Existem mais coisas no Céu e na Terra do que imagina a nossa vã filosofia.

A

Bíblia é o meu livro de cabeceira; amo-a e a defendo com todas as minhas forças e com todo o meu entendimento, e apesar disso, a minha humana compreensão me leva a tomar um rumo que me põe na rota de colisão com o tradicional pensamento das escolas teológicas fundamentalistas. Agora estamos diante de um mistério aparentemente insondável, conquanto os seres humanos, que sabem tão pouco a respeito de si mesmos, às vezes ostentem a bazófia de imaginarem-se conhecedores dos maravilhosos segredos que incluem a origem e a criação dos mundos, quer no âmbito físico, quer na esfera espiritual. Não temos chegado sequer a uma visão conjunta sobre as origens do Universo, e mesmo os cristãos que crêem em Deus e na Bíblia de todo o coração, podem, sem grandes esforços, se questionar se a história da humanidade de fato foi iniciada com o aparecimento de Adão. E tal cogitação deve ser emblemática, já que o próprio livro do Gênesis parece dar ambíguas declarações (ou mesmo revelações) tanto a respeito da origem do Universo, quanto da chegada do homem a este mundo. Pesquisadores há, e sejam eles cientistas, teólogos, filósofos, jornalistas, antropólogos ou mesmo esotéricos especuladores, entendem perfeitamente haver existido um mundo pré-adâmico, e, que ao contrário do que tem dito a compreensão tradicional, a odisséia humana transcende em muito a casa dos cinco ou seis mil anos. O que vem a ser compreensível, caso aceitemos as inquestionáveis evidências de que alguma coisa (senão muitas

delas) não está correta em nossa maneira de apresentar a linha do tempo e os eventos marcantes que nos servem de mirantes para a consolidação dos conceitos que temos sobre as origens do Planeta Terra e da própria raça humana. Evidentemente, existem verdades que a ciência vem tentando converter em mitos, e há fatos a respeito dos quais os teólogos evitam falar, e se o fazem é sempre de uma maneira pejorativa, a fim de desencorajar o espírito investigador de quem não almeja nada que não seja a mais cristalina verdade, ou, no mínimo, algo que se aproxime bastante da mesma. Os homens da ciência estão aptos para determinar que de uma forma ou de outra, a história da humanidade nada mais é do que a história de uma evolução natural, e que a versão bíblica da criação é folclórica e enganosa. Todavia, existem fortes e incontáveis indícios de que esses cientistas têm se fundamentado em provas que eles mesmos forjaram por meio de convenções “criteriosas”, uma vez que estejam apegados apenas às evidências que tendem favorecer as hipóteses de antemão elaboradas. No que concerne aos teólogos, não é diferente, pois estão divididos em escolas que pronunciam epígrafes que se antagonizam, embora siga que todos eles permaneçam sustentando as suas verdades. Mas essas verdades são meramente subjetivas; de sorte que as certezas de uns são as heresias de outros e vice-versa.

Se no geral eles concordam com a Bíblia e admitem que a origem da raça humana esteja circunscrita à criação de Adão, podem tranquilamente torcer o nariz e dar um passa atrás caso lhes perguntemos a respeito da época em que o nosso planeta era habitado pelos homens das cavernas. O que a meu ver não vem a ser um dilema absolutamente insolúvel, e segundo o doutor Francis Collins, que foi um dos criadores do Projeto Genoma, o sábio e respeitado teólogo Santo Agostinho trazia essa resposta na ponta da língua. Alguns mestres cristãos, porém, ignorantes de suas próprias origens, julgam-se conhecedores das dimensões metafísicas, mas principalmente da essência dos anjos e de tudo o que ao assunto concerne. Mas ouso-me a pergunta: o que eles realmente sabem a respeito da natureza dos anjos? – Se tivermos de julgar a partir de todos os tratados que eles escreveram sobre o assunto, concluiremos que o grau de conhecimento que possuem nessa área é equivalente a tudo o que eu sei no âmbito da engenharia genética. – Ou seja: quase nada. Isso não é uma insinuação, e não desejo que tomem a coisa como se fosse uma afronta, mas é fato que muitos de nossos teólogos têm fechado os olhos para as evidências que exigem um veredicto. Eles querem por meio de mil argumentações ocas, e sem bases genuinamente bíblicas, sustentar que aquele episódio do capítulo seis do livro de Gênesis onde se diz que os filhos de Deus se enamoraram das filhas homens seja uma mera

alusão à união natural entre os descendentes de Sete (último filho de Adão?) com as descendentes do famigerado Caim. Nada é tão forçoso. Esse é um típico argumento de quem está desesperado, conquanto o conceito seja fruto da opção tendenciosa dos que formulam a opinião teológica. Contra esses existe o depoimento do profeta Enoque, que foi contemporâneo de Adão e escreveu um legado sobre o assunto, sendo ele mesmo testemunha dos fatos que ocorreram durante a sua vida. Segundo Enoque, em um trecho do livro que corresponde perfeitamente ao capítulo seis do Gênesis em seus mínimos detalhes, foram os anjos e não os descendentes de Sete que se envolveram sexualmente com as filhas dos humanos. Nossos teólogos, embora atestem estar defendendo a Bíblia e a própria pureza angelical, dizem ser impossível aos seres espirituais qualquer envolvimento sexual com humanos. Mas eu já tenho questionado: O que eles realmente sabem a respeito dos anjos? – Não sabem muita coisa, e no pouco que conhecem há bastante especulação e preconceito acadêmico. Para ser franco, admito não haver a menor importância em saber se os anjos podem ou não podem se unir sexualmente a uma mulher, mas acontece que o testemunho de Enoque é contundente e não admite isenção. Está claro que o livro que leva o seu nome não é um documento original, e até existem óbvias provas de que ele foi adulterado através dos séculos. Ainda assim, ele mantém traços de sua originalidade, pelo que considero inútil toda e qualquer

tentativa de reduzi-lo à categoria dos escritos espúrios ou heréticos. Teólogos podem até relutar, mas tenho constatado que os relatos enoquianos transcendem à capacidade humana e que para a surpresa de todos quantos amam os estudos proféticos, eles são as verdadeiras bases da maravilhosa escatologia apocalíptica, tanto do judaísmo conservador, quanto da igreja cristã. Além do mais, tenho comparado estes relatos enoquianos com as Santas Escrituras e cheguei à surpreendente conclusão de que em praticamente todo o Novo Testamento existem pelo menos cem referências ao livro de Enoque, seja de forma direta ou indireta. Isso significa que para os apóstolos e talvez para o próprio Cristo, as profecias de Enoque deviam ser levadas a sério. Mas pareço ouvir alguém a argumentar que o Enoque do qual os antigos tanto falaram na verdade era um personagem homônimo da história mais recente de Israel. Tal insinuação encontra oposição em Judas, irmão de Jesus, pois ele dá testemunho de que o Enoque a cujas profecias fazia referências era o sétimo homem da geração adâmica; exatamente do modo como se apresenta o autor do livro de Enoque que ora enfatizamos. Portanto, inútil nos será se insistirmos em ignorar a importância do seu depoimento. De volta ao episódio que narra o envolvimento dos anjos com as humanas, é de imprescindível relevância que enfatizemos o parecer dos apóstolos de Jesus. Nossos colegas da

Comunidade Teológica outra vez hão de torcer o nariz para mim, mas posso afirmar com total segurança que os autores do Novo Testamento (ou pelo menos alguns dentre eles) acreditavam na versão enoquiana sobre os anjos que desistiram do Céu para viver com as filhas dos homens. Ouçam o que nos diz o apóstolo Pedro em sua segunda carta (2,4):

“Porque se Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas havendo os lançado no inferno, os entregou às cadeias da escuridão, ficando reservados para o juízo”.
Agora comparemos as suas palavras com as declarações de Judas versículo 6:

“E aos anjos que não guardaram o seu principado (outras versões dizem: estado original), mas deixaram o lugar da sua própria habitação, reservou na escuridão, e em prisões eternas até ao dia daquele grande juízo”.
É fácil notar que ambos os apóstolos estão tratando do mesmo assunto e que conscientemente fazem referência ao livro de Enoque. Observem que Pedro diz: “Deus não perdoou aos anjos que pecaram”. Ao passo que Judas escreve: “Os anjos que não guardaram o seu principado”. É significante, pois no que concerne à citação de Pedro, onde se diz que Deus vetou o seu perdão aos anjos que pecaram, há duas considerações a serem feitas. A primeira é que foi Enoque quem nos escreveu que os anjos rebeldes buscaram o perdão

divino logo depois de haverem contra Ele se rebelado, e, evidentemente, o Grandioso Deus o negou. Então, quando Pedro diz que Deus não perdoou aos anjos que pecaram, ele indubitavelmente está citando o texto de Enoque. A segunda consideração a ser feita é que Pedro vai assinalando que os anjos pecaram... Ora, ninguém jamais se questiona acerca da natureza deste “pecado” angelical, e é compreensível, já que os nossos teólogos, apegados às suas idéias fixas, sem reconsiderar, associam esse pecado à original rebelião de Lúcifer e seus anjos. Mas obviamente não era nisso que os apóstolos estavam pensando quando se deram a discorrer sobre a desobediência angelical. E uma vez que estivessem aludindo aos relatos enoquianos (alguém ainda tem dúvidas?), vale lembrar que esse filho de Jarede, na condição de primeiro profeta e escritor sagrado, deixa bem claro que o pecado dos anjos, pelo qual Deus os lançou no abismo, outra coisa não foi senão o fato de terem eles abandonado o seu estado original de santidade (e o texto de Judas nos permite semelhante interpretação) para se envolverem sexualmente com as filhas dos homens. Não hei de negar que tal relacionamento pareça inconcebível e que aos espíritos mais racionais essa abordagem deva soar como funesta heresia. Mas não esqueçamos que isso não se trata de um fato novo e que desde a primeira infância da história da bruxaria, ou mesmo nos círculos mais secretos das sociedades satanistas, é marcante o interesse e a atração que os espíritos decaídos têm demonstrado pelo sexo feminino. E são

inumeráveis os depoimentos de pessoas que garantem haver mantido relações sexuais com os demônios. Pode até parecer impossível, mas ainda não se provou o contrário. O que sei com certeza é que os próprios pais do cristianismo primevo tinham particular apreço pelos escritos de Enoque. Isso deve servir para nos fazer recordar que o filho de Jarede também foi um santo profeta do Deus Altíssimo. Mas se atentarmos bem, notaremos que mesmo entre as teologias mais conservadoras do cristianismo, existem, imbutidamente, traços de uma interpretação em favor da relação sexual entre os seres espirituais e as representantes humanas.

Essa missiva é uma prévia do meu livro: A História

Secreta Dos Anjos , que foi escrito há alguns anos e que neste
momento está sendo reeditado e acrescentado. Tratarei mais detalhadamente do assunto neste trabalho. Esperem os leitores até que ele esteja pronto.

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