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O ESPÍRITO DA MÁQUINA Everton
Autor

KURT MAHR

Tradução

RICHARD PAUL NETO

Os calendários terranos registram os últimos dias do ano 2.402. A expedição de Perry Rhodan em direção a Andrômeda, conhecida como operação cabeça-de-ponte, não registrou apenas sucessos. Também houve revezes. De qualquer maneira, a expedição terrana conseguiu uma base segura em Andro-Beta, situada no planeta Gleam, a partir da qual poderia ser lançada a ofensiva contra a área diretamente controlada pelos senhores da galáxia. Baar Lun, um modular que comandava as esferas luminosas por conta dos senhores da galáxia e acabou passando para o lado dos terranos, confirmou que os senhores de Andrômeda não tinham mais armas guardadas em Andro-Beta. Os misteriosos senhores da galáxia passam a desenvolver uma atividade terrível junto aos maahks de Andro-Alfa, a 62.000 anos-luz da nebulosa Beta, e com isso o palco dos acontecimentos intergalácticos muda de lugar. Grek-1, um maahk que se aliara a Perry Rhodan, sacrifica a própria vida para ajudar seu povo e não ter de trair os terranos. Os comandos de extermínio dos maahks transformados em servos dos senhores da galáxia se concentram, e pesadas lutas são travadas em torno do sistema Chumbo de Caça. Reginald Bell e seus homens enfrentam uma situação desesperadora, enquanto O Espírito da Máquina não entra em ação e provoca uma virada decisiva...

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Personagens Principais: = = = = = = =

Steve Kantor — Um terrano que se encontra com um monstro. Reginald Bell — O homem encarregado da defesa do sistema Chumbo de Caça. Tenente-Coronel Koenig — Comandante de um batalhão de engenharia. Allan D. Mercant — Marechal solar e chefe do Serviço de Segurança. Icho Tolot — O halutense que infringe uma lei de seu povo. Sid Lippman, Lucas Delia Fera e Lott Warner — Membros da equipe de Steve Kantor. Reggie — O espírito da máquina.

1
Kantor sobressaltou-se. Ficou confuso por um instante, sem saber onde estava. Mas logo se lembrou. Virou a cabeça e viu o retângulo da porta fortemente iluminado. Uma figura estranha destacava-se contra a luz. Ainda meio sonolento, Kantor viu um par de pernas grossas e curtas, um tronco redondo e desajeitado que nem um balão cheio de ar e inúmeras excrescências, que tremiam constantemente que nem os tentáculos de um monstro das profundezas do mar. Foi uma visão tão horripilante que fez gelar o sangue nas veias de Kantor. Nem sequer foi capaz de gritar. Um som estertorante saiu de sua boca. Foi só. O desconhecido estava parado na porta aberta, e parecia absorto no exame do recinto. Aos poucos a inteligência de Kantor voltou a funcionar. Lembrou-se de ter fechado a porta antes de deitar. O desconhecido devia ter aberto a fechadura. Kantor não tinha a menor idéia de como poderia ter feito isso, e nem era capaz de imaginar em que lugar de Califa poderiam viver monstros parecidos com o que estava parado na porta. Só sabia que tinha medo, e assim que se deu conta disso começou a lutar contra este sentimento. O desconhecido começou a movimentar-se. Atravessou a porta e entrou na sala mergulhada na penumbra. Foi o que decidiu a situação. Os músculos de Kantor começaram a funcionar de repente. Saltou do leito com um grito marcial e atravessou o quarto, em direção ao armariozinho no qual guardara suas vestimentas antes de ir para a cama. O desconhecido parecia um tanto surpreso. Parou e as dezenas de braços que pendiam de seu corpo chicoteavam nervosamente o ar. Kantor abriu violentamente o armário. A claridade que entrava pela porta não era suficiente para que visse onde estava sua roupa de serviço. Mas teve sorte. A primeira coisa em que pôs a mão foi o coldre no qual estava guardada a pequena pistola energética. Arrancou a arma. O desconhecido já parecia ter tomado uma decisão. Voltou a cabeça. Kantor viu-o atravessar novamente a porta. Levantou a arma, soltou um grito de raiva e atirou. A luz da descarga energética deixou-o ofuscado. Quando voltou a enxergar, o monstro tinha desaparecido. Kantor correu para a porta. O corredor, que se estendia a centenas de metros em ambos os sentidos, passando pelos dormitórios dos engenheiros, estava quieto e vazio. Não se via sinal do desconhecido armado com tentáculos. O lado direito do batente da porta estava superaquecido. O cheiro desagradável da massa plástica enchia o ar. Kantor ligou a luz e olhou em volta. O pequeno quarto tinha o mesmo aspecto prosaico de oito horas atrás, quando ele o vira pela primeira vez. A cama estava encostada à parede do lado esquerdo, na parede dos fundos havia um canto reservado com uma mesa e três poltronas, e junto à parede do lado direito via-se um armário grande e outro menor. À direita do armário maior havia uma porta que levava ao pequeno banheiro. As instalações do intercomunicador ficavam bem ao lado desta porta. O chão estava coberto por um tapete simples de fibra de plástico, e a luz era fornecida por dois tubos fluorescentes amarelos presos ao teto. Era o pequeno reino de Steve Kantor. Restava saber o que o desconhecido esperara encontrar ali.

Parecia que seus gritos não tinham sido ouvidos por ninguém, o que não o deixou nem um pouco admirado. De ambos os lados do corredor dormiam pessoas que tinham vindo da Terra há doze horas, tal qual ele. Em Califa costumava-se dar um calmante forte aos recém-chegados que não pertencessem à classe dos astronautas profissionais. Steve perguntou-se como conseguira acordar tão depressa. Dirigiu-se ao intercomunicador. Levantou o fone e apertou a tecla O. A pequena tela iluminou-se e um rosto cansado apareceu nela. — Sala de comando. Cabo Bennington. O que posso fazer pelo senhor? Sem querer, Steve teve de sorrir. Bennington certamente queria que ele fosse para o inferno, mas recebera ordens para ser amável para com os novos engenheiros. — Quero dar uma informação, cabo — disse Steve. — Ah — fez Bennington sem demonstrar o menor abalo. — Um desconhecido invadiu meu quarto — fez uma descrição do monstro. Bennington balançou a cabeça. — Dei um tiro — prosseguiu Steve. — Mas antes que voltasse a enxergar de verdade, o desconhecido desapareceu. — Já conheço isso — resmungou o cabo. — Tinha três antenas coloridas na cabeça e, toda vez que fazia um movimento, alguns sinos tocavam La Paloma. Senhor — de repente sua voz assumiu um tom oficialesco. — O senhor não é o primeiro recémchegado que aporta a Califa, nem o primeiro que sofre alucinações. Reflita mais um pouco sobre o que acaba de contar e se depois disso ainda quiser fazer um registro oficial, volte a chamar. Até lá desejo-lhe uma boa noite. Antes que Steve pudesse formular qualquer objeção, a tela apagou-se. Steve ficou furioso, mas antes que voltasse a entrar em contato com Bennington, lembrou-se de uma coisa. — Tinha três antenas na cabeça... Steve procurou lembrar como era o monstro. Naturalmente o nervosismo e o medo tinham sido tantos que mal conseguia enxergar, mas tinha certeza quase absoluta de que o desconhecido nem possuía cabeça. *** Dali a cinco horas, quando o sinal de despertar arrancou os engenheiros recémchegados da cama, as coisas pareciam bem diferentes. Steve Kantor sentia-se calmo e descansado. De repente não teve tanta certeza se realmente vira o monstro, ou se apenas era um sonho. Tomou uma ducha e mudou de roupa. Enquanto fazia isso, chegou à conclusão de que seria preferível não falar com ninguém sobre sua aventura noturna. E fazia votos de que o cabo Bennington soubesse calar a boca. Mas antes de sair do quarto para misturar-se à multidão que caminhava pelo corredor, examinou o batente da porta. O tiro energético deixara uma marca bem perceptível. Pelo menos este tinha sido real. Num gesto pensativo, Steve enfiou o dedo na ranhura enegrecida pelo calor, que a descarga energética abrira no batente da porta. Sacudiu a cabeça, contrariado, e saiu para o corredor. Logo viu-se arrastado pela multidão. Dali a alguns minutos viu-se na grande sala de refeições que ficava no fim do corredor. Tratava-se de um recinto que tinha pelo menos cinqüenta metros de comprimento por trinta de largura. As máquinas automáticas, nas quais as pessoas podiam servir-se de comida à vontade, ocupavam pelo menos a quarta parte da área da sala. As outras três quartas partes estavam cheias de mesas e banquetas. Steve pegou um

caneco de café e um sanduíche, procurou um lugar junto a uma mesa e enquanto tomava seu lanche ficou quebrando a cabeça sobre os motivos que o fizeram parar ali. Havia uma enorme tela embutida na parede dos fundos, que permitia uma visão dos arredores, à maneira de uma janela. Em Califa, que era um astro pequeno, onde o horizonte ficava a um pulo de gato, estes arredores eram formados em partes iguais pelo chão firme e cinzento e pela escuridão do espaço cósmico. Steve passou os olhos rapidamente sobre o conjunto de construções em forma de barraco que preenchiam o terço inferior do campo de visão. Depois passou a contemplar a multidão cintilante formada por centenas de milhares de fragmentos cósmicos grandes, pequenos e minúsculos, que giravam à luz do sol geminado e faziam com que a estranha ilha situada no nada fosse conhecida pelo nome de sistema Chumbo de Caça. Os dois sóis dominavam o quadro. As duas bolas de fogo alaranjadas, amortecidas por meio de filtros para que não fizessem doer os olhos, dardejavam seus raios no centro da tela. Os dois sóis forneciam a energia para o transmissor que ligava o sistema Chumbo de Caça com a galáxia Andrômeda. Califa era um dos nove grandes asteróides que percorriam suas órbitas em torno do centro de gravidade do sol, juntamente com a multidão de fragmentos de rocha. Califa tinha aproximadamente o tamanho da Lua terrana — e a mesma densidade populacional. Steve mal conseguia compreender como tinha sido possível transportar dentro de pouco tempo uma quantidade tão grande de recursos humanos e materiais a este ponto afastado do Universo. Califa ficava a mais de 1,3 milhões de anos-luz da Terra. Fazia quase exatamente um ano terrano que pela primeira vez uma espaçonave terrana chegara ao sistema Chumbo de Caça. Naquele momento Califa parecia antes uma concentração de tropas. Docas e oficinas, alojamentos provisórios e usinas de força, hipertransmissores e laboratórios técnicos tinham brotado do chão da noite para o dia. Uma frota formada por milhares de naves permanecia suspensa no espaço, bem perto de Califa, girando juntamente com o asteróide em torno do sol geminado vermelho. Quatro meses atrás, quando Steve Kantor ainda trabalhava num instituto de pesquisas oficial situado na Terra, ouvira falar pela primeira vez nos esforços tremendos que a humanidade vinha empreendendo para criar uma base nas imediações de uma galáxia estranha. Sentiu-se dominado pelo entusiasmo. Passou a experimentar um orgulho que ainda não conhecera — orgulhava-se por ser um terrano. Quando soube que em Terrânia estavam sendo procurados técnicos em hipercampos, que estivessem dispostos a passar dois ou três anos bem longe da Terra, num perigoso posto avançado, compreendeu que só podia tratar-se do transmissor Chumbo de Caça. Candidatou-se ao lugar o mais depressa que pôde. Fora aceito. Dali em diante tudo correu muito depressa. Foram buscá-lo no mesmo dia em que tinha sido avisado de sua aceitação. Levaram-no a um campo de treinamento situado na costa da África Ocidental. Nas cem horas de aulas sugestivas que lhe foram dadas aprendeu tudo que precisaria para a tarefa que estava para ser cumprida. Soubera pela primeira vez o que acontecera no sistema Chumbo de Caça e nas áreas periféricas de Andrômeda, desde que a nave-capitânia da frota, a Crest II, pousara em Califa no mês de dezembro do ano de 2.401. Compreendera que os esforços até então feitos com o objetivo de permitir o acesso da humanidade a uma nova galáxia eram muito mais gigantescos e heróicos do que acreditara. Isto só contribuiu para aumentar seu entusiasmo. Quando ele e outros quinhentos engenheiros tinham aprendido bastante, todos foram colocados numa gigantesca espaçonave. O vôo, que durou mais de dois dias,

levou-os pelas profundezas de sua galáxia. A seguir um medicamento foi aplicado aos passageiros, e a primeira coisa que Steve soube depois disso foi que seus olhos viram na tela de seu camarote os pontos luminosos de dois sóis no meio da escuridão absoluta. Aliás, a escuridão não era tão completa como no início se poderia ser levado a acreditar. A luminosidade tênue de uma grande nebulosa cobria o firmamento de lado a lado. Sua luz era tão fraca que podia facilmente passar despercebida diante do brilho fulgurante dos dois sóis. Steve Kantor compreendeu que acabara de chegar ao destino. As duas bolas de fogo vermelhas que via projetadas na tela eram os sóis que faziam parte do transmissor Chumbo de Caça. A grande nave alcançara o destino sem contratempos. Dentro de mais algumas horas seria destacado para algum setor, a fim de colaborar num projeto mais fantástico do que qualquer outro já empreendido no curso da história milenar da humanidade. Steve lembrou-se do que pensara e sentira nessa oportunidade, enquanto consumia seu sanduíche. O tremendo entusiasmo já tinha diminuído um pouco. A recepção que lhes foi proporcionada em Califa poderia ter sido tudo, menos poética. Os alto-falantes berravam ordens, e oficiais subalternos da frota, impacientes, tangiam os engenheiros como se fossem uma manada de animais. Davam todos a impressão de que teriam preferido que os recém-chegados tivessem ficado na Terra. No início Steve ficou decepcionado, mas logo compreendeu que as pessoas que se encontravam em Califa tinham muito que fazer, e por isso não tinham tempo para recepcionar um batalhão de jovens cientistas com os braços abertos. Os recém-chegados foram obrigados a entrar em forma que nem um bando de recrutas, no interior de um pavilhão tão grande que uma espaçonave de porte médio teria encontrado lugar em seu interior. O entusiasmo provocado pelo fato de pela primeira vez ver-se frente a frente do lendário Reginald Bell e ouvir suas palavras foi abafado um pouco pela recepção pouco amistosa, mas Steve lembrou-se de que ouvira as palavras de Bell com a maior atenção. O Marechal-deEstado Bell fez uma descrição ligeira dos objetivos e finalidades da base do sistema Chumbo de Caça, e a seguir passou a tratar das tarefas dos engenheiros recém-chegados. Fez a apresentação dos chefes de seção — que eram todos oficiais do destacamento técnico da frota — para que cada um dos recém-chegados soubesse para quem iria trabalhar. Depois receberam alguma coisa para comer. Steve foi conduzido ao seu aposento em companhia de mais de quinhentos homens. Este aposento até se parecia com o camarote de uma espaçonave, que era exatamente o que ele esperara. Grupos de engenheiros andaram de um lado para outro, distribuindo medicamentos. Steve tomara um banho e fora para a cama. E agora estava ali. Olhou para o relógio. Eram oito e dez, tempo padrão. Às oito e trinta deveria comparecer ao local de trabalho, para que lhe fossem indicadas suas tarefas. Seu chefe de seção era o Tenente-Coronel Koenig, sob cujas ordens trabalharia um total de oitenta dos novos engenheiros. Steve imaginava que Koenig passaria todo o dia distribuindo os oitenta homens em grupos menores, nomeando os subchefes e dando oportunidade para que eles se conhecessem uns aos outros. Acreditava que naquele dia não teria mais que uma idéia geral do trabalho que iria executar no futuro. Steve terminou seu lanche, enfiou a bandeja de plástico na qual comera dentro do recipiente de lixo e saiu andando em direção ao setor em que ficavam os laboratórios. O interior de Califa era formado por uma confusão de corredores, galerias e salas, construído com muita pressa e entusiasmo, mas quase sem método. Por isso havia setas

em todos os cruzamentos, que mostravam o caminho aos que se tinham perdido. A altura e largura dos corredores variava bastante, conforme a finalidade, e todos possuíam um revestimento de metal plastificado cinzento. Uma, duas ou até três fileiras de tubos de luz fluorescente estavam presas ao teto. Os corredores maiores estavam equipados com esteiras transportadoras, enquanto nos outros as pessoas se locomoviam a pé. A gravitação era igual em todos os pontos. Havia um gigantesco gerador gravitacional, instalado há pouco tempo nas profundezas do asteróide, que produzia em todos os lugares de Califa uma gravidade igual à do planeta Terra. Steve Kantor caminhou cerca de um quilômetro. De repente uma seta apontava para baixo. Entrou num elevador antigravitacional e atingiu um pavimento que devia ficar pelo menos quinhentos metros abaixo daquele do qual viera. Quando saiu do elevador, ouviu o zumbido pesado e ininterrupto de pesadas máquinas. Deu mais alguns passos e foi parar à frente de uma porta com a seguinte inscrição: SALA DE CONFERÊNCIAS IP-8, SETOR C TEN-CEL KOENIG Entrou. Era uma sala pequena, cheia de fumaça de cigarro. O grupo de Koenig já estava reunido. Os homens estavam nervosos e exaltados. As cadeiras estavam todas ocupadas, e metade das pessoas enfileirava-se junto às paredes. Steve encontrou uma brecha estreita e entrou nela. O homem que se encontrava à sua direita era um gigante com um traço de mal-estar nervoso no rosto. Fez um gesto como quem já sabia. Exatamente às oito horas e trinta minutos o Tenente-Coronel Koenig entrou por uma porta pequena que ficava na parede dos fundos. Era um homem baixo, mas robusto. O que mais chamava a atenção nele era o cabelo desgrenhado e muito branco. Devia ser um europeu e parecia ser um homem que sabia o que queria. Fez um cumprimento ligeiro. Não usou microfone, mas sua voz se fez ouvir perfeitamente em meio ao murmúrio nervoso de oitenta pessoas. — Não pretendo deixá-los presos por muito tempo nesta jaula — prosseguiu. — Temos muito trabalho e não podemos perder tempo. Dividi os senhores em doze subgrupos, com base nos dados a seu respeito que me foram fornecidos, e cada um destes subgrupos receberá uma tarefa específica. Os subgrupos não são todos do mesmo tamanho. O chefe de cada subgrupo fica diretamente submetido a mim. Todos os chefes já foram informados sobre suas tarefas. Assim que eu concluir, cada um dará as necessárias instruções aos seus subordinados. Isto nos ajudará a ganhar tempo — apontou para a parede dos fundos. — Dentro de alguns minutos um quadro luminoso surgirá nesta parede. Este quadro mostrará a composição dos diversos grupos, o nome do chefe de cada um deles e o setor da divisão de laboratórios em que cada um trabalhará. Aqueles cujos nomes não aparecerem como chefes de grupo deverão ir diretamente aos respectivos laboratórios, assim que saírem daqui. Os chefes ficarão mais alguns minutos, para receber instruções especiais. “Faço questão de ressaltar que Califa é uma instituição militar, e o que está sendo feito aqui é uma operação militar. No início sentirão falta de certas comodidades que costumavam desfrutar durante o trabalho. Mas tenho certeza de que não demorarão a compreender que nosso objetivo justifica essa situação desagradável. “É só. O quadro, por favor!” Não dirigiu a última frase a ninguém em especial, mas mal acabara de proferir a última palavra, a parede iluminou-se. Os nomes dos presentes apareceram do lado

esquerdo, em letras amarelas bem legíveis. Estavam reunidos em grupos de diversos tamanhos. À direita de cada grupo via-se um nome, que era o do chefe, e à direita deste via-se a designação do respectivo laboratório. Steve procurou seu nome, mas não o encontrou na primeira leitura. Começou novamente de cima, mas de repente alguma coisa que estava do lado despertou sua atenção. Confuso, passou os olhos pela lista dos chefes de grupo, e realmente encontrou as palavras S. P. Kantor na extremidade inferior do quadro. S. P. Kantor chefiaria um grupo de três homens: Lippman, Delia Fera e Warner. O laboratório tinha sido designado como 13-A. Perplexo, Steve olhou em torno. Não era possível. Devia ter havido um engano. Não poderia ser o chefe do grupo, pois não tinha a menor idéia do que este teria de fazer. Quis protestar para apontar o erro. Mas os homens já tinham lido suas instruções e dispunham a retirar-se. Steve ficou encostado à parede, para não ser arrastado. Quando a confusão diminuiu um pouco, viu-se a sós com Koenig e mais onze chefes de grupo. Koenig sorriu gostosamente. — Muito obrigado por terem demonstrado que estão conscientes do seu dever — disse em tom amável. — Sei que deve ter sido uma surpresa para os senhores, e certamente a primeira coisa em que pensaram foi protestar contra minha decisão. Não foi mesmo? — fitou os homens um após o outro. Steve fez a mesma coisa e surpreendeu-se ao notar que, a julgar pela expressão dos rostos, seus companheiros pareciam tão espantados quanto ele. — Fico satisfeito por não o terem feito — prosseguiu Koenig. — Temos de evitar que haja confusão entre o pessoal. Os senhores, que são os doze chefes de grupo, receberam um tratamento especial na Terra. Questões de sigilo, além de certos fatores psicológicos, foram as razões determinantes disso. Na verdade, os senhores sabem tudo que é conhecido sobre a tarefa que têm pela frente. Mas existe um bloqueio mental que mantém esses conhecimentos afastados de sua consciência. Alguns dos senhores já devem saber como se formam e como são afastados os bloqueios desse tipo. Aos que não sabem peço que não acreditem que aquilo que está para vir tem algo a ver com a magia negra. Trata-se de um processo científico. Prestem atenção! Levantou a mão. Alguém devia vê-lo, pois de repente se ouviu uma música. Era uma melodia estranha. “Nem chega a ser propriamente uma melodia”, pensou Steve, “pois não passa de uma seqüência de sons.” Os sons pareciam cada vez mais agudos. O ritmo da música aumentava rapidamente. No fim um chilrear estridente que doía nos ouvidos encheu a sala. Steve sentiu que de repente era arrancada uma cortina atrás da qual estivera escondida parte de sua consciência. O impacto dos conhecimentos ocultos foi tão repentino que Steve cambaleou. A sala parecia girar em torno dele. Finalmente recuperou o equilíbrio. Estava à frente do tenente-coronel. Koenig sorriu para tranqüilizá-lo. — Quem sofreu mais foi o senhor, Kantor. Tivemos de enfiar um volume maior de informações em sua cabeça. Deu um passo para trás e, satisfeito, contemplou os doze homens enfileirados. — É só, minha gente. Cuidem do seu pessoal. Steve retirou-se. Sua cabeça zumbia como se milhares de trombetas e tambores ressoassem em seu interior. As lembranças perdidas agitavam-se em seu cérebro, cada uma procurando seu lugar. Finalmente o encontraram, encadearam-se e um quadro harmonioso surgiu em sua mente.

Steve já sabia exatamente o que devia fazer. Seria ajudado por três homens. Seu grupo era o menor entre os dirigidos por Koenig. Steve perguntou-se quem neste mundo teria tido bastante confiança nele para atribuir-lhe esta tarefa.

2
— De forma alguma quero acusá-lo de ter-se adiantado a uma decisão minha — disse Reginald Bell. Estava com as mãos entrelaçadas nas costas e olhava fixamente para a grande tela embutida na parede, que mostrava a confusão de asteróides do sistema Chumbo de Caça. Girou abruptamente sobre os calcanhares e brindou os visitantes com um sorriso sarcástico. — E isto pelo simples motivo — prosseguiu — de que uma coisa dessas nunca me passou pela cabeça. Sempre pensei que a instalação de um equipamento como este ainda ficasse bem adiante dos nossos conhecimentos atuais. O homem de aspecto modesto, que se acomodara numa confortável poltrona, ao lado da enorme escrivaninha de Bell, respirou ruidosamente. — Fico-lhe muito grato — disse em voz baixa, levantando os olhos para Bell. Parecia que ainda há pouco tivera muito medo. Quem o olhasse teria a impressão de que seus lábios tremiam. Havia uma expressão de timidez nos olhos quase incolores. O círculo de cabelos castanho-claros que se estendia em torno da cabeça completamente calva completava a imagem de um professor primário aposentado. Bell fez um gesto de pouco-caso. — Não fique assim. Gostaria que me dissesse como pretende executar o projeto. O homem levantou-se. — Fui obrigado a procurar uma solução intermediária entre a meticulosidade e a pressa. Em minha opinião, esta base não está em segurança nem mesmo por um segundo, enquanto não encontrarmos um meio de impedir a passagem do inimigo pelo transmissor. O transmissor dos seis sóis, controlado a partir de Kahalo, já dispõe de um bloqueio desse tipo. O senhor deve estar lembrado que este bloqueio não foi instalado por nós. No fundo, já estava embutido no sistema de normas que encontramos ao nos fixarmos em Kahalo. Grek-1 veio em nosso auxílio. Sabia da existência da regulagem que permitia o bloqueio. A única coisa que teve de fazer para impor um ritmo de recepção bem estabelecido ao transmissor foi realizar algumas modificações de pouca importância. Dali em diante o transmissor só fica aberto cinco vezes em cada vinte e quatro horas, por dez segundos de cada vez. Quem quer que apareça num momento diferente, é irradiado de volta para o transmissor. “É evidente que aqui precisamos de algo parecido. Por enquanto não temos a menor idéia sobre se o transmissor Chumbo de Caça dispõe de um sistema de regulagem de bloqueio. Se existir, não se pode afirmar desde logo que funcione segundo o mesmo princípio do transmissor controlado a partir de Kahalo. Grek-1 mostrou aos nossos cientistas como se faz para ativar o sistema de regulagem e para ajustá-lo em conformidade com determinado cronograma. Mas houve uma coisa que Grek não soube explicar: o princípio de seu funcionamento. Não sabia como funciona o sistema de regulagem. Os conhecimentos escassos sobre o assunto que adquirimos em Kahalo não nos permitem construir um sistema de regulagem de bloqueio. As explicações fornecidas por Grek contêm certas indicações, e com base nelas nossos cientistas talvez descubram o princípio básico dentro de cinco ou dez anos. Mas hoje isto não nos adianta nada. Se não

existe um sistema de regulagem de bloqueio embutido no transmissor Chumbo de Caça, nossos quinhentos engenheiros foram trazidos para cá em vão. “Mas acho isso pouco provável. É de supor que a construção dos transmissores tenha seguido um esquema bem definido. Os mecanismos existentes num transmissor devem ser encontrados nos outros. Tenho certeza quase absoluta que aqui existe um dispositivo de bloqueio semelhante ao de Kahalo, dispositivo este que ainda tem de ser ativado. Os conhecimentos adquiridos em Kahalo foram introduzidos por via psicomecânica na mente dos cientistas que eu trouxe para cá. Cada um deles está tão bem informado sobre tudo que diz respeito a transmissores como o próprio Arno Kalup. Se o elemento de bloqueio existe, eles o encontrarão e colocarão em funcionamento. “A não ser, naturalmente, que o sistema de regulagem daqui seja muito diferente do de Kahalo. É uma possibilidade que não podemos excluir. Realmente, nem todos os transmissores foram construídos no mesmo dia. Sua instalação deve ter levado vários séculos, durante os quais a tecnologia do inimigo naturalmente sofreu suas modificações. Neste caso teríamos de ter mais alguns dias de paciência com os homens. Mas acredito que com os conhecimentos que possuem devem estar perfeitamente em condições de superar as dificuldades.” O tom de sua voz parecia cada vez mais seguro. Quando concluiu, ficou de pé, ereto e confiante, encarando Reginald Bell de frente. Seus olhos incolores chamejavam de arrojo e energia. O homem estabelecera um objetivo, sabia que era muito importante, e queria alcançá-lo. Bell fitou-o atentamente. Ficava fascinado toda vez que via este homenzinho de aparência insignificante transformar-se numa personalidade vigorosa. Allan D. Mercant, chefe do Serviço Secreto Solar e uma espécie de eminência parda do Império, dominava todas as facetas cintilantes da expressão humana. — São palavras bem animadoras — reconheceu Bell depois de algum tempo. — Se os homens conseguirem... tanto melhor. Mas neste meio tempo já tomei minhas providências — apontou para a tela. — Grande parte dos pontos luminosos que o senhor está vendo representa unidades da frota estacionadas lá fora. Concentrei um total de cinco mil naves nesta área. A situação reinante lá em casa permite isso. A Via Láctea está em paz. Outras cinco mil unidades virão assim que nós as chamarmos. Se o inimigo aparecer aqui, terá uma recepção bem quente. Mas para dizer a verdade, não acredito que no momento haja qualquer perigo. Há cinco dias terranos cinco naves cargueiras de grande porte regressaram da nebulosa Andro-Beta. Perry Rhodan fez uma limpeza por lá. O inimigo não mostra mais as caras. Perry está instalando uma base segura em Beta. Os twonosers se retiraram. Parece que os senhores da galáxia precisam de uma pausa para avaliar a situação. — Faz cinco dias que as naves voltaram — objetou Mercant. — Muita coisa pode ter mudado nestes cinco dias. — Sem dúvida. Mas devemos enxergar a situação como ela é. Há mil anos os senhores da galáxia acreditam que o transmissor do sistema Chumbo de Caça foi destruído. Uma expedição punitiva arrebentou o planeta gigante que gravitava em torno do sol geminado em milhões de pedaços. Os senhores da galáxia — ou seus povos auxiliares, os maahks ou os twonosers — teriam de realizar verdadeiras acrobacias mentais para pensar na possibilidade de que apesar de tudo o transmissor ainda possa estar em funcionamento. Mesmo que suspeitem disso, certamente não irão mandar algumas naves para cá. Antes disso teriam de certificar-se por outros meios de que o receptor do transmissor ainda está funcionando — e também o respectivo transmissor.

Tudo isso exige tempo. Ninguém dá um salto de centenas de milhares de anos-luz de um dia para outro, para realizar investigações minuciosas no campo inimigo — suspirou, virou a cabeça e olhou para Mercant. — Não acredito mesmo que haja um perigo iminente. Mercant retribuiu calmamente o olhar. Reginald Bell ficou desconfiado. — Não tem nada a dizer? — perguntou, espantado. Mercant sacudiu a cabeça. Não disse uma palavra. Bell tinha algumas palavras ásperas na ponta da língua, mas preferiu engoli-las. De repente teve uma idéia. Não havia ninguém que pudesse dizer que conhecia perfeitamente Mercant, mas certas pessoas o conheciam bastante para saber quando ainda tinha um trunfo escondido. Uma destas pessoas era Reginald Bell. Bell encostou-se confortavelmente à escrivaninha e cruzou os braços sobre o peito. — Está bem — resmungou um tanto contrariado. — O senhor ainda tem um bom argumento. Um argumento para ficar tão desconfiado. Será que ainda o ouvirei? Mercant sorriu e fez um gesto afirmativo. — Terei muito prazer em dizer. Pretendia falar nisso, mas sua exposição foi tão interessante que... — Bobagem! — interrompeu Bell, impaciente. — Solte logo! — Está bem — os olhos de Mercant brilharam numa ironia bonachona. — Como sabe, toda nave que volta do sistema Chumbo de Caça para a Via Láctea me fornece um relato minucioso sobre tudo que acontece por aqui, além de diagramas, dados fornecidos pelos instrumentos e registros automáticos. Todo mundo sabe que o senhor está cheio de trabalho e não pode cuidar destas coisas. Afinal, a Segurança Solar existe, e uma das suas finalidades consiste em afastar as preocupações deste tipo dos homens mais importantes do governo — notou que Bell estava cada vez mais paciente e prosseguiu um pouco mais depressa. — Ao examinar os registros automáticos, notei uma coisa que me chamou a atenção. Os sistemas de regulagem que controlam o suprimento de energia do transmissor entraram em atividade duas vezes num momento em que não estava prevista a partida ou a chegada de qualquer das nossas naves. Em outras palavras, por duas vezes o transmissor recebeu um suprimento de energia para trazer para cá ou levar daqui um objeto que não conhecemos. Tenho a impressão de que isto é muito grave, meu amigo. Bell tinha muitas objeções, e todas elas lhe pareciam plausíveis, mas Mercant acabara de chamá-lo de amigo, e quando fazia isso tinha muita certeza do que estava dizendo. — Talvez fosse um dos pequenos asteróides — contraditou apesar de tudo. — Sabemos que de vez em quando um bloco de pedra entra no campo de ação do transmissor. Este é ativado automaticamente. Portanto... Interrompeu-se. O olhar rígido de Mercant mostrava que o argumento não era nada convincente. — Naturalmente logo pensamos nesta possibilidade — Respondeu o homenzinho de aspecto insignificante. — Qualquer registro automático mostra pelo menos dez transmissões em cada vinte e quatro horas que não têm nada a ver com qualquer das nossas naves. Geralmente trata-se de micro asteróides que entraram no campo de ação do transmissor e foram transportados para outro lugar, conforme o senhor acaba de dizer. Mas neste meio tempo confeccionamos um complicado sistema de mapas do anel de asteróides. A órbita de qualquer bloco de pedra que pese mais de um quilograma está registrada nestes mapas. Sabemos exatamente que bloco de pedra entrará em dado momento no campo de ação do transmissor. E não devemos esquecer que qualquer

transmissor tem seu limite inferior para entrar em ação. O transmissor não costuma entrar em ação com uma massa inferior a onze quilogramas. Portanto, a minúcia de nossos mapas é mais que suficiente para possibilitar o controle do transmissor. Fez uma pequena pausa. Reginald Bell acompanhou ansiosamente seus movimentos. Teve dificuldade em pronunciar as duas palavras que ardiam em sua língua. — E daí...? — E daí — respondeu Mercant prontamente — temos certeza de que nenhum dos asteróides se encontrava na área de influência do transmissor nos dois momentos em que este recebeu um suprimento vindo do campo energético dos respectivos sóis. Quer dizer que a entrada em ação do transmissor não foi causada por qualquer das nossas naves, nem por um objeto registrado em nossos mapas. A conclusão, que salta aos olhos, fica por sua conta. Reginald Bell ficou estarrecido. Virou pesadamente a cabeça e olhou para a tela, pois não queria que Mercant visse a expressão de perplexidade em seu rosto. Sabia que este não estava exagerando. Tudo que dizia tinha pé e cabeça. Mesmo que suas afirmativas levassem à conclusão de que algum desconhecido usara o transmissor que até então era considerado absolutamente seguro. Bell tentou imaginar as conseqüências e sentiu que seus pensamentos se atropelaram. Quem seria mesmo esse desconhecido? Era praticamente impossível que tivesse entrado no transmissor por acaso. Usara-o porque sabia de sua existência. Até então se tivera certeza absoluta de que só a frota expedicionária terrana sabia que o transmissor Chumbo de Caça estava em condições de funcionamento. E de repente a situação mudara por completo. — Acredita que seja um espião dos senhores da galáxia? — perguntou Bell sem tirar os olhos da tela. Mercant pigarreou. — O senhor andou pensando no assunto — respondeu, calmo. — Dê qualquer outra explicação plausível, e terei o maior prazer em aceitá-la. Reginald Bell deixou cair os ombros. O sentimento de segurança que até então o dominara desapareceu de repente. O perigo que ameaçava todos era tão evidente que Bell chegou a ter a sensação física do mesmo. Obrigou-se a permanecer calmo. Não devia perder a cabeça! A responsabilidade pelo destino do transmissor repousava sobre seus ombros — e com isso a responsabilidade pela segurança de Perry Rhodan e seus homens, que se encontravam a cem mil anos-luz dali, na nebulosa anã Andro-Beta. — Com isso as coisas mudam de figura — disse em tom áspero. — Concordo plenamente com o que disse. Ponha seus homens para trabalhar. A regulagem de bloqueio deve ser acionada o mais depressa possível. Bell, que recuperara o autocontrole, voltou o rosto para Mercant. — Já providenciei isso — observou Mercant. — Meu plano funciona com um mínimo de perda de tempo. Bell acenou com a cabeça. No mesmo instante uma voz estridente saiu de um dos alto-falantes. — Uma notícia urgente da sala de rádio, senhor. Bell inclinou o corpo e apertou um dos botões do quadro de comando embutido na tampa da escrivaninha. — Estou ouvindo — limitou-se a dizer.

— Estamos recebendo pedidos de socorro vindos de cerca de três anos-luz de distância, senhor — prosseguiu a voz exaltada saída do alto-falante. — Uma das sondas exteriores confirma que um objeto se aproxima. Provavelmente trata-se de uma espaçonave. Segundo se depreende dos pedidos de socorro, trata-se da ANBE 3, comandada pulo Major Hatski. A surpresa foi tamanha que Bell perdeu a fala por um instante. Antes que tivesse tempo para dizer qualquer coisa, a voz saída do alto-falante prosseguiu: — As máquinas da ANBE 3 sofreram avarias graves, senhor. A nave está usando o sistema de propulsão linear de bordo, já que os sistemas adicionais se queimaram e foram largados no espaço. O Major Hatski não tem certeza se conseguirá levar o veículo mais uma vez ao espaço linear. Pede que algumas unidades sejam enviadas em seu socorro. — Mande duas naves cargueiras. — ordenou Bell. — E informe Hatski que é preferível aguardar estas naves que assumir um risco desnecessário. — Entendido, senhor. A ordem será cumprida. O alto-falante emitiu um ligeiro estalo ao ser desligado. Bell ainda ficou inclinado sobre a escrivaninha por algum tempo, até que sentiu o olhar indagador de Mercant pousado nele. Endireitou o corpo. — A ANBE 3 está voltando de Andro-Beta — disse, respondendo à pergunta que não chegara a ser formulada. — É um dos supercargueiros enviados para lá há bastante tempo. A situação difícil em que Hatski se encontra provavelmente teve causas naturais, como o inevitável cansaço das máquinas ou coisa que o valha. Todavia... Interrompeu-se e passou a mão pela testa. — Todavia...? — repetiu Mercant. Bell hesitou um pouco. Finalmente prosseguiu com a voz rouca. — Se alguma coisa aconteceu em Andro-Beta, Hatski poderá informar-nos sobre isso. *** O laboratório 13-A era formado por uma única sala de cerca de dez metros por oito. Estava atulhado de instrumentos de todos os tipos. Só perto da entrada havia uma Área livre de alguns metros quadrados, onde a gente podia movimentar-se sem medo de esbarrar em alguma coisa. Ali havia uma mesa de ensaios revestida de azulejos. Quando Steve Kantor entrou, havia dois homens sentados nessa mesa, enquanto outro estava de pé, dirigindo-se a eles em voz alta. Steve não ouviu o que ele disse, pois assim que entrou a conversa foi interrompida. — Meu nome é Steve Kantor — disse a título de apresentação. — Sejam bemvindos no grupo. Façamos votos de que haja uma colaboração muito proveitosa. O homem que falara tão alto fez um gesto exagerado, estendendo a mão para Steve. Tinha cerca de um metro e setenta, ou seja, uns dez centímetros menos que Steve e possuía uma bela cabeça, muito estreita, coberta de cabelos negros. — Sid Lippman — disse no tom de quem se orgulha de seu nome. — Também lhe dou as boas-vindas. Farei tudo que estiver ao meu alcance. Os dois outros saíram lentamente de cima da mesa. Um deles era baixo e gordo. Parecia ter problemas respiratórios, pois o esforço que teve de fazer para descer da mesa o fez fungar, e a mão que Steve apertou parecia flácida e fria. O homem possuía cabelos negro-azulados desgrenhados e piscava constantemente os olhos como quem olha para uma lâmpada muito forte. — Lucas Della Fera — apresentou-se com a voz cava. Não disse mais nada.

O último membro do grupo tinha a mesma altura que Steve, mas era muito magro. Tinha cabelos louros ralos e nariz adunco. Estendeu a mão para Steve, com um sorriso tímido e desajeitado. — Lott Warner, senhor, sempre às suas ordens. Steve foi de opinião que aquilo era uma observação que não combinava com a situação. Deu um passo para trás e pôs-se a contemplar os homens que estavam parados lado a lado. Fez um esforço para que não notassem a decepção que sentia. — Estou informado sobre tudo, menos sobre os senhores — principiou em tom amável. — Certamente encontrarei seus assentamentos pessoais quando voltar ao meu galinheiro lá em cima. Enquanto isso, vou explicar-lhes as coisas do jeito que foram enfiadas na minha cabeça. Se não compreenderem alguma coisa, façam o favor de perguntar — fez uma ligeira pausa, à espera da reação dos outros. Sid Lippman acenou tão fortemente com a cabeça que uma mecha do cabelo bem penteado lhe caiu na testa. Delia Fera e Warner não mostraram a menor reação. — Nossa tarefa — prosseguiu Steve — difere bastante da dos outros grupos. Os outros executarão trabalhos puramente técnicos, enquanto nós somos uma espécie de grupo de contra-espionagem que trabalha em bases técnicas... Voltou a interromper-se, pois a essa altura já tinha certeza de que haveria uma reação de surpresa. Mas mais uma vez Lippman foi o único que arregalou os olhos, enquanto Warner e Della Fera o fitaram como se não tivessem entendido nada. — Suspeita-se — prosseguiu Steve, deprimido — que algum desconhecido vem usando o transmissor. A guarnição do mesmo ainda não conseguiu descobrir sua pista. Isto foi notado da seguinte maneira... A explicação que deu coincidiu quase textualmente com a que Reginald Bell recebera pouco antes de Allan D. Mercant. Como se sentia decepcionado, encurtou o mais possível sua explicação. Quando concluiu, esperava ouvir, quando muito, uma observação indiferente da parte de Lippman, e nisto não se enganou. — Ora, é estranho — disse Lippman. — Perfeitamente — respondeu Steve, contrariado. — E não é só isto. Ainda acontece... Não acreditou no que seus olhos viram. Della Fera levantou o braço. Pediu a palavra. — Pois não... — Alguém pensou em realizar a análise estrutural da energia consumida, senhor? Steve não sabia aonde Della Fera queria chegar. — Não que eu saiba — respondeu. — Por quê? — Pelo que sei a respeito do funcionamento de um transmissor, senhor — observou Della Fera — os objetos que podem ser transportados pelo mesmo são divididos em várias classes. A classificação mais geral abrange a classe dos objetos materiais e a dos objetos imateriais. O transporte dos objetos materiais processa-se por um esquema diferente do dos objetos imateriais. A estrutura da energia consumida pelo transmissor difere segundo a classe do objeto transportado. Continuou com o rosto impassível. Apesar da sugestão inteligente e bem fundamentada que acabara de apresentar, Lucas Della Fera parecia tão preocupado como antes. — O senhor tem razão — reconheceu Steve. — Mas como já disse só dispomos dos registros automáticos do sistema de regulagem que controla a liberação de energia para o transmissor. Não temos qualquer informação sobre a estrutura da energia consumida pelo

transmissor. É como se disséssemos que estamos informados sobre o interruptor que faz chegar a eletricidade à lâmpada, mas ignoramos completamente o que acontece no interior desta. Teve a impressão de que tinha sido simplório ao fazer esta comparação, mas pelo menos Lucas não se incomodou com isso. — Pois é — constatou com a voz abafada. — Pois é o quê? — perguntou Steve, estupefato. — É o mecanismo de regulagem, senhor, que faz a classificação do objeto a ser transportado e proporciona a liberação da respectiva estrutura energética no reservatório solar. A atividade do sistema varia segundo a natureza do objeto transportado. A análise estrutural da energia consumida por este mecanismo deveria permitir uma conclusão sobre a natureza do objeto transportado. Steve ficou sem fala por alguns segundos. Lucas acabara de manifestar uma idéia brilhante. Mais que isso. A idéia definia o ponto em que deviam ser iniciadas as investigações — uma coisa sobre a qual nem mesmo Steve tinha chegado a uma conclusão. Finalmente conseguiu acenar com a cabeça. — O senhor tem razão — disse com a voz apagada. — Providenciarei imediatamente — disse Lott Warner de repente. — A não ser que tenha alguma objeção. Sou especializado em análises deste tipo. Estava radiante. Steve saiu do estado de torpor e reconheceu que não soubera avaliar as personalidades de Warner e Della Fera. Os dois transbordavam de entusiasmo e vontade de trabalhar, mas não davam a perceber. Dirigiu-se a Lippman. — Como é? — perguntou em tom alegre. — Também quer dar sua contribuição? Lippman sobressaltou-se, mas logo se recuperou. — Naturalmente, senhor — respondeu com a voz tímida. — Sem dúvida teremos de reunir uma porção de dados.

3
A ANBE 3 mal e mal conseguiu percorrer o trecho com suas próprias forças. Acompanhada de mais de uma dezena de naves de salvamento, saiu do espaço linear a duas horas-luz de Califa e percorreu a distância que faltava em velocidade reduzida. Alguns engenheiros da equipe técnica subiram a bordo da nave cargueira depois de esta ter entrado numa órbita estacionaria em torno do sol geminado e inspecionaram a nave, enquanto a tripulação saía pelas eclusas. A ANBE 3 não passava de um montão de destroços. Os geradores e propulsores tinham trabalhado muito além de seu tempo de vida útil e não poderiam ser recuperados. Até chegava a ser um milagre técnico a nave ainda ter chegado a Califa. Mas havia uma coisa mais lamentável que o estado do veículo. Eram as novidades trazidas pelo Major Hatski. Este foi recebido imediatamente por Reginald Bell, que queria ouvir seu relatório. Allan D. Mercant estava presente quando Hatski transmitiu o recado de Perry Rhodan. A reação dos senhores da galáxia não fora a que se esperava! Em vez de continuar a procurar o inimigo em Andro-Beta, onde ele lhes tinha infligido pesadas derrotas, resolveram descobrir de que lugar ele tinha vindo. Ainda pareciam convencidos de que devia tratar-se de maahks rebelados, de seres pertencentes à raça que respirava metano, e que tinham conservado sua independência. Mas sabiam que em Andro-Beta não existiam maahks. Se de repente tinham aparecido por lá, só poderiam ter usado um transmissor, para transportar-se de sua base — fosse qual fosse o lugar em que esta ficava — até a nebulosa anã. Só podia haver uma conclusão, e os senhores da galáxia não deixariam de dar com ela. Era necessário inspecionar todos os transmissores. Frotas de reconhecimento equipadas por maahks foram preparadas para entrar nos transmissores de Andro-Alfa e serem transportadas em todas as direções. Acreditava-se que o transmissor Chumbo de Caça tinha sido destruído há mil anos, mas parecia não haver dúvida de que uma das frotas dos maahks tentaria chegar a Califa, e isso num futuro próximo. Grek-1, o maahk que se transformara num amigo e aliado fiel dos terranos, estava morto. Foi a mais triste das notícias trazidas por Fromer Hatski. O único ser que poderia, naqueles dias difíceis, dar um apoio eficiente aos homens que se encontravam em Califa, porque conhecia a mentalidade do inimigo, não existia mais. Revelando uma capacidade de sacrifício sem igual, encontrara a morte para ajudar seus amigos. Reginald Bell deu o alarme. No mesmo instante a base de Califa e as cinco mil unidades da frota estacionadas em torno dela entraram em estado de prontidão. Não se sabia até onde chegaria a pressa do inimigo. O ataque poderia ser desfechado a qualquer momento. E enquanto o sistema de regulagem de bloqueio do transmissor não fosse encontrado e acionado, não haveria como impedir o avanço do inimigo para o sistema Chumbo de Caça. Mas depois que Fromer Hatski concluiu seu relatório e quando Reginald Bell já tinha tomado as providências necessárias, houve uma sensação que fez com que todos respirassem mais aliviados. Esta sensação era representada pelo halutense Icho Tolot, que voltara para Califa a bordo da ANBE 3. Icho Tolot, cujo cérebro programador funcionava com a precisão de uma calculadora positrônica, compreendeu a situação melhor que

qualquer um dos outros. Sabia que o transmissor do sistema Chumbo de Caça estaria perdido no momento em que os senhores da galáxia tivessem a mais leve suspeita de que o sistema do sol geminado servia de base a seres desconhecidos. Era praticamente certo que por enquanto somente uma pequena frota maahk tentaria chegar a Califa. As cinco mil unidades da frota do Império estacionadas nos arredores do asteróide não teriam nenhuma dificuldade em rechaçar o primeiro ataque. As unidades dos maahks seriam destruídas ou obrigadas a voltar para dentro do transmissor. Os controles deste já teriam sido modificados, fazendo com que as naves fugitivas não voltassem ao ponto de origem, mas fossem parar em outro lugar, onde nunca mais poderiam tornar-se perigosas. Os que se encontravam em Andro-Alfa chegariam à conclusão de que o transmissor Chumbo de caça ainda estava ligado na recepção, mas não tinha capacidade de fazer a transmissão. Seria a explicação mais plausível para o fato de as naves empenhadas nas buscas não terem regressado. Os maahks pediriam conselhos aos senhores da galáxia. Sabia-se pouco a respeito destes, mas quanto a uma coisa não havia dúvida. Enviariam outra frota maahk, maior e mais poderosa que a primeira, para ver o que estava acontecendo no sistema do sol geminado. A segunda frota provavelmente levaria certas aparelhagens destinadas ao reparo do velho transmissor ou à construção de um novo. O mais tardar neste momento — e quer os defensores fossem capazes de rechaçar o segundo ataque, quer não fossem — os senhores da galáxia se dariam conta de que havia algo de errado no sistema Chumbo de Caça. Outras frotas seriam enviadas. Os maahks que estavam a serviço dos senhores da galáxia e contavam com os recursos imensos de sua tecnologia, gozavam de uma vantagem que não devia ser subestimada. Sua rota de abastecimentos era muito curta. Dali em diante a sobrevivência da base terrana de Califa seria somente uma questão de tempo e da quantidade de naves que os maahks pudessem lançar na batalha. Icho Tolot deu uma explicação muito clara de tudo Isso. Como seu cérebro programador quase nunca cometia um erro, Reginald Bell viu nas palavras do halutense um prognóstico seguro e afastou o reduzido otimismo que até então ainda entretivera em sua mente. — Isso não seria muito grave — prosseguiu Icho Tolot — se houvesse uma possibilidade de bloquear o transmissor à vontade para a recepção. Allan D. Mercant observou que esta possibilidade estava sendo examinada. O halutense demonstrou certa surpresa, mas logo fez uma sugestão que parecia tão incrível que Reginald Bell não quis acreditar no que acabara de ouvir. Ofereceu-se a ajudar os cientistas terranos na criação de um bloqueio no sistema de recepção do transmissor! Só quem conhecesse as peculiaridades da raça halutense compreenderia por que a explicação de Tolot produziu o efeito de uma bomba. Entre os historiadores galácticos não havia dúvida de que os halutenses eram a raça mais antiga da Via Láctea. Os conhecimentos que haviam adquirido no curso de centenas de milênios ultrapassavam tudo que os cientistas das chamadas raças desenvolvidas — arcônidas, saltadores, aconenses e terranos — conseguiam imaginar. Embora seu número fosse muito reduzido, os halutenses provavelmente estariam em condições de dominar a Galáxia. Mas seu enorme arsenal de conhecimentos formara a base de uma sabedoria que se procuraria em vão entre os povos mais jovens. Os halutenses recolheram-se ao isolamento. Viviam exclusivamente para si mesmos, em busca do seu prazer e do aprofundamento de seus conhecimentos. Era a única raça de astronautas que não se dedicava à política externa, embora houvesse halutenses isolados espalhados pelos quatro cantos da Via Láctea.

Havia uma lei segundo a qual um halutense nunca tentaria interferir na história de outros povos, nem mesmo por meio de conselhos ou colocando seus conhecimentos superiores a serviço de uma raça estranha. Icho Tolot estava disposto a violar esta lei. Estava falando sério. Fez questão de ressaltar isso com toda ênfase, ao ver a expressão de incredulidade estampada no rosto da Reginald Bell. Não deu outras explicações. Não disse porque pretendia dar ajuda contrariando as normas que governavam sua raça. Mas todos compreenderam que para ele os senhores da galáxia representavam um inimigo todo especial, ao qual não se aplicava a lei halutense. Reginald Bell e Allan D. Mercant preferiram não fazer perguntas desnecessárias. Icho Tolot acabara de apresentar sua oferta. Os chefes de seção foram convocados para participar da conferência. O halutense repetiu as explicações que já tinha dado. O espanto que os cientistas tinham manifestado no início transformou-se num entusiasmo incontido. Aquilo parecia ser a grande virada. O sol voltara a brilhar onde antes só parecia haver trevas e desolação. Califa ainda não estava perdido! *** O grupo de Steve Kantor não foi atingido pelo nervosismo geral. Steve e seus homens não tinham nada a ver com a ativação do sistema de bloqueio de recepção do transmissor. Sua tarefa era outra. Demorou meio dia até que Steve ficasse sabendo da oferta sensacional do halutense. Enquanto isso Lucas, Lott e Sid dedicaram-se com todo entusiasmo à tarefa de descobrir a estrutura da energia liberada para o transmissor. Steve voltou ao seu aposento, para examinar os dados pessoais de seus colaboradores. Descobriu que Lott Warner e Lucas Della Fera eram especialistas em hipercampos, com um grande arsenal de experiências acumuladas, enquanto Sid Lippman era um químico. Steve não teve a menor idéia do que um químico poderia fazer numa pesquisa deste tipo, mas confiou no discernimento das pessoas que tinham escolhido o contingente de cientistas que atuariam em Califa. A seguir Steve fez um caneco de café, acendeu um cigarro, sentou no canto e finalmente teve tempo para refletir sobre o estranho acontecimento que se verificara na noite anterior, e que continuava a pesar em sua alma. Quem teria sido o estranho que tentara entrar em seu quarto de noite? Steve sabia que no sistema Chumbo de Caça havia sobreviventes da raça dos maahks, que há cerca de mil anos ainda habitavam o planeta gigante cujos fragmentos formavam o anel de asteróides. Milhões de maahks tinham perecido durante a expedição punitiva dos senhores da galáxia, que se consideravam traídos por seu povo auxiliar. Só um punhado sobreviveu, em sua maioria porque ao tempo do ataque encontravam-se no espaço, a bordo de naves. Voltaram assim que passou o perigo, mas no lugar em que antes ficara seu mundo encontraram um montão de asteróides. Instalaram-se no maior bloco de pedra, que ainda estava contaminado pela radiatividade. Os filhos gerados por estes maahks tinham pouca semelhança com os pais. As mutações profundas eram uma constante. Houve poucos sobreviventes, mas estes poucos representaram o início de uma nova raça. E agora, mil anos depois da cruel ação punitiva dos senhores da galáxia, uma raça formada por centenas de milhares de mutantes vivia no sistema Chumbo de Caça. Era

comandada por Beukla, um monstro de duas cabeças. Beukla celebrara a paz com os terranos, embora antes tivesse sido um inimigo encarniçado deles. Steve Kantor perguntou-se se o ser que tinha visto na noite anterior não seria um dos mutantes. A resposta só poderia ser negativa, e isto por dois motivos. Primeiro, não havia mutantes em Califa. Tratava-se de um dos nove asteróides de grandes dimensões que gravitavam em torno do sol geminado, e que abrigava o transmissor. Assim que um objeto estranho se aproximava, o asteróide era envolto automaticamente por um campo defensivo esverdeado, que os mutantes não podiam atravessar. Os terranos foram os primeiros que conseguiram remover este campo. Beukla mostrara-se disposto a continuar a considerar Califa como tabu. O asteróide transformara-se num estabelecimento terrano em território estranho. Era um dos motivos. Depois que Beukla tinha celebrado um acordo com os representantes do Império, nenhum dos seus mutantes se atreveria a descer em Califa. O segundo motivo parecia menos concreto. Parecia simples. Nenhum mutante maahk seria capaz de dissolver-se no nada. Mas o monstro que Steve vira de noite possuía esta faculdade. Não havia dúvida de que entre o momento em que disparara a arma energética e aquele em que atravessara a porta para examinar o corredor não tinham passado mais de cinco segundos. E o desconhecido não levara mais que isso para desaparecer. Seria ridículo acreditar que houvesse uma porta oculta no corredor. O setor fora instalado há pouco tempo. Diante disso só podia haver uma explicação. O desconhecido realmente se dissolvera. Apesar das mutações profundas que tinham modificado o aspecto e o metabolismo dos maahks, tudo indicava que não se verificara a formação de faculdades psi. Entre os mutantes não havia telepatas, telecinetas ou seres que possuíssem outros dons parapsicológicos. Um teleportador, por exemplo, seria capaz de desaparecer da mesma forma que o desconhecido visitante noturno. Havia um detalhe importante. Entre os mutantes de Beukla não havia teleportadores. Steve Kantor teve a noção clara e desagradável de que não havia qualquer explicação natural para os acontecimentos da última noite. Quando suas reflexões chegaram a este ponto, o sinal de chamada do intercomunicador se fez ouvir. Steve levantou o fone e viu o rosto gordo de Lucas Della Fera projetado na tela. — Análise concluída, senhor — informou Lucas. Steve acenou com a cabeça, satisfeito. — Excelente — elogiou. — E qual é o resultado? Lucas olhou-o com uma expressão triste. — Os objetos transportados são estruturas imateriais — respondeu. Steve praticamente já contara com isso, pois um objeto material certamente teria sido detectado pelos rastreadores instalados em Califa. Mas agora que já não havia a menor dúvida não sabia para que poderia servir a informação que acabara de receber. Que estrutura imaterial poderia ser esta, que usava às escondidas e em seu proveito o transmissor Chumbo de Caça? O que vinha a ser um objeto imaterial? Uma concentração de energia? Uma espécie de raio esférico cósmico? Lucas tinha mais coisas a dizer. — Fizemos a comparação dos dois registros, senhor. Como deve estar lembrado, o transmissor entrou em funcionamento duas vezes, sem que fosse possível identificar o objeto transportado — Steve acenou com a cabeça e Lucas prosseguiu. — Os registros

não deixam dúvida de que da primeira vez houve uma transmissão, e da segunda vez uma recepção. Steve ficou bastante impressionado. Era incrível quanta coisa se podia deduzir dos simples registros automáticos. Mas Lucas Della Fera ainda não tinha concluído. — Se quiser, veja no que vou dizer agora apenas minha opinião particular — disse com um sorriso amável. — Só existem indícios, mas nenhuma prova, e Lott Warner não é da mesma opinião que eu. Seja como for, acredito que das duas vezes o sistema de regulagem retirou a mesma quantidade de energia do depósito do transmissor. As diferenças entre a recepção e a transmissão tomam um pouco mais complicadas as coisas. De qualquer maneira, para mim os indícios são bastante fortes para justificar a conclusão de que das duas vezes foi transportado o mesmo objeto. Da primeira vez saiu do sistema, da segunda vez voltou para cá. Lucas ficou calado. Steve fitou-o prolongadamente. A teoria de Lucas poderia ser um fator decisivo. Se fosse correta, já se saberia que o ser não identificado que tinha utilizado o transmissor era um objeto definível, que agia com um propósito certo. Restava saber se a gente devia confiar nas teorias de Lucas. Lucas devia ter lido a dúvida no rosto de Steve. Fez uma careta e disse: — Naturalmente não quererá basear-se exclusivamente em minha opinião. Mas o senhor é entendido no assunto. Peço-lhe que examine os registros e tire sua conclusão. Steve estava de acordo. — Está bem. Já vou. Dali a dez minutos entrou na sala circular em que estavam instalados os registros automáticos. Cada aparelho controlava o funcionamento de uma das componentes do sistema de regulagem. Só naquela sala havia mais de cem registros automáticos com estiletes de escrita, dispostos junto à parede, e havia mais de sessenta salas iguais a esta. O sistema de regulagem era formado por cerca de sete mil unidades, cujo funcionamento tinha de ser controlado ininterruptamente. Lucas e Lott estavam parados à frente de um dos aparelhos, nos fundos da sala. Lott segurava uma fita comprida de papel no qual se via um traçado. Os dois discutiam nervosamente. Sid Lippman estava mais ao lado e aquilo parecia cansá-lo. Lucas viu Steve chegar e arrancou a faixa da mão de Lott. Foi ao encontro de Steve, agitando violentamente o papel. — Eis a prova! — disse, entusiasmado. — Até mesmo um cego seria capaz de ver. Esticou a faixa à frente do rosto de Steve. Este viu uma confusão de linhas coloridas, que corriam em todas as direções sobre a rede de coordenadas do papel. — Olhe esta linha azul — exclamou Lucas. — Ela registra o consumo de energia do sistema de regulagem. Enquanto o transmissor está fora de uso, a linha corre sobre o eixo zero. Toda vez que o transmissor recebe um suprimento de energia, ela sofre um desvio e afasta-se deste eixo. Forma desenhos variados, conforme a quantidade e a estrutura da energia. Se examinarmos os desenhos com uma lente... Baixou a faixa. — Em outras palavras, senhor, os desenhos que representam as duas passagens pelo transmissor coincidem com todos os detalhes, ângulo por ângulo, curva por curva. Steve fitou Lott com uma expressão indagadora. Este acenou com a cabeça. — É verdade, senhor — confirmou. — Quando Lucas entrou em contato com o senhor, ainda não tínhamos tido a idéia de examinar os grupos de impulsos com uma lente. Quando examinamos, descobrimos... Fez um gesto embaraçado e calou-se.

Steve mordeu os lábios. Um objeto desconhecido — e o mesmo objeto — usara duas vezes o transmissor. Da primeira vez afastara-se do sistema Chumbo de Caça, enquanto da segunda vez regressara ao mesmo. Que objeto teria sido este? Onde estava no momento? Quais seriam seus objetivos? De repente o assunto já não parecia cansar Lippman. — Que influência pode ter o fato em nosso procedimento futuro, senhor? — perguntou. — Acho que não tem nenhuma importância que das duas vezes o funcionamento do transmissor tenha sido provocado pelo mesmo objeto, não é mesmo? Steve estava absorto em seus pensamentos. Lippman teve de repetir a pergunta, para ser ouvido. — No fundo, sim — respondeu Steve. — Acontece que só representamos uma fração insignificante dos grandes esforços que estão sendo realizados para fazer de Califa uma base segura. É perfeitamente possível que a descoberta de Lucas seja muito importante para o conjunto dos trabalhos. — Está pensando em alguma coisa em especial? — perguntou Lippman, no que não revelou muita perspicácia. — Naturalmente. O objeto desconhecido executa movimentos bem definidos. Quer dizer que age sob o impulso de um mecanismo direcional existente em seu interior, ou está sendo teleguiado. Em qualquer das duas hipóteses não podemos excluir a possibilidade de que se trata de um espião. E não pode haver a menor dúvida de quem sejam os seres para os quais está fazendo espionagem. Se a hipótese for verdadeira, Califa corre um perigo enorme. Sid ficou bastante impressionado. Steve passou a dirigir-se á Lucas e Lott. — Fotografe a fita de registro — disse. — Mande fazer ampliações das fotos e apresente um pequeno relatório escrito. Neste meio tempo falarei com Koenig. A Segurança tem de ser avisada imediatamente. *** Koenig não teve dúvida em confessar que já se esperara algo semelhante. Allan D. Mercant deixara claro que em sua opinião o ser não identificado que usara o transmissor era um espião dos maahks. Nem tentou explicar que espécie de espião seria este, como agia e que tipo de informações transmitia aos seres para os quais trabalhava. Cabia ao grupo de Steve Kantor descobrir isto. Mercant fez questão de mencionar que a presença de um espião — caso o objeto não identificado realmente fosse um — representaria um perigo gravíssimo para a base e seus ocupantes. Era necessário pôr as mãos no desconhecido e deixá-lo fora de ação. Depois da conversa mantida com Koenig, Steve ficou um tanto indeciso sobre o que deveria fazer em seguida. Mas quanto a uma coisa não havia dúvida. Era necessário procurar e encontrar o desconhecido. Steve já estava pensando de forma diferente. Aquilo que há pouco ainda fora um objeto não identificado passara a ser o desconhecido, pois acreditava que se tratava de um ser pensante que agia por sua própria vontade. Embora não tivesse um motivo palpável para pensar assim, estava cada vez mais convencido de que o misterioso desconhecido não era outro senão o estranho monstro que vira na noite anterior. No início a idéia lhe parecera ridícula, pois o que vira fora um corpo estranho, mas que não deixava de ser material. Mas logo teve suas dúvidas. Não vira propriamente o desconhecido, mas apenas seus contornos que se destacavam contra a claridade que entrava pela porta. Se fosse uma entidade puramente energética, bastaria que seu índice de refração diferisse do do ar

circundante, para que ela se tornasse visível. E uma entidade energética que refletisse ou absorvesse a luz fatalmente produziria sobre o olho humano o mesmo efeito da matéria sólida. Quanto mais Steve tentava pôr em ordem os pensamentos, mais confuso ficava. Constatou que suas meditações o tinham levado a entrar num corredor errado. Olhou em torno e encontrou uma placa segundo a qual as salas que abrigavam os registros automáticos ficavam doze andares abaixo dele, e a sala do sistema de regulagem ficava logo depois do primeiro cruzamento de corredores. Steve virou a cabeça e quis voltar ao elevador antigravitacional mais próximo, quando se lembrou de que talvez seria útil dar uma olhada no sistema de regulagem. Afinal, deste sistema tinha partido a primeira indicação sobre a presença de um desconhecido. Fez meia-volta e prosseguiu pelo mesmo corredor. Koenig lhe contara sobre os acontecimentos dramáticos ligados à viagem de regresso da ANBE 3. Esperava que, em virtude da oferta surpreendente de Icho Tolot, a sala em que ficava o sistema de regulagem estivesse atulhada de cientistas e técnicos muito ocupados. Surpreendeu-se ao ver que a sala estava completamente vazia. Ficou impressionado com o mecanismo de regulagem. Tratava-se de uma figura circular, revestida de metal plastificado, com cerca de dez metros de diâmetro e três de altura. Uma grade protetora baixa cercava o colosso que emitia um zumbido constante. A sala tinha vinte e cinco metros de comprimento e aproximadamente dezoito de largura. Suas instalações consistiam unicamente em três enormes quadros de comando, presos à parede que ficava à esquerda da entrada. Steve deu um passo para a frente, e a porta fechou-se automaticamente atrás dele. Aproximou-se da grade numa atitude que quase chegava a ser devota e fitou a figura que zumbia e era capaz de manipular sem a menor dificuldade as energias estranhas que permitiam que os homens se deslocassem instantaneamente pelas profundezas do cosmos. Por enquanto os cientistas terranos não compreendiam mais de dez por cento do funcionamento do transmissor. Ao constatar a penetração de um objeto capaz de ser transportado, o campo do transmissor enviava um impulso ao sistema de regulagem, que por sua vez abria as comportas do reservatório de energia representado pelos dois sóis. O fluxo imenso de energia saído deste reservatório criava um campo que envolvia o objeto a ser transportado, retirando-o do espaço einsteiniano. A estrutura da energia e, portanto, do campo envolvente, mudava conforme a natureza do objeto transportado. A quantidade de energia utilizada variava de acordo com a distância a ser percorrida. As decisões sobre a estrutura e a quantidade da energia a ser utilizada eram tomadas pelo mecanismo de regulagem, com base no impulso recebido dos sensores do campo de transmissão. Uma vez envolto no campo transportador, o objeto percorria quase instantaneamente as profundezas misteriosas do superespaço, para aparecer no ponto de destino, onde havia um receptor que retirava o envoltório energético, fazendo com que o objeto transportado retornasse ao espaço einsteiniano. A solução dos segredos ainda não desvendados de uma tecnologia altamente desenvolvida devia estar escondida no interior do conjunto de regulagem. Steve, que estava de olho no envoltório cinzento do aparelho enorme, entrou numa espécie de transe. Teve a impressão de enxergar o interior do aparelho atrás das placas de metal plastificado. O mundo que o cercava desapareceu. Só via diante dos olhos o produto misterioso de uma técnica estranha, que o deixou cada vez mais encantado.

Ouviu um ruído, mas não lhe deu atenção. Não vinha do conjunto de regulagem. Sentiu uma dormência estranha na pele. Era como se tivesse entrado num campo de eletricidade estática. Sentiu um cheiro estranho, que queria desviar sua atenção do conjunto. Ficou nervoso e preocupado. De repente o sentimento do perigo que o ameaçava tornou-se tão nítido que o arrancou das suas reflexões. Endireitou abruptamente o corpo e virou a cabeça. O cheiro era mais forte. Cheirava a ozônio. A dormência da pele tomara-se mais perceptível. A atmosfera parecia carregada de eletricidade estática. Os ruídos vinham de trás do conjunto de regulagem. Era um arranhar e arrastar, dando a impressão de que alguma coisa se enfiava à força no interior do aparelho, abrindo passagem entre espulas e bancos energéticos. Steve recuou. Foi-se deslocando para a porta, passo a passo, sempre de olho no conjunto de regulagem. Viu uma espécie de nuvem de fumaça levantar-se atrás do aparelho. O arranhar e arrastar tornaram-se mais fortes, e o medo ameaçou sufocá-lo. Ninguém sabia o que aconteceria se as energias imensas controladas pelo aparelho fossem liberadas numa explosão. Era necessário alertar a guarnição da base. Lá fora, no corredor, havia chaves do sistema de alarme, que faziam soar as sirenes. Era necessário alcançar uma delas, senão... Virou-se abruptamente e saiu correndo em direção à porta. A pesada escotilha deslizou devagar demais. Steve enfiou-se pela abertura que começara a formar-se. Quando já se encontrava no corredor, o ruído cessou. Steve parou e olhou de volta para dentro da sala de regulagem. O quadro que se descortinou diante de seus olhos fez gelar o sangue em suas veias. Aquilo que acreditara ser uma nuvem de fumaça cercava o aparelho cilíndrico que nem uma frente de neblina. Mal e mal se distinguiam os contornos do conjunto de regulagem. O aparelho brilhava num vermelho estranho, dando a impressão de que entrara em incandescência de dentro para fora. A névoa não tinha contornos rígidos. Algumas nuvens agitavam-se fortemente. Parecia que mergulhavam no revestimento do conjunto de regulagem, para voltar a aparecer em outro lugar. Incapaz de fazer qualquer movimento, Steve pôs-se a observar o estranho espetáculo. De repente a névoa parecia tomar conhecimento de sua presença. Parecia uma impressão absurda, mas Steve teve a sensação de que ela se impunha à sua mente. Até parecia que a névoa se dera conta de que havia um observador desconhecido, que a surpreendera em sua atividade. Encolheu-se subitamente, formando uma bola opaca, passou por cima do conjunto de regulagem e desapareceu atrás do cilindro. Antes que Steve se recuperasse do espanto, o nevoeiro voltou a aparecer. Como estava mudado! Já não era a concentração de neblina confusa, sem contornos definidos, que vira segundos atrás. Era uma figura opaca de traços bem definidos, que seguia em sua direção como se fosse feita de matéria sólida. Steve foi sacudido pelo pânico ao reconhecer o monstro com o qual se encontrara na noite anterior. Algum fenômeno desconhecido transformara a névoa numa figura que caminhava sobre duas pernas muito grossas e agitava fortemente os milhares de tentáculos presos ao seu corpo. Steve não se enganara. O monstro não tinha cabeça. Steve começou a gritar. Já não sabia o que estava fazendo. Só restava o sentimento angustiante do perigo mortal — e o desejo ardente de sobreviver. Os músculos não obedeciam mais, os pés não queriam desprender-se do chão. Steve ficou imóvel, enquanto o monstro se aproximava com movimentos desajeitados.

O ruído de botas pisando o chão fez-se ouvir, vindo de longe. Steve ainda estava gritando. O desconhecido ainda estava a três ou quatro metros de distância. Dentro de mais alguns segundos chegaria onde estava Steve. Seria o fim. O ruído das botas tornou-se mais forte. Steve ouviu vozes humanas. Alguém estava chamando. Parecia que o monstro não estava ouvindo nada. Aproximou-se ininterruptamente, com a obstinação de uma máquina. O chiado de uma arma energética quase rompeu os tímpanos de Steve, mas para este foi o ruído mais agradável que jamais tinha ouvido. Viu tudo como numa câmara lenta. O feixe energético ficou suspenso no ar e o terrível ser estranho cambaleou sob o impacto. Mais um tiro passou sobre o ombro de Steve, que sentiu a lufada de ar quente passar por seu rosto. A segunda salva também acertou o alvo. As energias tremendas disparadas pela arma energética pareciam desaparecer no corpo do monstro, mas este cambaleou, dando a impressão de que perdera o equilíbrio. Um terceiro tiro se fez ouvir, e desta vez o monstro foi arrancado de cima das pernas grossas e feias. Caiu lentamente, que nem um balão cheio de ar. O corpo de Steve descontraiu-se. Soltou um grito de triunfo. Mas de repente aconteceu uma coisa estranha. Antes que o corpo do monstro tocasse o chão, ele começou a dissolver-se. Nuvens de névoa branquicenta subiram para o alto e espalharam-se. O monstro foi encolhendo. Uma última nuvem de fumaça branco-acinzentada levantou-se — e o monstro desapareceu. A névoa que enchia o ar desmanchou-se rapidamente. Dali a alguns segundos o conjunto de regulagem e seus arredores tinham exatamente o aspecto que todo mundo guardava na lembrança. Steve virou a cabeça. Havia três homens que usavam o uniforme da frota espacial atrás dele. Segurando as armas energéticas nas mãos, fitavam a sala de regulagem com uma expressão de incredulidade. — Fico-lhes muito grato — disse Steve com a voz apagada. — Se não tivessem chegado logo... A simples idéia fez com que sacudisse o corpo. — Ouvimos seus gritos — respondeu um dos homens. — Viemos o mais depressa que pudemos. O que foi aquilo lá dentro? Steve deu de ombros. Não tinha vontade de levar três soldados espaciais a acreditarem na existência de um ser energético. — Não faço idéia — disse. — Alguma coisa saiu de repente de trás do conjunto de regulagem e veio para cima de mim. Não posso afirmar que tenha assumido uma atitude hostil, mas tive de contar com um ataque. Foi o que me levou a gritar por socorro. O mais velho dos três, que era um sargento, coçou o queixo. — Serei obrigado a apresentar um relatório do incidente. O senhor provavelmente também. O senhor tem conhecimento de alguma coisa que possa fazer com que pareça... bem, quero dizer... Parou, embaraçado. De repente Steve conseguiu rir de novo. — ...com que pareça mais fácil de acreditar? — completou. — Receio que não. Tenho certeza de que seu relatório e o meu darão a impressão de terem saído de uma imaginação doentia. Mas cada um de nós poderá testemunhar a favor do outro. Terá que dar certo. O sargento confirmou com um aceno de cabeça. — Naturalmente — respondeu, embaraçado. De repente Steve teve uma idéia.

— Onde fica o vídeo mais próximo? — perguntou. Um dos homens apontou com o braço para dentro do corredor. — A poucos metros daqui. Está vendo aquela caixa vermelha? Steve estava vendo. Entrou em contato com a sala de registros automáticos. Sid Lippman estava no aparelho. — Finalmente sei o que fazer com o senhor — principiou sem embaraço. — Arranje um aparelho capaz de detectar a presença de ozônio e suba à sala de regulagem. *** O olfato de Steve não o enganara. A atmosfera em torno do sistema de regulagem apresentava uma porcentagem muito elevada de ozônio. A explicação era simples. O oxigênio do ar entrava em reação com a superfície da figura energética que Steve acabara de observar. As moléculas de oxigênio eram divididas nos respectivos átomos. O oxigênio em estado atômico é um gás que entra em reação com uma facilidade tremenda. A maior parte dos átomos voltava a ligar-se para formar oxigênio molecular. Mas uma pequena fração do gás em estado atômico entrava em contato com o oxigênio molecular antes existente, para formar ozônio. A molécula de ozônio, formada por três átomos de oxigênio, é um conjunto extremamente instável. O fato de Sid Lippman ainda detectar quantidades consideráveis de ozônio, quando o desconhecido já tinha desaparecido, era a melhor prova de que durante a presença do monstro a atmosfera da sala de regulagem ficara literalmente carregada de ozônio. A aventura extraordinária de Steve Kantor produziu duas conseqüências imediatas. Todos os recintos críticos da base foram equipados com monitores de ozônio, que emitiam um sinal assim que a porcentagem de ozônio em suas proximidades ultrapassasse certo limite. Só assim podia-se ter certeza de que o monstro energético não poderia andar nas proximidades de aparelhagens importantes sem ser percebido. Além disso os engenheiros e cientistas recém-chegados receberam ordem para andar sempre armados. Steve Kantor provavelmente não teria precisado de auxílio, se estivesse com sua arma. Apesar de sua estrutura puramente energética, o monstro parecia não suportar muito bem o impacto dos disparos energéticos. Uma vez tomadas estas providências, um discreto otimismo espalhou-se em Califa. Até que enfim se encontrara uma pista. Seria apenas uma questão de horas que o monstro estranho fosse encontrado e posto fora de ação. Centenas de tripulantes e suboficiais, informados às pressas sobre a existência do estranho ser, estavam de prontidão em toda parte, para entrar em ação e prender o monstro assim que os monitores de ozônio dessem o sinal de alerta. A febre do caçador apossara-se dos homens espalhados pelos corredores e salas de Califa. Os homens conversavam em voz abafada, dando a impressão de não ouvir os apitos dos monitores. Mas o que ouviram não foi nenhum apito. As sirenes de alarme fizeram ouvir seus altos e baixos. O sinal não fora dado pelos monitores, mas pelo sistema de alerta automático dos rastreadores instalados na superfície do asteróide.

4
Os maahks estavam atacando. Quantidades tremendas de energia fulgurante foram arrancadas dos dois sóis quando o transmissor entrou em atividade, fazendo com que voltassem a adquirir forma as gigantescas espaçonaves nas quais os maahks tinham arriscado o salto a partir de Andro-Alfa. Não sabiam se o transmissor ainda estava funcionando, mas tinham vindo. Mesmo quando já estavam lá, não sabiam se ainda conseguiriam voltar. Se o sistema de expedição não funcionasse mais, estariam presos. Os sistemas de propulsão de suas espaçonaves eram fracos demais para permitir um vôo de quatrocentos mil anos-luz. Que seres eram estes! Sua vida não valia nada. Partiram sob a carga de um fator de risco a que nenhum comandante terrano submeteria seus homens, somente para cumprir as ordens dadas pelos senhores da galáxia. Reginald Bell teve um calafrio ao tentar imaginar como era a mentalidade dos seres que tripulavam as espaçonaves cilíndricas. Respirou aliviado quando finalmente terminou a tremenda cintilância e os rastreadores anunciaram que um total de cinqüenta e duas unidades tinha aparecido no sistema Chumbo de Caça. Um silêncio mortal reinava no anel de asteróides que cercava os dois sóis como se fosse um envoltório esférico poroso. As cinco mil unidades da frota de vigilância ficaram escondidas, protegidas do rastreamento atrás de alguns planetóides. O inimigo aproximou-se cautelosamente. Quase nenhuma nave maahk chegara perto do sistema do sol geminado depois que o planeta gigante fora destruído. As poucas unidades que tinham avançado em sua direção não se deram ao trabalho de confeccionar mapas precisos da confusão de asteróides. O anel de planetóides era uma área muito perigosa para as espaçonaves. Os maahks resolveram operar em formação cerrada, o que tornava a situação ainda mais imprevisível. As naves cilíndricas estavam envolvidas em campos defensivos verdes. Há seis meses o campo defensivo usado pelos senhores da galáxia e seus povos auxiliares ainda era considerado inexpugnável, mas neste meio tempo a ciência terrana conseguira desvendar seu mistério. Centenas, milhares de naves receberam novos equipamentos num tempo muito reduzido. Os novos canhões conversores que traziam a bordo eram capazes de romper qualquer campo defensivo dos maahks, por mais forte que fosse. As naves inimigas apareciam em forma de pontos luminosos cintilantes nas telas da sala de comando, em cujo interior Reginald Bell e um círculo restrito de oficiais do Estado-Maior acompanhavam a aproximação do inimigo. Os pontos entravam no campo de visão, vindos da direita. A tática dos maahks era fácil de compreender. Deslocavam-se junto à periferia interna do anel de asteróides, a uma velocidade que lhes permitira dar uma volta completa em torno dos dois sóis dentro de menos de cinco horas. Sem dúvida suas hiperantenas tinham sido reguladas para um máximo de sensibilidade, para que nenhum impulso irradiado pelos aparelhos instalados na estação do transmissor, por menor que fosse, lhes escapasse. O método foi bem-sucedido. Quando os pontos luminosos atingiram o centro da tela, o grupo de naves inimigas foi parando. Seus movimentos, a manobra de frenagem e a mudança de rota que se seguiu a ela foram executados com a maior precisão. Até

parecia que as unidades se encontravam num campo de treinamento dos maahks. No momento em que registraram os primeiros impulsos difusos vindos da estação, os veículos espaciais ainda se encontravam a dois milhões de quilômetros de Califa. Uma vez completada a mudança de rota, aumentaram a velocidade o mais depressa que a confusão de fragmentos cósmicos permitia. O momento crítico chegara. Reginald Bell não poderia permitir que o inimigo se aproximasse a menos de duzentos mil quilômetros, pois do contrário a base de Califa poderia ser atingida pelo ataque da frota de vigilância. Bell deu o sinal previamente combinado. As naves da frota de vigilância saíram dos esconderijos. Dali a instantes pontos luminosos aproximaram-se de todos os lados, precipitando-se sobre o inimigo. Os maahks tiveram a atenção despertada. Interromperam o avanço em direção ao asteróide. Pareciam indecisos. Naqueles momentos os receptores da estação de rádio de Califa crepitaram de tão grande que era o número de mensagens trocadas. A hesitação, embora pequena, selou o destino dos maahks. As unidades terranas abriram fogo. A tela de imagem da sala de comando transformou-se num espetáculo de raios e bolas de fogo, que se deslocavam em velocidade alucinante pelo campo de visão. A batalha não durou mais de uma hora. As unidades pertencentes à frota de vigilância destruíram cinqüenta e uma naves. Um único veículo espacial dos maahks escapou. O transmissor iluminou-se, o que passou praticamente despercebido em meio às explosões fulgurantes provocadas pela batalha, engolindo a única nave maahk que sobrevivera ao ataque da frota de vigilância. O destino que teve não foi melhor que o das naves destruídas pela frota de vigilância. Reginald Bell tomara suas providências. Nenhum sobrevivente da batalha deveria voltar para Andro-Alfa. O sistema de expedição do transmissor foi regulado de maneira a lançar os objetos para Gêmeos. Este sistema ficava nas profundezas do espaço vazio, a cerca de novecentos mil anos-luz dos limites da Via Láctea. O sistema de expedição do transmissor instalado em Gêmeos não estava funcionando mais. O sistema transformara-se numa armadilha mortal. Havia vários caminhos que conduziam para lá, mas nenhum caminho de volta. Os propulsores da nave dos maahks eram fracos demais para que pudessem ter a menor chance de atingir Andrômeda ou a Via Láctea em vôo linear. O veículo espacial ficaria preso para todo o sempre no sistema de Gêmeos. Em Califa as sereias uivaram, para anunciar o fim do alarme. O primeiro ataque do inimigo acabara de ser rechaçado. Os tripulantes da frota de vigilância experimentaram uma sensação de euforia e alívio. Mas os oficiais das unidades vitoriosas já não tinham tanta certeza de que realmente havia motivo para tanta alegria. E em Califa o estado de ânimo descera ao ponto mais baixo. A defesa bem-sucedida contra o primeiro ataque inimigo era um fator pouco importante na equação que decidiria o destino da base. Todos sabiam há tempo que não haveria nenhuma dificuldade em repelir o inimigo. A vitória contra o primeiro comando estava incluída de antemão nos cálculos. Quanto a isso já não havia nenhuma dúvida. O primeiro ataque viera mais de dez dias antes da data prevista pelos piores pessimistas. O mecanismo da bomba-relógio entrara em funcionamento. Os maahks que viviam em Andro-Alfa ficariam à espera de notícias da frota de expedição. Se estas notícias não chegassem, enviariam outra frota — frota esta que seria mais numerosa e receberia instruções de agir com o maior cuidado. Era duvidoso que o ataque de surpresa da frota de vigilância pudesse ser repetido. Mas mesmo que o segundo

confronto terminasse numa vitória dos terranos, a terceira investida viria prontamente, pois desta vez os maahks tomariam suas providências para poder transmitir notícias. E mesmo para Reginald Bell, que era um otimista inveterado, as chances de defesa contra o terceiro ataque eram de cinqüenta por cinqüenta. *** As conseqüências do primeiro ataque dos maahks, que viera muito antes do que se esperara, fizeram-se notar imediatamente. Os recintos do subsolo que ficavam em torno do centro de regulagem ficaram literalmente atulhados de cientistas e técnicos. O revestimento de metal plastificado que cobria o conjunto de regulagem foi removido às pressas. O halutense Icho Tolot explicou a centenas de engenheiros o funcionamento de cada peça do enorme aparelho. O gigante halutense trabalhava ininterruptamente, ajudando e dando conselhos. Ficava a maior parte do tempo perto do conjunto de regulagem. Os engenheiros trabalhavam em três turnos. Desde o momento em que os maahks tinham aparecido pela primeira vez, não se faziam mais pausas no trabalho. Cada turno era de nove horas. Depois do fim de um turno qualquer homem que tivesse trabalhado sob o estímulo de Icho Tolot levaria pelo menos dez horas para recuperar razoavelmente as forças. As oito horas restantes podiam ser gastas em atividades particulares. Constatou-se que em sua maioria os recém-chegados aproveitavam este tempo para aprofundar seus conhecimentos sobre a técnica dos hiper-campos e dos sistemas de regulagem. Dez horas depois do momento em que o ataque dos maahks fora rechaçado, uma equipe que trabalhava sob as ordens de Icho Tolot conseguiu isolar o comando de bloqueio do sistema de regulagem. As suposições de Allan D. Mercant se confirmaram. Se o transmissor de Kahalo dispunha de um sistema de bloqueio, em Califa também devia haver um. Mas os receios de Mercant também se confirmaram. Várias características do comando de bloqueio diferiam das do transmissor dos seis sóis, o suficiente para que o objetivo fixado por Mercant jamais pudesse ser atingido, se Icho Tolot não tivesse oferecido sua colaboração. No entusiasmo com que se puseram a trabalhar no sistema de regulagem e no comando de bloqueio, não ficaram muito atentos no monstro que fazia das suas nas profundezas de Califa. O perigo representado pelos maahks parecia cem vezes mais grave que qualquer coisa que o ser energético pudesse fazer. Steve Kantor e os que tinham mantido contato direto com o monstro eram os únicos que se davam conta de que a primeira investida dos maahks representara uma resposta clara a uma pergunta muito importante. Não era possível que o ser energético fosse um espião dos maahks. Se fosse, estes já teriam sido informados sobre a situação do transmissor Chumbo de Caça e não se aventurariam a atacar com um número tão reduzido de naves. Mas nem por isso se podia excluir a possibilidade de o monstro fazer espionagem para outros seres. Mas não era isto que importava. Mais tarde, quando o perigo tivesse passado, cuidariam do ser energético, tentando descobrir quem era ele, de onde tinha vindo e o que queria. Em meio ao nervosismo generalizado causado pela iminência do segundo ataque dos maahks, a tarefa confiada ao grupo dirigido por Steve Kantor por enquanto tinha uma importância secundária. Mas só por enquanto.

Icho Tolot e seus colaboradores se dispunham a desmontar o comando de bloqueio, quando de repente o apito do alarme de ozônio encheu os corredores de Califa. Dezenas de monitores entraram em funcionamento praticamente ao mesmo tempo, criando confusão entre os grupos de plantão. Ninguém sabia para onde ir. Tudo isso durou apenas alguns segundos. Quando os apitos terminaram, na sala de regulagem também reinava o silêncio. Vinte engenheiros e cientistas jaziam imóveis no chão, sob os efeitos de um pesado choque. Nem mesmo Icho Tolot, o halutense praticamente inexpugnável, escapara ileso. Tinha de fazer um grande esforço para ficar de pé. Não se lembrava muito bem do tinha acontecido. Explicou que numa fração de segundo a sala se enchera de uma névoa densa. Ouvira os gritos dos engenheiros terranos. Ele mesmo percebera que alguma coisa mexia em sua substância orgânica, dando a impressão que queria retirar toda a energia vital de seu corpo. Quando a névoa desapareceu, seus colaboradores jaziam no chão como se estivessem mortos, e ele mesmo mal e mal conseguiu sustentar seu corpo enorme. O conjunto de regulagem e as peças desmontadas continuavam no mesmo lugar em que estavam antes do misterioso acontecimento. A raiva do atacante dirigira-se unicamente contra os homens que trabalhavam na sala de regulagem. O incidente representava um pesado revés para o plano de defesa de Reginald Bell. Icho Tolot informou que levaria três horas para ficar novamente em forma. Seriam três horas perdidas, pois os cientistas terranos não seriam capazes de trabalhar no comando de bloqueio sem as instruções do halutense. E mesmo que depois de três horas fosse possível prosseguir no trabalho, não haveria nenhuma garantia de que o misterioso acontecimento não se repetisse. *** Steve Kantor ficou sabendo do incidente quando se encontrava na sala de registros gráficos, examinando velhas anotações juntamente com Lucas e Lott. Sid Lippman estava confeccionando uma lista de todos os monitores de ozônio que tinham dado o alarme pouco antes do acontecimento ou durante o mesmo. Um ordenança entrou na sala e disse que Steve deveria apresentar-se ao Tenente-Coronel Koenig. Enquanto se dirigiam ao laboratório de Koenig, recebeu um relato resumido dos acontecimentos. Tal qual todos os outros, começou a quebrar a cabeça para descobrir os objetivos do desconhecido. Enquanto estava refletindo sobre isso, teve uma idéia. Não teve tempo para apresentá-la. Já estava entrando no pequeno escritório de Koenig ao lado do ordenança. Koenig estava sentado atrás da escrivaninha. Parecia nervoso e distraído. — O que acha disso? — perguntou, indo diretamente ao assunto. Steve ainda matutava sobre a idéia que lhe ocorrera pouco antes. — Não sei, senhor — respondeu, desajeitado. — Droga! O especialista é o senhor — explodiu Koenig. — Se o senhor não sabe o que dizer, quem poderia saber? Steve contemplou-o com um olhar de espanto. — Berrar não resolve nada — advertiu. — Só tomei conhecimento do incidente quando vinha para cá. Quer dizer que tive três minutos para pensar sobre isto. O que queria? Que eu fizesse um milagre? Koenig encolheu-se na cadeira e murmurou um pedido de desculpas. Steve viu que seus nervos tinham chegado ao limite da resistência. Sem esperar um convite, puxou uma cadeira e sentou à frente de Koenig.

— A situação está assumindo um aspecto inteiramente novo, senhor — disse com a maior calma, como se fosse uma coisa sem importância. Koenig sobressaltou-se. — O que quer dizer com isso? — Temos certeza absoluta — disse em tom indiferente — que a entidade energética não é um espião dos maahks. Resta saber qual é seu objetivo. Não conhecemos a resposta. Só podemos fazer suposições. Vamos considerar, por exemplo, que nas últimas vinte horas o monstro foi avistado duas vezes na sala de regulagem, que sem dúvida é a componente mais importante do sistema de controle do transmissor. Isto não justificaria a conclusão de que a tarefa do ser energético consiste em evitar que os controles do transmissor sejam manipulados por pessoas não autorizadas? Koenig arregalou os olhos. — Um ser? — repetiu, estupefato. — Até parece que esta coisa tem vida. — É capaz de desenvolver uma ação coerente — argumentou Steve. — Portanto, é teleguiado ou possui uma inteligência autônoma. Para nós é indiferente qual das duas hipóteses seja verdadeira. Koenig pôs-se a refletir. Finalmente acenou com a cabeça. — Sua idéia não deixa de ter um fundamento — reconheceu. — Mas será que pode ser-nos útil em alguma coisa? Steve sorriu. — Depende. Temos de forçar mais um pouco a imaginação. Devemos dar-nos conta, por exemplo, de que qualquer entidade que se movimenta consome energia. Se as reservas de energia não são completadas de tempos em tempos, a entidade acaba perdendo a existência. Posso apresentar um exemplo bem elucidativo. O homem que não come e bebe de vez em quando acaba morto. Koenig conseguiu segurar o fio da meada. Notava-se pela expressão do rosto. — Continue — insistiu. — Como se trata de uma entidade energética, temos todos os motivos para supor que ele se alimenta com energia. Como exerce uma atividade muito intensa, tem de arranjar alimentos a intervalos curtos e em quantidades não muito pequenas. Se descobríssemos o lugar em que se abastece, não seria difícil colocar uma armadilha. — Excelente — elogiou Koenig. — Acho que podemos pautar nossa ação por este esquema — fitou Steve com uma expressão de dúvida. — Já tem uma idéia de onde podemos começar? Steve passou a mão pelo queixo. — Tenho uma idéia bastante vaga — respondeu. — De quantas das fontes de energia existentes em Califa se poderia retirar um suprimento que não pudesse ser registrado por qualquer aparelho? Não podemos deixar de reconhecer que são muitas. Com alguma habilidade pode-se retirar qualquer quantidade de energia de máquinas secundárias, desde que se tenha bastante tempo. Os aparelhos secundários não são mantidos sob vigilância contínua. Seu consumo de energia é bastante reduzido. Logo, as quantidades que podem ser retiradas desses maquinismos são insignificantes. Sou de opinião que o consumo de energia do monstro é tão grande que não pode ser satisfeito com as quantidades retiradas de aparelhos menores. Precisa de grandes bocados de cada vez, e estes ele só pode retirar de um lugar sem que nós o percebamos. — Dos reatores! — exclamou Koenig. — Exatamente. As quantidades imensas de energia necessárias ao funcionamento da base são geradas no centro de reatores. As quantidades retiradas são da ordem de

milhões de gigawatts, e os instrumentos que medem o fluxo de energia são regulados para estas quantidades. Uma divergência de megawatt nem faria tremer seus ponteiros. Koenig levantou-se de um salto. — É isso mesmo! — exclamou e bateu com o punho direito na palma da mão esquerda. — Não tenho a menor dúvida, Kantor — saiu apressadamente de trás da escrivaninha e parou à frente de Steve. — Eu lhe dou cem homens, Kantor, ou até mais, se o senhor precisar. O senhor e os outros membros de seu grupo são especialistas em hipercampos. Pense numa boa armadilha e agarre esta coisa assim que aparecer lá embaixo. Steve também levantou. — Fico satisfeito — disse com um sorriso irônico — que o senhor já aceitou meus argumentos antes mesmo que eu apresentasse o ponto decisivo. Koenig parecia confuso. — Que ponto é este? — Bem, senhor, nos recintos mais importantes foram colocados sensores que reagem a concentrações elevadas de ozônio, que se formam toda vez que o monstro aparece. No entanto, há uma exceção. O reator tem um grau de estabilidade tamanho que não precisa de qualquer proteção. Quer dizer que no centro de reatores não foram colorados sensores de ozônio. O monstro poderia permanecer lá por dias ou semanas a fio sem que desconfiássemos. Num gesto impulsivo, Koenig ofereceu-lhe a mão. — O senhor é um homem bem ao meu gosto, Kantor — asseverou em tom exaltado. — Sabe pensar e combinar os fatos. Vou recomendá-lo aos escalões superiores. Steve apertou sua mão. — Estou bastante impressionado, senhor — respondeu com uma leve ironia. — Só me resta esperar que tenha tempo para transmitir sua recomendação. *** O centro de geradores ficava no centro do asteróide, motivo por que as condições gravitacionais reinantes em seu interior eram bem estranhas. O gerador gravitacional que garantia uma gravidade igual à da Terra em Califa ficava bem ao lado dos reatores. O aparelho criava um centro de gravitação artificial bem no centro do planetóide, e dali irradiavam as linhas de gravitação. Por isso o centro de geradores fora instalado no intervalo entre as superfícies de duas esferas concêntricas, cujo centro comum era também o centro de Califa e o ponto em que ficava o centro de gravidade artificial. O diâmetro das esferas era de oitocentos e mil metros. Os reatores tinham sido fixados na superfície da esfera menor. A face interna da esfera maior estendia-se cem metros acima deles. O gigantesco pavilhão era fortemente iluminado até o último canto, fazendo com que uma visão estranha se oferecesse ao olho, em virtude da curvatura das duas esferas. O horizonte era tão próximo que a pessoa não familiarizada com o ambiente não compreendia como os geradores de energia podiam ficar em posição tão inclinada no limite do campo de visão, sem que perdessem o apoio. Tinha-se a impressão de estar no cume de uma montanha. Para onde quer que se voltava o rosto, o chão parecia descer. Mas se o observador se movimentasse, chegaria à conclusão de que o senso de equilíbrio não compartilhava a opinião do sentido da visão. Enquanto a visão lhe dizia que estava descendo, o senso de equilíbrio não notava nada disso. Percorridos cem metros, o observador teria a impressão de estar novamente no cume de uma montanha, cujas encostas suaves desciam uniformemente em todas as direções.

Havia dez elevadores antigravitacionais que ligavam o centro de geradores com o resto do asteróide. Junto às saídas dos elevadores viam-se pequenos veículos de superfície de alta velocidade, pois quem quisesse dar uma volta em torno do centro teria de percorrer dois quilômetros e meio, e a área do mesmo chegava a quinhentos mil metros quadrados. Quem tivesse um trabalho por ali precisaria de um veículo. Steve Kantor e seus homens passaram por um dos dez elevadores antigravitacionais, cujos poços pareciam enormes colunas lisas que desciam do teto ao chão do centro, quando pela primeira vez entraram nele. Ficaram espantados ao vê-lo. O grupo de Steve foi seguido de perto por quinhentos guardas escolhidos por Koenig. Metade destes homens carregava monitores de ozônio, que foram colocados às pressas em torno dos reatores. Um zumbido contínuo produzido por centenas de geradores e a aparelhagem auxiliar enchia o recinto. O chão vibrava constantemente. Nas primeiras horas o olho era incapaz de fixar os contornos precisos dos objetos, porque estes tremiam ininterruptamente. Mas com o tempo o olho acostumava-se às novas condições e passava a enxergar claramente. Os reatores, em cujo interior os átomos de hidrogênio se combinavam para formar núcleos de hélio, liberando energia no processo, eram torres cilíndricas de vinte metros de diâmetro, que se erguiam a cinqüenta metros de altura. Pareciam uma rede de malhas largas que cobria todo o pavilhão. Havia um reator em cada ângulo de um quadrado de cento e cinqüenta metros de lado. Os tanques de hidrogênio e os geradores de plasma tinham sido montados no interior desses quadrados. Tubulações partiam dos tanques e iam dar nos geradores, que por sua vez estavam ligados aos reatores por canais de plasma. Havia conversores de energia acoplados aos reatores de fusão. Cabos da espessura de um braço humano desciam pelas paredes das torres e desapareciam no chão. Embaixo do piso do pavilhão ficavam os coletores e distribuidores, que faziam retornar aos aparelhos instalados no pavilhão uma parte insignificante da energia gerada, enquanto a maior parte era conduzida a centenas de centros de consumo situados nos pavimentos superiores. Steve Kantor resolveu que por enquanto o grupo se instalaria nas imediações do elevador antigravitacional pelo qual tinha descido. Estava firmemente decidido a não sair dali enquanto não tivessem pegado o monstro. Trouxera mantimentos e outras coisas de que precisava. Parte dos guardas começou a instalar o projetor energético que queriam usar para pegar o ser feito de energia. Lucas Della Fera e Lott Warner deram uma ajuda. Enquanto isso Sid Lippman, que ainda não se tinha recuperado do espanto, caminhava de um lado para outro, sem conseguir tirar os olhos das gigantescas torres dos reatores. Finalmente Steve o chamou. — Seus monitores já devem ter sido instalados — disse. — Não quer verificar se o sistema de alerta está funcionando? Lippman limitou-se a acenar com a cabeça. — Que instalações fantásticas, não é mesmo? — murmurou. — Sem dúvida — concordou Steve. — Ei! O senhor prestou atenção ao que eu disse? Lippman sobressaltou-se. — Naturalmente. Eu... providenciarei imediatamente, senhor. Parecia perplexo e um tanto embaraçado. Mas dali a mais alguns minutos já estava instalando o sistema de alerta, que ao entrar em ação mostraria qual dos monitores de ozônio detectara alguma coisa.

Steve não se sentia muito à vontade. O pavilhão era muito maior do que imaginara. O plano já não parecia tão bom como parecera uma hora antes. Tinha certeza quase absoluta de que nunca conseguiria pegar o monstro — a não ser que este fosse bastante tolo para aparecer nas imediações do elevador antigravitacional. Se tivesse mais projetores, a situação mudaria de figura. Acontecia que a montagem dos projetores com as peças existentes em califa levava algum tempo, e o tempo era a única coisa que faltava em Califa. A função do projetor consistiria em criar um campo energético esférico do qual o monstro não pudesse escapar. Este campo possuía uma estrutura semelhante à dos campos defensivos que envolviam as espaçonaves, com a diferença de que o efeito protetor era voltado para dentro. Steve pretendia colocar o projetor perto de um ponto ao qual o ser energético se dirigisse regularmente. Assim que aparecesse, o projetor montaria em torno dele um campo esférico impenetrável para a matéria e para qualquer estrutura energética conhecida. Acontece que o alcance do projetor não ultrapassava trezentos metros. Se o monstro aparecesse num ponto situado fora dessa distância, o projetor teria de ser aproximado dele. Steve tinha suas dúvidas de que o ser energético ficasse quieto até que pudesse ser preso. Naturalmente não se podia excluir a possibilidade de que o terrível desconhecido se alimentasse sempre da mesma fonte, isto é, que retirasse sua energia de um único reator. Se conseguissem descobrir este reator, o projetor poderia ser instalado nas proximidades do mesmo. Por enquanto o mais importante eram os monitores de ozônio. Enquanto estes não entrassem em ação, nada se poderia fazer. Lippman montou seu painel de controle de tal forma que um dos lados ficou encostado ao poço do elevador antigravitacional. Tudo se agrupava em torno do elevador, pois todo mundo queria ficar o mais perto possível da saída, que poderia representar a salvação. Steve Kantor não foi nenhuma exceção. Deu ordem para que as quatro camas dobráveis que seriam usadas por enquanto pelos homens fossem colocadas lado a lado, com as cabeceiras voltadas para o poço. O pequeno veículo ficou estacionado junto ao pé das camas e era fácil de alcançar por quem se encontrasse nelas. A antena quadrada do projetor erguia-se sobre a plataforma do veículo. Ao lado dela havia uma caixinha cinzenta. Era o gerador que alimentava o projetor. Os cem homens pertencentes à guarda se retirariam assim que tivessem concluído seu trabalho. Steve não sabia quais eram os padrões lógicos pelos quais se guiava o ser energético, mas não se podia excluir a possibilidade de que na presença de tanta gente ficasse desconfiado. Por isso os homens da guarda acampariam no andar de cima, e só entrariam em cena quando Steve julgasse necessário. Os veículos nos quais estes homens tinham saído para distribuir os monitores e instalar o sistema de alerta foram voltando. O condutor de cada veículo apresentava um ligeiro relato a Steve. A posição de cada monitor foi registrada num cartão magnético, que seria introduzido no console de Lippman, servindo para identificar a posição exata do aparelho que detectasse alguma coisa. Assim que Steve fazia suas anotações, o condutor do veículo reunia seu grupo e este entrava no elevador antigravitacional. O pavilhão estava ficando vazio. Os carros ficaram parados em desordem em torno do elevador. Steve notou que os homens tinham pressa de chegar ao andar de cima, e ele mesmo sentia-se cada vez mais atordoado. Surpreendeu-se mais de uma vez levantando os olhos e olhando em torno, porque tivera a impressão de que havia uma sombra suspeita por perto. Fez um grande esforço para ficar calmo, mas não conseguiu.

Finalmente o último membro da guarda foi embora. Um silêncio apavorante espalhou-se pelo pavilhão, pois os ouvidos já estavam acostumados ao rugido incessante dos reatores. Sid ainda estava mexendo no seu console. Lucas Della Fera e Lott Warner ficaram sentados na cama, olhando fixamente para a frente. Lott fumou um cigarro. Steve foi para perto do pequeno veículo e pôs-se a examinar o projetor, somente para fazer alguma coisa. Estava tudo em ordem. Bastaria apertar os respectivos botões, e o gerador entraria em funcionamento, fazendo com que o projetor montasse um campo esférico de certo tamanho em tomo de um ponto bem definido. Virou-se. Sid também concluíra seu trabalho. Levantou e limpou as mãos. — Pronto — limitou-se a dizer. Steve acenou a cabeça. Não disse uma palavra. Dali em diante era só esperar. *** No interior do pavilhão reinava uma claridade eterna. Na primeira metade do dia nenhum dos homens de Steve conseguiu dormir. A luminosidade branco-azulada atravessava as pálpebras, espantando o sono. Steve já conhecia esta situação. Depois de dez horas distribuiu os turnos dos guardas. Cada um ficaria sentado quatro horas junto ao console. O próprio Steve encarregou-se do primeiro turno, pois sabia que dali a pouco chegaria o momento crítico em que os homens cairiam e adormeceriam, mesmo que a luz fosse ainda mais forte. Lucas foi o primeiro a ser dominado pelo sono. Estimulado pelo exemplo, Lott só levou alguns minutos para fazer a mesma coisa. Sid, que era muito nervoso, levou mais meia hora, mas também acabou caindo para trás e pegando no sono, com o cigarro aceso na mão. Steve sentia-se atordoado. Fazia trinta horas que não descansara. Fez um bule de café e tomou três xícaras. Depois sentou à frente do console e ficou de olho nas numerosas luzinhas de alerta, que ainda estavam completamente apagadas. À esquerda das luzes havia uma fileira de botões, que serviam principalmente para desligar os monitores depois que estes tivessem detectado alguma coisa e voltar a ativá-los. Uma chave amarela larga colocada no fim da fileira transmitia um alerta automático aos homens da guarda. Em cima desta chave ficava o videofone, que punha a base avançada de Steve Kantor em contato com o resto do asteróide. Do lado direito o cartão magnético fora introduzido na tampa do console. No caso de um alarme, um sinal luminoso mostraria qual era o monitor que detectara alguma coisa. Só para passar o tempo, Steve foi comparando os números das luzes de alerta com as marcações do cartão magnético. Cada luz correspondia a um monitor. Além da posição dos monitores, os contornos dos reatores e das aparelhagens ligadas aos mesmos estavam registrados no cartão. Havia uma confusão quase inextricável de linhas e pontos. Por algum tempo Steve achou a brincadeira muito interessante. Mas o interesse logo foi diminuindo. Steve bocejou. Fumou um cigarro, mas não gostou. Jogou o toco aceso no chão. Devia ter adormecido ou caído numa espécie de transe. Não compreendeu logo o que tinha acontecido quando ouviu um chiado agudo. Sobressaltou-se. Uma das luzes vermelhas de alerta se acendera, e cada vez que piscava o chiado se fazia ouvir. Steve ficou logo bem acordado. Uma linha indicadora fina, mas muito luminosa, apareceu no cartão magnético. Os olhos de Steve ardiam enquanto lia a posição do monitor. Era o número 138. Este aparelho ficava no setor 1, a cerca de setecentos metros dali.

Steve levantou-se de um salto. Berrou uma ordem, mas os homens continuaram imóveis. Agarrou Sid pelos ombros e puxou-o para fora da cama, fazendo com que caísse pesadamente ao chão. Sid protestou violentamente e acordou Lucas. Lott ainda estava imóvel e teve o mesmo destino que Sid. Foram levantando um após o outro, atordoados. — Lott, Lucas, para o carro! — gritou Steve. — Sid o senhor cuidará do monitor. Reative-o de trinta em trinta segundos. Entendido? Sid acenou preguiçosamente com a cabeça. Steve segurou-o pelo braço e levou-o ao console. Sid enfiou-se desajeitadamente na cadeira. Quando finalmente estava sentado à frente do console, já não parecia tão sonolento Steve não teve tempo para cuidar dele. Lucas dera partida no carro. Lott estava ajoelhado na plataforma de carga, mexendo no gerador. Steve saltou para o assento do motorista e movimentou o veículo. Passou cuidadosamente entre os carros largados pelos guardas. Olhou para trás e viu Sid Lippman ocupado com os comandos dos monitores. Acelerou. O motor emitiu um zumbido agudo, e o carro passou em alta velocidade entre as torres dos reatores. Steve não teve nenhuma consideração pelos seus passageiros. Entrava na curva sem reduzir a velocidade, roçava o revestimento dos geradores de plasma dos quais não conseguia desviar-se. As placas com números foram passando em alta velocidade. Os números tinham sido colocados pelos guardas. Steve parou junto a uma placa vermelha com o número 123. Lott estava ajoelhado atrás dele, na plataforma de carga, com as mãos nos comandos do projetor. Aguardava instruções. Lucas, que durante a viagem louca afundara profundamente no assento, endireitou o corpo e pegou o microfone do intercomunicador. — Cento e trinta e oito — chiou Steve, estendendo o braço. — Mais ou menos a oitenta metros, ali do outro lado. Força total! Lott não disse uma palavra. Acenou com a cabeça. A antena quadrada girou rapidamente. O gerador emitiu um zumbido grave. Os relês estalaram. De repente um apito agudo se fez ouvir em meio à babel de ruídos. O campo esférico tinha sido montado! Steve olhou para a torre do gerador junto ao qual se via o número 138. Sentia-se angustiado. Viu o ar cintilar ligeiramente, enquanto o campo energético se estabilizava. De repente a atmosfera parecia estar envolta numa cortina de ar quente. Se o monstro ainda estivesse perto do monitor, a essa hora já estaria preso. Steve fez um sinal para que Lott mantivesse o projetor focalizado para o reator. O veículo foi seguindo devagar em direção à extremidade do campo esférico. Lucas continuava a segurar o microfone, embora ainda não tivesse dito uma única palavra. Estavam todos muito tensos. Steve fez o carro descrever uma curva suave, contornando o campo esférico. Seus movimentos eram automáticos, como se fossem executados por uma máquina em perfeitas condições, enquanto Steve não tirava os olhos do campo cintilante. Deu algumas voltas em torno do reator, mas não viu sinal do desconhecido. Não se podia excluir a possibilidade de que entre as numerosas formas que o monstro assumia houvesse uma que era invisível ao olho humano, mas Steve não acreditava muito nisso. Profundamente decepcionado, começou a conformar-se com a idéia de que o ser energético escapara. Parou. — Entre em contato com Sid — disse, dirigindo-se a Lucas. Finalmente Lucas começou a falar. Mal tinha dito algumas palavras, foi interrompido por Sid. Steve compreendeu perfeitamente a resposta.

— Reativei o monitor três vezes. Das primeiras duas reagiu imediatamente. O monstro ainda se encontrava nas proximidades. Mas da terceira vez ficou tudo quieto. Lucas lançou um olhar sombrio para o receptor. — Por que não disse logo? — gritou em tom de acusação. — Não consegui contato — afirmou Sid. — Acho que alguém estava com o dedo na tecla. Lucas baixou a cabeça, cônscio do seu erro. Ficara todo o tempo com o microfone na mão, apertando a tecla de transmissão. Steve desligou o motor. Lott fez a mesma coisa com o gerador do projetor. A cintilância do campo energético desapareceu. Sid Lippman recebeu ordem para ficar onde estava. — Vamos dar uma olhada por aí — disse Steve. Saltou do carro e examinou a gigantesca torre do reator. As energias geradas no interior dessa torre eram imensas. Representavam uma mesa bem-posta para o mais faminto dos seres energéticos. Restava saber como este se servia nesta mesa. — Ficarei muito grato por qualquer boa idéia — disse Steve, zangado. — Em que ponto esta coisa retirou energia do reator? Lott e Lucas ficaram calados. Lucas fazia uma figura esquisita, com o ventre proeminente e os braços atrás das costas, levantando os olhos para a torre. — Em primeiro lugar devemos descobrir alguma coisa sobre o mecanismo da retirada de energia — disse com a voz aguda. — De que forma a energia passa do reator para essa criatura estranha? Lott grunhiu alguma coisa. Steve fitou-o espantado Lott estava com os olhos fechados. Os braços pendiam molemente junto ao corpo, mas estava com os punhos cerrados. Até parecia que estava travando uma luta silenciosa consigo mesmo. Quando finalmente voltou a abrir os olhos, tinha um aspecto estranho, mas parecia sentir-se muito seguro. Não perdeu tempo. Aproximou-se do canal que levava o plasma ao gerador. O canal era uma espécie de tubo retangular, com cerca de cinqüenta centímetros, e estava envolto nas espirais do que parecia ser uma serpentina de refrigeração. A temperatura média do plasma que atravessava o canal era de 12.000 graus centígrados. O canal era feito de um metal plastificado ultra-resistente ao calor. A serpentina de refrigeração não tinha por fim proteger o canal, mas evitar que o excesso de calor fosse irradiado para o ambiente. Se não fosse ela, a temperatura no interior subiria dentro de poucas horas a níveis insuportáveis. No interior da serpentina havia um fluxo constante de hidrogênio altamente concentrado, que saía dos tanques e ia para o gerador de plasma. Ao mesmo tempo que refrigerava o ambiente, absorvia certa quantidade de calor, que acelerava o processo de transformação em plasma, isto é, em hidrogênio ionizado. Lott Warner parou à frente do canal, que passava a pouco menos de dois metros de altura, formando uma espécie de ponte entre o reator e o gerador. — E a hipótese mais simples — disse no tom lacônico que lhe era peculiar. — Não poderia explicar melhor? — perguntou Lucas entre os dentes. Steve ficou perplexo. Tinha a impressão de que sabia aonde Lott queria chegar. De tão simples, a idéia era genial. — Sempre pensamos — explicou Lott — que o desconhecido fosse satisfazer suas necessidades no lugar em que há mais energia, ou seja, no reator. Acontece que este é bastante inacessível. Produz uma quantidade enorme de calor em seu interior. Este calor é transformado em energia elétrica no envoltório do reator, por meio de uma série de processos termoquímicos. Onde haveria de começar alguém que sentisse fome de

energia? O reator é protegido por um envoltório de dois metros de espessura, que reduz qualquer transmissão de energia a tal ponto que quase não vale a pena. Mas no canal de plasma a situação muda de figura. O plasma é formado por partículas com uma carga elétrica, representa um fluxo de eletricidade pura acoplada à matéria. Normalmente a energia flui desimpedida. Mas basta que alguém o faça vibrar, para que irradie energia. — Até que enfim você diz uma coisa sensata! — gritou Lucas, entusiasmado. — O monstro não precisa nada além de uma pequena grade direcional... — Esta grade já existe — disse Lott calmo. — É formada pela serpentina de refrigeração, que está isolada de ambos os lados e também na face voltada para o canal. Basta criar uma pequena corrente alternada, e o plasma começa a vibrar. Steve compreendeu instintivamente que Lott acertara em cheio. Não havia meio mais simples de retirar energia do reator. Uma corrente alternada aplicada na serpentina de refrigeração ora aceleraria, ora retardaria o fluxo de plasma no interior do canal. E um fluxo de partículas eletricamente carregadas que sofre alternadamente uma aceleração e uma desaceleração emite ondas eletromagnéticas. Como a carga do plasma que fluía no interior do tubo era muito intensa, qualquer tensão, por menor que fosse, seria capaz de irradiar e liberar energias que chegavam a alguns megawatts. A serpentina de refrigeração desempenhava neste processo uma função semelhante à da grade de um triodo. — Até aqui você também tem razão — reconheceu Lucas. — Resta saber como esta coisa consegue criar uma tensão no mecanismo de direção. — Trata-se de um ser feito de energia — ponderou Lott. — Não deve ter muita dificuldade em criar uma pequena corrente alternada de alta freqüência. Lucas olhou-o de lado. — Pode ser — confessou. — Mas ninguém gosta de trabalhar enquanto está comendo. É só imaginar que você está com sede e quer beber água de um poço. Suponhamos que para tirar o líquido do mesmo você tenha de mover fortemente o embolo, e isso em rápida sucessão. Você gostaria de ficar movendo a bomba enquanto estivesse bebendo, ou preferiria arranjar um martelete mecânico que fizesse o trabalho para você? Lott fez uma careta. Até parecia que tinha mordido numa maçã azeda. Steve riu. — O senhor imagina que o monstro é muito humano — objetou Lott. — Provavelmente nem seria capaz de acompanhar a comparação que fez com a bomba. Não devemos esquecer que estamos lidando com uma criatura bem diferente. É possível que a criação de uma corrente alternada de pequena intensidade seja uma de suas funções vitais automáticas, tal qual a respiração é para nós. Neste caso basta que fique perto do canal. — Bem, senhor, o que eu quis dizer... — respondeu Lucas. — Vá para o inferno com seu senhor! O que você quis dizer mesmo? Lucas não deu atenção à repreensão que acabara de ouvir, mas quando voltou a falar seus olhos já não pareciam tão tristes. — Pensei que, enquanto não temos dados concretos, uma teoria é tão boa como a outra. E já que estamos aqui podemos perfeitamente examinar a serpentina em vez de ficar discutindo. Steve riu e deu uma pancadinha em seu ombro. — É verdade. Procuraremos encontrar o martelete automático que aciona regularmente a bomba. Só assim Lucas pode saciar a sede com toda calma. Até mesmo o rosto rígido de Lott Warner esboçou um sorriso amável.

Examinaram a serpentina. E o milagre aconteceu. Constataram que a hipótese de Lucas era verdadeira. Quem descobriu o “martelete automático” foi Steve. Naturalmente não se tratava de um martelo. Era um cristal envolto num campo elétrico cuja intensidade permanecia constante, e que estava cercado por um campo de corrente alternada de alta freqüência. O cristal tinha sido soldado diretamente na parede da serpentina, num lugar de difícil acesso, e mantinha um contato muito estreito com o material condutor desta, fazendo com que a corrente alternada que emitia se espalhasse prontamente por todo o comprimento do canal de plasma. O ser energético estava cercado constantemente por um campo de eletricidade estática. Quanto a isso não havia a menor dúvida. Este campo produzia uma alteração no índice de refração do ar, o que por sua vez fazia com que o ser pudesse ser visto como uma névoa. Desta forma, tudo que tinha que fazer era, conforme dizia Steve, permanecer perto do canal de plasma, de tal forma que o pequeno cristal ficasse dentro de seu campo estático. O resto era automático. O cristal produzia vibrações, através das quais era retirada energia do fluxo de plasma. Depois disso as funções do ser estranho se limitavam a servir de antena que captava a energia irradiada. Havia outro detalhe importante. O cristal formava uma estrutura muito complexa. Nem mesmo um ser feito de energia seria capaz de produzir este tipo de cristal em grande quantidade. A forma pela qual este fora reunido revelava muito trabalho e cuidado. Tudo levava a crer que o estranho ser não aparecera por acaso nas proximidades do monitor 138. Não usava reatores diferentes para saciar a fome. Tinha um ponto de alimentação fixo, conforme Steve exprimia em pensamentos que nunca o deixavam. Pela primeira vez desde que entrara na sala dos geradores Steve voltara a ter uma leve esperança. Já tinham encontrado o lugar em que teria de ser colocada a armadilha. O projetor seria instalado nas proximidades do monitor 138, ao qual poderia ser acoplado. O resto era somente uma questão de tempo. Quantas vezes o ser energético sentia fome?

5
Os cientistas e engenheiros que tinham presenciado o incidente ocorrido na câmara de regulagem juntamente com Icho Tolot sentiam-se deprimidos demais quando pensaram em recorrer novamente aos seus serviços. O halutense já estava em plena forma quando eles ainda não tinham saído do estado de rigidez provocado pelo choque. Reginald Bell resolveu mandá-los para casa na próxima nave-correio. Fez questão de manter o maior segredo possível em torno do assunto. Ninguém sairia ganhando se o estado dos homens que tinham ficado inconscientes fosse o assunto de todas as conversas. Isto só poderia concorrer para espalhar o pânico entre os outros engenheiros. Desta forma Icho Tolot não teve dificuldade em conseguir mais vinte homens, com os quais faria mais uma tentativa de ativar o mecanismo de bloqueio. Desta vez um batalhão de guardas foi postado junto à sala de regulagem. Era de esperar que houvesse outro ataque de surpresa. Era bem verdade que as previsões não se confirmaram. Icho Tolot e seus companheiros puseram-se a trabalhar. Nas primeiras duas horas conseguiram bons progressos. Ninguém os perturbou. Reginald Bell respirou aliviado. Talvez nem tudo estivesse perdido. Quem sabe se não conseguiriam instalar o bloqueio antes que os maahks voltassem a atacar! Mas não se conformou com este débil raio de esperança. A nave-correio que levou para casa os cientistas feridos também foi portadora de uma ordem escrita dirigida ao comandante de uma frota de cinco mil naves, que permanecia de prontidão perto do transmissor dos seis sóis. Esta frota deveria dirigir-se imediatamente ao sistema Chumbo de Caça, para unir-se à frota de vigilância composta de igual número de naves. Enquanto isso estavam sendo realizadas negociações com Beukla, chefe dos mutantes maahks. Beukla controlava milhares de espaçonaves pequenas, mas muito poderosas, espalhadas por diversos portos instalados no interior do grande asteróide. Um ano atrás, quando as unidades da frota do Império tinham avançado a primeira vez para o sistema Chumbo de Caça, estas naves lhes tinham causado tremendas dificuldades. Nem mesmo a poderosa Crest II, nave-capitânia da frota, escapara ilesa. Tivera de retirar-se às pressas. Não era difícil conseguir a colaboração de Beukla. Bastava explicar que sua ajuda prejudicaria os senhores da galáxia. Beukla e seus mutantes nutriam um ódio profundo pelos senhores de Andrômeda, que há mil anos julgaram necessário realizar uma expedição punitiva contra o planeta do sol geminado, destruindo-o e exterminando seus habitantes. A lembrança deste ato abominável ficara bem viva na mente dos descendentes dos raros habitantes que escaparam por um milagre. Desta forma Reginald Bell dispunha de uma frota enorme, tanto em número como em poder de força. Não teria dificuldade em rechaçar o segundo ataque dos maahks, desde que a força dos grupos atacantes não ultrapassasse os limites do previsível. Mas nem por isso se podia dizer que suas preocupações tivessem desaparecido. As fontes das quais os maahks recebiam ajuda eram inesgotáveis. Se mil naves não fossem suficientes para conquistar Califa, voltariam com dez mil, e se ainda assim não conseguissem, voltariam a decuplicar seu número. A base não poderia ser mantida por

muito tempo, a não ser que o sistema de bloqueio de transmissor pudesse ser ativado antes que fosse tarde. As horas foram-se arrastando preguiçosamente e com uma monotonia incrível no interior da sala dos reatores. Os homens desempenhavam suas atividades rotineiras, tensos no início, mas dominados cada vez mais pelo tédio. Apesar do nervosismo que se apossara dele, Steve conseguiu dormir cinco horas em seguida. Mas quando levantou sentiu-se tão exausto e abatido como antes. Já se dera conta que nunca seria capaz de desvendar o mistério do ser energético por meio de simples reflexões, mas assim mesmo o problema nunca lhe saía da cabeça. Às vezes, quando por um instante sua mente adquiria uma lógica cristalina, teve a impressão de ter-se conscientizado de uma coisa inteiramente nova. Mas quando tentava absorvê-la, ela se desmanchava. Sentia-se como uma pessoa que afastasse sem o menor cuidado os pedaços de uma pintura rasgada, porque não tinha a menor idéia de que com eles se podia fazer um quadro. Tinha certeza de que as informações desconexas que possuía sobre o ser medonho poderiam ajudá-lo a desvendar o segredo do monstro — desde que conseguisse colocá-las na devida ordem. Finalmente cansou-se das reflexões estéreis e espantou na mente todos os pensamentos ligados ao ser energético. Para facilitar as coisas, sorveu alguns goles grandes da garrafa de sinto, que um oficial precavido colocara entre os mantimentos do grupo. O sinto continha quarenta por cento de álcool sintético. O resto era formado por suco de fruta. A operação fora um fracasso completo. As dúvidas voltaram a tomar conta de sua mente assim que descansou a garrafa. Zangado e um pouco atordoado, sentou na cama e pôs-se a fazer um exame lógico e sistemático do problema. Principiou bem do começo, a partir do momento em que na primeira noite se sobressaltara na cama, com o monstro parado na porta de seu quarto. Avançou às apalpadelas. Recapitulou as observações, as informações, uma após a outra, e chegou a lançar pequenas anotações numa folha de papel. De repente o quadro que queria ver começou a destacar-se em meio à neblina que lhe parecera impenetrável. Já o enxergava claramente. O ser desconhecido tinha a capacidade de modificar à vontade seu aspecto exterior. Em sua forma normal não passava de uma névoa cinzenta, mas podia assumir o aspecto de um objeto material ou, no extremo oposto, ficar completamente invisível. As transformações eram realizadas de acordo com as necessidades. Se o ser energético não possuísse inteligência própria, mas era teleguiado, a gente poderia imaginar o tamanho e a complexidade do respectivo mecanismo de direção. Além de liberar as quantidades de energias necessárias à transformação numa fração de segundo, este teria de manter o objeto teleguiado ininterruptamente sob uma vigilância precisa, para saber o que fazer. Steve já examinara a lista confeccionada por Sid Lippman depois do incidente que houvera na sala de regulagem. Continha os números de todos os monitores de ozônio que tinham reagido antes ou depois do incidente, bem como o momento exato em que tinham entrado em reação. Sid só organizara a tabela depois que se tinham instalado no pavilhão dos reatores. Esta lista representava a melhor prova de que o ser energético tinha saído do centro de reatores quando atacou a sala de regulagem — e isso pelo caminho mais curto, atravessando as paredes feitas com a matéria do asteróide. Mas da tabela ainda se podia extrair outra indicação.

Os monitores de ozônio tinham sido regulados de tal maneira que emitiriam um som agudo assim que a concentração do gás venenoso registrado em seus arredores ultrapassasse um nível crítico. Nestes cinco minutos não haveria nenhuma modificação. Se neste tempo a concentração de ozônio baixasse aquém do ponto crítico e voltasse a subir além dele, o monitor não perceberia, a não ser que fosse ativado em virtude de alguma falha. O monitor era capa de registrar se o monstro aparecera uma ou várias vezes nos cinco minutos que se seguissem à ativação do aparelho. Os registros elaborados por Sid pareciam revelar que depois de ter posto fora de ação Icho Tolot e seus colaboradores, o ser energético não saíra mais da sala de regulagem. Nenhum monitor entrara em ação depois do ataque. Mas Steve tinha certeza absoluta de que as coisas não eram bem assim. O monstro voltara à sala de reatores usando o mesmo caminho pelo qual tinha vindo. O regresso verificou-se menos de cinco minutos depois do momento em que o primeiro monitor dera o sinal. Quando o terrível ser passou perto dos aparelhos na volta, os aparelhos não detectaram nada. A travessia de porções de matéria, quer se tratasse de ar, líquido ou material sólido, representava um problema todo especial para um ser energético. As características de diversas espécies de matéria variavam, em relação à sua permeabilidade. Numa parede metálica, por exemplo, a energia eletromagnética se perderia dentro de alguns milionésimos de segundo, já que o campo que formava a sede dessa energia se desmoronaria dentro da massa metálica. Steve não teve a menor dúvida de que a estrutura de monstro não era a da primitiva energia eletromagnética, mas assim mesmo a travessia de matéria muito sólida deveria trazer problemas ligados à dissipação da energia. Devia haver um processo que evitasse que ao atravessar a matéria o ser energético perdesse parte de sua substância. Um sistema nervoso central que funcionasse bem poderia perfeitamente desempenhar esta função — isto naturalmente sob o pressuposto de que o monstro fosse um ser inteligente capaz de agir com independência. Se fosse um objeto teleguiado, conforme acreditava o Tenente-Coronel Koenig, haveria necessidade de um aparelho enorme para conferir à substância energética uma concentração tamanha que esta só perderia um mínimo de substância. Durante o ataque à sala de regulagem o ser energético atravessara, dentro de cinco minutos, os mais variados tipos de matéria, a começar pelo ar que enchia os espaços vazios do asteróide, e passando para a matéria rochosa amorfa de que era formado Califa, até chegar às grossas camadas de metal plastificado com que estavam revestidas as paredes dos corredores e das salas. O índice de refração mudava de substância para substância, motivo por que havia necessidade de uma forma de concentração completamente diferente para cada substância, a fim de evitar perdas de energia. Dificilmente um mecanismo de regulagem do tamanho de um edifício de escritórios seria capaz de desempenhar todas estas funções, e desempenhá-las de maneira a não haver nenhum erro. Naturalmente era possível que houvesse um aparelho gigantesco como este escondido nas profundezas inexploradas de Califa. Nos doze meses que já se tinham passado desde o momento em que a primeira nave terrana pousara no asteróide, todos os espaços de fácil acesso tinham sido examinados. Ninguém tivera tempo para sair à procura de salas ou corredores ocultos. E o asteróide oferecia espaço de sobra para espaços vazios ocultos. No entanto, um rastreamento energético de alta precisão fora feito em Califa. Aparelhos ultra-sensíveis foram usados para procurar radiações não identificadas. Toda

vez que uma radiação deste tipo era detectada, o aparelho ainda não conhecido que a produzia fora procurado e analisado. Na opinião de Steve era impossível que um aparelho do tamanho do hipotético mecanismo de regulagem que comandava os movimentos do ser energético tivesse escapado aos rastreadores de energia. A sensibilidade destes era tamanha para, numa base de interferência conhecida, descobrir uma pilha de lanterna de bolso embaixo de uma camada de rocha de dez metros. Já o mecanismo de regulagem, caso existisse, produziria um campo de radiações difusas de tamanha intensidade que faria entrar em ação um rastreador a mil quilômetros de distância. Quando Steve tinha desenvolvido suas reflexões a este ponto, preocupado sempre em eliminar eventuais fontes de erros, concluiu que a hipótese de o ser energético ser um objeto teleguiado poderia ser definitivamente arquivada. As conseqüências eram evidentes. O monstro devia ser pelo menos um ser semiinteligente. A forma pela qual pusera fora de ação Icho Tolot e seus colaboradores, quando estes puseram as mãos em peças importantes do mecanismo de regulagem, até indicava que se tratava de uma inteligência que trabalhava para um objetivo definido. Mas ainda havia alguns pontos obscuros. De onde tinha vindo o estranho ser? E haveria um meio de modificar seu comportamento para com os ocupantes da base? Steve resolveu que por enquanto não comunicaria suas conclusões a ninguém. Enquanto os homens acreditassem que se tratasse de uma coisa teleguiada de forma muito eficiente, mas que não possuía vida, ainda se sentiriam mais à vontade para desempenhar suas tarefas. Ninguém seria capaz de dizer qual seria seu estado de ânimo quando descobrissem que na verdade se tratava de uma inteligência independente. Até mesmo Steve não se sentiu muito à vontade ao imaginar que naquele momento o monstro devia estar escondido nas profundezas da sala dos reatores, acompanhando atentamente seus movimentos, pronto sempre para investir contra qualquer intruso e destruí-lo. Chegou à conclusão de que seria preferível comunicar suas suspeitas ao TenenteCoronel Koenig. Mas Steve não chegaria a pôr em prática esta idéia. Antes que Koenig atendesse ao chamado de videofone, os acontecimentos começaram a precipitar-se em Califa e nas áreas adjacentes. *** Tudo começou quando Icho Tolot, juntamente com seu grupo, quis testar o mecanismo de bloqueio que acabara de ser montado. Uma vez ligado o sistema de bloqueio, e desde que este funcionasse perfeitamente, o suprimento de energia do receptor do transmissor seria interrompido por algum tempo. A terça parte do sistema de regulagem ficaria praticamente paralisada. O halutense resolvera que na primeira tentativa a duração do bloqueio seria de dois minutos. Era um tempo suficiente para que os engenheiros examinassem cuidadosamente todos os componentes do sistema de regulagem, mas de outro lado não representaria um risco maior para os veículos espaciais que no momento se dirigissem a Califa através do transmissor. Reginald Bell, que conhecia os tempos de chegada previstos de todas as naves, com uma diferença de mais ou menos dez minutos, autorizara Icho Tolot a dar início à experiência, pois verificara que o próximo veículo só chegaria dentro de duas horas.

A sala de regulagem estava sendo fortemente vigiada, quando o halutense deu o sinal para o início da experiência crítica. Era bem possível que nestes momentos o ser energético fizesse outro ataque. A vigilância do pavilhão foi reforçada com mais um batalhão. Havia novecentos guardas ao todo, que vigiavam todos os acessos e os recintos vizinhos. Mas a desgraça já encontrara seu caminho. No início, o sistema de regulagem nem reagiu quando o bloqueio foi instalado. Por um minuto os cientistas discutiram apaixonadamente, formulando hipóteses. Icho Tolot foi o único capaz de manter a calma, realizando cálculos ultra-rápidos com seu cérebro programador, a fim de descobrir as causas do estranho comportamento que o aparelho estava assumindo. Mas nem mesmo ele conseguiu evitar a catástrofe. Antes que chegasse a uma conclusão, o mecanismo de regulagem começou a esquentar. Numa questão de segundos, sua temperatura subiu para mais de mil graus. O ar na sala ficou tão quente que vários engenheiros desmaiaram antes que pudessem pôr-se a salvo, saindo da sala. O halutense evitou o pior. Com uma alteração estrutural instantânea transformou seu corpo numa figura cristalina inexpugnável, protegeu-se contra a investida do ar superaquecido e com movimentos rápidos levou os homens inconscientes ao corredor, onde já havia membros da equipe sanitária à sua espera. Feito isso, voltou ao inferno incandescente e desligou o mecanismo de bloqueio, interrompendo o processo de aquecimento do aparelho. O gigantesco conjunto foi esfriando devagar. Mesmo a um exame superficial notava-se que várias peças tinham sido danificadas pelo calor. Dessa forma a experiência de Icho Tolot criou a certeza de que por enquanto nem se poderia pensar na instalação de um mecanismo de bloqueio. Além disso brindou os ocupantes da base com um ridículo mecanismo de regulagem avariado, do qual não se sabia se seria capaz de fornecer ao transmissor as quantidades de energia necessárias ao processo de recepção e expedição. Não havia necessidade de quebrar a cabeça sobre a causa do fracasso. Icho Tolot, que resistira também ao segundo acidente sem sofrer nada, era de opinião que o mecanismo de regulagem só reagiria adequadamente ao teste se antes disso tivesse sido devidamente manipulado para este fim. E não havia duvida de que o manipulador era o ser energético desconhecido. Sem que ninguém o percebesse, preparara o mecanismo de regulagem de forma a provocar um superaquecimento do conjunto se o mecanismo de bloqueio fosse ligado. Era só graças à coragem e à capacidade de reação do halutense que o sistema de regulagem ainda existia. Mal Reginald Bell acabara de ouvir o relato preliminar de Icho Tolot, as sereias de alarme se fizeram ouvir. O prazo chegara ao fim. Quatro dias depois da primeira investida, os maahks estavam voltando ao ataque. *** Desta vez trouxeram cento e onze unidades — o que era um sinal de que atribuíam o desaparecimento da frota de expedição a uma causa natural. Em sua maioria as naves que saíam entre os dois sóis traziam uma carga de peças sobressalentes, com as quais se pretendia consertar o setor de expedição do transmissor. Reginald Bell não deu tempo para que o inimigo se orientasse sobre a situação reinante no transmissor Chumbo de Caça. Lançou mão de todas as forças de que

dispunha e esmagou os maahks com a superioridade contra a qual eles não tinham a menor chance. A batalha durou menos de uma hora. As unidades terranas, apoiadas pelas pequenas espaçonaves de Beukla com sua elevada mobilidade, destruíram os cento e onze veículos dos maahks. As perdas dos terranos e de seus aliados foram iguais a zero. Foi uma vitória, mas uma vitória que não garantia a tranqüilidade. Reginald Bell acreditava que, com o conhecimento que possuíam sobre transmissores, os maahks seriam capazes de ativar dentro de cinco a seis horas um expedidor que não estivesse funcionando. Conforme as circunstâncias, o tempo até poderia ser menor. Era o tempo que lhes restava. A quatrocentos mil anos-luz dali, em suas bases espaciais de Andro-Alfa, os maahks aguardavam o regresso das duas frotas. Se não voltassem, só poderiam ser levados a acreditar que alguma coisa tinha acontecido no sistema Chumbo de Caça. Bell tinha certeza de que os maahks raciocinariam mais ou menos desta forma. Naquele momento a terceira frota estava preparada para partir. Decolaria assim que tivesse passado o prazo marcado. Levariam somente alguns segundos para chegar a Califa, usando o transmissor cujo mecanismo de bloqueio nem mesmo o halutense com seus formidáveis conhecimentos técnicos conseguira ativar. Pelos cálculos de Bell, deviam ser milhares de unidades. As dez mil naves de que dispunha, apoiadas pela frota de mutantes de Beukla, certamente seriam capazes de repelir o terceiro ataque. Mas o que viesse depois só poderia deixar em grande desvantagem os homens que se encontravam em Califa. Neste instante, em que as notícias alarmantes pareciam formar um quadro cada vez mais sombrio para o futuro, Reginald Bell resolveu ser sincero com seus homens. Levou pouco menos de vinte minutos falando aos ocupantes de Califa e aos tripulantes das dez mil espaçonaves. Deixou claro que nem poderiam pensar em retirar-se de Califa. Havia muita coisa em jogo. A base tinha de ser mantida enquanto fosse possível. O corpo expedicionário comandado por Perry Rhodan ainda se encontrava em Andro-Beta. Perry Rhodan e seus homens não podiam ser abandonados. Enquanto Califa conseguisse defender-se, Perry e seus homens ainda tinham uma chance de voltar à Via Láctea, usando o transmissor. Se Califa caísse, estariam isolados. O fato de que a exposição de Reginald Bell foi recebida com toda calma era um sinal de que o moral dos homens era bem elevado. A maior parte os homens já sabiam. A novidade era que por enquanto não havia possibilidade de ativar o sistema de bloqueio do transmissor. Tudo ficou em silêncio nos corredores e pavilhões de Califa, nos conveses de dezenas de milhares de naves espaciais. Uma espécie de obstinada resolução tomou conta de todo mundo. *** Steve Kantor encontrava-se nas profundezas do asteróide ao ser informado sobre o segundo ataque dos maahks. Tentara falar com Koenig pelo videofone. Não conseguira encontrá-lo em parte alguma. Certamente encontrava-se em uma das posições de artilharia, coordenando o fogo da frota. Pelo menos uma hora depois disso a exposição de Bell foi transmitida para a sala dos reatores. De repente Steve teve a impressão angustiante de ter falhado miseravelmente. O ser energético impedia a ativação do sistema de bloqueio do

transmissor, e coubera-lhe a obrigação de encontrar o monstro e pô-lo fora de ação, protegendo Califa contra uma nova investida dos maahks. Alguém confiara bastante nele para transmitir-lhe esta tarefa. Este alguém colocara à sua disposição três homens, cujos conhecimentos deviam ser suficientes para resolver qualquer problema, por mais difícil que fosse. Mas Steve falhara. Nem sequer conseguira chegar mais perto da solução do problema. Levantou a cabeça e viu o olhar tranqüilo de Lucas Della Fera. — Somos mesmo uns palermas — disse Lucas com a voz aguda. — Tivemos mais de quatro dias, e não conseguimos absolutamente nada. A culpa não é só sua, Steve. Todo mundo ajudou a estragar a situação. Lott Warner assentiu com a cabeça. Sid Lippman torcia as mãos e esforçava-se para olhar para outro lugar. Neste momento um dos monitores deu o alarme. *** Mais tarde Steve não saberia dizer como entrara no carro. Menos de dez segundos deviam ter passado desde que ouvira pela primeira vez o chiado do console de comando, quando o veículo passava em alta velocidade pela coluna grossa do poço do elevador antigravitacional, seguindo em direção ao monitor 138. Sid Lippman passara correndo pelo console e vira que o monitor que tinha entrado em ação realmente era o de número 138. Os freios do carro rangeram quando este parou junto à base cintilante do campo energético que cercava a torre do reator. Ali de perto ouvia-se perfeitamente o chiado desagradável do monitor. Steve soltou um grito de triunfo quando viu a névoa que se agitava no interior da bolha energética, turbilhonando nervosamente, dando a impressão de que procuravam desesperadamente uma saída. Imóvel, Steve contemplou o estranho espetáculo. Mas logo lembrou-se da tarefa que devia cumprir. O monstro estava preso, mas as paredes da prisão eram muito fracas. A potência do projetor transportável não era muito elevada. No seu desespero, o ser energético talvez conseguisse reunir forças para romper o envoltório energético. Teria de ser levado para cima. Nos laboratórios havia projetores capazes de aprisionar até mesmo a energia contida num sol. Steve saltou de cima do carro. Dirigiu-se a Lott, sem tirar os olhos do envoltório energético. — Reduzir o diâmetro! Continuar com a potência máxima. Lott confirmou o recebimento da ordem. Steve tirou a arma energética que trazia presa ao cinto e destravou-a para estar preparado para qualquer hipótese. Lucas chegou perto dele. Fungava de tão nervoso que estava. Steve ouviu-o falar em voz baixa para dentro do microfone do intercomunicador. Informou os membros da guarda de que o golpe fora bem-sucedido. Com os comandos do projetor que Lott passou a manipular, o diâmetro do campo energético foi diminuindo rapidamente. A gigantesca esfera, que no início cercava totalmente o reator, foi encolhendo em silêncio. A medida que diminuía, a névoa que se agitava em seu interior tornava-se cada vez mais densa. Quando o diâmetro da esfera ficou reduzido a cinco metros, ela assumiu o aspecto de uma porção de água barrenta, encobrindo totalmente o gerador de plasma que ficava do outro lado do campo energético.

— Basta reduzir o diâmetro a três metros, Lott — disse Steve. — Assim poderemos colocar a coisa sobre o carro. Lott disse alguma coisa em voz rouca. Steve virou-se abruptamente. A figura magra de Lott estava fortemente inclinada sobre o projetor. Lott mexia nos comandos com movimentos rápidos e nervosos e soltava pragas. — Que houve? — perguntou Steve. — Não dá para girar mais a chave — fungou Lott. Steve saltou para a plataforma de carga. Lançou um ligeiro olhar preocupado para o campo energético envolvente, mas a esfera brilhante parecia ser tão estável como antes. Em seu interior a neblina, que se tornara completamente opaca, executava uma dança maluca. — Deixe-me tentar — disse Steve, empurrando Lott. Steve segurou a chave entre os dedos indicador e polegar e tentou girá-la. Era a chave que regulava o ângulo de abertura do projetor e, portanto, o diâmetro do campo esférico. Steve sentiu que conseguiu dar um décimo de volta quase sem encontrar resistência, mas depois disso a chave oferecia uma resistência cada vez maior à pressão dos dedos, dando a impressão de que estava enrolando uma fita de borracha, que tentava puxá-la de volta para a posição anterior. Steve já conhecia o fenômeno. A chave possuía peças metálicas de todos os tipos. Certamente houvera uma ligação errada no interior do projetor. Qualquer movimento da chave gerava turbilhões energéticos, que agiam em sentido contrário ao do giro do botão. Endireitou o corpo. O campo esférico continuava como antes, mas Steve teve a impressão de que representava um perigo. Se o projetor falhasse, o campo desmoronaria, libertando o monstro. — Não é possível reduzir o tamanho mais que isso — disse com a voz rouca. — Temos de tentar assim mesmo. Vou ver se dou um jeito de colocar a esfera sobre a plataforma. Girou cuidadosamente o botão que regulava o alcance do projetor. Ficou aliviado ao notar que o campo esférico se movimentava. Parecia não encontrar nenhuma resistência ao passar sobre as saliências no chão e aproximar-se do carro. Steve girou a saída do projetor para cima. O campo acompanhou o movimento, subindo dois metros do chão. Nesta altura passou por cima do gradil que cercava a plataforma. Steve recuou um pouco e passou a manipular a chave com o braço estendido. O contato com o envoltório energético talvez não causasse a morte, mas poderia produzir queimaduras ou choques elétricos. Por algum tempo Steve ficou tão ocupado manipulando o projetor que não pôde ficar de olho no campo energético. Fez um esforço para dirigir a esfera de tal maneira que passasse rente à plataforma de carga, sem entrar em contato com ela. Só assim o transporte poderia ser feito em segurança. Pensou que já tinha conseguido, quando de repente ouviu um zumbido. Virou-se abruptamente e viu a chave que pouco antes tentara virar girar loucamente em torno do próprio eixo. Instintivamente deu um salto para o lado e rolou para o chão. Viu pelo canto dos olhos o campo esférico aumentar numa questão de segundos, transformando-se numa figura enorme. Caiu e por alguns segundos teve de lutar para não ficar atordoado. De repente ouviu Sid dar um grito de pavor. Isto o ajudou a ficar de pé. De arma energética em punho, viu o envoltório cintilante bem à sua frente. Crescera tanto que até parecia tocar o teto do pavilhão. Steve recuou. Gritou para que os outros se colocassem em segurança, mas não via sinal de Lott ou Sid. Não sabia se estes o ouviam.

O campo energético parecia interessado em pegá-lo. A névoa que havia em seu interior ficara tão rarefeita que quase não se via mais. Antes que compreendesse muito bem o que estava acontecendo, Steve deu-se conta de que o diâmetro do campo energético era dez vezes maior do que poderia ter sido com a regulagem do projetor. E o tamanho continuava a aumentar. As faixas ondulantes das descargas elétricas corriam junto ao teto, quando o campo energético entrou em contato com a rocha maciça. Mas nem por isso a esfera parou de crescer. Em vez de aumentar para cima, dilatava-se para os lados, transformando-se numa figura elíptica. O envoltório energético aproximava-se de Steve muito mais depressa do que ele poderia recuar para fugir ao perigo. Girou resolutamente sobre os calcanhares e saiu correndo o mais depressa que podia. Depois de ter corrido alguns metros, olhou para trás e viu que a distância continuava a diminuir. Passou por baixo de um dos canais de plasma que ligava um gerador com um reator. Mas o envoltório superou este obstáculo. Por alguns segundos o canal foi cercado pelo fogo de artifício colorido das descargas elétricas, mas logo a parede cintilante chegou mais perto de Steve do que antes. Steve fez um esforço tremendo, precipitando-se para a frente, com uma dor lancinante nos pulmões maltratados. Sentiu os músculos se contraírem. Não agüentaria correr mais muito tempo. Viu anéis coloridos dançando diante de seus olhos e ouvia o sangue zumbir em seus ouvidos que nem uma gigantesca queda de água. Caiu de bruços. As pernas recusaram-se a obedecer. Bateu com o rosto e por um instante sentiu o sabor salgado do sangue na língua. Girou para ficar de costas o mais rápido que pôde. A parede cintilante do campo energético estendia-se bem em cima dele. Fez um esforço tremendo para levantar o braço e dar um tiro com a pistola energética, que por milagre ainda segurava na mão. O campo envolvente refletiu a energia contida no raio fortemente enfeixado. Uma lufada sufocante de ar superaquecido bateu no rosto de Steve. Instintivamente este fechou os olhos. Sentiu uma coisa macia e suave que o envolvia. Por um instante sentiu um estranho bem-estar. Era como se mergulhasse numa banheira cheia de água morna. Logo perdeu os sentidos. *** Quando acordou, sentiu-se forte e recuperado como se tivesse dormido profundamente durante dez horas. Não teve a menor dificuldade de lembrar-se do que tinha acontecido. Sabia que fora alcançado pelo campo esférico e que ficara inconsciente por causa do contato com o campo energético. Mas foi bem mais difícil combinar suas recordações com o ambiente em que repentinamente se encontrava. Não conhecia a sala em que estava. Nem era capaz de afirmar à primeira vista se realmente se tratava de uma sala no sentido literal da palavra. Não se via paredes, nem o chão, nem o teto. Uma luz leitosa vermelha enchia o ambiente. A intensidade da gravitação era aquela a que estava acostumado, e o senso de equilíbrio lhe dizia que se encontrava em posição horizontal. Foi incapaz de descobrir qual era a base que o mantinha nesta posição. Estendeu os braços e apalpou os arredores, mas suas mãos não encontraram resistência onde quer que as pusesse. Quando fazia movimentos rápidos com as mãos, sentia o ar passar entre os dedos. O ar e seu corpo pareciam ser as únicas porções de matéria existentes no grande abismo vermelho.

Atordoado, procurou erguer-se. Não houve nenhuma dificuldade. Ficou de pé, mas não sentiu a pressão que costumava experimentar quando pisava em chão firme. Deu alguns passos. Notou que naquele ambiente sem contornos fixos não conseguia controlar seus movimentos. Quando dava um passo, ficava sem saber se realmente estava saindo do lugar. Revirou seus bolsos e descobriu uma ferramenta versátil, em forma de canivete. Segurou-a na mão, estendeu o braço e abriu os dedos. A ferramenta continuou no mesmo lugar em que ele a soltara, embora aparentemente não houvesse nada que a segurasse. Steve fez mais uma tentativa de andar. Quando tinha dado cinco passos, mal conseguia distinguir a ferramenta em meio à penumbra leitosa. Voltou e pegou-a. Ninguém sabia se a ferramenta não poderia ser-lhe útil. Começou a acostumar-se à idéia de que o incidente ocorrido na sala de reatores o arremessara para um ambiente completamente desconhecido. Não tinha certeza se ainda estava em Califa. Deu uma olhada no relógio de pulso e verificou que desde o momento em que o monitor 138 deu o sinal só tinham passado vinte minutos. Era um tempo muito curto para que pudesse encontrar-se muito longe de Califa, mas tinha certeza de que o recinto em cujo interior se encontrava não ficava no asteróide. O que teria acontecido com seus companheiros? Será que também estavam ali? Steve resolveu ficar parado, porque os passos que dava não o levavam a lugar algum, e começou a chamar os nomes dos três companheiros. No início chamou a meia-voz, e sentiu que as ondas sonoras eram absorvidas pelo meio condutor sombrio e viscoso. Teve a impressão de encontrar-se num cubículo à prova do som. Chamou mais alto, mas tudo continuou na mesma. O som perdia-se no ar compacto. Steve teve certeza de que a dez metros de distância sua voz não podia ser ouvida. De repente o eco atingiu seus ouvidos. Foi um som abafado, medonho, que fez com que sentisse um calafrio na espinha. Ouviu os nomes dos companheiros, na mesma ordem em que ele os chamara. Só podia tratar-se do eco de sua voz, embora não tivesse reconhecido o tom da mesma. Pôs-se a escutar. Depois de algum tempo um segundo eco, mais fraco, parecia vir de outra direção. Seguiu-se um terceiro, um quarto, numa seqüência cada vez mais rápida, como se se encontrasse no foco de um espelho parabólico acústico, que fizesse retornar todos os ruídos ao ponto de origem. Aos poucos o barulho foi diminuindo. Os ecos múltiplos começaram a apagar-se. Steve sentiu-se mais calmo e confiante, quando finalmente os ruídos cessaram de vez, fazendo retornar o silêncio que antes enchia o ambiente. O eco tinha algo de fantasmagórico. Não tinha certeza se voltaria a tentar chamar seus companheiros. O eco o deixava assustado. De qualquer maneira não tinha dúvida de que qualquer pessoa que se encontrasse na sala mergulhada numa penumbra vermelha teria ouvido seus chamados. Se Lucas, Sid ou Lott também tivessem sido levados para lá, os ecos não teriam escapado à sua atenção. Era provável que dentro de alguns minutos ouviria uma resposta. Um som primitivo e estertorante saiu do nada leitoso e literalmente investiu contra Steve. Virou-se apavorado. Pôs a mão na arma energética, que estranhamente voltara ao cinto. Estreitou os olhos, pois teve a impressão de que assim enxergaria melhor, e descobriu uma mancha escura na neblina, bem à sua frente. A mancha aumentava rapidamente, dando a impressão de que se aproximava em alta velocidade. O grito estertorante voltou a fazer-se ouvir. Desta vez era bem mais forte. Steve teve a impressão de ter reconhecido a voz de Sid Lippman. O eco distorcia os sons, mas

Sid tinha uma forma bem peculiar de gritar. Steve saiu andando na direção em que estava a mancha escura. Chegou mais perto e identificou os contornos de uma figura humana. Dava saltos grotescos, agitando os braços e jogando as pernas bem para a frente. O grito fez-se ouvir pela terceira vez, mas desta vez Steve já estava bem perto e em vez do eco ouviu o som da voz. Não havia dúvida de que era Sid Lippman. Steve saiu correndo. Era estranho que conseguisse deslocar-se em linha reta, embora não houvesse chão firme sob os pés. Agarrou Sid pelos ombros quando este se dispunha a dar mais um salto. — Cale a boca! — gritou. — Sou eu, Steve. Ouviu? Estou perto de você. Sid contorcia-se sob suas mãos. — Solte-me! — gritou. Steve tinha certeza de que Sid não o reconhecera. Seu rosto estava coberto de suor. Tremia e esperneava como se estivesse sentindo dores horríveis. Estava com os olhos arregalados de medo, mas as pupilas pareciam fitar o vazio. Steve não teve alternativa. Tomou impulso com o braço e golpeou o rosto de Sid com a mão espalmada. Sid soltou um grito. — Largue-me! Não quero... não quero dizer nada. Você não... não é você que pode interrogar-me... De repente o corpo de Sid amoleceu. Não ofereceu mais nenhuma resistência e Steve passou a segurá-lo com menos força. Sid tombou para a frente e ficou jogado, imóvel, dando a impressão de que havia um chão invisível em que seu corpo se apoiava. Ficara inconsciente. Steve viu que sua respiração era tão forte que o tórax subia e descia rapidamente. As palavras que acabara de ouvir de Sid deram-lhe o que pensar. Enquanto o eco dos gritos furiosos rugia sobre sua cabeça, Steve tentou compreender o que ele dissera: “— Não é você que pode interrogar-me”. Será que os nervos de Sid se tinham descontrolado? Estava tendo alucinações? Ou havia alguém que queria interrogá-lo? Foi antes uma impressão que uma percepção que levou Steve a virar a cabeça. Dois vultos estavam saindo da névoa vermelha. Caminhavam lado a lado, conforme pareciam ter feito toda a vida, e o estranho ambiente não parecia interferir em sua calma estóica. Lucas Della Fera e Lott Warner não se lembravam de jamais terem experimentado um alívio tão forte como naquele momento. — Ouvimos os gritos — grasnou a voz aguda de Lucas. — Orientamo-nos por eles. Lott ajoelhou-se sem dizer uma palavra e pôs-se a examinar Sid. Depois de algum tempo sacudiu a cabeça e levantou-se. — O que houve com ele? — perguntou, espantado. — Bem que eu gostaria de saber — suspirou Steve. — Teve a impressão... Interrompeu-se no meio da frase, pois teve a impressão de ter ouvido um ruído. Parecia alguém chamando seu nome bem de longe. Aí estava de novo! — Alguém ouviu? — perguntou, apressado. — Ouviu o quê? Steve fez um sinal. Pela terceira vez ouviu seu nome ser chamado por uma voz distante e suave, que ninguém mais escutava. De repente deu-se conta de uma porção de coisas. Por exemplo, do motivo por que Sid gritava tão desesperadamente. Certamente também ouvira a voz. Provavelmente esta lhe fizera algumas perguntas. Sid percebera que não se tratava mesmo de uma voz, mas de um pensamento formado em seu cérebro, e de tão assustado que ficou perdeu o autocontrole. — Steve...!

O impulso estranho foi penetrando lenta e cautelosamente em seu consciente. Até parecia que a reação de Sid deixara prevenido o desconhecido, que resolvera agir com mais cuidado. Steve não teve medo. Somente experimentou um ligeiro sobressalto provocado pela impressão de ser o primeiro que entrava em contato mental com um ser terrivelmente estranho. Resolveu ter cuidado. Não sabia quem era este desconhecido e quais eram suas intenções. Provavelmente se tratava do ser energético que andaram caçando. Era perfeitamente possível que suas intenções fossem hostis. — Não! — disse a inteligência estranha claramente. Steve assustou-se. O ser desconhecido possuía faculdades tremendas. Era capaz de ler todos os seus pensamentos. — Isto mesmo — ouviu Steve. — Sou capaz de ler seus pensamentos. Fechou os olhos para concentrar-se melhor. A última coisa que viu foram os rostos de Lucas e Lott, que o espanto indizível transformara em máscaras. — Não tenha medo — prosseguiu o ser estranho. Parecia ter chegado mais perto, ou tinha outro meio de tornar mais audíveis seus impulsos mentais. — Ultimamente parece ter havido uma série de mal-entendidos. Mas isto já passou. Seus pensamentos me revelaram a realidade. Steve estava nervoso. Trazia centenas de perguntas na ponta da língua, mas estava tão confuso que não sabia qual delas deveria formular em primeiro lugar. Finalmente escolheu aquela que acabara de aflorar em sua consciência. — Onde estou? — Não compreendo — respondeu o desconhecido. — Suas palavras representam uma indagação e uma afirmação ao mesmo tempo. Steve estava cada vez mais confuso. A pergunta que acabara de fazer era clara e bem compreensível. Será que não soubera articular devidamente seus pensamentos? — Já começo a compreender — fez-se ouvir a voz. — Você perguntou: Onde estou? Talvez quisesse dizer: Estou aqui. Onde é aqui? Steve sacudiu a cabeça. Era um gesto de embaraço, pois mesmo que o desconhecido o visse, não saberia o que significava este gesto humano. — Não. A pergunta é: Onde estou neste momento? Esta formulação não parecia representar nenhuma dificuldade para o desconhecido. — É a mesma coisa — reconheceu. — Você se encontra no recinto em que costumo ficar escondido quando estou em perigo. Talvez fosse uma resposta lógica para quem a estava dando, mas Steve não compreendeu seu significado. — Onde fica isso? — perguntou, apressando-se em acrescentar: — Quero dizer, onde fica em relação aos outros recintos? Da última vez que estou lembrado estávamos no interior de um asteróide chamado de Califa. A que distância estamos do asteróide? Formulou os pensamentos, pronunciando as respectivas palavras em sua imaginação. Não sabia se era este o melhor meio de comunicar-se com um telepata. De qualquer maneira, era a melhor maneira de articular os pensamentos de que era capaz. — Você ainda se encontra no astro ao qual deu o nome de... (o nome não passou de um impulso vago e confuso). Meu esconderijo fica embaixo do recinto que vocês chamam de sala dos reatores, nas imediações do centro de gravidade do astro. Era uma resposta clara e facilmente compreensível. Tinha certa semelhança com a reação de um computador positrônico. Realmente parecia que a lógica do desconhecido seguia suas próprias regras.

— Quem representa um perigo para você? — perguntou Steve. — Negativo — respondeu o ser. — Minha memória não chega até lá. Mas sei que alguém já tentou destruir-me. Quando você e seus semelhantes chegaram, pensei que fossem os mesmos que me atacaram no passado. Era o que indicava seu comportamento. Mas já vejo que estava enganado. Suas intenções não são estas. De repente Steve teve uma estranha idéia. Antes que o desconhecido tivesse tempo de decifrar seus pensamentos confusos, perguntou em tom apressado: — Quem é você? O desconhecido não titubeou. Sua resposta foi bem clara, e os pensamentos estranhos ressoaram no cérebro de Steve que nem o ribombar de um sino: — Sou aquele que vocês chamam de mecanismo de regulagem!

6
Cinco horas depois da batalha ligeira na qual foram destruídas cento e onze naves maahks, o campo do transmissor situado entre os dois sóis gigantes voltou a iluminar-se. As sereias de alarme soaram. As descargas gigantescas do transmissor, projetadas nas telas de imagem que mostravam os arredores do asteróide, pareciam antes as línguas de fogo do apocalipse. As naves inimigas foram saindo uma após a outra do campo do transmissor e precipitaram-se sobre o planetóide. Reginald Bell mudara de tática. A maior parte da frota de vigilância continuava nos esconderijos, no interior do anel de asteróides, à espera do momento mais apropriado para o ataque. Mas uma frota de oitocentas unidades pesadas, que se achava estacionada oblíqua mente acima da rota dos maahks, avançou assim que surgiram as primeiras naves inimigas. O transmissor funcionava com uma rapidez surpreendente, expelindo dez ou mais naves inimigas por segundo. Foram atacadas pelas oitocentas naves antes que tivessem tempo para orientar-se. Foi o lance decisivo. A batalha de Califa teria sido perdida para os terranos, se o grupo de oitocentas naves não tivesse destruído inúmeras unidades antes que o inimigo pudesse entrar em formação de combate. A confusão estabeleceu-se entre os maahks. Sua ordem de batalha desmanchou-se. Não havia dúvida de que os comandantes das diversas naves tinham recebido instruções para assumir determinada posição assim que saíssem do transmissor, e esperar que toda a frota se reunisse. Mas não lhes deram tempo para isso. Cada veículo teve de confrontar-se com um inimigo que atirava desesperadamente, mal tinha saído do campo do transmissor. Quando o transmissor encerrou sua atividade, quatrocentas naves maahks vagavam pelo anel de asteróides, transformadas em destroços ou nuvens de gases fumegantes. Outras cem unidades, levadas pelo choque do ataque de surpresa, voaram de volta para o campo de condensação situado entre os dois sóis, para serem transportadas ao sistema de Gêmeos pelo transmissor que tivera a polarização invertida. O restante da frota, que ainda era um grupo imponente de seis mil naves, da classe mais pesada que um terrano já tinha visto, avançou para Califa. Cada veículo estava cercado por um campo defensivo verde, cuja estrutura os cientistas terranos só tinham determinado há pouco tempo. As cinco mil naves da frota primitiva de Califa estavam equipadas com armamentos capazes de romper os campos defensivos dos maahks. As demais naves da frota, que Reginald Bell só convocara há dois dias, ainda não tinham sido equipadas com estes armamentos. Cinco das dez mil unidades terranas estavam em situação de evidente inferioridade diante dos maahks, além das pequenas unidades de Beukla, que sem sua incrível mobilidade não teriam a menor chance de vez por outra desferir um golpe de surpresa. Surgiu outro problema. Por enquanto os terranos estavam perfeitamente em condições de medir-se com o inimigo — ou até gozavam de uma boa superioridade sobre o mesmo, graças ao moral, resultante da certeza de que o destino da Terra estava em jogo. Mas para aproveitar essa superioridade precisariam de espaço para operar. A distância entre a saída do transmissor dos dois sóis e o asteróide Califa não era superior a cinqüenta milhões de quilômetros. As naves inimigas eram expelidas pelo transmissor a uma velocidade que por vezes chegava a vinte mil quilômetros por segundo. O poder de

combate da frota de guerra teria de ser muito superior, para deter um inimigo praticamente igual em forças a uma distância tão reduzida e até obrigá-lo a bater em retirada. A frota de vigilância fez tudo que estava ao seu alcance. Sem preocupar-se com a própria sorte, as unidades terranas precipitaram-se sobre a frota inimiga, isoladamente ou em grupos. Cada avanço transformava dezenas de naves inimigas em bolas de fogo reluzentes. Centenas de naves maahks sofreram avarias tão graves que se viram obrigadas a separar-se dos grupos a que pertenciam, transformando-se em vítimas fáceis das naves que ainda não tinham seu equipamento mudado. Mas apesar do heroísmo das tripulações terranas não foi possível deter os maahks antes que fosse tarde. Avançavam obstinadamente em direção a Califa, sem dar atenção às tremendas perdas que sofriam. Seu número ficara reduzido a menos de metade quando as naves estavam a menos de um quilômetro de Califa e pela primeira vez ficaram expostas ao fogo dos fortes instalados na superfície do asteróide. Por um instante teve-se a impressão de que o fogo fulminante despejado pelos fortes de Califa, que destruía duas unidades por segundo, finalmente seria capaz de quebrar a obstinação dos maahks. O avanço interrompeu-se por dois minutos, nos quais perderam cerca de trezentas unidades. Mas logo se espalharam para os lados, dividiram-se em grupos menores e passaram a avançar de várias direções para o asteróide que servia de base aos terranos. Foi quando Bell reconheceu que a batalha estava perdida. A frota de vigilância e os fortes juntos talvez fossem capazes de destruir mais mil, ou até mil e quinhentas unidades inimigas, antes que se encontrassem bem em cima de Califa. Restariam pelo menos quinhentas naves inimigas, que abririam fogo cruzado sobre o planetóide. Furioso, Reginald Bell mordeu os lábios e tentou conformar-se com a idéia de que não lhe restava mais muito tempo de vida. *** Steve flutuava numa nuvem de irrealidade. Esquecera as coisas que o cercavam. Continuou com os olhos fechados, para não distrair a atenção. Mantinha contato telepático com uma máquina — ou, o que era pior, com o espírito de uma máquina. Fez um esforço para não pensar nisso. A idéia o deixava confuso. Apesar de tudo, teve suas dúvidas do que estava ouvindo. Uma vez superado o choque causado pela surpresa sem limites, começou a fazer perguntas. Queria saber de que forma o sistema de regulagem tinha criado sua própria inteligência. A máquina não soube informar nada sobre isto. Não tinha conhecimento sobre o começo de seu ser, da mesma forma que os primeiros anos de vida são desconhecidos ao ser humano. — No início fiquei desorientado — ouviu Steve quando o ser desconhecido começou a relatar o que havia acontecido numa época que mal e mal era alcançada por sua memória. — Estava preso no interior de um objeto metálico. Era capaz de pensar, tomar decisões e cumprir estas decisões através de mecanismos de controle pertencentes ao objeto metálico. Mas estava preso. “Comecei a aprender. Recolhi informações, fazendo experiências. Descobri certas informações que sempre possuía, sem conhecer seu significado. E comecei a usar as energias tremendas que atravessavam minha prisão metálica para criar um corpo. Até então não passava de um pensamento, e o pensamento sempre continua no lugar em que é gerado. Se possuísse um corpo, seria capaz de abandonar minha jaula metálica.

“Levei muito tempo, mas finalmente consegui. Pude movimentar-me. Pela primeira vez pude explorar o mundo no qual me encontrava. Meu corpo não era formado por metal ou qualquer das substâncias que se encontravam em volta de mim. Sua estrutura era exatamente igual à da estrutura que fluía através de minha pressão. “Receei que o ataque que por pouco não me destruíra fosse repetido. Realizei pesquisas para detectar a presença de outros seres pensantes, mas por mais que procurasse, não encontrei nenhum. “Finalmente vocês chegaram. Tive certeza de que tinham vindo para concluir a obra que fora começada. É bem verdade que não compreendi o que estavam fazendo. No início não fizeram nada que pudesse representar um perigo para mim. “Meu medo foi passando. Comecei a admitir a possibilidade de que pudessem existir três espécies de seres — eu, o inimigo e vocês. Tentei entrar em contato com vocês. Eram diferentes de mim. Se quisesse comunicar-me com vocês, teria de assumir seu aspecto. A forma de minha substância física pode ser facilmente modificada. Imitei o corpo de vocês. Dirigi-me a um lugar em que muitos de vocês ficam deitados em certos períodos em recintos pequenos.” O desconhecido sentiu a surpresa que atravessou a mente de Steve e hesitou. — Foi de mim que você tentou aproximar-se — afirmou. — Pensei que fosse um monstro. A imitação não foi muito bem-feita. — Foi o que notei. Não consegui estabelecer contato. Tentei atingi-lo com meus pensamentos, mas você estava tão nervoso que não consegui penetrar em sua mente. “Finalmente vocês começaram a trabalhar com a figura metálica que já tinha sido minha prisão. O metal não significava nada para mim, mas vocês passaram a mexer nos mecanismos que antigamente dirigiam meus pensamentos e aos quais retornava para descansar por algum tempo. Não podia permitir que danificassem estes mecanismos. Expulsei-os. Sabia que voltariam para prosseguir no trabalho. Estavam interessados em determinado aparelho. Apliquei nele um tratamento que faria com que, caso voltassem a mexer nele, toda a figura metálica seria destruída. “Depois vocês passaram a caçar-me. Senti o círculo fechar-se cada vez mais em tomo de mim. Vocês quiseram colocar-me fora de ação, mas subestimaram minhas forças. Não me poderiam fazer nada, pois sou mais forte que vocês.” Os pensamentos estranhos silenciaram. Steve demorou algum tempo para responder. — Você é forte e pode destruir-nos. Mas há muita coisa que nós sabemos e você não sabe. Mexemos na figura metálica para evitar a chegada daqueles que querem matálo. A pergunta cheia de surpresa penetrou violentamente em seu consciente: — Como pretendem fazer isso? — Sabe para onde correm as energias encerradas em sua jaula metálica? — Já as segui e fui parar num mundo desconhecido. Tive medo e voltei. — Pelo mesmo caminho que você voltou seus inimigos podem chegar aqui. Sua substância é diferente, mas o meio de transporte é o mesmo. É impossível impedir sua chegada, a não ser que a gente ponha em atividade o aparelho de que você acaba de falar. Sabe como funciona? — Sei tudo — respondeu o ser. — O aparelho exerce sua influência sobre o fluxo de energia com as quais em outros tempos criei meu corpo. — Isso mesmo! — apressou-se Steve em dizer. — O fluxo de energia, por sua vez, exerce sua influência sobre o processo de transporte que o levou a um mundo

desconhecido e o trouxe de volta. Seus inimigos, que também são nossos inimigos, podem chegar aqui pelo mesmo caminho usado por você. Tentamos proteger-nos contra eles, regulando o fluxo de energia de tal forma que o transporte é impedido. Estava muito exaltado. Os pensamentos vieram tão depressa que não conseguiu articulá-los. Não tinha certeza de que o ser desconhecido o tinha compreendido. Dera a entender que acreditava em suas palavras. Era bastante inteligente para saber que os pensamentos não mentem. Será que continuaria a confiar nele? Estaria disposto a acreditar que seus inimigos também eram inimigos dos terranos? Chegara mesmo a compreender o que ele tentara explicar? Steve sentiu-se dominado por um nervosismo dilacerante. Onde estava a resposta? *** Um lance imaginado durante a batalha pelo comandante da terceira frota de vigilância trouxe a virada decisiva na luta. Com o consentimento de Reginald Bell, a terceira frota reuniu todas as naves sem equipamento e o grupo de naves de Beukla e realizou um avanço fulminante, que lhe custou mais de trezentas naves, sobre um dos grupos em que se dividira a frota dos maahks. Isso aconteceu num setor espacial que estava fora do alcance dos cinco grupos restantes de naves maahks. A terceira frota prosseguiu em direção a Califa, conforme tentara fazer o grupo de naves inimigas que acabavam de ser destruídas. Quando o círculo se fechou em torno do asteróide, a frota terrana apareceu nas telas das naves maahks que restavam. Mas os comandantes destas não tinham motivo para acreditar que se tratasse de unidades inimigas. A distância era tão grande que os ecos projetados nas telas não permitiam que se reconhecesse o formato das espaçonaves. O grande momento da terceira frota chegou quando os maahks deram início ao ataque concentrado a Califa. Que nem lobos que acabavam de tirar as peles de cordeiro, as quatrocentas unidades penetraram entre os grupos compactos do inimigo, que seguiam em direção ao asteróide, seguros da vitória. Enquanto o resto da frota de vigilância mantinha o inimigo plenamente ocupado na periferia do anel formado em torno de Califa, a terceira frota começou a fazer a limpeza de dentro para fora. O choque da surpresa causada pelo fato de ver o inimigo surgir bem no meio de suas fileiras acabou de vez com o moral dos maahks. Não se tinham esquecido das perdas tremendas que já haviam sofrido. Quando a terceira frota passou a desenvolver sua ação fulminante em suas próprias fileiras, perderam a esperança de vez. Ainda se defenderam. Se ainda possuíssem as naves destruídas nos primeiros doze minutos pelo destacamento avançado dos terranos, a terceira frota provavelmente teria sido dizimada. Mas na situação em que se encontravam os maahks preferiram fugir. Precipitaramse numa confusão completa sobre o transmissor, e mal foram capazes de oferecer qualquer resistência às unidades da frota de vigilância que se precipitavam sobre elas que nem gaviões. Perderam mais quinhentas unidades, antes que o transmissor os acolhesse e os transportasse para Gêmeos, de onde jamais poderiam escapar. *** Fazia dez horas que Reginald Bell não saía do lugar que ocupava atrás do console de comando. Quando a última nave maahk entrou no transmissor e desapareceu, sentiu de repente o cansaço que pesava sobre seu corpo.

Tomou um medicamento para espantar o cansaço. Dentro de duas horas no máximo apareceria o próximo grupo de naves maahks. O último grupo, retificou em pensamento, pois a frota de vigilância fortemente dizimada não seria capaz de repelir mais um ataque. A batalha em tomo de Califa já custara mil e duzentas unidades a Reginald Bell. Um terço delas era formado por naves especialmente equipadas, cujos canhões eram capazes de romper os campos defensivos verdes dos maahks. As perdas de Beukla certamente tinham sido bem maiores. Os mutantes tinham entrado na luta que nem um bando de vespas enfurecidas e foram dizimados às centenas. A frota de vigilância reagrupou-se e voltou aos antigos esconderijos. O sistema Chumbo de Caça continuava de prontidão. Os minutos de pausa que lhes restavam antes do grande ataque foram tiquetaqueando preguiçosamente. Reginald Bell pôde dar-se ao luxo de tomar algumas xícaras de café e um lanche preparado às pressas. Não saiu do lugar. Um ordenança lhe trouxe tudo numa bandeja. Ainda não ingerira o primeiro bocado, quando alguém quis falar com ele no intercomunicador. O rosto do Tenente-Coronel Koenig apareceu na tela. Parecia confuso e preocupado. — Senhor, há alguns minutos as áreas adjacentes à sala de regulagem foram bloqueadas por um campo energético — principiou, indo diretamente ao assunto. — Os homens pertencentes ao batalhão de guardas perceberam de repente que uma força desconhecida os empurrava. A força só deixou de atuar quando cada um dos homens se encontrava a pelo menos cem metros do aparelho de regulagem. Os homens tentaram avançar de novo, mas esbarraram no campo energético, que é completamente impenetrável e não é afetado pelas armas. Se a notícia surpreendeu Reginald Bell, ele não o mostrou. Enfiou calmamente um pedaço de sanduíche na boca e pôs-se a mastigar. Olhava ininterruptamente para Koenig, que começou a ficar nervoso. Bell tomou um gole de café e pigarreou. — Isso já não importa, Koenig — disse, calmo. — Os maahks voltarão dentro de uma hora e meia, com quinze a vinte mil unidades, pelos meus cálculos, e o fato de o sistema de regulagem ser ou não cercado por uma barreira energética não pode exercer nenhuma influência sobre o resultado da batalha. Koenig não estava preparado para esta reação. Deixou cair o queixo. — Mas... — Já sei — disse Bell com um gesto calmo. — Seria interessante saber como o campo energético foi aparecer nesse lugar. Provavelmente foi criado pelo ser energético que não conhecemos. Gostaríamos de saber quais são suas intenções. Mas não temos tempo para isso, Koenig. Procure compreender. Koenig parecia deprimido. — Compreendo, sim senhor. A tela escureceu. Reginald Bell voltou a cuidar do seu lanche. Comeu com o apetite de um homem que aprendera numa experiência de mais de quatrocentos e cinqüenta anos que a calma nos ajuda mais que o nervosismo a suportar um destino que não podemos evitar. *** — Terminou — ouviu Steve Kantor. — A obra foi concluída. As últimas horas pareciam um sonho. O ser estranho prometera seu auxílio. Levou Steve e seus companheiros diretamente à sala de regulagem, atravessando canais que passavam pela matéria sólida e se fechavam assim que tinham passado. Sid Lippman

recuperara os sentidos. Depois de um ataque de histeria, mergulhara num estado de letargia total. O ser desconhecido, que flutuava sobre o sistema de regulagem que nem um véu delgado, obrigara as tropas de vigilância a afastar-se das áreas adjacentes da sala de regulagem. Depois pusera-se a trabalhar. As peças deformadas, semiderretidas da periferia do aparelho voltaram a assumir sua forma primitiva. Enquanto a névoa fina que o estranho ser passara a formar penetrava lentamente no interior do gigantesco aparelho, várias peças se desprenderam inexplicavelmente e desceram ao chão. Uma força invisível manipulava estas peças, desmontava-as, voltava a montá-las e as ligava entre si. Finalmente elas voltaram para o interior do sistema de regulagem. Sid Lippman estava agachado perto da porta, sem tomar conhecimento do que estava acontecendo. Steve, Lott e Lucas estavam parados junto ao revestimento do conjunto de regulagem, acompanhando os acontecimentos com olhos que lacrimejavam de tanta incredulidade diante do que viam. Finalmente Steve captou um impulso mental que lhe dizia que a obra fora concluída. — Quer ir conosco? — perguntou Steve. — Não — respondeu o ser. — Vocês e eu... nós pertencemos a espécies diferentes. Voltarei ao meu esconderijo. — Não precisa esconder-se mais — insistiu Steve. — Somos amigos, se é que você entende o que significa isto. Houve um silêncio completo. Steve sentiu alguma coisa remexer levemente em seus pensamentos, como se o ser desconhecido quisesse descobrir o que estes significavam. — Você pode aprender alguma coisa conosco — prosseguiu Steve. — E nós podemos aprender com você. Você não sabe nada a respeito do mundo... Seus pensamentos foram interrompidos por um impulso estranho. — Irei com vocês. *** Faltavam dez minutos para que o prazo de duas horas, previsto por Reginald Bell, chegasse ao fim, quando a concentração de energia que se estendia entre os dois sóis emitiu uma luminosidade bruxuleante. Bell ficou estarrecido atrás de seu console. O momento decisivo chegara. Era uma sensação estranha poder calcular com a precisão de um minuto quanto tempo de vida restava à gente. Foi quando aconteceu o milagre. O espaço que se estendia à frente dos dois sóis continuou vazio. O transmissor chamejava sob o impacto constante de inúmeros impulsos de transporte, mas nem uma única nave inimiga penetrou no sistema Chumbo de Caça. Até mesmo Reginald Bell levou alguns segundos para acreditar no que seus olhos viam. O receptor do transmissor fora bloqueado! A passagem para Califa tinha sido fechada ao inimigo. Suas naves eram arremessadas de volta para o ponto de partida. Bell tentou imaginar como seriam quando chegassem lá. Talvez estivessem semidestroçadas, com os tripulantes mortos ou inconscientes por causa da descontrolada transição em sentido inverso. Aos poucos a idéia de que isso representava a vitória foi-se espalhando. Os maahks nunca mais se atreveriam a usar um transmissor bloqueado. A base estava salva. O Império saíra vitorioso da batalha de Califa! Reginald Bell sabia pensar com lógica. Apesar do entusiasmo que sentia, gostaria de saber quem bloqueara o transmissor.

Finalmente o bruxulear do campo de energia condensada parou. O rastreamento registrara um total de dezoito mil impulsos. Teria sido o fim de Califa, se o bloqueio não tivesse funcionado. Ainda não fazia cinco minutos que o transmissor se iluminara pela primeira vez, quando um ordenança se aproximou de Reginald Bell e em meio ao entusiasmo generalizado gritou que havia cinco homens que queriam falar com ele. Bell deu ordem para que fossem trazidos à sua presença. Reconheceu Steve Kantor, o chefe do grupo incumbido de procurar o ser energético. Os outros deviam ser membros do mesmo grupo. Mas Bell lembrava-se perfeitamente de que o grupo, incluindo Kantor, não era formado por mais de quatro homens. Examinou os homens um por um e constatou, surpreso, que um deles tinha uma semelhança extraordinária com Steve Kantor. — Quem é este? — perguntou sem rebuços, apontando para o sósia de Kantor. Steve Kantor sorriu. Em torno dele os oficiais da sala de comando dançavam de alegria. Teve de fazer um grande esforço para comunicar-se. Reginald Bell acreditou que o barulho o fizera ouvir errado. — Este é o sistema de regulagem!

Epílogo

Se havia alguém capaz de encontrar uma explicação para o incrível fenômeno, este alguém era Arno Kalup, o homem que tinha aperfeiçoado o sistema de propulsão linear. Reginald Bell pediu que o cientista comparecesse à sua presença. Arno Kalup já fora informado sobre as declarações prestadas pelo ser energético. — Na verdade — principiou — o desenvolvimento de um ser independente a partir de uma máquina não é uma coisa tão estranha como pode parecer à primeira vista. O sistema de regulagem é um conjunto muito complicado, feito especialmente para influenciar as energias tremendas do transmissor e direcioná-las, tudo isso sem qualquer controle humano. Quer dizer que o conjunto dispõe de um sistema de computação que não fica nada a dever, em capacidade de armazenamento e potencialidade lógica, aos nossos sistemas de computação positrônica. Mas além do sistema de processamento positrônico o conjunto de regulagem dispunha de um comando protetor, que lhe permitia identificar as situações de perigo e conduzir os fluxos energéticos pelos canais adequados. Foi uma medida necessária à proteção da preciosa aparelhagem. “Dali só se pode concluir que a inteligência do ser energético se formou a partir do mecanismo de proteção. A base do pensamento independente achava-se presente no mesmo. O mecanismo estava em condições de observar o ambiente que o cercava e formar um juízo lógico sobre se havia uma situação perigosa ou não. Quando os senhores da galáxia mandaram destruir o antigo planeta gigante, este dispositivo teve pela primeira vez a oportunidade de usar plenamente sua capacidade. Evitou que o sistema de regulagem fosse destruído. A lembrança destes acontecimentos ficou gravada em seu pensamento. Esforçou-se para descobrir meios de fazer com que, caso houvesse outro incidente deste tipo, a defesa fosse ainda mais eficiente. “O espírito do sistema de regulagem nasceu da necessidade de auto-proteção. No curso dos séculos durante os quais não tinha nada a fazer, porque o transmissor não estava sendo utilizado, o mecanismo de proteção apoderou-se de todo o conjunto de processamento do sistema de regulagem, e foi aprendendo aos poucos a conceber pensamentos diferentes daqueles ligados à proteção contra as desgraças. Atravessou o fosso que separa o pensamento puramente finalista da verdadeira inteligência. “Havia conhecimentos sobre a estrutura da energia que usava guardados em sua memória. A passagem do estado de inteligência imaterial para a condição de um ser corporal, capaz de deslocar-se livremente, deve ter sido bem mais fácil que a formação de uma capacidade intelectual autônoma — embora seja justamente este passo que nos deixa mais espantados. “Dali em diante o ser energético ampliou cada vez mais seus conhecimentos. Pelos meus cálculos, o volume de recordações de que dispõe hoje consiste em somente vinte ou trinta por cento das informações originariamente introduzidas em sua programação. O resto foi adquirido por experiência própria. Pelo que diz Mr. Kantor, até chegou a fazer uma viagem ao transmissor mais próximo — o que é um feito notável, se considerarmos que ele mesmo teve de controlar a liberação da energia necessária ao processo de transmissão. O mundo em que foi parar deixou-o assustado. Voltou o mais depressa que pôde. “Um ser tecnológico é uma coisa formidável, embora seja altamente especializado. Acho que dele podemos aprender muito mais sobre o funcionamento dos transmissores

do que do próprio Icho Tolot. Mas em outras áreas seus conhecimentos não devem exceder os de uma criança de seis anos. Tem medo dos ambientes que não conhece. E mostra-se desconfiado diante de qualquer ser estranho. “É aqui que começa nossa tarefa. Temos diante de nós um espírito completamente formado. O fato de ter-se originado de uma máquina não nos deve fazer esquecer que merece nossa atenção tanto quanto um ser feito de carne e sangue.” *** Ainda faltava desvendar muitos mistérios, mas isso seria uma tarefa para o futuro. Havia coisas mais urgentes para fazer. O ser energético, que na presença de outras pessoas gostava de assumir a figura de Steve Kantor, mostrou-se disposto a continuar a colaborar com os terranos. Steve Kantor e Icho Tolot ajudaram-no a elaborar um esquema que removia o bloqueio a intervalos previamente estabelecidos, tomando possível a entrada de naves no sistema Chumbo de Caça. Reginald Bell enviara uma nave-correio à Via Láctea e mandara que o horário de funcionamento do transmissor fosse entregue ao comandante da frota metropolitana. Os dados foram armazenados nos computadores positrônicos das naves. Com este lance Califa transformou-se numa fortaleza inexpugnável, à qual somente as naves terranas tinham acesso. A probabilidade de uma nave estranha atingir o transmissor num dos breves intervalos de funcionamento, distribuídos segundo uma seqüência estatística, era praticamente igual a zero. Desta forma o Império Solar dispunha de uma base bem segura nas imediações da galáxia inimiga. A operação cabeça-de-ponte, que no ano anterior assumira várias vezes o aspecto de uma ação desesperada, transformara-se num êxito total, que representava um excelente ponto de partida das novas operações dirigidas contra os senhores da galáxia e seus povos auxiliares. *** Sid Lippman tomou a primeira nave em que havia lugar para sair de Califa. Sua despedida de Steve, Lott e Lucas, que resolveram continuar na base, foi muito breve. Suas últimas palavras foram as seguintes: — Vocês são sujeitos formidáveis, mas para dizer a verdade devo reconhecer que não gosto nem um pouco do trabalho que é feito por aqui. Não nasci para ficar no espaço. Os que ficaram estavam reunidos numa sala, observando a decolagem da nave que levaria Sid Lippman de volta para a Terra. A grande tela ofereceu uma representação fiel do jogo de cores do transmissor, quando o veículo desapareceu em seu centro de condensação energética. Reggie, o ser energético, flutuava embaixo do teto como uma nuvem de fumaça de cigarro. Enquanto não houvesse ninguém além dos três amigos, não se julgava obrigado a assumir formas humanas. Lucas Della Fera levantou os olhos para ele, e disse com um suspiro: — Imaginem só — grasnou — se Reggie tivesse ativado o mecanismo de bloqueio e se recusasse a subir conosco. — Neste caso o transmissor ainda estaria bloqueado — resmungou Lott. — Nenhuma nave poderia chegar a Califa. Lucas sacudiu a cabeça como quem não estava gostando. — Não foi o que eu quis dizer. Estou pensando em nós. Vocês acreditam que, se não fosse Reggie, teríamos sido capazes de explicar a alguém o que tinha acontecido?

Fariam pouco de nós — bateu com o dedo na testa. — Se Reggie não tivesse vindo conosco, todos acreditariam que não estávamos muito bons da cuca...

*** ** *

A frota de Reginald Bell saiu vitoriosa da terceira batalha de Califa — e o espírito da máquina entrou em ação para evitar a quarta batalha, que seria o fim do sistema Chumbo de Caça. No próximo volume da série, intitulado A Sexta Época, o ultracouraçado entra em ação — e o engenheiro cósmico faz sua apresentação!

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