Capítulo 2 Argumentação e retórica

Neste capítulo vamos estudar alguns aspectos informais da argumentação dedutiva e alguns tipos de argumentos não dedutivos. Estes aspectos da argumentação constituem o objecto de estudo da lógica informal e da retórica.

1. A procura de adesão do auditório
Como vimos, num argumento dedutivo sólido é impossível a conclusão ser falsa. Mas nem todos os argumentos sólidos são bons. Vamos ver porquê. 1.1. Demonstração e argumentação Comparemos os seguintes argumentos: 1) Se o Mar Mediterrâneo for água, é H2O. O Mar Mediterrâneo é água. Logo, é H2O. 2) Se os animais não têm deveres, não têm direitos. Os animais não têm deveres. Logo, não têm direitos.

ÍNDICE DO CAPÍTULO 1. A procura de adesão do auditório 1.1. Demonstração e argumentação 1.2. O auditório e as premissas 1.3. Ethos, pathos e logos 2. Argumentos e falácias informais 2.1. Argumentos não dedutivos 2.2. Algumas falácias informais 3. Estrutura e organização do discurso argumentativo

Ambos os argumentos são dedutivamente válidos; logo, é impossível, em qualquer dos casos, que as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Contudo, as premissas dos dois argumentos são muito diferentes. No argumento 1, trata-se de verdades estabelecidas, que ninguém põe em causa. Mas a primeira premissa do argumento 2 é muitíssimo disputável. Até pode ser verdadeira, mas não é uma verdade solidamente estabelecida e amplamente reconhecida como tal.

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Tópicos. É sempre possível disputar racionalmente as conclusões de argumentos válidos baseados em premissas meramente plausíveis — basta disputar pelo menos uma das premissas. p. algo além dessas coisas necessariamente se segue delas. no sentido aristotélico. Por exemplo. a que também se chama «demonstrações». e «dedução dialéctica» ao segundo: Uma dedução é um argumento que. significa que esses argumentos não são conclusivos. Não devemos confundir este sentido de «demonstração» com as derivações estudadas opcionalmente no Capítulo 1 (secção 4. no sentido de Aristóteles. é o ponto final da argumentação. Aristóteles. neste sentido. dadas certas coisas. Claro que o ideal seria encontrar sempre premissas indisputáveis para os nossos argumentos. Uma demonstração. 100a Uma demonstração é um argumento dedutivo válido cujas premissas são verdades estabelecidas e indisputáveis. Assim. Quando temos uma demonstração. A argumentação é uma sequência de argumentos. a argumentação difere da demonstração. A esta troca de argumentos chama-se argumentação. nada mais há para discutir: a conclusão é «constringente». estamos racionalmente constrangidos a aceitar a conclusão. E quando não é possível.9). É uma demonstração quando as premissas das quais a dedução parte são verdadeiras e primitivas. mas isso nem sempre é possível. É perfeitamente racional não aceitar a conclusão desse argumento — basta recusar a primeira premissa. Mas não podemos esquecer que o que está demonstrado foi originalmente estabeleci- Parte 1 . ou são tais que o nosso conhecimento delas teve originalmente origem em premissas que são primitivas e verdadeiras. Isto. e é uma dedução dialéctica se raciocina a partir de opiniões respeitáveis. por sua vez. Uma dedução dialéctica é um argumento dedutivo válido cujas premissas são plausíveis mas não são verdades estabelecidas e indisputáveis. ainda que seja uma «opinião respeitável». temos de nos contentar com as premissas mais plausíveis.2 Racionalidade Argumentativa e Filosofia Aristóteles chama «demonstração» ao primeiro tipo de argumentos dedutivos. que é muitíssimo discutível. verosímeis ou preferíveis que conseguirmos encontrar. ou seja. uma pessoa poderia disputar o argumento 2 defendendo (com outros argumentos) que a primeira premissa é falsa. O mesmo não acontece no argumento 2.

no entanto. Logo. O que entende Aristóteles por «dedução dialéctica» e por «demonstração»? Define e dá exemplos. . O auditório e as premissas Vejamos o seguinte argumento: Se o assassínio indiscriminado de inocentes for permissível. o assassínio indiscriminado de inocentes não é permissível. porque pelo menos a segunda premissa é disputável. argumentação. O auditório são as pessoas com quem estamos a falar. O argumento não é bom porque não tem em conta o estado cognitivo do auditório. O estado cognitivo de um auditório é o conjunto de conhecimentos e crenças ou convicções que o auditório tem. dedução dialéctica. pura e simplesmente. Mas a vida é sagrada. Glossário: Demonstração. Poderá um argumento ser sólido e. Este é um argumento válido. a vida não é sagrada. ou para quem estamos a escrever. Mas será sólido? Não sabemos. 1. 2. Imaginemos. Por que razão não estamos constrangidos a aceitar as conclusões dos argumentos válidos a que Aristóteles chamava «deduções dialécticas»? Problemas 1. DEMONSTRAÇÃO E ARGUMENTAÇÃO Questões de revisão 1. essa argumentação foi conclusiva e chegou ao fim. que as premissas do argumento são realmente verdadeiras.Capítulo 2 Argumentação e retórica 3 do por argumentação.2. a sua conclusão não ser uma verdade firmemente estabelecida? Como? Porquê? 2. Por que razão estamos constrangidos a aceitar as conclusões dos argumentos sólidos a que Aristóteles chamava «demonstrações»? 3. Explica em que circunstâncias é racional não aceitar a conclusão de um argumento sólido. contudo. apesar de nós não o sabermos. Será o argumento nesse caso bom? Não.

não devemos tomar a pílula. Mas outros argumentos poderão ser bons para certas pessoas e maus para outras. Um argumento mau ou fraco é um argumento que não é sólido ou cujas premissas não são mais plausíveis do que a sua conclusão. que o argumento é fraco ou não é bom porque as suas premissas não são mais evidentes ou mais plausíveis do que a sua conclusão. Mesmo que sejamos religiosos e aceitemos as duas premissas. o argumento é mau porque as premissas não são mais plausíveis. Por exemplo: Se o Papa defende que não devemos tomar a pílula. A solidez de um argumento é independente do estado cognitivo do auditório. Contudo. Diz-se. não devemos tomar a pílula. Mas . o argumento é fraco. desde que ele aceite a primeira premissa e a ache mais plausível do que a conclusão.4 Racionalidade Argumentativa e Filosofia Parte 1 O argumento não tem em conta o estado cognitivo do auditório porque a sua conclusão é mais evidente e menos disputável. A plausibilidade das proposições é relativa ao estado cognitivo dos auditórios. Logo. do que as suas premissas. do que a conclusão. A força de um argumento válido é exactamente igual à plausibilidade da sua premissa menos plausível. seja para quem for. Mas a primeira é disputável. pois essa pessoa não aceita a primeira premissa (apesar de ser possível que essa premissa seja verdadeira. para qualquer pessoa. Um argumento bom ou forte é um argumento sólido cujas premissas são mais plausíveis do que a sua conclusão. como o argumento acima. Alguns argumentos são maus ou bons para quaisquer pessoas. Mesmo partindo da hipótese de que as premissas do argumento são verdadeiras. para um católico este argumento é bom. A segunda premissa é uma verdade estabelecida. é muitíssimo mais evidente que o assassínio indiscriminado de inocentes não é permissível do que qualquer uma das premissas. O Papa defende que não devemos tomar a pílula. Mas para uma pessoa que não partilhe as suas crenças religiosas. assim. sem que ela o saiba). Argumentar bem implica descobrir bons argumentos a favor de uma ideia baseados em premissas que quem é contra essa ideia está disposto a aceitar. nem a validade nem a verdade dependem do que as pessoas pensam.

Capítulo 2 Argumentação e retórica 5 a força ou plausibilidade de um argumento é relativa aos estados cognitivos das pessoas: depende do que as pessoas pensam que é verdade. estado cognitivo. A argumentação baseada no estado emocional (pathos) do auditório. a vida não faz sentido. O que é um argumento bom ou forte? Define e dá exemplos. Logo. A argumentação baseada no carácter (ethos) do orador. argumento mau ou fraco. O que é o estado cognitivo do auditório? Define e dá exemplos. . Assim. 2. aceitável ou plausível. está a chover». Ethos. Deus não existe. pathos e logos Na sua obra sobre a retórica. Será a noção de argumento sólido igualmente relativa ao auditório? Porquê? 2. A argumentação baseada no argumento (logos) propriamente dito. uma inferência como «Está a chover. argumento bom ou forte. Mas os bebés têm direitos. é falso que quem não tem deveres não tem direitos. 2) Sócrates e Platão eram gregos. A noção de argumento bom ou forte é relativa ao auditório. 3) Se quem não tem deveres não tivesse direitos. Glossário: Auditório. Sócrates era grego. não é informativa. Logo.3. 3. Logo. O AUDITÓRIO E AS PREMISSAS Questões de revisão 1. Avalia os seguintes argumentos: 1) Se Deus não existe. A um argumento fraco chama-se também «inferência não informativa» ou «inferência irrelevante». E uma inferência que parte de proposições menos plausíveis do que a conclusão é irrelevante. Ora. apesar de válida. logo. os bebés não teriam direitos. Aristóteles distinguiu três formas de argumentação: 1. 2. Qual é a diferença entre saber algo e acreditar que se sabe algo? 1. a vida não faz sentido. 3. Problemas 1.

tal como o entende Aristóteles. Pois não damos os mesmos veredictos quando sentimos angústia e quando sentimos alegria. ou quando estamos numa disposição favorável e numa disposição hostil […]. Pois temos mais confiança. através de prova ou aparência de prova.» Concordas? Porquê? 2. As pessoas são convencidas pelo próprio discurso sempre que provamos o que é verdade ou parece verdade a partir de seja o que for que é convincente em cada tópico. e não das perspectivas prévias do auditório quanto ao carácter do orador. PATHOS E LOGOS Questões de revisão 1. e temo-la com maior prontidão. 1356a ETHOS. Que quer isto dizer? 3. Poderá um argumento inválido parecer válido se o auditório se sentir agradado com a ideia? Porquê? Problemas 1. Aristóteles. p. na condição de quem ouve. 2) alguns. Retórica. Aristóteles afirma que a argumentação que se baseia no carácter do orador «tem de resultar do próprio discurso. tem de resultar do próprio discurso. e o estado cognitivo do auditório? Porquê? . Poderá um argumento inválido tornar-se válido se o auditório se sentir agradado com a ideia? Porquê? 2. no próprio discurso. contudo.6 Racionalidade Argumentativa e Filosofia Parte 1 Eis como Aristóteles explica esta distinção: Os argumentos convincentes fornecidos através do discurso são de três espécies: 1) Alguns fundam-se no carácter de quem fala. em pessoas decentes […] Isto. «É legítimo aceitar com mais confiança os argumentos de um orador cujo carácter moral seja bom porque a probabilidade de ele nos estar a enganar e a conduzir ao erro é menor. 3) alguns. Haverá diferença entre o pathos de um auditório. Os argumentos são abonados pelo carácter sempre que o discurso é apresentado de forma a fazer quem fala merecer a nossa confiança. e não das perspectivas prévias do auditório quanto ao carácter do orador». A convicção é assegurada através dos ouvintes sempre que o discurso desperta neles alguma emoção.

Mas nos argumentos não dedutivos válidos não é impossível as suas premissas serem verdadeiras e a sua conclusão falsa.1. a validade depende exclusivamente da sua forma lógica. Os argumentos dedutivos tos dedutivos e não dedutivos permite ascender. degrau a degrau. Induções. No Capítulo 1 estudámos alguns tipos de argumentos dedutivos formais. Alguns argumentos dedutivos são informais.Capítulo 2 Argumentação e retórica 7 2. 3. de Peter Foerster mais. A combinação de argumenmas outros são formais. A diferença fundamental entre os argumentos dedutivos e os não dedutivos é a seguinte: Num argumento dedutivo válido é impossível as suas premissas serem verdadeiras e a sua conclusão falsa. 2. Geralmente usa-se o termo «indução» para falar de dois tipos diferentes de argumentos: as generalizações e as previsões. (1887-1948). Mas um argumento não dedutivo válido com premissas verdadeiras torna provável. Uma generalização é um argumento do seguinte género: . a verdade da sua conclusão. mento das coisas. um argumento dedutivo válido com premissas verdadeiras garante a verdade da sua conclusão. mas não garante. ao passo que nos informais a sua validade não depende exclusivamente da sua forma lógica. Argumentos por analogia. Fala-se por vezes de argumentos dedutivos ou de dedução e de argumentos não dedutivos (que incluem a indução). 2. Argumentos e falácias informais Nesta secção vamos estudar brevemente alguns argumentos e falácias informais. Todos os argumentos não dedutivos são inforDegraus Ascendentes. é apenas muito improvável. no conhecique estudámos no Capítulo 1 são formais. Argumentos não dedutivos Vamos estudar brevemente os seguintes tipos de argumentos não dedutivos: 1. Argumentos de autoridade. A diferença fundamental entre os argumentos informais e os formais é esta: nos argumentos formais. Assim.

Todas as casas têm um arquitecto. nos argumentos por analogia uma das premissas é uma analogia. Parte 1 . Logo. Numa previsão as premissas baseiam-se no passado e a conclusão é um caso particular. Logo. os filósofos procuram compreender melhor o mundo. Os cientistas procuram compreender melhor o mundo. Um argumento por analogia tem de se basear numa analogia mais plausível do que a hipótese de a conclusão ser verdadeira. Logo. analogias. Logo. Vejamos outro argumento por analogia: O mundo é como uma casa. todos os corvos são pretos. eles mesmos. os casos em que se baseia têm de ser representativos e não pode haver contra-exemplos. A falácia da generalização precipitada ocorre quando os casos em que nos apoiamos não são representativos. Como se pode ver. o mundo também tem um Arquitecto — Deus. Não se deve confundir os argumentos por analogia com as analogias propriamente ditas. Por exemplo: Todos os corvos observados até hoje são pretos. Este argumento é problemático. Por exemplo. os argumentos por analogia baseiam-se nesta desejada semelhança. pois a analogia entre casas e o mundo não é mais plausível do que a própria conclusão. Para que uma generalização seja válida tem de obedecer a algumas regras. Contesta-se um argumento por analogia tentando mostrar que há diferenças entre as duas coisas comparadas que derrotam a conclusão. Num argumento por analogia pretende-se concluir que algo é de certo modo porque esse algo é análogo a outra coisa que é desse modo. Uma analogia é apenas uma semelhança entre coisas. Por exemplo: Os filósofos são como os cientistas. mas não são.8 Racionalidade Argumentativa e Filosofia Todos os corvos observados até hoje são pretos. Defender que todos os portugueses vão regularmente ao cinema porque os meus amigos vão regularmente ao cinema viola estas duas regras: os meus amigos não são representativos dos portugueses em geral e há portugueses que não gostam de cinema. o próximo corvo que observarmos será preto.

Capítulo 2 Argumentação e retórica 9 A falácia da falsa analogia ocorre quando há diferenças entre as duas coisas comparadas que derrotam a conclusão.» . Apresenta três argumentos fortes de cada um dos tipos estudados. 3. Num argumento de autoridade usa-se a opinião de um especialista. Problema 1. Logo. Glossário: Indução. em filosofia os argumentos de autoridade são quase sempre falaciosos. quanto à questão em causa. 3) Protágoras afirmou que tudo é relativo. Avalia os seguintes argumentos: 1) Todos os corvos que observei até hoje vivem em Portugal. Por isso. Logo. As mulheres são como os homens. Avalia o seguinte argumento indutivo: «Todos os corvos observados até hoje nasceram antes do ano 2100. dado que os filósofos discordam quase sempre uns dos outros relativamente a questões substanciais. argumento de autoridade. Logo. generalização. Só podemos usar argumentos de autoridade em filosofia caso os outros filósofos. 2. tudo é relativo. Logo. 2) Os homens têm direito ao voto. previsão. todos os corvos vão nascer antes do ano 2100. não discordem do filósofo que estamos a invocar. como no exemplo seguinte: Hegel disse que a realidade é espiritual. Logo. as mulheres têm direito ao voto. a realidade é espiritual. Qual é a diferença fundamental entre um argumento dedutivo válido e um argumento não dedutivo válido? Explica e dá exemplos. ARGUMENTOS NÃO DEDUTIVOS Questões de revisão 1. analogia. argumento por analogia. Para que um argumento de autoridade seja bom é necessário que o especialista ou especialistas invocados sejam realmente especialistas da matéria em causa e que os outros especialistas não discordem dele. todos os corvos vivem em Portugal.

Parte 1 . É falso que sejam absolutas. concluímos uma grande improbabilidade. são relativas. não há extraterrestres. Sem dúvida que além de as verdades serem relativas ou absolutas há outras possibilidades: talvez algumas verdades sejam relativas e outras não. poderão escolher manuais sem qualidade. O número de falácias informais é muito elevado. Logo. A falácia do falso dilema está associada a argumentos baseados em disjunções (afirmações da forma «P ou Q»). se os professores tiverem plena liberdade para escolher os manuais escolares. Logo.10 Racionalidade Argumentativa e Filosofia 2. Se escolherem manuais sem qualidade. Mas. Algumas falácias informais As falácias formais são erros de raciocínio que resultam exclusivamente da forma lógica. A falácia resulta do facto de cada uma das premissas ser ligeiramente improvável. A falácia do apelo à ignorância ocorre sempre que confundimos as coisas e pensamos que a inexistência de prova é prova de inexistência: Nunca ninguém provou que há extraterrestres. do facto de nunca se ter provado que há extraterrestres nada se segue: não se segue que há nem que não há extraterrestres. Vamos estudar brevemente algumas das mais comuns. Logo. Como é evidente. pois não esgota todas as possibilidades. A falácia da derrapagem ocorre em argumentos formalmente válidos: Se os professores tiverem plena liberdade para escolher os manuais escolares.2. o ensino poderá degradar-se. As falácias informais são erros de raciocínio que não resultam exclusivamente da forma lógica. ao juntar várias improbabilidades ligeiras. mas esconde uma falácia: a primeira premissa é um falso dilema. Uma forma menos óbvia de cometer esta falácia é a seguinte: Os filósofos nunca conseguiram provar que Deus existe nem que não existe. Este argumento é dedutivamente válido. o ensino degrada-se. Por exemplo: As verdades são relativas ou absolutas.

Chama-se também «raciocínio circular» à petição de princípio. e por que razão há humidade na atmosfera? E podemos continuar a fazer perguntas deste género. Poderão existir outros argumentos a favor da ideia de que é impossível provar que Deus existe ou que não existe. apesar de dedutivamente válido. com uma poção mágica. A Bíblia diz que Deus existe. sem parar. Deus existe. não se pode provar que Deus existe nem que não existe. Na mitologia alemã e islandesa. Por exemplo. mas a necessidade de o fazermos por termos usado uma coisa . com o mesmo tipo de argumento. imagine-se que explicamos a chuva em termos da existência de nuvens: «Quando chove é porque há nuvens». não podemos correr o risco de a segunda carecer tanto de explicação quanto a primeira. esta falácia não é formulada de forma tão evidente. A falácia da petição de princípio ocorre sempre que se admite nas premissas o que se deseja concluir. Em vez disso. Brunilde Diz Não a Grutrune. Logo.Capítulo 2 Argumentação e retórica Logo. Os argumentos (falaciosos?) de Grutrune não parecem ter convencido a guerreira. 11 Devia ser óbvio que se trata de uma falácia. Na véspera da descoberta da cura da tuberculose as pessoas também poderiam ter dito que era impossível curar a tuberculose. Quando desejamos explicar uma coisa em termos de outra. de Arthur Rackham (1867-1939). Normalmente. a premissa falaciosa surge disfarçada com variações gramaticais da conclusão ou misturada com outras premissas: Tudo o que a Bíblia diz é verdade porque a Bíblia foi escrita por Deus. O que provoca a regressão infinita não é a possibilidade de se voltar a explicar o que usámos para explicar algo. O caso mais óbvio é a mera repetição: Deus existe. E por que razão há condensação. Mas este é falacioso. Seja o que for que usemos para explicar algo poderá também ser explicado. Deus existe. Brunilde é uma guerreira a quem Grutrune (ou Gudrun) rouba o noivo. Logo. A falácia da regressão infinita aplica-se a explicações. dado que a premissa nunca é mais plausível do que a conclusão. Mas não é isso que provoca a regressão infinita. Mas por que razão há nuvens? Porque há condensação da humidade existente na atmosfera. Este tipo de argumento é sempre falacioso.

falácia formal. petição de princípio. Logo.12 Racionalidade Argumentativa e Filosofia pouco conhecida para esclarecer outra coisa mais conhecida. apelo à misericórdia. apelo ao povo. Explicar a chuva em termos de nuvens é razoável e não nos lança necessariamente numa regressão infinita. raciocínio circular. Por exemplo: Toda a gente diz que o aborto não devia ser permitido. A falácia do apelo ao povo (argumentum ad populum) consiste em defender que algo é verdade porque é o que «toda a gente diz». Glossário: Falácia informal. Parte 1 . tal como numa prova desportiva. O argumento é falacioso em duas circunstâncias: quando não se apoia em estudo algum que mostre que é realmente verdade que «toda a gente diz» o que se pretende. o professor deve dar-me uma boa nota. apesar de podermos depois explicar por que razão há nuvens. Logo. falso dilema. apelo à ignorância. o aborto não devia ser permitido. A falácia do apelo à misericórdia (argumentum ad misercordiam) consiste habitualmente em tentar convencer alguém a fazer algo com base no estado lastimoso do autor do argumento. regressão infinita. Mas explicar o sono em termos da libertação de substâncias «dormitivas» no sangue dá origem a uma regressão infinita se a própria explicação do que são as misteriosas substâncias «dormitivas» exigir outra explicação. falácia da derrapagem. O argumento é falacioso quando o estado lastimoso do autor do argumento não tem qualquer relevância relativamente ao que está em causa. ou quando a concordância de «toda a gente» é irrelevante para a verdade do que se pretende estabelecer. e assim por diante. isso não provaria que o aborto não deve ser permitido. Este argumento é um apelo ilegítimo ao povo porque não é verdade que toda a gente diz tal coisa e porque mesmo que toda a gente o dissesse. Por exemplo: Eu estudei desalmadamente durante as duas últimas semanas. e se essa explicação exigir outra. Este argumento é um apelo ilegítimo à misericórdia porque as notas são atribuídas não em função do esforço do estudante mas sim dos resultados. sem que nunca cheguemos a um ponto em que compreendemos claramente o sono.

Ora. Problema 1. doenças. se for tudo uma ilusão. a vida é absurda. fome. Se permitirmos o assassínio de inocentes. . Logo. será a completa anarquia. é evidente que as verdades não são todas absolutas. são todas relativas. Temos de distinguir claramente premissas de conclusões: se não o fizermos as pessoas podem não compreender o que estamos realmente a defender nem com que bases o defendemos. se permitirmos a eutanásia. estamos a tornar o nosso pensamento mais claro. Além disso. etc. será a completa anarquia. Este parágrafo apresenta um argumento. secas.Capítulo 2 Argumentação e retórica ALGUMAS FALÁCIAS INFORMAIS 13 Questões de revisão 1. Pense-se só nos terramotos. o que é um convite ao diálogo crítico com os outros. Qual é a diferença entre as falácias formais e informais? 2. Logo. Mas viola várias regras relativas à estrutura e organização da argumentação. cheias. Avalia os seguintes argumentos: 1) Ou todas as verdades são absolutas ou são todas relativas. Isto porque ou é verdade que o sofrimento existe ou então é tudo uma ilusão. Por outro lado. o mundo exterior é uma ilusão. estaremos a permitir o assassínio de inocentes. 2) Se permitirmos a eutanásia. Se a vida não fosse absurda. Logo. Estrutura e organização do discurso argumentativo Considere-se o seguinte parágrafo: É evidente que a vida é absurda. não haveria tanto sofrimento. se distinguirmos claramente as premissas das conclusões. Nem se compreende como é possível ser tão tolo que se pense outra coisa. Será que todos os argumentos com a forma de uma falácia informal são falaciosos? Porquê? 3. 3) Os melhores filósofos nunca conseguiram provar que há um mundo exterior real. Vejamos algumas das regras mais importantes: 1.

em qualquer dos casos. não seremos convincentes se começarmos por insultá-lo. A maior parte dos argumentos válidos são muito simples e óbvios. damos por concluída a nossa tarefa. O argumento a favor desta ideia é o seguinte: Ou o sofrimento existe ou é uma ilusão. A forma como se dá esse encadeamento é muitas vezes a seguinte: para defender uma ideia. a vida é igualmente absurda. Seguindo estas regras. 3. apresentamos um determinado argumento. formais e informais. Não devemos usar uma linguagem tendenciosa: insultar ou denegrir as posições que queremos refutar torna difícil que quem aceita essas posições mude de ideias. que temos vindo a estudar. Por isso. Um texto argumentativo mais longo é apenas um encadeamento de vários argumentos curtos. E para isso apresentamos outros argumentos. Se houver argumentos mais fortes e em maior quantidade a favor do que defendemos do que a favor do contrário. ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO DISCURSO ARGUMENTATIVO Questão de revisão 1. porque podem ser disputadas. a força de um argumento válido é exactamente igual à plausibilidade da sua premissa menos plausível. Os argumentos curtos. Reescreve o seguinte parágrafo de acordo com as regras dadas: «Será que devemos prender o inocente bode expiatório para acalmar uma multidão em fúria.14 Racionalidade Argumentativa e Filosofia 2. Temos de apresentar as ideias numa ordem natural: se não o fizermos. que ameaça violência em massa? A resposta é evidente para Parte 1 . Logo. ou pelo menos não são mais plausíveis do que a conclusão. Ao escrever o parágrafo de forma mais clara percebe-se imediatamente que se trata de um argumento muito fraco: a segunda e terceira premissas não são plausíveis. temos de usar premissas plausíveis. Se o sofrimento existe. é sempre possível reformulá-lo de modo a torná-lo simples e óbvio. cujas premissas poderemos ter de defender também. Se o nosso argumento for válido mas complexo. são os «tijolos» de toda a argumentação. podemos tentar reescrever o parágrafo anterior: Vou defender que a vida é absurda. apresentamos vários argumentos curtos a favor da nossa conclusão principal e avaliamos os argumentos contra o que defendemos. Mas depois precisamos de defender pelo menos algumas das premissas desse argumento. a vida é absurda. a vida é absurda. Temos de partir de premissas plausíveis: como vimos. Outras vezes. Como o nosso auditório não é quem já concorda connosco mas sim quem discorda de nós. Mas se o sofrimento é uma ilusão. 4. dificultamos a compreensão dos nossos argumentos.

as consequências de prender um inocente são preferíveis ao que pode fazer uma multidão em fúria. 2) A existência de Deus. . Lê um dos ensaios dos teus colegas em resposta ao problema anterior e procura melhorá-lo de acordo com as regras dadas. e por uma diversidade de contextos nos quais se podem aceitar ou rejeitar pressupostos dramaticamente diferentes. se formos utilitaristas. por si. 2. Redige pelo menos um ensaio argumentativo de uma página. Isto é de tal modo absurdo que constitui. Nesses contextos. Mesmo que sejam verdadeiras. Contudo.Capítulo 2 Argumentação e retórica qualquer pessoa sensata. quem argumenta e procura persuadir uma audiência de um ponto de vista específico (que é em geral a razão pela qual se está a argumentar). Elementos informais da argumentação A lógica clássica sugere que um bom argumento é um argumento sólido. pois. tem de dar atenção às atitudes da audiência à qual o argumento se dirige. [O filósofo] Tindale desenvolveu. afirmações éticas e estéticas que não é fácil classificar como verdadeiras ou falsas. por isso. isto é.» 15 Problemas 1. uma abordagem à argumentação que considera e avalia argumentos do ponto de vista da audiência aos quais o argumento se dirige. Lê um texto argumentativo de um jornal nacional e procura reescrevê-lo de acordo com as regras dadas. o seu apelo a premissas verdadeiras é desadequado em muitos contextos informais. desacordos profundos sobre o que é verdadeiro e falso. 3) Os direitos dos animais. uma refutação do utilitarismo. 3. Ele continua uma tradição que caracteriza a retórica aristotélica e que sustenta que um bom argumentador apela ao pathos da sua audiência. feitas as contas. as premissas que não forem aceites por uma audiência não irão convencê-la a aceitar a conclusão de um argumento. Apesar de esta concepção de argumento bom modelar de forma útil muitos tipos de argumento. defendendo as tuas ideias sobre qualquer um dos seguintes temas: 1) A legalização da droga. um argumento com premissas verdadeiras. que se caracterizam muitas vezes por crenças hipotéticas e incertas. de acordo com as regras dadas. teremos de dizer que sim. LEITURAS 1.

criando a impressão de que não são de confiança nem credíveis. Sóc. por que razão não basta que um argumento seja sólido para ser bom? Concordas com o autor? Porquê? 2. sublinhada em algumas abordagens à lógica informal. ser uma área relativamente inexplorada). — Sim. pois os seus argumentos abalam a sua própria credibilidade. — E. Segundo o autor.16 Racionalidade Argumentativa e Filosofia O interesse pela audiência. . — Quem fala. Os argumentadores que se entreguem a insultos e exageros frequentes dificilmente alcançarão este objectivo. — Mas quem usa e o que ele usa são coisas diferentes. Sóc. — E quem faz os cortes e usa as ferramentas é muito diferente daquilo que se usa ao fazer os cortes. é Sócrates? Alc. portanto. Sóc. — Certamente. Sóc. «Lógica Informal». — E tu dirás que falar e usar palavras é a mesma coisa? Alc. — Claro. — Sim. — E Sócrates usa palavras ao falar? Alc. presumo que um sapateiro usa diversas ferramentas? Alc. — Claro. Sóc. — E quem ouve é Alcibíades? Alc. — Sim. — Que queres dizer? Sóc. um dos objectivos da argumentação deve ser um estilo de argumento que convença uma audiência de que somos credíveis e de confiança. O autor parece identificar a ideia aristotélica do pathos da audiência com o seu estado cognitivo. não? Alc. Leo Groarke. Sóc. o que o harpista usa ao tocar harpa será diferente do próprio harpista? Alc. 2002 Perguntas 1. Sóc. — Por exemplo. A retórica e a lógica informal partilham igualmente um interesse no papel que o carácter (ou ethos) desempenha quando se determina se um argumento é convincente (apesar de. — Claro. do mesmo modo. Eu e o meu corpo Sócrates — Com quem conversas agora? Comigo. Concordas com esta identificação? Porquê? Parte 1 2. Sóc. não? Alc. sem dúvida? Alcibíades — Sim. — Sim. Deste ponto de vista. — E eu contigo? Alc. no caso da lógica informal. supera uma divisão tradicional entre a lógica e a retórica.

Sóc. Que tipo de argumento usa Sócrates para estabelecer a sua conclusão? 3. — Parece que sim.. ano da batalha em que Alc. distinguindo claramente as premissas da conclusão. Alc. Alcibíades I. — Também com as mãos. Concordas com o argumento de Sócrates? Porquê? ARGUMENTAÇÃO E RETÓRICA Glossário Demonstração. argumento mau ou fraco. previsão. — Sim. Platão. . pp. ou também com as mãos? Alc. — Evidentemente. — Sim. — Sim. Reescreve o argumento de Sócrates. — São coisas diferentes. Indução. 1821). na tua opinião.Capítulo 2 Argumentação e retórica 17 Sóc. Sóc. — Então o homem é diferente do seu próprio corpo? Alc. usa são coisas diferentes? Alc. Sóc. generalização. — E já admitimos que quem usa e o que ele Alcibíades. argumento de autoridade. — Portanto. Este diálogo tem lugar sapatos? em 432 a. duas coisas diferentes. analogia. — E o homem usa também todo o seu corpo? Alc. argumentação. — E ele usa também os olhos. então com 18 anos. — E nós dissemos que quem usa e o que ele usa são coisas diferentes? Alc. — Sim. — Sem dúvida. 129b-129e Perguntas 1. argumento por analogia. Sócrates. Sóc. Sóc. — Pois bem! Era isto que eu perguntava há pouco: se quem usa e o que ele usa são sempre. salvou a vida de Sóc. Sóc. argumento bom ou forte. 4. — Que dizer então do sapateiro? Ele faz cortes só com as ferramentas. com 38 anos. — Então o sapateiro e o harpista são diferentes das mãos e olhos que eles usam no seu trabalho? Alc. Qual é a conclusão que Sócrates pretende defender neste texto? 2. dedução dialéctica. Auditório. estado cognitivo. Sóc. ao fazer Sócrates Ensinando Alcibíades (gravura anónima.C. ele usa também as mãos? Alc.

falso dilema.18 Racionalidade Argumentativa e Filosofia Falácia informal. Anthony. Mark. 7. 1996). Aires. in Crítica (www. Caps.com).com). Murcho. Uma explicação clara dos aspectos centrais da lógica informal. Estudo complementar Almeida. Parte 1 . «Lógica Indutiva e Lógica Dedutiva». As regras fundamentais da argumentação correcta.criticanarede. 12 e 13 (Plátano. falácia formal.criticanarede. A Arte de Argumentar (Gradiva. «Lógica Informal». apelo à ignorância. Weston. in Crítica (www. 2003). falácia da derrapagem. Stephen. in Crítica (www. 9. O Lugar da Lógica na Filosofia.com).criticanarede. O autor apresenta de forma clara várias falácias formais e informais importantes. Uma explicação simples das diferenças entre dedução e indução. Downes. 1. Sainsbury. Algumas das noções centrais de lógica informal. «Guia das Falácias». Desidério.

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