercício de ser enterrado vivo. Morcegão me levou na casa dela pra participar de uma sessão. Tive a ingenuidade de acompanhar o louco. Ela mesma quem abriu a porta. Alta, cheia de sardas, cabelos vermelho-fogo pelos ombros. Não dá pra não reparar a mancha roxa no braço esquerdo, lembra uma cruz invertida. Uma garota estranha que tenta ser mais estranha que parece. Fomos parar num porão úmido, cheirando a mofo. Havia mais cinco caras esperando por nós. Cada um mais esquisito que o outro. Sibylla determinou que todo mundo deitasse no chão e relaxasse. Depois, pediu que imaginássemos os detalhes dos nossos enterros. Devíamos nos concentrar porque era preciso de doze horas para apresentar rigidez cadavérica total. Morcegão na dela, obedecendo como um cão. Logo vi que a coisa ia descambar para o ridículo total. Sem saco pra agüentar tanta besteira, sentei e fiquei reparando os otários fingindo de mortos. Acho que devo ter gozado bastante porque ela ficou braba com a minha incredulidade: Este garoto está de gozação com nós. Resolvi dar no pé pra não discutir com ela. Já tive mais paciência com essa turma. Faço a maioria das minhas viagens dentro da minha cabeça. Sacolas de plástico rasgadas, derramando lixo pelo passeio. A pivetada deu para fazer ponto

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aqui. Poderoso arrastão que vem dos morros, revirando e saqueando o que encontra pela frente. Sábado, botaram fogo nas caixetas de papelão diante da loja de Móveis Abdallah. Chamuscou a pintura da porta de aço. O árabe apelou para a polícia, mas não conseguiu muita coisa. Restoulhe a porta queimada. Antes a porta que o coração. Cidade do desassossego. O número de câmeras de segurança instaladas nas ruas vem aumentando dia a dia. Acreditase que a vigilância eletrônica está ajudando a combater o crime. A desconfiança infesta cada vez mais às ruas. Nem sei por qual motivo foi poupada. Não terá cinqüenta justos. Imagens palpáveis e indestrutíveis flutuam tão serenas no ar. Circuitos de TV pra todo lado. Gostamos de olhar o vizinho se ferrar. Esquadrinho a sua vida, irmão. Invasão de privacidade. A imagem do futuro: uma bota prensando um rosto humano para sempre. O Grande Irmão zela por ti. Com quem seria seguro comentar sobre suas angústias? Não há privacidade. É um dos temas do livro 1984, de George Orwell. Em um mundo onde o Estado domina e nada é de ninguém, o que resta de privado são os centímetros quadrados do cérebro. Em 1984, um bloco e um lápis são artigos de venda proibida. Para verbalizar os sentimentos e atualizar o diário, precisa-se esconder. Um lugar cego no interior da casa, na rua. O Grande Irmão que tudo vê, tudo sabe, tudo prevê, o invisível senhor. Para se dar bem, teríamos que possuir várias almas, uma alma para cada hora do dia. Não nos pegariam de calças-justas. Dois carros avançam o sinal fechado. Atravesso aqui ou mais na frente? Não vai dar. Ganhar mais velocidade. Se estivesse próximo à velocidade da luz, ia ver todos estes carros encolhendo. Não seriam como vejo. A massa do meu corpo tornaria absurdamente grande. Se pudesse regressar ao passado, desviaria dela. Nunca fez parte do meu mundo. Meu ônibus! Apenas três passageiros para subir. Vai partir sem mim? Só se não correr. Corro como se o Diabo me perseguisse. Sem reclamação. Boy que é boy não lambe mel, mastiga abelha. Chegando perto. Vai dar! A lerdeza da mulher gorda, num bambolear desengonçado ao subir, me ajuda. Isso aí, rechonchuda, segura o ônibus pra nós! O motor acelera prestes a partir. Consegui. Palmas pra mim! Segurar na alça metálica pra não cair. Daqui não saio. O sangue latejando nas têmporas, meio zonzo, perto da vertigem. Poxa, esbarrei nas nádegas dela. Rápido, mas desastrado. Um visitante imprevisto. Vai xingar. Faço cara de besta, foi sem querer. Não ligou. Viu que não fiz de sacanagem. As nádegas gelatinosas galgando os últimos degraus. Opulenta. Orelhas de couve-flor. A traseira lembra uma porca de tão rechonchuda. O par de olhos do trocador em cima de mim, espiando - e gostando do esbarro! Riso de deboche. É mole? Támistranhando? Estou sem o mínimo de paciência. A frieza das moedas bem aqui no fundo do bolso. Dia bom mesmo para nem sair da cama. Nem conferiu o valor delas. Arremessadas na gaveta surrada. Libertando a roleta. Acostumado, nem tem o trabalho de conferir. Faz esses movimentos tantas vezes por dia sem se dar conta dele. Reflexo condicionado ou algo parecido. Que gente esquisita! Quanta bruaca. Vamos ver até onde dá pra chegar. Abrir o caminho a base de cotoveladas. Aonde as mulheres bonitas vão quando não estão on-line? Marido de mulher feia detesta feriado. Em vão ela espera por ele! Quem gosta de dragão é

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São Jorge. Tenho um monstro em casa. Quando vem para o lar, traz alho, crucifixos e estacas de madeira. E olha que elas enfeitam pra valer. Palpiteiras. O músculo mais forte do corpo, a língua. Soltam o verbo. Foi por essa razão que o Todopoderoso fez o homem primeiro, só pra não ouvir palpites. Temos dificuldade de compreender a voz feminina. Fazem o cérebro masculino trabalhar mais. O que explica certo cansaço após ouvir a ladainha delas. A loira oxigenada bate o pezinho no piso vulcanizado do veículo. Excesso de botox não é a única novidade. Gargantilha ajustada em volta do pescoço com a denominação Linda. Apesar do nome Linda é uma garota feia. Um riso maroto alarmante. Lábios grossos, boca pra boquete - quer que engula ou jogue fora? -, e o nariz além de volumoso, achatado. Dentes pra fora da boca apodrecem cedo. Amarelando-se. Quem disse? O catarrento Patranho. Lorota dele. Inventa demais. Por vezes, esquece a verdade. Acredita nas próprias mentiras. Sempre lendo Guerra e Paz, de Tolstoi. Ares de intelectual: É um folhetim sobre as guerras napoleônicas, descrevendo a derrota de Napoleão na Rússia, mais de quinhentos personagens - já contei. Aposto que pegou as informações em algum site. A Linda-feia olhando pros lados. Nenhuma pensa que nasceu horrorosa. Se usar o cabelo desse jeito, fico espetacular! Cabelos insuperáveis! E meu bumbum? Nada parecido. Tão óbvio e tão presente. Meu talismã, meu abre-te-sésamo. Mas, algo nelas, sempre fica oculto. Não devo revelar de uma vez todos os meus segredos. Terrível não poder viver com elas e sem elas. Ensinadas a sonhar com o primeiro beijo, nós com a primeira transa. Ar parado. A vida parece estar com a respiração em suspenso. Assim não dá! Não funciono bem envolvido pelo calor. Não se pode desembaraçar do sol. Calor de tal modo provoca o inesperado. No livro O Estrangeiro, de Camus, um estrangeiro entre os seus, na atmosfera inflamada de uma imensa praia, matou um árabe porque estava sentindo muito calor. Deu um tiro sacudindo o suor e o sol, depois, disparou mais quatro vezes, breves pancadas à porta da desgraça. Alguém teve o bom senso de afrouxar uma das janelas. Boa corrente de ar. Mas o ar de fora tão poluído quanto o do interior. O sujeito com cara de mosqueteiro do rei, barbicha no queixo, aparada em ponta, faz malabarismos com as mãos na frente do senhor grisalho, de queixo funil e tosco, rosto de Cardeal Richelieu. Lembra a ilustração dos espadachins de Dumas. Os Três Mosqueteiros eram Quatro. Um grupo de homens de bem a serviço do bem e da justiça. O nosso D'Artagnan gesticula com exagero como se os vocábulos não fossem suficientes. Sem espada não se atinge o coração inimigo. Ambiciosos esquemas de empréstimos. Moeda foi feita pra circular, é ou não é? Não convence o nosso Cardeal Richelieu, em guarda, acenos negativos de cabeça. Veterano, inflexível e duro de roer. Com o mesmo volume de voz, quer mais detalhes. O mosqueteiro, com fortes motivos comerciais, volta a atacar falando com a toada arrastada, característica das gentes do nordeste. Penteia com o polegar e o indicador os longos e elegantes bigodes. Sua espada jamais será vencida. Mel, agitada, gesticula mais que ele enquanto fala. Temível espiã Milady, caras e bocas, ora cheia de humor, ora de suspense, as raias da inocência animal.

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Damas da corte mascaradas em sedas e rendas. Fazem ruídos como se fossem pombas. Duelistas. Algumas dizem sim, outras, não. Fazem-nos sofrer. Uma por todas e todas por uma. Boa atriz. Fingiu bem. Fiz papel de bobo. O modelo do servidor fiel. Diverte-se em outra moita. Que a farsa esteja com vocês! Não daria pra isso. Profissão fútil e inútil, mas dá pra comprar uma ilha. Marlon Brando comprou a sua. Se for bom no que faz, compra-se boa parte do mundo. Muito além que pode usufruir. Sair de casa quando sentir capaz de enfrentar a vida. Não levarei bagagem, a não ser uma pasta cheia de poemas. Mãe vive dizendo pra mim que a vida não é um piquenique. Qual é? Quero meu lugar. Sempre vai discordar das minhas decisões. Encheu o meu saco quando resolvi montar a banda de rock: Precisa é de estudar, isso sim. Nunca tenho razão. Em breve vou me mandar. Impossível crescer e, ao mesmo tempo, continuar no mesmo lar. Quero meu canto. Um lugar pra dormir, um pouco de comida, tabaco, lápis, papel e cerveja, estarei pronto para enfrentar o mundo. O cartaz em cores berrantes anuncia que o show de rock vem aí. A cabeça do trocador ensebou boa parte dele. Quem quer participar e não se esquematizou, pode começar a correr. A banda de pop-reggae abre o show, em seguida, as bandas-cover dos dinossauros do rock. Além do tradicional Rock 'n' Rolll, novos sons e estilos híbridos. Taí, um bom motivo para sair de casa semana que vem. A festa pega pra valer na sexta-feira. Todos a postos pra cerveja e mulher disposta. Solta uma reggueira aí! Não tem porque não ir. Vou ver se descolo algum pra ir. Até lá, tenho de pôr o corpo no lugar. Qual delas eu levo a tiracolo? Serena, uma das minhas favoritas óbvias. Talvez sim, talvez não. No canto com ela nem dá pra prestar atenção no canto da rapaziada. Bem apetitosa, de dar água na boca, mas meio burrinha. A tal da loira burra. Mulher bonita sem muita coisa na cabeça. Burra como uma porta, um amor! Tem um lindo traseiro. Graças aos platelmintos que trazemos o cérebro na cabeça e não no traseiro. Mas não vou ter relações sexuais com o cérebro dela, não é mesmo? Não tão falsa, acho – depois de ontem, não dá pra confiar em nenhuma. Ainda não encontrei o meu papel adequado entre elas. Mesmo que não mentem, castram o sujeito. Sempre no meio das saias. Imagina demais e espera uma porção de coisas delas. O que preciso é mudar de percepção. Tem de avisar pra playboyzada que tô na área. A gordona é bem folgada mesmo, esparramou suas banhas em duas cadeiras. Ajeita os cabelos com as mãos, se achando. Não teria apetite para transar com uma mulher desta. Sem chances mesmo. Um cara desossado que poderia transar com você é o Morcegão. Não perderia este monte de banha por nada deste mundo. Morcegão é o sujeito mais animado que conheço. Para ele banha não é estorvo, é estimulante. A empregada gorduchinha da casa do Herculano furiosa com ele. Com os cabelos pixains empastados de vômitos. Enrolada num lençol berrava feito uma louca: Olha o que este fedaputa me fez? Mal protegia com as mãos os seios nutridos em formato de mamão-de-corda. Algum tempo para sacar que Morcegão, de tão bêbado, vomitara nela enquanto transava. Ameaçou partir a cabeça dele com uma garrafa de cerveja vazia: Vou te matar, nojento!

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Se a gente não acode podia ter conseguido. Mas ele não estava nem aí: Que isso, meu amor? Amanhã tô bom de novo e poderemos trepar pra valer. Nunca mais, seufedaputa! Ele ria, divertia-se com isso: Mas nunca mais é muito breve, meu amor. Foi uma péssima idéia vomitar nela. Meio sem noção das coisas. O mais tosco de nós. Cochilo gostoso do office-boy encostado na cadeira. Soneca improvisada. A pasta azul-escura enfiada entre as pernas, em ordem. Proporciona uma sensação de segurança. Oscilando-se aos solavancos da lata-de-sardinha. Sinal fechado, o motor urra insolente, corpos desavisados pra frente, braços bambos, retorcem cinturas, quase testa com testa. A campainha soa, algum lerdo não percebe que vamos empacar outra vez. Parada para pegar e descer passageiros: ébrios, lúcidos, amolecidos. Vamos aproveitar a calmaria. Um peixe estranho num cardume estranho. Sou um estrangeiro, onde quer que esteja, inclusive, em minha pele. Empacados. Já pela manhã, enfrentamos o tráfego congestionado. Deste modo, nunca vamos alcançar o destino. Essas paradas que torram o saco da gente. Dois limpadores de pára-brisa, em assédio, correm para lá e para cá diante dos carros. Contam com a boa sorte. Capricham. Mas a gorjeta é magra. Recolhem as moedas, curvando-se em agradecimento. O pão de cada dia. Fazemos qualquer coisa por dinheiro. Põe todo o mundo em movimento. Não é problema, é solução. Quase diante da igreja. Algumas mãos se apressam no sinal da cruz. Como se corressem o risco de perder algo. Fazer o sinal da cruz no sentido errado, da esquerda para a direita e não da direita para a esquerda, pode desencadear outro cisma. Não deixa de ser um edifício simétrico. Parece menor agora. Aos meus olhos infantis foi assombroso. Quando se é pequeno, o mundo parece maior que é. Podia me sufocar com o seu poder. Erguida para impressionar. O campanário escalando as nuvens, além, estendendo-se para o céu, no que parecia eterno em todas as direções. Uma sensação de sufoco. No despedaçar das nuvens, poderia surgir Deus para me punir: o ladrão dos seus óbolos. Não se desespere, um dos ladrões foi salvo. As portas do Inferno nunca prevalecerão sobre ela. Alicerce dos Apóstolos. Nascida no Oriente acabou no Ocidente. Vózilda me fez decorar os mandamentos da igreja: Ouvir missa inteira aos domingos, confessar-se uma vez ao ano, comungar pelo menos uma vez no ano, jejuar e fazer penitência, pagar os dízimos. Viveu acreditando nisso. Aos domingos, ensinava catequese a crianças a partir de três anos. Dizia que teria lugar no Paraíso. Para os índios nunca houve paraíso, nem céu, nem inferno, somente Ybymarã-e'yma: a terra sem males. Ela me arrastava todas as madrugadas de sexta-feira para uma missa sonolenta. Oração entre bocejos e remorsos. Isso foi há muito tempo: eu tinha oito anos. Tirando o sermão entediante do Padre Bruno, que considerava o mundo inteiro como sua paróquia, eu adorava a música e a luz que irradiava dos vitrais, as boas colheitas de Javé. Cada religião solicita o que necessita. Mais ou menos iguais umas às outras. A esperança noutro mundo, para explicar os sacrifícios. É na esperança que somos escravizados. Salvar-se na espe-

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rança é tarefa que requer muita paciência. A vida é uma chance única, resolva agora e salvará sua alma ou arderá no inferno. Não há segunda chance. O inferno é necessário aos cristãos. Tão diferentes de Cristo. A maioria não vive segundo os seus ensinamentos. Dai-me a castidade, mas não ainda. Se um sujeito como Santo Agostinho pode se santificar, qualquer um pode. Com a minha idade, era mais preocupado com sexo e orgias que eu. Ama, e faça o que quiseres. Não queria saber da Cruz do Redentor. Procurava satisfazer os desejos da carne. O mundo é um livro, e quem fica sentado em casa lê só uma página. Toma e lê. Dá-me o que ordenas, ordena-me o que queres. Canonizam santos por atacado, querem fazer frente ao panteão indiano. Vai ser complicado ganhar dos indianos. Lá se prostram diante de deuses de seis braços e cabeça de elefante. Dentro de uma igreja parece ser simples aplicar os ensinamentos cristãos, mas aqui fora, sob este sol, em meio a tantos vícios, não. Os que têm um Deus supremo que vive no céu tendem a ser mais ferozes. O céu e o inferno provêm do mesmo coração. Os cristãos gostam de atribuir seus pecados aos demônios. Padre Bruno, de modo teatral, erguia a hóstia para a adoração de todos. Deve-se utilizar o pão com levedura ou sem levedura para a Eucaristia? Problema de capital importância para a cristandade causou tantas mortes: católicos contra ortodoxos. O momento era sagrado: o pão e o vinho transformariam no corpo e no sangue de Jesus Cristo. Come-se a carne e bebe-se o sangue do Deus cristão. Era magia pra mim. Transformavam Deus em biscoito. Vózilda não concordava: A Igreja condena todo tipo de magia. Deus não é mágico, bugrezinho herege. A mão dela engalfinhada no meu braço: Precisa confessar os seus pecados. Pedir perdão pelas coisas que tem feito, e que continuará a fazer e falar. O mal é o que sai da boca. Jesus transformou a água em vinho, pra ela não era magia: Isto é milagre. O primeiro milagre Jesus foi por os bebuns mais bebuns. In vino veritas. Ainda não era a sua hora. Apreciava um bom vinho. Suas últimas palavras na cruz foram: Dêem-me de beber. Ela dizia que eu devia confessar, pelo menos, uma vez ao mês. Possuía uma mente pecaminosa. Os padres vêm oferecendo alívio através da confissão durante séculos. A confissão católica permite zerar os pecados num vápt-vúpt. Em nome de Deus, perdôo todos os seus pecados. Vá, reze e não peque mais. Arrependa-se. Agrade a Deus, e dele escape incólume. Só se é bom para ganhar o céu. Os índios não precisam confessar com o piaga. Eu fechava os olhos, mas a oração não vinha. Pensava em tudo, menos na oração. Era Satã que me movia através de cordéis. Reze. Os beatificados estão aqui para destruir os demônios, inimigos de Deus. Ou as trevas sepultarão a luz e os anjos permanecerão perniciosos. Mas não devemos amar os inimigos? O maior mandamento. Pregam que o Demônio é o pior inimigo. Se só amardes os que vos amam, qual será a vossa recompensa? Então, devemos perdoar e amar o Demônio. O Demônio será salvo um dia. Outra heresia. Vózilda dizia que eu cometia oito por missa. Quem tem fé tem dúvida. Tantos santos perturbados por dúvidas em relação à fé. São Tomé não acreditou que Jesus tinha ressuscitado. São João da Cruz teve o seu momento de incerteza: uma longa noite tenebrosa. Jesus teve sua hora de fraqueza: Pai, por que me abandonaste? Madre Teresa de Calcutá referia-se a Jesus como o Ausente: Se não houver Deus, não pode

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haver alma. Se não houver alma, então, Jesus, Você também não é real. Dificuldade até de rezar: O silêncio e o vazio são tão grandes que eu olho e não vejo, escuto, mas não ouço. Se não fosse o temor de haver algo após a morte. Depois da missa, Vózilda me levava à cela lateral, diante da imagem de Jesus Cristo, a caminho do calvário. A cruz de madeira sobre os ombros maior que ele. Impossível que pudesse sustentar tal cruz. A coroa de espinhos em realce. Espinhos de amora, curtos, encurvados, aguçados furando toda a cabeça. A ira dos homens. Ou foi feito à vontade de Deus, seu pai? Mais filho de Deus que de Maria. Um Deus que gera filho em mulher mortal. Ajeitava os cabelos da imagem com intimidade. Precisava de uma boa escovada. Doara seus cabelos pra ele: Promessa de minha mãe. Toda a adolescência sem cortar os cabelos, como se isso a tornasse mais próxima dele. Ele sabia ajuntar pessoas em torno de si. Sessenta concisas parábolas. A semente que cresce secreta no sal da terra. Um semeador. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça. A casa edificada na rocha. Motivos misteriosos que se revelam, as aves do céu e os lírios do campo sob a benção divina. Nada deixado para trás. Algumas chaves para atingir a compreensão. Não redigiu o Sermão da Montanha, mas ninguém duvida que não tenha dito todas aquelas palavras. Um longo discurso num lugar que era apenas uma colina. Ou foi na margem do lago? Mateus ou Lucas diz a verdade? Após a morte, voltou a ser Deus. Um só Deus, onipotente, onisciente e onipresente, revelado em três Pessoas distintas. O Pai jamais esteve sem o Filho, nem o Filho sem o Espírito Santo. Nunca entendi essa magia como jesuíta algum entendeu a mitologia dos meus antepassados. O judaísmo não aceita a idéia de que um homem possa virar Deus ou vice-versa. Não acredita que uma parte da divindade possa engravidar uma virgem e se tornar filho dela. É claro, se todos crêem em coisas diferentes, não podem estar todos com a razão. A razão é uma ilusão, produz monstros. Vózilda tinha acesso a todas as dependências da igreja. Filha da Irmandade do Coração de Jesus. Sob sua vigília, permitia que levasse as imagens quebradas dos santos. Podia me inspirar tranqüilidade: Pode iluminar o seu espírito de bugre. Porque eu estava destinado a cair no abismo como meu pai. Com o tempo, eu havia montado muitos frankensteins católicos. Uma cabeça de um santo no corpo de uma santa. Em outras ocasiões, eram as mãos e pernas que trocavam de donos. Um santo é um pecador morto, revisto e corrigido. Só é santo porque soube reunir-se ao homem. Toda divindade pode ser remodelada. Deus misturado nas coisas. Ver o mundo sagrado pelos olhos de um artesão profano. Vózilda tolerava minhas habilidades sacrílegas. As imagens que fiz nascerem, certas sombras de idéias, antes de perder toda a capacidade pela alegria de fazer isso. Se colocasse meus frankensteins católicos em um altar, rezariam para eles. Novos santos: Nossa Senhora das Mãos Inchadas: veio deste modo para nos mostrar que só o trabalho duro pode nos salvar. Deixei de acreditar em imagens sacras, podia manipulá-las, criar outras sem o consentimento dos Céus. Se os bois e os cavalos pudessem modelar imagens, modelariam os seus deuses sob forma de cavalos e bois. Ninguém é purificado na infância. O motor em movimento, acelera, zunindo. Vibramos. Partimos acompanhados pelas árvores do canteiro central numa rua chamada Membira.

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Abafadiço. Cozinhando até as tripas. Torrar-se por inteiro. Morrer esturricado numa fogueira deve ser a pior das mortes. Fumaça e cheiro de carne queimada ao pôr-do-sol. Uma das tradições cristãs: queimar pessoas vivas. Queimamos raças ao longo dos tempos. O trabalho liberta. Bem visível na entrada do campo de extermínio. Para a Solução Final, os fornos crematórios funcionaram dia e noite. Inalaram o olor da raça. Sucinto episódio sombrio na história humana. Mein Kampf. Seis anos apenas. Uivaram com os lobos. Peque por excesso nunca por falta. As estrelas eram tão indiferentes a isto. Deus estava de férias. O Füher era um sonhador covarde. Não sonhava mais com as estrelas. A Igreja silenciava. Tão neutra. Nunca colocou no Índex o Mein Kampf. Fechou os olhos para o genocídio nas Américas. Eles me odeiam e odeiam meu pai e o pai de meu pai. Acreditar num Deus cruel faz um homem cruel. O sagrado impregnado de sangue. Nunca admitiram os pecados cometidos contra os povos das Américas. O Vaticano abençoa exércitos. Sempre do lado dos vencedores. Quem quiser ser cristão deve arrancar os olhos da razão. Fé velada que justifica todas as sepulturas espalhadas ao longo dos séculos em nome de Deus. Os homens nunca fazem o mal com tanto entusiasmo quando o fazem por convicção religiosa. De que lado Deus está, dos predadores ou das presas? Ontem fui um perdedor. Quase uma presa. Posso ser predador também. Começo a sentir raiva por ter vindo de ônibus. Vontade de mandar todo mundo pros infernos. Distribuir uns tabefes. Fazer o que não fiz ontem. Fiz grande esforço para conter o ódio. Renunciei a isso. Ódio de mim mesmo. Jamais será a única culpada. Eu permiti que ela fizesse. O mal que nos é feito com a nossa permissão. Culpamos e odiamos o outro porque somos covardes demais pra odiar e culpar, com a mesma intensidade, nós mesmos. A cada instante, hei de dissimular pelo que sou ou que poderia vir a ser. O excesso de testosterona me faz agressivo, direto e ousado. Amo as coisas com a mesma intensidade com que as odeio. O mundo é pra mim! Tropeço em pedregulhos imaginários. Penso em coisas bem agressivas. Acabar com um cretino a dentadas. Posso carregar a vítima nos dentes. Minha ira dura apenas alguns segundos, mas parecem eternos. Não modifica a vida, mas satisfaz o espírito. Faço covardias. Sou cruel. Qual foi a pior coisa que fiz? A pior foi no verão passado. Ficaram as fotos no site. Nem vale a pena lembrar. Para alguns, isto poderá parecer uma invenção. Lenda urbana. Deveria ser, mas não foi. A facilidade que se pode ser cruel hoje em dia. Os fatos podem ser reunidos e as fotos ainda estão na web. Aí, que você vai parar quando não tem o que fazer. Eco de influências estrangeiras. Ah, as pessoas esquecem o endereço na web. Ainda bem que esquecem. Não esqueci. Nunca esquecerei. Lembro de todos os detalhes. Fui malvado. É isso mesmo, tão mau quanto pode imaginar. Minha pior parte. Pode entrar, mas nunca sair. O mal é o seu próprio malfeitor. A insignificância do cenário. Rua quase sem movimento, salvo a esquina, duas crianças brincando com um cão e uma velha entretida em varrer o passeio. Mais cara de avó que de empregada. Em desconforto, o cão deixava ser arrastado pelas patas no passeio imundo. Que cachorro mais pateta. Tivemos um parecido: Japi, a vida e o amor ao lado do pior cão do mundo.

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As crianças que éramos. Os cães não conhecem a maldade, a inveja ou o descontentamento. A virtude impedida de tomar a forma humana fez-se cão. Confiam demais nos humanos, se entregam. Uma vez fiz pipocar um traque na ponta do seu rabo. Quase se incendiou. Nem assim passou a me evitar. Uma alma cativa. O único animal que se aliou a nós. Ela lá, junto ao poste, sozinha, momento de privacidade. Magreza de figura miúda, frágil. A pele alva realçada pelo uniforme azul-marinho do colégio. Não sei há quanto tempo estava lá, mas deve ter sido um bom tempo. Esperando o buzão. Corpo imaturo. Treze anos no máximo. Simplória. Uma garota sem posses. Sabia o que teria de fazer com ela. Escolhida por Morcegão. Escolha aleatória. A inocente mais comum. Fácil de ser dominada. Morcegão avisou que eu tinha um minuto para agir. Achei insuficiente. Pra ele tempo de sobra: Em um minuto se pode esfaquear cinqüenta vezes um sujeito. Claro que não havia garantias. Nós, com mais maldades na cabeça que astúcia para realizálas. Achamos bastante natural. Neste mundo incerto, uma besteira deve ser cometida de hora em hora. Ele concentra, eu diluo. Morcegão bem afobado, ao seu estilo. Eu tinha que ser rápido. Dar um tapa na cara da garota pra ele filmar com o celular. Alguns vídeos ganharam fama na web. Teríamos de fazer o nosso. Nenhuma originalidade. Nada se cria tudo se copia, é paródia em cima de Lavoisier. A velha entrou e levou as crianças, e estas, o cão ingênuo. Sinal verde para o ato insensato no absurdo da tarde. Ela continuava imóvel no ponto do ônibus, sem se importar com a nossa aproximação. Sob risco. Na hora errada, no lugar errado, dessa maneira as vítimas são eleitas. Via chegar o momento. Eu me encontrava num estado de excitação e enervamento. Devo confessar que não sou muito competente nesses lances precisos. Cheguei a propor que ele esbofeteasse e eu filmasse. Mas Morcegão não concordou: Você é desajeitado. Pode não pegar o melhor ângulo dela. Uma comichão a percorrer as pontas dos dedos. À falta de outra coisa, se limita à hipótese. Pois bem: o que tenho a fazer é o que tenho a fazer. Eu de um lado, Morcegão do outro, silenciosos. Qualquer barulho que fizéssemos mais alto que um cochicho seria captado. As coxas magras, de uma brancura de leite, desguarnecidas, mais claras sob o sol. Morcegão rindo com deboche e eu, espiando, sem riso. Talvez com os ombros mais curvados que o costume. Tão insólito. Uma varejeira. Por fim, circundada sob nossa descarada troca de olhares. Vi seus olhos de sampaku. Não se ligava no perigo que corria. Carregava o destino de morte violenta nos olhos. Morcegão tratou de puxar papo: Olá, querida, tão sozinha. Abraçou-se a bolsa escolar esfiapada nas bordas, manchada pelo uso. Tinha Jesus em volta do pescoço. Ele luzia. O lábio superior porejava gotas de suor. Muito tempo sob o sol. Seu cheiro insistente em minhas ventas. O ar parecia conter o suor dela. O espírito, sempre impuro e violento, sem descanso. Uma esmagadora sensação de déjà vu me preenchia o íntimo. O que vê é o que há. Como vejo as coisas desde então. Visto que foi isso que mudou. Não perdi tempo, agi como Morcegão queria. Pressionei sua nuca branca para baixo, man-

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tendo-a subjugada. Apanhada na armadilha. Tentou gritar, mas emitiu apenas uns guinchos. Seu hálito me irritou o nariz. Estava paralisada da cabeça aos pés. Posição incômoda. Reparava sua nuca inclinada e não me sentia à vontade. Pele untuosa, repugnante. O olor do corpo intensificara de modo insuportável. Fique quieta, cadela! O que mais podia dizer? É isto que precisava evitar: falar. Empurrei sua cabeça cada vez mais para baixo, mas não consegui me separar do seu cheiro. Não podia escapar. Debatia-se, mas não podia se livrar de mim. Sentia uma espécie de repugnância. Poderia partir o seu pescoço de tão frágil que era. Sim, me despertava os instintos mais selvagens. Morcegão me passou o canivete aberto, com o mesmo ar frenético de sempre: Se não cooperar, risca o rosto dela! Aí, eu trouxe sua cabeça para cima, sem soltar a sua nuca. Deparei com a expressão pasma de seus olhos. Eis que nos teme. Uma flor primitiva que deveria ser pisoteada, não contemplada. Fiquei ligadíssimo, os joelhos a tremer de tanta excitação. Peguei o canivete e tive a certeza que poderia riscar o seu rosto de um canto ao outro, rasgar a sua boca de uma orelha a outra. Minha determinação fez vibrar seu coração, eu podia senti-lo batendo nas veias da nuca. Mas a aflição em seus olhos não me chocou. Sejamos triviais, sejamos malvados. Eu sabia que ia ser assim. Desesperada, mas não dominada. O vencedor não estava à vista. Ah, se eu pudesse conter os ruídos da tarde para ouvir o seu desamparado coração! Quando me cravou as unhas nos braços, dei um sopapo bem forte no rosto dela. Surpreendido por sua petulância. Cheguei a sentir os dentes sob a pele fina e efêmera das faces. Perdi o controle. Morcegão não gostou do meu ato repentino: Ei, cara, espere eu me preparar pra gravar! O rosto fora de foco. Um desastrado. Repeti o tabefe para a nova gravação. Ela ganiu. As pupilas escancaradas de terror. Os lábios repuxaram-se contra os dentes, mostrando um esgar canino. Bem ao nosso nível. Só um tapinha não dói. Ignorou o canivete e esteve prestes a reagir, numa singular revolta. Notei o branco nacarado de fúria em que suas pupilas flutuavam. Se quisesse, suas garras poderiam arrancar meus olhos. Mas, por ora, pelo menos, estava dominada. Vítima e algoz em pleno zênite. Tinha a boca seca. Ninguém é bom antes de sentir medo. Arrepiei de excitação. Esperei pelo sangue que não veio. Um carrasco tão modesto e vago. De que porcaria mais é capaz a minha alma? Ela não tinha mais o que ceder, vencida. Embora o sol brilhasse e o céu fosse dum azul berrante, estávamos envolvidos por sombras medonhas. Um anseio exasperado me abafava, não dava sinais de me deixar tão cedo. Dane-se o sol! Deslocado, saíra do comum. Estava extasiado demais para me conter. Eu queria mais. Ela também? Parecidos. Criaturas vis e corrompidas, ao mesmo tempo, absurdas. A velha abriu a janela e berrou contra nós: Deixe a menina em paz! Petulante rosto encarquilhado, a abanar os punhos. O cão latia no pátio, junto ao portão de zinco, latidos misturados à voz dela: Vou chamar a polícia!

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Não tinha nada a ver conosco. Mas tinha de meter o bedelho. Apenas as cabeças dos netos curiosos, espiando pela janela. O cão parara de latir. A velhota saiu em busca de socorro. É disso, pelo menos, que queria que tivéssemos a certeza. E a coisa ficou mais grotesca. Morcegão lutou pra que eu largasse a presa, deixando-se levar pelas frases ameaçadoras da velha: É hora de dar no pé! Ia me tirar algo. Que forças poderosas me mantinham ali? Podia haver complicações. Com desgosto, larguei a caça. Saímos correndo rua afora. Não foi fácil dormir naquela noite. Abstrusos pensamentos que nos seguem até ao quarto. Deitado no escuro eu podia sentir o cheiro da pele dela. O cheiro de suor amedrontado, seguido do cheiro de ira. Pela primeira vez, sentia a exalação da ira em outro ser e apreciava. Sem as máscaras, quem eu sou? Legião é o meu nome, porque sou muitos. Não há lugar para Deus em quem está cheio de si mesmo. A criança sobre as coxas parece com a japonesa de laço vermelho no pescoço que a sustenta. No blusão: Yoko Isogashii, bordado em prata em meio a pássaros dourados com pequenos ramos apinhados de frutinhas em seus bicos. Comosechamamesmo? Nos sobrenomes se detecta a pretensão de eternidade. Imortal enquanto vive. De olhos puxados, a criança espreita pelo canto do olho e com a mão esquerda ajusta sem cessar o boné na cabeça oval, enquanto chupa o polegar da mão direita. Parece em pirraça. A arte milenar de irritar os demais. O mal ou bem, conforme os olhos que tem. Não dá pra saber se é menino ou menina. Pika-pika. Um ar pirracento e obstinado. Sente indignação pela desfaçatez da mãe ou irmã. Vózilda prezava o sobrenome. Uma marca de nascença: O que se tem de bom é o nome de família. Uma geração após outra tende a venerar o sobrenome como um símbolo de permanência. Se for de excelente família tradicional, não necessito mais nada. Faz parte do dote. Os bons nomes de família dão força. Massau - por acaso isso é sobrenome? Um sagüi. Somente uma espécie de macaco, pequeno e de rabo peludo e comprido. Em extinção. Não é bem um nome de uma raça que se preze. Inconformada com o sobrenome do genro: Que tipo de ambição era a de sua mãe? Dizia coisas horríveis sobre a raça dele: Maldita raça de bugre! Não quer nada com a dureza. Coça o saco o dia todo. Um nome para ser lembrado. Mas que é um nome de verdade? O que chamamos rosa, com outro nome não teria igual perfume? A insuficiência do nome para alguns. Por que Yahweh? Porque Yahweh é o nome de Deus. Rudá: tem nome mais sem graça? Nem árabe nem judeu: tupi-guarani. Se minha avó paterna não tivesse nascido índia, eu teria outro nome. Pairanço não teria a doidice de colocar nome de índio nos filhos. Amanda é nome indígena para a chuva, dá pra descer, mas Rudá é de doer! Nem adianta vir com a conversa fiada que Rudá era o deus do amor, que fazia acorda o amor no coração das criaturas, que as índias cantavam toda à tarde pra ele, e que era uma mistura de Hórus e Shiva. Já estou cansado de ouvir essa ladainha do Pairanço. O velho contém o arroto com as costas da mão em pelancas. Mais de oitenta anos, se não tem, parece. Uma eternidade. Vózilda morreu com sessenta e nove. Céu da boca róseo-escuro de banguelas gengivas. Sonha possuir dentes novos? Examina as

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mãos. Como se falasse aos quebradiços ossos. Sabe dos crepúsculos, das manhãs, das tardes, e não espera por mais nada. A pele da mão tão rugosa quanto à do rosto. Bem estragado. Rosto vermelhusco, apenas o nariz grosso se destaca entre olhos negros cansados. Mãos menores e cabeça pior. Passou do prazo de validade. O fim, só uma questão de tempo. Tem olhos dorminhocos. Gravidade dos anos. Sem culpa, sem mérito. Viveu o que vivo? Alguma vez traído? Sozinho. Encontrou em si a companhia de que precisava. Se eu viver por tanto tempo, a velhice vai me amarrotar deste jeito, e nunca chegará só. Repassado e retorcido. Acossado, penetrando cada vez mais em minhas vetustezes. Mais que as roupas, a pele apodrece. Cobre nossa podridão. Se tirasse a pele de Mel eu não poderia admirar o seu coração, as suas vísceras, nem o seu esqueleto. Então, só adoramos o externo. A beleza, um reino muito pequeno. A carcaça decompõe, cheia de manchas e de tumefações, não a alma. Quando ultrapassamos a cota, temos de jogar a carcaça fora. Percebe-se a morte após ignorá-la por anos a fio. Sempre a idéia de que podemos superar o outro. Não há pecado nem virtude. Há apenas o que a gente quer fazer e ser. Viver, só isso. Reencarnar. Itai! Muitos acreditam. Uma espécie de palmatória. Um novo corpo ou forma de ser. Várias formas de reencarnação ou renascimento. In carnare. Ciclo de vidas, mortes e renascimentos que cada ser sensível experimenta como conseqüência do carma. Quando o espírito reencarna, promete cumprir o programa proposto pelo carma. A idéia de que todos terão uma segunda chance neste mundo é reconfortante. Hoje menino, amanhã menina. Pode ser os dois. Adonai acredita que isso pode ter vantagens. O que você quer e o que você está aí para fazer. As lembranças de vidas passadas desaparecem com o desenvolvimento do cérebro. Sem recordação da casa dos mortos. Os sonhos que hão de vir no sono. Súbitas premonições relacionadas com o que há de vir. O despertar de uma consciência. O que você vai ser quando morrer? Nova incursão numa outra luz. A ilusão não é mais consoladora. Repouso aos recémdesencarnados em Nosso Lar. Os que recordam das vidas passadas sempre foram pessoas tão interessantes, nunca dizem que foram bugres, assassinos, ladrões e péssimas pessoas. Onde estão os bandidos e os safados? Ganhar outro corpo, outra vida para pagar as faltas cometidas. Se a alma não consegue viver bem, pelo prazo que lhe é concedido, em um homem, passa para o corpo de uma mulher. Feito ator que, no desfechar da cena, substitui a vestimenta e troca de papel. Mas não se salva dando um salto para o lado. Se eu não lembro por qual crime que estou sendo punido não há mérito algum. As reminiscências seria uma punição. Às Portas do Céu, no hostil mundo do plistoceno, Deus disse: Vão brincar lá para fora, lutem para ganhar uma alma diferente dos outros animais. O olhar continha algo que ultrapassava as capacidades de um símio. A alma, uma conquista da evolução inacabada, almas inacabadas. Numa pequena parte de nós, o universo inteiro encontra-se resumido. Não há como evitar este céu que ao inferno nos conduz. Provar que um escravo era idêntico a um rei, não foi fácil para Darwin, nem dizer que Satã, sob forma de babuíno, tão assustador quanto o demônio, é nosso ancestral. O que funciona pros símios funciona pros seres humanos. Todos os seres derivam de outros seres mais antigos por transformações sucessivas. Organizado com grande mestria para que não nos sintamos tão sozinhos.

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Deus é o guardião ou Deus intervém? Não temos uma continuidade de fósseis mostrando como um réptil tornou-se um pássaro. A ciência quanto mais sabe, menos sabe. Ou tudo tem uma razão de ser e nada acontece sem a permissão de Deus. Somos mais que símios. Escravos do corpo, mas livres de espírito. Temos alma, o princípio inteligente do universo. Almas que povoam o universo, fora do mundo material. Nada palpável para a carne. Para os desencarnados, é qualquer coisa. Naquele que vem ao mundo, um pouco de todos nós. Nascemos cópias, morremos imitando, a cópia da cópia. Faço o que mando e imita o que faço. Amamos e odiamos uns aos outros através dos séculos e, no fim, juntos teremos amado e odiado a todos. É para o que nasce. A gordona ajeita os despenteados cabelos com os dedos. Pode muito bem ter sido uma tremenda gata. Máquina de engendrar prazer. Julgava-se eterna. Lindos olhos úmidos escuros. Acabou indo a última gota do vidro de perfume. Ninguém persevera. A beleza está sempre sujeita à mudança. Quantos ela não traiu. Talvez o velho tivesse cruzado com ela. Pálido e tímido na muda de roupa roída. Sentados tão próximos e tão distantes. Não se conhecem mais. O ser humano não mais me impressiona. As dores de ser que nos cabe. O ocaso devia ser mais imponente. Zúnzúnzún! Que foi isso? O caramanchão passou rente aos vidros. O ônibus desenfreado até o local aonde quer chegar, e tomara que cheguemos logo. O tempo deixou de ser imóvel. A distância é proporcional à vontade de chegar. Ansioso eu, todos, mas indiferentes uns aos outros. Meus pensamentos não ficam para trás. Cuide-se de sua distração para passar o tempo. Rudá e suas idéias pseudocientíficas, diria a Professora Odete, a de bumbum de tanajura. Suas inchações carnudas que, de tão espantosas, me ofuscam e fascinam. Desconfia que meus trabalhos sejam copiados da internet. Se o trabalho é bom demais, copiei de algum site, se é uma merreca, a nota está de bom tamanho pra quem é. Sucesso e fracasso de click em click. O bom aluno não cola, faz backup. Duelo letal que se trava entre professores e alunos. Um passo para o lado. Ela pede passagem, cheia de si. Metida no apertadíssimo jeans, se pondo ao lado do velhote. Espanta o ancião sem necessidade. Não reparei ela entrar. Enquanto você cochila, o mundo gira. Merece mais que uma simples olhadela. A traseira proporcional ao corpo. Bumbum bem arrebitado. São lindas as iscas femininas. Vontade de pegar. Se atrever, ganha um tapa nas fuças, garoto. Poucas as que gostam de ser bolinadas em público. Preocupam demais com o que os outros vão dizer, movidas a comentários e a críticas. Vira pra eu reparar o seu rosto, bundudinha. Nada mal. Queixo malvado. Cabelos escuros, curtinhos, o brilho translúcido da prata nos pequeninos brincos que adornam o lóbulo das orelhas. Jeitinho de gata. Uma gata se mostra sempre bonita, sugestionando idéias de luxo, limpeza, e prazeres voluptuosos. Não me contempla. Um dar de ombros. Sua consciência alheia à minha existência. Imaturo demais para pequenas mudas. Nasci para esperar. Enquanto se espera, já se foi. Elas necessitam de enfeites e acessórios, uma boa grife, sem esses caprichos, ficam infelizes.

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Modernas, mega-ultra-hiper-high-tech. Perdidas entre os matizes. Querem a moda do seu tempo, mas já está ultrapassada. A moda morre nova. Mas moda é moda, mas quem manda mesmo é você. Há rivalidades entre elas. Toda mulher é minha rival num futuro imediato ou remoto. Entre si, não têm muito o quê fazer juntas, moda é o assunto bem-amado. Os machos, em geral, precisam fazer alguma coisa juntos. A camaradagem que existe entre nós não é nada freqüente entre elas. Exigentes, sempre encontram um defeitinho no que a gente faz. Os desgostos pesam mais de uma tonelada. Mas estamos atrás delas como peixes que nadam em cardume, elas viram e todos nós viramos. Quanto tempo dura uma fascinação? Umas escondendo as espinhas, outras as carquilhas: todas dissimulam. A pinta no rosto de Marilyn Monroe era falsa. Perdoe-me pelo que faltar. Morta de medo de não ser perfeita. Ei! Nada o que parece. Não ponha um peso intenso em meu coração. Mas o centro dos afetos não está no coração, mas bem mais embaixo, a um palmo abaixo do umbigo, meu bem. Agarrada à bolsa como quem se agarra à vida. Bolsa leve, coração pesado. Mil segredos estimados, íntimos. O apego desperta interesse, atrai os olhos dos assaltantes. Ou a bolsa ou a vida. Amanda carrega absorvente e um punhado de apetrechos de maquilagem. O miraculoso creme hidratante também é colocado na bolsa já bem cheia. O último grito em essências num frasco minúsculo cor de lilás, o perfume fatal. Uma gota no pescoço equivale a uma chuva de pérolas. Já encontrei montes de camisinhas na bolsa de Inês. Balões que vai enchendo e esvaziando a cada trepada. O office-boy deixa o assento e a bundudinha mais que depressa assenta. Esperta. Lugar ainda quente. Hora que se pega chato. Tarde pra se safar. O piolho-do-púbis povoará os seus pêlos íntimos. Nem aí. As mãos esmagam a bolsa escura no colo. Um olhar cauteloso por cima do ombro esquerdo. Nada importante à volta. Revira a bolsa, baile de quinquilharias. Saca uma revista feminina. Anúncio sobre cremes adiposos para seios e bumbum. Não pisca os olhos acesos, sublime etilismo. Parou bem na página do horóscopo. Vaticínios que não se cumprem. Tendo horóscopo e resumo das novelas basta. Todos os signos enfileirados: cabeça, pescoço e garganta, pulmões, braços e ombros, peito, seios e estômago, coração e parte superior das costas, abdômen e aparelho digestivo, rins e região lombar, genitais, quadris e coxas, joelhos e ossos, pernas e tornozelos, pés. Mercúrio fica retrógrado à noite e vai até o final da semana. A notícia não é das melhores, mas... Sem noite, sem sonhos. O que a noite tem a ver com o sonho? Puro palpite. Só tendo mingau na cabeça para acreditar em astrologia. Nunca lerei uma revista destas, apenas percorrerei as fotos das deliciosas. Uma foto é apenas uma impressão a tinta sobre o papel, uma visão fugidia da fêmea, mas pode muito bem nos satisfazer. Quase impossível encontrar alguém que não saiba qual é o seu signo ou que nunca tenha lido o que os astros lhe reservam para o dia. As posições das estrelas mudam com o tempo, mas os astrólogos têm mais influência que as estrelas. O obstetra exerce uma atração gravitacional sobre nós seis vezes maior que qualquer astro, mas os astrólogos acreditam em uma força desconhecida da Ciência.

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Se a Lua afeta os oceanos pode afetar uma pessoa, afinal, somos constituídos por setenta por cento de água e que passamos nove meses flutuando em água salgada, o líquido amniótico. Pura crendice. Um grande e vacilante monumento à ingenuidade humana. Os efeitos dos astros são desprezíveis. Um dragão flutuante invisível que cospe fogo frio na garagem. A astrologia está tão arraigada nas vidas das pessoas que elas passam a assumir características relativas ao signo. Eu, ariano, com a rudeza, irritabilidade. Gosto de mandar em tudo, bem extravagante, otimista demais. Impaciente, inflamado, de pavio curto. Egoísta. Impulsivo. Com tiradas engraçadas. Bem, eu sou mais ou menos deste modo. Gosto de ser deste jeito. Será possível que eu seja chifrudo devido à posição dos astros? Tendo na cabeça um capacete com chifres trota em mau humor. Eu ariano e ela taurina. O carneiro e o touro, uma espécie de tourada às avessas. A satisfação dos sentidos é fundamental para Mel. Tudo tem de ser bom e bonito. Não é do tipo que recusa uma boa sedução. Não dispensará os momentos românticos que poderão acontecer. Livre, a fim de curtir os prazeres da vida. Amaldiçoada taurina. Um signo regido pela mais preguiçosa e safada das deusas: Vênus, a de belas nádegas. Mel enfrenta as maiores crises sem chamuscar uma lasca de chifre. Ela tira os olhinhos da revista para a janela. Acaricia bem de leve com a ponta do indicador a estreita lombada da revista. O espírito pede elevação. Concentra-se no lado de fora, além dos vidros, os reflexos luminosos de um determinado carro. Quem vai ali? Ninguém interessante. Voltemos à leitura. Nesta idade, sonhar é comum, sendo fêmea nem se fala. Um sono sem sonhos em que estamos despertos. Faz de conta que vigio as estrelas. Quando fala com o namorado, sempre recorre às mentiras? Natureza delas, amortecer as mentiras. Tenho a língua maior que a boca. A língua mata mais homens que a espada. Virando as páginas, mais alguma matéria interessante? Olhos que, de uma maneira sutil, ferem e atraem. Séria. Não quer puxar papo com ninguém. Cara fechada, rabo arreganhado. Deita os olhos de vez enquanto na bolsa sobre as coxas. Um corpo bonito pertence aos olhos do mundo. Perdemos velocidade. Quase parando. O frentista boceja sentado num banquinho perto da bomba de gasolina. O outro abastece o carro, enquanto a meninazinha no banco traseiro do carro, faz cara de descontentamento. Irada, sem mostrar os dentes -, torce a cabeça de sua boneca. O brinquedo não vai durar o verão todo. Artista no cuspe à distância e no uso do lápis como punhal. Nada na vida jamais é o bastante. Gostaria de adivinhar o que a espera. Adivinhar é sempre mais divertido que saber. A mãe, no banco da frente, sem paciência, tenta se controlar pra não estapeá-la. É muito geniosa. Nunca será capaz de agradar à mãe. A intolerância se alastra entre os queridos. Quanto mais próximos, a quantidade de raiva despejada sobre o outro é maior. O que virá? Me viu, faz careta horrenda pra mim. Isso não é da sua conta. Bem atrevidinha. A zanga de uns, motivo de riso para outros. Não desejei ser intrometido. Deslizando, de queixo na mão, amuada, passou. Pode ser que nunca mais nos topamos. Sem a idéia que nos aguarda, como uma folha de papel em branco. Um mundo superpovoado é o lugar ideal para se estar sozinho. Sociedade tenebrosa. Temos que recorrer a nós mesmo, como o Barão de Münchhausen, caído numa fenda profunda e lodosa, saiu dele puxando seus próprios cabelos. Dois passageiros apressados competindo pra ver quem passa primeiro pelo trocador. Um in-

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fernal barulho de luta! Uns caras estressados. Pra que tanta pressa se não há lugar pra sentar? Lá vamos nós, ladeira abaixo! Conduzidos para todo tipo de adversidades. O que mais pode ocorrer ante este sol? É ingênuo perguntar para onde vamos, nós e o universo. Não vamos para parte alguma. Não existe começo nem fim. Somos. Lá fora, com mais movimento. O lento coexiste com o rápido. Corpos parados e em movimento ao mesmo tempo. O vôo imóvel da flecha em movimento, em vôo repousa, o que se move está sempre no mesmo, senão. O tempo consiste de agoras - bem peripatético. Cada lugar diferente é na verdade o mesmo, a diferença é aparente. A distância de um corpo a outro é a soma do afastar-se de ambos, o que torna o movimento nulo, indo para frente ou para trás, coisas opostas se suprimem. Em velocidade total. Solavancos e rajadas de vento morno das janelas. Não é o mesmo vento que batia no meu rosto enquanto mãe me segurava pela cintura, debruçado meio corpo na janela do carro em movimento. Braços abertos e peitos estufados, imitação exagerada de aves em pleno vôo, ou similar a um marujo intrépido na proa do veloz barco. Pode correr mais, pai! Pode correr! - eu gritava com todo vigor. Pairanço no volante da caminhonete, sem se importar com meus excessos. O mar distante, um manto azul-escuro fundido ao céu do mesmo azul constante. Uma calma azul que parecia vir direto do céu. Paranapiacaba. As ondas eram empinadas como falésias, e o olor marinho insistia nas narinas. Já a estrada do sol parecia não ter arremate, prometia o infinito, era como uma grande serpente negra, erguida acima das águas, nos seguia, engolindo o horizonte. Estávamos ali para fazer uma única coisa: ver o mar. Só uma vez viajamos juntos até o mar. Nunca mais se repetiu. Chamo de o ano em que fomos felizes. Esta era a nossa onda. Recordo de como era. Breve vida de escassos prazeres. Penso em como as coisas podiam ser. Acordei do sonho. Pego de surpresa. Travessia alguma é eterna. Não há remédio. E sonhos são apenas sonhos, não são? A cabine de telefone queimada. A mulher observa com desapontamento. Não vai dar pra ligar, senhora. Destroem o que é para todos. Perdemos velocidade. A fronte do velho se apóia no vidro e olha para um infinito inexistente. O vapor do hálito bafejado no vidro desenha figuras enigmáticas. Uma cabeça canhestra entre espaços ventosos. A vida impressa em bafo no vidro. Vale mais aceitar já. Um homem velho em um mês ingrato, sendo relido, esperando a chuva que não vem. Conversam e fingem concordar comigo. Tou gagá. Um cérebro improdutivo em estiagem. Faz parte. Onde escondeste teu tesouro? Resta o conforto dos últimos sacramentos. Os verdadeiros paraísos sempre perdidos, fugazes e precários. Nunca houve um paraíso. O Éden nem era grande coisa, com a permissão de Deus, havia um demônio em forma de serpente. A terra sem males nunca existiu. Se bem, havia uma belladonnapeladona. Tenho de aproveitar cada minuto. Todo cemitério está abarrotado de insubstituíveis. De jazigo a jazigo um romance sem enredo. Este pó foi gente. Foi poeta, sonhou e amou na vida. Os mortos nunca foram pecadores? O musgo alcança as lajes tumulares e cobre os nomes. Não passam de cinzas de uma paixão que os consumiu. Muitos imbecis acontecem. O que Iago faz dá certo. Rabo virado pra lua. Nascem com o dom. Nada custa a Aquiles, e tudo custa a Heitor. Só me consola saber que ele é um estúpido. Um im-

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becil por si só. Faz parte da categoria dos privilegiados. Tal gente se recusa a pensar. Não se deve perdoá-lo pelo sucesso. Não trocaria um grama do cérebro pela fortuna do pai dele. Meu cérebro é o meu segundo órgão favorito. Podes crer. À noite em que bebemos cerveja e jogamos pif-paf, ganhei todas dele. Um sujeito sem graça. O que ela viu nele que não enxerguei? Sentada, na beira do sofá, com as unhas escarlates apoiadas sobre as coxas nos vendo jogar, seguindo nossa rotação horária e anti-horária. Um jogador escolhido. A atenção dela estava concentrada nas suas palavras. Eis que o mal começa a propagar-se. Recolheu uma carta do monte. Que recomenda? Não sendo útil, vai descarregá-la a qualquer momento. Não vai permanecer com ela. Da mão para o lixo. Não quer saber mais dela, descartada. Cartas iguais do mesmo naipe. Comedor de picles com cream cracker. Mais espinhas nas fuças que um canteiro de rosas. Os feios e os brutos são os que mais lucram. Ruim de papo que só ele. Gaguejando com voz de fresco, só contando vantagem, ocupando meu ouvido. Exibia um blusão feioso que comprara em Paris. Vai passar o natal lá outra vez, em Fontainebleau. Grande coisa. Babaquara como o manota do pai que só fala de Paris. Ninguém gosta mais de falar que os gagos. Não dá pra agüentar a boca de quiquiqui dele dizendo Fontainebleau, é de dar voltas no estômago. A maioria de nós querendo fama, a deusa mais poderosa de nosso tempo. Adoramos publicidade. De pernas para o ar, rumo à platéia. Faça jus a um bom público. Seja ambicioso, com uma ferocidade cega. Quero ser dono do mundo. Sucesso súbito e intoxicante. Crie a fama e deite na cama. Vale tudo. Leva tempo pra pegar o jeito. Uma vez lá, tudo corre bem. Quem conseguir ficar famoso por quinze minutos conquista o seu lugar. Não deve existir um sujeito tão desgraçado que não consiga vencer outro nalguma coisa. Hora lúcida e perigosa. Não tenho dúvida, o alvo de todo ser. Há um céu suficiente e grande para todas as estrelas humanas. Queremos sobrecarregar o céu. O dever de ser é punitivo. O mundo não é blue, have the blues - escreveram no banheiro do Animal Games. Ray Charles passa cantando sobre nós: I got woman. Vem da sacada do prédio. Ter uma que me desse de tudo. Um notório mulherengo. Cafetão. Artista que se preze, além de cuidar do próprio umbigo, tem de ser mau-caráter. Cego aos sete anos de idade. Olhos de aranha. Fui cego até ontem. Raio. O namorado é sempre o último, a saber. Elas deixam a impressão de que nós as conquistamos. Fui o escolhido. Corri para ela. Envolvido e dominado por ela. Não fui príncipe nem sapo. Bem-ti-vi. Nunca ti vi por aqui. A primeira coisa que veio à cabeça. Balbúrdia cacofônica: vi ela. A boca dela. Essa fada. Como a concebo. Uma mão. Por ter me tido alma minha. Vou-me já. Devia estar vermelho como um pimentão por causa da birita, do esforço pra dançar a minha dança desajeitada. Só queria chamar a sua atenção. Meio caminho entre os meus melhores e piores momentos. Esperava que ela não tivesse percebido nada demais. Estamos sempre a um passo do ridículo. É o sentido de estar no mundo. O casal se beija no canteiro central da avenida, agarrados e inundados de sol. Delírios de amor a vinte graus centígrados. Beijo de lado. As duas cabeças inclinadas em direções opostas. Que casal mais empolgado. A maneira mais comum de se beijar, a preferida dos filmes. Ela em tempo de entrar dentro dele. Uma grande parte de nós está no outro. Gosta do arro-

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cho. Abusada. Corre perigo. Depois falam que os homens são uns tarados. Não faça do seu namorado um tarado, a vítima pode ser você. Embora não mate a fome, o beijo aumenta o apetite. Um beijo suave e simples. Um segredo que se diz na boca e não no ouvido. Beijo com baba e caninos. Assim foi o meu primeiro beijo. Ninguém lhe ensinou a dar um beijo de língua? Os lábios da prima Vera pousaram úmidos sobre os meus. O bafo era morno e tinha gosto de dentifrício de menta. O peso da beleza fulgurante dela só para meus olhos. Roupas ásperas, cheiro de couro sintético. Ela não largava o blusão. Luz cinzenta de um dia nublado e a gente entre a parede e o guarda-roupa se babando. Bocalouca, loucababa. Explosão de pétalas do centro da terra para o ar. Inexperiente. Morria de vontade de experimentar. Vou violar a prima Vera. De repente, ela me deu um empurrão: Você não sabe beijar! Nada compreensiva com a minha falta de graça. Silêncio humilhante. Zumbido lento de abelhas. Que vexame! Teoria é uma coisa, a prática outra. Confiei no instinto. Nunca se atinge o que se propõe. Gaguejei pra pedir desculpa. Nunca mais tentei beijar a prima Vera. Continuei lavando a sua bicicleta sempre que me pedia. Um sujeito calamitoso pode ser útil. O meu coração nunca chegou a setembro. Que idiota que eu era! Onde foi parar a prima Vera? Perdia com facilidade as lentes de contato, eu tinha que ajudá-la a procurar. Tremia quando dançava colado a ela, sua coxa roçava entre minhas pernas. Ligadíssimo, sempre um galinho instintivo. O pequeno sutiã lilás sobre mamalhudos seios. Bem mais nova, e atirada. Há anos que não ouço falar dela. Penso em seu sabor, no frescor da boca de menta. A sensação de algo perdido. As memórias são infalíveis. Continuam se beijando. Um the end bem aqui nesta cena amorosa. As linhas grosseiras da parte inferior do rosto dele, malares protuberantes, agora mais envolvido que ela. De modo que não esfrie. Droga! Estou de mau-hálito, deu pra sentir. Parecido com a fedentina da boca do Pairanço. Nem precisa chegar perto pra sentir o pronunciado cheiro intenso e sufocante de podridão. Há dias que é insuportável manter um diálogo com ele. Parece que lambeu um gambá. Uma bala de menta tiraria este bafo. Anélita tem um mau-hálito que ninguém consegue beijá-la. Uma vez, apostamos uma caixa de cerveja em lata pra ver quem da turma era capaz de segurar um beijo dela por mais tempo. Aí, eu caí fora. O escroto do Morcegão saiu vencedor, agüentou dois minutos. Custei acreditar no que via. Como você pôde beijar a carniça por tanto tempo? No primeiro segundo, ele disse que teve vontade de vomitar na goela dela, mas estava a fim das loira-geladas e tirou de letra. As luzes vermelhas da traseira do caminhão carregado de guaraná nos ultrapassando. O clinclin-clin das garrafas nos engradados se mesclando ao zumbido geral. Uma lesma anda mais rápido que nós. Vou chegar atrasado. Já está se tornando minha especialidade. Atrasei cinco minutos e foi o tempo suficiente pra me trair. Cinco minutos de atraso e ela não me esperou, foi com as amigas. A mãe me deu o recado. Estava me esperando na casa do Iago. Falei pra ela me esperar, não ia demorar. Ia dizer umas boas pra ela. Nunca mais faça isso! Está me ouvindo?

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Cinco minutos apenas. Aconteceu porque me atrasei cinco minutos. No romance Cinco Minutos, de José de Alencar, o amor começa por causa de um atraso de cinco minutos. O amor entre um casal que só se conheceu porque o rapaz se atrasou cinco minutos e perdeu o trem. Ao esperar o próximo trem, conheceu a mulher de sua vida. Por um atraso de cinco minutos, conheci a vadia de minha vida. Sempre desprezei a pontualidade. Quem deve chegar antes são os súditos. Eu vi. Sentada no colo dele, sendo beijada, beijando. A visão ilude menos que outro sentido. Só tive que entrar no quarto. Em um desses momentos em que a luz se volta para o íntimo, e se olha, mas não se vê. Amar tantos dias uma sombra. Flor que não dura. Vi o que não via antes. Amor e amor e amor, não há. Uma verdadeira índia jamais se prostituiria. Seria morta ou banida da tribo. Permanecer com o amado até a morte sem trair. Não me venceu. Pode me destruir a alma, mas isso não quer dizer que me venceu. Só que Iago ainda não sabe. A culpa nem é dele. O escolhido da temporada. Não poderia tomar de quem não tem. Foi inútil. Um olhar lânguido e aveludado, desse que afaga os seios d'alma. Non ti scordar di me. Nunca vou esquecer. Pode recolher as garras. Suas palavras não me convencem. Romance ingênuo, não foge à regra, feito aos moldes de folhetim, curto e sacarino. Era apenas uma história curiosa. Addio! Por que só o amor não basta? Penélope esperava por Ulisses com uma fidelidade obstinada apesar da demora. Conseguiu achar um pouco de amor. Ela nem esperou que eu ausentasse. Acreditei ver amor nos olhos verdes. Eu e meu amor fodido. Todo tipo de desgraça aconteceu a Ulisses por causa de uma mulher, Helena de Tróia. Mais bela que a aurora. Uma mulher capaz de incitar uma guerra daquelas não pode ser desprezada, nem a cólera inumana de Aquiles foi o bastante. Ulisses ocultou que Aquiles morreria na guerra. Não se pode confiar em ninguém. Aquiles não tinha respeito pela vida. Carne de pescoço. Fileiras marchavam atrás dele. Soc! pow! sock! Os corpos estremeciam e tombavam sob sua espada. Tchéing!, bléim!, bléim! Quando se mata um homem, não se sabe nem o que lhe foi tirado nem o que lhe foi dado. Homens com elmos de couro, zangados por nada. Pow! Pou! Tanta luta por uma racha fedorenta e mexida. Báááá! búúúúú! Era de outro. Iam perder a vida por nada. Um cerco que iria durar dez longos anos. Brrr! Elas sabem que os ciumentos são os primeiros a perdoar. Um prazer nunca é um erro! Desmedida confiança. Se trair uma vez, trairão outras. As paixões não passam dos meios que a natureza utiliza para atingir os seus remates. O que não abandonamos nós, quando amamos! Entregara-se a ele por um desarranjo orgânico. Vap! vop! O amor faz mais mal que bem. Desse amor se morre! Cada qual na sua! Aquiles deixou rastro. Lutar, morrer jovem e ser lembrado para sempre, ou permanecer seguro e ser esquecido. Fingir ser, em vez de ser. Aquiles foi cruel e audaz. Dilacerou os inimigos. Estive aqui, tanto no fogo do amor, como no fogo do ódio. No meu fim está o meu começo. Zok! pof! tou! Ai! Como os homens culpam os deuses pelos próprios crimes! Renunciou a vida de milhares de dias, desapontou a esperança. A vida longa isenta de grandes feitos me faz bocejar, todas as lembranças são tediosas. É o desafio que traz o prazer, a expectativa nos apaixona. Gostamos disso. Clap! clap! Clap!

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plec! plec! Aquiles seria intolerável, não fosse pelo calcanhar. Cá entre nós, não viver com um fim determinado é um erro. A falha de hoje pode ser o sucesso de amanhã. O desafio provém dos homens, não de Deus. O amor é o que nós adquirimos e perdemos. Slam! blam! Está por fazer, serei o que puder construir. Não devemos ter remorsos de nossos atos. Largue algo aqui. Snip-snip! rasg! riip! O filme de sacanagem que Latino me emprestou fala sobre isso. Um mela cueca. Assisti cinco vezes. A intrometida da Inês me pegou assistindo. Mancha escura no vão da porta. Garoto maníaco assistindo putaria. Swat! zip! A mão cobriu o músculo espasmódico que havia. Quente e imóvel. Uuuum! Estava a meio caminho da felicidade, com a alma num fio. Fazer xoxota e fiofó da própria mão. Nada mais, nada menos. A mão livre para o que for necessário. Tudo falta se falta o sexo. Ameaçou me dedurar. Tou nem aí! Uma empregadinha-paratodos cheirando a incenso. Estava ouvindo as musicas antigas do rei brega: I want that everything goes to hell. Eu mesmo baixara pra ela da web. Elas vêem filmes pornôs e não curtem porque gostam de imaginar historinhas. Sofrer as penas de amor. Conseqüência desse falso romantismo que elas teimam curtir. Buow! Longo agastamento. Contou? Sei lá. Que rumo tomou Lenita com o filho do Latino? A carne. Trocou Latino pela segurança do velho agiota. Adornada de afronta. Queria algo mais concreto na vida. Mulher instruída é mulher emancipada. Queria que Latino mudasse de vida. Que futuro podia ter com um ajudante de pintor? Não mudou, pé na bunda. Bleahh! Mulher não me manda. Toda assanhada pra cima do muquirana. Mesmo sob frio, vestia roupas de grife bem decotadas. Não é o clima que decreta o que elas vestem, mas o que vai a suas mentes exibicionistas. Também, alguém tinha que gastar o dinheiro do sovina. Seu passatempo favorito era pôr Latino à prova. Tagarela, de língua solta e instável. Dezenove anos e fodido. Ficou na pior. Numa maré de azar por causa dela. Nem pensou que gostasse tanto da sacana: A pervertida me deixou, disse que era para melhorar de vida. Não sabia como precisava da depravada, como gostava da desavergonhada, como sempre desejou a sem-vergonha. Coff! oss! uss! Como é fácil a gente se esquecer do próprio eu. Por que não ter despedaçado o crânio com uma bala? Bang! Nunca mais! Burp! Bebendo todas por causa dela. Encharcamos o cérebro por elas. Cada vez mais surdos, cegos e bestas. Eeek! ic! Os despojos. Ser trocado, ser esquecido. O pior era imaginar como o agiota a comia! Bounce! bóim! Nas horas difíceis da vida, deve-se levantar a cabeça, estufar o peito e dizer de boca cheia: Agora fodeu! Bah! A história do filme era uma merda. Velha e manjada putaria. Somos pornófilos. Psst! Uma loira estonteante como uma fina flor entre as virilhas. Estirada em lenta ondulação, a despertar ao sol conivente. Zoom! zum! zoop! Linda. Lovelace. Fresca, não salgada. Dominadoradominada. Balançava as coxas nuas e bronzeadas, pés magníficos, calçados com sandálias prateadas. Armadilha para os olhos. Úberes volumosos, tara leiteira que os americanos curtem. Smash! paft! plaft! Tão estrema e tão devassa.

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Tive ciúme quando ela começou a bifurcar-se com o Garanhão. Pat! pat! tap! tap! Nem necessito de uma causa para o ciúme. Atire a primeira pedra quem nunca teve dor-de-cotovelo. Monstro dos olhos verdes. É uma paixão que procura com um ardor, o que cria sofrimento. Travelling: Revelando a piscina em forma vaginal. Por entre os fetos amarelados amorfos, dois querubins, sujos de limo, espiam. Cut to: A câmara não deixa escapar nenhum pormenor: guina, enviesa, ladeia o corpo da loiraça. Closes: Umbigo como uma lua-crescente sob um sol veranico. A umidade na calcinha vermelha não deixa dúvida sobre a distração que sente. Luzeiro de amor. Upa! Eis o que traz o pecado ao mundo. Takes: O Garanhão aproxima-se relinchando. Garanhões procuram potrancas. Ela permite que ele tire sua calcinha com os dentes encavalados. Crunch! Croc! Ela faz saltar o envergado órgão copulado da mirrada sunga magenta. Aí um presentinho pra mim? Estacado. Taí. Inala. Dolly in: Os sexos se aproximando: rublos malignos reluzentes. Close-up: Esbarram-se. Créu! Descomunais, cruéis e audazes. A luz arde na pele com alarde. Enormes, se grudam, herdeiros da superfície e das profundezas. Crack! prac! prec! Crash! Praaa! Impõe-se como ar e luz. É ótimo quando em excesso. Um minuto mais e nenhum será capaz de controlar o outro. Cut to: Linda e o garanhão. Movimentos tímidos e nervosos de corpos aquecidos às pressas. Plop! Sutilezas estéticas das almas. Sabe o quanto vale. Maneira doce e estranha de dizer que é amor. LINDA: (Suspirando) Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo! A boca farejadora dele ao longo do ventre, flanando afora. Smacks! Brilhos de saliva tremeluzentes. Nem todos os beijos precisam ser na boca. O Garanhão é um babão. Lampejos de fogo nos olhos dela. O corpo a mover para frente e para trás. Close: Paparicada, ela escarnece. Eia! Off and on: Esbranquiçada ravina abaixo do umbigo dela exibe seus atributos sem o mínimo de embaraço. Enredos aracnídeos. Um florículo enrubescido assinalado na parte interna da coxa esquerda. IRMÃPLUVIOSA: Não é bem uma flor, uma cicatriz. Pai queimou a coxa dela com um toco de cigarro porque queria obrigar ela a fazer umas coisas nojentas com ele. Até onde é mentira, até onde é verdade? Não, não vale a pena gastar tempo com eles. Cut to: Os joelhos lustrosos. A loiraça se ajeita à espera do femeeiro. Take: No fosso dela. Cabelos longos grudados nas costas suadas. Vestida de suor. Clouse-up: O rosto felino dela: grandes olhos entre o verde e o violeta, encapelados. A saliva como lubrificante nos lábios de boquete, gotas de luzes e de cores lânguidas. Closeness: Olhos-de-peixe-morto. Dois astros vagabundos. Acentuação musical: Dá para ouvir a canção: Out of sight out of mind, long absent, soon forgotten. Um instante prófugo, entre a expiação e a distração. PAIRANÇO: Gostam da dor. FILHO: Todas? PAIRANÇO: Sem tirar nem por. FILHO: Por isso queimou a coxa dela? PAIRANÇO: (Vexado, retrocede) Isso não é da sua conta! Acentuação musical.

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Takes: O membro do garanhão em plena forma acendendo passagem. A loiraça nem pode evitar o choque provocado pela súbita agudeza. Chop! tchap! tchape! tchope! Desafogado, escondendo-se nela. Polpuda. Firme! Galope triunfante! O refalsado prazer enruga-lhe o rosto. Sente expiação, e gosta? Songamonga. Ele sai de trás e vem pra frente. Com a mesma facilidade, esconde-se. Abananadas carnes. Bem relaxada. A garra que se exacerba! Mas que égua! Célere, desgrenhada. À égua dos carros do faraó eu te comparo. Há coisas que não se absolve. Ela com ele. Não há sentimento entre eles, apenas os ruídos nasais, que jamais serão lembrados. Se reduz a grunhidos e socadas de carnagem. Clomp! tlum! vap! vop! Takes: Ela traz uma expressão desvairada no rosto, aperta os lábios com força. Back and Forth: Uma almofada abaixo do pousadeiro roliço para facilitar o incurso. Zip! É um, perfeito em dois, são dois em um. Se não são carnes minhas por que dói assim? Takes: Ele dá os ósculos mais estalados que já escutei. Swish! Distribui olhares à esquerda e à direita. Não sabe onde se deter, qual parte apreciar. Resolve encavalar mais. Vuup! vap! As curvas lânguidas, desprotegidas e pulsantes adquirem um andamento diferente. Er... Ahn... Suspira de novo. Feita para dar amor e tão determinada a não o receber. Te amar e te sentir. Ruídos úmidos. Com a alma ama a carne. Ninguém entra pela porta para interrompê-los. O olho fosco de Pairanço, dilatado pelo desejo abominável e incestuoso. Franzido sobrolho. Ela me inflamou. Relincha. No cueiro, setemesinho, no colo. Um verme a poluir. Acentuação musical: Do abalar das cortinas no andar térreo, vem a canção: My daddy he rocks me with a steady roll. PAIRANÇO: (Com desprezo) Nunca foi minha filha. Casei com sua mãe já de bucho cheio, e a vaca-velha da sua avó nunca me agradeceu por ter tapado o buraco feito por outro. Não teve problema em arranjar um besta. Foi o boto. Ele nos dá as moléstias e as possessões. Ele tentou, eu faço. Eu sendo mais ordinário que ele. Pfft! pfft! phfpt! Maldito seja! Oh, vento da desgraça, quando irá parar de soprar? Se a mãe não acode a tempo. Ben-Ami. Um Ló deitando com a filha. MÃE: (Furibunda para a filha) Não tinha nada de ficar nua com a porta aberta do quarto. Nunca aprende? Sem pudor. A Irmãpluviosa sentada no vaso sanitário, abre as pernas quando vê o irmão. Quando descobri o minúsculo pênis por onde ela urinava. IRMÃO: Deixa eu ver direito. IRMÃPLUVIOSA: (Com deboche) Que curiosidade! Soberba, com os indicadores, expulsa a coisa erétil entre os pequenos lábios. Agacho diante dela. Em revista, pasmado, com cuidado, reparando o que possui oculto detrás dos largos lábios. Um duro cone de carne desliza rápido para fora, crescido ali, entre rubripeles. Bem avantajado, não? Adonai jura que ela é uma garota que vai preferir outras garotas. Ciúme das vantagens que se tem em ser menino. É uma questão de tempo, mon ami. É uma garota marcada pelo amor feminino. Uma menina nunca será apenas uma menina. IRMÃPLUVIOSA: (Com orgulho) Pouca diferença entre nós. IRMÃO: Ficou doida? Somos bem diferentes. IRMÃPLUVIOSA: Posso fazer de pé, como você. IRMÃO: Pago pra ver.

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Decidida, deixa a borda do vaso sanitário. Com o cabelo atirado para trás, de pernas bem abertas sobre o vaso, desabrocha, em chispas cadentes, a urina sem bússola. Lapisa no ar curvas enérgicas. Ai-ui! Ai-ui! Respinga. Disse que não dominou a técnica. Não há técnica nem pra quem nasceu com o falo exposto ao sol. Macaqueia o modo que sacolejamos antes de guardá-lo. Snap! tlec! Mãe também com o mau hábito de urinar de porta aberta. Tchá! chuá! Consangüinidade. Ainda bem que tem o zelo de sentar no vaso e fechar as pernas. Elas nos dilaceram a carne e nos penetram na alma. Talvez não tenham culpa de serem tão depravadas. Somos todos. FILHO: E se algum amigo meu chegar e ver? MÃE: Que tem isso? FILHO: Pega mal pra mim. Um olhar desprovido de afabilidade, afiando as garras. MÃE: Quando pelada, a mãe deles não é diferente de mim. Somos todos desgraçados filhos de Eva. Cut to: As mãos bem esmaltadas da loiraça com o varapau do garanhão na mão. Hesitante entre o membro e a boca dele. Se pudesse gastar, reconsiderar por mais tempo. Snore! ron! ronc! Boqueja. LINDA: (de voz rouca) Deixe um pouco de você dentro de mim já que não pode deixar sua alma. Desta vez era a ele que ela queria, e não aos outros. GARANHÃO: (Entusiasticamente) Oh! baby... Permita-me. Slurp! lamb! Para ela apenas um tecido muscular, duma cor nada natural, jamais a extremidade mais sensível dele. O que não fazem por dinheiro. Cada vez mais penoso ganhar o pão. Aceite o que a vida lhe oferece, mas não confie nela. Gasp! Ufa! Cut to: Fellatio. Javaidentro. Ah, sim! Garganta profunda. Close up: O clitóris localizado no fundo da garganta. Cut to: Olhos de abóbada celeste, em forma de amêndoas. GARANHÃO: (Em relincho) Espere, meu bem, que vou contigo. O oco rouco. Não tenha dúvidas quanto aos dons de simulação deles. Beija e balança, em punhos, seu gládio. Cut to: Cum Swallowing. No volteio do tacape sem ponta. Um. Dois. Entra. Vai! Avante, até os colhões. Tem vida própria, e é um segundo homem dentro do homem. Boquilíngua. No calote, até onde era possível. Vai e vem, põe e tira num só ato. Gula ensandecida. Ó Safada, como te faço sofrer? Cospegozo. Maré galopante. Cóf-cóf! Do gole que esgoela. Ele cospe, ela tosse. É contra ti que me lanço. Pronto, está feito. Acabou. Foi-se. Pomba casta cambaleante. Boca escancarada. Seiva nacarada escorre, serpeia. Indecisa. Ou cospe ou engole. Takes: Empertigando-se sorve boa parte. Tchuf! Sórdida! Menos isso. Glub! blub! glug! Entresorrindo, ele bate com a cabeça-de-baixo nas faces dela. Respingada. Slop! blob!, blab! Queixo lavado com a própria baba. Lantejoulou-se. Estamos na vida para ousar. Cambaleia, emporcalhada. Na bocaça, o traço de outro macho. Meio repugnante vê-la lambendo o marejado. Pro diretor é como ser aplaudido de pé. Trema-Treme. Argh! A besta jaz. O que vive perece. Pegada no ato. Sem salvação. Faço bem aos outros. Influência do meio. A primeira lei que a natureza me impõe é gozar à custa seja de quem for. Fica evidente que o ato carrega o seu autor.

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Merece ser castigada. Poderia ser fulminada por um raio, que a romperia da boca ao ânus quando fosse à missa. Bramam! Poof! Puf! Um besouro. Desafia as leis da aerodinâmica, zoa em minha direção. Zunzunando passa raspando meu nariz. Recorda o zumbido de uma hélice de helicóptero: vúp-vúp-vúp-vúp! Guardadas as devidas proporções, há de ser mais ruidoso que um helicóptero. A fim de varejar uma saída, sua impaciência intensifica-se mais. Sensabê doncovim, proncovô, oncotô. Quase se espatifou de encontro à vidraça. Um zunir do espírito e por pouco se espedaça. O absurdo modo suicida de ser. Nada arde no inferno exceto a vontade pessoal. Achou uma abertura e caiu fora. Muros grafitados. Difícil de decifrar. Deram pra traçar letras que ninguém lê. Uma espécie de código entre os escribas. Mais além, as casas subindo a serra, elevando-se aos céus. Na casa da esquina, velhas telhas manchadas de limos e paredes emboloradas, desbotadas, tinteiros mal-assombrados. A angústia que se aninha. Uma andorinha flechando o ar, bate triplicadas vezes as asas longas e pontiagudas e, em seguida, plana lento o caminho lento, os acidentes lentos, sem rumo. Difícil de ver uma por aqui. As aves estão sendo extintas. Antes da colonização era um paraíso para elas. O mundo de almas que estamos prestes a perder. A lembrança será um acalanto. Era mundo lindo e mais ou menos ingrato! O sol açoita forte o verde da serra, um cru imaturo verde-musgo cada vez menos vasto ardendo nas vistas. O verde conserva um caráter estranho e complexo, o verde do broto e o verde do mofo, e, sempre assim, a vida e a morte com intensidade. A vida é um aprender a morrer até a final consumação do corpo. O espaço ocupado antes com respiração e opiniões. Coisa alguma aqui morre só a sua morte. Um pouco de nós todos no que se vai. Casebres de variados modelos, cores e tamanhos galgando o topo do morro. Os postigos estão fechados. Casas adormecidas. Um beiral amplo, pintado de cores sombrias. Uma rua inteira de casas semelhantes. Utensílios de morar. Todas caindo para o tamanho pequeno, duas janelas e duas portas. Caco de porta ali. Restos do roseiral à direita. Portas e janelas são como as bocas de alguns pais. Bairro antigo. Alguns gramados calçados por lajotas irregulares. Honestamente fechadas? Algumas. Segredos entre quatro paredes. Uma casinha só nossa, solitária, metida num jardim inculto e cheio de sol, em alguma rua escondida, não é? Uma biboca. Amor insensato. Uma boa embalagem, uma fita, um cartão e… voilá! E vamos apagar as luzes para ver como fica. Construídas para serem moradias, não para serem vistas. Ar viciado e contaminado. Escondem e acomodam corpos e almas desgraçadas. O sujo deve ser lavado em domicílio. É o paraíso pelo clima e o inferno pelas companhias. Pairanço foi expulso do castelo. Não era seu castelo. Era o castelo da sogra-má: a vaca-velha. Sempre considerada inimiga: Aqui pode mais a galinha que o galo. Vózilda foi taxativa com ele: A partir de hoje, seu bugre-bêbado, não manda nada nesta casa! Nem assim abandonou o burgo. Não havia notado a estrada curva e curta entre as casas. A rua de paralelepípedos desce em declive, acima, o céu sem limite, domina o amplo e curvo

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horizonte verde esmeralda. Caminha-se ao léu rua acima, rua abaixo. Daqui não se sabe de onde vem nem para onde vai. Só vai, não vem. A placa indica rua sem saída. Tão estreita como uma passarela. Bairro desfavorecido. Ruela sem destino. Não se chega à parte alguma. Mas toda estrada leva a algum lugar, e todas levam a Roma. Não, no vaivém, todas levam à Nova York, a Roma moderna. Boa parte das vidraças e portas enclausuradas, lacradas do frescor e da verdosa manhã. Janelas sempre fechadas. Janelas que nunca são abertas podem simbolizar cegueira. Talvez não queiram ver a verdade. Bem soltas no pico da encosta à vontade dos ventos. Segundo Inês, casa que recebe muito vento é sinal de muita agitação e pessoas nervosas. Telhas desalinhadas por algum pé-de-vento outonal. Um desvão de telhado é o infinito para as andorinhas. Quem vai, volta. A noção de quem está indo ou voltando é só de quem fica. Quanto mais se anda, mais prisioneiros do caminho. A casca da casa no fim da ruela de quem sobe parece de papelão. Domicílio em estilo enxaimel. O verde mais escuro da cerca viva avança sobre os floreados e ornados anões de jardim. Adorne a casa e esquente a alma. A maior parte dos telhados manchados pelo tempo, lodo denso e lodo viridente. Meio telhado de telhas novas e outras tantas encanecidas. O limpo e sujo convivem-se. Cobrem corpos desgastados, se satisfazem com as graças do desprezo divinal. Favelados espíritos partidos em fraudulento lar. Descobre que se encontra paralisado. Sombras dentre outras sombras. Não vemos mais longe que a ponta dos nossos narizes. Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai. O rasgo no chão, recheado de concreto, pojado: a casashow que não virá. Não, por enquanto. Uma batalha humilhante. Construir é ser roubado. Apenas um anjo tosco na varanda. Um velho sobrado, de fachada de arenito pardo, mais um armário que uma casa. Provincianos. Resta algum encantamento. As amplas janelas deixam ver o côncavo azulado do mar-céu. Expansível espaço curvo. Vê-se a horta numa casca de noz. Com fome e sem tostão, plantam alimentos em casa. À esquerda, longa escada com degraus vazados, dispersando as energias dos moradores. A energia de uma casa flui de cima para baixo. Um emaranhado de energia negativa. Que uma mulher te chifre! Será que existe uma casa de energia perfeita para o Feng Shui? Fallingwater house. O concreto estéril, enfeitado de canais fluviais. Escuta o som das águas esguichando - um som confortável, quase aconchegante -, é pedra. A visão do movimento perpétuo. Arquitetura, música petrificada. Frank Lloyd Wright concebeu a casa do século XX: a integração com a natureza. Construída sobre uma queda d'água, entre ramagem densa de árvores, baseada na teoria oriental que as proximidades dos rios são boas para os fluidos positivos da casa. Um medalhão esnobe. Vento e água, meio sustento. Menos é mais apenas quando o mais é demais. Um monstro de artista. Mesmo a pessoa mais fria sente uma cutucada destas energias. De volta à selva. O éden erguido na vastidão frondejante. Luminosas inferências, perspectivas engenhosas. Um burburinho nos envolve. Recuperado o jardim perdido pela desobediência de uma mulher. A paisagem natural, o domínio da vida selvagem. Comunicar o que não pode ser explicado com simples palavras. Morcegão quer ser arquiteto: Cara, vou fazer ocas muito loucas! Ali, a casa mais pomposa só no reboque. Ao vão da porta, à rua se endereça. Andaimes, tijo-

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los e montes de areia. Faltou dinheiro para terminar. Sombras múltiplas que o sol te guarda. O olho favelado maior que a barriga. O olho de avestruz, maior que o cérebro. Quem casa quer casa. Três janelas ao norte e uma só porta ao sul. As crianças serão desobedientes se ficarem em ambientes com mais de três janelas para cada porta. Acho que li demais sobre o Feng Shui. Influência de Amanda e Inês. Dizem que a casa reflete a alma do morador. A nossa é uma lástima: bonita por fora e podre por dentro. Aparência impalpável e carregada. A casa tornou-se um cadáver. Minha casa é uma casa deteriorada. O que na vida é perfeito? A perfeição é um estado de espírito. O mar misturado ao sol. Nem Deus sabe ao certo o que se passa no interior delas. Um Deus que sabe excomungar: Viverás com o suor do próprio rosto, e maldita seja a terra por tua causa. Casa pra ser alugada. Dorme hoje um casal de virtudes no mesmo espaço de chão que sofreu um casal de pecados. Tantos segredos, tantas decepções. Mesmo que a casa de um homem seja o seu castelo, não entre as pressas, sem avisar, nunca se sabe o que se pode descobrir na própria casa. Não chegue cedo demais. Todo tipo de surpresa te espera. Pelo espaço de cinco segundos descobre-se a verdade. À noite, vê-se o que a escuridão permite, durante o dia, a luz nos força a ver até o que não queremos. É quando o próprio espírito se encolhe. Foi horrível agüentar o espetáculo. Cedo entramos no quartinho dos fundos. Precisava engraxar as rodas do skate. Pairanço guardava graxa e pó de grafite no quartinho. Ele mesmo quis dar um jeito no meu skate. Parecia fechado e protegido. Chegamos ao destempo. A alegria sempre atrás da pena. Empurrou a porta e olhamos. Eu vi, ele viu. Em meio às caixas, à contraluz, pegamos mãe transando com o irmão dele na bancada, a despeito de todas as ferramentas esparramadas ali. O intruso foco de luz da porta escancarada ladrilhando o piso poeirento, crescendo sobre o camuflado casal. A saia dela de violetas minúsculas arregaçada até o umbigo. As coxas desdobradas, sólidas hastes, envolvendo as deles. O sexo dele dentro dela. Todas as partes dela e nenhuma parte dela. Nem nos movemos. Meus olhos tinham sede. Encarcerados, sem saber o que fazer. Ela agiu com muita calma. Desceu da bancada e recompôs a saia e pegando o par de sandálias no chão, abriu caminho entre nós. Corada e despenteada. Tinha uma cara enlameada de suor. O quartzo impiedoso dos seus olhos duros incidiu em cheio sobre mim e seus passos passaram como ronco ensurdecedor nas conchas das minhas orelhas. Caminhou sobre os escombros de minha alma. Meu tio Davi nem desfez do riso de deboche no carão tosco. Nada tinha a dizer. O cretino não era apenas sócio do irmão no açougue, estendia domínio sobre a cunhada. O ócio e o negócio. Invejoso. Caim era o vigia de Abel. Bem relaxado, ergueu as calças e recompôs a camisa, pegou a inseparável maleta de couro, sob a bancada e, com ar de quem tinha concluído uma tarefa, perfilou-se diante nós sem dizer uma palavra. Nunca mais chamei o fedaputa de tio. Para muitos, é o canalha mais cativante da família. Afinal, cafajeste é bem mais interessante. Sabe dominar, foi permitido. Se honrasse o sangue tapuio não cobiçaria a mulher de outro. Em dias de índio, pagaria a desobediência com a vida. Pairanço não pôde tratar as coisas à sua maneira. A esposa infiel o segue. Não há antídoto. Há

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coisas na vida que não dá para aceitar ou acostumar. Perdeu para sempre o que tinha de mais precioso: ele mesmo. A garrafa virou animal de estimação: Um brinde à puta que me traiu! Nunca mais trabalhou. O horror ao trabalho dá trabalhos sem conta. Será sempre inútil. Então, os traídos têm todo o tempo do mundo pra jogar fora. Ontem descobri a amada infiel, mas não me seguirá. Foi descartada. Não quero ficar jogado às traças como Pairanço. Não estou atirado às traças. Tenho muitas garotas para azarar: Bianca, Cândida e Imaculada. Devo iniciar um recall. Ah, quase me esqueço da deliciosa da Anabela. Bem comestível. De pernas belas, com ar desvairado e a boca carnuda. Mais gata que Mel. Grandes olhos redondos, preguiçosos e enamorados. Na festa de quinze anos, fez questão de sair do interior de um bolo feito Marlyn Monroe. Não gostou da comparação: De jeito nenhum! Fiz, talvez, igual à Madonna: Bad girl drunk by six. Marlyn Monroe é do tempo da minha bisavó! Então, imitou Madonna, que imitou Marlyn Monroe, que imitou não sei quem. Tem a Lúmia: carnuda e meio peludinha. Hábito de passar a língua pelos lábios, para umedecê-los. Está aprendendo espanhol. Merece atenção. Yo te quiero. Consultarei. Y ahora estoy aquí. Livre! Vou sair em busca de Lúmia. Será pleno dia em meus olhos. Só não aprovo é a idéia fixa dela de acampar. Nunca me empolgou levar picada de mosquito, armar barraca, improvisar a gororoba ou acordar cedão por causa do sol. Qualé, Rudá? Neto de índio e não ama a natureza. É isso aí, neguei a raça. Pra falar bem a verdade, acho que eu era mesmo um chato - custava ter ido pelo menos uma vez? Antes, era tão complicado! Pensava muita coisa esquisita. Estreito círculo de idéias. Desde ontem, garotas, mudei! Ninguém deve cometer a mesma tolice duas vezes. Passar a noite ao lado de um belo par de coxas, merendando uns lábios carnudos e bebericando umas loiras engarrafadas, não é má idéia. Se pintar na minha reta, não me escapa. Vai cair na minha mão outra vez. Difícil, mas não impossível. Pelo menos, vou tentar. Embebido na sua pessoa. Pela minha vida e pela tua! Se necesita sólo tu corazón. No amor, um mais um é igual a um. Subir de sonho em sonho - rei de anseios perigosos. Quanto mais alto se sobe, mais longe é o horizonte. Todos aspiram vida intensa e não essa monotonia em que eu estava mergulhado. Pasado en limpio. Como todos os traídos: metade vítima, metade cúmplice. A experiência não constituiu um completo fracasso. Tenho de mudar a tática, ser mais corajoso. Atirar a esmo. Traçarei toda gata que pintar na reta. Se você se abrir para a intuição, o resultado virá com o tempo. Acostumarei a pegá-las. As velhas, antes das belas, as porcas, antes das pérolas. Vou parar de me realizar só na imaginação. Relaxar em companhias alegres e descontraídas fazendo coisas divertidas, viver o momento, será a regra, não a exceção. Barriga pesada: gazes. Uma rajada de gases clandestinos prestes a sair de mim. Não posso segurar. Largar o gás aqui e olhar para o lado com indignação. Desconfiado. Não vai dar outra. Saindo. Ybytucatú. Fiiiinnn. Remexer a mochila. Um truque para abafar o ritmo estrepitoso. Discreto, sem fazer barulho. Manifestou-se. Sem fedentina. Os fiéis agradecem à graça recebida. Bem mais leve que o oxigênio. Nem necessito dizer que fiquei mais leve. O útil e o inútil têm os seus lugares. O Imperador Claudius até aprovou uma lei legalizando o ato em banquetes. Entrou para os

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anais as fases anais. Um homem abestalhado, estufado de certos alimentos, arrasa um quarteirão. Garrafões de gás explosivo, expandindo o ácido sulfídrico, o gás que cheira a ovos podres. Reza por tu alma porque tu cuerpo ya esta podrido. Gás-dos-pântanos. Como se chama mesmo? Hidreto de metila. Um litro diário. Contidos durante o dia. Saem um monte quando se dorme. O metano com tendência a subir rápido. Contribui vinte e uma vezes mais que o dióxido de carbono para o efeito estufa. Todos os animais contribuem para isso. Um cupim peida mais que qualquer um de nós. Corajoso é Morcegão. Avisa quando vai soltar um pum, e o cínico ainda ri. Fazemos isso até depois de morto. As vitrines da livraria Virtualbooks.com.br exibem livros de capa dura importados, vermelhos e doirados. Tenho capa, folhas, sem árvore ser, e nem todos são capazes de me compreender. O único lugar em que consigo relaxar. Um dia sem um livro é como um dia sem sol. Os meus estarão entre eles: mar de chumbo, com direito de regresso antes da fuga, abduzida com a permissão de Deus, mas quem vigia os anjos? O criativo R, sim o criativo R - mas, receio que venha ser um pudim de passas - há coisas demais nele. Hoje tem promoção de gibis. A coleção de super-heróis emoldurada em capas multicores. Se eu tivesse alguns trocados de sobra, poderia comprar alguns. Não sei onde descolar. Nem sei quantas vezes roubei na igreja pra comprar revistas de histórias em quadrinhos. Nem sei. Não vigiavam o dinheiro espalhado nos pés de Cristo. A fraca luz matinal nas silhuetas das notas. Convidativas. Cristo concordava com a cabeça, complacente. Ah, ia ser fácil. Toda vez foi fácil. Imagem não precisa de dinheiro. Não come, nem bebe. Ir direto ao ponto sem fazer rodeios, tenho mais necessidade que elas. Enquanto Vózilda cuidava da limpeza da imagem, eu ajuntava alguns trocados em rápidos apegos. Sem estremecer, sem ficar alarmado. Eis aqui um homem. Podia fazer às escondidas coisas que nunca iriam descobrir. Fiz inúmeras coleções, repletas de vivências. Algumas ficaram inacabadas. O Homem-Aranha sempre foi o preferido, suas tristezas e alegrias ficavam impregnadas nas páginas. Órfão desde pequeno. Pensava várias vezes em deixar de seguir o seu destino, mas o sentido de responsabilidade acabava por trazê-lo de volta à ativa. A culpa, o sentimento mais sombrio e humano. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades. Sabia ganhar dinheiro com o uso de seus poderes: vendia fotos do Homem-Aranha para o Clarim. Se mãe não tivesse dado pela coisa, eu teria uma gibiteca no quarto. Nunca revelei a origem do dinheiro, mas tive de encerrar as operações. Colocaram um cofre de madeira com cadeado e corrente para reter as esmolas dos fiéis. Quando consegui duas suspensões consecutivas em um único mês na escola, as revistas foram empilhadas no interior do latão e queimadas por mãe: A partir de hoje, todo gibi que aparecer, será queimado! Protestei, mas de nada adiantou. Preferi não morrer no incêndio junto com meus gibis. Arderam em esguias chamas, calcinadas no grau fahrenheit 451, a ideal temperatura em que o papel arde e se consome. Transfigurada, a malfadada Torre de Babel guinchou num suplício efêmero, mas não me fez abdicar dos gibis. Queimar era um prazer para mãe, ler continuava sendo um gozo para mim. Passei a estudar com gibis emprestados, entre os livros e cadernos. Poucos os que querem ser rebeldes. Ela acha que eu não tenho futuro. Nas horas de folga, é melhor cortar a grama. Em mim, todos os sonhos do mundo. Não encontrei alguém à altura.

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Continuo odiando as escolas. O primeiro dia na escola foi um desastre. Pedi pra ir ao banheiro, a Professora não deixou. Tinha bebido tanta água durante o recreio que não podia me agüentar, então, fiz xixi no chão da sala. Um menino me dedurou. Em segundos, a sala, lotada e barulhenta de alunos, ficou em silêncio. Alguns tapavam as bocas para conter o riso. Eu não queria que a coisa se espalhasse daquele jeito. O dedo-duro merecia uns sopapos. Alguma coisa ia acontecer comigo. A Professora veio furiosa sobre mim: Animalzinho! Vem já pro gabinete! O mijão foi arrastado pelo corredor debaixo de risadas e salva de palmas. Não deu outra. A Diretora me colocou de pé, junto à parede do fundo do gabinete, com as mãos nas costas, enquanto, largando o corpo seco sobre a cadeira de couro sintético, cujo estofamento escapava do tecido rasgado, ia me avisando: Vai ficar aí até sua mãe chegar. Castigos são necessários para corrigir maus hábitos. Durante uma punição deve-se exercitar a paciência, mas não foi o meu caso. Era indiferente ao castigo. Apenas havia me aliviado, nada mais. Achava injusto, tanto barulho por nada. Não tenho idéia de quanto tempo fiquei com ela no gabinete, mas foi uma eternidade. Minhas pernas latejavam e as mãos, um formigamento só. Logo escureceu e a luz do teto teve que ser acesa. Era uma luz às portas da morte. Ora piscava, ora ia perdendo o brilho, amarelando-se, quase extinguindo, de repente, voltava à vida. É verdade que me divertiu. Mãe chegou tensa e raivosa quando não havia mais interesse pela moribunda lâmpada e a vontade de urinar estava tão latente que a cena da sala ia se repetir no chão do gabinete. Graças a Deus, enfim ela veio. Quando dei um passo à frente, a Diretora cuidou de me entregar direitinho. Só não fui comparado aos arcanjos. Então, senti os dedos maternos, duros e quentes em volta do meu braço. Diante da expressão sem culpa no meu rosto, mãe se pôs a me xingar. Críticas duras, um tanto iradas, foram quase insuportáveis, e se arrastaram por todo o corredor: Como o seu pai, você me mata de vergonha! Arquejava como se engolisse pelos pulmões o vexame e o ódio contidos no mundo. Decidi não ir mais à escola. Não queria ser motivo de chacota: O menino-mijão. Mas meus motivos não atingiram o seu coração impassível: Pode se borrar todo, mas vai continuar indo às aulas. Vózilda pôs a mão sobre minha cabeça como quem cura doença com a fé em Deus: Pode ir sossegado. Deus vai conter o seu xixi. Não houve escapatória, tive que marchar para escola. A partir daí, ganhei o apelido de Mijão e, não deu outra, passei a odiar a escola com toda força do meu coração. A indócil sineta torna a soar, vamos parar. A porta sendo aberta debaixo de chiados hidráulicos. Nem bem arrancamos e já estamos parando. Não há um ponto em que este desgraçado ônibus não pare. Uns sobem, outros descem, obedecem às regras, mas não se chega a lugar nenhum. No calçadão, as mesas de madeira do restaurante forradas por curtos e triangulares forros verdes. Representam esperança e abundância. Esperança pra quem? Não para os fregueses, apenas para o proprietário. O sujeito equilibra o copo e a garrafa, prestes a sentar numa delas. Terno impecável à James Bond. Cabelo brilhantinado. Vem com um cigarro descaído nos lábios, não é o septuagésimo cigarro do dia. Na vadiação. 007 às avessas. Se o James Bond tem permissão para matar, tem permissão pa-

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ra se embebedar. Livre e errante. Enfim, sentado, pode largar a alma na mesa. Cerveja para o copo, em meio a um solzinho pra esquentar e uma lourinha pra refrescar. É verdade que estamos sob brasas. Escorre uma migalha espumante no tampo da mesa, sempre a primeira gota é dedicada aos deuses. A boca de um homem contente está repleta de cerveja. Afoga-se mais num copo que no mar. Ainda bem que há cerveja. Se dependêssemos dos portugueses, estaríamos condenados a beber sangria pelo resto da vida. Dedos aurimanchados de nicotina. Obcecado pelo cobre. Goldfinger. Logo um paciente anestesiado sobre a mesa. Pensamentos misturados, nunca agitados, adicione o que for dito a seguir ao que foi dito antes. Vésper. Cura ressaca ou bebe a quota diária? Apenas em missão quotidiana. Repara a calçada, ouvir tanto quanto ver. O automóvel apressado. Alguma coisa pra esquentar. A martini. Shaken, not stirred. Gasta 90% do dinheiro com bebida, os outros 10% são do garçom. Que a ressaca lhe seja leve! Em cada dois bêbados um é por não ter mulher, e o outro por ter. Companheiro. A mulher faz ou desfaz a casa. Vaca! Correndo atrás dela, disposto a tudo. Ela decidida e sem destino. Vaca! Mas desejava aquele corpo frio e arrogante. O amor é mais aniquilador que a morte. O amor é primo da morte. Um demorado adeus. Croce e delizia al cor. Sentimento que todos adoram e que só me deu azar na vida. O malvado vive do jogo. Le Chiffre. Passageiro, a brasa amanhece cinza. Eles não têm por que darem-se bem juntos. Mas há mais que isto. Se pai não tivesse pisado na bola, o irmão, não teria tomado o açougue dele. Teria uma rede de açougues. Quem sabe um frigorífico. Com bastante dinheiro poderia fazer qualquer coisa. O meio através do qual se avalia o sucesso terreno. Jamais ousariam botar cara com a sua mulher. O dinheiro taparia as brigas entre eles. Anúncio amarrotado. Vamos ver o que vende. Agachei, levantei e não senti tontura. A caminho de uma melhora. Leiamos o embuste: Atenção: Você está com algum destes problemas: Amor mal correspondido, casamento em crise, nervosismo, insônia, filhos problemáticos, doenças sem explicações, queda de lucros nos negócios, impotência sexual, em busca de um bom emprego, problemas com sócios, facilitar compras e vendas, se dar bem na vida - procure hoje mesmo a orientadora espiritual Irmã Eçá: uma das maiores orientadoras do país com conhecimento internacional. Apenas com uma consulta, pode mudar o rumo de sua vida. Pare de sofrer! Trabalhos, simpatias, benzimentos, garrafadas e perfumes para todos os fins. Consulta-se mapa astral, tarô, cartas e búzios. Atende-se diariamente das 8hs às 20hs. Rua da Providência, 666 – Bairro Oirandé. O amanhã trará a providência no número da Besta. O presente que se ignora vale o futuro. Uma fé nova e vivaz. Pergunte ao coração. Inventiva sibila. Talvez seja o amor o bem mais procurado. O que dá mais lucro. Amor como magia, a gente sente e não enxerga. A magia do mundo invisível atuando sobre o mundo visível. A simpatia preferida da Inês é escrever na sola do pé esquerdo o nome do alvo de sua simpatia. Pisar com força no chão com esse pé, dizendo três vezes: Debaixo do meu pé eu te prendo, eu te amarro, eu te mantenho, pelo poder das 13 Almas Benditas. A impotência sexual deve atrair muito otário apesar de a medicina dizer que a prótese penia-

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na - maleável, ou semi-rígida -, é uma boa solução para a impotência. Deixar a Irmã Eçá ler a minha falta de sorte. A linha da vida, linha da cabeça, linha do coração, linha de Saturno. Viva então o dia da maneira que mais tenha a ver com sua personalidade e não desperdice energia em sonhos sem fundamento. Necessitamos de muita fé para acreditar que dará resultado positivo a simpatia escolhida. Os sonhos e os oráculos são aceitos apenas no dia em que se realizam. Para quem sabe esperar, tudo vem a tempo. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso. Tantas tolices. As simpatias são formadas da mesma substância da superstição. Algumas garotas são bem espertas, nem esperam pela ajuda dos céus. A vadia da Rosemary vai casar no próximo domingo. Entrou pra igreja evangélica só pra descolar um marido. Arrumou um tapa-buraco. Sendo evangélico, pretende casar virgem. É lógico que todo mundo já comeu a Rosemary, e é lógico, todo mundo, menos eu. Deu pro amigo do amigo do amigo do amigo do noivo. Quem diria! - até o Cabeção. Não saiu muito bem. Nem foi do seu agrado: Ela não é grande coisa, pelada parece uma vareta. O babaquara do noivo vai golpear sopa. Alertaram o imbecil, mas ele só tem ouvidos e olhos para ela. Não escuta um palmo diante dos ouvidos. Nasce um otário a cada minuto. Casem-se, pode dar certo. Guiaste minha alma a ti. Quando fracassam, vivem num inferno em domicílio. O casamento e mortalha no céu se talham. Faço questão de ir ao casamento, vou contribuir com a boca. Casa a garota-que-sabe-mentirbem. Quem mente mais mente melhor. Envelheça ao meu lado! Gostaria de ter trepado com ela. Tornar o seu aluno mais assíduo. Todos, menos eu. Ouvir seus gemidos carregados de erres. Já passou da hora de eu substituir as punhetas por transas. Tenho de parar de relar em Amanda. Das coisas às escondidas, às claras. Mudar hábitos pra melhorar de vida. Ou muda de atitude ou de nome. A bundudinha se apressa para deixar a lata-de-sardinha. Pés deslizantes, pressa de ir embora. Traseiros e peitos abrem alas, eu quero passar. Indo com afobação, diria. Logo, estará agarrada ao pescoço de alguém. E eu? Pertinho de mim. Passou, coisinha móvel por natureza. Que aroma bom! Parece conter algo mais. Uma entre tantas outras. Não pode ser! Mel! Aí fodeu! Não acredito que ela vai subir neste ônibus! Tá de gozação comigo, né?! Desgraça! Tanto ônibus por aí e escolheu logo este. Vindo! Fora de rota. Nunca pegou o ônibus nesta altura. Como se explica? Que azarão! Não quero ser encontrado. Começo a acreditar em urucubaca. Sabe aqueles dias em que nada parece dar certo e que você pensa que nada mais pode dar errado, mas dá? Se Deus está comigo, quem está contra mim? Me viu? Não. O coração martela nos ouvidos e o sangue pulsa na ponta dos dedos, o corpo em rigidez. Sossega! Uma malha de aço em volta dele. Disparando por ela. Sem pânico. Um erro deixar que seus olhos me vejam amarrotado. Acompanhada de Serena e Imaculada. Com apoio para avaliar o estrago. Raramente vêm de ônibus. Muita coincidência. Deus está nas coincidências - ou é o Diabo? Ironia - é a palavra! Devo clamar pelo Inferno? Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos. Tentarei sair por cima. Nada é impossível para quem persiste. Um lance que aprenderei.

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Desço? Pega mal. Vai dizer que fugi. Fique e ignore a presença dela. Simular - deste modo que se fala. Não vai ser fácil. Mas o que é fácil na vida? Se a carne sólida pudesse se diluir. Transformar-se em água e escorrer pelo ralo. Quede o ralo? Alguém tem aí uma capa pra me emprestar que me faça ficar invisível? Não sei explorar as aparências, nada transcende ao jogo carnal. Estava longe dos meus olhos, por que voltou? Azarento. Completa impotência diante da estrela que me cabe. Um urubu pousou na minha sorte. Não, minha sorte está enganada. Sem esconderijo, sem capa. Batmacumba. Ótimo dia para ser pessimista, nada vai dar certo. Nem ligando pra presença delas. Arrebentado e furioso. Nascendo em meio às cinzas. Nada se constrói a partir de um monte de cinzas. Saber levar as coisas numa boa. Mas a angústia não passa. Havia dito para ela que quando um sujeito está a fim de uma garota, ele negocia com o mundo para ficar com ela. Não teria permitido nem que o vento tocasse com violência o seu rosto. Certa vez - e que linda vez que isso foi! Que Bobice! A gente diz muita asneira quando está amando. Ferido, mas prestes a sarar. Então, há um cara apenas baleado, porque ele está só ferido, não está morto, pode ter certeza. Não caio mais. Lembrar, avaliar e não esquecer. Quando foi que eu disse? Ah, me lembro, estávamos deitados na grama do pequeno jardim, ao lado da pista de atletismo do colégio. Com a cabeça nas coxas dela, envolvidos pela leve fragrância dos amores-perfeitos. A cabeça inclinada sobre a minha para que eu pudesse ver todo o seu semblante, olhos bem acendidos, gulosos. Meu olhar na menina dos olhos dela. As mãos úmidas de suor, de contentamento e nervosismo. Fechava os olhos, mas não podia mantê-los fechados por muito tempo. Seus olhos não podiam ausentar dos meus. Nada vale mais que uma deitada entre as coxas de uma garota. Refletia então sobre as safadezas que não cometera com ela e que gostaria de cometer. Ou, ser mais drástico: poderia morrer naquele instante. Morte, morte de amor, melhor que a vida. Ouvia as batidas do seu coração: túm-túm-túm-túm era só o que escutava. Tão perto que podia sentir sua respiração curtinha e o chiado de seus pulmões. Encontrar sua orelha esquerda, no meio dos cabelos dourados, era delicioso. Ria forte, não sei do quê. Boca enorme, duas pétalas vermelhas, rindo - talvez de mim -, não via a nódoa de crueldade no riso. Pensei que o coração dela batesse por mim. Nunca pergunte por quem o coração de tua amada bate, cretino, a resposta será: por-outro, por-outro, por-outro... Que engano! Pensei ser o primeiro e o único dela. Era um apaixonado sonhando à boca da noite, sob um céu escuro, um mar sem ondas amarrotadas e sem espuma, onde nadavam estrelas de todas as espécies. O coração dá vida ao que ama. Cada qual acredita no que quer. O amor sentido, subterrâneo, não passa de um excesso de lembranças amargas. Não sobrara nada de bom pra recordar. Pelo espelho retrovisor, subindo. As três inseparáveis. A mochila dela verde-rosa por último. O desembaraço consiste em saber até onde posso ir. Aqui dentro. Tão próxima e tão longe de mim. No reverso do espelho, estamos nós. Só alguns segundos para localizar o trio. Sem chances de me verem, por enquanto. Eu as vejo e elas não me vêem. Por enquanto, por cima.

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Os cabelos estão mais anelados, mais loiros por causa da luz solar. O fascínio faz parte da pretensão. Está com o par de passadores em forma de borboleta que dei pra ela no aniversário. Obsessão peculiar por borboletas. Seus beijos são leves como as asas de borboletas. O único inseto que gosta. Ela mesma uma espécie noturna, pousada no outro. Algumas vivem menos de 48 horas e procuram fazer amor o mais depressa possível. Um casulo na casca de uma árvore, o desenrolar das asas ao sol. Corre riscos. Escolha uma vida breve, com feitos, em invés de uma vida longa e obscura. O espírito de um ser se constrói a partir de suas escolhas. Escolho, logo existo. Há motivo de sobra para não usar estes passadores. Quer me insultar. Quem sabe voltar às boas? Sem chances. Como sou besta! Não há esperança. Fechava os olhos pra sentir meus lábios nervosos em suas pálpebras. Dava pequenos beijos em suas orelhas, faces, nariz e queixo. Não sucumbia à tentação e encerrava com um duradouro e baboso beijo de língua. Não mais. Esquecer. Quem bem amou não esquece nunca. Esquecerei. Tenho de esquecer. Poder andar de cabeça erguida. Não é mais que uma lembrança. Tou em outra. Pensar em algo. Agora a banda Calliphora sai da garagem. Talvez até faça uma canção sobre estes lances todos: a traição, a falta de amor, a ressaca, os presentes inúteis, a banda e sei lá mais o quê. Bateria veloz, pesada e rasteira, como o pulsar do coração. A união de guitarra e violões fará o resto. Aqui, o humilhado, se vinga com sons. Mas perderei ainda que vença. Meio alucinado quando o vento sopra. Tenho de aproveitar esses dias que a coisa está quente no sangue e mandar brasa. Fazer uma música ducaralho. Só os imbecis têm medo do ridículo. Nada pode superar duas guitarras, um baixo e uma bateria. A harmonia entre barulho e sutileza. Com raiva, faço boas canções, pelo menos, a turma tem curtido. A literatura terá de aguardar. Vôo muito longo. Percebeu meus olhos? Acho que não. Daqui dá pra me ver. Uma flor seca e desbotada. Não gosto mais de você. Saboreei o seu perfume como se fosse eterno. O que antes era precioso significou pouco. Não há gosto sem desgosto. Que saco! E este ônibus que não deslancha. Queria que fosse mais rápido. Por que sinto uma súbita vontade de mandar todo mundo à putaquepariu? Vai passar. Às vezes, sou um gentleman. Sempre permito que elas passem à frente, assim aprecio suas bundas. Mas hoje, levantei com uma vontade louca de abrir um buraco na cabeça de alguém. Ah, se pudesse! Gostaria de rachar a cabeça de muita gente. Que alívio me daria certas coisas! Se fosse outra pessoa, vendo o que vi, poderia até dizer que não viu nada que vi? Foi delírio? Não tive saco para ouvir suas explicações fajutas. Pegue suas desculpas e as enfie no lugar do seu corpo em que o sol jamais bata. Não houve traição a não ser em minha mente? O coração diz sim, a alma diz não. O ciúme exagerado induz o parceiro a ser infiel. Casmurrice. Algo como a traição de Capitu no romance Dom Casmurro. Só temos uma versão da história. Somente um testemunho não serve. Todas as testemunhas da relação entre Bentinho e Capitu foram mortas pelo Bruxo. Os olhos vêem o que a mente quer. Mas o par de chifres rondava a testa do Bruxo do Cosme Velho. A coincidência dos nomes: Carolina, Capitolina. A infiel estava no cerne da menina. Uma no cerne da outra, como o fruto dentro da casca. Ela do mesmo naipe, mau-caráter desde sempre. Um livro lido pela metade.

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Queria que eu deixasse as coisas correrem. Cheio de cicatrizes e sangrando. Não importa quem feriu quem primeiro. Toda puta é vocacional. Não se foge ao destino. Sussurram, insistem, escarnecem, atormentam, tentam conquistar. Cada célula a chama para isso. Algumas por prazer, outras por poder. Não se preocupe ninguém vai saber. Ajeita os passadores: me provoca? Fique firme. Muita grana jogada fora por ela. Surrupiei o dinheiro no caixa da Floricultura Bellis. Ainda por cima, agüentei a bronca de mãe: Nunca mais toque no caixa da loja. Quando quiser algum dinheiro, me peça. Não me roube. Não roubei! Peguei emprestado. Pois bem: eu não empresto dinheiro pra quem não tem como me pagar. Poderia ter gasto menos e aproveitado mais. Não mais que um saco de pipoca. Não valia mais que isso. Paguei muito bem pelo mau comportamento dela. O jeito de jogar a cabeça para trás e encher o ambiente de riso. Não faça isso. Sinto seus declives e suas curvilíneas formas. Ondula, agita, cicia, espalhando seus raios verdes. Camufla a voluptuosidade em inocência. Suficiente para fazer com que você se prostre. A inocência é impudica. Bem tigresa, não resta dúvida. Encantadora apesar dos defeitos. Resseca a língua da gente, até que acaba com o fôlego. Dedicar de corpo inteiro e perder a alma. Parece que a boca está cheia de cinabre. Sua imagem ácida faz buracos na alma. Não, restolho do coquetel do Morcegão. Preciso mudar a direção dos pensamentos. Afinal, não faço mais nada senão pensar nela. Mas ela está ali. Indigesto objeto da paixão. Não posso deixar de olhar. Nem de pensar! E de tal modo que pensar é ser. Teme-se que seja a última vez. Como todo artista, sou redundante e repetitivo. Papagaio: corrupacopapaco. Círculo vicioso não desprezível. A banda Calliphora. Em que pensar. Greg está com idéia fixa na soul music. Não curto muito. Mas ele é o chefe, vá lá! Não podemos contar mais com a voz angelical de Adonai. Voz ora doce, ora áspera, bem servia aos meus versos românticos. O gay pirou e pulou fora - se droga o tempo todo. Roupas esquisitíssimas. Como Kurt Cobain, cismou que tem genes de suicida. Acaba de conhecer a pior inimiga: o crack. Então, temos de contar com a voz metálica do Strawberry ferindo os ouvidos da platéia. Bem provável que logo a galera fique enjoada dele. Deixar o Vox ser o vocalista da banda era o fim da picada. Um estripador de microfone, cópia piorada da dança de serpente de Axl Rose. Com a voz estridente, ora de taquara-rachada, ora de quem inalou gás hélio até congelar as cordas vocais, não há quem agüente! Bem lindona, não dá pra não olhar. Como é possível te olhar, lembrar de tua traição e continuar a te desejar? Ao pôr os olhos nela, todos meus problemas aumentaram. Uma visão bastante borrada. Como podes estar tão vestida e ao mesmo tempo nua? Ah, não posso eu saber se amo ou se odeio - mel na alma e bílis no coração. Que loucura, amar deste jeito uma garota que nunca me amou! Isso é culpa das minhas leituras, levo a sério as invenções dos poetas. Não me sai do pensamento, floresta profícua. Meu amor comigo. Será duro te ver e não te querer. Um prazer de penetração ocular, mais um contemplador que um amante. Vai doer, mas não tem jeito. O insensato é querer tirar da cabeça quem a gente traz no coração. Dizem que a recaída é sempre pior.

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Este amor amaldiçoado. Do coração, derivam os maus pensamentos? Não se pode parar de pensar. O belo não é senão o início do terrível. Pra não te ver, fecho os olhos. Não sai de mim, sempre no espírito, rindo de mim, me traindo, mas nunca me virando as costas. Os pensamentos não nos pertencem. Que droga, quando é que você vai crescer? Terei umas quedas de tempo em tempo. Mas dá para ir levando. Tô me cuidando. Todos os tempos são um só. Nunca é fácil deixar de amar - outra bobice que se vive dizendo. Tentei reagir e vim por aqui. As recordações espinhando, sempre elas. Viro e deixo que ela me veja? Não, jamais darei tal gostinho. É evidente que já me viu. Não a procurei, ela é que me achou. Somos os escolhidos. Será a desforra. Alma impura, fique na expectativa. Agonia-se enquanto tiro um sarro com a sua cara. Estamos indo rápido. Temos velocidade e pressa. Um ponto de partida e um ponto de chegada. Olhemos o chaveiro de pé-de-coelho pendente no bolso manchado do mecânico. Desde quando um pé de um animal traz sorte? Bom, pro coelhinho não trouxe. Mudou a vida do bichinho pra pior. Um passo para trás e a vejo por inteiro. Exposta com todas as máscaras - a distingo bem. Se oculta para ser revelada. O que nos põe tresloucado é dar o primeiro passo, o que vai adiante. Saia azul-marinho bem mais curta que o permitido pela direção do colégio. Maldito colégio católico que implica com as roupas das meninas. O colégio é um embuste e os alunos e professores são uns alienados. Análogo ao mar: as professoras nadam, os alunos bóiam e as notas afundam. A escola que odeio. Um colégio horrível sob todos os pontos-de-vista. Olha só que par de coxas! Mesmo que não tenha tocado pra valer, deixará saudades. Sem controle. Deveria ser apenas o que pareço. Sou capaz de apostar que as meias estão sendo engolidas pelos tênis. A marca registrada dela. Nunca ajeita as meias, gosta de exibir os tornozelos. O que necessito é de uma platéia. Sou uma exibicionista. Expõe detalhes do corpo e esconde as falhas da alma. Em destaque, a pequena borboleta tatuada no tornozelo. Tive ciúme do tatuador. O essencial que eu fosse o primeiro e o exclusivo a tocá-la. Quero que todos os tatuadores morram! Qualé! Nem olhei pras fuças do cara. Além do mais, a gente nem se conhecia. Droga. Saiu do meu campo de visão. Onde foi? Se o espelho retrovisor fosse mais largo. Epa! Deu com os meus olhos sobre os seus. Tarde demais para consertar a falha. Não posso desviar depressa. Agir normal como se não tivesse vendo nada de extraordinário. Tenho de me comportar como se você nem existisse, garota. Retroceder com calma, além dos vidros. Um jardim com metade da grama cortada. Uma piscina inflável de lona azulada desenhada com borboletas amarelas, no extremo oposto do quintal. Passou. Tranqüilizar o espírito, maneira de curar o corpo. A matéria frágil com que nós somos feitos e desfeitos. As duas harpias ao lado dela a espera de minha carcaça. Nem ligo. Assim que se faz, o desprezo total. Grila qualquer uma. Equivale a dizer: você não está aqui e, se está, não ligo à mínima. Uma entre outras. Não é fácil camuflar os sentimentos, que não são tão puros. Basta um sopro para que a fo-

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gueira arda outra vez. Medo do que vai nascer e apoderar-se de mim. Deve perceber algo no meu olhar. Jamais tive domínio dos meus gestos e sentimentos diante dela. Este é o ridículo que todo cara apaixonado tem de passar. Sabe das minhas fraquezas. Todo relacionamento tende a complicar. Sabe muito de mim. Abri como uma mala velha. Os passos que tive de dar para chegar até ela. Quando as cortinas caírem, esteja no palco. Acompanhar o trio. Ouvidos e olhos apurados. Não devo perder o trio de vista. Ela se mexe demais e isso me perturba. Tremor nas pernas, dor no estômago e um punhal nos rins: ressaca - não por causa da presença dela. A quem eu quero enganar? Uma vez mais não será como antes. Que saco! Eu não sou de ferro! Segue com atenção meus movimentos? Face a face com a deslealdade. Detesto pessoas falsas. De fazer pedra chorar. Talvez porque menstrua mais de uma vez por mês. Não sei onde coloco as mãos. Olhos pregados em meus ombros curvos? Minhas asas amarrotadas. Sei de minhas feições mais mongólicas que indígenas. Na frente do meu espelho interior, derreado, desiludido. O império interior em decadência e por aí vai. Faz parte do meu show. Uma lástima. Nada de novo, parece mais ou menos normal. Aos olhos dos outros, nossos defeitos se agravam. Você rói as unhas - ela me disse, sem mais nem menos. Seus olhos me alcançaram antes que eu tivesse enfiado as mãos nos bolsos. Reagi: Só faço quando estou muito nervoso. Não devia fazer isso. Seus dedos vão ficar horríveis! O carrasco áspero, angustiante, entrou no cérebro deste condenado. É trabalho acabado. Nunca me deu a oportunidade de respirar. Dar meia-volta e descer no próximo ponto. Não, prosseguir. Aprumado. Veja o meu melhor contorno. Mais suportável, espiado por trás. Par de olhos na nuca. Há pouco aliviei as tripas, mas não o coração, crepita com uma dor insuportável. Saltou uns sujeitos pra cair sobre mim. Vampírica, de olhos claros, disfarçada de anjo azul. A paixão extinguirá sem pressa. As paixões ruins são tão essenciais à vida quanto às boas. Por que não transei com você sob a escada do teatro do colégio? A noite prometia. Esquematizei e, na hora agá, vacilei. Os bicos dos seios pressionando a blusa e as faces coradas, revelando a crescente excitação. Minha cobiça descontrolada, estufada nas calças. Delícia aos olhos, à alma. Sentou no meu colo. Sempre gostou de um colo - só o imbecil aqui não percebia. Cheio de dedos. Feito um bobo, lutando contra o desejo, um inferno de contínua excitação. Sem coragem de ir em frente. Meu amor além da carne. Nem tive coragem de apalpar pra valer seus seios. Receio de tocar a carne sagrada. O amor era tanto que fracassava a pretensão diante da carne. Amei só com os olhos. Realizado apenas nos beijos. Sozinho no quarto, no lusco-fusco, com os bagos dolentes, eu tive de me aliviar pra não morrer de excitação. A imaginação funciona ao ritmo da mão. Essa esquisitice que se dá comigo. Um imbecil! O Todopoderoso tinha de me proibir de amar deste modo. Se a paixão durasse por mais tempo, o organismo entraria em colapso. Só de pensar em minha lerdeza, tenho vontade de me estapear.

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E se ela vier puxar conversa? Sem chances. Não tão enfraquecido para ceder às alucinações da probabilidade. Orgulhosa demais para tanto. Nariz enfiado no umbigo. Se vier, fico na minha. Diante dela, renascem todos os meus desesperos, maiores que as esperanças. Na frouxidão dos desejos. Os brotos que despontam das cinzas. Necessito de um grito de liberdade. Vou curtir com a cara dela, isso sim. E se pedir para gente levar um papo sério? Fora de cogitação. Nenhuma chance de levar um papo legal com ela. Posso é dar um golpe certeiro: Só saio com você se for pra transar. Deixei de levar a pior. Abra as pernas que entrarei. Vingarei. Necessito de sangue em vez de lágrimas. Preciso ser cruel para ser bom. O último a rir serei eu! Coisa adiada não está acabada. Não irei embora até que seja feito. Que foi isto? Buzinada estridente, cantada de pneus. Se segura, pra não cair, cão! Uns contra os outros. Freou de repente, sem aviso. Motorista roda-dura! Que é que aconteceu? Todos correndo pras janelas. Que bicho está pegando? É só isso que eu quero saber. - Atropelaram um cara. - Venha rápido ver isso aqui! - Tem um cara estendido no asfalto. Vejamos. Um gari. Um braço mole a sair da manga do uniforme cáqui tentando conter as dores. Então é isso: um atropelamento. Nada mais absurdo que morrer num acidente de trânsito. Desastre com data marcada. Não dá para sacar o que ocorreu. O carrinho de lixo esparramou o conteúdo no canteiro central. Tanto trabalho por nada. Fará outra vez, isto é, se não esticar as canelas. Alguém fará. Parece que foi o caminhão de abacaxis que atropelou o infeliz. O motorista bem afobado. Nem desligou o motor. Cabelos de bronze armados como um tosco capacete, a camiseta encardida mal escondendo a barrigona. Indeciso, de um lado para o outro, avaliando o estrago que fez. Ferrado, xará. Que deu na cabeça do gari? Acordou com instinto kamikaze. Pode ser que não viu que o sinal havia mudado. No lugar errado, na hora errada. Corria para rematar o serviço até a hora do almoço ou andava no mundo da lua. Os curiosos se aglomeram em volta, como as moscas no matadouro. A desgraça sempre como ímã aos olhos. A vassoura de piaçaba imóvel, atravessada no caminho. Talvez a única companheira, até então, inseparáveis. Mesmo sob todas as misérias do mundo, se apega à vida. Varreu até o presente momento o resto dos outros. Mas o trabalho sórdido alguém tem que fazer. Diz que o trabalho torna o homem bom e honesto. Duvido. Não neste país. Muito dinheiro torna qualquer homem bom e honesto. Um motoboy apressado fecha pela direita, efetuando acrobacias pra não aumentar o número de atropelados. Sem tempo pra fitar o fuxico. O bagulho tem que ser entregue na hora exata. O trânsito nos engole. Mais louco, gerenciado pelo coisa-ruim. No uniforme cáqui, uma mancha bem em cima da barriga oca. Nem havia reparado. Com certeza, não tomou café. As tripas mais vazias que nunca. O sofrimento como purificação. Nem dá pra saber se desmaiou ou esticou as canelas de vez. Gente demais se acotovelando pra ver. Não podem fazer nada por ele? Não espera que faça, o sofrimento do outro é do outro. A vida e a morte em torno de nós - uma porta entreaberta ao longe -, e a gente nem ligando. Pensa-

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mos nessas coisas quando botamos os olhos em cima. E o socorro não chega! Nem se apressam em levar o infeliz para um pronto-socorro. Pode ir para o céu sonhado. Pra o céu eu vou, nem que seja a porrete! Morre, porque chegaram a sua hora e a sua vez. Fecha os olhos, adormeça e nada mais existe. Amanhã a lua me procurará na terra em vão. É como dormir sem sonhar. Só que dormir termina ao amanhecer e a morte é pra sempre. Digamos que é apenas o fechar de um livro. Dizem que a vida salta veloz aos olhos no instante da morte. As duas coisas ao mesmo tempo: vida e morte. Os mortos vêm nos buscar. Cochichos. Serve para aliviar a passagem. Aí, a oportunidade de sentir o amor divino que move o sol e as outras estrelas. Deve ser um transtorno, barra pesadíssima. Você ali, esticando as canelas, e uns sujeitos mortos à volta: Vamos embora, chegou sua hora. Nem todos os amigos e parentes vieram aliviar a passagem. Donde están los otros? Ué, eu não era tão querido como pensava. Sobreviverá apenas no coração dos mais próximos. Uma notícia boa para meu tio Davi seria a morte do irmão. Urias morreu! No princípio era o medo e o medo se fez crença. Olhar além do visível. Morrer é não mais poder morrer. Ou poder voltar e consertar os erros cometidos em outra vida. Reencarnar. Pagar pelo que não se lembra. As irmãs Fox se desmentiram. A comunicação com espíritos era invenção, mas ninguém ligou. A dança das cadeiras continuou. Não consola, mas explica os infortúnios da vida. Predomina mais na América Latina. Um povo carente é mais fácil de acreditar em dogmas. Deve-se crer sem um pio e pronto. Temos de amar os vivos e não os mortos. Ela de olho na cena, com o rosto vil e esfomeado de bisbilhotice. Vamos supor que ela vire pra cá, meus olhos cinzentos nos dela e os dela nos meus. Outra vez. Estamos aqui. Desviarei, nada vejo de interessante. Afastar-se com um safanão. Quem é o sujeito metido no look de marombeiro puxando papo com ela? Tem cara azeda. Lembra a má índole do meu tio, uma marmota ambulante. Que camiseta preta mais horrível. Usa calças jeans apertadas pra desenhar o bumbum seco. A tatoo tribal no braço mal feito. Um alienado consumista. E ela dá trela pro abestalhado. Não perde tempo mesmo, um larga, outro pega. O sujeito não pára de buzinar no ouvido dela. Resumindo: uma verdadeira mala sem alça. Insuportável. Fique quieto e ninguém vai pensar que você é um grande idiota, mas se abrir à boca, não deixará dúvidas. Imaculada e Serena dando o maior apoio. Não é o espinheiro que se inclina para as madressilvas, mas as madressilvas que enlaçam o espinheiro. Simples alcoviteiras. Toda la unanimidad es tonta. Serena será riscada da minha lista. Um caso perdido. Pelo jeito que conversam, não sei não! Íntimos demais. Um belo par de chifres na testa de Iago. É como consórcio, quando você menos espera é contemplado. Que se mordam como cães. É formidável ver os inimigos se foderem. Mas Iago não é namorado dela. Passou a ser ontem. Não quero a metade de nada. Fará com ele o que fez comigo. O apelido dele, a partir deste instante, será alce. Que Deus tenha pena de meus inimigos, porque eu não terei. Sempre haverá imbecis pra cair na dela. Língua-iguana nunca se cansa. Fui um verdadeiro otário, levei muito tempo para sacar qual era a dela. Manja só o jeitão do marombeiro, chegando bem junto. Nuca coberta de sardas. Guincho de

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símio e coaxar de rãs. Tenho de assistir. Além de atores, precisamos ser platéia. Agüenta o bafopodre, querida. Pela manhã, toda boca fede. Sou puro álcool. Pelo jeito que empina os peitos, só curte halteres. Bombadão. Citius, altius, fortius. Musculatura conspícua. Como vive dizendo Adonai: Um sujeito cheio de inúteis bolotas pelo corpo. Deve se entupir de ácido ascórbico, anabolizantes e um punhado de droga pra estufar esses músculos de esterco. Manjo bem esses sujeitos, se amarram num espelho e, quando peidam, suas cabeças murcham de vez. Estou fora, meu chapa! Gosto de mel da abelha jataí e detesto açaí, a fruta que chora. Se o mentecapto aí ganhasse cinco centavos cada vez que olhasse no espelho, estaria milionário. As garotas ficam vidradas nos cretinos. Belo físico. Narcisistas. Afogam-se na própria imagem: eu me amo, eu me amo... Conheço bem a ladainha desses escrotos. Nem os espelhos dão conta de tanto narcisismo. Ajeita a manga da camiseta. Exibe-se, o cretino, logo afogará em água rasa. Doidão pra cavar uma transa. Manjei a dele. Mais inclinado pra ela. Garota em período fértil prefere cheiro de homem forte. E, tchám-tchám-tchám! Saquei. Aí mesmo que você vai se estrepar, jegue. No resto do tempo, ela vai preferir parceiros com quem combina socialmente. Dá a maior corda ao safado. Faz você pensar que está escutando cada palavra que diz. Me irrita a facilidade que ela tem de dar papo pra qualquer um. Presa do primeiro assaltante. Pelo jeito, não é qualquer um. Deve ter grana. Pode ficar fria, Mel, se tiver um espelho por perto, este aí não transa e, se transar, aposto, que não vai ser grande coisa. Ah, outro detalhe: todo halterofilista tem o pênis atrofiado, vai passar falta de aipim, garota. De nada adianta ter barriga tanquinho se a torneira é pequenina, querida. O escroto não pára de tagarelar mesmo. Maxilar longo e ossudo tentando ser engraçado. Gostaria de saber o que conversam. Ela, de costas pra mim, dá trela ao Zé-músculo. Atraente como só ela pode ser. Sabe que estou de olho? Ficar com um estúpido só pra me irritar. Que bobagem! Ouvi essa música antes. Esse flerte é um flerte evitável. Tem coisa que homem não aprende nunca. Atola primeiro para ver a lama. Sim, o marombeiro foi fisgado. O flerte, primo feio da traição. Ela é paratodos, homem de uma nota só. Coitado, talvez um machinho que esteja apenas sendo machinho. Procura mel no traseiro de vespa. Com a busca se depara com a dor. Temos de ir à procura. Não se faz sem sofrer. É raro quem é inocente de seus sofrimentos. Se nunca sofreu não sabe nada. O cretino não sabe se vai rastejar, voar ou nadar por ela. Logo, estará cansada, mas nunca saciada, partirá para o próximo. Dará um pé no traseiro do mané. Sua vontade não extingue, quer sempre mais. Outros sons, outras batidas, outras pulsações. Mel, você é tão previsível! A porta de saída abriu. Muitos passageiros se mandando. Por que não vou embora? Nada a fazer mais por aqui. Não vale a pena ver. Esta droga de ônibus não vai sair tão cedo mesmo. Vou me mandar. Não dá pra ficar aqui, ela vai papear com este otário pelo resto do dia. A sirene da polícia aberta até no talo: abrem alas! Estacionando. Nem dá pra ver o gari. Como o bizarro atrai os olhos. Cadê o motorista? O homenzinho com cara de Dom-Juan abre caminho, quer ser dono do pedaço. A bichona de tênis purpurina, após um olhar ternurento, benzendo-se. Tarde demais? Nunca se sabe. Uma reza ia bem? Rezas e conforto sob o sol amanhecido. Precisa mesmo? Extrema-unção. O Bruxo do Cosme Velho escaramuçou o padre. Voltaire do mesmo modo. Foram se entender pes-

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soalmente com o Criador. Quem sabe cozinhar não aceita qualquer sopa. A conversa fiada dele prossegue. Elas na dele. Uma manhã cercada de pessoas medíocres. Falar muito de si mesmo pode ser um modo de se esconder. Não passamos de nitrogênio falante. Esse tororó todo pode não dar em nada. A gente não diz o que pensa dizer. Quero estar em qualquer lugar, menos aqui. Pode tomar conta dela, ingênuo. É toda sua. Bonzinho só se fode. Ah, Tapadinho era bonzinho demais, sem graça, sem sal, enjoei – aí, traí o otário. As coxas douradas à vista. Vertiginosas e belas. A tornozeleira com a efígie do próprio signo agitando-se. Mais um presente meu. Vendi meu melhor skate pra comprar essa porcaria. Pus nela demasiado de mim mesmo. Ao lado e à margem que sentes por mim. Mil acasos me levavam a ela. O quê eu amava? Um par imperfeito. Abençoada pela genética. De onde tiro tanto anseio? Sei lá. Ainda a temo. Tão linda e tão ordinária. Como sempre, se exibindo. É uma doença mesmo. Isso está no sangue. Vivemos entre elas, ora como deuses, ora como homens. Mas que faço aqui? Se o balde não for chutado vai ficar nisso o resto da vida. Tenho mais coisas importantes para fazer. Não ligo para o que vai rolar entre eles. Vou me mandar mesmo. Claro que não posso deixar por menos. Tenho de fazer algo. Dar um toque nela pra valer. A única saudação. Um toque bem profundo. É hoje: Vaffanculo Day. Faça! Minha dedada. Cinco passos curtos para trás e estou atrás deles. Não disse? E? Faça o que tem de ser feito. - Levanto antes do sol quando vou lá. Tem um nascer de sol bem lindo. Tenho umas fotos aqui no celular. Vejam só! Elas cercando o palerma. Peraí, que papo mais manjado! Muda a mierda e as moscas continuam as mesmas. Oferecida demais. A gratuidade me causa náusea. Eis você de novo aqui perto de mim. Não me vê. Ajoelhada no assento do banco, inclina-se sobre ele, revelando a calcinha branca. Nádegas firmes e aprumadas. Em cada detalhe, eu me perco. Não dá para dominar os sentidos e as aspirações. Apenas para ser amada, nunca violada. Fui um imbecil. Alguns te tocaram, menos eu, a lesma apaixonada. Nem vou dar tempo dela me ver. Vou te tocar assim: - Tchau! - Ai! Filho-da-puta! Agora, me mando. Fui. - O que ele fez? - Ele passou a mão em mim! - Qualé, cara? O imbecil do marombeiro ameaçando me perseguir. Assustadas com o meu atrevimento. Para alguém entediado e acabrunhado como eu, uma encrenca pode manter o interesse pela vida. Pode vir! Isso mesmo, Mel, segura o braço desse aí, sabe que sou capaz de rachar a cabeça dele. Não vai me encarar mesmo, apenas um corpo musculoso, nada mais que isso. Surpreendida! O dedo roçou a cavidade e correu o rego dela. Se pudesse ter enfiado o dedo bem fundo: toma vadia! Não contava com essa. Aprendeu: uma quenga deve ser tocada deste jei-

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to. Vamos, velho, desça rápido! Aqui fora, o sol me recebe com a mais perfeita indiferença. Bem-vindo ao nível seguinte. Nova pose. Leve e seguro passo ao longo do ônibus, sem olhar pras janelas. Devia ter trago os óculos. Lentes escuras, não saberia por onde marcham meus olhos. Deve está me fuzilando com seus desgraçados lindos olhos verdes. Me chamou de fedaputa num gemido prolongado. Escapou antes que percebesse. Olhos inflamados, recheados de lágrimas involuntárias de revolta. A imagem que quero guardar dela. Posso reter pelo tempo que quiser esta imagem. Há sempre mais que o que podemos ver. Mas a imagem não ensina nada. Fui enganado pela aparência. Cheiro os dedos pra ela ver: ó. Cheirar o seu gosto no meu dedo. Purificado? Que nada. As mãos permanecem trêmulas. As coisas pequenas são de grande importância. As palmas suando. O ato me deixou esgotado. Dei a volta por cima. O único gesto que não esperava de mim. Uma dedada bem dada. Os dedos deviam era beliscar. Caso não consiga ser amado, seja infame. Um demônio, se possível. Ferrar todas as vadias. Luciferro. Preferível ser temido que amado. O temor se mantém por um receio de castigo, que não se abandona jamais. A idéia me agrada. Sempre é possível fazer que nos temam. O besta do marombeiro ficou só na ameaça. Pode até dizer que ela o impediu de vir atrás de mim. Se não tivesse um bagaço, teria avançado e afundado as fuças dele, mesmo com ela tentando impedir. Minha bondade talvez não seja mais que o estado de ânimo. Deveria ter dito como a mesma careta de Robert de Niro, em Taxi Driver: You talking to me? Ou, igual a Clint Eastwood, em Sudden Impact: Go ahead, make my day. Os dois filmes a que Pairanço mais gosta de assistir. De três maneiras uma pessoa pode ser conhecida, por meio do corpo, do bolso e da ira. Conheceu minha ira. É impossível fazer isso direito se não está disposto. Manter firme as pernas. Distanciar. Melhoro. As idéias brotam distintas. Lavei a alma. Dormi mal, mas não vou deixar que o dia seja pior. Equilibrado ao longo do meio-fio, atiçado. Mas o dia está enrolado. A vida é um circo. Faço de conta que ando em uma corda bamba. Os reflexos chegando ao lugar. Não estou arrependido. Um espanto mais que humano. Ela merecia muito mais. Daqui alço a alma. Algum sentimento de perda? Quase nada, não se perde o que nunca se teve. Arrisco uma olhadela para trás? Posso estar olhando uma porrada de coisas, menos ela. Nada disso, para diante! Bye, bye, não se esqueça de minha dedada. Uma ambulância estaciona. Enfim, chega o socorro para o gari. Hora tardia? Os espíritos se alojam ao lado? Húmus dos fantasmas. Não viu o sinal fechado. Foi um homem feliz com uma pá cheia de lixo. Nem mais ambições nem desejos. Para os iniciados, ontem pode ser amanhã. Lembra a velha canção dos Beatles que estou decorando: A Day in the Life. Acabou com a vida em um carro. Não percebeu que as luzes tinham mudado. Algumas pessoas se afastam. Mas eu tive que olhar. Ontem fui traído - um eu que não existe mais –, hoje, acordei, pulei da cama e fui à forra. How I Won the War. Trago o odor das suas pregas nas pontas dos dedos. Eu adoraria te deixar ligada. Um lugar em que nunca estive. Nunca virgem, sempre tocada. Quase vacilei. Cheiro outra vez? Não vale a pena. De lá, pode me ver. Seus olhos, dois oceanos não pacíficos. Vago aroma acre-doce. Mensa-

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gens ocultas. Nunca tão doce foi tão acre, não gostei. Fiz cara de nojo. Nada pessoal, óquei, garota?! Eu adoraria ligar você. Certos atos deviam ser gravados e colocados no repeat para serem revividos ao infinito. Ser mesquinho após ter vencido. Toda a vitória é uma grosseria. Isto foi o maior insulto, odor de suas pregas. Talvez ainda sinta o contato de minha mão entre as coxas. Despedida definitiva: Tchau! Adeus. Dei apenas um toque íntimo. Tem motivos de sobra pra me odiar. Serena e Imaculada vão tratar de espalhar a minha dedada. É fácil falar de mim, difícil ser eu. Não cheguei ao limite, apenas começando. Viverei a minha vida e não a vida indicada pelos outros. Deixarei crescer o bigode para parecer mais velho, isto é, quando houver mais bigode. Terei de raspar as fuças todo santo dia. Talvez comece mesmo um poema: Um dia na vida do fodido mais feliz do mundo. Sim, está sendo um dia acima de todos os outros dias. Bem, afinal, aonde vou eu? À merda ao colégio e à prova de matemática! Até parece que matemática é importante. Já que a aula é um dever, vamos dever mais uma aula. Com uma manhã como esta quem pode pensar em escola? Tenho cinco horas livre e não sei como matar o tempo. Oncovô? O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem. O tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto o tempo o tempo tem. Então, tenho tempo para esticar até o Animal Games, mesmo que o papo-ruim do Animal não me deixe navegar. Nunca é tarde para não se fazer nada. Antes só que mal escolarizado. Incrível vocação para a vagabundagem. É isso aí. Sem o peso do ontem. Vazando, ileso. Pois é, o mundo não gira em torno do seu umbigo, garota. Deixo te lembrar que te esqueci. Terei metas a conquistar. Para trás não há nada a não ser um gari atropelado e uma vadia bem tocada. Ergui meu dedo maior na única saudação apropriada: Vai-te foder! Dançou. Acabou. it's over. Kaput. Finis. Acta est fabula. Está Consumado. Nada há para salvar. Ganhemos distância. Para ela só meu dedo em riste. Nunca mais, Mel. Foi como um flashback. Não posso dizer nunca mais, nunca mais é muito breve, chega logo. Regressa-se sempre por alguém. Esquecer para renovar. Sei, aprendi: o amor é com-penetração. Amar sem foder é insuficiente, foder sem amar não é nada. Não se ensina nos livros como fazer isso. Um reboliço de ancas, quem diz outra coisa é besta. Bem que fica é amor de pica - decorar como se fosse uma oração. Acredito na paixão, não no amor. Olha que apetitosa. Não há foto que reproduza este tipo de beleza fresca. Sensualidade animalesca, algo saído de uma selva. Ofende o olhar de qualquer um. A visão em 3D é imbatível. Cara de outono. O outono nos surpreende. Pulsantes seios na alumiada mini-blusa salmão. Ousado decote em V profundo como manda a estação. Fulgurante fenda entre seios bronzeados semi-expostos. Um show de charme. Tentar fixar o momento - ajuda a suportar a existência. Tem

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cara de quem trepa bem. Onde poderei escorar minhas ruínas. Pés bem torneados em metálicas e vistosas sandálias de salto alto. Fico vidrado por qualquer mulher vestida deste modo. Aparição e manifestação deífica de sonho. Maquiagem básica: lápis, blush e rímel. Formosura de égua, paternalmente falando. Em nome-do-pai lá vamos nós, provável traidora e provável traído. Paixões súbitas e arrebatadoras. Enquanto tiver bambu, tem flecha. O coração não aprendeu nada. Quanto mais se vive, mais se retorna. Precipitado, não? Não posso fugir à regra ariana. Ardente num minuto, e, em questão de instantes, pode ficar frio como gelo. O ontem no hoje. Nada de regras para as grandes almas. Quinze anos no máximo. Esguia-enguia. Manguari. Saia justa, na ânsia dos movimentos, adere às esplêndidas e deliciosas coxas. Mais alta que eu uns cinco centímetros. A geração mais nova é cada vez mais alta, dizia Vózilda. Raça de bambu. Frangos de granja. Na cama somos todos da mesma altura. Esquina para reduzir a marcha, antes de perder o fôlego, te pego na curva, querida. Sabe que estou em sua perseguição? Fiel a si própria, a razão de ser. Pé na bola que o gol tá ali. Não consigo tirar os olhos desse bumbum vibrante: nunca-me-abandone, nunca-meabandone. Demais pra mim! O paraíso perdido ao alcance da mão. Minhas genitálias, também, balançantes: querovocê, querovocê. Enviada para a salvação da alma. Cantarei pra ti: mexe e balança, meu amor! Sinal de comichão entre as pernas. Assanha meu lázaro, vem à ressurreição da carne. Em breves segundos, as imagens mais fugazes me dominam. Quase do meu lado. De olho em você, garota. Tem uma coisa que você vai aprender a meu respeito, doçura, não desisto nunca, não importa quantos foras tome. De perfil, o nariz sobressai acima dos lábios curvados. Uma promessa meio oculta nos fogosos olhos. Formosa sem exagero. Isto é, uma garota normal. Do seu mundinho para o mundão. Taí, gostei. Pode ser que descolo um beijo. Vou pedir um beijo. Uma bicota em seus lábios. Beijar é ter o coração dela pulsando na goela, se perder. A alma fica de joelhos. Pra ser completo mesmo, tem de ser de língua - é isso: vício é vício. É preciso ser viciado em algo. Ninguém nasce sem vício. Não mais perder tempo. Comer, beber, e foder... Meus bens maiores. Deixo o resto aos deuses, que não passam de fogo misturado a diferentes tipos de incensos. O resto não vale um níquel. As libertinas me esperam, só pica, sem grana. Viva o possível e, só então, morra. Não deixarei nada por viver. Lightyear. Aqui, onde o fogo nunca se apaga. Você me dará grande consolo. E se ela negar o beijo? Nada a fazer. Nem faz mal, depois de ontem, o que me acontecer será lucro. Nada nos bolsos e nas mãos. Devo o que tenho e o que não tenho. Vim ao mundo a passeio. Meu futuro duvidoso, atraído por acidentes, vida inconstante e morte súbita - mas de quem não é? Pode acontecer de novo. Paixão por paixão, estamos no mesmo nível. Velha palavra em novo sentido. Quando não se está apaixonado, não se está vivo. Mas, desta vez, não haverá entrega total de minha parte. Tolice querer concluir tudo. O amor é o que o amor faz. Não farei cálculos, o destino cuidará de tudo. Mas não há destino. O que há são minhas escolhas. Escolherei. Ao infinito, e além!

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