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Sistemas agroflorestais: uma ferramenta para restauração?
Aluno: Pablo Lacaze de Camargo Casella1 Orientador: Ricardo Ribeiro Rodrigues2

Introdução
A recuperação de áreas degradadas é um tema que tem ganhado destaque entre as pesquisas relacionadas à conservação biológica. O tema por si só já é devidamente discutido em publicações específicas e, na verdade, encontra-se diluído entre artigos de diversas áreas das ciências naturais, mais especificamente nas ambientais. Os motivos que podem ser apontados para essa importância são muitos, mas, num esforço de síntese, podem ser concentrados sob um tema comum que tratasse da restauração da biodiversidade. Restauração porque houve perdas, em ordens de grandeza magnânimas, consideradas significativas para a manutenção da vida no planeta tal qual se conheceu há não muitos séculos – mais claramente, para a vida da humanidade futura. A atenção dispensada à restauração, enquanto campo conceitual, é grande e ainda se encontra em ascensão. Entretanto, faltam trabalhos que ampliem a temática da restauração, assim como a conservação biológica como um todo, para o tocante da relação homemnatureza em sua manifestação mais estreita. Ou seja, a relação entre os proprietários de terras e a vida estabelecida em suas propriedades; não só sob aspecto de atribuição de culpas, mas, sobretudo, com o intuito de compreender como a conservação – em primeira instância – e a restauração – em segunda – poderiam surgir como práticas espontâneas e conseqüentes do cotidiano dessas pessoas. Sob essa visão, as atividades produtivas (agropecuária e extrativismo, de forma geral) se constituiriam em ponto estratégico para os esforços que se fizesse nessa direção. Por isso, a presente compilação bibliográfica pretende apresentar, brevemente, os pontos centrais da relação entre a degradação ambiental (perda de biodiversidade, em última análise) e a atividade produtiva humana, classicamente apontando as causas e efeitos; mas, pretende-se, aqui, mais do que isso, tocar nos pontos em que a ação produtiva pode ser tida como auxiliadora das relações ecológicas. Assim, uma atividade produtiva foi o objeto de estudo central desse texto, mostrando-se paradigmática, não única. Trata-se dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) e das práticas agroflorestais em geral, escolhidos pela sua fácil adequação aos propósitos conservacionistas já mencionados. Em destaque, trata-se de um SAF específico desenvolvido pelo agricultor Ernst Götsch no sul da Bahia. Como se verá, tal SAF apresenta-se como um modelo muito propício
Graduando do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Professor do Departamento de Ciências Biológicas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queirós/Universidade de São Paulo.
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para o objetivo desse trabalho. Novamente deve-se dizer: não se trata de única alternativa, mas de um exemplo que facilite a compreensão acerca da proposta desse trabalho, que é a utilização de uma prática produtiva (um sistema agroflorestal) como ferramenta mesma da conservação, em especial, da restauração. Não foi o objetivo dessa compilação a completude dos assuntos “restauração” e “SAFs” independentemente, visto que são campos já consolidados e de vasta bibliografia conceitual; antes, as congruências e sobreposições entre os limites desses dois campos do conhecimento foram o foco dessa pesquisa bibliográfica. Essa sobreposição, sim, é, ainda, tênue no tocante à produção científica. Reside nisso a motivação para a elaboração desse trabalho. Muitas são as técnicas de restauração, bem como os tipos de sistemas e práticas agroflorestais. Não se trata de elencá-las todas, mas de se apresentar os pontos cruciais para a compreensão do estado da arte nesses dois campos. Claro que as escolhas são conduzidas por uma prévia noção do que se pretende atingir, mas isso não retrata somente o malefício da escolha, pois é por ela que se construiu a lógica do tema desse texto. Não se deve, sobremaneira, considerar que a seqüência dos temas e tópicos representa uma tentativa de condução impositiva do autor sobre a idéia, mas sim de uma limitação retórica que, uma vez sabida, deve-se atentar.

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Histórico de degradação
Em fins da década de 60 e início dos anos 70, com o surgimento da revolução verde, houve o anseio por aumentar a produção agrícola mundial, principalmente de grãos, com o escopo de atender a demanda da crescente população humana - sanar a fome do mundo (Ehlers, 1994; Tilman, 1998); contudo, apesar desse aumento da produção, a melhoria da provisão mundial de alimentos foi passageira e, desde os anos 80, a fome e a desnutrição expandem-se em países pobres e ricos, mesmo havendo “potência produtiva mundial para alimentar, com folga e abundância, o dobro da população atual do planeta” (Kurz, 1998). Não se pode negar os reais avanços no aumento mundial da produtividade agrícola que a revolução verde proporcionou. Contudo, a questão que se vê posta é relativa aos custos ambientais e sociais que tal revolução representou. Partindo desse questionamento, vale o esforço para compreender a relação, quase sempre direta, entre a agricultura convencional moderna e a perda da biodiversidade no planeta. Como meios para atingir tamanha produtividade viu-se a homogeneização das práticas agrícolas em todo o mundo sob a égide da utilização maciça de insumos químicos (fertilizantes sintéticos, adubos minerais, inseticidas, fungicidas e herbicidas industrializados, por exemplo), do uso de variedades geneticamente modificadas, melhoramento genético de culturas, irrigações, motomecanização intensiva e, sobretudo, monocultivos em larga escala (Miklós, 1993a, 1996; Ehlers, 1994; Altieri, 1998; Engel, 1999). As práticas agrícolas propostas no quando da revolução verde agravaram os danos que a já incipiente agricultura moderna propiciava. Vê-se, por exemplo, que, no período compreendido entre as duas Grandes Guerras, o desenvolvimento de armamentos químicos serviu também como propulsor à aplicação de agrotóxicos nos campos de cultivo (Zambrone, 1986; Lutzenberger, 1993, 1998; Ehlers, 1994; Miklós, 1996). Dentre as diversas conseqüências negativas dessas técnicas, está a substituição de práticas agropecuárias tradicionais de diversas regiões do planeta por esse pacote tecnológico imposto e muito favorecido pelas políticas públicas (Altieri, 1998). Robert Kurz (1998), por exemplo, atribui à economia de mercado - sustentada pela ampla maioria dos países do planeta e representada na agricultura pelo modelo convencional imperante - a diminuição do cultivo e consumo de milhares de espécies vegetais pela humanidade, por considerá-las supérfluas, na lógica do agribusiness atual, desperdiçando, assim, o “legado de séculos de cultura agrária”. Aliados a esse problema sócio-cultural estão os danos ambientais que as práticas agrícolas convencionais propiciam, destacadamente o avanço das fronteiras agrícolas sobre áreas de vegetação nativa.

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A devastação das florestas tropicais na América Latina alcançou taxas de grande magnitude, sendo que a maior parte do desflorestamento nessa região é realizada para propósitos agrícolas, em particular para criar pastos para gado (Holl, 1999). No México, por exemplo, as perdas de florestas são, principalmente, decorrência da expansão da agricultura e criação de gado; a terra dedicada ao gado representa cerca de 11% do território e cresce 2,9% ao ano (Toledo et al., 1989 apud Otero-Arnaiz et al. 1999). Em Madagascar, que possui uma das maiores diversidades do mundo, a flora e fauna estão ameaçadas pela expansão de novas fronteiras agrícolas (Styger et al., 1999). Também, no Brasil, pode-se verificar esse histórico em praticamente todas as regiões (Anderson & Posey, 1987). No último século e, particularmente nos últimos 20 anos, grandes áreas da Bacia Amazônica têm sido devastadas e muita floresta convertida em pastos, chegando a números superiores a 20 milhões de ha (Nepstad et al., 1996). A especulação financeira, propulsionada pela construção de infra-estruturas de transporte e energia, tem acelerado o interesse na conversão de florestas em pastos. Esses pastos se mostram produtivos por 4 a 8 anos e então são abandonados, originando grandes áreas improdutivas e de difícil regeneração na Amazônia – talvez 1/3 dos pastos da Amazônia Oriental estejam nessa situação (Silva et al. 1996; Uhl et al. 1998). Na Amazônia há um padrão comumente observado de transição de agriculturas mistas para sistemas pecuaristas; freqüentemente pequenos agricultores que experimentam baixas produtividades são forçados a vender suas fazendas para latifundiários pecuaristas que, tipicamente, plantam pastos nessas terras (Browder & Pedlowski, 2000). Com a falência de muitos pecuaristas na região oriental da Amazônia, houve um aumento considerável das madeireiras. Em 1970, havia somente uma empresa dessa natureza em Paragominas, como exemplo; em 1990, já havia mais de 200 (Nepstad et al., 1991). O impacto da extração de madeira é maior do que a simples retirada da árvore que será comercializada. Muitos danos são causados em árvores vizinhas ao indivíduo visado. Algumas são destocadas, enquanto outras perdem suas copas, ou sofrem danos na retirada daquele indivíduo (Nepstad et al., 1998). A pecuária e a indústria madeireira modificaram a paisagem da região oriental amazônica de forma contundente e semelhante ao ocorrido em outras áreas florestais do planeta (Nepstad et al.1991, 1994). Tais modificações têm impactos de amplo espectro, afetando a hidrologia regional e o ciclo de carbono global. Esses ciclos estão ligados às dinâmicas relações entre a flora e o solo profundo, que têm sido negligenciadas nos estudos desses impactos (Nepstad et al., 1994). Na Mata Atlântica, a devastação tem a idade da colonização portuguesa na costa brasileira. Com a ocupação das terras litorâneas pelos europeus, desde o século XVI, houve o primeiro grande impacto ambiental negativo desse bioma; o histórico de devastação desse

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complexo de ecossistemas acompanhou os ciclos econômicos-agrários brasileiros, entre os quais o do café teve grande importância para o avanço da destruição das florestas de regiões mais interiores. Mas essa devastação não se restringe aos séculos iniciais da colonização européia no Brasil. Como exemplo, no Espírito Santo, vê-se que o pico da taxa de desflorestamento ocorreu entre 1975-1980 (Viana et al., 1997). A Mata Atlântica é hoje o ecossistema tropical mais ameaçado do mundo devido, grandemente, à conversão da floresta em áreas para agricultura e pecuária (Viana et al., 1997). O mesmo histórico de corte, queima, plantio e abandono que vivenciamos nos trópicos também foi visto nos EUA. Desde fins do século XVIII e início do XIX, aquele país sofreu intenso processo de colonização para agricultura, com conseqüente esgotamento da terra em vários lugares. A erosão e o empobrecimento da agricultura acarretou em pequeno êxodo rural naquele país (Bazzaz, 1968). As atividades agrícolas que sucedem ao desflorestamento deixam, freqüentemente, efeitos residuais na sucessão florestal subseqüente ao abandono dessas áreas, pois causam depleção da matéria orgânica do solo, perdas de nutrientes, alteram as propriedades físicas do solo, impedem não só a decomposição da matéria orgânica, como também o acúmulo de biomassa e reduzem a dispersão de sementes e o recrutamento de espécies primárias da floresta (Mesquita et al., 2001), sobretudo se tais atividades se dão de forma intensa. O futuro de uma tal terra aponta para um severo comprometimento da utilização agrícola, bem como dos atributos ambientais que a vegetação original proporcionava, tais como as funções biogeoquímicas, o microclima, a riqueza de espécies e a biodiversidade. Portanto, torna-se necessária a adoção de práticas restauradoras que conduzam a sucessão natural, ou que acelere o processo de recolonização do local, como plausível solução que remedeie a privação de áreas produtivas e a perda dos serviços ambientais e da biodiversidade. Muitas dessas práticas, contudo, figuram como gastos excessivos para pequenos proprietários. Preocupados com sua subsistência, essas pessoas não se encorajam a realizar a restauração a não ser que estejam sob ameaça de multas – que são ainda mais danosas financeiramente. Dessa forma, comumente pequenos e médios proprietários lançam mão do simples abandono da terra à regeneração natural. Essa é a prática tradicional e intuitiva, além de econômica (Crestana et al., 1993), que grande parte da cultura rural brasileira, e talvez das demais regiões tropicais do planeta, legou aos camponeses.

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Formas de associação entre a conservação biológica e as necessidades sociais e econômicas das populações camponesas devem ser obtidas (Styger et al., 1999; Murniati & Gintings, 2001; Muschler & Beer, 2001). Nesse escopo, estão as pesquisas com práticas agroflorestais aplicadas a populações rurais de diversas regiões do mundo, destacadamente nos trópicos (Browder &Pedlowski, 2000; Santos et al., 2000; Murniati & Gintings, 2001 entre outros). Nesses trabalhos, diversas vantagens ambientais e sócio-econômicas de práticas e sistemas agroflorestais são apontadas, mostrando possibilidades de desenvolvimento sustentável para comunidades ligadas ao uso da terra. Apesar do histórico apresentado, a agricultura não deve ser tomada como inerentemente danosa ao ambiente natural. Como intuitivamente pode ser constatado, qualquer atividade humana que necessite ocupar um espaço pode representar a eliminação de biota nativa; contudo, na atual conjuntura, em que grandes áreas já se encontram degradadas, atividades agrícolas podem ser direta ou indiretamente responsáveis pela melhoria na qualidade das comunidades naturais. No primeiro caso, quando se lança mão de técnicas, originalmente desenvolvidas para agricultura, capazes de promover recuperação de vegetação; no último, quando a agricultura é feita de maneira a amenizar danos de outras possíveis atividades antrópicas, por exemplo, no uso de produtos agrícolas no lugar de sintéticos químicos que causam danos ambientais em todo o processo de fabricação.

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A dinâmica florestal após o abandono agrícola
Quando o agricultor desiste de sua produção, por motivos quaisquer, e a terra sobre a qual ele cultivava é abandonada, inicia-se, então, um processo denominado regeneração natural, que é regido fortemente pela sucessão ecológica. Esses conceitos são discutidos aqui por se tratarem de plausíveis aliados na intervenção restauradora. O conhecimento de suas particularidades pode levar o restaurador a economias significativas de tempo e dinheiro. Além disso, como será visto posteriormente (ver tópico ‘SAF Ernst Götsch’), o sistema agroflorestal no qual esse texto se concentra se utiliza primariamente da sucessão ecológica como condutora, denotando, assim, o papel promissor desses conceitos em avanços no sentido da restauração através de práticas agroflorestais – sem se desconsiderar outras ferramentas para esse escopo, que também podem se valer desses conhecimentos. A regeneração natural é um processo natural de recolonização que pode ocorrer em áreas recém-perturbadas. Na natureza, o exemplo clássico em que isso é observado ocorre nos eventos em que clareiras são formadas pela morte e conseqüente queda de grandes árvores. A dinâmica da reocupação é objeto de estudo de diversas pesquisas ecológicas e tem se estendido das clareiras naturais para os campos de agricultura abandonados (MadDonnel & Stiles, 1983; Uhl, 1987; Uhl & Serrão, 1988; Nepstad et al., 1991 e 1996; Silva et al., 1996; Holl, 1999 entre outros). A compreensão do funcionamento da sucessão nesses campos improdutivos pode fornecer melhores ferramentas para o manejo da restauração e para a condução da sucessão no sentido do ambiente almejado – geralmente um tipo de vegetação original, mas também pode ser um campo agrícola restaurado (Nepstad & Serrão, 1991). A prática do abandono pode ser reminiscência da agricultura itinerante praticada por agricultores tradicionais desde as primeiras ocupações das terras tropicais. Em geral, nessa prática, utilizava-se um pequeno lote recém-cortado e queimado até que a sua produtividade decaísse, quando, então, era abandonado por décadas – tempo do pousio - até que sua fertilidade estivesse restaurada (Oliveira et al., 1994). Há que se destacar que essa prática é considerada sustentável enquanto agricultura de subsistência para pequenas comunidades com grandes áreas florestais à disposição. Quando praticadas por populações mais numerosas circunscritas em pequenos lotes rurais, o pousio é compelido a períodos menores, insuficientes para a restauração da fertilidade do solo. Sucessivamente com roças e pousios mais curtos, a área tende a se degradar e, a partir de então, mesmo com o seu abandono por períodos maiores, a sucessão não deve reconduzir a um estado de vegetação original – vê-se o fim da produtividade e a diminuição drástica da resiliência da área (Oliveira et al., 1994).

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Mesmo assim, há um crescente interesse entre os profissionais ligados à ciência florestal no potencial uso da colonização natural para formação de florestas secundárias a partir de terras não cultivadas (Crestana et al., 1993). A principal fonte de interesse reside nos baixos custos dessa prática restauradora, além de vários benefícios ambientais e para a conservação: combinar espécies, manter genótipos locais e criar uma floresta com aparência mais natural (Harmer et al., 2001). Em pastos abandonados na Amazônia Oriental, foram observados distintos padrões de regeneração, dependentes da intensidade dos distúrbios sofridos na área antes do abandono (Uhl et al., 1988). Assim, pastos que foram pouco utilizados em tempo e em intensidade de manejo (uso leve) apresentam rápida regeneração florestal; áreas de uso moderado também se desenvolvem nesse sentido, mas com menor velocidade do que no caso anterior e áreas de uso intenso não aparentam regeneração florestal, ao contrário, vê-se a formação de campos de arbustos e herbáceas (Uhl et al., 1988) que não evoluem para outros estágios, pelo menos, por décadas. Na Amazônia Central, quando ocorre um desflorestamento e a área é imediatamente levada pela sucessão natural, o retorno ao estado florestal é mais rápido do que o visto quando, após o distúrbio, a área é convertida em pastos ou queimada periodicamente (Mesquita et al., 2001). A sucessão nessas terras degradadas antropogeneticamente é distinta da que ocorre em clareiras naturais. As espécies que colonizam essas áreas diferem do modelo clássico de pioneiras em clareiras de florestas adjacentes. Antes de facilitar a sucessão, ou ter pequena influência negativa sobre ela, as plantas colonizadoras dessas terras podem inibir a sucessão por certo período de tempo, ou mesmo conduzir a sucessão para um tipo vegetacional distinto daquela comunidade anterior (Mesquita et al., 2001). A colonização de uma lavoura velha por mudas de árvores ou arbustos é afetada por diversos fatores, incluindo a falta de nutrientes do solo, compactação do solo, seca sazonal, dispersão de sementes, predação de sementes e herbivoria de mudas, emergência de mudas e competição das mudas com a vegetação vizinha - gramíneas exóticas principalmente (Gill & Marks, 1991; Holl, 1999). Em grande parte, o problema para a pouca regeneração natural em campos abandonados é o pequeno banco de sementes ali encontrado. Compare-se, por exemplo, que, num pasto pesquisado por Nepstad et al. (1996), havia 10 sementes/m2, enquanto na floresta havia 700 sementes/m2. E além da quantidade, o banco de sementes dessas áreas é constituído, normalmente, em grande parte, por espécies da vegetação herbácea do pasto. O banco de sementes pode sofrer modificação expressiva por causa do cultivo da área desflorestada. Por exemplo, após três anos de cultivo, o banco de sementes do local de estudo era três vezes maior do que o da floresta controle, mas a composição substituiu as espécies

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pioneiras (95% de todas as mudas na floresta) por herbáceas (92% das mudas na área de cultivo). Após o abandono da lavoura, em 5 anos de sucessão, havia 9000 sementes/m2 e as árvores pioneiras novamente ganharam importância (43% das mudas), denotando que há um incremento no banco de sementes se ocorre uma sucessão na área (Uhl, 1987). Essa sucessão é, muito provavelmente, causada pela chuva de sementes. A dispersão pode ser considerada como sendo o mais relevante dos fatores relacionados à regeneração natural (Holl, 1999). A dispersão de grande parte das espécies arbóreas dos trópicos é promovida pela ação de aves e morcegos. Esses animais muito raramente se arriscam em áreas abertas, como campos ou pastos, provavelmente para evitar exposição exacerbada aos predadores (Holl, 1999). 90% das árvores da região do estudo de Uhl et al. (1988), na Amazônia Oriental, são dispersas por animais que não ocorrem em áreas abertas (somente 10 das 150 espécies de aves da região parecem ocorrer em áreas abertas). Em outra pesquisa conduzida na floresta próxima aos pastos acima mencionados, foram observadas 47 espécies de aves frugívoras, 18 delas ocorreram em pastos abandonados e somente 3 em pastos ativos; mas somente 3 espécies são responsáveis por 70% da movimentação entre a floresta e o pasto abandonado (Silva et al., 1996). Por esse impedimento comportamental dos dispersores, a colonização dependente de chuva de sementes se dá de maneira muito lenta em áreas abertas muito extensas; em clareiras que excedem o diâmetro de 200-400m, ocorre pobre regeneração natural, relacionada ao refreamento da dispersão (Greene & Johnson, 1996). Já se observou um declínio na dispersão entre 25-50m de distância de uma floresta, mesmo sendo a área abandonada uma floresta secundária já estabelecida (Mesquita et al., 2001). Outros fatores potencialmente relevantes para regulação da colonização lenhosa em áreas agrícolas abandonadas são a predação de sementes e de mudas, especialmente se a área já se encontra com cobertura vegetal herbácea (Gill & Marks, 1991). Em pastos abandonados, a predação das sementes depositadas é muito mais intensa do que em clareiras da floresta. Como se viu, por exemplo, em Nepstad et al. (1996): mais do que 90% das sementes de Jacaranda copaia, Pourouma guianensis e Eugenia sp. foram removidas do pasto e 50% de Stryphnodendron sp. em dez dias. No mesmo período, nas clareiras, 55% de sementes de Jacaranda copaia e menos que 10% das sementes das outras espécies foram removidas. Resultados semelhantes são encontrados para a herbivoria de mudas, em que todas as espécies de mudas plantadas no pasto foram comidas severamente em mais do que 50% dos indivíduos, enquanto nas clareiras não houve nenhum indivíduo nessa situação.

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Observa-se baixa densidade e riqueza de plantas lenhosas em pastos abandonados, em conseqüência das altas taxas de mortalidade e de baixas taxas de emergência; após 2 anos do abandono, somente 2 árvores sobreviveram (0,04 indivíduos/m2); para comparação, os valores encontrados em clareiras próximas subiram de 13,8 para 17,5 indivíduos/m2 em 8 meses (Nepstad et al., 1996). Mesmo quando uma semente é dispersa para uma área agrícola abandonada, o estabelecimento de um indivíduo arbustivo ou arbóreo durante a sucessão é um evento pouco provável e ainda menos comum para sementes que caem entre herbáceas do que para as que caem em áreas abertas (Gill & Marks, 1991). Dessa forma, o padrão espacial esperado para a colonização potencial originada pela chuva de sementes pode ser alterado, por exemplo, pela natureza fragmentada da cobertura herbácea, às interações entre os predadores de sementes e mudas e seus carnívoros e às condições ambientais necessárias para emergência (Gill & Marks, 1991). As áreas manejadas pelas madeireiras têm rápido recobrimento florestal, mas são dominadas por cipós e pioneiras, se abandonadas à regeneração natural (Nepstad et al.1991). Nessas áreas, a regeneração florestal pode se estagnar e não se completar, pois os cipós, apesar de no início criarem microclima favorável à germinação de algumas mudas, acabam por “sufocar” as mudas do recrutamento com intenso sombreamento e elevado peso ao se apoiarem sobre as plantas juvenis (Amador & Viana, 2000). Nas regiões de florestas tropicais, os campos abandonados nos quais se desenvolvem somente arbustos e herbáceas, ou arbóreas de rápido crescimento, não devem ser encarados despreocupadamente pelos proprietários e ambientalistas. Essas são áreas de grande potencial de incêndios se comparados com as florestas tropicais que os antecediam (Nepstad et al., 1991). Ao se utilizar da regeneração natural como metodologia conservacionista, deve-se estar atento à evolução sucessional da área, pois, no caso de não se conseguir naturalmente uma vegetação similar à original, vegetações adjacentes também estarão ameaçadas com o risco de incêndios, o que pode incluir culturas agrícolas e ecossistemas naturais. Em fragmentos de vegetação natural isolados por áreas agrícolas, há um complicado ecótono entre os tipos de ocupação do solo. De um lado a vegetação natural sofre com incêndios provocados por agricultores que se utilizam desse manejo em suas terras e, do outro, a lavoura convive com o risco de incêndio que um fragmento de vegetação degradada representa.

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Restauração
Como definição geral, a restauração pressupõe um retorno ao estado original de uma área que sofreu degradação. Pode-se considerar o retorno à vegetação nativa da área antes da ocupação com, por exemplo, agricultura, ou pode-se pensar na restauração do potencial agrícola de uma área que perdeu sua produtividade (Lugo, 1998). As ações restauradoras e as ações de prevenção de perda de habitats naturais devem ser consideradas como igualmente relevantes, frente à conjuntura ambiental atual. Isso porque, após séculos de intensa destruição ambiental – considerando-se com maior ênfase a fase pósrevolução industrial – o que resta de ecossistemas naturais são poucas regiões de significativa extensão territorial intacta e diversos mosaicos de fragmentos e áreas degradadas. Considere-se ainda que as políticas de preservação e conservação de áreas naturais estão em marcha mais adiantada do que as concernentes à restauração, refletindo uma preocupação calcada no ideário de manutenção de áreas cênicas e intocadas que era o tom predominante da ecologia e ecologismo até pouco tempo atrás. Hoje se pode observar, com maior coerência, que a restauração de áreas degradadas (tanto para objetivos conservacionistas, como de produção agrícola) se aponta como promissor caminho para a conservação da biodiversidade; não se deve esquecer que se ampliando as áreas com vegetação nativa, ou similares a ela, afeta-se, positivamente, a riqueza de espécies e diversidade biológica. Mais do que isso, restaurando-se áreas derrelitas, pode-se auxiliar a conservação num contexto da ecologia da paisagem, buscando-se retomar atributos paisagísticos como conectividade, coerência e complexidade. Há que se ressaltar que uma das principais fontes de perda de biodiversidade apontadas atualmente é a fragmentação de habitats e conseqüente isolamento de populações. O isolamento, note-se, é decorrente da forma de ocupação das terras que a humanidade tem praticado. Após o uso intensivo e, regra geral, destrutivo do espaço, restam áreas pouco diversas e geralmente hostis às espécies originais. Os ambientes ocupados pelas comunidades primitivas mantêm-se isolados por esse tipo de áreas e tendem a se enfraquecer com as extinções pontuais que, com freqüência, ocorrem – decorrentes, por exemplo, de erosão gênica, escassez de recursos, doenças, competição e predação exacerbadas. Uma forma sugerida para restabelecer a vegetação em áreas agrícolas e reverter a degradação da terra é a semeadura direta. Atesta-se que é um método eficiente e barato. No caso de restabelecimento de espécies arbóreas, pioneiras de rápido crescimento seriam recomendáveis, pois essas desenvolveriam o micro-habitat adequado para as demais espécies florestais e aceleraria a sucessão (Dan & Dickinson, 1996).

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Estratégias para se aumentar a produtividade agrícola das terras amazônicas têm de focar na restauração das áreas abandonadas. Reformas de pastos podem ser iniciativas interessantes para acabar com as áreas abandonadas e improdutivas (Nepstad et al., 1991). Uma forma de recuperar pastos degradados é através da ação do homem como dispersor de sementes da floresta para o campo; mas essas sementes precisam deter características específicas, quais sejam: serem impalatáveis aos predadores, possuírem grandes reservas (geralmente característico de sementes grandes), serem pouco exigentes em nutrientes e terem enraizamento profundo (Uhl et al., 1988). Assim, algumas atividades de manejo são necessárias se o objetivo do abandono é a recuperação de atributos ecológicos. Para restabelecimento de uma floresta, recomenda-se, por exemplo: enriquecimento da área com mudas, ou sementes de árvores da região, caso não haja fontes de propágulos próximas; que haja corte de gramíneas e herbáceas ruderais que possam estar inibindo o desenvolvimento das mudas de árvores e até a poda corretiva dessas mudas (Crestana et al., 1993). Ainda são poucas as pesquisas em tecnologias de restauração de fragmentos florestais tropicais (Viana et al., 1997). Apesar disso, alguns preceitos podem ser destacados desses trabalhos. Com eles, dar-se-ia uma plausível facilitação do processo de restauração, economizando tempo e gastos, ou ao menos, compensando-os. Muitos trabalhos apontam no sentido de que árvores e arbusto, mesmo que isolados, são pontos de convergência de aves e mamíferos dispersores de sementes (Nepstad, 1996; da Silva et al., 1996; Holl, 1999; Harvey, 2000 entre outros), tornando-se, assim, núcleos de regeneração e de recrutamento de espécies arbóreas nativas, os chamados poleiros (Debussche & Isenmann, 1994; Otero-Arnaiz et al., 1999). Aves e morcegos dividem, temporalmente e em igual importância, o papel da dispersão de sementes, estipulando que, no início da sucessão após o abandono da área, o papel principal seja exercido pelos morcegos, pois que não há muitas árvores com frutos atrativos às aves nessa fase, enquanto as pioneiras dominantes são dispersas por morcegos (Silva et al., 1996). Diferenças quantitativas e qualitativas na chuva de sementes podem ser encontradas em pastos com “ilhas” de vegetação (poleiros) formadas, por exemplo, por arbustos, se comparadas com os pastos sem os poleiros. Sob os arbustos, já se encontrou 400 vezes mais sementes do que nos pastos sem os poleiros; também podem ser encontrados, no primeiro caso, sementes de 22 espécies de lianas ou arbóreas, enquanto no pasto aberto, somente 5 espécies (Nepstad et al., 1996). Muitas características propiciam a regeneração quando poleiros estão presentes. Sob as copas de árvores, que servem como poleiros, há microambiente propício ao estabelecimento de outras plantas; a predação de sementes e a herbivoria de mudas são menores sob as árvores;

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aves e pequenos mamíferos concentram-se ali, promovendo a troca de sementes e o banco de sementes sob esses poleiros parece ser rico (Otero-Arnaiz et al., 1999). Resultados da observação do comportamento de aves e da coleta de sementes em pastos homogêneos mostraram que, nessas áreas, a dispersão é muito menor do que em pastos com arbustos ou árvores esparsas. Já se pôde concluir, ainda, que o sentido da movimentação das aves não é randômico, dando-se da floresta secundária para árvores e arbustos do pasto que estejam numa distância de até 80m da borda (Silva et al., 1996). Aves podem agir diferentemente no que se refere ao comportamento dispersor. Algumas são dispersoras efetivas, outras só “roubam” os frutos e algumas comem o arilo e largam as sementes in situ. Muitas espécies, entretanto, são dispersoras ocasionais (Howe, 1977). A extinção de uma espécie de árvore pode provocar a extinção de algumas espécies de aves se essas forem dependentes dos seus frutos em determinada época do ano. Conseqüentemente pode haver uma diminuição no recrutamento de outras espécies de árvores às quais essas aves servem de dispersoras (Howe, 1977). Mesmo a função estrutural dos poleiros é tida como sendo importante atrativo às aves, por isso poleiros artificiais poderiam agir como catalisadores dos núcleos de regeneração; para avaliar essa afirmação, McDonell & Stiles (1983) criaram campos com poleiros artificiais de diferentes estruturas para comparar com os poleiros naturais de outros campos da pesquisa. Para esses pares, encontraram resultados aproximados: no campo com poleiros naturais, 53,2 sementes/m2; no campo com poleiros artificiais, 29 sementes/m2. Para comparação, campos sem poleiros (simples), pareados com os campos com poleiros artificiais e naturais (complexos) tiveram resultados de outra grandeza: artificial simples, 1,1 sementes/m2; no natural simples, 7,4 sementes/m2. Além da estrutura do poleiro, sua altura pode ser decisiva para atrair a fauna dispersora. Encontra-se relação direta entre a altura do poleiro e a densidade da chuva de sementes sob sua copa (Debussche & Isenman, 1994). O estabelecimento de árvores frutíferas no campo abandonado há algum tempo torna-se difícil a não ser sob a copa de pioneiras que se estabeleceram anteriormente, quando, por ventura, houve menor competição entre as mudas de arbóreas e as gramíneas do campo. Mesmo o recrutamento sob as copas dessas pioneiras só ocorre após a ação dessas plantas na modificação do micro-clima, solo e na eliminação das herbáceas por competição (Debussche & Isenman, 1994). Apesar de algumas informações discordantes acerca de distâncias, estrutura e tipo de poleiros, variações inerentes às regiões e de enfoque do pesquisador, os dados sobre o papel de poleiros na recolonização de áreas degradadas são positivos. Insinuam um possível manejo, ou simplesmente que, apesar da degradação, há melhores chances de restauração se algumas árvores ou arbustos estão presentes. Outra possível leitura é que se pode utilizar de espécies

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estratégicas que forneçam serviços e benefícios econômicos e que, no futuro, sirvam de poleiros, facilitadores da restauração. A presença de árvores em paisagens agrícolas pode se dar como unidades paisagísticas lineares, representadas por quebra-ventos, cercas-vivas, sebes e alamedas. Nessa disposição, as árvores potencializam seu papel de poleiros merecendo atenção especial no que tange aos serviços ambientais que prestam. Sobretudo deve-se lembrar de que, nesse caso, a presença deliberada dessas árvores é devida a interesses culturais-econômicos. Em seu estudo em Monteverde, Costa Rica, Harvey (2000) viu que, em apenas 5 a 6 anos, os quebra-ventos da região já apresentavam mudas de ¼ das espécies de plantas arbóreas conhecidas na região. Esses quebra-ventos eram formados por árvores exóticas e não frutíferas, que, mesmo assim, serviram como poleiros. Ainda melhores resultados foram observados em quebra-ventos com a presença de, pelo menos, uma árvore nativa; nesses, houve significativo aumento na densidade e riqueza de mudas recrutadas relacionado, direta e espacialmente, com a árvore nativa presente. Numa paisagem agrícola, com poucas áreas florestadas, cercas-vivas e quebra-ventos podem ser os únicos habitats para plantas e animais florestais. Conseqüentemente muitas espécies que ocorriam em florestas, agora ocorrem em quebra-ventos e cercas-vivas, que, portanto, sevem como um reservatório de árvores nativas daquela paisagem e podem auxiliar na sua regeneração se pastos ou lavouras forem abandonados (Harvey, 2000). Além desse papel de reservatório de espécies arbóreas, cercas-vivas, quebra-ventos, alamedas, matas ciliares e outras unidades paisagísticas lineares, já cumprem função de corredor e provêm habitat para uma gama de espécies animais que são confinadas pelo cultivo e uso da terra praticados atualmente (Bennett et al., 1994). Relembremos que essas unidades lineares demonstram excelente exemplo da aliança entre práticas agrícolas e bons resultados ambientais.

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Sistemas Agroflorestais
Os sistemas agroflorestais (SAFs) poderiam estar listados como os poleiros e cercasvivas, mas, por se tratarem do enfoque desse texto, aparecem aqui como um tópico à parte. Isso, porque os SAFs ainda não são tidos como práticas de intervenção restauradora, mas detêm esse potencial, bem como os poleiros e quebra-ventos. Atualmente a agrofloresta (AF) figura entre os estilos de agricultura denominados alternativos, ecológicos, regenerativos, sustentáveis. O termo agrofloresta abrange uma ampla gama de atividades produtivas que, por vezes, representam até mesmo antagonismos. Em verdade, modernamente, a discussão existe pela importância crescente na padronização dos termos para finalidades acadêmicas e de extensão rural. Também pode representar uma maior atenção sobre esse campo. Cabe, aqui, um breve resgate histórico das práticas de cultivos da humanidade. Desde os primeiros tempos da agricultura, pode-se considerar que as atividades daqueles homens, no que concerne à obtenção de alimentos vegetais, eram, sim, agroflorestais. Basta se utilizar uma definição abrangente do termo e lembrar-se de que, provavelmente, as primeiras plantas domesticadas foram plantadas juntas a outras lenhosas perenes. Aproximando-se um pouco mais da contemporaneidade, os agricultores, de até um século atrás, conduziam sistemas complexos, constituídos por espécies arbóreas, arbustivas e herbáceas ocupando a mesma área e com finalidades múltiplas (Anderson & Posey, 1987). Não só os intuitivos pomares ou jardins mistos são excelentes exemplos, como também, as grandes concentrações de castanheiras e palmeiras na região amazônica, que, até há pouco tempo, eram consideradas naturais, mas, sabe-se agora, que representam intervenções humanas de épocas antigas. Outros possíveis modelos são as roças do sistema corte e queima, a utilização de espécies de cobertura, a adubação verde, aceiros contra fogo, árvores para sombrear gado e outros (Anderson & Posey, 1987; Oliveira et al., 1994). Confunde-se agrofloresta com a agrossilvicultura que define o plantio de espécies arbóreas de interesse comercial junto a espécies agrícolas anuais; a agrossilvicultura inclui tanto o desenvolvimento de sistemas agroflorestais como o uso de práticas agroflorestais. Como o termo indica, são atividades agropecuárias unidas à silvicultura; por isso Nair (1986) sugere que o melhor uso do termo seria agrissilvicultura quando não se refere ao uso agropecuário no senso amplo. De forma geral, a agrossilvicultura surge como um novo paradigma dentre o desenvolvimento sustentável, constituindo-se como a mais adequada forma de uso da terra em muitas situações em que se busca a associação entre produção e conservação ambiental (Engel, 1999).

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As tentativas de definições e classificações de sistemas agroflorestais são controversas e ainda não estão bem estabelecidas (Nair, 1986). Contudo, genericamente, pode-se assumir que agroflorestas são tentativas de uso de terra que integram, deliberadamente, árvores ou outras lenhosas perenes com cultivos agrícolas e/ou criação animal. As práticas que são comumente consideradas como agroflorestais abarcam uma ampla gama de uso do solo que podem até mesmo divergir entre si em aspectos conceituais. Cultivos em aléias, cercas-vivas de árvores em campos de cultivo, árvores e arbustos como corta-fogo ou quebra-vento, uso de perenes na conservação do solo, pomares, talhões em terras agrícolas e outras práticas afins são tidas como agroflorestais. Contudo, qualquer uma dessas práticas torna-se um ‘sistema’ agroflorestal quando se desenvolvem num local específico de tal maneira a se tornarem um tipo de utilização definitivo do solo naquela área. Nair (1985) propõe uma classificação em que, hierarquicamente, identifique-se a natureza dos componentes (agrossilvicultura, silvopastoreio, agrossilvipastoreio); o arranjo dos componentes (temporal - coincidente, concomitante, seqüencial, etc. - e/ou espacial - misto denso, misto esparso, em linhas, etc.); a função ou papel dos componentes (proteção, alimento, forragem, etc.); a zona agroecológica e outras especificações ambientais (tropical úmido, árido, semi-árido, etc.); as características sócio-econômicas e do nível de manejo (comercial, subsistência, intermediário) e caracterização dos componentes vegetais (principais espécies arbóreas, produtos, serviços, etc.). Assim, quando se fala aqui em SAFs, é preciso atentar para o tipo de sistema ao qual se refere, além dos sub-sistemas e das práticas agroflorestais. Os numerosos modelos de AFs tornam a definição e classificação tarefa muito complexa. Em geral, os agricultores que desenvolvem práticas ou sistemas agroflorestais o fazem intuitivamente, ou pela herança cultural, não obedecendo, portanto, a padrões ou a regras exteriores, determinadas por técnicos ou pesquisadores. Cabem a esses profissionais a observação e estudo de alguns exemplos para que sejam avaliados como paradigmas de desenvolvimento sustentável ou ferramenta para restauração ambiental, e se sim, então, difundidos. SAF Ernst Götsch Na região sul da Bahia, um modelo de SAF idealizado e desenvolvido pelo agricultorpesquisador Ernst Götsch retrata exatamente o caso de experimentação empírica que torna os agricultores em pesquisadores. Com observações sensíveis, Götsch desenvolveu grande conhecimento acerca da flora e ecologia locais aliando-o a praticas agroflorestais trazidas de experiências anteriores em outras localidades. O manejo desse SAF tem se apoiado fundamentalmente na tentativa de aplicar, em agricultura, estratégias ecológicas encontradas em ecossistemas naturais, destacadamente a

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sucessão natural, como requisitos para o aumento da qualidade e complexidade da vida e melhora do solo (Peneireiro, 1999). Como principais instrumentos desse sistema de produção, apresentam-se a poda e a capina seletiva. Quando a matéria orgânica é disponibilizada pela poda, há um incremento na vida do solo, deixando-o propício ao desenvolvimento vegetal, prescindindo-se, dessa forma, do uso de fertilizantes externos ao sistema (mesmo os orgânicos). Isso, aliado à capina seletiva, promove uma aceleração no processo natural da sucessão vegetal que é objetivada nesse SAF. Uma outra ferramenta, de que esse SAF se utiliza, é o plantio em consórcios e em altas densidades buscando a ocupação de todos os nichos ecológicos das plantas, dividindo, simultaneamente, o espaço com espécies que podem estar presentes espontaneamente e outras arbóreas sem espaçamento definido (Götsch, 1995). Esse componente lenhoso é tido como de grande importância para o favorecimento da produtividade, da dinâmica e da sustentabilidade do SAF (Götsch, 1995). Sugere-se, também, que o componente arbóreo tem efeitos positivos sobre a fertilidade do solo e sobre o controle da erosão, na ciclagem de nutrientes, bem como no equilíbrio fitossanitário (Engel, 1999). SAFs, bem como as cercas-vivas estudadas por Harvey (2000), podem trazer à paisagem agrícola espécies vegetais nativas, que, por sua vez, induzem a vinda de animais e, conseqüentemente, relações ecológicas mais complexas; surgem, desse modo, refúgios de biodiversidade no mesmo lugar em que há a produção de alimentos. Além dessa comparação, pensando-se em unidades paisagísticas lineares, algumas AFs podem atuar como corredores para fluxo biológico, faixas de contenção de erosão, cortaincêndios e mesmo quebra-ventos. No entanto, o uso de SAFs com essas disposições lineares é incomum; vê-se, com maior facilidade, SAFs em áreas voltadas à produção e ocupando o espaço que, em outras propriedades, é o local da roça principal. Nessas circunstâncias, pode-se vislumbrar a vegetação da AF como uma possível matriz paisagística. A matriz, sob o construto ideológico da ecologia da paisagem, é definida, grosso modo, como a unidade da paisagem que não é habitat para a(s) espécie(s) focada(s). Num contexto de paisagens rurais em mosaicos, a matriz é a unidade predominante na qual estão inseridos, por exemplo, roças, construções, fragmentos de vegetação nativa e corpos d’água. É ela, portanto, que circunda as demais. No caso de fragmentos ilhados de vegetação nativa, as características da matriz são determinantes na existência de fluxo biológico entre a ‘ilha’ e as demais unidades, ou entre uma ilha e outra. A essa propriedade das unidades da paisagem - a de permitir fluxo biológico entre e dentre sua área - denomina-se permeabilidade paisagística. A permeabilidade da matriz pode ser limitante, por exemplo, para que indivíduos de uma população encerrada em um fragmento se reproduzam, ou, ainda, que encontrem recursos

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alimentares suficientes à sobrevivência. Frente a isso, ecologistas postulam que grande parte das populações que se encontram nesses fragmentos correm o risco de se extinguirem se confinadas aí. Remetendo-se às comparações feitas entre SAFs e outros exemplos de uso do solo que permitem maior riqueza de espécies, pode-se concluir que SAFs biodiversos, complexos e multiestratificados, se desenvolvidos como elementos da paisagem produtivos e predominantes, poderiam tornar-se matrizes significativamente permeáveis. Se inseridas em uma região com poucas formações florestais, as AFs serão os refúgios de espécies nativas naquela paisagem, mais do que isso, podem servir como ‘trampolins’ (o termo em inglês, que tem se consagrado na literatura, é stepping stones) para alguns organismos. Normalmente, são utilizados por animais migratórios, ou que necessitam de grande território no seu percurso pela paisagem. Diferentemente da matriz permeável, que lhe permite o fluxo contínuo, os trampolins estão isolados uns dos outros, mas a distâncias que permitem a vinda de animais de outros trampolins - geralmente, fala-se de animais voadores, mas pode-se aplicar para terrestres que somente atravessam a matriz para alcançar o trampolim. Essa função diferencia-se dos poleiros, por serem os trampolins também habitat para as espécies que os utilizam; neles podem encontrar recursos, parceiros reprodutivos e locais de reprodução. Também é usual aplicar-se a denominação de poleiros para estruturas mais simples, compostas por um ou poucos indivíduos lenhosos, enquanto os trampolins são, geralmente, pequenos fragmentos de vegetação de maior área. Parece promissor o papel dessas formas de uso do solo na conservação biológica, principalmente, no que tange à ecologia da paisagem. No entanto, mais pesquisas são necessárias para se quantificar as funções paisagísticas de sistemas multiestratificados, como as agroflorestas (Muschler & Beer, 2001).

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SAF Ernst Götsch na restauração
Ações restauradoras são urgentes em algumas situações de intensa degradação ambiental. Em grande parte dos casos, a responsabilidade e os custos pela restauração são dos proprietários da área que se deseja restaurar. Esses proprietários, se pequenos ou médios agricultores, não dispõem de tempo ou recursos para devotar à restauração se isso não trouxer benefícios palpáveis. Algumas iniciativas de pesquisa em agroflorestas têm sido no sentido de utilizá-las como uma ferramenta para restaurar, ou acelerar a regeneração natural de áreas degradadas (Amador & Viana, 2000). Com isso, pretende-se viabilizar, economicamente, as práticas de restauração, pois, ao menos os gastos da intervenção poderão ser compensados pelos produtos dessas AFs. Outra possível vantagem do SAF Ernst Götsch para a restauração é a rapidez com que se consegue atingir uma fisionomia florestal nesse sistema. Pode-se atribuir a velocidade ao manejo constante da área, que permite o acompanhamento da evolução do plantio; em um reflorestamento convencional, por exemplo, esse acompanhamento não se dá de forma tão intensa, pois não se espera que o proprietário da terra dispense seu tempo e mão-de-obra no reflorestamento enquanto áreas de cultivo estão em funcionamento. No caso dos SAFs como ferramentas de restauração, o agricultor já está trabalhando na área de cultivo e no reflorestamento, simultaneamente. Como a sucessão natural é a modeladora desse tipo de AF, em praticamente todos os momentos da área têm-se plantas em crescimento e ocupando diferentes estratos, por isso há microclima favorável ao recrutamento de mudas de espécies plantadas e espontâneas. Também evita a invasão por espécies herbáceas ruderais e aumenta a riqueza de espécies. Em SAFs biodiversos e complexos, pode-se conseguir índices de diversidade e riqueza equiparáveis aos obtidos em ecossistemas florestais naturais, como o observado por Peneireiro (1999) em seu trabalho com as AFs de Ernst Götsch. Como um ecossistema análogo às florestas naturais, os SAFs conduzidos pela sucessão natural, introduzindo árvores e arbustos em solos degradados ou em via de degradação, podem contribuir para a recuperação da capacidade produtiva desses solos (Dubois & Viana, 1994b). Em uma floresta, a serrapilheira é responsável por parte significativa da ciclagem de nutrientes em solos de baixa fertilidade, nesse caso sendo formada pela queda natural de folhas e ramos das plantas. Além disso, essa camada de folhas mortas e matéria orgânica que cobre o solo funciona como uma proteção ao choque direto das gotas de chuva que podem compactar e, subseqüentemente, erodir o solo (Dubois & Viana, 1994b). Nos SAFs, a cobertura da camada superficial do solo pela serrapilheira se dá, além dessa forma, pelas podas a que as plantas do SAF são submetidas, acarretando em material com mais nutrientes do que no caso de abscisão foliar natural (Dubois & Viana, 1994b; Göstch, 1995).

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Outra contribuição que a agrofloresta pode dar para recuperar um solo degradado é oriunda dos sistemas radiculares das árvores componentes do sistema, pois algumas dessas raízes conseguem alcançar camadas mais profundas do solo capturando daí nutrientes e reintegrando-os ao sistema, ‘adubando’ o solo para as espécies com enraizamento mais superficial (Dubois & Viana, 1994b). Além disso, um manejo do SAF com podas e capinas seletivas pode desenvolver melhor e mais rapidamente o solo, a sua cobertura e fauna edáfica, se comparado com os resultados de uma área similar sujeita à revegetação natural (como por exemplo, uma capoeira) e, sobretudo, pode-se prescindir do uso de agroquímicos e insumos externos danosos à saúde ambiental (Peneireiro, 1999). Sobre a relação entre os SAFs de Ernst Götsch e a recuperação do solo, pode-se verificar que:
“i) o manejo do componente arbóreo em SAFs aumentou os teores de nutrientes disponíveis do solo; ii) o manejo adotado nesse SAF contribuiu para uma ciclagem e uso mais eficientes dos nutrientes; iii) o SAF testado mostrou-se muito eficiente para a recuperação de solos degradados; iv) o solo e seus componentes (raízes e fauna) tem papel importante na recuperação e manutenção da fertilidade dos solos em SAFs” (Peneireiro,

1999)

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Limites do SAF para a restauração
Áreas de Preservação Permanente Quando uma área deve ser restaurada por força de obrigação legal e está inserida em uma propriedade particular, deve se tratar, com alguma certeza, de Áreas de Preservação Permanente (APPs), definidas, no Código Florestal brasileiro, assim:
“Art. 2° Consideram-se de preservação permanente, pelo só efeito desta Lei, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas: a) ao longo dos rios ou de outro qualquer curso d'água, em faixa marginal cuja largura mínima será: 1 - de 5 (cinco) metros para os rios de menos de 10 (dez) metros de largura: 2 - igual à metade da largura dos cursos que meçam de 10 (dez) a 200 (duzentos) metros de distancia entre as margens; 3 - de 100 (cem) metros para todos os cursos cuja largura seja superior a 200 (duzentos) metros. b) ao redor das lagoas, lagos ou reservatórios d'água naturais ou artificiais; c) nas nascentes, mesmo nos chamados "olhos d'água", seja qual for a sua situação topográfica; d) no topo de morros, montes, montanhas e serras; e) nas encostas ou partes destas, com declividade superior a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive; f) nas restingas, como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de mangues; g) nas bordas dos tabuleiros ou chapadas; h) em altitude superior a 1.800 (mil e oitocentos) metros, nos campos naturais ou artificiais, as florestas nativas e as vegetações campestres. Art. 3º Consideram-se, ainda, de preservação permanentes, quando assim declaradas por ato do Poder Público, as florestas e demais formas de vegetação natural destinadas: a) a atenuar a erosão das terras; b) a fixar as dunas; c) a formar faixas de proteção ao longo de rodovias e ferrovias; d) a auxiliar a defesa do território nacional a critério das autoridades militares; e) a proteger sítios de excepcional beleza ou de valor científico ou histórico; f) a asilar exemplares da fauna ou flora ameaçados de extinção; g) a manter o ambiente necessário à vida das populações silvícolas; h) a assegurar condições de bem-estar público.” (Brasil,

1965).

Nessas áreas, ou em outras com restrições semelhantes, não é permitida a exploração econômica, ou o manejo de recursos naturais. Quando já degradadas, reflorestamentos são conduzidos para que possam ser restauradas.

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Se se considerar um SAF uma técnica de reflorestamento, pode-se argumentar, em seu favor, para ser utilizado em APPs. Contudo, lançando mão do plantio de espécies exóticas e domesticadas, os SAFs são tidos como práticas agrícolas (e o são) que devem, portanto, ser evitadas em APPs. De fato, a discussão não é simples e faltam estudos que avaliem mais precisamente um possível uso de SAFs em APPs como técnicas restauradoras. Deve-se ponderar os custos e benefícios de tal proposta, pois que já há poucas áreas de vegetação nativa em APPs. Por outro lado, as vantagens aos proprietários, representadas pela compensação dos gastos com a restauração, devem ser levadas em conta, bem como as ações catalisadoras descritas no item ‘SAF Ernst Götsch’. A preocupação que há na utilização dos SAFs em APPs jaz sobre possíveis perturbações no ambiente, tais como: introduções de patógenos, alterações tróficas, introdução de predadores, novas relações ecológicas, dominância de algumas espécies e novas dinâmicas populacionais. Seria necessária uma manutenção muito precisa do local para que tais perturbações fossem evitadas ou minimizadas. Apesar das intervenções constantes que o agricultor realiza no SAF, a percepção de algumas dessas perturbações descritas acima é muito difícil. Argumentos a favor de SAFs devem propor que, após um curto período de produção agroflorestal, a área seja abandonada para que as mudas de espécies nativas recrutadas possam se desenvolver e, posteriormente, eliminar do sistema as exóticas. Para isso, a escolha das espécies plantadas deve ser feita visando ao abandono e, portanto, priorizando espécies arbóreas nativas que permanecerão após ele. Além disso, as espécies do início também são importantes no momento da escolha. Zona tampão Apesar da polêmica acerca das APPs, a utilização de SAFs em outras áreas que não estejam previstas como unidades de conservação (UC) pode ser muito bem sucedida Ainda é muito pouco desenvolvido o conceito de utilização sustentável dos recursos naturais em Áreas de Proteção Ambiental (APA), que são, geralmente, regiões de interesse ambiental por estarem localizadas próximas, ou no entorno de unidades de conservação mais restritivas (parques, estações ecológicas, reservas etc.). Nelas pode haver o uso e manejo da terra pela população, desde que esses usos sejam coerentes com a função conservadora da área (‘zona tampão’), no entanto as práticas humanas nesses espaços são as mesmas de outras áreas que não APAs, o que vale dizer que não há, ainda, preocupação acerca de atividades mais sustentáveis nas APAs. Comumente nas áreas de entorno de unidades de conservação, a população é constituída por pequenos e médios agricultores que se utilizavam, tradicionalmente, dos recursos naturais que hoje estão encerrados nessas unidades. Esse cenário não é exclusivamente brasileiro.

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Como se vê em Murniati & Gintings (2001), comunidades adjacentes a parques nacionais da Indonésia, usualmente coletam recursos da vegetação preservada; contudo, para famílias com fazendas diversificadas (com produção de arroz aliada a pomares mistos - agroflorestas multiestratificadas), a dependência dos recursos dos parques é menor do que nos casos de produtores menos diversificados (que produzem somente arroz, ou que somente têm pomares); os números são: 70% dos produtores de pomares mistos, 64% dos produtores de arroz e 14% dos produtores com arroz e pomares mistos estão envolvidos em coletas no parque nacional da região (Murniati & Gintings, 2001). Esses dados refletem, indiretamente, a condição social dessas famílias que necessitam de complementação de recursos com a coleta, pois que as suas práticas agrícolas não estão suficientes. Claro que se deve destacar o caráter cultural da coleta, mas atente-se ao fato de que outras famílias, com possivelmente a mesma formação cultural, já não dependem tanto dessa coleta. Portanto, nesse caso, vê-se explícita a relação entre fatores sociais e ambientais; nesse trabalho, Murniati & Gintings (2001), os autores estimaram um hipotético cenário em que, no entorno do parque, só houvesse produtores de arroz aliado a agroflorestas. Nessa situação, os agricultores cortariam 700 vezes menos árvores anualmente do que se os agricultores fossem produtores só de arroz (cenário similar ao encontrado em algumas APAs brasileiras, substituindo-se o arroz por outra monocultura). Os resultados desse trabalho corroboram a visão de que SAFs são um excelente modo de uso da terra em zonas tampão, pois podem auxiliar na integridade ecológica da UC de diversas formas. Além de minimizar a coleta das famílias do entorno nas áreas preservadas, promovem conservação do solo e água, estendem o habitat de algumas espécies para além dos limites da UC (Murniati & Gintings, 2001).

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Problemas agronômicos do SAF
Ainda há poucas pesquisas em SAFs multidiversos com enfoque agronômico. Muitos agrupam, genericamente, práticas e resultados desse sistema agrícola com outros considerados como agricultura ecológica, ou alternativa, ou ainda regenerativa (Ehlers, 1994; Lutzenberger, 1998). As críticas, quanto à possível produtividade dos SAFs, são rebatidas com dados escassos ou com exemplificações baseadas em diversas práticas agrícolas que nem sempre podem ser sinonimizadas com SAFs. Há, no Brasil, diversos grupos dedicados ao desenvolvimento de pesquisas com agroflorestas, mas ainda não se pode homogeneizar os resultados com as demais realidades do país. Vê-se um bom exemplo de tentativa de pesquisa ligada ao agricultor no Projeto Piloto Agroflorestal de Rondônia, no qual participaram 50 agricultores de pequenas propriedades por um período de 5 anos. Ao final desse período, 13 dos agricultores foram considerados falidos, enquanto 11 exibiram crescimento exemplar nas performances. Houve algumas explicações para os casos de falência: as principais podem ter sido por manejo inadequado da área, ou por problemas na mão-de-obra familiar (doenças, desistência de alguns trabalhadores e pouco esforço de trabalho na área são alguns exemplos); outras foram as escolhas inadequadas de local e plantas; também houve interferência por parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra no sentido de encorajar alguns dos agricultores do projeto a abandonarem aquela terra para buscarem novas terras em outros lugares. As causas ambientais foram pouco proeminentes e os autores consideram que sejam superestimadas na literatura (Browder & Pedlowski, 2000). Apesar dos casos de falência, considera-se que os resultados iniciais do Projeto foram encorajadores, pois mais de 65% dos agricultores continuaram mantendo suas áreas após os 5 anos. Isso é marcante, pois, na maioria dos casos, a localização das áreas de experimentos era tipicamente em lavouras degradadas com pequeno potencial regenerativo e que não receberam fertilizantes após o plantio (Browder & Pedlowski, 2000). É certo que há outros trabalhos envolvendo pesquisadores e agricultores em SAFs, faltam, contudo, resultados que generalizem práticas que possam ser difundidas amplamente. Além disso, a elaboração e condução de SAFs complexos, conduzidos pela sucessão natural, exige conhecimentos aprofundados da biologia das espécies plantadas (ciclo de vida, tolerância e exigência à luminosidade, solo, umidade); das relações entre algumas espécies, para elaboração de consórcios e, sobretudo, da sucessão natural para que se possa acompanhar a evolução da área. Muitos desses conhecimentos não são usuais e foram perdidos pelos agricultores, principalmente pelos mais jovens que já nasceram sob o ideário da revolução verde.

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Vantagens do SAF
A função adubadora de árvores e arbustos componentes de um SAF justifica, por si só, a utilização de agroflorestas onde se busca associar cultivos agrícolas com árvores (Dubois & Viana, 1994b). Como se trata de um sistema análogo aos ecossistemas naturais, a decomposição da serrapilheira é importante fonte de nutrientes, além da absorção radicular profunda. Dessa forma, não se faz necessária a adubação sintética. A biodiversidade auxilia no controle biológico de pragas e, mais uma vez, prescinde-se de sintéticos biocidas para esse controle. Sem o uso desses agroquímicos, minimiza-se ou não se tem contaminação do ambiente (águas subterrâneas, solo, rios e ar). Sociais A insistência no modelo convencional de desenvolvimento agrícola, oriundo da revolução verde continuará a alavancar o êxodo rural (Carmo & Magalhães, 1999), o abismo social observável no campo, a degradação dos solos e os impactos ambientais negativos decorrentes dessas práticas. Um exemplo muito próximo disso se dá no chamado avanço da ‘fronteira agrícola brasileira’; semanalmente vê-se, em manchetes de jornais de grande circulação no país, notícias sobre os lucros da soja em território de Floresta Amazônica, inclusive na propaganda do governo do Estado do Pará, que encoraja os produtores a “preservarem seus lucros” nesse estado (grifo meu). É preciso que os agricultores, consumidores e técnicos possam ter suficiente apoio científico/acadêmico, quando na busca por soluções alternativas de produção, que visem a alcançar a sustentabilidade na agricultura – que é atividade humana imprescindível para manutenção da população. Sempre é lastimada a falta de diálogo entre trabalhos científicos teóricos na área de ecologia e suas aplicações práticas (Joly et al., 2000). Nenhum setor do conhecimento poderia ser tão profícuo no cumprimento desse ideal quanto a agricultura que, além de atuar como personagem importante na degradação ambiental vigente, fornece o conhecimento que nortearia medidas no sentido de saná-la, ou mitigá-la; não obstante, também é essa ciência das que mais promovem a íntima relação homem-natureza. Um sistema agroflorestal, por exemplo, proporcionaria informações tanto agronômicas, quanto ecológicas, ambas com nítida aplicação prática e de promissora repercussão social. Dignidade para o agricultor O conhecimento e a compreensão de todo o processo produtivo podem trazer para o agricultor satisfação e auto-estima; saber, portanto, o valor de seu trabalho e a qualidade de sua produção. Em um sistema comercial mais regionalizado, como em cooperativas

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organizadas ou em trocas com outros produtores, pode obter um retorno mais justo pelo seu trabalho. Isso acarreta benefícios outros que não são normalmente computados quando se fala na rentabilidade agrícola. Por exemplo, o agricultor ter sob sua decisão o que plantará em seu campo. Pode escolher o alimento que sua família obterá da sua terra, ou que serviços renderão algumas espécies dali (remédios, lenha, madeira, óleos, fibras etc.). Pelo caráter perene do componente arbóreo dos SAFs e pela sua provável sustentabilidade, além das vantagens sociais já citadas, prevê-se que as famílias dependentes das AFs podem se fixar na terra, evitando êxodo rural e migrações em busca de novas terras. Com isso, inicia-se uma familiarização com o ambiente e ampliam-se as relações sociais entre os moradores dali. Os recursos naturais, de modo geral, tendem a adquirir um caráter de utilidade distinto do caráter exploratório que se percebe em outras relações do homem com a terra. Valorizam-se os componentes do processo produtivo que, no caso de um SAF, são múltiplos e interligados: o solo e sua biota, a serrapilheira e as árvores, a água e o subsolo, o homem e o relevo, os animais e as vegetações nativas próximas e assim por diante. Com essa postura, o proprietário pode vislumbrar, com clareza, a necessidade não só da conservação dos organismos, mas também dos serviços do ambiente, da diversidade paisagística e dos hábitos culturais relacionados ao uso do espaço. Vê-se, portanto, um espírito conservacionista calcado em valores menos abstratos e muito pragmáticos. Provavelmente, tem-se, nessas pessoas, fortes aliados na conservação biológica. Mudam também as relações de trabalho que podem estar presentes no cotidiano de agricultores não-participantes do processo produtivo. Não se trata de relações burocráticas entre um empregador e empregados que nada têm a ver com o sucesso da produção. Todos são interessados, pois são dependentes daqueles resultados. No SAF, está a subsistência e o sustento de sua família; está também a dignidade das pessoas que agora sabem o que, como e porque fazem. Os produtos agroflorestais podem entrar no mercado com preços elevados, resultado da valorização que alguns selos certificadores promovem. Esses selos, genericamente, certificam produtos orgânicos (tendo ainda outros tipos, como os biodinâmicos), o que pode incluir os agroflorestais, mesmo não sendo práticas estritamente orgânicas. Os incrementos nos preços são questionáveis do ponto de vista da ideologia agroecológica, mesmo assim, são incentivos aos produtores iniciarem, ou manterem suas práticas agroflorestais.

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SAFs também apresentam a vantagem de livrarem os agricultores da necessidade de buscarem novas áreas de matas para novos roçados, evitando-se, assim, mais desmatamentos e queimadas (Dubois & Viana, 1994a).

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Conclusões
Antes de um fechamento definitivo sobre as possibilidades de SAFs como ferramentas restauradoras, essa conclusão aponta para considerações que estão sendo construídas. Como apresentado nos primeiros tópicos desse texto, a degradação ambiental conseqüente, sobretudo, da agricultura pode ser minimizada, também, por atividades agrícolas. Claro que essas atividades devem ser modeladas com esse intuito, ponto, no qual, entra a consideração de sistemas agroflorestais como agricultura potencialmente restauradora. Por se mostrarem sistemas em que há, ou pelo menos pode haver, diversidade de espécies arbóreas os SAFs atuam como ambientes atrativos à fauna dispersora, como poleiros e centros de regeneração florestal. Ainda pelas suas características intrínsecas, os SAFs ajudam na recuperação de solos e podem desempenhar funções paisagísticas importantes para a conservação biológica. O ponto a ser melhor explorado por pesquisas é o da produtividade e sustentabilidade econômica dos SAFs. Só assim, pequenos e médios agricultores sentir-se-ão encorajados a desenvolverem tais sistemas produtivos em suas propriedades. Há indícios que sugerem produtividade e sustentabilidade significativas, equiparáveis ao que se encontra na agricultura convencional. Portanto, vê-se que o desenvolvimento de SAFs está por ganhar força enquanto atividade agrícola, embora até algumas iniciativas governamentais estejam encorajando-o. No que se refere ao caráter restaurador, os SAFs têm maior aptidão ainda, pois que podem representar um mitigador econômico aos gastos que uma restauração representa, além do fato de possuírem diversas características muito interessantes para a restauração em si. Ainda é muito necessária a ampliação dos debates acerca das estratégias conservacionistas e preservacionistas; das vantagens da proteção integral e da intervenção antrópica ativa para reflorestamentos, recuperação e restauração; da legislação ambiental, que se vê muito eficaz em diversos aspectos, mas que dificilmente pode acompanhar o progresso no desenvolvimento científico e tecnológico nessa área; sobretudo, é preciso discutir os papéis dos atores sociais relacionados à conservação e ao uso da terra. A quem cabe as responsabilidades, como se pode minimizar os danos sócio-econômicos causados pela marginalização rural, quem pode intervir em áreas com vegetação nativa e outras perguntas afins devem ser feitas às diversas instâncias políticas e da organização civil. As respostas cabem a todos, visto que os problemas são comuns. Os benefícios, igualmente, serão compartilhados pela sociedade se a conservação das diversidades biológica e cultural forem tomadas como prioridades para a qualidade de vida… de todas as formas de vida.

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