lucien febvre e a quadrupla herança

LUCIEN FEBVRE E A QUÁDRUPLA HERANÇA: ASPECTOS TEÓRICOS DO CAMPO BIOGRÁFICO

JÚLIA SILVEIRA MATOS
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RESUMO Lucien Febvre marcou sua trajetória pelo estilo de pesquisa histórica, manuseio das fontes e forma inovadora de construção biográfica. Seu método e estilo de fazer história muito se diferenciaram da tradição intelectual existente em seu tempo. O método de investigação histórica presente em seus artigos veiculados pela revista Annales foi reformulado por seus sucessores, com o passar das décadas e os novos problemas sociais surgidos, mas a obra de Febvre continua sendo referência para os historiadores atuais contendo ainda muito a ser desvelado, conforme proposto por André Burguière. Dessa forma, no presente artigo nos propomos analisar a herança quádrupla no desenvolvimento de seu método de investigação e proposta teórica para o campo de estudo da biografia.

Fazer a história, sim, na medida em que a história é capaz, e a única capaz, de nos permitir, num mundo em estado de instabilidade definitiva, viver com outros reflexos que não os do medo... Lucien Febvre

Ao falar em teoria histórica na contemporaneidade, não podemos nos esquivar de falar em Lucien Febvre. Esse historiador marcou sua trajetória pelo estilo de pesquisa histórica, manuseio das fontes e forma inovadora de construção biográfica. Seu método e estilo de fazer história muito se diferenciaram da tradição intelectual de seu tempo. O método de investigação histórica em seus artigos veiculados pela revista Annales foi reformulado por seus sucessores, com o passar das décadas e os novos problemas sociais surgidos, mas a obra de Febvre continua sendo referência para os historiadores atuais e contém “muito a ser descoberto”, como diz Burguière 1 . Assim, no presente artigo nos propomos analisar a
Doutoranda em História – PUCRS. E-mail: jul_matos@hotmail.com BURGUIÈRE, André. Dicionário das ciências históricas. Rio de Janeiro: Imago, 2001, p. 327.
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Biblos, Rio Grande, 20: 165-178, 2006.

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trinta anos mais tarde. no decorrer de sua formação. A geografia de Vidal de La Blache inspirou-o em seus trabalhos inaugurais. não determinista e qualitativo. [que] visa às Id. de Michelet. a história política... e o meio físico e biológico no qual se inscrevem” 3 . A terceira foi a da psicologia. 324. p. profundo. 61.) Febvre entrou muito cedo em contato com uma influência quádrupla. 20: 165-178. história da qual se declarou muito cedo adversário. fruto das influências intelectuais que sofreu. (. é sensível no conjunto das ciências sociais em formação. apreendidas em sua evolução. p. 2006.herança quádrupla no desenvolvimento de seu método de investigação e proposta teórica para o campo de estudo da biografia. A quarta influência foi rigorosamente negativa: foi a da história “historizante”. Febvre realizou. 2000. inscrever sua investigação no interior de um espaço particular e esforçar-se por lhe explorar o conjunto das relações constitutivas. na filiação. a concepção de tempo histórico. Philippe II et la Franche-Comté (1911) e A Terra e a evolução humana (1922). 3 2 166 Biblos. A segunda foi a de Durkheim e da escola francesa de sociologia: a despeito das reservas com que Febvre olhava essa escola. colocava os problemas “mais pertinentes. tão fundamental na preocupação dos historiadores da virada do século. a partir do novo ponto de vista da ciência social: o das relações entre as sociedades. Foi contra ela que ele se incluiu. Escola dos Annales: a inovação em história. Um tempo ligado ao espaço. mais denso.. São Paulo: Paz e Terra. tanto afetiva quanto intelectual. algumas opções metodológicas para seu trabalho. constituindo um tempo-espaço. autor a quem prestaria homenagem durante toda sua vida 2 . REIS. A primeira foi a da geografia de Vidal de La Blache: ela o convenceu de que o historiador deve. lento. diplomática e militar que era ensinada então nas faculdades. ibid. Através da geografia Febvre aproximou o tempo dos historiadores com o espaço. . Rio Grande. menos efervescente.. Estas quatro principais influências foram marcantes na formação intelectual de Lucien Febvre e parecem ter sido a base de seu pensamento. José Carlos. os Anais (Annales). pouco conhecido. logo. um projeto científico e um modelo de sociabilidade intelectual nos quais se inspiram. e cujo papel. A geografia humana vidaliana enfocava as relações entre o homem e a natureza de forma original. ele ali encontrou ao mesmo tempo uma lição de método. a exemplo de um geógrafo que decifra uma paisagem. Febvre pensava “o tempo histórico como mundo da consciência. Esta geografia forneceu a Febvre a inspiração para uma das suas maiores inovações.

A psicologia para Febvre. no qual ele estabeleceu uma ponte “entre os estudos monetários. De acordo com François Dosse. a dicotomia indivíduo-sociedade 8 . Lucien Febvre: história. Escola dos Annales: a inovação em história. p. In: _____. essencialmente qualitativa” 4 . G. São Paulo: Ática..mudanças qualitativas deste mundo através de uma análise interpretativa. Carlos. São Paulo: Ed. foi como a alma que faltava a seu método de análise. Bloch e Braudel. Dicionário das Ciências Históricas. Febvre submeteu a história produzida até então a um novo olhar. 66. O surgimento da “Escola dos Annales” e o seu “Programa”. 39. Lucien Febvre. José C. 167 . p. construir-se-ia uma psicologia coletiva que – instaurada no presente – seria extensiva às massas de outrora. Tanto na geografia como nas ciências sociais. p. os seguidores da escola de Durkheim já proclamavam que a sociologia não deveria descrever os fatos. pode-se dizer. 2000. A sociologia de Émile Durkheim inspirou Febvre através do trabalho de história econômica de François Simiand. seriam estudados por uma psicologia individual. Sem negar tudo o que foi produzido. 1950. In: _____. DOSSE. José C. São Paulo: Ática. “Febvre afirma que não há ciência sem interpretação. as massas históricas. a novos instrumentos e a novos fins 7 . São Paulo: Paz e Terra. François. assim. Nouvelle Histoire e tempo histórico: a contribuição de Febvre. 2006. Febvre estudou os eventos a partir das estruturas mentais da sociedade. mas os constituir. e compara o historiador ‘ao histologista que colore de maneira apropriada à finalidade da pesquisa o objeto que ele quer observar com o microscópio”6 . p. sem hipóteses. mas também com aquilo que ele próprio chama de psicologia coletiva. 1994. pode-se ver a presença. Desde 1901. por meio da união da psicologia com a história. 323. da Unicamp. diferencial conforme os grupos sociais” 5 . Essa influência acelerou o rompimento de Febvre com a tradição historiográfica e o inspirou à renovação. História em migalhas: dos Annales à Nova História. os estudos sociais sobre os níveis de vida.. 1978. 71. mesmo que não tão marcante como na obra de Febvre. compreensiva. a novos problemas. 20: 165-178. REIS. realizando uma história dos sentimentos. Ficava estabelecida. Febvre via a psicologia como um material indispensável para o historiador analisar as civilizações. [. Rio de Janeiro: Imago. Defendeu que essa história deveria ser integrada ao estudo global de uma civilização e não ser isolada como um campo independente de estudo. 2001. p. Rio Grande. André. 8 MOTA. 22. em razão talvez de sua própria grandeza. E os grandes homens? Estes. O tempo de Marc Bloch e Lucien Febvre. da psicologia. 6 BURGUIÈRE. In: _____. 7 Segundo Reis. sua grande inspiradora.] para o estudo das massas. 5 4 Biblos.

ou seja. p. de linguagem para as sociedades nas quais elas não têm significado ou o mesmo significado 9 . um lingüista. Para ele. 9 168 Biblos. Para ler os clássicos do pensamento político: um guia historiográfico. preocupada em estabelecer locais e datas dos nascimentos de grandes monarcas. a última influência seria o desafio da história historizante. São Paulo: Ed. ao mesmo tempo. 206. 1998. vitórias militares. 12 Id. no seu livro de 1927. ou seja. 10 Conforme Fontana i Lazaro. abria um veio profundo de possibilidades para a disciplina. O Tempo de Marc Bloch e Lucien Febvre. constituiu-se num de seus principais campos de interesse. III: a Escola dos Annales. A psicologia retrospectiva ou psicologia histórica tem a vocação de recuperar os quadros mentais dos períodos do passado.. . não de forma tradicional como uma história dos grandes feitos de um homem. a tendência natural de transpor nossas próprias categorias de pensamento. a história política. Outra forte influência em seu método de pesquisa proveio de seu professor Antoine Meillet. A Reconstrução. a história social das idéias. 17. de sentimento. Febvre tornou-se seu maior combatente. incluindo os estudos sobre as mentalidades coletivas e o imaginário político 12 . p. Bauru: EDUSC. Josep. da Unicamp. In: _____ História em migalhas: dos Annales à Nova História. 2006. Com relação a esta. Rio Grande. assim como todo anacronismo. imutável. In: _____. 11 LOPES. Nesta obra Lucien Febvre dava de ombros para a tradicional e ultrapassada história política e. décadas mais tarde. professor de gramática.Uma das principais influências no trabalho do historiador. 20: 165-178. da Fundação Getúlio Vargas. 1950. sendo que seu empenho de crítico teórico da história vinha se manifestando em trabalhos nos quais a história das idéias políticas traduzia-se. Rio de Janeiro: Ed. e pode-se pensar também em seu pai. Marcos A. mas uma nova história do indivíduo inserido nas estruturas mentais de sua sociedade. 21. p. p.. François. sem conexões de várias naturezas com o mundo histórico que as gerou” 11 . o que. O cuidado com a significação das DOSSE. 86. a tradição de história política que existia até os anos 30 possuía “quase que meramente uma existência abstrata. Un destin. de forma factual e precisa 10 . Uma história que Febvre chamou de “história das idéias descarnadas”. ibid. História: análise do passado e projeto social. romper com a concepção de uma natureza humana atemporal. Martin Luther. A psicologia foi para Febvre o instrumento que lhe possibilitou trabalhar com a biografia em novos moldes. 2002. É preciso reconhecer que Lucien Febvre tinha alguma razão. contra uma história puramente política. Nesta linha quádrupla. ainda que de forma diluída.

tudo isso foi apresentado por Lucien Febvre em sua obra mestra O problema da descrença no Século XVI. Febvre utilizou metáforas e prosopopéias. Carlos Guilherme.. In: _____. 14 CARBONEL. optou por uma linguagem romantizada. 1992. “a utilização da metáfora... o antropomorfismo portador duma filosofia da história evolucionista [. o simples fato de o escritor escolher determinada palavra e não outra de mesmo sentido já demonstra sua intenção em extrair uma reação particular do leitor ou transmitir uma mensagem que não seria apresentada por meio de outro termo. MARSON. A preocupação com a linguagem. p. transmutando pelo efeito mágico do verbo a analogia em demonstração. 1978. algo pensado antes mesmo de ser escrita ou pronunciada a palavra. as verdades em poliedro [. Rio Grande. a recusa da conclusão estanque. estanque. 1878-1956. “a linguagem vai além dos signos”. imutável. apud MOTA. Historiografia. todos esses recursos atuam em seu trabalho como instrumentos para a construção de suas teses. Charles-Oliver. a polivalência sujeito-objeto. da idéia pela imagem. com a significação dos termos. 95. Lucien Febvre. O estilo de escrita de Lucien Febvre foi outro fator que o diferenciou dos demais historiadores de seu tempo.. cheia de significados ocultos. a substituição da imagem pela idéia.]” 14 . mas está repleto de significações exteriores a ele. 20: 165-178. Uma trajetória: Lucien Febvre. Para esse filósofo. numa linguagem talvez muito mais literária do que da história científica. mesmo que similar.palavras em seu grupo social. consideramos que as figuras de estilo utilizadas por Febvre em sua obra não são simplesmente uma preferência ou preocupação estética com o texto. 169 . figurativa. 22. Segundo Maurice Merleau-Ponty. no dialeto e no tempo histórico em que estão inseridas. o discurso em forma de fala. p. Admirador da obra do historiador romântico do século XIX Jules Michelet. as incertezas. Nessa mesma direção. Suas preocupações com o método de análise o levaram a criar um estilo de escrita: “o brilho literário. Entretanto. ou seja. o signo que compõe a palavra não tem sentido permanente. 2006. In: _____. a angústia cristã de chercher l’homme. esteve fortemente ligado com sua análise psicológica dos fenômenos históricos. as orações sem verbo. as interrogações. com a simbologia em relação aos diferentes grupos sociais e diferenças entre os idiomas. 13 Biblos.]” 13 . O Século da História. São Paulo: Ática. Lisboa: Teorema. Carbonel destaca que no estilo de Michelet estão presentes determinados processos de retórica histórica característica dos românticos. Adalberto. mas ponto central da apresentação de suas idéias. a religião de Rabelais.

a exemplo dos romancistas. os recursos literários permitiram ao historiador falar ao leitor mais além do que estava escrito. temos de considerar a palavra antes de ser pronunciada. 20: 165-178. p. Martinho Lutero e outros. ou o do próprio rio. os nomes das nações-Estados e seus derivativos são usados por seus membros. entendendo o que está implícito. insinuar informações. variam de uma nação-Estado para outra. Em sua maior parte. Rabelais. como afirma Norbert Elias. imaginando. leva-o a criar imagens. 139. 2006. Signos. através do estudo que tem como desencadeador o rio Reno.. pode dizer sem dizer. em suas obras. 47. MERLEAU-PONTY. que se insinua entre as palavras – é outra maneira de sacudir o aparelho da linguagem ou da narrativa para arrancar-lhe um 15 som novo . sem o qual ela nada diria. e. Norbert. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. São Paulo: Martins Fontes. relatando acontecimentos e idéias através de figuras de linguagem. 16 ELIAS. escrever em uma página o que deveria ser escrito em quatro. p. Rio Grande. como grandes personagens: Felipe II. Em certa medida. ou de palavras que possuem significados muito maiores nas estruturas mentais que textuais. em situações apropriadas. 1991. O nome desses personagens. ou seja. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. o fundo de silêncio que não cessa de rodeá-la. sentindo. 15 170 Biblos.. permitiu-lhe dialogar com o leitor através de mitos comuns à sua sociedade.) é um sentido lateral ou oblíquo. In: _____. Maurice. no caso de Febvre. A linguagem indireta e as vozes do silêncio. Febvre. De acordo com Merleau-Ponty. além de se ter debruçado sobre a geografia. Os símbolos verbais que desempenham esse papel são disso um exemplo. 16 com implicações de santidade e veneração . In: _____. mas pela exploração do imaginário. “conta” sua história através do papel que desempenham enquanto símbolos no imaginário coletivo. Assim. . não somente pela beleza estilística. Mas todos possuem poderosa irradiação emocional e dotam a coletividade que representam com as qualidades numinosas a que já nos referimos. Uma digressão sobre nacionalismo. optou por objetos de estudo para ele plenos de significado.Enfim. na citação acima. O uso das figuras de linguagem desperta emoções no leitor. ou ainda pôr a nu os fios de silêncio que nela tremiam (. um escritor. 1997. Desta forma o leitor decodifica a obra. A boa utilização das palavras por Febvre em suas obras tem chamado a atenção de diversos historiadores.

têm pretendido dar o aspecto. Michelet tinha a visão de que a história deveria ser um instrumento educativo. Deste humanismo Lucien Febvre conheceu. Febvre deixou clara sua concepção sobre a idéia da verdade absoluta da história. é um exemplo. As escolas históricas.A influência micheletiana em Febvre não ficou somente no estilo de linguagem. 41. mas penetrou na formação dos conceitos utilizados em suas obras. os conceitos mais aparentes na obra de Michelet. esculturas. 1994. Jules Michelet analisou as estruturas mentais da época. como o de verdade histórica 17 e evolucionismo social 18 . dando de Lutero uma imagem ao gosto pessoal do autor. Martinho Lutero. Por isso Michelet foi inovador em seu trato com as fontes. ou seja. Porto: ASA. Lucien. p. Guy. 20 Forma como Jacques Le Goff se refere a Jules Michelet em A história nova (1998). 19 FEBVRE. Mem Martins: Europa-América. BOURDÉ. ou do resgate integral dos acontecimentos do passado: Um livro como este que nós escrevemos seria bem daninho se. Michelet tinha a idéia de progresso da sociedade como evolução natural e melhora das estruturas. graças a um pai atento e sedutor. pinturas. A evolução como transformação do simples (barbarismo) para o complexo (civilidade). Na obra Martinho Lutero. Febvre implementou sua visão de história. De forma muito semelhante. 21 De acordo com. e quão diferentes. a não ser por tolos . a “mestra da vida”. procurando ter sempre contato com os originais. normaliano e agrégé de Segundo Jacques Le Goff em A História Nova (1998). formadora de ideologias e conceitos 21 . um destino. 18 De acordo com Boudé e Hervé (Michelet e a apreensão total do passado. É na concepção da história enquanto instrumento útil para a formação de identidade nacional que Febvre mais se aproxima do profeta da história nova 20 . traçar o retrato fiel e sintético do Reformador. tendo o máximo de cuidado. 1990. O estudo de Michelet sobre a heroína virgem da França. Martin. com depoimentos orais. Diante das influências de diversas ciências e pensadores. sem que em tal matéria a palavra certeza possa 19 ser pronunciada. com um olhar humanista. já em criança. Todavia. in As escolas históricas (1990). HERVÉ. Michelet e a apreensão total do passado. Jules Michelet acreditava na possibilidade de “ressurreição da vida integral”. a sociedade em que Joana d’Arc estava inserida. In: _____. na verdade histórica. 2006. 171 . diários e cartas pessoais. não foram incorporados por Febvre. de que muitas outras imagens. com o intuito de compreender as estruturas materiais. Outro ponto aparente de aproximação entre os dois historiadores é a análise psicológica das estruturas mentais. Febvre construiu sua biografia de Martinho Lutero. 17 Biblos. Rio Grande. 20: 165-178. Joana d’Arc. o contexto e suas possibilidades de ação. violenta se se quiser. um destino. não desse aos leitores a sensação viva. todos os tesouros.

Cahier double. sociológicas. para a qual contribuiriam histórias. Quatrième Année. São Paulo: Ática. 71. p. mas com um olhar filosófico herdado de Henri Berr.). Sabina. In: _____. 22 de uma arte de pensar e até de viver . 22. p. Em sua fórmula familiar. Jacques (org. não se tratou de uma bagagem adquirida na época dos concursos. Não procurava inscrever o evento histórico: [. com a biografia histórica que ele BRAUDEL. buscava encontrar dentro dele a estrutura que o tornará possível [. vislumbrava sim uma unidade do conhecimento. 232. 403. Mas em sua perspectiva hermenêutica. irredutíveis umas às outras” 26 . parece ser a ordem mental. uma potência animadora. Paris: Press Universitaires de France. 22 172 Biblos. (Tradução de Margarida e Joaquim Baradas de Carvalho). filosóficas. Lucien Febvre. 25 REIS. Nouvelle Histoire e tempo histórico: a contribuição de Febvre. . a do Zusammenhang. Nouvlelle Série. política e cultural: “um criador dinâmico. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vergas. intelectual. justificava sua opção pela interdisciplinaridade: não via ele limites rigidamente estipulados entre as diversas disciplinas. Os combates de Febvre. p. Carlos Guilherme. ao contrário. José C. São Paulo: Paz e Terra. 23 Id. In: REVEL. Lucien Febvre afirmava que “a história é o Homem” 23 apreendido em toda a sua dimensão social. Lucien Febvre tenha produzido obras de história regional e de geografia histórica. Reis ainda afirma que Febvre concebe a história “como uma sucessão de estruturas totais fechadas. Jogos de escalas: a experiência da microanálise. Escola dos Annales: a inovação em história. sem dúvida. In: _____. p. p. Febvre reconhecia as especificidades de cada época e sua singularidade. 27 MOTA. psicológica. 402. 27 Embora em seu trabalho de historiador. e logo perdida com a maioridade.. geográficas. podemos afirmar que foi.. 24 LORIGA. 1994. Influenciado pelas ciências sociais. A forma como Febvre via a história. 15. 2006.gramática.. nesse sentido.. 2000. Rio Grande. Fernand. Uma trajetória: Lucien Febvre. mas na verdade.. Lucien Febvre et l’histoire. No seu caso. 38-39. uma força viva da história” 24 . In: ______. p. 1998. Lucien Febvre. Através de um destino individual poder-se-ia ver o período em suas especificidades e compreender a permanência dos fenômenos nas estruturas mentais. 1978. Bloch e Braudel. 20: 165-178. que centralizava todos os outros aspectos de uma sociedade 25 . antropológicas etc. 26 REIS. Cahiers Internationaux de Sociologie. não pressupõe a prioridade sobre os outros de nenhum campo da sociedade.. A biografia como problema. 1957. ibid. José C.] em uma linha progressiva do tempo. 1878-1956. v.] Ele não é determinista. políticas. São Paulo: Ática.

Campinas: Unicamp. [. REVEL.] O tempo do historiador. A biografia como problema.] A afirmação da história como ciência dos fatos sociais relegava a segundo plano ‘a observação das consciências individuais’”. 1994.... In: SCHMIDT.. fontes numéricas. Jacques (org. com o homem em posição central. tantas vezes evocados pelos filósofos. Narrar o passado. São Paulo: Ática.. Assim. 2006. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas..196. Nouvelle Histoire e tempo histórico: a contribuição de Febvre. GIMENES. Margareth. o tempo contextual.. como algo pouco importante na estrutura social 29 . repensar a história. O que somente é compreensível diante de sua visão de história.). como indivíduo inserido no coletivo. Sua opção pela obra biográfica foi feita em um momento de descrédito da mesma 28 . 231. p. 31 Ibid. mas fabricados a partir de inúmeras observações. (org. Seu objeto principal de análise são as mentalidades coletivas. Outra inovação no trabalho de Febvre foi sua visão de tempo e a forma com que trabalhou com ele: “Febvre ainda pensa o tempo histórico como ‘tempo da alma ou da consciência’. psicológico e o tempo da memória.] Buckle afirmava. para Febvre.. com hipóteses e conjecturas.. documentos múltiplos e. 28 “Para abraçar os Welt-plan. alguns historiadores também deixaram de lado os destinos individuais. Sabina. [.. Bloch e Braudel. Biografia: um gênero de fronteira entre a história e a literatura.) Jogos de escalas: a experiência da microanálise. 31 conhecer o passado. a cultura pode ser apreendida através dos mitos de um povo. em 1857.] Febvre proporá um tempo reconstruído. o historiador não realiza a reconstituição do que de fato se passou. Rio Grande. LORIGA. sobretudo. Benito B. [. p. 2000. 33. Foram os historiadores positivistas que se revelaram os mais dispostos a sacrificar o caráter finito e pessoal da vida humana em nome da continuidade da história [. não coincide com o tempo da experiência histórica. familiar. Benito B. suas crenças e ideologias. (. de O. e. p. In: ______.. p. Sua visão de tempo parece estar intimamente ligada à forma como compreende a cultura. 30 REIS. 1998. Biblos.] que integra o evento único em uma ordem conceitual. Os fatos que o historiador representa não são apreendidos diretamente. Renato A.surpreendeu. pois a partir do século XIX privilegiou-se mais o material e essa perspectiva coloca o individual em situação nula diante dos processos históricos. mas reconstrói o que se passou. In: ______. a forma como os sujeitos se entendem em seu tempo. querer arrancar a história das mãos dos ‘biógrafos’. RAGO. Lucien Febvre. 173 .) O historiador precisa. [. portanto. nada mais natural para quem vê o homem como produtor da história estudar o próprio. interior. partir do presente. através deste. como assegura Reis 30 .. mas a partir da história intelectual ou cultural”. 29 De acordo com SCHMIDT. 20: 165-178.. isto é. Em suas obras biográficas ele abandonou a linearidade histórica e apostou em diferentes temporalidades. Para Febvre. José C. 37. sem perder de vista a ordem cronológica.

tomada por outro país. teve que trabalhar em outra que vivia a mesma situação. então. isso não o fez permanecer neutro frente aos acontecimentos. o evento. a 33 serviço do presente. dessa forma. mesmo formulando-a teoricamente não seguirá até as últimas conseqüências.. Entretanto. ele olhou para os eventos como fatos sujeitos a análise. mas pode ter assimilado as teses febvrianas e as internalizado como novos conceitos. No entanto. 20: 165-178. 32 Essa afirmação entra em contradição com a visão de história febvriana e principalmente com o caminho percorrido pelo autor. Ao optar pelo uso da biografia. ou seria a biografia histórica a única a proporcionar-lhe os instrumentos certos para seu empreendimento? Talvez o leitor dos anos de 1920 não tenha percebido os objetivos ideológicos do autor para ele. singular e irrepetível da historiografia tradicional: considerava. factual. 2006.. reconstruiu o passado a partir dos problemas colocados por seu presente. Rio Grande. Um homem que viveu em uma região invadida. e isto é explicitado. p. via Pirenne. Ele estava ainda preso à tradição individualista. das escolhas 32 33 Ibid. Febvre estaria apenas preso à tradição da história política. considerava que a história deveria buscar o que há de regular e necessário na sucessão dos eventos e. em sua interpretação e organização a partir de problemas e através de conceitos. mas muito mais. pode-se ver que não foi somente este olhar de historiador que o levou a este caminho metodológico na construção de suas obras. Febvre apresentou anseios de apreender a dimensão total de uma época através de “espíritos individuais mais eminentes”. primeiro.. parece ter atuado como ponto determinante na construção e seleção dos objetos estudados. para isto partir dos grupos sociais e não dos indivíduos [. 35. influenciado por Lamprecht.] é exatamente esta orientação que Febvre. O conhecimento do passado consistirá. 174 Biblos. Febvre. . a qual tanto combateu. com a diferença de que os invasores eram seus compatriotas.Dessa forma. assim. vemos a biografia como muito mais que um recurso metodológico ou curiosidade profissional. olhando para o contexto de vida do autor. p. Qual a visão de Febvre sobre os acontecimentos? Como historiador. 38 Id. Reis nos leva a pensar assim quando diz: Febvre. e sim uma opção consciente com objetivos claros para o autor. O resultado final é um passado que o presente tem necessidade de conhecer. ibid. O tempo reconstruído da história-conhecimento está. O contexto.

parece-nos que sua preocupação histórica não era meramente DOSSE. Dessa forma.. evolutiva. da Unicamp. 36 Encontra-se esta atitude em Martinho Lutero. (org. voltada para as mentalidades coletivas. Lucien Febvre prosseguiu. 84. Rio Grande. nos marcos mais amplos da história social” 37 . 50. Febvre argumentou que não pretendeu fazer uma obra biográfica. Nouvelle Histoire e tempo histórico: a contribuição de Febvre. p. 175 . 1994. Estudos e leituras: itinerários historiográficos. p. São Paulo: Ática. 41. como também de sua opção pela biografia. ao confronto entre o homem singular e o universo mental no qual ele intervém” 34 . História em migalhas: dos Annales à Nova História. In: LOPES. Hervé. 34 Biblos. Lucien Febvre. praticando assim uma história das sociedades. uma recuperação da dimensão humana do Reformador. GREGORY. Nessa obra. foi um instrumento de atração do leitor para o estabelecimento de um diálogo referente aos problemas do seu tempo. 37 LOPES. M. Febvre elegeu indivíduos para seus estudos que pareciam estar plenos de significado para seus leitores. 20: 165-178. mas um trabalho de investigação. cultiva o gênero tradicional da biografia ao mesmo tempo que confronta o seu “herói” com a sociedade do seu tempo. de cultura. Guy. para Febvre. Nos seus principais livros. porque entendia ser esta estreitamente ligada à vida material. MARTIN. 2006. p. Realmente.). através da sua investigação e ensino. analisando sua estrutura mental. As escolas históricas. bem como sua preocupação com a psicologia e estruturas mentais. 120. François. Num contexto interdisciplinar.. a biografia. O ensino e a pesquisa na UNIOESTE: realizações e tendências. Mem Martins: Europa-América. 1998. Cascavel: Edunioeste.] para integrá-lo em seu tempo. José C. 36 BOURDÉ. 1950. 1990. No primeiro prefácio dessa obra. A. p. Febvre voltouse para uma “preocupação propriamente psicológica. “Acreditava que o mundo social é uma criação humana e na análise desta criação o lugar do seu sujeito não poderia ser tomado pelo seu objeto” 35 . Febvre fez ressurgir Lutero como homem “[..metodológicas e na construção de suas teses. uma obra de especialista do século XVI. Escola dos Annales. havendo uma ligação entre o personagem eleito para o estudo e a realidade do historiador.. A . mais ampla. São Paulo: Ed. 35 REIS. um destino (1928) [. Levando em conta sua visão de história. desliza da reflexão sobre um personagem ilustre para a exploração das mentalidades coletivas. Febvre estudou o indivíduo para compreender o coletivo. um destino é exemplo do método de pesquisa histórica febvriano. V. com novas abordagens. Bloch e Braudel.. M. In: _____. In: _____.] Martinho Lutero.

com os grupos sociais e as tradições do pensamento [. Rio de 39 38 176 Biblos. um destino apresentase como uma obra de história das idéias políticas.] Hoje em dia o político concerne a tudo o 39 que toca a existência individual: o corpo. O político toca muitas outras coisas. 40 BURGUIÈRE. In: _____. Questões para a história do presente. mobilizar a memória coletiva e 38 inscrevê-la numa mitologia das origens . Há muito tempo. 2001.). René. Febvre trouxe à cena política e cultural mitos adormecidos mas enraizados na identidade ideológica de seus leitores. Essa é a visão que temos sobre a obra de Febvre. o historiador passa a saber que esse objeto não consiste no próprio passado mas naquilo que. a história é um terreno de confrontos políticos e o discurso político é um grande consumidor de argumentos históricos. André. lembranças. memória e cultura. essa obra abriu o campo para a renovação da história política. René. as escolhas. Conscientemente ou não. André. 20: 165-178. Não é um fato isolado. como afirma René Remond. 2006. na França. mas tinha claramente uma dimensão político-social. O retorno do político. o nascimento. e 40 que lhe são sugeridas pelo mundo em que vive . Prefácio. BURGUIÈRE. Como uma personalidade religiosa poderia ser estudada enquanto fenômeno político? Como uma obra sobre a Reforma Protestante poderia ser estudada como evento político-social e não econômico-social-religioso? Uma obra de história da religião pode estar a serviço do Estado e assim teria uma função política. convicções. In: _____ Dicionário das ciências históricas. (org. a morte . Além de sua função política nos anos de 1920. Ele está evidentemente em relação. Podemos encontrá-lo em todos os países que necessitaram. os comportamentos. Prefácio. REMOND. Dicionário das ciências históricas. CHAUVEAU. Rio de Janeiro: Imago. p. Bauru: EDUSC. entretanto Martinho Lutero. Agnès. para legitimar a unidade nacional. 58-59. p. pode responder às questões que ele coloca a si mesmo. Além disso. a nova história política oriunda do pensamento febvriano estuda as relações do indivíduo com a sociedade global política. 8. por meio da biografia.biográfica. . que veio tomar forma após 1950.. O casamento entre a história e a política nada tem de excepcional. Rio Grande. In: REMOND. 1999. nos traços que deixou o passado.. a vida. Entendemos que. Febvre tinha rejeitado a história política que era produzida até meados dos anos 20. também.

22. 1997. Lucien Febvre et l’histoire. Dicionário das ciências históricas. Mem Martins: Europa-América. 2006. da Unicamp. da UNESP. III: a Escola dos Annales. In: MICHELET. Uma digressão sobre nacionalismo. São Paulo: Ed. BOURGUEOIS. HERVÉ. 20: 165-178. um destino. BURGUIÈRE. BURKE. A história nova – herdeira da escola dos Annales. Fernand. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Olhares sobre a história. mitos e realidades. Janeiro: Imago. Jules. A escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. Lisboa: Teorema. 1990. FONTANA I LAZARO. O Reno: história. In: _____. As escolas históricas. _____. São Paulo: Ed. DOSSE. François. In: _____. 177 . A reconstrução. Jean. Escola dos Annales. _____. CARBONEL. Introducción. Charles-Oliver. In: _____. In: _____. Lisboa: ASA. Mem Martins: Europa-América. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Quatrième Année. Fontes auxiliares BOURDÉ. Michelet e a apreensão total do passado. p. São Paulo: Edusp. In: _____. Peter. Martinho Lutero. Cahier double. 1997. André. Mem Martins: Europa-América. REFERÊNCIAS Fonte primária FEBVRE. Norbert. A história à prova do tempo: da história em migalhas ao resgate do sentido. _____. 2001. BRAUDEL. DOSSE. François. Guy. São Paulo: Pioneira. _____. 2000. In: _____. 1945. As escolas históricas. ELIAS. Martinho Lutero. Os alemães: a luta pelo poder e a evolução do habitus nos séculos XIX e XX. 8. 1996. Paris: Presses Universitaires de France. Josep. 1990. Lucien. Rio de Janeiro: Imago. Nouvelle Série. 1990. O século da história. O tempo de Marc Bloch e Lucien Febvre. um destino é um exemplo do método histórico que coloca o passado a serviço do presente. 2001. v. 1994. A História em migalhas: dos Annales à nova história. Buenos Aires: El Ateneo. Lucien. 2001. Nascimento e afirmação da Reforma. Honra e Pátria. Emile. Historiografia. Cahiers Internationaux de Sociologie. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Juana de Arco. Martin. Porto: ASA. Rio Grande. Biblos. DELUMEAU.As questões de um historiador são provocadas por sua realidade social. 1998. FEBVRE. In: _____. 1992. 1957 (Tradução de Margarida e Joaquim Baradas de Carvalho). 1989. As escolas históricas. 1992.

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