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O MISTÉRIO DO PLANETA DOS PÂNTANOS Everton
Autor

WILLIAM VOLTZ

Tradução

RICHARD PAUL NETO

Parece que o avanço terrano para as áreas dominadas pelos senhores da galáxia teve de ser interrompido em setembro do ano 2.402. A súbita entrada em atividade dos mobys, que eram considerados mortos, até obrigar Perry Rhodan a retirar as unidades de sua frota para a periferia da nebulosa Andro-Beta. Só uns poucos jatos espaciais — trata-se de veículos espaciais pequenos, velozes e muito ágeis, que o inimigo dificilmente conseguiria localizar — são destacados para voltar ao inferno de Andro-Beta. A tarefa destes comandos suicidas consiste em descobrir a posição do hipertransmissor cujos impulsos ativaram os monstros chamados mobys e os levaram a realizar sua ação destruidora. O Capitão Don Redhorse, um cheiene impetuoso, está no comando de um dos jatos espaciais. Dirige-se a Gleam no SJ-4C, com quatro tripulantes. Trata-se de um mundo estranho, habitado por seres ainda mais estranhos. O capitão pousa no planeta, contrariando as ordens que lhe tinham sido dadas. Mas acredita que sua ação se justifica. Trata-se de resolver O Mistério do Planeta dos Pântanos...

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Personagens Principais: = = = = = = =

Capitão Don Redhorse — Comandante do SJ-4C. Brazos Surfat — Um cabo que aprecia o conforto e a boa comida. Whip Gilliam — Tripulante do SJ-4C. Olivier Doutreval — Rádio-operador do SJ-4C. Chard Bradon — Um aspirante a oficial que está chocando um ovo. Loor Tan — Chefe dos gleamors. Major Curd Bernard — O oficial de intendência da Crest, que está fora de si.

1
Euforia, disposição alegre, sensação de bem-estar, apesar de uma situação perigosa. “É isso”, pensou o Capitão Don Redhorse, comandante do jato espacial SJ-4C, que tinha pousado em Gleam há três dias. — Euforia — disse a si mesmo. Depois fechou o manual. Não havia necessidade de ler as outras observações apresentadas sob este verbete. Por um instante Redhorse permaneceu imóvel no meio da sala de comando. Não se ouvia nenhum ruído vindo de fora. Redhorse sorriu. Provavelmente seus quatro companheiros mais uma vez se deixavam carregar pelos nativos. Os cem gleamors que se encontravam por perto pareciam ser escravos solícitos, sua paciente amabilidade tinha algo de arrebatador. Não havia nada que não estivessem dispostos a fazer pelos terranos. A desconfiança que reinara no início entre os terranos tinha desaparecido. Brazos Surfat, Whip Gilliam, Olivier Doutreval e Chard Bradon pareciam sentir-se muito bem. Sentiam um prazer todo especial em deixar que os gleamors os carregassem de um lado para outro. Redhorse era o único que continuava a combater em vão a desconfiança que sentia. Os gleamors davam a impressão de serem relativamente inteligentes, mas por enquanto não tinha sido possível comunicar-se com eles. A reação deles diante das tentativas nesse sentido era estranha. Parecia que não compreendiam nem mesmo os gestos mais simples, sempre que se tratava de manifestar as intenções dos terranos. O sistema Tri, em torno de cujo sol médio circulava o planeta Gleam, era uma das nove bases de choque situadas no interior de Andro-Beta, que tinham sido localizadas a partir do espaço intergaláctico. Durante a aproximação do SJ-4C tudo indicara que a nona base de choques era aquela que emitia os impulsos que serviam para ativar os mobys no espaço de Andro-Beta. Mas assim que o jato espacial pousou na superfície do planeta, Doutreval, o rádiooperador, não conseguiu captar mais nenhum impulso. Apesar disso Redhorse continuava a acreditar que o hipertransmissor ficava no sistema Tri. Isso o levara a desobedecer às ordens de Rhodan e resolver permanecer por algum tempo no planeta. O capitão queria descobrir de qualquer maneira a posição exata do transmissor. Se os terranos não conseguissem destruir essas instalações e paralisar os mobys, não haveria nenhuma esperança de usar Andro-Beta como trampolim para alcançar Andrômeda. Foi nisso que o cheiene pensou enquanto estava parado no interior do jato, escutando. Finalmente um ronco forte interrompeu seus pensamentos. Foi até a mesa dos mapas e inclinou-se para ver o que havia embaixo da mesma. Numa caixa quadrada estava deitado Mister Jefferson, um habitante inofensivo de Gleam, que tinha certa semelhança com um quati. Os gleamors criavam esta espécie como animais domésticos. Era outro sinal da inteligência dos nativos. O ovo de Horror, pertencente a Bradon, estava guardado ao lado de Mister Jefferson. O aspirante a oficial tinha encontrado o mesmo no mundo oco, e desde então vivia carregando-o consigo. Bradon fazia votos de que ainda houvesse um meio de chocar o ovo. Depois que as tentativas com uma lâmpada de mil watts não tinham dado certo, Mister Jefferson iria tentar a sorte.

Redhorse coçou a nuca do animal. — parece que você gosta mais de nós que dos gleamors — disse em voz baixa. — Será apenas por curiosidade, ou é o resultado de uma decisão inteligente? Mister Jefferson ronronou muito alegre e encostou a cabeça à mão de Redhorse. O animal fizera amizade principalmente com o cabo Brazos Surfat. Mas naquele momento o mesmo deixava que os nativos o carregassem sobre os ombros e o alimentassem com cogumelos macios. Um ruído vindo do lado da eclusa fez com que Redhorse se sobressaltasse. Pegou a carabina e saiu da sala de comando. Mister Jefferson saltou da caixa em que estivera deitado e veio atrás dele arrastando os pés. Chard Bradon estava parado à frente da eclusa. Os dois nativos que o tinham carregado mantinham-se à espera atrás dele. Redhorse fez um esforço para não demonstrar seu aborrecimento. Bradon, um jovem aspirante a oficial, parecia não notar o desagrado que seu comportamento estava causando a seu superior. — Já sei por que os gleamors usam estes saiotes esquisitos — disse. Redhorse olhou para além de Bradon. Viu junto à floresta alguns gleamors que se mantinham ocupados lustrando os sapatos do cabo Surfat. Gilliam e Doutreval encontravam-se no acampamento dos gleamors. Como estavam cercados pelos nativos, Redhorse não via quase nada deles ou do que se passava por lá. Provavelmente os dois estavam sendo alimentados com saborosos cogumelos. — Senhor — disse Bradon em tom ofendido. — Pensei que estivesse interessado no que eu descobri. — Diga logo, Chard — disse Redhorse, dirigindo-se ao jovem. — Com estes saiotes os gleamors podem entrar bastante no pântano — informou Bradon. — Toda vez que afundam até os quadris, os saiotes os sustentam, evitando que eles morram afogados na lama. É assim que os gleamors conseguem todo alimento que consomem. — O que pretende fazer, Chard? — perguntou Redhorse. Bradon não sabia muito bem o que dizer. Notou que a amabilidade com que até então Redhorse tratara seus companheiros tinha desaparecido. — Não sei, capitão — respondeu, falando devagar. — Pensei em pedir aos dois tipos que vieram comigo que me levassem ao acampamento dos gleamors. Por ali sempre se consegue uma refeição saborosa. — Pode ser — disse Redhorse. — Mas antes disso queria que fosse comigo à sala de comando. Quero mostrar-lhe uma coisa. Chard Bradon apoiou os braços na borda inferior da eclusa. — Senhor, acho que sua desconfiança para com os gleamors é exagerada. Eles se esforçam sinceramente para servir-nos. Chegam a adivinhar nossos desejos. Passamos três dias com eles e não houve um único incidente. — E os robôs? — lembrou Redhorse. — Tenho certeza de que os nativos não podem ser responsabilizados por isso. — Venha comigo à sala de comando — disse Redhorse. Ao ver que Bradon hesitava, acrescentou em tom enérgico: — Isto é uma ordem! Os dois gleamors fizeram menção de acompanhar Bradon, mas Redhorse empurrouos para trás e fechou a escotilha externa da eclusa. Uma vez no interior da nave-disco, Redhorse sentou na poltrona do piloto.

Bradon ficou de pé, com os ombros caídos, perto do computador, Era um homem contrariado, que se via impedido de fazer o que queria. Redhorse observou-o zangado, mas com certa compreensão. Não podia acusar Bradon, se até mesmo homens experimentados como Gilliam, Surfat e Doutreval sucumbiam à amabilidade exagerada dos gleamors. — Enquanto o senhor se divertia como uma criança lá fora, andei refletindo no nosso problema — principiou Redhorse. — Acho que encontrei algumas respostas às perguntas que ocupam a mente de todo mundo. — Estou curioso para saber, senhor — disse Bradon. Redhorse notou uma ligeira ironia na voz do aspirante a oficial, mas não tomou conhecimento da mesma. — Os nativos possuem um dom paranormal pouco acentuado — disse Redhorse. — Não são telepatas nem dispõem de outras faculdades psíquicas pronunciadas. Seu poder paranormal se funda no canto que vivem entoando. Bradon sorriu. — Desculpe, senhor, mas não compreendo. — As emanações dos gleamors são muito fracas, mas foram suficientes para enlouquecer nossos robôs de guerra. O cérebro humano não é tão sensível aos impulsos hiperdimensionais como os controles positrônicos. O canto dos gleamors está ligado a uma força parapsíquica. — Admitamos que o senhor tenha razão, capitão. De que forma este canto poderia tornar-se perigoso para nós? — Por causa da euforia — disse Redhorse. — Dentro de pouco tempo nos sentiremos como se estivéssemos no sétimo céu, e seremos incapazes de identificar qualquer perigo antes que seja tarde. Os gleamors querem que nos sintamos seguros. Não sei se agem assim propositadamente ou não. Bradon deu alguns passos na direção do oficial. — Acontece que ainda sou dono dos meus sentidos — protestou. — Conservo a capacidade de decidir livremente. Um sorriso ligeiro apareceu no rosto anguloso de Redhorse. — O senhor se sente feliz, Chard? — perguntou. Bradon abriu os braços, num gesto de perplexidade. — Sinto — respondeu. — Muito feliz? — Não sei o que quer dizer com isso, senhor — exclamou Bradon. Tentou esquivar-se ao olhar penetrante de Redhorse. Finalmente confessou em tom hesitante: — Está bem, capitão. Sinto-me muito feliz. Há algo de errado nisso? Redhorse levantou, aparentemente sem fazer nenhum esforço. Era um homem alto e magro, de rosto anguloso e cabelos preto-azulados. Seus movi mentos pareciam preguiçosos, mas notava-se perfeitamente a leveza com que os realizava. Redhorse parou à frente de Bradon. — Esse sentimento de felicidade aumentará ainda mais, Chard — disse. — O senhor e os outros três chegarão a sonhar, com seu bem-estar. Também não estou livre disso. Os gleamors nos deixam entorpecidos. Usam contra seus inimigos o método mais estranho de que já ouvi falar. Chegam a ser nojentos de tão amáveis e solícitos que se mostram. Bradon sentiu a raiva contida na voz de Redhorse. — Será que é crime ser amável? — resmungou.

— Estão se rebaixando — disse Redhorse. — Fazem como se fossem escravos, mostrando-se dispostos a fazer qualquer trabalho, por mais humilhante que seja. E com tudo isso ficam rindo e cantando, como se sentissem um prazer extraordinário. Provavelmente só esperam o momento em que atiramos fora nossas armas e chegamos perto deles, saciados, cansados e felizes. Então, Bradon, e só então, virá o amargo despertar. — Não consigo compartilhar sua desconfiança, senhor — respondeu Bradon, insistindo em seu ponto de vista. — O senhor já chegou a um ponto em que acha que a paisagem pantanosa que se estende lá fora é um paraíso — disse Redhorse. — Se neste momento saísse uma cobra gigante da lama, o senhor estaria disposto a acreditar que se trata de uma inofensiva minhoca. Foi o que os gleamors conseguiram com seu incrível amor ao próximo. Redhorse assustou-se ao notar que suas palavras não encontravam ressonância junto a Bradon. Era como se falasse para uma parede. Redhorse já se encontrara com inúmeras pessoas durante sua vida, e possuía um instinto seguro para os sentimentos das mesmas. O capitão percebeu que a única coisa que Bradon sentia era uma raiva misturada com incompreensão. Era que nem uma criança da qual se quisesse tirar o brinquedo que lhe tinha sido dado pouco antes. Depois de algum tempo, Bradon disse com uma expressão astuciosa no rosto: — Se acredita que este planeta é tão perigoso, por que não decola, senhor? — Pousamos para encontrar o hipertransmissor dos senhores da galáxia — disse Redhorse. — O mesmo encontra-se no sistema Tri. E Gleam representa nossa única chance de encontrar alguma indicação. — O que pretende fazer, capitão? — Vou convocar a tripulação para dentro do jato — anunciou Redhorse em tom resoluto. — Terei que proibir que se mantenham ocupados por mais tempo com os nativos. — Se os gleamors representam a chave para este abre-te Sésamo, isso não será uma decisão inteligente, senhor. “Isso é uma crítica declarada”, pensou Redhorse, mais espantado que aborrecido. Precisava agir imediatamente, antes que se tornasse impossível separar os quatro homens dos nativos. — Acompanhe-me! — ordenou, dirigindo-se a Bradon. — Vamos ao acampamento. Saíram juntos do jato espacial. Era o fim da tarde. Nuvens carregadas de chuva passavam junto ao horizonte. Um calor sufocante cobria a paisagem. Alguns nativos estavam cantando. Surfat também tinha sido carregado para o acampamento. O cabo estava sentado ao lado de Gilliam e Doutreval, deixando que os nativos o alimentassem. Redhorse proibiu que Bradon se deixasse carregar pelos dois nativos que estavam à sua espera. O terremoto começou antes que Redhorse e Bradon chegassem ao acampamento dos gleamors. Redhorse sentiu a vibração fraca do solo, que anunciava o tremor. Parou e colocou a mão sobre o braço de Bradon. O chão tremeu como se fosse um animal gigantesco que estivesse acordando. Redhorse viu Bradon abrir a boca sem dizer nada. Os nativos que estavam reunidos no acampamento levantaram-se. Os três astronautas ficaram entre os gleamors, dando a impressão de que não compreendiam o que estava acontecendo. O planeta acalmou-se por um instante, talvez um segundo. Depois veio o segundo tremor. O solavanco foi tão forte que Redhorse cambaleou.

As coisas começaram a balançar diante de seus olhos. Até parecia que estava olhando através de uma lâmina de vidro partida. Bradon soltou um estridente grito de alerta. Redhorse ficou de pé, com as pernas afastadas, cônscio de sua impotência diante das forças da natureza. Metade dos gleamors caiu ao chão, como se tivesse sido derrubada por uma salva silenciosa. Gilliam, Doutreval e Surfat continuavam sentados no mesmo lugar. À sua frente viam-se sacolas de pano com cogumelos comestíveis. De repente parte da floresta de cogumelos desapareceu diante dos olhos de Redhorse. Redhorse já assistira a um show durante o qual um mágico fizera desaparecer sua parceira de cima do palco. A mesma se dissolvera instantaneamente e em silêncio sob as mãos do artista. O capitão lembrou-se do espetáculo. O trecho de floresta também tinha desaparecido com uma rapidez incrível. Redhorse levou algum tempo para compreender que os cogumelos tinham caído numa fresta que se abrira no chão. O tremor de terra era cada vez mais violento. Redhorse teve a impressão de que alguém o golpeava com o punho na região do estômago. No acampamento dos nativos a confusão era completa. Os gleamors caíam ao chão e tentavam levantar de novo. Andavam cambaleantes de um lado para outro, aparentemente sem destino, tangidos somente pelo medo. Seu instinto de autoconservação era muito mais desenvolvido do que Redhorse acreditara no início. O capitão perguntou-se por que justamente nesse momento esta idéia lhe passava pela cabeça. Ouviu um grito apavorado, vindo de trás. Virou-se abruptamente. O chão empinou embaixo de seus pés, atirando-o alguns metros para o lado. Durante a queda viu o jato espacial. O mesmo tinha escorregado lateralmente para dentro de uma fenda menor. Duas colunas de sustentação estavam empinadas, erguendo-se ao céu como se fossem garras de uma ave gigantesca. O disco estava coberto de lama, terra e pedaços de plantas, com exceção da carlinga. Bradon estava deitado entre Redhorse e o SJ-4C. Estava com a cabeça levantada, olhando ininterruptamente para o jato, como se isto pudesse proteger o veículo contra novos perigos. Redhorse ficou rastejando pelo solo trêmulo, na direção em que estava o aspirante a oficial. Bradon virou a cabeça para ele. Seu rosto parecia velho e flácido. O musgo começara a soltar espuma. A substância com cheiro de hortelã ficou grudada no uniforme de Bradon. Redhorse quis sorrir para animar Bradon, mas só conseguiu fazer uma careta. Os abalos não diminuíam, alguns gêiseres surgiram no meio do pântano. Bolhas de alguns metros de diâmetro subiam à superfície e estouravam. Os abalos violentos sacudiram o corpo de Redhorse. Bradon subia e descia à sua frente que nem um boneco de pano, com as mãos enfiadas no musgo espumante. O jato espacial balançava como se fosse de papelão. — O jato, senhor! — gritou Bradon. Redhorse continuou a rastejar sobre o musgo grudento, em direção ao jovem astronauta. Olhou para trás e viu que nenhum dos gleamors estava de pé. O cabo Brazos Surfat era o único que se mantinha sobre as pernas no meio do acampamento primitivo, com o crânio enorme avançado e os punhos fechados. Redhorse chegou ao lugar em que estava Bradon. — Estamos perdidos! — gritou Bradon, confuso. Sua voz parecia rouca. Cuspiu alguns pedaços de sujeira que quase chegara a engolir no momento em que um abalo mais forte comprimira seu rosto contra o tapete vegetal. Os dois gleamors que tinham acompanhado Bradon estavam deitados obliquamente à sua frente. Seguravam-se um no outro, como se nesta posição nada lhes pudesse acontecer.

Os abalos foram-se tornando menos violentos. Redhorse fez um grande esforço e conseguiu pôr-se de pé. Neste momento o chão rachou a cem metros do lugar em que se encontravam. A fenda avançava em sua direção. — Levante! — gritou Redhorse para Bradon. Não esperou para ver o que Bradon iria fazer. Saiu correndo. Lá longe havia uma parede de chamas sobre o mar. Uma fumaça escura espalhava-se em cima do mesmo. “É uma ilha vulcânica”, pensou Redhorse. Provavelmente voara para o alto. Enquanto corria para salvar a vida, lembrou-se da onda gigante que certamente seria provocada pela erupção. A fenda no chão corria em V, em direção ao antigo acampamento dos nativos. Dois gleamors afundaram aos gritos na superfície de seu planeta. Os abalos terminaram. Redhorse virou a cabeça na direção de Bradon. O aspirante a oficial estava deitado a apenas vinte metros da fenda. Tri II, que era o sol em torno do qual circulava Gleam, emitia um brilho rubrosangue em meio às nuvens de fumaça e chuva. Flocos de cinzas caíam lentamente do céu. Redhorse gritou algumas ordens. Os cinco terranos tiveram muita pressa em chegar à nave-disco. Redhorse foi o primeiro que atingiu a mesma. A eclusa estava intacta. Havia meia tonelada de lama e plantas no interior da câmara da eclusa. Redhorse esperava que assim mesmo conseguiriam fazer decolar a nave-disco. Bradon parou a seu lado. Fungava de cansaço, mas um ligeiro sorriso aflorava em seu rosto. — Tomara que o ovo de Horror tenha resistido ao abalo — disse. Redhorse respirou aliviado. O terremoto parecia ter espantado de vez o sentimento de felicidade de Bradon. O capitão não tinha dúvida de que o fenômeno também despertara os outros tripulantes de seu sentimento de satisfação. Gleam voltara a mostrar o perigo que encerrava. Whip Gilliam chegou perto do jato espacial. Contornou a nave-disco antes de começar a falar. — O que acha, sargento? — perguntou Redhorse. — Poderemos decolar assim que limparmos a eclusa — disse Gilliam em tom confiante. Apontou para as colunas de sustentação. — Mas o próximo pouso que realizarmos trará problemas. — Receio que sim — confessou Redhorse. Era típico de um homem como Gilliam falar num instante como este no próximo pouso, embora nem tivessem certeza de que conseguiriam decolar. Redhorse bem que gostaria de poder transferir um pouco dessa tranqüila confiança para sua pessoa, pois seu otimismo tinha sofrido uma forte diminuição. Doutreval aproximou-se. Contemplou as avarias sem dizer uma palavra. Redhorse viu o rádio-operador sacudir a cabeça. Finalmente Surfat também atingiu o jato, suando e fungando, com a calva suja de lama. Surfat parecia um palhaço mal maquiado, mas Redhorse não teve nenhuma vontade de rir ao ver o cabo. — Parece que teremos de passar o resto da vida em Gleam, cultivando cogumelos — disse Surfat. — Bem que eu imaginava que não sairíamos daqui sem mais aquela. — Faça o favor de guardar seus pressentimentos para si — pediu Redhorse. — A onda gigante! — gritou Doutreval de repente. Uma parede de alguns metros de altura, vinda do mar, aproximava-se da área pantanosa. Flocos de cinza caíam sobre os homens como se fossem neve.

— Entrem no jato! — gritou Redhorse para seus companheiros. Os homens foram subindo um após o outro à carlinga da nave-disco. Redhorse fazia votos de que as matas rasteiras dos pântanos quebrassem o ímpeto da onda gigante. Bilhões de cogumelos arrancados do tapete que formavam reuniam-se numa coroa natural no topo da onda. A mesma empurrava os tapetes vegetais à sua frente, como se não pesassem nada. Uma nuvem de fumaça negra flutuava sobre o mar, estendendo-se lentamente terra a dentro e fazendo com que a chuva de cinzas fosse cada vez mais forte. A onda era cada vez mais lenta e baixa, mas já tinha penetrado profundamente na área pantanosa. Montanhas de cogumelos e musgos foram se empilhando, para serem inundadas pelas águas furiosas. Redhorse teve a impressão de ver os corpos despedaçados de alguns animais de grande porte no meio da confusão. Os gêiseres foram abafados pelas águas rolantes, esmagados e extintos, até irromperem novamente em outro lugar, ainda maiores e abrindo seus esguichos em leque. Redhorse ouviu alguma coisa choramingar baixinho. Era Mister Jefferson, que passou rastejando e se aconchegou às costas largas de Surfat. O animal parecia sentir o perigo que ameaçava a todos. À medida que a onda se aproximava, Redhorse teve a impressão de que era cada vez maior. Ainda havia uma parede de fogo sobre a ilha vulcânica invisível. Redhorse imaginava as tremendas massas de lava sendo derramadas no mar, fazendo borbulhar e ferver o oceano, enquanto as lavas arrastavam para o fundo gigantescas ilhas formadas por plantas. A onda gigante aproximou-se em alta velocidade. Já tinha perdido muito de sua força, mas ainda penetraria bem longe terra a dentro. Pelos cálculos de Redhorse, seus esguichos deveriam chegar até a floresta. — Segurem-se! — gritou para os astronautas. Os homens ouviam o rugido das águas. As torrentes precipitavam-se pelo solo, borbulhantes e chiantes, dando a impressão de que num só ímpeto queriam reaver aquilo que as plantas haviam conquistado do mar numa luta de muitos anos. Redhorse levantou os olhos. A onda parecia ser formada unicamente por plantas. Uma espuma branca agitava-se no topo da mesma. A cem metros do lugar em que estava o jato espacial um gravodançarino saiu do pântano. Redhorse viu o animal gigantesco tirar a cabeça da lama, paralisado pelo medo. A onda arrastou o ser. Por um instante Redhorse o viu debater-se desesperadamente, mas logo mergulhou na lama e na vegetação. Finalmente a onda gigante atingiu o SJ-4C. Redhorse encostou o rosto à superfície imunda da nave-disco e agarrou-se desesperadamente. Prendeu a respiração. O jato sofreu um forte abalo ao ser atingido pela onda. Redhorse teve a impressão de que um objeto de cem quilos o comprimia. Sentiu a água puxá-lo. Por pouco não o arrastou para longe do jato. Plantas batiam ruidosamente em seu corpo e chicoteavam seu rosto. Os pulmões quase estouraram. Finalmente conseguiu respirar de novo. Ergueu o corpo. A pequena espaçonave estava totalmente coberta de plantas de todas as espécies. Redhorse arrancou as plantas esfaceladas que tinham ficado penduradas em seu corpo. Suas vestes fumegavam. A água estava bem quente. Surfat também conseguiu pôr-se de pé. Tossia. Todos tinham resistido muito bem à onda gigante, com exceção de Doutreval. O rádio-operador parecia inconsciente. Ao que tudo indicava a pressão da água fizera com que sua cabeça batesse na face externa da carlinga. Deitaram Doutreval à frente da mesma. Gilliam desceu para examinar a eclusa.

— Parece que não está muito pior que antes — informou. — A eclusa abriu-se em sentido oposto ao da onda. A água até chegou a levar parte da lama. Brazos Surfat limpou o pêlo de Mister Jefferson, que choramingava, completamente molhado. Redhorse olhou para o acampamento dos nativos. Estes foram aparecendo um após o outro. Os gleamors também tinham resistido à onda gigante quase sem perdas. Acontecera o que Redhorse supusera. A força da água se quebrara junto à floresta. Uma onda miserável estava refluindo para o mar. Redhorse abandonou o lugar que ocupava sobre a nave-disco e entrou na câmara da eclusa. Entrou na sala de comando, passando pela água e pela lama. Pôs-se a examinar os aparelhos. Funcionavam satisfatoriamente. Somente três das carabinas energéticas guardadas na câmara da eclusa estavam muito sujas. Chard Bradon entrou. Dirigiu-se imediatamente à mesa dos mapas e pôs-se a examinar o ovo de Horror, que continuava no interior da caixa que Mister Jefferson usava para dormir. — Pelo menos não está quebrado — constatou. — Trate de limpar sua arma — ordenou Redhorse. — Surfat e Doutreval também deverão cuidar de suas carabinas. Gilliam já começara a tirar a sujeira da câmara da eclusa. Surfat ainda estava cuidando dos ferimentos de Doutreval. Redhorse sentou na poltrona do piloto. Estava pensativo. Já tinham arriscado a vida mais de uma vez, sem conseguir aproximar-se um passo que fosse do seu objetivo. Ainda não possuíam nenhuma indicação sobre o lugar em que ficava o misterioso transmissor. A nona base de choques sabia esconder muito bem seu segredo. Redhorse tentou imaginar o raciocínio dos seres que tinham construído o hipertransmissor. Onde teria escondido o mesmo, se estivesse no lugar deles? O que eles sabiam a respeito de Gleam? O capitão tinha certeza de que os nativos desempenhavam um papel nisso. Às vezes Redhorse se perguntava se os senhores da galáxia não tinham um meio de observar os esforços desesperados dos terranos, e acompanhavam com uma alegria sarcástica os revezes que os habitantes do terceiro planeta do Sistema Solar estavam sofrendo. Surfat enfiou a cabeça calva na sala de comando. — Doutreval já está em forma de novo — disse. — Parece ter sofrido uma ligeira concussão cerebral. Dali a instantes o oficial Doutreval entrou na sala de comando. — O senhor deveria deitar algumas horas — disse Redhorse. — Tire essas roupas molhadas. Esperou que Doutreval terminasse e cobriu seu corpo. O rádio-operador estava tão exausto que adormeceu imediatamente. — Pronto — disse Redhorse. — Vamos cuidar das nossas roupas. Brazos, prepare alguma coisa para comer. Não acredito que os cogumelos que enfiaram no estômago agüentem por muito tempo. Os gleamors não demoraram a aparecer perto do jato espacial. Sem dizer uma palavra, ajudaram Gilliam e Bradon a limpar a câmara da eclusa. Até chegaram a escalar o disco e removeram as plantas que cobriam o mesmo. — São solícitos e prestativos como sempre — constatou Redhorse. — Para eles o tremor também foi uma catástrofe, mas já vieram nos ajudar de novo.

Alguns nativos começaram a cantar do lado de fora. Redhorse ficou furioso. Tirou uma calça e uma camisa enxuta das provisões de emergência e mudou de roupa. Lavouse e passou a sentir-se melhor. Surfat abriu algumas conservas. Acordaram Doutreval e comeram. A refeição foi tomada em silêncio. Cada um estava entregue aos seus pensamentos. — Já começo a acreditar que o senhor tinha razão, capitão — disse Bradon de repente. Redhorse levantou a cabeça e afastou o prato. Alguns gleamors faziam barulho na câmara da eclusa. Provavelmente estavam examinando o chão lavado, à procura de alguns restos de sujeira. — O que quer dizer com isso, Chard? — perguntou Redhorse. Bradon baixou a cabeça. — Andei pensando, senhor. Permitimos que o canto dos gleamors nos deixasse entorpecidos. Parece que realmente possuem dons parapsíquicos não muito intensos. — Um momento, meu filho — interrompeu Surfat. — Do que está falando mesmo? Redhorse fez um resumo da conversa que tivera com Bradon e informou os tripulantes de que pretendia manter os mesmos afastados dos nativos. — No início pensei que a desconfiança do capitão fosse exagerada — prosseguiu Bradon. — Mas o tremor de terra me fez voltar à realidade. Estávamos prestes a transformar-nos em zangões, que estavam sendo alimentados e engordados pelos gleamors. Mas todo zangão é morto sem contemplação assim que cumpriu sua tarefa. — Quer dizer que o senhor acredita que as intenções dos gleamors não são tão amistosas como eles querem fazer crer? — perguntou Gilliam. — É difícil saber — respondeu Bradon. — É possível que as intenções dos nativos sejam as melhores possíveis, mas quem nos garante que não são controladas por seres que não conhecemos? — Se os gleamors realmente possuem dons parapsíquicos de pequena intensidade, deve haver um motivo para sua presença neste mundo — observou Surfat. — As suspeitas do capitão não deixam de ter sua razão de ser. Antes do tremor de terra cheguei a pensar em nunca mais sair de Gleam, para passar o resto da vida com os nativos. — Isso é bem compreensível — disse Redhorse. — O canto dos nativos provoca desejos desse tipo, a não ser que se procure combater os efeitos do mesmo. — E agora? — perguntou Gilliam com a voz calma. Redhorse pôs-se a refletir. — No fundo a situação continua a mesma. Temos duas alternativas. Podemos decolar imediatamente, tentando alcançar a frota estacionada no espaço intergaláctico, junto a Andro-Beta, apesar das avarias sofridas pelo SJ-4C, ou então arriscamos a perda definitiva da pequena espaçonave e continuamos a procurar o transmissor. Depois das palavras do capitão, todos ficaram em silêncio. O entusiasmo inicial dos astronautas pelo planeta recém-descoberto diminuíra bastante. Todos sabiam que a qualquer momento poderia haver outro tremor de terra. Era duvidoso que sobrevivessem a mais um. Além disso havia uma série de outros perigos, inclusive os misteriosos gleamors. — Se voltarmos agora, não teremos nenhuma justificativa válida para nosso pouso neste mundo — disse Doutreval sem sair da cama. — Isso poderá custar as insígnias ao capitão. Redhorse sorriu. — O senhor parece ser mais altruísta que um gleamor, Olivier.

— Só queria que todos se lembrassem disto — disse o rádio-operador. — Não posso assumir a responsabilidade sozinho por uma permanência mais prolongada, sejam quais forem os motivos — disse Redhorse. — Cada um tem plena liberdade de manifestar francamente sua opinião. Caso a maioria opte pelo regresso, tentaremos a decolagem. — Fui o único que protestou contra o pouso no planeta — resmungou Brazos Surfat. — Mas a esta altura acho que devemos levar até o fim aquilo que começamos. — Sou da mesma opinião — disse Bradon. Gilliam também manifestou sua opinião. — Parece que vamos passar mais algum tempo neste planeta, senhor. Antes que Redhorse pudesse dizer qualquer coisa, os alarmes do jato espacial soaram. Os rastreadores tinham entrado em funcionamento. Doutreval levantou estupefato e sentou junto aos controles. — Pensei que o campo refletor situado no interior da atmosfera fosse impenetrável — disse, confuso. — O que será isto? — Só pode significar que há alguma coisa dentro do campo refletor — disse Redhorse. Dois gleamors entraram na nave-disco. Pareciam nervosos. Fizeram sinais para que os homens os acompanhassem para o lado de fora. — Vamos ver o que aconteceu — decidiu Redhorse. — Levem as armas. Seguiram os dois nativos. Quando saltaram da eclusa, Redhorse viu que os gleamors estavam levantando seu acampamento precário. Recolhiam cobertores e sacolas, que representavam tudo que possuíam. Um grande grupo já estava caminhando na direção da floresta. — Estão saindo — constatou Surfat. — Quase se poderia ser levado a acreditar que estão com medo de alguma coisa. Redhorse olhou para o céu nublado. Dali a uma ou duas horas escureceria. O capitão perguntou a si mesmo quem poderia ter penetrado na atmosfera de Gleam. Será que era uma espaçonave desconhecida que se aproximava? Ou será que Rhodan enviara mais um jato espacial para esta área de Andro-Beta? — Leiteia! — gritou um dos gleamors em tom exaltado. Segurou a mão de Redhorse e tentou arrastar o capitão para onde ia. — Vamos com calma — resmungou o cheiene e libertou-se. — Acho que será preferível que eu volte ao jato e verifique os controles — sugeriu Doutreval. — Talvez descubra o que entrou na área de alcance dos nossos aparelhos. Antes que Redhorse pudesse manifestar sua concordância, apareceram as espaçonaves desconhecidas. Passaram em silêncio sobre as montanhas e aproximaram-se da área pantanosa, perdendo altura constantemente.

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Eram esféricas. E negras. Tinham cerca de cinqüenta metros de diâmetro. Não possuíam a protuberância equatorial que era uma das características das naves esféricas terranas. Voavam uma atrás da outra. A distância mantida entre as diversas naves era sempre a mesma. Seu vôo silencioso tinha algo de apavorante e ameaçador. Redhorse pôs-se a contar. Trinta e seis objetos voadores não identificados se aproximavam. Os últimos nativos, que ainda não tinham chegado à floresta, apressaram o passo. Não havia dúvida de que os gleamors estavam fugindo das naves esféricas desconhecidas. Redhorse apontou para a floresta. — Vamos! — gritou para sua tripulação. — Seguiremos os gleamors. No interior do jato não estaremos em segurança. Suas palavras aliviaram a tensão. Apesar disso os homens saíram andando a contragosto. Nenhum astronauta gosta de abandonar sua nave assim que vê algum perigo pela frente. Brazos Surfat até chegou a correr de volta para o SJ-4C. — Cabo! — gritou Redhorse. — O senhor está cansado da vida? Surfat demonstrou uma agilidade de que ninguém o teria julgado capaz. Saltou com uma rapidez enorme para dentro da câmara da eclusa. — Mister Jefferson! — ouviu Redhorse. — Que idiota! — chiou Bradon, para acrescentar em seguida: — Tomara que resolva trazer o ovo de Horror. Não suporto a idéia de deixá-lo aqui. Redhorse segurou Bradon pelo braço e arrastou-o. Doutreval e Gilliam já tinham uma boa dianteira. Surfat voltou a aparecer na câmara da eclusa, com Mister Jefferson sobre o ombro direito. O animal miava todo assustado e balançava de um lado para outro. Enquanto uma das mãos de Surfat agarrava a carabina, a outra segurava Mister Jefferson. Dentro de mais alguns segundos o cabo alcançou Redhorse e Bradon. — Trouxe o ovo? — perguntou Bradon, fora de si. — Não — respondeu Surfat em tom malvado. — Faço votos de que esta experiência insensata finalmente termine de forma drástica. — Ora! — disse Bradon. — Este cabo finalmente está mostrando sua verdadeira face. Redhorse não deu atenção aos dois. Estava de olho no grupo de naves desconhecidas. As mesmas voavam devagar. Redhorse não viu nenhum sinal de que houvesse propulsores em funcionamento. Era possível que os objetos voadores não identificados possuíssem um sistema de propulsão antigravitacional. Os gleamors certamente já tinham travado conhecimento com essas esferas, pois do contrário não teriam fugido. Redhorse perguntou-se o que poderia ter levado os nativos a prevenir a tripulação do jato. Será que a amizade dos gleamors era verdadeira? Atrás das costas de Redhorse, Bradon e Surfat continuavam a discutir sobre a importância do ovo de Horror. Mas não reduziram a velocidade. Redhorse lançou um olhar ligeiro para trás. Brazos Surfat fazia figura ridícula, mas era espantoso ver com que rapidez movimentava suas pernas grossas.

As trinta e seis naves esféricas entraram numa formação diferente. As dezoito naves que voavam no fim foram avançando uma após a outra para perto das que iam na ponta, formando um ângulo. Redhorse não sabia qual era a finalidade da manobra, mas os pilotos — se é que estes existiam — pareciam saber perfeitamente o que queriam. Gilliam e Doutreval desapareceram entre as primeiras árvores. Redhorse estava satisfeito porque o crepúsculo já descera sobre a paisagem. Só assim podiam ter uma esperança de que os recém-chegados não notassem sua presença. Surfat e Bradon passaram à frente do capitão. Dali a pouco os três terranos também entraram na floresta. Gilliam e o rádio-operador já estavam à sua espera, escondidos entre as árvores. Havia alguns gleamors por perto. Redhorse passou a observar a paisagem de trás de um tronco de cogumelo. Queria ver o que iria acontecer em seguida. Do ponto de vista estratégico as naves voavam de forma imprudente. Eram lentas e ficavam bem próximas uma da outra. Isso provava que os donos das espaçonaves esféricas se sentiam muito seguros. Parecia que sabiam perfeitamente que não havia nenhum perigo para eles, pois nenhum povo que construísse espaçonaves seria tão leviano. A naturalidade com que as naves esféricas sobrevoavam a paisagem deixou Redhorse preocupado. Chegou à conclusão de que os desconhecidos nunca se haviam defrontado com um inimigo que se pudesse igualar a eles, ou sentiam-se muito superiores a um eventual atacante. — Parece que pretendem pousar perto daqui — disse Doutreval, que se encontrava atrás de Redhorse. — Talvez se trate de um vôo de patrulhamento rotineiro — respondeu Redhorse. — É possível que alguém queira saber quais foram as conseqüências do tremor de terra e da erupção vulcânica. — Gostaria de saber de onde vieram estas naves — disse Bradon. — Antes de pousarmos não localizamos nenhum objeto voador no interior do sistema de Tri. — Será que não são naves twonosers? — perguntou Surfat. — Não acredito — respondeu Redhorse. — Além do formato, que é completamente diferente, a formação que estão observando durante o vôo não parece indicar que a tripulação seja twonoser. Um gleamor os interrompeu. Os nativos fizeram sinais para que os acompanhassem para dentro da floresta de cogumelos. Já não pareciam ter tanto medo como no momento em que apareceram as naves esféricas, mas ao que parecia faziam questão de afastar-se dos pântanos. Redhorse não sabia o que fazer. Gostaria de ficar de olho no jato espacial, embora no caso de um ataque não pudesse fazer nada senão permanecer como um espectador inativo. Mas de outro lado poderia ser vantajoso seguir os gleamors. Dessa forma talvez conseguissem descobrir mais alguma coisa sobre essa tribo misteriosa. Se fossem levados a uma aldeia dos nativos, talvez encontrassem alguma indicação. Em hipótese alguma queria dividir a tripulação. A situação era tão perigosa que deviam ficar juntos, houvesse o que houvesse. Redhorse voltou a olhar para as trinta e seis naves esféricas, que se deslocavam em silêncio. Já tinham sobrevoado o jato espacial e aproximavam-se do mar aberto. Redhorse respirou aliviado. Por enquanto o perigo de um ataque ao SJ-4C parecia ter sido afastado. — Vamos acompanhar os gleamors — decidiu Redhorse. — Se começarem a cantar, tapamos os ouvidos. Redhorse sabia que por enquanto não havia perigo de que um dos seus quatro companheiros se deixasse colocar numa espécie de transe. Os terranos já sabiam que a

influência dos nativos podia tornar-se muito perigosa. Um grupo de homens perdido num mundo estranho não podia dar-se ao luxo de ficar sentado calmamente, deixando que alguém os alimentasse. Pela primeira vez os cinco astronautas viram que os gleamors tinham construído uma trilha que atravessava a vegetação espessa. Até então a mesma tinha ficado escondida dos homens. Redhorse acreditava que os gleamors costumavam acampar muitas vezes junto aos pântanos. A maior parte dos nativos já parecia ter-se retirado para dentro da floresta. Somente cinco membros da tribo levavam a tripulação do SJ-4C pela trilha pisada na selva. Mesmo no lugar em que se encontravam os efeitos do tremor de terra tinham sido devastadores. Os terranos e seus acompanhantes tinham de passar constantemente sobre troncos de cogumelo tombados que bloqueavam o caminho. Em vários lugares havia fendas no solo que impediam o caminho dos fugitivos. Os gleamors não pareciam preocupar-se muito com este tipo de problema. Parecia que já estavam acostumados às catástrofes que de vez em quando fustigavam seu mundo. De repente a trilha foi ter numa clareira muito bem protegida contra a visão de cima. Os gleamors tinham ligado as copas de algumas árvores-cogumelo por meio de cordas. Prenderam musgo e outras plantas a essas cordas, formando uma espécie de cobertura vegetal, que dificilmente chamaria a atenção de alguém que sobrevoasse a floresta. Mas num lugar havia uma abertura de dez metros. Assim que entrou na clareira, Redhorse percebeu para que servia essa abertura. Na outra extremidade da clareira viam-se seis figuras ovais, que mal e mal podiam ser reconhecidas na luz crepuscular. Estas figuras levaram o capitão a modificar radicalmente sua opinião sobre os gleamors. Era bastante provável que os corpos ovais fossem objetos voadores. O estranho brilho que os envolvia só podia ser produzido por campos energéticos. Era a primeira vez que o abre-te Sésamo estava funcionando. Mas com isso o mistério que cercava Gleam se tornara ainda maior. *** Como quase sempre costumava acontecer, Surfat foi o primeiro a recuperar-se da surpresa. Colocou Mister Jefferson no chão e pôs a carabina a tiracolo. — Dê uma boa olhada, garotão — disse, dirigindo-se a Bradon. — Procure compreender que um ser que se alimenta de cogumelos e entoa cantos horríveis nem sempre é tolo. Aqui está a prova de que durante todo o tempo os gleamors só se fingiram de ingênuos, quando na verdade... — Brazos — interrompeu Redhorse em tom delicado. — Guarde suas teorias para si. Surfat calou-se. Parecia ofendido. Havia poucos gleamors na clareira. Redhorse acreditava que a maior parte dos nativos já tinha desaparecido no interior dos estranhos objetos voadores. Pela primeira vez Redhorse teve dúvidas de que os gleamors realmente fossem os habitantes primitivos do planeta. De alguma forma o estilo de vida desse povo não combinava com os objetos voadores estacionados do outro lado da clareira. Redhorse não acreditava que os gleamors tivessem representado para os terranos, conforme dissera Surfat. Se os desconhecidos quisessem esconder suas verdadeiras capacidades diante dos terranos, não cometeriam o erro de apontar os sinais exteriores de uma civilização muito adiantada.

Só havia uma resposta. Os seis objetos voadores não tinham sido construídos pelos gleamors. Os cinco nativos que tinham levado os astronautas à clareira insistiram para que se aproximassem das figuras ovais. — Parece que esperam que os sigamos para dentro dos aparelhos — constatou Doutreval, desconfiado. — O que acha de tudo isso, senhor? — Não vejo nenhuma ligação entre as naves desconhecidas que estão sobrevoando a área e os gleamors com seus seis objetos voadores — confessou Redhorse. — Provavelmente os gleamors desempenham um papel completamente secundário neste mundo. — Quem são os verdadeiros donos deste mundo? — perguntou Bradon. O capitão também já se fizera esta pergunta. Gleam era cada vez mais assustador. Bem que gostaria que conseguisse comunicar-se melhor com os gleamors. Nesse caso talvez seria possível descobrir alguma coisa sobre a origem das espaçonaves desconhecidas. — Parece que no momento os gleamors são o mal menor — disse o cheiene. — Se formos com eles, teremos uma chance de descobrir alguma coisa a seu respeito. Surfat sacudiu a cabeça. — Quem sabe para onde eles nos levarão nestas coisas, senhor? — objetou. — Talvez tudo isso tenha sido apenas uma manobra para atrair-nos para cá. — Mais uma teoria, Brazos? — perguntou Redhorse. — Qualquer outro comandante se daria por feliz por estar em companhia de homens que ficam pensando constantemente — disse Surfat em tom orgulhoso. — Não sabia que para o senhor os fenômenos estranhos que se passam em seu cérebro são uma forma de pensar — disse Chard Bradon. Deu um salto, para não ser atingido pelo punho de Surfat. — Acabem com isso! — ordenou Redhorse. — Temos outra coisa em que pensar. Acenou com a cabeça para os gleamors que estavam à sua espera. — Iremos com vocês — disse. — Tomara que vocês não resolvam cortar nosso pescoço quando estivermos a bordo de seus aviões. Surfat apalpou o pescoço, assustado, como se já sentisse uma lâmina afiada encostada ao mesmo. Os gleamors dirigiram-se apressadamente ao outro lado da clareira. Pareciam ter pressa em sair dali. Quando os terranos chegaram mais perto, Redhorse viu que os aparelhos dos gleamors só possuíam uma entrada muito estreita. Não havia colunas de sustentação. Os objetos voadores estavam pousados sobre uma armação circular. Redhorse viu que aquilo que acreditara serem campos defensivos eram bolhas energéticas que cercavam armações cobertas de placas de metal. O capitão ficou espantado ao constatar que as máquinas voadoras eram muito rudimentares. Normalmente o cheiene teria suas dúvidas de que essas figuras fossem capazes de subir, pois não se viam propulsores ou outros mecanismos. Mas as bolhas energéticas, que tinham o aspecto de nuvens cintilantes, reforçaram a opinião de Redhorse, de que algo de extraordinário estava para acontecer. — São construções muito simples — constatou Gilliam. — Gostaria de saber o que movimenta estas coisas. — Vamos aguardar — disse Redhorse. — Talvez tenhamos uma surpresa. — Como pode ter tanta certeza de que se trata de objetos voadores? — perguntou Surfat.

Redhorse apontou para duas das seis figuras, que se erguiam silenciosamente, seguindo em direção à abertura na camuflagem vegetal que cobria a clareira. — Ali está a prova — disse. Não perdeu mais tempo. Seguiu os cinco gleamors que se dirigiam a um dos objetos voadores que ainda não tinham decolado. Redhorse passou pela entrada. Não havia nenhuma iluminação no interior do objeto voador, e já estava tão escuro que nenhuma luz penetrava de fora. Redhorse lamentava não poder ver nada. Os outros quatro homens entraram atrás dele. Mister Jefferson, que parecia não estar preocupado com nada, seguiu-os com um salto. — Não vejo nada — queixou-se Surfat. De qualquer maneira o chão parece ser estável. Redhorse esbarrou num gleamor e parou. Ao que parecia, o objeto voador estava completamente superlotado. Um gleamor colocou na mão de Redhorse uma alça que parecia pender do teto. Pelos cálculos de Redhorse, devia haver uns vinte nativos no interior da bolha energética. Parecia não haver nenhuma possibilidade de fechar a entrada, pois a mesma continuou aberta, mesmo quando o misterioso objeto voador decolou. Redhorse deu alguns passos para trás, sem segurar a alça. Queria olhar para fora, quando estivessem sobrevoando a floresta. Fazia votos de que ainda houvesse bastante luz para que pudesse reconhecer alguns detalhes da paisagem. O capitão acreditava que a armação metálica precariamente revestida era carregada pela bolha energética, pois não se ouvia nenhum ruído que indicasse que havia uma máquina em funcionamento. Redhorse perguntou-se como faziam os gleamors para dirigir o estranho aparelho. A mente de Bradon parecia estar ocupada com problemas semelhantes, pois Redhorse o ouviu dizer: — Gostaria de saber onde está o piloto. — Não acredito que haja um piloto — disse Surfat. — Parece que os gleamors se confiam irrestritamente a esta coisa. — Tolice — objetou Redhorse. — Têm um método de dirigir-se ao lugar desejado. — Antes nunca tivesse visto este aparelho do lado de dentro — lamentou-se Surfat. — Nem sabemos para onde seremos levados. No momento Redhorse não estava preocupado. A naturalidade com que os gleamors se confiavam ao objeto voador era a melhor prova de que não esperavam que houvesse algum acidente. O objeto voador atravessou a abertura sem tocar a cobertura vegetal. A visibilidade aumentou. O vento soprava pela entrada aberta. As folhas metálicas que revestiam a armação começaram a movimentar-se sob os efeitos da pressão do ar. Já era bastante claro para que Redhorse visse que o ovo voador em cujo interior se encontravam tinha sido construído sem a menor habilidade artesanal. Redhorse não conseguia libertar-se da impressão de que os gleamors só tinham produzido a armação. A origem da bolha energética devia ser outra. As coisas pareciam cada vez mais complicadas. Redhorse pensou na possibilidade de os gleamors serem antigos escravos, que tinham conquistado a liberdade, não se sabia como. Isso poderia explicar o comportamento dos nativos. Era possível que alguém lhes tivesse entregue a bolha energética. — Não estamos indo muito depressa — disse a voz de Doutreval em meio aos pensamentos de Redhorse. — Os gleamors mantêm-se pouco acima da floresta.

Redhorse arriscou-se a soltar a alça e chegar perto da entrada. Viu o mar. A bolha energética voava na direção sul. A noite já ia subindo no horizonte. Redhorse viu a ilha vulcânica no meio do oceano. Chamas e fumaça continuavam a subir da mesma. O oficial inclinou-se ligeiramente para fora do objeto voador. O deslocamento de ar quase o deixou sem respirar. Concluiu que estavam indo mais depressa do que acreditavam. Havia dois corpos voadores dos gleamors bem à sua frente. O destino de todas as bolhas energéticas parecia ser o mesmo. Os gleamors conversavam em voz baixa. Não tomavam mais conhecimento dos passageiros estranhos. Redhorse voltou a olhar para fora e passou os olhos pelo céu, à procura das espaçonaves desconhecidas. Não as viu. Provavelmente já tinham desaparecido novamente atrás das montanhas. A bolha energética continuava a aumentar de velocidade. Os homens foram obrigados a afastar-se da entrada. O fato de que em vez de escurecer estava clareando levou Redhorse à conclusão de que continuavam a voar na direção sul. Dali a pouco o sol voltou a levantar-se sobre o mar. O objeto voador estava voando baixo por cima de um oceano. O destino dos gleamors parecia ser outro continente situado nas proximidades do equador. As telemetrias que Redhorse mandara realizar enquanto se aproximavam de Gleam haviam revelado que na zona equatorial do planeta a gravidade era três vezes superior à do planeta Terra. Redhorse perguntou-se o que estaria à sua espera, caso os gleamors resolvessem pousar lá. No interior da bolha energética não se percebia nenhum sinal da mudança da gravitação. A estranha nuvem energética que cercava o precário objeto voador parecia manter afastadas todas as influências externas. Os nativos pareciam saber muito bem o que estavam fazendo. Isso deu a Redhorse certo sentimento de segurança. Não acreditava que o organismo dos gleamors permitisse que se adaptassem às condições gravitacionais de cada momento, conforme parecia acontecer com alguns animais de Gleam. — Parece que estamos nos dirigindo a alguma ilha — disse Surfat. — As histórias deste tipo geralmente terminam numa ilha — deu uma risadinha. — Imagine, garotão, vou dar um nome a esta ilha. Será Atol Surfat ou coisa semelhante. — O senhor já provou que idéias costumam vir à sua cabeça quando se trata de inventar um nome — disse Bradon com uma ironia causticante. — Pode gabar-se de ter sido o único terrano que batizou um animal com o nome de Mister Jefferson. — Deve ser um talento natural — disse Surfat, que parecia sentir-se lisonjeado. — Das vezes em que passo férias na Terra, meus conhecidos vivem me pedindo conselhos quando não sabem que nome dar aos filhos. Lembro-me de certo engenheiro que já tinha doze filhas. A décima terceira acabara de chegar, e o bom do homem procurava desesperadamente um nome adequado. — O senhor naturalmente o ajudou a sair do aperto? — conjeturou Bradon. — Sugeri que ele a chamasse de Crescência, mas a oitava filha já tinha este nome — Surfat fez uma pausa, como se tivesse de refletir sobre alguma coisa. — Expliquei que Cisnilda seria outro nome atraente e raro. Ele se ofereceu a retribuir minhas idéias impagáveis com um licor feito por ele. Oferecia um licor por cada nome que ele ainda não tinha ouvido, e o sujeito me acompanhou valentemente. Finalmente chegamos à conclusão de que o nome deveria ser Estanislava, mas sua esposa não concordou. Acabou dando à décima terceira filha o nome de Maria, embora a quarta também se chamasse assim.

Doutreval, Bradon e Surfat começaram a discutir sobre se Estanislava era um bom nome. Redhorse não participou da conversa travada em altas vozes. Da mesma forma que Gilliam, contemplava o mar através da entrada do avião. — Estamos indo para o sul, senhor — disse o sargento Gilliam. — Os gleamors nos levarão para mais perto do equador, ou então pretendem ir ao pólo sul. Redhorse imaginava que Gilliam também se preocupava com as condições gravitacionais. — Deve haver uma aldeia ou povoação que não vimos do espaço — disse Redhorse. — Se ficar na zona equatorial, estou curioso para descobrir como fazem os gleamors para enfrentar a gravidade elevada. Gilliam olhou para os lados, para ver o que havia na penumbra reinante no interior do avião. — Estas bolhas energéticas não podem voar no espaço — disse. — Quer dizer que a teoria segundo a qual os gleamors vieram de outro planeta é bastante duvidosa. Redhorse acenou com a cabeça. Parecia pensativo. Gilliam também se lembrara da possibilidade de estas criaturas não serem habitantes primitivos do planeta. — Tenho certeza quase absoluta de que os gleamors somente construíram estas armações frágeis. As bolhas energéticas que cercam as máquinas voadoras foram produzidas por seres mais poderosos. — Pelos senhores da galáxia? — perguntou Gilliam. — Faço votos que não — respondeu o capitão. — Na situação em que estamos, um encontro com os desconhecidos poderia ser nosso fim. Gilliam pôs-se a praguejar desesperadamente. — Estes gleamors ficam tagarelando que nem uns patos. Mas isso não nos adianta nada. Quem dera que pelo menos tivéssemos trazido uma tradutora simultânea. — Continuo a acreditar que estes nativos estão escondendo alguma coisa de nós — disse Redhorse. — Não podem ser tão bobos como fingem ser quando tentamos comunicar-nos de verdade. — Infelizmente não tenho muita experiência com seres amistosos — disse Gilliam em tom zangado. — Nos planetas em que pus os pés sempre me foi explicado que minha presença era indesejável. Redhorse não pôde deixar de rir. — Nesse caso deve ter sido uma grande novidade alguém alimentá-lo e engraxar suas botas. — Sem dúvida — confirmou Gilliam. — Mas parece que estas gentilezas não deixaram de ser perigosas. Os gleamors nos deixaram meio adormecidos. Redhorse olhou para fora. Lá embaixo o sol baixo fazia cintilar o mar. Havia uma faixa escura no horizonte. Era outro continente. A bolha energética voava cerca de cinqüenta metros acima da superfície do mar. Redhorse viu algumas ilhas vegetais movimentadas pelas ondas. Teve a impressão de distinguir alguns gravodançarinos numa das ilhas maiores, mas estavam voando tão depressa que Redhorse não conseguiu ver os detalhes. Já se via perfeitamente o continente distante. Redhorse acreditava que era uma gigantesca ilha no pântano. A bolha energética reduziu a velocidade. Os três outros terranos aproximaram-se de Redhorse e Gilliam, pois queriam olhar para fora. — Já não estamos voando tão depressa — constatou Doutreval. — Parece que nos aproximamos do destino escolhido pelos gleamors.

Quando atingiram a costa, os cinco terranos viram que a esperança de encontrarem uma povoação maior não se confirmava. Neste lugar as margens também eram formadas por extensos pântanos. Terra a dentro viam-se os contornos de grandes montanhas. Entre a costa e as montanhas estendiam-se florestas de cogumelos e pântanos. A ilha que estavam sobrevoando era igual ao continente que haviam abandonado horas atrás. Redhorse examinou a posição do sol e teve a impressão de que não tinham chegado perto do equador. — É o mesmo quadro que vimos ao pousar neste planeta — observou Surfat, decepcionado. — Até parece que os nativos nos levaram de uma floresta de cogumelos para outra. Como que para confirmar suas palavras, a bolha energética perdeu altura. Os gleamors que se encontravam no interior do objeto voador conversavam animadamente. Para eles o pouso que estava sendo preparado parecia ser um acontecimento importante. A bolha energética desceu junto a uma floresta de cogumelos. Redhorse viu que os outros cinco aviões já tinham pousado. Cerca de vinte gleamors estavam carregando seus estranhos meios de transporte para baixo das árvores. Fosse quem fosse que estava pilotando a bolha energética em cujo interior se encontrava a tripulação do SJ-4C, esta pessoa o fez pousar suavemente junto às árvores. — Cuidado ao descer! — preveniu Redhorse. — É possível que lá fora a gravidade seja superior a dois gravos. Irei na frente. — Parece que a gravidade mais elevada não está afetando os gleamors — disse Gilliam. — Talvez estejam acostumados a isso, ou seu corpo possui um mecanismo de adaptação — disse Bradon. Redhorse esperou que todos os gleamors saíssem da bolha energética e foi saindo devagar. Imediatamente teve a impressão de que havia um peso de mais de cinqüenta quilos sobre seus ombros. Seu coração passou a bater mais depressa. — É como eu pensava! — gritou para os companheiros. — Por aqui não poderemos participar de uma corrida. Redhorse seguiu os gleamors, caminhando com os joelhos dobrados. Nem tentou resistir contra a carga suplementar, mas cedia à pressão que o atingia. Era o único meio de conservar as forças por algum tempo. O capitão atingiu o primeiro tronco de cogumelo e apoiou-se no mesmo. Viu Gilliam sair da bolha energética. Assim que o sargento saiu da bolha energética neutralizadora, estremeceu como se tivesse levado uma pancada. Redhorse sorriu. Estava zangado. Gilliam logo voltou a controlar o próprio corpo. Doutreval e Bradon foram saindo. O rádio-operador era um homem experimentado. Permaneceu perto do jovem aspirante a oficial quando se colocaram sob o efeito da gravidade mais elevada. Mas Bradon agüentava-se surpreendentemente bem. Dali a instantes todos os homens, com exceção de Surfat, estavam reunidos em torno de Redhorse. — Cabo Surfat! — gritou Redhorse. — Saia logo daí, para que os gleamors possam colocar sua máquina voadora num lugar seguro. O crânio enorme de Surfat apareceu na entrada. O cabo lançou um olhar desconfiado para o ambiente que não conhecia. — Quem sabe se ainda está sonhando com sua ilha? — conjeturou Bradon. — Como a gente se sente com isso, senhor? — gritou o cabo. — Saia e experimente o senhor mesmo! — pediu Redhorse.

Viram Surfat colocar a carabina a tiracolo. Mas depois disso hesitou e voltou a ficar parado. — Os senhores não se movimentam como um bando de borboletas — gritou para os homens que se mantinham à espera. Um grupo de gleamors reuniu-se junto à entrada. Via-se pelos seus gestos que eles se ofereciam a tirar Surfat da eclusa e carregá-lo até a floresta. Provavelmente foram somente os olhares de Redhorse que impediram o cabo de aceitar a oferta. Surfat empurrou os nativos com um gesto solene, afastando-os da entrada e saltou para fora. Os primeiros passos ainda pareciam normais, mas logo soltou um gemido e seus joelhos cederam. — O senhor não pode exigir isto de mim, capitão — choramingou. Lançou um olhar triste para os gleamors, que pareciam não fazer nenhum esforço para carregar sua máquina voadora. Finalmente voltou a movimentar-se. Quando chegou à floresta, parecia completamente exausto. Quis sentar numa raiz. — Quando estiver sentado, precisaremos de um guindaste para levantá-lo, Brazos — disse o capitão. Surfat fungou furioso e enxugou o suor da calva. — O senhor está imitando as falas de Bradon — queixou-se Brazos. — Não se esqueça de que tenho quase duas vezes o peso do senhor. — Lembro-me de o senhor ter explicado várias vezes as vantagens de seu corpo bem nutrido — disse Bradon. — Uma das suas afirmativas favoritas foi a de que as pessoas gordas são menos agressivas que as magras. Pelos planetas do Universo, cabo, sua atitude parece bastante agressiva. Surfat virou-se pesadamente para Bradon. — Eu o esmago que nem um verme, garotão! — ameaçou. Alguns gleamors aproximaram-se dos homens. Pareciam ter notado que Redhorse era o chefe dos astronautas, pois dirigiam-se a ele toda vez que queriam manifestar algum desejo. Explicaram por meio de gestos que queriam entrar na selva e, segundo parecia, esperavam que os terranos os acompanhassem. — Talvez o senhor consiga que eles indiquem a distância que teremos de percorrer a pé — disse Surfat em tom esperançoso. — Explique-lhes que a gravidade nos faz sofrer. Redhorse sabia que seria inútil tentar obter este tipo de informação dos nativos. Os gleamors pareciam interpretar mal os gestos dos terranos. O gleamor que acabara de explicar a Redhorse as intenções de sua tribo era o mesmo que tinha rasgado o desenho de Bradon. Redhorse acreditava que era o chefe de seu povo. — Não temos alternativa senão acompanhar os gleamors — disse Redhorse aos companheiros. — O que adianta ficarmos na beira da floresta? Não poderemos usar as bolhas energéticas sem auxílio dos nativos. Ninguém contestou a decisão do capitão. Todos sabiam que no momento os gleamors eram sua única esperança de conseguir alguma coisa. Redhorse sentiu-se aliviado porque havia uma trilha larga na floresta. Os gleamors tinham tomado providências para que não houvesse troncos tombados no caminho. A vegetação tinha sido retirada numa faixa de um metro de cada lado do caminho, para evitar que as plantas avançassem sobre o mesmo. Algumas fendas no solo que se tinham formado há bastante tempo tinham sido enchidas com areia vermelha. Este caminho, que quase chegava a ser uma estrada, devia ter uma importância toda especial para os gleamors.

Os cinco terranos tiveram de fazer um grande esforço para andar. Os gleamors pareciam sentir que seus acompanhantes enfrentavam dificuldades e passaram a andar mais devagar. Apesar das forças que a marcha consumia, Redhorse não permitiu que qualquer dos homens se deixasse carregar. Estavam todos cansados, e por isso se tomavam mais sensíveis às influências parapsíquicas. Quando Surfat parou de se lamentar, Redhorse compreendeu que aquele homem obeso realmente estava cansado. Se o cabo ficava em silêncio, isto era um mau sinal. De repente o caminho tornou-se mais largo. Dali a pouco foi ter a uma clareira extensa. Sebes de musgo cuidadosamente podadas formavam uma cerca natural de ambos os lados do caminho. A aldeia dos gleamors ficava no centro da clareira.

3
A povoação era formada por cerca de vinte casas, cada uma com um aspecto diferente. As casas dos gleamors só eram iguais na forma da construção. Os nativos tinham enfiado grossos troncos de cogumelos no chão, e estes formavam as vigas mestras de suas habitações. Troncos menores ligados por meio de trepadeiras tinham sido usados para formar um tipo de andaime. As paredes e os telhados eram de musgos e folhas. Em resumo, as habitações dos gleamors não passavam de cabanas rudimentares. Don Redhorse já não tinha nenhuma dúvida de que as bolhas energéticas não haviam sido fabricadas pelos gleamors. Havia uma poça de água à frente das construções de aspecto bastante precário. Os terranos, que estavam exaustos, reuniram-se junto à mesma. Os gleamors retiraram-se para dentro de suas casas. Redhorse pegou a corda trançada com plantas flexíveis e puxou o recipiente de água para a superfície do poço. O saco cheio de água parecia pesar cem quilos. Os terranos beberam. A água era pura e refrescante. Redhorse sentiu que as forças iam lhe voltando. — Cá estamos — disse, apontando para as casas, — Não é de admirar que não tenhamos visto nem localizado estas cabanas durante nossa ronda. Surfat atirou o recipiente de água para dentro do poço. — Não teria havido necessidade de nos submetermos a este esforço, capitão — queixou-se. — Por aqui não encontraremos nenhuma indicação sobre o hipertransmissor. O aspecto da pequena aldeia realmente não era nada encorajador, reconheceu Redhorse no íntimo. Teriam cometido um erro ao acompanhar os gleamors? Encontravam-se a centenas de quilômetros de seu jato espacial. E havia um oceano intransponível entre a gigantesca ilha em que estavam e o lugar em que estava pousado o jato. — Por que os gleamors estavam tão interessados em que os acompanhássemos? — perguntou Doutreval em tom pensativo. — O que pode significar nossa presença nesta aldeia? — Talvez estivessem com medo de que pudéssemos chamar a atenção das tripulações das espaçonaves desconhecidas para sua presença — conjeturou Bradon. — Devo confessar que esperava muita coisa, menos encontrar uma aldeia formada por vinte cabanas. Doutreval olhou para as casas. — Talvez o interior dessas mansões seja mais interessante — disse. — Vamos até lá dar uma olhada. Afinal somos hóspedes deles. Redhorse fez um sinal de concordância. — Alguém tem uma objeção a que eu fique aqui? — perguntou Surfat. — Acho que devemos colocar alguém de sentinela. Deixaram que o cabo ficasse junto ao poço. Redhorse saiu na frente e foram andando diretamente para a casa maior. Não havia nenhuma porta na entrada. Redhorse sentiu-se aliviado ao ver que não havia nenhuma escada, pois esta representaria um esforço suplementar.

— Lá dentro está escuro — disse Gilliam, desconfiado. O homem magro apoiou-se em um dos troncos que ficavam na entrada. — Daqui a algumas horas será noite — disse Redhorse. — Há um cheiro esquisito nesta cabana — constatou Gilliam e retirou a cabeça. — Não se vê nem se ouve nada. — Provavelmente todo o bando está dormindo — disse Bradon. — Sugiro que também escolhamos um lugar tranqüilo para passar a noite, senhor. Redhorse afastou Gilliam e entrou resolutamente na cabana. O cheiro de que falara Gilliam lembrava vagamente o odor do feno. Parecia sair das paredes feitas de plantas secas. Redhorse esperou que seus olhos se habituassem à penumbra e prosseguiu devagar. O interior da cabana consistia em uma única sala grande. O chão era de terra batida e estava coberto de tapetes de musgo. Os raros pertences dos habitantes estavam pendurados nas paredes. Havia seis gleamors deitados num canto, dormindo. Deviam ter um sono muito pesado, ou então não se importavam de que alguém entrasse em sua habitação. Redhorse apontou para o chão. — Aqui há lugar de sobra para todos. Whip, avise o cabo de que encontramos um lugar para passar a noite. Diga-lhe que venha para cá. Os homens deitaram. Dali a alguns minutos entrou Surfat. Tropeçou sobre Chard Bradon, que estava deitado junto à entrada, e por pouco não caiu. Jogou-se ao chão, resmungando. Redhorse sentia-se cansado e exausto, mas no início não conseguiu dormir. Seus pensamentos giravam constantemente em torno do mesmo problema. Qual era o jogo que estava sendo jogado na área da nona base de choque? O capitão estava deitado de costas, refletindo intensamente. Não demorou que o som da respiração uniforme dos homens que já tinham adormecido se fizesse ouvir. Surfat roncava e gemia. Mister Jefferson, que se encostara ao cabo, choramingava baixinho. Redhorse notou que o animal não se importava com o aumento da gravitação. Da mesma forma que os gleamors e as outras formas de vida existentes neste mundo, Mister Jefferson parecia possuir órgãos variáveis, que se adaptavam às condições reinantes a cada momento. Os pensamentos de Redhorse tornaram-se cada vez mais confusos. Finalmente mergulhou num sono agitado. Só acordou quando a luz do raiar do dia passou pela entrada. Conforme esperara, ainda se sentia cansado. A gravidade pesava fortemente sobre seu corpo. Redhorse girou lentamente de lado. Acordou de repente. A carabina energética, que colocara no chão junto ao seu corpo na noite anterior, tinha desaparecido. *** O Capitão Don Redhorse deu uma forte pancada nas costas de Olivier Doutreval, que estava deitado bem à sua frente. O rádio-operador resmungou indignado e abriu os olhos. Teve de fazer um grande esforço para erguer o corpo. — Levante! — gritou Redhorse. — Temos problemas.

Bradon e Gilliam também acordaram. Surfat foi o único que continuou a dormir. Colocara um braço sobre Mister Jefferson, que parecia sentir-se muito bem nessa posição. — Nossas carabinas desapareceram! — exclamou Redhorse, nervoso. Esta revelação fez com que os homens esquecessem o cansaço. Encontravam-se no interior da cabana. Os seis gleamors que tinham dormido na mesma não estavam mais lá. — Os nativos! — chiou Gilliam. — Roubaram nossas armas. — Revistem a cabana! — disse Redhorse. Deu um pontapé em Surfat. O cabo gemeu e piscou os olhos para Redhorse, assustado. — O senhor tinha mesmo de acordar-me no meio da noite? — perguntou, contrariado. Quis sentar com um movimento abrupto, mas a gravidade duplicada logo o levou a desistir. Redhorse explicou o que tinha acontecido. — Esses gleamors são uns fingidos! — gritou Surfat, furioso. — Fizeram com que nos sentíssemos seguros para roubar nossas armas. Agora estamos indefesos diante deles. — Primeiro, nem temos certeza de que as carabinas realmente tenham sido roubadas. Depois, ainda não podemos afirmar que tenham sido os gleamors — respondeu Redhorse. — Não encontramos nada, senhor! — gritou Bradon, que se encontrava nos fundos da sala. — Os nativos deixaram seus pertences. Não parece que os gleamors tenham fugido. Redhorse fez um gesto e foi até a entrada. Quando saiu, o frescor agradável reinante no interior da cabana foi substituído por um calor sufocante. Parecia que o dia iria começar com uma trovoada. Redhorse levantou os olhos para o céu, mas só viu algumas nuvens isoladas. Não havia nativos perto da casa, mas o capitão descobriu alguns gleamors junto ao poço. — Estão perto da poça de água — disse Redhorse, dirigindo-se aos companheiros. — Não consigo ver se estão com nossas armas. Surfat tentou passar por ele. — Vamos dar uma olhada — disse. — O jogo de esconder deles já está demorando bastante. — Vamos com calma — disse Redhorse. — Se estiverem com nossas armas, eles têm uma superioridade tremenda sobre nós. Não se esqueça da gravitação. Enquanto o senhor faz um movimento, qualquer gleamor corre dez metros. O cabo limitou-se a resmungar alguma coisa. Levantou Mister Jefferson e colocouo sobre o ombro. — Até meu amigo está mais pesado — queixou-se. Gilliam foi até a entrada e apoiou-se num tronco de cogumelo. Ficou observando os nativos por algum tempo sem dizer uma palavra. — Talvez tenham tirado nossas armas por pura amabilidade para guardá-las em algum lugar — disse Bradon em tom irônico. Outros gleamors apareceram entre as casas. Também se dirigiam à poça de água. Os nativos que tinham estado junto ao poço desapareceram na selva, conversando. Redhorse não poderia imaginar um quadro mais inocente. Apesar disso voltou a sentir a mesma desconfiança que sempre sentira.

— Vamos até o poço — decidiu depois de algum tempo. — Não tenho muita esperança de descobrir alguma coisa, mas não custa tentar. Saíram da cabana e atravessaram a área livre. No início os gleamors nem tomaram conhecimento da aproximação dos terranos, mas quando os astronautas chegaram junto à água, os nativos lhes entregaram o recipiente. Alguns gleamors fizeram menção de limpar os uniformes dos homens, mas Redhorse empurrou-os violentamente. Surfat entornou o recipiente de água, derramando o líquido ostensivamente no chão. Os gleamors imediatamente atiraram o recipiente para dentro do poço e voltaram a enchê-lo. Redhorse agarrou um dos desconhecidos pela gola de seu traje e puxou-o para junto de si. — Preste atenção, meu caro! — disse com uma calma que soava bastante perigosa. — Nossas armas desapareceram. Não exijo que você compreenda o que estou dizendo, mas você vai entender o sentido das minhas palavras — Redhorse fez um sinal para Bradon. — Chard, mostre-lhe o que vem a ser uma arma. Bradon mostrou um sorriso forçado. Levantou uma carabina imaginária, encostou-a ao ombro e fechou um olho. Redhorse obrigou o gleamor a virar-se, para que visse o que Bradon estava fazendo. — Então? — perguntou o capitão. — Eleite hehei! — disse o gleamor. Seus companheiros cercavam o grupo, dando a impressão de que não se importavam nem um pouco de ver um membro de seu grupo ser maltratado pelos forasteiros. Redhorse segurou o nativo com mais força. Sentiu sua raiva aumentar. A incerteza constante deixara-o irritado e aumentara sua agressividade. Encontravam-se numa situação quase desesperadora, motivo por que Redhorse estava disposto a assumir certos riscos. — Estou esperando uma resposta — disse. O gleamor respirava pesadamente e permanecia em silêncio. Mantinha os olhos cristalinos dirigidos para o terrano. O oficial tentou em vão descobrir um sinal de medo em seu olhar. Empurrou violentamente o nativo. O homem cambaleou e caiu ao chão. Voltou a levantar, limpou calmamente a roupa e ficou parado, como se esperasse alguma coisa. Os nativos continuavam amáveis, mas Redhorse teve a impressão de que uma tensão bem perceptível surgira entre eles e os terranos. — Capitão — cochichou Doutreval. — Olhe discretamente para a aldeia. Se meus olhos não me enganam, estamos sendo observados de dentro de algumas cabanas. Redhorse olhou para a povoação. De vez em quando via um movimento apressado em algumas cabanas. — O senhor tem razão — disse ao rádio-operador. — Está na hora de fazermos alguma coisa. Aqui não podemos ficar. — O que vamos fazer? — perguntou Bradon. — Não podemos atravessar o oceano a nado. — Podemos fugir — disse Redhorse. — Ao menos podemos tentar. Havia uma expressão de espanto no rosto de Bradon. — O senhor acredita mesmo que conseguiremos fazer decolar e pilotar as bolhas energéticas? — É melhor tentar que esperar que os gleamors nos matem com nossas próprias armas — respondeu Gilliam, que se encontrava ao lado de Redhorse. — Não consigo

livrar-me da impressão de que o roubo das armas é o passo inicial de uma série de acontecimentos muito mais desagradáveis. Redhorse deu ordem de partida. Deixaram para trás o poço e os gleamors reunidos em tomo do mesmo. Redhorse sabia que seria inútil tentar esconder suas intenções dos nativos. Os gleamors imaginariam o que os terranos pretendiam fazer assim que os vissem desaparecer na floresta de cogumelos. — Vamos ficar no caminho — disse Redhorse. — Desta forma não nos perderemos nem ficaremos presos na vegetação. Atingiram as sebes recortadas pelos gleamors, que formavam o limite da aldeia. Redhorse vivia olhando para trás, mas não havia ninguém que os perseguisse. Parecia que os nativos não se importavam com o que os astronautas quisessem fazer. Atrás das sebes começava o caminho que atravessava a floresta. E este caminho estava barrado para os terranos. Havia dez gleamors de pé no mesmo. Cinco deles seguravam nas mãos os objetos por cuja falta os homens da Crest II tinham dado ao despertar: as carabinas energéticas.

4
Mesmo que os gleamors não mantivessem as armas ameaçadoramente apontadas para os terranos, o Capitão Don Redhorse teria compreendido imediatamente que o tempo em que os nativos se tinham mostrado amáveis para com os tripulantes do SJ-4C chegara definitivamente ao fim. Os gleamors estavam com as armas. Tinham atraído os cinco homens para um lugar que ficava a centenas de quilômetros de sua espaçonave. E agora, que os astronautas tentavam voltar ao local de pouso, os nativos de repente mostravam suas verdadeiras intenções. Redhorse estacou. Levantou os braços e dirigiu-se aos companheiros: — Ninguém fará nada sem que eu dê ordens. O capitão sabia que o perigo de algum dos homens subestimar a resolução dos gleamors, por causa das experiências passadas, era muito grande. E este erro facilmente poderia tornar-se fatal. — Eles nos enganaram — disse Surfat, preocupado. — O espetáculo que nos ofereceram produziu o resultado desejado. E agora estamos numa fria. — Também tenho esta impressão — confirmou Redhorse. — É bem verdade que ao menos já temos uma esperança de descobrir mais alguma coisa sobre nossos amigos e suas verdadeiras intenções. Um dos gleamors armados era o homem alto que chefiava a tribo. Deu alguns passos na direção dos terranos. Redhorse concluiu da forma como ele segurava a carabina que o desconhecido sabia como lidar com a arma. Os segundos foram passando. Redhorse e o gleamor entreolharam-se. Não havia mais nenhuma submissão no olhar do nativo. O gleamor apontou com o cano da carabina para o caminho. — Pertei! — exclamou no tom de quem estava acostumado a dar ordens. — Nerteie Hekeita! — estendeu o braço e apontou para Redhorse. — Don! — exclamou em tom zangado. — Ele sabe meu nome — disse Redhorse. O gleamor apontou para si mesmo. — Loor Tan — disse. — Compreendo, Loor Tan — respondeu Redhorse. — Você nos proíbe de usarmos este caminho. E não é só isto. Não devemos sair da aldeia. Em outras palavras, somos prisioneiros dos gleamors, e os tempos em que vocês nos carregaram e limparam nossos sapatos chegaram ao fim. — Nereite! — comandou Loor Tan e apontou para as cabanas. — Está certo — respondeu Redhorse em tom resignado. — Temos de voltar. — Não deveríamos submeter-nos a estes patifes, senhor — protestou Surfat. — Tenho certeza de que só estão blefando. Não se atreverão a atirar em nós com armas cujo mecanismo certamente não conhecem. Muito espantado, Redhorse perguntou-se por que o cabo de repente desenvolvera tamanho espírito belicoso. Seria apenas a raiva de quem se sentia enganado que o levara a pronunciar estas palavras?

— Vou dizer uma coisa que vale para todos. Subestimamos os gleamors e saímos perdendo — Redhorse acenou com a cabeça para seus companheiros. — Não permitirei que voltemos a cometer o mesmo erro. Tenho certeza quase absoluta de que se não obedecermos às suas ordens atirarão em nós. Teremos de aguardar uma oportunidade de fugir. Redhorse ouviu Gilliam ranger os dentes. Provavelmente o sargento achava difícil conformar-se com a idéia de ceder aos nativos. — Vamos — disse Redhorse. Voltaram à povoação, seguidos pelos gleamors armados. Redhorse perguntou-se o que aconteceria em seguida. Não acreditava que os nativos tivessem a intenção de matálos, pois já tinham tido oportunidade para isso. Mas fossem quais fossem suas intenções, as mesmas certamente não contribuíram para aumentar a esperança de levar a bom termo a missão confiada a Redhorse. *** Pelo meio-dia a trovoada desabou com toda fúria. O céu estava encoberto de nuvens. Rajadas de vento passavam sobre a floresta de cogumelos. Os cinco terranos estavam sentados lado a lado no interior de uma pequena cabana. Permaneciam em silêncio, já que os trovões constantes e o ruído da chuva tornavam impossível a comunicação. O telhado da casa apresentava várias goteiras, fazendo com que grandes poças de água se formassem no chão. Os homens tinham escolhido um lugar relativamente enxuto, mas era apenas uma questão de tempo que as goteiras se espalhassem por toda parte. Havia dois gleamors com carabinas energéticas postados junto à entrada. Assim que um dos astronautas levantava do chão, os mesmos apontavam as armas em atitude ameaçadora para o interior da cabana. Redhorse reconheceu que se tratava de sentinelas muito atentos, que não se deixariam surpreender facilmente. Um forte raio iluminou a sala quadrada. Por um instante Redhorse viu nitidamente os rostos sérios de seus companheiros. O rosto magro de Gilliam parecia uma máscara. Redhorse reprimiu um calafrio. Já elaborara vários planos de fuga, mas acabara por abandoná-los. Tinha de conformar-se com a idéia de que no momento não lhe restava nada senão esperar para ver quais eram as intenções dos gleamors com seus prisioneiros. Lá fora o vento uivava. A chuva tamborilava sobre o telhado. Uma grande poça de água se formara junto à entrada. Os dois nativos armados permaneciam pacientemente à frente da cabana. Estavam encharcados. Depois de algum tempo o vento mudou de direção, tangendo a chuva obliquamente através da entrada. Os homens tiveram de afastar-se para o lado, para não se molharem. Alguns pedaços de musgo foram tangidos para dentro. A trovoada era cada vez mais violenta. Os raios sucediam-se com intervalos de alguns segundos, e o rugir do trovão fazia tremer a casa. Redhorse fazia votos de que não houvesse um tremor de terra. Bradon saiu rastejando em sua direção. — Acho que deveríamos aproveitar o momento, senhor — gritou ao ouvido de Redhorse. — Com este tempo a maior parte dos nativos deve estar nos seus alojamentos. Sem dizer uma palavra, Redhorse apontou para a entrada. — O senhor não acredita que haja uma possibilidade de pegar os dois de surpresa? — perguntou Bradon. — Tem uma idéia? — retrucou Redhorse. Bradon apontou para a outra extremidade da sala.

— Um de nós teria de rastejar até a parede dos fundos e tentar abrir um buraco na mesma. Redhorse sacudiu a cabeça. Já pensara nisso. Examinara atentamente a parede na qual estavam encostados. Os musgos estavam tão entrelaçados que seria impossível rompê-los. Além disso os dois guardas faziam controles regulares para verificar se todos os prisioneiros estavam lá. — O senhor tem de fazer alguma coisa — gritou Chard Bradon, desesperado. Uma série de relâmpagos fez com que Redhorse reconhecesse todos os detalhes do rosto do aspirante a oficial. Por um ligeiro instante viu as linhas finas que mostravam a exaustão em torno da boca de Bradon. Era como se contemplasse uma fotografia pouco nítida. Logo voltou a escurecer, e o rosto de Bradon desapareceu na penumbra, transformando-se numa mancha clara confusa, no meio da qual só se destacavam os olhos — até que o próximo relâmpago voltasse a iluminar a cena. Redhorse concentrou-se na mudança ininterrupta da penumbra para a claridade ofuscante, enquanto lá fora voltava a rugir a trovoada, superando as palavras de Bradon, a tal ponto que Redhorse só via o jovem astronauta mover os lábios. De repente, enquanto olhava para Bradon, Redhorse espantou-se ao notar que houvera uma mudança surpreendente com ele. Ainda há pouco teria insistido, da mesma forma que Bradon, em que pusessem fim quanto antes à sua condição de prisioneiros. Teria assumido qualquer risco e estaria disposto a sacrificar até mesmo a própria vida para alcançar a liberdade. Parecia ter perdido a capacidade da ação impulsiva. Seria difícil dizer se fora uma mudança repentina, ou se a mesma se realizara aos poucos! Redhorse sentia certa serenidade. Encarava a situação em que se encontravam com uma calma interior de que antigamente teria sido incapaz. Isso fez com que o capitão se sentisse muito velho. Teve a impressão de que havia um abismo intransponível entre ele e Bradon, embora a diferença de idade só fosse de alguns anos. Redhorse compreendeu que andara colhendo experiências ano após ano, mas só agora se dava conta das mesmas. Finalmente estava em condições de esperar calmamente até que chegasse um momento favorável para entrar em ação. — Por que não responde, senhor? — gritou Bradon entre dois trovões. Redhorse voltou a olhar para esse rosto, para este rosto jovem, e teve compreensão por Chard Bradon. Era a mesma compreensão que homens como Perry Rhodan tinham sentido por ele, Don Redhorse. Senão não poderiam ter tolerado seus exageros. Por estranho que pudesse parecer, a idéia das relações que vinha mantendo com Rhodan deixou Redhorse envergonhado. Apressou-se em desviar o olhar, como se tivesse medo de que Bradon pudesse ler seus pensamentos através de seus olhos. Redhorse colocou a mão sobre o ombro de Bradon. — Temos de esperar — gritou para o jovem astronauta. Via-se perfeitamente que Bradon aceitava esta resposta a contragosto. Refletia desesperadamente para encontrar um meio de fazer alguma coisa contra os gleamors sem desobedecer às ordens de Redhorse. Redhorse sorriu. Um homem podia tornar-se velho e experimentado sem ter compreensão pelos jovens. Isso fatalmente causara conflitos e problemas. Mas o cheiene tinha suas dúvidas de que seria capaz de cometer o erro de subestimar um homem como Bradon ou deixar de dar-lhe ouvido. Redhorse inclinou-se em direção à entrada. A chuva bateu em seu rosto. Um dos gleamors apontou a carabina para o oficial. Redhorse imediatamente voltou à posição que ocupara antes. Ficou calmo. Seus pensamentos estavam concentrados numa possível

fuga. Avaliou suas chances. Pôs-se a refletir sobre isso como se se tratasse de um problema matemático. “Os velhos caciques dos cheienes devem ter agido com a mesma reflexão”, pensou Redhorse. O vento sacudia o telhado rudimentar da cabana. O chão estava quase todo molhado. A violenta trovoada parecia descarregar-se diretamente sobre a povoação. Mas voltou a clarear tão de repente como o céu se cobrira de nuvens. O rugido do trovão foi desaparecendo ao longe. Os prisioneiros continuavam em silêncio. Os dois guardas postados junto à entrada foram revezados. Um dos dois gleamors recém-chegados atirou um saco de cogumelos comestíveis para os terranos. Redhorse distribuiu a ração miserável entre a tripulação do SJ-4C. Até mesmo Mister Jefferson recebeu sua parte. Quando acabaram de comer, entrou Loor Tan. *** O chefe dos gleamors carregava uma das carabinas energéticas. Entrou com o corpo ereto, desviando-se das poças de água. Redhorse contemplou-o em silêncio. Esperou para ver o que Loor Tan pretendia fazer. O gleamor certificou-se de que os dois guardas lhe davam cobertura. Só depois disso virou o rosto para Redhorse. — Freite! — exclamou com a voz aguda, que quase chegou a lembrar a de uma criança. — Freite terawei! Redhorse levantou os ombros, para mostrar que não entendia o que Loor Tan lhe queria dizer. Loor Tan apontou para as poças de água que se estendiam no chão, para depois estender o braço alternadamente para o telhado e para as paredes. Finalmente fez como se quisesse sair da cabana. — Hum! — fez Redhorse. — Parece que ele tem medo de que possamos fugir. Tenho a impressão de que a chuva diminuiu a resistência das paredes. Loor Tan formou um retângulo imaginário com os dois dedos indicadores e estendeu a mão na direção de Redhorse, dando a entender que estava pedindo alguma coisa. — Ele quer alguma coisa — resmungou Surfat, contrariado. — Acho que estou compreendendo — disse Redhorse. — Quer um pedaço de papel no qual possa desenhar alguma coisa. Infelizmente não temos nenhum. Redhorse abriu cuidadosamente as mãos, levantando-as na direção de Loor Tan. Não queria que o gleamor interpretasse mal seus movimentos, pensando que se tratasse de um ataque. Loor Tan não disse uma palavra. Acenou com a cabeça. Tirou um pedaço de madeira pontuda que trazia no cinto e traçou alguns sinais no chão. — Está tentando explicar alguma coisa — disse Redhorse. Loor Tan continuou a desenhar. Finalmente Redhorse conseguiu identificar os contornos de uma figura que, segundo parecia, representava uma cabana. Loor Tan fez cinco traços que representavam homens no retângulo que acabara de desenhar no chão e apontou para os tripulantes do SJ-4C. — Entendido — disse Redhorse.

O chefe da tribo nativa resmungou alguma coisa. Parecia satisfeito. Apontou para os cinco traços, lançou um olhar zangado para cada um dos cinco terranos e apagou o desenho rudimentar. — Ele foi bastante claro, senhor — disse Doutreval. — Acaba de explicar que morreremos. Redhorse fazia votos de que as suspeitas do rádio-operador não tivessem fundamento. Fez um sinal para que Loor Tan se aproximasse e apontou para o pedaço de madeira. O gleamor lhe entregou prontamente o estilete primitivo. — Venha cá, Chard — disse Redhorse. — Vamos preparar uma surpresa para este sujeito, oferecendo-lhe uma amostra dos seus desenhos. — O que devo desenhar, senhor? Um caixão de defunto? — perguntou Bradon em tom irônico. — Quero que desenhe um jato espacial — respondeu Redhorse sem abalar-se. — E uma aldeia dos gleamors. Com apenas alguns traços Bradon fez um desenho tão nítido no chão da cabana que Loor Tan não poderia deixar de compreendê-lo. Redhorse apontou para si mesmo e para seus companheiros e em seguida para o jato espacial desenhado no chão. Loor Tan sacudiu violentamente a cabeça. — Freite! — chiou. — Neheite Dareita! Redhorse ameaçou o cacique dos gleamors com os punhos fechados, sem dar atenção sequer aos dois guardas. Destruiu com os pés o desenho da aldeia dos nativos, feito por Bradon. A reação de Loor Tan foi espontânea e surpreendente. Deu uma risada sarcástica. — Não parece muito impressionado com nossa exposição — disse Surfat em tom seco. — Parece que não conseguimos assustá-lo — disse Redhorse. — Sabe perfeitamente que no momento está com todos os trunfos. É mais inteligente do que eu pensava. — Decerto não faz um juízo tão bom a respeito de nossa inteligência — disse Gilliam. Nesse instante aconteceu aquilo que Redhorse esperara o tempo todo. Estava preparado, mas sua reação não foi suficientemente rápida. Chard Bradon precipitou-se sobre Loor Tan. Mas não atingiu o alvo. Nem poderia atingi-lo, já que a gravitação duplicada retardava seus movimentos. A reação de Loor Tan foi instantânea. Deu um passo para trás e golpeou a nuca de Bradon com o cano da carabina. O jovem astronauta caiu ao chão com um gemido e permaneceu imóvel. Redhorse viu pelo canto dos olhos o corpo de Surfat entesar-se. — Fique onde está, cabo — ordenou Redhorse com a voz tranqüila. Loor Tan riu e apontou para Bradon. Gritou alguma coisa para os dois guardas, que também soltaram uma gargalhada. Doutreval quis abaixar-se para examinar Bradon, mas o gleamor empurrou-o para trás. — Se o garotão estiver morto, torço o pescocinho desse tipo — disse Surfat com a voz apagada. Alguns minutos se passaram sem que Loor Tan dissesse qualquer coisa ou permitisse aos terranos que cuidassem de Bradon. Finalmente entrou, um gleamor com um recipiente de água. Loor Tan deu-lhe algumas ordens. O nativo despejou o líquido sobre a cabeça de Bradon.

Loor Tan assistiu a tudo com uma expressão de curiosidade. Dali a pouco Bradon começou a fazer alguns movimentos. Loor Tan deu uma risadinha e aplicou um pontapé no jovem astronauta. Bradon levantou a cabeça. Estava com o rosto desfigurado. Levou alguns minutos para pôr-se de pé. Teve de apoiar-se na parede. — O senhor poderia ter evitado isso — disse Redhorse. — Que demônio! — exclamou Bradon. — O senhor o atacou — lembrou o capitão em tom indiferente. — Queria que esperasse que o senhor lhe tirasse a arma? O ataque foi uma tolice. Dê-se por satisfeito por ainda estar vivo. — De qualquer maneira o senhor é muito corajoso, garotão — disse Surfat em tom de elogio. — Getahei! — disse Loor Tan em tom penetrante, interrompendo a conversa dos terranos. Apontou com o cano da arma para a entrada da cabana e fez um sinal para os prisioneiros. — Teremos de sair daqui — disse Redhorse. — O senhor pode andar, Chard? — Posso — respondeu Bradon. — Já estou novamente em forma. Os guardas postaram-se um de cada lado da entrada e esperaram que os prisioneiros saíssem. Loor Tan seguiu na frente. Os dois gleamors armados foram atrás dos prisioneiros. — Estão nos levando para outra prisão — conjeturou Doutreval. — Parece que a cabana não oferece bastante segurança. — Tomara que não estejamos sendo levados ao local da execução — disse Gilliam em tom amargo. *** Os três gleamors saíram da aldeia com os terranos e, depois de uma marcha de quase três horas que deixou os astronautas completamente exausto, levaram-nos para perto de um extenso pântano. Durante a caminhada Loor Tan não demonstrara muita consideração pelos terranos. Insistira constantemente para que andassem mais depressa. Parecia que fazia questão de chegar ao destino antes do pôr do sol. Na margem do pântano havia uma jangada feita com troncos de cogumelos recortados. Loor Tan entrou na lama. O saiote evitava que afundasse além dos quadris. Enquanto os outros nativos vigiavam os prisioneiros, Loor Tan arrastou a jangada primitiva até a margem. A carabina energética que roubara dos terranos estava sobre a jangada, ao alcance das suas mãos. — Parece que vamos fazer uma viagem de barco — disse Doutreval. — Quem sabe se os gleamors não querem que morramos afogados no pântano? — disse Surfat com a voz apagada. — Se quisessem isso, não precisariam ter tanto trabalho — objetou Bradon. Loor Tan gritou algumas ordens para seus companheiros. Redhorse sentiu a pressão de uma carabina nas suas costas. Não teve alternativa senão sair andando na direção da jangada. Os outros quatro homens ficaram para trás. Loor Tan saltou sobre os troncos balançantes. Estava à espera de Redhorse, com a arma apontada.

O capitão mostrou um sorriso cansado. Os gleamors pensavam em todos os detalhes. Nunca tiravam os olhos dos prisioneiros. Nem mesmo uma chance miserável como a que Chard Bradon tentara aproveitar se repetiria. Loor Tan obrigou o oficial a ir para o centro da jangada. Fez com que sentasse nos troncos escorregadios. Dali a pouco Surfat recebeu ordem para sair andando. Demorou quase uma hora até que todos os terranos e seus guardas se encontrassem sobre a jangada. Loor Tan recuou para a extremidade da jangada, mantendo a arma sempre apontada. Seus companheiros puseram as carabinas a tiracolo e pegaram varas robustas. Com movimentos ágeis empurraram a jangada para dentro do pântano. Só faziam avançar a mesma muito devagar. Loor Tan berrou algumas ordens em tom impaciente. Os dois gleamors se esforçavam como se sua vida estivesse em jogo. Finalmente a lama viscosa foi substituída pela água turva e a jangada aumentou de velocidade. O Capitão Redhorse lançou um olhar para a margem e chegou à conclusão de que não haviam percorrido mais de vinte ou trinta metros. Para sua surpresa Loor Tan substituiu um dos gleamors que estavam trabalhando com as varas. O gleamor supercansado ocupou o lugar do cacique, na extremidade da jangada. — O que acha deste meio de transporte? — perguntou Surfat ao capitão. — Para onde será que eles nos levarão? Redhorse já olhara em tomo em vão, à procura de um possível destino da viagem. Havia uma floresta de cogumelos na margem oposta do pântano. Só aparecia em forma de silhueta. Redhorse tinha suas dúvidas de que seriam levados para lã. A pé chegariam mais depressa. O destino só poderia ser um lugar que ficava dentro do pântano. Toda vez que Loor Tan e seus ajudantes encostavam as varas compridas ao fundo do pântano, a parte dianteira da canoa afundava, e uma onda passava por cima dos troncos. Os uniformes dos prisioneiros estavam encharcados. Pela primeira vez Mister Jefferson deu sinais de medo. Agarrou-se desesperadamente em Surfat. Redhorse admirou-se de que o animal continuasse a acompanhá-los fielmente, e que não tivesse voltado ao seu legítimo dono. Redhorse pôs-se a refletir sobre se não seria possível saltar de surpresa sobre os gleamors e empurrá-los para dentro da água. Provavelmente teria arriscado um ataque, se não tivesse havido o infortúnio com Bradon. — Estão nos levando cada vez para mais longe do jato espacial — disse Doutreval, aborrecido. O esforço de movimentar-se sob uma gravidade duas vezes superior à do planeta Terra deixara os homens cansados. Apesar disso Redhorse não pôde deixar de rir das palavras do rádio-operador. — A esta hora um quilômetro mais ou menos não tem nenhuma importância, Olivier — disse Redhorse. Gilliam rastejou para perto deles. Antes que pudesse dizer alguma coisa, o nativo que se encontrava na extremidade da jangada soltou um grito de alerta. No início Redhorse acreditou que o grito tivesse sido dirigido a Loor Tan, a fim de avisar o cacique de que um dos terranos havia mudado de lugar. Mas de repente Redhorse viu a cabeça de um gravodançarino sair do pântano a apenas alguns metros da jangada. Os olhos pequenos do animal fitaram os intrusos. O lábio avançado parecia ter comido naquele momento, pois estava com o beiço avançado. Parecia uma folha gigantesca boiando na superfície do pântano. Redhorse sentiu Doutreval colocar instintivamente a mão em seu braço. Loor Tan e seu companheiro tiraram cuidadosamente as varas da água e frearam a jangada.

Alguns minutos passaram sem que acontecesse nada. O gravodançarino parecia paralisado, como se esperasse que os seres que perturbavam sua paz se retirassem. Loor Tan pegou a carabina energética que trazia a tiracolo e ameaçou os terranos. Não parecia disposto a deixar de lado suas precauções para com os astronautas, embora sua vida estivesse em perigo. O gravodançarino parecia ter tomado uma decisão. Seu lábio inferior recuou com um chiado. O animal girou duas vezes em torno do próprio eixo e saiu nadando em direção à jangada. Os dois olhos pequenos que se destacavam na pele seca do crânio emitiam um brilho malvado. Redhorse gostaria de ter uma carabina nas mãos. Mas as armas estavam em poder dos gleamors, e estes não pareciam ter a menor intenção de fazer qualquer coisa. — Por que não atiram? — gritou Bradon, nervoso. — Será que querem esperar até que essa fera faça tombar a jangada? O animal ainda parecia indeciso sobre o comportamento que deveria adotar perante os seres estranhos. Mas quando ainda se encontrava a três metros da jangada mergulhou de repente. Um redemoinho formou-se no lugar em que pouco antes estivera. — Pretaiiii! — berrou Loor Tan. Empurrou a vara comprida violentamente para dentro da água agitada. O gleamor que se encontrava do outro lado da jangada seguiu seu exemplo. O solavanco fez avançar a jangada, que balançou fortemente. Loor Tan e o segundo remador tiravam as varas com uma rapidez incrível, para voltar a empurrá-las. A jangada inclinou-se para a frente. Os terranos tiveram de segurar-se. Uma massa borbulhante de água marrom passou por cima dos troncos precariamente amarrados. O nativo que estava com a carabina na mão ficou de pé na parte da frente da jangada, olhando ora para o pântano, ora para os prisioneiros. Seu rosto parecia assustado. Já Loor Tan não se perturbou. Trabalhava mais depressa com a vara que seu companheiro, e ainda tinha tempo para gritar ordens para os outros dois gleamors. Percorreram um trecho de pelo menos trinta metros, bem mais depressa do que Redhorse acreditara. O capitão respirou aliviado. O perigo parecia ter passado. Neste momento o gravodançarino voltou à tona. O animal devia possuir certo grau de inteligência, ou seu instinto lhe mostrava qual era a parte vulnerável da jangada. Redhorse sentiu que o veículo era sacudido por um forte solavanco. Deixou-se cair imediatamente e agarrou-se às cordas que ligavam os troncos. A popa da jangada ergueu-se para fora da água. O gleamor que estivera vigiando os prisioneiros soltou um grito e afundou no pântano. Loor Tan e o terceiro nativo seguravam-se desesperadamente nas varas. Redhorse viu neles certa semelhança com os saltadores de vara, no momento em que atingem o ponto mais alto de sua trajetória e parecem levitar no espaço. O corpo enorme do gravodançarino fez a jangada subir ainda mais. — Segurem-se! — gritou Redhorse. O avança-beiço trombeteou em tom estridente, como se quisesse dar resposta às palavras do terrano. Depois voltou a mergulhar nas águas. A parte traseira da jangada bateu ruidosamente na superfície. Algumas cordas se romperam e vários troncos se separaram. Redhorse girou apressadamente o corpo, de forma a ficar deitado transversalmente em relação aos troncos. Queria evitar que um dos seus braços ou pernas fosse esmagado.

Como que por milagre, nada aconteceu a Loor Tan e ao segundo gleamor que trabalhava com a vara. Continuavam de pé. Loor Tan segurava novamente a carabina e passava os olhos pela superfície do pântano. — Se este bicho aparecer de novo, estaremos perdidos — disse Bradon, desesperado. Redhorse achava que o jovem tinha razão. Certificou-se de que a tripulação do SJ-4C resistira razoavelmente ao primeiro ataque do monstro. Nas condições em que se encontravam não poderiam pensar em pegar os nativos de surpresa. Ficaram à deriva por alguns minutos. O terceiro gleamor, que tinha mergulhado juntamente com a carabina, não veio mais à tona. Loor Tan deslocou-se cuidadosamente em direção à parte dianteira da jangada. Fez um sinal para os terranos e apontou para Surfat. — O que será que ele quer de mim? — resmungou o cabo obeso. Loor Tan fez um gesto inconfundível na direção da vara que deixara para trás. Redhorse compreendeu que o gleamor queria obrigar Surfat a ocupar o lugar de seu remador. — Quer que eu faça o que ele está mandando? — perguntou Surfat, que já compreendia as intenções do gleamor. — É bom obedecer — sugeriu Redhorse. — Loor Tan está nervoso. Não queremos que descarregue sobre nós a raiva que sente por ter perdido um homem. — Esta é boa! — resmungou Surfat e saiu rastejando sobre as mãos e os joelhos. Redhorse ficou preocupado ao ver que por duas vezes o homem pesado quase escorregou da jangada. — Vamos tentar amarrar de novo a jangada — ordenou Redhorse. Fez um sinal para Loor Tan. O gleamor compreendeu e fez um gesto de concordância. Os quatro terranos puseram-se imediatamente a trabalhar. Brazos Surfat atingiu a vara e segurou-a com ambas as mãos. Redhorse sabia que Surfat teria de fazer um grande esforço para empurrar a mesma com a gravidade aumentada. Antes que o capitão tivesse tempo para admirar devidamente a resistência do cabo, o gravodançarino voltou a aparecer. Desta vez atingiu a jangada bem no centro. Redhorse foi atirado numa altura de cinqüenta centímetros e bateu fortemente nos troncos. Os tripulantes do jato espacial e os dois gleamors gritavam confusamente. Apareceu água, vinda não se sabia de onde, e Redhorse teve de prender a respiração. Perdeu o sentido de orientação. Só sabia que tinha de segurar-se de qualquer maneira, se quisesse escapar vivo do ataque. A jangada ficou balançando por alguns segundos sobre as costas do animal. Este parecia não fazer nenhum esforço para sustentar a carga em cima da água. Redhorse fez um esforço desesperado para respirar. O barulho era ensurdecedor. Para sua surpresa, o capitão de repente viu alguma coisa que havia em torno dele. Avistou Brazos Surfat, que fora atirado para fora da jangada, mas se agarrava a um tronco que pendia ao lado da mesma. O tronco balançava de um lado para o outro, e era apenas uma questão de tempo que as cordas que o prendiam se rompessem de vez. Quando isso acontecesse, Surfat cairia em cima do gravodançarino ou dentro do pântano. Os dois entreolharam-se. Redhorse quis fazer um gesto encorajador para o cabo, mas neste exato momento o grande animal que se encontrava embaixo da jangada deu um salto.

Surfat desapareceu diante dos olhos do oficial. Alguém esbarrou em Redhorse e agarrou-se nele. Redhorse teve a impressão de ouvir o choro estridente de Mister Jefferson. A jangada se dividira em duas partes. Redhorse, Bradon e Loor Tan estavam deitados em uma das partes. Surfat boiava sobre um tronco isolado, a cerca de quatro metros do centro dos acontecimentos. O animal trombeteou e voltou a afundar no pântano. Redhorse levantou a cabeça. Receava perder os sentidos a qualquer momento. Seu corpo maltratado já não parecia possuir nenhuma reserva de energia. O segundo ataque do monstro felizmente não produzira nenhuma vítima fatal, mas a jangada estava irremediavelmente destruída. Totalmente esgotado, Redhorse perguntou-se como se poria a salvo caso houvesse mais um ataque. Ficou preocupado com os quatro companheiros. Seu condicionamento era excelente, mas tinham sido forçados até o limite da resistência. Loor Tan gritou alguma coisa enquanto agitava com a carabina coberta de sujeira. Se o cacique dos gleamors receasse que os terranos poderiam pensar em fugir num momento destes, Redhorse poderia tranqüilizá-lo. Naquele momento provavelmente nenhum dos terranos seria capaz disso. A segunda parte da jangada, à qual Gilliam e Doutreval continuavam a agarrar-se, juntamente com os dois nativos, ainda balançava de um lado para outro. Redhorse descobriu Mister Jefferson sobre um dos troncos. O animal estava encharcado e tremia. Loor Tan deu algumas ordens a seu companheiro. Titubeante, como se não conseguisse acreditar que escapara com vida, o mesmo se dispôs a cumpri-las. Da melhor maneira que pôde, fez a parte da jangada em que se encontrava aproximar-se daquela em que estava sentado Loor Tan. Redhorse obrigou-se a respirar profundamente. Depois de algum tempo conseguiu reunir energias suficientes para cuidar de Surfat. — Está ferido, Brazos? — gritou. O astronauta gordo sacudiu a cabeça. — Não senhor — respondeu. — Mas não consigo sair daqui. Se continuar assim, ficarei remando com as pernas por horas a fio, sem chegar à jangada. — Os dois gleamors querem juntar novamente os troncos da jangada — disse Redhorse, olhando de lado para Loor Tan. — Procure agüentar até lá. Os nativos devem ter um meio de colocá-lo num lugar em que esteja seguro. — Tomara que nosso amigo não volte à tona — disse Surfat. — Neste palito de fósforo estarei indefeso diante dele. Um forte estrondo fez com que Redhorse virasse abruptamente a cabeça. O companheiro de Loor Tan acabara de, com um forte empurrão, juntar a segunda parte da jangada à primeira. Dois troncos ficaram sobrepostos. Loor Tan amarrou habilmente as cordas nos lugares em que tinha sobrado bastante. Finalmente Loor Tan passou a cuidar de Brazos Surfat, que esperava pacientemente. Empurrou uma das varas em direção ao cabo. — Segure-se — gritou Redhorse, que compreendera quais eram as intenções de Loor Tan. — Aposto que este tipo desajeitado vai me jogar na água — disse Surfat, desconfiado. Mas soltou o tronco e segurou-se na vara. Redhorse quis rastejar para perto de Loor Tan, para ajudar o mesmo a recolher Surfat, mas o outro gleamor levantou imediatamente a carabina, impedindo o capitão de fazer o que pretendia.

Loor Tan conseguiu puxar o cabo para perto da jangada, mas teve de constatar que seria difícil trazer aquele homem pesado para cima. Surfat estava tão exausto que não poderia contribuir muito para sua salvação. Girou o corpo da melhor maneira que pôde, fazendo-o subir lateralmente sobre os troncos dianteiros. A jangada começou a balançar fortemente. Gilliam e Doutreval tiveram de rastejar para o outro lado, a fim de restabelecer o equilíbrio da embarcação. Depois de um procedimento demorado, Surfat finalmente tombou de frente sobre a jangada. Ficou deitado com as pernas estendidas. Os dois gleamors afastaram o tronco sobre o qual estivera deitado o cabo e voltaram a impelir a jangada. Percorreram algumas centenas de metros sem qualquer incidente. A água já não era tão rasa, e conseguiram avançar rapidamente. Loor Tan fazia questão de que os terranos permanecessem pelo menos a três metros dele. Ficava constantemente de olho nos prisioneiros, sem negligenciar o trabalho com a vara. Os cinco astronautas falavam pouco. A pausa lhes fazia bem. Redhorse esperava que aos poucos conseguissem habituar o corpo ao aumento da gravidade. Loor Tan tirou a vara da água e apontou para um lugar que Redhorse não via, porque estava deitado. O capitão levantou e viu que se deslocavam em direção a alguma coisa parecida com uma ilha. No entanto, o formato era muito regular para que pudesse ser uma ilha natural. Além disso não parecia haver nenhuma vegetação sobre a mesma. Curioso, Redhorse esperou que a jangada atracasse na plataforma, que saía uns trinta centímetros da água. Loor Tan e o outro gleamor saltaram para a terra firme. Amarraram a jangada. — Uma plataforma flutuante — disse Surfat, espantado. — Parece ser de metal. — Não acredito que esteja boiando — objetou Doutreval. — Parece ser uma ilha. Aqui temos o atol que Surfat tanto estava procurando. — Que gracinha — resmungou o cabo. Loor Tan deu ordem para que os prisioneiros saíssem da jangada. A ilha artificial, ou fosse lá o que fosse, não combinava com as cabanas rudimentares dos nativos, da mesma forma que as bolhas energéticas. O Capitão Redhorse imaginava que outra surpresa lhes estaria reservada. Saiu da jangada com as pernas trêmulas. O material que seus pés tocaram era duro. Seus passos sobre a plataforma produziram um ruído oco. A ilha realmente era de metal. Se não estava muito enganado, havia um grande espaço vazio embaixo da superfície. Os dois gleamors esperaram pacientemente que os prisioneiros e Mister Jefferson saíssem da jangada. Pelos cálculos de Redhorse, a ilha devia ter cem metros quadrados. Sua forma era retangular. Havia algumas saliências no centro. Redhorse ainda não sabia o que significavam as mesmas. Loor Tan levou o pequeno grupo ao centro da ilha. Uma vez lã, abaixou-se e puxou uma alavanca, que cedeu rangendo. Dali a pouco uma peça de um metro da superfície levantou-se diante dos olhos espantados dos homens e caiu para trás. Redhorse deu um passo para a frente, para olhar para dentro da abertura. Viu um poço iluminado, que parecia descer infinitamente.

5
O chefe dos nativos observava os terranos com muito interesse, como se esperasse certa reação dos mesmos. Loor Tan falou com o outro gleamor. O homem acenou com a cabeça e entrou no poço. Por um instante suas mãos seguraram a borda, mas logo se soltou e foi descendo. — Um poço antigravitacional! — exclamou Doutreval. — Quem sabe se os gleamors não possuem uma supercidade no subsolo, senhor? Redhorse gostaria de ver até onde o gleamor descia pelo poço, mas Loor Tan ficou com a carabina levantada junto à entrada e não permitiu que o terrano se aproximasse. Depois de alguns minutos fez um sinal com a arma, apontando para Bradon. — Parece que é minha vez — disse Bradon, falando entre os dentes. — O que acha, senhor? Devo arriscar? — Não temos alternativa — disse Redhorse. Chard Bradon sorriu com uma expressão insolente para o gleamor e saltou elegantemente para dentro do poço. Se a habilidade do terrano surpreendera Loor Tan, este não o mostrava. Mandou que Doutreval, Gilliam e Surfat entrassem no poço um atrás do outro. O cabo teve de fazer um grande esforço para colocar o corpo pesado na posição correta. Além disso tinha de cuidar de Mister Jefferson, que se agarrava ao seu ombro, choramingando de medo. Finalmente Surfat também desapareceu, e Redhorse ficou a sós com o gleamor sobre a plataforma. — Beretai ertai — chiou Loor Tan, bastante aliviado. Fez um sinal para Redhorse. — Pertai, Don! — Você pretende fazer alguma coisa conosco, meu chapa — disse Redhorse. — Bem que eu gostaria que tivéssemos um tele-pata, pois só assim ficaríamos sabendo o que se passa nessa sua cabeça. — Pertai! — disse Loor Tan em tom enérgico e apontou a carabina energética para o peito do cheiene. Redhorse levantou os ombros e saiu caminhando na direção da entrada do poço. Loor Tan ainda parecia ser de opinião que só podia comunicar-se com os terranos de arma na mão. Redhorse esperava que isso mudasse assim que atingissem seu destino, embaixo do pântano. Loor Tan acabaria compreendendo que diplomaticamente conseguiria muito mais. Don Redhorse deixou-se cair no poço. A súbita ausência da gravidade fez com que seu coração batesse mais depressa. Seus ouvidos zumbiram, mas houve um sensível alívio físico. O poço ia alargando para baixo. Redhorse viu que havia colunas luminosas presas a intervalos regulares nas paredes metálicas. As mesmas espalhavam uma luz agradável. O capitão levantou os olhos para a entrada do poço. Loor Tan estava inclinado sobre a abertura e via Redhorse descer lentamente. Redhorse tentou em vão reconhecer o que havia embaixo dele. Dali a pouco os pés de Redhorse tocaram chão firme. Loor Tan estava suspenso em cima dele. O gleamor mantinha a carabina apontada para Redhorse. Certamente queria evitar que o terrano saísse do poço antes da hora.

A saída estava aberta. Redhorse viu um corredor iluminado com as paredes caiadas de branco. O soalho emitia um brilho fosco. Loor Tan veio parar ao lado do oficial e empurrou-o com a mão para fora do poço. Os efeitos da gravidade logo voltaram a fazer-se sentir. Mas Redhorse ficou aliviado ao notar que não era superior a um gravo. O fato deixou o capitão espantado. Havia algo de misterioso na gravitação de Gleam. Os companheiros de Redhorse estavam reunidos junto à saída. Estavam sendo vigiados pelo segundo gleamor. Redhorse examinou o ambiente. A construção do corredor subterrâneo era estranha, mas não se via nenhuma instalação que tivesse algo de extraordinário. O corredor tinha cerca de dez metros de comprimento e terminava numa parede separatória que dava a impressão de ser compacta. Na opinião de Redhorse devia haver uma passagem. As vozes dos homens pareciam ocas. Produziam um eco no interior do poço. Loor Tan fechou violentamente o acesso ao elevador antigravitacional. Redhorse teve a impressão de que estava ouvindo um zumbido vindo de longe. Provavelmente havia um centro gerador por ali. O capitão não conseguia imaginar que ás inúmeras luminárias fossem alimentadas por uma fonte de energia situada em cima do pântano. Os dois nativos movimentavam-se como quem já tinha estado muitas vezes nas instalações situadas embaixo do pântano, mas Redhorse não conseguia livrar-se da impressão de que os mesmos não tinham nada a ver com o centro. O capitão pôs-se a refletir intensamente. Será que os nativos tinham descoberto a entrada das instalações por acaso? Talvez até tivessem descoberto as bolhas energéticas ali. Seria possível que um nativo relativamente selvagem descobrisse a finalidade dessas bolhas? Redhorse tinha suas dúvidas. Devia haver outra ligação entre os gleamors e os recintos no subsolo. Loor Tan deu algumas ordens, tornando-se compreendido por meio de gestos. Os prisioneiros saíram andando na direção da parede divisória, seguidos pelos nativos que os vigiavam. Mister Jefferson começou a uivar de alegria. Surfat colocou-o no chão. A redução da gravidade fizera com que o cansaço dos homens desaparecesse. — O senhor acredita que nos encontramos no interior da estação em que fica o transmissor? — perguntou Doutreval a Redhorse. — Não tenho certeza — respondeu Redhorse. — Se o hiper-transmissor ficasse aqui, normalmente deveríamos ter detectado sua presença a partir do jato espacial. De qualquer maneira aqui parecem ficar os centros geradores que produzem a energia para o campo refletor situado na atmosfera de Gleam. Também acredito que os construtores deste centro realizem a partir daqui experiências com a gravidade do planeta. Havia três triângulos negros do tamanho de uma mão humana desenhados na parede divisória. Loor Tan tocou nos de cima e deu um passo para trás. Ouviu-se um zumbido. Dali a pouco a parte esquerda da parede deslizou para o lado. O recinto que se abriu diante deles estava bem iluminado. No centro do mesmo Redhorse viu uma elevação em cúpula, em torno da qual corria uma espécie de passadiço. O resto da sala estava cheio de estranhas máquinas. Só se podia entrar passando por um corredor estreito. Redhorse percebeu imediatamente que em sua maioria, as máquinas não estavam funcionando. Perguntou-se se tinham sido destruídas ou se estavam desligadas. Na outra extremidade da sala o capitão viu uma série de passagens que levavam para os outros recintos da estação. As instalações situadas embaixo do pântano eram bem maiores do que Redhorse acreditara.

— Caramba! — exclamou Surfat, que se encontrava a seu lado. — Olhe para isso, senhor. Estas máquinas devem desempenhar outras funções além da manutenção do campo refletor. Loor Tan fechou a parede divisória atrás deles. Os prisioneiros foram obrigados a atravessar a sala, passando entre duas fileiras de máquinas. Foram levados a um recinto menor, cujas paredes estavam cobertas por telas triangulares. Estavam todas apagadas. No centro do recinto havia uma mesa hexagonal de tampa metálica. Nas bordas da mesa erguiam-se alavancas de controle. Loor Tan levou os prisioneiros para junto da mesa, enquanto ele e o outro gleamor ficaram parados junto à entrada. A expectativa de Redhorse, que esperava encontrar outros seres inteligentes no subsolo, não se cumprira. Ao que parecia, os gleamors eram donos da estação. Gilliam e Bradon puseram-se a examinar a mesa sem tocar em nada. Redhorse observou os dois gleamors. Loor Tan e seu companheiro fitavam-nos com uma expressão de curiosidade. Mais uma vez Redhorse teve a impressão de que os nativos esperavam certa reação de seus prisioneiros. De repente Redhorse compreendeu por que os cinco tinham sido levados para lá. Os gleamors controlavam o acesso às instalações situadas sob o pântano, mas não sabiam o que fazer com as máquinas. Loor Tan parecia imaginar o poder que teria aquele que conseguisse controlar os recintos no subsolo. Por isso tinha vindo com os prisioneiros. Esperava que os terranos, que afinal pilotavam uma espaçonave complicada, fossem capazes de controlar a estação geradora. Redhorse já sabia qual era o papel que Loor Tan lhes reservara. Deviam controlar a estação para os gleamors. Seriam vigiados constantemente. Mais tarde, quando os nativos aprendessem a manipular os controles, seus auxiliares forçados seriam eliminados. — Parem de brincar com essas alavancas — disse Redhorse a seus companheiros. — Os dois gleamors só estão esperando que descubramos alguma coisa a respeito destas máquinas. Loor Tan, que continuava junto à entrada, fez um gesto amplo. — Dereite hegeira eleit! — disse em tom autoritário. Segurou seu companheiro pelo braço e obrigou-o a sair. Dali a pouco a porta foi fechada. Os prisioneiros ficaram a sós. — Quer que tenhamos tempo para acostumar-nos ao ambiente — disse Redhorse. — Logo voltará, esperando que tenhamos aprendido alguma coisa. Este sujeito não é bobo. Redhorse comunicou suas suspeitas aos tripulantes do jato espacial. Disse que acreditava que deveriam controlar a estação para os gleamors. — Quer dizer que o senhor não acredita que estas instalações tenham sido construídas pelos gleamors? — perguntou Bradon. — É só dar uma olhada — disse Redhorse. — A altura e a forma da mesa já levam à conclusão de que os seres que estiveram sentados junto à mesa não eram gleamors. Fico me perguntando onde estão os verdadeiros donos deste centro gerador. Será que se encontram nas espaçonaves que vimos antes que fôssemos levados a esta ilha nas bolhas energéticas dos gleamors? — Que motivo poderiam ter os desconhecidos para abandonar estas instalações no subsolo? — perguntou Doutreval. — E como é que os gleamors poderiam ter entrado aqui?

— No momento só existe uma explicação. Antigamente os gleamors e os donos das instalações viviam juntos. Provavelmente os gleamors trabalhavam como escravos. Os construtores da cidade no pântano acabaram se retirando, deixando tudo entregue aos gleamors. — E estes não sabem o que fazer com as instalações e esperam que os ajudemos no controle — acrescentou Surfat. Redhorse sorriu para o cabo. — Para nós isto é uma oportunidade de encontrar o hiper-transmissor com a qual não contávamos. Mesmo que não fique aqui embaixo, deve haver alguma indicação sobre sua localização. — Vocês não acham que não é lógico que os gleamors nos prendam neste recinto pequeno, se talvez precisamos ter acesso a todas as instalações para descobrir alguma coisa? — perguntou Bradon. Redhorse empurrou-se da mesa e foi para a porta. Esta se abriu imediatamente. Redhorse fez um gesto convidativo. — Tenho certeza de que poderemos andar à vontade aqui embaixo. É bem verdade que não conseguiremos ir além da parede divisória. Loor Tan certamente postará guardas nesse lugar, para evitar que fujamos pelo poço antigravitacional. Surfat abriu os braços. — Os gleamors nos entregaram um tesouro sem saber. Sem dúvida encontraremos alguma coisa que possa servir de arma. — Vamos aguardar — respondeu Redhorse. — Antes de mais nada precisamos descansar um pouco. Chard Bradon foi o primeiro a acordar, dali a algumas horas. Chamou os outros. Redhorse sentia-se descansado e faminto. O ânimo da tripulação do SJ-4C melhorara bastante. Doutreval, o rádio-operador, foi o único que se queixou de dores de cabeça resultantes da queda sobre o jato espacial. — Tomara que os gleamors não se esqueçam de que de vez em quando precisamos comer alguma coisa — disse Surfat, esfregando o ventre. — Nunca fui capaz de trabalhar com o estômago vazio. Bradon lançou um olhar para Mister Jefferson. — Antes de morrermos de fome poderemos matar seu amigo, cabo. Surfat colocou as mãos nos quadris. — Se o senhor estiver falando sério, eu lhe prometo que assim que voltarmos ao jato espacial comeremos um ovo frito de Horror. Bradon fitou-o com uma expressão sombria. — Nem me fale neste ovo — disse. — Quem sabe lá o que aconteceu com o mesmo. — O senhor já está grisalho de tanto que se preocupa com este ovo — disse Surfat em tom irônico. Enquanto isso Redhorse e Gilliam se tinham dirigido para a parede oposta e examinavam as telas de imagem. — Tenho certeza de que estamos na sala de controle — disse Redhorse em tom pensativo. — Era daqui que os antigos donos da estação operavam a mesma. — Não compreendo por que precisavam de tantos controles — disse Gilliam. — A julgar pelo número de telas, deve haver uma rede de postos de observação em torno de Gleam.

— Talvez até por todo o sistema Tri — disse Redhorse. — Precisamos descobrir onde são ligados os controles. Voltaram para junto da mesa. Redhorse achou que seria muito arriscado mexer algumas alavancas ao acaso. Pelo menos quando movesse os primeiros controles, queria saber que máquinas estaria colocando em funcionamento. Gilliam contou as alavancas de controle dispostas na borda da mesa e comparou-as com o número de telas nas paredes. O número de chaves era quase o dobro do dos controles. Redhorse concluiu que as alavancas não serviam apenas para ligar as telas. Os homens voltaram a examinar os controles. Finalmente Bradon descobriu que parte das alavancas estava acoplada a relês que ficavam embaixo da mesa. Dos relês partiam cabos que iam até o centro da mesa, onde se reuniam numa armação semicircular. Redhorse rastejou para baixo da mesa e foi dar uma olhada de perto. — Daqui os cabos passam pela perna da mesa e entram no chão — disse. — Lá provavelmente estão ligados a condutos que vão para fora desta sala. Os homens esperaram que o capitão voltasse a sair de baixo da mesa. Redhorse segurou com uma das mãos uma das chaves que não possuía nenhum relê. O oficial ainda estava hesitando. Afinal, não era impossível que as telas só se ligassem automaticamente. Talvez só entrassem em funcionamento quando a máquina à qual estivessem acopladas começasse a trabalhar. Eram apenas reflexões teóricas. Sem realizar testes, nunca descobririam nada sobre o funcionamento do centro de geradores. Redhorse empurrou a alavanca para baixo. Sentiu o material frio ceder à pressão da mão, que ficara úmida de tão nervoso que estava. No início não aconteceu absolutamente nada. Redhorse já começava a acreditar que acabara de ligar uma máquina situada fora do recinto, quando uma das telas triangulares se iluminou. Os terranos viram a superfície da plataforma na qual ficava o poço pelo qual tinham entrado nas instalações construídas no subsolo. O quadro não mudou. Via-se somente parte da plataforma com um trecho do pântano. Mas pela tela que estava acesa via-se perfeitamente se alguém estava entrando no poço antigravitacional. Redhorse perguntou-se se os gleamors já tinham feito experiências parecidas com os outros controles. — Que coisa formidável! — disse Doutreval, entusiasmado. — Já podemos ver perfeitamente quando os gleamors nos visitarem. Redhorse não pôde deixar de confessar que a primeira experiência fora um êxito completo. Só lhes restava esperar que a sorte continuasse a favorecê-los. Empurrou rapidamente mais três chaves. As respectivas telas acenderam-se. Uma delas mostrava o corredor que levava ao elevador antigravitacional, enquanto nas outras duas apareciam os maquinismos instalados em outras salas. A tela acoplada à quarta alavanca reservou uma surpresa para os homens que olhavam ansiosamente. Viram o planeta Gleam parado no espaço, sob a forma de uma elipse fluorescente. — Uma câmara que funciona no espaço — disse Gilliam. — Deve circular em torno de Gleam a grande distância. Redhorse não demorou a perceber que o sargento tinha razão. Tri II apareceu diante deles. Por algum tempo a luminosidade ofuscante do sol tornava impossível a observação do planeta. Gleam só voltou a aparecer nitidamente quando a câmara que circulava pelo espaço mudou de posição.

De repente Surfat soltou um grito de surpresa. Mais um objeto tinha aparecido na tela. — Uma lua! — exclamou Surfat, nervoso. — É uma lua, senhor! — Parece mesmo — confirmou Redhorse. Tentou esconder o nervosismo. O satélite de Gleam parecia contornar o planeta na altura da linha do equador. Pelos cálculos de Redhorse devia ter cerca de três mil quilômetros de diâmetro, se bem que fosse difícil saber somente com base na imagem projetada na tela, tendo apenas o planeta Gleam como base de comparação. E era ainda mais difícil calcular a distância entre a lua e o planeta. Redhorse não conseguiu descobrir exatamente qual era o ângulo da câmara voadora em relação aos dois astros. A imagem foi mudando aos poucos. A lua entrou na metade esquerda do campo de imagem. Só se via um setor de Gleam. Redhorse cocou o queixo. Parecia pensativo. A trajetória da câmara parecia ter sido calculada de maneira a permitir a observação constante da lua. Quer dizer que o satélite desempenhava uma função definida. — Gleam possui um satélite — disse Bradon. — Será que o hipertransmissor não foi instalado na lua? Redhorse apoiou-se na mesa. Bradon acabara de dizer aquilo que ele mesmo suspeitara. Era a única explicação de não terem captado mais nenhum impulso depois da entrada na atmosfera de Gleam. O planeta propriamente dito não passava de uma isca destinada a atrair os curiosos. Também no sistema Tri os misteriosos senhores da galáxia tinham inventado algo de especial. Redhorse teve de confessar que provavelmente nunca teriam descoberto a lua se os gleamors não os tivessem levado ao recinto no subsolo. Os construtores do hipertransmissor provavelmente tinham usado todos os recursos técnicos para proteger o satélite contra qualquer possibilidade de ser descoberto por quem se encontrasse no espaço. — É possível que o garotão tenha razão — disse Brazos Surfat em tom pensativo. — Somos uns pobres idiotas, que arriscam a vida em Gleam, quando o transmissor fica num lugar bem diferente. — Pelo menos já temos uma indicação — disse Redhorse. — Talvez consigamos que Loor Tan ou outro gleamor nos conte alguma coisa sobre esta lua. Whip Gilliam apoiou-se com as mãos sobre a mesa e disse: — Sem dúvida será mais fácil do que voltarmos ao espaço com as informações que talvez consigamos obter. Surfat franziu a testa. Parecia aborrecido. — Justamente agora o senhor tem de começar com isso, sargento? Fico sonhando com meu regresso, com o peito cheio de condecorações... — O senhor tem um peito largo, no qual cabe qualquer número de tudo quanto é condecoração — interrompeu Bradon. — Acontece que por enquanto a única coisa que chama a atenção são os botões metálicos de sua jaqueta. — Psiu! — fez Surfat, sacudindo a cabeça. — Um homem modesto não anda carregando suas condecorações em tudo quanto é lugar. — Se quisermos ganhar alguma condecoração, devemos voltar a cuidar dos nossos problemas — observou Doutreval. — A descoberta de uma lua não nos transforma em homens livres.

— Estou refletindo sobre as funções que este centro gerador ainda pode desempenhar — disse Don Redhorse. — Não deve ser somente para alimentar o campo refletor, pois o número de máquinas é muito grande. — No que está pensando, senhor? — perguntou Bradon, ansioso. — Nas condições gravitacionais — respondeu Redhorse. — Quando nos aproximávamos de Gleam já tivemos de constatar que havia algo de anormal neste sentido. — Quer dizer que nossas medições não estavam certas? — perguntou Doutreval. — De forma alguma — respondeu Redhorse. — Aceitamos os dados recebidos sem refletir sobre os mesmos. Não somos cientistas, mas deveríamos ter sabido que num planeta de forma elíptica, como é Gleam, a gravidade nos pólos deve ser mais elevada que na área equatorial. Ainda devemos considerar o movimento de rotação do planeta, que também deveria produzir uma gravidade mais elevada nos pólos. Ninguém respondeu. Redhorse viu que os homens tentavam extrair as conseqüências da suposição que ele manifestara. Fazia votos de que seu raciocínio fosse correto. — O fato é que aqui encontramos as condições que eram de esperar em virtude das operações de telemetria — disse Surfat. Redhorse atravessou a pequena sala, dando apenas alguns passos. — No lugar em que nos encontramos a gravidade deve ficar em torno de um gravo — disse. — Além disso entramos nestas instalações por um poço antigravitacional. Portanto, não há nenhuma dúvida de que por aqui existem instalações que regulam a gravidade. Se os construtores das instalações no subsolo foram capazes de determinar à vontade a gravidade reinante no interior destes recintos, não havia motivo para que não conseguissem fazer a mesma coisa em todo o planeta. Redhorse passou as mãos levemente pelas diversas alavancas. — Se esta teoria for verdadeira, parte destes comandos serve para modificar à vontade os campos gravitacionais — disse. — O senhor realmente acredita nisso? — perguntou Surfat. — Talvez consigamos reduzir a gravidade fora destas instalações, fazendo com que eu possa flutuar sobre o pântano que nem uma libélula. Bradon deu uma risadinha. — Nunca vi uma libélula gorda, cabo — disse Doutreval em tom indiferente. Redhorse ficou satisfeito ao notar que a tripulação do SJ-4C recuperara o senso de humor. Os homens já não pareciam ter a menor dúvida de que conseguiriam voltar ao jato espacial. Certamente era um otimismo prematuro. Tinham feito algumas descobertas surpreendentes, mas ainda eram prisioneiros dos gleamors. Os nativos não demonstravam nenhuma vontade de um dia libertar os astronautas. Enquanto Doutreval e Surfat discutiam o aspecto das libélulas, Redhorse pôs-se a examinar outras chaves. — Cuidado! — disse, interrompendo a discussão dos dois astronautas. — A qualquer momento podemos ter uma surpresa desagradável, se eu mexer nestas chaves. Modificou a posição de mais algumas alavancas. Na maior parte das vezes mais uma tela se iluminava. Certa vez apareceu uma área pantanosa que ainda não conheciam. Redhorse não sabia qual era a importância que os construtores das instalações tinham atribuído justamente a esta parte da superfície de Gleam e resolveu não quebrar a cabeça com isso. As outras telas que iam se iluminando só mostravam máquinas instaladas em outras salas.

— Sempre que uma tela se ilumina, isso parece significar que a máquina que aparece na mesma está ligada — disse Redhorse. — Gostaria de saber como estas máquinas são controladas a partir daqui. — Talvez possuam controles automáticos — disse Gilliam. — É possível — reconheceu Redhorse. — Mas neste caso seria de supor que cada instalação tem uma finalidade definida, que não pode ser modificada. “No fundo”, pensou o capitão, “é completamente impossível controlar todas as unidades energéticas”. Com muita sorte talvez conseguissem compreender as funções de algumas máquinas. Mas era bastante duvidoso que conseguissem usar parte das instalações em seu proveito. Redhorse lamentava que em sua equipe não houvesse nenhum cientista. Os especialistas poderiam ser bastante úteis. Se conseguissem controlar a gravidade de Gleam a partir do lugar em que se encontravam, os gleamors deixariam de ser inimigos que eles devessem temer. Seu organismo estava habituado às condições gravitacionais reinantes no momento. Os nativos ficariam completamente confusos se a gravidade se normalizasse. O capitão não sabia por que os construtores das instalações tinham montado os projetores gravitacionais, que deviam ter uma potência incrível. Destinavam-se a enganar um eventual inimigo? Ou serviam para proteger as instalações construídas embaixo do pântano? — Parece que vamos receber uma visita gentil! — exclamou Doutreval, apontando para a tela que mostrava parte da plataforma. Redhorse levantou os olhos. Viu Loor Tan e mais quatro nativos junto à entrada do elevador antigravitacional. Loor Tan era o único que levava uma carabina terrana. Redhorse perguntou-se se fora do centro de geradores tinha acontecido alguma coisa que chamara a atenção dos gleamors para as experiências dos cinco terranos, ou se Loor Tan resolvera voltar para informar-se sobre os resultados alcançados pelos prisioneiros. Redhorse tomou uma decisão. — Coloquem-se junto às chaves em que ainda não mexemos! — gritou. — Assim que os gleamors entrarem nesta sala, modificamos a posição das chaves. Espero que isto não nos faça ir logo pelos ares. — O que espera conseguir com isso? — perguntou Bradon. Redhorse bem que gostaria de ter uma resposta a esta pergunta. — Vamos esperar — disse para esquivar-se. — Talvez aconteça alguma coisa que altere a disposição de forças. Os cinco astronautas colocaram-se junto à mesa hexagonal. Redhorse ficou de olho na parede em que ficavam as telas. Os cinco gleamors já tinham desaparecido da plataforma. O capitão olhou para a tela que mostrava a saída do elevador antigravitacional. Dali a pouco viu Loor Tan entrar no corredor pelo qual tinham vindo os terranos, indo à frente do pequeno grupo. Os gleamors não pareciam ter muita pressa, mas os movimentos de Loor Tan pareciam resolutos. Via-se perfeitamente que o chefe dos nativos viera com uma intenção bem definida. Dali a alguns segundos os cinco gleamors saíram do campo de visão dos terranos. — Deverão entrar aqui a qualquer momento — disse Redhorse com a voz calma. Acreditava que nos próximos minutos seu destino seria decidido. Talvez algo mais que sua vida estivesse em jogo. Talvez dependesse deles que o salto da Humanidade em

direção a Andrômeda alcançasse sucesso. De repente a carga da responsabilidade quase chegou a prender a respiração de Redhorse. Nunca experimentara uma sensação destas com tamanha intensidade e lutava furiosamente contra a mesma. Não era hora para sentimentalismos. Os olhos do capitão se estreitaram quando passou a concentrar sua atenção na superfície ampla da porta. Agarrou as alavancas que segurava na mão com tamanha força que as juntas dos dedos doeram. A porta começou a movimentar-se, deslizando lenta e silenciosamente para o lado. Loor Tan estava parado na entrada, com a carabina apontada e um sorriso arrogante. Seus companheiros acotovelavam-se atrás dele, tentando olhar para dentro da sala. — É agora! — disse Redhorse com a voz apagada. Dez mãos modificaram a posição de dez alavancas. O sorriso desapareceu do rosto de Loor Tan. Deu um passo titubeante para trás e levantou a arma, apontando-a exatamente para o peito de Redhorse. O capitão esperou calmamente que outras telas se iluminassem e que acontecesse alguma coisa. E aconteceu! De repente Redhorse teve a impressão de que alguém puxara o chão em que estavam apoiados seus pés. Segurou-se instintivamente nas duas alavancas. Teve de agarrar-se fortemente, para não subir ao teto. Olhou para o lado e viu Brazos Surfat suspenso no ar. Os outros três homens seguravam-se, da mesma forma que Redhorse, na borda da mesa ou nas alavancas. Mas a reação dos gleamors fora lenta demais. Perto da entrada não havia nada em que pudessem segurar-se. Estavam suspensos embaixo do teto, remando desesperadamente com os braços. Parecia que formavam um bale grotesco com seus saiotes bem rodados. Redhorse ficou aliviado ao notar que a única arma existente no interior da sala estava suspensa sobre as cabeças dos terranos, a quatro metros do lugar em que estavam os gleamors. Os nativos davam gritos de socorro. Loor Tan esforçava-se em vão para superar os mesmos, berrando ordens. — Precisamos da arma! — exclamou Redhorse. Antes que ele mesmo pudesse fazer qualquer coisa, Chard Bradon abandonou sua posição relativamente segura, empurrando-se com os pés. Subiu em alta velocidade. Redhorse teve medo de que pudesse bater com a cabeça, mas Bradon evitou o impacto com um movimento hábil das mãos. Viu-se que o treinamento espacial dos terranos lhes dava certa superioridade sobre os gleamors. Os cinco nativos ainda não conseguiam controlar seus corpos. Enquanto isso Bradon tateava cuidadosamente embaixo do teto, exatamente na direção em que estava a carabina. Redhorse já acreditava que o aspirante a oficial atingisse seu objetivo sem incidentes, quando Loor Tan finalmente conseguiu empurrar-se com uma perna na parede. O corpo alto do gleamor flutuou atrás de Bradon — e foi mais rápido que o terrano. — Chard! — gritou Surfat. Bradon virou-se, muito devagar e com um cuidado exagerado, na opinião de Redhorse. Loor Tan encolheu a cabeça entre os ombros, para abalroar Bradon. Redhorse também soltou as alavancas que estivera segurando e subiu para o teto. Loor Tan atingiu Bradon. Enrolados um no outro, os dois adversários se deslocaram em direção à parede que ficava do lado oposto. Loor Tan esperneava desesperadamente, sem conseguir nada.

Os quatro gleamors tentaram ir em auxílio de seu chefe. Redhorse fez um esforço para conseguir uma boa visão geral do lugar estranho em que se encontrava. A carabina energética estava suspensa no ar, em posição oblíqua, ligeiramente à sua frente. O capitão empurrou-se com as mãos para alcançá-la antes que um dos gleamors se adiantasse. De repente uma figura enorme flutuou em sua direção, vinda de baixo. — Brazos! — gritou Redhorse. — Preste atenção. Que diabo! O cabo parecia ter perdido o sentido de orientação. Girou em torno do próprio eixo e seus quadris atingiram as costas de Redhorse. Houve uma pancada surda quando Brazos bateu no teto. Redhorse ouviu-o gemer. Esforçou-se para voltar a controlar seus movimentos. Por alguns segundos a sala ficou girando à frente dos seus olhos. Bradon e Loor Tan ainda pareciam envolvidos na luta. Os quatro gleamors restantes tinham cercado Surfat e agarravam-se a ele. Havia dois gleamors de cada lado do corpo do cabo, remando violentamente com as pernas e soltando gritos estridentes. Mais duas figuras apareceram. Eram Gilliam e Doutreval. Finalmente Redhorse atingiu a carabina e segurou-a. Surfat lutava contra as forças superiores que o cercavam, mas era ainda mais desajeitado que os nativos. Ouviu-se alguma coisa choramingar embaixo dos homens que tinham perdido o peso. O animal também tentava segurar-se no infeliz cabo. Não teve muita consideração, pois rasgou as calças de Surfat embaixo dos bolsos. Redhorse acreditava que o animal tinha estado sob a mesa e saíra do esconderijo por causa de um movimento imprudente. Gilliam e Doutreval atingiram Bradon e Loor Tan. Puxaram para trás o gleamor que lutava desesperadamente e protegeram Bradon. O jovem estava fora de perigo. Redhorse empurrou-se abruptamente do teto. O impulso foi suficiente para levá-lo de volta à mesa. Enganchou-se com os pés. Dali a pouco voltou a sentir chão firme sob os pés. Por algum motivo desconhecido a gravitação não somente se neutralizara no interior da sala de controle, mas havia uma força de gravidade reduzida em direção ao teto. O capitão tinha certeza de que isso acontecera por causa da movimentação repentina das alavancas que ainda não haviam sido acionadas. Provavelmente a mesma provocara tamanha confusão nos comandos dos projetores de campos gravitacionais que por algum tempo passaram a reinar condições completamente absurdas. Redhorse fazia votos de que mais tarde não tivessem de suportar um aumento de gravidade. Houve um movimento a seu lado. Eram Gilliam, Doutreval e Bradon, que desciam juntos do teto. Gilliam apontou com o polegar para o teto e Bradon perguntou em tom enfático: — Que houve com ele? Não se via quase nada de Brazos Surfat, que sem dúvida era a pessoa a que se referia a pergunta. Os gleamors pareciam ter percebido que o astronauta obeso representava um excelente apoio. Os quatro nativos investiam com os punhos contra o cabo. Este se defendia, mas quase nunca conseguia atingir um inimigo. Loor Tan estava suspenso embaixo do teto, olhando para os terranos com o rosto desfigurado de raiva. Mister Jefferson conseguira colocar-se em segurança na parte traseira da calça de Surfat. Bradon colocou as mãos à frente da boca em forma de funil. — Cabo Surfat, o que sabe a respeito de bóias? — gritou. Surfat emitiu alguns ruídos confusos. Girou lentamente para baixo e os homens que se encontravam junto à mesa conseguiram ver seu rosto. Era um rosto coberto de suor e desfigurado pela raiva.

— Que bobagem é essa? — gritou Surfat, furioso. — Tirem-me daqui de cima. — Estou me referindo a bóias de salvamento! — explicou Bradon em tom sério. — Trata-se de recipientes de lata ocos por dentro, que bóiam no mar. — Depois de uma ligeira pausa, Bradon acrescentou em tom malicioso: — A gente pode segurar-se nas mesmas, cabo. Seria desumano negar uma bóia a um pobre náufrago. — Não sou nenhuma bóia! — uivou Surfat, furioso, e empurrou-se para a frente, arrastando consigo os gleamors que se debatiam e Mister Jefferson, que não parava de choramingar. Loor Tan parecia ter reconhecido que no momento os terranos dominavam a situação. Gritou ordens para seus companheiros, mas os nativos não tomavam conhecimento das mesmas. Só pensavam em não perder o apoio. Contra toda a lógica, continuavam a atacar Surfat. O cabo foi deslizando com seus penduricalhos, praguejando constantemente contra os gleamors, contra Bradon, contra a navegação espacial e contra a tolice que cometera ao engajar-se na Frota Solar. — Será que não devemos ajudá-lo? — perguntou Doutreval, fingindo-se de preocupado. — Pare com essas observações — disse Surfat, indignado. — Trate logo de fazer alguma coisa. Capitão Redhorse, não permita que minha autoridade seja prejudicada. — Tire-o de lá de cima, Whip — disse Redhorse, dirigindo-se a Gilliam. O sargento muito magro voou para perto de Surfat e colheu os quatro corpos dos gleamors como se fossem frutas maduras. Os nativos voltaram a remar desesperadamente. Loor Tan foi o único que já tinha percebido que isso não adiantava. Permaneceu imóvel sob o teto. — Já pode descer, Brazos — disse Redhorse. — Não! — protestou Surfat. — Sargento Gilliam, tire Mister Jefferson das minhas costas. Gilliam pôs-se a apalpar as costas de Surfat. — Não o encontro, cabo — disse, perplexo. — Mais embaixo! — gritou Surfat. — Droga! Procure mais embaixo! Gilliam arrancou Mister Jefferson de perto das calças rasgadas de Surfat. — Não sabia que suas costas chegam até lá, cabo — disse como quem pede desculpas. Finalmente Surfat e Gilliam foram parar ao mesmo tempo junto à mesa, onde os outros os receberam com uma gargalhada. Os cinco gleamors olhavam para os desconhecidos. Pareciam atordoados. O rosto de Loor Tan parecia uma máscara. Provavelmente queria esconder a confusão que lhe causara o comportamento dos terranos. De repente Redhorse voltou a sentir-se mais pesado. Antes que se recuperasse da surpresa, ouviu cinco pancadas surdas. Cinco gleamors maltratados estavam deitados atrás da mesa, a quatro metros do lugar em que se encontrava a tripulação do SJ-4C. Pareciam não ter coragem de fazer qualquer movimento. Redhorse não acreditava que tivessem sofrido ferimentos graves. Foi para junto de Loor Tan a passos largos e encostou o cano da carabina energética em seu corpo. — Daqui em diante nós dizemos o que será feito — disse em tom de deboche. Depois virou o rosto para os companheiros. Seus olhos brilhavam. Entesou o corpo. — Navaneoz niseno! — exclamou, triunfante. — Eles foram derrotados, meus caros.

— Era só o que faltava! — gemeu Surfat. — Resolveu falar em indígena conosco.

6
Loor Tan foi o primeiro que resolveu levantar. Via-se que a virada surpreendente no curso da guerra não o deixara muito feliz. Xingou seus companheiros, que preferiram ficar deitados a seus pés. Tentou dar-lhes pontapés, mas Redhorse empurrou-o para trás. — Pare com isso! — gritou. — O senhor não é mais o chefe dos gleamors. Os olhos cristalinos do nativo fitaram-no com uma expressão de ódio, mas Redhorse não teve nenhuma dificuldade em enfrentar o olhar. — Nereite! — gritou Loor Tan, furioso. Redhorse atirou a carabina para Gilliam. O sargento pegou-a no ar. — Verifique se está em ordem — disse Redhorse. — Enquanto isso vou ver se consigo levar nosso amigo a contar alguma coisa. Agarrou firmemente o cacique dos gleamors pelo braço e arrastou-o para junto da parede em que ficavam as telas. Apontou para aquela que no momento estava mostrando a lua de Gleam. Redhorse fez um gesto amplo, que designava a estação. Depois voltou a apontar para o satélite de Gleam. Loor Tan baixou obstinadamente a cabeça. Redhorse segurou-o com mais força. Suas mãos eram robustas, e os braços do gleamor eram magros. Redhorse sentiu o nativo contorcer-se sob a pressão de seus dedos. — Getai! — chiou Loor Tan depois de algum tempo. Redhorse aliviou a pressão dos dedos. Não gostava deste tipo de interrogatório, mas ele e seus companheiros tinham-se afastado muito do jato espacial e encontravam-se a vários anos-luz das unidades da Frota Solar que estavam à sua espera. Redhorse voltou a apontar para a lua. Desta vez Loor Tan acenou com a cabeça a contragosto. Quer dizer que sabia que Gleam possuía um satélite. Redhorse arrastou o gleamor de volta para junto da mesa. Os companheiros de Loor Tan continuavam deitados no chão, atentamente vigiados pelo sargento Whip Gilliam. Brazos Surfat tentava amarrar a calça rasgada. Redhorse apontou para várias máquinas que apareciam nas telas. Loor Tan parecia prestar mais atenção. Fitou Redhorse como quem espera alguma coisa. Redhorse voltou a apontar para o acompanhante cósmico de Gleam, que quase estava sendo abafado pela luminosidade do sol Tri II. Loor Tan compreendeu o que o cheiene queria dizer. Voltou a acenar com a cabeça. — Está bem, meu chapa — disse Redhorse, satisfeito. — Já temos certeza de que nesta lua também existe um centro de controle. Não acredito que o gleamor tenha motivo para mentir para nós. — É o hipertransmissor que ativa os mobys — disse Doutreval, satisfeito. — Já sabemos onde encontrá-lo. — Não devemos tirar conclusões precipitadas — disse Redhorse, abafando o entusiasmo do rádio-operador. — O fato de haver algumas construções no satélite de Gleam não significa que o hipertransmissor fique lá. — Significa, sim — observou Surfat. — Estamos na pista certa, senhor. Só falta sairmos daqui e encontrarmos um meio de voltar ao jato espacial. Redhorse colocou a mão sobre o ombro de Loor Tan, que recuava diante dele.

— O gleamor nos acompanhará — disse. — Com Loor Tan servindo de refém, controlaremos os nativos. Não se atreverão a fazer qualquer coisa contra nós. Talvez possamos obrigar Loor Tan a entrar conosco numa bolha energética e levar-nos de volta à zona polar. Os homens discutiram as sugestões de Redhorse. Nenhum deles teve uma idéia melhor. Por isso resolveram levar Loor Tan. Bradon chegou mais longe que Redhorse, pois sugeriu que colocassem o chefe dos gleamors a bordo do jato espacial. — Perry Rhodan poderia dar ordem para que Loor Tan fosse interrogado pelos mutantes assim que chegássemos às naves que estão à nossa espera — disse Bradon para justificar sua idéia. — Além disso isso nos daria uma justificativa mais ou menos aceitável para a ação não prevista no plano que desenvolvemos em Gleam. — Está bem — disse Redhorse, manifestando-se de acordo com a idéia. Deu ordem para que todas as chaves fossem colocadas na posição primitiva. — Por que vamos fazer isso, senhor? — perguntou Surfat em tom exaltado. — Não se esqueça de que com isso faremos aumentar a gravidade. — Não me esqueci — respondeu Redhorse. — Mas o senhor não deveria esquecer as trinta e seis naves esféricas que avistamos antes de sair da área polar. Os tripulantes das mesmas poderiam notar o aumento da gravidade, caso sobrevoem áreas extensas. Acha que devemos assumir o risco de colocar a frota de naves esféricas no nosso encalço? Surfat confessou a contragosto que o capitão tinha razão. Não tinham alternativa senão restabelecer as condições anteriores, embora estas não pudessem ser consideradas normais. No momento em que os terranos moveram as chaves, as telas se apagaram. Os gleamors assistiram a tudo com uma expressão de indiferença. Redhorse ficou de olho em Loor Tan. O chefe dos gleamors pertencia a uma tribo primitiva, mas seu grau de inteligência podia comparar-se ao dos terranos. Se subestimassem os gleamors, poderiam ter novos problemas. Redhorse tinha certeza de que Loor Tan não se conformaria passivamente com seu destino. — O que vamos fazer com os companheiros de Loor Tan? — perguntou Doutreval. — Vamos deixá-los aqui — decidiu Redhorse. — Acho que deve haver uma jangada amarrada à plataforma. Usaremos a mesma para voltar à margem. Os quatro nativos terão de esperar até que os membros de sua tribo venham buscá-los. Sem uma jangada para atravessar o pântano não representarão nenhum perigo para nós. Redhorse pediu que Gilliam lhe desse a carabina. O sargento verificara a arma. Estava intacta. Redhorse não se sentiu muito à vontade quando pensou nas três carabinas energéticas que continuavam nas mãos dos gleamors. Resolveu fazer o possível para não passar pela aldeia dos nativos, fugindo diretamente para o local em que estavam estacionadas as bolhas energéticas. Loor Tan tinha de ser obrigado a mostrar-lhes o caminho. O Capitão Redhorse deu ordem para que seus homens fossem até a entrada. Depois segurou Loor Tan pelo ombro. Os quatro companheiros do cacique dos gleamors quiseram segui-los, mas Redhorse apontou a arma para eles e obrigou-os a recuarem para os fundos da sala. Dali a pouco encontravam-se na sala de máquinas que ficava ao lado. Redhorse obrigou Loor Tan a fechar a passagem que dava para a sala de controle. O gleamor cumpriu a ordem com uma rapidez surpreendente.

— Não se iluda — advertiu Redhorse, dirigindo-se ao gleamor. — Antes que possa fazer qualquer coisa, puxo o gatilho. Agitou ameaçadoramente a arma à frente de Loor Tan, para que este compreendesse suas palavras. Dali a alguns minutos o pequeno grupo atingiu a entrada do elevador antigravitacional. Redhorse deu ordem para que Brazos Surfat subisse antes dos outros, para servir de vanguarda. Bradon, Gilliam e Doutreval foram em seguida. Loor Tan hesitou em usar o elevador antigravitacional. — Vamos! — disse Redhorse em tom enérgico, dando um empurrão no gleamor. Loor Tan desapareceu diante dos seus olhos. Redhorse sabia que o gleamor seria recebido pelos tripulantes do SJ-4C assim que chegasse à plataforma. Também entrou no poço e deixou que o campo energético o levasse para cima. Quando chegou à plataforma, viu que Surfat e Gilliam seguravam o nativo. — Ele tentou fugir para a jangada — disse Bradon com um sorriso e apontou para alguns troncos de cogumelos amarrados, que estavam ancorados junto à ilha metálica. Doutreval já trabalhava para soltar a corda com que os nativos tinham amarrado a jangada. A mesma era menor que aquela na qual os terranos tinham vindo para a plataforma, mas Redhorse não tinha dúvida de que todos caberiam nela. Amarraram as mãos nas costas de Loor Tan e mandaram que subisse na jangada. Surfat e Gilliam pegaram as varas que serviam para impelir o veículo aquático rudimentar. Redhorse fazia votos de que não fossem atacados por um habitante do pântano. Loor Tan ficou sentado no centro da jangada, com o rosto sombrio. Redhorse mantinha a carabina apontada. Passava os olhos pelo pântano. Queria identificar qualquer atacante antes que fosse tarde. Apesar da gravidade elevada, que quase devia chegar a dois gravos, o cabo Surfat e Whip Gilliam fizeram avançar a jangada. Redhorse ficou aliviado ao notar que a chance de chegarem logo ao jato espacial levava os homens a utilizar suas últimas reservas de energia. Apesar disso Bradon e Redhorse revezaram o sargento e Surfat quando tinham percorrido metade do trecho. Doutreval ficou com a carabina. Quando se encontravam a dez metros da margem, a jangada ficou presa na lama viscosa. Os esforços dos terranos, que queriam fazê-la chegar mais perto da terra, fracassaram. Loor Tan nem tentou ocultar a alegria que isso lhe causava. — Temos que descer — decidiu o capitão. Enfiou a vara no pântano, para verificar qual era a profundidade da lama. Não conseguiu fazê-la penetrar mais de um metro e meio, mas era bastante duvidoso que com a gravidade elevada os homens conseguissem chegar à margem, atravessando o pântano. Redhorse olhou para Loor Tan. — Tirem o saiote dele! — disse, dirigindo-se a Bradon e Gilliam. Os dois astronautas agarraram o gleamor, que resistia furiosamente, e deitaram-no de barriga. Tiveram de fazer um grande esforço para tirar a peça mais importante dos trajes de Loor Tan. Finalmente Bradon a segurou nas mãos com uma expressão de triunfo. — Com isto poderemos ir à margem um por um — disse Redhorse, satisfeito. — Quem sair de cima da jangada colocará o saiote e levará uma das varas. Desta forma chegaremos à terra em segurança. Surfat teve suas dúvidas.

— Este saiote é pelo menos cinco números menor que o meu tamanho, senhor — disse. — Não se esqueça disto. — O senhor ficará por último — decidiu Redhorse. — Vamos puxá-lo para a margem todos juntos, com as varas. Acredito que só em alguns metros o chão seja perigoso. Depois o fundo do pântano fica mais firme. Quem estiver em terra deverá tirar o saiote e mandá-lo de volta na ponta da vara. Bradon ofereceu-se para ir em primeiro lugar. Redhorse concordou. O aspirante a oficial era o mais leve. Colocou o saiote de Loor Tan e desceu da jangada. Quando tinha percorrido dois metros, afundou até os quadris. Dali em diante avançou muito devagar e teve de apoiar-se com a vara. O cheiene ficou muito preocupado ao notar que as forças de Bradon diminuíam rapidamente. Utilizando as últimas reservas de energia, Bradon conseguiu aproximar-se cada vez mais da margem. Finalmente, quando já se encontrava a seis ou sete metros da jangada, seu corpo foi saindo cada vez mais da lama. Logo ficou de pé sem precisar do saiote. Soltou a vestimenta de segurança de Loor Tan e prendeu-a na ponta da vara. Os quatro terrenos que tinham ficado na jangada puxaram a vara com o saiote. — Agora é sua vez, sargento — disse Redhorse, dirigindo-se a Gilliam. Enquanto Gilliam avançava em direção à margem, Redhorse examinou a posição do sol e chegou à conclusão de que cerca de metade do dia tinha passado. Ainda havia tempo para chegar ao lugar em que estavam pousadas as bolhas energéticas antes que anoitecesse. — Vou deixá-lo a sós com Loor Tan — disse Redhorse, dirigindo-se a Surfat, depois que Gilliam e Doutreval tinham chegado à terra firme. — Mantenha a arma apontada para ele. Assim que eu estiver em terra firme, tentaremos colocar em segurança a carabina, usando a vara. Depois será sua vez. — Vou morrer afogado — disse Surfat com a voz triste. — Pare de ter pena de si mesmo — gritou Redhorse. — Não gostaria de fazer qualquer registro desfavorável a seu respeito quando voltarmos ao jato espacial. Brazos Surfat empertigou-se. — Caso ainda tenha oportunidade de fazer algum registro a meu respeito — disse em tom solene — este registro aludirá ao herói Brazos Surfat. *** Brazos Surfat não se parecia com um herói, mas os quatro homens conseguiram puxá-lo para a terra firme. Mister Jefferson ficou agarrado à nuca do cabo, todo assustado, e saltou para os braços de Bradon, aliviado, assim que Surfat pôde soltar a vara à qual se segurara. Redhorse esperou que Loor Tan abandonasse a jangada e chegasse perto dele. — Chard, o senhor vai ter mais um trabalho de desenhista — disse o cheiene, dirigindo-se a Bradon. — Pinte uma bolha energética no chão para que nosso amigo gleamor veja. Bradon arrancou alguns musgos, alisou a lama e pôs-se a desenhar. Redhorse mandou que Loor Tan se aproximasse e olhasse para o croqui. Depois apontou com o braço na direção em que acreditavam estar as bolhas energéticas. Loor Tan tentou apagar o desenho com os pés, mas Bradon puxou-o para trás. — Precisamos assustá-lo um pouco — disse Doutreval.

— Isso mesmo — confirmou Redhorse. Arrancou o saiote do corpo de Loor Tan e entregou-o a Bradon. Depois tangeu o gleamor em direção ao poço, mantendo a arma apontada para ele. — Dreite begeit! — gritou Loor Tan quando estava afundando até os joelhos. — Leite, Don! Redhorse aumentou implacavelmente a pressão da arma, seguindo o gleamor. Quando já receava que Loor Tan iria preferir a morte à traição, o nativo acenou com a cabeça e apontou na direção da floresta de cogumelos. Redhorse respirou aliviado e deixou que o gleamor voltasse à terra firme. Bradon devolveu-lhe o saiote. As forças dos terranos foram diminuindo cada vez mais. A gravidade de dois gravos fazia com que ficassem expostos constantemente a uma carga adicional. Só restava a Redhorse esperar que todos agüentassem até que atingissem as bolhas energéticas. Loor Tan poderia infligir uma derrota fulminante aos terranos. Bastaria levá-los na direção errada. Os mesmos só teriam uma chance de atingir seu objetivo provisório se Loor Tan tivesse muito medo, ou se não avaliasse corretamente o estado dos astronautas. — Vamos descansar um pouco, capitão — sugeriu Surfat. Redhorse não concordou. — Se ficarmos na margem do pântano, poderemos ser vistos do ar e da floresta — disse. — Além disso não devemos permitir que nosso amigo tenha tempo para pensar. Saíram andando. Redhorse e Loor Tan foram na frente. O oficial não tirava os olhos de Loor Tan. Qualquer hesitação do mesmo poderia significar que resolvera mudar de direção, levando os terranos ao lugar errado. Quando atingiram a floresta, Redhorse chamou Surfat. — Coloque Mister Jefferson no chão — disse. — Acho que o animal conhece a direção que devemos tomar. *** Foram avançando cada vez mais devagar. Redhorse começou a ter medo de que Loor Tan os tivesse enganado. Bem que gostaria de fazer uma pausa, mas não queria que o gleamor percebesse que as condições dos astronautas não eram muito boas. Brazos Surfat ficara no fim do grupo. Era muito gordo, e por isso sofria mais que os outros com a gravidade duplicada. Redhorse teve fortes dores de cabeça e sentia-se abatido e vazio por dentro. Até parecia que estava marchando há três dias, quando tinham caminhado apenas algumas horas. Gilliam e Doutreval recolheram cogumelos, mas desta vez o alimento não fez bem aos homens. Redhorse sentiu uma pressão surda na região do estômago. Era só a esperança de voltar ao jato espacial que o mantinha de pé. Com seus companheiros certamente estava acontecendo a mesma coisa. Fazia algum tempo que não conversavam mais. Redhorse era o único que de vez em quando dava uma ordem dirigida a Loor Tan. O gleamor parecia aceitar tudo passivamente. Os terranos não tinham meios de saber se estavam seguindo o mesmo caminho pelo qual tinham ido ao pântano no dia anterior. Mister Jefferson caminhava firmemente entre Redhorse e Loor Tan. Parecia que o animal sentia que Surfat se achava muito fraco para carregá-lo. Redhorse fazia votos de que o instinto levasse Mister Jefferson a tomar o caminho certo, caso Loor Tan resolvesse enganá-los. Finalmente chegaram ao caminho largo que levava à aldeia dos nativos. Loor Tan parou, numa atitude de expectativa. Os homens, que estavam exaustos, encostaram-se aos

troncos de cogumelos. A carabina energética que Redhorse segurava na mão parecia pesar mais de cem quilos. — Não pensei que conseguíssemos chegar até aqui — confessou Olivier Doutreval. Apontou para Loor Tan. — O que vamos fazer com ele? — Parece que espera que nós o libertemos — constatou Redhorse. — Mas não faremos nada disso. Ele terá de pilotar uma das bolhas energéticas. Não acredito que consigamos lidar com estes aparelhos. Loor Tan não escondeu a decepção quando Redhorse apontou em sentido oposto ao em que ficava a aldeia dos nativos e fez sinal para que o chefe dos gleamors continuasse a acompanhar os terranos. O gleamor soltou um grito de raiva e bateu com o pé no chão. — Senhor! — gritou Gilliam neste instante. Redhorse levou um susto e virou-se abruptamente. Vários gleamors se aproximavam, vindos do outro lado do caminho. Parecia que não sabiam o que fazer, pois seus movimentos eram titubeantes. Redhorse deu um salto para perto de Loor Tan e encostou o cano da carabina energética em seu corpo. — Não pense em bobagens, meu caro — disse em tom de ameaça. Sentiu que Loor Tan tremia de tão nervoso que estava. Os gleamors discutiam apaixonadamente. — São dezesseis nativos — disse Surfat, fora de si. — Ainda bem que não estão armados. Um dos gleamors gritou alguma coisa para seu cacique. Loor Tan não respondeu, pois Redhorse aumentou a pressão da arma. Na opinião do oficial, não conseguiriam reter para sempre os nativos. Por isso deviam chegar quanto antes às bolhas energéticas. — Não tomaremos conhecimento deles enquanto não nos atacarem — decidiu Redhorse. — Temos de andar depressa. Admirou-se de ainda ter forças para obrigar-se a sair caminhando de novo. Cada passo lhe causava grandes sofrimentos. Não foi fácil manter Loor Tan constantemente sob a ameaça da carabina. Viu pelo canto dos olhos que seus companheiros o seguiam. Os perseguidores vinham atrás dos astronautas, mas os gleamors não se arriscavam a aproximar-se a menos de vinte metros. Tinham bastante inteligência para compreender que seu chefe estava em perigo. Mas Redhorse não acreditava que isso os detivesse quando compreendessem que os prisioneiros que tinham escapado pretendiam fugir com uma das máquinas voadoras. — Não vai dar certo, capitão — disse Bradon. Redhorse lançou-lhe um olhar furioso. — O senhor tem uma idéia melhor? — perguntou em tom irritado. — Poderíamos lutar — disse Bradon. — Estamos em condições de expulsar nossos perseguidores por meio da carabina. — Se fizermos isso, irão à aldeia para trazer reforços — respondeu Redhorse. — O que faremos se os nativos vierem com as três carabinas que ainda se encontram em seu poder? Redhorse viu pelo jeito de Bradon baixar a cabeça que o jovem astronauta também não tinha resposta a esta pergunta. — Conseguiremos — disse Redhorse em tom apaziguador. — É só não perdermos os controles dos nervos. — Pois olhe para trás, senhor — resmungou Gilliam. — O senhor precisará de nervos muito bons.

Redhorse virou a cabeça. Os perseguidores pareciam cada vez mais agitados e chegavam mais perto. Talvez imaginassem quais eram as intenções dos astronautas. Apesar disso Redhorse preferiu não atirar nos gleamors. Não concordava com a idéia de atirar em seres desarmados, a não ser que sua vida estivesse em perigo. Além disso só poderia matar três ou quatro gleamors no máximo. Os outros cairiam sobre ele e lhe tirariam a arma. — Vamos! — disse o cheiene. — Surfat, trate de não ficar para trás. O cabo fungava enquanto alcançava os outros homens. O esforço fez com que seu rosto ficasse vermelho. — O senhor acha que vai conseguir, Brazos? Surfat limitou-se a acenar com a cabeça. Quando começaram a sair da floresta, os gleamors encontravam-se a apenas dez metros. Redhorse levou os homens para perto da bolha energética que poderia ser levada para fora mais depressa. Ainda não sabia como fariam para levar a máquina voadora ao local de decolagem, nem teve tempo para refletir sobre isso. Reunindo as forças que lhe restavam, agarrou Loor Tan na nuca e arrastou-o na direção da bolha energética. Os nativos que vinham atrás deles soltaram gritos. Os companheiros de Redhorse passaram à frente dele. Antes que Redhorse pudesse impedi-los, os astronautas entraram no estranho veículo voador. Redhorse tentou dar ordem para que voltassem imediatamente, mas sua voz não saiu. Só conseguiu emitir um som rouco. Seus joelhos ameaçaram vergar. Loor Tan gemeu sob a pressão de sua mão. Redhorse avançou aos tropeços. Os perseguidores uivaram ao verem o capitão entrar na bolha energética, levando Loor Tan. — Não poderemos decolar daqui! — conseguiu dizer o capitão. Perguntou-se se a voz mortiça que estava ouvindo era sua. Foi obrigado a soltar Loor Tan. Os gleamors apareceram junto à entrada do veículo. Redhorse levantou a carabina e fez um disparo de advertência por cima das cabeças dos nativos. Estes recuaram. Ouviu alguns ruídos indefinidos atrás de suas costas. Doutreval disse uma coisa em voz alta e Loor Tan soltou um grito. Houve duas pancadas surdas e alguém bateu nas costas de Redhorse. O mesmo teve de apoiar-se com a mão para não cair. Estrelas coloridas dançavam à frente dos seus olhos. As árvores que vira ao entrar na bolha energética balançaram. Admirou-se de ainda não ter ficado inconsciente. Os gleamors foram saindo do esconderijo para o qual tinham corrido quando Redhorse fizera o disparo. — Se não fizer isso, nós o matamos — disse Surfat. Redhorse compreendeu que os homens queriam obrigar Loor Tan a fazer decolar a bolha energética. “Não adianta”, pensou. “Não conseguiremos passar entre os troncos de cogumelo.” De repente a plataforma de madeira sobre a qual estava parado o cheiene balançou. A armação rudimentar, que era sustentada somente por um campo energético, desprendeu-se da superfície. A gritaria dos gleamors que se encontravam entre as árvores era cada vez mais forte. A máquina voadora bateu num tronco e balançou violentamente. Redhorse perdeu o equilíbrio e por pouco não caiu da bolha energética. Ficou deitado e apoiou-se na barriga, para poder ver o que havia fora da bolha energética. O ovo voador ganhou altura, mas ficou preso na cobertura de cogumelos. A armação rangia em todos os cantos. Redhorse teve medo de que se quebrasse a qualquer momento. Voltaram a bater num tronco e foram levados para outra direção. Redhorse viu mais embaixo a horda furiosa dos nativos, que não sabiam o que fazer.

No interior da bolha energética já estava tudo em calma. Redhorse virou a cabeça. Viu Surfat e Doutreval deitados imóveis no chão, no meio da penumbra. Bradon e Gilliam estavam de pé do lado oposto da entrada, segurando Loor Tan pelos braços. O próximo impacto num tronco de cogumelo fez com que a máquina voadora se rompesse de um dos lados. Tudo começou a girar. Redhorse ficou apavorado ao ver os nativos carregarem duas bolhas energéticas para fora da floresta. Certamente queriam sair em sua perseguição, caso os fugitivos conseguissem sair de entre os troncos. Redhorse viu através da abertura que se formara algumas coberturas de cogumelo acima de sua cabeça. Entre elas se via o céu sem nuvens. — Acha que conseguiremos passar? — perguntou Doutreval. — Não — respondeu Redhorse. Como que para contestar estas palavras, a máquina voadora oval passou entre dois troncos e foi subindo. Redhorse viu através da abertura um pedaço maior de céu livre. Seguiram exatamente nessa direção. — Pare! — gritou Redhorse. — Vamos cair! Mas de repente estavam voando em cima da floresta. Redhorse encostou o rosto à superfície polida do chão de madeira. Todas as fibras de seu corpo ansiavam por um descanso. Mas Redhorse sabia que não poderia ceder a esta tendência. Atrás deles, a apenas algumas centenas de metros de distância, mais duas bolhas energéticas iam decolando. *** O vento provocado pelo deslocamento da bolha energética penetrou no interior da mesma, deixando desgrenhado o cabelo negro-azulado de Redhorse. Mais algumas placas de metal foram arrancadas. Só metade da armação ainda possuía um revestimento. O capitão ainda estava agachado junto à entrada, observando as duas máquinas voadoras que tinham saído em sua perseguição. Ao que parecia, os gleamors tinham possibilidade de atacar os fugitivos enquanto permanecessem no ar. O oceano estendia-se embaixo deles. Redhorse não conseguia livrar-se da idéia de que Loor Tan, de tão desesperado que estava, os deixaria cair no mar se notasse que os terranos não desistiam de seu intento. Logo após a decolagem Redhorse dera ordem para que três dos homens ficassem deitados no chão. No momento Bradon estava de pé ao lado de Loor Tan. Redhorse observava os gleamors que os perseguiam. Não havia nenhum mecanismo de direção no interior da bolha energética. Redhorse acreditava que os gleamors pilotavam a mesma por meio de suas energias mentais. Não havia outra explicação. Loor Tan não demonstrava nenhum cansaço. Os terranos também já se tinham recuperado. Brazos Surfat estava deitado de costas, roncando. Mister Jefferson estava agachado entre ele e Gilliam. O ser peludo mantinha a cabeça entre as patas dianteiras, e de vez em quando lançava um olhar ligeiro para Redhorse. As duas bolhas energéticas que tinham saído em sua perseguição mantinham-se sempre à mesma distância. Redhorse atirara nelas duas vezes, mas os tiros energéticos se tinham perdido, sem atingir o objetivo... — O senhor acha que Loor Tan levará o veículo ao local em que está pousado o jato? — perguntou Bradon. Redhorse teve de fazer um grande esforço para entender a voz do jovem em meio ao rugido e aos chiados do vento.

— Esperemos que sim! — respondeu em voz alta. — Faço votos de que espere que os membros de sua tribo nos peguem de surpresa logo após o pouso. Mais uma chapa de metal do revestimento da bolha energética desprendeu-se com um estrondo. Redhorse viu-a descer sobre o mar que nem uma folha seca. As bordas entrecortadas das outras chapas começaram a bater sob a força do vento. Até parecia uma pistola automática atirando. O cheiene fazia votos de que pelo menos parte das chapas resistisse. A velocidade em que voavam era tão elevada que, caso o vento passasse livremente, os homens estariam em perigo. Da forma que estavam as coisas, o mesmo já sacudia a máquina voadora, fazendo-a balançar fortemente. Muitas vezes desciam a poucos metros da água. Sempre que isso acontecia, Redhorse temia que pudessem mergulhar nas águas e morrer afogados. Mas Loor Tan também parecia interessado em escapar à morte nas águas, pois sempre conseguia neutralizar os balanços. As duas bolhas energéticas que os perseguiam tinham certa dificuldade em acompanhar as manobras surpreendentes da máquina avariada. Muitas vezes eram obrigadas a descrever curvas amplas. O sol já se ia pôr, quando finalmente avistaram terra. *** Redhorse nunca teria sido capaz de acreditar que um jato espacial enfiado numa fenda no chão e coberto de sujeira pudesse representar um quadro tão animador. Apesar de tudo, soltou um grito de júbilo ao avistar a nave-disco lá embaixo. A área livre que se estendia entre a floresta de cogumelos e o pântano parecia abandonada. Só se via o esqueleto do gravodançarino. Os insetos e outros animais tinham feito um trabalho completo. A cobra gigante também estava em decomposição. Um bando de pássaros pequenos saiu voando quando as três bolhas energéticas apareceram sobre o jato espacial. Redhorse acordou os três homens que estavam dormindo. Whip Gilliam foi para perto da entrada e enfiou a cabeça para fora. Estavam indo tão devagar que até se poderia ter a impressão de que estavam suspensos no ar. Os dois aparelhos voadores ocupados pelos gleamors pousaram a cerca de trinta metros do jato espacial. — Não querem mesmo que demos o fora daqui — disse Gilliam, zangado. Fez estalar os pulsos. — Está na hora de pousarmos também. — Chard! — gritou Redhorse. — Faça pressão sobre Loor Tan, obrigando-o a fazer pousar este ovo perto do jato espacial. — Daqui não vejo nada — respondeu Bradon. Redhorse afastou os cabelos do rosto. — Avisarei se o gleamor tentar enganar-nos. A máquina voadora foi descendo devagar. Redhorse viu os gleamors saírem das outras duas bolhas energéticas e correrem na direção do SJ-4C. Encostou a carabina ao ombro e fez um disparo de advertência. Os nativos jogaram-se ao chão e continuaram a avançar na direção da pequena espaçonave, rastejando entre os musgos. Pareceu demorar uma eternidade até que a armação circular que servia de elemento de apoio durante o pouso tocasse a superfície. Redhorse saltou imediatamente do aparelho. Os gleamors que estavam escondidos na vegetação, bem à sua frente, levantaram de um salto e saíram correndo na direção do jato espacial. Gilliam passou à frente do capitão com alguns saltos elásticos e foi o primeiro a chegar à eclusa. Redhorse olhou para trás e viu que Bradon tinha de fazer um grande esforço para arrastar Loor Tan, que resistia desesperadamente, para fora da bolha energética. Gilliam já tinha

desaparecido no interior do jato. Redhorse segurou a carabina pelo cano. Postou-se à frente da eclusa. Doutreval aproximou-se fungando. Os primeiros nativos chegaram. Redhorse brandiu a carabina. O sargento Whip Gilliam saltou da eclusa atrás dele, gritando que nem um índio. Brandia sobre a cabeça um gigantesco alicate e passou a investir com o mesmo contra os gleamors. Por um instante Redhorse fitou surpreso aquela figura magra, que tinha uma mecha de cabelos louros caída na testa. Mas logo foi obrigado a defender-se contra três gleamors que o cercavam. Finalmente Surfat também atingiu o jato espacial. — Faça decolar o jato! — gritou Redhorse para Doutreval. — Vamos, Brazos! Entre no disco juntamente com Olivier. Enquanto Gilliam e Redhorse recuavam lentamente diante da superioridade de forças, Bradon também conseguira aproximar-se, trazendo o prisioneiro. O jovem astronauta empurrou Loor Tan para dentro da eclusa. O chefe dos gleamors gritou algumas ordens para os membros de sua tribo. Já não parecia interessado em proteger a própria vida. Finalmente Bradon o obrigou a entrar na sala de comando. — Temos de retirar-nos lentamente para dentro da eclusa! — gritou Redhorse para o sargento. Gilliam batia com o alicate nos atacantes. Os gleamors abaixavam-se e tentavam desviar-se do terrano enfurecido. Dois dos nativos arremeteram com a cabeça contra Redhorse e o fizeram cair. Mas Gilliam logo se aproximou. Enquanto corria, derrubou um gleamor, usando sua arma para pôr fora de ação o segundo. Redhorse conseguiu levantar de novo. Ainda hesitava em atirar contra os gleamors. Os dois astronautas foram recuando para a eclusa, de costas um para o outro. Redhorse respirou aliviado quando finalmente tocou o material sólido. Gilliam saltou para dentro da eclusa. Redhorse empurrou três gleamors que se aproximavam e também entrou na câmara da eclusa. Os nativos que os perseguiam tentaram entrar na pequena espaçonave. Gilliam investiu furiosamente contra eles com seu alicate, rechaçando os atacantes. Neste momento a escotilha externa da eclusa fechou-se. Redhorse baixou a carabina e foi à sala de comando. Não podiam perder tempo. O capitão fazia votos ardentes de que apesar da posição inclinada do jato a decolagem não trouxesse maiores problemas. Os homens já se encontravam em seus lugares. Mister Jefferson se escondera na caixa em cujo interior continuava o ovo pertencente a Chard Bradon, do qual ainda não tinha saído nada. Redhorse deixou-se cair na poltrona do piloto e ligou os controles. Moveu rapidamente os comandos a que já estava familiarizado. Teve a impressão de só ter passado alguns minutos fora do SJ-4C. Até parecia que os sofrimentos pelos quais passara em Gleam não representavam mais que um pesadelo. — Rastreamento! — gritou Doutreval. Redhorse virou abruptamente a cabeça. As telas tremeram no momento em que os propulsores que entravam em funcionamento consumiam toda a energia disponível. Depois disso Redhorse viu perfeitamente trinta e seis pontos claros, que se movimentavam sobre a tela. Não havia necessidade de alguém lhe dizer o que significava isso. A frota de naves esféricas desconhecidas voltara a aproximar-se.

Redhorse lançou um olhar para Bradon, que estava sentado atrás do canhão energético. O aspirante a oficial amarrara Loor Tan na mesa dos mapas, para que o gleamor não pudesse fazer nenhum estrago durante a decolagem. Redhorse ligou os propulsores para a potência máxima. Tinham de sair da fenda antes que o grupo de naves desconhecidas chegasse mais perto. O jato espacial vibrou. Redhorse segurava firmemente a direção. Nem se atrevia a pensar nas colunas de sustentação empinadas. O jato espacial foi-se desprendendo do chão, deixando para trás uma gigantesca cratera e saindo de uma nuvem de terra revolvida e pedaços de plantas. Redhorse sentiu a tensão que o afligia diminuir um pouco. Não sabia por quê, mas tinha certeza de que nada mais poderia acontecer-lhes. Viu nas telas a paisagem estranha, que diminuía rapidamente. Já não se viam os gleamors. — Grupos de naves desconhecidas aproximam-se — informou Doutreval. — Fomos descobertos. “Que venham atrás de nós”, pensou Redhorse. “Mesmo que nos cacem através de toda a área de Andro-Beta, atingiremos o espaço intergaláctico.” O jato precipitou-se em direção ao céu, penetrando nas camadas exteriores da atmosfera que se tornou fluorescente. Dali a pouco os aparelhos hiper-rastreadores voltaram a emitir uma série de ruídos provocados pelas interferências. Redhorse não tirava os olhos dos controles. — Temos tempo para fazer algumas operações de radiogoniometria, senhor? — perguntou Doutreval. — Agora que já sei que existe a tal da lua será mais fácil encontrar alguma coisa. Redhorse olhou para os trinta e seis pontinhos projetados na tela. As espaçonaves desconhecidas ainda se encontravam no interior da atmosfera de Gleam. — Acho que podemos arriscar — respondeu em voz baixa. Restava saber se não estariam provocando o destino se naquela altura tentassem de novo dirigir-se à lua de Gleam. Apesar de tudo o jato espacial permaneceu numa órbita em torno do planeta elíptico, até que os trinta e seis pontos projetados nas telas do rastreamento espacial se transformassem em algumas centenas. — Olhem só! — gritou para os homens. — Ainda acabo enlouquecendo! — exclamou Brazos Surfat, surpreso. — De onde vêm de repente todas estas naves? — Bem que eu gostaria de saber — respondeu Redhorse. — De qualquer maneira, parece não haver nenhuma dúvida quanto às suas intenções. Está na hora de sairmos deste sistema pouco hospitaleiro. Aquilo que ainda não sabemos será descoberto pelos mutantes que se encontram a bordo da Crest II. Mal acabou de proferir estas palavras, o Capitão Don Redhorse acelerou o SJ-4C e o fez sair do sistema Tri, levando-o para o espaço cósmico.

7
O calendário de bordo da Crest II registrava o dia 15 de setembro do ano 2.402, quando, depois de ter realizado três saltos lineares, o SJ-4C apareceu no espaço, junto a Andro-Beta, bem perto do lugar em que a frota estava à sua espera. Houve alguma dificuldade em fazer a nave entrar no hangar, por causa das colunas de sustentação empinadas, mas a nave-disco e sua tripulação também resistiram a esta última fase. Loor Tan foi entregue a um dos oficiais da Crest II, que o levou imediatamente à sala de comando. Redhorse e seus companheiros foram beneficiados com um descanso de algumas horas. Mas o capitão sabia perfeitamente que não escaparia às conseqüências de seus atos, e viu seus maus pressentimentos confirmados dez horas depois de sua chegada à Crest II, quando recebeu ordem para comparecer à sala de comando. Quando entrou, viu toda a oficialidade reunida em torno de Perry Rhodan. Até mesmo o Lorde-Almirante Atlan viera da nave Imperador num barco espacial. Loor Tan, o gleamor, estava todo encolhido numa poltrona pneumática. Redhorse procurou dar a impressão de que estava completamente calmo. Atravessou tranqüilamente a grande sala e parou à frente de Perry Rhodan. — Senhor! — disse e fez continência. Rhodan fitou-o prolongadamente. — Vê-se que o senhor sofreu muito — disse finalmente. — Não fui só eu, senhor — respondeu Redhorse. — Os outros tripulantes do jato espacial também sofreram. — O senhor certamente já se deu conta de ter infringido uma ordem expressa — disse Rhodan. — Arriscou de forma irresponsável a vida de quatro homens, sem falar na sua. O corpo de Redhorse entesou-se. Mas logo sentiu seu nervosismo diminuir. Teve consciência da mudança que houvera com ele em Gleam. — O senhor tem razão — disse. — Confesso que foi somente o espírito aventureiro que nos levou a pousar em Gleam. É bem verdade que os resultados confirmaram o acerto de nosso procedimento. — O senhor terá de submeter-se a um processo disciplinar — disse Rhodan. — Já forneceu um breve relato após seu regresso. Estamos reunidos para conhecer com detalhes suas experiências no sistema Tri. O interrogatório do gleamor, realizado por mutantes, já revelou que suas suposições a respeito do satélite de Gleam são corretas. A estação de hiper-rádio que provoca a ativação dos mobys fica em Siren, nome que demos a essa lua. Redhorse nem tentou esconder a satisfação que estas palavras lhe causavam. — Posso saber se os mutantes conseguiram tirar mais alguma coisa de Loor Tan? — perguntou. — Isso provavelmente me fará ver várias coisas de uma forma bem diferente. São circunstâncias que talvez possam ser consideradas no relatório que terei de apresentar. — A mente do nativo deixa claro que os gleamors não têm nenhuma relação com o transmissor e outras instalações importantes que existem em Gleam e em Siren — respondeu Rhodan prontamente. — Os gleamors são os descendentes degenerados de um povo que já foi grande, e do qual existem outros grupos que vivem em vários planetas de

Andro-Beta. Loor Tan diz que os indivíduos de sua raça que não perderam a vitalidade e devem habitar mundos que não conhecemos são os poderosos. — É um nome bem sugestivo, senhor — disse Redhorse. — Será que as tripulações das espaçonaves que nos perseguiram são formadas por gleamors não degenerados? — Não sabemos. Mas ao que tudo indica Loor Tan tem um respeito tremendo por aqueles que chama de poderosos. Infelizmente o senhor e seus companheiros foram vistos muitas vezes em Gleam. Os gleamors não os esquecerão tão depressa. Por isso existe o perigo de os gleamors contarem o que sabem, se forem interrogados em tempo por inteligências devidamente orientadas a respeito do aspecto exterior dos cinco desconhecidos que estiveram no planeta. Desta forma os senhores da galáxia talvez descubram que os terranos chegaram a Andro-Beta. Seria outro resultado da sua atuação, capitão. Redhorse fez como se não notasse a ironia que havia nestas palavras. Deu início ao seu relato. Muitas vezes foi interrompido por pessoas que queriam fazer perguntas. Ficou satisfeito quando a discussão chegou ao fim e obteve permissão de voltar ao seu camarote. Ainda se sentia cansado. Se deitasse, provavelmente dormiria mais algumas horas. Os outros certamente ainda estavam deitados. O processo disciplinar anunciado por Rhodan não deixou Redhorse muito preocupado. No máximo receberia uma séria repreensão. Seus companheiros não seriam punidos, porque estavam diretamente submetidos às suas ordens. Redhorse estava preparando um café bem forte, quando alguém bateu à porta de seu camarote. — Pode entrar! — gritou Redhorse. — Não vou bater em ninguém. A porta abriu-se, e o corpo enorme de Brazos Surfat foi passando pela mesma. Usava uniforme limpo e estava com a barba feita. — Olá, cabo — disse Redhorse, surpreso. — Pensei que já tivesse sido preso de novo. Surfat deu uma risadinha. — Voltei a ser uma pessoa importante a bordo desta nave, senhor — disse. — Os biólogos estão examinando Mister Jefferson, mas este só se deixa tocar na minha presença. Por isso os biólogos não tiveram alternativa senão empenhar-se para que eu fosse solto antes do tempo. Redhorse pegou uma colher de plástico e mexeu o açúcar em tablete que colocara no café. — Veio para me dizer isso? — perguntou. — Vim por causa do garotão — respondeu Surfat. — Por causa do garotão! — repetiu Redhorse. — A forma pela qual o senhor se exprime é tão relaxada quanto seu uniforme, Brazos. O que houve com Chard Bradon? Antes que Surfat tivesse tempo para responder, alguém bateu à porta. Redhorse abriu, espantado. O Major Curd Bernard estava parado no corredor, com o rosto vermelho de raiva. — Aconteceu uma coisa inacreditável! — chiou. Redhorse olhou para Surfat, que deu de ombros como quem não sabia o que fazer e se esforçava para não ser visto por Bernard, o que era bastante difícil, dado o volume de seu corpo. — Chard Bradon ainda está sob suas ordens — disse Bernard. — Não acredito, major — respondeu Redhorse. — Já estamos novamente a bordo da Crest. E aqui é o senhor que dá ordens a Bradon.

Redhorse ainda não sabia aonde Bernard queria chegar. Bernard ficou ainda mais vermelho. Dava a impressão de que a qualquer momento iria precipitar-se sobre Redhorse. — Segundo o manual da Frota Solar, cada oficial é responsável por seus subordinados enquanto não tiver transferido os mesmos oficialmente ao oficial que antes tinha o poder de comando sobre eles. — Parece complicado, senhor — reconheceu Redhorse, cocando o queixo. — Pois vai complicar ainda mais — respondeu o oficial intendente, para berrar de repente: — Acompanhe-me, capitão! Redhorse saiu do camarote. Surfat ficou grudado em seus calcanhares. — Receio ter chegado tarde, senhor — cochichou para Redhorse. O cheiene perguntou-se quais seriam as informações que Surfat queria transmitir-lhe. O Major Bernard saiu caminhando ruidosamente em direção ao elevador antigravitacional mais próximo e levou Redhorse ao depósito principal da nave. Uma vez no vestiário, parou, levantando a tampa do balcão. — Dê uma olhada — disse a Redhorse. — O que houve foi isto! Redhorse inclinou-se sobre o balcão, para ver o vestiário. O Major Bernard era um homem muito organizado. Sempre mantivera os uniformes dos oficiais bem empilhados. Acontece que a pilha estava remexida. Entre os uniformes havia cascas de ovo e uma coisa suja que piava e tinha certa semelhança com um marreco gigante muito feio. “Até parece um bicho de borracha inflado”, pensou Redhorse, que se divertia a valer. Mas não era só. A três metros dali estava Chard Bradon, com uma expressão de enlevo no rosto, tirando fotografias com uma câmara automática. — O ovo de Horror! — exclamou em tom de surpresa. — Não é que saiu alguma coisa? — Ninguém pode obrigar-me a entrar ali — disse Bernard, nervoso. — Estes uniformes estão estragados. Já tentei três vezes convencer este maluco a sair do vestiário, mas ele nem toma conhecimento quando falo com ele. Redhorse voltou a inclinar-se sobre o balcão. — Chard! — disse baixinho, mas em tom enérgico. Chard Bradon levantou um dos olhos por cima da câmara e piscou para o Capitão Redhorse. — Olhe só, senhor — balbuciou, eufórico. — Saia daí, Chard — disse Redhorse. Bradon já estava novamente com a cabeça abaixada. O obturador da objetiva não parava de fazer clique. — O senhor é o oficial no comando! — gritou Bernard fora de si. Brazos Surfat colocou-se ao lado de Redhorse. — Desculpe se eu me intrometo nisso, major — disse. — A citação que fez do manual foi absolutamente correta — teve de desviar-se do pé do capitão, que queria pisar no seu dedão. — Acontece que está errado se acredita que o capitão continua a dar ordens a Bradon. O senhor continua a ser o superior imediato de Bradon, pois esqueceu-se de transferir Bradon oficialmente a Redhorse quando saímos da Crest no jato espacial. O Major Bernard deixou cair o queixo. Redhorse nunca vira um homem tão perplexo. O silêncio passou a reinar no depósito principal da Crest II.

O único ruído que se ouvia era o clique ininterrupto de uma câmara automática, vindo do vestiário.

*** ** *

Quando o mundo desconhecido mostrou sua verdadeira face, os cinco homens da Crest tiveram de lutar pela vida. Escapam do caos sãos e salvos — e as informações que conseguem levar a Perry Rhodan são tão importantes que a Nave de Reconhecimento 008 e outras unidades terranas recebem ordem para entrar em ação... Não perca a emocionante história descrita no próximo volume da série intitulado Nave de Reconhecimento 008.

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