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A INVASÃO DOS MORTOS Everton
Autor

K. H. SCHEER

Tradução

RICHARD PAUL NETO

Os calendários da Terra distante registram o dia 26 de abril do ano 2.404. Por enquanto os homens que se encontram na Crest III ainda não sabem que conclusões os misteriosos donos de Andrômeda tirarão do surpreendente aparecimento do supercouraçado terrano em seu centro de poder. Por enquanto até mesmo Perry Rhodan depende exclusivamente de teorias e hipóteses. No entanto, os dirigentes da expedição de Andrômeda já sabem que há tempos a posição da Terra não representa nenhum mistério para os senhores da galáxia, pois eles — ou alguém que estava a seu serviço — instalaram no planeta History uma reserva biológica, na qual seres humanos das mais diversas épocas vegetam sem noção de tempo. Os ocupantes deste zoológico galáctico são impiedosamente condenados à morte pelos senhores da galáxia, que neutralizam o campo de proteção contra o tempo depois que a expedição terrana começa a interessar-se pelo destino das infelizes criaturas. O planeta Multika, no qual existe uma fábrica de gente, foi mais uma estação na rota do pavor percorrida pelos tripulantes da Crest. Mas Perry Rhodan e seus companheiros resistem até mesmo à investida dos duplos. Por isso os donos de Andrômeda resolvem experimentar outra tática. Lançam mão das armadilhas voadoras. Uma destas armadilhas é a nave duplicadora Susama, que encontra sua presa, a Crest. Esta é atraída para Vario — e A Invasão dos Mortos tem início...

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Personagens Principais: = = = = = = =

Atlan — O arcônida que se encontra com seus ancestrais. Perry Rhodan — Chefe do Império Solar, que fica sabendo da existência do primeiro império da Humanidade. Major Sven Henderson — Cuja corveta fica para trás no tempo real. Joakin — Um duplo que possui o maior quociente de confiabilidade. Icho Tolot — Que prova que até mesmo um halutense pode ser ferido. Hakhat e Tughmon — Almirantes do império lemurense. Orghon — Um dos agentes do tempo a serviço dos donos de Andrômeda.

Prólogo de Atlan
Ninguém sabe dizer por que ninguém convence Perry Rhodan a abandonar a órbita que a nave descreve em torno do único planeta do gigantesco sol azul chamado Big Blue e iniciar a viagem de regresso. Pensei que conhecesse perfeitamente o Administrador-Geral terrano. Estava enganado. Ou quase. Hoje, quando já faz quinze dias que se passaram os acontecimentos do célebre 26 de abril de 2.404, tenho a impressão de que Rhodan segue mais a intuição que as leis da lógica. A situação estratégica e tática daquele dia me teria levado de qualquer forma a modificar minha posição diante de Big Blue. Isto não significaria o abandono de um grande plano, qual seja o que visava à descoberta do gigantesco transmissor de Andrômeda, de cuja existência suspeitávamos. Acho apenas que, depois das experiências feitas com a nave duplicadora Susama, seria conveniente abandonar a área, para aguardar calmamente até que se descobrisse o que significava o pouso desesperado que o comandante dessa nave realizara no mundo desconhecido pertencente ao sol azul. Era bem possível que Rhodan tivesse suas próprias teorias, sobre as quais não costumava falar. Estas anotações manuscritas têm por fim exclusivamente ajudar minha memória. Empregarei cada minuto de que possa dispor para completá-las. Conforme as circunstâncias, poderemos levar a pior nesta luta medonha. Segundo ensina a experiência, os registros em fitas eletrônicas podem ser perdidos por várias causas. Por isso prefiro recorrer a esta forma rudimentar de registro. Talvez um dia se torne necessário usar estes registros, embora no momento ainda não vejo quem possa interessar-se por eles. Só me resta esperar que um dia consigamos defrontar-nos com o inimigo em corpo e alma e colocá-lo à frente dos canhões energéticos da Crest III. Neste caso talvez pudéssemos forçar a decisão. Pelos meus cálculos, nossas chances são de cinqüenta por cinqüenta. Na verdade, não se pode duvidar de que nunca existiu um instrumento de destruição que pudesse ser comparado com o ultracouraçado Crest III. Provavelmente gigantes como este só são construídos pelos terranos. É pouco provável que algum dia outro povo possa enfrentar os problemas ligados à construção de um gigante esférico de dois mil e quinhentos metros de diâmetro. Não é apenas uma questão de capacidade técnica, mas também um problema financeiro. Só mesmo o poder de um império sideral é capaz de resolver este problema. Como foi que as coisas começaram? Farei um relato em ordem cronológica, senão a pessoa não familiarizada com os fatos nunca compreenderá o que aconteceu conosco. É uma história medonha, cheia de aventuras, que chega a ser inacreditável. Quero que este trabalho não seja apenas um registro escrito, mas também um relato de experiências, no qual o leitor encontre um roteiro para o aperfeiçoamento pessoal. Sou arcônida, enquanto Perry Rhodan é um homem natural da Terra. Somos ambos comandantes de frotas obrigados a adaptar-se tática e psicologicamente às regras aceitas entre os povos astronautas, mas assim mesmo nossas opiniões divergem em muitos pontos. E as divergências se tornam mais acentuadas quando a situação se torna grave. Um terrano do tipo de Perry Rhodan costuma seguir o instinto em muitas coisas. Quanto a mim, geralmente prefiro recorrer ao meu arsenal de experiências colhidas em

dez mil anos. Por enquanto não temos encontrado nenhuma situação que eu ainda não tivesse enfrentado, pelo menos de forma aproximada. Talvez seja por isso que Perry e eu não conseguimos chegar a acordo. Hoje em dia já estou convencido de ter formulado minhas exigências de forma muito violenta, e às vezes até com tanta arrogância. No início Perry ficava contrariado com isso. Depois passou a obstinar-se na própria opinião. Uma coisa é certa, e até mesmo Perry já concorda com isso. A destruição da Susama e a eliminação dos últimos duplos seria motivo suficiente para abandonarmos a zona proibida da grande nebulosa de Andrômeda. Nesse dia 26 de abril de 2.404 os senhores da galáxia, como comandantes supremos de todas as forças auxiliares sob suas ordens, estavam bastante ocupados com a ofensiva em grande escala lançada pela raça não-humanóide dos maahks. Por enquanto tínhamos conseguido permanecer alheios a tudo, seguindo nossos próprios planos entre as diferentes frentes de combate. E poderíamos ter continuado assim, até que a luta implacável entre os tefrodenses e os maahks envolvesse completamente as duas frotas principais. Para as naves terranas estacionadas no estaleiro espacial KA-barato e em torno do sistema Tri este envolvimento poderia representar o sinal de partida do grande avanço em direção ao hexágono de Andrômeda. Poderíamos desvendar calmamente, sem correr o risco de sermos molestados por forças inimigas, o grande mistério do transmissor de longo alcance de Andrômeda, e verificar se havia alguma semelhança entre ele e o transmissor hexagonal de nossa galáxia de origem. Em vez de adotar esta tática cautelosa, envolvemo-nos numa aventura que poderá custar nossas vidas. Não posso ser culpado por isso. Afinal, só mesmo o pronunciamento do setor lógico de minha mente permitiu que apontasse a insensatez do plano de Perry. Do ponto de vista puramente intuitivo, estava tão curioso quanto os outros para conhecer o mistério de Big Blue e saber o que acontecia no centro repleto de estrelas da nebulosa de Andrômeda. Por isso não quero dizer que seja infalível. Se me empenhasse ainda mais a favor de uma retirada imediata, Perry provavelmente estaria disposto a aceitar minhas ponderações. Acontece que depois do primeiro fracasso fiz tudo para encontrar uma desculpa que me permitisse satisfazer minha sede de aventuras. Seria inútil tentar expor com maiores detalhes os motivos que me levaram a agir desta forma. Só mesmo um relato franco e preciso poderá ter alguma utilidade. Talvez ele apresente algum fato que não tenha sido devidamente considerado, e que possa representar uma saída da situação em que nos encontramos. Tudo começou duas horas depois da destruição da nave duplicadora Susama e da eliminação dos monstros saídos dos multiduplicadores. Começou perto de um planeta que apresentava uma espantosa semelhança com a Terra. Trata-se do único planeta de um gigantesco sol azul chamado Big Blue...

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O Major Wiffert era apenas um entre muitos homens que não dormiam há vinte e quatro horas. Wiffert era o primeiro oficial-artilheiro do supercouraçado Crest III. Cabia-lhe cuidar para que os botões certos fossem comprimidos no momento certo. Olhei para o relógio. A nave gigantesca de dois mil e quinhentos metros de diâmetro continuava em estado de prontidão de combate, com todas as torres de canhões escamoteadas. Os orifícios dos canos das diversas peças de artilharia abriam-se ameaçadoramente para o espaço, que naquele lugar situado em pleno núcleo central de Andrômeda não poderia ser considerado vazio. Os receptores do sistema de rastreamento reproduziam constantemente os chiados característicos das interferências cósmicas, que tornavam quase impossível uma perfeita comunicação pelo rádio, até mesmo nas freqüências hipercurtas. O supergigante azul Big Blue estava bem à nossa frente. Possuía cinco vezes o diâmetro do sol terrano e chamejava, produzindo um brilho que parecia querer devorar tudo. A estrela mais próxima ficava a menos de oito meses-luz. Cerca de quatro mil sóis, entre eles várias constelações de três ou quatro astros, tão próximos uns dos outros que as energias freqüentemente se comunicavam, limitavam o campo visual, fazendo com que as telas óticas ligadas às objetivas externas só mostrassem um modelo ondulante de muitas cores, sem qualquer ponto de referência mais nítido. Tive a impressão de que o mais recente veículo espacial de grandes dimensões produzido pela construção astronáutica terrana e os homens que se encontravam a bordo dele estavam mergulhados num oceano de luz repleto de cargas energéticas, que ameaçava devorar-nos de um instante para outro. A navegação cósmica segundo os padrões usuais tomava-se impossível num lugar como este. Mesmo quando a gente conseguia aproximar-se a alguns meses-luz de um ponto de referência formado por uma estrela de tamanho ou luminosidade fora do comum, era perfeitamente possível que ela não fosse vista por causa do sem-número de outros sóis. Um cosmonauta que nestas condições ainda era capaz de seguir perfeitamente a rota traçada era um verdadeiro mestre em sua arte. Chegamos por acaso à estrela gigante chamada Big Blue. Ninguém sabia exatamente onde nos encontrávamos e a que distância ficava o ponto de interseção dos dois eixos da segunda galáxia, ou seja, o centro de Andrômeda. A densidade das estrelas só permitia que se acreditasse que tínhamos penetrado tão profundamente na zona proibida da nebulosa de Andrômeda como nunca o fizera um terrano antes de nós. A simples idéia me levava a olhar constantemente para as telas dos controles. Uma delas mostrava o Major Wiffert sentado na poltrona de seu posto de combate, que tinha o encosto e as braçadeiras altas e era acolchoada de todos os lados, com os dedos na trava da chamada orquestra de fogo. Wiffert controlava forças titânicas.

Fazia pouco mais de duas horas que disparara pela última vez as baterias de costado, para matar os últimos monstros fabricados em complicados aparelhos, segundo uma matriz atômica. Para mim as últimas horas tinham sido um pesadelo. Fomos atraídos de bem longe, de uma distância que devia chegar a dois ou três mil anos-luz, pelos ecos energéticos produzidos por um grupo de naves maahks que retornava ao espaço normal. Os ecos simplesmente despertaram nossa curiosidade. Mas os inimigos ainda desconhecidos, que à falta de um nome mais adequado batizamos com a expressão senhores da galáxia, tinham ficado mais atentos e inteligentes do que acreditávamos. E agora, pouco menos de três dias-padrão, depois do aparecimento da frota maahk, sabíamos perfeitamente que eles tinham montado uma armadilha para pegar-nos. Também nos demos conta de que o inimigo certamente colocara naves-chamarizes em todos os lugares em que, segundo as previsões estratégicas, se devia esperar o aparecimento de uma frota maahk. Realmente nos dirigimos a um destes pontos estratégicos do espaço. E aconteceu uma coisa que deixou fascinado tanto Perry Rhodan como a mim mesmo. Os tefrodenses, que provavelmente formavam as melhores tropas auxiliares dos senhores da galáxia, atacaram imediatamente os maahks que tinham aparecido de repente. Na oportunidade uma nave esférica tefrodense foi bombardeada e aparentemente sofreu avarias tão graves que seu comandante se viu obrigado a transmitir um pedido de socorro em linguagem clara. Naturalmente captamos a mensagem, fizemos sua interpretação, e constatamos, com base em seu texto, que acabávamos de encontrar “por acaso” um estranho veículo espacial, a bordo do qual havia pelo menos um dos lendários multiplicadores. Este aparelho permitia que se reproduzissem seres humanos e qualquer outra forma de vida a partir de uma única matriz atômica. Fomos levados a abordar a nave aparentemente à deriva, e nesta oportunidade foram aprisionados justamente dois dos nossos melhores mutantes, além de um cientista halutense chamado Icho Tolot. A nave duplicadora Susama fora apenas uma armadilha diabólica. O rato-castor Gucky, o hipno André Noir e Icho Tolot tiveram a estrutura atômica de seu corpo vasculhada e registrada. Depois disso o teleportador Gucky conseguiu fugir com os companheiros e chegar à nossa nave. Mas sua matriz atômica ficou em poder da tripulação da nave tefrodense. A idéia de que isso dava ao inimigo a possibilidade de produzir e utilizar milhões de Guckys, Noirs e Icho Tolots fez com que arriscássemos tudo. Perseguimos a Susama através de um transmissor situacional. Ninguém, nem mesmo eu, que vivia advertindo os outros, teve a menor dúvida de arriscar o salto que nos transportaria para o desconhecido. Tínhamos de destruir a Susama, senão o inimigo poderia dispor, dentro em breve, de poderosos exércitos de mutantes, além dos conhecimentos destes seres. Até então — era o dia 23 de abril — os senhores da galáxia ainda não tinham conhecimento de nossa presença na nebulosa de Andrômeda. A conquista do posto avançado formado pela galáxia anã Andro-Beta, a destruição dos mobys e o caos que se estabelecera no transmissor Chumbo de Caça, que ficava a quatrocentos mil anos-luz, continuavam a ser atribuídos aos povos maahks rebelados. Se não tivéssemos destruído a nave duplicadora e as matrizes atômicas, a catástrofe teria sido inevitável.

Pois bem. Os tripulantes da Crest III tinham destruído a Susama, além dos barcos espaciais em que alguns tefrodenses arrojados tinham saído da nave semidestruída, tentando levar a lugar seguro as cópias das matrizes atômicas de Gucky, Noir e Tolot que no meio tempo tinham sido produzidas. Até hoje a lembrança da batalha travada entre os monstros mutantes e os três originais me dá calafrios. Gucky teve de combater massas de seres que pensavam, sentiam e agiam como ele, já que tinham sido produzidos a partir de sua matriz atômica individual. No momento em que escrevia estas linhas circulávamos em torno do planeta do gigante azul, numa órbita constante, a uma distância segura de três mil quilômetros. Há duas horas o planeta se transformara num inferno. Depois de um rastreamento individual, que provava a existência de alguns sobreviventes entre os monstros saídos dos multiduplicadores, Rhodan resolvera tomar uma medida radical. Nada sobrou da grande Susama. O centro dos impactos dos nossos tiros foi desaparecendo atrás do horizonte visual. Naquele lugar o céu de um mundo que visto de cima parecia uma réplica da Terra estava em chamas. Alguma coisa me levou a olhar novamente para a tela, que continuava a mostrar a imagem do Major Wiffert. Era um dos terranos que eu admirava, amava, mas rejeitava instintivamente. Wiffert era um fanático — ou um idealista, conforme se queira. Mas seu fanatismo era dedicado antes de mais nada ao mecanismo mortífero das superarmas por ele controladas. Nunca conheci um oficial-artilheiro mais competente. Os velhos almirantes arcônidas — e eu era um deles — não costumavam ser mesquinhos na escolha da maneira pela qual aplicavam as forças à sua disposição. Mas na frota arcônida nunca houvera homens iguais ao terrano Cero Wiffert. Girei o assento e procurei enxergar o labirinto da sala de comando principal. Bem lá atrás, num lugar em que quase não podiam ser vistos, os mutantes que estavam de prontidão descansavam em leitos especiais. Tinham ordens para descontrairse, especialmente Gucky e André Noir. Tinham dado o máximo de si nas últimas horas. Icho Tolot, o supergigante de Halut, com seus três metros e meio de altura, chamava a atenção principalmente por seus olhos vermelhos brilhantes, que se destacavam na penumbra que, segundo o regulamento, devia reinar na sala de comando. Até pareciam luzes de alerta. Centenas de telas de todos os tamanhos, milhares de mostradores fluorescentes e dezenas de milhares de botões, chaves e comutadores de segurança com as mais diversas marcações mostravam que o lugar era o centro nervoso da Crest III. No fundo Wiffert que, por estranho que parecesse, não conseguia tirar da cabeça, não passava de uma rodinha numa gigantesca máquina que, se não fossem os controles automáticos superavançados, não poderia ser controlada nem mesmo por cinqüenta mil homens altamente qualificados. Os sistemas inteiramente automatizados, que controlavam principalmente a sincronização indispensável das unidades propulsoras, dos neutralizadores de pressão e dos geradores de energias, permitiram que a tripulação básica da nave fosse reduzida para apenas três mil homens. Essa tripulação representava o essencial para garantir as manobras e a eficiência de combate do gigante de aço terconite. Girei a poltrona, reclinei o encosto e levantei os olhos para as telas gigantescas da galeria panorâmica. O brilho ondulante de inúmeras estrelas envolveu-me que nem uma frente de fogo sem calor.

De repente compreendi por que não podia deixar de pensar no primeiro oficialartilheiro do supercouraçado. O instinto me dizia que ele acabaria se transformando em um dos homens mais importantes da gigantesca esfera espacial. Olhei para a esquerda. Perry Rhodan, um terrano alto e magro, já me fitava há alguns minutos. Examinava meu rosto com os olhos semi-cerrados, embora o rádio-capacete e as dobradiças do capacete pressurizado jogado para trás só permitiam que visse parte dele. Distingui o abaulamento embaixo de suas sobrancelhas, os olhos cinzentos, o nariz de águia e os lábios cerrados. O engate do capacete espacial transparente encobria o queixo. Entreolhamo-nos. Notei que os tripulantes de serviço na sala de comando estavam com os olhos presos em nós. Aguardavam uma decisão. De repente Rhodan começou a falar. Sua voz tinha o tom calmo que se costumava ouvir nela nas situações mais complicadas. Mais uma vez este homem escondia seus verdadeiros sentimentos atrás da máscara da firmeza. — Você dormiu de olhos abertos — afirmou. — É um privilégio dos grandes homens. O terrano sorriu. — Nunca o considerei uma pessoa insignificante, imperador. Pode-se saber o que se passa atrás dessa testa que já tem seus dez mil anos? O Coronel Cart Rudo, um homem adaptado ao ambiente, nascido em Epsal, que era o comandante da Crest III, fitou-me com uma expressão sombria. Aquele atleta de um metro e sessenta de altura e igual largura nos ombros imaginava que eu fosse apresentar alguma objeção. — Estou esperando, amigo! — advertiu Rhodan. Não me sentia muito à vontade no papel que estava desempenhando. Já bancara muitas vezes o tipo que vivia advertindo e recriminando os outros, embora não houvesse nada que pudesse incomodar-me mais do que deixar uma tarefa por cumprir. Rhodan me conhecia muito bem. Sabia que fazia pelo menos meia hora que estava em luta comigo mesmo. Meus instintos naturais queriam levar-me a descer no planeta solitário para verificar o que acontecia por lá. Tive a curiosidade aguçada ainda mais pelas imensas instalações industriais, que apareceram enquanto a nave descrevia sua órbita, no hemisfério sul do planeta. Se cedesse a esse desejo, sugeriria que tentássemos desvendar o mistério. Afinal, era possível que os tefrodenses tivessem instalado uma poderosa máquina de guerra no planeta. O setor lógico de minha mente e a experiência de dez mil anos esforçaram-se para reprimir a intuição. Continuava a ser taticamente errado permanecer no sistema anão de Big Blue, sem qualquer cobertura, sem um conhecimento exato de nossa posição cosmonáutica e das forças inimigas, e sem que tivesse sido feito um cálculo de probabilidade sobre as intenções do inimigo. Enquanto ainda refletia sobre a resposta que devia dar, Perry voltou a dirigir-me a palavra. — Da sala de rádio veio a informação de que foram recebidas novas mensagens. Certos seres desconhecidos, que alegam ser prisioneiros e trabalhadores forçados, pedem auxílio. Nossa presença foi detectada. As instalações industriais que avistamos provam que alguma coisa, está sendo produzida lá embaixo. Para isso são necessários

trabalhadores especializados e auxiliares. Desta forma é altamente provável que neste mundo existem prisioneiros de guerra. Não acha que deveríamos recolhê-los? Perry encarou-me com uma expressão de indiferença. O que se passava atrás da testa alta desse homem? Nervoso, empertiguei-me na poltrona. — Eu esperava que você dissesse isso. Seu senso humanitário exagerado mais uma vez está levando a melhor, não é mesmo? Que diabo! Nossa segurança exige que esta gente fique onde está. Lembro-me de uma das últimas ordens dadas por você. Estas ordens incluíam uma proibição terminante de descer no planeta. — Isso foi antes da queda da Susama! Acontece que esta nave deixou de existir. E o perigo dos duplos também foi eliminado. Acho que deveríamos ter a decência de não negar nosso auxílio aos seres que estão numa situação angustiante. Fitei-o demoradamente. — Já que insiste, vá adiante. Arrisque a Crest III e a vida de todos os tripulantes. Pousar neste mundo é um ato de suicídio. O planeta é uma armadilha. Perry examinou as telas e acenou com a cabeça. — Sem dúvida. Acontece que nem penso em pousar no planeta. Meu senso humanitário e minha tolerância também têm limites, principalmente quando nossa vida está em jogo. Você acha isto muito reprovável? Respirei aliviado. Mais uma vez Perry me pusera à prova. — Acho bastante razoável. Não há nada de reprovável nisso. Abandone este sistema o mais depressa que puder, Perry. Faça isto, por favor. Estou mais assustado a cada minuto que passa. — Por quê? Não detectamos nenhum eco energético. Não há sinal da presença de uma nave inimiga. — Pois é justamente por isso! É uma situação anômala. O comandante da Susama era um excelente oficial espacial e estrategista. As manobras brilhantes que realizou são a melhor prova disto. Ou será que você tem uma opinião diferente? Perry sacudiu a cabeça. O halutense Icho Tolot aproximou-se, vindo dos fundos da sala de comando. O gigante parou atrás de minha poltrona. Senti o calor irradiado por seu corpo. A tela de um dos instrumentos refletiu os três olhos vermelhos. Era um quadro medonho. Tolot ficou na escuta. Enfiou o dedo no colarinho apertado do traje pressurizado, aliviando um pouco a pressão que ele exercia sobre o pescoço. — Vejo que não. Ainda bem. Não quero invocar minha idade e experiência, mas apenas a inteligência. Não é uma atitude humana, mas arcônida. No entanto... — Não se desvie do assunto — interrompeu Perry. — Pois bem, terrano. Sejamos objetivos. Um homem como o comandante Susama certamente teve bons motivos para dirigir-se a este sistema solitário. E também teve excelentes motivos para fazer-nos perder algumas horas com suas manobras desviacionistas, enquanto não conseguimos avariar sua nave com as flotilhas de corvetas que fizemos sair. Como sabe, seu hiperpropulsor foi posto fora de ação. Vivo me perguntando por que deixou a Susama exposta ao nosso fogo até o momento em que perdeu as últimas chances? Poderia ter fugido perfeitamente para o espaço linear, retornando ao universo normal num lugar desconhecido e fabricar calmamente seus duplos. Sem dúvida sabia que as cópias dos originais aprisionados lhe revelariam tudo que quisesse saber. Se tivesse fugido, a esta hora os senhores da galáxia saberiam

perfeitamente quem são os intrusos que penetram na nebulosa Beta. O que poderia ter levado um oficial tão competente a não seguir este caminho, que era o mais razoável? Rhodan levantou os olhos para as telas. — Quem sabe se não era mais idiota do que eu sou em sua opinião? — Essa resposta não é válida — respondi, indignado. — Para começar, não acho que você seja idiota. Só apresenta a teimosia típica dos terranos. — É mais ou menos a mesma coisa. — Pois que seja — respondi em tom irônico. A calma de Perry era um tanto enervante, ainda mais que eu sabia que ele já tomara sua decisão. Só pedia minha opinião por uma questão de cortesia. Não queria passar por cima de mim à frente dos tripulantes que ouviam tudo, se bem que entre nós nunca tivesse havido discussões sobre as atribuições de cada um. Perry era o Chefe do Império Solar, enquanto eu comandava a USO. As áreas de atribuições estavam perfeitamente delimitadas. Obriguei-me a ficar calmo e prestei atenção por um instante aos impulsos emitidos por meu cérebro suplementar. O setor lógico de minha mente apoiava a conclusão a que eu chegara. E era muito difícil ele se enganar. — Depois que seus propulsores ultraluz falharam, a Susama foi colocada numa rota com todas as regras da arte e pousou no planeta. Estava em chamas. Apesar disso, ainda teria sido possível levá-la a um lugar seguro. Bastaria que se deslocasse à velocidade da luz. Há milhões de sóis desconhecidos por perto. O comandante poderia ter iniciado uma corrida de obstáculos a uma velocidade próxima à da luz em torno das estrelas conhecidas. Se estivesse no lugar dele, certamente teria escapado à perseguição desta nave. Para mim o fato de ele ter permanecido no sistema Big Blue é a melhor prova de que queria que ficássemos aqui. Parece que conseguiu, pois continuamos a descrever uma órbita em torno deste mundo. — As ponderações que você acaba de fazer merecem ser tomadas em consideração. Comecei a ficar nervoso. Quais seriam mesmo as intenções do AdministradorGeral? Afinal, sabia raciocinar e por isso não poderia deixar de reconhecer que meus argumentos não deviam ser desprezados sem mais aquela. — Aonde quer chegar? — perguntei. Tolot inclinou o corpo. Senti seu hálito. Melbar Kasom, um ertrusiano adaptado ao ambiente, que ocupava o posto de especialista da USO, também se colocara atrás de nós Os ocupantes da sala de comando estavam ansiosos para ouvir o que viria em seguida. — Acontece que não se nota a presença de uma frota de guerra tefrodense, que poderia servir de base às objeções que você acaba de formular. Nossos rastreadores funcionam ininterruptamente. Há horas tudo permanece em silêncio num raio de três meses-luz. Se aparecesse alguém que nos estivesse observando, a esta hora não estaríamos mais aqui. Para mim, isso seria uma prova de que o comandante da Susama ainda conseguiu enviar um pedido de socorro. Mas ao que tudo indica isso não aconteceu. Por isso permanecerei aqui e tentarei com as cautelas necessárias solucionar o mistério deste planeta. Então era isso! Bem que eu poderia ter esperado este argumento. Do ponto de vista lógico era difícil de derrubar. Mas bastava aplicar o sentimento para chegar à conclusão de que ele tinha seus pontos fracos. Mas um homem prático como Perry Rhodan dificilmente seria capaz de usar os sentimentos. Resolvi tentar de novo.

— Ouça, amigo. Nem por isso precisamos ficar neste sistema. Você não quer pousar, e por isso certamente será muito difícil investigar este mundo. Já dispomos dos resultados da tele análise. Trata-se de um mundo semelhante à Terra, que possui uma atmosfera de oxigênio, um bom clima e uma gravitação de 0,94 gravos. A distância média de Big Blue é de aproximadamente oitocentos milhões de quilômetros. Vemos perfeitamente as instalações industriais, e os prisioneiros de guerra não nos interessam. Para mim, isso basta. — Acontece que não há nenhuma nave inimiga por perto! — voltou a enfatizar Perry. — Para mim isso é a camuflagem da armadilha, se permite uma linguagem figurada. A Susama quase conseguiu levar a melhor sobre nós. É bem provável que algum centro de controle desconhecido tenha acompanhado nosso vôo. Se os tefrodenses não enviarem uma frota para abrir fogo cruzado contra nós, eles devem ter outra coisa em mente. — O quê? — Virei a cabeça e olhei para Icho Tolot. Do rosto do gigante não se podia tirar nenhuma conclusão sobre seus sentimentos. A única coisa que chamava a atenção era o brilho dos olhos vermelhos. Tolot não pediu a palavra. — Se eu soubesse, qualquer discussão seria supérflua. Só sinto que há algo de errado na conta que você acaba de fazer. Por isso sugiro que o fator desconhecido seja eliminado através de uma imediata manobra que nos leve para longe daqui. O fato de não sermos atacados não me agrada nem um pouco. — Concordo com as palavras do lorde-almirante — disse o halutense. — Queira desculpar eu ter feito esta observação. Rhodan acenou com a cabeça. Prestou atenção ao ribombo saído da boca de Tolot. Certamente quisera cochichar, mas assim mesmo tornara-se muito barulhento. Rhodan levantou-se abruptamente. Olhou por cima do ombro do comandante, leu as indicações do painel instalado à frente da poltrona de comando e olhou para o relógio. Havia em seu rosto uma expressão de quem não queria conversa. — Nada feito, senhor — cochichou o Coronel Melbar Kasom ao meu ouvido. — Tirou suas conclusões, e pronto! A voz de Rhodan superou o farfalhar estranho que se ouvia na sala de comando. Puxara um microfone do interfone para perto dos lábios. — Chamando todos os tripulantes. Todos ouviram a exposição do lorde-almirante. Seus argumentos são corretos — mas só até certo ponto. Ficaremos aqui enquanto não detectarmos a presença de um objeto voador desconhecido. Se captarmos algum eco, ainda poderemos sair daqui. O planeta não poderá ser perigoso, enquanto não pousarmos nele. E é uma coisa que não pretendo fazer. Ainda não esqueci as terríveis experiências que fizemos em Horror e outros planetas-fortaleza. A nave continuará em estado de prontidão. Os sistemas de emergência de todos os conjuntos geradores serão testados. Caso haja necessidade de uma partida apressada, quero que a nave não leve mais de vinte segundos para atingir a velocidade que lhe permita executar manobras. Atenção, chefe da quinta flotilha, Major Henderson. Responda. Uma tela iluminou-se. O rosto de um terrano de cabelos louros apareceu nela. Sven Henderson era um tipo impetuoso. Já pertencera à tripulação de elite da antiga Crest II. — Major Henderson falando, senhor — disse sua voz, saída dos alto-falantes. — Estamos em posição de combate. KC-41 a 50 preparadas para a saída.

Comecei a resignar-me. Henderson comandava os dez barcos espaciais pertencentes à quinta flotilha. Seu posto de combate não ficava em uma das inúmeras salas de comando da Crest III, mas na sala de pilotagem de sua nave-capitânia, ou seja, da KC-41. Havia cinqüenta corvetas do último tipo, equipadas com um poderoso canhão conversor e os novos campos defensivos de hipercarga; estavam guardados nos hangares externos da Crest III, além de quinhentos caças da nova classe Mosquito. Além dos três mil homens da tripulação básica, a Crest III trazia a bordo dois mil soldados altamente especializados, que não tinham nada a ver com o manejo da nave. Cabia-lhes sair, sempre que necessário, da nave-mãe, para desfechar ataques fulminantes. Tive de confessar a mim mesmo que Perry Rhodan tinha bons motivos para um sadio otimismo. Um inimigo que quisesse derrotar a Crest III e suas naves auxiliares teria de recorrer a uma gigantesca frota. Rhodan voltou a falar. Preocupado, prestei atenção às suas palavras. — Saia imediatamente, Henderson. Reveze a primeira flotilha, comandada pelo Major Don Redhorse. Entre nas posições previstas no plano zero, evite a transmissão de mensagens ultraluz e fique atento. Não quero ser pego de surpresa por alguma coisa vinda do espaço cósmico. — Entendido, senhor. Redhorse está encostando com sua nave-capitânia. Está sendo recolhido. Gostaria de fazer uma pergunta. — Pois não. — Haverá uma operação-resgate? Em outras palavras — o senhor pretende recolher alguns prisioneiros de guerra? Em caso afirmativo, peço permissão para destacar duas corvetas para dar cobertura à operação. Poderia chegar mais perto do objetivo. — De acordo. Tentarei uma operação-resgate por meio de raios de tração. Acho que conseguiremos recolher alguma coisa. Mas o senhor e a KC-41 ficarão fora disso. Destaque dois comandantes experimentados. Desligo. A tele imagem de Henderson empalideceu. Sem querer, acenei com a cabeça. Já sabia perfeitamente quais eram os planos de Perry. Em hipótese alguma queria pousar, deixando a Crest à mercê de uma estação de superfície. Mas de outro lado nem pensava em fazer pouco-caso dos pedidos de socorro. Era uma decisão típica de um terrano. Nenhum arcônida se envolveria numa coisa destas. Mas talvez tivesse sido justamente por isso que dentro de três séculos a Terra se tivesse tornado o poder dominante da Via Láctea. Era bem possível que eu não fosse capaz de ter uma visão adequada de situações como esta. “Tolice!”, disse o setor lógico de minha mente através de fortes impulsos espirituais. “Ele é um leviano.” Os homens que chefiavam os diversos centros de comando receberam ordens detalhadas. Rhodan parecia antes um computador em forma de homem. Não se esqueceu de nenhuma precaução e pensou até mesmo nas hipóteses menos prováveis. A julgar pelas ordens que estava dando, contava até mesmo com a possibilidade de um ataque de surpresa partido do planeta. Destacou três formas possíveis de ataque e mandou tomar as providências necessárias para cada uma delas. O supergigante da classe Galáxia transformou-se num verdadeiro formigueiro. Os comandos de robôs correram para seus lugares. Perry chegou perto de mim. Continuei na minha poltrona. Olhou para mim, sorridente, avaliou meu rosto contrariado e perguntou: — Mais alguma objeção, almirante? Será que esqueci alguma coisa? Fiz um gesto de pouco-caso.

— Se tivesse quebrado sua cabeça quando lutávamos no museu de Vênus, a esta hora não estaria me incomodando com um bárbaro selvagem — resmunguei. — Acho que você não esqueceu nada. O Coronel Cart Rudo deu uma risada e o imediato, Brent Huise, sorriu. — Acho que estamos com fome, senhor! — observou Melbar Kasom em tom compenetrado. Olhou com uma expressão ameaçadora para os homens nascidos no planeta Terra. Mal consegui disfarçar o quanto me divertiam suas atitudes. — Comilão ertrusiano — disse Cart Rudo em tom exaltado. — Se houvesse cem homens de seu tipo a bordo, a nave teria de fazer um pouso de emergência para renovar a provisão de mantimentos. Kasom tinha dois metros e meio de altura e mais de dois metros de largura. Pesava 815 quilos. Contemplou o epsalense, que pesava “apenas” quinhentos quilos. — Um combatente de Ertrus não ouve o grasnar de um anão subnutrido. Um especialista da USO nem toma conhecimento de sua existência. Alguém disse alguma coisa? O rosto de Cart Rudo ficou vermelho. Levantei às pressas, empurrando o “campeão ertrusiano de todas as classes”. Quando os dois gigantes pensavam em brigar, estava na hora de uma pessoa normal levantar acampamento. Se possível, juntamente com um dos dois gigantes. Icho Tolot, que era sem dúvida o ser inteligente mais forte que se encontrava a bordo da Crest, deu uma estrondosa gargalhada. Desviei-me das carícias de suas quatro patas enormes e fiquei satisfeito ao notar que até mesmo Kasom apressava instintivamente o passo. — Vamos comer alguma coisa — disse apressadamente. — Até que não foi uma má idéia, Melbar. Notou-se um tremor suspeito nos lábios de Rhodan. A discussão tinha caído no esquecimento. Convenci-me mais uma vez que se precisava de uma habilidade toda especial para consolidar a unidade de uma tripulação como esta. Perry era capaz disso, e por isso merecia nossa admiração. Passamos pelos mutantes, que ainda estava descansando. Os gêmeos Woolver, que eram especialistas da USO subordinados a mim, sorriram ao mesmo tempo. Mais uma vez tinham coordenado seus sentimentos. — Durmam, por favor — pedi. — Poupem suas forças. Pode parecer tudo muito bonito, mas não consigo dominar a inquietação que me martiriza. Alguma coisa vai acontecer, senão não me chamo Atlan. Este superterrano se esquece que se encontra nas profundezas do centro proibido da nebulosa de Andrômeda. Pelos deuses de Árcon! Por que isso não aconteceu comigo? Sabem onde iria almoçar a esta hora? — Fora da área de perigo, senhor — respondeu Rakal Woolver. — Isso mesmo. É exatamente o que eu faria. Ivã Goratchim, o mutante de duas cabeças, ergueu-se no leito especial em que estava deitado. Os dois rostos entreolharam-se. Lancei um olhar desconfiado para a estranha dupla. — Quer saber uma coisa, irmão? — perguntou Ivanovitch, o jovem. — Não compreendo muito bem as objeções dele. Ainda me lembro das operações arriscadas que ele realizou na nebulosa Beta, e que fizeram suar o Chefe de medo. — Quando ele diz sim, quer dizer não — confirmou Ivã, o velho. — O melhor é fazer sempre aquilo que ele recusa com muita insistência. Agindo assim, acerta-se.

Melbar Kasom sorriu para mim com uma expressão de insolência. John Marshall, chefe do Exército de Mutantes terrano, brindou-me com um olhar ingênuo, enquanto alguns terranos que se encontravam num lugar mais afastado olhavam insistentemente para o teto, dando a impressão de que esperavam descobrir uma coisa interessante por lá. — Então é isso! — observei, exaltado. — Ainda bem que eu sei. Ivã Ivanovitch, o senhor será requisitado para participar da próxima missão. Aí teremos oportunidade para discutir o assunto. — Não durante um teste de combate dos novos jatos-mosquito, senhor. Ainda não nos esquecemos. Nenhum terrano sensato seria capaz de partir a toda com uma máquina nova em folha, que de resto já tinha sido testada até os limites de sua capacidade, para a alguns anos-luz de distância experimentar seu canhão conversor. Um terrano certamente não seria capaz de fazer uma coisa dessas. — Vamos andando — respondi. — Kasom, diga alguma coisa para defender-me. — Grande vantagem, senhor — resmungou o gigante. — O senhor vive arriscando o pescoço, e aqui quer bancar o prudente. Como posso defendê-lo? Isso tinha de ser dito uma vez. Saí andando. Rhodan soltou uma estrondosa gargalhada. Acompanhara a discussão pelo interfone. — Bom apetite, arcônida — gritou. — De qualquer forma, muito obrigado pelo aviso. Pensarei nele. “Eles o estão linchando moralmente”, comunicou meu cérebro suplementar. “Você os ama. É seu ponto fraco. E eles sabem disso.” — Bobagem! — disse em voz alta. — Como? — perguntou Kasom. Fiz um gesto de pouco-caso. Kasom também era um humano. O fato de ser um ertrusiano adaptado ao ambiente não lhe tirava essa qualidade. Por mais que se orgulhasse de sua origem e por mais que zombasse dos homens nascidos na Terra, ele logo mudava de opinião quando tinha de enfrentar uma situação difícil. Então ele se esquecia da sua origem e da posição que ocupava. Era apenas um ser humano, cujo coração batia igual ao de qualquer terrano. Era uma comunhão que por nada do Universo eu poderia deixar.

2
Interlúdio
Usava o título de comandante de flotilha. Seu nome era Joakin. Mas apesar do cargo que ocupava, sua tarefa não consistia em comandar um grupo de naves. Pelo menos naquele momento. Tinha dezoito homens da guarda de duplos tefrodenses sob seu comando. Todos eles tinham sido feitos segundo o modelo de um original cuidadosamente escolhido. Tinham uma microversão de receptor de estímulos implantada no cérebro. Era a única restrição que os duplos sofriam e que os diferenciava dos originais. Quanto ao mais, pensavam e agiam em conformidade com a estrutura fixada na respectiva matriz. O próprio Joakin era um duplo. No entanto, seu número de série era bem baixo e possuía a mais elevada quota de confiabilidade. Fora posto de prontidão há dez minutos. Examinava com a maior atenção as telas enquanto no subconsciente ouvia o rugido e os estrondos das máquinas-mamute, que desfiavam seu canto de trabalho bem embaixo dele. — Está na hora — decidiu Joakin. — Petrek, assuma a sala de comando enquanto eu não estiver presente. Fez um sinal para um homem de estatura baixa. No exterior eram ambos iguais aos seres humanos. E em seu organismo só se encontravam diferenças insignificantes, entre as quais se destacava a chamada paraglândula, também encontrada no ser humano, mas em forma bastante atrofiada. Joakin saiu da sala de comando, atravessando pesadas portas blindadas. Estas se fecharam atrás dele. Possuíam travas individuais. Um centro de computação fornecia ininterruptamente os resultados das medições transmitidos por um sistema de comunicações de âmbito planetário. A única tarefa dos dezoito tefrodenses era controlar o funcionamento do dispositivo automático e fazer os reparos que se tornassem necessários. Os casos especiais, que não se enquadravam na programação previamente introduzida no centro de computação, só poderiam ser resolvidos quando o centro de comando principal, situado num lugar desconhecido, introduzia um bloqueio nessa programação. Só depois disso o comandante de esquadrilha Joakin estava em condições de introduzir na programação automática as instruções especiais, elaboradas segundo seu critério. Ninguém dizia uma palavra no interior da grande sala. A luz ofuscante das telas de imagem rompia a escuridão, lançando sombras confusas nas paredes feitas de uma liga de aço de alta qualidade, lançando suaves reflexos azulados sob a luz das telas. — A distância continua inalterada. A programação está correndo no último estágio, segundo a memo-interpretação — disse a voz metálica saída dos alto-falantes do sistema de comunicação. Joakin ouviu a mensagem através de seu rádio de pulso. Apressou o passo e entrou no robô de controle, cujo centro de memória estava tão sobrecarregado que a luz de alerta violeta estava acesa.

Joakin praguejou. Estava furioso. Arrancou a marca de identificação da gola de seu apertado conjunto-uniforme. Enfiou-a na fenda de controle e ficou aguardando o sinal de conformidade, enquanto deixava que a máquina medisse sua freqüência cerebral. Esta freqüência sofria a interferência contínua das emanações programadas e registradas em ficha de seu receptor de estímulos. A máquina estava programada para isso. O capacete medidor recuou com um zumbido. A luminosidade das mortíferas grades energéticas de grande intensidade diminuiu. Dali a instantes o robô deixou livre o caminho para a memocabine fortemente protegida. Joakin saltou da plataforma e saiu correndo em direção às portas blindadas que iam se abrindo. A memocabine era o único meio de comunicação com o centro de comando. Nem mesmo Joakin sabia onde este ficava. Entrou na cabine e olhou para o teto. A grande tela instalada no mesmo já estava funcionando. Fora ligada pelo aparelho de controle assim que este concluíra a verificação de Joakin. — Pode falar. Estou ouvindo — disse uma voz sem personalidade saída de altofalantes invisíveis. — Comandante de esquadrilha Joakin, modelo 124, número de série 3. Quociente de confiabilidade conhecido. Favor confirmar. — Controle concluído. Faremos a inversão de sua polarização. Os controles funcionarão durante quatro segundos. Tenha um pouco de paciência. O centro de comando propriamente dito levou quatro segundos e meio para responder ao chamado. Joakin sabia que estava falando com uma máquina. Mas era uma máquina gigantesca, com um desempenho enorme. A voz mecânica não era tão impessoal como a do controle automático subordinado. — O senhor anunciou uma prioridade de primeira escala. Que deseja? Joakin respirou aliviado. Ao que parecia, o centro de comando já fizera suas investigações, senão o centro de computação não teria perguntado logo quais eram seus desejos. — O sistema automático instalado neste planeta já não domina a situação. O inimigo demonstra uma competência extraordinária. Necessita-se com urgência de uma programação adicional, no interesse do cumprimento das ordens genéricas. — O memoregistro está funcionando a toda força? — Funciona em regime de emergência. O quociente de adaptação atingiu o grau mais elevado. — E apesar disso não houve um resultado positivo? — Houve um fracasso total. Solicito poderes especiais e o levantamento do bloqueio do centro de computação. O centro de comando ficou calado por dois segundos. Era o tempo necessário para requisitar os dados colhidos pelo centro de processamento planetário, interpretá-los e compará-los com a solicitação de Joakin. A voz mecânica voltou a fazer-se ouvir. Joakin estava de pé em frente do grande memobox, no centro da sala. O rastreador desempenhava duas funções. Além de receber as manifestações acústicas de Joakin, captava os impulsos conscientes de seu cérebro, transmitidos numa dimensão superior. Em hipótese alguma Joakin seria capaz de transmitir informações falsas ao centro de comando. Se tentasse, morreria no mesmo instante.

— Interpretação concluída. O pedido de levantamento do bloqueio é válido. Indagação: O senhor acha possível que, apesar de adaptação perfeita o inimigo se afaste do objetivo? Joakin conseguira o que queria. O dispositivo automático limitava-se a fazer perguntas de rotina. — A possibilidade é cada vez mais próxima. Defrontamo-nos com um inimigo poderoso, inteligente e decidido. Só atingiremos nossos objetivos se agirmos imediatamente com todos os recursos de que dispomos. — Isso produzirá um abalo no sistema. Aceito este efeito. O senhor é investido com plenos poderes para adotar as providências que julgar adequadas no interesse do plano. Será responsabilizado pelas conseqüências. O bloqueio será removido dentro de três segundos. Retire-se da memocabine e dirija-se ao posto de comando. Fim da transmissão. O centro de comando desligou, a tela apagou-se. Só mostrava o chamado grande símbolo, formado por duas galáxias sobre um fundo negro. Joakin apressou-se. Já não estava sendo controlado. Enquanto subia no elevador mecânico, lançou um olhar para os pavilhões gigantescos da estação conversora. Estava num mundo de superlativos técnicos. Entrou na sala de comando. O centro planetário de computação estava liberado para receber uma programação adicional. Joakin aproximou-se do console de ajuste. Seus dedos correram velozmente sobre as teclas. As ordens eram registradas, racionalmente interpretadas, completadas até os últimos detalhes e encaminhadas ao dispositivo automático de execução. Uma maquinaria gigantesca foi reajustada dentro de dois minutos. As medidas até então tomadas foram revogadas. Na opinião de Joakin, o memojogo não atingira seus objetivos. Só restava a força bruta.

3
Relatório de Atlan
Os calendários registravam o dia 26 de abril do ano 2.404. Entrei ao lado de Melbar Kasom na sala de oficiais III e acomodei-me junto a uma mesa robotizada que servia automaticamente os alimentos. Em minha opinião, a alimentação a bordo das naves terranas que operavam no front era deficiente. Em comparação com suas dimensões gigantescas, a carga útil do ultracouraçado era bastante reduzida. Quase todo o espaço disponível era ocupado pelos armamentos, depósitos de peças, unidades geradoras e outras instalações. Antigamente, no tempo das velhas naves-salto, costumava-se levar principalmente conservas e alimentos congelados. Já agora predominavam os alimentos sintéticos. Raramente era servida carne ou legumes de verdade. Este fato provocava um mal-estar generalizado. Por isso preferi não adaptar as unidades da frota da USO para os mingaus sintéticos, que eram nutritivos, mas de aspecto desagradável. Em nossas naves continuavam a ser servidas carnes das mais variadas espécies, além de frutas e verduras frescas. Isso tinha uma desvantagem. As naves da USO não podiam permanecer no espaço tanto tempo quanto as unidades terranas. Afinal, precisava-se de muito mais espaço para guardar os alimentos frescos. Melbar Kasom, que era o maior comilão da nave, queixou-se do mingau vermelhoamarelado despejado pela fenda de suprimento sobre seu prato. — Vermelho e amarelo. Até que combina — resmungou Kasom, contrariado. — Sempre que como isto, não posso deixar de pensar numa operação de apêndice ou vesícula com focos de pus espalhados. A comida que ia engolir me ficou presa na garganta. O ertrusiano sorriu. — Não fique zangado, senhor, mas realmente parece. — Cale a boca! Não tive tempo para refletir sobre a observação que Kasom acabara de fazer ou amaldiçoar a alimentação servida a bordo. Fazia duas horas que a Crest III estava em estado de prontidão, mas o alarme voltou a soar em todos os setores da nave. Pensei que já me tivesse habituado ao ruído enervante das sereias. Mas estremeci que nem um principiante, que ouve pela primeira vez o alarme geral. Kasom virou o prato juntamente com a mesa. Meu especialista levantara depressa demais. Levantei de um salto. Segurei instintivamente a mesa, recolocando-a na posição inicial. Além das sereias, os apitos estridentes e as campainhas se fizeram ouvir. — Prontidão total — disse Kasom num estoicismo a toda prova. — Quer apostar como Perry Rhodan começa a suar? Tenho a impressão de que seu plano tem uma falha. Deixou de considerar um fator importante. — Tive esta impressão desde o início. Saímos correndo. E conosco saíram correndo uns quatrocentos ou quinhentos tripulantes, que tinham sido dispensados dos postos de combate para alimentar-se.

Corriam, mastigavam, praguejavam, fechavam os capacetes pressurizados de seus trajes espaciais e enfiaram-se nos condutos estreitos de ar pressurizado. Kasom não pôde utilizar este meio de locomoção ultraveloz. Seu corpo gigantesco não cabia nos dutos. Mas já estávamos no convés da sala de comando, e por isso resolvi acompanhá-lo através das escotilhas de passageiros que se abriam e do outro lado saltavam sobre as esteiras transportadoras. Numa nave com as dimensões da Crest nem se poderia pensar em atravessar correndo os corredores com alguns quilômetros de comprimento. Demoraria demais para que todos entrassem em regime de prontidão. Na nebulosa de Andrômeda a própria existência da nave dependia da rapidez extrema das manobras. Atingimos a esfera que abrigava a sala de comando e o controle automático nos deixou entrar. Fechamos apressadamente as portas hermeticamente vedadas. A Crest III encontrava-se no chamado estado fechado. Seu corpo gigantesco se subdividira em dezenas de milhares de favos. Era praticamente impossível destruir uma nave desse tipo com armas energéticas convencionais. Os técnicos terranos eram mestres nesse tipo de medida de segurança. As telas da galeria panorâmica brilhavam em cores vivas. Big Blue parecia ter inchado dentro de poucos minutos, contrariando as leis físicas que valiam em todo o Universo. Os mutantes que estavam descansando sobressaltaram-se. Gucky, o rato-castor, erguera-se no leito e passava as mãos pelos olhos. Kasom e eu entramos na sala de comando pelas chamadas portas inferiores. Por isso tivemos de correr uns cinqüenta metros antes de atingir a ampla plataforma de comando, onde tinham seu lugar os membros da alta oficialidade. Na sala de comando e nos recintos ao lado o tempo estava quente, conforme se costumava dizer na gíria astronáutica terrana. As ordens e suas confirmações se sucediam rapidamente. Cada homem parecia transformado num feixe de nervos. Mas as aparências enganavam. Só mesmo uma pessoa não familiarizada com o ambiente seria levada a acreditar que a pressa e os comandos berrados em altas vozes eram sinais de nervosismo. Sem dúvida os terranos eram os soldados mais disciplinados que já conheci em toda vida. Superavam até mesmo as tripulações de elite das antigas tropas arcônidas. Das informações que iam sendo transmitidas deduzi que o alarme que acabara de ser dado não fora causado pela súbita agitação da estrela, mas por causa de um eco de rastreamento anunciado pelo Major Sven Henderson, cujas corvetas, pertencentes à quinta flotilha, há tempo tinham deixado a nave-mãe e se encontravam numa posição de interceptação, em pleno espaço cósmico. Henderson detectara um objeto estranho, do qual, segundo as ordens dadas por Rhodan, aproximava-se à velocidade máxima, e com os canhões prontos para disparar. Quando subi na plataforma de comando, o jovem oficial acabara de anunciar a suspensão temporária das comunicações pelo rádio, em virtude de uma breve manobra linear. — De acordo. Dê uma olhada no objeto — gritou Rhodan para dentro do microfone. — Não deve ser muito grande. Provavelmente trata-se de um meteoro. As telas especiais dos rastreadores energéticos iluminaram-se. A KC-41 acabara de penetrar no espaço linear, o que lhe permitia percorrer em apenas alguns minutos os três anos-luz e meio que a separavam do objeto que acabava de ser detectado.

Quase não prestei atenção às outras corvetas, cujos comandantes também transmitiam informações pelo rádio. Estava muito mais interessado na gigantesca estrela azul — e em outra coisa! A Crest III continuava a dar voltas em tomo do planeta semelhante à Terra, ao qual ainda não havíamos dado nenhum nome. Os membros não-humanóides da tripulação também tinham comparecido à sala de comando. Era o cientista e combatente halutense Icho Tolot, o engenheiro cósmico e proprietário do estaleiro espacial KA-barato, chamado Kalak, e o conversor de energia Baar Lun. — Mude de rota, administrador, mude de rota! — exclamou Kalak, exaltado. — Uma estrela não incha à toa, pelo menos dentro de cinco minutos. Mude a rota. A estrela encontra-se a oitocentos milhões de quilômetros — retrucou Rhodan. — Pouco importa — respondeu o ser estranho de pele negra, cuja barba ruiva estendia-se em torno do pescoço num trançado perfeito. — Estou muito desconfiado. Misteriosas mensagens de hiper-rádio foram captadas. Se Big Blue for transformado artificialmente numa nova, não conseguiremos escapar. Rhodan hesitou. Até mesmo Icho Tolot, que não costumava abalar-se por nada, estava nervoso. Sentei em minha poltrona e examinei os controles de emergência. Se necessário, poderia pilotar manualmente a nave gigante, juntamente com Rhodan e Cart Rudo. Baar Lun, o modular, fitava as telas sem dizer uma palavra. Naquele momento irradiavam uma luminosidade violeta de grande intensidade, que me fez fechar os olhos com um gemido. Quando voltei a enxergar, a Crest III já estava acelerando. O rugido dos propulsores era tão intenso que o dispositivo automático de meu capacete acionou os tapa-ouvidos, acionando também a comunicação pelo rádio. Já ouvia as vozes nervosas com as quais os homens faziam seus comunicados ao comandante supremo. Não era mais necessário. Rhodan desistira do desejo ansioso de descobrir detalhes mais importantes a respeito do planeta e iniciara a retirada. De repente um grito soou em meus fones de ouvido. Não houve necessidade de perguntar quem o soltara e por quê. O planeta de Big Blue, que pouco antes ainda fora um mundo parecido com a Terra, no qual havia prisioneiros que pediam socorro, transformara-se de repente num deserto de pedras, no qual não havia água nem vegetação. Foi neste instante que um terrano deu um nome ao planeta. Chamou-o de Vario. Ninguém quis saber quem tivera a idéia. Era um nome tão acertado que foi aceito imediatamente. — Eis aí a armadilha — observei pelo sistema de comunicação do escalão de comando. Rhodan e os oficiais superiores me ouviam. Seus rádio-capacetes funcionavam em duas freqüências de áudio e vídeo ao mesmo tempo. — Os rastreadores, medidores de massa e analisadores de matéria deixaram-se enganar. Lá embaixo nunca houve nada além de um deserto sem vida. Olhem! Que é isso? Olhei para a direita. Duas colunas energéticas de quinhentos quilômetros de diâmetro acabavam de sair da superfície deserta de Vario. Quando olhei, já tinham atingido a estrela azul. Deviam ter avançado a velocidade ultraluz, senão ainda não poderiam ter chegado a Big Blue. Retiravam energia da estrela para conduzi-la a Vario.

Em comparação com estas forças tremendas, a energia dos geradores da Crest não representava nada. O rosto de Rhodan transformou-se numa máscara. Nem deu atenção às minhas palavras. Sabia perfeitamente que este homem, que era um reator instantâneo psicologicamente, já pensava muito mais longe. Se havia um sentido atrás destes fenômenos, alguma coisa iria acontecer nesse instante! Era impossível que o inimigo, que não podia ser outro senão os senhores da galáxia, nos deixasse escapar sem mais aquela, depois de nos ter oferecido uma representação tão sedutora da Terra. Devia haver um motivo para retirar a energia do sol gigante. Afinal, a tecnologia surpreendente do inimigo desconhecido já não era nenhuma novidade para nós. Era o que Perry Rhodan estava pensando. Na verdade, todo mundo pensava a mesma coisa, mas naquele instante nem me dei conta disso. Estávamos num veículo espacial esférico que fugia em alta velocidade. Do ponto de vista ótico, Vario parecia afastar-se numa queda veloz embaixo dele. Mas este estado esperançoso só durou alguns segundos. O inimigo não demorou a pôr as mãos em nós. De repente voltei a ouvir o rugido dos propulsores. Estavam funcionando em regime de emergência, senão os tapa-ouvidos não permitiriam que eu os ouvisse. Vario entrara em funcionamento, provavelmente tudo não passara de uma corrida contra o tempo. Talvez ainda tivéssemos escapado, se tivéssemos acelerado dez segundos antes à capacidade máxima de 650 km/seg2. Talvez, disse a mim mesmo, os ocupantes de Vario ou o sistema automático por eles controlado neste caso não teriam conseguido capturar mais um gigante espacial como a Crest com seus raios de tração. O Major Enrico Notami, chefe do centro de rastreamento, chamou pela faixa do comando. Sua voz parecia tão calma que até se poderia ter a impressão de que nada estava acontecendo. — Rastreamento chamando comandante. Nave perdendo velocidade. No momento a distância que nos separa de Vario é de apenas cinqüenta e oito mil quilômetros. Os rastreadores energéticos registram a presença de um hipercampo e de um campo magnético normal de tração de grande intensidade. O volume energético deve ficar em torno de vinte milhões de megaponds. Em hipótese alguma a potência de nossos propulsores será capaz de neutralizar ou superar as forças que nos arrastam para trás. Se a força de tração permanecer constante, a nave será imobilizada dentro de vinte e quatro vírgula três segundos. Recomendo que a energia de todas as unidades geradoras seja conduzida aos projetores antigravitacionais. A interpretação dos dados relativos à energia mostra sinais da existência de uma componente gravitacional-energética no campo de tração. Talvez seja possível absorver esta componente. — Chefe chamando rastreamento. Muito obrigado. Fim da transmissão. Atenção, centro de controle de máquinas. Siga a recomendação de Notami. Os propulsores continuarão funcionando em regime de emergência. Faço uma pergunta ao engenheirochefe. Nas circunstâncias presentes existe possibilidade de realizarmos uma manobra forçada no semi-espaço? Prendi a respiração. Até parecia que Rhodan enlouquecera. Os terranos tinham o mau costume de obrigar suas naves a entrar no semi-espaço antes que atingissem um terço da velocidade da luz. Era uma experiência perigosíssima, que só era arriscada em casos de grave emergência.

O major-engenheiro Dr. Bert Hefrich, que ocupava o posto de engenheiro-chefe, respondeu imediatamente. Era um técnico muito competente, que conhecia perfeitamente as limitações das máquinas sob seu controle. Recusou em tom áspero. — Engenheiro-chefe chamando Administrador-Geral. Impossível! Se o campo kalupiano for ativado neste instante, ele romperá o casco da nave. O conteúdo energético da quarta dimensão existente no espaço einsteiniano ainda é muito forte. Diante das influências atuantes no momento, precisaria de um ponto de absorção de pelo menos dez por cento da velocidade da luz. As usinas de primeira grandeza, de números um a doze, serão colocadas imediatamente em sua potência máxima. Estão atingindo o maior desempenho possível. Estou transferindo a energia aos campos antigravitacionais. O sistema sincronizado de neutralização de pressão está funcionando, mas acho recomendável que se adotem precauções especiais. Coloquem as poltronas anatômicas na posição de carga máxima. Desligo. Rhodan ficou ainda mais pálido. Ele e eu devíamos ser os únicos homens a bordo da Crest III que viam diante dos olhos o fim iminente. Os outros terranos ainda tinham esperança de que a nave gigante escapasse da armadilha. Apertei o botão de emergência de minha poltrona. O encosto reclinou-se imediatamente. O sistema automático de neutralização de pressão entrou em funcionamento. Senti o estofamento ficar mais grosso e duro. Os cintos de segurança saltaram das braçadeiras e do encosto. Se a força da inércia atingisse a gente numa manobra deste tipo, devia-se estar bem protegido, senão haveria fraturas de ossos e rupturas pulmonares. Os dispositivos antigravitacionais funcionavam perfeitamente. Apesar disso demorou apenas vinte e oito segundos até que a nave ficasse imobilizada no espaço. Os propulsores funcionavam com um empuxo de aproximadamente quinze milhões de megaponds. Este valor permitiria que a Crest III decolasse de um planeta superpesado, sem auxílio dos campos antigravitacionais, e acelerasse violentamente. A viagem de volta começou. Aceleramos vertiginosamente chegamos a ser atingidos por uma força de quatro gravos, que nos comprimiu contra as poltronas. O sistema positrônico de emergência entrou em atividade. Cinqüenta por cento da energia gerada foram conduzidos para os neutralizadores de pressão, sem que se medissem as conseqüências. Dessa forma houve uma deficiência no suprimento da energia aos campos antigravitacionais. Uma rodinha da engrenagem fazia girar a outra. Se havia necessidade de energia em algum lugar, esta tinha de ser retirada de outro centro de consumo. A potência das unidades geradoras não podia ser aumentada ao infinito. Tínhamos de arranjar-nos com a energia que podíamos produzir. Sabia perfeitamente que Vario trabalhava com as energias solares. Os esforços que fazíamos certamente só provocavam um sorriso nos técnicos que trabalhavam no centro do comando do planeta. Bastaria que fizessem avançar as chaves de regulagem para a posição seguinte, e já teriam mais dois milhões de megawatts à sua disposição. Imaginava perfeitamente o que significava isso do ponto de vista técnico. Nem mesmo em pensamento seria capaz de imaginar tamanho volume de energia, se não tivesse visto com meus próprios olhos o exemplo do transmissor solar. Para seres inteligentes que eram capazes de arrancar estrelas enormes de suas órbitas e aproveitá-las em sua tecnologia, um ultracouraçado terrano era apenas um brinquedo. Ao contrário dos quase cinco mil tripulantes, deixei de refletir sobre a situação em que nos encontrávamos no momento. Preferi pensar no que estava para acontecer. Caso

pretendessem obrigar-nos a pousar, reter-nos no porto espacial e a seguir prender-nos, então teríamos uma boa chance. Não havia a menor dúvida de que os senhores da galáxia acreditavam que a Crest III era uma nave halutense. Em operações anteriores Icho Tolot os levara a pensar assim. A ilusão por ele criada era perfeita. Acontece que entre os halutenses nunca houvera mutantes no sentido em que o tempo era empregado por nós. Em virtude das características que lhes tinham sido dadas pela natureza, estes seres eram máquinas de guerra vivas. Seu metabolismo fenomenal fizera com que de suas fileiras nunca tivessem saído seres que possuíssem dons parapsíquicos. Como a tripulação da nave era composta principalmente por terranos, havia mutantes a bordo. Se não fôssemos eliminados logo, se preferissem paralisar nosso corpo ou nosso espírito, ainda poderíamos ter uma oportunidade de virar a mesa. Quando cheguei a este ponto, entrei em contato com Perry. — Atlan chamando Administrador-Geral. Nunca seremos capazes de escapar ao campo de tração. Mande suspender as tentativas neste sentido. Só consomem energias preciosas, podem causar a explosão das máquinas e sobrecarregam o casco até os limites da ruptura. É bom que, quando chegarmos a Vario, a Crest esteja na mais perfeita ordem. O senhor me ouve, Icho Tolot? Concorda comigo? — Perfeitamente. Siga meu conselho, senhor. Não adianta arrebentar a nave no meio. Atlan certamente está pensando nos mutantes. — Isso mesmo — observei. — Se quisessem destruir-nos, já poderiam tê-lo feito. Atenção, rastreamento. O que está acontecendo com as nove corvetas da quinta flotilha? — Rastreamento chamando lorde-almirante da USO. Os barcos espaciais estão presos no mesmo campo de tração. Seguiram-nos de perto quando tentamos a retirada. Mas a KC-41 comandada pelo Major Henderson está fora do alcance do campo energético. Se for inteligente, acompanhará tudo de longe para esperar o que será feito de nós. — Ele será inteligente — afirmou Rhodan. — Acho que o senhor ainda não conhece Henderson. Está bem, Atlan. Mandarei suspender a prova de força. Engenheirochefe, siga a sugestão. Reduza a potência dos propulsores e o nível de produção das unidades geradoras. Deixaremos que eles nos prendam. John Marshall...! O chefe dos mutantes respondeu imediatamente. Rhodan deu suas instruções. — O senhor é um homem experimentado. Ficará a seu cargo fazer entrar em ação os homens do seu exército no momento exato. Não aguarde ordens específicas para isso. Assim que tocarmos na superfície do planeta, seu pessoal fará uma viagem. Seria bom se conseguíssemos destruir os conversores de energia solar. Fiquei bastante aliviado por Rhodan ter aceito minha sugestão. Ouvi palavrões no rádio-capacete. Alguns terranos que não estavam nem um pouco amedrontados, mas no seu íntimo se sentiam furiosos, davam vazão aos seus sentimentos. O Major Cero Wiffert pediu permissão para abrir fogo. Tinha certeza de que poderia arrebentar Vario em alguns pedaços. — De acordo. Mas quero que só use armas energéticas convencionais. Não pense em disparar seus canhões conversores. O senhor destruiria Vario, mas de nós também não sobraria nada. Fogo! Não esperara outra coisa. Um homem como Rhodan não se entregaria passivamente. Pelo menos tentaria mais uma vez.

Wiffert disparou seus gigantescos desintegradores e canhões térmicos com a precisão de um atirador bem treinado. Os tiros das baterias de costado do setor vermelho saíam com tamanha violência dos canos apontados na mesma direção que a Crest III se sacudiu que nem um cão molhado. Sentimo-nos comprimidos contra os cintos de segurança, para em seguida sermos atirados novamente de encontro à poltrona. A fogueira atômica seria capaz de destruir instantaneamente um astro do tamanho da lua terrana. Mas em Vario não aconteceu absolutamente nada! O comandante da base planetária devia ser um homem muito competente. Provavelmente dispunha de um centro de computação positrônica comparável aos melhores produtos da indústria solar. As trilhas energéticas quentíssimas, que quase chegavam a atingir a velocidade da luz, foram interrompidas bem longe da superfície por um campo defensivo quase imperceptível que envolvia totalmente o planeta. Wiffert experimentou todas as armas, com exceção dos canhões conversores. Se tivesse disparado trinta projéteis de mil gigatons cada com as baterias de costado do setor vermelho, mirando um ponto determinado, até mesmo o campo defensivo planetário teria desmoronado. Quanto a isso eu não tinha a menor dúvida. Mas era um risco que não poderíamos assumir, pois a nave certamente também seria destruída. Dali a um minuto a velocidade alucinante com que nos aproximávamos do planeta foi reduzida por meio de uma força que agiu em sentido contrário. Era o método clássico de recolher uma nave que se encontrava no espaço ou trazê-lo para uma distância em que pudesse ser bombardeada com armas nucleares. Lá fora os robôs pertencentes às tropas de desembarque marchavam para as posições de saída. Talvez houvesse uma possibilidade de usá-los. Rhodan decidira usar todos os meios de defesa possíveis. Em minha opinião, os mutantes eram nossa melhor arma. O centro de computação positrônica da nave forneceu os resultados do processamento que acabara de realizar. Tratava-se de cálculos lógicos efetuados com base nos dados disponíveis. Entre estes dados destacavam-se antes de mais nada as experiências que já tínhamos colhido com as melhores tropas auxiliares dos senhores da galáxia, os duplos tefrodenses. Provavelmente o planeta Vario também estava ocupado por seres dessa espécie. Sua espantosa semelhança com os seres humanos e os receptores de estímulos implantados em seu cérebro, que em caso de perigo os transformavam em verdadeiras máquinas de guerra, representavam um ótimo ponto de referência na avaliação de seu comportamento. A velocidade da nave reduziu-se ainda mais e esta entrou numa órbita em torno do planeta. Por isso tive certeza de que a destruição imediata da nave não estava nos planos dos nossos captores. Certamente queriam testar-nos primeiro. E devíamos aproveitar o tempo. Atravessamos o campo energético e caímos em ângulo agudo em direção à superfície desolada do planeta. Ninguém seria capaz de dizer por que nossos rastreadores se tinham enganado tanto. Ninguém se lembrou da possibilidade de que o dispositivo fantástico que produzira as modificações neste mundo não tivesse apresentado miragens, mas quadros reais. Seria mesmo um absurdo pensar assim. Não podíamos imaginar o que havia mesmo em Vario.

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Interlúdio
O comandante de esquadrilha Joakin, modelo 124, número de série 3, não teve uma sensação de ódio nem de triunfo. Era e continuava a ser o calculista frio, que avaliava o resultado de qualquer operação exclusivamente com base na utilidade. Nos gigantescos pavilhões em que estavam instaladas as máquinas de Vario, alguns aparelhos deixaram de funcionar. Eram os chamados rastreadores mentais. Cabia-lhes captar as vibrações cerebrais de seres vivos que se propagavam numa dimensão superior, interpretá-las e traçar a respectiva linha de ação. Quando se queria que a tripulação de uma nave que se aproximasse do planeta fosse captada pelos dispositivos automáticos altamente aperfeiçoados de Vario, os aparelhos lhe apresentavam uma imagem dos seus desejos. No caso dos terranos, produziram uma imitação da Terra cheia de paisagens sedutoras. Os rastreadores mentais perceberam que quase todos os tripulantes pensavam com muitas saudades em seu planeta de origem. Naturalmente o sistema de interpretação recorrera a este importantíssimo fator psicológico, produzindo paisagens maravilhosas da Terra, gravadas na memória dos terranos. Acontecera mais uma coisa! Os rastreadores mentais constataram que entre os homens que tripulavam a espaçonave que percorria uma órbita em torno do planeta havia um sentimento muito acentuado, que poderia ser designado como compaixão ou vontade de ajudar. Por isso o centro de computação inventara, com base nas operações lógicas por ele realizadas, os seres que eram prisioneiros de guerra e fizera transmitir os pedidos de socorro. Mas nem por isso os desconhecidos foram levados a pousar no planeta. Contrariando as experiências realizadas com os rastreadores mentais, permaneceram em segurança no espaço e não atenderam nem mesmo aos apelos mais urgentes. Foi por isso que Joakin pediu uma programação especial. E agora estava vendo o resultado. A gigantesca esfera de aço estava presa nos campos energéticos dos projetores. Cada máquina era do tamanho de um cruzador pesado da classe Solar. A energia solar capturada por meio dos raios condutores permitiu o aumento ao infinito da capacidade energética do planeta. Quando a nave que na opinião de Joakin e com base em suas experiências era um produto da indústria halutense finalmente foi captada pelos raios de tração, ele tivera plena consciência da vitória alcançada. Os rastreadores mentais instalados no planeta-armadilha registraram impulsos de ódio incontido. O resultado da interpretação foi transmitido à sala de comando de Joakin. O comandante de esquadrilha, que era um homem alto, sorriu. Ódio... Naturalmente! Que mais poderiam sentir? O ódio lançava raízes na mentalidade destes seres. Joakin pensava que conhecia muito bem as tripulações halutenses. E, pensando assim, cometeu o erro mais grave de sua carreira. Joakin nem se lembrou de comunicar ao centro de comando que as paisagens formadas segundo os resultados colhidos pelos rastreadores mentais não combinavam com a história do povo halutense.

Mas, pensando bem, o engano era justificável. Os halutenses respiravam oxigênio e precisavam de calor, tal qual os terranos. Na verdade, o erro de Joakin consistiu em aceitar os sentimentos de compaixão e vontade de ajudar. Se alguém tivesse chamado sua atenção para isso, ele certamente não pensaria que tivesse cometido um erro, pois sabia por experiência própria que em oportunidades anteriores os halutenses tinham ajudado seres que estavam em dificuldades. Mas Joakin esquecera um detalhe. Os combatentes de Halut não faziam nada se não tivesse um motivo. Quando a nave gigante foi descendo em direção à superfície, e um campo defensivo contra armas ofensivas passou a cercá-la, Joakin limitou-se a comunicar ao centro de comando que o plano tinha sido cumprido. A supernave halutense, que estava sendo caçada em vão há várias semanas, estava presa nos raios de tração invencíveis do planeta Vario. Esta informação levou o desconhecido centro de computação principal a fazer uma avaliação errônea da situação geral, avaliação esta que seria o fator decisivo. Joaquim recebeu ordem para voltar a ligar a programação anterior, deixando o resto por conta do centro de controle de Vario. O comandante de esquadrilha não perdeu tempo. Obedeceu imediatamente. Queria mesmo livrar-se da responsabilidade. Mas, como o centro de computação de Vario registrara a circunstância de que o comandante orgânico já fornecera uma informação a respeito dos acontecimentos, ele se absteve, numa lógica tipicamente mecânica, de transmitir suas próprias informações resultantes de indicações claras dos instrumentos. Desta forma o engano foi mantido. A Crest III continuou a ser considerada um produto halutense, tripulado pelos supergigantes vindos da Via Láctea tão distante. Isto combinava com o quadro geral que os senhores da galáxia haviam formado diante do inesperado aparecimento da nave gigante. Ninguém a não ser os halutenses seria capaz de percorrer a distância de um milhão e meio de anos-luz. Ninguém, nem mesmo o centro de computação positrônica principal, chegou à conclusão de que os invasores pudessem pertencer à raça humana, apesar da atividade intensa por ela desenvolvida por ocasião da destruição de alguns transmissores solares. Os terranos ainda não poderiam ter ido tão longe. Bastaria uma única palavra do comandante de esquadrilha Joakin para dar um rumo completamente diferente a um acontecimento cósmico de proporções gigantescas. Mas Joakin calou-se, o que lhe custou a própria vida. Sem querer, abrira o caminho aos maiores inimigos dos senhores da galáxia. As barreiras removidas por ele teriam sido insuperáveis — até mesmo para Perry Rhodan e a Crest III. *** O Major Sven Henderson, comandante da quinta esquadrilha de corvetas e também comandante da KC-41, alcançara o objeto detectado e constatara que se tratava de uma espaçonave destroçada, que vagava há pelo menos um milênio pelos espaços infinitos da nebulosa de Andrômeda. Resolveu abster-se de um exame minucioso. Preferiu iniciar imediatamente a viagem de volta à Crest III. Pouco antes do início do vôo linear, uma violenta erupção de energia foi detectada em Vario, que levou Henderson a suspender instintivamente a manobra já preparada.

Acompanhou os acontecimentos através dos rastreadores ultraluz e arriscou-se a transmitir uma hipermensagem direcional. A Crest III não respondeu. A mensagem foi repetida três vezes. Depois disso o oficial experimentado já não teve nenhuma dúvida de que acontecera uma desgraça. Antes de sair da Crest III, ainda ouvira as advertências de Atlan. Além disso pensava muito nas discussões travadas entre os oficiais do ultracouraçado. Quando a erupção energética se tomou menos intensa, Henderson resolveu fazer uma manobra linear, que o fez voltar ao espaço normal a vinte bilhões de quilômetros de Vario. Ainda chegou a ver a Crest III descer na superfície do planeta no meio de uma bola de fogo. O centro de computação positrônica da corveta deu o alarme máximo. Chegara à conclusão de que os dados colhidos há pouco pelos rastreadores não conferiam mais. Isto fez com que os homens que tripulavam a KC-41 também se dessem conta de que a superfície de Vario se modificara. Transformara-se num deserto. Não havia sinal de instalações industriais. Henderson deu ordem para frear, usando a potência máxima dos propulsores. O Capitão Arktal, imediato da nave, fitou-o com uma expressão de súplica. — Senhor, não podemos ficar aqui, esperando calmamente que nossos companheiros sejam eliminados lá embaixo. Senhor...! Viu à frente um rosto que parecia ter sido esculpido em pedra. Virou lentamente a cabeça. — Por que não, capitão? O rosto de Arktal mudou de cor. Ficou sem saber o que dizer. Henderson veio em seu auxílio. — É bom que saiba uma coisa, Jim. Uma coisa que aprendi em dez anos duros e muitas operações arriscadas. Quem tem a sorte danada de escapar a uma catástrofe, não se entrega depois a ela. Se voássemos que nem uns idiotas furiosos para Vario, nosso destino seria o mesmo. Nem mesmo as máquinas gigantescas da Crest III puderam evitar que isso acontecesse. Quanto mais nós. Vamos ficar aqui, esperando calmamente para ver o que acontece com a nave-capitânia. Depois resolverei o que fazer. Será que isso não entra em sua cabeça dura? — Não entra muito bem, comandante. — Muito bem. Pense o que quiser. Mas de qualquer maneira o senhor cumprirá minhas ordens. Arktal parecia confuso. Os soldados que faziam parte da guarnição da sala de comando entreolharam-se com uma expressão de nervosismo. — Senhor, o Chefe está a bordo da nave, além de Atlan e muitos dos nossos dirigentes. — Para mim isso não é nenhuma novidade. Justamente por isso não concordo de forma alguma em lançar-me numa aventura que Perry Rhodan condenará mais tarde. Se estivesse no meu lugar, ele também aguardaria os acontecimentos. Como não possuo a mesma experiência e conhecimentos que ele, ficarei por enquanto na observação. Vamos...! — Olhe o rastreador — gritou alguém. A voz estrondosa saiu dos alto-falantes. — Os rastreadores detectaram alguma coisa, senhor. A Crest III tornou-se instável. As alterações de massa são cada vez mais acentuadas. A massa está diminuindo. Os

rastreadores de matéria quase não reagem mais. Deixaram de reagir de vez. A Crest desapareceu, senhor. Henderson ficou pálido que nem um cadáver. Fez três perguntas, que se relacionavam com a essência do problema. Depois deu ordem para que os dados registrados pelos rastreadores fossem transmitidos à sala de comando. Quando concluiu a leitura, bateu com o punho cerrado no alarme. A corveta, que era um veículo de alta velocidade, acelerou ao máximo. Disparou que nem um projétil. Dali a dez minutos o Major Sven Henderson fez a corveta entrar no espaço linear, contrariando a vontade dos oficiais, para voltar ao universo einsteiniano somente quando se encontrava a cinco anos-luz de distância. Deixou que o veículo espacial se deslocasse em queda livre em direção a um sol e convocou a tripulação de vinte homens para a sala de comando. O rosto do jovem oficial não permitia nenhuma conclusão a respeito de seus sentimentos. Se visse o comandante da quinta flotilha neste instante, Perry Rhodan certamente ficaria entusiasmado. Henderson podia perfeitamente ser considerado um oficial de elite. O major deu início a um ligeiro discurso. — Acho que neste instante pelo menos dez homens me odeiam. Outros cinco devem achar que sou um covarde, e os cinco restantes ainda não puseram em ordem os próprios sentimentos. Pois é bom que saibam que seus sentimentos e opiniões não me interessam. Faço aquilo que acho certo. Em hipótese alguma admitirei qualquer espécie de insubordinação. Os senhores farão tudo para descobrir onde estamos. Acho que precisaremos de pelo menos vinte manobras para calcular a rota certa. Quando tivermos os dados, voltaremos à periferia da galáxia e de lá nos dirigiremos a KA-barato. Uma vez lá, será tomada uma decisão sobre o que será feito dali em diante. Entendido? Obrigado. Voltem aos seus postos.

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Relatório de Atlan
Nossos mutantes estavam prontos para entrar em ação. Usavam o conjuntouniforme de combate, que era em todas as peças uma obra-prima da engenharia terrana combinada com a microtécnica siganesa. Os mutantes eram quase todos completamente diferentes um do outro. Sobre o corpo gigantesco de Goratchim viam-se duas cabeças. Gucky não tinha mais de um metro de altura, enquanto os dois irmãos Woolver apresentavam, graças à atmosfera pobre de oxigênio do seu mundo, um peito de tonel. Todos eles eram minha grande esperança. Ainda não tinha falado com Rhodan sobre a gravidade da situação. Provavelmente ele sabia tão bem quanto eu. Os rastreadores registraram a presença de um campo energético de intensidade extraordinária. Este campo cercava a nave e não tinha nada em comum com o raio de tração. Em minha opinião, o inimigo queria evitar que a superfície do planeta fosse bombardeada. Se abríssemos fogo, o recuo da energia dos tiros seria tão forte que provavelmente seríamos destruídos imediatamente. Sim, Perry compreendera a situação! Deu ordem para que em hipótese alguma fosse usado o armamento da nave. Era justamente por isso que eu depositava ainda maiores esperanças em nossos mutantes. Ou melhor, depositara — até três segundos atrás! Acontecera alguma coisa que no início eu recebera com incredulidade, depois com surpresa, e agora, depois dos três segundos, com pavor! Gucky tentara usar a capacidade de teleportação, dando um salto, juntamente com outro teleportador que se encontrava a bordo, o afro-terrano Ras Tschubai. Não conseguiram. Nem sequer foram capazes de desmaterializar seus corpos. Ficaram no lugar em que se encontravam. Alguém soltou um grito. Foi um grito tão retumbante que só poderia ter partido de Tolot. Colocara o capacete dobrável de seu traje de combate verde-escuro sobre a gigantesca cabeça semi-esférica, mas assim mesmo o ouvíramos. Voltou a gritar. — Não saltem. Parem com isso! Por mais forte que fosse sua voz quando foram proferidas as últimas palavras, para mim elas soaram como um cochicho. Até parecia que alguém entupira meu ouvido. Uma dor lancinante e uma tontura tomaram conta de mim. Olhei para a esquerda. Rhodan bateu no fecho de seu cinto e levantou-se. Um silêncio profundo reinava na nave. Rhodan engoliu em seco. Mas logo recuperou o autocontrole. — Que... que é isso? — exclamou o grande terrano, perplexo. Olhou como quem pede socorro para o halutense, que parecia uma rocha negra plantada na sala de comando. Estendera os quatro braços, à procura de alguma coisa em que pudesse apoiar-se. Até parecia uma obra de arte esculpida pelas mãos de um artista não-humanóide.

De repente um rugido se fez ouvir. Eram os propulsores da nave. O engenheiro Dr. Hefrich os fizera funcionar com a força máxima por sua própria conta. Rhodan não deu ordem em contrário. Não adiantaria mesmo! Lá fora acontecia um fenômeno, fielmente reproduzido nas telas pelos dispositivos óticos externos da nave. Tinha-se a impressão de que a nave corria em alta velocidade pela paisagem ampla. Mas não se notava nenhum movimento. As primeiras áreas verdes apareceram à nossa frente. Mais tarde formaram-se grandes florestas, rios e lagos, que distinguíamos perfeitamente na altura em que nos encontrávamos. Homens — ou seriam tefrodenses? — marchavam na superfície. Uma cidade gigantesca com torres altas apareceu nas telas. Espaçonaves desciam do céu cheio de bruma e prepararam-se para pousar num porto espacial que instantes antes não tínhamos visto. Nossas máquinas ainda estavam funcionando. Lá fora o cenário mudava rapidamente. Até parecia que assistíamos a um filme em seqüência acelerada. Vario, o mundo desértico, transformara-se num planeta florido, onde ao que tudo indicava o tráfego espacial era muito intenso. Cart Rudo também soltou um grito. Apertou os botões dos controles de emergência. Era a reação típica de um comandante epsalense que vê uma espaçonave vir em sua direção e já chega a ter a sensação física do choque. A espaçonave desconhecida atravessou-nos como se não existíssemos. Isto mesmo: atravessou-nos! Só então me dei conta de que devíamos ter perdido a estabilidade material. Alguma coisa nos atingira e nos desmaterializara. O mais estranho era que continuávamos conscientes de tudo, e conservávamos a capacidade de pensar e agir. Acompanhávamos tudo, mas parecia que não éramos uma componente energética dos acontecimentos que se desenrolavam junto à nave. Meu cérebro suplementar entrou em ação, emitindo impulsos que só eu pude captar. — Componente energética? Componente temporal! Foi isto que você quis dizer! Estremeci como se alguém tivesse derramado um balde de água fria em mim. Sabia muita coisa a respeito de experiências com o tempo e compreendi o que significava a observação de meu cérebro suplementar. Será que os senhores da galáxia eram capazes de modificar as dimensões do tempo, para transferir um objeto para uma época diferente? Icho Tolot compreendera a situação ainda mais depressa que eu. Possuía dois cérebros. Um deles era o cérebro programador, que na verdade era um computador orgânico de grande capacidade, em versão compacta.

Dobrou para trás o capacete pressurizado e voltou a gritar. As pessoas que se encontravam na nave já conheciam sua voz potente. Mas naquele momento parecia que ele estava apenas cochichando. — Encontramo-nos num campo temporal. Esta expressão não basta para dizer o que realmente está acontecendo. Os cientistas halutenses estão cansados de saber que a energia fornecida por um sol grande e de temperatura elevada permite que se efetue o deslocamento do tempo, sem provocar qualquer desvio das coordenadas temporais que serviram como ponto de referência. Quer dizer que os mundos e os planos existentes na teoria hiperfísica, com seus diferentes graus de evolução, não podem sofrer nenhuma interseção. Mais tarde fornecerei informações detalhadas sobre um velho programa de pesquisa halutense, cuja execução foi proibida há mais de cinco mil anos. As experiências com o tempo podem produzir efeitos desastrosos. Ouvi sem dizer uma palavra. Rhodan também ficou em silêncio. Talvez naquele momento estivesse pensando que teria sido bom se tivéssemos saído do sistema Big Blue antes que fosse tarde. Do lado de fora as diversas épocas foram passando rapidamente. Vimos um retrospecto da formação do planeta Vario, de sua colonização por tefrodenses parecidos com homens, da construção das gigantescas instalações no subsolo e da chegada dos suprimentos trazidos por frotas espaciais. Quando a evolução industrial chegou ao ponto culminante, o cenário estabilizou-se de repente. O quadro permaneceu inalterado. Acabávamos de chegar. — Salte, Gucky — gritou Rhodan, dominado pelo pânico. O rato-castor tentou, mas mais uma vez não conseguiu. Em compensação ficamos expostos a uma forte pressão, que nos atirou para dentro das poltronas estofadas. — Estamos sendo irradiados para algum lugar — gritou Tolot, que conseguiu neutralizar a força de quatro ou cinco gravos sem dobrar as pernas de tronco. — Loucura — disse alguém com a voz estertorante. — Isso é uma loucura rematada! Devia ter sido Hefrich, o engenheiro-chefe. O simples fato de eu ouvir sua voz era a melhor prova de que as comunicações pelo rádio ainda estavam funcionando. Naquele momento ninguém seria capaz de dizer quais eram os fenômenos hiperfísicos aos quais estávamos sujeitos. Não sabíamos para que época tínhamos sido transferidos. Fiz um tremendo esforço de reflexão para descobrir a finalidade desta medida. Se queriam destruir-nos não precisariam escolher um meio tão complicado. — Estão nos expulsando — observou Melbar Kasom. Suas palavras foram ouvidas tal qual saíram de seus lábios. — Estão nos expulsando como se fôssemos estrangeiros indesejáveis. Não me admirarei nem um pouco se, quando terminar a viagem, estivermos à frente de pelo menos mil canhões. Acho... Cuidado! É um transmissor situacional. Vimos um anel de fogo vermelho-escuro, que surgiu abruptamente na escuridão do espaço. Tinha cerca de um milhão de quilômetros de diâmetro. Em seu interior via-se a estranha agitação que era um sinal de que uma operação de transporte estava para ser realizada. Os transmissores desse tipo apresentavam grandes variações. Exigiam uma tecnologia que ainda não dominávamos. Já não havia a menor dúvida de que os senhores da galáxia estavam metidos nisso.

O planeta Vario foi ficando rapidamente para trás. As máquinas controladas por Hefrich trabalhavam com a potência máxima. Os controles automáticos da sala de comando mostravam que o sistema automatizado da nave conduzira toda a energia produzida pelas doze usinas geradoras para os neutralizadores de pressão, mas ainda assim estávamos sendo submetidos a uma carga reduzida. Big Blue era o mesmo que tínhamos visto no início. Mesmo que tivéssemos sido arremessados mais de mil anos para o passado, o aspecto da estrela não mudaria. O Dr. Hefrich tentou novamente arrancar a nave do meio das forças que o puxavam e empurravam para vários lados. Os gigantescos jatos-propulsores do ultracouraçado falharam completamente. Pelo menos este aspecto técnico compreendíamos. Ainda não tinha sido criado nenhum meio de enfrentar as forças convertidas de um grande sol. Icho Tolot caminhava ruidosamente pela sala de comando. Deixou-se cair na cama e endureceu o corpo. Sabíamos que efetuava a conversão molecular da substância de suas células, que o transformava num bloco de aço em cujo interior os processos vitais ficavam reduzidos a um mínimo insignificante. Esta capacidade do halutense já nos salvara a vida mais de uma vez, quando os choques intensos provocados por um processo de transporte nos deixaram inconscientes. Nestas condições o gigante sempre interferira prontamente. Rhodan compreendeu imediatamente que a grande aventura iria entrar numa nova fase. Desconfiava de que não tivesse tempo para preparar o centro de controle de máquinas para aquilo que estava para acontecer. Por isso usou os controles de emergência, bloqueou os comandos normais das usinas geradoras números três e quatro e conduziu a energia por elas produzida aos neutralizadores de pressão. Tratava-se de aparelhos especiais, cujo tempo de reação era de um décimo de milionésimo de segundo. Eram os únicos capazes de absorver a curva de choque extremamente veloz de uma desmaterialização que se processava numa dimensão superior. Os neutralizadores comuns não seriam capazes disso. Dali a um segundo penetramos em alta velocidade no vermelho ondulante do transmissor circular e desaparecemos. Senti ao mesmo tempo a dor da desmaterialização e da rematerialização. Houve uma superposição dos dois efeitos dolorosos. Concluí que a operação de transporte não nos podia ter levado muito longe. A névoa que encobria meus olhos estava diminuindo. Nossas usinas geradoras continuavam a funcionar em nível de emergência. Precisávamos de energia, mais energia e cada vez mais energia para alimentar os diversos centros de consumo. Vimos à nossa frente uma constelação conhecida de todos. Fiz um esforço para não ouvir os gritos de surpresa e pavor, para adaptar-me imediatamente à nova situação. As seis estrelas gigantes de cor azul, em direção às quais nos precipitávamos, vindos de uma posição mais elevada, poderiam perfeitamente estar no centro da Via Láctea. Acontece que não havia a menor dúvida de que não nos encontrávamos em nossa galáxia, mas na nebulosa de Andrômeda. Por isso logo me dei conta de que acabávamos de descobrir o transmissor central da segunda galáxia, que Rhodan estivera procurando tão ansiosamente. Os sóis dispostos em hexágono que víamos à nossa frente formavam o irmão gêmeo do transmissor de nossa galáxia, onde começara a viagem para a nebulosa de Andrômeda. Tratava-se de uma constelação exatamente igual, artificial como a outra, cuja finalidade só podia consistir em transportar quaisquer objetos a uma grande distância.

Tínhamos chegado ao centro da nebulosa de Andrômeda, e a única coisa que tivemos de fazer foi entrar numa armadilha. Entramos no campo de ação do transmissor solar, desenvolvendo cerca de vinte por cento da velocidade da luz. Dentro de instantes uma força tremenda nos atrairia, para sermos transformados em poeira atômica no ponto de interseção das linhas energéticas projetadas por seis supergigantes de cor azul. Mal tive tempo de olhar para o rosto de Perry. Estava rindo! Era inacreditável: o terrano ria como quem não tem nervos e faz uma viagem agradável para o planeta solar mais próximo. Cart Rudo fitou-me com uma expressão de perplexidade, enquanto Perry transmitia calmamente uma mensagem pela faixa de comando. — Aposto que seremos mandados de volta para a Via Láctea. Ali está o transmissor de Andrômeda que tanto procurávamos! Logo saberemos se ele permite o transporte direto de galáxia para galáxia, ou se para isso se torna necessário uma estação retransmissora. Se a transmissão direta for possível, teremos de fazer alguma coisa para pôr um pouco de desordem nestes sóis. — Seu idiota presunçoso! — berrei. — Este sujeito já está quase com a cabeça no cutelo, mas faz de conta que só precisa mexer um dedo para ter à sua disposição cinqüenta mil naves de guerra pesadas que destruirão este centro de transporte. Você logo saberá o que acontece quando um inimigo mais forte que nós nos dá um soco no nariz. Talvez assim volte ao normal! Perry sorriu debochado! Estava quase estourando de raiva, enquanto este sujeito louco sorria com uma expressão de moleque. Não tive tempo para espantar-me com isso. Os seis gigantes azuis pegaram-nos com uma força tremenda. A Crest III foi arrastada para o centro do hexágono. A desmaterialização foi tão rápida que minha consciência nem foi capaz de registrar o fenômeno. Nenhum reflexo nervoso seria suficientemente rápido para isso. Mas os neutralizadores de choque de grande precisão estavam em condições de reagir em um milionésimo de segundo. Perdi os sentidos. Quase não cheguei a sentir a terrível dor da desmaterialização. Era a única vantagem resultante da rapidez do fenômeno. A gente se transformava numa entidade energética situada numa dimensão superior antes de ter a plena sensação da dor.

ESPAÇONAVES EXTRATERRESTRES

Nave Auxiliar dos Tefrodenses

Nave auxiliar dos tefrodenses, com cerca de 30 m de comprimento, para um tripulante, com velocidade superior à da luz, apropriada para o espaço e para a atmosfera planetária. 1) Canhão de impulsos leve. 2) Cúpula de observação feita de plástico blindado. 3) Asa dianteira para vôo na atmosfera. 4) Assento hidropneumático para piloto. 5) Aparelho de hiper-rádio transmissor e receptor. 6) Escotilha de ar e de embarque. 7) Cano de distribuição dos propulsores laterais (4peças). 8) Mecanismo de correção e frenagem (4 peças). 9) Leme superior para vôo na atmosfera. 10) Barbatana traseira. 11) Leme lateral para vôo na atmosfera. 12) Mecanismo de irradiação de impulsos com velocidade superior à da luz. 13) Condutos de impulsos elétricos para os jatos-propulsores. 14) Jatos-propulsores. 15) Asa traseira para vôo na atmosfera. 16) Coluna de sustentação de pouso. 17) Reator de fusão nuclear. 18) Mecanismo antigravitacional. 19) Colunas de sustentação de pouso. 20) Computador. 21) Descodificador de computação e monitores.

6
O ativador de células pendurado sobre meu peito batia com tanta força que tive a impressão de que estava entregando os pontos para sempre. Uma coisa extraordinária devia ter acontecido com meu corpo, senão a reação do ativador não teria sido tão violenta. Soltei um gemido, virei a cabeça e apertei os cintos de segurança, que se soltaram e foram recolhidos automaticamente para dentro do encosto da poltrona. Olhei para Rhodan, que também acordara. Melbar Kasom soltava gritos confusos e lutava para não perder os sentidos. Icho Tolot estava abandonando o estado de rigidez cristalina. Os dois braços de ação, mais compridos que os outros, faziam movimentos convulsivos. Cart Rudo continuava inconsciente. Compreendi que os homens que usavam ativadores de células tinham resistido ao choque melhor que os outros. Era bem verdade que os mutantes ainda não davam sinal de vida, embora todos eles, com exceção de Gucky e dos gêmeos Woolver, usassem este aparelho. Seus cérebros supersensíveis reagiam de forma diferente aos choques, que provavelmente nos teriam matado se não fossem os novos neutralizadores de ação rápida. Era um sinal de que tínhamos sido transportados a uma grande distância. Talvez até tivéssemos sido levados para a Via Láctea. A idéia de que isso pudesse ter acontecido fez com que eu acordasse de vez. Encolhi as pernas, respirei profundamente e desci de cima da poltrona anatômica. Tolot acabara de levantar de um salto e saiu correndo em direção aos controles de emergência. Arrancou Cart Rudo da poltrona, deitou-o no chão e ajoelhou-se à frente dos controles vitais. O halutense estava pronto para entrar em ação. Poucas vezes tivera uma percepção tão nítida da força do supergigante como naqueles instantes. Os halutenses eram máquinas de guerra naturais. Nossas telas mostravam a imagem de um planeta semelhante à Terra. Vi gigantescas instalações industriais, portos espaciais enormes e grandes montanhas. Meu cérebro recusou-se a processar a descoberta importante que meus olhos acabavam de fazer. Mas não teve alternativa, diante das palavras calmas de Icho Tolot. — Cuidado, arcônida — disse ele. — Saímos perto do planeta de regulagem do hexágono solar do transmissor galáctico, ou seja, nas proximidades de Kahalo. Foi um rotineiro transporte direto do centro da nebulosa de Andrômeda para o centro da Via Láctea. Procure controlar-se. As seis pirâmides ficam lá embaixo. À sua esquerda está situado o grande porto espacial, cuja área não passava de um depósito de ferro velho coberto de vegetação quando chegamos aqui pela primeira vez. Fomos arremessados para o passado. Kahalo está no apogeu. Além de mim ninguém parecia desconcertado no sentido literal da palavra. Rhodan, que também usava um ativador celular e, como eu, acordara logo após a rematerialização, assobiava os primeiros acordes de uma melodia antiqüíssima, o que me fez ferver de raiva. Será que ele tinha de fazer de conta que tudo isso não lhe dizia respeito? Aquilo não o surpreendera? Perry fitou-me com uma expressão irônica. Provavelmente adivinhara meus pensamentos.

— Os terranos possuem uma qualidade que costuma ser chamada de imaginação, amigo! Se os inimigos pretendiam enviar-nos diretamente para a Via Láctea, só poderíamos ter saído mesmo perto de Kahalo, que é o ponto de materialização previsto, pensei que você soubesse disso. Cerrei os lábios e engoli a resposta violenta que trazia na ponta da língua. Rhodan tinha razão. De fato, só poderíamos ter saído perto de Kahalo. Kasom acordou, levantou da poltrona e aproximou-se cambaleante. Cart Rudo estava dando os primeiros sinais de vida. Dos mutantes, Ivan Ivanovitch era o único que começava a levantar-se. Senti que estava recuperando as forças bem depressa. De repente dei-me conta dos problemas galatonáuticos resultantes de nossa chegada à galáxia de origem. Não perdi tempo. Saí correndo em direção às escotilhas blindadas que davam para a sala ao lado, em que ficava o centro de rastreamento. As portas abriram-se automaticamente. A parede de aço, que sofrera um processo de condensação em virtude da prontidão de combate, iluminou-se e sofreu uma conversão molecular que a tomou transparente. O Major Enrico Notami continuava inconsciente. Atravessei a sala de rádio, separada da sala de comando por uma parede blindada. Ambas as salas ficavam no interior de um envoltório esférico que protegia os setores mais importantes da nave. O Major Kinser Wholey, chefe do serviço de rádio, já acordara. Levantou com um sorriso esquisito. Levantei o encosto de sua poltrona anatômica e examinei os principais controles a cargo de Wholey. Já vira no setor de rastreamento que a Crest estava imobilizada cerca de duzentos quilômetros acima das seis pirâmides pertencentes ao transmissor. O que significava isso? Geralmente as naves costumavam sair de um transmissor aproximadamente à mesma velocidade com que entravam no receptor. — Nenhum chamado, senhor. Já faz alguns minutos que acordei. Aquilo ali não é Kahalo? Confirmei com um gesto e maltratei a cabeça para descobrir por que não estava acontecendo nada. No planeta que se via lá embaixo enxameavam os seres vivos, que em minha opinião deviam ser tefrodenses. Havia milhares de espaçonaves esféricas estacionadas nos portos espaciais. Era um constante ir e vir. Certamente já fôramos detectados, e por isso não se compreendia que ainda não nos tivessem incomodado. Isso não combinava com o ânimo de destruição dos senhores da galáxia, que certamente eram a força dominante também nesta galáxia. Nunca nos teriam transportado para a Via Láctea, se não houvesse uma intenção bem definida atrás disso. — Imagino o que você deve estar pensando — disse a voz de Perry, saída do sistema de intercomunicação da nave, que voltara a funcionar perfeitamente — Também fico me perguntando por que não fazem nada. A julgar pelas indicações dos rastreadores, estamos no meio de um contingente de naves com pelo menos cinqüenta mil unidades pesadas. Caímos na armadilha, almirante! Se o comandante supremo deles der certa ordem, já éramos. Que diabo! Diga alguma coisa. Também sou apenas um ser humano e tenho meus sentimentos. — Ora veja! — respondi em tom de deboche. — De repente você descobre que tem nervos. Escute, terrano. Não sei por que a Crest III ficou parada e por que ainda não abriram fogo contra nós. Na minha opinião...

Fui interrompido por um estranho canto. As imagens projetadas na tela sofreram uma pequena distorção, mas mesmo assim se via que continuávamos no mesmo lugar. Por que Tolot não acionava os comandos de emergência, fazendo com que o ultracouraçado se afastasse à velocidade máxima? Dali a pouco chamei de idiota a mim mesmo. Se déssemos partida na nave, isso não adiantaria nada. O procedimento do halutense era correto. Por enquanto o melhor era não fazer nada. Tolot queria que o inimigo desse o primeiro lance neste estranho jogo. Queria principalmente ganhar tempo. Enquanto os tripulantes da nave estivessem inconscientes, a Crest não valia muito mais que uma nave cargueira sem armas. O canto tornava-se cada vez mais forte. Experimentei uma sensação esquisita nas pernas, mas esta não me incomodou nem um pouco. Em seguida ouvi os gritos mais apavorantes que já tinham tocado meu ouvido em toda a vida. Tudo começou com um rugido parecido com um trovão que se transformou num estrondo e terminou com a respiração estertorante do halutense. Até parecia um monstro pré-histórico morrendo das feridas que lhe tinham sido infligidas. Saí correndo. Cheguei à sala de comando e ainda vi o halutense contorcer-se em terríveis convulsões. Rhodan estava bem longe, segurando Kasom, que queria correr sobre o gigante enfurecido. Tolot ainda gemia. Seus olhos vermelhos perderam a expressão. De repente ficou calado, esticando-se todo rígido no piso de aço da sala de comando. Aproximei-me cautelosamente e encostei a mão em Tolot. Seu corpo era duro como pedra. — É um canto estranho! — disse Rhodan com a voz entrecortada. — Acho que acabo de ter a idéia mais certa. Eles ainda pensam que têm diante de si uma nave de guerra halutense. O canto era uma arma que só age sobre o corpo dos halutenses. Já compreendeu por que não usaram outras armas contra nós? Encontramo-nos num raio de teste, por assim dizer. Se a tripulação desta nave fosse formada principalmente por halutense, isto seria o fim. Voltei a tocar no corpo de Tolot. Naquele momento cerca de metade dos tripulantes já se tinham recuperado do choque. Era o suficiente para que a Crest estivesse em condições de entrar em combate, mas não com todo o poderio da nave. Meu cérebro suplementar manifestou-se. As palavras de Rhodan tinham provocado uma reação no setor lógico de minha mente. — O inimigo já concluiu o teste à procura dos halutenses. Certamente esperou encontrar membros deste povo. É bom que dêem um sinal de vida, senão...! Nem aguardei os últimos impulsos de informação. Corri para junto dos controles principais. Rhodan fitou-me com uma expressão de perplexidade, mas não demorou a compreender o que estava acontecendo. — Dê partida, Hefrich. Não, nenhuma pergunta. Dê partida com a potência mínima. Com a potência mínima, ouviu? O inimigo deve ver que ainda estamos vivos. Não saia tão depressa que eles tenham a impressão de que estamos fugindo. Devagar e com calma. As explicações serão dadas depois. Rhodan gritou, dando ordem para que Hefrich obedecesse às minhas instruções. Enquanto isso fiquei observando as telas do rastreamento. Os dados mais importantes colhidos por este eram transmitidos para a sala de comando. O espaço em torno de Kahalo estava atulhado de espaçonaves esféricas de todos os tipos. As maiores tinham mil e oitocentos metros de diâmetro. Os pontos de eco verdes

projetados nas telas dos rastreadores diziam mais que muitas palavras. Tínhamos rematerializado mesmo no meio de um contingente enorme da frota. Restava saber como continuariam as coisas. Os chefes dos setores de rádio e rastreamento nos mantinham constantemente informados sobre os dados fornecidos pelos instrumentos. Ainda não estavam atirando em nós, o que era um mistério que eu me esforçava em vão para resolver. Rhodan sentou na poltrona reservada para as batalhas. Fiquei parado à frente da grande tela de imagem para a qual eram transmitidos os dados recebidos pela sala de rádio. O comandante da KC-45 chamou. Só então me lembrei dos nove barcos espaciais que tinham sido atingidos pelos acontecimentos juntamente com a Crest. — Capitão La Rigon chamando comandante da nave-capitânia. O que houve mesmo? Ainda estamos vivos, ou já chegamos ao inferno? Fiz um sinal em direção à tela de imagem. — Sala de rádio, senhor — anunciou Kinser Wholey. — Transmitirei todas as ligações para a sala de comando. Faça o favor de responder à pergunta. La Rigon já pode vê-lo. Fiz outro sinal. Fiquei satisfeito ao ouvir nossas máquinas rugirem e a nave aumentar de velocidade. O fato certamente estava sendo registrado a bordo das espaçonaves desconhecidas. Tratei de responder logo ao chamado de La Rigon. — Ainda estamos vivos. Acompanhe as manobras da Crest III e não se espante com nada. Permaneça em nossa freqüência e preste atenção ao que vai acontecer daqui a pouco. Não quero pânico. Entre na nave juntamente com as outras corvetas assim que a situação tiver sido esclarecida. Desligo. Kinsey Wholey voltou a chamar. Os acontecimentos começavam a atropelar-se. Era estranho, mas eles despertavam minha curiosidade e sede de aventura e quase me fizeram esquecer a situação complicada em que nos encontrávamos. Por que o inimigo não atirava em nós? Por quê? — Sala de rádio, mensagem prioritária — disse o afro-terrano, paralisando todas as outras comunicações. — Estamos recebendo uma mensagem automática de Kahalo. Tenha cuidado, senhor. A mensagem foi transmitida na língua universal dos tefrodenses. Procure responder na mesma língua. Sobressaltei-me. Quer dizer que os seres com que nos defrontávamos eram mesmo tefrodenses. Dominávamos perfeitamente sua língua graças às memofitas de Kalak. Neste ponto não nos pegariam de surpresa. Lancei um olhar apressado para Perry e pedi-lhe que se colocasse à frente da tela. Os ocupantes da sala de comando fitavam-nos com uma expressão de ansiedade. — Cuide disso. Não conheço ninguém que saiba blefar tão bem quanto você. Se quiser diga que é o cacique de Andrômeda ou coisa que o valha. O importante é tirar a Crest da armadilha. Praguejava quase tão bem quanto Melbar Kasom, que estava arrastando o corpo endurecido de Tolot da área abrangida pela objetiva de televisão. Finalmente começou a ser transmitida a mensagem anunciada por Wholey. Um símbolo apareceu na tela. Representava uma barreira energética, que naquele momento se abria no meio, deixando livre o caminho.

— Centro de testes Tanta III chamando comandante nave longo alcance do sistema Tefa. Os senhores acabam de ser testados. Nada a objetar. Abandone a zona de rematerialização e fique sob as ordens do comandante local. Evacue a zona de entrada. Pus-me a refletir às pressas. Parecia que o dispositivo automático nos considerava uma espaçonave pertencente aos tefrodenses que habitavam a nebulosa de Andrômeda. Tínhamos sido examinados e o dispositivo chegara à conclusão de que não havia nenhuma objeção à nossa presença. As coisas começavam a ficar cada vez mais interessantes! Os senhores da galáxia certamente tinham cometido um erro. Qual seria? Em minha opinião, teria sido perfeitamente natural que depois dos acontecimentos em Vario nossa presença neste lugar tivesse sido previamente anunciada. O setor lógico de minha mente forneceu a resposta. — Houve um engano! O dispositivo automático local foi informado de que uma nave halutense se dirigia à galáxia. Para mim esta informação serviria de base ao jogo que iria começar. Dei-me conta de que teria de desempenhar o papel de comandante, custasse o que custasse. Rhodan saltou da poltrona, dirigindo-se a um lugar em que estava fora do alcance da objetiva. Não prestei muita atenção às informações dos chefes dos diversos setores da nave. Todos os tripulantes já tinham acordado. A Crest III voltara a transformar-se numa terrível arma de guerra. Dirigimo-nos em velocidade reduzida à zona de rematerialização indicada pelo dispositivo automático. A luminosidade dos pontos de eco verdes que correspondiam às espaçonaves desconhecidas era cada vez mais forte. O Universo parecia estar atulhado delas. De repente ouvi um berro formidável. O rosto estupefato de Wholey apareceu numa tela de cerca de vinte centímetros de diâmetro, que mostrava parte da sala de rádio. Mas o terrano levou apenas um segundo para controlar-se e logo entrou no jogo, sem que ninguém lhe tivesse dado instruções. O berreiro ainda continuava. Saía dos alto-falantes do videofone. — Chefe da sala de rádio falando, senhor — disse a voz de Wholey. A palavra “senhor” me deu um calafrio. O Major Wholey falara na língua tefrodense, mas assim mesmo usara esta palavra. Só me restou uma alternativa: dizer que se tratava de uma nova forma de tratamento usada na frota tefrodense. — Transferirei a ligação para a sala de comando, senhor — prosseguiu Wholey. — Um instante. O berreiro parou por alguns instantes, mas logo saiu dos alto-falantes acoplados à grande tela de imagem que ficava bem à frente de meu rosto. Levantei instintivamente e procurei adaptar-me à nova situação. Um homem de idade com barba prateada e cabelos grisalhos apareceu na tela. Usava um uniforme majestoso com divisas que eu não conhecia e numerosas condecorações. Devia ser o comandante local. O homem possuía a pele marrom-aveludada típica dos tefrodenses e seus olhos inteligentes pareciam brilhar sob a ação de um fogo interior. Não sei por quê, mas o fato é que não tive a menor dúvida de que não se tratava de um dos duplos que estava acostumado a ver. A cabeça daquele homem não combinaria com a imagem de um duplo. — Será que o senhor enlouqueceu de vez, seu tefrodense de uma figa? — berrou o homem uniformizado e bateu com o punho fechado numa mesa que eu não via.

Fiquei perplexo. O tratamento pouco amistoso mostrava que o comandante local não se considerava um tefrodense. Que mais poderia ser? — Você se esquece do fator tempo! — transmitiu meu cérebro suplementar. — Sabe em que época nos encontramos? Talvez seja aquela em que foi colonizada a nebulosa de Andrômeda. Comecei a enxergar claro, ou pelo menos pensei que estivesse. — Perdeu a língua? — gritou o homem de barba branca com a voz ainda mais forte. Pareia furioso. — O que está pensando? Onde já se viu atrapalhar a formação das naves, ainda mais que seu aparecimento não estava programado? O senhor ainda não sabe que o império lemurense está lutando pela sobrevivência? Certamente não ignora que teremos de enviar trinta bilhões de fugitivos através do transmissor principal, para que fiquem em segurança no lugar em que seu avô se viu seguro há noventa e dois anos, tempo padrão. Foi uma sem-vergonhice bloquear o transmissor e ainda por cima esperar calmamente que o teste fosse concluído. Por que não trata de acelerar logo sua nave? A situação estava se esclarecendo. Lancei um olhar ligeiro para o rosto pálido de Rhodan. O Administrador-Geral parecia imaginar uma porção de coisas. Fiquei em posição de sentido e fiz continência à moda terrana, já que não conhecia o cumprimento tefrodense. — Capitão Atlan, comandante do ultracouraçado tefrodense Crest III — respondi em tom áspero. — O motivo da demora é perfeitamente compreensível, senhor. Respeito seus canhões. O rosto do homem de barba branca assumiu uma expressão zangada. Dois ou três homens que se encontravam atrás dele riram. Não os via, mas eu simpatizava com eles. — É a melhor desculpa para uma falha tática que já ouvi. Parece que vocês aprenderam alguma coisa, seus colonos ilhéus. Sou o Almirante Hakhat, comandante supremo da área do transmissor central. Que forma de tratamento esquisita é essa que vocês estão usando? — E um tratamento adotado há pouco tempo, válido somente para os oficiais, senhor. A palavra usada evita perdas de tempo, é fácil de guardar e evita que durante a batalha os subordinados tenham de desfiar títulos longos. O velho estreitou os olhos e fitou-me demoradamente. Minha imagem devia aparecer na tela até os joelhos. — Nada mau — respondeu, esticando as palavras. — A nave gigante que o senhor está comandando também é um produto das novas idéias? A situação começava a ficar crítica. Não sabíamos se as ligações entre os tefrodenses e os súditos do império lemurense na época eram muito estreitas. O que podia ou devia saber este almirante sobre as espaçonaves construídas por estes tefrodenses de uma época distante que, segundo parecia, tinham sido os primeiros a fugir da Via Láctea, motivo por que sua fama não era muito boa? Resolvi jogar todos os trunfos. Não havia alternativa. Só me restava continuar a blefar, levando o almirante a fazer perguntas esclarecedoras. — De certa forma, senhor. A Crest III foi construída em segredo. A construção durou vinte e quatro anos de Tefa. Dentro em breve aparecerão algumas naves irmãs. Um sorriso irônico apareceu no rosto do almirante, que virou o rosto, dirigindo algumas palavras aos homens que se encontravam atrás dele. Não ouvi o que dizia. — Compreendo — prosseguiu. — Mais de uma vez já nos mandaram naves tefrodenses tripuladas por tefrodenses para ajudar-nos. Não foi uma grande ajuda. Seu armamento deixa a desejar. Suponho que também tenha recebido ordens de dar uma

ajuda aos pobres lemurenses. A vigésima quarta ofensiva em grande escala dos halutenses acaba de ser lançada. Recomendo encarecidamente que não exponha muito ao fogo de uma nave halutense pesada essa lata de conservas que é grande, mas não deve servir para muita coisa. Posso garantir que os comandantes das frotas metropolitanas não estariam dispostos a, depois de noventa e dois anos de guerra fulminante, dar ordem para evacuar mais de quinhentos planetas habitados, se ainda houvesse uma chance de domar as feras halutenses. Mandarei fazer um necrológio honroso para o senhor, no qual faremos justiça à sua boa vontade. É só o que posso fazer pelo senhor, comandante. Não posso destacar oficiais com experiência no front para corrigir as medidas erradas que certamente tomará, nem tenho possibilidade de colocar à sua disposição uma flotilha de cruzadores ligeiros para proteger seu flancos. Vamos! Saia logo daí. Esperamos uma nave de guerra halutense, que deverá ser removida através do transmissor. — Como? — balbuciei, estupefato. O almirante voltou a ficar furioso, o que me deixou satisfeito, pois assim ele contava mais coisas. — O senhor ainda não se deu conta de que depois de ter rematerializado foi testado por uma nova arma? Se fossem halutense, estariam irremediavelmente perdidos. Trata-se de um emissor de raios de ressonância especialmente adaptado para a estrutura cristalina dos halutenses. Eles caem ao chão, imobilizados. Mas não me pergunte como uma nave halutense pôde chegar à galáxia. Deve ter conseguido, senão não seria irradiado para cá pelo transmissor central da galáxia. Comecei a ficar tonto. Já sabia por que não tinham atirado em nós. O tráfego de espaçonaves entre Andrômeda e a Via Láctea era tão intenso que ninguém sabia exatamente quando chegava uma nave inimiga. Por isso Hakhat esperara, e por isso mesmo tínhamos sido atacados somente com a arma cantante. Precisava descobrir mais alguma coisa e resolvi assumir um pequeno risco. — Não nos subestime, almirante. Pois eu já sabia que uma nave halutense conseguiu chegar a Andrômeda. Mas o fato de ela ter caído em nossas mãos me surpreende. — Posso garantir que não caiu nas mãos dos tefrodenses — respondeu Hakhat em tom sarcástico. — Não se esqueça que há algum tempo existe uma frota lemurense na área central de Andrômeda. As circunstâncias devem ter facilitado o apresamento da nave halutense. Gostaria de saber uma coisa. O senhor não acha que já está na hora de abandonar a zona de transporte? Se não sair dentro de três minutos, enviarei o próprio grupo de transporte. Acho que isso não lhe fará muito bem. A propósito. Quem deu ordem para que fizesse esta viagem? Algum almirante? Qual é seu nome? Ouvi Rhodan cochichar ordens. Para ele, nosso destino estava selado. Mas encontrei uma desculpa. — Não foi nenhum almirante tefrodense, senhor. Estou subordinado ao novo comando especial dos reformistas militares dirigidos pelo grande conselho de Akulil. Fui autorizado para apresentar aos oficiais mais importantes da frota metropolitana algumas propostas detalhadas sobre uma eventual colaboração com o conselho revolucionário dos reformistas militares e... — Pare com isso — gritou o almirante num novo acesso de raiva. — Não venha me dizer que o senhor acredita que durante a luta com os gigantes halutenses nos deixaremos atrelar ao carro de um grupo qualquer de revolucionários, que se encontram em segurança na galáxia vizinha graças às medidas de segurança adotadas em nossos transmissores. Dê o fora. Não quero ver mais sua cara.

— O senhor está cometendo um erro — respondi em tom insistente. — Recebi ordens terminantes de descobrir e destruir o mundo de origem dos halutenses. Minha nave é... Mais uma vez fui interrompido, mas desta vez pela gargalhada mais homérica que já ouvira em toda a vida. As gargalhadas estrondosas de pelo menos quarenta mil lemurenses se fizeram ouvir. Eram homens endurecidos nas lutas e oficiais espaciais muito competentes. Só então percebi que os comandantes das unidades estacionadas na área tinham acompanhado a palestra. As gargalhadas estrondosas duraram algum tempo. Os cavalheiros pareciam vergar o corpo, de tanto que se divertiam com o que eu acabara de dizer. Até mesmo Hakhat ria tanto que as lágrimas molhavam sua barba. Vi pelo canto dos olhos o sorriso sarcástico de Rhodan. Certamente não imaginara que a conversa fosse terminar assim. Nem eu, diga-se de passagem! — Destrua os tefrodenses, destrua-os! — disse o barba branca depois de algum tempo. — Por Zeus, que se transformou num círculo cósmico de gases, um otimista como o senhor é uma raridade. A evidente franqueza de suas palavras até faz com que me sinta inclinado a pedir desculpas pelas palavras rudes que usei. Vá em paz, procure os conselheiros de Lemur e tente obter seu apoio para a revolução interna de que o senhor participa. Dificilmente será bem-sucedido. Conhece as coordenadas do nosso sistema, não conhece? O último comandante tefrodense que apareceu aqui para oferecer sua ajuda na luta contra Halut não conhecia. Os comandantes das naves ainda estavam rindo. Naturalmente minha imagem aparecia em suas telas. Rhodan voltou a ficar nervoso. Como poderia eu conhecer as coordenadas do lendário planeta chamado Lemur? Mais uma vez fui ajudado por meu cérebro suplementar, que prestou uma informação que me fez empalidecer. De repente tive a impressão de que sabia tudo. — O senhor está mesmo me subestimando — disse em tom frio. — A distância é de 51.222 anos-luz. A rota é conhecida. Ainda peço permissão para informar que durante uma operação realizada no centro de Andrômeda obtive certas informações sobre o mundo dos halutenses. Hakhat fez um gesto de pouco-caso. Não notou a expressão ansiosa em meu olhar. Será que a distância que acabara de indicar era correta? Em caso negativo, teria de encontrar logo um bom motivo para o erro. Mas não tive este trabalho. — Está certo. O senhor parece mais bem informado que os outros. Tome cuidado para não se colocar à frente dos canhões de uma frota halutense. Deve haver um controle de destruição em sua nave, não é mesmo? De repente seu rosto assumiu uma expressão dura. Comecei a desconfiar de que houvesse mais alguma coisa. — Naturalmente, senhor. — Pois siga as instruções que lhe foram dadas. Halut ainda não conhece a posição do planeta de regulagem. Nunca se deve permitir que os respectivos registros caiam nas mãos dos monstros, senão poderemos tratar de dar o fora daqui. Além disso é bom o que o senhor saiba que os halutenses estão usando armas de um novo tipo. Acho que seu governo nem ouviu falar nisso. Usam campos defensivos com novas características. Trata-se de campos energéticos que se modificam periodicamente, a intervalos muito breves. Sejam quais forem as armas usadas, é pouco provável que encontrem um lugar

em que seus raios energéticos possam penetrar. Isso só poderá acontecer por um incrível acaso. Desviem-se deles sempre que puderem. Se realmente quiserem ajudar-nos, dirijam-se a Lemur e coloquem de três a cinco mil fugitivos da classe A a bordo de sua nave. Cinco mil técnicos e cientistas resgatados são mais importantes para nossa reconstrução que um ataque desfechado pelos senhores, que não poderá durar mais de um minuto. Siga meu conselho, Capitão Atlan. Simpatizo com o senhor, embora ainda esteja bloqueando minha via de transporte. Vamos logo! Saia daí. Seu engenheiro de máquinas é um homem muito ligeiro. Mais uma vez ouviram-se gargalhadas saídas de um sem-número de bocas. Sem querer, fiquei vermelho de raiva. Se esse almirante soubesse com quem estava lidando e como eram rápidas as reações das tripulações de elite, ele não derramaria sua ironia causticante sobre mim. Rhodan voltou a sorrir. O bárbaro parecia sentir-se muito bem no papel de observador. A Crest III arrancou violentamente, saindo do campo de transmissão situado em cima das pirâmides retransmissoras de Kahalo. A comunicação com a nave-capitânia do Almirante Hakhat foi interrompida. Em compensação um de seus subordinados chamou pelo rádio normal à velocidade da luz. Era um jovem de traços enérgicos. Encostou a mão direita aos lábios e moveu-a para a frente, mantendo os dedos esticados. Era uma forma de comprimento semelhante à que eu encontrara na velha índia dos terranos. — Capitão Tuthlan, comandante do cruzador ligeiro Helipos. Escoltarei os senhores através das esquadrilhas de patrulhamento, senão ainda acabarão sendo derrubados. São ordens, senhor. Lancei um olhar contrariado para a imagem projetada na tela. No íntimo sentia-me exultante. Tínhamos ganho a parada. — Muito obrigado por suas palavras amáveis, capitão. Mas não será tão simples derrubar-nos. Permite que ative meus campos defensivos? — Naturalmente. Eles não nos impediriam de fazer o que quiséssemos. Não deixe embalar-se em falsas esperanças pelas dimensões daquilo que o senhor chama de supercouraçado. A quantidade é uma coisa, a qualidade é outra coisa bem diferente, enfrentamos uma guerra de noventa e dois anos e aprendemos mais que os senhores. Não digo isto para ofendê-lo. Faça o favor de acompanhar-me. Acelerei com a metade de nossa capacidade, para que não fique para trás. Com essa caixa pesada o senhor nunca passará de... — disse um número que não compreendi. — Haja o que houver, não use o hiper-rádio para não ser detectado pelos rastreadores. Alguns grupos de naves halutenses foram detectados nas imediações. Procure dirigir-se ao planeta de regulagem da constelação do transmissor. O senhor certamente sabe que esta estação existe. — Entendido. Poderia fazer a gentileza de ainda me dar algumas informações antes de nos separarmos? — Recebi ordens para isto. Não queremos que voe para a própria desgraça. Procure apressar-se. A nave halutense cuja chegada foi anunciada poderá sair do transmissor a qualquer momento. Acho que não será difícil imaginar o que acontecerá em seguida. — Quem trouxe a notícia da chegada dessa nave? — Uma nave-correio vinda da galáxia vizinha — respondeu meu interlocutor prontamente. Mais um segredo acabara de ser resolvido.

Rhodan vivia dando ordens. O cruzador ligeiro dos lemurenses acelerou. A aceleração era de duzentos quilômetros por segundo ao quadrado. Tive de sorrir. Se essa gente soubesse do que era capaz a Crest III! — Muito bem. Vejo que consegue acompanhar-me — disse o comandante do cruzador e desligou. Atravessamos as falanges formadas pelas naves-patrulha lemurenses e dentro de menos de trinta minutos atingimos o espaço livre. Não se via mais Kahalo nem o sistema de Orbon. A profusão de sóis do centro galáctico apagara a estrela amarela com seus astros. O cruzador ligeiro despediu-se pelas 14 horas, tempo de bordo. Neste meio tempo descobrira tudo que queria saber. Vi que a avaliação que fizera de Perry Rhodan era correta, as coordenadas da rota já tinham sido calculadas. Aceleramos por algum tempo e entramos imediatamente no espaço linear. Mas antes disso Rhodan chegou perto de mim. Estava com o corpo duro e arrastava os pés. Quando vi seu rosto pálido, soube qual era a pergunta que iria formular.

7
Relatório de Atlan
Estava parado à minha frente, sem saber o que dizer. Fazia dois segundos que a nave-capitânia da frota terrana entrara no semi-espaço, onde estava a salvo da perseguição. Prestei atenção ao zumbido das máquinas, que aqui, no semi-espaço, estavam submetidas a leis bem diferentes que no universo einsteiniano. Nossa velocidade era um milhão de vezes superior à da luz. Também me sentia profundamente emocionado, mas assim mesmo tive pena de Perry. Para ele a idéia da realidade representava o golpe mais duro que já sofrera em sua carreira. Segurou meus braços com ambas as mãos e apertou-os com tanta força que os fez doer. — A interpretação lógica realizada pelo centro de computação positrônica, que funcionou ininterruptamente, chegou ao mesmo resultado. Atlan... — sua voz tornou-se embargada, e um véu parecia cobrir aqueles olhos cinzentos que eu amava tanto. — Diga-me uma coisa, amigo. Como soube de repente onde fica o planeta Lemur? O computador positrônico forneceu o mesmo número que você. O que fica a 51.222 anosluz de Kahalo é a Terra, Atlan! O Sistema Solar! Não existe a menor possibilidade de engano. Como soube disso tão depressa? Soltei suavemente meus braços e pus a mão em seus ombros, que tremiam fortemente. Os outros ocupantes da sala de comando pareciam profundamente abalados. — Já vivi alguns milhares de anos mais que você, amigo. Para mim Lemur representa um conceito bem definido, encontrado nas lendas terranas. Você sabe perfeitamente que muitas vezes as lendas vão ao núcleo do problema. Passam de geração a geração. O conceito Lemur identifica-se com o de Lemúria, o lendário continente terrano que, segundo se diz, mergulhou muito antes de Atlântida naquilo que hoje é o Oceano Pacífico. Acredita-se que as ilhas da Páscoa com suas estranhas esculturas e a fauna ainda mais estranha sejam o último remanescente deste continente. O desaparecimento de Lemúria deve ter-se verificado antes de minha chegada à Terra. Muito antes. Faz dez mil anos que cheguei ao planeta Terra. Na época os habitantes de Atlântida já contavam a história de Lemúria, cujos habitantes, segundo diziam, eram um povo muito poderoso. Foi por isso que indiquei a distância a que fica a Terra. E, como vejo, agi acertadamente. — Isso ainda acaba deixando-me louco — disse Perry em voz baixa. Suas mãos tremiam. — Não vai, não. Sabemos perfeitamente que fomos arremessados para o passado. E bem mais longe do que acreditávamos. Pelos meus cálculos devemos ter recuado uns quarenta mil anos. — Não! — exclamou Perry com um gemido. — Sim. Não há dúvida. Icho Tolot contou que seu povo já dominou a galáxia, mas acabou se curando da sede do poder e desistiu voluntariamente da hegemonia que exercia. Segundo o relato de Tolot, isso deve ter acontecido há cerca de cinqüenta mil anos, tempo padrão. Não está vendo as coincidências? Os lemurenses são os ancestrais

dos homens de hoje, Perry. Estamos assistindo ao seu desaparecimento, à fuga para a nebulosa de Andrômeda que só se tornou possível graças à formidável técnica dos transmissores que dominavam. Os tefrodenses de hoje, isto é, os que existem no tempo real que perdemos em virtude da ação de Vario, são os descendentes dos emigrantes daquele tempo. A Terra certamente foi despovoada pelas frotas invasoras dos halutenses, que a usaram por algum tempo como base e mais tarde voltaram a abandoná-la. Até sou capaz de arriscar outra hipótese, baseado no medo quase ridículo que assalta qualquer tefrodense quando vê nosso amigo Icho Tolot. Está lembrado das operações que realizamos na galáxia Andrômeda? Perry olhou-me com a expressão de quem pede compaixão. Prossegui com a voz mais calma de que fui capaz. — Não existe a menor dúvida de que os senhores da galáxia possuem um centro de controle de tempo regulado para essa época. Cometeram um erro: pensaram que fôssemos halutenses, anunciaram nossa chegada e esperaram que fôssemos destruídos imediatamente pela nova arma ou pela frota de Hakhat. Tenho certeza de que os originais dos duplos existentes no tempo real são da época em que nos encontramos atualmente. Os homens mais competentes da frota lemurense são selecionados, enviados para Andrômeda através do transmissor, transportados para o tempo real pela armadilha do tempo de Vario e multiplicados em naves ou planetas duplicadores. Dessa forma os senhores da galáxia conseguem tripulações inteligentes e corajosas nas lutas contra os maahks. É um sistema diabólico, mas parece que funciona muito bem. — Você está louco! Está imaginando coisas. Bati nos ombros de Perry e lancei um olhar para o chefe da equipe médica, que acabava de entrar na sala de comando. — O halutense acordou — disse o Dr. Ralph Artur laconicamente. — Apresenteilhe imediatamente a gravação em fita da conversa que Atlan teve com o Administrador. Icho Tolot está fora de si. Afirma que devemos ter sido arremessados pelo menos cinqüenta mil anos para o passado, pois foi nessa época que seus ancestrais selvagens conquistaram a galáxia a ferro e fogo. Ainda afirma que a Humanidade desse tempo, ou seja, os lemurenses, eram, depois de Halut, o poder mais forte da Via Láctea, tendo resistido por cerca de um século ao expansionismo halutense. Tolot ainda diz que acreditaram em nossa nave fosse um veículo halutense, que tivesse penetrado por engano na segunda galáxia através do transmissor, causando estragos por lá. Tolot já compreende por que os senhores da galáxia se comportam de forma tão estranha. Lembraram-se de um inimigo poderoso que enfrentaram no passado. Tolot acha que é tecnicamente possível que no caos reinante naquela época tenham acontecido incidentes desse tipo. A Crest III atravessava em velocidade alucinante o tempo e o espaço, em direção à Terra distante, que na época era chamada de Lemur. Conhecíamos perfeitamente o caminho, pois já tínhamos percorrido mais de uma vez. Era bem verdade que isso acontecera cinqüenta mil anos mais tarde. Discussões violentas surgiram entre os tripulantes. Isso não me preocupava. Os terranos possuíam estabilidade psicológica. Provavelmente os cinco mil tripulantes pensariam menos nos perigos que no caminho que nos traria de volta. A rápida adaptação às mais diversas situações era uma das características dos terranos. A interpretação dos dados continuou a ser fornecida. Nossos computadores já possuíam um volume suficiente de informações básicas. E constantemente os alimentávamos com outras.

Rhodan não demorou a recuperar-se da surpresa. Quando conseguiu digerir os fatos apavorantes, convocou uma reunião de oficiais. Os cientistas da nave também foram convidados para participar da mesma. Mas antes disso retornamos ao universo einsteiniano, fizemos a determinação de nossa posição e finalmente recolhemos as corvetas, que nos tinham acompanhado, seguindo as ordens que tinham recebido. Pesamos os prós e os contras, pedimos a opinião de Tolot e chegamos à conclusão de que não conseguiríamos blefar mais uma vez conforme eu fizera. — Você é o mentiroso mais ousado que já vi — disse Rhodan. — Eu provavelmente não teria sido capaz de uma coisa dessas. A invenção dos reformistas militares foi uma verdadeira obra-prima. Sem isso, Hakhat teria pedido nomes que você não conhece. E ao dizer que queríamos destruir o mundo dos halutenses você foi ainda mais hábil. Um homem que ainda é capaz de soltar uma estrondosa gargalhada geralmente é um ser pacato. Ao que parece, os colonos de Tefa não eram gente muito boa. Os lemurenses os toleravam, mas não queriam muita coisa com eles. Nosso problema é entrar no transmissor e voltar à nebulosa de Andrômeda. Uma vez feito isso, poderemos cuidar da armadilha do tempo, que certamente já existia naquela época. Seria ridículo se não encontrássemos um meio de desfazer a transposição no tempo. Devemos cuidar-nos dos agentes do tempo que estão a serviço dos senhores da galáxia. Eles de fato existem. E na época atual certamente possuem uma tropa de vigilância. E neste momento esta tropa já deve saber que conseguimos escapar usando um truque. Quando chegarmos perto da Terra, teremos de ficar com os olhos e os ouvidos bem abertos. Homens como o Almirante Hakhat são muito competentes. Rhodan fitou-nos com uma expressão indefinida. — Seria mesmo de admirar se não fossem — disse em tom confiante. — Afinal, são nossos antepassados. Nosso matemático-chefe, o Dr. Hong Kao, um homem que sempre tinha uma idéia nova, disse em tom pensativo: — Hum! Onde estavam os arcônidas há cinqüenta mil anos? Uma coisa é certa. Os arcônidas eram um povo que se separou dos aconenses. Onde estavam os aconenses? Será que eles tem uma história de cinqüenta mil anos? Em caso afirmativo é perfeitamente possível que, dada sua semelhança com os humanos, que se reconhece até hoje, tenham sido descendentes dos colonos lemurenses daquele tempo, que por acaso escaparam ao ataque dos halutenses. Dali se conclui, meu caro lorde-almirante, que os arcônidas, que descendem dos aconenses, são por sua vez descendentes dos lemurenses que foram salvos naquele tempo. Desta forma, senhor os terranos seriam descendentes dos lemurenses que conservaram a pureza da raça, enquanto o senhor e todo o povo arcônida são uma ramificação que sofreu uma mutação. Desta forma, conforme prova a rainha das ciências, a matemática, somos seus antepassados. Fiquei perplexo, ainda mais que meu cérebro suplementar afirmou que aquilo que Hong Kao acabara de dizer era verdade. Vi um grupo de terranos com um sorriso presunçoso no rosto, que me fitavam como quem quer dissecar alguém com os olhos. Rhodan voltou a falar. — Nunca mais diga que sou um selvagem das cavernas, cujos antepassados ainda comiam bichos arrancados das cascas das árvores. Se isso realmente aconteceu, foi por acaso. O povo de que vocês descendem, os aconenses, simplesmente não mereceu a atenção dos halutenses. Há vinte mil anos os arcônidas se separaram dos aconenses e fundaram seu próprio império. Dez mil anos depois mandaram você fazer uma viagem, e

em Árcon ninguém podia saber que você se dirigiria ao mundo de origem de seu povo. Os verdadeiros terranos-lemurenses tiveram de recuperar as conquistas dos antepassados, uma vez que nosso planeta tinha sido ocupado pelos halutenses. Vocês e os aconenses não passaram por isso. Diabo! Já compreendi tudo. Vocês podiam mesmo fazer espalhafato com suas espaçonaves. Não passaram alguns milênios atravessando as seqüelas da guerra. Fiquei tonto. Fitei os homens com uma expressão distraída e fiquei sem saber o que dizer. — Como vai, netinho? — disse o ertrusiano Melbar Kasom com um sorriso de deboche. Fiquei furioso. Nem mesmo minha memória fotográfica registrou todas as palavras que despejei em cima dessa turma maliciosa. Enquanto falava, tive a certeza de que a interpretação dos fatos feita por essa gente tornava-se cada vez mais forte. Lembrei-me de que Rhodan tivera um filho com uma arcônida chamada Thora, o que não seria possível se, apesar da semelhança exterior, houvesse uma diferença biológica fundamental entre os dois. Era o que dizia uma lei natural que se aplicava a todas as formas de vida. Rhodan teve a mesma idéia. Lembrou seu filho Thomas, que morrera como rebelde e criminoso. Saí da sala de sessões, bastante agitado e próximo a um desmaio. Será que as coisas realmente se tinham passado assim? Era o que dizia a lógica. Mas todas as fibras de meu ser se revoltavam contra a idéia de que eu pudesse ser um descendente mutado de antigos colonos lemurenses. Por ocasião de um pouso forçado na Lua terrana, que se verificara no ano 1.971, Crest e Thora transmitiram a ciência arcônida à Humanidade, que ainda vivia em estado primitivo. Teria sido por acaso? Ou fora obra do destino? Talvez na oportunidade não tivéssemos feito outra coisa senão restituir aos terranos a herança que lhes cabia, depois de vários milênios. Parei na frente do meu camarote. Apoiei-me na parede. Respirava com dificuldade. Comecei a sentir-me mal. As escotilhas abriram-se automaticamente. Entrei correndo e expulsei o criadorobô, que me recebeu com um sorriso amável. Fui ao banheiro. Levei trinta minutos para recuperar-me a ponto de poder pensar claramente. Por Árcon III, o mundo guerreiro do velho Império, será que era uma vergonha descender dos homens do planeta Terra? Pouco importava que se chamassem de terranos ou lemurenses. Não. Isso até enobrecia a pessoa. Ninguém melhor que eu, que vivera e trabalhara dez mil anos com eles, para saber disso. Fiquei surpreso ao notar que estava sorrindo. Levantei e olhei no espelho. — Como se sente, seu selvagem das cavernas? — perguntei a mim mesmo. Olhei para trás, apavorado. Tomara que ninguém me tivesse ouvido. Troquei o uniforme suado e voltei à sala de comando. No caminho encontrei-me com alguns homens que me olharam com uma expressão tão esquisita que meu estômago voltou a fraquejar. Subi à plataforma de comando todo empertigado, ignorando os olhares dirigidos a mim. Rhodan virou a cabeça. Acabávamos de retornar ao universo einsteiniano, para determinar nossa posição e fazer a correção da rota. O próximo sol de referência ficava a cinco mil e trezentos anos-luz.

Fiz um sinal para os cosmonautas que trabalhavam no computador de coordenação. — Olhe bem para eles — disse a Rhodan. — Um cérebro de bárbaro é que nem uma esponja. Aceita tudo. Aprenderam depressa. Sou muitos anos mais velho que qualquer tripulante desta nave que se atreve a fazer pouco de mim. Exija que me tratem com a devida cortesia, senão travarão conhecimento com os punhos de um almirante arcônida que se conservou jovem. Entendido? — Entendido, vovô — confirmou Rhodan. — Pois é. Vá para o inferno. — O diabo não gostaria de mim. — Mesmo que eu não acreditasse em nada do que você diz, nisso eu acredito. Tirei o rádio-capacete, passei a mão pelos cabelos e diverti-me com os rostos alegres dos terranos. — Coronel Melbar Kasom...! — berrei. Rhodan estremeceu e fitou-me com um gesto de reprovação. Em vez de Kasom, Gucky veio arrastando os pés. Exibiu seu dente roedor. Parecia alegre. — Como vai a saúde, imperador aposentado? — Cale essa boca atrevida. Já joguei um galho podre na sua cabeça. Está lembrado? Foi em Vênus. Gucky estava lembrado. Seu rosto de camundongo transformou-se numa máscara. — Você teve sorte por eu não o ter pegado! — disse em tom sombrio. — Já faz uns quatrocentos anos, mas ainda não me esqueci deste episódio vergonhoso. Você cometeu um ato de lesões corporais de propósito. — Isso mesmo. Ele perdeu metade da inteligência — resmungou Kasom, que acabara de aparecer. Gucky virou a cabeça. Estava furioso. Quando viu o ertrusiano, limitou-se a fazer um gesto de pouco caso. Voltou ao lugar em que estivera descansando e começou a falar em tom solene. — Sou oficial de patente especial e estamos numa missão. Quando tivermos saído das dificuldades, você vai ver o que é bom. Melbar cuspiu no chão, enfiou a mão no bolso e tirou uma metade de galinha assada. Estendeu-a a mim com um sorriso radiante. — São mantimentos da USO pertencentes à minha despensa pessoal — disse em tom enfático. Agarrei ansiosamente o pedaço de galinha e dei uma mordida na coxa. Rhodan fitou-me como quem tem apetite, Cart Rudo passou a língua pelos lábios e um jovem tenente, que há meses não vira outra coisa senão o mingau sintético servido a bordo, soltou um gemido. Deixei-me cair na poltrona mais próxima, cruzei as pernas e mastiguei ruidosamente. — Pois é — disse a Kasom. — Às vezes a gente tem de mostrar a estes selvagens das

cavernas como se deve viver. O senhor ainda deve ter uma trufa verdadeira, não é, especialista Kasom? Os terranos me tinham maltratado, mas agora era a vez deles. Comemos as iguarias mais deliciosas tiradas do gigantesco recipiente que Kasom levava consigo. Só paramos quando a revolta parecia iminente na sala de comando. Kasom riu tanto que as lágrimas brotaram de seus olhos. Quanto a mim, recuperara a paz de espírito. Quer dizer que era mesmo descendente dos lemurenses. E daí?

8
Relatório de Atlan
A manobra seguinte nos faria retomar ao universo einsteiniano perto da órbita de Plutão. A simples idéia me provocou calafrios. Icho Tolot já estava perfeitamente recuperado. Disse que por pouco as vibrações do novo emissor de ressonância não o tinham matado. Dali se concluía que pouco antes da derrota final a Humanidade ainda chegara a criar uma arma que, se tivesse sido utilizada mais cedo, sem dúvida teria rechaçado as investidas dos halutenses e provocado uma virada na guerra. Provavelmente o emissor de ressonância ainda fora usado muitas vezes, mas o local secreto em que era fabricado certamente fora destruído por uma frota halutense antes que pudesse ser iniciada a produção em grande escala. Era uma explicação bem convincente. Uma série de experiências tristes me tinha ensinado que as armas mais eficientes geralmente só são inventadas no fim da guerra. Tolot teve sorte. Compreendera imediatamente a situação e conseguira, numa reação-relâmpago, modificar as moléculas de seu organismo antes que fosse tarde. Se não fosse assim, a esta hora não estaria conversando conosco. A potência do conversor de compensação kalupiano fora reduzida. Dessa forma a velocidade durante o vôo linear não seria tão elevada. Permaneceríamos mais algum tempo no semi-espaço, para retornar ao universo einsteiniano na periferia do Sistema Solar. O gigante halutense tinha, em média, mais 1,75 de altura que os terranos. Tinha três metros e meio e a largura de seu corpo equivalia à de uma das escotilhas blindadas da sala de comando. Sabia perfeitamente que, apesar de seu aspecto, este ser sentia-se desesperado. Os halutenses do nosso tempo real eram criaturas pacatas, que só vez por outra se deixavam levar pela sede de aventuras que era uma das suas características. Chamavam a isso de lavagem forçada. Tolot era o exemplo típico de um lutador individual halutense, que saía galáxia a fora, em busca de experiências perigosas. Ficou de pé junto à mesa de reuniões. Parecia um professor ao ensinar tudo que sabia sobre os acontecimentos daquela época. Na verdade, não estávamos em outra época, pois o deslocamento do tempo nos levara a pertencer a essa época agitada, na qual Lemur foi destruído e Halut passou a dominar a Via Láctea. — Sei que meus antepassados se defrontaram com um grande povo, que nos primeiros cinqüenta anos de guerra ofereceu uma resistência tão obstinada que o perigo da destruição total do povo halutense se tornou iminente. Mas mais tarde a sorte da guerra virou a nosso favor. Não sabia que os atuais terranos descendem deste povo. Nunca se esqueça de que estão lutando contra seres que morreram há muitos anos. Isso servirá de consolo aos senhores e também a mim. Sua voz retumbante silenciou. Os conhecidos complexos maternais voltaram a tomar conta de Tolot. A humanidade do tempo real era por assim dizer seu hobby. Tomara conta de seu coração — ou melhor, de seus dois corações. Tolot era um ser unissexual. Para ele, todo terrano era um pequenino ser. E, como essa idéia tomara conta de sua mentalidade, os acontecimentos deviam deixá-lo muito mais agitado que a nós.

— Não o estamos acusando por isso, amigo — enfatizou Perry. — Prossiga, por favor. Tolot abriu os quatro braços. Seus olhos voltaram a mostrar o brilho vermelho que se estava acostumado a ver neles. Destacavam-se que nem bolas de fogo no gigantesco crânio coberto de pele negra. — O senhor tem razão. Na situação em que nos encontramos, os fatores de ordem moral devem ocupar uma posição secundária. Gostaria de falar sobre o deslocamento no tempo. Nossa transferência para o passado foi realizada graças à geração de um campo em que prevalece o zero absoluto. Este campo resultou da ação de um conversor do tempo cujas necessidades energéticas só podem ser satisfeitas por um grande sol. Vario não passa de um gerador de campo de conversão de proporções gigantescas. O conversor rompe a curvatura da sexta dimensão e dos diferentes planos temporais, mas não modifica o respectivo eixo de coordenadas. As pesquisas halutenses, que hoje em dia são proibidas, provam que qualquer modificação do eixo das coordenadas temporais provocaria uma catástrofe. O retrocesso dos acontecimentos provocaria um deslocamento do plano em que fica situado o eixo. Este deslocamento seria tão acentuado que se chegaria a um tempo paralelo, no qual prevalecem graus de evolução bem diferentes dos nossos. Poderíamos, por exemplo, encontrar a Terra habitada por macacos inteligentes, onde o homem seria exposto em jaulas, para servir de alvo à admiração geral. Nosso imediato, o Tenente Brent Huise, deu uma gargalhada. Quando viu nossos rostos sérios, silenciou com um pigarro embaraçado. Tolot fez girar o corpo que pesava algumas toneladas e aproximou-se. Sua palestra de duas horas parecia ter chegado ao fim. — Em princípio, os acontecimentos que se verificam neste plano temporal não nos interessam — disse para concluir. — Trata-se de um pseudotempo. O que importa é unicamente encontrar o caminho de volta para Andrômeda e, uma vez lá atingir o tempo real por meio da armadilha do tempo instalada em Vario. Não existe a menor dúvida de que este planeta das transformações está sempre em atividade. E esta atividade dirige-se tanto para o passado como para o futuro. Concordo com o centro de computação positrônica, que chegou à conclusão de que os senhores da galáxia vão buscar seu material humano no passado. Mas dali não se pode concluir simplesmente que estes seres desconhecidos também sejam humanos ou descendentes dos lemurenses. Mas a possibilidade não pode ser excluída. Se forem descendentes menos remotos dos lemurenses, seu poderio sem dúvida é ainda muito maior do que imaginamos. Já posso afirmar sem medo de errar que os transmissores solares são produtos da ciência lemurense. A humanidade de outros tempos deve ter possuído conhecimentos em comparação aos quais a ciência do homem de hoje faz uma figura miserável. Olhei para Rhodan, que estava sentado à minha direita, na cabeceira da mesa, fazendo anotações. Seu rosto continuava impassível. Fiquei satisfeito por ele ter-se recuperado do choque. Tolot sentou na poltrona especialmente feita para ele, na qual caberiam perfeitamente cinco homens. — Não quero discriminar contra ninguém, senhor, mas os fatos não podem ser afastados do Universo. O senhor pode orgulhar-se dos seus antepassados. Cerca de cinqüenta mil anos antes de Cristo a Humanidade já atingira um grau de evolução técnico-científica que no tempo real não tinha sido alcançado por nenhum outro povo da galáxia. No momento nossa existência se processa neste plano temporal. O senhor notou

que para as naves de patrulhamento da frota de Kahalo o uso de um sistema de propulsão linear parece ser a coisa mais natural deste mundo? Confirmei com um gesto. A forma pela qual Tolot examinava um assunto sempre tinha algo de fascinante para mim. Tolot fez um gesto. O rosto com a boca enorme nunca permitia que se tirasse uma conclusão sobre seus sentimentos. — Muito bem. Não devemos esquecer que por ocasião de sua chegada à Lua terrana, no ano de 1.971, os arcônidas usavam espaçonaves equipadas com propulsores que funcionavam na base da transição. Acontece que as naves que viajam aos saltos apresentam uma evidente inferioridade diante das naves lineares. Dali se conclui que depois de sua separação dos aconenses os arcônidas tenham perdido grande parte dos conhecimentos técnicos deixados por seus antepassados. Usavam formas de construção que ainda conheciam. Em compensação, quando foi descoberto o Sistema Azul e os aconenses, descobriu-se que estes ainda possuíam um excelente sistema de propulsão linear. Além disso dispunham de campos defensivos azuis que funcionavam na quinta dimensão. Foram somente os druufs que devolveram à nova humanidade o segredo dos hiperpropulsores aperfeiçoados. Foi uma evolução paralela. Meus antepassados já conheciam os vôos ultraluz realizados por meio da absorção das energias que atuam na quarta e na quinta dimensão, que permite o controle da zona instável do semi-espaço. O senhor não pode deixar de reconhecer que descende de um povo colonial dos lemurenses, lorde-almirante. O senhor é humano. Voltei a sentir-me pouco à vontade. Não me atrevi a olhar o rosto dos homens que se encontravam sentados à mesa. Fiquei de olho em Tolot. Não sabia por que estes fatos tinham novamente algo de doloroso para mim. Além de tudo, ainda fizeram questão de frisar que os arcônidas tinham ido à Terra em espaçonaves rudimentares. A uma Terra cujos habitantes desaparecidos já sabiam muito antes como se fazia para viajar pelo semiespaço. O grande império arcônida, do qual tanto me orgulhava, acabara de estourar que nem uma bolha de sabão. Perry veio em meu auxílio. Compreendia a aflição que me martirizava por dentro. — O fato de que nosso progresso acelerado foi devido aos arcônidas nunca será esquecido. Se não fossem os conhecimentos que eles nos transmitiram, não teríamos sido capazes de encontrar o povo do qual descendiam, os aconenses, e fazer a Humanidade ascender às fileiras das grandes potências galácticas. Desta vez arrisquei-me a olhar em volta. Só vi expressões de respeito nos rostos dos companheiros. Voltei a sentir-me melhor. Perry encerrou a reunião. Estava mesmo na hora. A situação fora esclarecida até onde isso era possível. — A encenação que Atlan promoveu perto de Kahalo não pode ser repetida, o almirante lemurense é um homem competente e não se deixará blefar pela segunda vez. Atlan só conseguiu enganá-lo porque o caos da fuga reinava em torno de Kahalo. Além disso estava à espera de uma nave halutense. Normalmente nos teriam examinado cuidadosamente. Ainda bem que os tefrodenses fizeram passar mais de uma vez espaçonaves de sua fabricação pelo transmissor galáctico. Iremos à Terra, onde talvez encontremos novas informações. Acho que não será fácil. — Não se esqueça da frota metropolitana, senhor! — objetou Cart Rudo. Rhodan confirmou com um gesto. — É um problema que teremos de resolver. Acontece que o centro de computação positrônica chegou à conclusão de que os senhores da galáxia nem pensam em fornecer

os dados verdadeiros ao almirantado lemurense. Os desconhecidos certamente já descobriram que cometeram um erro. Provavelmente tentarão encontrar um meio de eliminar-nos. Os lemurenses desta época nem imaginam que seres desconhecidos que vivem cinqüenta mil anos depois deles encontraram um meio de retornar à vontade aos tempos antigos, para recrutar tripulações, materiais de todas as espécies e talvez até mesmo espaçonaves. Pelo menos a ciência lemurense ignora o fato, senão já teria descoberto um meio de impedir este crime contra o tempo. Por isso espero que o comandante supremo da frota metropolitana lemurense continue a ver em mim um tefrodense cujo avô fugiu para a nebulosa de Andrômeda assim que a primeira nave halutense apareceu perto dele. É nisto que nos basearemos. A sala de conferências foi ficando vazia. As telas que mostravam os filmes e os diagramas da interpretação apagaram-se. Não me senti muito à vontade. O Major Curt Bernard, que ocupava os cargos de intendente-chefe e oficial administrativo da Crest III, plantou-se à minha frente na atitude nada militar que era uma das suas características. Olhei para seus cabelos louros ralos e pus-me a refletir sobre qual seria seu problema desta vez. A bordo da nave recebera o apelido de retardatário. Vivia tentando encontrar uma explicação psicológica para qualquer fato, principalmente para as questões de comportamento. Costumava classificar muitas pessoas, com base em determinadas componentes psíquicas, em retardatários mentais, eróticos ou físicos. — Permite que eu faça uma pergunta, senhor? — perguntou, gesticulando fortemente. — Não fique nervoso, major. Que houve? — Será que a nave pousará na Terra? — Provavelmente. Desde que a frota metropolitana dos lemurenses, que deve ser pelo menos tão forte quanto as naves de vigilância de Kahalo, antes disso não abra seu fogo concentrado contra nós. — Que coisa horrível! Não sei quem foi o mau espírito que me fez entrar nesta nave. Seja como for, senhor, preciso de três mil toneladas de água, mantimentos frescos e outras coisas que ajudam a tornar a vida mais agradável. Quero pedir-lhe que entre em contato com o Chefe, para que estas coisas tão importantes não sejam esquecidas. — Não tem outros problemas? Bernard encarou-me com a cabeça inclinada. — Acontece que a bordo desta nave existe mais de um tipo refinado, que se incomoda com o reaproveitamento das segregações líquidas do corpo e da água da lavagem. Acho que não será muito inteligente do ponto de vista psicológico recusarmos à tripulação provisões de água fresca e verduras, se a nave deve mesmo pousar na Terra. Isto só serviria para despertar certos instintos do subconsciente, criando conflitos interiores...! — Está bem, está bem, não me esquecerei! — interrompi e saí correndo em direção ao elevador antigravitacional mais próximo. Bernard seguiu-me até ver-me descer no elevador. Mas continuou a gritar suas sabedorias para dentro do poço. *** Tomei uma decisão puramente intuitiva, sem consultar Perry. Parecia estar de acordo, pois já fazia cinco minutos e ele ainda não revogara minhas ordens. Lá fora, do outro lado do casco blindado da nave, era um verdadeiro inferno. Era difícil avaliar, quanto mais fixar exatamente o número exato das naves detectadas. As

telas que reproduziam os ecos projetados pelos rastreadores de massa, de relevos e de energia, todos funcionando em regime de sobrecarga, mostravam uma incandescência ininterrupta. Forças atômicas de proporções inimagináveis estavam sendo liberadas. Só conseguimos distinguir duas frentes distintas. Cerca de dez frotas saídas do espaço interestelar, cada uma formada por aproximadamente quinhentas ou seiscentas espaçonaves, precipitavam-se contra a falange das linhas de defesa, dispostas em três dimensões, das quais irrompia o fogo mais terrível que já tinha visto. Cerca de cem mil explosões iluminavam o espaço em torno da órbita de Plutão, onde tínhamos retornado ao universo einsteiniano. Bolas de gases ultraluminosas expandiam-se, tocavam-se e geravam grandes semicírculos formados por fogueiras atômicas, em cujo interior as naves atacantes se desmanchavam. Tínhamos retornado ao universo natural exatamente entre as duas frentes de combate, e assim fomos brindados com os tiros de ambos os lados. Era bem verdade que tínhamos saído numa área periférica na qual, segundo parecia, só operavam unidades de menor porte. Compreendi imediatamente que chegáramos no momento exato para assistir a um ataque halutense ao Sistema Solar. Não havia dúvida de que as naves atacantes eram halutenses. Este povo também usara a forma esférica na construção de suas espaçonaves, mas não recorria à protuberância equatorial, que era uma das características das naves terrano-lemurenses. Até hoje, tomando como ponto de referência o tempo real, os halutenses continuavam a seguir o mesmo princípio nas suas construções espaciais, já que este princípio apresentava certas vantagens de ordem estática. Os propulsores de suas naves eram montados invariavelmente na calota polar inferior. Os jatos-propulsores principais sobressaíam do casco. As eclusas de ar e de carga ficavam na altura da linha equatorial, onde os humanos, os arcônidas e os aconenses costumavam instalar suas máquinas. As naves que operavam no interior do Sistema Solar eram de construção tipicamente lemurense. Havia grandes unidades esféricas, com mil e oitocentos metros de diâmetro. Tinham trezentos metros mais que os supercouraçados da classe Império, que ainda há poucos meses acreditara serem as maiores espaçonaves já construídas. A Crest III, um gigante de dois mil e quinhentos metros de diâmetro, pertencente à classe galáxia, devia superar as outras unidades. Fazia cinco minutos que nossos rádio-operadores trabalhavam a toda força. Esforçavam-se para comunicar ao comandante supremo dos lemurenses que tínhamos vindo como amigos. Naquele momento ninguém se lembrava que estávamos acompanhando um acontecimento irreal. Os lemurenses e halutenses que se defrontavam diante de nossos olhos já tinham morrido há cinqüenta mil anos. Finalmente aconteceu aquilo que eu esperara. Cerca de cem cruzadores lemurenses saíram da formação e desceram em nossa direção num ângulo de aproximadamente quarenta graus. As bocas de seus canhões chamejaram, mas o campo defensivo verde de ultracarga da Crest III não teve a menor dificuldade em repelir a energia dos disparos. Mas havia uma coisa no ataque dos lemurenses que nos surpreendeu. Foi o fogo de um grupo de naves halutenses, formado principalmente por unidades de grande porte, com quinhentos metros e mais de diâmetro, que entrou na luta. — Será que estes idiotas ainda não perceberam que há algo de errado conosco? — gritou Rhodan, furioso. — Afinal, quem atira em quem? Acelere, Hefrich. Vamos entrar no espaço linear.

— Ordem revogada — disse, berrando ainda mais alto, enquanto olhava para Perry com uma expressão zangada. — Isso não adiantaria nada. Continuaríamos sempre na mesma situação. Atenção, centro de artilharia. Abram fogo contra qualquer nave halutense que entre na mira dos seus rastreadores. Dispare gigassalvas e tudo mais de que possa lançar mão. Passe à execução. O chefe confirmará as ordens. Hefrich, entre nas linhas avançadas lemurenses. Vamos mostrar de que lado estamos. Droga! Ainda vai demorar muito? Finalmente temos uma chance de mostrar ao comandante local que os tefrodenses são seres competentes. Isto significa que praticamente já podemos contar com a permissão de pousar. Rhodan logo começou a dar suas ordens. A Crest III arrancou sob o controle das mãos de Cart Rudo e deslocou-se a toda velocidade em direção às naves de grande porte dos lemurenses. O grupo de cruzadores que partira para o ataque passou por nós, mas vi que os comandantes possuíam grande habilidade, pois já entravam na curva de frenagem, desacelerando ao máximo. As mensagens que expedimos pelo rádio continuaram a não ser ouvidas em meio à confusão reinante. Parecia que ambas as partes acreditávamos que éramos uma nave inimiga, senão não teríamos ficado expostos a um fogo tão intenso. O campo defensivo hiperenergético foi submetido a uma prova dura. A Crest III parecia uma gigantesca bola de fogo. Naquele momento alguns comandantes lemurenses deviam ficar com os rostos pálidos. As cargas que tínhamos absorvido fariam explodir qualquer outra nave. Finalmente chegou o momento pelo qual tanto ansiara. O Major Cero Wiffert certamente estava apertando todos os botões dos controles de artilharia. A Crest derivou tão fortemente em direção oposta à dos tiros que tive de segurar-me para não cair. Um rugido que parecia vir do subsolo encheu o ar. As telas dos rastreadores de energia mostravam verdadeiras fornalhas solares. Wiffert disparava suas salvas com sete segundos de intervalo. Era o mínimo de que precisava o sistema robotizado para recarregar os canhões conversores. A cada sete segundos os campos de irradiação da quinta dimensão se abriam, expelindo trinta bombas de fusão desmaterializadas, cada uma com uma potência equivalente a mil gigatons de TNT. Os tiros propagavam-se a velocidade ultraluz. E a pontaria era tão precisa que não pude deixar de admirar o artilheiro. Finalmente saltei para cima de minha poltrona neutralizadora de pressão, apertei o botão de controle dos cintos automáticos e coloquei o capacete espacial. Os neutralizadores de ruído cobriram meus ouvidos. O radiofone foi ligado automaticamente. As linhas de frente das naves halutenses encontravam-se a cerca de um milhão de quilômetros. Portanto, ainda estavam à distância de tiro nuclear para os canhões conversores. Olhei para as telas dos rastreadores e vi bolas de fogo do tamanho de pequenos sóis surgirem à frente dos halutenses. Wiffert concentrava suas salvas num ponto, girava um pouco para a esquerda e ia produzindo pequenos sóis nas línguas atacantes, sóis estes que superavam qualquer coisa que já tinha acontecido neste setor do espaço. Depois da vigésima salva os controles automáticos entraram em ação. Os canhões estavam superaquecidos. A Crest girou em torno do eixo polar, o movimento de rotação foi neutralizado pela força contrária dos jatos, e a nave passou a apontar as outras baterias de costado para o inimigo, baterias estas que ainda não tinham sido usadas.

O terrível rugido voltou a fazer-se ouvir. Lá adiante, bem ao longe, esquadrilhas inteiras de naves halutenses iam explodindo. Entravam em alta velocidade nas gigassalvas, conseguiam chegar à esfera gasosa anterior e entravam no processo de fusão nuclear, que não poupava nada. Suas armas seguiram o exemplo. De repente o espaço nas proximidades da órbita de Plutão parecia estar sob os efeitos de uma nova. Já tínhamos atingido as formações lemurenses e passamos junto a elas. Não atiraram mais em nós. Imaginei-os olhando perplexos para o monstro que cuspia fogo, e cujos tiros e capacidade de resistência certamente deixavam todo mundo espantado. Demorou apenas cinco minutos para que tudo passasse. Os rastreadores de grande alcance já não indicavam a presença de qualquer nave estranha. As últimas unidades halutenses estavam entrando no espaço linear. Certamente pensariam um pouco antes de lançar outro ataque. Deviam pensar que a Crest III era um novo supercouraçado dos lemurenses. Rhodan realizou uma manobra de adaptação de rota, durante a qual demonstrou sua capacidade cosmonáutica. Os propulsores rugiram, funcionando ao máximo de sua potência, mas ainda demorou oito minutos até que entrássemos na rota da frota principal dos lemurenses. Dobrei o capacete para trás e fiquei à frente da tela de comunicação. A qualquer momento devia chegar um chamado. Wholey fez uma ligação. Vi seus olhos brilhantes na tela de controle. — O Almirante Tughmon, comandante da nave-capitânia lemurense, a Tanatra, está chamando. Transferirei a ligação. — Obrigado por ter dado as ordens certas — gritou Perry, apressado. — Não sei como não me lembrei disso. Será porque você tem mais experiência? Respondi com um aceno de cabeça e voltei a fazer o papel de comandante tefrodense. Fiquei plantado em uniforme de campanha à frente da tela, apoiando a mão num console de instrumentos. A tela iluminou-se, mostrando o rosto de um jovem. Tinha cabelos escuros, a pele morena aveludada característica dos lemurenses e olhos claros e penetrantes. Se era o comandante supremo da frota metropolitana lemurense, aquele homem devia ter uma capacidade extraordinária. — Almirante Tughmon, chefe do Sistema de Lemur, chamando espaçonave desconhecida. Quem são os senhores? Favor identificar-se. Antes de fazer o câmbio, quero manifestar meus respeitos. Nunca vi nada igual. Tive de sorrir. Os lemurenses e os halutenses possuíam armas parecidas. Apenas parecidas. — Capitão espacial Atlan, comandante do ultracouraçado Crest III, pertencente ao grupo dos reformistas militares de Tefrod, sistema de Tefa, dirigindo-se ao Almirante Tughmon. Obrigado pelo elogio. Isto nos fez bem, depois da recusa áspera que recebemos da parte do Almirante Hakhat. Devo ressaltar que não pertencemos à frota regular tefrodense. Estou subordinado ao Conselho Central do Governo Revolucionário. Nossos cientistas fizeram invenções importantes nestes últimos anos. Recebi instruções de ir a Lemur, solicitar seu apoio e apresentar a sugestão de enviarem uma equipe científico-militar para Tefrod, onde serão fornecidos todos os dados sobre nossa nova arma ofensiva. O senhor teve oportunidade de convencer-se da potência desta arma. A nave-capitânia lemurense transferiu a ligação para a faixa comum à velocidade da luz. O contato funcionou melhor.

Tughmon parecia entusiasmado. — É a melhor notícia que recebemos nestes últimos anos, capitão. Posso imaginar que Hakhat não se tenha mostrado muito amável. Agradecemos o auxílio na hora certa. Foi o décimo primeiro ataque que sofremos em uma semana, tempo padrão. Pelo menos teremos tempo para respirar um pouco, enquanto o inimigo fizer a interpretação do novo fator. Deseja alguma coisa? Sua nave foi atingida? — Nem uma única vez. Peço permissão para pousar em Lemur. Ainda peço que, se possível, nos seja fornecida água fresca e algumas centenas de toneladas de verduras frescas, caso possam dispor delas. — Concedido. Entrarei em contato com o centro de controle. Apresentem-se a Tamrat Orghon. É de algum tempo para cá o encarregado do setor de suprimentos. Posso ter um encontro com o senhor em Lemur? Serei revezado dentro de três semanas. — Antes disso terei de estar de volta à nossa galáxia, senhor. — Senhor...? — É uma nova forma de tratamento militar destinado aos oficiais, almirante. Muito obrigado pela boa vontade. — Somos nós que agradecemos. Darei ordem para que os anéis de fortificações abram passagem para o senhor. Preste atenção ao anel gasoso. É o antigo quinto planeta de nosso sistema, chamado Zeut, que se expandiu até a órbita do segundo planeta. Não entre nele em alta velocidade. A densidade dos gases está aumentando em vez de diminuir. Fiquei apavorado. Quer dizer que nosso Sistema Solar já possuíra dez planetas? Zeut devia ter sido um planeta situado entre Marte e Júpiter. O anel de asteróides, conhecido de todo mundo, se formara com a explosão deste mundo. Chegáramos no momento exato para assistir à fase decisiva da destruição deste planeta. Ainda trocamos algumas palavras. Finalmente Rhodan acelerou e entrou no espaço linear. Saímos perto do anel gasoso, que emitia um brilho vermelho profundo, mas irradiava pouco calor. Era mais denso no antigo plano de rotação do planeta, e os gases eram cada vez mais rarefeitos, à medida que se avançava acima ou abaixo deste plano. Penetramos na esfera gasosa desenvolvendo somente dez por cento da velocidade da luz. Uma incandescência mais forte surgiu à frente dos campos defensivos da Crest. Não víamos Marte. Até mesmo os rastreadores sofriam uma forte interferência por causa das partículas ionizadas, entre as quais ainda se assistia vez por outra a processos de fusão nuclear. Finalmente, depois de uma pequena manobra linear, avistamos a Terra. Em silêncio e profundamente emocionados, contemplamos o planeta verde, que nos cumprimentava com um brilho branco-avermelhado. — Estamos chegando no pleistoceno — disse Rhodan em voz baixa. — Lá embaixo vivem o mamute, o mastodonte, o boi mochu, o abutre gigante, o tigre de dentes de sabre e outros gigantes do mundo animal. Além disso a última era glacial deve ter-se manifestado nesta época em Lemur. Estão notando o brilho vermelho? As massas geladas dos pólos avançaram até a Europa Central e além dos Grandes Lagos dos Estados Unidos. Isto só pode ser devido à redução da força dos raios solares, provocada pelo anel de gases e matéria sólida. Estou curioso para ver até quando seu talento para o blefe nos salvará da destruição, Atlan.

9
Interlúdio
Seu nome era Orghon. Usava o título de conselheiro Tam de Lemur. Juntamente com os outros quarenta e nove conselheiros Tam dispunha de cento e cinqüenta votos na liga dos tamanes coligados, que formavam o Império Lemurense. Cada província sideral, oficialmente designada como um tamane, era governada por um conselho Tam. Como o Império era formado por um total de cento e onze tamanes, havia cento e onze conselhos Tam com o direito de fazer ouvir sua voz nas questões políticas. Era bem verdade que cada um dos conselhos Tam só possuía um voto. Dali tinham resultado divergências graves, já que os cinqüenta conselheiros Tam de Lemur com o total de cento e cinqüenta votos sempre diziam a última palavra. Este problema, que ainda há cem anos lemurenses era considerado um dos pontos mais importantes da política interna, fora resolvido por si mesmo. Halut atacava implacavelmente. Os gigantes de pele escura não sabiam o que era compaixão. Quando lançavam uma de suas temíveis operações de desembarque, podia-se ter certeza quase absoluta de que a população do respectivo planeta estava perdida. Os halutenses eram verdadeiras máquinas de guerra orgânicas, que não tomavam conhecimento nem mesmo dos tiros de canhões energéticos portáteis. Orghon estava muito bem informado sobre a situação política e militar. Dispunha das informações que só costumam ser acessíveis a um homem que pode contemplar um passado remoto a partir de um futuro distante. Orghon era um homem alto e magro, com as maneiras delicadas de um diplomata cósmico. Nunca perdera a calma — ao menos até aquele dia. Olhava com uma expressão de perplexidade para a tela do conversor de microescritas e voltou a ler a notícia. As gravuras projetadas na tela pareciam interessá-lo ainda mais. O mensageiro estava em posição de sentido, junto a um dos cantos da escrivaninha metálica. Orghon levantou os olhos. Antes de dirigir a palavra ao mensageiro que usava o uniforme de um oficial lemurense, teve o cuidado de apertar os botões dos bloqueios automáticos. As finas escotilhas blindadas que protegiam seu gabinete entraram entre os revestimentos de madeira nobre, bloqueando completamente o recinto. A única coisa que dava uma idéia da atividade intensa que se desenvolvia no maior porto espacial do continente de Lemur eram as imagens projetadas nas telas. Orghon voltou a olhar para o aparelho de microleitura. Finalmente tirou a espula e colocou-a no incinerador. Ela se desfez com um chiado no meio do arco voltaico. — Não acredito no que estou vendo! — disse Orghon, calmo. — Como se explica um erro destes? — Não estou informado. No momento a Crest III está travando combate com um grupo de naves halutenses que tenta abrir passagem nas proximidades do nono planeta. Acompanhei parte dos acontecimentos. Esperamos que a tripulação, que alega ser tefrodense, tente pousar em Lemur. Uma coisa é certa. Não se trata de halutenses, como se acreditava. Acompanhamos a palestra travada entre Hakhat e um desconhecido que diz ser Atlan.

— O registro foi encaminhado imediatamente? — No mesmo instante em que foi feito. O sistema automático central me deu instruções para que orientasse o senhor. Se os desconhecidos desconfiam de que foram repolarizados de frente para trás... — Eles não desconfiam; sabem — interrompeu Orghon, contrariado. — Um grupo de seres inteligentes que sabe livrar-se com tamanha elegância de uma situação difícil não pode ser subestimado. É claro que não são tefrodenses. Ou será que uma tripulação formada por cópias que se rebelaram conseguiu abrir passagem? — O centro de controle recusa terminantemente esta hipótese. Caso se tratasse de cópias de lemurenses, estas seriam mortas por controle remoto ao primeiro sinal de rebelião. Olhou para o relógio automático, levantou e pegou a arma que usava em serviço. Também envergava o uniforme da frota lemurense. — Volte imediatamente ao centro de transmissão. Providencie para que o Almirante Hakhat receba informações que o obriguem a sair em perseguição à nave gigante. Já que não sabe quem são os seres que o senhor introduziu levianamente em nossa época, faça ao menos tudo que esteja ao seu alcance para evitar que os desconhecidos tenham uma oportunidade de informar os conselheiros Tam sobre os acontecimentos. As conseqüências poderiam ser catastróficas. Darei uma olhada na tripulação da nave, isto naturalmente se ela realmente pousar em Lemur. A...! A fala foi interrompida pelo zumbido de um aparelho de comunicação. Um oficial da sala de rádio apareceu na tela. — O ultracouraçado Crest III, tripulado por tefrodenses, está entrando no sistema — informou o oficial. — O Almirante Tughmon pede encarecidamente que ajudemos o comandante em tudo que estiver ao nosso alcance. Parece que interveio nas operações defensivas e diz trazer notícias importantes sobre um golpe político ocorrido no sistema de Tefa. O Almirante Tughmon é de opinião que a guerra contra Halut chegaria ao fim, se nossa frota dispusesse das armas ofensivas e defensivas da Crest. Urgente. O chefe do setor de vigilância espacial, conselheiro Tam Masin, liberou a entrada da nave. O senhor está convidado para participar da sessão que provavelmente será realizada. Orghon agradeceu e desligou. O mensageiro empalideceu. — Uma sessão do conselho Tam. Os problemas já começaram — disse Orghon em tom pensativo. — Parece que o centro de comando não sabe como está a situação por aqui. Estou praticamente isolado. As comunicações quase não funcionam. Aguarde a mensagem de hiper-rádio que lhe enviarei e trate de retransmiti-la sem demora. Darei um jeito de descobrir quem são os tripulantes dessa nave. Pode retirar-se. As instruções de vôo serão fornecidas pelo sistema robotizado. Faça o possível para não ser detectado pelos cruzadores-patrulha de Tughmon. Infelizmente não posso usar o transmissor para enviá-lo ao planeta de regulagem, porque o perigo de localização goniométrica seria muito grande. Nem mesmo uma pessoa como eu pode violar as normas de segurança. Invente uma boa desculpa para ser apresentada ao Almirante Hakhat. Pode dizer, por exemplo, que a tripulação da Crest é formada por criminosos tefrodenses. Não faça qualquer alusão aos acontecimentos reais, senão teremos de fugir. O mensageiro retirou-se. Também pertencia ao tempo real. Orghon fez alguns chamados importantes e, passando por uma escotilha secreta embutida na parede, entrou no subsolo do edifício em que ficava seu local de trabalho. Uma vez lá, equipou-se com aparelhos que nem deveriam existir em Lemur, já que tinham sido fabricados no futuro, dali a cinqüenta mil anos.

Orghon sabia perfeitamente que sua missão de agente do tempo dos senhores da galáxia estava em perigo. Se os desconhecidos conseguissem convencer os conselheiros Tam, que eram cientistas, de que a situação verdadeira era esta, a catástrofe seria inevitável.

10
Relatório de Atlan
Era um quadro comovente e encantador ao mesmo tempo. Circulávamos em torno de um planeta que sem dúvida era a Terra, mas tínhamos certa dificuldade em reconhecer a configuração de sua superfície. Não era apenas por causa das gigantescas massas de gelo, que se estendiam dos pólos, para o norte e o sul, cobrindo grande parte das áreas terrestres tão bem conhecidas da Europa, da Ásia e da América com camadas de gelo. Também não era por causa da luz solar difusa, que mal e mal conseguia atravessar a incandescência vermelha da nuvem formada por gases e matéria sólida, esforçando-se em vão para aquecer o terceiro planeta. O sol parecia uma gigantesca bola de fogo, sombria e vermelha, que se podia encarar tranqüilamente, sem receio de prejudicar os olhos. O que nos deixou apavorados foi a forma diferente dos continentes. Só neste momento compreendi o verdadeiro sentido da lenda dos atlantes, que ouvira contar por ocasião de minha chegada à Terra. Esta lenda falava num país gigantesco situado no oeste e de deuses poderosíssimos. A Crest III sobrevoou o continente africano a cinqüenta quilômetros de altura, na direção oeste. Era a única parte da Terra que praticamente não apresentava nenhuma modificação em relação ao presente. Mas logo atingimos o Atlântico, e vi novamente o estado-ilha, que eu colonizara há dez mil anos e acabara perdendo, porque a respectiva porção de terra submergira no mar. Rhodan, Kasom, os principais membros da equipe científica da nave e vários oficiais encontravam-se a meu lado. Expliquei tudo que havia para explicar. A Atlântida apareceu diante de nossos olhos. Distinguia-se perfeitamente a grande faixa de terra que ligava a grande ilha ao continente africano. Gigantescos icebergs vagavam pelo mar, atingindo as regiões situadas bem no sul. Os Alpes distantes cumprimentaram-nos com seus cumes branco-avermelhados e as grandes geleiras. A vida devia ser dura por lá. A faixa de terra situada entre o continente sul-americano e a Atlântida apareceu. Era mais ampla do que eu me lembrava. O mar das Caraíbas já existia, mas as extensas massas de terra da ponte rochosa centro-americana tomavam grande parte de sua área. — Tudo isto ainda dá para agüentar — disse Perry em voz baixa. — Mas o que virá em seguida me deixa sem fala. Vejam este continente enorme. Avistamos Lemúria! Era uma porção de terra firmemente ligada à costa oeste do continente americano. Estendia-se da extremidade sul até o norte do Canadá. Lemúria era bem maior do que seria a Ásia mais tarde. Em toda parte havia grandes metrópoles, que ao norte e ao sul estavam parcialmente encobertas pelo avanço das geleiras. O caos devia reinar por lá. Pude imaginar perfeitamente o que aconteceria se um continente que possui uma alta tecnologia subitamente é surpreendido por uma era glacial, no espaço de algumas décadas. As indicações de rota estavam sendo recebidas. Lindas paisagens deslizavam lá embaixo. As cidades da zona equatorial ainda estavam livres de gelo, mas mesmo por lá soprava o vento gelado que provocava calafrios nos habitantes, que estavam habituados a temperaturas mais elevadas. Estávamos assistindo ao fim de uma cultura formidável.

As naves espaciais iam descendo uma após outra pela atmosfera nublada. Outras unidades decolavam de inúmeros portos espaciais. Recebemos ordens umas vinte vezes para mudar de rota, a fim de que não entrássemos no caminho das naves esféricas. A fuga estava em pleno andamento. De vez em quando detectávamos uma área contaminada pela radiatividade. Bombas nucleares pesadas deviam ter sido lançadas nessas áreas. Milhares de fortes, cujos canhões traçavam linhas confusas nas telas de nossos rastreadores energéticos, por causa da energia remanescente, mostravam que os lemurenses esperavam a cada hora um novo ataque-relâmpago vindo do espaço. Sempre que me lembrava que aqueles homens eram meus antepassados e os de Rhodan, sentia um calafrio. Atravessamos uma extensa área de morte, do tamanho da Europa conhecida, e finalmente fomos conduzidos a um dos numerosos portos espaciais. Rhodan fez um esforço para abandonar a atitude pensativa, passou a mãos pelos olhos e disse: — Não adianta entregar-se a pensamentos melancólicos. Além de inútil, é perigoso. Vamos dar uma olhada para ver se descobrimos em que ano antes de Cristo nos encontramos e depois decolaremos de novo. Não temos mais nada a fazer aqui. Sinto muito, Atlan, que você tenha enganado o tal Almirante Tughmon, dizendo-lhe que poderia encontrar dados sobre novas armas na nebulosa de Andrômeda. — Essa gente já morreu há cinqüenta mil anos, senhor — observou Icho Tolot. — Não se deixe levar por sentimentos inadequados. Isso pode fazer mal a todos nós. Para nós só deve existir o tempo real. Deu de ombros. — Minha inteligência compreende, mas meus sentimentos reagem a tudo que meus olhos vêem. Que coisa horrível, Tolot! Os seres que se encontram lá embaixo são humanos. São meus antepassados. Compreende? — Acontece que morreram há cinqüenta mil anos — insistiu o halutense. Dali a quinze minutos os tripulantes da nave voltaram a animar-se. Pousamos num porto espacial cujos limites não víamos. Naves esféricas de todos os tipos e tamanhos estavam estacionadas nas pistas marcadas com diferentes cores. Vimos uma grande fila de pessoas que tremiam de frio esperar pacientemente à frente das eclusas de uma grande nave de transporte, submetendo-se com uma atitude de indiferença ao controle dos robôs. Devia ser um dos contingentes de fugitivos de que o Almirante Hakhat nos falara. A Crest III pousou com as colunas de sustentação bem afastadas. Ninguém parecia interessar-se por nós. A estação de superfície limitou-se a comunicar que o conselheiro Tam responsável pelo abastecimento da frota mercante decidira comparecer pessoalmente a bordo de nossa nave, para cumprimentar os visitantes da outra galáxia. Seu nome era Orghon. Ele nos daria outras informações. Dali a meia hora o chamado conselheiro Tam ainda não tinha chegado. Do lado de fora não se via nada de extraordinário. Até parecia que ninguém notara a chegada da gigantesca Crest. — Já estou ficando nervoso — disse Gucky, que acabava de voltar de uma pequena excursão. — Os homens que se encontram por aqui estão meio espantados por causa do tamanho de nossa nave, mas quase nem pensam em nós. Todo mundo só pensa em arranjar quanto antes um bilhete de transporte. Andei escutando as conversas de alguns oficiais e deduzi que se espera que o planeta seja destruído dentro em breve. Os halutenses estão concentrando grandes contingentes de sua frota nas chamadas áreastrampolim. Já sei por que o anel gasoso formado pela explosão do planeta Zeut ainda não

foi removido. Existem recursos para isso, mas os constantes ataques dos halutenses impediram a construção das estações cósmicas que seriam necessárias para isso. Quer dizer que a Terra, ou melhor, Lemur, terá de atravessar a última era glacial da forma que aprendemos nos livros de história. Em seguida Gucky fez um relato sobre a forma de governo adotada no império lemurense. Ficamos sabendo o que vinha a ser um conselheiro Tam e até onde chegava sua influência. — Os chamados tamanes são uma espécie de províncias siderais ou pequenos impérios, submetidos ao império geral. Antigamente os soberanos dos impérios planetários e do mundo central costumavam combater-se com certa freqüência. Mas isso já caiu no esquecimento. Mais uma vez se vê que os homens são capazes de unir-se bem depressa, quando se defrontam com alguém que seja mais forte. Gucky deu uma risadinha e retirou-se para junto dos outros mutantes. Perry parecia cada vez mais preocupado. Também tive a impressão de que devia haver algo de errado. A Crest III continuava em regime de rigorosa prontidão de combate. Nem pensávamos em entregar-nos. Não tive a menor dúvida de que devia haver um centro de coordenação dos senhores da galáxia em Lemur. Restava saber se este centro estava ou não informado sobre nossa chegada. Havia indícios de que não sabiam quem éramos e de onde tínhamos vindo. Perry ficou parado à frente das telas, examinando os arredores da nave. Mais alguns veículos de transporte decolaram bem ao longe. — Estou pensando em ser franco com os membros do governo local e pedir seu auxílio — disse de repente. — Acho que não poderia fazer nenhum mal. Também já tinha pensado nesta solução, mas por enquanto a abandonara. — Não faça isso — adverti. — Uma coisa dessas sempre podemos fazer. Quero saber antes onde está o inimigo. Além disso tenho lá minhas dúvidas de que apesar de seu desenvolvimento formidável a ciência lemurense seja capaz de modificar o plano temporal. De qualquer maneira, isso levaria alguns anos. E quero voltar ao tempo real antes disso. — Um planador se aproxima — anunciou o rastreamento. — Está pousando perto de nossa nave. Um homem uniformizado acaba de sair dele. O Major Don Redhorse foi destacado para a recepção. Está montando uma pequena cerimônia. Perry fez um sinal. Trocara de uniforme. Exibia os distintivos de oficial da equipe técnica. Mais uma vez tive de bancar o comandante. Ficamos impacientes, à espera do que estava para acontecer. Acompanhamos nas telas do videofone o cerimonial militar desfiado por Don Redhorse. O conselheiro Tam Orghon teve oportunidade de ver certas coisas que provavelmente o deixaram impressionado. Mandei que todos os mutantes, com exceção daqueles que tinham aspecto humano, se retirassem da sala de comando Gucky, Goratchim, os Woolver e os forasteiros Kalak, Tolot e Baar Lun não deviam ser vistos em hipótese alguma. Nosso oficial de segurança, que também chefiava o centro de disfarces e operações, produzira nas últimas horas, na gráfica da nave, belos documentos de identidade, cartas de apresentação e atestados. Os fantásticos carimbos magnéticos e as espulas de impulsos embutidas nos documentos faziam com que tudo parecesse verdadeiro. Usamos o nome dos pretensos reformistas militares, porque não sabíamos quais eram os procedimentos adotados nos contatos entre Lemur e os colonos tefrodenses.

O conselheiro Tam ainda não tinha chegado à sala de comando, quando o rastreamento robotizado transmitiu uma informação. — Visitante porta conjunto energético de alta potência. Finalidade desconhecida. Perry franziu a testa. Estava de pé atrás de mim. Já víramos a grande mochila nas costas do lemurense, no momento em que ele saíra do planador. — Que é isto? — perguntou o Coronel Cart Rudo. — Será que é para proteger-se contra nós. Ninguém sabia exatamente. Talvez os cinqüenta conselheiros Tam de Lemur costumassem tomar certas precauções. Não tivemos tempo para discutir o assunto. As escotilhas blindadas da sala de comando abriram-se. Don Redhorse entrou em passo de marcha, ficou em posição de sentido, fez continência e anunciou o membro do governo lemurense. O conselheiro Tam Orghon entrou logo depois do major e olhou em volta. No mesmo instante aconteceram duas coisas diferentes. O lemurense que era um homem alto, de ombros largos, estremeceu. Por uma fração de segundo havia uma expressão de surpresa em seu rosto. Antes que compreendêssemos o que estava acontecendo, bateu com a mão direita num botão bem visível que se encontrava no cruzamento de dois cintos largos. Redhorse deu um salto para o lado. O grito agudo de Gucky se fez ouvir. A pequena criatura materializou de repente em meio a uma nuvem cintilante de energia, girou sobre os calcanhares e pegou sua pequena arma especial. Orghon ficou parado à frente da escotilha, muito calmo, contemplando o rato-castor sem demonstrar qualquer surpresa. Quando muito, seu rosto exprimia certa curiosidade científica. Mas todo mundo viu um campo energético amarelo-pálido que envolveu seu corpo depois de ele ter apertado o botão. — Não é nenhum lemurense — gritou o rato-castor, exaltado. — Senti logo que havia algo de errado com ele. Mas só consegui ler seus pensamentos quando já se encontrava na sala de comando. O aparelho que carrega deve dar-lhe uma proteção parcial. Don Redhorse agiu imediatamente. As escotilhas blindadas voltaram a fechar-se. Orghon viu pelo menos trinta armas energéticas, inclusive a minha, apontadas para ele. Os robôs de combate estacionados na sala de combate entraram em formação de batalha com seus desintegradores pesados. Avancei lentamente, seguido por Perry. Os outros mutantes também apareceram. O jogo de esconder fora inútil. — Sua reação foi muito rápida — observei com a voz fria. — Quem o preveniu contra o telepata? O aparelho que leva consigo? Orghon sorriu. Parecia sentir-se bem seguro, e eu não estava gostando nem um pouco. Será que seu campo defensivo era tão forte que ele podia zombar de nossas armas? E quais seriam suas reações diante da atuação dos mutantes? Perry se fez ouvir. Quando vi seu rosto, levei um susto. Parecia um homem disposto a matar. — Ainda bem que a encenação que o senhor certamente quis apresentar terminou tão depressa. Orghon assumira uma atitude de irônica superioridade. Devia ser um agente e cientista de primeira ordem, senão não teria sobrevivido neste lugar. — Concordo plenamente com o senhor — disse com uma voz agradável, que apenas sofreu uma pequena distorção por causa do campo energético. — A presença dos

combatentes parapsicológicos, da qual não podia suspeitar, obrigou-me a tirar a máscara antes da hora. É claro que não poderia ficar exposto às suas armas. Perry atirou com a arma na altura dos quadris. O hálito ardente de sua arma térmica era tão forte que meu uniforme ficou chamuscado. Orghon ficou envolto nas chamas, mas continuava a sorrir. Quando o rugido do tiro passou e o calor diminuiu, o agente do tempo começou a falar. — Eu sabia que o senhor não poderia deixar de fazer uma experiência. Os letreiros dos seus instrumentos, os crachás e a presença dos não-humanóides são um sinal de que os senhores são terranos, o que me deixa bastante surpreso. Então acontecera mesmo. Um homem habituado aos hábitos terranos certamente só levaria alguns minutos para notar inúmeros detalhes, que lhe mostrariam quem eram os seres com os quais estava lidando. Orghon até chegou a dar outras informações. — Os acontecimentos que se verificaram na nebulosa Beta já deveriam ter chamado a atenção de meu centro de comando para a presença dos senhores. Até cheguei a fornecer uma indicação a respeito dos lemurenses da atualidade, pois na época em que os senhores conquistaram o retransmissor de Horror e Gêmeos eu me encontrava na nebulosa de Andrômeda. Acompanhei a operação punitiva dos maahks, que acabaram sendo destruídos pelos senhores. Meus cumprimentos. Qual dos senhores é o Administrador-Geral terrano? Seu nome é Perry Rhodan, não é mesmo? Vi que ele estava muito mais informado do que acreditara. Só poderia ter descoberto esses fatos na época em que a Humanidade arriscara os primeiros saltos para o espaço vazio, conquistando os transmissores-armadilha dos senhores da galáxia. Orghon era um homem perigoso, que devia ter estudado cuidadosamente os acontecimentos daquela época. — Meu nome é Perry Rhodan — disse o grande terrano, enquanto seu rosto se descontraía. — Já que estamos usando de franqueza, quem é o senhor? Pertence... — Não — interrompeu Orghon, mantendo seu sorriso presunçoso, que já começava a deixar-me nervoso. — Não pertenço aos donos da galáxia. Estou a serviço deles. É bem verdade que venho do futuro, tal qual os senhores. Permita que realce mais uma vez que do ponto de vista técnico admiro sua capacidade. Cometemos um engano ao acreditar que esta era uma nave halutense. Só vim para verificar com quem estamos lidando. Permite que transmita as informações pelo rádio? Pegou uma tecla e encostou um microfone à boca. Dali a um instante a sala de comando transformou-se num verdadeiro inferno. Disparamos contra o visitante impertinente todas as armas em que pudemos pôr as mãos. Parecia uma estátua envolta em raios. Mas nada lhe aconteceu. Os raios energéticos nem sequer conseguiram tirá-lo do lugar. Aquele homem possuía o melhor campo defensivo que já tinha visto. E manteve o sorriso presunçoso, que naquele momento passou a ter algo de arrogante. Fiquei atirando até que o ar da sala de comando entrou em ebulição e o sistema automático deu o alarme de incêndio. Todo mundo tinha colocado os capacetes pressurizados, para não morrer queimado no furacão de fogo. Orghon continuava a falar para dentro do microfone. A pessoa que estava recebendo a mensagem já devia saber quem éramos. Retirei-me da zona superaquecida que se formara em torno de Orghon, arrastando Perry. Ivan Goratchim entrou em ação. Mas seu dom, que consistia em provocar, pela força de seu espírito, a detonação dos átomos de carbono e cálcio, também falhou. André Noir tentou o hipnotismo, e Gucky recorreu à telecinesia.

Quando nos demos conta de que o campo defensivo individual daquele ser também o protegia das influências parapsíquicas, começamos a ficar desesperados. Os robôs suspenderam o fogo dos desintegradores antes que a sala de comando fosse transformada num monte de destroços. A parede de aço que ficava atrás de Orghon já se tornara incandescente. De repente ficou tudo em silêncio. Orghon continuava no mesmo lugar. Eu o odiava! Finalmente começou a falar. — Os senhores fizeram um esforço notável. Abandonarei a nave e tomarei todas as providências para que sejam destruídos pela frota lemurense. Todos os preparativos foram tomados. Sinto ser obrigado a ser tão grosseiro. Icho Tolot investiu aos berros contra o agente do tempo e tentou golpeá-lo com a base metálica que arrancara de uma poltrona neutralizadora de pressão. A energia mecânica também foi absorvida. Orghon limitara-se a recuar alguns metros ao ver o gigante. Não. Também empalidecera. Também parecia dominado pelo medo dos halutenses. — Isso só servirá para apressar a execução de sua sentença de morte — disse em tom mais violento. — Onde arranjaram essa fera? Pensei em atirar de novo, quando vi Tronar Woolver atrás do agente do tempo. Baixei a arma e prendi a respiração. Orghon só notou a presença do cavalgador de ondas quando já era tarde. Tronar concentrou-se para descobrir o tipo da energia que alimentava seu campo defensivo. Acabou fundindo-se com este. No mesmo instante materializou do projetor que Orghon trazia nas costas, tomando forma no interior do campo defensivo, que o comprimia com uma força tremenda de encontro ao corpo de Orghon. De repente Orghon soltou um grito. Nunca vira um rosto tão apavorado. Virava a cabeça de um lado para o outro, levantou os braços e tentou afastar os dedos de Tronar, que apertavam seu pescoço. Não conseguiu. Tronar era um homem adaptado ao ambiente, que possuía forças tremendas. Não demorou mais de três minutos. Orghon morrera no interior de seu invulnerável campo defensivo. Tronar apalpou o cadáver e acabou encontrando o botão de controle. Fitamos o oficial da USO, um ser de pele verde, que começou a falar. — Não tiver alternativa. Provavelmente teria saído da nave. Kalak afirma que há um microtransmissor nessa mochila. Tive de agir imediatamente. Não foi um espetáculo bonito. — Preparar a nave para a manobra — limitou-se Perry a dizer. — Mr. Rudo, se não estivermos no espaço dentro de cinco minutos, as coisas poderão ficar pretas. Era estranho. Desta vez eu não via as coisas pretas, embora fosse considerado um pessimista. Tive a impressão de ter descoberto, pelo menos em parte, o que havia atrás desse homem, que sabia controlar-se tão bem. Um agente do tempo, que tinha tanta coisa a esconder das autoridades do planeta, não podia ter poderes para ordenar o ataque à Crest III. Provavelmente teria “esquecido” uma pequena bomba nuclear no interior da nave, antes de retirar-se. Dei ordem para que nossos técnicos revistassem a mochila e os bolsos de Orghon, à procura de um micropetardo nuclear.

Enquanto isso Perry anunciou sua partida aos controles de superfície. Disse ser o imediato da nave, e que Atlan lhe dera ordens para mostrar ao conselheiro Tam Orghon as qualidades da nave. Recebemos permissão de decolar. E não tínhamos alternativa. Precisávamos dar o fora quanto antes. Nunca seríamos capazes de explicar por que um dos conselheiros Tam do império lemurense morrera estrangulado a bordo da nave. Os propulsores rugiram. Antes que a nave atingisse as camadas superiores da atmosfera, foi encontrado junto ao cadáver um petardo cuja potência teria sido suficiente para transformar a Crest III num sol. *** O vôo linear tinha terminado. Saímos do semi-espaço a trezentos anos-luz do Sistema Solar. Ninguém sabia exatamente para onde nos levaria a rota que estávamos seguindo. Ficamos parados na sala de comando, esperando instintivamente que os homens que trabalhavam no rastreamento anunciassem a primeira detecção. O setor em que nos encontrávamos parecia ser um campo de manobras muito movimentado das naves halutenses. Icho Tolot aproximou-se. Uma operação dos mutantes lhe permitira saber em que ano nos encontrávamos. Os teleportadores tinham arranjado os respectivos dados. Estávamos no ano 49.988 antes do nascimento de Cristo. Considerando o tempo real, chegava-se à conclusão de que nos tinham feito recuar 52.392 anos no passado. O problema com que nos defrontávamos era encontrar o caminho de volta e informar a Humanidade que vivia em nosso tempo real. Se a Crest III não conseguisse superar o abismo do tempo, ao menos um ou dois mutantes tentaria contornar a frota que montava guarda em torno de Kahalo e chegar à nebulosa de Andrômeda, onde havia uma possibilidade de abandonar o passado. Depositei minhas esperanças nos cavalgadores de ondas Tronar e Rakal Woolver. Talvez tivessem uma chance. Se não, ninguém mais teria. *** ** * O transmissor temporal arremessou-os no passado. Chegaram à galáxia de origem e à Terra — 50.000 anos antes do tempo! As novas aventuras que os terranos comandados por Perry Rhodan vivem nesta época do passado são contadas no próximo volume da série, intitulado O Olho do Tempo.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan: www.perry-rhodan.com.br

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