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O Conceito de Capital Humano na Economia Social de Marshall

Ribeirão Preto

2011

O Conceito de Capital Humano na Economia Social de Marshall

Monografia apresentada à Faculdade de Econo- mia, Administração e Contabilidade de Ribei- rão Preto como requisito disciplina REC0520 - Monografia II e para obtenção do título de ba- charel em ciências econômicas.

Orientador:

Ricardo Luis Chaves Feijó

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO FACULDADE DE ECONOMIA, ADMINISTRAÇÃO E CONTABILIDADE DE RIBEIRÃO PRETO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA

Ribeirão Preto

2011

Pacheco, Luiz Henrique O Conceito de Capital Humano na Economia Social de Marshall. Ribeirão Preto, 2011 40 páginas Monografia, apresentada à Faculdade de Economia, Administra-

ção e Contabilidade de Ribeirão Preto. Departamento de Economia. Universidade de São Paulo. Orientador: Feijó, Ricardo Luis

1.

Educação. 2. Capital Humano. 3. HPE.

4.

Marshall.

Felicidade significa refletir o que é importante na vida. Significa ponderar os méritos relativos de diferentes caminhos e pôr em relevo a extensão do hiato que nos separa, individual e coletivamente, da melhor vida ao nosso alcance.

Eduardo Giannetti

Agradecimentos

Ao longo de uma trajetória, acumulamos dívidas. Algumas impagáveis. Outras com execu- ção inceta, posto que líquidas, certas e vencidas. Talvez pelo fato de palavras não conseguirem pagá-las. Nesse agradecimento, não pretendo resgatar essas duplicatas, mas acuso que as reco- nheço e que as pagarei num futuro incerto.

A minha dívida maior é com meus pais, Luiz e Lucia, que sempre apoiaram minhas escolhas e me deram o suporte necessário até aqui. Gostaria de agradecer aos colegas de turma pelos momentos, tanto de seriedade quanto lúdicos. Ao meu orientador pela dedicação e tempo. E ao meus avós, Edino e Maria, que aqui em Ribeirão Preto sempre me auxiliaram naquilo que eu precisei.

Resumo

Abstract

Sumário

1 Introdução

p. 8

1.1 Apresentação

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p. 8

1.2 Introduzindo Marshall

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p. 10

1.3 A economia Social de Marshall .

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p. 13

2 Origens do Conceito de Capital Humano

 

p. 18

2.1 A Revolução Marginalista

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p. 18

2.2 O Conceito de Capital Humano entre os Clássicos .

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p. 20

3 Contribuição de Marshall ao Conceito

 

p. 25

3.1 O Capital Humano no Sistema Marshalliano .

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p. 25

3.2 Recomendações Normativas

 

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p. 30

4 Conclusão

p. 32

4.1 As Diferenças entre a Teoria do Capital Humano Clássica e Moderna

 

p. 32

4.2 Críticas à teoria do Capital Humano

 

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4.3 Considerações Finais

 

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p. 37

A fazer

Resumo

a fazer

Abstract

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1.1

Introdução

Apresentação

Uma pessoa não nasce sabendo, é o que dizem. Ao longo de sua vida, um indivíduo terá que adiquirir habilidades. Terá que ser alimentado, educado, vestido e ter um lar. A família terá que prepará-lo para enfrentar o mundo. E quando estiver formado irá ofertar sua mão-de-obra na economia de mercado. Esse é o caminho que a maioria das pessoas terão de seguir se não quiserem viver num estado de pobreza e privação. No primeiro momento, quando a pessoa ainda é criança, a família tem papel fundamental em sua formação. É no lar que o adulto capaz se formará. Mas o processo não termina aí. No segundo momento, de adulto, a pessoa terá que cuidar de si. As decisão de continuar melhorando sua própria condição estará em suas mãos. Investir em educação ou ir trabalhar será um dilema 1 .

Mas, nem sempre a situação foi assim. No início século XIX o ensino básico não era com- pulsório. O poder público não era guardião da família. A decisão de cuidar bem dos filhos estava nas mãos dos pais. Em geral, aquelas famílias que gozavam de boa situação material cuidava bem da prole. Mas, o grosso da população enfrentava a labuta diária para por alimento na mesa e alimentar a família. Para os rebentos de uma família pobre, não existia muitas alter- nativas, desde cedo sua rotina se limitaria as fábricas poeirentas e insalubres. E essa condição continuaria a se repetir nas próximas gerações.

Em meio às novas relações econômicas presentes na sociedade inglesa que vivenciava a segunda revolução industrial, um grupo de pensadores passou a se preocupar com a condição da classe operária e das famílias. Nesse contexto, alguns economistas clássicos começaram a teorizar sobre a importância da formação do homem e suas implicações tanto em relação ao país quanto ao nível do agente.

1 Durante o processo de aprendizagem, a pessoa se educa e a educação passa a fazer parte indissociável de sua pessoa. Não podemos vender ou compartilhar. Aquilo que vai dentro de nossa cabeça não pode ser reque- rido como propriedade, entretanto, conseguimos renda dessa posse, por isso é pertinente tratá-la como capital humano.

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O interesse em estudar a matéria do investimento no homem portanto é antigo. Como veremos, desde Adam Smith a matéria está presente nas publicações econômicas. Mas, o tra- tamento empírico do capital humano iria iniciar-se com mais consistência somente na década de 1960. Entre Smith e Becker existe um grande número de autores que estudaram a questão, com abordagens muito distintas. Entre esses economistas podemos destacar Alfred Marshall que começou a tratar da questão do capital humano dentro da perspectiva da economia social, ou seja, ele foi o primeiro a perceber que o processo de acumulação de capital intelectual não tinha implicações apenas no campo da macroeconomia, mas também no nível do agente. Ele percepeu que educando-se, o inglês melhoraria sua própria condição e conseguiria vencer o círculo vicioso de pobreza e incompetência.

Marshall é o primeiro pensador a dar consistência analítica a questão do capital humano, sempre destacando os benefícios dessa teoria à riqueza da nação. Entretanto após a sua morte, passaram-se décadas até que o tema voltasse ao debate entre os economistas. Fischer, volta a debater a questão na década de 1930. Após ele, Schultz e outros autores na década de 1960 formalizam a teoria do capital humano e a partir daí essa teoria passou a fazer parte de forma consistente do arcabouço da teoria econômica.

Antes de Marshall, à época de Ricardo e Marx o capital físico e a acumulação de capital

eram os aspectos mais relevantes para as explicações do crescimento econômico. A contribuição da educação não era totalmente compreendida na produtividade. Só Marshall perceberia que o investimento em pesquisa e desenvolvimento passaria a ter peso no planejamento das empresas

de países como os EUA e a Alemanha.

O objetivo desse trabalho é estudar a teoria do capital humano. Não farei um estudo deta-

lhado da metodologia atual de pesquisa nessa área que destaca-se pela metodologia empírica.

O trabalhdo irá se deter a evolução desse conceito desde os clássicos, com atenção especial a

Alfred Marshall que foi o primeiro economista a abordar o tema com a atenção compatível ao nível de complexidade.

Além da apresentação, na próxima seção apresentaremos o perfil biográfico de Marshall. Ou seja, vamos tecer comentários sobre sua vida e obra, além de suas influências. Destacamos que é preciso entender as influências intelectuais para compreender seu projeto de economia social. O que queremos dizer é que ele foi influenciado tanto por economistas clássicos e biólogos quanto por matemáticos e filósofos morais.

Na última seção do capítulo 1 apresentaremos a economia social de Marshall. Destacare- mos que ele não queria ficar restrito ao campo da teoria econômica pura. Ele queria sempre que possível em sua obra agregar em sua obra teorias como filosofia econômica e economia social.

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Segundo Marshall, essa abordagem da economia era válida por causa do seu objeto de estudo incerto e mutável.

Como veremos no capítulo 2, que tem por objetivo apresentar e dicutir o desenvolvimento

da teoria do capital humano, Marshall participou dos debates acerca da Revolução Marginalista

e ficou triste a forma como evoluiu o método de análise da economia já que a máquina de

prazer e dor de Jevons agradou os teóricos. Destacamos também que no período 1860-70 a economia viveu sua crise teórica mais intensa. Marshall começa a escrever depois e desenvolve um discurso conciliador.

Na seção seguinte, passamos a estudar a emergência do conceito de capital humano no pro- jeto de pesquisa dos clássicos e analisamos sua evolução até Marshall. Nesse ponto destacamos que essa teoria foi iniciada por Smith, com tímido desenvolvimento de Mill e com tratamento sério de Marshall. Ressalta-se também que os clássicos não deram a atenção devida ao papel da educação, embora a definição de capital humano cunhada por Smith esteja em voga atualmente.

No caítulo 3, passamos a ver em detalhes a contribuição de Marshall ao conceito. Veremos

como a teoria de capital humano está inserida em seu sistema de pensamento e quais suas reco- mendações de ordem normativa ao Estado e às famílias. Portanto, na primeira seção vamos ver que Marshall foi o primeiro economista a perceber que o nível de produção de uma economia podia estar relacionado à qualidade do fator de produção homem. Além disso, sua previsão de que a demanda por cérebros qualidicados cresceria foi certeira. Na seção seguinte desse capí- tulo, apresentamos algumas ideias de Marshall no campo normativo. Sua meta síntese era que

a educação deveria ser de resposbilidade dos pais, partilhada com o Estado.

No capítulo que encerra esse trabalho, colocamos primeiramente em relavância as dife- renças entre a teoria do capital humano segundo a visão dos clássicos e segundo a visão que consolidou-se a partir da década de 1960 nos EUA. Tecemos críticas à teoria do capital humano tanto de forma pontual quanto geral. Por fim as considerações finais encerram esse estudo monográfico.

1.2 Introduzindo Marshall

Alfred Marshall (1842-1924), foi o fundador da escola de economia de Cambridge. Tem como obra seminal Princípios de Economia publicado inicialmente em 1890, obra que foi ra- pidamente aclamada como bíblia do pensamento econômico inglês. Nascido em 26 de julho de 1846 em Clapham, um bairro de Londres, Inglaterra. Marshall era de uma família religiosa do Oeste. Seu bisavô foi o Reverendo Willian Marshall, seu pai foi bancário no Banco da Ingla-

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terra 2 . A infância foi um pouco conturbada. Seu pai era severo e queria destiná-lo para a vida do clero. Mas ele queria estudar matemática e foi através de um tio que emprestou o dinheiro que ele conseguiu concluir a graduação no curso que queria 3 . Ele se graduou em 1865. Começou a lecionar matemática em 1869 e economia política em Cambridge, em 1885.

É inegável que o ambiente intelectual que Marshall presenciou enquanto ainda estava na

graduação foi muito instigante para sua mente genial. Em 1859, Charles Darwin lança Origem das Espécies. Livro que gera uma série de debates em Cambridge. Em 1860-62 Herbert Spencer

lança First Principles. Esses dois autores iriam influenciar de forma defnitiva como Marshall

compreendia o mundo. Um de seus projetos inacabados foi justamente tentar desenvolver a economia na direção da sua meca, a biologia, através de estudos evolucionários 4 .

Podemos listar as influências intelectuais de Marshall. Teve dentro do racionalismo inglês sua formação. Indiretamente ele recebeu a doutrina do individualismo que surgiu no século

XVII através de Hobbes e Locke. Esses, haviam influenciado a obra de Malthus e o sistema

milliano. Por sua vez, Mill foi referência direta para uma geração de economistas 5 . As raízes de seu pensamento vem do evolucionismo de Darwin e do utilitarismo de Bentham. Marshall for- mou sua identidade intelectual nesse ambiente. Todas essas teorias tinham como meta explicar as vontades econômicas com base nas ações racionais. O pensamento em voga à época em que Marshall começava a se formar intelectualmente era uma mistura do egoísmo natural expresso no "homem econômico"fundidos com aspectos de competição dos economistas clássicos 6 .

Portanto, Marshall acredita no individualismo e aceita o postulado da racionalidade das

ações humanas. Entretanto, ele não concordava com a teoria do egoísmo natural de Hobbes e

também não aceitava o utilitarismo. Para Marshall as "vontades"não eram exógenas, diferente do que aceitava o utilitarismo. Apesar de sua teoria do avanço econômico ser contínua e não di- alética, Parsons (1932) aventa que Hegel e a escola histórica alemã também exercia uma inflên- cia. Como O Capital de Marx foi traduzido muito tarde para o Inglês aceita-se que a influência da teoria marxista tenha representado um papel marginal pequeno no sistema marshalliano.

2 Parsons diz que Alfred Marshall estava em sintonia com o espírito do capitalismo proposto por Weber. Ele tinha internalizado o comportamento diligente e previdente (PARSONS, 1932, p. 320).

3 Como consta em Keynes (1924) Marshall pagou de volta seu tio e mais tarde com parte da herança deixada desse mesmo tio, ele pôde conhecer os EUA.

4 Essa tentativa de fundir a bilogia e a economia é conhecido na literatura como Marshall’s problem porque ele foi o primeiro a abordar o tema, mas como argumenta Cassata e Marchionatti (2011) devido a influência da física newtoniana da metade do século XIX ele não conseguiu colocar em prática esse projeto. Portanto, por buscar a analogia com a biologia Marshall é considerado como um criador parcial da complexidade em economia.

5 Em 1876, Marshall publicou um ensaio defendendo as ideias de Mill intitulado Mr Mill’s Theory of Value buscando mostrar que a teoria do valor proposta por Mill estava correta e que era uma continuidade daquilo que havia sido sugerido originalmente por Smith.

6 Dois sistemas de pensamento em destaque à época era o utilitarismo e o hedonismo.

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É preciso entender a contribuição de J. S. Mill para entender a obra de Marshall. Foi es- tudando os Princípios de Economia Política de Mill que ele passou a pensar os problemas econômicos. Marshall entra portanto na economia atraído por questões morais e filosóficas. Ele inclusive traduziu a obra de Ricardo em linguagem matemática porque era mais inteligí- vel para ele naquele nível de conhecimento dos assuntos econômicos. J. M. Keynes diz que o economista deve ter uma rara combinação de dom, que em geral, não são encontradas jun- tas. Deve dominar a matemática, gostar de história, se preocupar com questões pertinentes da administração pública e ser um pouco filósofo. Essas qualidades eram encontadas em Marshall.

Em 1867 começa a estudar com maior dedicação economia. Um de seus primeiros livros foi os Princípios de Economia de S. Mill que havia sido publicado em 1848. Ele se educa segundo a ótica de ver o mundo disseminada por Mill e Ricardo. Recusa a forma utilitarista de entender a economia e é com olhos irrequietos que ele vê o lançamento em 1871 de Theory of Political Economy de Jevons que para Marshall não abordava de maneira profunda o problema da utilidade marginal. Para ele foi um livro apenas com boas ideias.

Lecionando, Marshall acompanhou a tentativa dos marginalistas em romper com o legado clássico. É nesse momento que ele se detém no estudo e tenta conciliar a escola clássica com as novas ideias marginalistas. Ele iria propor em 1890 que ao se introduzir a variável tempo na análise econômica nem a ótica dos custos ou a ótica da utilidade estava errada. Isso foi possível através de sua teoria de equilíbrio parcial que ficou conhecida como "tesoura marshalliana".

Portanto, é a partir de influências em primeira análise totalmente diferentes, tal como dos economistas clássicos e de biólogos, que devemos compreender a obra de Marshall. Um econo- mista preocupado com a classe trabalhadora inglesa, com intensão de ser lido e compreendido pelo homem da City de Londres e com grande vontade de dar sua contribuição à ciência econô- mica. Ele não publicou muito, o que chamou a atenção de economistas que questionaram sua influência tão forte para toda uma geração de economistas.

Apesar disso ele dedicava muito esforço em suas publicações. Seu brilhante pupilo J. M. Keynes o considerava um perfecionista. Por isso existia um grande descompasso entre a redação de uma obra e sua efetiva publicação. Por exemplo, sua obra mais conhecida, os Princípios de Economia, que só seria publicada em 1890, foi desenvolvida durante quinze anos. Em 1923, Money, Credit and Commerce é publicado, mas essa obra vinha sendo escrita por Marshall desde 1875, quando da sua viagem aos EUA.

Alguns temas permeiam todo o sistema marshalliano. Os princípios da convexidade e da continuidade estava sempre presente naquilo que Marshall escrevia. Para expressar os dois conceitos ele costumava usar as seguintes expressões: The many in the one, the one in the many

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e Natura non facit saltum, epígrafes de Money, Credit and Commerce e Princípios de Economia respectivamente 7 .

Muitos o consideram o primeiro economista pur sang, porque foi um dos primeiros a dedi- car a vida para construir a economia como matéria independente. Ele de fato profissionalizou a ciência econômica como uma matéria autônoma, com alto padrão de qualidade e objetividade. A partir de suas influências intelectuais e sua mente brilhante, ele desenvolveu a complexidade que a economia merecia. A economia deixa de ser economia política e passa a ser somente economics.

1.3 A economia Social de Marshall

Em muitos livros texto, Marshall é apresentado como um economista ortodoxo e pragmá- tico. Em geral, sua visão da sociedade e suas recomendações normativas são negligenciadas Bowman (2004). O estudante que tem o primeiro contato com a economia tende a achar que ele foi um economista liberal, que era contra a intervenção do Estado na economia e cuja con- tribuição limita-se a "tesoura marshalliana".

É certo que sua contribuição à economia no campo do equilíbrio parcial foi grande, ele

mesmo acreditava que a maior contribuição de sua vida havia sido a inserção da variável tempo na análise do equilíbrio de mercado. Entretanto, alguns livros de gradução de história das ideias costumam esquecer de por em relevância os aspectos políticos, teóricos e de método presentes em suas obras. Mas ele já alertava: "O objetivo dominante da economia na presente geração é contribuir para a solução dos problemas sociais" 8 .

A preocupação tanto com a condição da classe operária inglesa tanto com a condição do

espírito do homem pode ser observada nos textos de Marshall. Ele procurava sempre ter um contato próximo com os escritórios da City e com a vida dos trabalhadores. Assim como Mill, Marshall não tentava ser original em suas ideias. Eles tentaram construir um sistema teórico que fosse além da economia pura, abarcando também temas como filosofia econômica e economia social com inclinação normativa (FONSECA, 1992, p. 69). Ele desvalorizava o trabalho teórico que não era diretamente relacionado com o bem estar e as condições da classe trabalhadora. Nas próprias palavras do Marshall: "era meu desejo conhecer o que era praticável na reforma

7 Provavelmente essas epígrafes foram adotadas de Origem das Espécies de Darwin, segundo Cassata e Marchi- onatti (2011).

8 Um comentador diz que: é pertinente dizer que Marshall não aceitaria a acusação de esterelidade em sua obra e também é justo dizer que Marshall se decepcionou com a atenção mínima dada em livros texto atuais em relação a sua visão em política e evolução econômica Bowman (1990, p. 496).

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social pelo Estado e outras agências o que me levou a ler Adam Smith, Mill e Lassalle, quatro anos atrás"(KEYNES, 1924, p. 175).

É nos Princípios de Economia, livro I que ele define o escopo da economia e como sendo "o

estudo da humanidade nos assuntos práticos da vida"e o dever dos economistas: "o supremo fim do economista é descobrir como este latente ativo social [a saber, a classe trabalhadora]"poderia contribuir para a melhoria da condição econômica da Inglaterra. Pode ser desenvolvido com mais presteza e computado mais largamente. E, devido a sua imersão nos seus anos iniciais de carreira no estudo de ética e moral, ele descartou a definição do "homem econômico", porque o agente não podia ser imune a influências éticas e altruítas no seu comportamento. O homem não poderia tirar "férias morais"no campo da escolha econômica 9 .

A questão da produção deveria ser afetada de forma decisiva pelo homem. Porque este é o

agente produtivo dotado de autonomia e iniciativa. Ainda, na visão de Marshall: "o progresso da natureza humana é o núcleo do objetivo maior da investigação econômica"((MARSHALL, 1996, p. 54) apud Fonseca (1992). Nesse contexto, consideramos, segundo sua visão, que o objeto de estudo da economia é o homem, posto que a ciência econômica seja mais apurada que outras ciências sociais, não podemos compará-la as ciências naturais porque seu objeto de estudo é "sutil e mutável".

Os Princípios de Economia inicia-se desse jeito:

Economia Política ou Economia, é um estudo da Humanidade nas atividades correntes da vida; examina a ação individual e social em seus aspectos mais estreita- mente ligados à obtenção e ao uso dos elementos materiais do bem-estar.(MARSHALL, 1996, p.77) 10 .

Ou seja, a atenção estará voltada ao indivíduo dentro do contexto da sociedade. Mais adi- ante, Marshall prossegue sobre o mesmo tema:

há grandes contingentes da população, tanto nas cidades como no campo, que crescem com insuficiência de alimento, de vestuários e de alojamentos, com edu- cação cedo interrompida a fim de irem ganhar o sustento no trabalho, ocupando-se desde então durante longas horas em esforços exaustivos com corpos mal nutridos, e não tendo assim oportunidade de desenvolver suas mais altas faculdades men- tais(MARSHALL, 1996, p. 78).

9 Um conceito que permeia todo o sistema marshalliano é o fato de que os fatores econômicos e sociais estarem estreitamente ligados.

10 Marshall não foi exclusivamente influenciado por economistas, mas também por filósofos, historiadores e so- ciólogos.

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Para Marshall, esse contingente estaria "condenado desde o berço"e ficaria preso ao círculo vicioso de "pobreza e ignorância", mas os tempos modernos poderiam mudar a situação da classe operária inglesa. O investimento no mais importante dos capitais, a saber, o homem, deveria ser feito para romper com essa condição.

É curioso notar que no capítulo dois, mesmo deixando de usar o termo economia política em favor de economia 11 , ele não tira de cena o elemento homem da definição de seu objeto:

"economia é um estudo dos homens tal como vivem, agem e pensam nos assuntos ordinários da vida"(MARSHALL, 1996, p. 85).

Marshall em toda a sua obra, portanto, dizia que a ciência econômica deveria levar em consideração motivações éticas em suas explicações. É nesse contexto que ele no papel de economista normativo dá sua contribuição de como uma sociedade deveria viver e sugeria ações de como melhorá-la. Sem deixar de alfinetar os clássicos e sua preocupação preemente com aspectos ligados ao crescimento econômico, Marshall deixa claro na passagem abaixo que a preocupação dos teóricos deveria estar voltada sobretudo para o indivíduo imerso no organismo social:

Os antigos economistas ingleses talvez tenham restringido demasiado sua aten- ção aos móveis da ação individual. A verdade, porém, é que o economista, como todos aqueles que estudam a Ciência Social, tem que se ocupar dos indivíduos so- bretudo como membros do organismo social. Do mesmo modo que uma catedral é algo mais que as pedras de que é feita, assim como uma pessoa é algo mais que uma série de pensamentos e sentimentos, assim também a vida da sociedade é algo mais que a soma da vida dos indivíduos (MARSHALL, 1996, p. 94).

Marshall realmente acreditava que no final do século XIX o rumo da ciência econômica se- ria uma análise que colocasse em perspectiva o elemento humano. Ele de fato acreditava que o cálculo econômico da utilidade puro, sem implicações práticas não ganharia terreno na provín- cia da economia, mas enganou-se. Seu discurso conciliador não ressoou em seus sucessores. A "maleabilidade da natureza humana"foi deixada de lado para se estudar elementos mais quanti- tativos da economia e seu projeto inacabado de fundir a economia com a biologia evolucionista foi esquecido, embora dessa tradição tenha nascido o projeto de pesquisa keynesiano.

Marshall, juntamente com Neville Keynes podem ser considerados os responsáveis pelo en- fraquecimento da visão da economia segundo o cáclulo marginal. Os discursos metodológicos

11 Aspers (1999) destaca que Marshall referia-se a economia como economics ou social economics e não mais political economics por achar essa definição estreita.

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de Neville Keynes juntamente com o discurso conciliador do Marshall permitiu uma mudança de direção da ciência econômica.

Como veremos, Alfred Marshall participou dos debates ocorridos durante a Revolução Mar- ginalista. Ele foi o responsável pela a unificação entre aquilo que os clássicos falavam e aquilo que os marginalistas achavam que deveria ser verdade. Como sustenta Fonseca (2003) a ruptura com o modo antigo de se estudar os assuntos econômicos não fluíram como Marshall esperava.

Marshall acreditava que a interpretação do homem econômico, segundo o cálculo de prazer

e dor estava equivocada. Para ele, existe variabilidade nas ações humanas. Em Marshall (1996) podemos observar a questão da autonomia do indivíduo em agir no presente tendo em vista

o futuro. Sua influência direta nesse aspecto foi Mill. A preocupação com a importância do

homem no processo de desenvolvimento econômico já chamava a atenção dos primeiros eco- nomistas, desde a Revolução Industrial e os impactos causados por ela na vida da população. Por isso, os clássicos da economia tentaram estudar o impacto desses acontecimento no nível da ação individual.

Perdida a popularidade, pelo menos no método da visão de economia marshalliana, Lord Robins criou o que seria a definição de economia mais famosa. Para tanto, ele fundiu a análise marginal de Jevons com o abandono da teoria hedonista da escola de Viena. Nesse contexto, estabelecendo um paralelo com a mecânica pura ele concluiu que "na economia pura, exami- namos a implicação da exitência de meios escassos com usos alternativos". Nesse sentido, o problema da alocação passa a ser a principal preocupação dos economistas. O indivíduo pode

desaparecer da análise. O esforço analítico concentra-se na lógica do comportamento individual

e o que guia as ações é o vetor de preços. Portanto, apesar de todos os esforços de destacar os limites das "analogias mecânicas"como bem descada Fonseca (2003) Marshall acreditava numa metodologia de economia menos matemática:

Apesar da vigorosa tentativa de Marshall de dar continuidade à tradição milli- ana, a reação contra a economia política clássica assumiu a forma de um crescente refinanmento e formalização da teoria econômica pura, ou seja, a mecânica do auto- interesse e da utilidade (FONSECA, 2003, p.75).

Com o levante das novas abordagem da economia, a análise de bens escassos com fins alternativos toma conta dos programas de pesquisa. As preferências e as dotações são dados exógenos e os motivos não econômicos dos agentes são deixados de lado. A alocação eficinte passa a ser o objetivo da análise. E o projeto marshalliano de economia social, ou seja, de cha- mar a atenção para o fato de que as economias de mercado modernas dependiam de adequadas

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bases morais para um funcionamento apropriado (FONSECA, 2003, 75). Marshall falhou e sua previsão de que os economistas levariam cada vez mais em conta o aspecto social da economia também não aconteceu.

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2 Origens do Conceito de Capital Humano

2.1 A Revolução Marginalista

A economia política foi fundada por Adam Smith e F. Quesnay no período iluminista. Eles

tratavam da matéria segundo o pensamento da época, ou seja, segundo os argumentos das "leis da natureza". Os fisiocratas, nesse sentido tendiam a achar que a ordem social deveria estar de acordo com uma ordem natural e inclusive atribuíam a causa dos males econômicos a uma tentativa de desviar do equilíbrio natural.

O comportamento humano foi objeto de investigação ainda em Adam Smith, na Teoria

dos Sentimentos Morais e também pelo médico B. de Mandeville na Sátira das Abelhas. Mas somente muito tempo depois o comportamento humano recebeu uma tentativa consciente de padronização.

T. R. Malthus nos Princípios de Economia Política, de 1820, chamava a atenção para que o objeto de estudo da economia fazia essa ciência aproximar-se mais da ciência moral e política do que a matemática. J. S. Mill, em ensaio publicado em 1830, mostrou claramente influências de D. Ricardo e sua concordância com o "homem econômico", mas abandonou essa ideia em 1848, nos emphPrincípio de Economia Política.

Devido a divergência de metodologia de análise entre os clássicos e a nova geração de economistas que surgia, no último quarto do século XIX a ciência econômica enfrentava uma crise de método. Algumas vertentes disputavam intensamente a hegemonia da ciência, a saber a Escola Histórica Inglesa e Alemã e os marginalistas. Todos queriam florescer na província da economia. Isso ocorria porque o arcabouço de Stuart Mill estava sendo contextado. Jevons volta-se para estudar aspectos da decisão do agente, é aqui que surge a "mecânica da utilidade e do auto-interesse"(FONSECA, 2003, p.50). A teoria do "homem econômico"passou a ser pre- missa básica também para Jevons. Portanto, o arcabouço desenvolvido por Ricardo e difundido por Mill estava em sérios apuros. Segundo Feijó (2000) quatro pilares da economia política es-

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tavam em xeque: 1) doutrina da população de Malthus, 2) teoria do fundo de salários, 3) teoria do valor trabalho e 4) teoria da renda.

Em artigo de 1862, Jevons diz acreditar no homem como sendo uma "máquina de prazer

e dor". Era o início da investida no sentido de se criar uma ciência preocupada em estudar um objeto menos variável e mais constante. Entre 1871 e 1874, outras duas obras surgiram

para engrossar as fileiras da revolução. A Teoria da Economia Política de William S. Jevons

e Elementos de Economia Política Pura de Léon Walras. Uma teoria consistente entre cálculo

marginal e teoria da utilidade começava a se formar. Portanto é nesse contexto que a hipótese do "homem econômico", segundo a definição de Jevons, passa a ser aceita entre os marginalistas. Essa nova forma de interpretar a economia iria permitir a aplicação da matemática no objeto de estudo que já havia sido considerado "incerto e mutável".

F. Y. Edgeworth dá sua contribuição ao tratadar das ciências morais com ferramenta ma- temática, incorrendo o custo de perca de variabilidade da conduta humana. É nesse momento que a ciência moral é separada do cálculo econômico. As simplificações entram em cena. Mas, como será mostrado a seguir, nem todos os economistas neoclássicos concordavam com essa mudança no tratamento do objeto da economia, em particular Marshall foi um dos responsáveis em tecer considerações negativas à teoria do "homem econômico".

Apesar do criticismo, a economia marginalista no final do século XIX ainda não havia se consolidado hegemônica. Podemos destacar que o avanço neoclássico se preocupou com uma abodagem da teoria do consumo e valor diferente dos clássicos. Deixaram um pouco de lado

a teoria do crescimento, a análise agora mais importante era do impacto marginal dos insumos de produção. Nesse periodo Cournot e Walras desenvolvem a análise do equilíbrio geral da economia em mercados puros.

Feijó (2000) diz que esse evento tornou-se inapropriadamente conhecido como uma revolu-

ção, haja visto que a ideia de pensamento na margem já era desenvolvida pelo alemão Hermann Gossen. Mas isso não é suficiente, já que Marshall não considerava o movimento liderado por Jevons uma revolução. Feijó (2000) também considera que podemos identificar os anos entre

a década de 1860 e 1870 como momentos em que a economia política viveu sua crise teórica

mais intensa. Ocorre que esse período não é considerado uma quebra de paradigma para algo melhor porque "em meio ao interregno confuso de duas décadas, não se firmou um acordo entre os revoltosos sobre o que deveria substituir as teorias ortodoxas"(FEIJÓ, 2000, p. 33).

A revolução apareceu na cena econômica para dar maior rigor analítico à economia. Os marginalistas que queriam quebrar com o projeto de pesquisa clássico intensificaram suas críti- cas ao método e ao objeto de estudo da economia. Marshall que começaria a escrever um pouco

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depois da revolução, portanto é considerado um neoclássico conteporizou e mostrou que a ci- ência econômica, relativamente nova nos bancos das universidades tinha muito a evoluir com um programa conciliador.

2.2 O Conceito de Capital Humano entre os Clássicos

Na história das ideias econômicas é prática comum entre os economistas tentar computar os humanos e suas habilidades como parte do estoque de capital da economia. Durante um período, tentar estimar o valor de uma pessoa foi o objetivo de vários deles. Entretanto, ou- tros economistas, entre eles inclui-se Marshall, não tencionavam incluir os humanos ou suas habilidades na sua definição de capital. Marshall, por exemplo, queria apenas deixar claro que investir recursos nos humanos levaria a uma melhora na produtividade destes 1 .

O problema da educação da classe trabalhadora não foi consistemtemente abordado pelos clássicos. Eles acreditavamque a educação tinha importância na formação intelectual e moral de uma pessoa. Eles foram incapazes de reconhecer o papel da mão de obra qualificada no avanço da ciência e do progresso econômico. Smith achava o sistema educacional inglês ineficiente por falta de mecanismos competitivos entre as escolas Castro (1990.).

No contexto da Revolução industrial, Adam Smith não se preocupava apenas com a acu- mulação de capital físico para contribuir para a riqueza de uma nação. Ele se detinha sobre o caráter da qualificação da mão de obra da época. Portanto, o conceito de capital humano não é novo. O que deve ser ressaltado é que Smith não definiu o termo capital. Na Riqueza das Na- ções ele falava que as habilidades de uma pessoa era equiparável a utilidade de uma máquina, pois o seu detentor podia esperar um retorno da atividade. Blaug (1975) diz que Smith estru- turou o conceito de capital humano muito próximo ao praticado atualmente. Lançando mão da analogia com a maquinaria da indústria, Smith comparava uma máquina cara a uma pessoa cuja educação foi dispendiosa. O retorno monetário tanto da máquina quanto da pessoa qualificada deveria ser equiparado:

Quando se instala uma máquina cara, deve-se esperar que o trabalho extraordi- nário a ser executado por ela antes que se desgaste permita recuperar o capitalnela investido, no mínimo com o lucro normal. Uma pessoa formada ou treinada a custo de muito trabalho e tempo para qualquer ocupação que exija destreza e habilidade

1 Ao contrário dos economistas que queriam quantificar o valor de uma pessoa, essa linha de raciocínio não tinha um objetivo específico para estudar o capital humano. Eles justificavam a teoria por três motivos 1) custo de se educar uma pessoa; 2) o produto do trabalho dessas pessoas contribui para a riqueza nacional e 3) se uma pessoa investe na sua própria melhoria, emphceteris paribus, ela aumenta a produtividade da nação.

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extraordinárias pode ser comparada a uma dessas máquinas dispendiosas. Espera- se que o trabalho que essa pessoa aprende a executar, além de garantir-lhe o salário normal de um trabalho comum, lhe permita recuperar toda a despesa de sua for- mação, no mínimo com os lucros normais de um capital do mesmo valor. E isso deve acontecer dentro de um prazo razoável, levando-se em conta a duração muito incerta da vida humana, da mesma forma como se leva em conta a durabilidade mais certa da máquina (SMITH, 1983, p. 149).

No contexto da discussão de Smtith que foi retirado o excero acima é discutido a diferença da remuneração entre as profissões. Smith descarta a relação entre esforço com salário, já que o mineiro ganha bem menos que o alfaiate e realiza um esforço bem maior. A explicação está no esforço de educação. As habilidades com agulha e tesoura exigiam maior tempo de dedicação do que os golpes de picareta.

Lançando mão do argumento auto-interessado, Adam Smith tratava o investimento em ca- pital humano como um gasto equiparável a outro bem de capital. Portanto, o tempo gasto com educação era considerado um investimento 2 . Entretanto, à medida que a segunda revolução in- dustrial avançava e como o trabalho técnico não tinha muita demanda, os pais preferiam colocar os filhos o quanto antes para trabalhar. Portanto a ideia de que a educação não agregava muito ao trabalho era compartilhada na época de Smith.

Em geral, dois métodos para mensurar o valor do ser humano eram utilizados: o do custo de produção e do ganhos futuros capitalizados. O primeiro tentava quantificar o custo em se produzir uma pessoa e o segundo tentava estimar o valor presente do fluxo de renda futuro. Existiam motivos para essas tentavivas de quantificação. Como destacado por Kiker (1966) são eles:

Demonstrar o poder de uma nação;

Determinar os efeitos econômicos da educação e gastos em saúde e educação;

Possibilidade de propor um sistema de imposto mais eficiente;

Determinar o custo total de uma guerra;

Auxiliar nas questões de indenização judicial em caso de danos.

2 Kiker (1966) cita outros economistas que procederam da mesma forma ao considerar o homem um bem de capital. Entre eles: Petty, Say, Senior, List, Von Thünen, Roscher, Bagehot, Ernst Engel, Sidwick, Walras e Fischer.

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Um ou mais motivo desses era usado como pretexto por autores que consideravam as pes- soas um bem de capital equiparável ao capital físico. Willian Petty, em 1691, foi um dos primei- ros pensadores a tentar estimar o valor de uma pessoa em termos monetários. Sua motivação em proceder de tal forma estava ligada ao seu interesse por finaças públicas (Hull, 1899, I, 589- 95 apud (KIKER, 1966, p. 482)). Petty estimou o valor da classe trabalhadora capitalizando, à taxa de mercado, a parcela da renda nacional das famílias derivadas de suas propriedades. Economistas dizem que esse procedimento de Petty foi incorreto pelo grau de agregação.

Já Willian Farr, em 1853, tendo a mesma motivação de Petty estimou o valor monetário das pessoas. Sua abordagem foi considerada mais científica, pois ele utilizou uma estimativa da renda líquida futura (renda menos custos). Essa estimativa possibilitaria a criação de um sistema tributário mais justo, pois dado que as pessoas produzem, elas seriam tributadas de acordo com seu potencial de gerar renda ao longo da vida. Esse método, contudo, é passível de críticas pois estava considerando como certa uma renda que seria realizada somente no futuro.

Escrevendo em 1883, Ernst Engel queria também estimar o valor monetário de uma pessoa. Não acreditava na aboragem de capitalização de renda futura porque é difícil estimar o quanto irá produzir um talento genial, mas o custo de produção não sofria muita variabilidade. Por isso ele acreditava nessa abordagem. Entretanto, essa metodologia pode ser inócua, já que pode-se questionar a eficácia em estimar o custo de produção de um adulto.

Theodore Wittstein, em 1867, sugeriu uma metodologia que era um meio termo entre a teoria dos ganhos capitalizados de Farr e do custo de produção de Engel. Seu interesse em avaliar o capital humano estava ligado a sua vontade de estabelecer indenizações justas em processos judiciais por danos pessoais. Seu argumento era que o que uma pessoa ganhava durante uma vida era pelo menos equivalente ao seu custo de manutenção. Entretanto, esse meio termo de métodos é invável, pois poderia haver duplicidade de valores.

Em meio às tubulências da crise financeira da década de 1930, Dublim e Lotka, que tra- balhavam no mercado de seguros, acreditavam que seria útil saber o valor de uma pessoa para poder persuadí-la a entender quanto elas deveriam gastar em seguro de vida. Eles ainda calcu- laram em 1922, o estoque de capital dos EUA. Eles chegaram à conclusão que esse estoque era da ordem de cinco vezes o estoque de riqueza material da economia americana. A ressalva aqui é que mesmo à época essa estimativa foi bastante questionável.

Segundo J. B. Say as habilidades são adquiridas sob um custo e tendem a aumentar a produ- tividade do trabalhador, portanto elas deveriam ser entendidas como um capital. Mill, Willian Roscher, Walter Bagehot e Sidwick concordavam com Say nesse aspecto. List também concor- dava e achava que as habilidades da população era o maior bem de capital de uma nação.

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Mill e Marshall foram em direção contrária de Smith. Os dois não acreditavam o homem como bem de capital. As pessoas não eram a riqueza, mas sim o propósito de existir riqueza, falava Mill. Irving Fischer incluía as pessoas no seu conceito de capital humano. Marshall acre- ditava que a escolha em educar os filhos não era auto-interessada, por isso atribuía à educação um aspecto social (cabendo portanto ao Estado fazê-la) e que a demanda por trabalho qualifi- cado cresceria. Uma ressalva que deve ser feita é que a sociedade em que Marshall vivia era bem diferente daquela de Smith.

Alinhando-se à visão de Smith, Mc Cultoch e Nassau Senior não viam problemas em con- siderar o homem como parte da riqueza. Senior qualificava que a diferença entre um homem livre e um escravo era que o livre podia apropriar-se do produto de seu trabalho. Von Thunen, em 1875, no auge da Revolução Marginalista, disse que muitos problemas sociais seriam mi- nimizados se os gastos com a melhoria das pessoas fossem levados a sério por elas próprias e considera também que os gastos em capital humano deveriam ser computados na conta de capital, mesmo sabendo dos problemas que isso causaria 3 .

Na questão do capital humano, como afirma Blaug (1975), Adam Smith começou a abor- daro tema, Mill deu continuidade e somente tempo depois Marshall iria fazer justiça à questão, mas foi Schultz (1960) e Becker (1962) quem construiu a matéria de forma completa pela pri- meira vez.

Enfim os clássicos, em particular Adam Smith, acreditavam que com a divisão do trabalho na fábrica as atividades intelectuais passavam a importar cada vez menos para a decisão de se contratar uma pessoa, ou seja, com o avanço do progresso econômico, o investimento em capital humano passaria a ser menor. Nesse sentido, o investimento em pessoas passou a ter menor relevância, à medida que a divisão do trabalho se itensificava. Esse problema teve alguns impactos na sociedade. Os pais passaram a encaminhar os filhos cada vez mais cedo para as fábricas, porque era mais rentável tê-los trabalhando do que conseguindo aprendizagem geral.

Smith aparentemente acreditava inócuo o impacto da melhoria da eficiência causada pela divisão do trabalho e que isso teria profundas consequências para a condição de trabalho e para o fenômeno da formação de capital humano. Nesse sentido, Smith estava descrevendo uma substituição secular de trabalhadores não qualificados por qualificados ou o declínio na formação de capital humano (BOW- MAN, 1990, p. 242).

3 Esse problema está relacionado à natureza dupla dos gastos. Ou seja considerar gastos com educação também como investimento pode deixar a análise viesada.

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Ou seja, para Smith, a divisão do trabalho no final do século XVIII implicou uma exigên- cia menor em relação a exigência de habilidade e experiência. Isso significa que apesar da produtividade do trabalho ter aumentado, a remuneração para o trabalhador qualificado havia diminuído. Por isso que do ponto de vista econômico os pais consideravam ao invés de man- dar seus filhos para a escola, mandá-los para as fábrica que assim pelo menos eles estariam contribuindo para o sustento da família 4 .

Mill concordava com Smith na questão de que a divisão do trabalho reduziu a necessi- dade por trabalhadores qualificados, mas acreditava que a inteligência geral tinha um papel não negligenciável, porém não conseguiu estabelecer um elo de ligação dessa inteligência com a produtividade dos trabalhadores, ou seja, falhou em estabelecer uma explicação entre educação geral e aumento de produtividade. Marshall por sua vez, conseguiu estabelecer esse elo. Ele disse que a inteligência geral seria útil para funcões gerenciais dentro da firma, e que devido ao estado da educação existia escassez de oferta de trabalhadores educados.

Ou seja, no modelo que trata o homem como uma unidade de capital, Mill pouco adicionou, embora ele acreditasse que a educação geral tivesse seu papel, esta era pouco valorizada. Essa baixa valorização era culpa dos pais que presos ao estado de letargia causado pela pobreza e ignorância não conseguiam mandar seus filhos para a escola.

Portanto, foi Marshall quem encontrou o elo de ligação deixado de lado por Mill. À medida que a divisão do trabalho prosseguia nas empresas, Marshall previa que essas empresas come- çariam a demandar mão-de-obra de gerentes e surpevisores com inteligência geral para lidar com diversas tarefas. Ocorre que essa oferta de trabalhadores era um pouco inviável porque dada a estrutura de mercado os agentes não conseguiam perceber o diferencial em se educar e com isso as empresas não conseguiam preencher as vagas. É nesse momento que se começa a discutir o treinamento dentro da própria firma.

Smith aceita o indivíduo como uma máquina produtiva, e adianta: "o motivo para investir na educação do filho é o mesmo daquele do capitalista em investir na aquisição de máquinas, ou seja por questões de análise de investimentos 5 .

4 Smith cita o caso da Escócia, país em que a divisão do trabalho não estava tão avançada. A família ainda mandava seus filhos para a escola porque não tinham como empregá-los. Isso acontecia porque o grosso das atividades exigia que o aprendiz soubesse ler e escrever.

5 O investimento do pai num filho depende da taxa de desconto intertemporal do agente.

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3 Contribuição de Marshall ao Conceito

3.1 O Capital Humano no Sistema Marshalliano

Algumas ideias, embora importantes, ficam algum tempo esquecidas, para, após algum tempo, ressurgirem vigorosas e renovadas, em contexto histórico diverso. Esse é o caso da noção de capital humano que após receber um tratamento tímido de Adam Smith, foi pouco a pouco ignorada ao longo da trajetória das ideias econômicas até Marshall dar-lhe a atenção necessária.

Dentro do referencial de Marshall abordar esse conceito era importante porque é dever do economista, além dos estudos econômicos interpretar os fatos e descobrir quais são os efeitos de diferentes causas, ou seja, quais os efeitos para o país de aumentos da produtividade? Ou ainda, quais são as implicações para o bem-estar de uma família que investe recusos na educação de seus filhos? Essas questões foram respondidas por Marshall em sua obra.

Marshall começou a se interessar pelo tema da formação da classe trabalhadora porque acreditava que o rápido crescimento econômico observado nos EUA e na Inglaterra no final do século XIX era devido ao investimento em pesquisa científica e educação de qualidade. A partir daí, ele emprega um esforço analítico no sentido de entender o papel do aumento da eficência industrial causado pela educação e também para propor soluções para aumentar a riquena nacional, através de melhor qualificação da classe operária.

De fato, Marshall foi o primeiro economista a notar que o nível de produção de uma eco- nomia podia estar ligado à qualidade fator de produção homem. Ele acreditava que "a po- breza e a incompetência estão intimamente interligadas em nível microeconômico"(FONSECA, 1992, p. 77). Ou seja, uma população pobre e mal educada continuaria ad infinitum expe- rimentando indicadores econômicos ruins. Nesse contexto, "a perdição do pobre é a sua po- breza"(MARSHALL, 1996, p.78). Dessa forma, ele conseguiu ressaltar através de sua obra a importância da formação do capital humano para uma nação. Podemos destacar que ele foi pioneiro na forma como tratou a questão. Isso se verifica porque, como apresentado no capí-

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tulo anterior, os clássicos tendiam a considerar as implicações de educação e saúde mais em termos de bem-estar e não sob o ponto de vista dos impactos de tais medidas no desempenho da produtividade do país.

Indo além do tratamento simples de Smith e Mill, Marshall abordou a questão do capital humano sob a pespectiva moral e da melhoria da condição da classe trabalhadora, portanto ele recusou-se a comentar a questão sob a perspectiva simplista do retorno do investimento. A litaratura que veio depois demorou a perceber que o conceito do capital humano poderia ser mais quantificável. Por isso, argumenta Schultz (1960) que a matéria recebeu pouca importância por muitos anos. Se os economistas tivessem entendido a questão sob o ponto de vista de Fischer haveria mais trabalhos. Isso quer dizer que, se no conceito de investimento bruto os gastos diretos com educação fizessem parte da conta haveria mais interesse por parte dos economistas porque estabelecer realação de causa e efeito seria mais trivial haja visto que a mensuração dos gastos ficaria mais precisa e confiável.

Por serem poucas as linhas direcionadas à teoria do capital humano, Baumol (2000) diz que a contribuição de Marshall à teoria do capital humano foi insignificante se compararmos sua contribuição à teoria do equilíbrio parcial. Ele sustenta essa tese afirmando que Marshall não discutiu extensivamente a questão. Apesar disso, Baumol (2000) reconhece o quanto Marshall se esforçou para chamar a atenção de todos para a importância da questão. Marshall admi- tia que a estimativa do valor do capital do homem pudesse ser útil, mas acreditava que esse procedimento era irrealista, por isso ele escolheu sua a abordagem mais "humanística".

O projeto de pesquisa dos clássicos estava voltado para questões de produção e distribuição, por isso a preocupação sempre preemente do investimento em capital físico, mas Marshall nos Princípios observou que as "aptidões humanas constituem meios de produção tão importantes quanto qualquer outro tipo de capital"(MARSHALL, 1996, p. 01). Ou seja, não estava muito claro para os economistas clássicos o fato de que se os empresários também investissem em pessoas eles certamente estariam contribuindo para o aumento do retorno do seu capital.

Com a Segunda Revolução Industrial vivenciada na Inglaterra, em meados do século XIX, uma das preocupações de Marshall era com as condições do mercado de trabalho. Ele já discutia que as várias peculiaridades desse mercado que afetam a oferta e a demanda. Isso ocorria por causa das falhas de mercado em educação e treinamento. A esperança nutrida pelos novos tempos era que a pobreza e a ignorância seriam gradualmente diminuídas da Inglaterra graças aos avanços da maquinaria na indústria e outros avanços no campo da ciência:

A esperança de que a pobreza e a ignorância possam ser gradualmente extin- tas encontra de fato grande fundamento no seguro progresso das classes operárias

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durante o século XIX. A máquina a vapor livrou-as de muitos labores exaustivos e degradantes; os salários subiram; a educação progrediu e se tornou mais genera- lizada; a ferrovia e a imprensa permitiram aos membros de um mesmo ofício em diferentes partes do país comunicarem-se facilmente entre si, lançando e levando a efeito uma política de linhas amplas e de larga visão; enquanto a crescente procura de trabalho inteligente operou nas classes de artífices um crescimento tão rápido que elas agora superam o número dos trabalhadores não qualificados. Uma grande parte dos artífices deixou de fazer parte das classes baixas, no sentido original do termo, e alguns deles já levam uma vida mais refinada e superior à da maioria das classes altas de um século atrás (MARSHALL, 1996, p. 79).

A esperança não era sem motivo. Ao longo do século XIX, o movimento pelo progresso econômico contagiou outros países europeus e a renda per capta mundial aumentou exponenci- almente. Uma geração de inventores circulavam pelas ruas de Londres. A iluminação pública permitiria passeios noturnos, a invenção do motor à explosão reduziu o tempo de locomoção e os avanços no processo de fabricação do papel diminuiu o custo do livro. As possibilidades de adquirir cultura haviam se alargado. Uma vida culta para as classes baixas, na visão de Marshall seria possível.

Marshall também possuía a capacidade de mensurar os impactos ao longo das gerações 1 . Uma criança criada em um ambiente pobre e insalubre tem "as faculdades mentais amor- tecidas"e pior do que crescer nesse meio, é que quando essa criança for adulta ela não terá

autonomia e iniciativa para romper o elo entre pobreza e incompetência e passará o bastão para a próxima geração através de seus filhos 2 . Esse é um ponto central para sustentar as reco- mendações de caráter normativo no campo da educação e saúde da sociedade inglesa do século

XIX.

Se numa família pobre, uma criança com dez anos estava sadia, não havia duvidas, ela iria para executar alguma atividade na fábrica. Os jovens eram vistos como uma oportunidade de criar renda para a família. Se os pais não possuíam meios de investir capital na criação e educação dos filhos, eles iriam muito cedo para o trabalho duro e exaustivo e por fim estariam condenados a levar para o túmulo consigo algum dote intelectual ou empresarial dado pela genética. Em contraste, aqueles que nascem nos altos estratos da sociedade levam de saída a vantagem de um melhor começo de vida, graças a seus pais. É óbvio, diz ele, que o filho de alguém já estabelecido nos negócios começa com uma grande vantagem, aprende quase que

1 O investimento nas crianças era limitado pelos recursos dos pais em vários níveis da sociedade, pelo seu poder de prever o futuro e pela sua propensão em sacrificar a si mesmos pelo bem de seus filhos (MARSHALL, 1996, p. 566).

2 Marshall acreditava que melhores condições de criação permitiria o florescimento de um adulto mais capaz.

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inconscientemente sobre os homens e costumes, começa com maior capital material e tem a vantagem adicional de relações comerciais já estabelecidas.

Disputa injusta. Esse problema seria solucionado com a ajuda do Estado no financiamento da educação. Nesse sentido, o capital humano deveria ser um bem público. Para fundamen- tar seu argumento, Marshall ilustra o caso da Escócia. Algumas cidades livres só consegui- ram sucesso em seu desenvolvimento porque os filhos da classe trabalhadora foram capazes de competir no mercado de gerentes de indústria. O sangue novo aliado a dotações naturais de inteligência e inventividade, auxiliou no salto de produtividade de alguns distritos industriais. Mas isso só foi possível porque essas capacidades dos jovens foram exploradas. Os filhos das classes baixas não poderiam ficar presos ao torpor da pobreza de seus pais. Nesse caso, as fa- mílias deveriam dividir com o Estado a missão de educar as criaças. Mas não bastaria escolas. Essas crianças deveriam ser bem alimentadas e vestidas para poder aprimorar suas capacida- des mentais. Caso alguma família não cumprisse a regra, caberia ao Estado cobrar dos pais a consecução dessa tarefa tão imporante para o futuro da Inglaterra.

O capital humano na visão de Marshall deveria ser avaliado dentro da família. Isso ocorria

porque é evidente em sua obra a preocupação com os filhos das classes baixas, que estavam presos ao círculo de pobreza e incompetência. O conhecimento é a nossa mais importante máquina de produção e sem acesso a ele uma família estaria falhando na criação dos filhos. Além disso era um desperdício de recursos porque o investimento no filho do trabalhador tinha rendimento equiparável ao investimento em cavalos ou maquinaria. Na linha desse raciocínio Marshall cunhou a famosa frase:

O mais valioso de todos os capitais é o que se investe em seres humanos, e desse capital a parte mais preciosa resulta do cuidado e da influência da mãe, tanto quanto esta conserve os seus instintos de ternura e abnegação, e não se tenha empedernido pelo esforço e fadiga do trabalho não feminino (MARSHALL, 1996, p.124).

A mãe é o eixo da família. Se o pai já não estivesse se empenhando na formação de capital

humano de seus filhos porque não se dava conta do fato desse capital ser rentável, no caso da mãe a situação era pior porque num Estado industrial vitoriano, era comum nas famílias pobres longas jornadas de trabalho para a mulher. Na visão de Marshall isso também era um grave desperdício de recursos, porque é tarefa da mãe internalizar conceitos na criança de justeza e hombridade para dalí florescer um adulto eficiente e capaz:

Não podemos tratar o custo da produção de homens eficientes como um pro- blema isolado. Devemos tomá-lo como parte do problema mais amplo do custo

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de produção de homens eficientes, juntamente com as mulheres aptas a tornar os seus lares felizes e a criar os seus filhos vigorosos em corpo e espírito, amigos da verdade e da limpeza, corteses e corajosos (MARSHALL, 1996).

Com isso Marshall deixou claro que, apesar do argumento da rentabilidade do capital hu- mano, sua preocupação não era o cálculo econômico do retorno do investimento em pessoas, seus sentimentos eram mais elevados. O importante para ele era o tipo de adulto que as famílias da sociedade fabril estava criando. Em dez ou doze anos, a sociedade poderia contar com jovens adultos com faculdades mentais elevadas? Ou somente com um caminhão de gente capaz de executar tarefas simples nas fábricas?

Portanto, sua recomendação era de melhor distribuição de renda e educação básica de quali- dade. Seu argumento era econômico. Uma sociedade não podia permitir que um gênio nascido no seio de uma família pobre passasse a vida realizando trabalhos braçais. A sociedade inglesa, em particular o Estado, deveria criar mecanismos que garantissem igualdade de partida para as crianças, ou seja, a educação básica e de qualidade deveria ser universalizada. Era o mínimo que uma sociedade industrial próspera podia fazer para as próximas gerações.

Um povo, dizia Marshall, deveria ter algumas qualidades: de ter atenção ao trabalho exe- cutado, de ser constante e digno de confiança e de ter sempre uma reserva de forças para serem utilizadas em caso de emergência. Além de pontualidade, é claro. Para desenvolver tais quali- dades era necessário dois tipos de habilidades. Uma geral, adquirida no ambiente familiar na infância e juventude e outra especializada, desenvolvida no âmbito da escola.

Indo em direção oposta a Smith, ele previa muito bem que a demanda por cérebros bem educados iria crescer. Isso se dava porque à medida que a maquinaria avançasse, aumentaria a procura por cargos gerenciais 3 .

Um trabalho mental que não tende direta ou indiretamente para promover pro- dução material, por exemplo, o do escolar nas suas tarefas, é posto de lado, pois que estamos limitando a nossa atenção à produção, no sentido comum do termo. Sob certos pontos de vista, mas não de todos, as expressões terra, trabalho, capital seriam mais simétricas se se entendesse como trabalho os trabalhadores, isto é, a Humanidade (MARSHALL, 1996, p. 203).

Enquanto Smith argumentava que a maquinaria favoreceria a simplificação das tarefas no trabalho, Marshall acreditava que a maquinaria introduziaria mais complexidade ao processo

3 Marshall argumentava que a educação geral na escola era mais importante que a educação específica no trabalho.

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produtivo, dessa forma, a demanda por trabalhadores e gerentes que tinham faculdades mentais elevadas e bom discernimento e ainda responsabilidade e conhecimento geral iria subir.

Os antigos economistas davam muita pouca importância ao fato que as faculda- des humanas são tão importantes quanto outras formas de capitais. (MARSHALL, 1996, p. 229) apud (BOWMAN, 1990, p. 252)

O termo "habilidade geral"era o que que Marshall usava para descrever educação geral e

"habilidade especializada"para descrever a habilidade em alguma tarefa na firrma. Em relação à citação acima, ele concordava com Smith que os gastos com educação podiam ser tratados como um tipo de investimento e os salários recebidos em virtude da educação como um lucro do capital. Enquanto a parte que a natureza representa na produção mostra uma tendência para os rendimentos decrescentes, o papel representado pelo homem mostra um papel para os rendimentos crescentes.

A questão do capital humano está presente no sistema marshalliano. Ele tinha duas preo-

cupações: com a família e com o somatório das famílias, a saber, a sociedade. Para ver uma Inglaterra mais forte e próspera, repleta de gentlemans, o crescimento deveria ser lento e gra- dual, calcado em grande medida no fator de produção humano.

3.2 Recomendações Normativas

O problema intergenracional se interpõe novamente. A questão aqui é que as crianças não

tem autonomia para proteger seus interesses na sociedade, dessa forma o Estado é chamado para fazer esse papel, principalmente quando os pais falham em proteger os interesses de seus filhos. Nem sempre a geração atual sabe o que será melhor para as gerações futuras, principalmente quando as famílias em questão estão presas ao círculo de pobreza e incompetência 4 .

Apesar de se considerar liberal, Marshall propõe que o Estado estabeleça educação com- pulsória. Seu maior medo era que uma criança com talenteo científico ou empresarial da classe pobre ficasse preso às amarras de sua condição e não aproveitasse seus talentos, habilidades por causa do analfabetismo e imprevidência dos pais. Ou seja educação era responsabilidade do Estado:

Somente o Estado podia garantir altos níveis de investimento em capital hu- mano, essencial à velocidade do crescimento econômico, altos salários, e facilita-

4 Nas classes mais ricas, Marshall sustenta que os pais agiam tendo mais consciência do futuro e, de fato, inves- tiam em seus filhos. Marshall diz ainda que os pais tomavam a decisão com base no conjunto de informações que eles tinham, portanto eles eram ignorantes quanto a importância da educação.

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ção da mudança histórica para um elevado nível de emprego para a classe trabalha- dora (BOWMAN, 1990, p. 258).

Na questão da oferta de mentes com educação geral, devido aos problemas econômicos de informação assimétrica e externalidade nesse setor 5 , ele achava que o Estado deveria propor mecanismos de educação de crianças e adultos. "Tornou-se um grande negócio para o cresci- mento da riqueza da nação que o investimento em capital material flua para investimento em capital humano (personal capital)"(MARSHALL, 1996, p. 681).

Mill acreditava que a taxa de natalidade diminuiria com a educação e isso impulsionaria as taxas de salários, já Marshall argumentava que a educação aumentava a produtividade e o dividendo nacional, portanto maiores salários seriam pagos. E maiores salários leva a maiores investimentos em capital humano.

Assim como Mill, Marshall acreditava que a questão das externalidades poderia ser con- tornada com a intervenção do Estado. Para ele, somente dessa forma o círculo de pobreza e influciência seria quebrado. Ademais, ele diz que se considerarmos esse investimento do Es- tado em capital humano equiparável a outro investimento físico, o retorno seria elevado, devido o baixo estoque presente na população.

Considerado liberal, quando o assunto era educação Marshall defendia com contumácia a intervenção do Estado para garantir uma educação universal e de qualidade.

5 A externalidade aqui reside no fato de que os pais estavam pouco propensos a investir na educação de seus filhos ja que ela não lhes daria retorno algum.

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4

Conclusão

4.1 As Diferenças entre a Teoria do Capital Humano Clássica e Moderna

A premissa básica dos economistas neoclássicos que começaram a estudar o capital humano reside no fato que nem todas as capacidades de uma pessoa são atribuídas no momento de seu nascimento e, ao invés disso, elas são desenvolvidas ao longo da vida por atividades que possuem o atributo de investimento Schultz (1962). E essa forma de investimento possui pelo menos duas implicações. A primeira refere-se a macroeconomia: investir em pessoas aumenta sua produtividade e consequentemente a renda per capta do país. A segunda diz respeito a fatores microeconômicos: a educação equaliza a renda diminuindo a desigualdade de renda Schultz (1962). Ou seja, o capital humano contribui para a erradicação da pobreza.

Theodor Schultz, Gary Becker e Jacob Mincer são os nomes de maior expressão na teoria de capital humano neoclássico. A principal realização deles foi deixar claro o papel do capital humano no crescimento econômico de longo prazo. Nesse sentido, eles elevaram à posição privilegiada os estudos de capital humano na teoria econômica.

Quem conta a história recente da teoria do capital humano é Mark Blaug. Em sua visão, essa teoria é derivada de um projeto de pesquisa que veio desenvolvendo-se de forma não cons- ciente por algumas gerações de economistas. Blaug (1975) diz que a teoria foi publicada em um Journal pela primeira vez por Theodore Schultz, em 1962, em um complemento sobre o inves- timento em seres humanod do periódico Journal of Political Economy. Mas Blaug reconhece que as fontes primárias da teoria de fato foram Smith, Marshall e Fischer.

Desde a década de 1930 tem-se aventado hipóteses para explicar os fatores que influenciam o crecimento econômico. A função de produção clássica que leva em conta os fatores terra, trabalho e capital era a única via para explicar as diferenças de crescimento de renda entre as nações. Ocorre que, depois da segunda guerra mundial, a economia alemã e japonesa estavam destruídas, mas esses países recuperaram-se de forma distinta. O caso da Alemanha foi mais relevante porque fazia funcionar concomitantemente dois regimes, no lado ocidental a economia

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de mercado e no lado oriental imperava o planejamento central soviético. No Japão o que chamava a atenção era o fator terra, extremamente escasso.

Nesse contexto alguns economistas começaram a procurar explicações que residiam no fa- tor homem. Ou seja, os economistas perceberam que melhorias no fator de produção homem tinha grande importância para explicar o processo de crescimento econômico. O que antes era explicado exclusivamente pelo capital físico passou a ganhar novas abordagens. É claro que a importância de investimento em capital físico continuou em alta conta, mas gradualmente foi sendo consolidado na literatura da área que se fosse desenvolvido uma metodologia que conse- guisse computar com e?cácia o dispêndio em capital humano, este certamente teria grandepeso no processo de crescimento econômico.

Jacob Mincer e Theodore Schultz, mesmo tratalhando separadamente, e tomando por base

a ideia de Fischer de que tudo era capital, tanto físico quanto humano, desenvolveram seus res-

pectivos trabalhos. Mincer valeu-se da econometria, estabelecendo relação entre o investimento

em educação e renda. Partindo do pressuposto que investir na própria educação era uma ação ra- cional, Mincer concluiu que a dispersão dos rendimentos entre as diferentes ocupações deveria estar relacionada positivamente ao volume do investimento em capital humano feito nelas.

A decisão de gastar recursos com a própria educação está relacionada com a predisposição de uma pessoa a se preocupar com o impacto no futuro devido às ações do presente. É muito difundida atualmente a abordagem do investimento em educação relacionada com estimação de retorno em termos de renda. Portanto, o gasto com educação é um recurso intangível e para Becker (1962) pode ser peça chave para explicar a desigualdade de renda 1 .

Schultz (1960) diz que a formação de capital humano nos EUA não é pequena e tampouco

é constante em relação a formação de capital físico, mesmo se atribuírmos grande parte dos

gastos com educação na conta de consumo. Por isso o interesse em estabelecer o impacto desse esforço nos indicadores macroeconômicos do país:

Idealmente, nós gostaríamos de ter estimativas da formação de capital humano, tanto bruta quanto líquida, e do tamanho do estoque. Nós deveríamos também gostar de saber quanto, se alguma parte, desse aumento na renda nacional é devida ao aumento no estoque de capital e qual tem sido a taxa de retorno do investimento em educação (SCHULTZ, 1960, p. 572).

1 Schultz (1961) diz que "a noção clássica do capital como sendo uma habilidade para executar trabalhos manuais estava errada no período clássico e está errada agora".

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Em virtude do livro de Becker (1975), a teoria que consolidou-se no estudo do capital humano é aquela que tenta estimar o retorno do investimento em educação. Becker (1962) argumenta que o melhor retorno é do investimento realizado na própria empresa 2 .

Mas, como bem lembra Bowman (1990) a teoria de capital humano dos clássico tem pouca coisa a ver com a desenvolvida por G. Becker. Isso porque primeiro: Smith não tinha clara noção da importância do investimento em educação geral e segundo: Mill e Marshall não acre- ditavam na ideia de que educação poderia ser tratada sob a perspectiva do auto-interesse ou pelo retorno de investimento. Além disso, o que no século XIX era educação específica, na época de Becker não passaria de educação geral.

É importante notar que a educação a que se referiam os clássicos é bem diversa da literatura atual. À época dos clássicos nem existia ensino básiccompulsório. Na década de 1960 iniciouse uma nova linha de pesquisa que tentava quanti?car o investimento feito no capital humano. A preocupação desses economistas era em separar o componente da demanda "gasto com capital humano"com o do resto, ou seja, separar os gastos diretos com educação, saúde e migração para conseguir melhores oportunidades de emprego dos outros tipos de gasto com consumo 3 .

Essa literatura atual trata o gasto com educação como sendo de natureza dupla. Porque pode ser considerado consumo e pode ser considerado investimento. Isso ocorre porque como sustenta Schultz (1961) existem dois tipos de gastos: com consumo puro para satisfazer a ne- cessidade, mesurável pelo conceito de utilidade. Investimento puro que não satisfaz as prefe- rências, mas se refere ao futuro. E existe gastos com os dois efeitos. O gasto com educação é um deles. Devido essas características analisar a formação de capital humano pela ótica dos gastos pode ser mais difícil.

Portanto, os clássicos analisavam o problema do investimento no homem sob a ótica da melhoria da condição geral da população inglesa. Já a nova abordagem busca estimar retornos do investimento em capital humano. O objetivo não é mais inferir a riqueza nacional devida ao capital personi?cado no homem. Agora a abordagem é sob a perspectiva do ganho individual do agente 4 .

2 Schultz (1961) utiliza-se de um conceito marshalliano para justificar gastos com educação: "A qualidade do esforço humano pode ser grandemente melhorada e a produtividade aumentada".

3 Saul (2004) salienta que: "Fisher é a fonte primária da teoria moderna do capital humano, na forma em que elasurgiu, no fim da década de 1950."

4 Gary Becker que iria formalizar a pesquisa empírica do retorno da educação na questão da formação das prefe- rências toma por base a análise pioneira de Marshall. Esse análise consistia no seguinte conceito: as preferências dos indivíduos são geradas de acordo com suas atividades.

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4.2 Críticas à teoria do Capital Humano

Como argumenta Feijó (2000) é difícil criticar uma análise filosófica porque só podemos descartar uma teoria oferecendo em troca outra. Claramente tal tarefa foge ao escopo do escopo de um estudo monográfico de graduação. Essa dificuldade é ainda mais preemente pela naturaza do objeto de estudo aqui analisado. Não houve grandes embates teóricos acerca da teoria do capital humano. Ela veio se desenvolvendo ao longo da história do pensamento econômico. No entanto, podemos tecer algumas críticas pontuais a alguns pontos dos autores apresentados no presente trabalho. Por fim podemos também fazer uma crítica geral à teoria do capital humano.

Primeiramente tecerei uma crítica à teoria de Smith, depois a Marshall e por fim aos eco- nomistas que passaram a escrever a partir da década de 1960.

Smith compreendeu muito bem que a analogia entre capital humano e capital físico poderia ser válida. Ele tinha, portanto, uma clara noção de que gastos com educação eram semelhantes

a gastos com aquisição de maquinário. Faltou-lhe contudo estabelecer uma relação entre gasto

e retorno futuro esperado da educação. Talvez se ele tivesse captado esse insight, o destino de muitas crianças não seria as fábricas, mas sim o banco de escola.

A metodologia de Marshall era dedutiva. Sua investigação era realizada através de exem- plos cotidianos do cidadão inglês. Durante suas aulas ele sempre exigia de seus alunos que

apreendessem a teoria econômica a partir do estudo de caso. Nesse sentido, ele não ficava preso

a teoria econômica pura. Isso deixava a impressão de pouca precisão daquilo que ele falava.

Pigou mesmo disse que à época que leu os Princípios achou que conseguiria escrever um livro igual, tamanho a simplicidade de exposição de ideias. Talvez essa característica de Marshall te- nha sido herdada de Darwirn e sua procura por prosaísmo. Mas essa procura teve consequências negativas ao seu método. Isso se refletiu no alcance de suas ideias sobre educação. Portanto, argumenta-se que os impactos de suas ideias para os problemas atuais foram menores devido essa falta de método.

A literatura que colocou a teoria do capital humano em lugar de destaque a partir da década de 1960 tratou o tema sempre visando a agregação de conceitos objetivando alguma estimação. Apesar desse esforço a tarefa de se contabilizar o capital humano não é fácil. Valer-se da hipótese de que grande parte do crecimento da renda deve-se ao capital humano também requer muitas hipóteses auxiliares. Isso ocorre porque é difícil colocar essas hipóteses sob teste. A atual teoria perocupada em estimar variáveis e estabelecer causa e efeito esqueceu o aspecto social moralizante defendido por Marshall. Na visão dele a questao do investimento no homem ultrapassava o aspecto econômico. Portanto, tanto para Marshall quanto para os clássicos havia

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a questão da classe operária melhorar a condição em que vivia. Ou seja, as questões morais deixaram de ser relevantes na bibliografia mais recente.

Mark Blaug também criticou a teoria moderna do capital humano. Para ele, a teoria se en- contrava em situação crítica. Isso ocorria porque nas pesquisas desses economsitas não constava informações claras sobre a demanda privada de educação, o papel dos incentivos das empresas ou sobre o impacto da oferta pública de educação superior. Além disso, apesar dos objetivos econométricos, esses autores não conseguiram oferecer cálculos aceitáveis a respeito das taxas de rendimento entre os diferentes tipos de investimentos na formação de capital humano e tam- bém em razão de que a retomada de cálculos para rever resultados contraditórios das análises terminavam por fazer degenerar o programa de investigação.

Houve uma denegeração no programa de estudo do investimento em educação. Nesse sen- tido, ocorreu a passagem de um estado natural a outro inferior. Porque, para Marshall as deci- sões sobre educação eram tomados dentro do contexto da família. Atualmente, como destaca Blaug, exite a dominância do individualismo metodológico nos principais investigadores do programa. Ou seja, a idéia de que os fenômenos sociais podem e devem ser pensados como tendo seus fundamentos no comportamento individual, e que a formação do capital humano deve ser concebida em termos de decisões de indivíduos que atuam em defesa de seus interes- ses próprios.

Existe uma crítica que amiúde é feita ao progra de pesquisa em capital humano. Como dis- tinguir gastos diretos com educação com consumo? Infelizmente esse é um dos pontos fracos da teoria quando ela tenta fazer cálculos e agregações. Portanto esse é o problema causado quando se tentou de toda forma metodologias de mensuração. Esse método de acordo com a lógica formal da teoria econômica neoclássica usa em excesso o "ceteris paribus", que compromete a capacidade explicativa da teoria em questão.

Além disso, podemos apresentar uma tese sobre as limitações da teoria do capital humano,

de forma genérica. Segundo a teoria da tábula rasa o cérebro é um terreno plano sobre o qual

o conhecimento pode ser construído. Mas, a teoria do capital humano não diferencia as ha-

bilidades cognitivas pessoais. Essa falta de distinção dá margem ao seguinte questinamento:

como pessoas com a mesmo nível de educação recebem renda distinta? Por que há pessoas com maior qualificação e salários iguais a outros profissionais com menor tempo de estudo. Em algumas metodologias tenta-se contornar a questão atribuindo a causa a aptidão que é um fator não observável.

Spence (1973) por exemplo, acredita que, se as firmas pudessem identificar um trabalhador pela sua produtividade, elas pagariam a esses um salário igual ao produto do rendimento margi-

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nal. O que acaba acontecendo é que as firmas pagam a produtividade média aos trabalhadores porque não conseguem identificar a produtividade do trabalhador a priori. Uma alternativa é sinalizar maior produtividade através da educação. Spence disse que essa maneira de agir era viável porque o custo de educação dos trabalhadores de menor produtividade era maior porque os trabalhadores menos eficientes, em geral, sofrem uma restrição contingencial. Não são dota- dos de aptidão para os estudos, o que torna o tempo para receber um diploma maior. O grupo de maior produtividade irá investir em educação se o benefício marginal for maior que o custo da educação. Portanto, a educação torna-se meramente um equilíbrio separador.

Ocorre que uma das premissas da atual teoria de capital humano é que os indivíduos têm

a mesma oportunidade de educação, não exite diferenças sociais, e que não existe diferenças

de habilidades que possam gerar diferenciação no grau de escolaridade do indivíduo. Ou seja,

a teoria do capital humano desconsidera o ponto central de teoria de Spence: não levam em

conta que pessoas mais inteligentes tem mais facilidade em obter mais diplomas. Dessa forma,

o agente estaria sujeito somente a sua taxa de desconto intertemporal. Os custo para se educar entre as pessoas são diferentes e estão relacionados à apitidão.

4.3 Considerações Finais

Ao longo dessa monografia estudamos a teoria do capital humano e vimos como o con- ceito evoluiu desde os clássicos e demos atenção especial ao trabalho de Marshall acerca desse conceito visando compreender seu projeto de economia social. Ou seja, estudamos a evolu- ção do conceito antes de Marshall, sua contribuição, pioneirismo e suas indicações de ordem normativa. Procurei fundamentar os argumentos através das passagens na literatura tanto pri- mária quanto de comentadores, contextualizá-las em seu período, compará-la com as teorias que surgiram na década de 1960 e analisar suas implicações para a sociedade moderna.

Podemos afirmar que Marshall foi pioneiro na forma como abordou o tema do capital hu- mano, principalmente se considerarmos que a sociedade em que vivia estava preocupada em acumular capital. Foi mais profundo que Mill e Smith e deu uma contribuição importante fazendo lobby para que o Estado ficasse com a responsabilidade pela educação das crianças, ar- gumentando que o desempenho macroeconômico futuro dependeria diretamente da capacidade adquirida por essas crianças na fase de aprendizagem.

Desde que o objeto de estudo da economia deixou de ser incerto e mutável, os trabalhos sobre capital humano passaram a agregar de sobremaneira os indicadores de gastos diretos com educação para conseguirem estimar relações estáveis. Argumentamos que essa forma de olhar

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a educação além de ser menos elegante que aquela desenvolvida por Marshall e os clássicos, peca peca por padronizar o comportamento humano diante da escolha de educar-se.

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