UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ SETOR DE CIÊNCIAS JURÍDICAS FACULDADE DE DIREITO DIREITO E SOCIDADE

O Estado-Nação em questão Ana Flávia dos Santos Nascimento Ana de Meiroz Luchtemberg Diogo Ronaldo Junior Cavalheiro Guilherme Prado de Carvalho Luiza Melech Rodrigo Joaquim Busnardo Sueli Satiko Guenca Kayo Thiago Moreira

CURITIBA 2011

1.Introdução teórica. Conceitos básicos.
Estado-nação.

Para compreendermos o que seria o “Estado-Nação”, ou “Estado nacional” como preferem alguns autores, devemos relembrar o conceito de nação. Para tanto, recorremos a um dos mais importantes juristas brasileiros: Paulo Bonavides. Em sua obra Ciência Política, fazendo o uso das palavras de Hauriou, o autor paraibano sintetiza o conceito de nação: “A nação, segundo ele, é ‘um grupo humano no qual os indivíduos se sentem mutuamente unidos, por laços tanto materiais como espirituais, bem como conscientes daquilo que os distingue dos indivíduos componentes de outros grupos nacionais”
(Bonavides, p. 96)

Nação, portanto, seria um grupo humano atrelado pelo conceito de idem sentire (mesmo sentimento), que comunga uma mesma tradição, história, religião, língua etc. São fatores, como menciona Aldo Bozzi, “agregativos préjurídicos” (idem), ou seja, fatores que conduzem a uma união que culmina na constituição de bases nacionais sem que seja necessária a influência (ou mesmo criação) de um Estado. Bonavides salienta que “a propagação do principio das nacionalidades, a vocação dominante tem sido a de estabelecer o Estado sobre bases nacionais”. Neste mesmo sentido podemos citar Francesco Rossolillo em sua contribuição para o Dicionário de Política: "Normalmente a Nação é concebida como um grupo de pessoas unidas por laços naturais e, portanto, eternos (...) e que, por causa destes laços, se torna a base necessária para a organização do poder sob a forma do Estado nacional.”(Bobbio, Matisse e Gianfranco, p. 796)

Assim, estaria plenamente correto asseverarmos que o Estado-Nação é fruto da organização de uma Nação sob a forma de um “ordenamento estatal”
(Bonavides, p. 104),

convertendo o Estado em “organização jurídica da nação”.

(Idem).

Soberania

Mais uma vez recorremos ao sapiente jurista paraibano para explicar o que entendemos como sendo soberania: “A soberania, que exprime o mais alto poder do Estado, a qualidade de poder supremo (suprema potestas), apresenta duas faces distintas: a interna e a externa. A soberania interna significa o imperium que o Estado tem sobre o território e a população, bem como a superioridade do poder político frente aos demais poderes sociais, que lhe ficam sujeitos, de forma mediata ou imediata. A soberania externa é a manifestação independente do poder do Estado perante outros Estados” (Idem,
p. 139)

Logo soberania poderia ser traduzida em independência com relação a fatores externos e em poder absoluto para o tratamento de demandas internas ao Estado. Cumpre ressaltar que a soberania externa seria o fruto de uma posição de igualdade existente entre os todos Estados, ao passo que a soberania interna seria decorrente da celebração de um “contrato social”, através do qual a população aliena a sua liberdade natural, concedendo ao Estado poder total (imperium) para que ele a proteja.

2.Globalização
História. Conceito. Dimensões.

A globalização como conhecemos hoje, uma enorme integração entre os países do mundo em várias dimensões, é fruto de um longo processo histórico iniciado à época das grandes navegações e do mercantilismo. A exploração naval realizada pelos países mais desenvolvidos do século XV – Portugal e Espanha - possibilitou um intenso comércio não só de mercadorias, mas também de pessoas, enriquecendo assim a economia e a cultura desses países. Essas trocas mercantis facilitaram o contato entre diversas nações que estavam, então, ligadas umas as outras pelo comércio.

Dessa forma, deu-se o principio de um sistema econômico global. Aos poucos passa a existir na Europa uma mentalidade competitiva, gerando a necessidade de novos produtos, mais lucrativos que poderia aumentar o saldo positivo da balança comercial de cada país (vender mais do que comprar, ou em outras palavras, exportar mais do que importar). Esse objetivo foi alcançado, já no século XVI com o metalismo, ou seja, busca por maiores quantidades de metais preciosos (ouro e prata), que representariam a riqueza do país.

Algo que permanece igual e inalterado é a soberania dos estados à frente do modelo mercantilista, ao que parece ela até se fortalece à medida que o domínio territorial e a riqueza aumentam. “Essa expansão se concretiza em duas vertentes simultâneas e contrapostas: a consolidação dos Estados nacionais e a eliminação gradual e progressiva das barreiras para a mobilidade de alguns de seus componentes: mão-de-obra, capital financeiro, tecnologia etc.” (Fighera, p.108-115)

Com a consolidação dessa prática comercial a sociedade se desenvolveu ao longo dos últimos séculos. Houve várias adaptações, e por que não, evoluções. O mercantilismo/metalismo foi substituído pelo capitalismo, sistema econômico baseado no acúmulo de capital financeiro, ou seja, com a invenção do papel-moeda, troca-se o metal pelo dinheiro. Essa transformação foi permeada por uma constante modernização dos meios de produção, principal responsável pela criação do capital circulante pela sociedade. Por exemplo, a invenção de máquinas agilizou a produção em larga escala de um bem material, e aumentou o lucro do empresário ao diminuir seus gastos com mão-de-obra.

A globalização atualmente se encaixa com perfeição no sistema capitalista, por permitir um alcance cada vez maior do comércio, com rapidez e eficiência. Alterou-se, porém o campo político mundial, que hoje se caracteriza pelo enfraquecimento do poder nacional e uma forte influencia econômica nos

governos (Ponto

a ser tratado com mais detalhes, no tópico Declínio do Estado-Nação) .

Sendo

assim exposto sucintamente um breve histórico do processo de globalização, faz-se necessária uma definição mais precisa sobre o termo.

Ulrich Beck, em sua obra “O que é globalização?”, propõe uma distinção entre globalismo, globalidade e globalização.

Globalismo consiste em uma concepção de mercado mundial que substitui a política. Restringe a pluridimensionalidade da globalização à economia. Em outras palavras, sugere que os âmbitos da ecologia, cultura, política e sociedade civil, independente de sua complexidade, sejam dirigidos como uma empresa. Trata-se da distinção moderna entre economia e política. É a ideologia do neoliberalismo.

Globalidade, por sua vez, significa estarmos vivendo, há tempos, numa sociedade mundial, que pode ser definida como uma “diversidade sem unidade”, ou seja, um conjunto de relações sociais muitas vezes independentes à política dos Estados nacionais, o que explica as formas de produção transnacionais, por exemplo. A globalidade faz com que acontecimentos tornem-se fenômenos delimitados espacialmente, em um eixo “global-local”.

Finalmente, a Globalização consiste em processos nos quais Estados nacionais têm suas soberanias, fronteiras, territórios e identidades sob a interferência de atores transnacionais. Esses processos produzem conexões e espaços transnacionais e sociais, que se misturam a culturas locais e elementos de outras.

A globalização significa, também, a existência de “sociedade mundial sem Estado mundial e sem governo mundial” (Beck, p. 33), em que não há poder hegemônico. É essa pluridimensionalidade da globalização que abrirá espaço à política, afastando a ideologia de abstenção política do globalismo.

Beck coloca que a globalização é irreversível, por diversos motivos: a crescente ampliação geográfica do comércio internacional, a conexão dos mercados e o aumento do poder das empresas transnacionais; bem como a revolução ininterrupta dos meios tecnológicos de informação e comunicação; a exigência imposta universalmente por direitos humanos; as correntes icônicas da indústria cultural, dentre outros.

A globalização proporciona à vida cotidiana o auxilio de redes de comunicação que ultrapassam fronteiras nacionais; a mídia, o consumo, e o turismo em circulação global, e a percepção de outras culturas e as contradições resultantes dessa convivência.

Mas apesar de proporcionar o aprofundamento da integração, as transformações da globalização visam atender principalmente aos países desenvolvidos. Isso pode ser demonstrado, por exemplo, através da utilização da matéria prima e mão de obra de baixo custo dos países subdesenvolvidos para a produção mercadorias e investimentos tecnológicos, que chegam ao mercado com preços abusivos; neste ciclo vicioso de retenção de renda, a disparidade entre o mundo desenvolvido e o mundo em vias de desenvolvimento tem aumentado continuamente.

As diversas dimensões da globalização (sendo elas a econômica, política, social, ambiental e cultural – de acordo com as teorizações de Liszt Vieira) não podem ser reduzidas, mas devem ser consideradas em relações de interdependência. Claro, que estas cinco dimensões apresentadas não são as únicas, mas sistematizam todas as outras, ajudando em um maior entendimento do fenômeno globalizante.

Na obra “Globalização econômica, política e direito”, o professor Abili Lázaro Castro de Lima realiza uma analise detalhada sobre as cinco dimensões abordadas por Liszt Vieira no livro Globalização e Cidadania. A que recebe maior importância é a econômica por sintetizar e possibilitar as outras

quatro, além de justificar a existência das mazelas sociais decorrentes da globalização como um todo. (será detalhada nos tópicos sobre transnacionais e
neoliberalismo)

A Globalização social é aquela que gera conexões no âmbito social dos indivíduos inseridos nesse contexto global. A comunicação instantânea facilitou o contato entre pessoas e empresas dos mais diversos países, assim o mundo vem se unificando. Há, porém consequências negativas de tudo isso. Nesse ponto, criamos um paralelo com as teorizações de outro sociólogo.

Milton Santos, geógrafo e sociólogo baiano, define a globalização tal como ela é, perversa e tirana. Para ele, a informação e a emergência do dinheiro faz com que as pessoas se tornem vazias e vulneráveis a comportamentos que antes eram tidos como imorais. A informação apresentada é despótica. Em uma passagem do livro Por uma outra globalização, Milton escreve: “[...] as novas condições técnicas deveriam permitir a ampliação do conhecimento do planeta, dos objetos que o formam, das sociedades que o habitam e dos homens em sua realidade intrínseca. Todavia, nas condições atuais, as técnicas da informação são principalmente utilizadas por um punhado de atores em função de seus próprios interesses. [...] O que é transmitido à maioria da humanidade é, de fato, uma informação manipulada que, em lugar de esclarecer, confunde.” (p. 38-39).

Na visão de Liszt Vieira, as mazelas sociais são oriundas das desigualdades ocasionadas do desemprego, do empobrecimento e da fome do chamado Terceiro mundo. Essas desigualdades são inevitáveis para países em desenvolvimento, não havendo nenhum meio para erradicá-las. A grande quantidade de informação para Liszt também gera esses problemas, na medida em que “reduz a oferta de empregos produtivos e reforça as tendências de exclusão social” (op. cit, p.90).

Na esfera ambiental os impactos são os mais negativos possíveis. São

eles frutos da produção industrial, da derrubada de florestas - tanto para adquirir matéria-prima quanto para desocupar espaços utilizáveis para a indústria ou para o pasto; pesca predatória, poluição ocasionada por resíduos industriais, as emissões de gás carbônico, entre outros problemas que comprometem o ecossistema mundial.

Por fim, a globalização cultural que estará presente no tema de outro seminário, é a mais evidente e maquilada, pois se faz presente nos meios de comunicação de maior visibilidade global: televisão, rádio, internet... Temos também a globalização política que será apresentada com mais detalhes no tópico declínio do Estado-nação.

Analisando a retrospectiva histórica desse fenômeno, bem como sua definição e principais efeitos sob o tratamento metodológico do materialismo histórico, concluímos que a globalização é um fenômeno tão antigo quanto o próprio capitalismo. Por isso, seus resultados, enquanto expressões do processo de desenvolvimento desse modo de produção, não apontam para a emancipação da humanidade da dominação de classe, mas a intensificam ao promover a hegemonia cultural e as percepções neoliberais em uma nova escala de concentração econômica.

Uma vez irreversível, e atingindo-nos no dia-a-dia das formas mais variadas, sendo elas positivas e negativas, a questão que se coloca sobre a globalização é como identificar e aproveitar as oportunidades que dela surgem e amenizar as disparidades internacionais, a destruição ambiental e os conflitos transculturais localizados.

3.Empresas Transnacionais
Surgimento.

A empresa transnacional é muito mais antiga do que parece, surgiu

graças ao aparecimento de uma moeda internacionalmente aceita: o ouro. A empresa transnacional de hoje, remonta o modelo antigo da Companhia das Índias, com várias diferenças é claro. Surgiram efetivamente depois da Segunda Guerra Mundial, quando elas ultrapassaram as fronteiras dos países ricos e se expandiram para os países em desenvolvimento. A princípio, essas empresas se instalam nos países em desenvolvimento, pois neles encontram mão-de-obra e matéria prima baratas, além de baixos tributos e fracos direitos trabalhistas.

É preciso tomar cuidado para não confundir o conceito de empresa transnacional com o conceito de empresa multinacional, a transnacional é uma empresa que possui matriz em algum país – geralmente em seu país de origem – e multinacional é uma empresa que pertence a várias nações. O nome transnacional tem relação com a empresa ir além das fronteiras de sua nação para agir no mercado externo.

É bom para um país em desenvolvimento quando uma dessas empresas se instala em seu território, pois gera empregos, tributos, desenvolvimento, mas nem tudo nessa vida é um mar de rosas, não podemos pensar que a instalação de uma empresa trás somente benefícios ao lugar aonde se instalou. Como a região depende da empresa para manter a sua economia, a empresa transnacional tem a capacidade de limitar o poder decisório daquele estado, o motivo é simples, se o governo colocar algum empecilho para a empresa alcançar o planejado, como tributos, altos salários para os trabalhadores, a empresa pode sair daquele país e encontrar um com as condições que ela procura.

Sendo assim, espalhado pelo mundo, um produto pode ter várias origens, pode ser projetado nos Estados Unidos, ter partes produzidas na China e no Vietnam, ser montado no Brasil e ir para o mercado consumidor da Itália. Tudo isso com o objetivo de diminuir os custos e aumentar os lucros.

As empresas transnacionais acabam horizontalizando os espaços, integrando processos de pesquisa, produção, comercialização, entre outros. Apesar de esses processos serem divididos em vários países, se integram pois fazem parte de um processo para construção de um único produto final global. Percebemos que a empresa transnacional está contribuindo para que as fronteiras nacionais percam seu valor e contribui para o declínio do Estadonação na medida em que transpassam os limites territoriais dos Estados. Na verdade essas empresas deixaram de ter centro, é um corpo sem coração, tudo que ela busca é o baixo custo de produção e máximo lucro de venda.

4.Divisão internacional do trabalho
História. Contextualização. Fatores de sustentação.

A divisão internacional do trabalho, teve inicio no período colonial, prioritariamente entre metrópoles e colônias, aonde cada uma especializou-se em fornecer determinados tipos de produtos manufaturados, metais precioso, matéria prima, entre outros.

A primeira ocorreu junto com a Primeira Revolução Industrial, aonde o sistema de produção artesanal deu lugar ao sistema industrial, nesse momento o mundo esta dividido entre países que fornecem matéria prima e países que fornecem produtos industrializados. A segunda foi depois da segunda Guerra Mundial, basicamente a divisão foi entre países detentores de capital e países em desenvolvimento, os países que tinham capital começaram a financiar os países em desenvolvimento.

A Terceira se ocorreu depois que a destruição causada pela segunda guerra mundial foi superara. As empresas dos países industrializados estavam mais fortes e essa terceira divisão se deve a duas ocorrências: A reestruturação das empresas junto com uma Revolução Tecnológica e ao aumento de investimentos das empresas no exterior.

O processo de produção dividido em várias etapas, vulgo fordismo, mudou para a fragmentação e dispersão do processo de produção entre diversas nações, principalmente na Segunda e na Terceira Divisão Internacional do Trabalho. O que as empresas buscam é a forma mais eficiente para utilizar a mão-de-obra e as matérias primas existentes em todo o mundo.

As empresas transnacionais são os novos protagonistas do cenário do mundo globalizado, elas sustentam seu poder em quatro fatores: o primeiro é que as empresas podem escolher uma nação aonde seja mais fácil contratar mão de obra, ou seja, países aonde há, geralmente, baixa proteção aos trabalhadores e baixos salários. O segundo fator é que elas podem repartir o trabalho por todo o mundo, desmembrando os produtos. O terceiro fator é que essas empresas podem ‘castigar’ os Estados, caso eles sejam caros ou desfavoráveis a elas. O quarto é que essas empresas podem distinguir o melhor lugar para cada tarefa, ou seja, escolher o lugar para cada tarefa aonde ela pague os menores impostos e os menores salários. Vendo tudo isso, podemos notar que as empresas transnacionais têm certa autonomia em relação aos Estados, podendo assim até limitar a política destes.

5. Neoliberalismo
Panorama histórico. Teorias e defensores.

O neoliberalismo é o instrumento de política econômica que possibilitou o processo da transnacionalização da economia, por meio de medidas de oposição ao Estado de bem-estar social implementado após a Segunda Guerra, o qual praticava a intervenção econômica para garantir a defesa dos direito sociais.

Referente à perspectiva histórica neoliberal, destacamos o estudo realizado por Perry Anderson no livro “Um balanço do neoliberalismo”, onde o autor afasta a aplicação do termo neoliberalismo como sinônimo do liberalismo

econômico, eis que aquele possui estrutura diversa e também por ter sido produzido em outro contexto sócio-econômico.

Os fundamentos da política neoliberal foram lançados na obra de Friedrich A. Hayek, no livro “O Caminho da Servidão”, lançado em 1944. Neste mesmo ano foi realizada uma conferência entre os países aliados para a definição da nova ordem econômica que substituiria o protecionismo comercial anterior ao período das grandes guerras. Os acordos celebrados nesta ocasião foram denominados de acordos de Bretton Woods (nome da cidade sede do evento).

Em “Globalização econômica, política e direito”, Abili Lázaro Castro de Lima faz citação à Noam Chomsky (p. 19-20), quando este importante teórico contestador da política neoliberal afirma que: “os acordos de Bretton Woods instauraram, na nova ordem global, o denominado Consenso de Washington, que se consubstancia basicamente em três medidas: 1) acabar com a inflação, 2) privatizar e 3) deixar o mercado regular a sociedade, através da redução do papel do Estado, sendo os seus principais protagonistas as grandes corporações internacionais, sobretudo as norte-americanas”.

Estavam,

portanto,

lançadas

as

diretrizes

econômicas

para

o

desenvolvimento da economia global, as quais foram responsáveis, no transcurso do século XX, pela redução do poder estatal no gerenciamento da economia e pelo aumento do abismo entre os países capitalistas onde tem sede as grandes corporações que passaram a ditar as regras do jogo econômico.

Perry Anderson aduz que a força do neoliberalismo se concretiza somente na década de 70, nos governos de Ronald Regan (Estados Unidos) e de Margaret Thatcher (Inglaterra), em razão da crise econômica que ameaçava o sistema capitalista, conforme ensinamento da Professora Marilena Chauí: “...quando o capitalismo conheceu, pela primeira vez, um tipo de situação

imprevisível, isto é, baixas taxas de crescimento econômico e altas taxas de inflação: a famosa estagflação”.

No início da década de 90, o neoliberalismo alcança a América Latina pelo sucesso nas urnas de representantes políticos que defendiam esta ideologia, fortalecidos pelo enfraquecimento das idéias socialistas após a queda do muro de Berlim.

No Brasil, esse processo pode ser evidenciado no advento do Programa Nacional de Privatização (Lei nº 8.031/90), cuja orientação foi pelo abandono do intervencionismo, pelo foco na privatização das empresas estatais exploradoras de atividade econômica, pela abertura ao capital privado e aumento do capital estrangeiro.

Porém, a pressão das diretrizes fixadas no Consenso de Washington sobre a América Latina foi muito anterior a período da redemocratização pela qual passaram muitos dos países da região na década de 1990.

Em 1945 (um ano após a estipulação do Consenso de Washington), o governo americano cria a Doutrina Monroe, segundo a qual seria legitima a interferência dos Estados Unidos na política econômica dos países latinoamericanos, em nome da manutenção da política neoliberal recém pactuada.

Na teorização da obra de Noam Chomsky, “O Lucro ou as Pessoas”, podemos conferir a seguinte passagem: “O presidente Wilson, famoso por seu idealismo e elevados princípios morais, admitiu secretamente que “ao defender a Doutrina Monroe, os Estados Unidos levam em conta seus próprios interesses”. Os interesses dos povos latino-americanos são meramente “incidentais” e não é um problema nosso. Ele reconheceu que “pode parecer que nos baseamos em puro egoísmo”, mas afirmou que “a doutrina não tem motivos mais elevados ou generosos”.

Quanto à revisão histórica do neoliberalismo na América Latina, ainda se faz necessário destacar a ditadura chilena, que sob o punho de Pinochet vivenciou as práticas defendidas neste modelo econômico, como a privatização dos bens públicos, desemprego e repressão sindical, em um contexto antidemocrático.

Com relação a este ponto, Perry Anderson faz uma observação acerca da desvinculação do neoliberalismo da democracia, vislumbrado que no exemplo chileno, o regime autoritário e conservador foram indispensáveis à prática das condutas neoliberais e, ainda, porque em um regime democrático a maioria poderia, se quisesse, impedir a livre iniciativa dos agentes econômicos no mercado. Teorias do Neoliberalismo Frederick August von Hayek foi um economista da Escola Austríaca. Hayek fez contribuições para a Psicologia, a Teoria do Direito, a Economia e a Política. Escolheu a segunda e seu trabalho nesse campo foi notável: Ganhou o Prêmio de Ciências Econômicas em 1974. Segundo Hayek, uma economia é um sistema complexo demais para ser desenvolvido por uma instituição central e deve progredir de forma espontânea, usando como instrumento o livre mercado

Suas idéias assumem especial relevância por servirem como um contraponto teórico à ideologia socialista, que recomendava um modelo econômico planificado.Foi um dos expositores da Escola Austríaca de Economia e um dos mais conceituados teóricos liberais do século XX.

Embora quando jovem tenha sido socialista, passou a acreditar no capitalismo após ler a obra de Ludwig Von Mises. Em 1944, publicou O caminho da servidão – que pode ser considerado um Manifesto do Liberalismo – onde apontava os problemas do socialismo observados na Alemanha Nazista e Grã-Bretanha.

No Livro, Hayek faz duras críticas ao modelo socialista e variações, reforçando a idéia de que somente com a concorrência, o livre comércio e a não intervenção do estado na economia, a real liberdade dos indivíduos será garantida. Hitler, Stalin, Mao são alguns governantes totalitários que derramaram sangue de inocentes na experiência socialista. Partindo da idéia de que Hayek considera as palavras nazismo, fascismo, nacional-socialismo como sinônimas - Hayek justifica tal consideração alegando que o elemento socialista foi
responsável pela origem do totalitarismo. Ainda ressalta que na Alemanha, o nazismo foi influenciado diretamente pelas idéias socialistas difundidas pelas massas. -

, entende-se

que o socialismo leva o homem a se tornar escravizado pelo Estado. “A democracia atribui a cada homem o valor máximo; o socialismo faz de cada homem um mero agente, um simples número.” (Hayek, p. 49)

Além disso, o teórico imputa, no socialismo, a culpa pelo rompimento do modelo liberalista dominante no século XIX – onde o laissez-faire era tido como algo positivo e saudável (Laissez-faire no liberalismo é a expressão da livre concorrência,
que por sua vez gerava a competição entre as pessoas. Hayek considera esta última como a melhor maneira de se guiar os esforços individuais.)

A teoria neoliberal é fundamentada na pressuposição da existência da ambição que fortalece a idéia de individualidade presente no homem. Hayek acredita na plena liberdade econômica, esta objetivando o enriquecimento e o usufruto dos benefícios advindos do trabalho: “Seria muito mais certo dizer que o dinheiro é um dos maiores instrumentos de liberdade já inventados pelo homem.” (Hayek, p. 110) A concorrência é também considerada um instrumento para o pleno exercício da liberdade individual. Mas para que ela funcione de maneira eficaz é preciso que sejam criados dispositivos legais que garantam a não intervenção do estado por meio de mecanismos coercitivos. “Com efeito, uma das principais justificativas da concorrência é que ela dispensa a necessidade de um "controle social consciente" e oferece aos indivíduos a oportunidade de decidir se as perspectivas de determinada ocupação são suficientes para compensar as desvantagens e riscos que a acompanham.”
(Hayek, p. 60)

Hayek indaga sobre as limitações impostas às condições de trabalho por meio da legislação sob a ótica da eficácia da concorrência. Ele concorda que determinadas regulamentações no âmbito trabalhista é plausível na medida em que a vantagens sejam sempre maiores do que o custo com os serviços sociais.

Por fim, ele ressalta que deve haver um equilibro entre a planificação e concorrência pois ambos tomados nos extremos podem resultar em desastre. Portanto esses dois princípios devem ser combinados sempre buscando a primazia da concorrência e não o contrário.

Milton Friedman foi um dos economistas que se destacaram no século XX e um dos mais prestigiosos teóricos do liberalismo econômico, além de ser o principal defensor da Escola Monetarista e membro da Escola de Chicago. Friedman foi conselheiro de Augusto Pinochet, no governo chileno

No ápice da Grande Depressão, Friedman finalizou seus estudos na Universidade Rutgers, se destacando nas disciplinas de Matemática e Economia. Ele cursou o mestrado em Economia na Universidade de Chicago. É nessa conjuntura que começa a se fixar na formação do pensamento de Friedman a noção de que a resolução dos problemas de uma sociedade é dada por um sistema de liberdade.

O seu posicionamento foi motivo de muitas discussões. No entanto, o conduziu à liderança de uma doutrina de concepção econômica. Por suas concretizações nos campos da análise do consumo, da cronologia monetária e da teoria e manifestação da complexidade da política de estabilização, recebeu o Prêmio Nobel de Ciências do ano de 1976.

Friedman prefere recorrer ao sentido original do termo Liberalismo, onde se valoriza a real liberdade do homem. Tal preferência é oriunda pois a definição atual do termo é tomada por uma concepção de um Estado

centralizador que tem como pré-requisitos a igualdade e o bem-estar em substituição à liberdade.

Analisando o conceito mais estritamente, no livro Liberdade de eleger, o autor constrói a idéia de que a liberdade política está relacionada à existência da liberdade econômica, pois ambos são considerados mercados que são movidos por meio dos interesses individuais. No momento em que ocorre a interação e cooperação entre as pessoas sem a intervenção de um centro deliberativo, a esfera econômica limita o poder da política. Friedman conclui então que as duas liberdades devem se relacionar de modo que não sejam combinadas nas mãos de uma pessoa, pois isso levaria à tirania.

O liberal tem por finalidade a liberdade do indivíduo e é a partir dessa que é preciso analisar as regulamentações sociais. O problema principal da organização social é a coordenação econômica de um grande número de pessoas. Friedman observa que existem apenas dois modos de estruturar as atividades econômicas de várias pessoas. Uma é a gestão centralizada que envolve o uso da coerção (por exemplo o Estado totalitário), a outra é a colaboração espontânea dos indivíduos (nesse caso, o livre mercado).

Apesar de apoiar o livre mercado e a não intervenção do estado na economia, Friedman ressalta a importância deste se tratando de garantir a plena eficiência e segurança do jogo econômico. Nesse caso, o Estado deixa de ser um instrumento de coerção e passa a ser um aparato legal para a criação e modificação de regras da economia, sendo tal arbitramento feito coletivamente.

No que se refere ao comércio internacional, o autor considera que uma maior autonomia econômica promoveria uma maior harmonia entre as nações e o fortalecimento da globalização. Ele comprova tal consideração, citando o período entre a guerra de Waterloo e a Primeira Grande Guerra: nota-se que tanto na Guerra de Waterloo e na Primeira Grande Guerra, os atritos foram

desencadeados devido à extrema intervenção e protecionismo das Nações.

Por fim, Friedman é terminantemente contrário aos direitos sociais, pois considera que esses agem de forma negativa aos indivíduos – estes perdendo o título de cidadãos – uma vez que usufruírem de tais benefícios. A idéia defendida pelo autor para justificar a oposição aos referidos direitos serve como base para entender as consequências negativas causadas pelo neoliberalismo e pela globalização.

6. Declino do Estado-Nação
O projeto da modernidade fracassou. O universalismo de direitos proclamado pelos Iluministas, ao estabelecer um valor absoluto a suas ideias extremamente parciais, suprimiu o direitos das diversas minorias. Conceitos adaptados a um mundo de países fechados não mais se sustentam. A sociedade tornou-se porosa e perdeu sua noção de autoconsciência coletiva com a escalada da individualização. O projeto de Estado nacional, baseado na aliança entre economia de mercado, Estado de bem-estar social e democracia não mais existe. Tal processo de deterioração do Estado-nação iniciou-se a partir da Segunda Guerra Mundial, em que houve a universalização ou transnacionalização da economia, implementada pelo processo de globalização econômica fortalecido por teorias do neoliberalismo. Essa nova ordem global age de acordo com os interesses de grandes corporações e coloca as pessoas em segundo plano.

Para Octavio Ianni, o Estado, antes definido por sua soberania, passou por mudanças radicais nos tempos da sociedade global, transformando-se em província desta.

No contexto da guerra fria, foram promovidas políticas nacionais de desenvolvimento econômico, favorecidas pela atuação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, no sentido de introdução e incremento

da industrialização para substituição de importações, além de diversificação da economia e fortalecimento de centros decisórios internos. Porém, com as “vitórias” que o bloco capitalista foi conquistando, a industrialização substitutiva de importações deu lugar à industrialização voltada para exportação, o que foi intensificado pelo fato do neoliberalismo ter se tornado discurso da economia política mundial. Políticas nacionalistas mostraram-se obsoletas em face à nova divisão internacional do trabalho. A transnacionalização das empresas, cujo efeito é a “planetarização” dos circuitos de decisões, debilita a possibilidade de estratégias nacionais, já que decisões sobre o que produzir, o quanto, para quais mercados etc. são tomadas agora no âmbito da empresa. Desde o século XX vê-se que é impossível que qualquer projeto nacional, seja ele de caráter capitalista, socialista ou misto, afirme sua soberania e promova desconexão do sistema mundial: revela-se, assim, a crescente preeminência das determinações globais sobre as nacionais, fato cuja principal consequência é que projetos nacionais só se tornam possíveis se forem de encontro às determinações e aos interesses externos. A unicidade técnica que caracteriza o presente converte um território em mais eficiente e, dessa forma, mais competitivo no âmbito internacional, e isso ilustra a necessidade por parte dos Estados em se reacomodar às demandas do sistema. Daí justifica-se a afirmação da nação ter se tornado apenas uma província da totalidade histórica e geográfica ampla, complexa e contraditória resultante da globalização.

Eric

Hobsbawm

compartilha

dessa

visão

ao

apontar

a

transnacionalização da economia como principal motivo da deterioração do Estado-nação. Isso porque a atuação das empresas não é limitada por fronteiras políticas como o são os Estados nacionais. Até 1960, estes centralizavam a administração pública, detinham o conhecimento, o poder, a lei, o exército e promoviam intervenções na vida dos cidadãos, na economia e nos projetos políticos. Havia obediência voluntária ao Estado, o que era essencial na sua capacidade de gerenciamento. Após esse período, nota-se que tais funções foram perdidas para entidades supranacionais (empresas capitalistas), inclusive a mais importante, a de redistribuição de renda entre a população através de serviços de previdência, saúde e educação. Atualmente,

o Estado-nação tem se mostrado incapaz de atender as demandas que a sociedade civil dele espera, um dos motivos para o surgimento de movimentos fundamentalistas, nacionalistas, regionalistas e etnicistas, os quais mostram a desintegração interna que vêm sofrendo os países em decorrência da globalização. Políticas neoliberais, explicitamente dirigidas contra o Estado, reforçam a deterioração deste e a afirmação da soberania como figura retórica.

O impacto da revolução científico-técnica na esfera da produção, da informação e do transporte transcende territórios sobre o qual o Estado exerce soberania. O que se vê hoje é a integração regional e adaptação ao novo sistema, articulada por governos e empresas conforme as exigências do capitalismo, como a integração do bloco soviético, desagregado, ao sistema capitalista; a abertura da China, Vietnã e Cuba a empreendimentos transnacionais; e as integrações internacionais como o Mercado Comum do Sul (Mercosul). O aparelho estatal é obrigado a reorganizar-se de acordo com o que manda o funcionamento mundial dos mercados, o que permite entender políticas como as de desestatização, desregulamentação, privatização e abertura de fronteiras. A nova divisão internacional do trabalho e da produção, envolvendo o fordismo, o toyotismo, a flexibilização e a terceirização, agilizados pelas técnicas eletrônicas, ao globalizar o capital, também gera novas realidades nos âmbitos lingüísticos jurídicos-políticos, e religiosos. No socioculturais, âmbito institucionais, tem-se a demográficos, social,

mundialização das classes sociais, através de movimentos sociais cujas correntes de opinião ultrapassam fronteiras e se ampliam mundo afora.

Frente a questões globais, como o aquecimento global, fica difícil estabelecer quais são os “problemas nacionais” e quem deve decidir sobre o quê. Percebe-se, pois, que a noção de soberania tem sido relativizada, assim como a função tradicional do Estado de promover a segurança, já que nenhum país pode tomar decisões que deixem de interferir na soberania de outro.

Há autores, como Jean-Marie Guéhenno, que são mais radicais e

afirmam não só o enfraquecimento progressivo do Estado-nação, mas também o seu fim. Para ele, a passagem de uma era em que a posse de terra representava poder para a idade industrial, em que as leis controlam o poder, significa a perda de sentido de palavras como democracia, política e liberdade. A nação, sendo o espaço político onde há possibilidade de construção de democracia, além de ser o lugar onde se vivencia histórias e alegrias comuns, necessita do Estado, cujas estruturas, contudo, são precárias. Atribui-se, nos tempos atuais, cada vez menos importância ao território (agricultura dá lugar a produtos novos), e o mundo fica mais abstrato e imaterial. Estando o território cada vez mais desvalorizado, Guéhenno afirma que também a política morrerá, já que ela é a arte de governar uma coletividade de homens dentro de uma nação.

Hobsbawm coloca que, sob as pressões geradas pela intensificação das práticas transnacionais e interações globais, as funções reguladoras do Estado ficam dependentes de imperativos formulados por organizações internacionais como o FMI e o Banco Mundial e pelas empresas transnacionais que exigem defesa aos seus interesses.

A soberania perde sentido no mundo globalizado. Deve-se agora compreendê-la como uma faculdade dividida entre múltiplos agentes e limitada pela própria natureza dessa pluralidade. Autores como Boaventura de Sousa Santos argumentam que a perda de soberania dos Estados-nação não foi acompanhada de aumento do poder transnacional na resolução solidária de problemas globais, ou seja, destinadas ao “bem coletivo”

Considerações finais.
A globalização, termo banalmente usado para designar um fenômeno contemporâneo que põe fim àquilo que representavam as fronteiras territoriais (no sentido de poder) é um processo bastante contraditório. Talvez porque seja parte da realidade atual, cujo resultado final pode apenas ser imaginado. O

senso comum nos diz que a globalização conecta, mas possibilita a dominação. Que integra as sociedades, mas também as sobrepuja. Esta definição meramente intuitiva não está errada, mas em nosso trabalho, com base nos textos indicados, pudemos nos aprofundar no assunto, capacitandonos para esmiuçá-lo com o objetivo de melhor compreendê-lo.

Em primeiro lugar, observa-se que “numa geração anterior, a política social baseava-se na crença de que as nações podiam controlar as suas riquezas; agora, abre-se uma divisão entre Estado e economia” (nas palavras de Richard Sennet). Isto significa que, somando as consequências da bipolarização mundial ao aprimoramento tecnológico, a movimentação do capital adquire dinamicidade, e a velocidade com que se efetuam as trocas faz com que ele esteja um passo adiante de qualquer Estado, Governo, território que possa ter controle total sobre as suas viagens. Como consequência, observa-se um desgaste da nação-estado, já que a ela se sobrepõem forças transnacionais.

A ideia de globalização, em seus primórdios, designa o caráter indeterminado de autopropulsão dos assuntos mundiais. A ausência de determinadas fronteiras também remete à sensação de universalidade, confusão que pode ser esclarecida a partir do momento em que se nota a insegurança trazida a princípio pela globalização, uma vez que ela enfraquece os agentes ordenadores habituais, dando espaço para ambivalência, e não necessariamente ao consenso. Ainda, é preciso ressaltar que , ainda que ela tenha ocasionado uma divisão de poderes (o poder do Estado e o poder do capital), estes poderes dispersos, em especial àquele atrelado ao dinheiro, ainda podem fazer valer suas vontades, acarretando numa nova espécie de dominação, numa percepção diferente da coletividade – percepção não necessariamente universal.

Retomando o surgimento da globalização por meio da história, percebese que na era do Grande Cisma, o cenário global apresentava profundíssimas

divergências, de modo que, antes da soberania do Estado, priorizava-se preservar a sua capacidade de preservar a ordem, de forma que estes precisaram buscar cada vez mais sua própria segurança, fazendo alianças e entregando porções cada vez maiores de sua soberania. É importante lembrar que os três pontos fundamentais para que um Estado seja soberano são a auto-suficiência militar, econômica e cultural, e que com a situação descrita acima este “tripé” foi irremediavelmente quebrado, especialmente o da economia. Graças à esta fragilidade adquirida das economias nacionais, os mercados financeiros globais passaram a impor suas leis e preceitos ao planeta. “A ‘globalização’ nada mais é que a extensão totalitária de sua lógica a todos os aspectos da vida”. Assim, o Estado resta apenas com o poder de repressão, tendo a sua base material destruída.

Com tal esfacelamento, a irrestrita liberdade necessária à globalização é beneficiada, e, em ultima instância o Estado submete-se aos interesses dela, utilizando seus esforços no sentido de destruir todo o que possa deter o livre movimento de capitais e restringir a liberdade de mercado.

A separação entre economia e política é mais do que uma simples mudança na distribuição do poder social. Na verdade ela também muda a forma de uso do poder e novos interesses entram em cena. Segundo (o autor do texto) “está cada vez mais difícil, talvez até mesmo impossível, reunir questões sociais numa efetiva ação coletiva”.

A dominação possui uma estratégia própria: deixar a máxima liberdade de manobra àquele que domina, e restringi-a ao máximo para o dominado. Se antes tal lógica era utilizada pelo governo, atualmente ela é praticada pelos “mercados” e pelas empresas. Assim, na globalização, o que é opção livre para alguns, torna-se fardo para outros – “outros”, aliás, em número muito superior aos primeiros. Em suma, ocorre a concentração de capitais, das finanças e a concentração da liberdade em poucas mãos.

Isto acarreta, é claro, numa marginalização, em especial nos países considerados “em desenvolvimento”. Existem, atualmente, mais oportunidades de os ricos ganharem dinheiro rapidamente, devido à tecnologia que permite movimentar largas somas de dinheiro mundo afora. Entretanto, ainda há os que argumentam que esta estufa na qual a riqueza cresce mais rápido permitiria uma melhor vida para todos – afirmação que seria um ledo engano, se não se tratasse de uma demagogia capciosa.

O quadro que hoje se apresenta não é fruto do mero acaso, não caminha para o progresso geral da humanidade e não é essencialmente bemintencionado. Contudo, também não é prudente refutar todos os recursos criados durante este ambivalente caminhar: antes disto, é preciso refletir acerca das necessidades humanas, e trabalhar no sentido de reverter as injustiças cometidas por aqueles que sobrepõem à coletividade seus interesses privados. A crença na virtude dos mecanismos de controle social – sejam eles de cunho econômico ou político, é necessária para a manutenção da ordem, mas o excesso dela reside no limite da alienação. A globalização, portanto, antes de efusivamente apoiada ou vaziamente combatida, deve ser repensada em seus propósitos, para então sim, poder servir ao homem.

Referencias:
ANDERSON, Perry. Um balanço do neoliberalismo, in SADER, Emir & GENTILLI, Pablo (org.) et alli. Pós-neoliberalismo: as políticas sociais e o Estado democrático. São Paulo: Paz e Terra, 1996. BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as consequências humanas. Tradução de Marcus Penchel. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1999. BECK, ULRICH. O que é Globalização? Equívocos do globalismo, respostas à globalização. Tradução: André Carone. São Paulo: Paz e Terra,1999.

BOBBIO, Norberto, MATTEUCCI Nicola e GIANFRANCO, Pasquino. Dicionário de Política. 11ª Edição. Editora UNB: Brasília, 1998. BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. 10. Ed. São Paulo: Malheiros, 2000. CHAUÍ, Marilena. Neoliberalismo e Universidade: Conferência proferida na abertura do seminário: “A construção democrática em questão”, no dia 22 de abril de 1997, Anfiteatro de História da USP. CHESNAIS, François. A mundialização do capital. São Paulo: Xamã, 1996. CHOMSKY, Noam. Profit over people: neoliberalism and global oder. New York: Seven Stories Press, 1999. FIGHERA, Delfina Trinca. Estado e Território. Relações e globalização. In: Território, globalização e fragmentação. 3ª ed. São Paulo: HUCITEC, 1996. HAYEK, Friedrich A. O Caminho da Servidão. 5. Ed. Instituto Liberal, 1990. HIRST, Paul e THOMPSON, Grahame. Globalização em questão. 4. Ed. Petrópolis: Vozes, 1998. LIMA, Abili Lázaro Castro de. Globalização econômica, política e direito: análise das mazelas no plano político-jurídico. Porto Alegre: Sérgio Fabris, 2002, p. 121-202. Marx, Karl. O capital – crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural (Os Economistas), vols. I – V, 1985-86. SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. 11. Ed. Rio de Janeiro: Record, 2004. SANTOS, Milton, SOUZA, Maria Adélia A. de e SILVEIRA, Maria Laura (org.) Território: Globalização e Fragmentação. 3. Ed. HUCITEC: São Paulo, 1996. SINGER, Paul. Um histórico da globalização. In: Revista da Sociedade Brasileira de Economia Política, Vol. 1, n. 1, 1997. “A origem e a implementação do neoliberalismo no mundo e no Brasil“

<http://br.monografias.com/trabalhos915/origem-neoliberalismo-brasil/origem-neoliberalismo-

brasil2.shtml> [acesso em 31-10-2011] “Os países e a economia mundial” <http://educacao.uol.com.br/geografia/divisao-internacionaldo-trabalho-os-paises-e-a-economia-mundial.jhtm> [acesso em 02-11-2011] “Empresas Transnacionais e Internacionalização da P&D: elementos de organização industrial da economia da inovação” <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S010131572008000200010&script=sci_arttext> [acesso em 31-10-11]

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful