GALINDO, Caetano Waldrigues.

Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake, de James Joyce, represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. BAKHTINIANA, S˜o Paulo, a a v. 1, n. 4, p. 38-49, 2o sem. 2010

Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake, de James Joyce, represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes a bakhtinianos / On the possibility that James Joyce’s Finnegans Wake may represent some sort of literary synthesis according to a bakhtinian reading

Caetano Waldrigues Galindo*

RESUMO O trabalho investiga a possibilidade de que a descri¸˜o bakhtiniana da cis˜o entre prosa e poesia ca a possa ter sido superada pela proposta radical de Joyce em seu ultimo romance, Finnegans Wake, ´ que se apresentaria assim como uma esp´cie de nova pan-literatura. e PALAVRAS-CHAVE: Literatura total; Prosa; Poesia, James Joyce ABSTRACT This paper examins the possibility that the bakhtinian description of a rupture between prose and poetry might have been overcome by Joyce’s last novel, Finnegans Wake, with its radical attitude, which might present us with a sort of new total literature. KEY-WORDS: Total literature; Prose; Poetry, James Joyce

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Professor da Universidade Federal do Paran´–UFPR, Curitiba, Brasil; cwgalindo@gmail.com a

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obra prima da tens˜o irresolvida a em m´sica. a a como passou a ser chamado. a a v. De Machault (1701-1794) a co e a Beethoven (1770-1827). Caetano Waldrigues. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. na forma de um acorde de singelas quatro (sempre quatro) notas. H´ centenas de textos sobre as possibilidades de an´lise daquele acorde. seis anos depois de conclu´ e mais de dez anos u ıda depois do in´ da composi¸˜o. 38-49. bem como das a ca ca reflex˜es que me levaram a ele. o u e 1 Einleitung1 Tristan und Isolde. simplesmente inaugura. naquele momento. algo como um trailer do filme que e ıte seguiria). uma a o c˜ tentativa de compreens˜o. 1. 2o sem. o percurso proposto o n˜o resolve. de Richard Wagner (1813-1883). essas an´lises n˜o ocorrem. ´ uma imensa sensa¸˜o de desorienta¸˜o. a a e afinal. que se servia a a o efetivamente de uma esp´cie de su´ de abertura. a modernidade musical. estreou em junho de 1865. ca a Muito j´ se disse sobre apari¸˜es pr´vias daquele acorde. ao dissolver as regras estritas ca o da tonalidade definidas no per´ ıodo barroco e abrir caminho para tudo entre Debussy (1862-1918) e Schoenberg (1874-1951). sua funcionalidade. O que resta do acorde Tristan. Sempre. pela exposi¸˜o de um problema ou uma situa¸˜o.E). 4. S˜o Paulo. a um p´blico para o qual a teoria bakhtiniana ´ clara. sobre a quarta nota da sequˆncia (e todo aquele prel´dio a e e u se estruturaria sobre semelhantes motivos de quatro notas). ıcio ca Naquela noite. chamou-o inclusive de acorde andr´gino. mantendo-se como tens˜o. A m´gica daquela androginia. de James Joyce. mas. que na leitura de muitos m´sicos do s´culo XX. pois ele e ca ca a desmente o calmo caminho em l´ menor que parecia come¸ar a se insinuar. de tens˜o. Mesmo em termos musicais. Aquele conjunto ascendente de f´-si-r´ a e sustenido-sol sustenido pode ser analisado de infind´veis maneiras. a tormenta caiu sobre a sala ´ de concertos da Opera de Munique. Ao ouvinte leigo atento. de sua articula¸˜o a a ca com algumas quest˜es musicais. como r´pido acorde de u a 1 Introdu¸ao (N. a o u cuja an´lise chegou aos ouvidos de Wagner. mas n˜o tem significado estrutural enquanto n˜o u a a for estabelecido seu contexto. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. ele j´ e a foi encontrado em outros trechos de m´sica. por a o pertencer simultaneamente a dois campos tonais. u e sozinho. a plateia pˆde ouvir uma sequˆncia de trˆs notas que j´ podia estabelecer o o e e a ambiente de l´ menor. Um te´rico h´ngaro. algo que os linguistas costumam ter facilidade para compreender. para usarmos a analogia preferida de James Joyce. pretendemos apresentar algo a a da problem´tica em torno da forma do Finnegans Wake e. ao se iniciar o prel´dio que servia de abertura para a ´pera (em um u o movimento que j´ a afastava do modelo ent˜o vigente da ´pera italiana. pelas in´meras a c u possibilidades de resolu¸˜o para os pr´ximos compassos. Trata-se efetivamente de um ensaio. portanto. Frustra¸˜o e deslumbre. passando por Johann Sebastian Bach (1685-1750. c˜ 39 . por que n˜o. Essa ´. At´ que.compositor muito adepto da t´cnica de esconder o grotesco-sublime em meio a seus tecidos). BAKHTINIANA. p. pois um determinado conjunto de notas pode ter este ou aquele efeito sobre p´blico e executante. 2010 Este texto n˜o tem pretens˜es de resolu¸ao.GALINDO. por meio dele. uma das grandes belezas da teoria musical. no entanto. n. servir simultaneamente a dois mestres.

a Joyce de fato parece ter partido do esqueleto do mito de Trist˜o e Isolda (Crispi & Slote. E esse primeiro estrondo ´ bastante direto. contudo. o o primeiro deles pode repetir. escrever os a u libretos de suas ´peras e at´ a desenhar o teatro em que elas seriam apresentadas. O que pretendo ´ expor em alguma a ca e min´cia sua t´cnica verbal mais recorrente e tentar levantar uma possibilidade de leitura. embora seja dif´ reconhecer plenamente essa referˆncia ıcil e entre as centenas de outras presentes no texto final. fornece-lhe e alguns motivos e temas (especialmente o Mild und Leise do Liebestod de Trist˜o e Isolda). 2 Bababadalgharagh Finnegans Wake. o e simboliza aquela totalidade inclusiva em sua mesma androginia. ´ um livro. sem termos de apelar para os anotadores. N˜o h´ aqui espa¸o. ` a e ca ca a chuva. nem cabe aqui a possibilidade. de James Joyce. Vemos ıcio o e nele (e vamos apenas partir de ra´ mais facilmente reconhec´ ızes ıveis. ou seja. N˜o podemos afirmar categoricamente e a em que l´ ıngua esteja escrito. n. de James Joyce. pois abriu a mais famosa ´pera de o Wagner. a cr´ a ıtica do Wake aprendeu a ver ali a primeira das tais “palavras-trov˜o” que representam a explos˜o que. Aquele acorde partilha da natureza do trocadilho. a a v. 2o sem. S˜o Paulo. tudo isso retorna mais de setenta anos depois. A primeira dessas palavras-trov˜o pode servir como ponto de partida. Em Wagner. talvez do alem˜o Donner e certamente do portuguˆs e e a e 40 . ca O que eu quero aqui do acorde Tristan ´ um s´ e ımbolo. em consonˆncia com toda essa explora¸˜o tem´tica da ambiguidade. BAKHTINIANA. Seguido de um ponto de exclama¸˜o. ca a obra de arte total que se tornaria sua obsess˜o. co A ideia da arte total. do inglˆs thunder. na verdade). Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. bem como sua androginia. que desenterraram muito mais) ecos da palavra francesa tonnerre. Wagner. 4. Caetano Waldrigues. 1. p. daquele rei e daquelas Isoldas (sempre ´ a a e bom lembrar que. que representa seu primeiro movimento definitivo na dire¸˜o do Gesamtkunstwerk. a Num livro todo pontuado por dez trov˜es de cem letras (um deles tem 101. E o que ela nos a diz ´ bababadalgharaghtakamminarronnkonnbronntonnerronntuonnthunntrovarrhounawnse kawntoohoohoordenenthurnuk. nem aproxima¸˜o deste acorde e deste livro. suas setas e dire¸˜es. h´ a ca a a de fato duas Isoldas no mito e na ´pera. contudo. E a tens˜o feita a dura¸˜o.10) para compor seu livro. assim como Tristan em determinado momento o se transforma em Tantris). ca Tem´tica e estruturalmente. u e ´ Antes. vindo j´ na primeira p´gina. o efeito daquele acorde na a a Alemanha. o tema daquele cavaleiro. a a ca o geram o rein´ dos ciclos hist´ricos. vale lembrar que aquela liga¸˜o com o acorde-tempesta da Opera de ca Munique n˜o ´ apenas mera ilustra¸˜o. al´m disso. o trocadilho irresol´vel que se refestela em ampliar possibilidades u e n˜o em fech´-las. de uma a a c an´lise ou mesmo de descri¸˜o aprofundada do Wake. na concep¸˜o viconiana de hist´ria. com a diferen¸a de que ali n˜o se podem reconhecer de fato e de e c a pronto os acentos. em outra obra aplicada a romper “fronteiras”. do grego bront´. do discurso pluriacentuado de qualquer esp´cie. a p. da ironia. 38-49. 2010 ´ passagem. ` tormenta. ele se sustenta por dois tempos inteiros. levando-o a compor m´sica. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos.GALINDO.

que pode ser tamb´m o a e a e sobrenome do personagem principal. Caetano Waldrigues. A seta. a e a a a a rompendo a fronteira de segmenta¸˜o. Como o beijo. aspace of dumbillsilly (p. ainda hoje. Temos. ela est´ perguntando por que se parece com alguma coisa (why do I look a a like. de James Joyce. Pode ainda se basear estritamente no multilinguismo. baseando-se inteu gralmente em ra´ ızes inglesas. BAKHTINIANA. eu sou como. 1.. ´ onde estas j´ est˜o]. que precisam ser colhidas [to gather ] para depois serem pressed [aqui no sentido de conservadas entre as p´ginas de um livro.. que alguma coisa ´ essa? Se forem as duas ervilhas. A resposta de seu interlocutor. Esse procedimento pode ser diversificado de in´meras maneiras. Essa fus˜o arbitr´ria das palavras. 2010 trov˜o. Trata-se de um trov˜o de trov˜es.21). um asterisco. plurissˆmicos no e limite da incompreensibilidade. que e explode em in´meras dire¸˜es. parece ser tamb´m uma rea¸˜o a essa ininteligibia e ca Sigo fisgando algo a esmo em meus exemplos. please). por´m. ` express˜o two peas in a pod a a [duas ervilhas da mesma vagem]. lemos na p´gina 152 twolips have pressed a togatherthem.) ou afirmando que ´ e semelhante a alguma coisa (why. a s´sias (look-alikes). notamos aparentes referˆncias ` cerveja (porter. onde temos sobre a singela senten¸a two lips have pressed together then c [dois l´bios ent˜o se apertaram]. perguntando por que gosta de alguma coisa (why do I like. ou pode. autoriza-nos a ler de fato naquela ultima palavra ca ´ um to get her to him [para lev´-la a ele] pronunciado apressadamente.15). dos semanticistas. Por exemplo. que sob uma aura de aparente multissemia inglesa esconde a direta frase francesa o` est ton cadeau. ele diz muito sem significar objetivamente. mas a temos a abertura de um leque de potenciais referˆncias. S˜o Paulo.. ali´s. como em Who ails tongue coddeau. I am like. n˜o podemos saber o que a palavra significa.])? Perguntamos. Et ad infinitum. sem se permitir qualquer a o sombra de conclusibilidade. com a possibilidade de uma leitura definitiva. ora. ca aparece como why do I am alook alike a poss of porterpease? Nessa pergunta quase indecifr´vel. a 2 41 . como em trechos em que mesmo os anotadores n˜o conseguem a concordar. um dono de bar). Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. que pode representar.[ora. ancorar-se no fato de que o leitor j´ a est´ treinado para buscar padr˜es e explorar possibilidades. como express˜o de similaridade. n. ´ a principal v´ a e ıtima dessa linguagem de trocadilhos multil´ ıngues. por exemplo. que. a a v.. a Tudo isso.).. estabelecidos os princ´ ıpios.. fazendo referˆncia a flores (tulips). a a o Como no caso do acorde de Wagner. 3-29) que centro a an´lise. esp`ce d’imb´cile [cadˆ teu presente. em sua primeira itera¸˜o (p. Afinal. Mas e a cerveja? Ela pode estar pedindo um balde de cerveja. sem ser nenhuma dessas coisas definitivamente. mantendo apenas a unidade no fato de que ´ no e primeiro cap´ ıtulo (p. de fato a e e formadas pelas palavras pressed together [apertadas uma contra a outra]. e ali´s. 38-49. fazendo com que procuremos uma nota de rodap´ que n˜o u co e a est´ ali (ao menos n˜o nesse cap´ a a ıtulo do livro). Aqui n˜o haver´ seta apontando a a seja para o mundo real seja para um referente qualquer. 4. u e e e seu idiota?]. a o bem como sua ambiguidade quanto ao verbo central e ` mesma estrutura sint´tica a a b´sica. acima de tudo.GALINDO.. A mesma referencialidade que. estritamente ao mesmo tempo. 2o sem. p.. A repetida pergunta da prankquean. a imposi¸˜o de outra (two lips have pressed to gather a a ca them [dois l´bios se cerraram para recolhˆ-los]). por favor (a pot of porter. ela est´ perguntando (ou e a afirmando) que ´ parecid´ e ıssima consigo mesma.

E apenas nesse mar de referˆncias e de e potencialidades verbais que faz pleno sentido pensar no Finnegans Wake como a apoteose do mais maldado dos recursos verbais: o triunfo do trocadilho. a do refratado. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake.GALINDO. outra abordagem que s´ faz ampliar o e e o leque de referˆncias (e se trocamos o sentido preferencialmente semˆntico da palavra pela e a interpreta¸˜o mais normalmente cultural resolvemos metade dessa transi¸˜o). BAKHTINIANA. transformando-se assim na maior e mais inestim´vel fonte de apoio ` leitura da obra. o . co . c o a e Em um livro de pouco mais de 600 p´ginas. e . e A b´ ıblia pode virar urina quando all the guennesses had met their exodus (p. Sempre linda. a a registra no livro. em que todo o gˆnesis chega ao ˆxodo.24 jornais e revistas. .70 referˆncias a jogos infantis. .40). a .28 “cl´ssicos”. era trigo para o moinho de Joyce no Wake. que compila online todas as anota¸˜es dispon´ co ıveis do Finnegans Wake. 1. S˜o Paulo. a presen¸a de referˆncias. 4.243 parlendas. que um bom ıdo irlandˆs poderia exclamar diante de tal algaravia. a a v. pois ele apenas solta um Shut. o que faz com que o livro se transforme em uma curiosa esp´cie e de mosaico em que as tesselas precisam ser reconhecidas com muito esfor¸o. Mas linda. podem reaparecer diversas vezes no livro. n. e . uma esp´cie de s´ e ımbolo nacional irlandˆs. .1575 can¸˜es populares. pode ser o ru´ dele fechando (shutting) a porta. por exemplo. 2o sem. homenagens e par´dias a: co co o .128 livros modernos. c e apropria¸˜es.Toda a B´ ıblia (incluindo os ap´crifos). isso representa uma ubiquidade do citado. irreverentes (no sentido pleno do termo) e tamb´m devotadas.87 idiomas diferentes. e Al´m dessa t´cnica de lidar com as palavras.Todas as pe¸as de Shakespeare (s´ ao Hamlet h´ 62 referˆncias). de James Joyce. e em que a c imagem final parece pontilhista demais para se vista de perto e curiosamente polimorfa se ´ contemplada de longe. canibaliza¸˜es. . e As palavras mild und leise [delicada e suavemente]. mas definitivamente invoca o shit. em que comparecem prontamente as palavras guineas [guin´us] e o verbo to hie [apressar-se por]. ´ o fato de ca ca e que tudo lhe estivesse dispon´ ıvel. 38-49. e das formas mais variadas. Lisa Mofada. Aquela mesma cerveja. p.218 prov´rbios. 2010 lidade. ou seja. do absorvido. a a transformadas. comparece mesmo e com seu onipresente slogan (Guinness is good for you [Guinness faz bem]). O triunfo da constata¸˜o do ca 42 . Caetano Waldrigues. Que pode ser um shut up [cale a boca].855 frases feitas ou ditados. todos os come¸os chegam aos fins e toda a cerveja e e c Guinness bebida durante um dia sai durante o banho do personagem. e o . represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. O site “Fweet”. apenas para encurtar nosso levantamento.3). transformado por exemplo em Ghinees hies good for you. . em um travesti de nome-de-guerra Mildew Lisa (p.Toda a obra pr´via do pr´prio Joyce. que abrem o famoso Liebestod da conclus˜o daquele Trist˜o e Isolda de Wagner.

Especialmente se agora o balde em que se pescam os poss´ ıveis referentes de cada trocadilho cont´m n˜o mais os referenciais diretos de uma situa¸˜o de comunica¸˜o. subestimar o valor desse elemento. de forma subversiva o programa que tamb´m e tocava a Walter Pater (p. mas sim imp˜e uma leitura em voz alta. pois sempre deixam “de co fora” uma quantidade significativa de produ¸˜o. quando todo e qualquer aluno-leitor-professor n˜o cansa de se deparar (e mesmo Tezza exp˜e essa situa¸˜o na segunda se¸˜o de seu a o ca ca livro) com opini˜es de poetas e de te´ricos da poesia que fundamentalmente se ocupam o o de dizer. e O que nos interessa. 1. 2o sem. ainda mais claramente. a ii. o que se atinge ´ uma delicada s´ e ıntese de moldes bakhtinianos em que a fronteira prosa-poesia continua sendo avaliada como a principal divis˜o entre os a gˆneros liter´rios. n˜o o que a poesia ´. que pˆde fazer daquela ´pera inteira uma esp´cie de celebra¸˜o da tens˜o o o e ca a com resolu¸˜o postergada. ´ outra fus˜o. gerando um texto que faz sentido como som e como letra. de James Joyce. a a a i. BAKHTINIANA. como a e deve ser a poesia que “eu” pretendo fazer. mas o que ela deve ser. N˜o cabe.GALINDO. 38-49. por´m. violer d’amores (FW. S˜o Paulo. Essas defini¸˜es acabam por excluir tanto quanto incluem. 2010 potencial pluri-acentual de um construto verbal que tem a capacidade.115). considerando o que a tradi¸˜o passou a ca ca chamar de poesia e de prosa liter´ria. recorrendo a uma prosa ca u essencialmente sonora. Ou. Nele. digamos. n˜o-discretos e n˜o-formais. mas em que essa divis˜o agora se faz em termos e a a a n˜o-normativos. a a v. Com isso que Joyce conseguiu criar o que Umberto Eco caracterizou como a melhor das m´quinas. c˜ u ` Uma das fus˜es que Joyce mais claramente tentou realizar com o Finnegans Wake foi o precisamente a dele¸˜o da fronteira entre literatura e m´sica.3) Wagner. At´ uma partitura original (The Ballad of Persse O’Reilly) faz parte do Wake. cujos termos foram mais bem definidos por e e a Bakhtin e mais claramente extra´ ıdos de sua obra por Cristov˜o Tezza em Entre prosa a e a poesia. valendoa o se. quando a identifica a predominˆncia de determinadas cadˆncias ou cadeias sonoras – n˜o lexemas – a e a com um ou outro personagem). De incorporar a coincidentia oppositorum de que ainda ca falaremos. p. n. realizando assim. aquela que pode fazer muito a mais do que seu inventor pretendia. mas e a ca ca dezenas de idiomas e todo um fundo cultural. muitas vezes. a a contudo. de ca a o evocar mais de uma interpreta¸˜o. existe um cont´ ınuo de formas 43 . em que muitos j´ viram ca a a a maior celebra¸˜o org´stica da m´sica ocidental. em que toda a arte aspirava a condi¸ao de m´sica. extremas. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. por sua constru¸ao c˜ ou por sua localiza¸˜o em contexto ironicamente favor´vel. P. ou favoravelmente irˆnico. Caetano Waldrigues. cl´ssicos. 3 Sir Tristram. que n˜o se oferece. N˜o-normativos a Jamais caberia a Bakhtin uma postura prescritiva quanto a essa quest˜o. de recursos unicamente musicais com fins liter´rios (por exemplo. apenas para coro´-la com o Liebestod. 4. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. N˜o-discretos a Entre uma prosa e uma poesia tipificadas. pretendia fazer com que a m´sica ca a u u resumisse toda a arte.

meu semelhante. como gera¸˜es de autores puderam fazer (penso no co poema em prosa de Baudelaire. 38-49. portanto. seria uma atitude quix´tica (e ca e a o potencialmente tanto mais bela por isso mesmo) de tentar impor ao caos pluril´ ıngue uma autoridade (´ essa a palavra-chave) que se pretende monovocal. BAKHTINIANA. ali a poesia. Galindo. O poeta como “eu” ret´rico. ao prosaico. 2010 sobrepon´ ıveis que se colocam em toda e qualquer posi¸ao relativa aos dois p´los. organizadora e e reta como orienta¸˜o. o romanesco. Ao inv´s e de deslizar de um extremo a outro. portanto. a partir da necessariamente falha e defeituosa ca exposi¸˜o de exemplos de mecanismos wakeanos das p´ginas anteriores. que n˜o apenas retrata essa situa¸˜o. A prosa c˜ o tendendo aqui ao po´tico. de William Carlos Williams3 . de Broch. (tradu¸˜o minha)] ca 4 E se o tom assumidamente ensa´ ıstico do texto j´ vinha se mantendo claro. e ca assim como. a a a e 5 Cf. comp´sito. ca a O primeiro fator. 2o sem. mas ca a ca a dramatiza ao se constituir ele mesmo como cen´rio e palco desses embates e desses a conv´ ıvios.GALINDO. em que as primeiras palavras na verdade concluem a senten¸a iniciada na ultima c ´ p´gina (o que fica claro mesmo pelo recurso gr´fico de n˜o empregar um ponto no final a a a This is Just to Say I have eaten / the plums / that were in / the icebox // and which / you were probably / saving / for breakfast. compreendo que Joyce. e at´ no centramento e 4 l´ ırico evocativo de Proust). Caetano Waldrigues. o ´ E claro que o elemento de “n˜o normatividade” seria comum a Joyce e Bakhtin. n. passa a ser a sugest˜o de que algo de diferente esteja a acontecendo no trˆnsito que o Finnegans Wake realiza dentro daquele cont´ a ınuo. mas uma fundamental postura n˜o apenas de aceita¸˜o a a ca da multiplicidade como fenˆmeno central da linguagem. S˜o Paulo. N˜o-formais: a Reconhecemos que n˜o ´ na busca de elementos gr´ficos ou fisicamente verbais (soa e a noridades) que se pode tra¸ar qualquer distin¸˜o relevante. 1. de James Joyce. que j´ executara uma esp´cie de a e potencializa¸˜o infinita da forma romanesca bakhtiniana no Ulysses 5 . Uma situa¸˜o em que o “prosaico” n˜o seria uma cole¸˜o de temas. mas sim no que ele vˆ como c ca e uma atitude em rela¸˜o ao dialogismo e ao plurilinguismo dominantes da linguagem ca efetivamente utilizada. 3 44 . a a v. [Isso ´ e s´ para dizer que eu comi / as ameixas / que estavam / na geladeira // e que / vocˆ provavelmente / o e estava guardando / para o caf´-da-manh˜. abrangente. ´ claro. p. lembre que ele d´ dois passos ` frente e se coloca no proscˆnio. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. na prosaiciza¸˜o da Wasteland de Elliot. // Forgive me / they were so delicious / so sweet / and so cold. Uma situa¸˜o em que o “po´tico”. 4. nas Epifanias do mesmo Joyce. pode ter efetivado ca no Wake a amarra¸˜o daquele cont´ ca ınuo em um la¸o-cont´ c ınuo. // Me desculpe / elas estavam t˜o deliciosas / t˜o doces / e e a a a geladinhas. nos ready-mades ca po´ticos de Bandeira. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. O prosador como “eu” ca o bakhtiniano. E a e ca ´. meu irm˜o. Booker. ca a ca abordagens ou recursos liter´rios. na banaliza¸˜o de This is Just to Say. mas de celebra¸˜o desse fato o ca pela ado¸˜o de um mecanismo. nos outros dois termos dessa pretensa equa¸˜o que devemos nos concentrar se queremos ver em que o Finnegans Wake pode ter servido como questionamento ou relativiza¸˜o de mais essa fronteira. a c e leitor. pelo contr´rio. e iii. na prosa metrificada de Jos´ de Alencar. agora pe¸o que vocˆ. Em um livro todo baseado no modelo de recursividade hist´rica de Vico. em que a o abertura descreve um momento em que diversas coisas est˜o prestes a acontecer mais uma a vez. no registro evocativo e eg´ico e e o de A morte de Virg´ ılio. afirmativo. Kershner.

de sa´ ıda. ou. mas sim pela h´bris criativa que se determina a criar de sa´ uma forma ca u ıda nova. mais ainda. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. mas na verdade me refiro muito mais e a conversa e a uma vis˜o de Bakhtin e de sua obra que o professor Faraco. cito apenas por tˆ-las e devidamente desaspeadas como parte do meu mundo e da minha lente de ver esse mundo. 7 Poderia aqui acrescentar a referˆncia (Faraco. O caminho ter´ de se dar. um “eu” que e se imposta est´vel e. antes de chegar a qualquer coisa relativa ` prosa e ` poesia. negue a oposi¸˜o e se coloque. e ca do estilo como marca pessoal. por assim dizer. 38-49. entendemos que essas a posturas s˜o extremas. inquestion´vel. aos mecanismos do inconsciente e do sonho. 6 45 . extremos de um cont´ a ınuo. do eu. muito a mais que ao emprego deste ou daquele mecanismo liter´rio formal. ao mesmo tempo em que a primeira palavra come¸a por uma min´scula). mas sim atrav´s da e problematiza¸˜o de seus pontos extremos e. A afirma¸˜o do singular. d´ a ver. 19-24). E isso. n.GALINDO. a a v. ou seja. est´ muito menos interessado em negociar permiss˜es e acessos. complementaridade. omni-abrangente. que se passa durante o per´ ıodo do sono. Como a o Wagner. 2003. p. p. ao menos para seus fins. temos a ˆnfase no subjetivismo que tende ao solipsismo. O a e e ca que ele quer ´ acabar com a distin¸˜o. o que nos leva ao outro item da problematiza¸˜o bakhtiniana. com os outros. em Wake. linguagem e. 2010 do romance. temos como corol´rio dessa postura a a atitude po´tica diante de mundo e linguagem. comece por questionar as bases em que a distin¸˜o ca original se estabelecia. que ao inv´s de mostrar uma poss´ e ıvel solu¸˜o (nos sentidos ca filos´fico e qu´ o ımico) para o problema. em eventual a a confronto com o mundo. rela¸˜o. a a pelas diferentes maneiras de se encarar mundo. e seus livros. talvez mais adequadamente. ao inv´s de algum processo de e ´ progressivo encampamento de uma p´lo pelo outro. portanto. ca ca Em um extremo. o Joyce. precisamente do questionamento desse ca “extremo” enquanto fim. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. ca ca A coincidentia oppositorum t˜o clara ao pensamento de Giordano Bruno. pelo contr´rio. Se na outra ponta da linha. do individual. isso acarreta a impossibilia dade de uma forma que. Indo mais fundo na raiz dos problemas originais. como n˜o cansa a de lembrar o professor Carlos Alberto Faraco7 . 4. atrav´s da rela¸˜o eu-outro. entretanto. e. BAKHTINIANA. de James Joyce. outro dos pensadores a presentes j´ naquela primeira p´gina. Caetano Waldrigues. das formas diversas de concretiza¸˜o dessa rela¸˜o. de outro lado. S˜o Paulo. o apogeu da prosa-po´tica ou a celebra¸˜o da poesia-prosaica. dada a mesma defini¸˜o que Tezza habilmente desentranha ca de Bakhtin. n˜o pelo meio daquele cont´ a a ınuo. por defini¸˜o irreconcili´veis ca a conquanto negoci´veis em seus limites e em suas zonas cinzas. ainda mais e ca especificamente. mais ainda. talvez. em contraste. acima ca dela. 2o sem. negar o cont´ e ca ınuo ao transform´-lo em um anel de a propriedades mutantes (ou talvez provar que ele sempre foi). tem de passar. a de fazer isso ou de se tentar. vemos a ˆnfase na ideia de que mesmo a a e constitui¸˜o daquele eu pode se dar unicamente via exotopia. conforme a a desvendados por Freud e aplicados por Joyce neste seu “livro das trevas” (Bishop). refere-se a uma vis˜o de mundo e de linguagem. ca Ao pensarmos que a distin¸˜o fundamental entre prosa e poesia. 1. faz a a ver. c u em nada parece inadequada a ideia de que as s´ ınteses se deem por concilia¸˜o efetiva de ca 6 dois extremos em uma unica entidade de nova natureza . ele parecia acreditar que o caminho para a arte total n˜o passava pela progressiva a flexibiliza¸˜o. Como no caso da imensa maioria das obras que "cito"ao longo desde ensaio. entre prosador e ca poeta. o que o Wake pretende n˜o ´. H´ dois modos.

na variedade. como que numa sublima¸˜o da diferen¸a em identifica¸˜o. suponho em vocˆ. na a e ca multiplicidade. na fragmenta¸˜o do “eu” consiga levar apenas a um mundo de encena¸˜o ca ca do di´logo. da ca o grande poesia a Montaigne e a Freud. mas se comporta. de constitui¸˜o simultˆnea de personalidade e a ca a alteridade. linguagem e mundo. polemizada do “eu”. e a ca ca ca mas sim de uma efetiva intensifica¸˜o do processo de composi¸˜o daquele outro “eu”. BAKHTINIANA. Caetano Waldrigues. que se define c˜ e se desenvolve na multiplicidade. dos ca estilos como marcas de personas. por´m. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. A origem de muita m´ a a literatura romanesca. h´ que se reconhecer8 a possibilidade de que a ˆnfase na rela¸˜o. de James Joyce. S˜o Paulo. o obt´m-se n˜o a partir de uma relativiza¸˜o ou de uma matiza¸˜o da posi¸˜o de partida. n. do tu. ´ porque a tendˆncia final. Se um processo como a introspec¸˜o no “eu” do autor pode e pˆde gerar de tudo. por um flerte com a outra. c Enquanto que alguma esp´cie de s´ e ıntese parece ser ating´ ıvel via mergulho no “eu” est´vel e s´lido da poesia. 2o sem. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. contudo. em um processo de duas m˜os. o que parece ser poss´ como s´ ıvel ıntese a partir do p´lo oposto. 4. do o outro lado. ao incluir como potencial todo o escopo da cultura pr´via e todos outros “tus” e que possa delimitar numa no¸˜o de “eu” de abrangˆncia quase m´ 9 . ´ a percep¸˜o da paridade de condi¸˜es entre os outros “eus”. Toda a e ca co profundidade. do mergulho e e total no eu. O que quero resguardar aqui. que permite se n˜o a constata¸˜o ao o a ca menos a proje¸˜o de uma multiplicidade a partir de um centro (aquilo que chamamos de ca um “flerte” com as no¸˜es de multiplicidade e multicentralidade). para todos os fins. contudo. 2010 o que nos leva a uma no¸ao fragmentada. Ao ca ca radicalizar a no¸˜o de base de que cada “eu” ´ um ser-evento unico. temos como consequˆncia e dessa atitude a postura prosaica diante de mundo e linguagem. De outro lado. o apagamento da personalidade. ao professor Lu´ Bueno. que reconhe¸o em mim. prosaico. Esses pontos extremos. tamb´m passar´ a ser co e a poss´ a proje¸˜o de um “eu” virtual a partir da no¸˜o de fragmenta¸˜o e composi¸˜o ıvel ca ca ca ca relacional de cada “eu” envolvido no mundo. formado nas e pelas ca e ´ circunstancias entre as quais caminha. nesse formato. ıs E da´ viria tanto o interesse de Joyce pela no¸˜o de arqu´tipo como unificador de tra¸os fundamentais ı ca e c 46 . E posso atingir uma compreens˜o c e a ´ e uma “comunh˜o” que me permitem fugir da armadilha estreitamente solipsista. como autossuficiente. E a necess´rio dizer. ´ a chance de que a intensifica¸˜o total da e ca visada “romanesca” de vozes. ca c ca Se foi poss´ vermos a “voz po´tica” evitar (tanto ao longo da hist´ria da poesia ıvel e o quanto nesse nosso pequeno exerc´ de suposi¸˜o) o canto de sereia do ego atrav´s de ıcio ca e uma suposi¸˜o de paridade (ideia fundamentalmente semelhante ` da “teoria da mente” ca a de primatologistas e psic´logos) em outros “eus”. Mas frise-se a diferen¸a. 1. A afirma¸˜o do plural. se clara. no contraste. recebendo acabamento de cada outro “tu” com que ˆ se relaciona. 38-49. paradoxalmente ca e ıtica 8 9 E devo essa ideia. atrav´s de uma tolerancia a valores m´ltiplos gerando a a o e u ˆ multiplicidade. e de efetivo mergulho solipsista em um “eu” que agora apenas se anuncia como a v´rio. p. possa conduzir ` forma¸˜o de um “eu” a ca diferenciado. espelhada. n˜o conseguem sobreviver em suas vers˜es mais e a o estritamente radicais e sem matizes. a a v. que se foge da armadilha proposta pela intensifica¸˜o de uma a ca visada.GALINDO. O que restaria ali seria o solipsismo psic´tico e.

de James Joyce. c e e tradicional. quanto as similaridade que seu texto. comercial. lingu´ a o o o ıstica) n˜o s´ tivesse penetra¸˜o na linguagem. p. ego-forte. in´dito. uma voz. p. ser essa voz e essa linguagem. 4. mas do a ca coroamento das possibilidades mais selvagens entrevistas pela mesma teoria bakhtiniana. incontorn´vel apenas quando e a conseguiu forjar esse estilo a partir de vozes unicamente n˜o-suas. j´ ca e a a que ainda n˜o atribu´ a ımos a ele a verdade da ilumina¸˜o m´ ca ıstica) “eu” que ´ na verdade e um “eu” de todos os “tus” poss´ ıveis e. ´ E quase imposs´ parodiar o Ulysses. filos´fica. Joyce. o poeta de segunda magnitude. constru´ ı-la. desse ponto de vista. de uma “atitude”. o prosador poderia o o ˆ ˆ realmente incorporar. fonologia e fon´tica. 38-49. necessariamente. uma autoridade. p.63). ca 47 . oral. ou ao menos da parcela da humanidade que lhe ´ dado conhecer. Ele n˜o tem uma “cara” reconhec´ ıvel a ıvel. Aquela voz como um “estilo” razoavelmente est´vel durante todo o livro e abundantemente reconhec´ (a ponto mesmo a ıvel de se tornar caricaturiz´vel) como “singularidade”. e tudo tem daquele a e dos homens. porque impossivelmente e ´ unificado de diferen¸as. algu´m que se recusava a ter um estilo. a N˜o se trata. Com que lhe ´ dado conviver. liter´ria. como mecanismo de ca e interpreta¸˜o. o homem que quando escrevia cartas (Kenner. 2o sem. ou ao pant´pico e ao pancronico. ele parece ter atingido a total oblitera¸˜o da dicotomia singular-m´ltiplo que t˜o bem servia para distinguir as vis˜es ca u a o de mundo e de linguagem de poetas e prosadores. n. portanto. de uma imposta¸˜o. jornal´ ıstica. uma e postura. de todas as vozes a n˜o-suas que efetivamente podiam compor sua voz. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. a singularidade que ent˜o se imita. portanto. a encena¸˜o de uma vis˜o de mundo baseada o ca ca a totalmente nessas mesmas caracter´ ısticas centrais. mostra que James Joyce pode ter a realizado no Finnegans Wake a constitui¸˜o de um (e ´ necess´rio frisarmos esse “um”. ´ uma singularidade que pouco tem de um a e Joyce autor-romˆntico. c Ao fazer com que todo o arcabou¸o pr´vio de sua cultura de referˆncia (popular. digamos. mitol´gica. vocalidade e personalidade. a a v. em nome da total fragmenta¸˜o de caracteriza¸˜o. personalidade-singular. Caetano Waldrigues. permitiu-se a caracteriza¸˜o em um grau ca que jamais se admitiria em seus romances anteriores. S˜o Paulo. parece ter conseguido criar um poetaningu´m. uma autoridade estilha¸ada. ficar´ sempre marcado como o estilo do a Finnegans Wake. no limite. um eu do mundo inteiro. 2010 tendente ao at´pico e ao acronico. um “eu” de ningu´m e espec´ ıfico. e c Se no Ulysses (cf.GALINDO. j´ virou motivo de in´meras piadas e imita¸oes. acaba atingindo com escritos religiosos. que pˆde ver no romance a realiza¸˜o. que se realizava mais como escritor ao o escrever na voz de seus inimigos (Booker. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. numa rela¸˜o com as personalidade individuais que n˜o seria fundamentalmente diferente da ca a rela¸˜o entre. uma voz de migalhas. na voz que constru´ mas pudesse efetivamente a o ca ıa. Mas ´ necess´rio lembrarmos a u c˜ e a que o estilo. no entanto. vi´s-definido. total. O Wake. um “eu” da humanidade. no Finnegans Wake ele parece ter se dado o direito de encarnar a singularidade de um estilo marcante.78) revelava uma curiosa falta de “estilo” (sua voz s´ se realizava como a voz dos outros). hist´rica. Mesmo em termos singelamente estil´ ısticos. BAKHTINIANA. e e Uma estranha esp´cie de ser-evento unico humano. Galindo) o que v´ ıamos era um prosador mais bakhtiniano do que Bakhtin poderia sequer imaginar. ponto-deca ca vista. 1.

a GLASHEEN. Rio de Janeiro e S˜o Paulo: e e a Forense universit´ria. Oxford: Oxford 48 . Trad. ECO. 2o sem. S. SLOTE. M. Joyce’s Kaleidoscope: an invitation to Finnegans Wake. Caetano Waldrigues. 1992. Tese de doutoramento. Rio ca a de Janeiro: Imago. Quest˜es de literatura e de est´tica: a teoria do romance. Bakhtin.. 1989. Esrock. S˜o Paulo. 2010 que foi talvez o maior dos bakhtinianos na fic¸ao. Trad. Londres: Hutchinson Radius. aponta para uma nota de rodap´ que nos cabe suprir. FREUD. Jayme Salom˜o. KENNER. A. A. Joyce’s Book of the Dark: Finnegans Wake. A interpreta¸˜o dos sonhos (I). a a v. Abre aspas: a representa¸˜o da palavra do outro no Ulysses de James ca Joyce e seu poss´ conv´ com a palavra de Mikhail Bakht. Jayme Salom˜o. (Eds). para o e c´u. P. Londres: Penguin. J. Sobre a possibilidade de que o Finnegans Wake. Joyce’s voices. GALINDO. 1996. e aponta. e e ˆ REFERENCIAS BAKHTIN.library. A interpreta¸˜o dos sonhos (II) e Sobre os sonhos. para mim e para vocˆ. 38-49. Um “eu” seguido de um asterisco que. The middle ages of James Joyce: the aesthetics of chaosmos. as outras estrelas. BLOOM. ıvel ıvio Universidade de S˜o Paulo. K. “James Joyce”. C. U. and the literary tradition. Finnegans Wake.GlasheenFinnegans]. BISHOP. H. BOOKER. de James Joyce. Madinson: The University of Wisconsin Press. c˜ Um “eu” amb´ ıguo. Joyce. 1988. a . M. C. 1995. Rio de Janeiro: Imago. JOYCE. Berkeley e Los Angeles: University of California Press. L. 2006. Trad. e CRISPI. p. KITCHER. W. Third Census of Finnegans Wake. 1997. . Problemas da po´tica de Dostoi´vski. S˜o Paulo: Unesp e o e a Hucitec. J. S. 1978. FARACO. mais a a uma vez. Curitiba: Criar. Madison: The University of Wisconsin Press. Rio de Janeiro: Objetiva. Andr´gino como aquele acorde Wagneriano.edu/cgi-bin/JoyceColl/JoyceColl-idx?id=JoyceColl. in: Gˆnio. How Joyce wrote Finnegans Wake: a chapter-by-chapter genetic guide. 4.GALINDO. BAKHTINIANA. E. estrela. Linguagem e di´logo: as id´ias lingu´ a e ısticas do c´ ırculo de Bakhtin. H. 2003. represente uma esp´cie de s´ e ıntese liter´ria em moldes bakhtinianos. 2003. 1993. 2007. Ann Arbor: The University of Michigan Press. Um poeta que canta o com todas as vozes que n˜o tem e que o s˜o. Dispon´ em: [http://digicoll. ca a 1996. in. 1. M. ıvel wisc. n.

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