Crise do Estado, Estado Necessário | 1

Identidade Pessoal e Políticas de Identidade
Maria Luísa Couto Soares
FCSH-UNL

Reconduzir uma cidade a uma verdadeira vida política pressupõe um homem bom Maquiavel, Discorsi Sopra la Prima Deca di Tito Lívio, I, cap. 18.

O problema da identidade pessoal e as correspondentes perspectivas sobre o «eu», a subjectividade, a pessoa nas suas diversas dimensões, está, implícita ou explicitamente, no centro do modo como se entende a ética, a política e a integração do homem na sociedade. Na realidade, não se trata apenas de tentar compreender a identidade humana para, a partir daí, compreender o ético e o político: a identidade da pessoa integra a sociabilidade e como tal, o seu agir ético, o seu lugar na sociedade, a sua co-existência com todos os outros seres humanos. Portanto, não se pode tratar da identidade pessoal, sem ter em conta que cada ser humano é simultaneamente único, sujeito de direitos invioláveis, e comunitário (no sentido de ser e ter muito em comum com todos os outros seres humanos), aberto, livre. Daí que a sua existência seja problemática: não é o mero acontecer temporal, a existência humana significa eu mesmo na minha liberdade. A sua existência é problemática, especialmente pela sua dimensão simultaneamente única e plural, íntima e dialogal, solitária e solidária. Porque o homem não existe só, mas co-existe numa pluralidade de pessoas humanas, cada uma delas com igual capacidade de manifestar-se e de recluir-se em si mesma; por isso o homem tem que enfrentar o problema do seu carácter social. E, vendo em toda a sua profundidade e amplitude o problema social, não podemos deixar de compreender que este é intrinsecamente ético. A política da identidade – a palavra identidade assume aqui um sentido um tanto equivoco, dentro da amplitude da sua noção – diz respeito directamente ao problema de tratar todas e cada uma das pessoas, individualmente e em grupo com, o respeito devido aos seus direitos fundamentais, nomeadamente a difícil questão de resolver a vida social constituída por grupos e comunidades de diferentes modos de viver, de diferentes culturas, de tal modo que todos se possam integrar na dinâmica social e serem

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cultura. relações com a sociedade e suas instituições. Personen. 2)1. Estado. 5 p. particularismos e conflitos internos dentro de um mesmo território. Klett-Cotta. 2 Maria Luisa Couto Soares. Num rápido exame desta questão. no que respeita ao binómio cosmopolitismo e culturas nacionais ou multiculturalismo. torna difícil saber exactamente o que a expressão significa. uma cultura. isto é comunitarismo / diversas formas de individualismo. que é “Ausgleich”2. 151. radicam. a) direitos individuais / princípios de pertença a uma comunidade com a respectiva obrigação de participar no seu governo. esvaziando a pessoa humana das suas características peculiares: uma totalidade (que coexiste com outras totalidades). a ética: estão em disjunção por exemplo. 1 Cfr Spaemann. descontinuidades. p. Nação. 1985 vol. Max Scheler antevê muito lucidamente estes contrastes. incomunicabilidade (Tomás de Aquino. Adiante voltaremos a este assunto. Versuch über den Unterschied zwischen «etwas» und «jemand». os impasses com que se tem deparado o problema da identidade pessoal. novas diferenciações. Neste caso a narrativa da vida pessoal perde a sua unidade para se apresentar como uma teia de encruzilhadas e de labirintos. Agora trataremos de examinar algumas das dificuldades em torno da «identidade da pessoa humana». Bounier Verlag. 1. Germany. Scheler. Cultura. Bonn. Stuttgart 1966. De facto. que hoje parece ser um dilema complexo. microcosmo. No início do século XX. Estes impasses repercutem-se no modo de pensar actualmente a sociedade. ou integramos na identidade do «eu» os diversíssimos contextos nos quais vive e dos quais depende – linguagem. M. O indivíduo humano já não pertence apenas a um «mundo». A grande variedade e diversidade de problemas e conflitos que têm sido considerados sob a designação genérica de «políticas de identidade». incomensurabilidade. e pensamos no sujeito como um «eu» completamente encapsulado em si mesmo. particularmente na sua dimensão social. 44. a política.indd 2 27-05-2011 15:55:27 .) parece-me que só há uma apropriada. conflitos e diferenças da época que se aproximava: em 1927 escreve: “Se tivesse de inscrever uma palavra na porta da era que se aproxima (. c)cosmopolitismo / particularidade das culturas. mas pertence a uma pluralidade de «mundos»: “vivemos em mais de um mundo” – assim sintetiza Blumenberg esta posição policêntrica do indivíduo no mundo contemporâneo.2 | José Esteves Pereira por esta reconhecidos.. E. ultima solitudo (Duns Escoto). numa falsa disjuntiva: ou procuramos o fundamento da identidade pessoal na auto-consciência de si. b) inclusão/ exclusão. – Späte Schriften. no mundo actual é patente um contraste paradoxal entre uma crescente globalização e. 2 Sent. ao mesmo tempo.. acção. na minha opinião. 3. enfim… com tudo o resto. com o mundo. uma civilização. independente de tudo o resto – o não-eu – isolado de qualquer contexto.

Taylor. o nosso estatuto de agentes racionais. tentando desligá-lo de qualquer contexto antropológico. com uma dignidade própria. porque me parece que ela pode contribuir para uma melhor compreensão do que se entende por identidade. New Jersey. Multiculturalism. será. Muito esquematicamente. E. porque a expressão necessita de um complemento para que se torne inteligível – por ex. in Gutman. mas como um correlato essencial da obrigação intrínseca a toda a pessoa de participar da responsabilidade de contribuir para melhorar e garantir os elos sociais. in Gutmann. e cosmopolitismo. Charles “The Politics of Recognition”.3 “Autenticidade” e “reconhecimento”. “Sólon era 4 5 Maria Luisa Couto Soares. (ed. 1994.). propõe Taylor. Subjacente aos debates políticos e práticos sobre as questões das «políticas do reconhecimento» e «políticas da identidade». por exemplo. Daqui a fragilidade do fundamento do direito ao reconhecimento. concretamente. Taylor. O reconhecimento não pode. 1994. poderá esclarecer que a sua identidade não pode compreender-se na base de uma apreensão imediata de si. (…) Reportando-se à análise fregeana desta noção da unidade. com total independência da sua integração em diferentes mundos e. a diversidade de culturas. ser reivindicado como um direito à protecção e garantia de direitos constituídos. A. com total independência em relação aos outros seres humanos. modos de vida. incomensurável porque diferente de todos os outros. tendo em conta a sua íntima conexão com o unum. p. “The Politics of Recognition”. kantiana. M. Princeton University Press.indd 3 27-05-2011 15:55:27 . Geach considera que assim como não faz sentido dizer “Sólon era um”. 1985 vol. e também como uma identidade «relativa»5 porque a identidade da pessoa humana só se apreende 3 Cfr Scheler. A base da intuição da igual dignidade. Princeton. sentido universal da comunidade humana. segundo Taylor4 próxima da noção de dignidade.41. no sentido em que cada indivíduo humano é de facto um todo único. capazes de dirigir as nossas vidas por princípios. O que justifica o direito ao respeito por cada pessoa.Crise do Estado. Examining the politics of recognition Princeton University Press. está o problema antropológico sobre o que é o humano. a tese defende o seguinte: embora entre os cinco transcendentais enunciados pelos medievais. Geach não hesita em tratá-lo como tal. se bem que uma definição ou um conceito mais depurado possa ter já mudado ou vir a sofrer futuras alterações. Estado Necessário | 3 difícil de conciliar. 9 . inícios dos 70. – Vom Ewigen im Menschen Bounier Verlag. extrínsecos à própria pessoa. A identidade pessoal tem que ser pensada simultaneamente como uma identidade «absoluta».) Multiculturalism. Novas palavras para articular o “eu” e o “nós”. encontrar-seá. Ch. o individual e o social.Os vaticínios de Scheler preludiam as actuais «políticas do reconhecimento» Cfr. não figure o termo idem. que o pode tornar suficientemente ambíguo para ser evocado como reivindicação de direitos e valores totalmente diferentes e até mesmo contraditórios. A. no caso da pessoa humana. (ed. Bonn Germany. na esteira de Kant. Scheler afirmara já que estes dois factores não são contraditórios nem incompatíveis. E Taylor terá dificuldade em justificar o direito de todos os seres humanos ao respeito. no entanto. Refiro aqui a tese lógico-ontológica da identidade relativa proposta por Geach nos finais dos anos 60. etc.

o «eu». conceber a ideia da mera diferença sem referi-la a diferentes determinações. o mundo como patência. em primeiro lugar. mas tantos quantas as formas sob as quais o transcendental idem pode ser predicado. irrestrito. a capaci- 7 Maria Luisa Couto Soares. são pseudo-oposições. o que não se oculta. para o domínio do sujeito humano. mas o sentido da abertura. entre inserção e marginalização social. na modernidade. em segundo lugar. um esforço por garantir as identidades supra-individuais. um ser-no-mundo (sendo que o no não significa aqui a mera localização física. do que se entende por identidade e. desequilíbrios. No fundo. tão pouco é possível identificar seja o que for. Portanto não haverá um critério único. entre unicidade e diferença. As dificuldades que decorrem desta transposição de uma tese situada sobretudo no âmbito da lógica. provêm precisamente da diferença radical entre o estatuto de um objecto singular qualquer e o da pessoa humana. a pessoa humana. Charles Taylor observa que a identidade moderna se caracteriza por uma ênfase na voz interior e capacidade de autenticidade de cada indivíduo: isto é. Sendo assim. com prioridade lógica em relação a qualquer outra determinação ou característica. Refiro esta expressão. o indivíduo. no caso dos indivíduos humanos. a sua identidade não pode fundar-se nem exclusivamente na auto-consciência de si como garantia da unicidade e portanto diferença em relação a todos os outros. é absurdo. à confrontação e à exclusão. “é o mesmo” necessita de um complemento. Isto significa que atribuir a um indivíduo identidade consigo mesmo e diferença em relação a todos os outros indivíduos. É absurdo conceber um indivíduo. nem exclusivamente na sua integração em contextos múltiplos. um combate contra a incompatibilidade: em suma. 6 Não é possível fazer aqui uma exploração desta ideia heideggeriana. Esse complemento deve ser constituído por um termo conceptual. as oposições entre direitos (ou interesses) individuais e comunitários. uma «política de identidades». inserida numa pluralidade de outros mundos que perpassam no seu próprio horizonte: ser pessoa é ser um «ser-de-relação». é uma forma de resistência – nunca totalmente conseguida – à imposição. e nele o ser humano está imediatamente)6 Isto é. não é possível exigir a uma boa política que consiga satisfazer os interesses de todos e de cada um (o que seria um ideal praticamente utópico). um mero indivíduo. que dão origem a conflitos. o que está em causa nesta última questão releva. ou melhor das identidades possíveis!7 um sábio”. A política. sem características nem determinações. variados e muitas vezes precários. Esta é uma das ideias básicas da tese da identidade relativa: não tem sentido conceber uma mera identidade.4 | José Esteves Pereira na totalidade do seu viver. se não se identifica com um certo tipo de coisa: a expressão “é idêntico”. estão sem dúvida as questões filosóficas sobre a natureza da subjectividade e do «si-mesmo».indd 4 27-05-2011 15:55:27 . De facto. cuja função é a de fornecer o «critério de identidade». absoluto de identidade. como se diz actualmente. Remeto para os §§ 13-17 de Sein und Zeit. desigualdades insanáveis. ou. dos diferentes modos de pensar o sujeito. espacial como em “o peixe está na água”. se não for a identidade de um algo já por si determinado. que tem sido empregue em sentidos muito variados e com consequências práticas muito discutíveis: subjacente aos debates políticos e pragmáticos sobre os méritos e inconvenientes das «políticas de identidade».

porque há muitas coisas que valem para os objectos de estudo científico mas que não valem para a identidade do self. Daqui surgem diversos obstáculos conceptuais. temos um passado. Maria Luisa Couto Soares. Não se pode formular a questão da sua própria identificação como a da identificação de um singular qualquer. isto é. não temos consciência de nós mesmos tal como temos consciência que temos coração ou fígado. Claro que surge. 8 A impossibilidade de fundar a identidade do «eu» na auto-consciência de si foi posta em evidência por David Hume e constitui um problema recorrente na Filosofia da Mente Contemporânea. desde a modernidade até à Filosofia da Mente actual. Cfr. Hoje em dia a importância do «reconhecimento» é universalmente aceite de uma forma ou de outra. “que é um agente e se comporta desta ou daquela maneira”.Crise do Estado. totalmente independente das suas infinitas determinações e relações com o mundo e com outros selves? Ou seja. 36. à partida.indd 5 27-05-2011 15:55:27 . perdidos na diversidade e multiplicidade de experiências vividas num fluir do qual. a mera consciência da identidade pessoal. mas também na História em geral”. Taylor. em directo. o «eu» não se identifica a não ser como o eu “que vive em tal período de tempo”. encontramos uma contínua política de igualdade de reconhecimento. não temos consciência no seu todo. pode considerar-se uma narrativa da primeira pessoa – o «eu» – que se foi situando na encruzilhada entre dois modos de pensar o sujeito. Estado Necessário | 5 O percurso da questão da identidade da pessoa. etc. Passo a enunciar muito brevemente as duas questões fundamentais que enquadram o problema: a) Pode identificar-se o «eu» com a auto-consciência de um self em si mesmo considerado. “que se insere numa determinada cultura”. descontextualizado. Não somos selves no mesmo sentido em que somos organismos. uma primeira grande objecção em relação à primeira hipótese: o «eu» não é nunca para si mesmo um objecto identificável como qualquer outro. mas mostram os impasses dos modos de pensar a identidade do «eu» herdadas da filosofia moderna. As elucidações de Wittgenstein a este respeito não resolvem o problema. “que intervém não só na sua história pessoal.8 dade de encontrar uma forma de ser que é a verdadeira para si mesmo (Taylor 1989). vivemos no tempo. “The Politics of Recognition”. “que pertence a este ou àquele país”. “que tem este passado”. um presente e um futuro. encontramo-nos como seres dispersos. No plano social. p. a evidência imediata de si mesmo pode ser critério suficiente da identidade do eu? b) Ou a identificação de si exige a relativização da identidade. como actor principal e único enfrentado com algo que lhe oferece resistência e ameaça pôr em causa a hegemonia «egotista».

isto é. para isso é necessário senti-lo. mas como somos capazes de objectivar a nossa própria intimidade e vivência. sem deixar de ser ela própria. etc. em consequência com a vivência de outro ser. o ser humano é capaz de objectivar a sua própria intimidade e vivência. Todo o ser vivo escapa de certo modo a um contexto já dado anteriormente. desconfigurado».indd 6 27-05-2011 15:55:27 . da sua inserção na temporalidade. incomensurável com qualquer outro mundo. podemos compará-la com a vivência de outro ser. trata-se mais de «desconstruir» o sujeito. mas há uma outra dimensão pela qual cada pessoa humana. ao encontrar-se com outros seres humanos. de um modo próprio de agir e interagir com o meio em que se desenrola a sua história pessoal. ou ensimesmar-se no seu mundo. agir. numa comunidade de outros «eus» pensantes. compará-la com outra vivência e. Cada sujeito não tem acesso ao «mundo do outro» (o conhecido problema das other minds)9. remetendo a identidade pessoal para os infinitos contextos (ou mundos) em que vive cada indivíduo humano. Conhecer um outro ser vivo significa conhecê-lo como coexistente. um contexto de experiência próprio. Não podemos penetrar nesse contexto. mutatis mutandis. Maria Luisa Couto Soares. que não se esgota em ser para mim. as identidades comunitárias de distintos grupos. género. Esse conhecimento pressupõe algo mais do que vida individual. ou de mostrar a vacuidade do pronome «eu» (estou a pensar em Wittgenstein). língua. a identificação do «eu» parece exibir com a discussão entre identidade absoluta e identidade relativa. religião. uma possível objecção imediata. de um modo totalmente originário e independente de qualquer outra determinação proveniente do seu viver.6 | José Esteves Pereira Em relação à segunda hipótese. O exemplo tem em conta apenas uma das dimensões da pessoa – a sua incomunicabilidade. equivaleria a atribuir-lhe uma identidade absoluta. está destinada a descentralizar-se. enquanto a subjectividade animal é irreflexiva. isto é. Sustentar a possibilidade de uma identificação do «eu» exclusivamente pela autoconsciência evidente de si mesmo. a da identidade dos «mundos». centralidade. “A filosofia da subjectividade (desde Descartes 9 O célebre ensaio de Thomas Nagel – “What is it like to be a bat”… Claro que não podemos saber o que significa ser um morcego. seria a de afirmar que ela dissolve praticamente o problema. ou de fragmentar a narrativa da sua vida em troços avulsos e dispersos. ou incomensurabilidade como «posição absoluta». A disjuntiva perante a qual se encontra este «eu pontual» é a seguinte: ou objectivar o mundo exterior de uma maneira que se torne neutra. A vida é identidade e não se desvanece quando é objectivada. referida acima (nota 5). ou melhor as identidades de raça. cultura. isto é. detentores de uma linguagem e outras formas de comunicação. por sua vez. Isto é. De certo modo. Vejamos as afinidades que. como recordação. Um «eu pontual» que «em si mesmo e para si mesmo não é nada». Mas há que notar que. “De fora” não se pode saber de facto o que significa sentir algo. A cultura moderna alimentou esta «ficção de um eu «desvinculado. e isolar-se na esfera privada. que seja válida para qualquer outro sujeito igualmente desprovido de qualidades. a identidade seria apreendida pelo indivíduo humano. E todo o problema da identidade individual seria transferido para outra esfera. Pressupõe que um ser vivo transcende a sua centralidade e por isso as pessoas se conhecem a si mesmas como intimidade viva junto a outra intimidade viva que funda.

inspiram-se nesta imagem da pessoa humana: um «eu» que. (Pertença significa aqui copertença12. Personen… p.indd 7 27-05-2011 15:55:27 .Crise do Estado. Personen. 10 11 Cfr. 1961. Paris. Neste caso. não se dá uma consciência absoluta e originária da identidade de si mesmo. 262.”·10 Designarei esta dimensão da identidade. The Making of the Modern Identity. recordamo-los como sonhos. pelo menos potencialmente. corresponde analogicamente à noção de identidade relativa. isto é. identificamonos como sendo nós mesmos através do tempo apesar de não estarmos conscientes de todos os nossos estados anteriores. Quem vê uma fotografia da sua infância. mas que pressupõe a inserção de cada indivíduo numa (e em várias) comunidades e nas relações com tudo o que é outro. determinações. 134.) Ao contrário do que defende Locke. são formas de inserção e pertença de cada pessoa nos diversos estratos do mundo social em que vive. de inserção. reunido na unidade de um sistema. Cfr. na memória que recolhe as vivências passadas até ao presente. como “identidade positiva”. então (…) o sentido da pertença determina-se a partir do co (zusammen). 129 e 202.11 Admitir que a identidade pessoal não consiste na auto-consciência de si. Spaemann. Quando evocamos os nossos sonhos como nossos. a sua biografia ou existência no tempo. Gallimard. Neste caso «pertença» equivale a estar determinado pela ordem de um conjunto e situado nesta ordem. só aceita as evidências actuais de si mesmo como algo último e inequívoco. Charles Taylor. relações traduzidas pelos termos conceptuais que fornecem o critério de identidade. 36 Heidegger clarifica o sentido desta copertença entre homem e ser: “Se compreendermos esta copertença cedendo aos nossos hábidos de pensar. encontra dentro de si mesmo a sua razão de ser. Ou seja. beneficiar da mediação do centro unificador de uma síntese determinante. da unidade que ele implica. Cambridge Mass. a «ficção do cogito» pressupõe a noção de uma identidade absoluta com todas as suas que tem de reconhecer como pessoas. o seu significado. Estado Necessário | 7 até à philosophy of mind). como defendia Locke. excluindo ou neutralizando qualquer forma de relacionamento. “Über das Identifizieren von Personen”. e não existe uma continuidade subjectiva entre a consciência do sonho e a da vigília. e isto significa exactamente ver o outro como alguém que não me deve a mim a sua identidade. “Identité et Différence”. tal como eu não lhe devo a ela a minha. Harvard University Press. nem se pode fundar. Questions I. Cfr. e sobretudo o outro igual e diferente de si. Sources of the Self. ao apoiar-se na evidência imediata de si mesmo como único critério de identidade. que corresponde à atribuição de uma identidade absoluta à pessoa. p. outro-que-não-o-próprio. esta via da identificação de si só pode conduzir a um isolamento do presente actual. 1989. pp. 12 Maria Luisa Couto Soares. de acção passada que possa constituir a sua auto-biografia. Portanto. não tem consciência nem se recorda da vivência dessa altura.” Cf. as qualidades. As concepções de individualismo (desde a cultura moderna até à contemporânea). integrado na unidade de uma diversidade. p. Spaemann. o passado e o presente são apenas «extases» do presente.

portanto uma identidade «absoluta» – cada pessoa é uma unidade. civilização. a pertença a uma comunidade. Sources of the Self. agentes e sabedores competentes.. com tudo o que não é nem pode ser ela mesma. 1990. só tem sentido falar de um self entre outros selves13 – como escreve Taylor. reportando-nos apenas ao seu «eu». A identidade relativa pressupõe uma série de determinações. um centro vital de forças e de acção. não é um sujeito fragmentado que se pode dissolver nos contextos. depende e não depende do contexto em que vive. Habermas: “Aquilo que antes cabia à filosofia transcendental. ou seja nunca é possível identificar totalmente uma pessoa.cit. adapta-se agora ao círculo de ciências reconstrutivas que procuram tornar explícito o conhecimento pré-teórico de regras de sujeitos falantes. 33.14 São falaciosas porque os indivíduos pertencem à sociedade e ao mundo em que vivem. p. Cada ser humano é uma totalidade. Dom Quixote.16 A identidade do indivíduo humano é. ou seja a análise intuitiva da consciência de si. ou melhor.8 | José Esteves Pereira características: autonomia. incomunicável porque não é um mero «feixe» de atributos ou qualidades partilháveis. por sua vez. e a pessoa pela sua relação com tudo o resto. Citemos um dos mais notórios. a uma cultura. ou de um membro com uma classe. de conceitos. Designo-a como identidade negativa no sentido em que ser «eu» é ser «eu em relação a um nós».indd 8 27-05-2011 15:55:28 . etc. Cada pessoa define-se por um «lugar» no universo que só ela ocupa. entre essas determinações estão a inserção num contexto. Spaemann. op. sob os quais se constitui a identidade pessoal. p. designo-a de identidade positiva. Cfr. a sua identidade é e não é a identidade do si mesmo. é determinado pela sua posição em relação a outros lugares. isolamento. porque envolve também a sua pertença a um ou vários mundos. circunscrito em si mesmo. é uma relação de um todo com um (ou uns) todo(s). Lisboa. 15 16 Maria Luisa Couto Soares.. Charles Taylor. atomismo. 44. presente e futuro. concentrados ou 13 14 Cf. 46. As pessoas são indivíduos de uma forma incomparável15: ultima solitudo (Duns Escoto). não uma mera unidade numérica. todo o seu modo de agir. da perspectiva de participantes em discursos e interacções a partir de uma análise de declarações conseguidas ou distorcidas” O Discurso Filosófico da Modernidade. mas uma unidade que abarca toda a sua vida. passado. o indivíduo humano é e não é algo completo. Cfr. todo o fluir do tempo. Spaemann. cit. que é como um ponto morto. mas esta pertença não é assimilável à da parte com o todo. Tomás) – solidão porque incomensurável. op. Isto é. mas este lugar. a um grupo linguístico. mas um sujeito em si mesmo. não há dois indivíduos humanos idênticos. p.. no sentido em que cada «eu» é um si-mesmo totalmente diferente de todos os outros «eus». incommunicabilitas (S. mas uma totalidade entre outras totalidades. individualismo. São numerosos os exemplos que exprimem esta aparente disjuntiva. Todas estas disjuntivas são falaciosas.

1998. nomeadamente. a identidade pessoal é também uma identidade «relativa»: a diversidade da experiência pessoal. escreve. O «eu» não existe simplesmente. independentes. ou na participação e auto-governo. nem que se tenha adoptado um rumo muito diferente. o equilíbrio entre os dois factores rompeu-se a favor do individualismo de uma forma tão drástica que o elemento cívico corre o risco de ser esquecido.indd 9 27-05-2011 15:55:28 . Dom Quixote. de transformação. 143-156. 207). em detrimento do que todos temos em comum. Journal of Democracy. O texto em causa pertence ao ensaio “Transformações do equilíbrio Nós-Eu”. em que cada um possa livre e autonomamente realizar os seus próprios fins. provém da dificuldade em articular a ideia de identidade com a de tempo. p. está a sociedade constituída como um instrumento que garanta os direitos e as liberdades individuais. 178. Charles Taylor18 confirma praticamente o mesmo: a democracia. O termo aplica-se tanto às teorias do contrato social do século XVII como às teorias contemporâneas que defendem de certo modo a prioridade do indivíduo e 17 A Sociedade dos Indivíduos. certeiramente. A ideia de um «atomismo» (termo empregue por Charles Taylor) adequa-se perfeitamente a este modo de pensar a sociedade. De facto. as relações indivíduo e sociedade. Julgo que alguns dos impasses que decorrem da falta de compreensão total do problema filosófico da identidade pessoal – que aqui foram apenas esboçados – se repercutem e se repetem de uma forma ampliada nos modos de pensar a ética e a ciência política. Isto significa que a sociedade é pensada como um somatório de elementos totalmente distintos entre si. Não há «Eu» sem «Nós». Umas páginas adiante. pp.4 oct. O sociólogo Norbert Elias escreveu já há alguns anos que atribuir um valor mais elevado ao que distingue as pessoas umas das outras. é uma característica das sociedades mais evoluídas dos nossos tempos. coexiste. E. vol 9. Lisboa. p. “The Dynamics of Democratic Exclusion”. Estado Necessário | 9 unidos por um mesmo processo. as infinitas relações de cada pessoa com o «todo» incluem-se nela mesma como constitutivas da sua identidade. 1993. é de notar que os malefícios decorrentes desta característica estruturante das nossas sociedades têm sido já apontados numerosas vezes nos discursos éticos e políticos. autónomos. Num ensaio muito mais recente (1998). e dar primazia à identidade do Eu. mas que no entanto têm que coexistir.Crise do Estado. de 1987. Para salvaguardar uma coexistência mais ou menos pacífica. pode focalizar-se ou na escolha (choice) e na liberdade individual. da vida. n. de uma identidade do Nós. por isto mesmo. o sociólogo considera. isto não significa que tenham sido corrigidos. um dos obstáculos para compreender a identidade da pessoa humana. 18 Maria Luisa Couto Soares. que o problema conceptual da identidade humana ao longo da vida não pode ser resolvido enquanto não tivermos reelaborado o conceito de processo e de evolução (cfr.17 Passados que são mais de 20 anos sobre esta afirmação.

está para além das “condições de possibilidade da experiência” ou. actualmente uma aceitação inegável. Cfr. Possessions and Freedom. pp. sem qualquer obrigação de participar na vida comum e está justificado a esperar do Estado a protecção dos direitos constituídos fora dele. pp. e portanto não depende de nenhum contexto. Daí que os argumentos de Nozick traduzam. o «eu» é incomensurável. a actividade humana só é possível como actividade condicionada. Esses direitos individuais são incondicionalmente válidos. Basic Books. Ed. du Seuil. Taylor. A força persuasiva do argumento assenta no seu ponto de partida – a primazia dos direitos individuais – que tem. 1985. University of Toronto Press. Ou seja. 1979. o sujeito completo está já armado de direitos mesmo antes da sua entrada na sociedade. Quer dizer. Esta incondicionalidade é essencialmente negativa. enquanto homens. 39-61. Soi-même comme un autre. Melhor dito. Cambridge University Press. O homem pode converter em conteúdo da sua 19 Cfr “Atomism”. 1990 p. as convicções de muitos dos nossos contemporâneos. como «posição absoluta». uma das mais conhecidas é a de Nozick (Anarchy. Toronto. Mas essa incondicionalidade já não se pode atribuir a um princípio de pertença e consequente obrigação: a obrigação de cada indivíduo de pertencer e preservar a sociedade ou obedecer às autoridades é considerada como derivada: é-nos imposta condicionalmente. A atribuição da primazia aos direitos foi um dos factores que mais contribuiu para a formação da consciência política moderna. Não tendo acesso possível ao ser do «outro». valem para todos os homens enquanto tal. 20 Maria Luisa Couto Soares. Mas também no século XX há teorias que defendem a primazia dos direitos individuais. au-delà de l’être. das teorias políticas associadas a Hobbes. 187-210. onde comenta que nesta perspectiva. Este é o paradigma. 1974). porque. mas um todo contextualizado por outro todo. Mas é necessário considerar como as afirmações de um argumento verosímil. como disse antes. a identidade do «eu» é absoluta. Philosophical Papers 2.10 | José Esteves Pereira seus direitos (ou interesses?) sobre a sociedade19. cada pessoa é um todo. podem conduzir a conclusões sobre a ordenação política muito distantes do sentido comum da sociedade contemporânea. e a sua identidade subtrai-se a qualquer definição pelo contexto. Cfr. cit. (ed. se bem que de um modo superficial. em virtude do nosso consentimento ou pelo facto de nos ser vantajosa20. que afirma o carácter fundamental dos direitos dos indivíduos e a partir daí discute a legitimidade de se exigir obediência a um estado. Paris. em termos kantianos. sem que isso o sobrecarregue das obrigações intrínsecas aos encargos relacionados com o aperfeiçoamento de qualquer vínculo social. segundo este modo de conceber a relação indivíduo-sociedade. atribui-se uma primazia aos direitos individuais – o indivíduo enquanto um «eu» positivamente livre e radicalmente distinto de todos os outros – sobre a inserção e pertença a uma sociedade ou comunidade determinada. Locke. art. Ricoeur. State and Utopia. No entanto. Nova York. O «outro» está para lá de qualquer contexto. Reeditado em Philosophy and the Human Sciences. in Alkis Kontos.) Powers. como diz Levinas. Cambridge New York. estamos sempre integrados numa totalidade. isto é.indd 10 27-05-2011 15:55:28 . esboçado muito sinteticamente. 213. constitui um limite da nossa responsabilidade e da nossa possibilidade de acção.

Ambos os planos foram configurados pelo crescente ideal de autenticidade. Estado Necessário | 11 acção uma totalidade supra-individual. não há «autenticidade» sem «reconhecimento». encontra-a Taylor em Hegel. exemplo emblemático da relação frustrante devido precisamente à ausência de um reconhecimento universal: o escravo é obrigado a reconhecer o senhor. Taylor. Como diz Goethe. p. Spaemann.cit. rejeitando os limites que esta impõe à sua responsabilidade e à sua possibilidade de acção.26 21 22 Cfr.Crise do Estado. Cfr. 64. Empregando a terminologia de Taylor. Cit em Spaemann. 1975.. Quando o homem pretende uma incondicionalidade total do seu viver. Taylor.. No plano social. Rorty. ob. vê e trata os outros como meios aos seu dispor. e neste caso não pode integrar-se num contexto mais abarcante.25 Segundo Amelie Rorty. n. 136-137. Nesta situação totalizante. todos somos conscientes de como a identidade pode ser formada ou deformada ao longo do curso dos nossos contactos com os outros. Philosophie der Geschichte. Cf. “The Hidden Politics of Cultural Identification”.. cit. 193. E esse itinerário começa na análise do tema do reconhecimento mútuo da interdependência entre poder e subserviência nas passagens hegelianas da relação senhor-escravo. cit. pp. inviolável e totalmente separado do tumulto da história universal. p. as teses de Taylor são a expressão directa das ideias centrais que marcam o se itinerário intelectual. 152-165. “A importância do reconhecimento é hoje universalmente aceite de uma ou outra forma. das mudanças externas e temporais22·. num plano íntimo. temos uma constante política de reconhecimento igualitário.1. Hegel. Hegel. p. mas também só se pode entender a pessoa no acto de reconhecimento. p. ed. a partir da qual se define. dispondo dele como algo que está aí. “The Politics of Recognition”. Vol. Cfr. Spaemann. A fonte inspiradora do conceito de reconhecimento. 22. 23 24 25 26 Maria Luisa Couto Soares.” 21 O que está aqui em causa é precisamente a necessidade de compreender que o ser pessoal se caracteriza por esta independência do contexto no seu centro íntimo. Cambridge University Press. p. tenderá a tratar o outro exclusivamente como parte de um contexto. “toda a actividade incondicionada leva no fim à bancarrota. op. ob. 1994.indd 11 27-05-2011 15:55:28 . Amelie Oksenber. mas não vice-versa. O modelo do reconhecimento de si mesmo nos outros é expresso pela metáfora do senhor e do escravo. 36. e o reconhecimento desempenha um papel essencial na cultura originada em torno deste ideal”24. impossibilitado de se definir a si mesmo.142. “Ser pessoa é ocupar um lugar que não existe sem um espaço no qual outras pessoas têm também o seu próprio lugar”23. Acrescentemos: não há «reconhecimento» sem «autenticidade». Glockner (Jubiläumsausgabe) Bd 11. Political Theory.

transferem o problema da articulação identidade/diferença. “idade”. adscrições. descontinuidades e diferenças profundas. A busca de consensos nesta fragmentação tem-se revelado utópica. Lisboa. Não cabe aqui fazer um levantamento completo de exemplos reais dos nossos dias que ilustram bem as dificuldades teóricas e práticas para lidar com o problema da «identidade de culturas». D. “classe”. que pressupõem grandes e profundas diferenças – étnicas. Teorema. etc. e uma pluralidade de pertenças. um catálogo de culturas ou uma tipologia de formas de governo. Há no entanto. observou Tocqueville. temos de procurar viver sem eles. Basta pensar em alguns exemplos para ver a enorme teia em que nos vemos metidos: identificar um grupo cultural contrasta nitidamente com a identificação de um grupo socioeconómico. Para um mundo novo. É evidente que não é possível traçar no mundo de hoje um tabuleiro de xadrez no qual se pudessem situar os diversos tipos de «culturas» – cujas classificações ou critérios de identificação são tão heterogéneos que apresentam sérios problemas teóricos e práticos. partilhar. no artigo citado. é necessária uma ciência política nova. mas a ideia de um mundo composto de unidades semelhantes. Na segunda metade do século XX surgiram uma série de movimentos políticos reivindicativos invocando as injustiças para com grupos sociais particulares: a segunda vaga de feminismo. é igualmente ilusório. sem dissonâncias.indd 12 27-05-2011 15:55:28 . tão debatidas nas últimas décadas. Estados Unidos e possivelmente do Canadá. Temos que reconhecer a impossibilidade de descrever o mundo de hoje como uma justaposição de diferentes modos de vida. e no entanto. “género”. adopta classificações como “raça”. O mundo em que vivemos deixou há muito de se apresentar como uma totalidade harmónica. e de comunidades: não há classificações adequadas de povos. tentando alguns consensos sempre parciais. religiosas. As designadas “políticas da identidade”28. 2005. precisamente o sistema político-económico ocidental (falando de novo de uma forma muito generalista) é que permite precisamente que dentro destes mesmos países surjam diferenças abissais entre diferentes grupos. frágeis e revisíveis27. 133. A Transformação da Política. a maioria dos antropólogos culturais. portanto (ainda que de uma forma muito generalizada) uma cultura político-económica. viver com as diferenças.12 | José Esteves Pereira Não vou discutir aqui as possíveis leituras e interpretações das raízes teóricas da noção de «reconhecimento». linguísticas. os direitos Maria Luisa Couto Soares. poderão ter em comum algumas práticas económicas. Precisamos hoje de estratégias que nos permitam lidar com a deep diversity (segundo a expressão de Charles Taylor). para os diferentes grupos ou comu27 28 Cfr Innerarity. considerando a cultura como uma forma de vida compreensiva. isto é. uma objecção de fundo que merece ser referida: a complexa e problemática ideia de uma «identificação» de culturas. os cidadãos da maior parte da Europa. como elementos de um puzzle. p. um sistema de estados.

o âmbito dos movimentos descritos como «políticas de identidade» é demasiado amplo (desde lutas internas às democracias capitalistas ocidentais. mesmo violenta. sob o risco de se ver obrigada a reconhecer direitos iguais a todos aqueles que pretendem a sua própria destruição. cuja identidade frágil pode assentar na raça. a exclusão do recurso à violência como meio para atingir qualquer fim. capazes de orientar as nossas vidas segundo princípios. Ou melhor. teríamos que admitir iguais direitos a todos aqueles grupos que sistematicamente ameaçam a segurança e a coexistência com outros grupos tidos por inimigos e alvos de perseguição. como nenhuma destas determinações fornece um suficiente critério de identidade. Estado Necessário | 13 nidades.indd 13 27-05-2011 15:55:28 . e indefinido. estigmatizados por uma cultura imperialista dominante. Mas perante o «politeísmo» de valores. A expressão «políticas de identidade» está intimamente conectada com a ideia de que há grupos sociais oprimidos. senão através do reconhecimento de alguns valores que fundam direitos humanos irrevogáveis? A dignidade da pessoa humana. a natureza e o futuro das identidades que defendem. Ninguém aceitaria semelhante paradoxo. que ceder. A ambiguidade ou imprecisão da expressão tem originado também uma variedade de críticas. fundados numa identidade positivamente justificada. os movimentos dos Índios Americanos. língua. De facto. e «comunidades» ou grupos que se advogam uma identidade meramente circunstancial. como. Com esta breve nota. por exemplo. como chegar a estabelecer esses critérios. Algo ainda um tanto vago. Mas. Estes movimentos sociais são tema de uma vasta literatura filosófica sobre a origem. género. Mas. quando considerado a partir de factos políticos e sociais que poderão ser casos ou exemplos do que a expressão quer dizer. etc. algo cuja definição cívicos da população negra nos Estados Unidos. exigências de auto-determinação regionais. projectos nacionalistas. entre outros. que muitas vezes usam “políticas de identidade” como uma descrição que recobre uma série de falhanços políticos tácitos. que assentar em alguns critérios ou valores que sirvam de pauta para o discernimento na atribuição de uma «identidade» legítima a uma comunidade. pretende-se esclarecer somente a diferença entre o significado que «políticas de identidade» tem. O «reconhecimento» tem. A pretensa «neutralidade» do Estado e da Sociedade tem. Maria Luisa Couto Soares. a liberalização dos homossexuais. ou mesmo negativa? E se as sociedades e os Estados não adoptam qualquer critério.Crise do Estado. em nome da pretensa neutralidade. portanto. diz-nos que é o nosso estatuto de agentes racionais. a razão só pode ser uma: porque há certos valores básicos que toda a sociedade tem que defender. marginalizados. cultura. que critérios poderão permitir o discernimento entre comunidades ou grupos que reclamam os seus direitos. evocada por Kant. Como se vê claramente pelos exemplos citados. que fundamenta o respeito devido a todo o ser humano. se há limites e condicionamentos para a atribuição de todos os direitos a esses grupos. pois. e o sentido mais fundo e compreensivo da noção e noções implicadas nela. até às lutas pelo reconhecimento de comunidades linguísticas rivais) e não há nenhum critério estrito para decidir se um determinado movimento ou luta política é um exemplo de «política de identidade». estas “políticas” deveriam ser tidas mais como “políticas ou estratégias de gestão das diferenças”.

constituem outros pontos de vista possíveis. p. 1985. n. Harvard University Press. 41. “The Hidden Politics of Culture Identification”. Duckworth. Harvard University Press. vol.indd 14 27-05-2011 15:55:28 . 29 30 Cfr. LaFollette. Clarendon Press.. cultural. 22. os impasses e dificuldades originados pelas diversas formas de individualismo: apenas com a diferença que agora o «indivíduo» é um grupo étnico. uma capacidade que todos os seres humanos partilham29. uma «política da identidade» não pode deixa de ser complementada por uma política da diferença. John Arthur and William Shaw. parece-me que o que está em causa é precisamente a dificuldade de conjugar a dimensão do ser humano como um todo. Compreende-se bem o sentido da afirmação leibniziana: “O lugar do outro é o verdadeiro ponto de perspectiva em política como em moral». da capo. Kymlicka. 1. R. se reiterarem todas as disjuntivas que apontei para o caso da identidade pessoal. 1994.. ed. liberais democratas. com a dimensão relacional da pessoa. sobre a natureza dos direitos individuais fundados nessa mesma liberdade. Por isso. 31 32 Maria Luisa Couto Soares. Cfr. a perplexidade para decidir sobre o âmbito da liberdade humana. linguístico. as críticas e objecções às teorias políticas «liberais»31. constituído por uma grande e heterogénea diversidade de pertenças. adscrições. – Taking Rights Seriously . – Liberalism. 1977 e A Matter of Principle Cambridge. Community and Culture. Por outro lado. Mass. J. o problema filosófico-antropológico da identidade pessoal é uma chave de orientação indispensável para o exercício da política perante as complexidades dos sistemas sociais de hoje. Rorty. Apenas quero chamar a atenção para o seguinte: há o risco de. H. ao transferir os paradigmas sob os quais toda a modernidade foi pensando a identidade pessoal para o nível comunitário. 1989. Taylor extrai daqui um motivo suficiente para justificar o respeito devido a toda a pessoa: um «potencial humano universal». Feb. bem como os correlativos deveres para com os outros e para com a sociedade em geral. outras «formas de vida». modos de ser e de viver. Cambridge Mass. etc. London. por parte dos comunitaristas e as dificuldades que se levantam a estas últimas32. Não vou entrar nos debates das ciências políticas em torno dos problemas reais e práticos do multiculturalismo. E. “The Politics of Recognition”.14 | José Esteves Pereira pormenorizada pode ir variando. Dworkin. E recomeçariam. “Um mundo novo requer uma ciência política nova” – afirmou certeiramente Tocqueville. Amelie Oksenberg. Taylor. outras civilizações. 1971. Englewwod Cliffs. Political Theory. Oxford. Prentice Halt. que de algum modo se fundem no nosso horizonte. W. das «políticas de identidade»30 . 194-206. religioso. Outras culturas. que defende uma política da diferença. – A Theory of Justice. Ao ler os debates actuais. em consequência. De qualquer modo. Veja-se por exemplo. “Why Libertarianism is Mistaken?” in Justice and Economic Distribution. uma unidade em si mesma constituída. 1979. Críticos do liberalismo fundados na igual dignidade: Rawls.

com um percurso sempre guiado pela utopia e por isso sempre inconformista. p. Daí o duplo interesse da pergunta. No fundo os problemas não são inteiramente novos.Crise do Estado. etc. mas todas as dimensões da vida colectiva. 1988. Bizâncio. Estado Necessário | 15 Estes impasses.indd 15 27-05-2011 15:55:29 . La Nueva Sensibilidad. vão abrindo sucessivas circunferências concêntricas sempre mais amplas e abarcantes. parecem de facto provir. – não é possível analisar e discutir aqui possíveis propostas ou vias de solução. e da realidade social em que vivemos. sempre heterodoxo. e tantas outras. se é que há uma verdadeira solução. A. Maria Luisa Couto Soares. um aceleramento da história que leva a uma substituição da compreensão histórica do presente por uma proliferação de sistemas de comunicação. que é feito do Homem?34 33 34 Cf. Lisboa. 38. sociais. No fim de tudo isto. Como pedra lançada ao charco. A Ascensão da Insignificância. em parte. os modos de pensar o que é a pessoa humana e em que se baseia o direito ao respeito pela sua dignidade própria. além da sua complexidade. E as raízes de muitos destes impasses éticos e políticos são múltiplas: a crise de governabilidade das sociedades complexas. a dependência ou submissão do político aos subsistemas económicos. no âmbito das ciências políticas. das aporias decorrentes das questões filosóficas em torno da identidade da pessoa. – porque passam por áreas económicas. Cf. Não tenho nenhuma proposta de estratégia política para resolver estes difíceis problemas. culturais. Madrid. nunca alinhado com as correntes vencedoras das ideologias contemporâneas. Espasa Calpe. a dialéctica crispada entre a tese pública do bem geral e a antítese privada do bem particular33. eles pertencem à própria história e vida da humanidade. as transformações rápidas e sucessivas do xadrez internacional. 1998. Llano. que afecta não só o âmbito político. Pergunta de Castoriadis.

16 | José Esteves Pereira Maria Luisa Couto Soares.indd 16 27-05-2011 15:55:29 .

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