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A PONTE ENTRE AS ESTRELAS Everton
Autor

KURT MAHR

Tradução

RICHARD PAUL NETO

Uma vez celebrado o tratado de amizade com os velhos inimigos dos arcônidas, os maahks, Perry Rhodan não perde mais tempo: resolve desferir imediatamente o golpe decisivo contra os senhores da galáxia. O transmissor central de Andrômeda é destruído por meio de um anti-sol — mas as conseqüências deste ato são mais fortes do que se esperava. O inferno solar que se segue à destruição do transmissor obriga a frota de Perry Rhodan a bater em retirada. Mas Gucky permanece mais algum tempo no centro de Andrômeda, juntamente com um punhado de terranos. O grupo alcança o mundo dos engenheiros solares e estabelece contato com os misteriosos seres energéticos. O rato-castor quer levar os engenheiros solares, que trabalham para os senhores da galáxia, a romper relações com estes e transformar-se em aliados da Terra. Mas não consegue fazer o povo dos engenheiros solares mudar de idéia. Os seres energéticos retornam para junto das grandes madres, que há tempos imemoriais lhes deram a vida. Desta forma o segredo dos transmissores solares se perde para sempre. E, o que é pior, a destruição do transmissor solar causa a instabilidade dos outros transmissores — e quem quer que tente atravessar A Ponte Entre as Estrelas arrisca a própria vida...

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Personagens Principais: = = = = = = =

Tsin Muno — Comandante do cruzador pesado Helipon. Timo Benz — Um tenente que serve na Helipon. Warren Levier e Pulpo Rimak — Dois sargentos que acompanham o Tenente Benz durante o salto no nada. Perry Rhodan — Administrador-Geral do Império Solar. Reginald Bell — Marechal-de-Estado do Império Solar e comandante de Kahalo. Vince Foley — Coronel e ajudante do Marechal-de-Estado.

O visitante do museu de história da colonização de Valparaíso, Terra, seção da América do Sul, tem a atenção atraída por uma estranha exposição. Atrás de uma parede protetora de glassite vê-se uma área coberta de grama com cerca de cinco por cinco metros. Uma pequena placa, colocada no ângulo inferior esquerdo da parede, informa o visitante de que se trata de uma grama especial. Diz a placa: Gramínea Communis Kahalensi. Grama comum de Kahalo. No centro do gramado encontram-se, lado a lado, três blocos de pedra natural de formato irregular. Cada bloco tem cerca de um metro de altura. Na parte da frente de cada bloco vê-se uma placa metálica retangular. Todas as placas trazem a mesma inscrição num intercosmo antiquado: “Em memória do Tenente Timo Benz e dos sargentos Warren Levier e Pulpo Rimak, cujo heroísmo jamais será esquecido.” O visitante pergunta a si mesmo se esta exposição foi colocada no museu por ter algo de especial, ou porque tem um significado importante. Quebra a cabeça para descobrir o que significa o mundo Kahalo. Se perguntar a alguém, fica sabendo que se trata de um planeta que teve grande importância no início do terceiro milênio, como base do Primeiro Império. Ainda é informado que foram colocadas três pedras porque os restos mortais das pessoas mencionadas nas inscrições foram encontrados em três lugares diferentes, mas não puderam ser identificados, não se sabendo quais são os restos pertencentes a cada uma delas. Ainda fica sabendo que as sementes de grama de Kahalo foram conservadas através dos milênios, a fim de proporcionar um local de repouso condigno para as pessoas indicadas. Em seguida ouve a história de Timo Benz e dos dois sargentos, conforme foi reconstituída pelos entendidos...

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O Tenente Timo Benz olhava com uma expressão pensativa para a tela de imagem na qual se viam milhares de pontos luminosos, que representavam os fragmentos do sistema Chumbo de Caça e as naves da frota-patrulha, espalhadas numa grande área. Não tinha nada a fazer e sentia tédio. Se não tivesse olhado para a tela por acaso, provavelmente não teria visto em tempo a língua de fogo verde que de repente avançou pela tela, vinda do canto inferior direito. A reação de Timo foi perfeitamente natural. Pôs-se a praguejar e apertou o botão de fixação do sistema de imagem. O botão emitiu um brilho verde. Não havia nada de errado com o sistema. A língua de fogo verde existia mesmo. Timo gostaria que houvesse mais alguém na sala de comando. Sentia-se perplexo e abandonado no grande recinto circular com os aparelhos cintilantes e o grande número de poltronas vazias. Lançou um olhar desconfiado para a tela e pegou o intercomunicador. Apertou um botão do seletor e esperou que uma pequena tela se iluminasse. Um rosto de traços asiáticos apareceu na tela. — Tenente Benz falando, senhor. Sou o oficial de plantão disse Timo. — Desculpe o incômodo, mas... O tipo asiático sorriu. Timo interrompeu-se, intrigado. — Que houve, tenente? Diga logo. — Noto uma luminosidade verde que entra no campo de visão vinda da direção do centro do sistema. Peço instruções sobre se devemos tomar conhecimento do fenômeno ou não. O Tenente-Coronel Tsin Muno não parecia ser o tipo de homem que demorava para tomar uma decisão. Mas assim mesmo sua decisão veio tarde, pois acabou vindo do outro lado. O alerta automático dos rastreadores energéticos emitiu um som estridente. Tsin Muno ouviu-o pelo intercomunicador. — Dê o alarme! — gritou para Timo. — Informe a base. Estarei aí dentro de alguns minutos. A imagem apagou-se. Timo sentiu-se mais aliviado. A faixa luminosa verde atravessava todo o campo da grande tela de imagem. Timo bateu na tecla do alarme. O som estridente do rastreador de energia foi abafado pelo uivo das sereias. Timo ligou o hipercomunicador e entrou em contato com a base situada em Califa, onde a luminosidade verde também fora detectada. Ninguém sabia do que se tratava. Provavelmente tinha alguma relação com o transmissor, uma vez que a faixa luminosa saía do espaço cósmico no centro do sistema, entre os dois sóis. Todas as unidades da frota de patrulhamento tinham sido colocadas de prontidão e estavam a postos. Mas isso não satisfez a curiosidade de Timo, que atravessou correndo a sala de comando, passou pelo console em posição elevada do comandante e dirigiu-se ao rastreador de energia. Desligou o sistema de alerta e examinou as indicações dos instrumentos. Não entendia muito dessas coisas, uma vez que era navegador. Mas viu os indicadores luminosos balançarem fortemente de um lado para outro, mostrando que fluxos de energia de intensidade variável atingiam as antenas. Timo sabia que a cor da faixa luminosa que aparecia na parte superior do console fornecia uma indicação sobre a

estrutura da energia detectada. A cor azul significava que se tratava de uma forma de energia desconhecida. Timo ligou a tela panorâmica que cobria todas as paredes da sala de comando numa largura de três metros, pouco acima dos consoles. As bolas de fogo vermelhas dos dois sóis apareceram. Os filtros neutralizaram parte de sua luz, permitindo que se olhasse para elas sem prejudicar a visão. A faixa luminosa verde saía entre os dois sóis. Pelo que Timo pôde ver, já atravessara o anel de fragmentos cósmicos que se estendia em torno dos dois sóis, a oitenta milhões de quilômetros de distância, e continuava a avançar espaço a fora. A escotilha escorregou para o lado e um grupo de oficiais entrou correndo, com o comandante da nave, Tsin Muno, na ponta. — Todos a postos — gritou num tom mais agudo do que seria de esperar de um homem grande e encorpado como ele. Tsin subiu correndo os degraus que davam para seu controle. — Não fazemos parte da frota de patrulhamento e por enquanto somos donos do próprio nariz. Mas quero que a nave esteja pronta para partir caso haja algum imprevisto. Timo Benz voltou ao seu lugar. O pavilhão redondo da sala de comando encheu-se de vida e atividade. Timo não tinha nada a fazer. Seus serviços só se tornariam necessários depois que fosse dada ordem de partida. Recostou-se na poltrona e levantou os olhos para a tela panorâmica. Olhou fixamente para a faixa luminosa verde, como se isto pudesse ajudá-lo a descobrir seu mistério. Timo Benz saíra há pouco tempo da Academia Espacial. Ocupava o posto na Helipon, uma das naves mais modernas da frota do Império, graças ao brilhante exame de conclusão do curso. Era um excelente navegador, mas como todos os oficiais jovens com pouca experiência prática vivia na ilusão de que qualquer mistério do cosmo podia ser resolvido com um olhar atento e uma boa dose de lógica. A luminosidade verde foi o primeiro abalo que esta crença sofreu. Não havia explicação para ela. Era ilógica. Não devia ser uma arma, uma vez que a luminosidade não se dirigia a qualquer ponto importante do sistema. Saía dos limites dele, penetrando no espaço cósmico. Os limites nítidos e o avanço em linha reta davam a impressão de que se tratava de uma figura artificial. Mas um fenômeno artificial sempre tem alguma finalidade. E a luminosidade projetada na tela parecia não preencher nenhuma finalidade. “Talvez nem seja um fenômeno artificial”, pensou Timo. A natureza também costuma criar figuras que exibem uma espantosa regularidade de formas. Talvez fosse um fenômeno que se desenrolava no interior do transmissor e se revelava através da luminosidade projetada fora dele. Timo lamentou que seus conhecimentos em física de transmissores fossem tão superficiais. O transmissor era uma coisa que transportava objetos de um lugar para outro. Era algo parecido com uma transmissão de rádio, com a diferença de que o transmissor utilizava outras estruturas energéticas. Timo olhou em volta e bocejou. A sua direita e à sua esquerda havia oficiais pertencentes à equipe de navegação. A julgar pela expressão de seus rostos, estavam tão insatisfeitos com a situação quanto Timo. A voz abafada de um dos homens que trabalhavam com os rastreadores de energia veio do outro lado da sala. Falava pelo intercomunicador com Tsin Muno, que estava sentado junto ao seu console. Timo tentou ler em seu rosto qual era a opinião de Tsin. Não conseguiu. Timo sempre tivera dificuldade em interpretar a fisionomia das pessoas. E no caso de Tsin Muno com seus traços asiáticos essa habilidade era igual a zero. Timo voltou a colocar a poltrona na situação anterior e jogou a cabeça para trás, para ver melhor a tela.

Descobriu que a faixa luminosa verde tinha desaparecido. *** Dali em diante os acontecimentos se precipitaram. — Os fluxos energéticos desconhecidos cessaram, senhor — disse o encarregado do rastreamento energético em tom estridente. — Não existe mais nenhuma indicação. — Temos uma detecção em Pi trinta e um, Teta três zero três, senhor — gritou o homem encarregado do rastreamento de objetos. — Distância aproximada cem. É um objeto bem grande, senhor. Quem não tinha nada a fazer girou a poltrona e fixou para os consoles dos rastreadores. Timo fez a mesma coisa. A faixa luminosa verde desaparecera no momento exato em que o rastreador de objetos captara um reflexo. E dois acontecimentos completamente inesperados nunca se verificam simultaneamente, a não ser que exista uma ligação entre eles. Timo perguntou a si mesmo, intrigado, onde ouvira isso. Chegou à conclusão de que a frase deveria ter crescido em seus próprios canteiros. O objeto aparecera no instante em que desaparecera a faixa luminosa verde. Como se explicava isso? Seria um fenômeno de materialização de energia? Tsin Muno colocou o microfone do hipercomunicador perto dos lábios e falou com alguém que se encontrava em Califa. Não se compreendia o que dizia. Mas Timo o viu acenar com a cabeça, enquanto recolocava o microfone. — Partiremos imediatamente! — gritou com a voz aguda. — Seguiremos em direção ao objeto não identificado que acaba de ser detectado. Nossa tarefa é descobrir de que se trata e o que veio fazer aqui. Timo fez girar abruptamente a poltrona. Já não podia entreter-se ficando admirado com os acontecimentos. A sua frente começou a tiquetaquear um relé que ligava seu computador aos bancos de dados positrônicos dos rastreadores. Os dados apurados por estes estavam sendo transmitidos automaticamente aos aparelhos de navegação. Uma fita de plástico com algarismos impressos caiu da fenda. Timo pegou-a e passou os olhos pelas cifras. No momento o objeto não identificado encontrava-se a cento e três milhões de quilômetros. Deslocava-se à velocidade de dezoito mil quilômetros por segundo relativamente à posição da Helipon. Timo afastou a fita. Estava decepcionado. O computador não precisava de auxílio para resolver o problema. Numa distância e velocidade tão reduzida aplicavam-se as equações do contínuo tridimensional. O navegador não precisava tomar qualquer decisão sobre a rota a seguir. A rota foi fixada dentro de quarenta segundos. A nave começou a movimentar-se. Timo acompanhou as indicações dos instrumentos, um tanto desinteressado. Tudo daria certo. A Helipon acelerou com toda força, deixando rapidamente para trás o anel de asteróides e fragmentos cósmicos que girava em torno do sol gêmeo. A tela panorâmica mostrava a escuridão negra do espaço intergaláctico que se estendia à sua frente. Dali a quarenta minutos o cruzador pesado imobilizou-se relativamente ao objeto não identificado. A coisa misteriosa que se formara da faixa de luz encontrava-se a cerca de dez mil quilômetros. Mantinha a velocidade e continuava numa trajetória retilínea. Percorrendo dezoito mil quilômetros por segundo, só levaria algumas horas para sair do campo gravitacional do sol geminado. Dali em diante vagaria para todo o sempre pelo espaço infinito que separa as duas galáxias. Os rastreadores já tinham apurado que o objeto era de formato irregular, e que seu diâmetro não ultrapassava cinco quilômetros. Para Timo já não havia a menor dúvida. Não podia tratar-se de uma espaçonave. Com exceção dos veículos espaciais dos pos-bis,

as naves eram de formato irregular. Até mesmo uma nave cósmica era bem diferente de um bloco de pedra cósmico. Portanto, só podia tratar-se de um objeto natural. Provavelmente era um pequeno asteróide que entrara por acaso no campo de ação do transmissor e voltara a ser expelido. Os especialistas não levariam muito tempo para descobrir a origem da faixa luminosa verde. Para Timo o problema estava resolvido. Voltou a sentir tédio. Mas de repente ouviu a voz de um dos oficiais que trabalhavam no rastreamento de energia. O intercomunicador fora ligado para ser ouvido em toda a nave. — O objeto não identificado emite radiações intermitentes — disse o oficial. — Não pode haver dúvida sobre a natureza das radiações. Provêm de um reator de fusão. *** Tsin Muno tentou estabelecer contato de rádio com os desconhecidos. Experimentou todos os códigos elaborados pelos especialistas para comunicar-se com raças desconhecidas. Não houve resposta. O receptor permaneceu em silêncio. Tsin tentou durante quinze minutos. Finalmente deu ordem para que a nave se aproximasse mais do objeto não identificado. Por alguns minutos Timo teve muito trabalho. O cálculo das manobras que mudavam constantemente exigia um máximo de concentração. Por algum tempo ficou totalmente entregue ao trabalho, esquecendo-se do que acontecia em torno dele. Finalmente Tsin Muno deu ordem de emparelhar-se com o objeto. Mais uma manobra, e a rota e velocidade da nave foram adaptadas às do objeto. Timo levantou os olhos. Uma mancha incandescente surgira no espaço. Os contornos confundiam-se na escuridão, mas as áreas arredondadas, as reentrâncias e os abismos do gigantesco objeto davam-lhe um aspecto de monstro. Até parecia um pesadelo. Timo fitou a figura, fascinado, e sentiu o medo tomar conta dele. Tentou convencer-se de que não havia motivo para ficar nervoso. A incandescência do objeto era fácil de explicar. Sua superfície refletia a luz do sol geminado, que naquele momento se encontrava a mais de cem milhões de quilômetros. E um pedaço de rocha cósmica iluminado por uma luz inconstante nunca teria um aspecto acolhedor. Mas o medo não desapareceu. Não se tratava de uma simples rocha. As arestas eram muito arredondadas, as formas regulares demais, apesar da aparente confusão dos contornos. Parecia antes uma escultura futurista que uma peça de rocha natural. A voz de Tsin Muno arrancou-o das reflexões. — Tenente Benz! Timo viu o rosto de Tsin na tela do intercomunicador. — Pronto, senhor — respondeu Timo, confuso. — O senhor é um novato. Precisa adquirir um pouco de experiência. Pegue dois homens de seu grupo e dirija-se à eclusa do hangar leste. Estarei lá dentro de vinte minutos. Quero que então esteja pronto para entrar num barco espacial. Timo confirmou o recebimento da ordem. Refletiu por alguns instantes sobre as pessoas que deveria levar. Escolheu Warren Levier e Pulpo Rimak. Fazia apenas quinze dias que dirigia o grupo, e só conhecia a maior parte de seus membros pelo nome, posto e código de identificação. Tivera contatos mais estreitos com os sargentos Warren e Pulpo. Entrou em contato com eles e transmitiu as instruções de Tsin Muno. Em seguida desatou os cintos de segurança e levantou. Para chegar à escotilha leste teve de atravessar a sala de comando. Quando passou perto do console do comandante, Tsin lançou-lhe um olhar de estímulo. Timo fez uma continência impecável. Quando

atingiu a escotilha, voltou a olhar para o monstro vermelho que parecia estar à espreita na escuridão do abismo cósmico. Tsin Muno queria ver o objeto bem de perto. Timo não sabia se gostava da tarefa. Não sabia qual seria sua decisão se tivessem deixado a seu critério acompanhar o grupo ou ficar na nave. *** Quando Timo chegou à antecâmara da eclusa, Warren Levier e Pulpo Rimak já estavam lá. Fizeram continência. Os rostos impassíveis dos sargentos, que até chegavam a demonstrar certo tédio, fizeram com que Timo recuperasse a autoconfiança. Pulpo e Warren possuíam muita experiência. Se não sentiam medo, não havia o que temer. Pulpo era um tipo pesado, muito largo e com pouco menos de dois metros de altura. Timo ficara sabendo que várias vezes se fizera passar por epsalense, o que lhe rendera um respeito a que não fazia jus como simples sargento terrano. Tinha uma nuca enorme e a testa parecia muito baixa, embora o cabelo cortado curto a fizesse ficar mais alta. Quem o visse pela primeira vez ficaria se perguntando como este homem conseguira passar pelos testes de inteligência mais rudimentares a que tinham de submeter-se os candidatos que queriam fazer carreira na frota. Timo Benz sabia que era uma falsa impressão. Pulpo Rimak era mais inteligente que muitos homens de testa alta. Perto de Pulpo, Warren Levier era um anão. Tinha apenas um metro e setenta e sua figura magra dava-lhe o aspecto de uma criatura desamparada, que sofria o destino de sempre sentir-se deslocada. Warren tinha trinta e cinco anos, mas parecia ter pelo menos dez anos mais. Timo nunca o vira em ação, mas conhecia seus assentamentos individuais, que mostravam que sempre que necessário sabia transformar-se numa massa de arrojo e energia. Os três pegaram as armas e os trajes espaciais antes de entrar na câmara da eclusa propriamente dita. Um pequeno planador de cinco lugares fora preparado, certamente por ordem de Tsin Muno. Os planadores espaciais eram veículos rudimentares, muito robustos. Eram usados em viagens curtas e não ofereciam a menor proteção aos seus ocupantes. Eram formados por uma estrutura na qual tinham sido montadas cinco poltronas anatômicas, com um propulsor químico na proa e outro na popa. Quatro das poltronas tinham sido colocadas lado a lado, enquanto a quinta se encontrava na proa do veículo, à frente de um pequeno console que servia para controlar os propulsores. Tsin Muno chegou. Sem dizer uma palavra, saltou para dentro da poltrona do piloto. Timo Benz e os dois sargentos embarcaram em seguida. Fecharam os capacetes e passaram a comunicar-se pelo rádio. Uma esteira rolante levou o planador através da escotilha interna da eclusa. A escotilha fechou-se e o ar foi bombeado. Em seguida a escotilha externa abriu-se. Timo olhou para o lado e viu uma chama branco-azulada sair do propulsor de popa. O veículo partiu abruptamente. Houve outro solavanco no momento em que o planador saiu do campo de gravitação artificial da nave. Timo teve a impressão de que o estômago lhe iria saltar pela boca. Por um instante experimentou a sensação desagradável de uma queda. Mas logo se acostumou. As formas ligeiramente abauladas da Helipon foram se afastando lentamente, do lado do planador e atrás dele. O monstro vermelho-brilhante apareceu atrás da curvatura da nave. Estava bem mais próximo e parecia mais assustador que na tela de imagem. Timo ficou satisfeito quando finalmente Tsin disse alguma coisa. — Sei o que estão pensando, rapazes. Sinto decepcioná-los. Não sei o que é isso. Não faço a menor idéia. Precisamos ver de perto para saber se há alguma coisa atrás

disso. Se não houver, deixaremos que continue a vagar pelo espaço. Não acredito que tenhamos algum problema. Acho que esta coisa não tem tripulação. Timo sabia que a última frase fora dirigida a ele. Tsin sabia que estava com medo e queria acalmá-lo. Timo ficou aborrecido por ter mostrado seu nervosismo. O monstro vermelho foi chegando mais perto. Um abaulamento parecido com a parte superior de uma esfera, com uma porção plana, que dava a impressão de que alguém cortara um pedaço, veio em direção do planador. A face plana descia a profundezas que a luz dos sóis distantes não alcançava. Tsin Muno fez o planador passar pela borda da saliência e o fez descer cuidadosamente. A luz mortiça vermelha ficou para trás enquanto o veículo descia no precipício que parecia não ter fim. Pulpo e Warren ligaram as lanternas portáteis sem esperar ordens de Tsin Muno. Reflexos cintilantes apareceram de ambos os lados, perto do planador, mostrando superfícies arredondadas, abauladas e entrecortadas. Eram reflexos muito fortes. Só então Timo notou que o objeto desconhecido era de metal — ao menos no lugar em que se encontravam. Olhou para cima. Bem no alto, quase invisível, um círculo alongado brilhava na escuridão. Era o lugar pelo qual tinham entrado. Não foi fácil avaliar a distância, mas pelos cálculos de Timo deviam ter percorrido pelo menos quinhentos metros no interior do colosso desconhecido. Tsin desligou os propulsores. A reduzida gravitação artificial produzida pelo impulso desapareceu. Timo olhou fixamente para um dos reflexos produzidos pelas lanternas. Viu a parede do objeto não identificado passar com uma tremenda lentidão. Só assim se convenceu de que não estava caindo no abismo, conforme fazia crer a sensação estranha no estômago. — Dirija a luz para baixo, Rimak! — disse Tsin Muno de repente. A lanterna de Pulpo fez um giro de noventa graus, passando a apontar para baixo. Timo inclinou-se sobre a borda do veículo e viu que uns vinte metros abaixo dele a luz produzia um reflexo intenso. Era o fim da reentrância. Tsin deu mais um impulso ligeiro com os dois propulsores e fez o planador pousar suavemente numa área plana. Warren Levier fez girar a lanterna, cuja luz passou a iluminar uma parede metálica lisa, que desaparecia na escuridão depois de descrever uma curva. Do outro lado via-se uma parede semelhante a esta. A distância entre as paredes não passava de cem metros. Era pouco para permitir a passagem do planador. Warren iluminou a abertura. A luz não produziu qualquer reflexo. A reentrância avançava, sem curvas, mais longe do que chegava a luminosidade da lanterna. “A luz chega a mais de quatrocentos metros”, pensou Timo e teve um calafrio. — Vamos dar uma olhada — decidiu Tsin. — Iremos todos. Temos de encontrar o lugar de que sai a radiação. Queremos saber qual é a origem da radiação típica de um reator de fusão. Fiquem bem perto um do outro. Vamos embora! Pulpo e Warren soltaram os cintos de segurança e abandonaram o veículo. Seus movimentos eram lentos e cuidadosos, mostrando que já tinham colhido suas experiências num ambiente de ausência de gravidade. Timo resolveu que também teria cuidado. Soltou os cintos e fez um movimento rápido com a mão, que o impeliu para as profundezas. Quando sentiu chão firme sob os pés, dobrou os joelhos e apoiou-se na estrutura do planador para reduzir a força do impacto. Quando se levantou, viu Tsin Muno parado bem a seu lado. Estava tão escuro que não distinguia seu rosto atrás do visor do capacete. Mas Timo tinha certeza de que Tsin estava sorrindo.

Warren e Pulpo já tinham avançado um pedaço. Timo viu os reflexos da luz de suas lanternas deslizarem pelas paredes. Estendeu os braços e avançou às apalpadelas junto às superfícies metálicas, colocando cuidadosamente pé ante pé. Notou que o metal estava bem liso. Não havia saliências ou reentrâncias. O grupo continuou a avançar. Os movimentos de Pulpo e Warren eram elegantes e seguros, mesmo na ausência da gravidade. Mas tiveram de esperar por Tsin Muno, que vinha atrás de Timo Benz. Este teve de orientar-se e algumas vezes subiu vários metros na escuridão. Timo não sabia quanto tempo já tinha passado quando de repente sentiu que o chão em que pisava estava vibrando. A vibração começou abruptamente e só durou alguns segundos. — Parados! — disse Tsin no mesmo instante. — Sentiram alguma coisa? — O chão está tremendo — respondeu Timo. — Isso mesmo, senhor — confirmou Warren Levier. Depois de alguns segundos o chão voltou a tremer. Timo guiou-se pela intuição, encostando o capacete à parede lateral esquerda. Desta forma as vibrações, que não se propagavam no vácuo, atingiram diretamente o ouvido. Timo era iluminado pela lanterna de Pulpo. Tsin Muno teve a impressão de que Benz sofrera um choque elétrico. Estava grudado à parede. Quando o tremor passou, ele voltou a endireitar o corpo. A lanterna de Pulpo iluminou um rosto pálido atrás do visor do capacete. Timo não tinha certeza de que realmente ouvira aquilo. Mas sabia que não estava disposto a repetir a experiência. Um grito lancinante se fizera ouvir no vácuo reinante no interior de um corpo que vagava bem longe, em pleno abismo intergaláctico. Pulpo e Warren não souberam o que dizer diante da descrição de Timo. — É difícil de explicar — respondeu Tsin. — Tenho a impressão de que por aqui podemos esperar as coisas mais estranhas. Para Timo estas palavras significavam que ele sonhara acordado, mas que não se podia dizer isso na cara dele enquanto não se tivessem examinado todas as possibilidades. Esteve para sugerir a Tsin que ele mesmo encostasse o capacete à parede assim que o chão voltasse a tremer de novo. Mas não teve tempo. O objeto monstruoso parecia decidido a revelar seus horríveis segredos todos ao mesmo tempo. Houve um forte solavanco no chão — tão forte que Timo se viu arremessado a um metro de altura antes de compreender o que estava acontecendo e apoiar-se na parede. — Que foi isso...? — perguntou, estupefato. Não houve resposta. Outro solavanco sacudiu o chão e as paredes. Desta vez Timo conseguiu segurar-se. O abalo transmitiu-se através das luvas e botas, atingindo o ar preso no interior do traje de proteção. Timo teve a impressão de ouvir um gongo batendo bem devagar. Olhou para Tsin Muno, que tirara um pequeno aparelho e examinava sua escala luminosa com uma expressão curiosa. Sem tirar os olhos da escala, levantou o braço e apontou obliquamente para a direita. — Parece que vem de lá — constatou. — Se avançarmos mais um pouco, chegaremos mais perto da fonte das vibrações. Pulpo e Warren voltaram a caminhar. Timo foi obrigado a acompanhá-los. Tsin veio atrás dele. Timo olhou para trás e viu que Muno continuava a examinar a escala do

aparelho. Sabia movimentar-se na ausência da gravidade, sem dar muita atenção aos seus passos. Pulpo e Warren andavam mais depressa que antes. Timo descobriu que avançava mais depressa levantando os pés do chão e empurrando-se com o corpo na posição horizontal. Os minutos foram passando. Já deviam estar pelo menos a um quilômetro do lugar em que Tsin fizera pousar o planador. Tinham penetrado profundamente no interior do objeto desconhecido. O zumbido e os solavancos continuaram. Timo sentia toda vez que punha as mãos nas paredes para empurrar-se. Teve a impressão de que havia duas formas bem distintas de “sinais”. Uma delas consistia numa forte sacudidela que durava menos de um segundo, enquanto a outra era uma vibração com três ou quatro segundos de duração. De repente a luz da lanterna de Warren caiu numa parede metálica que parecia fechar o túnel. Mas quando chegaram mais perto viram que esta parede não encostava ã parede lateral direita. Havia uma abertura estreita, que continuava a penetrar na escuridão. Os dois sargentos não perderam tempo. Entraram na abertura. Timo voltou a cabeça e olhou para Tsin como quem pede auxílio. Mas este não poderia vê-lo na escuridão, e além disso estava com a atenção presa em seu medidor de vibrações. O buraco em que Warren e Pulpo acabavam de entrar acabou por revelar-se como sendo a entrada de um túnel muito apertado, onde Timo tinha de locomover-se com muito mais cuidada para não ficar batendo na parede e no teto, saltando que nem uma bola. Quando tinham percorrido algumas centenas de metros, o túnel abriu-se em funil. Nem mesmo a luz reunida das três lanternas foi capaz de romper a escuridão que se estendia além desse funil. O chão começou a descer. Pulpo e Warren avançaram às apalpadelas para dentro do precipício. Timo seguiu-os. Graças à ausência da gravidade, teve a impressão de encontrar-se num plano inclinado. Parecia não ter fim. As sacudidelas e vibrações no chão, provocadas pelas batidas abafadas, eram cada vez mais fortes. Timo olhava fixamente para a escuridão, esperando que a qualquer momento um monstro furioso aparecesse na escuridão e os atacasse. Surpreendeu-se usando somente uma das mãos para empurrar-se, enquanto mantinha a outra perto da arma energética que trazia presa ao cinto. Mas depois de alguns minutos em que não aconteceu nada voltou a acalmar-se e tentou convencer-se de que não estavam em perigo. Quando de fato acabou aparecendo alguma coisa na escuridão, bem ao longe, já estava tão convicto de que não havia nenhum perigo que levou um segundo para esboçar a primeira reação. Pulpo e Warren também deviam ter notado o movimento. Pararam imediatamente. Timo, que acabara de tomar impulso, bateu nas costas largas de Pulpo e empurrou-o para a escuridão. Pulpo colocou as pernas à frente do corpo e empurrou-se, voltando com uma rapidez surpreendente. Warren já dirigira a luz da lanterna para a coisa que se movimentava lá adiante. Não se distinguia quase nada, mas não havia dúvida de que se tratava de um objeto de tamanho considerável, que pendulava de um lado para outro. Toda vez que atingia determinado ponto, o chão tremia e vibrava. — Vamos chegar mais perto! — decidiu Tsin. Os dois sargentos avançaram. A cada segundo que passava o quadro iluminado por suas lanternas tornava-se mais nítido. Timo tentou avaliar a distância que o separava do objeto pendulante. Pelos seus cálculos, o corpo cilíndrico que pendulava na escuridão devia ter pelo menos dez metros de diâmetro. As extremidades do cilindro desapareciam

na escuridão. Na opinião de Timo, a extremidade inferior devia roçar o chão, produzindo as vibrações. — Parados! — disse Tsin Muno de repente. Parecia que o objeto balançava mais devagar. Movimentou-se preguiçosamente para um lado, foi perdendo velocidade, parou e acabou voltando a posição anterior, muito mais devagar. Quando chegou perto do ponto mais baixo de sua trajetória, o chão vibrou. O abalo não era tão forte como das três vezes anteriores, mas demorou mais. A impressão de que se tratava de sinais era cada vez mais forte para Timo. Olhou fascinado para o estranho objeto, enquanto subia, tornando-se mais lento. — Vamos! — ordenou Tsin, e empurrou-se como que em sonho, para avançar mais um pedaço. — Prestem atenção, rapazes — prosseguiu Tsin, enquanto se locomoviam pouco acima do chão. — O chão vibra porque esta coisa bate no chão. Muda de velocidade de vez em quando, e isto faz com que às vezes produza sinais fortes e breves, outras vezes sinais mais suaves e prolongados. O antigo alfabeto Morse dos terranos, que ainda é usado em alguns lugares, também consiste numa série de sinais longos e breves. Tentem descobrir um sentido nestes sinais. O braço oscilante permaneceu muito tempo na posição seguinte, para em seguida descer em alta velocidade. Quando atingiu o ponto mais baixo, causou um solavanco breve, mas violento. Timo sentiu-o através das solas das botas. Viu o objeto levantar hesitante. — Início breve resmungou. — É a letra E — respondeu Tsin Muno. O objeto voltou. Arranhou o chão em alta velocidade, subiu do lado esquerda retornou e produziu outro abalo, mais fraco e menos prolongado que o anterior. Depois voltou de novo, produzindo mais duas vibrações fortes e ligeiras no chão. — Breve, longo, breve, breve — recapitulou Timo. — Ele — registrou Tsin. De repente Timo deu-se conta da irrealidade do procedimento. Ali estava ele, no interior de um corpo estranho, que fora expelido de forma estranha por um transmissor. Encontrava-se num pavilhão enorme em cujo interior reinava o vácuo, em cujo teto balançava um pêndulo que arranhava o chão em velocidade variável, produzindo sinais Morse fáceis de decifrar. Parecia que estava sonhando. Sentia que iria acordar num instante e se veria no ambiente em que estava acostumado a viver. Mas não acordou. Ouviu a voz de Tsin Muno. — P! Já temos um E, um L e um P, com uma pausa entre o L e o P. Timo avançou sem saber o que estava fazendo. Precisava ver a coisa incrível de perto. Queria ver que cilindro pendulante era este. Empurrou-se levemente e deslizou em direção ao pêndulo. Pegou a lanterna e fez sair o feixe de luz amarela em direção ao pêndulo. Calculara mal a distância. Levou algum tempo para notar que estava mais perto do pêndulo. Empurrou-se com mais força para aumentar a velocidade. A luz da lanterna já descia pelo cilindro oscilante, mas ainda não atingia a extremidade inferior. Timo viu que o gigantesco cilindro não tinha as formas regulares que aparentava ao longe. Apresentava dobras. Uma comparação apresentou-se à mente de Timo. Pareciam as dobras de uma manga de blusa que tivessem endurecido, transformando-se em metal. Ouviu a voz de Muno em seu rádio-capacete.

— Breve, longo. É um A. Timo enfileirou as letras. E — L — P — A. Não faziam sentido. Ainda não! De repente o pêndulo passou a movimentar-se mais devagar. As forças pareciam faltar-lhe na subida. Subiu mais um metro ou dois e retornou, hesitante. Não atingiu o chão. Ficou parado pouco antes em posição oblíqua. Timo empurrou-se mais uma vez. Aproximou-se em alta velocidade do estranho objeto. O reflexo de sua luz chegava cada vez mais embaixo. Finalmente iluminou a extremidade inferior do pêndulo, do cilindro com dobras que Timo acabara de comparar com a manga de uma veste. Mas não se deu mais conta da comparação que fizera. Não se deu conta de mais nada. Sua mente desligou. Os pensamentos atropelavam-se em seu cérebro, descontrolados. Timo gritou. Não teve consciência disso. Nem ouviu os gritos nervosos de Tsin Muno. Gritou de medo, um medo primitivo e incontrolável do quadro incrível, macabro que seus olhos tinham visto. O pêndulo terminava numa mão humana. Pendia pouco acima do chão. metálica e do tamanho de uma casa com o de do estendido apontando para o sulco de vários metros de profundidade cavado no chão pelo terrível pêndulo.

2
Mais tarde Timo Benz só teve uma lembrança apagada de como saíra daquele pavilhão e regressara para a nave Helipon. Um médico cuidou dele. Prescreveu uma terapia de repouso. Timo só voltou a si vinte horas depois do terrível acontecimento. Quase não foi capaz de acreditar que ele realmente se verificara. Mas havia provas. Tsin Muno mandara tirar fotografias do pêndulo. Nas fotos exibidas a Timo a semelhança com uma mão não era tão marcante como ele notara ao vivo. Mas os traços básicos estavam lá. O dedo que Timo vira apontar para o sulco não passava de um cilindro de um metro e meio de diâmetro, que afinava um pouco na extremidade. Parecia uma escultura semi-acabada. Era como se o escultor não tivesse tido tempo de completar a obra. Timo foi convocado à presença de Tsin Muno. Quando examinou as fotografias, teve esperança de que haveria uma explicação natural para aquilo. Mas as palavras de Tsin frustraram suas expectativas. Warren Levier tirara amostras do material de que tinha sido feito o estranho objeto desconhecido e as mandara analisar a bordo da Helipon. O exame revelava que se tratava de aço terconite, o material usado na construção das espaçonaves terranas. A estrutura cristalina do metal se deformara e certos grupos de moléculas se tinham reagrupado. Estes reagrupamentos deixaram arrepiados os cientistas do sistema Chumbo de Caça. Mas não podia haver a menor dúvida sobre a natureza do material. Além disso o transmissor perdera a estabilidade. As flutuações de intensidade das radiações do sol geminado vermelho, registradas pelos rastreadores energéticos automáticos de Califa, eram cada vez mais freqüentes. O comandante da base, General Razta, enviara algumas sondas robotizadas para perto da saída do campo de transmissão e constatara que o transmissor já não funcionava como antes. Três sondas tinham penetrado no campo. Duas delas desapareceram. Acreditava-se que tinham sido arremessadas para Kahalo através do campo de transmissão. Mas a terceira se comportava como se não houvesse nenhum campo desta natureza. Voltou a aparecer atrás dos três sóis. Foi possível fazê-la voltar para Califa e os cientistas descobriram que em seu material houvera as mesmas deformações e reagrupamentos encontrados nas amostras do objeto desconhecido trazidas por Warren Levier. Razta decidira deixar que o objeto desconhecido voasse para onde quisesse. Alguns oficiais da base não concordavam com a medida. Mas quem dava as ordens era Razta, e na situação melindrosa em que se encontravam não podiam perder tempo com pesquisas em certos produtos do transmissor que parecia ter enlouquecido. Uma nave acabara de chegar de Kahalo. Por intermédio dela Reginald Bell, comandante da frota metropolitana e substituto com plenos poderes do AdministradorGeral, preveniu todas as unidades e grupamentos que operavam fora da Via Láctea de que logo haveria problemas. Os sóis dispostos em hexágono que formavam o transmissor do centro galáctico apresentavam oscilações que se revelavam perfeitamente nos campos de radiações residuais. Também em Kahalo, onde ficava o centro de comando do transmissor intergaláctico, houvera oscilações nas funções de controle. Três objetos não identificados tinham saído em pouco tempo do campo energético que cobria as três

pirâmides. A julgar pela descrição, não eram muito diferentes daquele que fora examinado por Tsin Muno e seus companheiros. Segundo os registros do transmissor de Kahalo, naquele tempo uma nave-correio e duas naves cargueiras tinham voado do transmissor Chumbo de Caça para Kahalo. Era quase certo que estas naves se tinham transformado nos objetos bizarros descritos por Reginald Bell, em virtude das condições de instabilidade reinantes nesse trecho do transmissor. A mensagem ainda incluía ordens terminantes dirigidas ao comandante da base instalada no sistema Chumbo de Caça, para que todas as unidades da frota que operavam nas áreas de Alfa, Beta ou Andrômeda fossem informadas imediatamente sobre o estado perigoso da ponte de transmissores. Além disso as naves com as quais conseguissem entrar em contato deveriam preparar-se para regressar imediatamente. A resposta do General Razta foi transmitida por meio de uma sonda-correio. Em sua mensagem confirmou o recebimento das ordens, informou a respeito do aparecimento de uma luminosidade verde e de um objeto ainda não identificado e fez algumas perguntas. Pelo cronograma de viagem, a sonda já deveria ter chegado a Kahalo. De fato, dentro de algumas horas Razta recebeu a resposta, que também foi enviada por uma sonda robotizada. Ao que parecia, o comando de Kahalo já não estava disposto a arriscar vidas humanas fazendo alguém passar pelo transmissor. Naquele tempo um cruzador da classe Cidade partiu de Kahalo, levando ao sistema Chumbo de Caça e depois ao sistema Tri um especialista de física energética especialmente requisitado por Perry Rhodan. Este veículo espacial nunca chegou a Kahalo. Seu nome era El Paso. *** Estava tudo bem claro; não podia haver a menor dúvida. Mas a clareza doía, e a inteligência recusava-se a aceitar as coisas como eram. Timo Benz ficara sabendo que os cientistas atribuíam a instabilidade da série de transmissores à destruição dos sóis dispostos em hexágono, no centro de Andrômeda. Perry Rhodan julgara necessário eliminar o ponto final do sistema de transmissores, para evitar que os senhores da galáxia e um povo a seu serviço, os tefrodenses, pudessem chegar à Via Láctea, afastando desta forma o perigo de uma invasão. Só se descobriu mais tarde que houvera um equilíbrio energético bem calculado entre os transmissores formados por sóis em hexágono, que ficavam nas extremidades, e o do sistema Chumbo de Caça, situado no meio. Com a destruição de um dos sistemas o equilíbrio foi rompido. A via de transmissão rompeu-se. Os especialistas não conheciam o mecanismo do fenômeno. Não sabiam o que realmente estava acontecendo e não tinham meios de impedi-lo. Mas as indicações eram bastante claras e seguras para formar um quadro geral da situação. Timo Benz não se interessou muito por estes aspectos. O que o deixava preocupado era o destino da El Paso. Lembrou-se do grito que só ele ouvira ao encostar o capacete a uma parede no interior do terrível objeto voador. Perguntou a si mesmo se realmente tinha ouvido este grito. Mas se havia um acontecimento que gerara uma lembrança clara, dolorosa e inconfundível era este. Alguém dera um grito. Alguém no interior de uma espaçonave inchada e desmanchada, cuja tripulação morrera em virtude de uma falha do transmissor. A imagem do braço fantasmagórico, feito de metal, voltou a aparecer em sua mente. O dedo estendido arranhara o chão, para soletrar o nome da nave num antiquado alfabeto

Morse. Não adiantava tentar convencer-se de que aquilo não podia ter acontecido. Havia três testemunhas e várias fotografias. A bordo dos destroços da El Paso, que naquele momento corria em velocidade constante pelo espaço intergaláctico, a quase dois bilhões de quilômetros de distância, realmente havia um objeto metálico parecido com um braço humano e a respectiva mão. Tinha pelo menos bastante semelhança para aparecer assim ao observador desprevenido — um objeto que há pouco mais de um dia terrano ainda estivera pendulando de um lado para outro, transmitindo sinais como se possuísse inteligência. Timo acabou desistindo de tentar interpretar o que observara. Sepultou as lembranças num canto remoto do consciente e resolveu deixá-las descansar para sempre. Timo Benz era um oficial educado nos princípios da academia espacial terrana, que sabia exercer um controle consciente sobre tudo que se passava em sua mente. Cumpriu a intenção de afastar da memória a lembrança do que tinha acontecido a bordo da nave destroçada. Mas não pôde impedir que esta lembrança se espalhasse no subconsciente. Trinta e duas horas depois do incidente a Helipon recebeu ordens de preparar-se para viajar às pressas ao sistema Tri. Era necessário que Rhodan fosse informado sobre o perigo, e o General Razta resolve recorrer à nave mais moderna sob seu comando para levar a notícia. *** As semanas seguintes foram que nem um pesadelo. O vôo para Gleam, durante o qual Tsin Muno fez questão de forçar os multipropulsores acima do limite máximo, embora com isso mantivesse a tripulação em constante estado de alarme porque os geradores poderiam explodir a qualquer momento, submeteu os nervos dos homens a uma prova dura e rompeu todos os recordes. Os quatrocentos mil anos-luz que separavam o sistema de Tri, situado na nebulosa Beta, do transmissor Chumbo de Caça, foram percorridos num tempo que em épocas mais calmas teria despertado o entusiasmo de qualquer maníaco de recordes. A tripulação da Helipon estava próxima do esgotamento total, mas Tsin Muno não se importou, pois esperava poder descansar alguns dias em Gleam. Quando retornou ao universo einsteiniano, a cerca de quatrocentas unidades astronômicas do sistema Tri, usou o hipertransmissor para transmitir a notícia catastrófica. Desta forma ganhou duas horas que ainda faltavam para o pouso da nave. O texto da mensagem era o seguinte: “Via de transmissores em estado de crescente instabilidade. As deformações põem em perigo o processo de transporte. Comandante metropolitano recomenda retirada urgente das unidades que se encontram em Alfa, Beta, Andrômeda e Chumbo de Caça. O General Razta mantêm de prontidão seis mil unidades da frota de patrulhamento para enviá-las pela via transmissora assim que esta apresentar um período de estabilidade.” Parecia que a bordo da Helipon não havia ninguém além de Tsin Muno que compreendesse o sentido da mensagem.

A expedição do Império Solar para a área controlada pelos senhores da galáxia não foi bem-sucedida. O avanço da Terra para Andrômeda terminou em fracasso. O objetivo, que era a eliminação do perigo representado pelos senhores da galáxia, não fora atingido. Pelo menos não da forma planejada. A ponte de transmissores tinha sido destruída. Os senhores da galáxia nunca seriam capazes de fazer chegar uma frota de invasão à Via Láctea, através da via de transmissão. Só poderiam concretizar seus planos de ataque se construíssem outro transmissor de grande porte, o que se tornara impossível depois que os engenheiros solares tinham abandonado a arena. Mas ainda estavam lá. Quatro senhores da galáxia. Seu poder continuava praticamente intacto. Continuariam a elaborar planos e tecer intrigas. Encontrariam meios de pôr em perigo a Via Láctea. Talvez não amanhã ou depois, mas dentro de vinte, cinqüenta ou cem anos. A primeira partida do jogo cósmico terminou empatada. Havia algo de tragicômico na situação: Perry Rhodan só podia culpar a si mesmo pelo insucesso. O transmissor dos seis sóis, que ficava no centro de Andrômeda, fora destruído por ordem sua. A destruição do transmissor provocou a instabilidade do trecho situado entre Chumbo de Caça e Kahalo, obrigando os terranos a fugir às pressas para salvar a vida e mais algumas espaçonaves. Tsin Muno viu que avaliara corretamente a situação e a reação de Perry Rhodan diante da notícia calamitosa. Quando a Helipon pousou em Gleam, a base estava em alvoroço. Era noite naquela face do planeta, uma das noites típicas de Gleam, muito claras, com os dois sóis pouco acima do horizonte, um ao norte e outro ao sul, cada qual mais luminoso que a lua cheia do planeta Terra. Havia uma atividade intensa no vale em que ficava o centro de comando da base. Os estaleiros trabalhavam a todo vapor. Constantemente chegavam e partiam pequenos veículos espaciais. Uma grande frota de veículos de superfície estava constantemente em viagem, e milhares de trocas de mensagens exaltadas transmitidas não se sabia de onde faziam crepitar o rádio-receptor da sala de comando da Helipon. Mal a nave acabou de pousar, Tsin Muno foi chamado à presença de Perry Rhodan. A Helipon mal se imobilizara na pista quando apareceu um planador trazendo dois ordenanças. Tsin preferiu não nomear um substituto durante sua ausência. Mandou que os tripulantes se recolhessem aos alojamentos e tratassem de dormir. Estava tão cansado quanto eles, mas só consideraria cumprida sua tarefa depois que o Administrador-Geral tivesse sido informado sobre todos os detalhes. Tsin passou três horas em companhia de Perry Rhodan e alguns oficiais de seu estado-maior. Gastou uma hora e meia para apresentar seu relato e responder a perguntas. Não havia dúvida de que a via de transmissão realmente se instabilizara. A instabilidade podia ser medida. O trecho não tinha sido bloqueado de vez. Havia um tráfego intenso de sondas robotizadas entre Kahalo e Chumbo de Caça. As sondas eram utilizadas para que uma parte pudesse comunicar à outra se o trecho se encontrava em condições de estabilidade. Ainda não se apurara exatamente a taxa de crescimento da instabilidade. Os cientistas tinham uma idéia aproximada do tempo durante o qual o transmissor apresentaria períodos intermitentes de estabilidade, permitindo o transporte de naves tripuladas. Não seriam três meses. Talvez duas, três ou no máximo quatro semanas. Os especialistas não podiam prometer mais que isso. Muno participou das discussões que se seguiram e teve uma visão bastante realística dos problemas da base de Gleam.

Em Gleam estavam baseadas cerca de treze mil unidades da frota do Império Solar, inclusive mil naves ultramodernas equipadas com multipropulsores. O raio de autonomia destas naves era de novecentos mil e um milhão e duzentos mil anos-luz, conforme a classe. Oito mil unidades possuíam sistemas de propulsão compactos e eram capazes de realizar vôos de quatrocentos e cinqüenta mil anos-luz. As quatro mil naves restantes só estavam equipadas com propulsores do tipo Kalup. Para fazer vôos de mais de duzentos e cinqüenta mil anos-luz precisavam de máquinas suplementares. Os estaleiros já estavam trabalhando na instalação dessas máquinas. Perry Rhodan não estava disposto a sacrificar uma única unidade, enquanto houvesse uma esperança, por menor que fosse, de fazer todas voltarem para casa através do transmissor. Era uma posição bem compreensível. Uma boa nave era aquela capaz de voar bem longe. Uma nave com menos de duzentos e cinqüenta mil anos-luz de autonomia não servia praticamente para nada, pois era esta a distância mínima entre uma base e outra. Era um padrão correto para uma expedição intergaláctica, mas que praticamente não se aplicava às operações realizadas no interior de uma galáxia. As quatro mil unidades equipadas somente com conversores Kalup, que os homens de Gleam costumavam chamar de antiquadas, podiam ser de grande valor se fosse possível levá-las de volta à galáxia de origem. Sua autonomia era menor que a das outras naves, mas eram capazes de atravessar a Via Láctea de lado a lado. Depois de três horas foram fixadas as diretrizes das ações futuras. Todas as unidades cujo raio de autonomia não permitisse o vôo ao transmissor Chumbo de Caça seriam equipadas imediatamente com propulsores suplementares. Os estaleiros de Gleam e o estaleiro voador KA-barato, pertencente aos engenheiros galácticos, que no momento se encontrava nas proximidades do sistema Tri, levariam cerca de vinte dias para concluir o trabalho. As naves capazes de realizar vôos a grande distância sairiam imediatamente em direção ao sistema Chumbo de Caça. O General Razta recebeu ordens de fazer passar as unidades pelo transmissor segundo seu critério, à medida que chegassem. As mil unidades mais modernas, equipadas com multipropulsores, ficaram estacionadas em torno de Gleam. Perry Rhodan precisava delas para cobrir a retaguarda. Se os senhores da galáxia soubessem que os terranos estavam praticamente isolados de sua galáxia, certamente saberiam aproveitar a vantagem e atacariam imediatamente. Tsin Muno, que acreditara que ele e seus subordinados poderiam descansar alguns dias, viu-se decepcionado. A retirada da nebulosa de Beta exigia uma série de preparativos dos homens que trabalhavam em Chumbo de Caça. A Helipon começara a desempenhar as funções de nave-correio e continuaria a desempenhá-las. A nave decolaria dentro de oito horas. *** A Helipon levou três semanas viajando de Gleam para a base do transmissor e viceversa. A pausa entre a chegada e a partida nunca era superior a seis ou oito horas. Tsin Muno foi investido na função de correio diplomático e contemplado com um status especial como retribuição pelo trabalho desgastante. Gozava de privilégios em toda parte e suas ordens eram cumpridas com uma presteza e cuidado especiais. Em Gleam os trabalhos prosseguiam com uma rapidez alucinante. A cada dia os estaleiros montavam propulsores suplementares em cerca de cento e sessenta naves “antiquadas”. Todo dia partiam grupos de aproximadamente quinhentas naves e desapareciam no espaço linear.

Os engenheiros e cientistas que trabalhavam em Califa não tinham descanso. O transmissor era mantido constantemente sob observação. Dezenas de milhares de instrumentos registravam suas radiações e outras dezenas de milhares faziam a análise dos resultados. Sondas robotizadas viajavam entre Kahalo e Chumbo de Caça. Toda vez que o trecho parecia ter entrado numa fase de estabilidade, mais um grupo de espaçonaves desaparecia no campo energético que se estendia entre os dois sóis. Não houve nenhum incidente. Um grupo de centenas de naves levou algum tempo para entrar no campo energético. E o fato de este campo apresentar-se estável no início do processo não significava necessariamente que ainda o estivesse no fim. Dezenas de naves materializavam perto de Kahalo transformadas em agitadas nuvens de gases que se espalhavam rapidamente pelo espaço. Outras transformaram-se em blocos metálicos disformes, e ainda outras desapareceram para todo o sempre. Mas em comparação com o número de naves as perdas foram bastante reduzidas. Depois de duas semanas e meia, quando a Helipon partiu para aquele que provavelmente seria seu último vôo como nave-correio entre Califa e Gleam, um total de 15.855 unidades, entre elas seis mil naves pertencentes à frota de patrulhamento de Chumbo de Caça, tinham partido em direção à galáxia de origem. Destas naves, 15.743 chegaram a Kahalo sãs e salvas, enquanto as cento e doze restantes foram perdidas. No dia 20 de agosto de 2.405 a Helipon voltou a pousar em Gleam — pela última vez, segundo se acreditava. Entre as informações que Tsin Muno trazia havia uma que se destacava por não se enquadrar no esquema geral de números e dados. Através de Kahalo viera a notícia de que Mory Rhodan-Abro dera à luz um par de gêmeos. Desde o dia 16 de agosto Perry Rhodan, Administrador-Geral do Império Solar, era pai de um menino e de uma menina. Fazia questão de mencionar que a menina chegara ao mundo oito minutos antes do menino. Tsin Muno sentiu-se satisfeito porque podia transmitir esta informação. Nos últimos quinze dias era o último acontecimento agradável em meio à atividade maçante do correio diplomático. Quando Perry Rhodan recebeu a notícia, as últimas naves equipadas com propulsores suplementares acabavam de decolar. Todas as medidas humanamente possíveis tinham sido tomadas para não perder uma única unidade que fosse. Ainda havia mil naves do tipo mais moderno no setor de Tri. Os homens que se encontravam em Gleam finalmente tiveram tempo para descansar e refletir. O Administrador-Geral deu uma festa para comemorar o nascimento dos gêmeos. Convidou toda a tripulação da Helipon. Era a primeira vez em quinze dias que Timo tinha oportunidade de conversar com alguém que não pertencesse à tripulação da Helipon e segurar um copo que não fosse de plástico opaco. Estava exausto e depois do terceiro copo de uísque ficou tão embriagado que não se lembrou do que aconteceu depois. A Helipon partiu no dia seguinte para voltar ao transmissor Chumbo de Caça. Em Gleam tivera início a destruição dos estaleiros, campos de pouso, instalações técnicas e depósitos, para evitar que caíssem nas mãos do inimigo. Em toda parte subiam os cogumelos das explosões nucleares. Materiais no valor de bilhões de solares, que não podiam ser carregados nas naves, eram sacrificados. Se os tefrodenses chegassem a Gleam, não encontrariam nada que pudesse recompensá-los pelo tempo perdido com o pouso no planeta. Na viagem de volta Timo Benz substituiu o terceiro oficial e chefe da equipe de navegação, que alegara estar doente e se encontrava sob observação médica na clínica de bordo. Timo achava que era uma injustiça. Tinha certeza de que o Capitão Zuckermann

só estava de ressaca e não se sentia pior do que ele mesmo. Estava sentindo os efeitos do álcool. Sentia a cabeça pesada e tinham um gosto desagradável na boca. Além disso o estômago parecia estar imprensado entre as costelas. “Ainda bem que seguimos uma rota simples e o trabalho é feito pelos computadores”, pensou Timo Benz. A nave entrou no espaço linear quando se encontrava a uma distância segura do sistema Tri. O quadro projetado na tela panorâmica mudou. A escuridão negra do espaço cósmico transformou-se num cinza leitoso semitransparente. Os pontos coloridos assumiram uma cor branca, destacando-se com uma luminosidade extraordinária em meio ao cinza. A periferia da nebulosa de Andrômeda, que no espaço normal era quase completamente encoberta pela profusão de estrelas da nebulosa Beta, aparecia como uma faixa sólida pouco brilhante na tela dos fundos. Timo Benz assumiu uma atitude indolente. Ficou absorto nos próprios pensamentos. A saída de Perry Rhodan do planeta Gleam estava marcada para o dia 25 de agosto. Depois disso não havia mais uma única nave terrana de grande porte no setor espacial de Andrômeda. Timo lembrou-se de ter ouvido alguém dizer que os maahks, que consideravam a nebulosa Beta parte de seu espaço vital, ficaram muito satisfeitos com a saída dos terranos. Isto naturalmente se um maahk é capaz de experimentar o sentimento de satisfação, além do fato de que parte da frota que ainda operava nas proximidades de Gleam ter de lutar com as frotas tefrodenses que avançavam com uma freqüência cada vez maior para a nebulosa Beta. Timo Benz nunca tinha visto um desses seres que respiravam metano, mas aprendera que só mesmo um computador positrônico era capaz de compreender seu raciocínio. E os atos destes seres baseavam-se exclusivamente na lógica. A falta quase completa de emoções fazia com que aos olhos de Timo fossem parecidos com robôs. Uma hora depois que a nave tinha entrado no espaço linear Timo pediu que o homem sentado a seu lado assumisse e foi ao refeitório para tomar um pequeno lanche. Não estava com apetite, mas o bom senso mandava que ingerisse alguma coisa para chegar são e salvo ao fim do dia. Dali a meia hora, quando voltou à sala de comando, a faixa que representava Andrômeda tinha empalidecido na tela e o número dos pontos luminosos das estrelas era bem menor. A Helipon atingira a extremidade da nebulosa Beta. A sua frente abria-se o vazio intergaláctico, o abismo quase infinito que separa as galáxias. Timo voltou a assumir seu posto e examinou os dados sobre a rota que acabavam de ser fornecidos pela máquina. Neste instante foi lançada outra fita gravada. Timo pegou-a. Compreendeu imediatamente que havia algo de errado. Os dados projetados já não conferiam com os fornecidos pelos instrumentos. A discrepância ultrapassava os limites de tolerância. A Helipon desenvolvia velocidade mais reduzida que a que deveria corresponder ao desempenho dos propulsores. Timo pegou o microfone do intercomunicador. Apertou a tecla vermelha que estabelecia a ligação com o receptor de Tsin Muno. O rosto impassível deste apareceu na tela de imagem. — Há uma interferência na rota, senhor — informou Timo. — Perdemos velocidade. A reação de Tsin foi imediata. — Comandante chamando equipe técnica de plantão — disse sua voz aguda, saída de todos os alto-falantes. — A navegação constatou uma interferência na rota. Examinem os propulsores.

Timo ficou ansioso, enquanto os técnicos apertavam os botões de controle e liam os dados dos instrumentos. — Há duas falhas nos projetores de campo energético — respondeu alguém da equipe técnica pouco tempo depois. — O projetor cinco funciona com metade da capacidade. “Acabou acontecendo”, pensou Timo. Nem poderia ter deixado de acontecer. Nos últimos vinte dias a Helipon realizara mais de quinze viagens entre Chumbo de Caça e Gleam. Os conversores Kalup tinham sido trocados depois de cada viagem. Mas os projetores, que transformavam a energia destes conversores num campo estático que envolvia a nave, faziam parte da estrutura do sistema de propulsão e não podiam ser trocados. Mais de quinze vôos, cada um de mais de quatrocentos anos-luz, tinham sido demais para estes projetores. O semicampo que envolvia a Helipon estava desmoronando. Tsin Muno fez a única coisa possível. Desligou os conversores. A Helipon voltou ao universo einsteiniano. As telas de imagem mostraram um quadro desolador. A luminosidade das estrelas da nebulosa Beta ficara bem para trás. A sua frente via-se um ponto luminoso vermelho solitário, que parecia fora de lugar, perdido na escuridão sem fim. Os dados fornecidos pelos rastreadores, que eram introduzidos automaticamente no dispositivo de fixação de rota de Timo, mostraram que a estrela ficava a cento e vinte unidades astronômicas da Helipon. A nave aproximava-se desta estrela a sessenta por cento luz. Passaria a duas unidades astronômicas dela, a não ser que fizesse uma mudança de rota. Timo refletiu sobre o que faria se estivesse no lugar de Tsin Muno. Antes de mais nada mandaria verificar se os projetores podiam ser reparados em vôo. Se acontecesse aquilo que era altamente provável — que os projetores dos campos Kalup, que eram extremamente complexos, não podiam ser consertados em vôo — o que faria? A equipe de manutenção já estava trabalhando. Tsin ligara seu receptor para receber todos os canais usados na nave. Todos ouviam o que os técnicos diziam. — Dois projetores não têm conserto, senhor. Precisam ser substituídos. O terceiro pode ser consertado. Há mais dois que precisam de uma revisão. Tsin Muno estava sentado à frente do console, olhando para a frente como se não tivesse ouvido nada. Com a falha de dois projetores, a Helipon não poderia fazer vôos orientados no espaço linear. Ninguém poderia determinar a rota da nave no semi-espaço. Timo tinha certeza de que Tsin não se arriscaria a voar de qualquer maneira pelo espaço linear, na esperança de por acaso sair perto de Helipon. Que mais poderia fazer? “Se estivesse em seu lugar”, pensou Timo, “seguiria em direção ao sol vermelho e verificaria se ele possui um planeta habitável. Não temos outra saída!” — Navegação — chamou Tsin neste instante. — Siga em direção à estrela vermelha que se encontra à nossa frente. Rastreamento: quero ser informado quanto antes se este sol possui planetas. Timo experimentou um sentimento de satisfação, que naquela situação parecia um tanto injustificado, enquanto fazia os cálculos da rota. Mudou de direção e deu ordem para que a velocidade fosse aumentada para noventa por cento luz. A esta velocidade o fator de distorção entre o tempo de bordo e o tempo real era aproximadamente de sete. Pelo tempo de bordo, a Helipon levaria cerca de três horas para alcançar o sol vermelho. Sem que ninguém pedisse, Timo fez com que seu computador verificasse a mapoteca, para constatar se havia um mapa de navegação do setor espacial em que estava

a Helipon. Não tinha muita esperança e o computador só levou alguns segundos para confirmar seus temores. A nave encontrava-se cerca de mil anos-luz à frente da periferia propriamente dita da nebulosa Beta. Era a primeira vez que uma nave terrana perdida fora parar neste lugar. A estrela vermelha que ficava à sua frente era desconhecida. “As chances de um dia uma nave terrana passar por aqui são mínimas”, pensou Timo. Depois de pouco mais de uma hora o setor de rastreamento informou, com base em irregularidades constatadas no campo gravitacional do sol vermelho, que havia pelo menos um corpo de massa planetária circulando em torno da estrela solitária. Dali a quinze minutos os homens que operavam os espectroscópios anunciaram que no exame do disco solar fora encontrado um lugar em que se verificavam as linhas de absorção típicas do oxigênio e do nitrogênio. Isto significava que à frente do sol havia um objeto que eliminava as respectivas linhas do espectro solar. Dali os especialistas concluíram prontamente que o planeta possuía uma atmosfera composta principalmente de oxigênio e nitrogênio. Por alguns instantes Timo Benz experimentou um sentimento de alívio. Mas logo se deu conta de que se sentira aliviado simplesmente porque tinham localizado um planeta que provavelmente apresentava condições semelhantes às da Terra. Surpreso, concluiu que até parecia conformado com a perspectiva de passar o resto da vida neste canto afastado do Universo. Não houve nenhum imprevisto durante o vôo. Normalmente os oficiais de serviço na sala de comando estariam conversando sobre a estrela vermelha e tentariam descobrir um nome que Tsin pudesse dar-lhe. Mas a alegria da descoberta foi abafada pela certeza de que era a última que faziam em toda vida. Ninguém quebrou a cabeça por causa do nome da estrela. Para um astro que aparecia toda manhã no horizonte do planeta abandonado para esconder-se de noite só podia haver um nome: Sol. A manobra de desaceleração foi iniciada. A Helipon perdeu velocidade. Finalmente ficou praticamente imóvel a dez unidades astronômicas do sol vermelho. Os telescópios de elevado poder de resolução da equipe astronômica já tinham detectado o planeta. Já não havia dúvida de que ele possuía uma atmosfera respirável. O sol era do tipo H2, e a distância média entre ele e o planeta era de setenta milhões de quilômetros. Apesar da intensidade menor dos raios deste sol, o planeta recebia mais calor que a Terra. Na opinião dos astrônomos devia ser um mundo tropical, com uma área pouco extensa de clima temperado junto a cada pólo e possivelmente um cinturão inabitável junto ao equador, onde a temperatura média era superior a sessenta graus centígrados. Timo Benz colocou a Helipon numa rota de aproximação. A nave seguiu em velocidade reduzida em direção ao mundo desconhecido. A distância era pouco inferior a duas unidades astronômicas, quando aconteceu uma coisa incrível.

O hiper-receptor entrou em atividade. O alto-falante transmitiu os chiados incompreensíveis de uma mensagem codificada. As indicações fornecidas pela antena goniométrica mostravam que a mensagem vinha do planeta desconhecido. “As coisas mudaram de figura”, pensou Timo Benz, que ficou bem alerta. Tsin Muno saltou da poltrona. — Afastem-se dos rádios! — gritou em tom estridente. *** Ninguém sabia o que o comandante queria. Por alguns instantes houve uma confusão perto dos controles dos rádio-operadores. Os oficiais pisavam nos pés uns dos outros enquanto cumpriam a ordem do comandante. Tsin Muno pegou a arma energética. Antes que alguém conseguisse adivinhar suas intenções, começou a atirar. Um raio ofuscante finíssimo atingiu o conjunto modulado. A chapa de revestimento cinzenta, feita de metal plastificado, desmanchou-se em milhões de fagulhas. Houve um curto-circuito. Um lampejo de um metro saiu da caixa, produzindo um forte cheiro de ozônio. — Voltem a seus postos! — gritou Tsin. A sala de comando encheu-se de fumaça. No meio dela Timo viu os rostos perplexos dos rádio-operadores, que voltavam aos consoles. — Preparar hipertransmissor! — gritou Tsin. — Transmitam! — Transmitir o que, senhor? — perguntou uma voz cheia de pânico, saída da fumaça. — Pegue o microfone e fale! — berrou Tsin. — Depressa! Diga qualquer coisa... Finalmente Timo compreendeu. Sentiu uma profunda admiração por Tsin Muno, que compreendera a situação muito antes dos outros e tomara a única decisão certa: blefar o inimigo. O hiper-receptor não fora capaz de decifrar a mensagem recebida. O código não combinava com nenhuma das matrizes de decifração. Logo, não era um código terrano. Pelo que se via, o planeta apresentava condições semelhantes às da Terra. Portanto, ficava excluída a possibilidade de ele ser habitado por maahks. Diante disso só se podia chegar a uma conclusão. A mensagem fora expedida por um transmissor tefrodense. No planeta do sol vermelho devia haver uma base tefrodense. A mensagem provavelmente era um pedido de identificação em código. Tsin Muno tinha de encontrar um meio de evitar que os tefrodenses conhecessem a verdadeira origem da Helipon. Não podia responder à mensagem, uma vez que não conhecia o código tefrodense. Precisava fingir que o hipertransmissor não funcionava. Havia vários meios de simular um defeito num hipertransmissor, mas só havia uma única maneira de conseguir isso numa questão de segundos: destruir o modulador. As hiperondas saíam da antena sem qualquer modulação e os tefrodenses só captariam um chiado uniforme, que lhes mostraria que o equipamento de rádio da nave recém-chegada estava com defeito. Parecia que o truque estava dando certo. Os chiados saídos do receptor acabaram. Os tefrodenses estavam convencidos de quê não conseguiriam informações pelo hiperrádio. A Helipon era uma nave esférica, tal qual acontecia com mais de noventa por cento dos veículos espaciais terranos. As naves tefrodenses tinham a mesma forma, e um dos modelos mais usados na frota tefrodense era aproximadamente do tamanho do cruzador pesado comandado por Tsin Muno. As chances de os tefrodenses acreditarem que a Helipon era uma das unidades de sua frota eram excelentes, ao menos por enquanto.

Restava saber se Tsin Muno conseguira mesmo enganá-los com o blefe ousado de que lançara mão e qual seria sua reação quando vissem a nave terrana de perto. Tsin achou que já estava na hora de explicar seu plano aos oficiais. O modulador destruído deixara de soltar fumaça, e o equipamento de climatização limpara o ambiente. — Há uma base inimiga neste planeta — explicou Tsin. — A situação é bem diferente do que acreditávamos alguns minutos atrás. Se tivermos sorte, talvez encontremos alguns projetores Kalup lá embaixo e consigamos montá-los. Não quero que se iludam, mas acredito que chegou uma chance palpável de ainda chegarmos a Chumbo de Caça — num futuro não muito longínquo. Alguém tem uma sugestão sobre o procedimento que devemos adotar em... — Tsin interrompeu-se e sorriu como costumava fazer quando se dava conta de que tinha cometido algum engano. — Esta coisa ainda não tem nome. Alguma sugestão quanto a isto? A guarnição da sala de comando ainda não se recuperara do susto. Não houve nenhuma sugestão. Tsin Muno resolveu batizar o sol com o nome de Radiante. O planeta solitário foi chamado de Solo. “Não está demonstrando muita criatividade”, pensou Timo Benz, “mas antes isso que os pensamentos melancólicos aos quais se entregara.” — Não possuímos qualquer informação concreta sobre o potencial da base — prosseguiu Tsin. Certamente se esquecera de que instantes atrás pedira sugestões táticas. — Mas acho que uma coisa é certa. Não deve ser uma base importante, senão nossos rastreadores energéticos teriam detectado alguma coisa. Deve ser uma oficina que os tefrodenses resolveram instalar aqui para dar mais segurança às unidades que operam no setor Beta. Basta lembrar que com a revolta dos maahks a nebulosa Beta passou a ser território inimigo para os tefrodenses. Por isso não é de admirar que tenham escolhido um mundo mais afastado. Resumindo, acho que encontraremos instalações altamente automatizadas com uma guarnição composta de algumas dezenas de homens. Se conseguirmos surpreender o inimigo antes que possa pedir auxílio, teremos ganho o jogo. Faremos de conta que a Helipon se descontrolou no último instante. Cairemos em Solo — num lugar que fique bem longe da base inimiga. Os tefrodenses certamente procurarão examinar o local da queda. Para isso têm de destacar alguns homens, reduzindo ainda mais a guarnição da base. Acho que não seria má idéia atacarmos no mesmo instante. Solo era um mundo paradisíaco. O planeta tinha pouco menos de dez mil quilômetros de diâmetro e a gravitação na superfície correspondia a 0,82 do normal. A base tefrodense ficava a quarenta graus de latitude sul, perto de um grande oceano que cercava três quartas partes do hemisfério sul numa faixa larga. O continente do sul parecia uma tampa cobrindo o pólo. A região polar era bastante montanhosa, cheia de rios e lagos, e apresentava uma vegetação formada por plantas folheadas sempre verdes. Mais ao norte havia uma planície. Os rios uniam-se em sua caminhada para o lado do oceano, formando gigantescos cursos de água, que passavam entre áreas cobertas de gramas e arbustos, e mais adiante entre pântanos fumegantes. Havia uma grande cadeia de montanhas junto ao oceano. Os cumes arredondados mostravam que deviam ter-se originado nos primórdios da formação do planeta. Sua altura era justamente o suficiente para garantir um clima suportável aos ocupantes da base tefrodense, bem acima do pântano coberto de brumas. A previsão de Tsin Muno se confirmara. As radiações emitidas pela base eram pouco intensas. Se havia maquinismos que consumiam quantidades elevadas de energia, eles estavam parados. Entre estes maquinismos incluíam-se os armamentos que poderiam representar um perigo para a Helipon. Quando a nave ainda se encontrava a vinte mil quilômetros de distância, os astrônomos localizaram um campo de pouso quadrado nas

montanhas, com mais de vinte quilômetros de extensão. Havia pequenas figuras cúbicas na periferia do campo de pouso. Deviam ser edifícios. Eram oito ao todo. Parecia não haver outras instalações inimigas em Solo. Fazia trinta minutos que a Helipon mantinha contato de rádio com o inimigo. Tsin Muno inventara uma história plausível. Disse que sua nave participara das lutas com os maahks e sofrera avarias. Ultimamente estivera operando na periferia da nebulosa Beta e acabara afastando-se na direção de Solo, depois que alguns tiros disparados pelos maahks afetaram sua capacidade de manobra. Duas naves maahks saíram em sua perseguição e voltaram a abrir fogo, antes que a nave escapasse para o espaço linear. Nesta oportunidade tinham sido destruídos dois projetores e o hipertransmissor. Tsin teve o cuidado de não confiar demais na credulidade dos tefrodenses. Não alegou que o sistema de transmissão de imagem também tivesse entrado em pane. Mandou que um dos oficiais, que dominava a língua tefrodense, se disfarçasse como um ser desta raça e se apresentasse diante da objetiva para transmitir a imagem. Foi possível arranjar um uniforme tefrodense esfarrapado. A cor escura da pele pôde ser produzida com os recursos da clínica de bordo e a objetiva foi direcionada de tal forma que atrás do pretenso tefrodense só apareciam os restos queimados do modulador, cujos restos não permitiam qualquer conclusão sobre sua origem. Tsin e um dos rádio-operadores manipulavam os controles de rádio, criando interferências que sublinhavam o estado miserável do aparelho, interrompendo a transmissão de vez em quando por alguns segundos, o que era necessário uma vez que o oficial que falava ao microfone não conhecia o nome da base tefrodense e por isso precisava de uma interferência ruidosa toda vez que teria de mencioná-lo. O espetáculo deu certo. Não havia nenhuma desconfiança no rosto do tefrodense que apareceu na tela. Quando a Helipon começava a baixar sobre a base de Solo, o oficial aludiu a dificuldade de manobra que se vinham agravando de uma hora para cá. A equipe de navegação, comandada novamente pelo Capitão Zuckermann, que Tsin mandara arrancar da cama, reforçava esta alegação, fazendo a Helipon saltar de um lado para outro. O tefrodense prometeu que tomaria todas as providências para um eventual pouso forçado e prepararia os veículos necessários às buscas, caso a Helipon não descesse nas proximidades da base. Uma vez concluídos os preparativos, Tsin Muno deu início ao espetáculo propriamente dito. A Helipon encontrava-se cerca de quatrocentos quilômetros acima do pólo sul do planeta. As sondas externas acabavam de detectar os primeiros vestígios da atmosfera. As comunicações de rádio foram interrompidas. Os tefrodenses que se encontravam em Solo seriam levados a acreditar que o transmissor entrara em curto-circuito. Os propulsores pararam, o que também não devia ter passado despercebido aos tefrodenses. A nave gigantesca caiu que nem uma pedra. Timo Benz encontrava-se na eclusa do hangar, com os sargentos Pulpo Rimak e Warren Levier. Tsin dera ordem para que Timo atacasse a guarnição da base tefrodense enquanto estivessem sendo realizadas as operações de busca destinadas a localizar a Helipon. Timo ficou bastante surpreso por ter sido justamente ele o escolhido. Pediu permissão de levar um comboio e três veículos, mas Tsin explicou que só teria uma chance de sucesso se conseguisse chegar à base sem ser notado. Face ao grau de precisão dos instrumentos tefrodenses, só poderia usar um único veículo, e este teria de ser pequeno.

Por isso Timo e seus companheiros enfiaram-se num planador de superfície para duas pessoas. O veículo tinha uma capacidade de vôo limitada até seis quilômetros de altura, em condições normais. Timo faria sair o planador quando a Helipon se encontrasse a cinco quilômetros da superfície, atingindo a base em vôo solitário. Pelo que dizia Tsin, parecia tudo bem simples. Mas quanto mais Timo pensava nisso, pior se sentia. A bordo do planador havia uma quantidade de armas suficiente para afugentar um exército tefrodense, mas no fundo não era isto que importava. Se conseguissem usar as armas, a batalha estaria praticamente ganha. O problema era chegar ao lugar indicado. Os aparelhos de detecção do inimigo não preocupavam Timo. Os rastreadores energéticos não descobririam nada, uma vez que os impulsos de interferência emitidos pela Helipon superariam as radiações fracas do motor do planador. E para ficar fora dos radares bastaria acompanhar os acidentes do terreno. Havia muitos vales, desfiladeiros e fendas. Mas havia uma coisa que o deixava preocupado. Depois que tivesse descido a cinco quilômetros, a Helipon passaria a deslocar-se à velocidade de um quilômetro por segundo. Tsin dera ordens de só frear a queda instantes antes do pretenso impacto, para dar um aspecto real à coisa. Assim que saísse do campo energético da nave, o planador entraria num torvelinho de ar parcialmente ionizado, e Timo não tinha a menor idéia da carga que o frágil veículo poderia suportar. Imaginava o planador sendo arrebentado pelo impacto das massas de ar que se deslocariam a velocidade ultra-som e os destroços sendo carregados pelo vento. Sentiu um nó na garganta e uma pressão desagradável no estômago. Estava impressionado porque Tsin Muno distinguira justamente a ele, que era o oficial mais jovem. Mas naquele momento preferiria que o comandante não lhe tivesse dado tanta atenção. — Vai começar! — disse Pulpo Rimak no tom seco que lhe era peculiar. Timo procurou controlar-se. Olhou fixamente para a pequena tela de imagem instalada no painel de instrumentos.

3
A Helipon penetrou na atmosfera do planeta que nem uma bola de fogo. Sem reduzir a velocidade, precipitou-se através das massas de ar rarefeitas, envolvendo-se num manto incandescente de partículas ionizadas e deixando para trás uma cauda de fogo de vários quilômetros. As massas de ar comprimido chiavam e gemiam, tentando resistir ao objeto gigantesco, mas acabaram desviando-se com um estrondo. Finalmente conseguiram reduzir a velocidade da nave. Timo Benz acompanhou o fenômeno na pequena tela, que estava acoplada às objetivas externas. A superfície entrecortada de Solo parecia precipitar-se sobre ele numa velocidade alucinante, até que a bola de fogo que envolvia a nave tolhesse sua visão. A nave sacudia e balançava ao romper as camadas atmosféricas de densidade variável. O dispositivo antigravitacional não pôde funcionar com a rapidez necessária para compensar as forças da desaceleração. Timo atou os cintos de segurança e olhou para o relógio. Na verdade, a queda aparentemente descontrolada da Helipon era uma manobra cuidadosamente preparada. Faltavam três minutos para a saída do planador. A cortina luminosa ondulante formada pelos gases ionizados foi ficando mais fraca e acabou desaparecendo de vez, enquanto o efeito frenador da atmosfera se tornava mais forte. A superfície do planeta voltou a aparecer na tela, bem perto. Timo estudou o terreno. Não seria difícil encontrar esconderijos. Mas teria de encontrar um meio de orientar-se. Num raio de pelo menos mil quilômetros em torno do sol parecia não haver um metro quadrado de chão plano. — Faltam noventa segundos — resmungou Pulpo. Não havia ninguém na eclusa do hangar quando as escotilhas gigantescas da câmara de ar deslizaram para o lado. O veículo entrou na câmara. Timo olhava fixamente para a linha de junção das duas metades da escotilha externa. Teve a impressão de que durou uma eternidade até que a linha fosse substituída por uma faixa luminosa estreita, que aumentou devagar. Timo levou o planador para perto da escotilha. A tela apagou-se, o que era um sinal de que a ligação com a nave acabara de ser interrompida. Em cima deles o firmamento mudava de cor com uma rapidez tremenda. Quando Timo o viu pela primeira vez, era negro. Os pontos luminosos de algumas estrelas distantes destacavam-se na escuridão. Dali a instantes o céu adquiriu uma cor violeta forte. O violeta passou para o azul enquanto a Helipon continuava a descer. Timo colheu estas impressões num instante. Sentiu uma necessidade que não tinha lógica. Queria ver o que fosse possível antes de levar o planador para dentro do inferno de massas de ar agitadas e superaquecidas, confiando cegamente na capacidade dos homens que tinham construído o veículo. — Faltam vinte minutos, senhor — disse Pulpo em voz alta, dando a impressão de que tinha medo de que Timo perdesse o momento certo. Timo segurou firmemente a direção. Uma voz rouca saída de um alto-falante disse: — Dez segundos — nove — oito... Assim que foi pronunciado o zero, Timo puxou violentamente a direção. Até parecia que o pequeno planador tinha sido catapultado para fora da câmara da eclusa. Por

uma fração de segundo parecia tudo em ordem, até que o veículo saísse do campo energético da nave. Timo levou um golpe terrível do lado do corpo. Por pouco não quebrou a nuca. Uma muralha acústica uivante e trovejante desabou sobre o corpo. Timo foi atirado de um lado para outro. Bateu com a cabeça numa coisa dura e destroncou a mão esquerda ao tentar apoiar-se. Sentiu-se ora levantado, ora fortemente comprimido contra a poltrona macia. Por um instante o estômago parecia querer sair-lhe pela boca, para no instante seguinte comprimir os intestinos. Em meio à confusão ensurdecedora os olhos só viam fugazes manchas coloridas, que pareciam dançar lá fora, num carrossel maluco, depressa demais para servir de ponto de referência. O barulho foi diminuindo. O carrossel parou. As manchas coloridas transformaramse numa faixa estreita de céu azul, em baixo da qual se estendia o verde e o marrom da paisagem polar. Timo levou um segundo para orientar-se. Viu que o planador descia num ângulo aberto demais e empurrou a direção. Engoliu várias vezes em seco, para abafar a sensação desagradável na garganta. Warren Levier, que estava sentado a seu lado, estava pálido, olhando fixamente para a frente. O tumulto não parecia tê-lo afetado muito. Com Pulpo Rimak as coisas eram diferentes. Estava agachado atrás dos dois assentos, praguejando baixinho como já fizera antes que o planador tivesse saído, porque havia pouco lugar no pequeno espaço destinado à carga e os cantos das poltronas o apertavam de todos os lados. Timo fez o planador descrever uma curva fechada para a esquerda, para não se afastar demais do pólo. À sua frente, um pouco para o lado, uma nuvem de fumaça esbranquiçada, saía de trás de uma cadeia de montanhas. Parecia verdadeira. Os tefrodenses certamente imaginariam que vinha da nave caída. Mas não fora somente por isso que Tsin Muno lançara a bomba instantes antes da queda fingida. Também queria criar uma confusão de impulsos energéticos de grande intensidade, tentando abafar os impulsos emitidos pelos propulsores, ligados pouco antes que a nave tocasse o solo. Timo examinou as indicações fornecidas pelos rastreadores. Havia uma série de reflexos, mas parecia que todos eles eram produzidos por massas metálicas situadas sob a superfície de Solo. Não se notava a presença de qualquer veículo tefrodense. A altura do planador baixara para menos de cem metros. Timo fez o veículo deslocar-se na horizontal e examinou a paisagem. Alguns quilômetros ao norte havia uma serra alta, da qual se estendia vales profundos em todas as direções. O planador passou por cima de um planalto com vegetação escassa e desceu num desfiladeiro que se estendia para o norte, a partir da vertente oeste do planalto. Timo vez o veículo descer mais ainda, até avistar a faixa prateada de um rio. As encostas íngremes do vale estava cobertas de uma mata espessa de folhas sempre verdes. No interior do vale estreito a luz do sol era mais fraca. Uma estranha penumbra envolvia as coisas. Timo fez o planador aproximar-se da encosta leste do vale e viu que a vegetação tinha uma cor cinzenta, que por vezes passava para um branco amarelento que lhe parecia repugnante. Viu trepadeiras penduradas dos galhos bem abertos das gigantescas árvores. Até pareciam vermes gigantescos de cor indefinida. — Este planeta é um paraíso! — observou Pulpo Rimak em tom sarcástico. *** Levaram quase duas horas para atravessar a paisagem formada por vales, planaltos e montanhas entrecortadas. O terreno ficou plano e baixou suavemente para uma ampla planície tropical, que já fora observada a bordo da Helipon. Nesta planície a possibilidade de serem detectados pelos rastreadores tefrodenses transformavam-se num perigo real.

Timo seguiu o vale do rio mais próximo e passou a deslocar-se pouco acima da água, sempre na direção norte, protegido de ambos os lados pela floresta espessa. O rio fazia inúmeras curvas, e por isso foi obrigado a reduzir a velocidade para seiscentos quilômetros por hora. Durante o vôo quase não disseram uma única palavra. Warren Levier ficou de olhos fechados, dando a impressão de que estava dormindo. Pulpo Rimak parara de praguejar, pois ninguém lhe dava atenção. Olhava atentamente pela janela, acompanhando com uma expressão de curiosidade os animais espantados pelo planador. Geralmente eram aves aquáticas. O sentimento de profundo mal-estar, que Timo experimentara até poucos segundos antes da partida, já desaparecera. Já se acostumara à idéia de que a única coisa que tinha de fazer era segurar a direção e ter paciência até que atingissem a base tefrodense e pusessem o inimigo fora de ação. A paisagem que os cercava era de um primitivismo tocante, o que fez com que Timo se convencesse da teoria de Tsin Muno, segundo a qual em Solo só havia um punhado de tefrodenses. Se não fosse assim, deveriam ter aparecido vestígios de uma civilização, nem que fosse apenas uma coluna de fumaça, detritos levados pelo rio ou animais bastante experimentados para fugir antes que o planador estivesse em cima deles. Não se via nada disso. A selva era completamente virgem. Os tefrodenses não se haviam estabelecido em Solo para tomar posse do planeta, mas apenas para construir uma base. Algumas horas depois, quando o sol, que na região polar só aparecia pela metade em cima da linha do horizonte, já tinha subido um palmo, os contornos apagados do maciço montanhoso em que os tefrodenses se haviam fixado apareceram no norte. Nos trinta minutos que se seguiram o maciço foi crescendo cada vez mais, e os cumes azulados das montanhas tomaram-se bem nítidos. As primeiras elevações do maciço ainda se encontravam a uns cinqüenta quilômetros ao nordeste, quando o rio que o planador sobrevoava descreveu uma curva para o noroeste. Timo continuou a seguir o curso do rio. Como este já tinha mais três quilômetros de largura, aumentou a velocidade para mil quilômetros por hora. Depois de pouco menos de meia hora, o rio desapareceu numa confusão de pequenos canais, lagos e pântanos, que se estendia em forma de delta para o norte. O planador passou alta velocidade por cima do litoral e saiu para o oceano amplo e calmo. Timo descreveu uma curva, voando o mais baixo que pôde. O maciço apareceu na sua frente exatamente na direção sul. Timo voltou para terra firme. Sobrevoou novamente o litoral e teve a felicidade de encontrar um pequeno rio oitenta quilômetros ao norte do maciço, rio este que com a mata que se erguia até cem metros de altura lhe dava uma excelente proteção. Finalmente penetraram na área montanhosa. Timo tinha certeza de que, se os tefrodenses estivessem desconfiados, não procurariam detectar um veículo vindo do norte. Despreocupado, fez o planador subir junto ao terreno que subia em forma de terraços. Finalmente entrou num desfiladeiro estreito, de cuja extremidade sul via-se perfeitamente o gigantesco campo de pouso da base tefrodense. Timo reduziu a velocidade e fez o planador pousar no fim do desfiladeiro, a menos de vinte metros de uma encosta que descia quase na vertical, por uns seiscentos metros, até atingir a extremidade do campo de pouso. Os ocupantes do planador desceram e rastejaram para perto da encosta. Deitados, puseram-se a olhar o que havia embaixo. A base parecia descansar calmamente sob os

raios muito quentes do sol. Havia alguns veículos de superfície perto do edifício, mas não se via um único tefrodense. Ao leste e ao oeste, e principalmente ao sul as encostas do vale eram muito menos íngremes que na face norte. No sul terminava numa elevação suave. Na opinião de Timo, a via de entrada dos tefrodenses, controlada pelo rádio, devia passar exatamente por cima dessa elevação. — Hum — fez Pulpo. — Até parece que estão dormindo, mas aposto que lá embaixo há dezenas de tefrodenses sentados à frente dos instrumentos, examinando com olhos de lince qualquer coisa que se mexer. Timo fez um gesto afirmativo. Parecia pensativo. — Em outras palavras — prosseguiu Pulpo — chegamos ao fim da linha. Basta que o planador ponha o nariz por cima da encosta, e aparecemos nas telas dos tefrodenses. Pela primeira vez Warren Levier resolveu dizer alguma coisa. — Acho que ainda existe outra possibilidade — observou num tom quase tímido. — Os tefrodenses não esperam ver-nos por aqui. Deixaram-se enganar pelo truque de Tsin Muno e acreditam que caímos na região polar sul. Parte da guarnição da base deve estar empenhada nas buscas. — Isso é mais uma de suas hipóteses malucas, senhor — interrompeu Pulpo em tom insistente. — O senhor não o conhece! Tenha cuidado... Ele ficará falando até que... — Cale essa boca enorme, Pulpo — interrompeu Warren Levier em tom suave. Pulpo surpreendeu os outros, calando-se imediatamente. — Caso minha hipótese seja verdadeira, podemos atacar os tefrodenses num mergulho e pô-los fora de ação antes que se tenham recuperado do susto. No início Timo pensou que isso não passasse de uma loucura, mas depois de pensar um pouco começou a ter suas dúvidas. Mas não foram somente as considerações lógicas que o levaram a aceitar a idéia. Afinal, o grupo de tefrodenses que saíra à busca da nave caída não se deixaria enganar mais por muito tempo com nuvens de fumaça e coisas parecidas na região polar sul. Os homens que continuavam na base mantinham contato de rádio com os veículos que participavam das buscas. Não demorariam a desconfiar de que talvez as coisas não fossem o que parecessem e talvez deixassem de concentrar-se exclusivamente nos acontecimentos que se verificavam junto ao pólo sul. Nestas condições um plano acabado pela metade, executado em tempo, seria melhor que uma peça genial de estratégia que chegasse tarde. Os preparativos do ataque demoraram quinze minutos. A cúpula de glassite foi aberta. Pulpo Rimak, que graças aos seus músculos potentes era capaz de controlar simultaneamente duas carabinas energéticas pesadas, colocou as armas nos respectivos suportes. Timo ficou deitado junto à encosta e esforçou-se para gravar na memória o maior número possível de detalhes da base, para poder atingir um grande número de edifícios na primeira investida. Warren preparou algumas bombas de arremesso, que reforçariam os efeitos das carabinas energéticas. Finalmente subiram a bordo. Timo fez subir o planador e o fez voltar uns quinhentos metros no desfiladeiro, para tomar impulso. Voando junto ao solo, regulou os propulsores para a potência máxima e fez o veículo sair do desfiladeiro que nem uma bala de canhão. Assim que viu a encosta embaixo dele, empurrou a direção para a frente. O planador desceu assobiando fortemente. Viu-se que Warren tinha razão. Se os tefrodenses dispunham de recursos para defender-se do ataque, foram tomados de surpresa e não puderam usá-los. Sem que ninguém tentasse impedi-lo, Timo interrompeu a descida poucos metros acima do campo de pouso e aproximou-o numa curva ampla dos edifícios que ficavam na extremidade

oeste. Pulpo e Warren, que estavam bem inclinados para fora, começaram a atirar. Os dois fuzis energéticos rugiram. O recuo produziu um forte solavanco no planador. Timo teve de fazer um grande esforço para não perder o controle do veículo. Olhou apressadamente para o lado e viu por uma fração de segundos uma parede branca, com janelas baixas e estreitas e dois rostos cujos olhos se arregalavam de pavor. Um raio ofuscante que chegava a doer nos olhos, feito de energia concentrada, atravessou de repente, envolvendo tudo em fogo e fumaça. Passaram ao edifício seguinte, que foi atingido por um raio energético tateante. A parede robusta foi perfurada. Timo virou abruptamente a direção. Uma nuvem de fogo vermelha levantou-se bem a seu lado. O pequeno edifício explodiu com um estrondo, atirando destroços fumegantes para os lados. O terceiro edifício era maior que os outros dois, bem maior. Timo seguiu em sua direção, para que Warren e Pulpo pudessem atirar melhor. O edifício desapareceu no fogo cruzado dos fuzis energéticos. Timo viu pelo canto dos olhos quando Pulpo se ergueu rapidamente para atirar uma granada. Desviou-se numa curva em U. A granada atingiu o alvo, detonando com um lampejo ofuscante. Os ouvidos maltratados mal perceberam o estrondo. Timo experimentou uma sensação de triunfo selvagem. Era a primeira vez que entrava em combate. Nunca acreditara que fosse tão fácil. Tinham caído sobre os tefrodenses que nem um gavião atacando um bando de galinhas. Timo descreveu uma curva e fez o planador atravessar o campo de pouso, em direção aos cinco edifícios que ainda restavam. O propulsor uivou ao ser colocado na potência máxima, acelerando o veículo até a barreira do som. Quando se encontravam no centro do campo de pouso, alguém abriu fogo do outro lado. Os feixes energéticos reluzentes saídos de três carabinas energéticas vieram ao seu encontro. Saíam de um dos cinco edifícios que restavam. Timo fez o planador subir instintivamente. Os tiros passaram embaixo deles sem atingi-los. Pulpo e Warren atiraram-se na amurada do veículo, do lado das poltronas, e começaram a atirar. O balanço do veículo e as manobras abruptas que Timo era obrigado a realizar não favoreciam a pontaria. Mas os dois sargentos revelaram uma habilidade incrível de prever os movimentos do planador. Conseguiram atingir várias vezes o edifício de onde eram disparados os tiros e fizeram calar duas das armas energéticas inimigas. Timo sobrevoou a extremidade norte do campo de pouso sem reduzir a velocidade. Warren arremessou duas granadas contra o foco de resistência inimigo. Uma delas errou o alvo, abrindo uma cratera gigantesca no chão, mas a outra reduziu o edifício a escombros. O planador subiu rente às árvores da encosta leste, perdendo velocidade. Em seguida voltou a descer numa curva perigosa. A destruição do quarto edifício parecia ter quebrado a coragem dos tefrodenses. Não houve mais nenhuma resistência. Warren e Pulpo limitaram-se a atingir os quatro edifícios restantes com as armas energéticas, de tal forma que os tefrodenses que se encontravam em seu interior foram obrigados a sair. Os dois sargentos pararam de atirar assim que os primeiros homens saíram agitando os braços. Não tinham o menor interesse em destruir os edifícios. Timo fez o planador pousar na periferia do campo de pouso. Um grupo de cinco tefrodenses que tinham saído dos últimos dois edifícios ficou parado, inseguro. — Vá interrogá-los, Pulpo! — ordenou Timo. Pulpo enfiou uma arma energética pesada embaixo do braço e desceu. Enquanto interrogava os tefrodenses, Timo chamou a Helipon pelo rádio. A base acabara de cair, e

por isso a ordem de não usar o rádio já não tinha a menor validade. Tsin Muno atendeu pessoalmente ao chamado. Timo viu-o sorrir satisfeito. A Helipon chegaria dentro de trinta minutos. Pulpo voltou ao planador. — Estão um tanto desorientados — resmungou, apontando para os tefrodenses. — Posso garantir que não nos esperavam. — Qual é a finalidade da base? — perguntou Timo. — Eles esperam para breve a chegada de naves tefrodenses? — Isso eles não querem dizer, senhor — respondeu Pulpo, embaraçado, e coçou a cabeça. — Não quis ser muito grosseiro, e não tenho muita habilidade em interrogatórios diplomáticos. Preferi não me adiantar fazendo aquilo que o senhor fará. Timo deu uma risada. — Ele sempre tem uma desculpa, senhor — observou Warren. — Ao menos revistou-os? — perguntou Timo. — Revistei, sim. Não estão armados. — Muito bem. Explique-lhes que devem sair andando, na direção oeste. É para lá que quero ir e faço questão de vê-los enquanto não puder tê-los ao meu lado. — Para a extremidade oeste do campo de pouso são mais de quarenta quilômetros, senhor — objetou Pulpo. — Eu sei. Assim que a Helipon chegar, nós os recolheremos. O passeio não lhes fará mal. Pulpo voltou para junto dos tefrodenses e transmitiu as instruções de Timo. Este viu o líder dos tefrodenses fazer alguns gestos de protesto. Mas pareceu que Pulpo conseguiu acalmá-la Os cinco tefrodenses saíram andando. Caminharam pelo campo de pouso, abatidos e cabisbaixos. Sem saber por que, Timo de repente teve a impressão de que estavam representando. Um tefrodense não se conformava tão facilmente com o destino que se abatia sobre ele. Era ao menos o que lhe tinham ensinado. Se bem que era difícil dizer o que poderiam fazer os tefrodenses, sem armas e ainda sob os efeitos do choque produzido pelo ataque. Timo entregou a direção do planador a Warren Levier e lhe disse que não se apressasse. Warren subiu a uma altura confortável de cinqüenta metros e acelerou até atingir a velocidade de aproximadamente seiscentos quilômetros por hora. O vento chiava nas aberturas da cúpula. Timo divertiu-se porque era a primeira vez que se dava conta disso, embora pouco antes o veículo tivesse desenvolvido velocidade muito mais elevada. Havia um motivo para voltarem à extremidade oeste do campo de pouso. Com exceção de um único, os edifícios que cercavam a área eram muito pequenos. Pareciam alojamentos de guardas que desempenhavam uma única função: a vigilância da via de entrada do porto espacial ou o rastreamento do espaço aéreo nas proximidades da base. Era impossível que a base fosse formada somente pelo campo de pouso e alguns pequenos edifícios. Onde ficavam os depósitos de aparelhos e peças sobressalentes indispensáveis numa oficina? Onde estavam os equipamentos necessários para movimentar uma espaçonave de centenas de metros de diâmetro? Havia alguns segredos que Timo ainda não conhecia. Acreditava que aquilo que procurava ficava embaixo do solo. Se fosse assim, devia haver gigantescos elevadores de carga que ligavam a superfície às instalações no subsolo. E não adiantaria examinar o revestimento liso do campo de pouso, à procura da entrada dessas instalações. Uma das primeiras coisas que uma raça de seres inteligentes costuma aprender é a arte de camuflar as entradas secretas de tal forma que nenhuma pessoa estranha seja capaz de encontrá-las.

Mas devia haver um controle dos elevadores. E este controle era muito grande para ser abrigado nos edifícios menores. O único edifício maior ficava do lado oeste do campo de pouso. Era por isso que Timo queria voltar para lá. Esperava que apesar da granada lançada por Pulpo ainda sobrara alguma coisa j capaz de dar uma chance de sucesso às buscas. Dali a três minutos viu realizadas suas esperanças. Quando se encontrava a dez quilômetros de distância viu que pelo menos as paredes do edifício continuavam de pé. A granada destruíra parte da cobertura, enquanto os tiros das carabinas energéticas tinham entortado a estrutura regular do edifício. No interior dele as avarias não deviam ser muito extensas. Timo fez o planador pousar a dez metros da parede leste, coberta de fuligem negra. Desligou os propulsores e teve a impressão de que o silêncio descera sobre ele que nem um saco úmido e quente. Timo desceu e passou os olhos pelo campo de pouso. Os tefrodenses estavam muito longe para serem vistos. Uma brisa ligeira passava pelo vale, levantando pequenas nuvens de poeira. Saiu caminhando em direção à ruína. Vista de perto, parecia assustadora. Parte da fachada estava tão inclinada que se tinha a impressão de que iria ceder a qualquer momento à força da gravidade, tombando para dentro. Estava tudo em silêncio na escuridão reinante no edifício. — Fiquem aqui enquanto vou dar uma olhada lá dentro! — disse Timo aos dois sargentos. Ainda não explicara a Warren e Pulpo o que estava procurando. Já tinham descoberto, ou então pertenciam ao tipo de soldado que recebe as ordens sem fazer perguntas. Timo pegou a pistola energética que trazia no cinto e saiu caminhando em direção à ruína. Não havia nenhuma porta na parede frontal e Timo estava tão impaciente que não quis procurar uma entrada nas paredes laterais. Ergueu a mão que segurava a arma e passou por uma das janelas. No interior do edifício estava muito escuro. O cheiro de ozônio e fumaça fria enchia o ar. Timo encontrava-se numa pequena sala escassamente mobiliada. Havia uma mesinha de metal, duas cadeiras do mesmo material e um console que ficava perto da janela e recebera em cheio uma das salvas disparadas com os fuzis energéticos. Timo só o reconheceu pela forma. O revestimento estava transformado numa massa derretida e endurecida de cor marrom-acinzentada. Do outro lado havia uma porta um pouco caída, que dava para outra sala. Era apenas uma abertura estreita, que antes parecia uma boca escura e ameaçadora. Timo refletiu se deveria modificar sua ordem, chamando pelo menos um dos dois sargentos. Resolveu não fazê-lo — não por qualquer motivo lógico, mas porque tinha medo de cair no ridículo. Timo caminhou resolutamente em direção à porta entreaberta. Seus passos fizeram ranger os escombros. Pegou com a mão esquerda a lanterninha guardada junto ao peito e ligou-a. O feixe de luz branca atingiu alguns objetos em meio a uma terrível escuridão. Timo viu que acabara de encontrar o que estivera procurando. Havia grande número de consoles dispostos em fileiras. A sala era maior do que se acreditaria olhando o edifício do lado de fora, e as paredes robustas quase não deixaram passar os efeitos da granada e do bombardeio energético. As avarias reduzidas que se viam tinham sido produzidas somente pelo calor que entrara através da porta entreaberta. Uma figura imóvel que jazia no chão, bem à frente de Timo, fora vitimado pelo calor.

Timo avançou, desviando-se da figura. Teve de fazer um esforço para não olhar para o cadáver. Foi para perto de um dos consoles e examinou grande número de chaves, botões, luzes de controle e instrumentos ligeiramente queimados. Compreendeu imediatamente a finalidade daquele console. Por maiores que fossem as diferenças de mentalidade de duas raças que viviam em áreas tão afastadas uma da outra, estas diferenças costumavam desaparecer, ao menos na área tecnológica, assim que as duas raças atingiam um estágio que garantisse o progresso da ciência. As luzes de controle estavam apagadas, mas Timo não teve a menor dúvida de que o gerador ainda funcionava. Girou uma chave maior e o zumbido leve que até então enchera a sala sem que seu ouvido notasse mudou de tom. Timo voltou a colocar a chave na posição anterior e examinou o conjunto seguinte. Desta vez levou mais tempo para chegar a uma conclusão. Teve de ler as inscrições em tefrodense para compreender do que se tratava. — MAN — decifrou. Deu um passo e ficou com a manga esquerda presa ao console. Estremeceu e instintivamente segurou com mais força a arma que trazia na mão direita. Deixou cair a lanterna e o feixe de luz iluminou inutilmente a parte traseira do console que se encontrava à sua frente. A sala enorme ficou mergulhada na escuridão. Alguma coisa arranhou no meio da escuridão. O ruído foi-se repetindo. Parecia alguém andando devagar. Timo entrou em pânico e ficou paralisado por um instante. Mas logo se inclinou rapidamente para pegar a lanterna. Ainda estava inclinado, com a cabeça atrás do console, quando uma luz muito forte se acendeu, espalhando uma claridade ofuscante. Timo nem sequer conseguiu distinguir o desenho do soalho. Endireitou o corpo abruptamente. A fonte de luz estava bem à sua frente. Seus olhos fitaram uma bola de luz brancoazulada com um brilho insuportável. Uma dor lancinante encheu sua cabeça. Timo levantou instintivamente os braços e cobriu os olhos com as mãos. Soltou a pistola energética, que caiu ruidosamente ao chão. Recuou cambaleante e teve de fazer um grande esforço para não perder o equilíbrio. Até parecia que a luz diabólica exercia uma força física contra ele. — Pode tirar as mãos do rosto — disse uma voz calma e grave em tefrodense. Timo olhou entre os dedos. De início não viu nada além de anéis coloridos e manchas luminosas dançantes. Mas era apenas uma reação retardada de sua retina. Seus olhos maltratados logo se recuperaram e Timo reconheceu a figura de um desconhecido do outro lado do console atrás do qual deixara cair a lanterna. Mantinha um pequeno holofote manual apontado para cima, fazendo com que a luz se refletisse no teto, enchendo a grande sala de comando com uma luminosidade uniforme. O tefrodense parecia ser um jovem; pelos padrões terranos devia ter seus vinte e cinco anos. Tinha a pele moreno-aveludada típica de sua raça e usava o tipo de uniforme que Timo tinha visto nos homens que se encontravam do outro lado do campo de pouso. Tinha testa alta e um rosto amável e inteligente. — Espero que saiba avaliar a situação como ela é — disse a Timo. — Sua arma está jogada no chão, quatro metros atrás do senhor. Não poderá alcançá-la — Timo viu que o homem segurava uma pequena pistola energética em uma das mãos. — Está em meu poder, e espero que atenda às minhas exigências. Timo cruzou as mãos nas costas. Não deu resposta.

— Sei que há mais dois homens lá fora — prosseguiu o tefrodense. — Mas o senhor seria morto antes que eles conseguissem chegar aqui. Sinto ter de causar-lhe tamanhos inconvenientes, mas encontro-me numa situação em que não posso agir de outra forma. Se não aproveitar a oportunidade, serei recriminado. Timo sentiu-se como se estivesse num teatro. — Meu Deus, não precisa desculpar-se — disse, perplexo. — Compreendo perfeitamente... — Muito bem. O senhor me ajudará a pôr as mãos no comandante e nos oficiais mais importantes de sua espaçonave. — Ora veja — resmungou Timo. — Como pretende fazer isso? — Basicamente fica por sua conta — respondeu o tefrodense. — Por enquanto basta que saiba que toda a base está minada e que não terei a menor dúvida de fazer explodir o vale, mesmo que isso me custe a vida, se encontrar algo de suspeito em seu comportamento. Garanto que ficarei de olho no senhor. Timo sabia que seu interlocutor estava falando sério. Compreendeu que se tratava de um duplo. Os duplos eram seres artificiais cuja vida estava à mercê dos senhores da galáxia e por isso cumpriam fielmente todas as ordens que recebiam deles. Só lhe restava uma pequena esperança. Devia impedir que o tefrodense fizesse qualquer coisa até que Warren e Pulpo desconfiassem de que houvera um imprevisto. — A Helipon não pousará perto deste edifício — ponderou para o andróide. — Por isso não será nada fácil ficar de olho em mim — até mesmo para ele suas palavras soavam apressadas e tinham um tom forçado. Não conseguiria convencer o tefrodense. — Não nos enganemos — acrescentou, esforçando-se para dar um tom sincero às suas palavras. — Suponhamos que eu esteja disposto a cumprir suas exigências. Neste caso não quero que me apague somente porque não tem muita certeza. O duplo sorriu. — Daremos um jeito para que tudo tenha que dar certo — decidiu. — O senhor vai sair, entrar no veículo com seus companheiros e ir embora. Circule por aí, examine a área, faça qualquer coisa, enquanto sua nave não pousar. O senhor terá vinte minutos a partir do momento em que ela tocar o chão para trazer para cá o comandante e pelo menos mais dois oficiais, sem armas. Não falou em vinte minutos. Usou uma expressão tefrodense que significava mais ou menos a mesma coisa. — Se a exigência não for cumprida dentro do prazo, o senhor será o único culpado pelo que acontecer depois. Timo teve uma idéia. — Espere aí — disse numa sincera perplexidade. — Quer dizer que... — Sei o que está pensando — interrompeu o tefrodense. — O senhor pode pegar seu planador e ir embora. Para alertar a nave, por exemplo. Evidentemente não há nada que o impeça de fazer isso. Neste caso farei explodir imediatamente a base — esboçou o sorriso de um homem que já tinha descoberto todos os truques do inimigo e se divertia demonstrando isso. — Não posso ter certeza de saber qual é mesmo seu jogo. Mas posso tirar minhas conclusões. A nave que o senhor chama de Helipon não caiu. Os senhores simularam a queda para que parte da guarnição saísse da base. Isso os senhores conseguiram. Acredito que nossos homens que foram em auxílio daqueles que se fingiram de acidentados já foram feitos prisioneiros. Quer dizer que por enquanto tudo está correndo segundo o plano de seu lado.

“Acontece que certamente não vieram para cá por gostarem do sol vermelho ou de seu planeta solitário. Sua nave apareceu de repente, vinda do nada. Inventaram uma história para enganar-nos. Mas a história é verdadeira em parte. Vieram para cá na intenção de arranjar peças sobressalentes para sua nave. Sem elas o veículo não pode entrar no espaço linear. Se não puderem fazer os reparos, ficarão presos no planeta. Neste caso acabariam caindo nas mãos dos senhores da galáxia. O duplo pronunciou cuidadosamente as palavras, sem demonstrar a menor emoção. Timo admirou sua capacidade de com base em algumas poucas informações construir um quadro que era verdadeiro até os menores detalhes. Mas a preocupação era maior que a admiração. O que era feito de Warren e Pulpo? Já fazia cinco minutos que estava parado. Quanto tempo levariam os dois para desconfiar de alguma coisa? — Já viu o que terá que dar em troca da fuga — concluiu o duplo. — As peças de que precisa estão guardadas nos depósitos que ficam embaixo do campo de pouso. Se eu fizer explodir a base, não sobrará nada. — O senhor está blefando! — afirmou Timo. O duplo fez um gesto vago com as mãos, fazendo deslizar a luz do farol pelo teto. — É um risco que o senhor tem de assumir — respondeu. Timo teve a impressão de ter visto um movimento no teto. Não tinha muita certeza. Precisava de mais alguns minutos. — Mostre os depósitos, e eu lhe prometo... Hesitou. Não tinha a intenção de cumprir a promessa. Talvez fosse preferível nem formulá-la. Seria pelo menos mais honesto. Um sorriso irônico brincou em torno dos lábios do duplo. — O senhor quer ganhar tempo. Compreendo seus motivos. Mas quero que saia logo e conte alguma história aos seus companheiros... De repente soou uma voz cheia e profunda, vinda do teto. O tom da voz fez gelar o sangue até mesmo nas veias de Timo. — Não é necessário. Sabemos o que está acontecendo. O duplo permaneceu imóvel, com a boca entreaberta para dizer alguma coisa. Até parecia que a voz potente paralisara seus músculos. Houve alguns segundos infinitamente longos, carregados de tensão. O andróide acordou. Não foi um acordar repentino, mas lento e pesado. Até parecia que acabava de despertar de uma anestesia. — Quieto — advertiu a voz. — Largue a arma! O duplo obedeceu. A arma pequena, de aspecto desajeitado, caiu ao chão. Timo olhou para ela. Quando voltou a fitar o duplo, viu que este se tinha transformado. Timo percebeu logo, mas seria incapaz de dizer em que consistia a mudança. Estupefato, olhou fixamente para o andróide. Os olhos escuros, que pareciam grandes demais, fitavam-no sem que o vissem. O rosto esbelto, que há instantes ainda parecia inteligente e um tanto arrogante, assumira uma expressão de desespero. De repente Timo compreendeu. Era apenas o começo da transformação. A expressão do rosto mudava constantemente. Os traços iam se sucedendo, dando a impressão de que os músculos já não tinham força para segurá-los. Timo teve a impressão de que estava vendo um pesadelo. O mundo que o cercava tornou-se irreal. Não via nada além do rosto do duplo. Os olhos foram aumentando de tamanho, enquanto a pele do rosto recuava, entesando-se nas órbitas para finalmente deixá-las descobertas. As maxilas tornavam-se cada vez mais salientes, ameaçando romper a camada fina de pele amarelenta e doentia. A boca deformou-se num oval sem lábios, como se quisesse abrir-se num grito final de angústia.

O duplo cambaleou. Tombou para a frente, num silêncio completo, feio e retorcido, com o pescoço estranhamente revirado e o rosto desfigurado voltado obliquamente para cima. Pulpo Rimak saltou ruidosamente do teto. Timo livrou-se do pesadelo. Havia um buraco no teto, que Timo não notara de tão apressado que estivera. Estava coberto por um resto do telhado, que quase não deixava entrar nenhuma claridade. Pulpo aproximou-se do cadáver. — Bem que imaginávamos que houvesse algo de errado por aqui — disse em tom indiferente. — Warren desconfiou de alguma coisa. Subi e descobri o buraco. Caramba! Como ficou feio... Deve ser um duplo! — É, sim — respondeu Timo com a voz apagada. — Era o que eu pensava. Estes caras têm uma espécie de ativador implantado no cérebro. Este ativador arrebenta com eles quando se vêem numa situação sem saída. Já vi algumas criaturas destas, mas nenhuma era tão feia como este aqui. — Está bem — respondeu Timo, impaciente, e deu as costas a Pulpo. — Não precisa realçar justamente este aspecto. Pulpo olhou-o surpreso. — Desculpe, senhor — resmungou, deprimido. Warren entrou pela porta entreaberta, de pistola energética em punho. — Você é mesmo uma grande ajuda — resmungou Pulpo. — Por quê? — Warren deu de ombros, indiferente. — Vi que você mantinha a situação sob controle e... — Silêncio! — gritou Timo. De repente tivera uma idéia. Ninguém sabia exatamente como funcionava o receptor de estímulos implantado no cérebro dos duplos. Mas havia uma possibilidade — uma possibilidade traiçoeira, infame... — Venham comigo! — ordenou aos dois sargentos e saiu correndo. Já estava sentado na direção do planador e ligara o propulsor, quando Pulpo e Warren começavam a entrar. Fez subir o veículo em alta velocidade. Timo puxou o volante bem para trás. A pressão causada pela terrível aceleração expeliu o ar de seus pulmões. O planador correu vertiginosamente por cima da área cinzenta do campo de pouso. Dentro de alguns minutos seus ocupantes avistaram o lado leste do porto espacial. Timo desceu e reduziu a velocidade. Fez o veículo descrever uma curva suave. Finalmente encontrou o que estivera procurando. Aquilo de que suspeitara era verdade. Timo freou o veículo e pousou. Desceu devagar, como se estivesse sonhando, e saiu caminhando para junto de um grupo de figuras cinzentas e imóveis, que jaziam bem à sua frente, sobre o revestimento duro do campo de pouso. Estavam mortos. Pareciam ter sofrido muito antes de morrer, há muitos anos. O sol escaldante ressecara seus corpos. Até mesmo Pulpo foi incapaz de dizer qualquer coisa quando viu os cadáveres. Em algum lugar, refletiu Timo, algum mecanismo registrou o fato de que em Solo as coisas não estavam muito boas para os tefrodenses. E este mecanismo reagira com a lógica fria e implacável da máquina, provocando a explosão dos receptores de estímulos implantados nos cérebros dos andróides. Timo teve pena dos duplos indefesos. Ao mesmo tempo sentiu uma raiva tremenda contra aqueles que decidiam o destino destes seres unicamente segundo sua própria vontade.

4
Dali a alguns minutos a Helipon pousou. Tsin Muno informou Timo de que quatro veículos ao todo tinham saído da base, com vinte homens a bordo, para ajudar aqueles que se acreditava tivessem sofrido um acidente. Os quatro veículos foram aprisionados e recolhidos a bordo da Helipon. Não havia necessidade de maiores explicações. O rosto deprimido de Tsin, que costumava ser impassível como uma pedra, dizia tudo. Os vinte homens tinham morrido no mesmo instante que os duplos que ficaram na base. Na opinião de Timo, o trabalho seria o melhor remédio contra a depressão que o afligia desde o momento em que assistira à morte dos andróides. Mergulhou de corpo e alma no primeiro projeto que viu pela frente. Desceu com a primeira equipe destacada para examinar os depósitos secretos construídos embaixo do campo de pouso. Os especialistas de Tsin Muno ainda não tinham encontrado a carga explosiva com que o duplo ameaçara Timo. Enquanto não fosse desativada, seria perigoso permanecer na base, e mais ainda entrar no subsolo. Mas para Timo o perigo representava um agradável estímulo, que o ajudou a espantar os pensamentos melancólicos. Comandou pessoalmente um dos grupos de vasculhamento. As instalações subterrâneas estavam distribuídas por três pavimentos, a cerca de duzentos, duzentos e cinqüenta e trezentos metros de profundidade. O grupo de Timo encarregou-se das buscas no pavimento de baixo. Levaram horas atravessando corredores sem fim, revistaram dezenas de depósitos de vários tamanhos e finalmente encontraram um pavilhão gigantesco, no qual os tefrodenses tinham guardado grande número de projetores de campo energético. A informação foi transmitida imediatamente para a superfície. Um grupo de especialistas de propulsores desceu pelo amplo poço do elevador e começou a trabalhar imediatamente. Os projetores tefrodenses não atendiam completamente às especificações terranas. Havia diferenças que tornavam impossível a montagem imediata dos projetores na Helipon. Mas os especialistas mostraram-se otimistas. Meia hora depois de terem chegado ao depósito informaram Tsin Muno que a adaptação provisória de um número suficiente de projetores não demoraria mais de vinte horas. Timo e seus companheiros continuaram as buscas por conta própria. Timo já não sabia o que estava procurando. Experimentou uma inquietação que o obrigou a continuar. Provavelmente, disse a si mesmo, nestes depósitos subterrâneos existem centenas de coisas importantes, além dos projetores. Talvez não fossem importantes logo, mas mais tarde, quando não estivessem preocupados unicamente com o regresso ao sistema Chumbo de Caça. Mandou que seus homens esvaziassem uma sala cheia de uma espécie de prateleiras de documentos, levando tudo para a superfície. Tratava-se de registros em microfilme. Timo não tinha a menor idéia do que significavam. Talvez fossem importantes, mas era possível que se tratasse de filmes que os duplos tinham trazido para encontrar alguma distração em Solo. Além disso retirou amostras dos aparelhos guardados em outros depósitos. Achava que seria conveniente levar para bordo da Helipon o maior número possível de objetos que a nave fosse capaz de transportar. Os cientistas do Império conheciam os princípios da tecnologia dos tefrodenses — e, portanto, dos senhores da galáxia — mas quando se

tratava dos detalhes, até mesmo os especialistas tinham de ficar calados. Timo esperava que uma coleção de instrumentos poderia ajudá-los a resolver este problema. Mas no fundo sabia que só queria um pretexto para continuar trabalhando e não ter de voltar logo à superfície para ficar entregue aos seus pensamentos a bordo da Helipon. Mas chegou a hora em que isso aconteceu. Tsin Muno deu ordem para que todos voltassem à Helipon. Os projetores tinham sido colocados no porão de carga da nave. A adaptação seria feita a bordo. Era necessário que a nave estivesse em condições de decolar a qualquer momento. A advertência que o duplo fizera a Timo e este transmitira a Tsin Muno merecera a devida atenção. Era possível que de um instante para outro um grupo de naves tefrodenses aparecesse no horizonte de rastreamento. Timo recolheu-se ao camarote que compartilhava com três tenentes. Nenhum dos companheiros de alojamento se encontrava presente. Tomou um banho e esperou em vão pelo cansaço agradável que este procedimento costumava produzir nele. Saltou para a cama, na esperança de que conseguisse adormecer fechando simplesmente os olhos. Mas esta esperança não se realizou. Timo ficou acordado várias horas. Zangado, tentou analisar os motivos da inquietação de que se apossara dele, mas nem isso foi possível. Até parecia que o planeta Solo irradiava um fluido de perigo e morte que enchia sua mente, desequilibrando seu inconsciente. Timo tentou convencer-se de que este sentimento não passava de uma reação à morte trágica do duplo que tivera de presenciar. Mas a lógica não conseguiu reprimir o sentimento de medo indefinido. Finalmente adormeceu. Mergulhou num sono que só desativou a superfície do consciente, deixando ampla margem de ação para os pensamentos. Timo sonhou com figuras apavorantes que o fitavam com as órbitas vazias e caíam sobre ele, cambaleantes. Quando acordou, sentiu-se como se seu corpo tivesse sido moído de pancadas. *** Cinco horas depois da chegada dos projetores, a Helipon já tinha levantado vôo. Os trabalhos de adaptação foram concluídos mais depressa do que tinham previsto os especialistas em propulsores. Os aparelhos velhos tinham sido desmontados e lançados fora da nave, para dar lugar aos novos. A nave penetrou no espaço intergaláctico, acelerando constantemente, e entrou no espaço linear sem que houvesse qualquer anormalidade. Durante algumas horas as telas só mostraram o cinza confuso e pesado do espaço linear. Os pontos luminosos ofuscantes das estrelas pertencentes à nebulosa Beta acabaram por transformar-se numa mancha luminosa de contornos indefinidos. Timo perguntou o que era feito da presa que ele trouxera para bordo. Sofreu uma decepção. Ninguém tivera tempo para cuidar disso. Alguns curiosos que não tinham o que fazer tinham examinado os microfilmes. E era só. Haviam descoberto apenas que não se tratava de filmes de entretenimento. Timo sentiu-se decepcionado porque acreditara que os filmes talvez pudessem desvendar o mistério de Solo, que lhe causava tamanho mal-estar. Seus pensamentos continuaram a girar em torno do planeta solitário. Timo recordou a extensão das instalações existentes no subsolo deste planeta e chegou à conclusão de que, apesar da guarnição reduzida, tratava-se de uma base maior e mais importante que as bases terranas situadas em Alfa, Beta e Andrômeda, com exceção da de Gleam. Por enquanto ninguém tivera tempo ou motivo para quebrar a cabeça com o fato, que o deixava surpreso. Os tefrodenses deviam esperar perdas elevadas nas lutas travadas na

nebulosa Beta, pois do contrário não teriam montado instalações tão dispendiosas em Solo. Para a Helipon a base foi o milagre que trouxe a salvação. Timo teve um calafrio quando tentou imaginar o que teria acontecido se os projetores de semicampo não tivessem falhado no momento exato em que a nave foi parar perto de Solo, depois de retornar ao espaço einsteiniano. A probabilidade de que isso pudesse acontecer era extremamente baixa. “Incrivelmente baixa”, pensou Timo. Até se poderia ser levado a pensar que Solo não se encontrava lá por acaso. Por algum tempo Timo fascinou-se com a idéia de que uma força desconhecida poderia ter empurrado o planeta Solo para dentro da rota da Helipon, de tal forma que sua tripulação não pudesse deixar de encontrá-lo quando saísse do semi-espaço. Timo brincou com a idéia e refletiu sobre ela. Demorou bastante até que o bom senso voltasse a prevalecer. Ninguém seria capaz de ficar empurrando um sol e um planeta de um lugar para outro. E ninguém poderia saber quando e em que lugar ocorreria a falha dos projetores da Helipon. Timo concluiu que estava vendo fantasmas. Solo deixara-o enervado. Resolveu experimentar novamente o trabalho como remédio contra o mal-estar. Apresentou-se na sala de comando. Tsin Muno mandou que ocupasse seu posto. Não havia muito trabalho, mas Timo encontrou alguma coisa para fazer. Fez o cálculo das rotas hipotéticas e experimentou o fascínio da matemática da quinta dimensão. Solo desapareceu nas camadas mais profundas de seu consciente. Acontece que chegara bem perto da verdade. Se tivesse refletido mais alguns minutos, certamente a teria descoberto, mudando completamente o curso do destino. *** O transmissor Chumbo de Caça não tinha mudado nem um pouco quando a Helipon concluiu a viagem, saindo do espaço linear e seguindo em direção aos sóis geminados. O anel de asteróides e fragmentos cósmicos parecia um véu luminoso e diáfano cercando as duas estrelas. Tsin Muno fez a nave aproximar-se como de costume da base Califa, instalada num planetóide, e colocou-a numa órbita estacionária, fazendo com que circulasse em torno dos sóis geminados ao lado de Califa e de alguns asteróides menores. Tsin entrou num planador espacial juntamente com o imediato da nave e foi a Califa para apresentar seu relatório. Uma equipe de revisão cuidou da Helipon. A nave foi submetida a um cuidadoso exame. As peças que apresentassem qualquer dúvida eram trocadas. A equipe trabalhava com uma estranha obstinação, dando a impressão de que a Helipon voltaria a decolar dentro de algumas horas. Timo Benz foi informado de que só restavam cento e cinqüenta naves da frota de vigilância no sistema Chumbo de Caça. As outras unidades tinham sido retiradas. As manifestações de instabilidade do transmissor eram cada vez mais freqüentes e aumentavam de intensidade. O trecho Kahalo só ficava seguro de três a quatro horas em cada período de vinte horas, mas graças às sondas robotizadas que trafegavam constantemente entre o sistema Chumbo de Caça e Kahalo, quase sempre se tinha conseguido levar os objetos transportados ao destino sãos e salvos. Ainda havia cinqüenta mil homens no sistema Chumbo de Caça, inclusive os tripulantes das naves de vigilância. Só estavam lá para esperar Perry Rhodan, que deveria chegar dentro de três dias com suas mil multinaves. O grupo atravessaria o transmissor depois de uma ligeira inspeção. As cento e cinqüenta naves de vigilância o seguiriam.

Deixariam para trás uma base ampla, que representava o primeiro e o último marco da Terra no caminho de Andrômeda. Trinta horas se passaram. Os tripulantes da Helipon dormiam ou recuperavam-se das canseiras das últimas semanas. Tsin Muno trouxe uma notícia alarmante ao voltar de Califa. O transmissor só podia ser usado durante duas horas em cada vinte. Os estragos aumentavam com uma rapidez preocupante. Provavelmente Perry Rhodan, quando chegasse com suas mil naves, ainda conseguiria viajar para Kahalo. Mas não se tinha certeza. O ambiente na base era de tensão e de confiança. Disseram a Tsin Muno que poderia voltar para Kahalo, mas ele recusou. Os tripulantes da Helipon compreenderam a atitude. Cinqüenta mil homens permaneciam numa espera confiante, e ele não queria ser o único que se acovardasse e fugisse. Timo tinha certeza de que Razta falara mais ou menos assim a Tsin Muno: — Naturalmente é livre para ir embora quando quiser. Mas não se esqueça do efeito que sua partida terá no moral das pessoas que são obrigadas a ficar. E Tsin Muno certamente se impressionara com o argumento. Timo voltou a refletir sobre o sistema de Solo. Depois de uma distância de alguns dias no tempo e de um afastamento enorme do espaço, recuperara a calma e foi capaz de pensar fria e logicamente no problema. Obteve permissão de usar o computador da Helipon para este fim. Apresentou várias perguntas à máquina. Não entendia muito de computadores, e por isso conseguiu a colaboração de um oficial da equipe técnicocientífica, que programou a série de indagações. Mas a experiência na qual Timo depositara tantas esperanças não deu resultado. A máquina não pôde fazer nada com os dados escassos que lhe foram oferecidos. Recusouse a fornecer respostas lógicas, e toda vez que tinha de fazer cálculos de probabilidade operava com margens de erro tão grandes que os resultados eram inaproveitáveis. Só num ponto se conseguiu descobrir algo de concreto. A probabilidade de uma espaçonave que saía da nebulosa Beta numa direção indefinida para retornar ao espaço einsteiniano numa distância também indefinida, em virtude de avarias no sistema de propulsão, encontrar por acaso o planeta Solo, era de um vírgula oito vezes dez na potência menos onze, com uma margem de erro de menos um vírgula oito vezes dez na potência onze, mais 0,999999999982. A máquina acrescentou espontaneamente um comentário. A probabilidade era tão reduzida que não se podia contar com a verificação de uma ocorrência inercial, ou seja, com o encontro casual do planeta. Se a ocorrência se verificasse, então deveria haver uma relação causal entre o aparecimento da nave e do planeta num só lugar. Timo chegou à conclusão de que, em vez de resolver os problemas apresentados, a máquina acabara de formular outro problema. Qual teria sido a relação causal que fizera com que a Helipon encontrasse o planeta Solo? A pergunta foi programada e introduzida no computador. Mas este se recusou a responder. Timo não esperara outra coisa. Por enquanto o mistério continuava sem solução. *** Timo Benz estava de plantão na sala de comando. Tal qual fizera algum tempo atrás, pouco antes que a faixa luminosa verde saísse da concentração energética intersolar do transmissor, olhava pensativo para a tela de imagem, que apresentava uma confusão tremenda de pontos luminosos grandes, pequenos, fortes e fracos. Estava só no recinto amplo, pouco iluminado, e sentiu-se como alguém que tivesse saído de casa numa noite

muito fria, fazendo uma contagem para ver quanto tempo agüentava lá. Alguma coisa parecia puxá-lo para dentro, mas seu orgulho não permitiu que cedesse. E havia uma diferença. Não existia nenhum lugar aquecido ao qual Timo pudesse recolher-se para escapar à sensação desagradável. O silêncio da sala de comando chegava a amedrontá-lo. Os consoles e poltronas pareciam reminiscências de um passado remoto, instrumentos criados por fantasmas. Timo sentiu frio. Olhou para o termômetro e viu que a culpa não era do equipamento de climatização, mas dele mesmo. Esforçou-se para encontrar um motivo de entrar em contato com a base de Califa e conversar com alguém. A solidão começava a deixá-lo nervoso. Se pudesse trocar algumas palavras com alguém cujo rosto aparecesse na tela, sentir-se-ia melhor por algum tempo. Ficou quebrando a cabeça e finalmente lembrou-se da possibilidade de solicitar uma verificação do cronômetro. Seria uma coisa fora do comum, pois os relógios de uma espaçonave moderna não falhavam. Descobririam o que havia atrás do pedido. Mas não importava. Queria ver alguém, ter com quem falar. Neste exato momento, antes que seus dedos tocassem o plástico cinza-claro do microfone, o receptor deu um sinal. A tela iluminou-se. Um homem que se mantinha afastado da objetiva, permitindo que Timo visse as divisas que trazia nos ombros, começou a falar. — Centro de Califa chamando todas as unidades! Um grupo de espaçonaves está para materializar perto da base. Talvez se trate de unidades de oitava frota que querem regressar para Gleam, mas por enquanto não se conseguiu estabelecer contato pelo rádio. Atenção, comandantes de unidades e setores. Entrem imediatamente em rigorosa prontidão. Timo não sabia qual era o motivo da sensação de enorme alívio que experimentou. Na verdade, não havia nenhum motivo. As chances de não se tratar de unidades da oitava frota eram de cem contra um. Mas finalmente livrara-se da solidão. Dentro de instantes uma atividade intensa tomaria conta da Helipon. Mal a tela escureceu, Timo bateu com a mão aberta na tecla de alarme. As sereias uivaram, anunciando que a nave devia entrar em estado de rigorosa prontidão. Timo saiu da poltrona e dirigiu-se ao estrado de comando — tal qual fizera na noite em que o transmissor entrou em pane pela primeira vez. Ligou o aparelho. Os pontos luminosos formados pelos fragmentos cósmicos que circulavam em torno do sol geminado apareceram na tela verde. A nave gigante despertou para a vida com a rapidez incrível, quase explosiva, que costumava verificar-se depois que soavam os alarmes. Escotilhas pesadas rolaram, fazendo vibrar o chão sob os pés de Timo. Um grupo de oficiais entrou correndo na sala de comando, arrumando os uniformes. Ouviram-se vozes de comando. Aparelhos entravam em funcionamento zumbindo e chiando. Os estalos rítmicos de milhares de relés positrônicos encheram a sala. O nervosismo ainda não tinha acabado, quando chegou outra mensagem de Califa. Desta vez o rosto do oficial apareceu em um dos setores da tela panorâmica. Só disse algumas palavras. — Os veículos espaciais que materializaram há pouco não pertencem à oitava frota. São naves tefrodenses. Atenção, comandantes das unidades. Entrem em prontidão de combate. Sigam as diretrizes. A imagem desapareceu da tela. Por um instante o silêncio angustiante produzido pela incredulidade tomou conta da sala de comando da Helipon. Só se ouvia o zumbido ligeiro dos instrumentos e os estalos dos relés. “Tefrodenses no sistema Chumbo de Caça!”

A mente de Timo estava trabalhando em ponto morto. Os pensamentos sucediam-se automaticamente, fora de seu controle. Era impossível que os tefrodenses fossem capazes de percorrer, sem o auxílio de um transmissor, a distância imensa que separava Andrômeda do sistema Chumbo de Caça. A autonomia de suas espaçonaves não chegava a tanto. Era impossível, mas lá estavam eles. As diretrizes a que aludira o oficial tinham sido elaboradas para uma frota de vigilância formada por seis mil unidades. Acontece que não havia mais de cento e cinqüenta naves na área do transmissor, e por uma amarga ironia tinham de entrar em luta segundo o plano enviado para um número de unidades quarenta vezes superior. A Helipon não tinha sido incluída no plano. Ficando fora dele, poderia fazer o que entendesse. Timo surpreendeu-se olhando para o console de comando de Tsin Muno, para conhecer a decisão do comandante, que estava de pé junto ao console, segurando o microfone, com a mesma impressão indiferente que se vira em seu rosto há vinte dias, quando comandava as viagens loucas de sua nave. — Os senhores ouviram! — gritou com uma voz potente. — Todos a postos. Forneça os dados, rastreamento. Os alto-falantes estalaram. Uma voz calma e fria respondeu ao pedido. — Distância onze, senhor. Um grupo muito grande. São cerca de quinze mil unidades. Velocidade noventa por cento luz. — de repente a voz não soou mais tão calma. Até parecia que só então o homem que falava compreendera a gravidade dos acontecimentos. — Vêm exatamente em nossa direção, senhor. — Iremos ao seu encontro — decidiu Tsin. Timo não acreditava no que acabara de ouvir. Teve vontade de saltar da poltrona e protestar em voz alta. — Temos de deixá-los confusos. Só assim teremos uma chance de escapar. Seguiremos em direção a Gleam. É necessário alertar a oitava frota. A nave gigantesca começou a movimentar-se pesadamente. Os propulsores tinham sido paralisados. Nos próximos trinta minutos só poderiam trabalhar com metade da potência. Subiriam aos poucos para a potência máxima. Timo pôs-se a fazer cálculos apressados. Distância de onze unidades astronômicas. Velocidade noventa por cento luz. Dentro de oitenta minutos os tefrodenses passariam junto ao sol geminado e sobrevoariam a base de Chumbo de Caça. Abririam fogo bem antes, cobrindo o cinturão de asteróides com suas salvas pesadas. Estavam numa situação desesperadora. A consciência disso levou algum tempo para penetrar na mente de Timo, enchendo-a com um estranho sentimento de vazio. As pulsações do coração martelavam em seus ouvidos com a força de um gongo. Eram cento e cinqüenta naves e as instalações de superfície contra quinze mil unidades inimigas. Dali a duas horas não haveria mais um único terrano no sistema Chumbo de Caça. Timo atou os cintos de segurança. No momento seus serviços não eram necessários. A rota de Gleam estava armazenada nos computadores. A única coisa que Timo tinha a fazer era acompanhar o desenrolar da batalha espacial. Voltou a perguntar-se como os tefrodenses puderam chegar lá. Não encontrou a resposta. Mas de repente deu-se conta de outra coisa, e com uma clareza tamanha que não havia a menor dúvida que a idéia estivera há muito tempo no limiar do consciente, esperando o momento certo de vir à tona. De repente compreendeu o que estava acontecendo com Solo. ***

Não se sabia como, mas o fato era que os tefrodenses tinham descoberto um meio de viajar por mais de cem mil anos-luz sem transmissor. Sabiam da existência da base terrana instalada no sistema Chumbo de Caça, e a decisão de destruir o ponto de apoio mais importante do inimigo era perfeitamente lógica. Não conheciam a força da frota terrana. Para não assumir nenhum risco, tinham de lançar o maior número possível de naves na luta. Num vôo a longa distância sempre se verificavam perdas. Seu número tinha de ser reduzido ao mínimo. Por isso as unidades que sofressem avarias em viagem e não pudessem acompanhar o grupo precisavam ter uma possibilidade de fazer os reparos necessários. Sem isso estariam perdidas, pois o setor estava repleto de inimigos — os maahks e os terranos. Timo não sabia quantos postos de reparos existiam no trajeto de Andrômeda para Chumbo de Caça, mas tinha certeza de que Solo era um deles. Assim acabara de ser descoberta a relação causal que, segundo o computador positrônico, devia existir entre os dois acontecimentos, que não poderiam ter-se verificado independentemente um do outro. Solo ficava no trajeto de Andrômeda para Chumbo de Caça. A Helipon encontrara este planeta porque seguia esse trajeto. Durante vinte dias passara perto de Solo — no espaço linear. Durante o último vôo os projetores tinham entrado em pane. E estava aí a única coincidência. Os projetores tinham falhado no momento certo. A distância que separava a Helipon da frota inimiga diminuía com uma rapidez alucinante. O sol geminado já se transformara numa mancha avermelhada que brilhava fracamente na tela de popa, cercada pelo círculo radiante dos asteróides. O hiper-receptor transmitiu as mensagens e ordens apressadas que eram trocadas entre as naves da frota de vigilância. Timo sentiu uma admiração vaga por aqueles homens, que se preparavam para a luta — somente para morrer. Teve medo. Mas este medo foi uma expressão vaga e indefinida de que quase não se deu conta. Até parecia que o pânico causado pela repentina mudança no curso dos acontecimentos cobria seu consciente, fazendo com que quase não percebesse o que se passava em sua volta. Olhou fixamente para a tela, na qual se viam os primeiros pontos luminosos da frota tefrodense, mas não compreendeu o que estava vendo. Estava com medo, mas era o subconsciente que experimentava esta sensação. A mente parecia enrijecida, com o frio causado pelo perigo mortal congelando os pensamentos. Tsin Muno gritou algumas ordens, mas Timo não ouviu nada além do ruído de sua voz estridente. O sentido das palavras não penetrou em sua mente. De repente um dos pontinhos luminosos que representavam a frota tefrodense aumentou de claridade. Por uma fração de segundo ficou envolto num ofuscante fogo verde. O fogo desapareceu, deixando uma pequena névoa, que se espalhou rapidamente para desaparecer em seguida. Timo compreendeu. A Helipon acabara de abrir fogo. Tsin Muno dera início à açãosurpresa. Um véu colorido cobriu a tela, desmanchando os pontos luminosos e a escuridão do espaço. Máquinas pesadas uivaram nas profundezas da nave, emitindo um som que parecia zangado e queixoso ao mesmo tempo. O véu desapareceu. A mesma imagem de antes voltou a aparecer na tela. A Helipon sacudiu-se levemente. “É que nem um cão saindo da água” pensou Timo. Tinham sido atingidos. O impacto fora absorvido pelos campos defensivos. Mas era apenas o começo. O fogo das unida dos tefrodenses ainda não fora coordenado. A Helipon fora atingida pela salva de uma única nave. Dali a instantes os campos defensivos seriam atingidos pelo fogo concentrado de várias baterias, e então as coisas seriam diferentes.

Mais uma nave tefrodense foi envolta num fogo esverdeado, inchou e desapareceu. Timo percebeu que a rigidez que se apossara dele começou a abandoná-lo. Voltou a ter consciência da própria individualidade. Tomou conhecimento de que a batalha espacial em torno de Chumbo de Caça tivera início. A Helipon conseguira destruir duas unidades inimigas sem sofrer a menor avaria. Mas isso mudaria logo. Dentro de instantes... Um raio ofuscante atravessou a sala de comando. A grande tela panorâmica despejou uma luminosidade que doía nos olhos. Timo sentiu que alguma coisa o puxava para cima. Um dos cintos de segurança que o prendiam à poltrona arrebentou com um estrondo. O ribombo de uma explosão aumentou num crescendo. Uma fumaça causticante enchia o ar. Timo soltou o cinto. Uma fumaça cinza-azulada enchia o grande pavilhão. Gritos soaram na fumaça. A luminosidade vermelho-pálida das chamas atravessou as nuvens de vapor. Timo colocou o capacete e fechou-o. O chão tremia embaixo dos pés. Automaticamente, sem saber o que estava fazendo, atravessou a fumaça, à procura de feridos aos quais pudesse prestar ajuda. A Helipon fora fortemente atingida. Os campos defensivos tinham entrado em colapso. Não se sabia se era momentaneamente ou para sempre. Só os próximos minutos mostrariam. A fumaça diminuiu. Parecia que era aspirada pelo equipamento de climatização, que provavelmente continuava a funcionar. Timo ouviu a voz estridente de Tsin Muno no rádio-capacete. — Todos a postos! A luta continua. Timo fez meia-volta. Obedeceu automaticamente. Uma poltrona apareceu em meio à fumaça. O homem sentado nela pendia molemente nos cintos de segurança, com a cabeça numa posição esquisita e com o rosto voltado para baixo. Timo chegou mais perto para ajudar, mas sofreu um golpe terrível vindo de baixo. Até parecia que um gigante batera com uma marreta no chão. Uma força tremenda fez Timo subir e dar algumas cambalhotas. Por uma fração de segundos saiu das nuvens de fumaça. Em seguida caiu ruidosamente ao chão. Ficou inconsciente por alguns instantes. Quando recuperou os sentidos, a sala de comando tinha-se transformado num inferno. O rádio-capacete transmitiu o ruído crepitante de um incêndio. Uma luz vermelha mortiça atravessou a fumaça. Timo ouviu gritos confusos. Um vulto apareceu à sua frente. Timo deu-se conta de que, se não tratasse de dar o fora o quanto antes, estaria perdido. A noção do perigo deu-lhes novas forças. Era a primeira vez depois de muito tempo que sabia o que queria. Rastejou pela fumaça. Tinha de subir. O equipamento antigravitacional não funcionava muito bem. O eixo de atuação do campo antigravitacional artificial sofrera um deslocamento. Timo lembrou-se de que os propulsores — desde que ainda estivessem funcionando — estavam acelerando a nave ao máximo. Se o sistema antigravitacional falhasse de vez, todos seriam esmagados que nem insetos pisados por uma bota. Uma sombra alta e escura apareceu à sua frente. Timo reconheceu o console de comando de Tsin Muno e desviou-se para o lado. Passou pelos degraus que levavam ao console e levantou. Viu Tsin através da fumaça. O comandante estava sentado em sua poltrona. Dava a impressão de que não se importava nem um pouco com o barulho e o incêndio. Continuava segurando no microfone. Atenção, todos os setores — gritou. — Comuniquem as avarias. Não desistiremos. Quero saber se ainda estamos em condições de realizar vôos lineares. De repente Timo teve uma idéia — mais que isso, concebeu um plano completo. Estava em condições de ser posto em prática, embora Timo não se lembrasse de ter

trabalhado nele. Até parecia que fora elaborado por um desconhecido que o tivesse introduzido em sua mente, perfeito e acabado. Tsin Muno pretendia alertar Perry Rhodan e as unidades da oitava frota que ainda se encontravam em Gleam, para evitar que fossem a Chumbo de Caça sem desconfiar de nada e caíssem nas mãos dos tefrodenses. Era importante. Ninguém era capaz de imaginar como seria a história do Império Solar se os tefrodenses conseguissem pôr fora de ação o Administrador-Geral. Era necessário que Perry Rhodan continuasse vivo para servir a Humanidade. Mas havia outro problema. Gleam era somente um dos pontos fracos. Havia outro: Kahalo. Era pouco provável que o General Razta ainda conseguisse enviar uma sonda robotizada a Kahalo, para transmitir a notícia alarmante do ataque dos tefrodenses. Depois da queda de Chumbo de Caça não haveria mais nada que impedisse os tefrodenses de invadir a Via Láctea através da via de transmissores. A única coisa que teriam de fazer era esperar que o trecho se estabilizasse por uma ou duas horas. Kahalo não estava preparado para o ataque. Reginald Bell dispunha de duas frotas de guerra com um total de vinte naves no núcleo da Via Láctea, mas estas unidades estavam espalhadas por vários setores, muitas vezes divididas em pequenos grupos. Os tefrodenses tomariam Kahalo de assalto antes que estas unidades pudessem entrar em luta. Era necessário alertar os homens que guarneciam Kahalo. A idéia fixou-se na mente de Timo, que começou a subir obstinadamente a encosta íngreme em que se transformara o chão da sala de comando. Por duas vezes os abalos sofridos pela nave o fizeram escorregar e retornar alguns metros preciosos. Quando finalmente atingiu a escotilha entreaberta, estava quase completamente exausto. Conseguiu pôr-se de pé e entrou cambaleante num corredor secundário, que parecia descer suavemente. A fumaça já não era tão espessa. Timo enxergava alguns metros. A sua frente três figuras encapuzadas tentavam consertar um distribuidor de força, que fora arrancado da parede pela força de uma explosão. Timo foi em sua direção e apoiou-se no ombro de um deles. — Sargento Levier... Rimak... onde estão? O homem fez um gesto vago e apontou para o corredor abaixo. Timo continuou sua marcha hesitante. E começou a chamar. — Warren... Pulpo...! Sua voz foi abafada pelo barulho infernal que enchia a nave gigante. Parecia que um dos tanques de plasma fora atingido. Uma série ininterrupta de explosões fazia vibrar o ar e sacudia a nave que nem um pequeno barco atravessando o mar tempestuoso. De repente o corredor inclinou-se para o lado. Timo caiu. Uma nuvem de fumaça negra vinda de baixo fez com que não enxergasse mais nada. Timo escorregou pelo chão liso. Só parou quando seus ombros bateram num objeto duro. Apareceram mãos que o seguraram embaixo dos braços e o ajudaram a pôr-se de pé. A fumaça aliviara um pouco. Timo olhou pelo visor do capacete e viu um rosto largo e suado, coberto de fuligem. — Pulpo... — fungou. — Onde está Warren? Preciso de vocês! — Estou aqui, senhor. Warren Levier parecia ter materializado do nada. Timo viu que fora parar junto à entrada da usina de eletricidade central. Uma explosão retorcera as chapas de uma escotilha como se fossem de lata. O hall de entrada da usina transformara-se num buraco escuro e vazio. Mas uma luz forte atravessava a escotilha que levava ao pavilhão principal da usina. Havia homens trabalhando.

— Temos de ir para Kahalo! — exclamou Timo. — Vamos pegar um caça de três pessoas. Pulpo e Warren não disseram uma única palavra. Fitaram Timo com uma expressão calma e séria. Havia uma ligeira tristeza no olhar de Warren. — Sei que nossas chances não são muito boas — apressou-se Timo em acrescentar. — Mas Kahalo tem de ser alertado. Vamos! Não podemos perder tempo. Precisamos sair antes que a Helipon entre no espaço linear. “Ou seja, destruída numa explosão” acrescentou Timo em pensamento. Virou-se e desceu pelo corredor que levava à eclusa pequena de um hangar. Pulpo e Warren seguiram-no. Continuaram calados, o que deixou Timo satisfeito. Poderiam fazer uma série de perguntas desagradáveis. Poderiam pedir, por exemplo, que Timo lhes dissesse quem lhe dera ordem de voar para Kahalo. Afinal, tratava-se de uma missão suicida, e eles tinham todo o direito de saber por que teriam de arriscar a vida. Mais embaixo o corredor estava vazio e não havia fumaça. A eclusa do hangar estava praticamente intacta. A guarnição do hangar, composta por cinco homens, fora retirada para dar apoio à equipe de uma posição de artilharia. No hangar estavam guardados cinco veículos espaciais de três ocupantes. Tratava-se de figuras esbeltas, parecidas com um míssil balístico, com alguns tocos de asa. Pulpo e Warren tiraram um dos veículos dos suportes, enquanto Timo verificava os controles da eclusa. Estavam funcionando. O hangar estava equipado com unidades geradoras independentes, que se encontravam em perfeitas condições. O veículo subiu na rampa que levava à câmara da eclusa. Timo saltou para dentro da carlinga. Fez menção de deixar-se cair no assento do piloto, mas Pulpo colocou a mão sobre seu ombro. — Desculpe, senhor — disse em tom sério. — Acho que tenho mais experiência na pilotagem de um destróier de três lugares. — E é de experiência que precisamos para salvar a pele — acrescentou Warren. Timo conseguiu esboçar um sorriso tímido. — É verdade, Pulpo. O senhor será o piloto. Sem dizer uma palavra, Pulpo saltou para junto do console de comando e atou os cintos de segurança. Timo e Warren ocuparam dois assentos logo atrás dele. Ao lado de Timo havia um pequeno painel, a partir do qual podia controlar um desintegrador de calibre médio e um canhão térmico pesado. Timo achou que aquilo até era um deboche. Um desintegrador e um canhão térmico eram tão importantes diante dos campos defensivos das naves tefrodenses quanto uma flecha diante de uma chapa de aço blindada. Perto de Warren Levier encontrava-se um pequeno hiper-rádio. Tratava-se de outro equipamento praticamente inútil. Só poderia ser usado depois da fase mais perigosa da operação. E Timo nem se atrevia a pensar até lá. Pulpo pôs o veículo em movimento. A passagem pela eclusa, a abertura e o fechamento das escotilhas, que pareciam processar-se com uma lentidão infinita, o surgimento do fundo escuro do espaço intergaláctico, tudo isso parecia fazer parte de uma peça de teatro enfadonha à qual Timo era obrigado a assistir. Não lhe interessava. Seu lugar era outro. Só desejava uma coisa. Que a peça terminasse quanto antes. A parede da eclusa recuou abruptamente. A escuridão começou a espalhar-se do outro lado da espessa parede de glassite da carlinga. Pontinhos luminosos bem afastados uns dos outros foram aparecendo, à medida que os olhos se acostumaram à mudança de ambiente. Pulpo fez o destróier descrever uma curva. A mancha vermelha formada pelo sol vermelho apareceu pela frente.

— Por enquanto estamos indo bem — disse Pulpo em voz alta, num tom de evidente alívio. — De certo não nos detectaram porque somos tão pequenos. O destróier acelerou rapidamente. Sentiam-se perfeitamente as vibrações dos propulsores. A mancha vermelha transformou-se em dois pontos luminosos distintos, que passaram primeiro para o amarelo, depois para o verde e finalmente para o azul, enquanto o veículo avançava numa velocidade relativista. Timo inclinou-se por cima dos ombros de Pulpo para ver a tela do rastreador. Uma confusão de reflexos verde-claros cobria a tela. Pulpo apontou para uma mancha mais forte que aparecia junto à margem direita da tela. — É a Helipon — disse. Quando tirou o dedo da tela, a mancha tinha desaparecido. Primeiro Timo pensou que tivesse saído da tela. Mas logo se lembrou de que quando a tinha visto pela última vez, ela se movimentava em baixa velocidade, a dois centímetros da margem da tela. Só havia uma explicação. A Helipon conseguira escapar no último instante, entrando no espaço linear. Timo sentiu uma espécie de alívio sem motivo, que não durou mais que alguns segundos. Quando levantou novamente os olhos, os dois sóis pareciam discos violetas brilhantes bem à frente da carlinga do veículo. Pulpo seguiu na direção em que as superfícies agitadas quase pareciam tocar-se. Timo deu-se conta de que sua sorte era muito mais insegura que a dos homens que se encontravam a bordo da Helipon e finalmente tinham entrado no espaço linear. Ninguém seria capaz de dizer qual seria naquele momento o grau de estabilidade da via de transmissão. Era impossível prever em que estado se encontraria o pequeno destróier quando chegasse a Kahalo. De repente Timo sentiu uma dúvida angustiante. Teria agido razoavelmente? O que adiantaria se Pulpo, Warren e ele saíssem do campo energético situado sobre as pirâmides, juntamente com seu veículo, transformados numa massa confusa de metal e matéria orgânica, como acontecera com a El Paso? Timo reprimiu o sentimento de insegurança. Era tarde para voltar atrás em sua decisão. A Helipon tinha desaparecido. Os tefrodenses precipitavam-se sobre o sistema Chumbo de Caça e não havia dúvida de que este seria transformado numa massa de gases incandescentes. O General Razta e seus subordinados estavam perdidos. Nestas condições a única coisa sensata que tinham que fazer era tentar chegar a Kahalo. Os dois sóis pareciam monstros furiosos feitos de fogo violeta. O efeito do deslocamento no tempo fez com que os fenômenos que se verificavam na superfície dos sóis parecessem correr com uma velocidade extraordinária. As protuberâncias saíam do mar de fogo violeta que nem relâmpagos. A coroa semitransparente parecia um véu agitado pela tempestade. De repente os arredondamentos recuaram de ambos os lados como se tivessem sido puxados por cordas. Um abismo negro surgiu bem à frente do destróier. Línguas de fogo azuis agitavam-se em seu interior. — Lá vamos nós — exclamou Pulpo Rimak em tom áspero. — Até logo mais. Timo fechou os olhos. Sentiu um solavanco tremendo. Era como se o destróier tivesse esbarrado num obstáculo. No mesmo instante uma dor lancinante fustigou seu corpo. Timo gritou, mas não conseguiu emitir nenhum som. Contorcia-se de dores, mas os músculos não reagiam. Tentou abrir os olhos para ver onde estava, mas não tinha mais olhos. Uma idéia parecia gravar-se em sua mente com ferro em brasa. O transmissor encontrava-se em estado de instabilidade.

Robô de combate terrano tipo Aritor AP-Z1.
Dados técnicos:
Altura: 2,5 m. Diâmetro da protuberância central: 1,25 m. Diâmetro do tronco: O,8 m. Armamento: 2 armas energéticas, arma de conversão, arma térmica.

1) Sistema de propulsão antigravitacional compacto de grande capacidade. 2) Anel gerador do campo defensivo e sensores adicionais. 3) Anel sensorial superior (sensores comuns e infravermelhos, rastreadores de massa e energia e rastreador de vibrações individuais). 4) Projetores de campo energético de supercarga de construção siganesa. 5) Radiador da arma energética (extremamente móvel). 6) Acelerador de impulsos da arma energética. 7) Transformador e conversor de energia. 8) Projetores do campo de rotação destinados a possibilitar a rotação do círculo de armamentos. 9) Banco de energia ultra compacto. 1O) Abertura de saída dos jatos-propulsores (um total de 16 raios de Impulsos é direcionado pelos campos energéticos). 11) Projetores dos campos energéticos de direcionamento. 12) Sistema de jatos-propulsores de alto desempenho (8 ao todo). 13) Reator de gás neutro de fabricação siganesa. 14) Mecanismo de movimentação das armas energéticas, possibilitando um amplo campo de tiro. 15) Conjunto biopositrônico dotado de aparelhos de intercomunicação normais e hiperenergéticos. 16) Anel sensorial Inferior. 17) Projetor para a criação de um campo de propulsão para a locomoção do robô. 18) Projetores de paratron de grande capacidade. 19) Radiador da arma de conversão, equipado com alternador de estado e desmaterializador. 2O) Conversão de energia da arma intermitente. 21) Sistema de irradiação da arma intermitente. 22) Blocos biopositrônicos adicionais. 23) Condutor principal de energia. 24) Protuberância circular dos propulsores. 25) Anel móvel de artilharia. 26) Blindagem de liga de aço de terconite e inquelônio.

5
Reginald Bell instalara seu quartel-general provisório em Kahalo. Na Via Láctea a situação era de calma relativa. Até poucas semanas atrás encontrava-se em Quinto Center, mas transferira-se para Kahalo assim que tivera conhecimento de que a via de transmissão estava para entrar em colapso. Neste meio tempo quase dezoito mil espaçonaves tinham feito a viagem da área de operações em Andrômeda para a Via Láctea, através da ponte de transmissores que desmoronava progressivamente. Houvera alguns incidentes desagradáveis, mas seu número era confortavelmente reduzido desde que se pensasse em termos de porcentagens, deixando de lado o destino dos envolvidos. Mas havia uma idéia de que Reginald Bell não conseguia livrar-se, e que o perseguia até nos sonhos. Era possível que justamente a nave de Perry Rhodan fosse uma das poucas vitimadas pelas artimanhas do sistema de transmissão. Costumava passar a maior parte do dia num centro de controle situado num edifício que ficava na extremidade sul do campo de pouso espacial, e que por sua vez se limitava ao sul com o antigo círculo da morte das seis pirâmides. A pirâmide que ficava mais ao sul não distava mais de cinqüenta quilômetros do novo quartel-general de Reginald Bell, que da janela de seu escritório via o colosso de metal vermelho iluminado pelo sol. Era um quadro impressionante até mesmo para quem já o tinha visto mais de cem vezes. Havia poucos móveis na sala ocupada por Bell. O mobiliário consistia basicamente em uma mesa larga sobre a qual se viam uns cinco videofones em completa desordem e uma poltrona na qual ficava sentado Reginald Bell, para olhar nervosamente para os videofones ou pela janela. Bell não dormia mais de quatro horas em cada vinte e quatro. Fazia o possível para suprir por meio de medicamentos a calma que faltava ao corpo. Além disso tomava quantidades enormes de café, fazendo com que seu ajudante, o Coronel Vince Foley, que estava acostumado a muita coisa, por vezes fosse levado a fazer observações sobre os efeitos nocivos da cafeína. Vince Foley, um homem magro com um rosto sombrio, que lhe dava o aspecto típico do soldado-burocrata, apareceu com um recipiente térmico cheio de café fresco, quando um dos videofones que se encontravam na mesa tocou. Bell ergueu-se ligeiramente na poltrona e levantou apressadamente o fone. A pequena tela iluminou-se imediatamente, mostrando o rosto de um oficial jovem pertencente ao contingente de guardas do transmissor. — Acaba de chegar mais um objeto, senhor — exclamou. — Ainda não conseguimos identificá-lo. Parece ter sido outra transmissão malsucedida. — Quando chegou a última sonda? — perguntou Bell prontamente. — Há noventa minutos, senhor — respondeu o oficial. — E quanto tempo faz que a última saiu daqui? — Dez minutos, senhor. — Droga! Razta deveria saber que o trecho não está em ordem. Por que enviou uma nave se o transmissor está tremendo? O jovem oficial fez um gesto, dando a entender que não se julgava competente para emitir um pronunciamento.

— Está bem — resmungou Bell. — Se houver alguma novidade, quero ser avisado imediatamente. Preciso saber o que vai acontecer com o objeto. A tela apagou-se. Com um gesto, Bell convidou Vincent Foley a colocar o café na mesa. O caneco de Bell já estava preparado para receber o líquido. Bell encheu-o, tomou um pequeno gole e, como de costume, queixou-se de que o café estava muito quente. — Razta deve ter enlouquecido de repente — disse, enquanto colocava o caneco na mesa — ou então houve um imprevisto. Qual é sua opinião, Foley? Bell virou o rosto e fitou seu ajudante com uma expressão de desafio. Com os olhos chamejantes e os cabelos ruivos agressivamente arrepiados dava a impressão de um homem que acabara de passar dez horas enfadonhas e sentia-se feliz por poder travar uma calorosa discussão. — Sinto muito, senhor — respondeu Foley para evitar uma discussão. — Sou da mesma opinião que o senhor. — Como pode saber qual é minha opinião? — resmungou Bell, contrariado. — O General Razta não iria enlouquecer sem mais nada — disse Foley. — Deve ter havido um motivo especial para ele enviar uma nave quando o transmissor se encontra nestas condições. Bell bateu nos joelhos, resignado, e olhou para outro lado. — Infelizmente o senhor é esperto demais para entrar numa discussão — murmurou, decepcionado. O mesmo videofone voltou a dar o sinal de chamada. Bell agarrou o fone. Havia uma expressão de pânico no rosto do oficial jovem. — Senhor... o objeto... vem exatamente na direção de Kahalo. Bell levantou, empurrando a poltrona com os joelhos. “É o que ele está precisando”, pensou Foley. “Um pouco de agitação.” — Como é o objeto? — perguntou Bell. — É uma massa sem forma definida feita de um material altamente reflexivo, senhor. É a mistura de metal, plástico e matéria orgânica que temos visto. O peso é de trinta e cinco toneladas aproximadamente. — É um veículo pequeno — disse Bell como quem fala consigo mesmo. — Onde deve cair? — Pois é justamente isso, senhor — exclamou o oficial. — Dá a impressão de que está sendo dirigido. Ainda não se pode prever o local da queda. No momento o objeto está freando. Até parece... até parece que ainda há algumas pessoas a bordo. Bell fez um gesto com a cabeça. — Mantenha a ligação! — ordenou. — Quero ser informado de minuto em minuto sobre a evolução dos acontecimentos. Bell saiu de trás da mesa e foi para a janela. Olhou fixamente para o céu leitoso, dando a impressão de que esperava ver o objeto. Sereias de alarme uivaram. O oficial jovem voltou a aparecer na tela. — O objeto encontra-se sobre as pirâmides, a doze quilômetros de altura, senhor — informou. — Desce rapidamente e desloca-se ligeiramente na direção sul. Parece que quer descer no campo de pouso espacial. Bell continuava junto à janela. Nem virou a cabeça quando o oficial voltou a chamar. Levantou o braço e fez um sinal que foi repetido por Foley, para que o oficial visse.

— Não é mais necessário — disse. Referia-se às outras informações. — Já vejo o objeto — girou sobre os calcanhares. — Arranje um veículo, Foley. Quando o objeto tocar o chão, quero estar lá. Foley saiu correndo. Bell continuou junto à janela, acompanhando com os olhos a estranha figura, que no início, quando o oficial estivera falando pelo videofone, fora apenas um pequeno ponto negro. No momento o objeto encontrava-se somente trezentos ou quatrocentos metros acima do campo de pouso. Era muito grande para o peso. As formas eram irregulares, dando-lhe o aspecto de um quadro tirado de um pesadelo, encontrado em todos os veículos saídos do transmissor num período de instabilidade. Até parecia que um gigante fizera uma brincadeira, esticando a figura para os lados, até que as espessas paredes metálicas se transformassem em chapas finíssimas, para depois voltar a esmagá-las, tendo o cuidado de não formar arestas, mas somente cantos e superfícies ligeiramente abauladas. Pelos cálculos de Bell, o objeto devia ter cerca de trezentos metros de comprimento. Apresentava a forma de um fuso e no lugar mais espesso devia ter cem metros de diâmetro. Os movimentos do objeto eram controlados. Quanto a isso já não havia a menor dúvida. Descera das alturas em alta velocidade, freara abruptamente e no momento voava devagar, quase na horizontal. Planadores blindados apareceram na extremidade sul do campo de pouso. Em cada um deles havia um contingente de soldados fortemente armados. Bell correu para junto do microfone e mandou dizer ao comandante do porto espacial que ninguém deveria abrir fogo enquanto ele não desse ordens para isso. Sabia perfeitamente que estava correndo um risca Ninguém era capaz de identificar o objeto. Em outras oportunidades naves terranas acidentadas tinham saído do transmissor com estas deformações. Mas nem por isso se podia afirmar que sempre seria assim. Podia tratar-se de uma bomba tefrodense que talvez explodisse numa questão de segundos, destruindo Kahalo. Bell não acreditava nisso. Era este o único argumento que poderia usar para justificar sua atitude de não mandar derrubar o objeto assim que se descobriu que ele se dirigia ao planeta. Bell viu Vince Foley chegando num planador ligeiro. Desceu correndo. No momento em que saltava para dentro do veículo, viu que o objeto se dispunha a pousar. Ficou parado a cerca de quinhentos metros do limite sul do campo de pouso e desceu. Baixou devagar, que nem uma folha seca, e pousou sem menor ruído. O espetáculo deixou Bell fascinado. — Vamos, Foley — disse entre os dentes. Vince Foley fez o planador descrever uma curva suave e atravessou o campo de pouso. Bell fez um gesto vago. — Pouse de lado — mais ou menos no centro. Foley obedeceu. O planador parou a cinco metros de altura, bem perto do flanco retorcido do incrível objeto. — Desça — ordenou Bell. — Quero sair. Foley sabia que não adiantava discutir com o marechal-de-estado. Além disso ele mesmo de repente teve, não se sabia por quê, a impressão de que o objeto era cercado por uma auréola de paz e amizade. Fez pousar o planador. Mal os deslizadores tocaram o chão, Bell saltou. Foley ficou sentado junto ao volante, para estar preparado para retirarse às pressas caso isso se tornasse necessário.

Bell aproximou-se da parede lateral abaulada do objeto não identificado. Em algum canto de sua mente uma voz tentava convencê-lo de que estava agindo como um idiota e se expunha a um perigo terrível. Mas o objeto de metal cintilante o fascinava. Bell não deu atenção à voz interior. Apalpou as paredes do objeto. O metal era frio e fino, conforme esperara. Cedia à pressão dos dedos. Bell deu alguns passos e chegou a um lugar em que a parede se abaulava para dentro. Parou e tentou enxergar o que havia dentro do objeto. Mas nos lugares não atingidos pelos raios do sol era tão escuro que não se via nada. De repente Foley soltou um grito. O pavor que havia em sua voz produziu em Bell o efeito de um choque elétrico. O Marechal-de-Estado virou-se abruptamente. Foley estava de pé no planador, com o braço estendido apontando para um lugar na parede lateral do objeto. Bell olhou na direção indicada. Quando descobriu o que deixara Foley tão assustado, ficou estarrecido. Durante alguns segundos não pôde acreditar no que seus olhos viam. Uma figura delgada, de formato cilíndrico, saíra da parede que nem um braço. Não que fosse parecida com um braço. Era bem diferente do que os homens estacionados em Chumbo de Caça tinham visto a bordo da El Paso. Era simplesmente um cilindro fino que segundos antes ainda não estivera lá e continuava a crescer rapidamente, que nem um tentáculo saído de um estranho molusco. O tentáculo chegou a atingir quase vinte metros. O metal era muito fino, mas assim mesmo o tentáculo resistiu ao próprio peso, estendendo-se na horizontal. Quando o crescimento terminou, a extremidade do tentáculo dobrou para baixo, e ele estendeu-se em direção ao chão, trêmulo e hesitante, como se não soubesse muito bem o que estava fazendo. Quando o tentáculo tocou o revestimento de plástico duro do porto espacial, ouviuse um tilintar leve. Ficou deitado algum tempo, misterioso e cintilante, mas logo voltou a mexer-se. Dobrou, fazendo com que a extremidade tocasse o chão na vertical, e arranhou o asfalto plastificado em movimentos abruptos. Os movimentos pareciam vigorosos e bem orientados. Bell ficou perplexo ao ver que o metal, aparentemente frágil e flexível, gravava fortes sulcos no revestimento duro. Passou um minuto. O braço metálico continuava a arranhar o chão em movimentos abruptos, produzindo ruídos de alguma coisa arranhando e arrastando, que davam calafrios em Reginald Bell. Quis aproximar-se do braço para ver se conseguia descobrir um sentido no que estava fazendo. Neste instante Foley soltou outro grito. Seu rosto transformou-se numa máscara de pavor e incredulidade. — Está escrevendo alguma coisa! — berrou. *** Era tudo escuridão. E silêncio. E na escuridão trabalhava o espírito do ser incrível que se formara graças ao intercâmbio das forças de um campo de transporte instável da sexta dimensão. Ele tinha consciência de si mesmo. Mais que isso, sabia qual era seu objetivo. Entretinha três séries distintas de pensamentos, duas delas vagas e superficiais, enquanto a terceira era precisa e capaz de formular conclusões lógicas. Vim para cumprir uma missão. A terceira série de pensamentos girava que nem uma tempestade em torno deste ponto. E era tão nítida que fez empalidecer as outras séries. O ser orientou-se. Vivia na

escuridão, mas sabia onde estava. A capacidade de saber era uma faculdade inata. Não teve a menor dúvida em servir-se dela. Depois de uma ligeira busca encontrou seu objetivo. Movimentou-se em sua direção e imobilizou-se no ponto de destino. Uma vez lá, chegou à conclusão de que não estava preparado para cumprir sua missão. Em algum canto de seu consciente surgiu a lembrança de certos seres estranhos aos quais se destinava a mensagem que iria transmitir. Não percebeu nenhum destes seres na escuridão. Mesmo que percebesse, não saberia como entrar em contato com ele. A terceira série de pensamentos entrou num processo de reflexão intensa. Aqui com tamanha força e insistência que fez desaparecer as outras séries. Uma imagem surgiu na memória do ser. Até parecia que tinha clareado em torno dele. Viu alguns dos seres estranhos e observou que se comunicavam entre si. O ser não sabia qual era a origem da lembrança e por que a trazia em sua mente. As bases desta forma de existência permaneciam ocultas para ele. Deu-se conta de que sabia alguma coisa a respeito do mundo dos seres estranhos, e resolveu aproveitar estes conhecimentos. Havia duas maneiras de comunicar-se. Uma delas era por meios acústicos. Não estava ao alcance do ser, que não dispunha dos órgãos utilizados pelos seres estranhos. A outra maneira consistia em sinais que os estranhos entendiam, depois de assimilá-los oticamente. O ser conhecia estes sinais. Mas não possuía nenhum órgão capaz de produzi-los e colocá-los ao alcance dos seres estranhos. Desesperado, tentou encontrar uma saída — e pela primeira vez deu pela falta das duas séries de pensamentos mais fracas, que tinham sido fortemente reprimidas pela outra série. Suas forças espirituais estavam quase esgotadas. A energia do intelecto tinha sido quase completamente consumida. O ser sentiu os pensamentos secarem, enquanto as lembranças empalideciam e os fios do pensamento se confundiam. Fez mais um esforço tremendo, e a luz surgiu em sua mente. Afinal, possuía um corpo, um corpo submisso governado pela força da inteligência. Podia criar um instrumento capaz de produzir os sinais que faria com que os seres estranhos compreendessem sua mensagem. Concentrou-se na idéia. Sentiu um braço crescer a seu lado. Afastou os outros pensamentos e fez com que as forças que lhe restavam fluíssem para este braço. Movimentou-se de forma a produzir os sinais que os estranhos compreenderiam. A consciência abandonou-o quando seus esforços ainda estavam no meio. Desapareceu entre um pensamento e outro. O fluxo de idéias e recordações tinha cessado. A escuridão voltou, e o ser que existia na escuridão já não teve consciência da própria individualidade. O corpo continuava vivo, animado pelas energias mecânicas que, libertadas do controle da razão, passaram a agitar-se furiosamente. *** O ser morreu sem saber se tinha cumprido sua missão. Reginald Bell contemplou estupefato as letras trêmulas mas bem legíveis que o braço metálico saído da estranha figura traçara no chão. O braço se imobilizara. Estava deitado no asfalto cinzento, estranhamente retorcido, dando a impressão de que não tinha mais força. Escrevera estas palavras:

Fortes contingentes frota tefrodense atacando e destruindo Chumbo de Caça. Rhodan ainda em Gleam. Benz. 32475... Depois do cinco vinha um traço inclinado muito fraco. Era um símbolo que o braço não conseguira concluir. Fosse qual fosse o espírito que guiara o braço, ele deixara de existir. O texto escrito fez com que Reginald Bell voltasse mais depressa a pensar logicamente. Despertou do torpor em que o tinham lançado os acontecimentos incríveis dos últimos minutos. Os tefrodenses estavam atacando Chumbo de Caça. Era uma mensagem alarmante, tão incrível quanto a existência de um montão de metais retorcidos que gravava mensagens no chão. Mas havia o caso da El Paso, que também soubera transmitir o princípio de uma mensagem ao Tenente-Coronel Tsin Muno e seus subordinados. Era necessário descobrir o que havia atrás disso. Bell saltou para dentro do planador. Vince Foley fez uivar o motor. O veículo subiu quem nem uma flecha, fez uma curva em direção ao limite do porto espacial. Quando ainda se encontrava a menos de cinqüenta metros do montão de metais, o estrondo de uma explosão fez tremer o ar. A onda de pressão superaquecida fez balançar o planador. Bell teve de segurar-se para não ser atirado fora do assento. Quando finalmente pôde olhar para trás, uma nuvem de fumaça cobria o lugar em que estivera o montão de metais. Da nuvem saíram três figuras vagas, que se afastavam rapidamente em três direções diferentes, ganhando altura rapidamente. Quando a fumaça desapareceu, o objeto metálico não estava mais lá. Uma mancha queimada negra assinalava o lugar em que tocara o chão. Assim que voltou ao seu escritório, Bell deu instruções para que até segunda ordem não fossem enviadas mais sondas robotizadas ao sistema Chumbo de Caça. Se os tefrodenses realmente se encontravam na área em que ficava a base de transmissão, as sondas robotizadas não deveriam mostrar-lhes os caminhos que se abriam diante deles. Enquanto isso Vince Foley pôs-se a examinar os registros do pessoal da frota, dos quais existia uma cópia completa em Kahalo. Verificou que Timo Benz fora aprovado há pouco tempo, com distinção, nos exames finais da Academia Espacial, tendo sido designado para servir como oficial de navegação na Helipon. Tenente Benz, número de registro 32475783. Por mais impressionante que fosse, a coincidência ainda não representava uma prova definitiva. Mas Reginald Bell tinha certeza de que a mensagem realmente vinha de Timo Benz. Nem ele nem os cientistas consultados foram capazes de explicar como um pedaço de metal amassado, sem vida, esteve em condições de transmitir uma mensagem inteligível. Os microrrastreadores acompanharam cuidadosamente os três fragmentos do objeto metálico, surgidos depois da explosão. Tinham subido às camadas mais elevadas da atmosfera, reduzindo constantemente a velocidade. Depois que a gravitação de Kahalo consumiu sua energia cinética, retornaram numa trajetória balística à superfície do planeta. Quando voltaram a penetrar na atmosfera, o calor do atrito fez com que se evaporassem quase completamente. Só alguns restos insignificantes das massas metálicas tocaram o solo, derretidos, em três pontos diferentes.

No quartel-general de Reginald Bell o ambiente era muito tenso. Era bem verdade que quase toda a frota de Andrômeda fora trazida de volta à Via Láctea no último instante. Mas as mil unidades que ainda se encontravam na área de Andrômeda eram as naves de guerra mais modernas e caras do Império Solar — e uma destas belonaves era a nave-capitânia do Administrador-Geral e trazia Perry Rhodan a bordo. Cinco horas depois da chegada da noticia alarmante, os instrumentos do laboratório instalado embaixo das pirâmides mostraram que o transmissor voltara a estabilizar-se. Era o momento decisivo. Se a notícia fosse falsa, as primeiras sondas robotizadas vindas de Chumbo de Caça não demorariam a chegar. Passou uma hora, sem que acontecesse nada. Depois de oitenta minutos o transmissor voltou a instabilizar-se. Chumbo de Caça não transmitira nenhuma mensagem. O objeto metálico dissera a verdade. *** O contingente de naves de Perry Rhodan estava pronto para partir, quando os rastreadores da Crest III anunciaram o aparecimento de um objeto não identificado nas imediações do sol central do sistema Tri. O alarme, dado como precaução, foi levantado quando se constatou que realmente se tratava de um único objeto. A própria navecapitânia foi ao encontro do visitante inesperado, que se deslocava a uma velocidade muito baixa, depois de ter saído do espaço linear. Quando as duas naves se encontravam a apenas dez milhões de quilômetros, a sala de rádio da Crest captou pedidos de socorro, que sem dúvida tinham sido enviados por um transmissor de modelo terrano. Verificou-se que o objeto não identificado era a nave Helipon. A Crest colocou-se numa distância segura de dez quilômetros. Viu-se que a nave estava praticamente destroçada. O casco forte de terconite estava perfurado e derretido em vários lugares. As emanações energéticas vindas da nave gravemente avariada mostravam que a maior parte de seus aparelhos não funcionava mais. Só mesmo os Kalups forneciam indicações mais ou menos constantes. Um comando de resgate cuidou da nave destroçada. O que seus membros viram bastou para fazer brotar lágrimas até mesmo nos olhos da pessoa mais fria. No interior da nave reinava o vácuo. O equipamento antigravitacional funcionava com metade de sua capacidade, dando a impressão de que a Helipon estava pendurada obliquamente no espaço. Os tiros inimigos tinham produzido efeitos devastadores. Não havia um único recinto em que não tivesse sido destruída alguma coisa. Um raio térmico de cinco metros de diâmetro atingira a sala de comando, situada no centro da nave, depois de atravessar os outros conveses, ligando-a diretamente ao vácuo do espaço cósmico. Mas não era de admirar que a Helipon conseguisse voltar para Gleam. Os conjuntos Kalup eram praticamente a única coisa que continuava a funcionar perfeitamente. Os conjuntos Kalup e um homem que vestia um traje espacial semicarbonizado, que ainda vedava perfeitamente. O homem, que estava sentado atrás de um console, levantou assim que os primeiros homens do comando de resgate entraram, para em seguida cair ao chão, inconsciente. Este homem era Tsin Muno. Dos oitocentos tripulantes restavam menos de dez por cento. Todos os sobreviventes estavam feridos. Mais de vinte deles tinham sofrido ferimentos tão graves

que morreram antes que pudessem ser levados para a Crest. Os outros passariam várias semanas ou meses no hospital da nave. Os homens pertencentes ao comando de resgate fizeram vários vôos, levando para a Crest 52 sobreviventes e os restos mortais de 746 homens tombados em combate. A Helipon, que não passava de um casco vazio e perfurado, foi destruída. Aos feridos foram dispensados imediatamente os cuidados necessários no hospital de bordo. Meia hora depois da chegada dos sobreviventes Perry Rhodan recebeu as primeiras informações. Quatorze homens provavelmente sucumbiriam dentro em breve aos seus ferimentos. Outros trinta e seis estavam inconscientes e tinham de ser mantidos neste estado, em seu próprio benefício, até que tivessem forças para voltar à realidade. Só havia dois homens que poderiam prestar declarações dentro em breve: um técnico da sala dos propulsores e Tsin Muno, comandante da Helipon. Perry Rhodan deu ordem para que os médicos fizessem o possível para que Tsin Muno ficasse em forma quanto antes, sem usar meios que pudessem causar seqüelas desagradáveis. Evidentemente houvera uma catástrofe no sistema Chumbo de Caça, catástrofe esta que levara Tsin Muno a realizar o último vôo com a Helipon. Perry Rhodan considerou a possibilidade de os tefrodenses terem atacado a base do transmissor. Só mesmo um acontecimento terrível como este teria levado Tsin Muno, que era um homem frio e ponderado, a arriscar tudo para levar a notícia antes que fosse tarde. Mas de outro lado parecia impossível que, depois da falha do transmissor, os tefrodenses estivessem em condições de percorrer o trecho imenso entre a nebulosa de Andrômeda e o sistema Chumbo de Caça. Perry Rhodan quase chegou a abandonar a hipótese do ataque tefrodense, quando veio do hospital a informação de que Tsin Muno estava em condições de prestar declarações. Sua hipótese fora correta. Os tefrodenses tinham atacado Chumbo de Caça e destruído o sistema. Tsin Muno não tinha a menor idéia de como puderam vencer a distância enorme. As comunicações com a Via Láctea tinham sido interrompidas. Nem mesmo as mil espaçonaves de Perry Rhodan, equipadas com multipropulsores que lhes garantiam um alcance de 1,2 milhões de anos-luz, não teriam como chegar à Via Láctea. Tsin Muno prestou informações sobre o estranho planeta chamado Solo. Perry Rhodan teve a atenção despertada, mas do relato de Muno concluía-se sem a menor sombra de dúvida que Solo não podia ser o fator misterioso que permitira aos tefrodenses percorrer o trecho que os separava de Chumbo de Caça. Solo era uma base-oficina, cuja finalidade consistia em prestar auxílio às naves que se encontrassem em dificuldades nas proximidades da perigosa nebulosa Alfa. Muno levou quarenta e cinco minutos prestando declarações. Mal concluiu seu relato, e já apareceram duas teorias diferentes para explicar o aparecimento inesperado dos tefrodenses no sistema Chumbo de Caça. Uma destas teorias, que contava com o apoio de Perry Rhodan, sustentava que os tefrodenses tinham construído um novo tipo de propulsor, que lhes permitia percorrer distâncias enormes. Segundo a outra teoria, concebida e apaixonadamente defendida por Atlan, o arcônida, os tefrodenses usavam as chamadas estações espaciais dos maahks. Aos poucos a teoria de Atlan foi levando desvantagem, uma vez que por enquanto só fora provada, através da observação direta, a existência de uma única estação deste tipo. Diante disso a conclusão de que devia haver outras representava uma extrapolação indevida de dados. Atlan argumentou que as estações tinham sido construídas pelos maahks num passado remoto, para tornar possível o tráfego de espaçonaves entre a Via Láctea e a

nebulosa de Andrômeda. Certamente duas ou três delas se encontravam numa posição tal que os tefrodenses puderam chegar a Chumbo de Caça através delas. O problema ficou sem solução. Perry Rhodan resolveu que o contingente da frota permaneceria por enquanto no setor de Tri. Mais tarde, quando fosse provável que os tefrodenses abandonassem o sistema Chumbo de Caça ou só deixassem pequenas forças estacionadas na área, o contingente avançaria para lá. Mas isto era antes uma manifestação de boas intenções que um plano. Os cérebros dos homens que tomavam as decisões pareciam ter sido atacados de paralisia. Ninguém, nem mesmo Perry Rhodan, seria capaz de dizer o que se deveria fazer para tornar a situação menos grave. Tomados de perplexidade, os homens finalmente resolveram pedir conselho a alguém. Este alguém era obrigado a pensar, mesmo depois que todos os mecanismos pensantes tivessem deixado de funcionar. Todos os dados foram introduzidos em forma de programa lógico no centro de computação positrônica da Crest. Outro mistério tinha aparecido. Quando se tentou identificar os cadáveres dos tripulantes, muitos deles fortemente mutilados, constatou-se que três deles tinham morrido sem deixar vestígios, ou então tinham abandonado a nave antes que esta se envolvesse na batalha travada no sistema Chumbo de Caça. Os comandos de resgate tinham recolhido a lista de tripulantes da Helipon. Depois de identificados os cadáveres e os sobreviventes, chegou-se à conclusão de que os desaparecidos eram: O Tenente Timo Benz O sargento Warren Lerner O sargento Pulpo Rimak. Ninguém, nem mesmo Tsin Muno, sabia o que era feito deles. Quando começou a batalha, ainda se encontravam a bordo do cruzador pesado. Era bem possível que durante os combates se encontrassem numa parte da nave que foi atingida em cheio. Era a única explicação para o fato de não terem sido encontrados vestígios de seus corpos. Tsin Muno, que foi informado sobre isto quando recuperou os sentidos pela segunda vez, mostrou-se muito abatido. Só mais tarde ficou sabendo o que realmente tinha acontecido. E mais alguns séculos se passariam antes que alguém pudesse fornecer uma explicação lógica dos estranhos acontecimentos. Enquanto isso a bordo da Crest as horas arrastavam-se preguiçosamente. Todos esperavam que o centro de computação positrônica anunciasse que já chegara a uma conclusão. *** Hoje em dia já se consegue explicar o fenômeno que tanto assustou os homens daquela época. Mas mesmo atualmente trata-se de um ramo de conhecimentos relativamente jovem, que além disso tem o inconveniente de ser difícil de explicar em termos visuais. Somente por isso ainda não recebeu a atenção que merece. Ainda existe muita gente para quem os acontecimentos de Kahalo que se passaram naquela época remota representam a manifestação de uma entidade sobrenatural. O fato é que certos campos energéticos da sexta dimensão — como por exemplo o campo de transporte de um transmissor — são capazes de criar um corpo integral com vários objetos, entre os quais para os olhos de quem os vê não existe a menor ligação ou semelhança. Trata-se de uma espécie de fusão. Timo Benz, Warren Levier, Pulpo Rimak e o veículo em que viajavam passaram a formar, depois de terem passado pelo transmissor, um ser de características organo-mecânicas, formado pela memória dos três

homens e pelos programas armazenados no computador de bordo. Era uma entidade capaz de agir logicamente. Mas era bastante instável. Formara-se por acaso, e o acaso raramente produz resultados complexos e duradouros. Uma vez extinta a consciência individual da entidade, as energias que até então tinham permanecido sob o controle da inteligência composta, principalmente aquelas encerradas no combustível, ficaram se agitando. A entidade dividiu-se em três partes. Foi o fim.

*** ** *

A ponte entre as estrelas não existe mais. Já não é possível realizar o salto veloz de uma galáxia para outra, através do transmissor. Parece que as forças de Perry Rhodan que se encontram em Andrômeda estão isoladas para todo o sempre de sua galáxia. Mas ainda resta um caminho! Este caminho passa pela Estação no Espaço... A Estação no Cosmo — é este o titulo do próximo volume da série Perry Rhodan.

Visite o Site Oficial Perry Rhodan: www.perry-rhodan.com.br

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