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(P-241) CINCO HOMENS DA CREST Everton Autor WILLIAM VOLTZ Tradução RICHARD PAUL NETO

CINCO HOMENS DA CREST Everton

Autor

WILLIAM VOLTZ

Tradução

RICHARD PAUL NETO

O ano 2.402 está sob o signo do avanço terrano em direção a Andrômeda. Ainda não existe nenhum sistema de propulsão espacial que permita aos terranos percorrer o abismo imenso que separa as galáxias, mas apesar disso Perry Rhodan e seus homens já se encontram na nebulosa Andro-Beta, que é um posto avançado de Andrômeda. O avanço arrojado tornou-se possível graças às estações de transmissores dos misteriosos senhores da galáxia, que são os donos de Andrômeda. Descobriu-se que a operação cabeça-de-ponte era extremamente arriscada, da mesma forma que tantas outras ações empreendidas pelos terranos desde o tempo em que pela primeira vez avançaram para o espaço. A nave-capitânia de Perry Rhodan, a Crest II, foi aprisionada — e por um triz os donos de Andrômeda não descobrem a identidade dos intrusos. Isso só não aconteceu por causa das providências imediatas tomadas pelo Lorde-Almirante Atlan. Com a chegada da frota de abastecimento terrana, o perigo da descoberta tornou-se ainda maior. E mais uma vez foi Atlan que encontrou a saída: o esconderijo em Arctis, o planeta gelado. Arctis só proporcionou aos terranos uma ligeira pausa. Esta só durou até o dia em que os mobys, considerados mortos, foram despertados por um sinal, passando a levar uma vida de fantasma e prosseguindo em sua obra de destruição. Não há dúvida de que nestas condições o prosseguimento da operação cabeça-de-ponte se tornou inviável. Por isso Perry Rhodan dá ordem para que as unidades de sua frota se afastem da zona perigosa. Mas alguns voluntários voltam ao inferno de Andro-Beta. Entre estas pessoas arrojadas há Cinco Homens da Crest ...

= = = = = = = Personagens Principais:

= = = = = = =

Capitão Don Redhorse Que volta num jato espacial ao inferno de Andro-Beta.

Whip Gilliam Tripulante da SJ-4C. Olivier Doutreval Rádio-operador da SJ-4C.

Chard Bradon Um aspirante a oficial que se esquece de comunicar seu desligamento.

Brazos Surfat Um cabo que é tirado por Don Redhorse da cela em que estava preso.

Perry Rhodan Administrador-Geral do Império Solar. Mister Jefferson Um ser muito afetuoso.

1

O Capitão Don Redhorse abriu violentamente a porta do camarote. O sargento Whip Gilliam estava deitado bem à sua frente, numa cama simples, mas limpa. Gilliam estava com as mãos cruzadas embaixo da nuca, olhando para o teto. — Olá, capitão! Quase chegou a cochichar o cumprimento, dando a entender que estava cansado e não tinha interesse em conversar. — Temos trabalho, Whip — disse Redhorse, encostando-se ao batente da porta. O capitão era um homem alto e robusto. O rosto de traços duros com o nariz adunco mostrava perfeitamente que descendia de índios. Whip Gilliam tirou as mãos de trás da cabeça e fitou Redhorse. Qualquer observador atento notaria que Gilliam só possuía um olho verdadeiro — e Redhorse era um observador atento. — Acontece poucas vezes eu ser escolhido para qualquer trabalho — constatou Gilliam em tom indiferente. — Talvez seja porque ninguém sabe apreciar suas qualidades — respondeu Redhorse em tom enfático. Gilliam sorriu, atirou as pernas magras e compridas para fora da cama e levantou. Era quase do tamanho de Redhorse. Este viu Gilliam movimentar-se lentamente através do camarote e parar à frente do aquecedor de água. O sargento abaixou-se e os músculos das costas apareceram embaixo da pele. Redhorse ouviu o chiado da água saindo da torneira. Gilliam encheu um caneco e bebeu. Só então olhou para a porta. — O que será? — perguntou. — Uma excursão — respondeu Redhorse. — Num jato espacial. Gilliam coçou a axila direita. — O espaço de Andro-Beta está repleto de mobys enlouquecidos, senhor. — É verdade — confirmou Redhorse. — Além disso há milhares de naves dos trombas azuis cruzando por ali. Gilliam amassou o caneco e atirou-o na lixeira. Redhorse não fez nenhum movimento. Whip Gilliam não permitia que ninguém o apressasse. Naturalmente Redhorse poderia dar ordem para que o acompanhasse, mas quando era forçado a fazer alguma coisa, Gilliam perdia metade do seu valor. — Está bem, senhor — resmungou Gilliam depois de algum tempo. — Avise quando estiver na hora. Redhorse sorriu e fechou a porta. Foi passando calmamente pelas portas dos camarotes. Quando Redhorse tinha de formar uma equipe, ele costumava proceder de forma nada convencional. Seus companheiros nem sempre possuíam boa fama, mas isso não incomodava o cheiene. Redhorse parou à frente de outro camarote. Desta vez não empurrou a porta, mas bateu cuidadosamente à mesma. Só abriu depois que uma voz o convidou a entrar. Um homem baixo, de cabelos negros, que estava sentado junto a uma mesa, lendo, levantou-se e fez continência ao ver Redhorse. — Capitão! — exclamou em tom de surpresa. — Que prazer vê-lo aqui!

Redhorse agradeceu com um sorriso. Sabia que Olivier Doutreval era um homem cortês, que fazia questão de ser tratado com cortesia. Doutreval tinha cabelos negros e um aspecto bem cuidado. Mas havia alguma coisa nos olhos negros desse homem que deveria servir de advertência para que não se visse nele apenas uma pessoa bem cuidada. — Faça o favor de sentar, capitão — pediu Doutreval. Redhorse sentou sem demonstrar muita pressa. Enfiou as pernas embaixo da mesa e esperou que Doutreval lhe servisse o café, que parecia um acessório indispensável de sua personalidade. Finalmente Redhorse começou a falar. — Gostaria de contar com a sua ajuda, Olivier. — Naturalmente. O senhor sabe que sempre pode contar comigo, capitão — disse o rádio-operador. O rosto magro de Redhorse não revelou nenhuma emoção. — Trata-se de uma tarefa difícil, para a qual preciso de homens nos quais possa confiar irrestritamente. O senhor é um destes homens, Olivier. Doutreval era um homem muito experimentado e não iria mostrar que as palavras do capitão o alegravam. Por isso limitou-se a perguntar:

— Em que posso ajudar, capitão? — Temos de voltar para Andro-Beta — disse Redhorse, falando devagar. — Num jato espacial. Olivier Doutreval soltou um assobio. Na opinião de Redhorse, o fato de Doutreval recostar-se na cadeira e refletir de olhos fechados não depunha contra o mesmo. Qualquer homem sensato costuma pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão. — Isso pode ficar bravo, senhor — observou o rádio-operador depois de algum tempo. — Pensei que o senhor iria gostar — disse Redhorse. Doutreval exibiu os dentes impecavelmente brancos. O capitão compreendeu que Olivier Doutreval o acompanharia. Foi só por cortesia que passou mais alguns minutos com ele. Falaram sobre coisas sem importância antes que Redhorse se retirasse do camarote do rádio-operador. Redhorse entrou no poço antigravitacional mais próximo para dirigir-se ao depósito. Entrou no depósito de armamentos e encontrou o Major Bernard no meio de caixas de munição quase vazias. — Bom dia, major — disse Redhorse em tom amável. — Está fazendo um levantamento do estoque? Não havia ninguém que Bernard desejasse ver menos que Redhorse. — Como sabe que é dia? — resmungou. — E, mesmo que a afirmativa seja correta, como pode ter tanta certeza de que é um bom dia? — Foi seu rosto alegre que me levou a fazer esta afirmativa, major — disse Redhorse. — Permite que lhe peça que me informe sobre o paradeiro de seu assistente Chard Bradon? — O senhor sempre costuma usar uma linguagem tão solene? — perguntou Bernard em tom irritado. — Só quando estou lidando com oficiais de patente superior, senhor — disse Redhorse em tom respeitoso. — Bradon está no vestiário — disse Bernard prontamente. Redhorse saiu andando. — Não tente explorá-lo! — gritou Bernard. — Se tirar alguma coisa de lá sem uma requisição, o senhor criará problemas para ele. — Sim senhor — suspirou Redhorse.

O Capitão Don Redhorse encontrou o assistente de Bernard ocupado com a classificação de casacos de uniforme. Bradon era um jovem de vinte e quatro anos, e o trabalho que o Major Bernard lhe havia confiado não parecia agradar-lhe muito. — Não troque os tamanhos, Chard — disse Redhorse a título de cumprimento. Bradon deixou cair o pacote de roupas que segurava na mão e aproximou-se de Redhorse. Ficou com o rosto vermelho. — Capitão! — exclamou. — Será possível que o major o tenha deixado vir para cá sem uma vigilância especial? — Certamente ele acredita que minhas necessidades de calças padronizadas da Frota Solar já foram satisfeitas — respondeu Redhorse com um sorriso. — Chard, será que o senhor teria vontade de sair daqui por alguns dias? — Ora viva! — gritou Bradon. — Queira desculpar, mas o senhor é um anjo? — É possível que antes de voltarmos o senhor diga que sou o contrário — disse Redhorse. — Vamos partir num jato espacial para uma missão perigosa. — A tripulação já está completa? — perguntou Bradon. — Falta um — disse Redhorse. — Quem é, senhor? — Brazos Surfat — respondeu Redhorse em tom calmo. Chard Bradon dirigiu os olhos ao lugar em que no planeta Terra fica o céu e exclamou, profundamente abalado:

— Meu Deus! Redhorse sorriu e foi saindo. A voz de Bradon o deteve na porta. — Senhor — disse o jovem em tom embaraçado. — Há mais uma coisa ... Redhorse ficou com os olhos semicerrados. — Diga! — pediu. — Se está com medo de morrer, não deve mesmo ir conosco. — Não se trata disso, senhor — disse Bradon em tom apressado. — Trata-se do

ovo.

— Bem — disse Redhorse. — Eu deveria ter pensado nisso. Acreditava que já tivesse sido chocado ou quebrado. Chard Bradon imitou com as mãos as formas de um ovo imaginário de tamanho respeitável. — Por enquanto não aconteceu nada. — Talvez seja um ovo choco, do qual não vai sair nada — disse Redhorse em tom paciente. — Afinal, já faz sete meses que o senhor espera que dali saia um ser estranho. — Pois é isso, senhor! — exclamou Bradon, desesperado. — Estou esperando há sete meses. Seria lamentável que eu não estivesse a bordo da Crest justamente no momento em que saísse alguma coisa desse ovo. Redhorse levantou as mãos. — Que diabo, Chard. O senhor nem sabe se há alguma coisa viva neste ovo. — Eu sinto, senhor — disse Bradon em tom exaltado. — Alguma coisa aqui dentro — bateu com o dedo no peito — me diz que não espero em vão. Redhorse sentiu certa admiração pelo homem que há tanto tempo aguardava o nascimento de algum monstro, e ainda tinha tanta certeza de que o mesmo apareceria. — É um ovo igual a qualquer outro, Chard — disse o capitão, tentando de novo. — O senhor o encontrou em Horror. Se raciocinar friamente, há de chegar à conclusão de que dificilmente há alguma coisa no mesmo.

Chard Bradon era um tipo sensato, desde que não se mexesse com o ovo que carregava consigo há sete meses. Naquele momento Redhorse teve de fazer esta experiência. — Terei muito prazer em acompanhá-lo, senhor — disse Bradon. — Mas sob uma condição. O senhor deve permitir que eu leve o ovo. — Levar o ovo? — disse Redhorse num sopro. — Quer dizer que pretende carregar

isso no jato espacial? Escute, Chard! Coloque o ovo embaixo de um aparelho de raios X, e o senhor levará apenas alguns segundos para descobrir que não há nada dentro do mesmo que valha tanto trabalho. Chard Bradon mostrou-se obstinado. — Raios X? — perguntou em tom indignado. — Sabe lá o que está pedindo, senhor? Estes raios podem tornar-se perigosos para a vida em germe. Redhorse gemeu, mas teve de reconhecer que neste ponto Bradon não cederia.

— Está bem — resmungou. — Leve isso

essa vida em germe para dentro do jato

... espacial. Mas faça o favor de escondê-la, para que ninguém suspeite de que eu tenha alguma participação nessa experiência maluca. — Sim senhor — exclamou Bradon, feliz. — Providenciarei em tempo a instalação da lâmpada de mil watts, para que o ovo não fique privado do calor. Num pressentimento sombrio, Redhorse viu o jovem agachado durante todo o tempo de vôo à frente da incubadora, esperando ansiosamente que a casca do ovo fosse rompida. Redhorse retirou-se do vestiário e cumprimentou ligeiramente o Major Bernard ao passar pelo mesmo. Alguém informaria o oficial intendente de que o mesmo teria de passar algum tempo sem Bradon. Redhorse entrou no elevador antigravitacional mais próximo e dirigiu-se à parte superior da nave-capitânia. Uma vez lá, atravessou vários corredores, até que um guarda o detivesse à frente de um pequeno camarote. — Pare, senhor! — disse o sargento, que estava armado. — Não posso permitir que passe sem autorização escrita. Redhorse conhecia as ordens que o sargento tinha recebido, mas fingiu-se de espantado. — Por que tanto rigor, sargento? O astronauta apontou para a porta do camarote. — Surfat está cumprindo três dias de prisão. Durante este tempo não pode falar com ninguém. — A não ser — acrescentou Redhorse — que seja requisitado para uma missão especial. O sargento deu uma estrondosa gargalhada. — Quem iria escolher Brazos Surfat para uma missão especial, senhor? — Eu, por exemplo — respondeu Redhorse e empurrou o sargento para o lado. Antes que o mesmo, que ficou perplexo, pudesse fazer qualquer coisa, o capitão fechou a porta do camarote. No interior do pequeno recinto estava completamente escuro, mas Redhorse ouvia o fungar quase asmático de um homem. Apalpou com as mãos e encontrou o interruptor de luz junto à porta. A luz acendeu-se, e Redhorse viu um homem incrivelmente gordo deitado na cama. Estava com a barba por fazer. Parecia ter dormido com o uniforme no corpo. O homem piscou os olhos e seu rosto assumiu uma expressão de contrariedade. — Quero dormir — disse, aborrecido. — O tempo ainda não passou.

Redhorse não disse uma palavra. Foi até a pia e encheu um caneco com água. Derramou a mesma no rosto do homem gordo. Este levantou, soprando água. Fitou Redhorse com os olhos arregalados. Parecia indignado. Finalmente pôs-se de pé, fungando e gemendo. — A prisão — disse Redhorse em tom professoral — deve ser o maior favor que alguém lhe pode fazer, Brazos. Se eu fosse o Coronel Rudo, mandaria o senhor limpar todo o convés superior. Brazos Surfat enxugou os pingos de água do queixo duplo e pôs-se a enfiar a camisa na calça. — Tive uma pequena divergência com o Tenente Orson — informou. — Ele afirma que consegui fraudulentamente uma segunda refeição principal. — Foi a terceira vez — disse Redhorse, acenando com a cabeça. — Depois de advertida duas vezes, a pessoa fica sujeita a três dias de prisão. É quanto basta para fazer a digestão de duas refeições. — Parece que o senhor também não me conhece — disse Surfat em tom preocupado. — Tenho de gastar a maior parte de minha energia vital para convencer as pessoas incrédulas de que sou um homem honesto, leal e sincero. Redhorse sentou na cama e levantou a coberta. Viu uma garrafa quase completamente vazia. Redhorse tirou a rolha e cheirou o conteúdo. — Quanta energia o senhor teria de gastar para convencer-me de que esta garrafa contém café em vez de uma bebida alcoólica? Surfat deu uma risadinha. — O senhor não seria capaz de trair um pobre inocente, capitão — disse. — Depende — disse Redhorse em tom enfático. Surfat ainda estava lutando com a calça. Lançou um olhar desconfiado para o capitão. Até parecia que imaginava que este iria contar-lhe uma coisa desagradável. — O cumprimento da pena de prisão será suspenso, porque o senhor me acompanhará numa missão especial, com mais alguns homens — disse Redhorse. — Ocupo o posto de cabo — disse Surfat com uma voz que dava a entender que era detentor de um cargo muito elevado. — Não sou nenhum especialista incumbido de tarefas especiais. Contento-me em servir modestamente e em silêncio aos meus superiores a bordo da Crest. Não quero outra recompensa além da gratidão dos mesmos. Não sinto vontade de ... — Brazos! — interrompeu Redhorse em tom enérgico. — O senhor irá comigo. — Já que o senhor diz, capitão — respondeu Surfat com um suspiro triste. — Sabe o que aconteceu nestes últimos dias? — Não — confessou Brazos Surfat. — Passei quase todo o tempo dormindo. — Tivemos de abandonar o planeta gelado Arctis — informou Redhorse. — Como o perigo de sermos atacados pelos mobys continua e a bordo das espaçonaves não existem estoques suficientes de ácido Stog para repelir os monstros, tivemos de evacuar as cavernas embaixo do gelo. Os esconderijos foram destruídos. No momento em que partimos, Andro-Beta ainda estava sendo sacudido pelos impulsos fortes de uma hiperestação desconhecida. Nem mesmo nossos instrumentos de alta sensibilidade conseguiram determinar a posição do transmissor. — Não compreendo — disse Surfat em tom de espanto. Ficou repuxando a barba descuidada. — Para um rádio-operador isso não deveria ser difícil. — Acontece que é. Os especialistas chegaram à conclusão de que deve haver numerosas estações retransmissoras em Andro-Beta, estações estas que refletem as

hiperondas emitidas pela estação desconhecida em todas as direções. Por isso torna-se completamente impossível fazer a determinação da posição do transmissor no interior da pequena galáxia. — Quer dizer que os mobys continuam a se fazer de loucos — observou Surfat. Redhorse confirmou com um gesto. — Além disso as naves ovais dos trombas azuis aparecem constantemente por aí. Foram as únicas que os mobys deixaram em paz. Os monstros atacavam todo e qualquer planeta em que poderia existir vida. Por isso os cinco supercouraçados e as seis naves cargueiras saíram do gelo eterno do planeta Arctis e partiram em direção ao espaço. Surfat engoliu em seco. — E eu que devo ter dormido durante este vôo perigoso ... — Foi mesmo perigoso. Quando estávamos decolando, localizamos um gigantesco moby, que se dirigia exatamente ao sistema a que pertence a estrela de Alurin. As naves cargueiras equipadas com sistemas de propulsão suplementares só conseguiram fugir no último instante. A Crest e a Imperador entraram em combate com o moby atacante, a fim de dar cobertura às outras unidades. — A Crest — disse Surfat em tom contrariado. — Por que não fui acordado? — Tínhamos coisa mais importante a fazer. Provavelmente ninguém se lembrava de que um dos tripulantes estava cumprindo pena de prisão. Afinal, isso não acontece todos os dias. Via-se perfeitamente que Surfat não tinha nenhuma intenção de sair do dia a dia. — Onde nos encontramos no momento, senhor? — perguntou. — No espaço intergaláctico, a cerca de quinhentos anos-luz dos limites de Andro- Beta — respondeu Redhorse. — Alguém nos perseguiu, senhor? — Felizmente não. Quando desaparecemos no espaço linear, nem os mobys nem os trombas azuis demonstraram qualquer interesse por nós. — O que será feito daqui em diante? Redhorse ajeitou a coberta. Levantou-se. Surfat seguiu seu exemplo. — Voltaremos para Andro-Beta — disse o cheiene. — Num jato espacial. Mas não seremos os únicos. Mais oito jatos partirão. Os comandantes serão os Tenentes Orson, Eyseman e Nosinsky, além dos Capitães Kagato, Henderson e de minha pessoa. Os três jatos restantes serão comandados por oficiais do couraçado da USO, a Imperador. Brazos Surfat passou a língua pelos lábios grossos. Seus olhos quase desapareciam atrás das carnes gordas de seu rosto. — O senhor acha mesmo que um simples cabo lhe poderá ser útil nessa tarefa, capitão? — Acredito que sim — respondeu Redhorse. — Quando estiver na hora, o senhor será convocado ao hangar. Antes disso trate de fazer a barba. Surfat suspirou, voltou para junto da cama e deixou-se cair na mesma. Redhorse saiu sem dar atenção aos olhares zangados do guarda. Estava com pressa de chegar à sala de comando. “Whip Gilliam, Olivier Doutreval, Chard Bradon e Brazos Surfat”, pensou, satisfeito. Era uma equipe completa. Uma equipe de que até mesmo Dull Knife ou Little Wolf se orgulhariam, se pudessem ver esses homens.

Se bem que o aspecto dos astronautas certamente não seria suficiente para convencer os caciques mais afamados dos lendários índios cheienes de Powder River das elevadas qualidades desses homens”, pensou o Capitão Don Redhorse, alegre.

2

Sob qualquer ângulo que se encarassem as coisas, a fuga de Andro-Beta, embora tivesse sido apelidada de retirada, fora um revés para os terranos. Depois da perda do planeta gelado Arctis, algum tempo se passaria antes que encontrassem outra base segura no interior de Andro-Beta. Rhodan sabia que antes de mais nada teriam de localizar o transmissor que provocara a ativação dos mobys que se acreditara estivessem mortos, levando-os a desenvolver uma atividade mortífera. As frentes de choque hiperenergéticas estendiam-se de Andro-Beta até o espaço intergaláctico — ao lugar para o qual se haviam retirado as naves terranas. Rhodan dera ordem para voltar a realizar medições precisas. Os especialistas haviam descoberto que os impulsos eram provocados por estrelas previamente preparadas. Acontece que existiam milhares de estrelas dessa espécie, e seria impossível examinar todas elas, pois isso acarretaria graves perdas. Tratava-se de mais um excelente planejamento dos senhores da galáxia, que souberam tomar suas decisões prevendo as eventualidades do futuro. Os mobys espalhavam a morte e a destruição, e não havia ninguém que pudesse detê-los. Rhodan já estava a ponto de desistir, quando os cientistas descobriram, através do centro de computação de bordo, nove pontos importantes, nos quais havia certas coincidências na intensidade dos impulsos. As nove bases de choque, que foi o nome que lhes deram, distinguiam-se de inúmeras outras fontes de transmissões, inclusive em virtude de um pequeno grau de estabilidade nas emissões de impulsos. Os intervalos pareciam ser menos arbitrários que os das outras estações. Rhodan não perdeu tempo discutindo a descoberta com os especialistas. Sabia que só havia uma possibilidade de controlar estes pontos situados no interior de Andro-Beta. Teriam de aproximar-se dos mesmos. Nas condições reinantes no interior da pequena galáxia, isso representaria um risco grave para os homens e as naves. Um objeto voador de grandes dimensões não teria nenhuma chance de aproximar-se de um transmissor, pois seria localizado pelos mobys ou pelas naves dos trombas azuis. Por isso Rhodan resolvera que jatos espaciais se dirigiriam às nove estações transmissoras que tinham sido descobertas. Teve seus motivos para escolher oficiais muito competentes como comandantes das naves em forma de disco. Era muito importante que estes homens descobrissem o transmissor. Perry Rhodan olhou para os seis oficiais que decolariam de bordo da Crest II, pois pretendia dar-lhes as últimas instruções. Estavam reunidos na sala de comando da nave- capitânia. O Administrador-Geral sabia que naquele mesmo instante a bordo da nave Imperador Atlan transmitia instruções a três outros oficiais. — Sua tarefa consiste exclusivamente em localizar o hipertransmissor — disse Rhodan. — Em hipótese alguma tentem atacar as instalações ou pousar onde quer que seja. Cada um dos jatos espaciais se dirigirá a um ponto previamente determinado, e os tripulantes examinarão o mesmo de uma distância segura. Uma vez realizadas as medições, deverão voltar imediatamente. Ninguém está autorizado a agir segundo seu critério, mesmo que acredite ter encontrado a estação que transmite os impulsos que servem de estímulo aos mobys.

Rhodan passou os olhos pelos homens enfileirados. Acabou fitando o Capitão Don Redhorse. — Capitão Redhorse, todos os comandantes apresentaram suas listas de tripulantes — disse. — O senhor é o único que, segundo parece, acredita que isso é dispensável. Redhorse pigarreou. Continuou com o rosto impassível. — É verdade, senhor — disse Redhorse. — A lista, capitão! — Rhodan estendeu a mão e saiu andando na direção de Redhorse. Com um movimento lento, dando a impressão de que era a coisa mais difícil que poderia haver na Galáxia, Redhorse tirou um papel do bolso. Rhodan pegou o mesmo e leu os nomes. — Que grupo ilustre — disse Rhodan, virando a cabeça para a poltrona de comando. — O senhor tem alguma lembrança de Brazos Surfat, Coronel Rudo? O epsalense girou na poltrona e olhou para Redhorse. — Este homem está cumprindo pena de prisão! — exclamou com a voz retumbante. — Em certas circunstâncias justifica-se a suspensão da pena de prisão, senhor — disse Redhorse em tom calmo. — Concordo plenamente com a opinião do capitão, senhor — observou o Tenente Orson. — Brazos Surfat foi condenado por iniciativa minha. Mas a infração que cometeu não é tão grave que justifique que seu nome seja riscado da lista. — Obrigado — disse Redhorse. — Whip Gilliam, Chard Bradon e Olivier Doutreval — disse Rhodan, lendo os outros nomes. — Concordo plenamente que Doutreval é um excelente rádio-operador e Chard Bradon um aspirante a oficial que promete bastante. — É verdade, senhor — confirmou Redhorse. — Mas também é verdade que mais uma vez o senhor escolheu os tipos mais imprestáveis que se encontram na Crest para acompanhá-lo — acrescentou Rhodan, enquanto o sorriso desapareceu do rosto de Redhorse. — Bem, senhor, diria antes que são individualistas — disse o capitão. Os oficiais deram uma risada. Redhorse sabia que tinha ganho o jogo. Provavelmente Rhodan nem tivera a intenção de causar-lhe qualquer problema na composição de sua equipe. Don Redhorse conhecia Rhodan e sabia perfeitamente que o mesmo nunca seria capaz de contrariar as ordens do Coronel Cart Rudo, caso este insistisse em que Surfat deveria continuar preso. Rudo era o comandante da Crest II, e Rhodan nunca faria qualquer coisa que pudesse minar a autoridade do epsalense. Redhorse achava que devia ser assim mesmo. Ele mesmo não teria agido de outra forma. — Os jatos estão sendo preparados — disse Rhodan. — Podem dirigir-se aos hangares. O Capitão Don Redhorse foi colocado no comando do SJ-4C. Teve pressa de chegar ao hangar. Os técnicos já estavam ocupados no trabalho de soltar os suportes do jato espacial. Redhorse passou pela eclusa e chegou ao interior da nave em forma de disco. O jato era capaz de desenvolver velocidade superior à da luz e seu raio de ação era muito grande. Tinha 35 metros de diâmetro horizontal e 20 metros de altura. Estava equipado com um canhão energético, rigidamente montado na direção do vôo. A cabine de comando ficava acima do corpo abaulado da nave em forma de disco. Redhorse viu que sua tripulação estava reunida. A poltrona de comando fora reservada para ele. Gilliam estava sentado mais nos fundos, com o rosto sombrio. Tinha- se a impressão de que sentia frio. Brazos Surfat parecia infeliz, mas estava com a barba

feita e usava uma jaqueta bem passada. Doutreval sorriu para Redhorse, enquanto Chard Bradon, muito pálido, estava sentado na poltrona do imediato. “Deve estar preocupado com seu ovo de Horror”, pensou Redhorse. Redhorse sentou sem dizer uma palavra. — Ainda tenho esperança de que alguém acabe dando ordem para que não saiamos — disse Surfat. Redhorse olhou para trás. O corpo gordo do cabo enchia completamente a poltrona confortável. — Pare de lamentar-se, Brazos — disse Redhorse. — Partiremos dentro de alguns minutos. — É tudo muito rápido — voltou a queixar-se Surfat. — Qualquer homem deve ter tempo para preparar-se para a morte. Um ruído vindo do outro lado fez com que Redhorse não prestasse tanta atenção às palavras de Surfat. Doutreval inclinara-se bem para a frente, para cochichar alguma coisa ao ouvido do capitão. — O jovem Bradon contrabandeou alguma coisa para dentro do jato, senhor — informou Doutreval. — Não costumo incomodar-me com esse tipo de coisa, mas parece que foi uma bomba. Redhorse contraiu o rosto, numa expressão de sofrimento. Jovem idiota! Não fora muito prudente. — Não foi nenhuma bomba, Olivier — disse. — O senhor está informado? — Estou — confessou Redhorse. Depois de uma pausa, durante a qual desejou que Bradon se encontrasse no canto mais escuro da Galáxia, acrescentou em voz baixa: — É um ovo, Olivier.

* * *

O intercomunicador emitiu um estalo. Rhodan ligou o alto-falante que ficava à sua frente. Era o Major Bernard. — Chard Bradon desapareceu, senhor — informou o oficial intendente, nervoso. — Mandei procurá-lo até mesmo em seu camarote. — Bradon não se despediu do senhor? — perguntou Rhodan, espantado. — Despediu? — repetiu Bernard em tom de perplexidade. — Por que iria despedir-

se?

— Isso lhe renderá uma repreensão — disse Rhodan. — Bradon se encontra num jato espacial que está viajando para Andro-Beta. — Isso é coisa de Redhorse! — exclamou Bernard, indignado. — Esse patife conseguiu convencer o coitado. — Infelizmente ele não pode ouvir isso, major — disse Rhodan. — Os jatos já saíram da Crest. Bernard praguejou mais algum tempo. Finalmente a ligação foi interrompida. Rhodan imaginava perfeitamente por que Chard Bradon se esquecera de despedir-se de seu superior direto. Bernard certamente teria feito tudo que estivesse ao seu alcance para evitar que seu assistente acompanhasse a missão. Mas de qualquer maneira Bradon teria de sofrer a pena de repreensão quando a SJ-4C voltasse. Rhodan olhou para os rastreadores. As nove espaçonaves em forma de disco ainda apareciam nas telas do rastreamento espacial. Isso mudaria assim que os jatos espaciais alcançassem a velocidade da luz e penetrassem na zona de libração.

O que mais preocupava Rhodan no momento era a sorte do Tenente-Coronel Kim Dosenthal. Não se sabia se o cruzador pesado Bagalo tinha chegado ao transmissor Chumbo de Caça. Ainda não tinham recebido notícias de Dosenthal. Rhodan fazia votos de que não houvesse remessas de suprimentos do transmissor Chumbo de Caça a caminho. As naves voariam diretamente para a destruição. Tudo dependia de que a Bagalo tivesse chegado ao destino. Os nove pontos luminosos projetados na tela apagaram-se. Os jatos espaciais tinham iniciado o vôo linear. Só retornariam ao espaço normal quando se encontrassem em Andro-Beta. O olhar de Rhodan acabou fixando-se na tela panorâmica. À distância de quinhentos anos-luz grande parte da pequena nebulosa deixava de ser vista. O eixo menor da aglomeração de estrelas em forma de lentilha só tinha algumas centenas de anos-luz de diâmetro. Vista na tela panorâmica, a nebulosa Andro-Beta oferecia um quadro pacato. Não havia nada que indicasse o caos reinante entre as estrelas luminosas. Rhodan lembrou-se das tripulações dos nove jatos espaciais. Os homens tinham aceito uma missão que poderia custar-lhes a vida. O único recurso de que poderiam lançar mão era a mobilidade das pequenas naves. Militarmente encontravam-se numa situação de grande inferioridade diante dos mobys e dos trombas azuis.

* * *

À medida que a SJ-4C se aproximava de Andro-Beta, as interferências provocadas por inúmeros hiperimpulsos nos receptores da nave eram cada vez mais fortes. Tornava- se cada vez mais difícil manter fixado em meio a toda essa confusão o ponto previamente fixado ao qual Redhorse deveria dirigir-se. Este trabalho estava a cargo de Olivier Doutreval. O rádio-operador, que era um homem baixo, mantinha-se em silêncio, sentado à frente dos seus aparelhos, e de vez em quando fazia algumas regulagens. De vez em quando levantava os olhos e sorria para Redhorse, o que era um sinal de que ainda não haviam perdido a pista. O ponto de destino da SJ-4C ficava acima do núcleo central da nebulosa Beta, tomada como referência a posição dos homens. Redhorse estava confortavelmente sentado na poltrona do piloto. No momento a direção do jato podia ficar a cargo do piloto automático. — Sobre este vôo ainda terei alguma coisa a contar a meus filhos — disse Brazos Surfat, entusiasmado. — Não recuo diante do perigo e precipito-me na grande aventura de minha vida — estalou gostosamente a língua. — No momento o único perigo seria o de mandarmos atirá-lo pela eclusa — disse Redhorse, esticando as palavras. — Para isso precisaríamos de um guindaste — observou Chard Bradon. — O senhor é um menininho magro e inexperiente — disse Surfat em tom delicado. Estendeu as mãos carnudas para Bradon. — Com estas mãos já matei monstros. Eu o esmagaria como se fosse um mosquito, caso se atrevesse a encostar as mãos em mim. — Feche o cinto, cabo! — disse Redhorse, lançando um olhar para a camisa de Surfat, que ameaçava escorregar para fora da calça. — Esta calça maldita é muito apertada, capitão — disse Surfat, tentando apaziguar o oficial. — Quando estou sentado tenho de ficar com o cinto aberto, senão ela estoura. Chard Bradon virou na poltrona e olhou para Whip Gilliam, que se mantinha em silêncio.

— Que acha, Whip? Os olhos de Gilliam faiscaram. Dirigiram-se para Bradon. Seria difícil dizer qual dos dois era o olho verdadeiro. O sargento Gilliam levantou os ombros. Havia uma mecha de cabelo louro-claro caída em sua testa. “Gilliam tem algo de misterioso”, pensou Bradon. “Não se sente muito à vontade.” — O senhor sempre costuma falar tanto? — perguntou Bradon em tom sarcástico. Gilliam exibiu um sorriso sem calor. Fez um movimento quase imperceptível, sem sair da poltrona, mas foi um movimento tão concentrado que Bradon quase chegou a ter a impressão de que o mesmo representava uma ameaça. — Ele ainda é muito jovem, Whip — disse Redhorse nesse mesmo instante. — De fato — confirmou Gilliam, aborrecido. — Dá para notar. Bradon ficou vermelho e afundou na poltrona. O ambiente no interior da sala de comando se tomara muito tenso e só voltou a descontrair quando a voz de Surfat se fez ouvir. — Lembro-me de uma missão semelhante desempenhada no cinturão das Plêiades — disse o cabo obeso. — Estava trancado sozinho num carro voador e tive que defender- me contra cem nativos amotinados — fechou os olhos e estalou os dedos. — O importante foi não perder a calma. — O que aconteceu mesmo? — perguntou Doutreval em tom delicado. Brazos Surfat levantou e pôs-se a agitar os braços. — Fui para a eclusa — disse com a voz retumbante. — Quando me viram ... — Tiveram um acesso de riso. Morreram de tanto rir — observou Redhorse. — Brazos, pare de contar mentiras. O único combate que o senhor travou no cinturão das Plêiades aconteceu na cantina de uma nave de abastecimento, quando o senhor entrou em luta com o cozinheiro para conseguir mais uma refeição. Surfat deixou-se cair na poltrona. Parecia ofendido. — Foi mesmo perigoso — disse Bradon. — Os cozinheiros das naves de abastecimento são tipos selvagens. Andam carregando facas de trincar aves e machadinhas de cortar carne. — E máquinas de cortar pão — acrescentou Doutreval com o rosto sério. — Mantendo uma forte amizade pelo senhor — disse Surfat em tom compenetrado. — Não arrisque essa amizade. Um belo dia, quando um ou outro dos senhores estiver envolvido numa luta, ele poderá dar-se por satisfeito se o bondoso do Brazos Surfat vier em seu auxílio. — Será um momento histórico — disse Bradon, entusiasmado. — Será que alguém pode dizer que já viu Brazos Surfat fazer alguma coisa depressa? Surfat preferiu ficar quieto. Redhorse controlou o piloto automático e dirigiu-se a Doutreval. — O senhor consegue manter a goniometria, Olivier? O rádio-operador acenou com a cabeça. — Sem dúvida, senhor. As superposições são cada vez mais fortes, mas os impulsos marcantes sempre conseguem atravessar. É bem verdade que se não tivéssemos saído de Andro-Beta nunca teríamos descoberto as nove bases de choques. “A fuga do sistema da estrela de Alurin sempre serviu para alguma coisa”, pensou Redhorse. Se tivessem continuado em Arctis, nunca teriam sido capazes de localizar o hipertransmissor que ativava os mobys. No momento pelo menos havia uma pequena chance de descobrirem a estação.

Cada um dos nove jatos espaciais dirigiu-se a um ponto previamente definido. Redhorse esperava que todas as naves-disco chegassem ao destino. Um dos nove transmissores devia ser o que estavam procurando. Mas haveria necessidade de medições precisas para descobrir qual era. — É possível que as nove estações estejam sendo vigiadas — disse o capitão. — Quer dizer que devemos ter cuidado durante a aproximação. — Talvez os senhores da galáxia só tenham criado alguma proteção para o transmissor principal — disse Doutreval. — Nesse caso só o jato que encontrasse a estação que procuramos estaria sujeito a um ataque. Era bem verdade que as chances de que a tripulação do SJ-4C fosse descobrir o transmissor camuflado não fossem maiores que as das outras tripulações. Redhorse começou a familiarizar-se com a idéia de que o hipertransmissor seria descoberto por eles. Seria bom que estivessem preparados para qualquer eventualidade. Redhorse lamentava que Rhodan não tinha permitido que realizassem exames minuciosos. A tarefa dos comandantes dos jatos consistia exclusivamente em determinar a posição exata do transmissor. Redhorse segurou firmemente a direção e desligou o piloto automático. Tinha de manter-se ocupado com alguma coisa, pois seus pensamentos começavam a seguir um rumo perigoso. “Ordens são ordens”, pensou Redhorse. As mesmas seriam cumpridas, por mais tentador que fosse o alvo ao qual se dirigiam. Naquele momento Redhorse não poderia imaginar que a tentação seria muito grande — e que seus companheiros demonstrariam uma tendência muito forte de ceder à mesma.

3

O SJ-4C retomou ao conjunto espácio-temporal normal. A nave-disco já tinha penetrado na nebulosa Andro-Beta. Redhorse inclinou-se para a frente. Os rastreadores mostravam numerosos impulsos móveis, produzidos por mobys ou naves dos trombas azuis. Os mesmos eram tão distantes que não poderiam representar qualquer perigo para o jato espacial. O barulho saído dos receptores de hiper-rádio fez com que Redhorse tivesse suas dúvidas de que Doutreval realmente conseguisse manter a fixação goniométrica do ponto de destino. Redhorse ligou o rádio comum e tentou entrar em contato com os outros jatos. Foi bem-sucedido em quatro tentativas, mas as outras unidades se encontravam a uma distância tão grande que as comunicações pelo rádio se tornavam impossíveis em meio às ondas de impulsos que estavam em toda parte. Todos os oficiais informaram que a nebulosa Beta estava repleta de mobys. Mas as emanações energéticas dos pequenos veículos espaciais eram tão reduzidas que não poderiam ser percebidas pelos monstros. Mas apesar disso o Capitão Sven Henderson, que foi a última pessoa com a qual o Capitão Redhorse falou pelo rádio, achou preferível entrar no espaço linear, para fugir a um moby que se aproximava. Redhorse interrompeu a ligação com os diversos jatos que se afastavam cada vez mais do SJ-4C, penetrando nas respectivas áreas de destino. O rádio-operador parecia muito tenso, mas fez um sinal de que ainda não tinha perdido a fixação goniométrica do ponto de destino. Redhorse passou os olhos pela sala de controle. Viu que Chard Bradon tinha saído do lugar e estava se enfiando embaixo da mesa dos mapas, onde se mantinha ocupado com alguma coisa. — O que está fazendo, Chard? — perguntou Redhorse. Bradon recuou abruptamente e bateu com a cabeça na borda da mesa. Esfregando o crânio com ambas as mãos, aproximou-se de Redhorse. — Tive a impressão de que havia alguma coisa batendo lá dentro — disse. — O ovo! — exclamou Redhorse, apavorado. — Escondeu-o embaixo da mesa dos mapas? — Escondi — confirmou Bradon. — Há alguma coisa batendo na casca, como se quisesse sair. — Ocupe seu lugar junto ao canhão energético — ordenou Redhorse em tom enfático. — Sua presença nesse lugar é indispensável. Bradon lançou um olhar ansioso para a mesa dos mapas, mas cumpriu a ordem do capitão. Surfat levantou, caminhou ruidosamente através da sala de comando e parou ao lado de Redhorse. Puxou a calça, levantando-a quase até a altura do peito, e fechou o cinto, respirando pesadamente. — O que houve com esse rapaz? — perguntou. — Está doente? Redhorse resolveu não tomar conhecimento da atitude pouco militar de Surfat. — Vá ao seu lugar, Brazos — disse. — Por enquanto ninguém vai dar explicações. — Objetos desconhecidos vindos da direita, senhor — exclamou Whip Gilliam, que observava o rastreamento espacial.

Redhorse virou-se abruptamente. Um ponto cintilante atravessou as telas. Redhorse viu que o objeto se aproximava rapidamente.

— Deve ser um moby — disse com a voz tranqüila. Acelerou o jato espacial e o fez voltar ao espaço linear. As telas escureceram. — Canhão energético preparado para disparar, senhor! — informou Bradon. — Área de destino continua na goniometria! — anunciou Doutreval. Redhorse estava satisfeito. Por enquanto estava correndo tudo segundo o plano. Naturalmente tinham de contar com a possibilidade de se encontrarem com um inimigo em qualquer lugar em que saíssem da zona de libração. O importante era que não fossem vistos. Os terranos não sabiam se havia alguma comunicação entre os mobys, mas essa possibilidade não podia ser excluída. A descoberta de um jato espacial poderia dar lugar a uma perseguição em grande estilo, frustrando os planos de Rhodan. O SJ-4C passou uma hora desenvolvendo algumas dezenas de vezes a velocidade da luz. Finalmente Redhorse o fez voltar novamente ao espaço normal. O quadro estava modificado. Em todos os lugares em que havia sistemas solares viam-se mobys voando. Uma frota de naves dos trombas azuis operava a cerca de quarenta anos-luz do lugar em que se encontrava o SJ-4C. Redhorse estava acostumado a ver espaçonaves estranhas. Só tinha vinte e nove anos, mas era um dos oficiais com mais experiência na Frota Solar. — Tomara que na área à qual nos dirigimos o ambiente seja mais calmo — disse Brazos Surfat. — Não tenho vontade de lutar contra uma frota inteira. Redhorse conseguiu entrar em contato por um instante com a nave-girino do Tenente Orson. Este informou que dentro de uma hora no máximo alcançaria a posição em que ficava o transmissor ao qual se dirigia. — A única coisa que distinguimos no momento é uma estrela amarela — disse a voz pouco nítida de Orson, saída dos receptores do rádio normal. Redhorse teve de inclinar o corpo para entender as palavras. — Já conseguiu verificar se existem planetas, tenente? — perguntou Redhorse.

— No momento

— a voz do oficial foi abafada por uma série de interferências.

isso

seria coisa para Surfat.

... Redhorse ouviu uma risada sarcástica. O tenente disse: — ...

A ligação foi interrompida. — Ele não gosta de mim — observou Surfat, preocupado. — Deu ordem para que eu fosse preso. — Mas permitiu que o guarda lhe fornecesse bebida alcoólica — lembrou Redhorse em tom indiferente. — Os impulsos estão ficando mais intensos, senhor — informou Doutreval em tom de alívio. — Não acredito que voltemos a perdê-los. — Parece que teremos de percorrer um trecho maior que os outros jatos espaciais — constatou Redhorse. — Orson disse que estava quase chegando ao destino. Teremos de entrar mais uma vez no espaço linear. Lançou um olhar para Chard Bradon, que estava sentado atrás da mira ótica do canhão energético, com o rosto sombrio. — O que houve com o senhor, Chard? — perguntou o cheiene. Bradon olhou fixamente para a mesa dos mapas. — Estou preocupado, senhor — disse em tom violento. — Não gostaria de perder o grande momento. Redhorse ouviu Brazos Surfat dar uma risadinha. — Que garoto maluco — disse o cabo. — Está preocupado com alguma coisa.

Ditas estas palavras, Surfat levantou e saiu andando em direção à mesa dos mapas. — Não o deixe ir para lá, senhor — pediu Bradon. Surfat abaixou-se e soltou alguns ruídos de asmático. Conseguiu enfiar o corpo volumoso embaixo da mesa. Os homens ouviram uma

risada borbulhante. — Um ovo! — gritou em tom de triunfo. — Um lindo ovo colocado embaixo de uma lâmpada. Parece que o garotão quer chocar um galo cujo cacarejar perturbe nosso

merecido sono e que nos perturbe com seus ex

...

— olhou para cima, como se quisesse

pedir que alguém o ajudasse. — Excrementos — completou Redhorse. — Que vai deixar seus excrementos em toda parte — disse Surfat. Saiu fungando de baixo da mesa. Bradon se pôs a xingá-lo, sem sair do lugar do artilheiro. Finalmente Surfat chegou ao seu lugar e se deixou cair no mesmo, gemendo. Pingos de suor apareceram em sua calva. — Quero que este ovo seja deixado em paz — disse Bradon. — Moby à esquerda! — gritou Gilliam. Os homens concentraram-se. Suas mãos seguravam firmemente os controles. Redhorse acelerou o jato espacial. Cinco homens arrojados, que tinham passado pelas experiências mais variadas, tripulavam o pequeno veículo espacial. Cada um tinha suas peculiaridades. Respeitavam-se uns aos outros e possuíam senso de humor. E sabiam o que realmente importava numa missão desse tipo. O jato aumentou de velocidade, correu em direção à aglomeração de estrelas do centro da nebulosa e voltou a desaparecer no espaço linear.

* * *

Olivier Doutreval conhecia todos os homens que tinham entrado no SJ-4C juntamente com ele, com exceção de Whip Gilliam. Surfat era um tipo excêntrico, muito conhecido na nave-capitânia. Bradon também se tomara uma personalidade marcante, desde o momento em que passara a servir sob as ordens do Major Bernard. A pessoa que Doutreval conhecia melhor era o Capitão Redhorse. Doutreval tinha estado com os homens que juntamente com Redhorse tinham levado um carro voador através de uma área gelada no interior do planeta Horror. E uma experiência como esta estabelecia ligações fortes entre os homens. Doutreval tinha trinta e oito anos. Há tempo poderia ter chegado ao cargo de chefe de equipe de rádio, desde que tivesse seguido a carreira de oficial. Mas sabia que nunca poderia exigir dos outros aquilo que ele mesmo não poderia dar: a disciplina. Olivier Doutreval era um homem sem preconceitos. Tinha uma fantasia viva demais para dedicar seus pensamentos exclusivamente às coisas que constavam do manual da Frota Solar. Era claro que havia oficiais que se pareciam com Doutreval — como Redhorse, por exemplo. Acontece que o capitão era um índio, um homem que, se necessário, sabia ocultar seus verdadeiros pensamentos atrás de uma máscara. Doutreval não era capaz de fazer isso. Costumava-se dizer que o rádio-operador trazia o coração na ponta da língua. Doutreval fez uma regulagem de grande precisão no hiper-rádio e recostou-se na poltrona, respirando profundamente. Já não havia perigo de os impulsos goniométricos se perderem. O rádio-operador lançou um olhar discreto para Surfat. Quem o visse, pensaria que o cabo só era um homem gordo e relaxado, que transpirava abundantemente e tentava

esconder o medo que lhe incutia o ambiente estranho do espaço cósmico atrás de uma torrente de palavras. Brazos Surfat chegara pelo menos dez vezes ao cargo de sargento, mas de todas as vezes voltara a ser rebaixado. Mas apesar de tudo Brazos Surfat era um homem no qual se podia confiar. Da mesma forma que Chard Bradon, que era obrigado a combater dia após dia as excentricidades do Major Bernard. “O Bradon ainda é um sujeito muito novo”, pensou Doutreval, e tentou recordar a própria juventude, que parecia estar mergulhada num passado incrivelmente remoto. O único homem sobre o qual Doutreval não podia formar qualquer opinião era Whip Gilliam. O sargento era um homem calado e parecia indiferente a tudo. Mas Doutreval tinha certeza de que Redhorse sabia avaliar as pessoas. — Como estão as coisas, Olivier? — perguntou a voz de Redhorse em meio aos pensamentos de Doutreval. — Tudo bem, capitão — respondeu Doutreval. — No momento estamos voando diretamente para o destino. Brazos Surfat aproximou-se das telas. — O senhor acha que quando interrompermos o vôo pelo semi-espaço já será possível distinguir alguma coisa, capitão? — perguntou. — Depende do que o senhor espera distinguir — respondeu Redhorse. — Não podemos excluir a possibilidade de o transmissor ter sido instalado num pequeno asteróide. Se for assim, levaremos mais algum tempo para encontrá-lo. Mesmo que venhamos encontrar um grande sistema solar, não será fácil localizar o transmissor em meio às contínuas interferências. — A idéia de talvez termos de passar algum tempo perto de um conjunto de instalações de hiper-rádio do inimigo não me agrada nem um pouco — disse Surfat. — Nesse caso o senhor não se deveria ter oferecido como voluntário para a missão — observou Redhorse. — Como voluntário? — fungou Surfat indignado. — Fiz o que estava ao meu alcance para não participar deste comando. O senhor realmente acredita que eu arriscaria espontaneamente minha vida? Redhorse preferiu não responder. Manteve-se ocupado com os controles. O pequeno computador era alimentado constantemente com os dados fornecidos pelos rastreadores. Redhorse pôs a mão no setor de saída do centro de computação positrônica e tirou uma fita de plástico. — Eis aí o primeiro resultado aproveitável — disse, dirigindo-se à tripulação. Surfat olhou por cima do ombro de Redhorse. — Um planeta habitado por amazonas de cabelos louros — conjeturou em tom animado. — Não — respondeu Redhorse. — O ponto assinalado ao qual nos dirigimos parece ser formado por três sóis dispostos em linha, que nem as contas de um colar — pôs-se a refletir por um instante. — Vamos sair do espaço linear, para orientar-nos melhor. O SJ-4C reduziu a velocidade. Dali a pouco as aglomerações de estrelas de Andro- Beta apareceram nas telas. Redhorse concentrou-se na área em que teriam de entrar em ação. Mas foi Doutreval que descobriu as três estrelas. Chamou a atenção de Redhorse para as mesmas. — Três sóis gigantes vermelhos — observou Redhorse, bastante impressionado. — Não deve ser por acaso que formam uma constelação tão estranha.

— Não se esqueça das diversas estações de transmissor, capitão — disse Chard Bradon. — Por lá também encontramos grupos de estrelas misteriosas. — Vivo pensando nisso — disse Redhorse, zangado. — Provavelmente os senhores da galáxia também inventaram algumas armadilhas mortais para o transmissor. — Felizmente a única coisa que temos de fazer é dar uma olhada de longe — disse Surfat. — Teremos de chegar um pouco mais perto — objetou Doutreval. — Daqui não se consegue determinar a posição exata do hipertransmissor. O barulho que saía dos rádio-receptores do jato espacial não diminuía. As transmissões de interferência gemiam, apitavam, uivavam. Redhorse ficava se perguntando como Doutreval conseguia registrar os impulsos regulares vindos do ponto de destino. O SJ-4C aproximava-se dos três sóis vermelhos, desenvolvendo aproximadamente a velocidade da luz. Novos cálculos foram realizados. O computador chegou à conclusão de que a distância entre as estrelas era exatamente de 8.577 anos-luz. Surfat deu à misteriosa constelação o nome de sistema Tri. Os sóis foram designados com os nomes Tri I a Tri III: Os astronautas que se encontravam a bordo da nave-disco sabiam perfeitamente que o sistema não se poderia ter formado de maneira natural. Ao que tudo indicava, aquilo também era obra dos senhores da galáxia. — O senhor acredita que encontramos o transmissor que estávamos procurando? — perguntou Bradon, deprimido. Redhorse compreendia o sentimento de insegurança do jovem. A visão dos gigantes vermelhos, cujo tamanho aumentava cada vez mais nas telas, era perfeitamente capaz de abalar a crença na superioridade terrana. E Bradon era um jovem que ainda possuía essa crença idealista. — Vamos aguardar — respondeu Redhorse, esquivando-se à pergunta de Bradon. — Este é apenas um entre nove pontos assinalados. É possível que na área de operações dos outros jatos as coisas sejam ainda mais loucas. — Tenho minhas dúvidas — disse Gilliam. — Acho que encontramos o transmissor responsável pela reanimação dos mobys. Bradon virou o rosto para o sargento. Parecia espantado. — Recuperou a fala de repente? — perguntou em tom irônico. — Que pergunta estúpida — retrucou Gilliam. — E olhe que eu começava a simpatizar com o senhor. Bradon virou o rosto, furioso. — O que lhe dá tanta certeza? — perguntou Doutreval. — Mesmo para os senhores da galáxia uma constelação artificial formada por três sóis é uma obra notável. Nunca desperdiçariam a mesma num pseudotransmissor. Gilliam recostou-se na poltrona e fechou os olhos dando a entender que considerava encerrada a discussão. — É possível que Whip tenha razão — disse Surfat. — Se é assim, está na hora de reduzirmos a velocidade ou voltarmos. — Sente, Brazos — ordenou Redhorse. — E tente ao menos não comunicar seu medo aos outros. Por alguns minutos todos ficaram em silêncio no interior da sala de comando. Redhorse fazia com que os computadores realizassem constantemente novas interpretações dos dados. Doutreval ajudava-o. Já não havia a menor dúvida de que um dos nove transmissores tinha sido instalado no interior do sistema Tri. Redhorse pôs-se a

refletir sobre como fariam para encontrar o transmissor. Talvez o mesmo fosse um satélite artificial que circulasse em torno de um dos três sóis. Mas se fosse assim, a intensidade dos impulsos deveria diminuir a intervalos regulares, toda vez que o transmissor ficasse atrás do sol em relação à posição da nave-disco. E isso não acontecia. Ainda era possível que o transmissor permanecesse imóvel no espaço. Redhorse não acreditava que os sóis tivessem alguma ligação com os sinais transmitidos, mas não podia deixar de considerar essa possibilidade. O sistema Tri ficava a cerca de 3.800 anos-luz do lugar em que as naves terranas estavam estacionadas no espaço intergaláctico. Redhorse tinha certeza quase absoluta de que o SJ-4C era a nave-disco que tinha percorrido a maior distância. Dirigiu-se a Doutreval. — Tente entrar em contato com outro jato, Olivier. Doutreval franziu a testa. — Para isso teríamos de usar o hiper-rádio, capitão — disse. — O senhor não acha que é perigoso? — No momento não há perigo — Redhorse observou as telas. — Quero saber se a tripulação de outro jato descobriu alguma coisa que possa ser comparada aos três sóis que temos pela frente. Doutreval ligou o hipertransmissor. Não parecia muito à vontade. Dali a pouco os impulsos emitidos pelo SJ-4C percorreram o espaço em velocidade ultraluz. Redhorse esperava que apesar das interferências fosse possível entrar em contato com os outros jatos. Doutreval ficou trabalhando quase durante dez minutos antes de receber uma resposta. Foi o Capitão Kagato que respondeu ao chamado. Doutreval deu uma informação ligeira sobre o que tinha encontrado. Logo a voz de Kagato se fez ouvir. — Acredito que o SJ-4C tenha encontrado o transmissor — disse a voz desfigurada do oficial, saída dos receptores. — Só encontramos uma estrela solitária, cuja posição corresponde à da estação transmissora que esperamos encontrar. O sol possui uma hiperesfera artificial. Trata-se de uma espécie de refletor de grandes dimensões, que parece ter sido construído para refletir as ondas transmitidas por um transmissor que não conhecemos. Os impulsos são reforçados no interior da hiperesfera e espalhados por toda a área de Andro-Beta em forma de ondas. — Quer dizer que não encontrou nenhum indício da existência de um transmissor propriamente dito? — perguntou Doutreval. — Não — respondeu Kagato. Falou durante algum tempo, mas suas palavras não foram compreendidas. Só se ouviam alguns fragmentos desconexos. Os homens que se encontravam no interior do SJ-4C esperaram pacientemente. Finalmente voltaram a entender Kagato. — Falamos com as tripulações de mais três jatos — disse. — As mesmas também encontraram sóis hiperinstáveis. Parece que a equipe de Redhorse encontrou o sistema em que fica o transmissor. Vamos ... A voz do capitão perdeu-se em meio às interferências. — Vamos terminar antes que alguém tenha a atenção despertada para nós — decidiu Redhorse. Doutreval desligou. Parecia aliviado. — Quer dizer que estamos no local exato — constatou Surfat. — Um acaso infeliz nos fez vir ao ponto mais perigoso entre os nove que tinham sido escolhidos — passou a mão nervosamente pela calva. — Caro capitão, não se esqueça da nossa segurança.

Redhorse não lhe deu atenção. Ligou o piloto automático e levantou. Foi para perto de Doutreval. — Já conseguiu localizar o transmissor? Doutreval sacudiu a cabeça. — As interferências estão mais fortes, capitão. Temos de chegar mais perto do sistema. Redhorse pôs-se a refletir por um instante. Sabia que seria arriscado prosseguir na mesma direção. Mas se voltassem naquele momento, não saberiam muito mais que antes. Precisavam descobrir pelo menos a posição exata do transmissor. Redhorse não tinha dúvida de que os homens concordavam em prosseguir no vôo. Até mesmo Surfat, que costumava fazer-se de covarde. O perigo de serem descobertos era extremamente reduzido, já que as dimensões do SJ-4C eram muito reduzidas, mas se o inimigo tivesse a atenção despertada para eles, não teriam a menor possibilidade de defender-se contra um ataque. Redhorse olhou para Bradon, que se mantinha na expectativa, atrás da mira ótica do canhão energético. Era a arma mais perigosa do jato. Mas o canhão estava rigidamente montado, e se houvesse uma batalha, os efeitos alcançados pelo mesmo dependeriam da colaboração entre o artilheiro e o piloto. Sem dúvida Bradon era um excelente artilheiro, que possuía nervos de aço, mas ele e Redhorse não formavam uma equipe treinada. Por um instante a idéia de fazer o jato espacial voltar ao espaço linear atravessou a cabeça de Redhorse, mas nesse caso qualquer observação precisa se tornaria impossível. O capitão voltou à poltrona do piloto e tirou as interpretações mais recentes do setor de saída do computador. A primeira fita só confirmou aquilo que já tinham descoberto. Mas a segunda fez com que Redhorse prendesse a respiração por um instante. Voltou a olhar para as cifras apuradas pelo computador. Afinal, a probabilidade de as indicações positrônicas serem corretas era de 85 por cento. — O sistema Tri possui um planeta — disse Redhorse em tom indiferente.

4

Embora a distância ainda fosse grande, o planeta oferecia um quadro fora do comum. Circulava em tomo de Tri II, que era a estrela situada no centro da constelação. O único mundo situado no sistema Tri possuía uma atmosfera azul, que emitia uma fluorescência intensa. — Que planeta bonito — disse Surfat, bastante impressionado. — Até parece uma bola de vidro pendurada numa árvore de natal. Uma única vez em toda minha vida acidentada vi um mundo que parecesse mais bonito visto do espaço. Foi no setor de Vega. — Quem sabe o que existe embaixo dessa atmosfera brilhante? — observou Doutreval. — Acho que este mundo é um lobo em pele de cordeiro. Redhorse fez um esforço para não se deixar influenciar pelas palavras dos companheiros. Não tinha dúvida de que haviam descoberto a posição do transmissor, embora Doutreval não conseguisse verificar com seus aparelhos se os hiperimpulsos vinham do planeta que circulava em torno de Tri II. O colorido não era a única coisa que impressionava naquele mundo, que já aparecia nitidamente nas telas. A forma do planeta também era estranha. Quem o visse do espaço notaria perfeitamente que era completamente achatado e que seu corte era elíptico. — Já descobri um nome para nossa descoberta mais recente — disse Chard Bradon. — Vamos chamá-lo de Gleam. Isso combina com sua atmosfera. — Está bem — disse Redhorse. — Quando voltarmos, o senhor poderá impressionar o Major Bernard, dizendo-lhe que batizou seu primeiro planeta. As primeiras medições de precisão revelaram que o diâmetro de Gleam no eixo polar era de 10.480 quilômetros, enquanto no eixo equatorial chegava a 21.000 quilômetros. — A gravidade em Gleam deve ser bastante variável — disse Doutreval. — Não me lembro de já ter visto um planeta tão achatado. Gleam circulava em torno de Tri II na direção de pólo a pólo. Sempre ficava com a face equatorial voltada para o sol. Isso levou Redhorse à conclusão de que em Gleam o sol nascia no norte e se punha no sul. — Por que não paramos? — perguntou Surfat. — Afinal, já encontramos o planeta e conhecemos a localização do transmissor. Nossa tarefa está cumprida. Ou será que devemos esperar que alguém nos descubra? — Temos de chegar mais perto — decidiu Redhorse. — Ainda não temos certeza de que o hipertransmissor realmente se encontre em Gleam. Surfat teve suas dúvidas. — Acho que para termos certeza seremos obrigados a pousar em Gleam. Novas operações de telemetria foram realizadas. Logo se verificou que Gleam possuía uma atmosfera de oxigênio que podia perfeitamente ser comparada com a do planeta Terra. Conforme supusera Redhorse, a gravidade do mundo desconhecido estava sujeita a fortes oscilações. Em virtude da velocidade da rotação bem mais elevada na zona do equador, a gravidade na mesma chegava a quase 3 gravos, enquanto nas áreas polares, onde o movimento de rotação era bem mais lento, a gravidade não ultrapassava 0,98 gravo.

Gleam era um planeta notável. Não havia nada que indicasse que algum ser desconhecido tivesse notado a presença do SJ-4C. Não havia mobys nem espaçonaves dos twonosers no interior do sistema Tri. — Que planeta admirável — disse Doutreval em tom pensativo. — Provavelmente jamais um ser humano pisará na superfície do mesmo. Redhorse virou lentamente o rosto para o rádio-operador. — Olivier, o senhor sabe tão bem quanto eu que não devemos pousar. Doutreval abriu os braços, num gesto enfático. — Naturalmente, capitão, naturalmente. Só andei pensando no que um mundo como este tem a oferecer a um observador atento. — Por lá deve haver plantas encantadoras — disse Chard Bradon em tom sonhador. — E animais — acrescentou Doutreval. — Acho que se fizermos um pouso ligeiro não haverá perigo. Redhorse olhou fixamente para a grande tela na qual brilhava Gleam. Sentia uma coceira nas pontas dos dedos. O Capitão Don Redhorse, que era o último descendente de sangue puro dos cheienes de Powder River, sabia perfeitamente o que significava isso. Procurou combater o sentimento. — Gleam não parece nem um pouco perigoso — disse Gilliam com a voz calma. — Protesto! — gritou Surfat. — Não podemos saber o que nos espera em Gleam. — O capitão ainda não disse nada — lembrou Bradon. — Rhodan deu ordem para que voltássemos assim que tivéssemos descoberto o transmissor — observou Redhorse. Houve uma modificação no rosto de Doutreval. Sorriu, alegre. — Quer dizer que temos de continuar — constatou. — Teoricamente temos certeza

de que o transmissor que estamos procurando se encontra em Gleam, mas a experiência do passado tem revelado inúmeras vezes que a teoria pode falhar quando se trata de uma base dos senhores da galáxia — seu rosto assumiu uma expressão séria. — Temos a obrigação de certificar-nos de que nossas suposições são corretas. — Parece razoável — disse Bradon com um sorriso e apoiou os cotovelos no suporte do canhão energético. Olhava ansiosamente para Redhorse. O capitão preferiu não olhar para qualquer dos companheiros. Fitava ininterruptamente a tela. “Esta atmosfera fluorescente”, pensou, “a forma achatada, a

gravidade variável

...

que planeta!

A coceira nas pontas dos dedos ficou mais forte, espalhou-se pelos braços e passou ao couro cabeludo. — Se a situação se tornar perigosa, poderemos voltar imediatamente — disse Chard Bradon, dando a entender que já não havia dúvida de que prosseguiriam em direção a Gleam. Doutreval logo aceitou a sugestão. — Quando entrarmos na atmosfera, poderemos fazer outras observações. Ouviu-se uma pancada nos fundos da sala de comando. Foi Surfat acariciando o ventre volumoso. Até parecia que estava sentindo dores. — O bom e velho cabo Surfat — lamentou-se. — O que estará à sua espera em Gleam, quando sair todo garboso da eclusa do jato espacial? O Capitão Don Redhorse tomou sua decisão. — Vamos dar uma olhada de perto — comunicou aos tripulantes.

* * *

Naturalmente Chard Bradon só podia estar nervoso. Fazia votos de que os outros, especialmente Redhorse, não notassem que escorregava nervosamente em seu assento. O fogo azul da atmosfera de Gleam parecia emitir uma força hipnótica. Chard Bradon teve de fazer um grande esforço para não levantar de um salto e ir de uma tela para outra. Para ele não era nada simples arranjar-se no meio deste grupo de homens calmos e experimentados. Na opinião de Bradon, Surfat também era um astronauta que não se abalava por nada, embora procurasse despertar a impressão de que um talo de capim balançando pudesse deixá-lo apavorado. Bradon sentiu-se orgulhoso por ter sido escolhido por Redhorse. Imaginava que o mesmo tivera conhecimento de sua missão isolada, desempenhada no interior do moby, onde a tripulação da Crest II fora aprisionada pelos twonosers. Bradon sempre acreditara que quem sabia disso eram somente Rhodan e alguns mutantes, mas certamente a notícia de que Chard Bradon sozinho pusera fora de ação uma patrulha dos trombas-azuis, fazendo explodir com risco da própria vida a passagem de um pavilhão para outro e cortando o caminho dos twonosers, já se espalhara ... Isso não lhe rendera um elogio, conforme esperara. Rhodan lhe aplicara uma advertência. Fora uma advertência acompanhada de um piscar de olhos, conforme parecera a Bradon. Bradon passou as mãos pelo metal frio da mira ótica. Através dela conseguia distinguir um setor pequenino do planeta Gleam. Era apenas um fragmento, mas o mesmo mostrava a misteriosa luminosidade desse mundo. As mãos de Bradon estavam úmidas de tão nervoso que se sentia. Depois que Redhorse concordara em que chegassem ainda mais perto de Gleam, praticamente não havia dúvida de que pousariam no planeta. Talvez pudessem caçar algum monstro com o canhão energético. Bradon reconheceu que sua fantasia começava a descontrolar-se. Ficou preocupado ao lembrar-se do ovo guardado embaixo da mesa dos mapas. Olhava constantemente para o esconderijo que fora descoberto por Surfat. Fazia votos de que lhe fosse dado acompanhar a saída do pinto. Bradon perguntou-se que animal desconhecido teria sido este que colocou o ovo nas areias de Horror. Teve de confessar que aos poucos começava a duvidar do sucesso do trabalho cansativo de fazer chocar o ovo sob a ação de lâmpadas de mil watts. Mas não podia desistir. Mais de metade dos tripulantes da Crest estava informada sobre suas experiências e o contemplava com conselhos irônicos. Bradon estava decidido a não abandonar o ovo, mesmo que tivesse que carregá-lo consigo enquanto pertencesse à tripulação da Crest. — Não compreendo que ainda não tenha sido possível localizar o transmissor — disse a voz de Doutreval em meio aos pensamentos de Bradon. Bradon lançou um olhar para Redhorse. O capitão parecia muito tenso. Não tirava os olhos dos rastreadores. Parecia que esperava que o jato espacial fosse atacado de repente. Bradon inclinou o corpo para o lado, pois queria ver a grande tela. Já se haviam aproximado o suficiente de Gleam para reconhecer alguns contornos vagos na superfície. Parecia haver grandes cadeias de montanhas nesse mundo.

— Atualmente Gleam se encontra a uma distância de quinhentos e vinte milhões de quilômetros de seu sol — informou Redhorse. — Parece que o planeta descreve uma órbita precisa. Não deve haver mudanças de temperatura acentuadas. Na opinião de Bradon, as medições detalhadas, realizadas com os aparelhos de telemetria, foram muito demoradas. Mas Redhorse não parecia disposto a abandonar uma das providências prescritas para aproximar-se mais depressa do planeta. O capitão constatou que a temperatura média em Gleam era de 26 graus centígrados. O teor de oxigênio da atmosfera era de 26,17 por cento em volume, sendo cinco por cento superior ao do planeta Terra. Demorou quase uma hora até que Redhorse se desse por satisfeito com os resultados. Ainda se encontravam a um milhão de quilômetros de Gleam, mas já sabiam quase tudo sobre a atmosfera do planeta. Bradon notou que Redhorse ainda hesitava em descer no mundo desconhecido. Doutreval parecia perceber a mesma coisa, pois disse:

— Por enquanto não descobrimos nada que pudesse causar preocupações, capitão. Acho que podemos arriscar-nos a chegar um pouco mais perto. Finalmente a atração do desconhecido levou a melhor. Redhorse acelerou e fez o jato espacial seguir diretamente para Gleam. Ninguém disse uma palavra enquanto Gleam aumentava constantemente nas telas até encher completamente as mesmas. Até mesmo Surfat parecia tão impressionado que preferiu não fazer nenhum comentário. O brilho azul da atmosfera era cada vez mais intensa, mas apesar disso via-se perfeitamente a superfície do planeta. Bradon viu montanhas altas e pequenos mares, nos quais boiavam gigantescas ilhas formadas por vegetação. Em meio a tudo isso havia gigantescas planícies, que na opinião de Bradon deviam ser formadas por pradarias. Mas quando chegaram mais perto notou que se tratava de verdadeiros oceanos pantanosos. — O ambiente de Gleam parece ser bastante úmido — disse Redhorse em meio ao silêncio. — Se não estou muito enganado, existe terra firme em torno das montanhas, mas a mesma vai passando paulatinamente para as áreas pantanosas. A vegetação parece consistir principalmente em liquens e cogumelos. — Não há sinal de vida inteligente — constatou Doutreval. — Parece que em Gleam só existe vida aquática. Bradon lançou um olhar desconfiado para a superfície do planeta. Teve a impressão de que a opinião de Doutreval era um tanto precipitada. Afinal, não sabia o que se escondia nas gigantescas matas ou nas montanhas. Não se viam construções ou cidades ou outros sinais de vida civilizada. Se lá embaixo havia vida inteligente, a mesma sabia proteger-se muito bem contra a descoberta a partir do espaço. Redhorse reduziu a velocidade do jato. Ainda não tinham entrado na atmosfera. Distinguiam-se perfeitamente as diversas formas de paisagem. A maior parte da superfície era coberta por áreas pantanosas. Bradon viu que novas ilhas de vegetação se desprendiam constantemente na periferia dos pântanos para sair mar a fora. Dentro de mais alguns milênios os mares estariam cobertos por essas ilhas e acabariam por transformar-se em pântanos. Mas as matas de liquens e cogumelos também tentavam espalhar-se terra a dentro. Penetravam em qualquer vale nas montanhas que pudessem alcançar. Bradon acreditava que as matas deviam estar repletas de animais. Gleam oferecia condições ideais para as formas de vida que habitavam tanto a terra como a água. — Já descobriu a posição do transmissor? — perguntou Redhorse, dirigindo-se a Doutreval.

— Não, capitão — respondeu o rádio-operador . — Mal consigo captar os impulsos. As interferências voltaram a ficar mais fortes. Acho que a atmosfera de Gleam reflete as ondas de choque, tal qual acontece com os sóis dos quais as outras naves-disco se aproximaram. Viu-se perfeitamente a decepção que estas palavras provocaram em Redhorse. — Quer dizer que também não fomos bem-sucedidos? — perguntou. — Não é isso — garantiu Doutreval. — Este transmissor tem de estar em algum lugar. Seus construtores tiveram a precaução de dotar a atmosfera de Gleam com o mesmo campo de reflexão encontrado nas outras bases de ondas de choque. — Este transmissor deve ser muito importante para os senhores da galáxia — disse Bradon. — Representa a chave de sua arma mais potente no interior de Andro-Beta: os mobys — lembrou Surfat. — Por isso investiram alguma coisa no mesmo. — O que vamos fazer, senhor? — perguntou Doutreval. — Deste jeito não conseguiremos nada. Mesmo que demos algumas voltas em torno de Gleam, não encontraremos o transmissor. — Tenho certeza quase absoluta de que o transmissor foi instalado em Gleam — disse Redhorse. — Mas deve ter suas proteções. Se entrarmos na atmosfera, as coisas poderão tornar-se perigosas para nós. Com os propulsores do jato não poderemos escapar a um raio de tração ou de carga de grande potência. — Estamos atingindo nosso objetivo — disse a voz controlada de Gilliam. — Não podemos voltar daqui. Doutreval fez um gesto desesperado, apontando para o ruidoso hiper-rádio. — Ouça, capitão. No lugar em que estamos não podemos detectar nada. — Vamos arriscar um mergulho na atmosfera — decidiu Redhorse. — Se chegarmos à conclusão de que não há perigo, talvez possamos pousar na periferia de uma área pantanosa. — Prepare seu canhão, garotão — disse Surfat, dirigindo-se a Bradon. O SJ-4C mudou de rumo. Redhorse reduziu a velocidade do pequeno veículo espacial. Dali a instantes penetraram na atmosfera fluorescente. No mesmo instante terminou o barulho das bases de onda de choque transmitido pelos hiper-rastreadores. Doutreval empalideceu.

— Um campo defensivo

— principiou.

... Redhorse fez o jato espacial sair novamente para o espaço. Não aconteceu nada. Bradon viu Doutreval respirar aliviado. O estrondo dos aparelhos voltou a ser ouvido. — Não há nenhum campo defensivo — disse Redhorse, satisfeito. — Só atravessamos o campo de reflexão. Voltou a fazer o jato espacial mergulhar na atmosfera do planeta. As interferências no rádio cessaram no mesmo instante. — Agora não se ouve mais nada — resmungou Doutreval. Mexeu apressadamente em alguns controles. — Que pena, capitão! Não se ouve mais nada de nosso transmissor. — As hipertransmissões destinadas aos mobys não foram interrompidas — disse Redhorse. — O fenômeno tem alguma ligação com a atmosfera de Gleam. — Até parece que o transmissor não fica neste mundo — observou Bradon, decepcionado.

— Vamos aguardar — disse Redhorse. — Não era mesmo de esperar que nossos inimigos invisíveis fossem apresentar o transmissor de forma bem visível, em cima de um planalto. Surfat adiantou-se e lançou um olhar para os controles. Coçou a nuca. — Estamos perdendo altura, senhor — constatou. Bradon olhou pela mira ótica e examinou a paisagem desconhecida da qual se aproximavam. Teve uma sensação esquisita na região do estômago. Talvez fosse medo. — É claro que só podemos estar perdendo altura — resmungou Redhorse. Surfat parecia indignado. Aproximou-se de Doutreval e colocou a mão sobre o ombro do mesmo. — Prepare-se para transmitir um pedido de socorro — disse. — Parece que o Capitão Redhorse resolveu mesmo pousar no planeta. — É verdade — disse Redhorse. — Parece que ninguém tomou conhecimento de nossa presença. Por que não haveríamos de dar uma olhada por ali? No fundo sabemos tanto quanto antes. Doutreval não está captando mais os impulsos da base que transmite os choques. Bradon já via melhor as matas de cogumelos. Conseguia distinguir os detalhes. Em alguns lugares a água salobra soltava vapores. De vez em quando Bradon teve a impressão de ver animais entre a vegetação, mas os mesmos se movimentavam com tamanha rapidez que o astronauta não via suas formas. Redhorse levou o jato espacial para a periferia de um pequeno pântano. Nesse lugar o terreno já era ondulado. Bradon viu montanhas gigantescas bem ao longe. De repente o jovem terrano se deu conta de que a paisagem do planeta era muito estranha. Estranha e cheia de perigos. Bradon imaginava que o quadro pacato com que Gleam os recepcionava poderia mudar muito depressa. Névoas agitavam-se sobre os extensos pântanos. Bradon sentiu a ameaça do desconhecido, mas sacudiu o mal-estar que isso lhe causava. Não havia nada que indicasse que seriam atacados. Bradon dirigiu-se a Redhorse. — Peço-lhe que faça um pouso suave, capitão — disse. Redhorse fez sair as colunas de sustentação. Olhou para Bradon com uma expressão alegre. — Está preocupado, Chard? Bradon acenou com o rosto triste. — Estou pensando no ovo do planeta Horror, senhor — disse. — Poderia quebrar-

se.

5

O ar tépido do mundo desconhecido passou pela eclusa aberta e penetrou na sala de comando do jato espacial. Redhorse estava de pé na câmara da eclusa, olhando para a paisagem desconhecida que se estendia à sua frente. Já fizera sair os dois robôs de combate pertencentes ao equipamento da SJ-4C. Estavam postados de ambos os lados da eclusa, e seus sistemas de rastreamento positrônico de alta sensibilidade vasculhavam a área, à procura de eventuais atacantes. A tripulação estava reunida atrás de Redhorse. Os homens estavam com as pesadas carabinas energéticas nas mãos. Gleam era um mundo silencioso. Redhorse não ouvia nada, além do ruído quase imperceptível causado pelo vento que soprava na câmara da eclusa. O chão que se estendia do lado de fora estava coberto de uma camada de dez centímetros de musgo. Só nuns poucos lugares o solo tinha conservado seu aspecto original. As plantas que avançavam sobre o mesmo tinham capitulado diante de uns trechos muito rochosos. A rocha nua estava entremeada de veios de fosfato, que brilhavam à luz do sol. Entre a área pantanosa e os pés das montanhas estendia-se um bosque de cogumelos, que impedia Redhorse de ver a paisagem para um dos lados. No meio do musgo havia alguns animais pequenos, que se pareciam com lagartos. Corriam velozmente de um esconderijo para outro. O capitão não viu nenhum animal de grande porte. Brazos Surfat colocou-se a seu lado. O homem gordo gemia e enxugava o suor do

rosto. — Como estão as coisas, capitão? — perguntou. Segurava frouxamente a carabina. Ao que parecia, só desejava uma coisa: voltar quanto antes a uma área mais fresca. — É um quadro paradisíaco — disse Redhorse, apontando para fora da eclusa. — Os robôs parecem ser da mesma opinião. — Vamos lá fora — disse a voz de Doutreval, vinda dos fundos da câmara da eclusa. Redhorse não sabia por quê, mas estava hesitando. — Alguém terá de ficar no jato — decidiu. — Não quero que a nave-disco fique sem ser vigiada. — Sou o homem indicado para isso — afirmou Surfat e fez menção de retirar-se para o interior do jato. Redhorse segurou-o pelo braço. — Quem vai ficar é Doutreval — decidiu. — Terá de ficar de olho no rádio. Redhorse e seus três companheiros saíram do jato espacial. O chão em que pisaram era macio. O musgo permitia que caminhassem em silêncio. — Vamos seguir na direção das montanhas — disse o capitão. — Dali teremos uma visão melhor. — Não sou nenhum alpinista — protestou Surfat. — Uma escalada fará bem à sua elegância — disse Bradon. Avançaram depressa. Redhorse ficava constantemente de olho na floresta. De lá poderia vir um ataque de surpresa. As árvores-cogumelo possuíam troncos robustos de cor verde-escura. A forma dos grandes cogumelos era variável. As plantas que terminavam em cúpula na parte de cima eram as mais numerosas. Entre elas se viam exemplares de forma oval, cuja superfície era entrecortada e estava coberta de grandes

porções de musgo. A vegetação rasteira era formada por uma confusão de cogumelos menores e um sem-número de espécies de musgo. Redhorse tinha suas dúvidas de que um ser humano conseguisse abrir caminho nessa vegetação densa. Um besouro dourado com oito perninhas finas atravessou o musgo bem à frente dos pés de Redhorse. Arrastava uma figura esférica que tinha o aspecto de algodão. Era um inseto relativamente grande. Quando Redhorse se abaixou, colocou-se sobre as pernas traseiras e agitou furiosamente as tenazes. Depois aconteceu uma coisa estranha. A forma esférica desmanchou-se, formando um bando de pequeninos flocos brancos, que caíram sobre o besouro. Numa questão de segundos o inseto foi envolvido num casulo. Seus movimentos cessaram. Caiu no meio do musgo como se estivesse morto. — Que coisa estranha — disse Redhorse. Pegou o besouro envolto no casulo e levantou-o. O envoltório que protegia o animal era duro e inquebrável. Redhorse bateu cuidadosamente com o dedo no mesmo. — É uma excelente proteção — disse. Colocou o besouro no chão. Quando os homens saíram andando, o casulo se quebrou. A cabeça do inseto apareceu. Logo conseguiu libertar-se. A blindagem foi deixada para trás, mas enquanto o besouro caminhava, outra forma esférica surgiu atrás dele.

— Deve ser alguma secreção glandular — disse Redhorse. Surfat esfregou a nuca. — Se todos os seres de Gleam forem pequenos e passivos como este, eu me dou por satisfeito — disse. Gilliam deu uma risada. — Por que será que o besouro precisa desse tipo de proteção? Surfat olhou para os lados, assustado. Já se encontravam a cerca de quatro quilômetros do jato espacial. O disco brilhava à luz do sol. Não se via nenhum movimento nas proximidades do mesmo. Os dois robôs de combate permaneciam imóveis ao lado da eclusa. Os homens prosseguiram. Redhorse duvidava de que fossem encontrar alguma indicação que pudesse facilitar a busca do transmissor. Provavelmente nunca encontrariam o mesmo, a não ser que o acaso os colocasse na pista certa. Redhorse não acreditava que tivessem de enfrentar surpresas desagradáveis em Gleam. Parecia que os senhores da galáxia se tinham limitado a camuflar as instalações de tal maneira que ninguém conseguiria chegar lá. Talvez, pensava Redhorse, com o equipamento de uma grande nave seria possível realizar uma busca bem-sucedida. Mas diante dos perigos que rondavam pelo espaço de Andro-Beta, o resultado de uma operação desse tipo seria bastante duvidoso. Quando tinham percorrido quase dez quilômetros, Surfat sentou numa pedra. Respirava com dificuldade. Encostou sua arma à rocha. — Já estou criando bolhas nos pés — choramingou. — Quem dera que pelo menos tivéssemos trajes voadores. — Ninguém esperava que fôssemos descer num mundo estranho — disse Redhorse. — Podemos dar-nos por satisfeitos porque as armas portáteis pertencem ao equipamento do jato espacial. — Vai ficar sentado aqui? — perguntou Bradon. O cabo abriu os botões superiores da camisa suada. Lançou um olhar para o sol. — Tomara que o sol se ponha logo — disse.

— Quando isso acontecer, já estaremos novamente no jato — disse Redhorse. — Seria muito perigoso ficar fora no escuro. A nave-disco encontrava-se obliquamente atrás deles, mas continuava perfeitamente visível. Depois da área pantanosa vinha o mar aberto. As áreas escuras eram formadas pelas plantas que avançavam. Nos lugares em que ainda não cobriam a superfície da água, esta refletia a luz de Tri II. Era um quadro fantástico, que devia tornar-se ainda mais impressionante quando subissem nas montanhas. Redhorse já via a floresta de cogumelos. Mas sua esperança de descobrir uma coisa interessante atrás da mesma não se confirmou. Parecia que por lá também não havia nada além dos pântanos. Já se encontravam na região montanhosa, mas o tapete de musgos ainda vicejava a seus pés. Pareciam ser plantas muito resistentes, que viviam com um mínimo de substâncias básicas. De repente Surfat soltou um grito abafado, que fez com que Redhorse virasse abruptamente a cabeça. O cabo levantou de um salto e, apavorado, apontava para a pedra em que estivera sentado. Um ser estranho saiu rastejando de baixo da mesma. Parecia um galho cheio de nós, mas assim que abandonou sua caverna embaixo da rocha abriu-se que nem um guarda-chuva e saiu correndo sobre o musgo, desenvolvendo uma velocidade incrível. Parecia possuir inúmeros pés que mal tocavam o musgo. O animal percorreu uns trinta metros e parou de repente. Mais ou menos no centro do corpo brilhava um olho, que fitava os terranos com uma expressão zangada. Surfat voltou a sentar. Bradon pegou uma pedra e atirou-a no animal. Este apressou-se em recuar mais um pedaço. Durante a fuga mudava constantemente de direção, o que fez com que Redhorse se lembrasse de uma aranha aquática. — Um corredor do musgo — disse Gilliam, atribuindo um nome ao estranho animal. Surfat lançou um olhar desconfiado para a pequena saída da caverna que ficava embaixo da pedra. O aparecimento repentino do animal o deixara assustado. — Há alguma coisa se mexendo lá embaixo no vale! — gritou Bradon para Redhorse, que continuava de olho no corredor do musgo. O cheiene olhou na direção indicada. Havia um movimento no meio do pântano, uns quinhentos metros atrás do jato. Redhorse teve a impressão de ver uma área mais escura no meio da superfície verde. A mesma empurrava um tapete vegetal à sua frente. — O que será isso? — perguntou Surfat, nervoso. Redhorse ficou com os olhos semicerrados para enxergar melhor. — Talvez seja uma fonte de gás subterrânea que faz ferver o pântano — conjeturou Bradon. — Ou um animal — disse Surfat. — Seria um animal muito grande — disse Redhorse. Viram uma área maior do pântano agitar-se. A mancha escura deslocava-se sistematicamente na direção do mar aberto. — São plantas — concluiu Redhorse depois de algum tempo. — Plantas? — repetiu Bradon. — Como pode ter tanta certeza, senhor? — Já vi coisa parecida antes de pousarmos — respondeu Redhorse. — A coloração mais escura deste lugar é um sinal de que ali as plantas aquáticas são mais densas. Não têm possibilidade de expansão. Seu espaço vital torna-se cada vez mais restrito. Por isso procuram o único caminho que lhes resta, e este os leva mar a fora. Quer dizer que as

ilhas vegetais que observamos de dentro do jato não se desprenderam da periferia da área pantanosa, mas abriram caminho no meio dos pântanos. O que estamos vendo são matas rastejantes dos pântanos. — Gleam está ficando cada vez mais assustador — confessou Brazos Surfat. Sentado na pedra, lembrava a estátua de uma divindade asiática. — Acho que deveríamos voltar, senão Doutreval acaba se sentindo muito só. Redhorse apontou para uma rocha pontuda. — Vamos até lá — disse. — Desse lugar veremos todo o vale. Surfat levantou. Parecia contrariado. Até parecia que já tinha feito uma marcha de mil quilômetros. Em matéria de expedições a pé Surfat não era o tipo mais resistente. Redhorse mostrou um sorriso ligeiro. Quando voltassem à Crest II, Surfat teria muita coisa para contar. — Há uma pedra esquisita ao pé dessa rocha pontuda — disse Gilliam assim que chegaram ao destino. Redhorse sabia que podia confiar na capacidade de observação do sargento. Gilliam só possuía um único olho natural, mas sabia usar o mesmo. A pedra era um bloco quadrado, no qual fora perfurado um buraco redondo, bastante estranho. Via-se perfeitamente que a pedra fora trabalhada por seres desconhecidos, com ferramentas rudimentares. Parecia ter sido castigada pelas intempéries. Em todos os lados o musgo subia pela pedra. — Aí temos uma indicação — disse Surfat e destravou a arma. — Em Gleam existe vida inteligente. Redhorse passou as pontas dos dedos pela superfície áspera da rocha. Quem teria deixado esse bloco ali — e, o que era mais importante, por que fora deixado justamente nesse lugar? Redhorse sentiu uma ligeira coceira no couro cabeludo. A pedra lapidada parecia ser uma ameaça. Bradon ficou de joelhos e enfiou o cano da carabina na perfuração feita na pedra. Uma poeira cinzenta saiu da parte inferior do buraco. Redhorse acreditava que a perfuração fora feita para transportar a pedra. Bastaria enfiar um bastão comprido na mesma, para que alguns homens robustos conseguissem carregar o pedaço de rocha. Mas o capitão tinha suas dúvidas de que o bloco tivesse sido levado a esse lugar por seres humanos. Bradon começou a arrancar o musgo que cobria a face externa da pedra. Encontrou um sinal gravado na mesma. Tratava-se de um círculo com dois traços cruzados em seu interior, que se assemelhavam a um X. Bradon chamou a atenção de Redhorse para o mesmo. — Isto não nos adianta nada — disse o capitão. — Não sabemos há quanto tempo esta pedra já está aqui. Surfat e Gilliam vasculharam os arredores, mas não encontraram vestígios de uma civilização. Conforme Redhorse esperara, da rocha pontuda via-se todo o vale. Mas não se via nada que indicasse a existência de uma povoação ou a presença de formas de vida inteligente. Com isso a pedra tornava-se ainda mais misteriosa. — Acho que deveríamos voltar — disse Surfat, manifestando suas preocupações. — Doutreval ficou sozinho no jato. Redhorse pôs-se a refletir. Os seres que tinham trazido a pedra a esse lugar pareciam não ter ido ali há muito tempo. Mas essa pedra certamente tinha alguma

finalidade. Nenhum ser inteligente coloca um bloco de pedra trabalhado no meio de uma paisagem montanhosa sem ter um motivo para isso. — Talvez seja um monumento — disse Bradon. Redhorse andou em torno da pedra. Voltou a examinar a perfuração. De repente teve uma idéia. Enfiou o cano da arma no buraco e deu alguns passos para trás. A sombra da carabina caiu exatamente sobre o círculo gravado na pedra. Formava certo ângulo com o misterioso X. — É um relógio solar — disse Redhorse. — O pedaço de madeira que tinha sido enfiado neste buraco já apodreceu. — A teoria até que não é má — disse Gilliam. — Mas que motivo poderia ter alguém para colocar um relógio solar num lugar como este? — Esta rocha pontuda é um marco da paisagem — disse Redhorse. — Será que isto aqui não foi um ponto de encontro de seres desconhecidos? A sombra da carabina foi deslizando lentamente por cima do círculo. Redhorse voltou a tirar a arma do buraco e limpou-a. A idade da rocha o levava a duvidar de que ainda fossem encontrar os seres que a haviam colocado ali. — Nunca saberemos se a teoria do capitão é correta — disse Surfat. Redhorse olhou para o céu, que já se encontrava bem baixo sobre o mar. Estava na hora de voltar. Não descobririam mais nada, e seria perigoso deixar Doutreval sozinho por mais tempo. Redhorse deu ordem para que partissem. Gostaria de levar a pedra, mas a mesma era muito pesada. Quando estavam iniciando a descida, houve o primeiro ataque ao jato espacial. Veio de surpresa e foi desfechado com tamanha rapidez que por pouco não significou o fim da expedição.

* * *

Era a terceira vez que Doutreval estava voltando do rádio para a eclusa aberta. Não compreendia por que os hiper-rastreadores não davam nenhum sinal. Se o transmissor que ativara os mobys realmente se encontrasse em Gleam, seus impulsos não poderiam ser refletidos pela atmosfera, pois o mesmo ficaria no interior do campo de reflexão. Doutreval refletiu em vão para encontrar um meio de neutralizar as influências da atmosfera. Provavelmente nem mesmo o equipamento de uma nave maior seria capaz disso. Doutreval chegou à saída da eclusa e olhou para Gleam. Não via os outros quatro tripulantes. Os mesmos já tinham desaparecido lá em cima, entre as rochas. O silêncio tinha algo de deprimente. Doutreval lançou um olhar para os dois robôs de combate. Enquanto as duas máquinas não fizessem nenhum movimento, não havia perigo. Bem que Doutreval gostaria de sair da SJ-4C para inspecionar a área adjacente. Achava que não seria perigoso. Se realmente alguém o atacasse vindo da floresta, ainda teria tempo para retirar-se. E dos outros lados ninguém poderia aproximar-se sem ser notado. Doutreval não acreditava que seus ensaios goniométricos ainda seriam bem-sucedidos. Colocou a carabina sobre o ombro e saiu do jato espacial. Os robôs olharam-no indiferentes. Doutreval aspirou profundamente o ar tépido. O vento carregava um cheiro de mofo vindo dos pântanos. Doutreval olhou para as montanhas. Em sua maior parte a paisagem era vulcânica. Não parecia haver vulcões maiores nas imediações, mas Doutreval acreditara que o planeta Gleam ainda não encontrara sua posição de repouso.

As erupções mais fortes não deviam ser nenhuma raridade. Além disso poderia haver tremores de terra de grande intensidade. Doutreval arrancou alguns pedaços de musgo e rasgou-os entre os dedos. Um cheiro semelhante ao da hortelã-pimenta espalhou-se em tomo dele. Doutreval atirou os restos de musgo com a ponta do dedo. Ali, perto das montanhas, o chão ainda não era pantanoso. Mas Doutreval sabia que bastaria recuar algumas centenas de metros para atingir a área dos pântanos. Encontrou uma caverna de um dos animais semelhantes a lagartos. Parecia desabitada e estava quase completamente fechada pelo musgo. Doutreval enfiou a ponta do pé na mesma e soltou a terra. Alguns insetos pequenos que habitavam a caverna abandonada fugiram às pressas. Eram quase iguais às espécies terranas. Doutreval continuou andando, até encontrar a pele. Estava jogada no meio do musgo, um tanto apodrecida, mas ainda mostrava o tamanho assustador do ser que a usara. Doutreval abaixou-se e arrancou um pedaço. A pele estava coberta de escamas. Parecia que uma cobra gigantesca tinha trocado de pele. Doutreval olhou para os lados. Não viu nada. Respirou aliviado e continuou a examinar seu achado. A pele tinha secado ao sol. Já devia ter sido muito elástica. O desenho era estranho. As escamas eram triangulares e apresentavam uma coloração azul-escura. Doutreval mediu o comprimento da pele com os pés. Pelos seus cálculos o animal que tinha perdido a mesma devia ter pelo menos vinte metros de comprimento. O diâmetro devia chegar a cerca de cinqüenta centímetros. Doutreval ouviu um ruído borbulhante e virou-se abruptamente. Alguma coisa vinda da floresta aproximava-se em saltos enormes. Parecia uma tartaruga gigante. Doutreval não sabia muita coisa a respeito das tartarugas, mas sempre acreditara que estes seres só se locomoviam rastejando lentamente. O animal que se aproximava saltando fez com que mudasse rapidamente de opinião. Deu um passo para trás. Seus pés prenderam-se na pele que estivera examinando. Tropeçou e caiu no meio do musgo. A arma escapou-lhe das mãos. De repente o musgo espumou em tomo dele, segregando uma espuma grudenta que exalava um forte cheiro de hortelã. Doutreval ficou apavorado ao notar que só conseguia desprender-se lentamente da massa úmida. Voltou a ouvir o som borbulhante. Doutreval teve a impressão de que havia um tom de triunfo no mesmo. Virou a cabeça. A tartaruga empurrou-se do solo e parecia voar uns trinta metros por cima do chão. Doutreval gemeu. Estendeu a mão para pegar a carabina. Conseguiu segurar a coronha, mas não teve forças para puxar a arma. Estava coberta de espuma. O tapete de musgo parecia ter entrado em rebelião. Doutreval lutou desesperadamente contra a força que o prendia. Finalmente conseguiu libertar o tronco. O cheiro forte quase o fez perder os sentidos. Teve um pensamento ligeiro de que nunca mais tomaria chá de hortelã, se conseguisse sobreviver ao ataque. A tartaruga emitia um ruído semelhante ao de um apito de trem. Doutreval pegou a arma e virou a cabeça. O atacante estava bem em cima dele. O rádio-operador virou rapidamente a carabina. Por um instante sentiu-se ofuscado pelo sol. A tartaruga foi parar com um baque surdo dez metros atrás de Doutreval. Doutreval viu pelos cantos dos olhos os robôs de combate virem correndo. Mas não se atreviam a atirar, porque o rádio- operador se encontrava na linha de tiro. Era a primeira vez que Doutreval via nitidamente o inimigo. A única coisa que este ser tinha em comum com uma tartaruga era o casco. A cabeça era larga e maciça, e só

sobressaía alguns centímetros do casco. Doutreval notou que o animal possuía um enorme lábio inferior. Um par de olhos pequenos e rígidos brilhava no meio da pele escura do crânio. O ser já não saltava. Mas saiu rastejando em direção a Doutreval, de modo a não permitir dúvidas sobre suas verdadeiras intenções. O astronauta baixo levantou a carabina e atirou. O monstro soltou um berro quando seu casco se queimou num lugar. Depois saiu correndo loucamente na direção de Doutreval. O rádio-operador ficou de joelhos e fez pontaria para a cabeça, que era quase invisível. Neste instante a fera virou-se e saiu correndo em direção a um dos robôs. Doutreval atirou, mas errou. Os dois robôs também começaram a atirar, mas o atacante reconhecera o perigo e iniciara um salto que o levaria até o jato espacial. Doutreval saiu correndo atrás do animal. Apavorado, lembrou-se de que seu adversário talvez poderia destruir a eclusa. Enquanto corria começou a atirar, mas não conseguiu fazer pontaria e errou o alvo. Os robôs de combate pareciam confusos e levaram mais tempo que Doutreval para adaptar-se à nova situação. Além disso teriam dúvida em atirar, porque havia o perigo de atingirem o SJ-4C. Doutreval pôs-se a praguejar quando viu o gigante caminhar na direção da eclusa. Deixou-se cair no musgo e colocou a carabina à sua frente. As plantas começaram imediatamente a soltar a matéria grudenta, mas Doutreval não tinha tempo para preocupar-se com isso. Fez pontaria e puxou o gatilho. Desta vez teve mais sorte. O ser em forma de tartaruga foi atingido perto da cabeça. Trombeteou que nem um elefante furioso. Louco de dor, deu um salto de dez metros. Doutreval prendeu a respiração, pois receava que o corpo do animal, que pesava algumas toneladas, pudesse cair sobre a carlinga da nave, esmagando a mesma. Mas o estranho animal girou durante o salto e foi cair ruidosamente no musgo, perto de Doutreval. O rádio-operador correu fungando em direção à eclusa aberta. Os olhos pequenos do monstro avistaram Doutreval. O terrano viu seu perseguidor subir ao ar. Desta vez veio exatamente em sua direção. Apavorado, Doutreval perguntou-se como era possível que a fera pesada pudesse simplesmente subir ao ar. Ficou preso no musgo e caiu. A tartaruga, ou fosse lá o que fosse, foi parar alguns metros atrás dele e fez tremer o chão. Doutreval arregalou os olhos ao ver o animal gigantesco fazer avançar o lábio inferior à maneira de uma pá e vir em sua direção. O astronauta quis atirar, mas a arma falhou. Doutreval atirou-a para longe e saiu rastejando. Conforme receara, era muito lento para alcançar o jato antes que o animal o alcançasse. Um chiado furioso o fez parar. Quase no mesmo instante foi levantado pelo lábio inferior do monstro. Ficou deitado por um instante na depressão, à espera da morte. Mas o animal atirou-o alguns metros para o alto e voltou a pegá-lo. O mundo estranho girava em torno de Doutreval. O jato, o chão coberto de musgo, as montanhas, os robôs de combate, tudo se agitava, até que voltasse a parar com o grito sobre o lábio do animal. Tentou saltar para fora do mesmo, mas o inimigo virou a borda do lábio e o derrubou. De repente o lábio amoleceu. Doutreval caiu no musgo espumoso, que cheirava a hortelã. O gigante emitiu um ruído estranho e seus movimentos cessaram. Dali a pouco apareceram os robôs de combate. Aproximaram-se do cadáver do animal com as armas apontadas. Doutreval conseguiu colocar-se de pé. Seu corpo doía. Mas não parecia ter sofrido nenhuma fratura. Saiu à procura de sua carabina e caminhou cambaleante em direção à eclusa. Caiu ao chão, exausto, pouco antes de atingir a mesma. Os robôs de combate

tinham liquidado o atacante, mas Doutreval não se iludia. Os seres desta espécie não costumavam andar sós. Ergueu-se sobre os braços e viu os outros tripulantes descerem correndo pela colina. Redhorse e Gilliam corriam à frente dos outros. Doutreval suspirou aliviado. Felizmente no lugar em que se encontrava quase não havia nenhum musgo. A espuma produzida pelas plantas não era suficiente para envolver o rádio-operador. Redhorse alcançou o ferido. Ajudou Doutreval a pôr-se de pé. — Vejo que recebeu visita — disse em tom seco. Doutreval respirava pesadamente. Limpou o suor e a sujeira que cobriam seu rosto. — Se não fossem os robôs, eu não teria conseguido — gemeu. Gilliam também se aproximou e ajudou o capitão a levar Doutreval para dentro do jato espacial. Bradon chegou depois. Surfat só entrou na nave-disco quando Doutreval já estava deitado na maça, no interior do jato, sendo examinado por Redhorse. O cabo fungava enquanto empurrava seu corpo pesado para dentro da carlinga de comando. Logo compreendeu a situação. Pôs-se a farejar gostosamente o ar. — Ah! — fez. — Chá de hortelã! Doutreval, o senhor é um anjo. É a bebida de que precisa um homem que acaba de concluir a grande corrida de sua vida. Doutreval pôs-se a praguejar e perdeu os sentidos. Surfat olhou em torno, desolado. — O senhor sempre tem de enfiar a mão no pote de comida? — chiou Bradon. Surfat não disse uma palavra ao ver o assistente do Major Bernard enfiar-se embaixo da mesa dos mapas para ver o que era feito do ovo. Antes que Bradon concluísse sua inspeção, Surfat deixou-se cair numa cadeira. — O cadáver do animal pode atrair outros visitantes — disse Redhorse. — Entre na eclusa, Whip. O sargento magro desapareceu no interior da câmara da eclusa. Redhorse cuidou do rádio-operador, que continuava inconsciente. Dali a algum tempo recuperou os sentidos. Agarrou o braço de Redhorse. — O musgo — gaguejou. — Cuidado com o musgo, capitão. — Está bem — disse Redhorse em tom tranqüilizador. — Não se preocupe. O perigo já passou. Bradon saiu de baixo da mesa dos mapas, onde estivera agachado alguns minutos. Doutreval conseguiu esboçar um débil sorriso. — Como estão as coisas? — perguntou, dirigindo-se a Bradon. — Deve estar quase na hora — respondeu Chard Bradon. Neste instante Whip Gilliam entrou. Redhorse percebeu imediatamente que havia algo de errado. — Há alguém cantando lá fora — disse o sargento. — Cantando? — repetiu Redhorse. — O que é isso? — Vem do mato — confirmou Gilliam. — Parece alguém cantando. Redhorse e Surfat entreolharam-se rapidamente. Os dois pegaram as armas e acompanharam Gilliam para dentro da eclusa. Bradon também foi para lá. Doutreval mexia-se nervosamente na sua maça. Finalmente conseguiu levantar, fazendo um grande esforço, e teve de lutar contra a tontura que ameaçava tomar conta dele. Conseguiu pôr-se de pé e dar alguns passos. Logo se sentiu melhor. Também pegou uma arma e saiu da carlinga. A tripulação do SJ-4C estava reunida na câmara da eclusa, observando a floresta. Um som agudo e queixoso saía de entre os cogumelos. Doutreval estremeceu. — Que música esquisita — observou Surfat em tom seco.

— Já ouvi coisa parecida no sistema de Requel — observou Bradon. — Durante um enterro. — O senhor sempre costuma fazer observações que combinam tão bem com a situação? — perguntou Surfat, indignado. — Silêncio! — disse Redhorse. O canto tomou-se mais forte. Parecia o vento passando por um espaço oco. — Os robôs! — gritou Doutreval. Sua voz quase foi abafada pelos uivos vindos da floresta.

6

Os dois robôs de combate saíram cambaleantes de trás do cadáver do monstro. Ao menos Redhorse no início teve a impressão de que cambaleavam. Mas logo percebeu que suas juntas metálicas se movimentavam acompanhando a melodia triste vinda da floresta. — Parece que estão dançando — disse Bradon, surpreso. Os robôs balançavam o tronco. Os movimentos eram uniformes. Até parecia que tinham sido cuidadosamente ensaiados. — Parece que há algo de errado com seus controles positrônicos — disse a voz potente de Surfat, superando o canto. — Capitão, acho que devemos sair quanto antes deste mundo louco. Redhorse não disse uma palavra. Pôs-se a observar as máquinas de guerra. O comportamento dos robôs, que geralmente mereciam tanta confiança, era mais que estranho. Redhorse perguntou-se se o canto tinha alguma coisa a ver com isso. Os robôs ficaram dançando em tomo do cadáver da tartaruga gigante. Quando voltaram a aparecer do outro lado, dispararam suas armas. Os raios energéticos subiram chiando ao céu, onde foram se formando nuvens. — Enlouqueceram de vez — gemeu Surfat. Redhorse cerrou os lábios. Precisavam fazer alguma coisa para trazer os robôs de volta ao jato espacial e desligá-los, antes que pudessem fazer alguma desgraça. — Alguém tem de sair e falar com eles — disse Redhorse. — Deixe que eu vá, senhor — pediu Bradon imediatamente. — Irei com o senhor — decidiu Redhorse e saltou da eclusa. A voz dos cantores invisíveis tornou-se ainda mais forte enquanto os dois terranos se aproximavam cautelosamente dos robôs de combate. — Olá, seus malucos! — gritou Bradon para as máquinas automáticas, acenando amistosamente com sua carabina. — Não faça bobagens, Chard — disse Redhorse, indignado. — Vou falar com eles. Pensativo, ficou se perguntando se valeria a pena tentar dar ordens aos robôs. Encontravam-se a somente dez metros dos mesmos. As máquinas de guerra saltavam despreocupadamente pelo musgo e disparavam suas armas. Felizmente as mesmas eram apontadas para longe. — Parem de atirar! — disse Redhorse em tom enérgico. Os robôs pararam abruptamente. Redhorse ouviu Bradon respirar aliviado. Mas de repente viu as máquinas desalmadas baixarem as armas e apontarem as mesmas em sua direção. — Senhor! — disse Bradon com a garganta ressequida. — O que vamos fazer? — Vamos recuar bem devagar — decidiu Redhorse. — Se eles atirarem, teremos que defender-nos. Ouviram Gilliam e Surfat soltar gritos de alerta. Os robôs seguiram os dois astronautas a passos saltitantes. — Talvez consigamos atraí-los para dentro da eclusa — disse Redhorse. — Vamos tentar, senhor — disse Bradon. — Acho que por enquanto são bastante pacatos.

Os uivos vindos da floresta de cogumelos voltaram a ficar mais fortes. Um dos robôs disparou um tiro energético por cima da cabeça dos astronautas. Bradon levantou a

carabina, mas Redhorse deu ordem para que não atirasse. Mais uma vez um robô voltou a disparar. Desta vez o musgo pegou fogo à frente dos pés de Redhorse. Os dois homens já estavam bem perto da eclusa. As máquinas atravessaram o musgo em chamas. De vez em quando paravam, giravam em torno do próprio eixo e prosseguiam em sua caminhada. Este comportamento só podia ter origem num defeito em seus controles positrônicos. Mas ninguém sabia por que motivo os dois robôs sofriam esse defeito ao mesmo tempo. Gilliam e Surfat ajudaram os dois homens a entrar na eclusa. Redhorse respirou aliviado. — Vamos fechar bem depressa a eclusa e decolar! — gritou Surfat. — Espere aí! — Redhorse levantou o braço. — Vamos atraí-los para dentro da eclusa. No mesmo instante arrependeu-se da decisão que acabara de tomar. Os robôs dirigiam seu fogo contra o jato espacial. Redhorse ficou apavorado ao ver o suporte da parede externa da eclusa tornar-se incandescente e derreter-se numa cascata de fagulhas. — Responder ao fogo! — gritou. A câmara da eclusa encheu-se rapidamente de fumaça, impedindo a visão dos homens. Os mesmos dispararam para o lado de fora sem fazer pontaria. Quando a fumaça desapareceu, viram os robôs correndo em direção à floresta. — Estão indo embora — disse Redhorse, amargurado. — Não podemos decolar antes de consertar a eclusa. Ficamos sem nossos robôs. Se houver um ataque, nossa situação não será muito boa. Saltou da eclusa tossindo e com os olhos lacrimejantes. Levantou os olhos e viu os robôs desaparecerem entre os cogumelos gigantes. De repente a voz de Bradon se fez ouvir. — Tomara que os tiros não tenham danificado o ovo de Horror — disse, deprimido, e retirou-se para dentro da carlinga de comando. Surfat pôs-se a praguejar violentamente. — Que planeta miserável! — disse. — Deixamo-nos atrair por sua beleza. Está mais que provado: a gente só pode confiar na feiúra. Provavelmente estava aludindo a si mesmo. Redhorse preferiu não envolver-se numa conversa. Gilliam e Doutreval já tinham examinado as avarias. — Como está? — perguntou Redhorse. Gilliam sentou na borda da eclusa, com as pernas magras penduradas para o lado de fora. Afastou o cabelo louro-claro que lhe caíra na testa. — Teremos de retirar o suporte a talhadeira e colocar outro — disse. — Sem isso não poderemos fechar a eclusa. — Quanto tempo demorará o trabalho? — Só podem trabalhar dois homens de cada vez, senhor — disse Doutreval. — Se Surfat quiser ajudar, até terá que trabalhar sozinho, porque não haverá lugar para dois.

— Se o senhor começar com essas insinuações

— principiou Surfat.

... — Deixe para lá — interrompeu Redhorse. — Gilliam e Doutreval farão o começo. Enquanto isso um de nós terá que perseguir os robôs. Não podemos deixá-los aqui. Seria a melhor prova de nossa presença neste mundo. Bradon voltou da carlinga. Parecia aliviado. — Então? — perguntou Surfat em tom bonachão. — Como vai o ovo?

Antes que Bradon pudesse dar uma resposta, Redhorse disse:

— O senhor tem de perseguir os robôs, Chard. Bradon olhou para a floresta. Não se ouvia mais o canto. Não havia nada que indicasse que havia alguma coisa escondida entre os grandes cogumelos. — Gilliam e Doutreval têm de iniciar os consertos. Darei uma olhada por aí — decidiu Redhorse. — E eu? — perguntou Brazos Surfat. — O que vou fazer? — O senhor acompanhará Bradon — disse Redhorse. Surfat assobiou entre os dentes. Apontou para a floresta. — Quer dizer que terei de ir para lá? — perguntou. — Vou entrar nesta selva? — Os robôs andam devagar. Andem depressa. Se houver algum perigo, sinalizem por meio de tiros. Gilliam e Doutreval levaram algumas ferramentas para a saída da eclusa e puseram- se a trabalhar. Bradon e Surfat saíram andando em direção à floresta. Redhorse seguiu-os com os olhos por um instante e dirigiu-se ao cadáver do monstro que quase matara Doutreval. Queria examiná-lo cuidadosamente. No momento não parecia haver nenhum perigo. O cantor da floresta não parecia sentir-se bastante forte para lançar um ataque aberto contra o jato espacial e sua tripulação. Isso fez com que Redhorse se sentisse mais confiante. Alguma coisa estava acontecendo em Gleam. Redhorse perguntou-se qual seria a ligação entre o antiqüíssimo relógio solar, a tartaruga gigante e o canto que soara no mato. Não havia resposta a esta pergunta. Enquanto tinham corrido em auxílio de Doutreval, Redhorse vira o animal que jazia morto à sua frente dar saltos completamente desproporcionais em relação ao seu peso e tamanho. Redhorse acreditava que o fenômeno tivesse alguma ligação com as estranhas condições gravitacionais reinantes no planeta. Provavelmente esta espécie também vivia nas proximidades do equador, onde a gravidade era três vezes maior. Há algum tempo alguns exemplares tinham emigrado para ai zona polar e descobriram que lá podiam movimentar-se muito mais rapidamente. Era até possível que a criatura possuísse órgãos reguláveis, que se adaptavam às condições gravitacionais de cada momento. Dali poderiam resultar aspectos fora do comum. Redhorse chegou perto da cabeça do ser e examinou a boca larga com o lábio inferior avançado, que tinha quase dois metros de diâmetro. Chegou à conclusão de que se tratava de um carnívoro puro, que normalmente não teria atacado Doutreval. Alguma coisa deixara o animal irritado. Redhorse caminhou em torno do cadáver do gigante. Ouviu o barulho causado pelo trabalho de Gilliam e Doutreval. Olhou para a floresta. Surfat e Bradon estavam atingindo os primeiros cogumelos gigantes e passaram cuidadosamente perto dos mesmos. Depois do incidente, Gleam voltou a mostrar-se do lado mais favorável. Mas Redhorse imaginava que aquilo só seria uma pausa ligeira. Amaldiçoou-se por ter agido

tão precipitadamente, cedendo à insistência dos companheiros que queriam pousar no planeta. Não poderia deixar de confessar que tivera muito prazer em fazer isso, mas se a tripulação fosse mais disciplinada, as coisas não teriam chegado a este ponto. “Nunca se pode ter duas coisas ao mesmo tempo”, pensou, deprimido. “Pode-se sair com um grupo de astronautas bem comportados; nesse caso a gente tem de contentar-se com suas brincadeiras sem graça e sua imaginação subdesenvolvida. Ou

então a gente se cerca de tudo quanto é patife encontrado numa nave e espera que surjam os problemas.” “Por Maheo”, pensou Redhorse, zangado, “eu voltaria a escolher exatamente os mesmos homens, se fosse colocado diante da opção neste momento”. Devia ser a mentalidade de índio que o fazia agir assim. A mentalidade dos índios que tinham conseguido sair de suas reservas depois da guerra civil dos Estados Unidos, enganando uma força de cavalaria infinitamente superior. Redhorse gostava de lembrar-se do passado de seu povo. Não tinha qualquer ressentimento para com a raça branca. Eram todos irmãos. Principalmente aqueles que o acompanhavam.

* * *

Para Surfat aquela aglomeração enorme de cogumelos era a floresta mais temível que já tinha visto. — O inimigo pode estar escondido atrás de qualquer uma dessas árvores — disse, dirigindo-se a Bradon. — Tenho lá minhas dúvidas — respondeu Bradon. — Mas tenho certeza de que logo alguém terá a atenção despertada para nós, se o senhor continuar a passar entre estas árvores que nem um elefante. Surfat parou e enxugou o suor da testa. — O senhor deveria dar-se por satisfeito porque estou contigo, garotão — disse. — Não fique me chamando de garotão — pediu Bradon. — Vamos andando, senão nunca encontraremos os robôs. Surfat examinou o próprio corpo para ver se tinha alguma semelhança com um elefante e voltou a movimentar-se. “Esse Bradon até que não é um sujeito mau, mas deveria demonstrar um pouco mais de respeito para com um cabo mais idoso.” Surfat fitou com os olhos ardentes a trilha perfeitamente visível que os dois robôs haviam deixado na vegetação rasteira. Folhas arrancadas, trepadeiras rasgadas e caules de cogumelos quebrados apontavam o caminho para os astronautas. Bradon ia na frente. Ficava com a arma apontada para a frente e usava a mesma para abrir caminho. Apesar disso Brazos Surfat tinha dificuldade em acompanhá-lo. Constantemente ficava preso em algum lugar e rasgava o uniforme. Surfat seria incapaz de dizer quanto tempo já tinham andado quando Bradon parou de repente. O aspirante de oficial colocou o dedo nos lábios e apontou para alguma coisa que ficava mais na frente, e que Surfat não via. Surfat esticou o pescoço, mas nem por isso conseguiu enxergar melhor. Encostou a cabeça ao ouvido de Bradon e cochichou:

— O que descobriu? — Uma clareira — resmungou Bradon. — Há alguém por lá? — Surfat lutava desesperadamente contra a vontade de espirrar. Desde que Doutreval tinha deitado no musgo, tudo cheirava a hortelã. — Não vejo toda a clareira — informou Bradon. — Temos que avançar cuidadosamente. — Um momento! — implorou Surfat. — Tenho que espirrar. Bradon virou-se abruptamente. — Não me venha com brincadeiras — disse em tom de repreensão. — Não estou brincando — disse Surfat, indignado. Espirrou três vezes em seguida. Pareciam tiros de pistolas e deviam ser ouvidos num raio de cinco quilômetros.

— Ah! — fez Surfat. — Já estou melhor. — Podemos sair para a clareira — disse Bradon. Surfat não era homem dado a sentimentos de culpa e naquele momento o alívio físico que sentia era mais forte que o medo. Seguiu o homem mais jovem para a clareira, com a arma em punho. O chão era macio. Em toda parte viam-se as marcas dos pés dos robôs. — Andaram dançando — disse Bradon. — Ou pelo menos ficaram saltando algum tempo por aí. Com isso sua dianteira diminui. Surfat olhou para os lados, desconfiado. — Não venha me dizer que quer continuar a perseguição — disse, confuso. — É claro que quero — disse Bradon. — Temos ordem para levar os robôs de volta.

Surfat deu uma risadinha. — O senhor é corajoso, garotão — disse em tom de elogio. Bradon não lhe deu atenção. Ficou de joelhos e examinou as marcas dos pés. Finalmente disse:

— Estou preocupado, cabo. — Preocupado? Por quê? — Surfat esperava que Bradon fosse confessar o medo que sentia do ambiente estranho, mas o assistente do Major Bernard parecia estar pensando em outras coisas. — Vivo pensando no ovo — disse. — No ovo — repetiu Surfat em tom calmo. — Bem, todo mundo precisa de uma coisa em que possa pensar de vez em quando. — E possível que o pinto saia quando eu não estiver por perto — disse Bradon, que nem parecia ter ouvido o que Surfat acabara de dizer. — Isso pode acontecer — reconheceu Surfat, embora nem de longe acreditasse num fenômeno desses. Mas queria animar o menino. — Se o senhor ficar preocupado, não poderá fazer nada, nem pelo ovo, nem por si mesmo — disse em tom filosófico. — Quando chegar a hora, a casca do ovo será rompida de qualquer maneira. — Talvez — disse Bradon em tom de dúvida. Acompanhou as marcas dos pés por alguns metros e apontou para o outro lado da clareira. — Parece que voltaram a entrar no mato desse lado — disse. — Vamos apressar-nos — insistiu Surfat. — Daqui a pouco vai escurecer. Mas antes que saíssem da clareira, alguém pisou na mesma.

* * *

Whip Gilliam passou habilmente o maçarico pelo suporte destruído. A chama penetrava no metal, fazendo pingar os restos derretidos. O gás carbônico formava bolhas grossas na linha divisória. Finalmente Doutreval conseguiu arrancar a peça inutilizada com as luvas protetoras. — Onde aprendeu isso, sargento? — perguntou Doutreval. — Não faço idéia — respondeu Gilliam. — Já fiz tantas coisas diferentes que nem sei onde foi. Doutreval atirou a peça de metal imprestável para fora da eclusa. Ficou de joelhos e afastou a reborda. — O senhor não gosta de falar no seu passado, não é mesmo? — perguntou, dirigindo-se a Gilliam.

— Não — respondeu o sargento em tom áspero. — E não gosto que alguém me faça perguntas sobre isso. Doutreval guardou cuidadosamente a ferramenta no chão e ergueu o corpo. — Talvez o senhor possa usar este tom com Bradon — disse com a voz calma. — Mas comigo deve ter mais cuidado. — Vamos brigar ou terminar o serviço? — resmungou Gilliam. A súbita retirada do sargento deixou Doutreval confuso. Sem dizer uma palavra, Gilliam começou a perfurar a parte j posterior do suporte, para poderem prender a peça sobressalente. Estava com os músculos tensos, e o matraquear da furadeira sacudia seu corpo. Gilliam era um homem magro, mas forte e musculoso. Doutreval viu o líquido refrigerador correr por cima da broca, entrando no buraco que ia sei formando e pingando no musgo. De repente Doutreval sentiu simpatia por este homem alto e calado, que raramente participava das conversas que costumavam ser travadas nos alojamentos de tripulantes da Crest. — Este planeta é capaz de deixar um homem doido — disse, dirigindo-se a Gilliam. O rosto do sargento abriu-se num sorriso largo. — É mesmo — disse, sem reduzir a pressão exercida contra a furadeira. — É mesmo — repetiu. — Bem que eu gostaria que já estivéssemos longe daqui. A furadeira atravessou o metal e a máquina uivou. Gilliam desligou-a e examinou a perfuração com olho de entendido. Doutreval entregou-lhe a peça sobressalente. — Droga! — disse Gilliam, preocupado. — Não consigo colocar a peça. O calor foi tão forte que a parte traseira do suporte encolheu. — O que vamos fazer? — perguntou Doutreval, perplexo. — Vamos retirar o que resta do suporte, ou então temos que tentar fazer uma adaptação da peça sobressalente. — Qual dos dois será mais demorado? Gilliam deu de ombros. — É difícil dizer. Acho que é preferível removemos todo o suporte. Dessa forma o trabalho se tomará mais fácil. — Isso ainda pode demorar algumas horas — disse Doutreval. Gilliam apontou para o sol, que já ia bem baixo. — Sem dúvida por aqui nunca escurece de vez — opinou. — Mas a luz não será suficiente para trabalharmos de noite. — Podemos usar a iluminação da eclusa — sugeriu o rádio-operador . — Redhorse não vai gostar. No escuro uma eclusa iluminada pode ser vista a grande distância. Doutreval chegou à conclusão de que no dia seguinte ainda estariam em Gleam. Deixou Gilliam só por um instante e dirigiu-se à carlinga de comando. Os hiper- rastreadores estavam ligados, mas tudo permanecia em silêncio. Doutreval girou os botões, mas não captou nada. Voltou a sair. — Não estamos recebendo nenhuma transmissão — disse, dirigindo-se a Gilliam. — Ninguém acreditaria que fora da atmosfera de Gleam as bruxas estão soltas. Gilliam não tirava os olhos do trabalho. Doutreval admirava a habilidade do sargento. Não era fácil retirar o suporte que pesava cerca de cinqüenta quilos. — Precisamos de alguma coisa em que apoiar o suporte — disse Gilliam, falando entre os dentes. — Não quero que caia sobre nossos pés.

Doutreval não tinha alternativa senão deixar que o sargento comandasse os trabalhos. Lançou um olhar para a floresta. Perguntou-se se a decisão de Redhorse, que dera ordem para que dois homens perseguissem os robôs, fora acertada. Dali em diante ficou pensando em Redhorse. O capitão também fora a um lugar em que não o viam. Doutreval não acreditava que alguma coisa lhe acontecesse, mas preferiria que a tripulação ficasse reunida junto ao SJ-4C. Gilliam pediu ferramentas, obrigando Doutreval a abandonar seus pensamentos pessimistas.

* * *

O Capitão Don Redhorse abandonara o cadáver do beiço entornado e saíra em direção à área pantanosa. Resolvera batizar o monstro com o nome de beiço entornado, embora também pudesse tê-lo chamado de gravodançarino. À medida que se aproximava do pântano, o chão se tornava mais macio. Redhorse teve o cuidado de não se aproximar demais dos lugares pantanosos. Onde quer que colocasse os pés, surgiam pequenas poças de água. Os musgos eram muito mais vigorosos que nos outros lugares. Redhorse via poucos insetos. Os besouros que tinham descoberto antes pareciam preferir as áreas mais secas. Redhorse não sabia o que o levava a ir ao pântano. Devia ser a curiosidade. Ouviu alguma coisa batendo na água. Viu um esguicho de água e tudo voltou a ficar em silêncio. Pegou a carabina energética que trazia a tiracolo e segurou a arma. Não queria ficar exposto a surpresas desagradáveis. No fundo o equipamento que possuíam era bastante deficiente para descerem num mundo desconhecido. A única coisa que poderiam usar para defender-se eram as carabinas. Os robôs tinham fugido e provavelmente estariam inutilizados, caso Surfat e Bradon conseguissem trazê-los de volta. O chão era cada vez mais pantanoso, mas Redhorse conseguia caminhar perfeitamente sobre os cogumelos e tufos de musgo. Às vezes afundava até os tornozelos. Caminhava numa península que avançava pântano a dentro. De ambos os lados do solo relativamente firme estendia-se a área pantanosa. De vez em quando via-se uma poça de água.

Redhorse parou e olhou para trás. Sua voz não poderia alcançar o jato espacial, mas se necessário poderia disparar um tiro para chamar a atenção de Doutreval e Gilliam. Mais uma vez ouviu alguma coisa batendo na água. Desta vez o ruído foi mais forte. Parecia ser um animal maior. Redhorse destravou a arma e olhou para os lados. A uns trinta metros do lugar em que se encontrava um gravodançarino acabara de emergir do pântano. Era maior que aquele que havia atacado Doutreval. A água suja pingava da blindagem que trazia nas costas. Redhorse prendeu a respiração. O animal não o tinha visto, ou então não o julgava perigoso, pois não lhe dava atenção. Atravessava o pântano que nem um tanque de guerra. Redhorse o viu fazer avançar o lábio inferior, que tinha cerca de um metro de largura, para absorver quantidades enormes de musgos e cogumelos. Era exatamente como Redhorse acreditara. Estes animais eram vegetarianos e não representavam nenhum perigo, desde que não fossem irritados. O beiço entornado percorreu cerca de cinqüenta metros, criando uma espécie de canal. As plantas não demoraram a cobrir o mesmo. O animal ficou sentado algum tempo no pântano e deu um salto enorme em direção ao mar. Dali a pouco Redhorse o viu desaparecer nas águas. O capitão respirou aliviado.

Resolveu retirar-se para a terra firme. A qualquer momento um animal de grande porte poderia aparecer perto dele. Se isso acontecesse, seria duvidoso que pudesse dar um tiro antes que fosse tarde. Virou-se e saiu caminhando de volta. De repente a cobertura vegetal estremeceu entre a terra firme e o lugar em que se encontrava. Redhorse assustou-se. Até parecia que uma onda acabara de movimentar esta parte do pântano. Mas uma onda como esta não existia. Alguma coisa abalara a superfície do pântano numa extensão de pelo menos sessenta metros. Redhorse olhava atentamente para as plantas que se amontoavam a seus pés. Será que ele se enganara? Prosseguiu cautelosamente. O ranger das botas na lama parecia insuportável. De repente um corpo saiu do pântano. Ou melhor, parte de um corpo. Redhorse viu uma figura com aspecto de cobra, que sobressaía quase dez metros da água. Pelos cálculos de Redhorse, a mesma devia ter um metro de diâmetro. Parou estarrecido e aguardou os acontecimentos. Já sabia qual era a causa daquilo que acreditara ser uma onda. Fazia votos de que o resto do corpo do monstro dos pântanos permanecesse embaixo da água. No momento o caminho de volta para o jato espacial estava fechado para o cheiene. A parte visível do corpo da serpente voltou com uma violência incrível para dentro da água. Uma chuva de água e lama desabou sobre Redhorse. Este sentiu uma vibração fraca do chão. Dali a pouco tudo voltou a ficar em silêncio. A agitação da cobertura vegetal era o único sinal da presença do monstro. Redhorse empertigou-se. No lugar em que se encontrava sua vida estava em perigo. Saiu correndo, para chegar ao jato espacial o mais depressa possível. Quando sentiu novamente chão firme sob os pés, passou a correr mais devagar. O sol acabara de desaparecer quando chegou ao jato. Gilliam e Doutreval tinham desmontado totalmente o suporte da parede externa da eclusa e trabalhavam no mesmo. Doutreval levantou os olhos quando viu Redhorse chegar. — Tomou um chuveiro, capitão? — perguntou em tom amável. Redhorse examinou seu corpo. Seu uniforme precisava de uma limpeza, já que o monstro desconhecido lhe dera um banho de lama. — Parece que há uma cobra gigante no pântano — disse fora de si. — Felizmente parece que ela nunca vai à terra firme. — Sinto decepcioná-lo, capitão — disse Doutreval, apontando para o lugar em que encontrara a pele seca. — Dê uma olhada. Don Redhorse levou um pedaço da pele com aspecto de couro para dentro do jato. — Tomara que alguém não resolva fazer-nos uma visita hoje de noite — disse. Gilliam bateu com o martelo no ritmo de uma melodia desconhecida em cima do suporte da eclusa. — Não seria nada agradável — disse. — Com a eclusa aberta.

7

Parecia um quati, embora o focinho não fosse tão pontudo e as pernas tão curtas. Quando viu os dois homens, sentou sobre as pernas traseiras e soltou um grito de alerta. — O que é isso? — perguntou Bradon, perplexo. Surfat apontou a arma para o animal. — Não sei se vale a pena perdermos tempo discutindo sobre isso. O quati, ou fosse lá o que fosse, tinha orelhas enormes, pêlo marrom-escuro e um pequeno toco de cauda, que tremia de nervosismo. Os seres nascidos em duas galáxias diferentes entreolharam-se por algum tempo: de um lado da clareira dois terranos, do outro lado um estranho animal, sobre cujas características os astronautas não sabiam absolutamente nada. Finalmente o quati parecia ter chegado a uma decisão. Deixou-se cair sobre as patas dianteiras e saiu caminhando em direção aos dois homens. — Vai nos atacar! — gritou Surfat.

Bradon lançou-lhe um olhar de compaixão. O animal seguia exatamente na direção de Surfat, que recuava constantemente. O cabo apontou o cano da carabina para ele. O ser de Gleam farejou o mesmo, soltou um miado alegre e continuou a avançar na direção de Surfat. — Temos de encontrar um meio de detê-lo — lamentou-se Surfat. — Está cada vez mais impertinente. O animal peludo atingiu as pernas de Surfat e subiu pelas mesmas. Bradon acompanhou tudo com uma risada. Surfat parecia paralisado. Não sabia o que fazer. — Está subindo nas suas costas — disse Bradon. Surfat virou cuidadosamente a cabeça. A versão de Gleam de um quati agachou-se com uma evidente satisfação sobre os ombros largos de Surfat, estalava gostosamente os lábios e mexia as pálpebras. — Parece que o senhor fez uma nova amizade — disse Bradon em tom irônico. Surfat olhou-o com uma expressão zangada. — Tire este animal de cima das minhas costas. — Nem pense nisso — respondeu Bradon. — Afinal, ele pode ser levado a acreditar que pretendo atacar o senhor e resolver enfiar as unhas e os dentes em mim. Ouviram um tiro de carabina bem ao longe. Bradon pôs-se a escutar. Mais um tiro foi disparado. — É o sinal para voltarmos — disse Bradon. — Vamos, cabo. Devemos desistir da perseguição. Parece que o jato espacial está em perigo.

— Será que terei de andar com este

...

com este bicho nas costas? — perguntou

Surfat. — Vamos levá-lo — decidiu Bradon. — Talvez possa ser-nos útil. Parece muito afetuoso. O cabo pôs as mãos no ser que estava sentado em seu ombro direito. O mesmo começou a miar tristemente ao perceber as intenções de Surfat. O toco de rabo batia furiosamente nas costas de Surfat. O cabo deixou cair as mãos, indeciso.

— Podemos levá-lo — disse finalmente, furioso. Pegou a carabina e seguiu Bradon, que já estava saindo da clareira. Uma coisa úmida tocou a orelha do cabo. — Que diabo! — gritou este. — Está lambendo minhas orelhas, Bradon. Chard Bradon não parecia ter bom ouvido, pois não virou a cabeça nem reduziu a velocidade. Surfat praguejou enquanto corria atrás do jovem astronauta, enquanto o animal sentado em seu ombro balançava de um lado para outro e acompanhava cada solavanco mais forte com um miado assustado.

Quando saíram da floresta, Bradon tinha quase cinqüenta metros de dianteira. Aguardou Surfat na borda da mata. A luz do dia começou a ser substituída por um crepúsculo leitoso. Névoas começaram a formar-se sobre o pântano. Surfat sentiu-se aliviado quando chegaram ao jato espacial e encontraram os três companheiros sãos e salvos. Doutreval e Gilliam tinham retirado totalmente o suporte da eclusa e estavam trabalhando nos reparos. O Capitão Redhorse estava de sentinela. — Foi o senhor que fez os disparos de sinalização? — perguntou Bradon. — Fui, sim — respondeu Redhorse. — Já está escurecendo e os senhores não conseguiriam andar na floresta. Além disso há um monstro neste pântano. Se o mesmo resolver atacar, será preferível que possamos defender juntos o jato espacial. Olhou para Surfat, que fungava fortemente enquanto sentava à frente da eclusa. — O que foi que o senhor andou pegando? — perguntou Redhorse. O animal sentado no ombro de Surfat olhou para os lados, assustado, e agarrou-se firmemente à jaqueta do astronauta. — É Mister Jefferson! — exclamou Surfat. Bradon arregalou os olhos. — Não sabia que seu amigo tem um nome — disse. — Acabo de batizá-lo — resmungou Surfat. Redhorse lançou um olhar pensativo para o ser peludo. — O senhor não acha que Mister Jefferson é um nome bastante estranho para um animal deste tipo? — perguntou. — É Mister Jefferson. O nome combina com ele. Mister Jefferson miou como se quisesse manifestar sua concordância. Surfat acariciou cuidadosamente suas costas. — Ele precisa de um lugar para dormir dentro do jato — disse o cabo. — É verdade — confirmou Bradon. — Sugiro que o sentemos na caixa em que está guardado meu ovo.

— Se o senhor acha que meu Mister Jefferson vai chocar seu ovo

...

— disse Surfat,

indignado. — O calor do corpo certamente faria bem ao ovo — disse Bradon em defesa de sua idéia. — Além disso não é seu Mister Jefferson, mas nosso. Surfat apoiou as mãos nos quadris, inclinou o corpo para trás e deu uma estrondosa gargalhada. — Por que não tenta atrair nosso Mister Jefferson para perto de si, Chard? — Isso não é justo — queixou-se Bradon. — Mister Jefferson está demonstrando um egoísmo sadio. Sabe que suas costas são o lugar mais confortável para ele ficar sentado. Nem pensará em acompanhar um de nós. Redhorse achou que já estava na hora de esclarecer as pretensões que estavam sendo manifestadas em relação a Mister Jefferson, pois parecia que Surfat e Bradon estavam dispostos a discutir durante horas a fio sobre quem era o legítimo proprietário desse ser.

— Se Mister Jefferson ficar conosco, ele pertencerá automaticamente à tripulação do SJ-4C — disse. — Estará sob meu comando — Redhorse sorriu para os dois homens. — Enquanto estiver acordado, o animal poderá ficar com Surfat. Mas se sentir uma forte necessidade de dormir, não vejo por que não colocá-lo na caixa de Bradon. Nesse caso a lâmpada de mil watts naturalmente seria desligada. Isso resolveu a questão. Mister Jefferson pertencia à tripulação da nave-disco. “Se bem que”, pensou Redhorse, preocupado, “o animal peludo certamente não contribuirá para aumentar o potencial militar do pequeno grupo.”

* * *

Ficou mais escuro do que Chard Bradon esperara. A temperatura não baixou mais de dez graus. Fazia três horas que Tri II tinha desaparecido no horizonte. Mas a luz dos outros dois sóis vermelhos e das estrelas de Andro-Beta era suficiente para iluminar fracamente a paisagem. Bradon caminhava de um lado para outro a dez metros da eclusa, tentando romper a noite com os olhos. Dali a trinta minutos seu turno chegaria ao fim. Entraria no jato para acordar Redhorse, que o substituiria. Bradon perguntou-se se seus companheiros estavam dormindo. Se ele mesmo estivesse deitado na carlinga de comando, certamente ainda não teria pregado olho. A primeira noite passada num planeta estranho sempre tinha algo de assustador. Bradon conversara muitas vezes com astronautas mais experimentados. Quem sobrevive à primeira noite num mundo desconhecido, diziam eles, tem esperança de voltar à Terra. Bradon parou e pôs-se a escutar. De vez em quando ouvia um farfalhar no musgo ou alguma coisa caindo na água. O estranho canto que ouvira por ocasião do desaparecimento dos robôs de combate não se fizera ouvir mais. Havia uma sombra alongada, obliquamente à frente de Bradon. Era a borda da floresta. As montanhas ficavam do outro lado. No momento Bradon não as via. A única coisa familiar que havia em tomo de Bradon era a silhueta do jato espacial. Uma luminosidade quase imperceptível saía da carlinga de comando. Redhorse mantinha ligadas somente as luzes de controle, pois não queria despertar a atenção de um assaltante noturno. Bradon patrulhava num silêncio quase absoluto à frente da pequena espaçonave. O tapete vegetal abafava o ruído de seus passos. Bradon bem que preferiria que o chão fosse arenoso, pois nesse caso seria mais fácil notar a aproximação de um ser estranho. Alguma coisa poderia aproximar-se dele no meio da noite sem que ele percebesse. Chard Bradon afastou estes pensamentos. Não podia permitir que estas preocupações o perturbassem. Ouviu um estalo. O ruído fez com que Bradon estremecesse. Segurou firmemente a carabina. Um animalzinho passou correndo perto dele. Bradon ouviu o farfalhar que o mesmo produziu no musgo. Tudo voltou a ficar em silêncio. Aos poucos Bradon foi abrindo uma trilha no musgo, pois vivia percorrendo o mesmo trecho. Doutreval já lhes mostrara que as plantas podiam tornar-se muito perigosas. Alguém chamou Bradon do jato espacial. O aspirante a oficial viu uma sombra vir em sua direção. Era Redhorse. — Ainda faltam quinze minutos para o revezamento — disse Bradon. Redhorse colocou a carabina a tiracolo. Bradon teve a impressão de que estava sorrindo.

— Tudo em ordem, Chard? — Não vi nada de suspeito, senhor. — Viu o anel, Chard? — perguntou Redhorse, depois que tinham caminhado alguns metros em silêncio. Bradon parou. Parecia confuso. — Que anel, capitão? — O anel de Mister Jefferson, Chard — respondeu Redhorse, tranqüilo. — Fiz um exame minucioso de nosso amigo. Usa um anel metálico estreito em torno da pata dianteira esquerda. Bradon teve a impressão de que deveria pedir desculpas a Redhorse. Nem ele nem Surfat havia descoberto o anel. Redhorse fora o único que se lembrara de examinar Mister Jefferson. — O que acha disso, senhor? — Diria que alguém colocou o anel nele. Alguém que provavelmente quer demonstrar suas pretensões ao animal. O amigo de Surfat se deve ter confundido, ou então foi enviado para perto de nós de propósito. — De propósito? — Bradon engoliu em seco. — Não acredito, senhor. Os seres que teriam colocado o anel não poderiam deixar de pensar que o anel nos tornaria desconfiados. Afinal, é um sinal de que por aqui existem seres inteligentes. — Talvez seja uma ameaça — disse Redhorse. — O que vamos fazer, senhor? — perguntou Bradon, constrangido. — A mesma coisa que fizemos até agora. Esperar que Doutreval e Gilliam concluam os reparos. — E Mister Jefferson? — Não acredito que ele represente um perigo para nós. Mas acho que devemos ter cuidado — Redhorse colocou a mão sobre o ombro de Bradon. — Seu turno de sentinela chegou ao fim, Chard. Vá dormir. Bradon lançou um olhar desesperado para os contornos escuros do SJ-4C. — Não acredito que consiga, senhor. — Vá — aconselhou Redhorse. — O sono acaba chegando. — Certa vez li que os índios têm um bom ouvido — disse Bradon. — Pode ser — reconheceu Redhorse. Bradon tentou reconhecer na escuridão o rosto magro do capitão. — Ainda bem que o senhor vai ficar de sentinela — disse. Depois atravessou a noite em direção ao jato espacial e logo se confundiu com os contornos vagos da espaçonave.

* * *

Para Redhorse o turno de sentinela representava algumas horas em que ficaria a sós com seus pensamentos. O cheiene era um homem sociável, mas sabia apreciar a solidão. Era formidável permanecer em meio ao silêncio quase completo no ambiente escuro de uma paisagem estranha, refletindo sobre várias coisas. Redhorse quase chegou a sentir-se liberado da responsabilidade pelo SJ-4C; teve a impressão de que de repente se transformara num ser isolado, que não mantinha qualquer ligação com outros indivíduos. Redhorse pôs-se a escutar atentamente. “Isso mesmo”, pensou num acesso de ironia, “os índios têm bom ouvido.” Ouviu o farfalhar fraco do vento que descia das montanhas e atravessava o vale. Se prestasse muita atenção, chegava a ouvir os estalos finos do musgo esmagado por suas

botas, e que voltava a erguer-se aos poucos. Para Redhorse a noite estava cheia de ruídos abafados. Era um zumbido, um vozerio e um farfalhar ininterruptos. Não houve os ruídos mais fortes, que teriam alarmado o capitão. Uma hora passou sem que Redhorse notasse nada. Dirigiu-se ao outro lado do jato e pôs-se a observar a área pantanosa. Por lá também estava tudo em silêncio. “A noite não perdeu nada dos seus mistérios”, pensou Redhorse. Lembrou-se dos seus antepassados, que temiam os deuses da escuridão e tentavam apaziguá-los por meio de sacrifícios. Este temor se conservara no coração dos homens através dos séculos. Redhorse olhou para o relógio de pulso e viu que seu turno de sentinela tinha chegado ao fim. Era a vez de Brazos Surfat. O cabo certamente não sairia espontaneamente do jato para revezar Redhorse. Redhorse dirigiu-se ao SJ-4C e entrou na carlinga de comando. Os homens estavam dormindo. Mister Jefferson estertorava e gemia de medo. Certamente tinha sonhos desagradáveis. Redhorse lançou um olhar para a mesa dos mapas. Quase não se distinguia a caixa à luz fraca das lâmpadas de controle. Mas Redhorse viu a figura enrolada do animal peludo. Foi até a cama de Surfat e sacudiu o mesmo pelo ombro. O cabo levantou-se abruptamente e pôs a mão na carabina que estava jogada no chão, bem ao lado dele. — Quer fuzilar-me? — perguntou Redhorse. Surfat emitiu alguns ruídos inconfundíveis e levantou lentamente. — Está na hora do revezamento — disse Redhorse. — Trate logo de chegar lá fora. — Como é que se pode ser tão desumano a ponto de acordar alguém que está dormindo no meio da noite? — queixou-se Surfat. — Pensei que o tempo em que os índios torturavam seus prisioneiros já tivesse passado. Recuou ao ver Redhorse vir em sua direção. Saiu gemendo e fungando. Redhorse deitou na cama de Surfat. Ouviu a respiração dos outros homens. Mister Jefferson choramingava baixinho. O capitão fechou os olhos. Parecia ser uma noite tranqüila. A descarga da carabina energética de Surfat produziu um chiado junto ao jato espacial. — Alarme! — gritou Redhorse, pegou a arma e saiu correndo a passos largos. Atrás dele os homens se levantaram, atordoados de sono. Redhorse saltou da eclusa e tentou reconhecer alguma coisa. De repente um lampejo cortou a noite. Redhorse viu o corpo enorme de Surfat atrás do lampejo. Virou a cabeça e distinguiu os contornos confusos do objeto em que o cabo estava atirando. Redhorse prendeu a respiração. Alguma coisa vinha rastejando em direção ao jato espacial, vinda do pântano. Parecia uma cobra gigante. Redhorse saiu correndo e o estranho canto voltou a soar na floresta. Redhorse teve a impressão de que desta vez era mais forte. Até parecia um bando de coiotes. Redhorse estremeceu. Gilliam e Bradon saíram ruidosamente do jato espacial. Doutreval veio em seguida. — Aqui, capitão! — gritou Surfat.

8

Oito dos nove jatos espaciais estavam voltando. As mensagens expedidas por seus comandantes foram chegando a breves intervalos às naves que esperavam no espaço intergaláctico. Havia uma semelhança surpreendente entre as notícias dos oficiais. As oito tripulações haviam encontrado oito sóis, cada um com um campo refletor, mas não haviam descoberto qualquer sinal do transmissor propriamente dito. Perry Rhodan e seus oficiais estavam reunidos na sala de comando da Crest II, para discutir a situação. Atlan, que se encontrava a bordo da Imperador, acompanhava as discussões pela tela. — Ainda não temos notícia de Redhorse — disse Rhodan. — Parece que foi quem avançou mais longe na pequena galáxia. As mensagens de rádio que trocou com alguns comandantes de jatos espaciais levam a esta conclusão. — A última vez que o Capitão Redhorse se comunicou pelo hiper-rádio foi com o Capitão Kagato — disse o Coronel Rudo. Sua voz retumbante parecia produzir um eco na sala de comando. — Kagato informou que Redhorse descobriu um sistema que possui seis sóis gigantes. A constelação não parece ter surgido naturalmente. Pelos cálculos de Kagato, a distância aproximada entre este sistema e nossa posição no espaço intergaláctico deve ser de quatro mil anos-luz. Quer dizer que Redhorse ainda não pode ter saído de Andro-Beta. — Redhorse seria perfeitamente capaz de fazer alguma coisa por conta própria — disse a voz de Atlan saída dos receptores. — Basta lembrar suas escapadas em torno de Horror. Rhodan reprimiu um sorriso. Atlan não conseguia habituar-se às ações arbitrárias de certos astronautas terranos, embora reconhecesse que eram justamente essas ações que muitas vezes tinham ajudado os terranos em situações difíceis. Mas era incapaz de compreender a mentalidade em que se inspiravam as mesmas. — Dei ordens expressas para que os jatos voltassem assim que tivessem alcançado e identificado o objetivo — disse Rhodan. — O Capitão Redhorse certamente encontrará um pretexto para levar essa identificação mais adiante, especialmente se tiver motivo para supor que descobriu o transmissor que estamos procurando. Era uma afirmativa que Rhodan não podia contestar. Mas fazia votos de que o cheiene não se metesse em aventuras arriscadas. O cheiene era um homem impetuoso, mas possuía um senso de responsabilidade bastante acentuado. Mas apesar disso o SJ-4C poderia envolver-se em dificuldades. — Vamos aguardar — disse Rhodan. — Pode demorar mais algum tempo para recebermos notícias de Redhorse. — Deveríamos considerar a possibilidade de o nono jato espacial não voltar mais — disse o Tenente-Coronel Huise, imediato da Crest II. Depois destas palavras Rhodan viu uma expressão de pavor em vários rostos. Huise acabara de dizer aquilo que a maioria dos astronautas acreditava. Se a gente enviava nove jatos espaciais a uma galáxia em estado de revolta, era de esperar que pelo menos um deles se perdesse.

Rhodan contara com isso, mas não acreditava na morte de Redhorse e sua tripulação. — Vamos esperar até que os oito jatos espaciais estejam guardados novamente nos hangares. É possível que até lá Redhorse dê notícias. Rhodan sentiu que não conseguira convencer os homens. Os mesmos tinham sido obrigados a abandonar a base que fora montada em Andro-Beta. Parecia que o Império Solar tinha perdido definitivamente sua base avançada. Andrômeda voltara a ficar a uma grande distância. O poder incrível dos senhores da galáxia pusera fim à expansão vigorosa dos terranos e de seus aliados. Mas ainda havia Tróia. E ainda havia o nono jato espacial. O jato espacial do Capitão Don Redhorse. — Talvez Redhorse encontre uma oportunidade de destruir o transmissor responsável pela reanimação dos mobys — disse a voz de Atlan. — Neste caso até seria conveniente que interpretasse as ordens à sua maneira. Atlan não poderia saber que Redhorse já havia interpretado à sua maneira as ordens que lhe tinham sido dadas. Era bem verdade que por enquanto isso não tinha adiantado nada.

— Será que não existe a possibilidade de os mobys morrerem ou se retirarem depois de algum tempo? — perguntou o Major Hefrich. Rhodan já se perguntara várias vezes a mesma coisa. No momento ninguém conhecia a resposta. Nem mesmo os mutantes tinham uma chance de lançar uma operação bem-sucedida em direção a Andro-Beta. Os mobys enfurecidos agitavam a pequena galáxia. Executavam com a maior brutalidade as ordens dos senhores da galáxia. Como deviam ser desumanos os seres que haviam escolhido os mobys como guardas. Todas as estações de vigilância e armadilhas encontradas no caminho eram um sinal da crueldade inconcebível desses seres. A expressão do rosto de Rhodan mudou de forma quase imperceptível. Quem o conhecesse bem veria que havia uma resolução firme nesse rosto. Não tinham desistido nem perdido as esperanças. Apenas haviam recuado um passo. “Um dia”, pensou Rhodan, convicto, “voltaremos a dar um passo para a frente. Um passo grande. Um passo que nos levará para Andrômeda.”

9

O ruído da batalha, o canto dos invisíveis, o chiado das carabinas, os gritos dos homens que tentavam comunicar-se enchiam a noite. Não restava nada da paz e da calma que reinara até alguns minutos antes. Don Redhorse encontrava-se ao lado de Brazos Surfat, atirando no monstro. Gilliam, Doutreval e Bradon tinham ido ao outro lado do jato espacial, de onde vinha o rugido das armas e lanças de fogo amarelas rompiam a escuridão e se precipitavam sobre o atacante. O monstro suspendera seu avanço. De vez em quando soltava um gemido abafado. A cauda enorme chicoteava o solo, levantando pedaços de musgo e porções de lama. A pele do habitante dos pântanos parecia ter uma resistência surpreendente aos raios energéticos. Além disso o inimigo dos terranos parecia possuir uma vitalidade tremenda. E a maioria dos tiros teve de ser disparadas esmo. Raramente atingiam o alvo. O uivo vindo da floresta era cada vez mais forte. Formava um terrível acompanhamento musical para a cena fantasmagórica que se desenvolvia junto ao pântano. — Está se mexendo de novo! — gritou Redhorse. — Temos de chegar mais perto — respondeu Surfat, falando tão alto quanto o capitão. Redhorse reconheceu que o cabo tinha razão. Só de vez em quando conseguia ver o corpo da cobra gigante. O musgo estava em chama em várias áreas de alguns metros quadrados. A fumaça impedia quase completamente a visão. A posição de Gilliam, Doutreval e Bradon era mais favorável, mas os mesmos tinham de prestar atenção constantemente para não serem atingidos pelas chicotadas desferidas pelo rabo do monstro. Parecia que o monstro dos pântanos queria chegar de qualquer maneira ao jato espacial. Rastejava lentamente em direção ao mesmo. A parte central do corpo da serpente tinha sido atingida várias vezes e parecia não ter vida. Mas a cabeça da fera continuava viva. O instinto levou o animal a ativar suas últimas reservas de energia. Usava o rabo para empurrar para a frente a parte do corpo que tinha sido esfacelada pelos tiros. Era um rastejar muito trabalhoso, mas cada empurrão aproximava a serpente dos pântanos mais alguns metros do jato. Redhorse e Surfat foram obrigados a desviar-se de alguns musgos em chamas. A fumaça ardia nos seus olhos. Surfat tossiu. De repente o chão tremeu. Redhorse teve a impressão de estar parado numa esteira de borracha que não oferecia nenhuma segurança. Compreendeu imediatamente que o atacante não tinha nada a ver com essa vibração. Devia estar havendo um forte tremor de terra em algum lugar, e as ramificações do mesmo faziam tremer a área em que se encontravam. Surfat gritou alguma coisa, mas Redhorse estava tão ocupado em manter o equilíbrio que não o compreendeu. Passou cambaleando junto a alguns cogumelos em chamas. De repente viu a cabeça da serpente bem à sua frente, em meio às nuvens de fumaça. Era muito pequena em comparação com o resto do corpo. Um par de olhos frios brilhou à luz espalhada pelo fogo. Redhorse tossiu enquanto levantava a carabina e fazia

pontaria para a cabeça que balançava de um lado para outro. Houve um novo abalo do chão, que quase o derrubou. A serpente emitiu um ruído abafado e saiu rolando lentamente em direção ao jato espacial. Redhorse concentrou-se ao máximo e voltou a fazer pontaria. Surfat atirou antes dele, mas o tiro passou pelo menos a cinqüenta centímetros da cabeça do monstro. Trinta metros mais adiante, perto da cauda, os três outros tripulantes tentavam conseguir o impacto decisivo. A serpente parecia sentir o perigo que a ameaçava. Afundou a cabeça no musgo, fazendo com que a mesma quase se tornasse invisível. O terceiro tremor de terra não parecia tão violento, mas Redhorse lembrou-se da possibilidade de uma erupção vulcânica. Só nesse momento deu-se conta de que depois do início do tremor de terra o canto no mato cessara. Redhorse disparou dois tiros, mas a única coisa que conseguiu foi incendiar algumas plantas. Lamentava que não tivessem munição versátil. Nem sequer tinham trazido algumas granadas de mão de fusão. De repente a serpente mudou de tática. Em vez de avançar para a frente, passou a rolar lateralmente. Fagulhas levantavam-se toda vez que seu corpo gigantesco rolava por cima de um foco de incêndio. Ouviu-se um grito de dor vindo do outro lado do jato espacial. — É Gilliam! — gritou Surfat. — Foi atingido pelo monstro. O lampejo de uma arma permitiu que Redhorse visse por alguns segundos Gilliam caído no chão. Doutreval estava inclinado sobre ele, tentando ajudar, enquanto Bradon estava calmamente ajoelhado no musgo, atirando contra o monstro de Gleam. Nesse instante a cabeça do monstro dos pântanos saiu do tapete vegetal bem à frente de Redhorse e Surfat. Redhorse só chegou a ver uma sombra. Deu um salto para o lado e, disparou ao acaso. Surfat não foi tão rápido. Foi atingido no peito. Caiu de joelhos, gemendo, ficou atordoado por um instante e perdeu os sentidos. Redhorse sentiu uma raiva fria. O monstro fora atingido pelo menos vinte vezes, mas não se via nenhum efeito que pudesse levar o capitão a acreditar que a luta estava chegando ao fim. A serpente saíra rolando a uma velocidade surpreendente e encontrava-se a apenas dez metros da nave-disco. Redhorse sabia que bastariam alguns golpes da cauda para destruir a carlinga. Saiu cambaleante atrás do gigante, animado exclusivamente pelo desejo de proteger o jato espacial, que era seu único meio de fuga. Os tiros voltaram a iluminar a noite à sua frente. Redhorse viu o sargento Whip Gilliam rastejar em direção ao jato espacial, com o rosto desfigurado pela dor. Doutreval e Bradon estavam de pé obliquamente atrás dele. Os uniformes estavam esfarrapados e mostravam manchas de queimaduras. Redhorse sabia que seu uniforme não estava em condições melhores. Gilliam saltou para dentro da eclusa do jato e atirou no monstro que se aproximava rastejando. No momento o caminho de Doutreval e Bradon estava cortado. Não se via sinal de Surfat. Redhorse tomou o impulso e saltou por cima do centro do corpo da cobra, que tinha sido destruído a tiros. Logo se viu embaixo da eclusa. Lançou um olhar ligeiro para Gilliam. O cabelo do sargento emitia um brilho avermelhado à luz das lâmpadas de controle. Estava com o rosto coberto de suor. Redhorse voltou a atirar.

A serpente chegou a quatro metros do jato, antes que um tiro atingisse por acaso sua cabeça, despedaçando a mesma. O corpo gigantesco deu mais um solavanco e ficou quieto. Só se ouvia o crepitar das chamas. Redhorse apoiou as costas na borda da eclusa. Gilliam estava agachado em cima dele. Doutreval e Bradon aproximaram-se correndo. — Procurem Surfat! — disse Redhorse com a voz rouca. Mas o cabo obeso já se aproximava do jato espacial. Perdera a jaqueta do uniforme. A camisa encharcada de suor estava grudada no corpo. Redhorse sentiu-se aliviado ao notar que sua tripulação atravessara a luta sem maiores ferimentos. Surfat parou a seu lado. — Alguém está com apetite para um suculento filé de cobra? — perguntou. Doutreval afastou o cabelo da testa. — Pensei que tivesse morrido — disse, dirigindo-se a Surfat. Ouviu-se um miado triste vindo da câmara da eclusa. Era Mister Jefferson, que vinha em sua direção, todo atordoado. — Acaba de acordar — disse Bradon. — Assustou-se com o barulho. — Percebeu o terremoto, senhor? — perguntou Gilliam. — Percebi, sargento. Receio que o mesmo possa repetir-se de forma ainda mais violenta. Além disso temos de contar com a possibilidade de uma erupção vulcânica. E também não estamos livres de outro ataque vindo do pântano. — Dentro em breve poderemos sair de Gleam — disse Doutreval. — Assim que clarear, concluiremos os reparos. Redhorse fitou-os um após o outro. — Não sairemos deste mundo enquanto não soubermos quem colocou o relógio solar nas montanhas e quem aplicou um anel de metal na perna de Mister Jefferson. Além disso vamos verificar quem vive cantando ali na floresta. Surfat tirou Mister Jefferson da eclusa e colocou-o sobre o ombro direito. — Não se deixe amedrontar — disse. — Na verdade, este Capitão Redhorse é um homem bem pacato.

* * *

As últimas horas da noite foram calmas. Quando o sol nasceu e os cinco terranos saíram do jato espacial, viram as destruições causadas pela batalha noturna. Grande parte da vegetação em torno do jato espacial estava queimada. A serpente abrira sulcos e buracos no chão. O SJ-4C estava coberto de sujeira. O cadáver do monstro jazia todo contorcido no musgo. Pelos cálculos de Redhorse, devia ter quarenta metros de comprimento. Provavelmente esse animal, tal qual o gravodançarino, possuía órgãos reguláveis, especialmente criados para as condições gravitacionais de Gleam. Era a única explicação da força tremenda que o atacante revelara na cauda. Os homens haviam resistido perfeitamente à luta, se bem que todos apresentavam queimaduras. Surfat queixava-se de dores. Redhorse acreditava que devia ter quebrado uma ou mais costelas. O sargento Gilliam apresentava um grande hematoma no braço. Limparam as armas. Depois disso Doutreval e Gilliam reiniciaram os trabalhos de conserto do suporte da eclusa. Antes disso o rádio-operador tentara em vão captar algum impulso com seus aparelhos. Redhorse, Surfat e Bradon puseram-se a examinar o cadáver do inimigo. Da cabeça da cobra gigante não sobrava quase nada. A pele era semelhante à que Doutreval tinha

encontrado no dia anterior. Era bem verdade que o exemplar que se encontrava à sua frente era bem maior. Assim mesmo era possível que a pele velha fosse da mesma cobra. Talvez a mesma tivesse passado por várias fases de crescimento, que a obrigavam a mudar de pele de vez em quando. — Não acredito que este monstro seja um herbívoro — disse Surfat. — Saiu de noite para caçar alguma coisa. — Pergunto a mim mesmo se o canto no mato tinha alguma coisa a ver com o ataque deste animal — disse Redhorse. — Não acho isso muito provável, senhor — disse Bradon. — Quando Doutreval foi atacado pela tartaruga gigante, o mesmo canto se fez ouvir — lembrou Surfat. — É bem verdade que o animal já estava morto. — Apesar disso pode haver uma ligação — insistiu Redhorse. Brazos Surfat lançou um olhar para a floresta. Não parecia sentir-se muito à vontade. — Se me lembro que Chard e eu entramos nesta floresta ... — Ninguém nos molestou — disse Bradon. — Quem sabe se o capitão não tem razão? Lembrem-se de que os robôs fugiram quando se ouvia o canto. Redhorse tocou o cadáver da cobra com a ponta do pé. Pôs-se a refletir. — Será que o canto não tem uma finalidade bem diferente do que acreditamos? — perguntou. — O que quer dizer mesmo? — perguntou Bradon. — Estes uivos talvez servissem para alertar-nos de alguma coisa — disse Redhorse. — Talvez seja alguém que é nosso amigo e quis chamar nossa atenção para a fuga dos robôs e o início do terremoto. — Para mim isso vai longe demais, senhor — disse Surfat. — Não acredito neste tipo de demonstração de amizade. Não se esqueça de que nos encontramos num planeta devidamente preparado pelos senhores da galáxia para receber visitantes indesejáveis. Como é que se pode levar alguém a abandonar seus planos, apresentando demonstrações de amizade? — Não tenho certeza — confessou Redhorse. — É apenas um sentimento. — O que poderíamos fazer para descobrir se esse sentimento é verdadeiro? — perguntou Bradon. — Temos de entrar novamente na floresta — decidiu Redhorse. — Desta vez irei com Surfat. Levaremos Mister Jefferson. Quem sabe se o animal não nos levará ao lugar certo? — É um plano arriscado, senhor — disse Bradon, que não parecia muito entusiasmado. — Se os desconhecidos que se encontram na floresta quisessem matar-nos, já teriam atacado — disse Redhorse. — Não acredito nisso. Sem dúvida teremos uma surpresa quando entrarmos em contato com os misteriosos cantores. Voltaram ao jato espacial. Mister Jefferson ainda estava dormindo na caixa de Bradon. Roncava calmamente, deitado ao lado do ovo de Horror. Surfat lançou um olhar de deboche para Bradon. — Não parece que o animal esteja conseguindo mais que a lâmpada — disse. Bradon lançou um olhar preocupado para o ovo, que até então tinha resistido a todas as tentativas de tirar um pinto. Surfat bateu de leve na caixa. Mister Jefferson acordou. Apoiou a cabeça na borda da caixa e piscou os olhos para os homens. — Venha cá, bichinho! — disse Surfat em tom carinhoso.

O animal parecia lembrar-se da voz. Pulou da caixa e farejou as pernas de Surfat. Subiu pelo corpo do mesmo e ocupou seu lugar sobre o ombro direito. — Está gostando de mim — disse Surfat, embaraçado. — Reconheceu minhas qualidades humanas. Bradon gemeu. — Parece que Mister Jefferson não tem nem um pouco de senso psicológico. Surfat deu uma expressão compenetrada ao seu rosto e saiu do jato espacial. — Será que sua mente foi afetada pela pancada que ele levou da cobra? — perguntou Bradon preocupado. Redhorse balançou a cabeça.

— Quem sabe? Quando o capitão saiu da eclusa, Surfat estava em companhia de Gilliam e do rádio- operador . Os três discutiam violentamente sobre se seria conveniente dar a Mister Jefferson alguma coisa dos alimentos que tinham trazido, ou se seria preferível deixar que o animal procurasse seus alimentos, — Nunca ouvi dizer que um animal comesse conservas ou alimentos concentrados — disse Doutreval. — Lembro-me de um homem que alimentava sua marmota dourada com pílulas de vitamina. Depois de algumas semanas a marmota teve de ser sacrificada. — Pois é — disse Gilliam em tom pensativo. — O alimento natural sempre é melhor. Surfat esticou o braço direito, num gesto de acusação. — Vocês têm medo de que Mister Jefferson possa desfalcar nossas provisões — disse. — Mas sabem perfeitamente que não pode haver melhor alimento para este animal que um pudim em conserva. — Não tenho a impressão de que nossas provisões incluam pudim em conserva — disse Doutreval. Redhorse interrompeu a conversa. Surfat acompanhou-o a contragosto na direção da floresta. Caminhava pesadamente ao lado do capitão. — Senhor — queixou-se Surfat. — Tenho a impressão de que alguns membros da tripulação não me levam a sério. — Seus sentimentos sempre mereceram muita confiança — disse Redhorse com um sorriso.

— Isso é

...

— Surfat interrompeu-se e arregalou os olhos na direção da floresta. —

Senhor

...

— balbuciou.

Redhorse já tinha visto as estranhas figuras que acabavam de sair da floresta. Mister Jefferson ficou nervoso de repente e batia com força com o toco da cauda nas costas de Surfat.

— São

seres humanos! — exclamou Surfat, exaltado.

... — Não — disse Redhorse em tom calmo. — São seres estranhos. Cerca de cem seres tinham saído entre as árvores. Não pareciam estar armados. Vieram diretamente para o jato espacial. Redhorse viu que os desconhecidos eram humanóides. Mas à medida que se aproximavam notava-se cada vez melhor que tinham pouca coisa em comum com os terranos. Os estranhos eram esbeltos e tinham membros delicados. A altura média quase chegava a dois metros. — Olhe só as roupas deles — disse Surfat, perplexo. As vestimentas dos nativos realmente eram estranhas. A parte superior do corpo estava coberta por peças de tricô coloridas. Dos quadris desciam saias bem abertas,

endurecidas por meio de bastões, que antes pareciam guarda-chuvas abertos. As estranhas saias mal chegavam até as coxas. Redhorse acreditava que devia haver um motivo para que as saias tivessem esta forma. Os bastões que as reforçavam eram o melhor sinal de que não se tratava de uma simples questão de moda. Os gleamors pararam quando se encontravam a cerca de trinta metros dos dois terranos. Pareciam ter muita vitalidade, mas davam a impressão de ser pacíficos. Redhorse viu que todos os estranhos tinham a cabeça calva. A pele era de uma cor azul- pálida. O aspecto mais estranho do rosto de um gleamor eram os lábios. Eram grossos e muito largos. Redhorse viu que de vez em quando alguns nativos faziam avançar o lábio inferior, formando uma espécie de prato. Lembrou-se do gravodançarino. Era provável que os nativos também se alimentassem principalmente de cogumelos. — Um deles está vindo para cá — disse Surfat. Redhorse viu um gleamor separar-se do grupo e aproximar-se devagar. Quando tinha percorrido metade do caminho, parou e levantou os braços. Gritou uma coisa que não se compreendeu. — O que será que ele quer? — perguntou Surfat, desconfiado. — Talvez queira mais alguém para cantar em seu coral — disse Redhorse em tom sarcástico. Seguiu o exemplo do nativo, levantando os braços. Mas julgou preferível não gritar nenhuma palavra de cumprimento. Surfat também ergueu os braços. Durante algum tempo não aconteceu absolutamente nada. Os habitantes de dois planetas diferentes entreolhavam-se, cada um esperando que o outro fizesse alguma coisa. Redhorse lançou um olhar ligeiro para o jato espacial e certificou-se de que Bradon, Gilliam e Doutreval estavam reunidos na eclusa, de armas na mão. Representavam uma excelente cobertura. — Quanto tempo ainda vamos ficar parados assim? — perguntou Surfat, aborrecido. — Meus braços já começam a ficar dormentes. Não sou um faquir, nem um adorador do sol. Redhorse olhou para Surfat. O cabo fazia uma triste figura. Com os braços levantados e o ventre muito proeminente, lembrava uma estátua de um templo indiano. Mister Jefferson estava agarrado a Surfat. Parecia muito satisfeito. Finalmente o gleamor deixou cair os braços. — Clachaaiii? — gritou em tom amável, fazendo avançar o lábio inferior. — Tomara que ele não acredite que vamos maltratar nossos rostos da maneira como ele está fazendo, senhor — disse Surfat. — Estes tipos parecem ser pacatos — disse Redhorse. — Parece que minha suposição foi verdadeira. — Vem para cá, capitão! — exclamou Surfat. O nativo caminhava delicadamente sobre o musgo, enquanto seus companheiros gritavam palavras animadoras. Parou novamente quando se encontrava a três metros dos dois terranos. Redhorse perguntou-se o que deveria estar passando pela cabeça desse ser. O gleamor não deveria ser levado a acreditar que os seres que se encontravam à sua frente eram invasores malvados? Redhorse viu que os olhos do nativo eram cristalinos. Só a íris apresentava uma coloração ligeiramente amarelada. Pareciam estar cheios de hélio. — Lei-lei-saleinti — disse o gleamor. Depois apontou para Surfat e soltou uma estrondosa gargalhada. — Perheite! Perheite! Perheite! — vivia gritando. Mister Jefferson miava alegremente e esfregava a cabeça na nuca volumosa de Surfat.

— Se eu chegar à conclusão de que está rindo de mim — disse Surfat em tom de ameaça — vou levantar seu saiote e dar umas palmadinhas em suas nádegas magras. — Não cause complicações desnecessárias, cabo — disse Redhorse em tom contemporizados — É possível que o gleamor simplesmente se sinta satisfeito porque o senhor fez amizade com Mister Jefferson. — Elaiii! — gritou o nativo para os membros de sua tribo, que se mantinham à espera. Houve uma gritaria entusiasmada, e cem gleamors vieram correndo. Surfat empalideceu e levantou a carabina. — Vamos deixar que eles passem por cima de nós, senhor? — resmungou. — Estão desarmados e parecem pacatos — disse Redhorse. — O senhor acha que devemos atirar em seres inteligentes que não estão armados? Surfat baixou a cabeça. Dali a instantes os dois terranos estavam cercados pelos nativos. Mãozinhas magras estendiam-se em sua direção, olhos cintilantes os contemplavam com uma expressão de curiosidade. Finalmente Redhorse e Surfat foram colocados sobre os ombros estreitos de alguns gleamors e carregados em meio a uma forte cantoria para o jato espacial. Surfat não parecia sentir-se muito bem em seu assento balançante. — Tenho a impressão de que este entusiasmo é um pouco exagerado! — gritou, dirigindo-se a Redhorse. Redhorse pôs-se a refletir. O comportamento dos nativos realmente era estranho. Não havia dúvida de que tinham sido eles que cantaram na floresta. Naquele momento também faziam ouvir o estranho canto. Por que não tinham aparecido antes? Por que festejavam os terranos como se os mesmos fossem bons amigos? Redhorse imaginava que por enquanto não obteria resposta a estas perguntas. O mistério de Gleam tornara-se ainda mais profundo. Chegaram ao jato espacial. — Olá, cabo! — gritou Bradon, que se encontrava no interior da eclusa. — Não tem vergonha de ser carregado por essas criaturas fracas? Surfat saltou para o chão e lançou um olhar zangado para Bradon. Os nativos reuniram-se à frente da nave-disco. Redhorse também pediu que o colocassem no chão e dirigiu-se à eclusa. — Por enquanto não vamos permitir que nenhum deles entre no jato — decidiu. — Primeiro quero saber quais são suas intenções. Os nativos acamparam à frente do jato espacial. Pareciam sentir-se felizes por não serem mandados embora. Cerca de trinta gleamors reuniram-se junto ao cadáver da cobra gigante e entoaram um canto triste. — Até parece que estão de luto por causa do monstro — disse Doutreval. — Talvez só tenham vindo para vingar traiçoeiramente sua morte. — Acho que são muito sensíveis — disse Redhorse. — A morte ocorrida nestas circunstâncias parece deixá-los abalados. Se um de nós estivesse jogado lá, provavelmente também se lamentariam. — Esta cantoria dá sono na gente — disse Surfat. Redhorse não notou nenhum sinal de cansaço. Achava que a queixa de Surfat era exagerada. Doutreval e Gilliam iniciaram os reparos. Imediatamente alguns gleamors se aproximaram, fazendo sinais de que queriam ajudar. — Nunca vi seres tão prestativos — espantou-se Doutreval. — Estão loucos para nos poupar todos os movimentos.

Redhorse achou esta característica dos nativos bastante suspeita. Não sabia qual era o motivo de suas suspeitas, mas teve um forte sentimento de que devia ficar sempre de olho nos gleamors. Não estavam armados e eram fisicamente débeis, mas sua amabilidade exagerada parecia encerrar um perigo. Redhorse disse a si mesmo que não tinha nenhuma prova de que as intenções dos nativos não eram boas. Sem dúvida não havia lógica em suspeitar deles. Redhorse resolveu identificar o chefe dos gleamors e estabelecer comunicação com o mesmo. Dirigiu-se ao grupo que estava acampado junto ao jato espacial. Imediatamente alguns dos nativos se ofereceram para carregá-lo. Redhorse recusou a oferta. Redhorse sentou no chão calcinado, à frente dos gleamors. Os estranhos fitaram-no com uma expressão de curiosidade. Seus olhos antes pareciam contas de vidro. Alguns dos nativos carregavam sacolas. De vez em quando tiravam alguns cogumelos das mesmas, faziam avançar o lábio inferior e enfiavam o alimento no mesmo. Redhorse apontou para o peito. — Don! — disse em voz alta. Os nativos deram uma risadinha e começaram a cantar. — Silêncio! — gritou Redhorse. A ordem foi obedecida. O canto cessou. Redhorse colocou a mão sobre o ombro do gleamor que estava sentado à sua frente, enquanto com a outra apontava para si mesmo. — Don! — voltou a dizer. — Elaiiii! — jubilou o nativo. — Heitelea! Aquele ser não entendia o gesto tão simples que Redhorse acabara de fazer, ou então se fingia de bobo. Redhorse tentou descobrir alguma reação nos olhos cristalinos de seu interlocutor, mas a única coisa que se via no rosto do nativo era uma expressão de amabilidade. — Não confio em vocês — resmungou Redhorse. — Não consigo livrar-me da suspeita de que estão representando. — Redalei — disse o gleamor com um sorriso amável. Redhorse teve uma idéia. Saiu de perto dos gleamors e dirigiu-se ao jato espacial. Doutreval e Gilliam continuavam cercados por alguns nativos, que faziam um esforço tremendo para ajudar os dois. Brazos Surfat estava sentado no interior da eclusa. Trazia uma carabina energética deitada sobre as pernas. — Algum desses sujeitos tentou entrar no jato? — perguntou Redhorse. Surfat acariciou a arma. — Não se preocupe. Por aqui não passará ninguém. — Onde está Bradon? — perguntou Redhorse. Surfat apontou com o polegar para trás de suas costas. — Na carlinga de comando, capitão. Parece que está fazendo uma inspeção no ovo. Redhorse passou por Surfat. Viu Mister Jefferson. O animal estava deitado atrás de Surfat, dormindo. Quando Redhorse entrou na sala de comando, encontrou Bradon à frente do rádio. — Ainda não estamos captando nada, senhor — disse o jovem astronauta. — Pelo que estou lembrado, o senhor é um ótimo desenhista, Chard — disse Redhorse. — Vi alguns desenhos excelentes feitos pelo senhor. — Quer que faça um desenho da cobra que matamos? — Não — respondeu Redhorse. — Quero que me desenhe.

Bradon franziu a testa. — Quer dizer que deseja um retrato da própria pessoa? Redhorse dirigiu-se à mesa dos mapas e pegou uma folha de papel. — Venha cá — pediu. Entregou um estilete ao aspirante a oficial. — Desenhe sobre esta folha uma figura que possa ser identificada como astronauta. Deve ser uma obra-prima. O principal é que se saiba o que é. — O que pretende fazer, capitão? — perguntou Bradon. Fez rapidamente alguns traços. — Quero conversar com os gleamors — disse Redhorse. — Até agora sempre tive problemas — olhou por cima do ombro de Bradon e apontou para o desenho. — É possível que os nativos consigam compreender isto. Bradon levou apenas alguns minutos para terminar o desenho. — Com arma ou sem, senhor? — perguntou. — Se quiser, ainda posso desenhar uma carabina. — Sem arma — decidiu Redhorse e retirou-se da sala de comando. Quando retomou à eclusa, apareceram alguns nativos que quiseram saber se não podiam ajudar em alguma coisa. Redhorse chamou um deles. Colocou o desenho de Bradon à frente de seus olhos. Depois apontou ora para o desenho, ora para si mesmo e disse três vezes seu nome. O gleamor pegou o papel, dobrou-o cuidadosamente e retirou-se para o acampamento de sua tribo. Redhorse não esperara que fizesse isso. Resolveu esperar algum tempo pelas reações dos gleamors. Era possível que o homem ao qual Redhorse acabara de entregar o desenho estivesse conversando com seu chefe. — Capitão! — gritou Surfat. Redhorse virou a cabeça. O cabo acabara de colocar Mister Jefferson sobre o ombro e se levantar. — Poderia revezar-me por alguns minutos, senhor? — perguntou Surfat com o rosto impassível. — O que pretende fazer? — perguntou Redhorse. Surfat mexeu nervosamente nos botões da camisa e respondeu, deixando Redhorse perplexo:

— Quero entrar nessas moitas, senhor. Redhorse cobriu o olho com a mão e espiou para fora da eclusa. — Não vejo nenhuma moita, cabo. — Há musgos muito altos, senhor — disse Surfat, desesperado. — Foi só uma maneira de dizer. Pensei que o senhor compreendesse. Redhorse cocou o queixo. Parecia pensativo. — Acho que já compreendi, Brazos. Geralmente costuma-se usar a pequena toalete de bordo para estas coisas. Mas se preferir ceder à sua tendência interior ao ar livre, não sou eu que vou impedi-lo. Surfat saltou da eclusa e saiu correndo para o outro lado do jato espacial. Redhorse sorriu e sentou dentro da eclusa. Dali a dois minutos Surfat voltou. Estava com o rosto vermelho e parecia confuso. — Foi muito rápido — disse Redhorse em tom amável. — Não foi coisa alguma — gemeu Surfat. — Estes malditos nativos com sua amabilidade exagerada.

Redhorse contemplou Surfat, que parecia desolado, e fez um grande esforço para não sorrir. — O que houve, cabo? — perguntou. — Queriam ajudar — suspirou Surfat. — Não consegui explicar a esses idiotas que em certas circunstâncias o homem pretende ficar só. — O que vai fazer, Brazos? — perguntou Redhorse. — Usar a toalete de bordo, senhor — disse Surfat, passando por Redhorse. — Eles são uns monstros, senhor — afirmou antes de desaparecer na sala de comando. — Ainda acabarão conosco com essa vontade de ajudar.

* * *

Quatro horas depois do nascer do sol Gilliam e Doutreval já tinham concluído os reparos de suporte e começavam a montá-lo. Foram cercados imediatamente por um grupo de gleamors, que quiseram fazer o trabalho por ales. Redhorse observava os nativos do interior da câmara da eclusa. Seu mal-estar ainda não diminuíra, se bem que não havia nenhum sinal de que as intenções dos nativos não fossem boas. Esse povo realmente parecia sentir-se feliz em prestar uma ajuda desinteressada aos astronautas desconhecidos. Redhorse tinha dado ordem para que Surfat e Chard Bradon ficassem de sentinelas. Não acreditava que a presença dos gleamors representasse uma garantia de que não iria haver novos ataques. Quando Redhorse nem esperava mais que isso acontecesse, um nativo alto aproximou-se da eclusa, com o desenho de Bradon na mão. — Então? — perguntou Redhorse em tom de curiosidade. — Qual é a novidade? Os dedos esguios do homem apontaram para o desenho do astronauta. O gleamor acenou com a cabeça e disse:

Treleite. Redhorse levantou. O gleamor que se encontrava à sua frente parecia ser mais inteligente que seus companheiros. Talvez conseguisse estabelecer comunicação com o mesmo. Redhorse também apontou para o desenho e disse seu primeiro nome. — Treleite — repetiu o gleamor. Ergueu ostensivamente o papel, para que todos o vissem, e rasgou-o em quatro partes. Redhorse imediatamente pôs a mão na arma. Doutreval e Gilliam interromperam seu trabalho. O gleamor atirou os pedaços de papel no chão e sorriu amavelmente para Redhorse. Depois foi-se afastando todo empertigado. Doutreval tirou os cabelos do rosto sujo de óleo e fitou o gleamor com uma expressão pensativa. — Deu para compreender, senhor? — perguntou. Redhorse sacudiu lentamente a cabeça. O comportamento completamente inesperado do estranho o deixara chocado. Não combinava com as atitudes que o gleamor vinha adotando antes. Por que o nativo rira depois de ter destruído o desenho? Será que acreditava que esse ato representava mais uma prova de amizade? — Que turma esquisita, senhor — disse Gilliam, falando devagar. — Acho que deveríamos ter muito cuidado com eles. O sargento também parecia ter certos receios, segundo constatou Redhorse. Teve a impressão de que a solução do enigma era iminente, mas alguma coisa parecia impedi-lo

de adotar um procedimento capaz de resolver o problema. Os gleamors tinham uma mentalidade estranha. Nas poucas horas em que mantivera contato com esses seres, Redhorse não poderia ter adquirido conhecimentos suficientes sobre esse povo para compreendê-lo. Nem sequer sabia de onde vinham os gleamors. Não conhecia seu estilo de vida nem seu grau de inteligência. O grupo de cem desconhecidos simplesmente saíra da floresta para acomodar-se nas proximidades do jato espacial. Será que antes disso viviam em alguma aldeia, ou vagavam como nômades pela face de seu planeta? Tinham deixado suas armas em algum lugar? Ou eram felizes a ponto de não saberem o que eram armamentos? Redhorse poderia ter acrescentado pelo menos mais uma dezena de perguntas para as quais também não teria encontrado resposta. Os gleamors eram amáveis e pareciam dar-se por satisfeitos por poderem levar vida despreocupada. — Assim que tiver montado o suporte, faremos uma reunião na sala de comando — disse Redhorse, dirigindo-se a Doutreval e Gilliam. — Precisamos descobrir mais alguma coisa sobre estes gleamors. Tenho certeza quase absoluta de que estamos numa pista muito importante. — Acha que ainda vamos encontrar o transmissor? — perguntou Doutreval. — Bem que eu gostaria de poder dar resposta afirmativa — disse Redhorse. — Mas tenho a impressão de que no momento estamos mais longe de nosso objetivo propriamente dito que no início da missão.

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Brazos Surfat oferecera-se espontaneamente como sentinela porque, conforme dizia, não estava em condições de apresentar qualquer idéia que pudesse ser útil na situação em que se encontravam. Os outros quatro homens estavam reunidos na sala de comando. Don Redhorse apresentou um relato ligeiro do que tinha acontecido em Gleam. Tinha esperança de que os homens notassem alguma coisa que lhe tivesse escapado. — Isto me faz lembrar o ovo de Bradon — disse o capitão ao concluir. — Sabemos que tudo que encontramos por aqui é estranho. Gleam tem um aspecto pacato, mas sabemos que a qualquer momento a casca do ovo pode romper-se e alguma coisa inesperada acontecerá. — Os gleamors sempre andam por perto, mas parecem recusar-se em comunicar-se conosco — disse Doutreval. — O desenho rasgado e as tentativas que o capitão realizou nesse sentido são a melhor prova. — Isso não prova absolutamente nada — objetou Bradon. — Quem pode afirmar que os nativos não queiram comunicar-se, à sua maneira? Redhorse levantou-se. — Acho que o senhor está indo longe demais, Chad — disse em tom pensativo. — A mentalidade de um ser extraterrestre nunca pode diferir tanto da nossa que não se encontrem alguns gestos e conceitos que permitam uma conversa rudimentar. As tripulações de nossas naves exploradoras já se defrontaram com inúmeros povos estelares que se encontram no início da evolução e quase não possuem nenhuma inteligência. Mesmo nestes casos sempre foi possível uma aproximação, nem que fosse através da linguagem falada pelas armas. — Por aqui não existem armas — objetou Gilliam. — Mas existe inteligência suficiente para compreender um desenho simples — disse Redhorse. — Não se esqueça do relógio solar. Seu princípio de funcionamento é

semelhante aos do planeta Terra. Nestas condições um desenho como o que Bradon fez deveria encontrar alguma compreensão. — Não sabemos se o relógio solar foi instalado pelos gleamors — disse Bradon, — Pode ser que tenha sido um outro povo. Antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, Surfat entrou. — Seria bom que todos saíssem, senhor — disse, dirigindo-se a Redhorse. — Que houve, Brazos? — perguntou Redhorse, colocando a mão na arma. Os homens foram acompanhando o cabo para a câmara da eclusa. — Os robôs — disse Surfat, zangado. — Voltaram. Redhorse olhou para a paisagem com a qual já se familiarizara. Os dois robôs estavam parados a uns cem metros do jato espacial. — De onde vieram? — perguntou Redhorse, dirigindo-se ao cabo. — Não prestei atenção — confessou Surfat. — Concentrei-me nos nativos — teve de fazer um movimento para defender-se de Mister Jefferson, que gostava de sua orelha e se pusera a roer a mesma. — Quando levantei os olhos, estavam lá. Pode ser que não estejam mais loucos, mas o fato é que tenho medo deles, capitão. — Por que não estão chegando mais perto? — perguntou Bradon. — Estão parados como se não soubessem o que fazer. Redhorse pôs-se a observar os nativos. Os gleamors nem tomavam conhecimento da presença das duas máquinas de guerra. Alguns deles estavam à espera na frente da eclusa, querendo ajudar os terranos. Sorriam para os astronautas que se encontravam na eclusa. — Não estou gostando — disse Gilliam. — Até parece uma armadilha, senhor. — O que vamos fazer? — perguntou Surfat, perplexo. — Não podemos deixar esses robôs parados ali. — Estão se movimentando! — exclamou Doutreval. Os dois robôs giraram repentinamente o corpo, ficando de costas um para o outro. — Parece uma atitude bem militar, senhor — disse Bradon. Os dois robôs saíram marchando em direção oposta. Cada um percorreu cerca de vinte metros. Depois ficaram parados. Os nativos não pareciam dar nenhuma importância ao fenômeno, pois não lhe dedicaram atenção. Alguns minutos se passaram antes que os robôs voltassem a movimentar-se. Cada um fez um giro de cento e oitenta graus, fazendo com que ficassem frente a frente. Gilliam foi o primeiro que compreendeu o que estava acontecendo. — Pelos planetas do Universo, capitão! Estão travando um duelo! Antes que Redhorse pudesse dizer qualquer coisa, as armas dos robôs cuspiram fogo. Numa questão de segundos os dois se desmancharam numa fornalha atômica. A única coisa que sobrou foram duas bolas de metal incandescente. — Nenhum deles ligou seu campo defensivo — disse Bradon. Sua voz revelava o nervosismo que se apoderara dele. — Pelo menos já não precisamos preocupar-nos para descobrir o que é feito deles — disse Redhorse em tom seco. — Como pôde acontecer isso? — resmungou Surfat. — Nenhum sistema positrônico teria uma idéia tão maluca. Alguma coisa influenciou os robôs — levantou ameaçadoramente a carabina. — Aposto que os gleamors são responsáveis por isso. — Tenho minhas dúvidas de que o senhor vai ganhar a aposta — disse Bradon. — Por que os gleamors fariam os robôs desfilar à nossa frente, para a seguir se destruírem mutuamente? Poderiam ter travado a luta na floresta, para não aumentar nossa desconfiança.

— Que planeta louco — suspirou Surfat. — Capitão, por que não entramos no jato, fechamos a eclusa e vamos embora? — Seria a coisa mais razoável que poderíamos fazer — confessou Redhorse. — Mas faço questão de descobrir qual é o jogo que está sendo feito aqui. — Concordo plenamente, senhor — disse Bradon. — Nesta altura não podemos desistir. Talvez fosse exatamente isso que eles queriam conseguir com a destruição dos robôs. — Permanecemos exclusivamente no terreno das hipóteses — disse Surfat, exaltado. — Na verdade, não sabemos absolutamente nada. É possível que cada um desses esquisitos gleamors seja mais perigoso que uma frota dos maahks, e nós ficamos discutindo por que são tão amáveis. Às vezes o gato costuma brincar com o rato antes de matá-lo. — Vamos examinar os restos dos robôs — decidiu Redhorse. — Há poucas chances de descobrirmos algo de interessante, mas não custa tentar. As suposições de Redhorse se confirmaram. Bradon e Surfat examinaram os dois montes de escórias, mas não encontraram absolutamente nada. — Quer dizer que vai começar tudo de novo — disse Redhorse, depois que os dois homens tinham voltado. — Precisamos tentar encontrar um meio de fazer com que os gleamors abandonem sua atitude de amável passividade — sugeriu Doutreval. — Como? — perguntou Bradon. — Vamos arrastar uma dessas estranhas figuras à força para dentro do jato espacial — disse Surfat. — A idéia não é nada má — disse Redhorse. Surfat arregalou os olhos de espanto. — Estava brincando, senhor — apressou-se em dizer. — Nunca acreditei que o senhor pudesse pensar em levar a sério esta idéia. — Talvez só estejam esperando uma oportunidade de entrar no jato — disse Redhorse. — É possível que seja isto que eles querem, se bem que não podemos ter certeza. Vamos dar-lhes uma pequena chance. Só assim teremos oportunidade de descobrir alguma coisa sobre os nativos. Redhorse saiu imediatamente. Não teve necessidade de ir ao acampamento dos gleamors. Assim que saiu da nave, viu-se cercado por alguns homens que esperavam que ele manifestasse suas intenções. “Provavelmente”, pensou Redhorse, sarcástico, “eles até arrancariam o musgo, se ele começasse com um trabalho tão insensato.” Redhorse agarrou um dos gleamors pelo braço e arrastou-o para perto do jato espacial. O desconhecido não tentou resistir. Os outros nativos também não fizeram menção de tomar qualquer providência. Numa atitude solícita e amável, acompanharam Redhorse até a eclusa. — Parem de rir! — gritou Redhorse. — Estamos em guerra. Entenderam? Em guerra. — Perleite! — gritaram os gleamors, entusiasmados, tentando ajudar Redhorse a colocar seu companheiro, que não se mostrava nem um pouco assustado, dentro da eclusa. Surfat e Bradon obrigaram os nativos que se tinham adiantado a recuar, fazendo com que Redhorse pudesse levar sua vítima livremente para dentro da sala de comando. Mister Jefferson soltou um chiado alegre quando Surfat levou um empurrão que por pouco não o faz perder o equilíbrio e cair da eclusa.

Redhorse dedicou sua atenção ao nativo. O gleamor não demonstrava nenhum interesse pelo interior da nave-disco. Mantinha os olhos cristalinos dirigidos para Redhorse. — A gente tem a impressão de que você só está esperando uma oportunidade de fazer-nos uma gentileza — disse Redhorse em tom de ameaça. — Acontece que não acreditamos em você. O gleamor soltou uma risadinha alegre e cruzou os bracinhos magros sobre o peito. O saiote que usava balançava toda vez que fazia um movimento. Redhorse teve de confessar que poucas vezes tinha visto um quadro mais inofensivo. Mas apesar disso passou a ocupar-se com o homem. Esforçou-se durante uma hora inteira para levar o nativo a abandonar sua atitude amável. Gritava para ele, ameaçava-o com a arma e até chegou a bater duas vezes com toda violência em seu peito. O gleamor suportava tudo e até parecia gostar. Devia saber representar muito bem, ou então não possuía nenhum instinto de autoconservação. Talvez houvesse mais alguma possibilidade muito esquisita, de que Redhorse no momento não se lembrava. Quando Redhorse voltou a levar o nativo para a eclusa, estava suando de tanto que se tinha esforçado. Como que para demonstrar a inutilidade dos esforços de Redhorse, o nativo quis ajudar o oficial a sair da eclusa. Nenhum dos quatro homens fez qualquer pergunta ao cheiene sobre o resultado da experiência. O rosto sombrio de Redhorse dizia tudo. Os gleamors reuniram-se em seu acampamento precário. — Estão cantando de novo — disse Gilliam, amargurado. Os nativos entoaram seu estranho canto, que antes parecia um uivo triste. Redhorse observou-os em silêncio. Viu-os levantarem os braços magros, como se quisessem implorar o auxílio de deuses desconhecidos. — Toda vez que eles cantam acontece alguma coisa — disse Doutreval. Redhorse passou os olhos pela paisagem. “Gleam é um desafio sem igual”, pensou. Os acontecimentos que se desenrolavam em sua superfície não eram menos estranhos que o aspecto do planeta visto do espaço. Sempre apareciam planetas que representavam um grande desafio para os astronautas. Qualquer homem poderia retirar-se sem aceitar o desafio. Mas não era isso que Redhorse pretendia fazer. — Alguém tem uma sugestão? — perguntou Bradon. Não houve resposta. Os quatro homens olhavam ansiosamente para o Capitão Redhorse. Dependeria dele que eles voltassem para o espaço cósmico, onde estariam em segurança, ou passassem mais uma noite em Gleam. Redhorse não os deixou esperar muito tempo. — Vamos ficar — disse com a voz calma. Sua voz firme superou o canto dos gleamors. O Capitão Don Redhorse acabara de aceitar o desafio.

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Entraram num pequeno jato espacial e voltaram ao inferno de Andro-Beta, a fim de determinar a posição do transmissor cujos impulsos controlavam os mobys. Acabaram contrariando as ordens recebidas, pousando em Gleam, um mundo estranho habitado por seres ainda mais estranhos ... O Mistério do Planeta dos Pântanos — próximo volume da série — trará emocionantes e misteriosos momentos. Não perca!