Revista de Psiquiatria & Psicanálise

Crianças & Adolescentes

Publicação da Residência de Psiquiatria da Infância e Adolescência Centro Psíquico da Adolescência e Infância - CEPAI Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais - Fhemig
Vol. 8 / número 14, Ano de 2010 I ISSN0104 - 8414

Vol. 8 / número 14, Ano de 2010 I

ISSN 0104 – 8414

Revista de Psiquiatria & Psicanálise com Crianças & Adolescentes. v.8, n.14 (jan. dez. 2010) - Belo Horizonte: Centro Psíquico da Adolescência e Infância - FHEMIG. 2010

1. Psiquiatria Infantil 3. Psicanálise com crianças

2. Psiquiatria do adolescente 4. Psicanálise com adolescentes ISSN 0104 - 8414

ISSN 0104 – 8414

Revista de Psiquiatria & Psicanálise Crianças & Adolescentes
vol. 8 / número 14 / ano 2010

Publicação do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI) - que integra o Complexo de Saúde Mental da Rede FHEMIG e tem como finalidade divulgar trabalhos das áreas da psiquiatria, psiquiatria clínica, neurociências, psicoterapias, psicanálise relacionadas à saúde mental da infância e a adolescência

Residência de Psiquiatria da Infância e Adolescência / Centro Psíquico da Adolescência e Infância / Complexo de Saúde Mental / Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – FHEMIG

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psiquiatria clínica.que integra o Complexo de Saúde Mental da Rede FHEMIG e tem como finalidade divulgar trabalhos das áreas da psiquiatria.ISSN 0104 – 8414 Revista de Psiquiatria & Psicanálise Crianças & Adolescentes vol. psicoterapias. neurociências. psicanálise relacionadas à saúde mental da infância e a adolescência Residência de Psiquiatria da Infância e Adolescência / Centro Psíquico da Adolescência e Infância / Complexo de Saúde Mental / Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – FHEMIG . 8 / número 14 / ano 2010 Publicação do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI) .

Facuri Lopes – coordenação José Sebastião Menezes Fernandes .Expediente Hospitalar do Estado de Minas Gerais – Fhemig Governador do Estado de Minas Gerais Antonio Augusto Anastasia Secretário de Estado de Saúde Antônio Jorge de Souza Marques Presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais Antônio Carlos de Barros Martins Vice-Presidente Christiano Augusto Bicalho Canêdo Chefe de Gabinete Fernando Eduardo Guimarães de Carvalho Diretor Assistencial Alcy Moreira dos Santos Pereira Diretor de Desenvolvimento Estratégico e de Pesquisa Josiano Gomes Chaves Diretora de Planejamento Gestão e Finanças Mércia Fátima Cardoso de Andrade Diretor de Ensino e Desenvolvimento de Pessoas Arthur Peretz Lichter Procurador-Chefe Júlio César Pinto Auditoria Seccional Alexandre Gorgulho Cunningham Assessora de Comunicação Social Christina Guimarães Marândola Centro Psíquico da Adolescência e Infância – Cepai Diretor Augusto Nunes Filho Gerente Assistencial Lílian Lima Albernaz Gerente Administrativo Jussara Santos Lopes Coordenação do NEP Helena Maria Galvão Albino Residência de Psiquiatria da Infância e Adolescência Simone C.

.......................................10 Marcelo Bizzotto Pinto...........................................................................................................:...... Bruno Curcino Hanke.............................98 Ana Maria Lopes Chagas.......Índice Editorial................................................................................................................................. Porque a boca se chama boca?.....66 Paula Ramos Pimenta........ O acolhimento da solicitação de atendimento na clínica-escola.. 5 .................. Abordagem do autismo na psicanálise............92 Oscar Cirino..........................09 Dispositivos clínicos institucionais na prática de vários profissionais..........18 Bruno Curcino Hanke......52 da Fala e Comunicação................. hiperatividade (TDAH) em crianças e adolescentes.106 Augusto Nunes-Filho....................80 Rodrigo Pardini Guedes................ Brinquedoteca: de lugar de lazer a espaço terapêutico........................................................... Estatuto do inconsciente na psicose: modelo da Carta 52................ Daniela Viola..........33 Angela Vorcaro...................... Artigo de revisão............................. A escrita fora de lugar..................... Marcelo Bizzotto Pinto............................45 Sheila Cardoso Rosa........................113 Diagnóstico e tratamento farmacológico do Transtorno do déficit de atenção e...................27 Augusto Nunes-Filho........ Christina Dornas e Júlia Alves ....................................... R3 em Psiquiatria: a visão do residente.........07 Agradecimentos.... Técnica Audio-Visual Cinésica nos Transtornos Graves.............. Embaraços dos jovens.....74 Helena Maria Galvão Albino............... O tratamento psíquico e o trabalho em equipe.. Gratificação X Punição: Construção do Limite.. Érica Gomes Fornero...........................................

bairro Santa Efigênia.Centro Psíquico da Adolescência e Infância .gov.MG Tel 31 3235-3012 | email: cepai.br 6 .mg.CEPAI Atendimento secundário e terciário à saúde mental da criança e do adolescente Rua Padre Marinho. Belo Horizonte .nep@fhemig. 150.

a instituição passou por várias transformações físicas e conceituais. o trabalho em equipe é fundamental na direção do tratamento. onde são disponibilizados atendimentos em dez diferentes modalidades profissionais a crianças e adolescentes usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). pediatria. Nesse sentido. articulado aos equipamentos da rede de saúde encaminha o paciente ao espaço mais adequado para o tratamento de cada caso. enfermagem. além de campos de estágio em várias áreas. Disponibiliza. além do Lar Abrigado. A porta de entrada da unidade é o Acolhimento em Saúde Mental que. psicologia. a formação em Psiquiatria da Infância e Adolescência (R4) e estágios para R3. privilegiando determinados enfoques clínicos em cada momento dessa trajetória. Ao longo de 63 anos. A Hospitalidade Integral conta com novo e diferenciado espaço de acomodações e tratamento ao possibilitar a permanência de acompanhante ou familiar durante o tratamento da crise. Os encontros da família com os profissionais responsáveis pelos pacientes são transformados em um tempo onde é possível repensar as relações. A assistência disponibiliza hoje leitos com acompanhantes para todos os pacientes internados colocandose pioneiramente como uma instituição que cumpre a preconização do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). hospitalidade integral – e com um Ambulatório de Especialidades. terapia ocupacional. neurologia. 7 . fonoaudiologia. pedagogia. fisioterapia. decisões e mudanças. O CEPAI conta hoje. região metropolitana e interior do Estado.Editorial O ano de 2010 é o tempo de conclusão de mais um ciclo do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI). urgência psiquiátrica. além do serviço de eletroencefalografia (EEG) e farmácia – atende demandas cada vez mais complexas da clientela da capital. O fluxo de pacientes foi organizado segundo esses dois eixos de atendimento. serviço social. Muitas das inquietações que acometem pais e pacientes podem ser compartilhadas e analisadas pelos profissionais por eles responsáveis. contemplando a atenção terciária e secundária para usuários do SUS. O Ambulatório de Especialidades – psiquiatria. com o Centro de Acolhimento à Crise – acolhimento em saúde mental.

a requalificação dos espaços. sonhos são‖ para que a realidade possa ser transformada. recebendo tanto R4 de Psiquiatria que optaram por essa especialização quanto os estágios obrigatórios para R3 na nova grade curricular. Sua realização fica entregue às mãos do futuro. O CEPAI funciona hoje oferecendo substancial melhoria na qualidade da assistência prestada. Tal processo culminou com a inauguração da Brinquedoteca do CEPAI. A valorização dos fluxos institucionais. ao germinarem. A criação do Núcleo de Ação Cultural Educacional e Inclusão Social (NACEIS) nas dependências em ruínas do antigo Hospital da Força Pública Mineira que ainda sobrevivem nas dependências do CEPAI. ―Sonhos. o respeito e incentivo ao exercício de uma clínica comprometida com o sujeito são sementes lançadas que. levam consigo a esperança de que frutifiquem muito e por muito e muito tempo. Além da residência médica o CEPAI funciona como local de arejamento e trocas com universidades através dos diversos estágios supervisionados que transcorrem na instituição. Um sonho permanece. Intervenções de grande porte foram feitas na ambiência institucional com a transformação de pátios sombrios em alegres espaços de convivência que recriam o imaginário de cidadezinhas do interior além de eliminar por completo a cultura segregatória dos pátios psiquiátricos das instituições totalitárias. especial espaço terapêutico construído por intermediação do Serviço Voluntário de Assistência Social (SERVAS). a racionalização e otimização na disponibilização e marcação de consultas. Augusto Nunes-Filho Direção Centro Psíquico da Adolescência e Infância Complexo de Saúde Mental da FHEMIG 8 . A área física do Centro foi submetida a grandes transformações que visavam a instalação de cada setor no local mais adequado para a otimização do funcionamento global da unidade.A Residência em Psiquiatria da Infância e Adolescência do CEPAI reformulou-se contemplando os novos encaminhamentos do Ministério da Educação dados à formação médica.

Agradecimentos Agradecemos. Fazemos também especial agradecimento às contribuições preciosas das Professoras Drª Alda Gonçalves Martins. cuja imagem ilustra a capa da revista . antes de qualquer coisa. a cada. Sem o envolvimento efetivo de cada um. Ao citar o Cotidiano Terapêutico personificamos na Irmã Mercês Haten Osório a alegria e dedicação. brincadeiras e recreações por ela impulsionadas deflagraram. que com seu entusiasmo no trabalho de transmissão.que renovou os ares respirados na instituição. As atividades. da Faculdade de Enfermagem da UFMG. uma nítida transformação no cotidiano de todos. pela presença constante na unidade repassando sua vasta experiência na lida com aqueles que sofrem e à Drª Angela Vorcaro. Ressaltamos nessa edição a requalificação da instituição . ensino e supervisão de estagiários e profissionais no CEPAI impulsiona o trabalho realizado com a delicadeza que a tessitura do encontro clínico exige. 9 . ao empenho de todos os funcionários das áreas administrativas e assistenciais do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI) no trabalho direcionado à melhoria da qualidade da assistência prestada pela instituição. o entusiasmo e compromisso dos servidores com o trabalho por todos desenvolvido.com a transformação de antigos pátios em agradáveis praças e a criação da Brinquedoteca. do Departamento de Psicologia da FAFICH/UFMG. È nesses novos espaços que se realizam ações e oficinas do Cotidiano Terapêutico que proporcionam atividades complementares e alternativas a crianças. dia não teria sido possível realizar as transformações implementadas. jovens e familiares usuários da instituição. das salas de espera aos alojamentos da Hospitalidade Integral.

considerando o espaço institucional como dispositivo clínico. Pensando nos entraves institucionais de toda ordem e suas inevitáveis consequências para a prática clínica no tratamento destes pacientes. O propósito do presente artigo é refletir sobre as possibilidades que esta clínica oferece ao trabalho no CEPAI. Palavras-chave: prática entre vários. Ao final deste texto. será apresentado um fragmento de um caso clínico para ressaltar a 1 Psicólogo do CEPAI/FHEMIG 10 . um estabelecimento no qual trabalhei voluntariamente durante seis meses. sujeito. Keywords: practice among several. Abstract: The current paper evokes the psychoanalytical work in an institution from the practice among various and the importance of the uniqueness of each case for the construction of clinical devices that will favor the treatment of children in mental health. Esta pergunta é o título de um periódico da Antenne 110.Dispositivos clínicos na prática entre vários profissionais Marcelo Bizzotto Pinto1 Resumo: O presente artigo evoca o trabalho psicanalítico em uma instituição a partir da prática entre vários e a importância da particularidade de cada caso para a construção de dispositivos clíncos que favoreçam o tratamento de crianças. autists above all. em saúde mental. devemos nos perguntar prioritariamente a que e a quem serve uma instituição. sobretudo as autistas. criança autista. será abordado um breve fragmento da história deste estabelecimento e o método que sustenta essa prática. Pretendo colocar em foco a discussão referente aos espaços de trabalho em uma instituição e o papel do profissional para a construção de uma clínica a partir destes espaços A questão do autista será problematizada assim como a particularidade com que ele tenta fazer um tratamento do Outro. A partir desta experiência e de pesquisa bibliográfica relacionada aos textos de profissionais que já trabalharam lá ou têm uma transferência pela prática psicanalítica em uma instituição. autist child. subject Introdução Os dispositivos oferecidos em uma instituição de acolhimento à crianças e adolescentes que se apresentam com algum sofrimento psíquico devem ser construídos a partir da particularidade de cada caso.

Originalmente. instituições que se orientam a partir do ensino de Freud e de Lacan. passavam o final de semana em suas casas.importância da particularidade do sujeito para a elaboração de uma prática plural e efetiva no tratamento de nossos pacientes. foi fundada por Jacques-Alain Miller e são. Os profissionais de formações diversas são nomeados a uma mesma função. o l’Inami ( Instituto Nacional de Seguro para Doença . portanto. mas em 1984 se tornou uma Asbl -Associação sem fins lucrativos. Antenne 110 A Antenne 110 foi fundada há quase trinta anos pelo psicanalista Antonio di Ciaccia quando ele se deparou com certas crianças com dificuldades adaptativas em um instituto médico-psicológico (La Maison Familiale) onde ele trabalhava. Esta rede. qualquer demanda de avaliação pediátrica ou psiquiátrica é realizada fora do estabelecimento e não faz parte do projeto terapêutico instituído pelos profissionais. A clientela é formada por crianças com idade de quatro a oito anos que apresentavam diferentes patologias. A jornada dos externos era de segunda a sexta. É interessante notar que não há consultas médicas na instituição. Isso significava que todas as crianças. A Antenne contava com uma estrutura de 25 profissionais de formações diversas. internadas ou não. Sobre as 16 crianças que estavam presentes na Antenne. As crianças internadas chegavam à segunda-feira as 09h15min e saiam as 15hs da sexta-feira. A partir de seu desejo de se ocupar dessas crianças em sua grande maioria. Ciaccia criou a Antenne 110 com a ajuda de alguns de seus colegas. a Antenne 110 participa de uma rede de instituições infantis com outros países. Além disso. a RI3. A Antenne faz parte da federação de estruturas psico-socio-terapêuticas que reúne todos os centros convencionados com o l’Inami e que se ocupam de problemas psicológicos graves em crianças e adultos.que recebe ajuda de um órgão de saúde do governo belga. que trabalham 20hs semanais e participam ainda de reuniões clínicas. sendo o autismo e as psicoses em geral a sua maioria. É importante salientar que a internação não estava relacionada com a gravidade patológica da criança. psicólogo. autistas. 11 . Esta medida se estabelecia a partir da elaboração do projeto terapêutico para o caso que é construído pela equipe em parceria com a família do paciente. cinco eram externas e onze internas. assistente social.Invalidez). a de ser educador. Nesses horários há uma pessoa da equipe responsável por buscar e levar as crianças. pedagogo. de 9:15hs as 16:15hs (15hs na sexta-feira). esta instituição funcionava de forma autônoma.

Vale ressaltar que o termo ―educador‖ é também uma construção a partir do uso do semblante para atender uma exigência de outrem e que. pela particularidade de cada um. P. a fim de funcionar com crianças psicóticas em uma instituição de orientação psicanalítica‖4. Ela parte do pressuposto de que não há. Monique Kursnierk. Em um outro momento.. P. um que saiba mais do que o outro: ―Nos servimos do múltiplo para desidentificar cada um e produzir a rasura egóica necessária. no interior dela mesma. Tudo que acontece na instituição deve ser articulado com a clínica do caso. Esta prática em uma instituição. Inventar a psicanálise na instituição. Alexandre. 82 12 . ―sua instituição dentro da instituição‖6. 164 5 STEVENS. Podemos dizer então que esta prática se orienta sempre a partir do estudo do caso clínico. 73 4 KURSNIECK. P. P. Esta afirmativa justifica em parte a atribuição da função de educador para todos profissionais e a destituição da especialidade de cada um. A instituição: prática do ato. Alexandre. onde a criança faz. Nas reuniões clínicas ocorre a constante busca das ―invenções de cada sujeito‖5. de tantas instituições quantos forem os 2 3 DI CIACCIA.) assegura. Entendemos por invenção como a criação de um ponto de ancoragem do sujeito na linguagem mesmo diante de todas as dificuldades que são próprias da estrutura destas crianças. ele escreve que a especificidade da prática entre vários através da psicanálise aplicada em uma instituição como esta é que ―junto à criança cada adulto (. dentre os profissionais.A prática entre vários O trabalho orientado pela psicanálise numa instituição como a Antenne é sustentado pela prática entre vários. A instituição: prática do ato. a garantia do ingresso destas crianças nas escolas. Pertinências e limites da prática entre vários. que também trabalhou na Antenne. 75 Ibidem. Monique.. mas a partir das exigências do sujeito‖2. segundo Ciaccia se orienta ―não a partir das exigências dos especialistas. como por exemplo. P. diferentemente da ética psicanalítica. que a ocasião de um encontro seja apreendida‖3. Entendemos com esta afirmativa que a destituição do saber é um posicionamento ético que além de tornar a presença do profissional mais aprazível a essas crianças. 80 6 STEVENS. Antonio. como enfatizou Stevens. faz-se necessário produzir ―uma instituição tal que permita a existência. há na Antenne uma orientação psicanalítica que visa uma outra via de trabalho. opera com resultados quantitativos e prioriza adequar o indivíduo na sociedade. Dessa forma. Mesmo diante desta realidade positivista agregada ao saber da ciência ao qual estamos todos submetidos. apenas por sua presença. enfatiza a importância desta prática como um método. permite a construção de uma clínica cujo saber está do lado delas.

―enchê-lo de ar‖ para permitir ao autista um deslocamento pela via do significante. O sujeito autista encarna ―sem pudor nem vergonha. Por ser o discurso convencional ineficaz para os autistas isso não significa que estejam fora da linguagem. Antonio. desse discurso burocrático da mera formalidade.24 13 .sujeitos que as habitam‖7. colocaremos em foco o autismo e seu modo de funcionamento psíquico. o profissional no trabalho com os autistas deve se posicionar de um lugar fora desse discurso que invade o sujeito. onde todos profissionais concordam em adotar os mesmos 7 8 Ibidem. Une institution et son atmosphère. 77 DI CIACCIA. e não a realidade social espacial. colocar em movimento esse Outro petrificado. o verdadeiro estatuto de todo ser humano que é o de ser um dejeto‖8. surge a seguinte questão: Como fazer do espaço e do tempo aliados no tratamento do paciente para possibilitar a construção por parte do sujeito deste ponto de ancoragem? Para elaborar essa questão. Autismo e Instituição São várias as dificuldades em trabalhar com crianças autistas. assim como o tempo são também estruturas de linguagem. Essa posição de dejeto no caso dos autistas se dá de imediato. é que para o autista há uma fixidez na linguagem. P. Os autistas se recusam a aderir às regras e convenções que servem para organizar os meios sociais. através do ensinamento lacaniano. Partindo deste pressuposto. portanto. verificamos que o espaço. não passa pelo discurso do inconsciente. O que ocorre como nos lembra Lacan. Aprendemos com a clínica do autismo que o discurso dominante das instituições tradicionais se torna invasivo para essa criança que se encontra imerso no gozo mortífero do Outro. Stevens nos adverte sobre o equivoco em utilizar um mesmo e único discurso na clínica com autistas. um ponto de basta criado por si e que possa localizar seu gozo possibilitando a emergência do sujeito. como os da escola e da família. feita de linguagem. Aliás. Devemos aos autistas a elaboração da prática entre vários. Ciaccia observa que as crianças autistas funcionam como se o discurso do Outro fosse petrificado. P. Para isso. É preciso. ele é um condensador de gozo e por isso não pode ser representado e barrado ao mesmo tempo pelo significante. Stevens propõe que o mais importante para um trabalho em instituição é a realidade psíquica do sujeito em questão. já que foi a partir desse tipo clínico que surgiu a demanda de criar uma nova forma de instituição que pudesse acolher tais sujeitos. Elas são refratárias ao meio social habitual onde o discurso dominante presente é ineficiente.

como as exigências em fazê-lo participar de atividades em grupo. Assim. essa operação que ele realiza a partir de sua imagem pode ser a construção de um duplo. assim como dois pequenos gravetos que ele encontra no chão. Para o autor. Essa criança abandona a tudo e a todos em função desse gozo. Um garfo e uma faca também servem de baquetas. P . O trabalho entre vários permite esvaziar esse discurso. Essa corrente criada pela diferença de estilo nas intervenções da cada profissional torna-se imprescindível para promover uma mudança subjetiva no sujeito autista. Ou então. suscitada pelo profissional através de uma posição fora do discurso dominante. A seguir um fragmento de caso clínico de uma criança autista da Antenne que ilustra de forma clara a invenção produzida por este sujeito. destituído desse saber uníssono que tenta adequar a criança na instituição pelo discurso do mestre. descontínuo e heterogêno. que como bem observou Maleval. Alexandre. a diferença serve para fazer série. Juntamente às baquetas. se mostram ineficazes e por vezes o deixa bastante irritado. ―o jogo de diferenças reduz um pouco a invasão do Outro‖9. ou forçá-lo a parar de gritar e batucar. Tudo que está sob seu domínio inevitávelmente assume função de baquetas. Fato é que Romeo se isola e começa o seu batuque acompanhado por gritos intermitentes. Romeo utiliza óculos escuros e com uma certa pose de pop-star ele busca incessantemente pela sua imagem refletida na janela de vidro. nada o tira do lugar. pois o profissional se apresenta como barrado. Essa alternância também é uma característica do funcionamento psíquico nos autistas. 9 STEVENS. serve para protegê-lo deste Outro avassalador. Esses ―objetosbaquetas‖ não podem ser retirados em momento algum de suas mãos. revela que o autista se conecta ao Outro de forma mecanizada e intermitente.mecanismos de linguagem para tentar enquadrá-los dentro de um funcionamento institucional que não considera suas invenções. Quando Romeo faz o seu batuque. 14 . ou seja. Aux limites du lien social : les autismes. As intervenções utilizadas que carrega em si o discurso do mestre. por ser cada um. Esse narcisismo de Romeo pode ser uma tentativa de se localizar através do reflexo produzido. relacionar-se com os demais. Caso Romeo Romeo é uma criança de seis anos que só se interessa por suas baquetas. cada membro da equipe é mais um entre vários.

ao invés de vir me bater como da primeira vez. Romeo parou também e começou a me olhar. 15 . mas como pontuou Maleval. Nesse momento. era como se eu imitasse talvez. mas não produziu o som que eu havia feito. ele imitou o meu gesto. a posteriori. mas para minha surpresa. quando encontrei Romeo nessa situação como se nada ao redor existisse. O fato é que ao produzir o som. um índio. correu de encontro a mim e começou a me bater. acrescentando ao gesto o som. produziu um outro efeito. Ele começou a ir atrás de mim. arrisquei uma outra maneira de aproximação que não aquela usada tantas e tantas vezes. ―é uma palavra vazia‖ 10 que está conectada a uma significação. antes de tudo. É importante frisar que a voz não serve apenas para a comunicação. ele começou a correr comigo numa mesma direção. Esta intervenção demarcou um corte do significante no Real. Mais uma vez fica evidente essa conexão intermitente. mas desconectada de um sujeito que não tem nada a ver com seu estado emocional. a conexão entre a voz e o gesto com a corrida. Quando Romeo começou a correr pra me bater novamente. Com a mão tampando a boca.Certo dia. A partir dessa intervenção algo foi produzido como uma resposta diferenciada. Romeo parou imediatamente de batucar. É nesse sentido que Lacan pontuou que os autistas são. Comecei a fazer um barulho estranho com a boca. ―verbais‖11. como se me convidasse para correr com ele novamente. Imediatamente ele começou a correr e dirigiu seu olhar à mim. como se estivéssemos disputando uma corrida. a voz parecia representar algo invasivo para ele. certo grunhido. Por isso fiz novamente o mesmo som com o mesmo gesto. onde o Outro não é inexistente. Se em um primeiro momento. Mas nada disso me veio a mente naquela hora. Alexandre. Esse pequeno fragmento pode servir de exemplo para demarcar a importância de uma intervenção ―não-padronizada‖. 10 11 STEVENS. já que ele interrompeu a atividade masturbatória com as baquetas e me incluiu no circuito pulsional que até então recusava qualquer possibilidade de laço. é um fantasma que pode surgir de forma abrupta. permitindo a essa criança o lugar de sujeito da enunciação. Em seguida eu fiz o mesmo. Sabemos que a voz pode ser um elemento extremamente invasivo para os autistas e esse movimento brusco de Romeo pode ter sido uma reação contra essa invasão. Depois de algumas voltas pela sala eu parei de correr. Para os autistas o problema é que a voz carrega em seu enunciado algo sem valor. Aux limites du lien social : les autismes. Xerox. Ibidem. eu saí correndo. Há um gozo que acompanha a voz que está carregada de elementos emocionais. Estabeleceu-se então.

não são simplesmente obrigações cotidianas. Como já vimos. Talvez o gesto de tampar a boca possa ter dado certo contorno para essa voz destituída de sentido. deixando de ser puramente gozosa e se elevando ao estatuto do significante. Portanto. mais do que o formato em que o atendimento é realizado e o espaço utilizado para isso. a hora das refeições. o banho e a escovação dos dentes. com crianças e mais de um profissional numa mesma atividade. Na Antenne a proposta terapêutica tem como um de seus pilares a particularidade do uso que os profissionais fazem da instituição. Sobre esse ponto. no caso descrito acima. o aspecto fundamental de uma instituição é oferecer dispositivos que possam funcionar como suplência para o tratamento destas crianças.Entretanto. Não sei quais foram os desdobramentos dessa intervenção. a hostilidade que esta presença tem para tais sujeitos depende do posicionamento que o profissional assume perante aquele. Esse relato é uma tentativa de achar um ponto de encontro entre a particularidade do caso clínico e a instituição. embora eu saiba que algo de novo foi produzido por esse sujeito a partir disso. durante todo o tempo se trabalha como parceirosintoma destes sujeitos que a qualquer momento podem trazer algo que particularidade do caso. esse encontro com Romeo ocorreu na minha última semana de estágio na Antenne. o que realmente esclareça a 16 . A meu ver. É importante que todas as atividades realizadas tenham um caráter clínico. Resumindo. As atividades realizadas nesses moldes dispersam esse saber centrado no profissional quando este responde pela sua especialidade. O fato de ser um grupo de profissionais a trabalhar com um grupo de crianças pode funcionar como catalisador deste gozo que está condensado. pois a atmosfera é uma resultante da operação realizada no espaço que permite estabelecer um vínculo entre as pessoas. servi-me de parceiro-sintoma para ajudá-lo a tecer a construção deste jogo de diferenças que só foi possível através da inserção de um discurso ―fora do discurso‖. Alguns autores advertem sobre o atendimento individualizado com crianças autistas ao afirmarem que esse encontro a dois pode vir a ser insuportável para elas e pode presentificar o avassalamento que carrega o saber do Outro. assumiu uma dimensão simbólica quando esteve associada ao gesto. Infelizmente. tomo um texto de Ciaccia onde ele coloca a importância de se criar uma atmosfera que seja menos hostil. a voz que estava sem sujeito. O trabalho é realizado em grupo. É muito pertinente essa colocação. O momento de levar as crianças até a clínica (que se situa em uma pequena cidade ao lado de Bruxelas).

2007. A prática do Ato. Kusnierek.75. Inventar a psicanálise na instituição. 2007. Ed. Referências bibliográficas Di Ciaccia. Xerox. Forense Universitária.Janvier 2008 17 . A. pp: 21-26. Aux limites du lien social : les autismes. Antenne 110. A. Pertinências da psicanálise aplicada. Rio de Janeiro Ed.. 2007.importa para o tratamento é permitir o acesso dos pacientes ao lugar da palavra. Rio de Janeiro. Virginio Baio. Forense Universitária. Stevens.. Rio de Janeiro Ed. M Pertinências e limites da prática entre vários. Bruxelles. Pertinências da psicanálise aplicada. Stevens... Feuillets du Courtil n° 29 . Ed. Revue Preliminaire. Pertinências da psicanálise aplicada.. Di Ciaccia. da fala pela criação de uma atmosfera saudável. Forense Universitária. A. A.. 2000. pp: 69. pp: 161-166. Une instituition et son atmosphère. pp: 76-85. Editorial Jean-Robert Rabanel.

só reforçaria o objetivo destas linhas. Ainda que hoje designe apenas uma atividade assalariada. Ao contrário. ―trabalho‖. delimitando certa compreensão do tratamento psíquico e problematizando uma possível relação deste com o trabalho em equipe na construção de um caso clínico. portanto. à última das questões. também simples. work team. Abstract: The article intends a discussion about the work in a mental health institution. de problema para o indivíduo que se põe a executar uma tarefa determinada por outrem. psicanálise. o título do artigo aqui apresentado é bastante simples e de uma falsa clareza. a um esforço do corpo por um determinado número de horas diárias. Psicólogo da Hospitalidade Integral do CEPAI/FHEMIG. 18 . ainda. trabalho em equipe. Isso porque o substantivo em latim remete a um aparelho dotado de três estacas cujo acionamento torturava o operador. pois já traz nele incutidas algumas questões. mas que comportam certa complexidade: por qual motivo se propõe um texto que aproxime ―tratamento psíquico‖ e ―trabalho em equipe‖? Há relação possível entre as duas expressões? Qual seria ela? E. que é o de promover uma 1 Este artigo foi composto a partir de aula ministrada para funcionários da rede FHEMIG inserida no minicurso “Construção do Trabalho em Equipe”.O tratamento psíquico e o trabalho em equipe1 Bruno Curcino Hanke2 Resumo: O artigo objetiva uma discussão acerca do trabalho em uma instituição de saúde mental. a uma ação psíquica que se estende por mais tempo do que nossa carga horária de trabalho. principalmente nos dias atuais. psychoanalysis. poderíamos inverter o título proposto: ―O trabalho em equipe e o tratamento psíquico‖? De início. mas também. Nesse sentido. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (área de concentração Estudos Psicanalíticos). diríamos que a inversão dos fatores não alteraria o produto. realizado no Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI/FHEMIG) em março de 2009. um dos pontos que mais se destacaram foi o seu caráter de tormento. clinical case. Keywords: psychic treatment. Palavras-chave: tratamento psíquico. Introdução Desde que os estudiosos do trabalho ou do campo da saúde do trabalhador retomaram o termo latino que deu origem à atitude laborativa (tripalium). 2 Psicanalista. caso clínico. sempre nos remete a uma ação física. It delimits a psychic treatment understanding and inquires a feasible report between this and the work team in a clinical case construction.

o profissional começou a indagar se a paciente tinha alguma lembrança quanto à origem de tal odor. Partindo do cheiro de pudim queimado. depressão. Dentre os principais sintomas estavam um grande desânimo. Um fragmento de caso Moça de 30 anos. Em resposta à questão. Com a chegada da missiva. portanto. sensação de ineficiência no trabalho. a perda do olfato e a existência de sensações olfativas subjetivas. ―tratamento‖ e ―psíquico‖. perda de apetite. que por causa de uma cárie do osso etmóide. 19 . assume a estratégia de tentar buscar algo de subjetivo (algo que fosse singular à paciente) para chegar à história da construção destes sintomas no caso. que eram filhas do patrão. mas a função olfativa estava prejudicada. associava-se uma alucinação olfativa: um cheiro de pudim queimado. chama a atenção do terapeuta. a partir disso. ―equipe‖ se coloca como palavra-chave para o andamento (bom ou ruim) do serviço de atendimento a pacientes que apresentam distúrbios psiquiátricos. que. A este último. A metodologia contará com três etapas. a apresentação de um fragmento de um caso clínico. No momento em que as meninas se divertiam zombando da governanta. sua memória a dirigiu ao dia em que recebera uma carta de sua mãe. já que imaginavam se tratar de uma carta de felicitações pelo aniversário que só aconteceria dois dias depois. o que significava que a paciente tinha sensibilidade à pressão tátil local. mas a queixa de novos sintomas sinalizou ao médico clínico que não se tratava de uma simples afecção local. a secreção purulenta do nariz estava numa fase de melhora. Na época do encaminhamento ao terapeuta. governanta na casa de um diretor de fábrica. Aqui. as crianças da casa onde trabalhava iniciaram uma brincadeira em que tentavam impedir que a moça lesse a correspondência. A moça foi encaminhada à terapia após realizar tratamento de uma rinite supurativa que persistia – soube-se mais tarde. o fato de as meninas não terem mãe as aproximava da paciente e estreitava um laço de carinho entre elas. quais sejam. uma pequena digressão a uma compreensão específica do que seria um tratamento psíquico e uma articulação entre os dois primeiros tópicos para a elaboração de algumas considerações sobre o trabalho em equipe. e através do que se mostrava objetivamente na sintomatologia. fadiga. as três sentiram um forte cheiro: haviam se esquecido do pudim que estavam assando. acerca da convergência intrínseca aos termos ―trabalho‖. Ela era responsável pelo cuidado de duas crianças. O interior de seu nariz estava inteiramente indiferente à dor e sem reflexos. ainda mais dentro de um Centro Psíquico. Por se tratar do sintoma mais diferente.discussão.

a tal ponto em que ela mesma se colocasse como a substituta desta. a governanta quis tirar de sua mente momento e sentimento vividos. que não as deixaria e que ocuparia o lugar da mãe junto a elas – ela estaria descumprindo sua promessa se saísse da casa. O discurso da paciente dá um importante sinal: havia um parentesco distante entre a mãe da governanta e a falecida esposa de seu patrão. os afetos envolvidos levavam a uma interpretação arriscada: a paciente estava apaixonada por seu patrão. Além disso. De maneira concisa. A aspiração em retornar à companhia da mãe se referia ao incômodo de uma situação que a empregada. Segundo a paciente. conclui o terapeuta que este conflito que surgiu entre os afetos da paciente fez do momento da chegada da carta um trauma. se colocava na posição antes prometida – a de mãe das crianças. mas preferia não saber da existência dele. fora o afeiçoamento das crianças. não houve mais nenhuma oportunidade de conversa com tamanha intimidade. a cozinheira e outra governanta criaram contra ela. Logo. algo que ela gostaria de esquecer. já que ela. e que a associação do cheiro a ele continuava como um símbolo disso. Negando qualquer timidez referente à atração por seu patrão. sempre muito reservado. Tal episódio despertou a esperança de um amor. o terapeuta pergunta se havia. o particular cheiro só poderia persistir como sensação olfativa subjetiva graças a um ponto que a governanta havia censurado de sua lembrança. ela justificava a angústia da situação pela diferença de classe social entre os dois e pelo fato de haver uma relação empregatícia aí envolvida. diante do carinho entre ela e as crianças. relatou que já sabia do sentimento. e. a paciente concorda com a colocação do terapeuta. Desse modo. com isso. Assim. começou a discutir sobre a educação das crianças com ela e que olhara para ela de maneira significativa. através da brincadeira. assim. e porque a carta também a colocava numa situação de conflito. o respeito por seu patrão e o voto de confiança que deu à mãe das meninas. Entretanto. o que lhe privaria de qualquer independência que pudesse ter se se enamorasse de outro homem. Assim sendo. Atento ao fato de que a razão apresentada não era suficiente para que o cheiro de pudim fosse tão marcante. e que ela havia prometido à senhora em seu leito de morte que se entregaria aos cuidados das meninas. avisou ao patrão que iria embora. tal sentimento dirigido à figura de seu patrão começou quando ele. ela sentia o carinho das crianças. já que era seu desejo voltar para a casa materna.O intenso cheiro de queimado fez uma marca na memória da paciente. 20 . mas ele respondeu de maneira muito amável que seria melhor ela pensar mais sobre o assunto. pois havia acontecido justo no momento em que. um motivo que tornasse sua ligação a elas tão forte.

o cheiro de pudim queimado se tornou menos freqüente e mais fraco. ainda que resumidamente. sobre o que é anímico no ser humano‖. se trata do caso Miss Lucy R. à compreensão de Freud acerca do tratamento psíquico. E continua: ―Um desses meios é 3 4 A escolha por tal caso será justificada adiante. e ia desaparecendo na medida em que isso era mais trabalhado em terapia. se ela não tomasse cuidado para que isso não acontecesse de novo.Com o passar dos atendimentos.. Na despedida. agora. e fica guardada a cena dos homens. além dos moradores da casa. tais como o fato de Freud. ter tentado trabalhar com Lucy a partir do método hipnótico (prática que ele viria a abandonar mais tarde) e depois ter desenvolvido os atendimentos com esta paciente a partir da ―técnica da pressão‖4. A cena da fumaça do charuto é anterior à cena do pudim queimado e a violência da reação do patrão faz com que a paciente se lembre ainda de outra cena: uma senhora conhecida dele beijou as duas crianças na boca. escrito por Sigmund Freud no fim do ano de 1892. uma segunda cena em sua memória: um almoço em que. publicado no livro ―Estudos sobre a histeria‖3. A fúria do patrão com relação à situação caiu sobre a paciente de tal maneira que. O que foi apresentado acima. Isso até que a paciente diz estar sendo importunada por outro odor. 21 . Método utilizado por alguns profissionais da época que consistia em pressionar a testa do paciente de maneira a facilitar a lembrança de cenas que pudessem ter um significado patogênico no caso em questão. em primeiro lugar e de maneira direta. havia um convidado amigo do patrão. intitulado ―Tratamento psíquico (ou anímico)‖. ao que o patrão esbraveja: ―Não beije as crianças!‖. Tratamento psíquico Em texto de 1905. Mais uma punhalada. Aparece. Embora muitos pontos não tenham sido explicitados no presente artigo. antes. tratamento que parte da alma. Passemos. o que fez a paciente questionar possíveis sentimentos que o patrão pudesse ter demonstrado naquela primeira conversa tão ―amável‖. inicialmente. ―ele confiaria a educação das crianças a outras mãos‖. o objetivo aqui é de tomar o tratamento realizado como ponto de partida para uma discussão acerca do tratamento psíquico e sua aproximação com o trabalho de equipe em um serviço de saúde mental. tratamento – seja de perturbações anímicas ou físicas – por meios que atuam. ao trazer à tona o sentimento amoroso. o senhor tenta beijar as crianças. que já estavam fumando seus charutos naquele momento. parecido com o de fumaça de charuto (antes encoberto pelo cheiro de pudim queimado). Aquela situação foi sentida pela paciente como uma ―punhalada no coração‖. Freud diz o seguinte: ―’Tratamento psíquico’ quer dizer. então.

sobretudo a palavra. cabe aqui trazê-lo na medida em que demarca a palavra como objeto precioso do trabalho e da experiência analíticos. acreditar em bruxarias para que se entenda o poder do discurso]: as palavras da nossa fala cotidiana não passam de magia mais atenuada. 267). Fazer com que apareça um sujeito detentor de suas potencialidades diante da vida através da palavra (e não um submetido aos agouros sintomáticos) deve ser. a elucidação que o exemplo do caso Lucy nos oferece. assim como o método da sugestão. sobre seu sentimento. por exemplo. podemos dizer. A palavra se faz importante na proporção em que ela faz laço social para além do que uma sintomatologia orgânica apresenta. de maneira a poder iniciar uma direção para a sua 22 . 1905. Não seria enigmático acrescentar a este tópico o termo ―trabalho‖. que o ganho da governanta no tratamento com Freud (além de ter sua sensação olfativa subjetiva diminuída e situar-se frente ao sentimento amoroso por seu patrão) foi o de poder dizer algo sobre o seu desejo. e a possibilidade que se abre com isso é a de sair do automatismo dos sintomas. então. p. a função de um tratamento psíquico. É importante localizar o leitor quanto a este artigo de Freud. a despeito de as duas técnicas terem sido abandonadas pela prática analítica corrente. que só enrijecem as relações do sujeito com o outro e com o mundo. e as palavras são também a ferramenta essencial do tratamento anímico‖ (FREUD. 267). para o paciente. dado que dele pode-se tirar um saber não apenas sobre a doença. p. num tratamento psíquico. Tomemos. tendo um grande número de colaboradores. falar do sofrimento que o acomete pode ser uma oportunidade para que ele dê outra vazão. já que se trata de um escrito publicado numa obra de dois volumes sobre a medicina. para o auto-abandono melancólico. Com esta pequena introdução. pois o profissional não chega às elaborações do paciente. para uma fantasia neurótica. No entanto. a relevância da palavra vem do fato de que. Neste sentido. para um delírio psicótico. por conseguinte. mas sobre o modo de satisfação que o sujeito consegue com o seu sintoma e quais arranjos se dão dentro da família a partir de sua influência. e ultrapassar a objetividade de seu sintoma. Foi redigido numa época em que a prática freudiana já havia se deparado com alguns obstáculos que o trabalho pela hipnose expunha. Mas será preciso tomarmos um caminho indireto para tornar compreensível o modo como a ciência é empregada para restituir às palavras pelo menos parte de seu antigo poder mágico (FREUD. Escreve Freud: E não estará tão errado assim [quem considerar que é preciso. entre outros pontos. 1905. de certo modo.

negá-la. dado que os sintomas não deixam de ser a forma que o paciente encontrou para estar no mundo. 2003. É a oferta de uma escuta que busca sempre um caminho para uma possível subjetivação da objetividade sintomática que se mostra. E o profissional que oferece um tratamento psíquico se coloca a escutar o quê? Pelo viés da psicanálise. Em última instância. p. p. A expressão inglesa enuncia de forma bastante clara o ―trabalho através‖ (―perlaboração‖ na edição brasileira da obra freudiana.cura. que delimita o surgimento dos sintomas numa cadeia de eventos e afetos singulares da história do sujeito. Destarte. Diz Lacan que ―trata-se realmente de um trabalho. o ponto a seguir é o trabalho em equipe. Diferente de ―contar uma história‖. é fundamental que o profissional também fale. isto é. falar. sem. p. 170). 1953. das repetições que não são percebidas (mas que dizem muito do sintoma em questão) e da censura que acomete o sujeito no instante em que se põe a expor algo de si. escuta-se a maneira pela qual cada um dá conta de sua realidade (a psíquica). e tanto é um trabalho que se pôde dizer que ele exige uma aprendizagem. sem trabalho. 250) – aprendizagem que se faz no trabalho e vice-versa. no entanto. o tratamento ―é justamente essa assunção de sua história pelo sujeito. independente se trabalhando num hospital psiquiátrico. a escutar e deixar que se construa uma história. saber que se constrói na fala. 258) – outro. é oferecido um tratamento psíquico aos pacientes a partir do momento em que o profissional se coloca a escutar algo no discurso deles que fale sobre eles mesmos. entenda-se. no que ela é constituída pela fala endereçada ao outro‖ (LACAN. e chegar a ver nessa aprendizagem o valor formativo desse trabalho‖ (LACAN. 23 . pode-se afirmar que. Pelo contrário. traduzido do alemão Durcharbeitung) que é o de falar apesar das lacunas de memória sobre uma possível origem da doença. que assume uma postura diferente daquele ouvinte passivo que acompanha um contador de histórias. aqui tem uma ―função de historização‖ (BERNARDES. que ele discuta o caso com os colegas (vindos de diferentes áreas) que compõem a equipe para que outros elementos possam construir o caso dos pacientes em tratamento. Tomando nossa prática diária no tratamento de crianças e adolescentes. 1953. procurando ir além da busca resolutiva dos medicamentos. A partir disto. há um trabalho dos dois: o da escuta e o do working through. Junto a essa escuta. é um tratamento que tenta colocar o sujeito como seu principal operador.

Neste sentido. é pelo furo do saber profissional. Portanto. p. Logo.. no sentido lacaniano. também se apresenta uma realidade psíquica diferente. não se refere a algo que é da imaginação. Elisabeth.Trabalho em equipe E se é fundamental que o profissional fale. 1998. e não tumultue a realização de um tratamento psíquico com os pacientes que procuram o serviço. dentro da equipe é importante haver espaço para que se diga sobre os incômodos que perpassam o trabalho dentro da instituição. é de antemão que se deve explicitar que as relações de trabalho são propícias à construção de um imaginário5 social onde tudo cabe (desde a exaltação do 5 “Imaginário”. E. ainda. Cf. em meio às relações profissionais e em que isso pode atrapalhá-las. 53) – é a partir do caso clínico que trabalhamos. os profissionais também são sujeitos). É claro que enfrentamos alguns obstáculos no percurso de um tratamento. se continua sendo fundamental que o profissional fale. Assim sendo. 1999). Por construção do caso clínico (VIGANÒ. ao que a palavra traz à tona. e não pela interpretação (acachapante de início). que podemos trazer à luz o sujeito que deve assumir seu próprio tratamento. no sentido aqui apresentado. 371. pois este seria um tratamento psíquico possível para que se esvazie. e o modo pelo qual a equipe se coloca a elaborar (outro termo para ―trabalhar‖ aqui) sua função a partir da impossibilidade de um saber absoluto sobre o paciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. se é assim. é compromisso de trabalho questionar ao sujeito e seus responsáveis as prováveis cumplicidades que existem na manutenção do sintoma do qual o paciente sofre e que. como o lugar do eu por excelência. fazem com que perpetue um enredamento na malha do jurídico. na medida em que. com seus fenômenos de ilusão. mas “se define. que se referem desde a dificuldade da família em tomar para si o filho até a entrada de questões judiciais e sociais. deve-se ficar atento ao equívoco no discurso. é na justa proporção em que a construção do caso clínico depende de uma mínima interação entre os membros da equipe. mas é trabalho da equipe fazer com que o sujeito não ―desapareça‖ em meio a um caso social (VIGANÒ. da mesma forma que no tratamento psíquico aos pacientes. o termo em ROUDINESCO. em nossa singularidade (afinal. digamos. Michel. PLON. Dicionário de Psicanálise. muitas vezes. limites e condutas frente a determinado caso. a cada um de nós. Interação para que a discussão clínica possa ser um momento para o cálculo e a delimitação de alcance. o sintoma institucional. p. captação e engodo”. o tratamento psíquico coloca-se como uma problematização igualmente para a equipe. entendemos a forma de trabalho que se pauta pela escuta do paciente naquilo que ele apresenta na instituição e nos traz a possibilidade de alinhavarmos a uma história o aparecimento de um sintoma. 24 . 1999. por exemplo. E.

criar uma nova posição é dar valor ao tratamento com a palavra que permite contato social. pois pode atrapalhar a transmissão ao coletivo (à comunidade. Ficar atento a isso é possibilitar que a equipe possa criar uma nova posição diante do enfrentamento dos problemas com pacientes ou institucionais. que ele não intensifique. Em vez da ideologia. mas que. com atravessamentos institucionais e internos à equipe. já que os laços sociais sempre são laços discursivos. do trabalho guiado unicamente pelos laços de simpatia (ou antipatia) pelo outro. seria errado avaliar que somente uma equipe de psicanalistas efetivaria uma boa direção ao tratamento do caso. dar valor ao tratamento com a palavra é trabalhar a partir da transferência com o trabalho. p. como afirma Slavoj Zizek: ―ideológica é uma realidade social cuja existência implica o não conhecimento de sua essência por parte de seus participantes. Assim. procuramos o arranjo de um grupo de trabalho. e afastar qualquer ideologia capenga de trabalho. Não nos referimos à equipe de trabalho tampouco como um ―grupo‖ apenas. principalmente. Antes. já que o termo pode comportar um caráter amorfo. explicitadas no artigo) como problemática clínica para se pensar a dinâmica laboral em equipe. A despeito do fato de este artigo ter sido escrito baseado.serviço como um todo até a sabotagem dele). é importante que se diga que a qualidade do serviço é proporcional à qualidade das relações de trabalho que se dão dentro da instituição de saúde. de indiferenciação entre os membros. local onde podemos falar sobre ele e sobre o desejo de estarmos nele. tenha como norte a vida psíquica do paciente e que o entenda como sujeito ativo em seu processo de estabilização. na leitura psicanalítica de um tratamento psíquico. de acordo com o que foi escrito até aqui. Se o leitor se surpreende com o fato de ter sido utilizado um caso clínico de Freud como preâmbulo da discussão. ou seja. de uma equipe que contém diferentes saberes. Nesta direção. não deve perder de vista que tomamos aqui o trabalho (e suas derivações. ainda que o trabalho seja um tormento. De modo que devemos nos remeter sempre ao trabalho para que. o tormento que o sintoma já causa ao paciente. pois. dentro destas diferenças. aos pacientes e às suas famílias) sobre quais lugares os indivíduos ocupam dentro da vida institucional. 25 . a sua efetividade implica que os indivíduos não sabem o que fazem‖ (1991. 306).

repetir e elaborar‖ (1914). Rio de Janeiro: Garamond. 13. ―O segredo da forma-mercadoria: por que Marx inventou o sintoma?‖ In: Zizek. 1974. 265-285. Lacan. pp. 131-148. . O mais sublime dos histéricos . Freud – Vol. In: ______. 1998. 1999. Belo Horizonte: EBP-MG. 1998.. set. ―A construção do caso clínico em Saúde Mental‖. 371. 127142. ______. II. pp. Freud – Volume XII. 1974. n. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. 238-324.Hegel com Lacan. Curinga – Psicanálise e Saúde Mental. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Freud. In: ______. pp.Referências bibliográficas Bernardes. 50-59. Rio de Janeiro: Imago. ―Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise‖ (1953).. Dicionário de Psicanálise. ―Caso Miss Lucy R‖ (1892). Rio de Janeiro: Imago. 1974. Jacques. Elisabeth. Tratar o impossível: a função da fala na psicanálise. Zizek. Plon. 2003. Carlo. pp. 29 26 . 1991. Roudinesco. pp. pp. Slavoj. Rio de Janeiro: Zahar. Ângela C. In ______. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de S. Michel. Slavoj. ―Recordar. p. Rio de Janeiro: Imago. ―Tratamento psíquico (ou anímico)‖ (1905). Sigmund. Escritos. Voganò. Freud – Volume VII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. ______. 189-203. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. In: ______.

Em 1984. Especialização em Gestão Hospitalar. Abstract: This article intents to introduce a small description about the taking of the toy room as a therapeutical device to children and teenagers. Palavras-chave: brinquedoteca. A proposta de trabalho difundiu-se com maior abrangência na Europa durante a década de 70. subjetividade. Mestrado em Filosofia. Psicólogo da Hospitalidade Integral do CEPAI/FHEMIG. a importância de suas regras como forma de auxílio à organização psíquica. Mestre em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (área de concentração Estudos Psicanalíticos). subjective. na Escola Indianápolis. à orientação de crianças excepcionais e ao estímulo à aprendizagem. Discute a inserção de jogos e brincadeiras no tratamento. Psiquiatra. childhood. para transformá-las em importantes dispositivos do desenvolvimento infantil. infância. Diretor do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI) e do Complexo de Saúde Mental da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG) 2 Psicanalista.Brinquedoteca: de lugar de lazer a espaço terapêutico Augusto Nunes-Filho1 Bruno Curcino Hanke2 Marcelo Bizzotto3 Resumo: O artigo objetiva apresentar um pequeno histórico da construção da brinquedoteca como dispositivo terapêutico para crianças e adolescentes. de São Paulo. As brinquedotecas surgiram como espaços de valorização da brincadeira. adolescence. e considerá-los como possibilidade de expressão de subjetividade. Introdução As brinquedotecas surgiram no ano de 1934 nos Estados Unidos. It discuss about the implantation of the games and plays on treatment and the importance of their rules as a way of support to psychic arrangement and the importance to consider them as a possibility of expression of subjective. therapeutical device. é criada a Associação Brasileira de Brinquedotecas. o primeiro espaço nomeado como Brinquedoteca aparece em 1981. assumindo também funcionalidade terapêutica. No Brasil. momento em que estava ligada. em Los Angeles na Califórnia. Keywords: toy room. adolescência. dispositivo terapêutico. 3 Psicólogo do CEPAI/FHEMIG 27 . mais diretamente. A brinquedoteca é um espaço institucional que tem o objetivo de: 1 Psicanalista.

28 . livre do formalismo decorrente das situações estruturadas em escolas ou outro tipo de instituições. de um espaço que visa à valorização do bem-estar da criança ao oferecer-lhe outras formas de convívio dentro das instituições. No campo da saúde mental. assistentes sociais. despertar o interesse por novas formas de animação cultural. mas. pediatras. 4 Publicação Brinquedoteca do CEPAI: projeto terapêutico. A unidade dispõe de equipe de profissionais em diversas áreas da saúde mental como psiquiatras. Belo Horizonte. enfermeiros. estimular o desenvolvimento das crianças. agrega. . na sua inserção enquanto instrumento terapêutico. Oferece duas modalidades de atendimento para sua clientela – o Centro de Acolhimento à Crise (CAC) e o Ambulatório de Especialidades. a Observação Psiquiátrica e a Hospitalidade Integral com disponibilidade de leitos para todos os acompanhantes dos usuários que necessitarem de internação. Segundo a cartilha de lançamento da Brinquedoteca do CEPAI. ―a brinquedoteca. portanto.. elementos de inquestionável importância para o atendimento de qualidade dispensado à sua clientela‖ 4. Existe ainda na unidade o Lar Abrigado. pois. A Brinquedoteca do CEPAI O Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI) é a unidade do Complexo de Saúde Mental da FHEMIG cuja missão é o acolhimento de crianças e adolescentes menores de 18 anos completos que possuem graves distúrbios psíquicos. enquanto equipamento com função terapêutica e de humanização.Fhemig. . A preocupação com a qualidade do atendimento levou instituições de saúde a incorporar tais equipamentos às suas práticas assistenciais. fonoaudiólogos. principalmente. O CAC é composto pelo Acolhimento em Saúde Mental. fisioterapeutas e psicopedagogos disponíveis para atendimentos tanto no ambulatório quanto na hospitalidade integral. Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais .oferecer às crianças oportunidade de relacionamento com adultos de forma agradável e prazerosa. .valorizar o potencial criativo dos brinquedos e atividades lúdicas. as brinquedotecas funcionam como dispositivos importantíssimos não apenas na humanização do serviço. desvincular o valor lúdico do brinquedo do seu valor monetário ou afetivo. neurologistas. 2009. Trata-se. o Pronto Atendimento Psiquiátrico. Centro Psíquico da Adolescência e Infância. terapeutas ocupacionais. . psicólogos. criado para acolher as crianças encaminhadas de Barbacena no início do processo da reforma psiquiátrica.

6 Nunes-Filho. em suas unidades. voltadas para o atendimento a crianças e adolescentes usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Belo Horizonte. 2007. Tal atividade adquire maior importância pelo fato de grande parte da clientela atendida ser oriunda de cidades do interior. 5 Publicação Brinquedoteca do CEPAI: projeto terapêutico. número 13. adolescentes. Crianças & Adolescentes. com a construção da brinquedoteca.A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais tem disponibilizado brinquedotecas. como afirma o presidente da Fundação na cartilha publicada quando da inauguração do espaço. Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais . Com ela propõe despertar em seus clientes interesses diversos. Centro Psíquico da Adolescência e Infância – um desenho organizacional: saúde mental. In: Revista de Psiquiatria & Psicanálise. Para cumprir tal finalidade. O objetivo da instituição é amenizar. 2009. o CEPAI incorpora a construção da brinquedoteca em seu Cotidiano Terapêutico como um importante lugar para o tratamento de seus pacientes. Uma vez que ―a atenção dispensada à saúde mental da infância e adolescência encontra-se defasada dos avanços sociais contemporâneos‖6. Centro Psíquico da Adolescência e Infância. abrindo-lhes possibilidades de relações ao promover a valorização da capacidade de invenção dos usuários do serviço através do brincar. usuários e servidores do CEPAI‖5. cada uma das brincadeiras disponíveis e oferecidas é utilizada segundo critérios particulares a cada criança ou adolescente atendido.Fhemig. familiares. educação. Augusto. a brinquedoteca do CEPAI surge. Sua criação disponibiliza para a unidade um generoso espaço voltado para atividades lúdicas e terapêuticas a ser desfrutado por crianças. nesse contexto. ―A construção da Brinquedoteca do CEPAI representa importante passo na consolidação de novas práticas públicas na área de saúde mental da infância e adolescência. Belo Horizonte. cultura e inclusão social. Centro Psíquico da Adolescência e Infância – Fhemig. 29 . Por tratar-se de um centro de referência psiquiátrica para crianças e adolescentes para o Município de Belo Horizonte. Vol 7. Região Metropolitana e interior do Estado de Minas Gerais. com o objetivo de oferecer um espaço diferente do que estamos acostumados a ver nos hospitais psiquiátricos. impactos institucionais muitas vezes necessários no tratamento de nossos pacientes. O resgate de brincadeiras tradicionais promovidos através da brinquedoteca contribui para a preservação do patrimônio e a identidade cultural da sociedade.

contra-indicações e referência do profissional responsável pela atividade de cada paciente. a particularidade de cada usuário. Na prática institucional. no entanto. ressignificar questões que lhes seriam praticamente inacessíveis pela utilização de outros meios. organizar um quadro com indicações. sendo necessária a discussão. antes de mais nada. Deve-se considerar. pois. A existência delas é. estabelecem-se novas formas de posicionamento subjetivo diante dos impasses relacionados ao sofrimento psíquico de cada um. fundamental uma vez que tais regras são representantes legítimos das próprias regras sociais. O estabelecimento de regras torna-se essencial para a utilização do espaço da brinquedoteca. nas reuniões clínicas. tem na função terapêutica seu aspecto fundamental. ela deve sistematizar também normas e horários para a utilização da brinquedoteca por usuários e funcionários. Por meio de jogos e brinquedos. um lugar onde o paciente pode organizar e estruturar seu discurso de forma mais clara uma vez que regras e convenções são necessárias para a realização do jogo.Funcionamento Partimos do pressuposto que a brinquedoteca. No decorrer das atividades. Da mesma forma que a instituição estabelece horários para dormir. as regras necessárias ao acontecimento de cada atividade não devem sobrepor-se à singularidade do sujeito. no entanto. tomar medicação. muitas vezes. da brinquedoteca enquanto dispositivo que contribui para a melhora do paciente. articulada às demais atividades realizadas em outros espaços no CEPAI. a criança ou o adolescente pode expressar-se e. A flexibilização do tempo de permanência e o horário de utilização do espaço serão sempre condizentes com o tratamento de cada caso. Quadro de Funcionamento da Brinquedoteca do CEPAI 30 . alimentar. A experiência com crianças e adolescentes explicita a importância de atividades lúdicas para a condução do tratamento em grande parte dos nossos pacientes. A brinquedoteca proporciona. Para o funcionamento adequado e racional da brinquedoteca deve-se.

mas devem permear as proposições para cada atividade. Para que se estabeleçam as atividades indicadas para cada caso é necessário permitir inicialmente uma maior flexibilização nas atividades. tornando a imprevisibilidade e a contingência aliadas na construção desse processo. Uma Brinquedoteca no CEPAI A construção de uma Brinquedoteca no CEPAI tem como objetivo principal oferecer ao seu usuário um dispositivo clínico com características lúdicas para a condução individualizada do tratamento de cada um deles. O importante é que a equipe multidisciplinar saiba qual paciente freqüentará a brinquedoteca. Dentre os objetivos da brinquedoteca também merecem destaque os seguintes ítens: . uma vez que tais atividades são proporcionais à qualidade do uso que delas foi feito por cada um dos dispositivos utilizados na brinquedoteca pelos diferentes profissionais. 31 . A escolha do programa a ser assistido deve ter implicações no projeto terapêutico desenhado para cada paciente. A atividade de assistir a um programa de televisão. pois. por exemplo. Para o paciente é importante que ele saiba qual a finalidade de cada uma das atividades agendadas. não deve acontecer de forma aleatória ou gratuita. Desenvolver relações interpessoais. Outro ponto importante sobre a utilização eficiente do espaço da brinquedoteca refere-se à valorização da atividade desenvolvida e às possibilidades de produção que cada uma dessas atividades proporciona. Questões dessa ordem não precisam ser necessariamente explicitadas. a oferecer um leque de possibilidades e oportunidades para a construção de projetos terapêuticos lúdicos que garantam ao usuário o local adequado ao seu tratamento. Como escolher o programa? Por que optar pelo programa X e não pelo programa Y? E depois de assistir o programa? Por que não convidar o espectador a fazer um desenho ou um comentário sobre o assunto abordado? Por que não abrir uma roda para discutir o tema do programa? Fica a critério do profissional a decisão sobre como tais atividades serão realizadas desde que não se perca de vista o desejo colocado pela criança ou adolescente naquele momento. em qual horário e qual o objetivo clínico daquela atividade específica para aquele paciente A equipe é convocada. valorizando o processo de socialização da criança ou adolescente.A utilização do quadro não deve ser o principal ou o único recurso para sistematizar a utilização da brinquedoteca pelos usuários e profissionais.

Favorecer o processo de desenvolvimento psicopedagógico. Estimular o potencial criativo e expressivo do usuário. Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais . digno de orgulho e merecedor de todo o agradecimento àqueles que possibilitaram sua realização. Vol 7. 2009. educação. Amenizar o sofrimento psíquico através do ato de brincar. A Brinquedoteca do CEPAI configura-se. Centro Psíquico da Adolescência e Infância – Fhemig. Nunes-Filho. A brinquedoteca do CEPAI é um dos importantes passos dados na atenção à saúde mental da infância e adolescência. Belo Horizonte. como espaço que deve ser utilizado das mais diversas formas pelas mais variadas categorias profissionais que podem apropriarse da atividade lúdica para agregar qualidade diferenciada ao atendimento das crianças e adolescentes. Augusto. 2007. Centro Psíquico da Adolescência e Infância. . In: Revista de Psiquiatria & Psicanálise.. enfim. . 32 .Fhemig. Belo Horizonte. cultura e inclusão social. número 13. . Centro Psíquico da Adolescência e Infância – um desenho organizacional: saúde mental. Crianças & Adolescentes. Referências bibliográficas Publicação Brinquedoteca do CEPAI: projeto terapêutico. Proporcionar momento de prazer e entretenimento a partir de atividades lúdicas.

Daniela Viola3. é possível diferenciar a impotência assim gerada daquilo que é impossível recobrir. o estabelecimento de procedimentos que diferenciaram o pedido de atendimento.O acolhimento da solicitação de atendimento na clínica-escola Ângela Vorcaro1. which seeks the university’s clinic and what one can gain from the encounter with the trainee. devido a condições do serviço. Investigate what is offered to the person. devese à indiferenciação entre o solicitante que faz um primeiro movimento de procura de tratamento. Observa-se que o que torna inócua as conseqüências da procura de tratamento. Abstract: This paper discusses the impact of psychoanalytic speech in the university from a reflection on the basis of the clinical internships existing at the psychology major degree’s program. revelando a ficção constituída de uma espera que tornava impotente qualquer perspectiva de solução. Christina Dornas e Júlia Alves4 Resumo: O presente trabalho propõe discutir a incidência do discurso psicanalítico na universidade a partir de uma reflexão acerca da função dos estágios clínicos no curso de psicologia. acolhimento. A intensa procura pelos serviços de atendimento psicológico na clínica-escola da universidade gera as chamadas ―filas de espera‖ que perduram sem alternativa. Investiga o que é oferecido ao sujeito que procura o Serviço de psicologia aplicada e o que esse sujeito pode obter a partir do encontro com o estagiário. psychoanalysis. Keywords: training clinic. reception. Só a partir desta distinção é possível investir na construção de uma resposta mais eficaz às solicitações. demonstrando que 1 2 procedimentos técnicos ultrapassam a mera Profª do Departamento de Psicologia da UFMG Profª do Departamento de Psicologia da UFMG 3 Psicóloga. while ―subject‖. psicanálise. Palavras-chave: clínica-escola. quando interrogamos a racionalidade administrativa que orienta esse acúmulo de demandas. o solicitante de uma demanda pontual e o solicitante interessado efetivamente em um atendimento. gerando o grande volume de demandas. Por isso. Mestre em Psicologia 4 Psicólogas 33 . No trabalho realizado entre 2006-2009 no Serviço de Psicologia Aplicada do Departamento de Psicologia da UFMG (doravante SPA) constatamos que o montante inicial de buscas ao serviço se reduz a 25% de solicitações efetivas. Entretanto. o tratamento da queixa e a psicoterapia propriamente dita favoreceram a articulação do solicitante ao serviço. Ingrid Gianordoli Nascimento2.

A noção de sujeito. que se esgota no fato de ser enunciada. sem implicar-se na consideração de como concebe a sugestão e a orientação que esperam. o sujeito apresenta uma ―demanda de sutura‖. ela diz respeito ao que aqueles que recorrem ao serviço de psicologia aderem: a expectativa dos solicitantes para re-estabelecerem o bem-estar é a de sugestão e orientação técnica. a despeito de sua origem teórica específica na psicanálise. conduziu Rinaldi (2005 e 2006) a demonstrar que a noção de reabilitação psicossocial orienta a objetivação da recuperação da autonomia e do poder de contratualidade dos sujeitos afetados pelo sofrimento psíquico. Acrescentamos que. mas à reprodução dessa posição de submissão que os alienam à idéia de que bastaria cumprir procedimentos sugeridos por um especialista para um re-estabelecimento pessoal. Buscando ser classificado no campo objetivável do saber científico. tem como resultado a cronificação da queixa. É o que exige considerar a operacionalização de alguns conceitos que. pois a singularidade do solicitante está subsumida a execução do que dizem para ser feito. tratar a queixa exigirá deslocar-se dessa alienação. instituíram-se como premissas de trabalho norteadoras da prática clínica: a configuração do mal-estar. o mal estar desse sujeito duplica-se. A configuração do mal estar: A investigação de discursos e práticas dos dispositivos de cuidados em saúde mental. A busca infindável de um serviço a outro. Localiza-se uma fala socializada.racionalidade administrativa. 1. a moeda de circulação 34 . assim atrelado à de cidadania. num exercício estéril. anônima. Afirmando a articulação entre uma enunciação e o lugar discursivo em que ela é produzida. da queixa. a consideração da hipótese do inconsciente e seus desdobramentos. argumenta a autora. A. sem encontrar ponto de parada em que sua demanda se defina. (Teixeira. em que o saber adquirido nos serviços faz.1990). mas apresentam-se como posição ética. cujo discurso reproduzem. a diferenciação entre sujeito-cidadão e sujeito-dademanda. portanto. Obviamente. responde assim ao discurso que o exclui no próprio lugar em que lhe intima. Grande parte dos solicitantes que procuram o SPA está submetida não apenas aos encaminhamento de especialistas em saúde e educação. se a procura do serviço é prescrição da opinião genérica. redunda em práticas de compreensão e de convencimento pedagógico que estão votadas a um modelo tutelar universalisante pré-estabelecido sobre o que é bom para o sujeito. Por isso. Costa (2006) remete-se à configuração da queixa como mosaico de padecimentos pessoais justapostos a explicações recebidas em outros serviços. ao analisar uma outra clínica-escola. com o objetivo de reinseri-los na vida social. se tal orientação insiste entre os especialistas.

‖ (COSTA. Trata-se da aposta de que. 2006. Trata-se de produzir um deslocamento na posição de objeto a ser manejado por um outro. mais ainda.159) Valendo-se do discurso recolhido em sua peregrinação. para implicar quem diz com o que diz. e que o endereçamento 35 . além da alienação reprodutiva do discurso que o enreda. que o solicitante possa tratar sua queixa para decidir-se sobre uma possibilidade de tratamento continuado. Espera-se. aliená-lo. com o discurso no qual ele busca representar-se. 2 . Constituir o suporte de um ponto de ignorância por meio de uma pergunta. a única qualidade do acolhimento é constituir-se como um lugar no qual os solicitantes possam melhor dizer de seu mal estar. reduzindo-se ao que dizem dele. de se situar em relação a uma diferença. O exercício estéril em que a queixa se repete perfila a equivalência entre anonimato e alienação ao discurso: ―A impossibilidade de ―se contar‖ – ou seja. de forma absoluta. Obviamente. da sistematicidade do comparecimento e da obrigatoriedade de comunicar ausências. Considerando que qualquer encontro produz efeitos. o solicitante vêm em busca da confirmação da necessidade de submeter-se ao tratamento que lhe será aplicado por um outro. a busca de tratamento implica em o solicitante sustentar a crença de que seu mal estar quer dizer mais do que ele mesmo sabe. Por isso. o acolhimento inclui o esclarecimento acerca das condições do serviço ali prestado: o fato de a clínica ser conduzida por estagiários. A proposta de acolhimento visa possibilitar ao cliente não apenas aproximar-se do serviço. do atendimento ter período limitado ao ano universitário. posto que os efeitos da fala são incalculáveis. Incluir o sujeito em sua queixa de modo a ultrapassar a dimensão de alienação num ato singular de enunciação exige ultrapassar a consideração de sua condição de cidadão. Não é pretensão de a clínica-escola acolher cada um a partir da suposição de transparência da sua queixa.p. nessas entrevistas. O compromisso é de constituir um espaço acessível que não impeça o sujeito de manifestar-se. do pagamento do serviço considerando as condições do solicitante. ou mesmo a uma igualdade – leva o sujeito a confundir-se e a misturar-se. Mas as entrevistas do acolhimento não se configuram como mera transmissão de informações. à precariedade do serviço não irá nesta direção. podendo construir ou dissolver o que há de singular num pedido de tratamento. nem como diagnóstico ou psicoterapia.entre pacientes e técnicos. mas aproximar-se de constatações alheias fazendo-as retroceder à posição de questões do sujeito.A consideração da hipótese do inconsciente e suas conseqüências. para reintroduzir o que não se sabe como eficácia operatória (COSTA. 2006) exige considerar a hipótese do inconsciente.

essa posição transmite o que. permite ao sujeito a iniciativa de construir seu projeto de saber. Afinal. Trata-se de assumir a posição de não-saber. mas visa algo alem dele. atualizado no encontro de uma formulação enunciativa nas sessões de acolhimento. não se exime deste cuidado. com Sauret (2006). que singularidade tem acepção matemática: o valor que explode uma função. também destituída. sujeito e cidadão. 3 . ao passar pelo outro (ALLOUCH. posteriormente. 1995) o sujeito persiga seu saber fazer. escuta e cuidado. Só com os pressupostos da igualdade garantidos numa prática política. instrumentos operatórios essenciais que se conjugam em rede à hipótese do inconsciente. Em outros termos. Permitindo saber-não-saber de uma boa maneira. o Acolhimento propriamente dito. para vir a ser. colocando em cena a modalidade de funcionamento do solicitante. Rinaldi (2005) nos convocou a perguntarmos em que medida o trabalho do acolhimento se presta ao cidadão e implica o sujeito. singularidade do sintoma. nas palavras de Zenoni (2000). do cuidado e do cidadão. 2006). caso configure um exercício de poder. A concepção de repetição e de transferência que surgem onde incide o indizível e a dessuposição de saber do clínico são. de aprendizagem e de pesquisa que desieraquiza e esvazia o saber prévio. nesse contexto. a ponto de demandar que alguém saiba curá-lo. a única prática a viger será restrita a coação e a sugestão. A clinica do acolhimento só pode existir a partir do momento que ela respeita a dimensão política. dissipando o caráter imaginário incluindo a clínica nos fundamentos da instituição na medida em que comporta uma condição de tratamento adequada à posição subjetiva que ela acolhe.deste ao serviço recruta a possibilidade de que. a disparidade imaginária de saber que inaugura a procura de tratamento pelo solicitante endereçando uma demanda ao clínico pode existir. Enquanto o primeiro encontro do estagiário com o solicitante se ocupa desta dimensão política. Ao contrário. localizar um saber insabido na bordeando-o com um ato enunciativo de interrogação deste sintoma pelo solicitante é o desdobramento que se espera ocorrer no tempo de acolhimento. Cabe lembrar. Re-situar esse alguém não no clínico mas no próprio sintoma é a operação de destituição subjetiva: reconhecimento de que o saber insabido está no próprio sintoma (SAURET. da 36 . As entrevistas de acolhimento apostam na insistência do endereçamento inconsciente como passível de emergência. É o fracasso de seu equacionamento mais íntimo que perturba o sujeito. o não-saber do clínico.A diferenciação entre o cidadão e o sujeito da demanda de atendimento psicológico Ao chamar atenção para a oposição entre clinica e política.

vemos muitas vezes essa tentativa ser feita. A fragilidade da rede conceitual que a multidisciplina constitui mostra-se no uso francamente distorcido e simplificado de conceitos devido à alienação do sistema teórico que os causa ou devido à 37 . recebem sujeitos acuados a posições de sub-cidadania. No nosso serviço. sem representar qualquer consenso coletivo. como as instituições de saúde mental. Essas práticas parecem ignorar que o SPA. é desconhecer a razão da instituição e tratá-la como sala de espera. 1991). Todavia. Constata-se que essa diversidade fundamental ocorre ao preço do encapsulamento das práticas e de sua defesa cega demarcatória.) sublinha a necessidade de distinguir a dimensão do sujeito e a do cidadão.). circule nelas até que possa escolher efetivamente entre elas. O sujeito pode ser acolhido sem ser obrigado a fazer um tratamento. Sua importância deve-se ao que o tratamento possível dos sujeitos impõe: a interrogação sistemática das modalidades pelas quais a instituição os trata e a criação de meios que a transbordem. nos restringimos a situar o movimento em que nos engajamos. caso esta seja sua escolha. quando se trata da clínica na Universidade. é necessário que a formação em psicologia contemple a possibilidade de que cada estudante de psicologia problematize essas matrizes. muitas vezes.condição do sujeito. pois antes de existir para tratar o sujeito. pode ser útil a mais de um. e facilita seu engajamento. Zenoni (opus cit. Essa tarefa é impossível. a instituição serve para acolhê-lo. para que o acolhimento da singularidade do sujeito seja possível. o consultório é simplesmente transposto para a instituição. A adoção de uma postura esvaziada de saber. O tratamento é uma opção do sujeito e. Além do compromisso com o atendimento clínico. o que é um modelo das clinicas escolas em muitas universidades. orientada pelo princípio da sustentação da universalidade do saber. não implica representá-las. O cidadão tem direito a assistência e à saúde e a instituição deve garantir o seu cuidado. o SPA está completamente envolvido com a formação de profissionais. 4 – Multidisciplinaridade da psicologia e a clínica-escola Discorrer sobre uma prática que congrega alunos das matrizes teóricas que a psicologia recobre. diz Zenoni (opus cit. Não escolher é sustentar-se em mosaicos teóricos. faz com que o sujeito permaneça responsável pelo seu tratamento. que aparece ai somente como um casulo. Zenoni alerta ainda que. por vezes. Assim. como a formação em psicologia só subsiste por meio de matrizes disciplinares distintas e até mesmo opostas (FIGUEIREDO. Transpor o consultório para a instituição. unicamente essa liberdade pode produzir efeitos terapêuticos.

necessariamente. essas atividades ainda ocorrem em campos distintos (graduação/pós-graduação). dos quais decorrem as práticas clínicas do SPA. mas enclausura as clínicas garantidas por meio de estratégias institucionais. atestados na resistência que a complexidade singular da clínica opõe aos saberes disciplinares. A organização do trabalho clínico produz negociações e secessões entre práticas segmentadas. 1996). atestando. A prática clínica que responde pelos estágios clínicos curriculares da graduação em psicologia exige que seus alunos desenvolvam. A persistência do modelo multidisciplinar mantém a dispersão dos saberes pela ausência de balizas que permitam evidenciar o regime das relações que regulam causalidade e funcionamento psíquico. assim. Entretanto. compondo um mosaico intransmissível de saberes tácitos. mas também porque o saber da clínica não coincide com a elaboração científica. A idealização da multidisciplinaridade não estabelece relações entre campos conceituais. tem. portanto abordável. A especificidade do objeto constituído em cada um dos campos conceituais é explicitável no exercício clínico e. Seus desdobramentos na universidade são: o apagamento de alguns saberes ou a defesa cega de saberes encarnados (Vorcaro. no curso de psicologia.função utilitária que assumem em procedimentos nos quais perdem especificidade. esse artefato imaginário sustentado pelo ideal de totalização dos saberes e de seu suposto efeito de domínio pleno da experiência. para a prática clínica. a posição problematizadora própria aos pesquisadores. (VORCARO. Os obstáculos à prática clínica são efeitos do limite da perspectiva multidisciplinar: diferentes campos teóricos pressupõem concepções de ―sujeito‖ mutuamente excludentes. A transformação do campo diferenciado de cada disciplina em uma prática suficiente para lidar com os processos subjetivos acarreta. O curso de psicologia é constituído pela articulação de campos conceituais e de disciplinas diversas. tomar a clínica como lugar privilegiado para a formação de profissionais capazes de assumirem a função de pesquisadores engendra perturbações. não só porque tradicionalmente. que acumula técnicas oriundas de matrizes distintas. 2003) que a psicologia pode combater e ultrapassar o risco que lhe ronda: uma prática alienada ou eclética. 1999) A aposta dos estágios clínicos na clínica-escola é que esse limite possa ganhar outro estatuto. problemas de difícil superação. A clínica é uma prática discursiva que não responde 38 . na Universidade. evidenciando as suas diferenças. a veemência de uma ficção necessária. Somente fazendo da diversidade um instrumento para problematizar sua condição (FIGUEIREDO e SANTIS. a insuficiência do saber da psicologia. Por outro lado.

a partir do saber adquirido em teorias diversas. de modo a constituírem-se em um obstáculo à decisão interpretativa imediata para interrogar o discurso teórico que a referenda. interrogar o que elas têm de aleatório (LACAN. 1996). convoca os estagiários a suportarem a convivência com campos disciplinares distintos. fazendo escolhas de recrutamento de dados que as 39 . de observações empíricas. implica que os alunos se detenham na estranheza que a clínica oferece à compreensão. desse lugar. Ao produzir esse esgarçamento na continuidade imaginária das disciplinas. testemunhando as ocorrências da clínica. problematizamos nosso desconhecimento. Esse conjunto de elementos. Trata-se. mas também para a formação de clínicos que interrogam aquilo a que aderem ou combatem. fazendo dele um lugar de interrogação sobre as teorias e sobre sua transmissão. de tentativas e de resultados. situar os limites do saber disciplinar (Vorcaro. Tomar a diferença como lugar de interlocução permite ao estagiário considerar a singularidade que emerge na clínica à luz da especificidade de cada campo conceitual. pode fazer da clínica um lugar propício à problematização de uma suposta estabilidade de conceitos. Transformar o atendimento clínico em um campo de pesquisa convoca os estagiários a submeterem-se a cada caso clínico. Mais do que isso. A explicitação desses campos conceituais diante do confronto provocado pela singularidade e resistência da clínica é o lugar em que diferenças podem não apenas tornarem-se geradoras da discussão do que orienta as intervenções clínicas. para discernir os abismos que separam os territórios dos saberes. de prescrições terapêuticas e de regulamentações institucionais. nossos encobrimentos. é chamado de saber (FOUCAULT. condição necessária para a pesquisa. 1986). sustentando ou problematizando conceitos que lhe são correlativos e expondo-se ä refutação. nossos equívocos. 1977). de criar as condições para a consideração da diferença e da desarmonia entre os campos conceituais e não do somatório ou da importação imediata de conceitos de campos distintos. para. Abordar esse ideal de clínica no seu vértice simbólico. en-formado de maneira regular por uma prática discursiva. Para isso. portanto. Não é simples operacionalizar a práticas clínicas de modo a que elas consigam suportar a tensão entre a manifestação de um sujeito e as teorias que enquadram a sua observação e a sua escuta. diante daquilo em que os enigmas da clínica nos engastam. Tal convocação do estagiário a problematizar o que escuta do solicitante. mas.aos critérios formais da ciência. mas comporta um acúmulo. ainda. é necessário que as ocorrências da clínica sejam acolhidas pelo estagiário que as testemunha. apenas organizado.

reproduzem, impedindo o discernimento do detalhe em que se aloca a singularidade que cada caso coloca fora da pauta. A decorrência dessa dificuldade é a abolição da tensão entre o singular e o universal, operante na clínica, em função do que já está categorizado. O esquecimento da tensão singular- universal privilegia o particular que as teorias nos oferecem, fazendo da clínica um dispositivo de obturação do desconhecido e não uma possibilidade de recolher a singularidade através do que o clínico testemunha (VORCARO,1999). Para que a singularidade do caso possa ser surpreendida e acolhida é necessário interrogar a experiência e deslocar questões para que a consideração do detalhe do caso (ALLOUCH, 1995) sirva à reelaboração do saber clínico. O método clínico torna-se, nessa perspectiva, tributário da consideração de cada caso como constituindo um método próprio de inscrição do sujeito no laço social. À abordagem clínica permitirá, então, os meios para que este sujeito possa decifrar sua modalidade singular de inscrição. 5– A supervisão do acolhimento de solicitantes na prática do SPA Os ensaios de articulação teórica entre disciplinas a partir da formação do psicólogo se produzem na esteira do encobrimento de diferenças: a dificuldade dos debates entre representantes de diferentes pressupostos e/ou matrizes do pensamento psicológico, o isolamento das práticas, as disputas conceituais são tão corriqueiros que permitem supor a dependência desses expedientes para sua manutenção. Esta constatação, entretanto, não inviabiliza a formação clínica do aluno do curso de psicologia. O fato de o aluno chegar ao estágio clínico no quarto ano do curso de psicologia permite que ele tenha conhecimento, circulação e interesse ou adesão a uma das diferentes matrizes da psicologia. Mas será ao se encontrar com o solicitante e tentar demarcar sua posição clínica que o estagiário abordará, efetivamente, os limites e as possibilidades das teorias que o orientam. Por isso, a supervisão coletiva deve constituir um espaço de reconhecimento da estranheza e da resistência que a clínica impõe à compreensão. A supervisão é onde a potencialidade da clínica é provocadora de interrogações às teorias, intimando o grupo de estagiários a se colocarem entre a teoria e o paciente. A supervisão assume lugar

privilegiado de apontamento da diferença, na medida em que há um sujeito implicado em toda experiência clínica, mesmo numa fugaz insistência que não permite estabelecer sua equivalência, mas que se manifesta. É na aposta de seu discernimento que a supervisão se sustenta. A pergunta sobre o sujeito da enunciação deve aí tornar-se eixo orientador que prevalece sobre o enunciado do solicitante, pois este enunciado é constituído a partir de

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seus efeitos no discurso modalizado pelo discurso dos familiares e amigos, ou dos especialistas que o conduziram ou o encaminharam ao serviço. Assim, é o sujeito que se perfila por traz do discurso enunciado na queixa que deve ser procurado. Partindo das ressonâncias dos ensinamentos da ―presentation clinique‖ no trabalho clínico de Jean Bergès (VORCARO, A. e AUDAT, A., 1991, VORCARO, A., 1996 e 1999) a supervisão é considerada a partir da possibilidade de resgatar a legitimidade da fala do solicitante como possibilidade da clínica, configurada na supervisão coletiva, em que o estagiário confronta a fala do solicitante com os discursos do mesmo e com seus próprios saberes, para situar os pontos de incômodo ou de impasse que aquela fala traz a tona. Problematizando e confrontando o que se pode distinguir como enunciação do sujeito, de seu próprio discurso de solicitante e do que o estagiário apreende, produz-se uma nova perspectiva: em vez de rejeitar os discursos sobre o mal-estar do solicitante e seus efeitos no outro, o supervisor acolhê-las e a investiga nelas a emergência de seus lugares de incertezas, equívocos e mal-entendidos para, na submissão de pressupostos à interrogação, transformá-las em campo privilegiado de reconhecimento da incidência do sujeito. Ao reconhecer a palavra, o supervisor privilegia a fala como enigma de assujeitamento singular e, ao exercer essa prática, diante de testemunhos, reduz as impregnações imaginárias. Assim, a supervisão coletiva configura uma possibilidade de tomar a fala como lugar de reconhecimento e de testemunho do incompreensível. O enunciado do solicitante é atualizado pelos estagiários que escutam o caso do coetâneo, que apresenta a queixa e o discurso que a sustenta. As lacunas, contradições, repetições, surpresas permitem novas aproximações, iluminando, por vezes, demandas laterais e mitos que situam o sujeito ou que determinam sua produção sintomática. Na medida em que os demais estagiários apontam especificidades da fala nas situações em que foram surpreendidos pela singularidade desta, novas lacunas, repetições, contradições e surpresas provocam indicações para a formulação de hipóteses sobre a lógica de funcionamento do solicitante e da entrevista. Desse modo, põe-se em cena não apenas o solicitante, mas cada estagiário, posto que são intimados a explicitar o modo como a referência teórica está operando nas incidências ressaltadas. Instigado pelo supervisor à interlocução, na presença de um terceiro multiplicado (os outros estagiários), cria-se a exigência de que o estagiário fale sobre sua experiência específica. Nesse ato, o supervisor explicita a expectativa clínica de que ele articule sua hipótese sobre a demanda do solicitante, reconhecido como tendo algo a dizer. O supervisor convida o estagiário a se posicionar em relação à queixa do solicitante e procura aproximar-

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se da dificuldade reconhecida por ele. Mas o supervisor também justifica suas perguntas localizando seu próprio desconhecimento sobre a singularidade que aí se transmite. Na especificidade da formulação da queixa do solicitante, pelo estagiário, são apontados significantes que introduzem o desdobramento de narrativas, em que mitos, dificuldades, rituais e expectativas são apresentados. As concepções do estagiário são escutadas e debatidas com os demais. Assim, os comentários, as questões, a comparação com falas de outros estagiários e as posições pessoais do supervisor também comparecem, sustentando a interlocução com o caso. Aquilo que escapa à coerência do discurso intencional do solicitante e do estagiário é sublinhado, repetido ou prolongado: o que evidencia heterogeneidade na fala é ressaltado ou estendido. A interlocução é marcada basicamente pelo lugar de interrogação da opacidade do dito como campo desconhecido, evidenciando o não compreender, numa aposta na possibilidade de o estagiário ir além do já dito. Em situações de limite da continuidade discursiva, o supervisor escande as falas deixando incidir outras situações clínicas ou abordagens distintas da que está em pauta, antes de o estagiário reconstituir o já dito ou de o próprio supervisor responder a uma questão rearticulando-a. A expectativa do estagiário em superar as dificuldades, as tentativas já feitas e seus efeitos precedem uma proposta de encaminhamento das próximas sessões são aí tratadas. As hipóteses e questões sobre o funcionamento do solicitante e sobre a intervenção do estagiário são discutidas com o grupo de estagiários, a partir da posição em que este se coloca na sua lógica discursiva. Nessa modalidade de supervisão clínica pode-se considerar essa prática como o testemunho da dinâmica fantasmática do inconsciente em ato, apreendido sob três incidências, nas quais o campo transferencial é singular (DOREY .1990): o testemunho do sofrimento dado pelo discurso do paciente, reatualizado pela presença dos outros protagonistas; o testemunho da relação do supervisor ao inconsciente e à teoria; o testemunho do grupo de estagiários que impõe-se como instância simbólica, constituindo um olhar terceiro que medeia a relação estagiário/supervisor, represando o imaginário dessa troca, caucionando e conferindo ao dizer uma nova eficácia (PORGE, 1986). A aposta no reconhecimento e a intimação à inscrição subjetiva operados pela relação supervisorestagiário-grupo precipitam, nos efeitos da fala, a constituição de demarcações de limites teóricos, impasses institucionais e demandas subjetivas anteriormente capturadas em queixas. Os efeitos do supervisor não superam impasses nem lhe dão a última palavra. Ao conferir legitimidade a teorias trazidas pelos estagiários para compreender situações

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e Figueiredo. Alberti. de sistematização. Como sabemos. L. G. da própria psicanálise. 2000. 43 . 6 . pp. em que a singularidade do caso aponta impasses imprevistos. Rio de Janeiro. 2006. e Elia. traduzir trancrever. pela via da posição do clínico. A.(1956). para privilegiar o acolhimento da singularidade. esquecida nas práticas que se ancoram na técnica supondo nela o lócus da ciência: tornar o desconhecimento formulável. Isso cabe a cada um. constitui e encontra nesses impasses o campo privilegiado de intervenção.76-91. também. 1966. ainda. O grande volume de estagiários e de solicitantes está sempre constrangido pela insuficiência: de espaço. Opera. mas a introduzir a sustentação da heterogeneidade teórica e da alteridade implicada na experiência como condição de possibilidade de práticas psicológicas e. O dimensionamento entre a adminstração e a prática clínica são insistentes limites ao atendimento. (orgs. Psicanálise: a última flor da medicina. não se forma plenamente nenhum clínico no tempo dedicado ao estágio. Esse limite inexorável implica improvisações constantes e equacionamentos provisórios. (orgs). Referências Bibliográficas Alberti. Qu´est ce que La psychologie? Les Cahiers pour l´analyse. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.clínicas. criar um campo de interrogação às teorias. Cia de Freud. demarcar o indizível presente na linguagem colocando-o a trabalho. de supervisão. J. o resgate da clínica. S. enfim. em Clínica e Pesquisa em Psicanálise. Rios ambiciosos. S. Societé du grafe. Letra a letra. Cia de Freud. no curso de psicologia. em Psicanálise e saúde mental: uma aposta. se essa prática permite que o solicitante trate a queixa e localize sua própria demanda. distinguindo sujeito-sintoma do laço social e sintoma-do-sujeito singular. Afinal. 1995 Canguilhen. Essa tentativa de fazer incidir o discurso psicanalítico. em práticas da psicologia. transliterar.A.). Entretanto. Allouch. Paris. em Alberti. esse movimento nem sempre encontra possibilidades concretas de desdobramento num processo terapêutico longitudinal: muitas situações clínicas ficam descobertas pela restrição da continuidade da formação universitária.Novos impasses Muitas são as dificuldades e interrogações que se mantém nessa prática de estágio. expor enigmas da experiência clínica. não pretende formar analistas. este é o movimento repetido na experiência clínica. de formação. de pesquisa e de disposição pessoal. _____ A estrutura e as redes.

) ambiciosos.1991. 2000 Rio de Janeiro. (orgs. . Paris. Psicanálise. Belo Horizonte. laço social. A. em Psicanálise.M. Revista saúde e pesquisa. em Crianças na psicanálise: clínica..ainda. . S. Belo Horizonte. Rio de Janeiro.A. A arqueologia do saber. N. Dorey. 2006. E. e Figueiredo. Aujourd’hui.. Qual instituição para o sujeito psicótico. incidências no psicodiagóstico. Campinas. Paris. Relações Multidisciplinares: das negociações numa clínica de distúrbios da comunicação. J.Costa. Biblioteca da DERDIC-PUCSP _____.).La présentation de malades: Charcot. A. 0. uma nova introdução. Freud. S. 1993..Pour la présentation clinique. Centre Georges Pompidou. 1990 Figueiredo. Ornicar?. Nouvelle Revue de la Psychanalyse. _____ e Audat. o tratamento da queixa. D.(org. _____. P. 2006. A. em Alberti. Matrizes do pensamento psicológico.R. _____ e Santi. (orgs. A eficácia simbólica do ato médico e o estatuto da cura em psiquiatria. Clínica e Instituição. e Figueiredo. Vorcaro. 1996. Paris. Instituto Raul Soares. S. Rio de Janeiro. Compreender ou estranhar. M.A... Paris. Maringá (2009no prelo). 2006. Foucault. Cortês. ano 1. _____ Entre o sujeito e o cidadão. Revista de Saúde Mental Abrecampos. 2005. e Figueiredo. IX Jornada de trabalhos do Simpósio do Campo Freudiano. Memoire de Stage. Fumec.) São Paulo. O estatuto do dado lingüístico como articulador de abordagens teóricas e clínicas. Rio de Janeiro. . (orgs. Bergès.. em Psicanálise e saúde mental: uma aposta. Educ.. psicoterapias. Vorcaro.. Acolhimento em clínica-escola.. 2007.C. 1986 Rinaldi. 1990. Cia de Freud. em Psicanálise e saúde mental: uma aposta. em A cura e os engodos de seu poder. Petrópolis. Un siècle de recherches freudiennes en France. R. Porge.. A. Simpósio do Campo Freudiano.Quelques remarques sur la consultation publique du Dr. Lacan.). Sobre a clínica Interdisciplinar. D. Rio de Janeiro. Rios 44 .Vozes. instituição. São Paulo. Caderno de Estudos lingüísticos 38. Rio de Janeiro. Trabalho apresentado no III Encontro mineiro de Avaliação Psicológica. Cia de Freud. Cia de Freud. Teixeira. Altoé.). n. Ancona-Lopes (org. e Lima. Fhemig. Uma experiência de clínica institucional. em Alberti. Na contra-corrente da Avaliação Psicológica: o Serviço de Psicologia Aplicada da UFMG. 2003. Zenoni. _____. Clínica e Política: a direção do tratamento psicanalítico no campo da saúde mental. Leite.A. 1992 (mimeo). 2000 _____.1999. Educ. A.Overture de la section clinique. S. Sauret. em Psicodiagnóstico. M. São Paulo. processo de intervenção.. 1977. (orgs. Cia de Freud. !986 Lacan. Teixeira. A. Psicologia. Belo Horizonte. em Alberti. M-J.) UNICAMP. em Psicanálise e saúde mental: uma aposta. Colloque des 22 et 23 février 1986.. Forense Universitária. L.

CNRM. without the training time was extended. O presente artigo traz de forma cronológica como se deu essa conquista no final do ano de 2005 e a visão do residente que completa esses três anos de formação. sob a orientação de profissionais qualificados em instituições de saúde 1 Médica residente do CEPAI/FHEMIG 45 . The present article brings of chronological form as if it at the end of the year gave this conquest of the 2005 and vision of the resident that complete these three years of formation Keywords: medical residence. With passing of the time the difficulty to give account of increasing a theoretical and practical content was each time more evident. program of psychiatry residence. sem que se estendesse o tempo de treinamento. A residência médica é uma modalidade de ensino de pós-graduação sob a forma de curso de especialização. Em 1983. CNRM. In 1983. Com o passar do tempo ficava cada vez mais evidente a dificuldade em dar conta de um conteúdo teórico e prático crescente. a Associação Brasileira de Psiquiatria. the national commission of medical residence (CNRM) defined the criteria for the program of psychiatry residence. In 2000 the Brazilian Association of psychiatry. programa de residência médica em psiquiatria.R3 em Psiquiatria: A Visão do Residente Sheila Cardoso Rosa1 Resumo: A residência médica é considerada uma modalidade de ensino de pósgraduação sob a forma de curso de especialização. o qual tinha como duração dois anos. Palavras-chave: residência médica. Em 2000. together with the coordinators of programs of medical residence and the association of the resident doctors of the beginning to a campaign in order to extend the duration of the program for three years. a comissão nacional de residência médica (CNRM) definiu os critérios para o programa de residência médica em psiquiatria. juntamente com os coordenadores de programas de residência médica e a Associação dos Médicos Residentes dão início a uma campanha a fim de se estender a duração do programa para três anos. Abstract: The medical residence is considered a modality of education of aftergraduation under the form of specialization course. Seu objetivo é o aperfeiçoamento do médico recém-formado em diferentes ramos da atividade médica e tem como principal característica o treinamento em serviço. which had as duration two years.

a Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap) publicou o Documento de Trabalho no 51: "Requisitos Mínimos de um Programa de Residência Médica: Competências em Psiquiatria".1 O primeiro programa surgiu nos Estados Unidos. Tem sido reconhecida como uma forma eficiente de treinamento profissional. no John´s Hopkins Hospital. verificando-se a existência de treinamento em 46 . Diante de discrepâncias importantes entre as exigências da CNRM e a prática da residência em psiquiatria no Estado de São Paulo. por meio de visitas locais. Associação Brasileira de Psiquiatria.universitárias ou não. No Brasil. resultado de um consenso de representantes da Fundap. no qual estavam localizados alguns centros formadores do país. e os requisitos mínimos para a residência em psiquiatria foram assim definidos em 19832: * Dois anos de RM – 2800h/ano 50% ambulatório 20% internação (total/parcial) 10% urgências Curso de psicofarmacologia Estágios obrigatórios em neurologia e saúde mental Estágios optativos. Estudaram-se sete programas de residência médica em psiquiatria do Estado de São Paulo. professores e médicos de PRM credenciados pela CNRM e de programas não-oficiais de treinamento (estágios). implantado no Hospital das Clínicas da USP. do Estado de São Paulo. três anos depois. entrevistas semi-estruturadas e questionários realizados com amostra de residentes e de preceptores. Contel realizaram o ESTUDO DOS PROGRAMAS DE RESIDÊNCIA MÉDICA EM PSIQUIATRIA DO ESTADO DE SÃO PAULO NO ANO DE 19933 O objetivo era verificar o cumprimento das exigências mínimas estabelecidas pelos órgãos normativos. no Instituto de Previdência e Assistência ao Servidor do Estado do Rio de Janeiro (Ipase) iniciou-se o programa de psiquiatria. Enquanto algumas residências tinham como objetivo estimular a carreira universitária. Professor Calil e Dr. Em 1991. em 1945. o primeiro programa foi em ortopedia. A Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) foi criada em 1977. em 1889. universitários ou não. CNRM. outras capacitavam o residente para o trabalho na rede pública.3 Através desse documento pode-se verificar a grande variação quanto aos objetivos dos diversos programas de residência médica (PRM) paulistas.

há dez anos.6%) e a medicina privada em consultórios (58. Outra discrepância era quanto à descrição da forma como o residente era avaliado nos diversos PRM: Avaliações formais se davam em menos da metade dos programas e a freqüência dessas avaliações variavam entre diária. dedicado à leitura de textos de atualização. e uma exigência da CNRM.serviço em ambulatórios. por exemplo. ou seja. ninguém se conformava mais com os antigos critérios. anual e até mesmo bianual. 47 . os programas de residência em psiquiatria foram à frente. à medida que o conhecimento e os serviços foram se aperfeiçoando.2 Várias sociedades de especialidades. internação. na área de interconsulta. introduzindo novos cursos e estágios. d) O clube de revista. Na prática. Apenas 25% referiram o desejo de trabalhar em serviço público. bolsas para mais um ano de residência. Entre os objetivos profissionais dos residentes estavam a docência e pesquisa na universidade (66. incluindo a ABP. já era prática corrente em 90% dos programas e curso obrigatório em 55% deles. No entanto esbarrava-se em três problemas: financiamento. Isto ocorreu. Ao final do estudo pôde-se concluir que as modalidades de treinamento não eram cumpridas integralmente como propostas pelos órgãos normativos e que os representantes desses órgãos deveriam definir o perfil de habilidades desejado na formação do psiquiatra. reivindicavam um aumento no número de anos obrigatórios em suas residências. que. padronizando o treinamento e as avaliações. semestral. Entre os resultados obtidos alguns pontos merecem ser destacados: a) Estágio em neurologia ocorria em apenas 43% dos programas. a grande maioria das residências não sabia no que se consistia esse estágio.3%). necessidades da sociedade. c) O curso obrigatório de psicofarmacologia era ministrado em todos os PRM com carga horária variando entre 4 a 86 horas anuais. urgências e estágios em neurologia e saúde mental. b) Não havia estágio em programa de saúde mental e o mais interessante. apesar de ser obrigatório. Passado o tempo. existia em apenas 43% dos PRM. além de curso de psicofarmacologia. que não poderia aguardar por um ―superespecialista‖ e a competência das instituições onde ocorre o treinamento.

Nesse encontro. há muito esperado.Em maio de 2001. fruto de intenso debate entre especialistas e em grande parte baseado no resultado de um levantamento conduzido pela própria WPA sobre programas de residência em psiquiatria de todo o mundo – Statistical Report of the International Survey on Graduate Training in General Psychiatry. a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) encaminhou suas sugestões. um mínimo de seis meses de estágios opcionais. reabilitação. Em 2002. a ABP continuou trabalhando para a melhoria da formação do futuro psiquiatra. a Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) publicou o World Psychiatric Association Institutional Program on the Core Training Curriculum for Psychiatry. incluindo serviço extra-hospitalar. psiquiatria forense e distúrbios do aprendizado. ensino englobando todas as idades do ciclo de vida do ser humano. Dentre estas. internação. emergência.2. a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) reuniu-se em Brasília com representantes das associações de 35 especialidades médicas. psiquiatria clínica. Além dos três anos sugeridos pela ABP outras propostas eram: seleção em duas fases (eliminatória e classificatória). habilidades. desenvolvimento humano). atitude). psicoterapia. pela primeira vez. Apesar de todos os argumentos utilizados pela ABP. verificou-se que os modelos de residência médica em psiquiatria no Brasil encontravam-se defasados em relação à formação preconizada pela WPA e observada em 48 . estágios obrigatórios (ambulatorial. álcool e drogas. cinco cursos obrigatórios (psicopatologia. Com essa justificativa foi negado os três anos e aceito as outras propostas. os representantes da CNRM ainda justificavam que nem todas as instituições seriam competentes para prolongar por mais um ano seus programas com qualidade e que ainda não estava no momento de se dar esse passo. a fim de reformular os requisitos mínimos para o credenciamento de programas de residência médica. 4 Assim. derivadas de um grupo de trabalho e de uma enquete nacional realizada junto a todos os coordenadores de programas e professores titulares de psiquiatria. destacam-se uma duração mínima de três anos para residência em psiquiatria geral. em período integral e incluindo um mínimo de seis meses em neurologia e medicina interna. Mesmo diante dessa negativa. neurologia). incluindo partes teórica e prática. e obrigatoriedade de estágios especiais em emergências psiquiátricas. Nele. interconsulta. psicofarmacologia e outras terapias biológicas. avaliação ao final de cada estágio (conhecimento. a WPA define recomendações mínimas para um currículo de especialização em psiquiatria.

conjugal. 2) Duração mínima de três anos. aprofundar-se em alguma área de interesse ou iniciar atividade de pesquisa. permitindo ao residente realizar intercâmbios. psiquiatria geriátrica.4 Em 2003. mesmo na América Latina. no dia 18 de outubro de 2005. 4) Estágio em neurologia e sua duração. 6) Estágio psiquiátrico em todos os níveis de atendimento – ambulatorial. o debate que já se fazia sobre a reestruturação da especialização em psiquiatria no Brasil foi ganhando forças. incluindo abordagens individual. em mais uma tentativa. possibilitando o contato do residente com linhas terapêuticas diversificadas. Vários outros documentos serviram de fonte para que a comissão de residência médica da ABP pudesse enfim. familiar e em grupo. por exemplo. na plenária da CNRM. para opinarem sobre o novo programa. porém. incluindo neurociências. a ABP consultou todos os PRM em Psiquiatria do Brasil. reabilitação. a Associação dos Médicos Residentes. aprovar a proposta de três anos obrigatórios na residência médica em psiquiatria. psicoterapia e outras. enfermaria. 5) Conteúdo programático diversificado. a possibilidade de maior 1’duração em instituições com estrutura capacitada para tal. geriátrica e forense. Baseava-se em: 1) Recomendações da WPA. psiquiatria forense. já se preparava para o quarto ano de residência médica em psiquiatria. considerando também as diferenças regionais de cada escola médica ou serviço. 3) Currículo flexível para adaptar-se às novas circunstâncias que surgem diariamente. 9) Carga horária reservada para áreas optativas. filosofia. psicopatologia. Dessa forma. 10) Subespecialização através da regulamentação de programas de residência médica em psiquiatria infantil. 8) Ensino teórico e prático de psicoterapia. discussões de artigos científicos e bases teóricas da psiquiatria clínica. de interconsultas e álcool e drogas. hospital-dia e comunitário. teorias psicodinâmicas. e as suas federadas.diversos países. a Argentina. 7) Obrigatoriedade do ensino de psiquiatria infantil. que entraria em vigor a partir de 2007. 49 . considerando-se. psicofarmacologia.

as três instituições que oferecem residência em psiquiatria possuem programas de residência médica distintos. o mesmo não fique esquecido.Em fevereiro de 2007 novos residentes de psiquiatria em todo Brasil iniciam ansiosos um novo programa que. mas também com o período de adaptação da instituição na qual ele iria realizar sua residência. a mais próxima possível dos novos requisitos mínimos recémaprovados pela CNRM. permite abordagem em todos os níveis de atendimento (ambulatorial. A primeira pergunta a ser feita naquele momento foi: Seria um ano a mais que se enquadraria no atual programa ou todo o programa deveria ser reformulado? Do ponto de vista das instituições que oferecem os programas de residência médica em psiquiatria. novos trabalhos apontem as mesmas discrepâncias nos programas de residência médica em psiquiatria apontadas no trabalho do Prof. Considero que um ano a mais no programa de residência médica em psiquiatria se faz muito importante tendo em vista a grande complexidade dessa especialidade. Os residentes que fazem parte dessa primeira turma que concluíram a residência em janeiro de 2010. várias mudanças. Calil e Dr. A adaptação não só de infra-estrutura. Contel de 1993. além de ter várias abordagens terapêuticas como individual. familiar e em grupo. após três anos de programa têm opiniões diversas quanto o real ganho na formação com o acréscimo de mais um ano. na verdade ainda não estava estruturado nas instituições. hospital-dia e comunitário). Em Belo Horizonte. com alguns pontos de intersecção. que envolve todos os ciclos da vida. Não se pode permitir que daqui alguns anos. conjugal. O papel do residente nesse processo de ―fiscalização‖ do programa se faz muito importante. enfermaria. mas também a disponibilidade dos coordenadores e preceptores em transformar o ―velho‖ programa. para obtenção de treinamento padronizado e para uma avaliação mais objetiva do processo de ensino. seria mais fácil manter um programa já estruturado há vários anos e apenas acrescentar o terceiro ano. Enfim. Que se possa tê-lo como um guia para definir o perfil de habilidades desejado na formação do psiquiatra. o que se espera é que depois de todo o esforço realizado pela ABP na aprovação desse novo programa. Há de se considerar que essa primeira turma de residentes teve que lidar não só com a expectativa de ter um ano a mais no novo programa. no entanto na visão dos residentes fazia-se urgente a mudança de todo o programa curricular a fim de se ter uma formação. pois é dever e direito cobrar dos preceptores e coordenadores das residências o 50 . reabilitação. já estabelecido em um ―novo‖ programa que exigiria de todos.

Psiquiatria. Estudo dos programas de residência em psiquiatria do Estado de São Paulo no ano de 1993.Botega N.Botega N. Psiquiatria. respeitando. Rev. Zannet M. 4. Residência Médica: como melhorar sem os três anos? Rev.cumprimento do mesmo. Residência de psiquiatria no hospital geral: uma enquete nacional. 27(1). 23(3). Residência em psiquiatria no Brasil: uma contribuição para o debate.2005 Mar.21(3). Psiquiatria. Bras. Bras. mais bem preparado para lidar com as angústias e alegrias que essa especialidade nos traz. juntos buscamos um profissional qualificado. Rev. 51 . J Bras Psiq 1991.Calil L. Contel J. 2001 Set. Dessa forma. 2. é claro as particularidades de cada instituição.Coelho B.40:419-22. 3. 1999 Set. Referências bibliográficas: 1. Bras.

visual e cinésico. which is oriented by judicial steps. visual and kinesic material. and which comprises the simultaneous trinity of verbal. indivíduos com distúrbios graves de comunicação. as well as other individuals with severe communication disorders associated to hyperactivity and behavior disorders. autistas. sendo esquematizados de maneira a permitir que o indivíduo assuma condutas simbólicas e linguísticas para cumprir objetivos e realizar desejos.Técnica Audio-Visual Cinésica no Trabalho com Portadores de Transtornos Graves da Fala e Comunicação Érica Gomes Fornero1 Resumo: O presente artigo apresenta técnica utilizada no trabalho fonoaudiológico com indivíduos autistas. The criteria are systematic. arranged in such a way as to allow the individual to endue symbolic and linguistic behavior. Os critérios são sistemáticos. thus playing an active and communicative role. in order to fulfill goals and wishes. bem como outros portadores de dificuldades graves de comunicação comórbidas com hiperatividade e distúrbio de comportamento. aquisição da fala. A técnica auxilia no desenvolvimento de noções de causa e efeito importantes. surtindo bons resultados. made up of four phases with specific and interdependent purposes. seguindo passos criteriosos. executando papel ativo e comunicativo organizado. 52 . além de mecanismos atentivos e perceptivos determinantes à formação de uma estrutura mental de palavras (vocabulário auditivo). Palavras-chave: formação de registros mentais auditivos. The technique helps develop important cause and effect notions. in addition to attentive and 1 Fonoaudióloga do CEPAI/Criadora da Técnica Áudio-Visual-Cinésica. It can be defined as a stimulation method. Está inserida no Projeto de Terapia Intensiva da Comunicação (Projeto TIC) e no Programa de Trabalho e Intervenção intensivos da Comunicação do Autista (Programa TIICA) do Centro Psíquico da Infância e Adolescência (CEPAI). Abstract: This article presents a technique used in the phonoaudiological treatment of autists. É um método de estimulação que envolve a associação tríade e concomitante de material verbal. providencial ao surgimento da fala. This technique is being used with good results at CEPAI’s (Psychic Center for Childhood and Youth) both TIC Project (Communication Intensive Care Project) and TIICA Program (Intensive Intervention and Treatment Program for Autist’s Communication). aquisição de condutas comunicativas adequadas. sendo constituído por quatro fases dotadas de objetivos específicos e interdependentes.

autists with severe communication disorders. Sem o desenvolvimento prévio dessas habilidades é inviável o surgimento de linguagem verbal organizada. dotadas de significado de causa e efeito. sendo importante salientar que houve casos de mutismo total em que a fala inusitadamente apareceu na 3ª sessão de aplicação (1ª fase da técnica). Introdução Essa técnica consiste numa abordagem eficaz para desenvolver parâmetros cognitivos. e outros que demandam atuações terapêuticas de caráter mais repetitivo ou intervenções que influenciem aspectos neuro-linguísticos e comportamentais próprios destas condições. formation of the auditory vocabulary. como os Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. Key Words: judicial approach.perceptive mechanisms. the last being providential to the rise of speech. which are vital to the formation of a mental and verbal structure (auditory vocabulary). simbólicos e linguísticos. mesmo quando a fala não aparece. inclusive. psicomotores. além daqueles em que ela não surgiu. perceptivos. oito ou mais. No entanto. funções neuropsicológicas imprescindíveis à habilidade de falar. principalmente nos casos considerados graves. A técnica tratada aqui é eficaz no trabalho da comunicação de qualquer indivíduo com tal dificuldade. acquisition of suitable communicative behavior. O momento do surgimento da fala varia de caso a caso. práxicos. bem como a elaboração e produção autônoma de ações comunicativas e simbólicas. outros após sete. atentivos. inabilidades mais Origem da técnica Esta técnica foi criada através da constatação de que indivíduos que manifestam dificuldades severas de comunicação apresentam: 53 . tempo mínimo notado até então. o que é construído durante o processo de tratamento. o resultado primordial da técnica é a manifestação da fala após um tempo de utilização. ou seja. por agir com foco em correlatas a elas. Há casos em que ela apareceu após três meses de terapia e intervenção. Autismo. muitos níveis de melhora são nitidamente observados. A técnica propõe a formação de uma linguagem interna composta de imagens mentais auditivas verbais. pragmática e/ou dotada de função comunicativa.

o que acarreta: dificuldade em identificar a presença da palavra e seu conjunto de sons. sendo a causa de efeitos almejados. acontecimentos e eventos. ou seja. seus traços fonológicos. foi necessária a criação de uma metodologia terapêutica focada em tais detalhes de sintomas. Objetivos O objetivo central da técnica é desenvolver a comunicação a partir da aquisição de compreensão auditiva e execução de condutas simbólicas dotadas de função comunicativa. o que comumente é substituído por condutas manipulativas e socialmente inadequadas para se fazer entender. . 54 . a fim de atingir os objetivos específicos: 1 Promover a formação gradativa de esquemas auditivos verbais a nível mental dotados de significado. . instalando uma aprendizagem inconsciente de que desejos e necessidades só se realizam quando a palavra ocorre. realizar desejos e satisfazer necessidades. de troca com o meio. ela é a chave de eventos queridos. o que interfere na percepção de início. Diante da sintomatologia de empecilhos para o desenvolvimento de habilidades comunicativas e fala. assim como de fala. 3 Possibilitar insights.Dificuldade em atribuir função comunicativa e social às palavras. 2 Mostrar que a palavra existe e que a mesma nomeia coisas. meio e fim satisfatória das mesmas . ou seja. 4 Desenvolver a percepção de que a palavra é uma ferramenta concretizadora de desejos individuais e pré-requisito de acontecimentos especificamente desejáveis.portanto em registra-la corretamente a nível mental e déficit quanto à noção de tempo e duração das locuções verbais. Dessa forma esses indivíduos possuem carência de material auditivo adequado a nível psíquico para ser concretizado em fala.Apraxia simbólica: inabilidade em elaborar códigos dotados de significados sociais como mecanismo de interação com o ambiente. . inabilidade em percebê-la auditivamente.Distorções perceptivas impedindo uma correta decodificação da palavra e que interferem na formação da linguagem interna de forma que os registros mentais auditivos formados não transcrevem exatamente as características reais da palavra recebida do meio. ou seja.Maior latência e/ou interrupções no processamento auditivo central dos estímulos verbais captados do ambiente. fonéticos e semânticos e ..

mas não assume papel de troca social. 55 . sanando o distúrbio de comportamento. 11 Trabalhar a função comunicativa da fala. lugares e pessoas que fazem parte do cotidiano do indivíduo. verbos (ações). 8 Trabalhar as categorias sintáticas básicas para o desenvolvimento da compreensão e comunicação: Substantivos (objetos/coisas). Ex:Pasta Higiene. em atividades de higiene. significados. Pasta Rua . almoço) e lazer. Enfim. alimentares (lanche. São representados por substantivos. Materiais e estratégias Estímulos Sensibilizadores: Desejos e querências individuais de cada paciente que são coletados da família. 9 Permitir a compreensão de palavras interrogativas básicas e execução de respostas perante as mesmas. por exemplo. dispostos num esquema o que pragmático de inter-associação coerente Pesquisa-se particularmente ele gosta no que diz respeito a coisas (objetos). etc. associados entre si conforme o contexto. Atividades da Rotina (obrigações e necessidades): A habilidade de comunicar deve estar presente em todos os eventos naturais. a qual será transformada em linguagem verbal e atitude simbólica. 10 Desenvolver noção de tempo e duração da palavra. 6 Minimizar birras e atitudes sócio-nocivas. as quais envolvem coisas. através da técnica. lugares e pessoas relacionadas. ações. enfatizando a percepção de seu fim para que este seja marcador do início de acontecimentos. advérbios de lugar (lugares) e sujeito (pessoas). como pode ser visto adiante na descrição técnica. individualmente necessários ou de desejados. advérbios de lugares e sujeitos. Pasta Lazer . devendo ser desenvolvida dentro das dinâmicas de vida. sendo apragmática e ecolálica. Pasta Almoço . as quais serão transformadas em comunicativas.5 Desenvolver ações simbólicas espontâneas e adequadas com o objetivo de se comunicar e responder perguntas: esquemas comunicativos (aquisição da 2a etapa da 1ª fase). ações . como na Síndrome de Asperger. os estímulos devem ser desejados para que ele tenha atitudes direcionadas. Pastas Vísuais-Linguísticas: Material visual fotográfico que transcreve os substantivos. como por exemplo. 7 Prover a aquisição de esquemas de causa e efeito comunicativos. lugares e pessoas para serem usados como provedores de ação motriz (ato de busca). verbos. principalmente nos casos em que ela é quantitativamente presente .

Procedimento técnico A Técnica Audio-visual-cinésica cumpre os objetivos descritos considerando traços particulares do comportamento geral observado nesses indivíduos. Elas são ouvidas pelo paciente paralelamente à ocorrência de um evento cotidiano ou desejo demonstrado. pelo terapeuta ou co-terapeutas. variando e alternando ocorrência. principalmente o atentivo. o que varia de acordo com o nível simbólico e perceptivo de cada um. dos fonemas e sílabas que formam as palavras. O que? : Se a resposta for um substantivo. Etapa1: Execução de modelo auditivo contextualizado: Envolve a produção de frases verbais afirmativas iniciadas com o pronome "Eu" coerentes com atividades do cotidiano e pulsões internas (desejos) individuais. Etapa 5: Promoção do acontecimento desejado ou necessário imediatamente após a execução da atitude simbólica e à percepção da palavra de forma global. velocidade e permanência. auditivo e comunicativo através de quatro fases: 1ª fase: é composta por cinco etapas que são efetuadas de forma subsequente e rápida numa única aplicação. para que a mesma seja ouvida e percebida sinteticamente . Onde? : se a resposta for um advérbio de lugar. Quem? : se a resposta for uma pessoa. vigentes no momento da aplicação. Etapa 4: Produção da palavra inteira. Iniciação Fonêmica Rápida: Execução de prolongamentos fonêmicos associados a cada marcação cinésica corporal.Modelagem Motora: Marcação corporal. coordenar e controlar as atitudes comunicativas necessárias. perceptivo. Etapa 3: Modelagem motora da atitude simbólica solicitativa (perante um desejo/estimulo sensibilizador ou necessidade) ou responsiva (diante uma pergunta) associada à Técnica de Iniciação Fonêmica Rápida com silabação de forma despertar . Etapa 2: Produção de frases interrogativas providas de locuções padronizadas condizentes com a categoria sintática da resposta envolvida na questão. Fazer? : Se a resposta for um verbo ou ação. duração. 56 . através de gestos simbólicos e dedadas demonstrativas em objetos ou pastas visuais linguísticas. regular .

havendo uma concomitância de inputs cinésicos. Ex. Imediatamente após a estimulação do pensamento verbal ouvido (1a etapa) ou pergunta (2a etapa). para ser pouco mais tarde expresso em atitudes comunicativas. O primeiro refere-se a movimentos com os dedos direcionados ao material fotográfico das pastas linguísticas. o que transcreve o pensamento auditivo que todos nós temos sobre os acontecimentos de nossa vida. Gradativamente trabalha-se a capacidade de pensar por palavras. iniciar uma conduta 57 .Explicação técnica Etapa1 (Input auditivo Puro) O paciente. contextualizados a uma querência ou evento de vida. coerente ao objetivo a ser cumprido ou desejo. embora. logo ser capaz de regular seus atos. repetidamente. jóia) e o terceiro à imposição de direcionamento organizado pelo ambiente. simbólica e/ou Resposta. a qual pode ter caráter demonstrativo. O input visual é representado por pastas compostas por fotos e cores que significam verbos. lugares. A seqüência de movimentos termina quando a palavra termina. ouve uma locução frasal iniciada pelo pronome "Eu‖.: ―Eu vou lavar as mãos‖ ―Eu quero bala‖ Tal estratégia atua na formulação linguística do pensamento. gestual ou de deslocamento. semanticamente interrelacionados aos objetivos rotineiros de vida e desejos individuais. oi. a gestos convencionais e sociais (tchau. Etapa 3(Input Áudio-visual-cinésico): Modelagem da Ação demonstrativa. Movimentos corporais gestuais e demonstrativos são feitos com o indivíduo. o segundo. visuais e sonoros. nossos atos e o que queremos. sendo cada fragmento de movimento correspondente a uma sílaba da palavra ouvida e envolvida no contexto em questão. pessoas e substantivos. eu. O input cinésico é veiculado pela modelagem motora. portanto. associada aos seguimentos prolongados dos sons da palavra trabalhada (Iniciação Fonêmica Rápida). onde é construído um interior psíquico verbal latente. quando o efeito envolvido na situação de terapia é a chegada em algum lugar. modela-se no corpo do paciente uma atitude coerente simbólica dotada de função comunicativa solicitativa ou responsiva. desenvolvendo a capacidade de pensar por palavras e. Esta habilidade é adquirida através de um trabalho de fora (enunciação ouvida contextualizada) para dentro.

Etapa 4: Percepção global da palavra . 58 . propondo a noção sintética da mesma. o que facilitará a instalação da atitude gestual ou demonstrativa autônoma mais rapidamente. Nenhum acontecimento se concretiza sem a presença da palavra. o que é o contrário do que se pretende. Etapa 2 : Input Auditivo Sintático Ativador da Ação. Deve-se aguardar sua iniciativa de busca. caso contrário o indivíduo fica dependente da intervenção do técnico para iniciar a conduta comunicativa. estando a palavra sempre presente. envolvido no contexto. sem primeiramente haver algum sinal corporal de que há o desejo. é importante que o paciente não tenha visão e. Etapa 5 (Reforço Positivo): A partir do momento que acontecimentos desejados ou necessários ocorrem somente após a palavra que foi ouvida (tanto em segmentos quanto sinteticamente) e a atitudes socialmente adequadas (ainda modeladas). estabelecendo o esquema de troca. jamais se deve tocá-lo. de forma natural. Tal necessidade justifica a importância dos estímulos terapêuticos serem realmente sensibilizadores para que a busca motora seja ativada. O objetivo é independência e autonomia comunicativa e na maioria das vezes o sinal mais comum é uma ação motriz direcionada ao alvo querido. A postura para intervenção da modelagem motora deve-se dar atrás do indivíduo. As palavras sintáticas funcionam como marcadores sendo a ultima locução da pergunta. ―O que você vai fazer?― ―Você quer o que?‖ Na medida em que uma ação corporal simbólica (3a etapa) é instigada imediatamente após as palavras interrogativas próprias da segunda etapa.cria-se o insight de que são elas que movem a vida . gradativamente adquire-se a habilidade de iniciar uma resposta espontânea toda vez que as mesmas forem ouvidas.simbólica e administrá-la num esquema de início. Ou seja. o que facilita a autonomia das mesmas mais tarde (Fase 2) Considerações Importantes: Principalmente no inicio do trabalho as intervenções da primeira e terceira etapas só podem ser efetuadas após haver iniciativa espontânea de busca do alvo desejado por parte do paciente. Dessa forma cria-se a filosofia do ―Eu faço e aconteço‖ e do ―Eu sou gente que faz‖. portanto. consciência da aplicação. meio e fim. iniciando a modelagem motora ou a frase com o pronome ―Eu‖.

A palavra começa a ser o estímulo principal.O efeito descrito na etapa cinco deve se concretizar o mais rápido possível. e assim por diante. 2a Fase: -Amenização da intensidade e quantidade da Modelagem motora. suaviza-se gradativamente as pistas instigadoras dos mesmos. fazendo com que estes reinem sobre o controle da produção das ações simbólicas em detrimento ao contato corporal. por não haver muita quebra de equilíbrio. Diminui-se a quantidade de modelagem dando maior ênfase nos segmentos de sons das palavras e seus prolongamentos. A situação dessa fase é terapeuticamente confortável. denotando nítida melhora da atenção auditiva e visual seletiva. imediatamente após a etapa quatro. Quando é observado no paciente um comportamento cooperativo às modelagens assim como níveis de atitude motora e fluência intencional dos movimentos. a fim de assegurar a percepção de que a palavra é a causa do que se quer ou se precisa. É um período de exercício das aprendizagens até então adquiridas. além de se direcionar organizadamente aos objetivos. Olha para o objeto demonstrado (foto ou objeto em si) perdurando até o término da palavra. por elaboração e produção cinésicas próprias. sendo capaz de iniciar as ações demonstrativas e gestuais sociais trabalhadas. ou seja. 59 .Maximização da Iniciação Fonêmica Rápida. . onde se atinge níveis cada vez mais satisfatórios no que diz respeito à automatização das habilidades comunicativas já desenvolvidas. até aboli-lo completamente. 4a fase: Estimulação centrada na produção de fala. 3a Fase: Representa o estágio onde o indivíduo adquiriu autonomia de conduta. coerentes com os contextos e querências. É capaz de coordenar sozinho tais condutas no ritmo e tempo da palavra ouvida e contextualizada à situação. Os procedimentos técnicos desta fase são executados quando a fala não surgiu espontaneamente nos estágios anteriores. Toca-se cada vez menos o paciente transferindo o contato corporal para o antebraço e cotovelos.

como birras e agressões. é necessário sanar as que não condizem com isso. a fim de mostrar que as mesmas não funcionam. Orienta-se pais. A tentativa adotada pelo indivíduo é a de provocar a continuação da palavra e seu fim através da produção inconsciente da sílaba interrompida e/ ou as demais subsequentes. familiares e professores a ignorar tais atitudes. é necessário que haja o máximo possível de aplicações. ora não e ora insuficientemente (sem seu término). 60 .consiste em alternar a ocorrência da palavra e seus fragmentos sonoros com o silêncio. Outra abordagem própria dessa fase consiste em interromper o movimento dos dedos ou algum gestual. diante das condutas gestuais e demonstrativas já internalizadas como meios comunicativos e. À medida que já foi entendido pelo paciente que os acontecimentos esperados da rotina ou os desejados somente se concretizam com a presença da palavra. sem permitir sua finalização. paralizando-o em um dos seus segmentos e prolongando o som fonêmico silábico relacionado ao mesmo. Os técnicos de intervenção ou coterapeuta Em primeiro lugar. Mecanismos de repetição são necessários à aprendizagem deste paciente. devem ser cumpridas orientações que envolvem mudanças de comportamento do meio perante determinadas condutas adotadas pelo indivíduo que. nem cumprem objetivos ou trazem efeitos almejados. Orientações da teoria comportamental Paralelamente aos procedimentos descritos. Dessa forma as mesmas vão diminuindo e dando lugar às novas condutas comunicativas. para que esquemas mentais auditivos e habilidades comunicativas sejam internalizados e incorporados pelo indivíduo em questão. É uma fase de quebra de equilíbrio. a tendência observada é a tentativa de produzir fala a fim de buscar a palavra que não se faz mais sempre presente. Isso é feito de forma criteriosa e dosada através de minuciosas coletas de dados com os pais sobre detalhes dos comportamentos anti-sociais e aberrantes observados. portanto produzidas fluentemente. visto que o esquema de previsibilidade desta presença não ocorre mais. apesar de serem providas de função comunicativa são socialmente nocivas A partir do momento que se quer desenvolver condutas simbólicas e adequadas como mecanismos de comunicação. Cria-se um jogo sonoro onde ora ela ocorre.

61 . inseridas na vida deste indivíduo. o que foi aprendido em terapia deve ser automatizado e usado de forma natural. fazer-se entender de forma simbólica e organizada. quando ainda modelado ou já autônomo. direcionando o paciente para o foco objetivado ou querência. Treinamento da família e escola Já que o trabalho deve ser complementado. babás e familiares. em todas as sessões de aplicação da técnica os pais participam das dinâmicas sendo ensinados a atuar na prática e a ter dinamismo e também quando possível professores. ter papel ativo ou estabelecer relações de troca não podem se restringir a quatro paredes ou a um só interlocutor. para que sejam transformados em atitude lingüística e/ou fala. Habilidades necessárias para intervenção e atuação técnica É necessário que tanto os terapeutas quanto os co-terapeutas desenvolvam determinadas habilidades para aplicar a técnica com eficácia e conseguir bons resultados. quanto mais tarde.Em segundo lugar. tal empenho tem sua importância tanto no início das aplicações. assim como a segunda fase da técnica. -Não ceder a condutas aberrantes e socialmente inadequadas. deve-se assegurar a generalização linguística das aquisições em comunicação promovidas pela técnica. estejam dispostas a utilizar a técnica. -Ter perspicácia em conter impulsividades motoras (hiperatividades). estabelece-se uma parceria onde pais e pessoas que lidam diretamente com este indivíduo são treinados a executar com exatidão as cinco etapas da primeira fase. não havendo mais aspecto de ―trabalho‖ nas atitudes requeridas. centrando-o e contendo dispersões. no período de aprimoramento da terceira fase.silábico das palavras trabalhadas com seu correspondente cinésico-corporal. Para tanto. o ideal é que o máximo de pessoas. -Identificar sutilezas comportamentais que denotem presença de algum desejo ou necessidade. inclusive.Assumir postura física adequada durante a execução da modelagem motora. para que as primeiras aquisições ocorram. -Efetuar o procedimento de iniciação fonêmica rápida prolongando os fonemas das palavras trabalhadas na mesma duração dos movimentos corporais. Assim. estagiários do modelo de inclusão. . devendo ser capazes de: -Associar com exatidão o tempo de cada segmento fonêmico. -Inferir os possíveis desejos latentes nas diversas atividades de vida diária.

. ouvir música).. sorveteria(comprar guloseimas. os ambientes de aplicação englobam os lugares que se encontram tanto o que ele quer quanto o que deve ser feito. substantivos e pessoas inter-relacionados. quarto (trocar de roupa.. mas usá-las nos lugares coerentes às mesmas..... padaria.. sala (ver televisão.molhar planta). Observa-se ainda durante o processo terapêutico: -Melhora das atenções auditiva e visual.. alguém É importante ser versátil de forma a selecionar as atividades particularmente sensibilizadoras... ... aumento da tranquilidade e diminuição da impulsividade e ansiedade e atos impulsivos começam a ser abandonados.. jantar). lanchar .. o banheiro (atividades de higiene).. Settings de intervenção Uma vez que o material e estratégias utilizadas envolvem as atividades de vida diária e o que é individualmente sensibilizador. Resultados A primeira aquisição observada é a capacidade de esperar os fatos e eventos acontecerem devido à aquisição de noção temporo-espacial e de início. etc... As intervenções são executadas durante o dinamismo das ações onde palavras nomeiam os lugares e seus verbos específicos. 62 .. brincar).. as quais são os principais instrumentos terapêuticos. Assim.. exatamente no momento de sua busca motora pelo alvo desejado.). Nota-se melhora de humor. meio e fim dos eventos. ... os procedimentos explicitados são executados em espaços cotidianos como por exemplo.. conforme os procedimentos técnicos descritos. Onde Para o banheiro Para o quarto Para a sala Para a cozinha Para a padaria Para o clube Para o carro fazer tomar banho brincar ver televisão almoçar comprar nadar passear o que sabonete bola televisão arroz.. praça. clube (nadar) e outros.. cozinha(almoçar. feijão e carne chocolate bóia chave com quem o papai a mamãe fulano .. quintal (brincar.-Abordar o indivíduo. supermercado...

-Capacidade de iniciar e elaborar atos comunicativos expressivos de forma espontânea e fluente. Comentários gerais ―O encontro de duas personalidades é semelhante ao contato de duas substâncias químicas – se houver qualquer reação.‖ Carl Jung É fácil perceber que a proposta central da técnica áudio-visual-cinésica é a transformação. Fazer. 63 . através do desenvolvimento de habilidades fundamentais ao surgimento da fala. transformam-se desejos e necessidades em comunicação. A partir do momento que palavras ou frases denominativas (da atividade em voga ou desejo latente identificado) são intensamente associadas aos atos gerais cotidianos e/ou denotativos de alguma querência.Aquisição de fala em alguns casos. ou seja. -Respostas a perguntas.-Descoberta da palavra e percepção da mesma como denominadora e causa de acontecimentos. ambas se transformam. o que já ocorreu em vários casos de mutismo. . mas numa via de dentro para fora. já que a latência de processamento auditivo central de indivíduos com distúrbios de comunicação considerados graves. em relação à palavra. -Minimização de condutas aberrantes e birrentas. Para tanto é estabelecido um nível apropriado de estrutura psicolinguística. ou nos casos em que a fala é presente. em ações que sejam ao mesmo tempo linguísticas . costuma ser maior. Onde e Quem. O procedimento de Iniciação Fonêmica Rápida com prolongamentos de sons é fundamental na transformação de condutas gerais em linguagem auditiva. movidos pela palavra ou seus segmentos de fonemas. bem como em assegurar uma melhor percepção dos sons a nível psíquico. -Compreensão verbal e execução correta de ordens. a mesma se torna organizada e dotada de função comunicativa. o que dá subsídio para que mais tarde os atos sejam controlados por pensamento verbal. porém ecolálica e apragmática. promove-se a regulação auditiva e linguística dos mesmos numa via de fora para dentro. simbólicas e sociáveis. construído através desse mecanismo. por adquirir a significação das locuções sintáticas trabalhadas: O que.

É necessário que a exigência de papel ativo lingüístico e comunicativo bem como o trabalho perceptivo da palavra como chave de acontecimentos tenham contextos ampliados e sejam repetidos sempre. Independente da linha de tratamento ou do enfoque envolvido. a missão central de qualquer tipo de abordagem terapêutica é dinamizar transformações positivas insistindo na saída da borboleta. principalmente durante a 1ª fase. o que pode ser possível através de intervenções individualizadas e adequadas. 64 . assim como para a internalização de moldes expressivos sob a forma de linguagem. Na medida em que a técnica é direcionada a pessoas com alto grau de dificuldade nessa área do desenvolvimento. Reagir às dificuldades é um padrão de comportamento comum. já que mudar estressa. pois acatá-las será reforço para a nãomudança. Fazendo um paradigma entre a frase de Jung e o processo terapêutico aqui apresentado. o que não pode ser permitido. Já os procedimentos da segunda fase objetivam a exteriorização intencional. para que o novo molde de condutas e habilidades comunicativas seja instalado. produção cinésica de códigos lingüísticos organizados paralelamente às palavras ouvidas. devendo ser esperadas. que respeitem especificidades. incorporado e automatizado.A primeira fase da técnica e suas etapas trabalham para uma estruturação cognitivo-linguística provida de imagens mentais verbais com relação de causa e efeito com o ambiente. a exigir e estimular ações linguisticas com função de troca social. espontânea e autônoma do que foi assimilado na primeira. ou seja. o que envolve uma parceria forte com a família e escola. resistências durante as aplicações são freqüentes. O meio é esquematizado. conforme descrito. é fácil entender que este implica numa quebra de estados acomodados de passividade no que se refere à comunicação. engessado num estado continuo. É importante que os terapeutas e técnicos de intervenção não cedam às reações negativas. Codificar e decodificar símbolos é uma tarefa árdua para essa clientela. A tendência deste indivíduo é permanecer num casulo sem haver metamorfose.

B.mail:fornerog@ig.br/2005_05_01_archive. Autismo e Outros Atrasos do Desenvolvimento.M: Pravettoni. Aun.blogger. Paulo. 1999. SP.autism. Autism: Entendimento Teórico e Intervenção Educacional. T. S. E Se Falta a Palavra. Francisco B. Fonoaudiologia em Distúrbios Psiquiátricos da Infância. www. Corde.med. Revista de Psiquiatria e Psicanálise com Crianças e Adolescentes.br/surdez. P. Cultura Médica. Corde. 1973. C. 1992.Paulo. 1999. Tupy. Gauderer. Pastorello. Horizonte: Equipsis. Coste.G Projeto TIC/Programa TIICCA –. E Christian. 2006.G. RJ. SP. Masson. Schewer. Mnemon.cantodeanjo. L. Jean.Paulo. 2004.com/~camargos. Andrade. Peeters.htm http://www. Transtornos Invasivos do Desenvolvimento. qual Comunicação. Transtornos Invasivos do Desenvolvimento/3º Milênio. Cia de Letras. 2000. E. A psicomotricidade. Pobox. Ajuriaguerra. 1978.html Contato da autora: e. Revista de Psiquiatria e Psicanálise com Crianças e Adolescentes. Fernandes.Referências bibliográficas Fornero. Brasília. S. 1998. Juliana Gontijo. Assumpção Jr. Rio de Janeiro.G. Distúrbios Psicomotores.com. J Manual de Psiquiatria infantil. Da Terapia de Família ao Atendimento Sistêmico à Família. F. Temple. E. 2002. Uma Menina Estranha. 1997. Terapia Intensiva da Comunicação CAPSI/CPP.br 65 . 1984. Barcelona. 1996. T. Mª Lúcia de A. Fornero. Lemos. Qual Linguagem? S. Camargos Jr e Cols. Grandin.com.

cognitive behavioral therapy Introdução O autismo se configura. proposes that the autistic individual is found all the time in a labour of defense against this Other. adverte a abordagem educativa do autismo quanto às consequências de um rompimento forçado das barreiras defensivas que cada autista encontra como meio de proteção. Palavras-chave: autismo. it advises the educational approach to autism as to the consequences of a compelled disruption of the defensive barriers that each autistic one finds as a protection means. Inúmeras são as hipóteses e poucas as comprovações. By approaching autism by the clinical psychoanalytic axis from the subject in relation to the Other and to the object. Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). ainda nos dias de hoje. Ao abordar o autismo pelo eixo clínico psicanalítico da relação do sujeito ao Outro e ao objeto. Keywords: autism. Atende crianças e adolescentes autistas no CEPAI/FHEMIG. terapia cognitivo-comportamental Abstract: The article aims at enlightening the present contributions of Lacanian psychoanalysis for the treatment of autism. Desde sua descrição feita por Leo Kanner em 1943.A abordagem do autismo feita pela psicanálise Paula Ramos Pimenta1 Resumo: O artigo procura elucidar as contribuições atuais da psicanálise de orientação lacaniana para o tratamento do autismo. Seu diagnóstico também sofre tentativas periódicas de refinamento. Parte do levantamento dos comportamentos autistas para concluir que sua multiplicidade nos faz considerar que se trata de uma síndrome fora-das-normas. como uma das mais obscuras síndromes que acometem algumas crianças. It starts from the assessment of autistic behaviours to conclude that the multiplicity thereof makes one consider that it is an out-ofnorms syndrome. poucos avanços foram obtidos quanto à identificação de sua etiologia. Herewith. no intuito de se obter um relativo consenso quanto a seus fundamentos. Com isso. 1 Psicóloga. propõe que o autista se encontra todo o tempo em um trabalho de defesa diante desse Outro. Psicanalista membro da Escola Brasileira de Psicanálise – Seção Minas Gerais. psychoanalysis. uma vez que a relação dos comportamentos autistas observáveis mostra-se bastante diversificada. 66 . psicanálise.

O autismo para a psicanálise A psicanálise de orientação lacaniana vem se dedicando a ampliar as discussões a respeito do autismo. 67 . terapeuta etc. acumulando experiência nessa área e estabelecendo formulações teóricas importantes para fazê-lo avançar. Nesse sentido. professor. Os comportamentos bastante conhecidos dessas crianças de pegar. A mais conhecida delas é a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). aí representadas pelo objeto a. a voz e o olhar. sem mais nenhum gesto. Estado etc. pai.). com sua própria mão. o tratamento do autismo tem apresentado orientações bem definidas. O Outro é um conceito lacaniano que indica o lugar da linguagem. e fundamenta nossa idéia de que somos um ―eu‖ diferente de todos os outros. Essa delimitação entre um ―eu‖ e um ―outro‖ não ocorre no autismo. em razão de sua proposta educativa e adaptativa. a mão do outro para que este abra a torneira. Além dessas dimensões — imaginária (o outro) e simbólica (o Outro) —. hospital psiquiátrico. Há uma cota pulsional que não é passível de simbolização e que está implicada na constituição do corpo do sujeito. os autistas não têm corpo. A psicanálise também tem se debruçado sobre o tratamento do autismo. ou de olhar para a porta e. Ele se diferencia do organismo. pela linguagem. Ele tanto pode se mostrar encarnado pelas pessoas que ocupam um lugar especial para o sujeito (mãe. as fezes. Para pensá-los. e não dado. os orifícios corporais. a constituição do corpo também traz algo de real: as pulsões.) como pode ser representado pelas instituições às quais o sujeito se encontra submetido (escola. aguardar que o outro a abra são um exemplo disso. Para a psicanálise. O objeto a lacaniano é o que não é apreensível pelo Outro. apoia-se em sua chave de leitura da clínica concernente à relação do sujeito com o Outro e com o objeto. seus impasses e seus êxitos terapêuticos. O corpo próprio se constitui pelo alojamento da pulsão nas chamadas zonas erógenas. O corpo se constitui por um processo imaginário que leva em consideração a relação do sujeito com o outro (seu semelhante) e com o Outro (a linguagem) (4). o corpo de cada um de nós é constituído. Também seus balanceios estereotipados são uma forma de se fazer existir um corpo por meio da propriocepção. São esses buracos que dão o contorno e o limite corporais.A despeito da opacidade do fator etiológico e da dificuldade de seu diagnóstico. contribuindo com publicações diversas que trazem os pormenores da clínica com autistas. Os objetos princeps que estabelecem esse contorno corporal são o seio (o alimento). sendo também a mais comumente indicada pelos psiquiatras.

na Bélgica. conseguem uma troca de olhar. ainda. olhos etc. mas pelos buracos nela contidos (boca. amassados. tratando o espaço como uma continuidade entre o dentro e o fora(5). No que concerne aos objetos olhar e voz — que presentificam o desejo do Outro —. porém não como objeto de troca. 68 . há quase 30 anos. Outras. musical. outras. ou se utilizam da voz como suporte para uma troca com o Outro. ainda. sem desviar os olhos. Nesses dois casos. também há a imperiosa necessidade de regulação: o olhar do Outro deve ser controlado por uma batida ou por uma vigilância extrema por parte da criança. também. no que se refere às suas relações com o Outro e com seus objetos(1). mas a sequência dessa relação deve ser regulada minimamente. devendo passar somente em determinados lugares ou andar de determinada forma.Os comportamentos dos autistas Os profissionais da instituição psicanalítica Antènne 110. Configuram-se. Por vezes. eles mesmos. Relativamente aos objetos destacáveis do corpo que presentificam a demanda do Outro — alimento e excrementos —. Outras. com frequência. morrem) ou não comendo na presença dele. observam que são frequentes uma certa insensibilidade à dor e uma ausência de doenças. entretanto. algumas crianças os evitam. mensurada em sua relação com o espelho ou com o corpo do outro. Esses objetos da demanda do Outro são. outras pedem a presença do Outro para regulá-lo.). Quanto ao corpo e àquilo que pode afetá-lo. ou. encaram o olhar do Outro de maneira fixa e perturbadora. mostrando-se totalmente dependentes na alimentação (se não forem alimentadas. Quanto ao corpo no ambiente. aqui. Porém. submetidos a tratamentos diversos: manipulados. todavia. que acolhe. que dá descarga (ou que é impedido de fazê-lo). controlando os gestos de quem serve seus alimentos ou que abre ou desce sua calça. mediante circuitos inteiramente obrigatórios. Em relação à sua imagem. nariz. algumas crianças não se mostram interessadas por ela. instituem a relação com a imagem como sendo essencial. não falando e parecendo surdas à voz do Outro que lhes fala. olhando para outro lugar. crianças autistas para tratamento. seus rituais. propuseram-se a descrever os fenômenos característicos desses sujeitos. apresentam uma limitação na assimilação das nuances espaciais. algumas crianças anulam esse Outro da demanda. não tendo outra intenção senão a de cantar. o que lhes parece bastante apaziguador. se mantêm constipadas ou evacuam em locais escondidos. e a voz do Outro deve ser ritmada. ou utilizam a voz. espalhados antes de serem ingeridos ou jogados fora. nota-se que a relação dessas crianças com o espaço estabelece-se.

no entanto. tal como são chamados) e outros em uma ordem própria e bastante precisa. ou demasiadamente tarde. Esses dados nos indicam a inconsistência do diagnóstico do autismo realizado unicamente sobre a observação e a descrição do comportamento da criança. a ausência do organizador simbólico produz também distorções na temporalidade do autista. portanto.Essa indiscriminação espacial do autista não deve ser atribuída. A construção do espaço comporta. perguntava-se quando elas sairiam dali e passariam à sala em que estava(3). O arrolamento desses fenômenos nos revela a total ausência de padronização do comportamento do autista. algo do simbólico. Por fim. a uma deficiência de sua capacidade sensorial. nesse caso. tal como propõem os manuais psiquiátricos atuais (DSM IV e CID 10). Manter contato através do olhar ou não fazê-lo. fazendo eco em lugar da resposta. A inexistência de uma distribuição do tempo entre antecipação e retroação leva esses sujeitos a responderem a uma pergunta demasiadamente cedo. da linguagem. mas propõe uma reiteração diagnóstica feita pela análise da posição do sujeito na estrutura. Responder ecolalicamente ou não. parecendo querer inventar uma nova significação. os profissionais daquela Instituição assinalam a manipulação de objetos variados feita por essas crianças. pronunciados de maneira holofrásica*. Ele pode falar ou não falar. frequentemente indispensáveis e aos quais sempre é aplicada uma batida. paciente de Kanner. Um exemplo de uma indiferenciação entre a bidimensionalidade e a tridimensionalidade é dado por John. Alguns autistas se dispõem a falar: uns sob o modelo da mensagem não invertida (aqueles que se autorreferem na terceira pessoa. apoiando-se na consideração do sujeito frente ao Outro e ao objeto para denominá-lo ―autista‖. Nesse contexto. Em relação à linguagem dos autistas. que. Assim como ocorre com a noção espacial. interpondo entre a pergunta e a resposta um tal lapso de tempo que uma se desconecta da outra. um ―aqui‖ em contraponto a um ―ali‖. os quais se mostram. mas sim à ausência do sistema de oposições linguístico. outros apenas repetem as mesmas palavras ou fonemas. uns não falam nada. vários supostos diagnósticos de autismo 69 . ao se deparar com pessoas em uma fotografia. Fora-das-normas A psicanálise não descarta a observação do comportamento das crianças como dado diagnóstico. para elas. que instituiria.

Essa necessidade imperiosa de controlar o Outro justifica. em uma mesma criança. como nos atesta o caso de Nádia. afirma Soler. por exemplo. estabelecendo que nada pode se mexer ou se apresentar como instável. de que o Outro não se mexa. faz multiplicar suas demandas. suas tendências aos rituais. primeiramente. causando um impacto direto sobre o autista. A formalização dessa relação do autista com o Outro foi proposta pela psicanalista Colette Soler. a boa resposta dos autistas às TCC e seus programas educativos: uma vez aprendida a sequência de atitudes que lhes é demandada. A diversificação das aprendizagens funcionais habituais dos autistas. que os autistas se sentem perseguidos pelos signos da presença do Outro. 70 . nessas crianças. No fundo. Quando algo ocorre do lado do Outro. Tal variedade nos leva a considerar a anomalia autista não como deficitária. Instauram-se. O terceiro traço é o que Soler chama de uma recusa da intimação do Outro e que se apresenta como uma ausência de demanda por parte do autista. Ela indica. os autistas não têm muita dificuldade em repeti-la outras vezes. Deduzem-se daí as estratégias. ou seja. exposta pelos profissionais da Antènne 110. ele não pede. incorrendo em um outro tipo de psicose ou mesmo em uma neurose bem grave. evitando-se a intrusão da presença do Outro. por exemplo. O Outro ―chama‖ pela voz e pelo olhar. assim. permite-nos encontrar.perdem seu valor. que procurou agrupar os traços revelados nos estudos de casos da literatura psicanalítica(8). de abordá-las dando-lhes as costas ou lhes falando cantarolando. A segunda característica depreendida da relação do autista ao Outro diz respeito à anulação do Outro: os autistas aparentam ser surdos ou ter problemas no olhar. em especial por dois objetos: olhar e voz. Essa é uma consequência da primeira. O que eles não querem é que novas demandas lhes sejam feitas. O autista é uma criança que não faz apelo. à medida que visa a uma aniquilação dos signos da presença do Outro. não entra na dialética da demanda. a nosso ver. Soler também toma o imprevisível como um índice da presença do Outro. uma dificuldade do controle esfincteriano coexistindo com uma memória prodigiosa. Essa recusa de serem chamadas pelo Outro produz. mas como sendo fora-das-normas. no intuito de firmar essa demanda do Outro. daqueles que delas se ocupam. uma ausência da dimensão do apelo. paciente de Rosine Lefort(6). a própria estabilidade do autista é dependente da estabilidade do Outro para ele.

tivesse que partir do Outro.Esse fora-das-normas autista se relaciona. Um fato ocorrido com Otto**. seu movimento corporal. ao desenvolvimento pulsional. O quarto e último traço característico da relação do autista ao Outro refere-se a um problema de separação do primeiro em relação ao segundo. É como se a execução do gesto. atestam esse traço. como se este fosse um prolongamento de seu corpo. Desse modo. no autismo não haveria tanto um deficit na percepção dos limites da imagem. Esses comportamentos seriam. exemplifica nossa advertência. No caso do autista. Se Lacan(4) nos diz que a ordem das pulsões corresponde à sucessão estabelecida das demandas do Outro. Otto se mostra relativamente permissivo ao contato com o Outro. pela libido do Outro. a técnica comportamental de fazê-la sempre olhar para seu interlocutor pode obter alguma aceitação de sua parte. A libido é um conceito freudiano referente à pulsão de vida(2) e que funda tudo o que anima os sujeitos em seus propósitos. em seu movimento típico de ligarse e desligar-se do Outro. a psicanálise enfatiza a necessidade de o tratamento se dar mediante a singularidade de cada caso. evitando-o. episodicamente. por 71 . menos uma confusão de fronteiras imaginárias e mais uma alteração no ponto de inserção da libido. e se há uma anomalia da relação com o Outro no autismo. para uma criança que o olhar do Outro se mostra relativamente suportável. Aqueles comportamentos que prenunciam uma indistinção entre ―eu‖ e ―outro‖. por exemplo — só seria realizado por ―seu‖ corpo à medida que ele se ligasse na animação do Outro. inclusive em seus gestos. Mas para outra criança que toma o olhar do Outro como signo de sua presença intrusiva e dele tenta se defender. esse tipo de abordagem pode desencadear uma crise autística com consequências maiores. Sendo assim. a fechar seus olhos e mantê-los assim por algum tempo. mas sua posição singular o leva a reagir à voz de alguém que canta à capela e. a execução de algum gesto intencional — como o de abrir uma torneira. a própria diacronia dos estados libidinais encontra-se aí perturbada. citados no início. basicamente. Uma observação comum a todos que lidam com essas crianças é a aparente ausência de noção de fronteira entre seu corpo e o corpo do Outro. no entanto. adolescente autista atendido por mim no CEPAI/FHEMIG. mas uma perturbação libidinal. Considerações finais Ao demonstrar a variabilidade da manifestação do autismo em seus diferentes portadores. sem maiores comprometimentos.

Para essa criança. atirando-se sobre sua cama a chorar. concorrendo para sua alienação do mundo à sua volta. No entanto. sim. ou seja. a permanência de um objeto à semelhança de uma caneta ou lápis em sua mão foi o recurso por ele encontrado para tolerar a proximidade do Outro. uma maior aproximação do autista com as pessoas e o ambiente em seu entorno. submergindo nesse movimento: uma forma de temperar a presença do Outro. Concluímos por considerar que um ponto em comum entre essas duas diferentes orientações seria aquele de obter. cumpriu a ameaça. O pai. A singularidade do trabalho defensivo de cada autista pede o respeito e a tolerância do terapeuta. Nesse instante. João demonstra sentir-se mais protegido. contudo. com os olhos fechados. Após alguns minutos. encontrando meios de trazer João para o contato com o terapeuta e com os objetos do ambiente. ao tentar contê-lo. Não ocorrendo nenhuma mudança. deteve-se diante da porta de entrada e lá permaneceu. a psicanálise adverte sobre as consequências nefastas de uma imposição incalculada. foi também machucado pela agitação do filho. O pai chamou-o e não obteve êxito. Otto se aquietou.vezes em situações bastante inadequadas. desconsolado. poder consentir com o 72 . Entretanto. na abordagem psicanalítica do autismo. Estabelecer um laço social. Ao segurá-lo. sem compeli-lo a se separar forçosamente de seu objetocorpo. entretanto. a cada vez. por vezes. mas. que desconsidera o trabalho defensivo do autista por detrás de seus comportamentos fora-das-normas. O tratamento se orienta para aí intervir. chegando à casa com a família. Tal propósito pode ser alcançado sem. fazendo-a. em visível estado de crise. Repetiu o chamado algumas vezes. Tivemos a oportunidade de investigar mais detalhadamente o tratamento proposto para o autismo pela Terapia Cognitivo-Comportamental e pela Psicanálise(7). que o auxilia a suportar o contato com o Outro. ausente. seja dele retirado. fechar a porta e deixá-lo do lado de fora. Otto irrompeu porta adentro. dirige nossa observação à recomendação geral da Terapia Comportamental de que todo objeto utilizado pelo autista para promover ritmos constantes e não funcionais. exaltado. assim designados sob a óptica da sociedade e de suas normas de conduta. Esse objeto é também utilizado para afastar-se do Outro. mas também é ela que o auxilia a reconhecer a via pela qual suas intervenções podem assistir a criança no estabelecimento de um laço social. Certa vez. extinguirem-se os ―bizarros‖ e ―inadaptados‖ comportamentos autistas. não é apresentar comportamentos ajustados às normas sociais. ao balançá-lo por tempos diante dos olhos. e atacou vários objetos da casa. por fim. com o ―social‖. outra criança por mim atendida no CEPAI/FHEMIG. ameaçando. quebrando-os. O caso de João.

5. Éric. dez.7-18. In: Revista de psiquiatria e psicanálise com crianças e adolescentes. Belo Horizonte: FHEMIG.7). Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). (Org. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Paula R. Fora do discurso: autismo e paranóia. Dissertação (Mestrado em Psicologia). Pimenta. sobretudo para o próprio sujeito autista. 1981. O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. 150p. Autismo: déficit cognitivo ou posição do sujeito? Um estudo psicanalítico sobre o tratamento do autismo. O nascimento do Outro. Robert.. p.que vem do Outro. Colette.): Autismos. (5) Laurent. Rosine & Lefort. De quelques problèmes de surface dans la psychose et l'autisme. (3) Kanner. p. (2) Freud. 1988. p. 1980. 73 . (6) (7) Lefort. set.1.96-103. (4) Lacan.2. 1994. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Bruxelas: Antènne 110. Os distúrbios autísticos do contato afetivo. Rio de Janeiro: Imago. 1993.69-80. v. 2003 8) Soler. In: Rocha.1. 1984.30-46. Salvador: Fator Livraria. São Paulo: Escuta. Jacques [1949]. v. In: Préliminaire. Sigmund [1905]. n.111-170. com o social. Monique. p. p. In: Quarto. 1997. n. Tal consentimento assinala uma mudança de posição significativa e estrutural. Virginio & Kusnierek. Paulina S. Leo [1943]. Referências bibliográficas (1) Baio. (Edição standard das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. n. O autista: um psicótico a trabalho. In: Escritos.

a coisidade da palavra. Aproximações e diferenças da escrita poética e escrita psicótica. A loucura e a criação ou mais precisamente a loucura e a poesia constituem dois conjuntos heterogêneos. linguagem. Quero retomar o percurso da construção da escrita tal como Fenollosa desenvolve em seu texto ‖Os caracteres da escrita chinesa como instrumento para a poesia‖. Existem. and its importance as resource in the treatment of psychotics. zonas de coincidências. tratamento treatment.A Escrita fora de lugar Helena Maria Galvão Albino1 As palavras querem me ser Manoel de Barros Resumo: A experiência da escrita em seu processo de aquisição infantil e como importante recurso nos tratamentos psiquicos. como ponto de furo e ponto de letra . pontos de encontro. psychosis Introdução A experiência poética atesta muitas vezes uma experiência comum à loucura: a palavra como real. metonymy. Especialista em Psicanálise pela UFMG. Keywords: Keywords: writing. Approximations and differences in poetic writing and psychotic writing. language. Abstract: The experience of writing in the childrens acquisition process.FCL – BH 74 . A poesia tanto quanto a loucura promove uma torção na linguagem. furo do simbólico e pura inscrição feita por um corpo. Psicanalista do Campo Lacaniano . metáfora. psicose. que não são resultado da pura alienação ao código linguístico. contudo. letter. metaphor.fuga do sentido. metonímia. letra. forjando estruturas que não se derivam de algo anterior. Neste texto Fenollosa percorre o desenvolvimento da escrita chinesa constatando que o mesmo 1 Psicóloga do CEPAI. Palavras-chave: psíquico. ao grande Outro como estabelece a psicanálise. acrescentando-se a isto o insondável ―mistério do processo criador‖ que o compara com o ininteligível por excelência: a loucura. psychic escrita. a palavra como ponto de fuga. inventando.

processos que operam sobre as representações. A palavra é um objeto lúdico e o sujeito criança brinca com os sons. As pesquisas sexuais infantis. da curiosidade infantil com seu universo de saber a construir. pretendia a correlação do traço ao fato. a estrutura das línguas se modificando e afastando de sua correlação na natureza. ritmos. à pura inscrição. a puro significante e mais elementar ainda a pura letra. que criou a ambos igualmente. A escrita estabelecia uma ponte entre o visível e o invisível. a escrita da loucura faz um caminho oposto. suas tentativas de resistência a se colocar sob a lei do código linguístico. uma vez que reporta ao que há de mais fundamental no escrito.ocorreu com outras línguas antigas. Se o processo utilizado para ir do visível ao invisível é a metáfora e a metonímia. Freud escreveu em seu texto ‖A significação antitética das palavras primitivas‖(1910) que nossos conceitos devem sua existência a comparações e podemos acrescentar comparações encetadas entre fatos da natureza. A letra é mais elementar que o significante. Os jogos infantis de linguagem repetem esse momento vivido. suas possíveis articulações. fadadas ao fracasso pela própria imaturidade biológica da criança deflagram a inelutável cisão do ser e tecem o destino da relação do sujeito com a linguagem. com seu momento de ver e de se deparar com a falta. seus fenômenos. mas a relação e a diferença entre os dois. jogam para simbolizar. com a escrita. A escrita buscava representar. Jogam para dominar as situações vividas. os acontecimentos da natureza. As palavras antitéticas inicialmente não significavam nem uma idéia ou seu contrário. como uma pintura vívida. É o momento da instauração da lei simbólica da 75 . Fenollosa nos apresenta que a partir da escrita figurativa os chineses elaboraram um grande sistema intelectual utilizando-se para ir do visível ao invisível do mesmo processo empregado em outras línguas: a metáfora (utilização de imagens materiais para sugerir relações imateriais). Um jogo privilegiado na infância é a aquisição da escrita e leitura que instrumentaliza a criança para ampliar o mundo e transgredi-lo. A psicose faz um caminho inverso de decomposição. A infância se experimenta nos jogos. Os produtos das condensações e deslocamentos realizados no inconsciente são reduzidos a seus elementos inaugurais. vai aprendendo a estrutura da língua. em sua redução ao puro traço. A escrita e o infantil O momento da aquisição da escrita é também o tempo das pesquisas sexuais. As crianças repetem no jogo tudo o que lhes causa grande impressão. homofonias.

A letra é este ponto de amarração. A letra. É sulcagem da superfície sobre a qual se escreve e se inscreve um sujeito e não pode ser separada do gozo. uma fronteira. A letra borda o furo que suporta toda construção simbólica e marca a diferença entre a palavra e a coisa. mas justamente por não terem absolutamente nada em comum. procriação. nos intervalos. corpo. os exercícios de caligrafia. A letra adquire dimensão privilegiada na infância. o momento de alfabetização com primazia do simbólico introduz a operação de esquecimento da capacidade do signo de exibir sua ―coisidade‖ para que ele possa provisoriamente tomar o lugar de outra coisa e representá-la. seu ritmo.‖ Lacan se empenha no cruzamento inaugurado por Freud e inédito no pensamento até então de entrelaçar os modos de satisfação com a estrutura da linguagem.O litoral é o que coloca um domínio inteiro como fazendo a um outro. de palavras. A letra solicita o corpo e o corpo se encarna na letra. Lei fundamental para o psiquismo e que vem responder ao enigma da diferença dos sexos referindo-se a um objeto privilegiado como possível de faltar. na pressão sobre o traço. Podemos o podemos o gozo da letra desde sempre: as crianças desenhando. A letra é transposição do corpo. O processo de aquisição formalizada da linguagem. sedimentação de resíduos onde algo sempre escapa e insiste em se fazer representar. sua sístole e diástole. nem mesmo uma relação recíproca.. 76 .castração. A letra possibilita a escrita. o falo. da palavra-coisa que resta à margem da língua e é retomada constantemente pelos loucos e poetas. no movimento. se assim o quiserem. as fantasias fundamentais sobre a origem. sexo. As letras escrevem a linguagem transmissível e inscrevem no psiquismo a posição do sujeito. riscando coisas. de fragmentos de sons. doravante há uma hiância entre ele e a experiência do indizível. As questões edipianas. Escrita feita de restos. Lacan assim escreve: ―a letra não seria literal ao fundar o litoral? Pois uma fronteira é outra coisa!. paredes. é escrita de um corpo com a sua pulsação.. de imagens. o resto Lacan introduz o conceito de letra constituindo-a como litoral entre saber e gozo. Instalada a escrita no sujeito. marcadas pelo operador fálico se ajuntam e sobredeterminam a entrada no espaço da língua escrita.

o psicótico soçobra no mar da linguagem. a metáfora paterna. para o real. A loucura a que me refiro aqui é a experiência da psicose que evoca um espaço que perdeu seus contornos. a encontramos nos poetas e nos loucos. comparações. do impronunciável. e por mais que se faça ver o que se está dizendo por imagens. nas possibilidades de constituição e de expressão. o caos de um pensamento que perdeu seus limites. O que para o psicótico é infortúnio.A escrita fora de lugar As relações com a escrita colocam aquele que escreve numa trilha interminável de apreensão e embate com a linguagem. Escreve tomado pela voragem da escrita porque a ordem do mundo fracassou ao recusar a castração e o fragmento rechaçado da realidade constantemente se impõe ao psiquismo como advindo do real. Como aponta Foucault em ―As Palavras e as Coisas‖: ―Por mais que se diga o que se vê. a vivência incompartilhável de um mundo em enigma. se constitui por sua intermediação e com as palavras do outro. que amarre e estruture seu universo e que o habilite a atribuir significação a seus significantes .‖ A escrita é uma expressão privilegiada da linguagem. nasce alienado a uma linguagem que não coincide com o real. recurso linguístico para amplificar os efeitos de sua textualidade e escavar um lugar para a inquietação. cisão nos domínios da percepção. Há uma incidência da escrita sobre o sujeito psicótico atestada por inúmeras produções na literatura. para o poeta é cálculo. nos hospitais psiquiátricos que dão testemunho de uma virada na relação com a linguagem. O texto poético é capaz de promover encontros inesperados de conjunções impossíveis onde o real fulgura. O sujeito psicótico escreve para reinventar o mundo esfacelado e enigmático. o que se vê não se aloja jamais no que se diz. o lugar onde estas coisas respondem não é aquele que os olhos descortinam mas aquele que as sucessões da sintaxe definem. Toma a palavra pela coisa em sua literalidade como recurso único. linguagem que é da ordem de uma cisão e promove uma cisão do ser. mas aos quais não se deixa de abrir indefinidamente. neologiza a língua. metáforas. condenação. A escrita que contorna o limite do indizível. inventa palavras. 77 . E é de tal modo porque o sujeito nasce mergulhado na linguagem. rompe cadeias etimológicas. Esta loucura da psicose encena uma relação privilegiada com a escrita. Desancorado do simbólico pela falta de um significante primordial.

semântico. Se o saber advindo é singular para cada sujeito o trabalho pode produzir efeitos que se disseminam entre os participantes. O ato de escrever com freqüência garante um lugar para esses sujeitos. São convidados a produzir uma resposta ao real com o que lhes sobrevêm. Uma Oficina de Letras proporciona a seus participantes a busca de transformar em legível e assim transmissível ao outro. o que é pensado. pois a escrita propicia ao sujeito que a exerce a possibilidade de retornar sobre a asserção produzida. seja para confirmá-la. exploram-na no campo sonoro. retificá-la ou refutá-la. 78 . É um momento de construção individual e compartilhamento coletivo. promovem a intertextualidade.A escrita da loucura e a escrita poética atravessam o código compartilhado e compartilhável e nos impactuam e mais ainda nos deslocam do lugar confortável em que nos encontramos no campo da linguagem e nos arremessam à margem da língua. à escrita fora do lugar. que para alguns sujeitos é a única possibilidade de remediar um lugar no mundo. Jogam com a linguagem. A oficina de letras com suas estratégias permite uma retorno imediato sobre o texto acrescido do recurso de compartilhar a produção. trabalham com o aspecto material da palavra. sentido e estende os recursos lingüísticos dos quais o sujeito pode se utilizar para expressar o que lhe ocorre e diminuir os equívocos na interlocução que são inerentes à própria estrutura da língua. Pacientes convidados a participar de Oficina de Letras se reúnem em torno da proposta de escrita. Oficina de Letras A disposição para a escrita é destacada em pacientes em tratamento em saúde mental independente de seu diagnóstico.

Obras Completas. Lituraterra. Jorge Alemán. Rio de Janeiro:. Foucault. Fenollosa. Lúcia Castello (org. IX A significação antitética das palavras primitivas (1910) vol. Porto Alegre: Cooperativa Cultural Jacques Lacan. Cuadernos da Campo Freudiano de Córdoba. ________ Os absolutamente sós – Llansol – A Letra – Lacan. 2000. 79 . Mais. 1994. 1988. S. nº 1. 1993.) Coisa de Louco.) Campos. Escritores Criativos e Devaneios (1908) vol. (org. São Paulo:Martins Fontes. H. Jacques. Intervesion IV Seminário de Texto ―De una question preliminar a todo tratamento posible de la psicosis‖. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. In: IDEOGRAMA. São Paulo: Edusp.Referência Bibliográfica Branco. Che Vuoi? Psicanálise e Cultura.. Seminário XX. Lavigne. XI Lacan. 1996. Os caracteres da Escrita Chinesa como instrumento para poesia. As Palavras e as Coisas. Leonardo da Vinci e uma lembrança da Infância (1910) vol. Belo Horizonte: Autentica. IX. 1990.. ainda . _______.. Belo Horizonte. 1980. ano 1. Imago. Ernest. Freud. Michael.

the patients realize the extension of their addiction and the subjective position that each one occupies. By getting involved with the subject. etc). em algumas partes do texto. Abstract: The article is a description of a therapy session with patients addicted to drugs. sintoma e pulsão são trabalhados na relação entre o que foi dito pelos pacientes. Palavras-chave: dependência química. instinct. sintoma. conceitos como o de transferência. At the end of the text. designando álcool e tabaco (que também são drogas. Ao se envolverem com o tema vão se dando conta do grau de adicção em que se encontram e da posição subjetiva que cada um ocupa. Na parte final do texto. cocaína. symptom and instinct are worked into the relationship between what was said by the patients. Esses encontros acontecem semanalmente em uma clínica psiquiátrica1 onde trabalho com um grupo formado por dependentes de drogas2.Por que a boca se chama boca? Rodrigo Pardini Guedes Resumo: O artigo traz o relato sobre uma sessão clínica com pacientes toxicômanos. ―Por que a boca se chama boca?‖ é a interrogação proposta pelo analista e que leva todos a formularem idéias sobre o motivo do nome. Por que a boca se chama boca? A pergunta que dá título a este texto foi formulada pelo analista em uma reunião com um grupo para alcoolistas e drogadictos. Key-words: chemical dependency. 1 80 . e o que propõe a teoria psicanalítica para o tratamento da dependência química. and what proposes the psychoanalytic theory for the treatment of chemical dependency. crack. durante a sessão. Usaremos os termos drogadicto ou toxicômano referindo-nos aos dependentes de álcool. pulsão. porém lícitas) e as outras drogas (maconha. fazer com que  O autor é psicanalista e especialista em Teoria Psicanalítica pela UFMG. As reuniões têm o nome de ―grupo de vivência‖ e têm o objetivo de. tabaco e/ou outras drogas. "Why is the mouth called mouth?" It is the question proposed by the analyst that leads to all people in the group to formulate ideas about the reason of the name ―mouth‖. transferência. during the session. estando os pacientes internados ou em hospital-dia. transference. concepts such as transference. 2 Os termos “droga” e “tóxico” possuem uma maior abrangência e poderão aparecer sozinhos. Cepsi – Central Psíquica. symptom.

Uma pergunta é para ser respondida e uma questão é para ser trabalhada. que é. muitos se apressaram em dizer que a pergunta era muito engraçada. É por isso que na rotina diária nos grupos com os pacientes toxicômanos procuramos executar um trabalho terapêutico que possibilite. fui forçado a sustentar a pergunta. mas. Mas.estes falem de suas experiências de vida dentro e fora da instituição. como lá se encontra uma variedade de outras drogas (cocaína. A pergunta sobre a ―boca‖ surgiu de um tema livre: os pacientes conversavam sobre terem ido à ―boca‖ comprar drogas e daí aproveitamos o assunto como sendo uma vivência comum a todos. Contudo. durante o grupo de terapia. ele terá de se submeter às normas básicas propostas para o procedimento na reunião — o paciente drogadicto tem de escutar o que o outro tem a dizer. ―Boca de fumo‖ é uma expressão bem comum entre usuários de maconha (que é uma droga para se fumar). fica obvio que o convite para se trabalhar uma questão é poucas vezes aceito. dentre outras coisas. certos mecanismos. Assim. que é feita para comer. e. e outros fecharam a boca. mas hoje está isolado‖ ou ―ele agora vive dentro do quarto‖. tem seu tempo para falar e tem a chance de expor o que pensa. Assim. acreditando que houve um incômodo. cheiradas ou injetadas diretamente no sangue. diante da realidade que a dependência química promove. como a transferência. que são fonte de trabalho. Existe uma enorme falta de contato do dependente de drogas com a sociedade – família. Calar-se face a um desconforto é uma maneira dos pacientes não apresentarem sua subjetividade. Daí surgiu minha pergunta: ―por que a boca se chama boca?‖ Diante da pergunta houve olhares espantados e entrecruzados. pela palavra. É muito comum ouvirmos dos pais ou pessoas próximas aos pacientes as seguintes frases: ―Meu filho era muito alegre. igreja. a reentrada deles na comunidade de origem. outros diziam que ―boca é boca‖. Era preciso que naquele momento esta pergunta fosse sustentada pelo analista e seria um 81 . a expressão reduzida ―boca‖ passou a ser a mais usada. Assim. são capazes de restabelecer algo que comumente o dependente químico perdeu. crack) que podem ser inaladas. a qual mostra o não envolvimento do dependente e sua não implicação nas coisas. estão colocados na relação analista/analisando. dentre outros ganhos. seu convívio social. pela reação que muitos apresentaram. e. Para a psicanálise é sempre necessário transformar perguntas em questões. trabalho. Eles nunca haviam sido interrogados pelo nome ―boca‖. Há sempre uma morosidade em deixar-se absorver pelo tema proposto. ficou evidente que o tema havia sido aceito por eles e poderíamos trabalhá-lo. quando isto acontece. dentre outros. como se fossem pegos falando do que não deviam.

Muitos atributos e contornos foram dados a ela. Tivemos de criar um interesse sobre cada um desses. vomitar. é necessário que o analista esteja atento ao manejo clínico para que possa reconduzir esse auto-fechamento para outra direção. Havia risos e olhares confusos. ponto de venda das drogas. que era essa forma jocosa de lidar com o incômodo que a pergunta trazia. achar graça do tema e com isso fazer com que todos abaixassem o limiar de desconforto e pudessem falar mais sobre o assunto. Era necessário um tempo para se absorver e digerir o que estava ali colocado: ―Por que a boca se chama boca?‖ O mal-estar que a pergunta causou e o silêncio de que dela adveio mostram o quanto é importante. Mas. Assim. esse paciente revela que ―a boca é onde a gente compra drogas‖. para beijar. até que alguém do grupo se arriscou a dizer que também não entendia o motivo do nome ―boca‖. Eram somente formas de escamotear aquilo que todos eles sabiam do que se tratava. uma forma de se lidar com o material inconsciente recalcado. O caminho foi ficando menos árido. a possibilidade de uma abertura subjetiva aparece. Na fala dos pacientes. Era preciso rir um pouco. a princípio. às vezes. Após um intervalo. foi possível chegarmos à ―boca‖. Esta ―boca‖ lhes era tão familiar como a boca que cada um tinha em seu próprio rosto. em maior ou menor grau de cumplicidade. 82 . articula o orifício que tem a propriedade de se abrir e fechar para o mundo exterior e que promove o contato entre o dentro e o fora. visto que todos. Aos poucos. para o paciente. Sabemos da aparente falta de conflito que o dependente químico mostra.ganho enorme se ela provocasse um mínimo de angústia. muitas vezes. mas que ele não sabia dizer por que se dava esse nome a ela. para engolir e. lugar onde é feita a oferta do objeto de satisfação e um dos locais onde o enlace entre o sujeito e o ilícito cultural acontece. para que se formem laços transferenciais. Assim. por que não entrar logo no assunto e falar dela? Quais segredos escondem essa ―boca‖ que deve permanecer fechada e somente aberta a uns poucos que a procuram tão avidamente? É claro que para entrar nesse jogo de palavras que. assim como as respostas que visavam tratar a boca como um órgão por onde entram alimentos. demonstrando curiosidade e comicidade – rir é. Quando eles resolvem debater a questão. preservar a certeza que a droga traz à dúvida do sintoma. para ser acolhida pelos membros do grupo a fim de provocar singularmente o interesse dos integrantes. anteriormente já haviam se dirigido a ela na busca desenfreada que a falta da droga provoca. a boca serve para comer. os pacientes se deram conta de que suas respostas não chegavam a lugar algum. teríamos de seguir mais além com o que espontaneamente surgiu dentro do grupo.

todos da reunião assentiram que esse também era um significado possível. Assim. Havia uma grande contradição: por um lado. que apresenta um caráter mortífero para a outra ―boca‖ — a da compra de drogas. pensar e poder formular novos conceitos. Ao formularem um sentido relacionado ao uso do tóxico para a palavra ―boca‖. se envolveram novamente na pergunta a ponto de questionarem o que parecia até então muito trivial e sem nenhum motivo de incômodo. As pessoas gostaram muito e adotaram essa surpreendente definição. vai sendo possível aparecer em cada participante a singularidade do uso da droga e isso vai se tornando audível para o analista em seu trabalho. no grupo vão surgindo falas particulares que podem ser tomadas na escuta analítica. na opinião deles. local de venda de drogas. cada um pode se interrogar sobre ―o que isso quer dizer‖. dar-lhe um nome mais apropriado. mas deixa a gente vivo‖. os pacientes passaram a discutir sobre local de venda das substâncias alucinógenas e o motivo de seu nome ser ―boca‖. Mas ainda faltava avançarmos mais sobre o motivo do nome ―boca‖. estava errado. Primeiramente. foi dada por um paciente e provocou grande alívio no grupo. enquanto órgão. Fazia-se necessário rebatizar a ―boca‖. uma significação voltada para a alimentação e nutrição. chegaram às seguintes conclusões expressas na fala de alguns: ―A boca é um órgão bom e que serve para a gente comer‖ ou ―a boca serve para os alimentos entrarem. diante da nova significação.Assim. que no caso do toxicômano. para o que entra no corpo e conseqüentemente promotor da vida. Alguma coisa que antes estava velada passou a sair da boca deles. ao falar e pelo viés da palavra. já que dela só saíam coisas ruins. O nome ―boca‖. os pacientes. Era uma ―boca‖ que não precisava ser alimentada. Eles foram se aproximando de um conceito positivo que a boca. mas que alimentava a todos no seu vício. A definição da palavra ―boca‖. Ele disse: ―A boca devia se chamar cu‖. Após um participante do grupo ter trazido este novo sentido – que a ―boca‖ é o lugar onde se compram drogas – à palavra. a compreensão que daquela ―boca‖. Assim. Isso é de suma importância porque promove a possibilidade de pensar a própria história. que parecia uma questão sem saída. 83 . O que um paciente disse ilustra isso: ―De lá só sai merda e merda vem do cu mesmo‖. e. é quase sempre contada com um mínimo de implicação. só saía a morte e a destruição. foi do pensamento para o nível da fala. mas que difere muito da outra definição. tem. caíram num impasse. É no surgimento dessa divisão e sem a presença real da droga para aplacar a angústia que é possível o surgimento de um sintoma mais adequado e conciliador que a intoxicação quando. ao abrirem mão da concordância coletiva e contarem sua história. então. Os pacientes. aos poucos. então ela não mata. por outro lado. Mais risos com a satisfação de serem mais precisos e de estarem conseguindo. num sentido de dentro para fora.

e foi muito curioso que o lado bom que a droga proporciona com suas viagens psicodélicas. parece ter havido algumas boas conclusões. Aos poucos. o que era o prazer do ato de comer dá lugar ao resto. novamente. não se arriscando a serem devorados por ela. o nome estava errado. pois proporcionou trabalharmos melhor o suposto lugar sagrado – de visitas constantes e de alívio das angústias e problemas. no contexto da reunião. sensação de força e vigor. por que a boca se chama boca? Deveria ela ser chamada de ―cu‖? A pergunta era pertinente e foi amplamente aceita como uma boa e nova resposta. Não há como acabar com o tráfico e nem com os traficantes. nessa ―boca‖. o ―cu‖. por onde saí o que não foi aproveitado pelo corpo. Essa nova idéia toma os pacientes de sobressalto. que a droga e o local de sua venda possuem – para uma forma mais mundana. De súbito somos interrompidos e o tempo da reunião acaba. um segredo que era mantido a sete chaves. ao excremento. Era possível falar mal da ―boca‖. Naquele momento. Deixam a angústia e as palavras para trás e tentam saciar a fome com outro alimento: café com pão e manteiga. Mas. Mas. e surgem depoimentos diversos sobre o alimento que satisfazia essa ―boca‖. Só que ele evocava que o alimento que entrava ali era o da alma. deixar essa ―boca‖ longe porque. diante da possibilidade de uma outra nomenclatura. ela chama. ―ela come a nossa dignidade e a nossa auto-estima‖. desinibição. como digeri-la? A boca retorna ao seu sentido de órgão por onde entram alimentos. A ―boca‖ assume diversos sentidos e. ―ela come o que eu poderia ter dado para os meus filhos‖. ―Boca‖ que. caiu em esquecimento. foi muito importante e enriquecedor. Sai o que. Eles passam a concordar com isso e põem-se a falar mais: ―Ela come a gente‖. finalmente. que mostra a necessidade de deixá-la à distância. a virada que os pacientes deram. se abre para mais uma significação. se torna possível ao analista. pontuar o que cada um ia trazendo de seu e de sua experiência. Aos poucos. seduz e engole mesmo. A ―boca‖ passou a ser maldita.Eles começaram a perceber o caráter mortífero da droga. pelo que disseram. Restava aos pacientes dizer que o que era possível é não se aproximar dela. ―ela engole o nosso dinheiro‖. da boca de um paciente surge uma nova solução: ―A boca se chama boca porque ela engole nossos sonhos‖. Nesse ponto. se mostrava voraz e impossível de ser fechada. Todos saem para tomar o lanche da tarde. na fala deles. diante do trabalho que se desenvolvia pela fala dos pacientes. fora revelado. É por onde o dejeto é expelido. Talvez. que subverte o da alimentação. Mais uma virada e fomos obrigados a engolir essa nova significação. se chegassem perto. foi ignorado. Ela se revelou outro orifício. se revela como ―o que é ruim‖. Para eles. 84 . Mas. então.

É um tempo impessoal e de falta de subjetivação.. ela aparece de forma especial nos casos de toxicomania porque a ligação com a droga é muito forte. é um consumo cada vez maior da substância que proporciona o prazer imediato. Francisco-Hugo Freda nos fala assim. através deste. a questão proposta ―por que a boca se chama boca?‖ tinha de ser trabalhada. Ele também aponta a psicanálise. poderemos estar cometendo um sério equívoco. como eles estavam dentro de uma reunião. Contudo. o que deixa excluída qualquer forma de incômodo.. as primeiras reações foram de um enorme distanciamento. No trato deste tipo de paciente. a droga. enquanto uma das formas do discurso. Como é de costume. que ela não lhe dá mais satisfação (. pensar suas experiências de vida. se pensarmos que não existe transferência.S.R.‖: Se retomarmos nosso esquema da transferência. assim como outros autores pesquisados. Assim. Vem para se queixar dela. Sobre a transferência na dependência química. Este texto é uma experiência clínica em grupo. muitas vezes. 21). despertada pela novidade que a pergunta trazia. em seu texto ―I. de acordo com o grau de envolvimento de cada um dos membros. é que a transferência está posta na demanda desde o início.) (Freda. A aproximação do dependente químico com quem cuida dele pode ser muito respeitosa ou extremamente jocosa. como aqueles presentes à sessão clínica. e assim eles se puseram a ―comer o mingau pelas beiradas‖. poder aparecer em situações extra-consultório. Contudo. temos de ter em mente que algo da relação transferencial está posto em questão. Tudo isto mostra o sentido do apego à droga e a falta de vontade de se ver longe dela. ele chega sempre a dois. a questão foi endereçada a todos pacientes e eles tinham de lidar com ela dentro de seus próprios referenciais. Em geral. mas que. e tem de ser seriamente levado em consideração. 1993.Considerações sobre o relato clínico. que haja ali somente um bate-papo. No tratamento de dependentes químicos. O que Freud nos mostra em seu percurso. mas se o paciente nos faz o convite. o que move o dependente químico. podemos dizer que o toxicômano vem nos ver com uma transferência já estabelecida: ele chega acoplado: ele se apresenta com sua companheira. o que dificulta os laços transferenciais com o analista. 85 . evidencia as participações individuais e aponta para alguns conceitos fundamentais da psicanálise e sua aplicação a pacientes que apresentam problemas com drogas. o analista recebe deles repetições transferenciais muito infantis. pág. O convite aos membros do grupo feito pelo analista é que eles possam sugerir um tema e. Em resposta a esse convite surge a palavra ―boca‖ e seus desdobramentos possíveis. O riso e as formas cômicas de lidar com o nome ―boca‖ surgiram como formas de aplacar a angústia.

Na vida dos dependentes químicos quase não há espaço para grandes questões subjetivas. não se sabe. e daí a possibilidade de advir um sintoma. na definição trazida pelo paciente – de que a ―boca é o local onde se perdem os sonhos‖ –. É preciso que o analista vá buscar para si o laço transferencial que está estabelecido. 1916-1917. no tratamento do dependente de drogas. através do acordo representado pelo sintoma formado. em reviver conflitos. a indagação toma conta dos participantes e podemos supor que onde se pergunta. diante do que pôde ser expresso e posto em palavras durante o encontro clínico. pode surgir uma divisão. (Freud. quando os pacientes estiverem dispostos a rever o tema. pág. Na definição freudiana temos que sintoma é: Já sabemos que os sintomas neuróticos são resultado de um conflito. podemos constatar que a transferência. alguma coisa tenha ficado registrada e que. que o sintoma é tão resistente: é apoiado por ambas as partes em luta. só podemos colher os frutos numa próxima reunião. Para isso. Assim sendo. num momento a posteriori.No encontro do analista com o dependente químico houve uma demanda de alívio. 419) 86 . Assim. e isso mostra que imaginariamente o grupo se formou. existe. que mostra dúvidas e incertezas. de antemão. Esse paciente não tem pressa. com a droga. Até então. também. e a expectativa do analista é de que algumas das conclusões tiradas pudessem provocar de fato uma modificação subjetiva. possa ressurgir em outro grupo ou em seus tratamentos individuais. Caso isso ocorra. O tema proposto – ―porque a boca se chama boca?‖ – foi acolhido pelos pacientes. As duas forças que entraram em luta encontram-se novamente no sintoma e se reconciliam. a princípio. se implicavam os sujeitos ali presentes? Muitas sugestões apareceram e foram apresentadas dentro do grupo. nunca haviam pensado no motivo do nome ―boca‖. a droga será um artifício usado para mascarar a emergência das divisões para as quais a análise aponta na vida do sujeito. Onde. fazer de uma simples pergunta uma questão. algo da transferência com o analista pôde surgir. e onde não se sabe. mas ocorrerá de forma mais lenta. e as repetições atualizadas pela transferência acontecem aos poucos quando for possível um distanciamento do sujeito e seu objeto-droga. Resta-nos a esperança de que. ainda mais os infantis e de cunho sexual. Ao levantarem várias respostas. e que este surge em virtude de um novo método de satisfazer a libido. É por essa razão. é abrir terreno para a possibilidade de a transferência acontecer. por assim dizer. Os pacientes se viram às voltas com a questão do nome do local para onde se dirigem para comprar ou negociar as drogas.

que é enigma na vida do sujeito. Assim. é que a transferência está posta em questão. de início. de sintomas que vão se apresentar sob uma forma não sintomática. sem falha. tal como podemos ver também na sessão clínica descrita aqui.Espera-se que o sintoma seja apresentado ao analista pelo paciente a fim de ser escutado e tratado. Percebemos que quando o significado da palavra ―boca‖ foi posto em debate. ao se dedicarem a pensar sobre o assunto. Não há resposta pronta e os pacientes têm de formular suas teorias individuais e trocá-las uns com os outros na tentativa de se achar ―a melhor resposta‖. A pulsão esteve presente a todo o momento e nos fez ver sua duplicidade. de levar em consideração que outro conceito foi muito bem exemplificado por aqueles que se deixaram envolver. aos poucos. eles podem tentar compreender o que está em aberto. que é de se ver livre da droga. e não um sintoma. A psicanálise nos ensina que essa ―melhor resposta‖ não existe. levantarmos possíveis respostas. não há dúvida e sim a morosidade em entrar no tema proposto – o que caracteriza o trabalho com usuários de drogas. entre eles surgem grandes impasses ou uma enorme reciprocidade – ou melhor. Assim. de manifestações clínicas que escondem o sintoma e onde o sujeito se apresenta como sujeito inteiro. A droga sempre traz a certeza de que ela é uma garantia de satisfação enquanto o individuo a usa e que ela é a causa de todo mal. No caso da toxicomania isso é diferente porque o paciente apresenta uma certeza em sua queixa. o que nos leva a pensar que o trabalho analítico pode acontecer com outras formas entre o sujeito e sua angústia. Porém. debatermos uma questão. Freud fala de maneira mais clara sobre essa dualidade pulsional: 87 . o que podemos observar no tratamento do toxicômano. e o que eles fazem é um grande desdobramento de significações. quando essa pessoa se torna um paciente e resolve se tratar. exceto. Francisco-Hugo Freda aponta algo pertinente sobre as novas formas de sintoma: O psicanalista terá de se habituar às novas formas de apresentação do sintoma. 7). exporem suas particularidades ao analista no trato com a droga mostra que a transferência estava em curso. cumplicidade. Há uma ausência de conflitos e de questões subjetivas. como no caso presente. (Freda. Temos então. por este pequeno ponto: ‗eu gostaria muito de parar‘. é que várias hipóteses são formuladas sobre o nome ―boca‖. O fato dos pacientes aceitarem a pergunta e se envolverem com ela e. Assim. 1993. pág. é uma transferência que acontece sem sintoma. Pulsão de vida e de morte enlaçadas. E é sobre essa margem estreita que é preciso atuar. mas. Após o período em que o analista toma a questão e a sustenta no grupo. Em ―Esboço de psicanálise‖. Durante esse encontro clínico.

é possível que o laço que faz com que uma análise aconteça. é desfazer conexões e. nos mostrando pacientes envolvidos com a compreensão de sua posição diante da droga e do mundo que ela cria. conseqüentemente. 173 e 174) Por um lado. então o instinto de morte se ajusta à fórmula que propusemos. É pelo espectro que tem a pulsão de morte e suas formas de agir no corpo e no psiquismo que podemos compreender as formas de uso. 88 . abuso e dependência de drogas. chamâmo-lo também de instinto de morte. págs. a sua forma mais destrutiva. pelo contrário. (Freud. assim como o contraste entre o amor do ego e o amor objetal. visto que a ligação com o objeto se encaminha para a plenitude e. a qual postula que os instintos tendem a retornar a um estado anterior. Eros e o instinto destrutivo. chegamos a um limite para o narcisismo e optamos pela maior abrangência do conceito de pulsão de morte e sua característica compulsiva que é tão evidente na toxicomania. esteja comprometido. A droga é um objeto que aos poucos vai sendo assimilado ao eu. que mostra a alienação às suas respectivas compulsões e ao objeto que os consome. É esse o limite imposto por quem nos convocou a escutá-lo e que nos força a trabalhar. incidem dentro de Eros. 1940[1938]. No caso de Eros (ou instinto do amor). Contudo. por outro. É preciso voltar à questão levantada sobre o trabalho psicanalítico com dependentes químicos e revisitar a relação transferencial sob a luz da pulsão de morte. desde o início. Se presumirmos que as coisas vivas apareceram mais tarde que as inanimadas e delas se originaram. Por essa razão. o objetivo do segundo. a chance para um tratamento é bastante limitada. Assim.Depois de muito hesitar e vacilar. assim. destruir coisas. No caso do instinto destrutivo. a morte. podemos supor que seu objetivo final é levar o que é vivo a um estado inorgânico.) O objetivo do primeiro desses instintos básicos é estabelecer unidades cada vez maiores e assim preservá-las — em resumo. se pensarmos que a pulsão de morte está em curso no paciente toxicômano. Ao tentarem ―rebatizar‖ o nome ―boca‖ para ―cu‖. poderemos usar as formulações freudianas sobre o narcisismo. unir. Se esta pulsão impera. é nos mostrar o quão em marcha para o ―inanimado‖ eles se encontram. decidimos presumir a existência de apenas dois instintos básicos. nos resta a questão de saber se o termo narcisismo se aplicaria a formas de drogadicção onde parece que. e. mas que é lá também o local onde eles se alojam. o objeto é que se apropria do eu. ao invés do eu assimilar o objeto. não podemos aplicar esta fórmula. Ao pensarmos na ligação que o dependente químico faz com o objeto-droga. fazendo com que este sucumba – nesses casos o sujeito vira o objeto que o consome: ―o maconheiro‖ ou ―o alcoólatra‖. os pacientes mostram o que há de dejeto nessa relação entre eles e a droga. Assim. Dizer que ―é de lá que sai merda‖. (O contraste entre os instintos de autopreservação e a preservação da espécie.

eu recaí. Voltei ao cu de fumo‖. Para o analista. mais ele está sob o domínio da pulsão de morte e distante da formação que o fetiche proporciona. que é por demais penosa e que precisa ser suavizada pelo ato de se entorpecer. para quem o tem. uma característica importante e que mostra que a dependência se conserva é que o que é trabalhado numa reunião parece ―cair no esquecimento‖. naturalmente permaneceu o mesmo. do que é que eu vou falar?‖ Essa fala marca a ausência de vida. no fundo. que come os sonhos. Freud. Por algum motivo. misturandose a ele. Contudo. a que a ―boca é aquela onde os sonhos são engolidos‖. um dia. mostrando somente mais um desdobramento da questão e não um significado último para ela. um paciente retorna à questão que talvez o tenha tocado de maneira muito íntima. e sim uma união perversa do sujeito e objeto. Isso nos mostra o grau de fusão que o paciente toxicômano chega ao se misturar com sua droga de escolha. ou seja. São inúmeros tropeços e sabemos a ferocidade da droga na vida deles. ou seja. propõe uma compreensão: O neurótico realmente curado tornou-se outro homem. um paciente que esteve presente nesse grupo retorna à clínica. É interessante notar a virada que o termo ―boca‖ passa: de uma referência ao local de compra de drogas. 89 . tornou-se o que se teria tornado na melhor das hipóteses. que entra no corpo do sujeito. onde eles passam a ser ―um‖. Isto é diferente do que diz a teoria do objeto-fetiche. e no encontro seguinte nada daquilo é lembrado. como nos diz Freud. passa a fazer parte desse corpo. O que resta ao analista. quanto mais o usuário se mistura ao objeto. No caso das dependências químicas. 508). e aponta um vazio na existência. Muitas definições aparecerem. Contudo. A fala de um paciente descreve com precisão esse momento: ―Se eu não falar da bebida. perdendo sua história. tais como a da ―boca‖ passar a se chamar ―cu‖ e o que aparece em uma das conclusões apresentadas pelos pacientes. sob as condições favoráveis. Após alguns meses. tal como aparece na fala de um paciente: ―Dói ficar sem ela‖. O mecanismo de defesa frente à angústia sempre é o de recusa (Verleugnung) da realidade. Ao se deparar comigo. Os resultados que estávamos buscando ainda precisariam aparecer mais vezes para serem trabalhados posteriormente. na Conferência XXVII –―Transferência‖. de compromisso social. ela passa a ser algo ―vivo‖.A droga. 1916-1917. (Freud. o que se forma não é um fetiche como resposta a esta defesa. diz: ―Doutor. ficam sempre questões sobre a direção do tratamento e a cura em pacientes que sofrem pela compulsão às drogas. ao mostrar que o fetiche traz uma vida sexual tranqüila. embora. pág.

Vol. saber teórico. Coletânea de textos sobre toxicomania e alcoolismo. In: __. I. Rio de Janeiro: Imago. Obras Completas. (1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Quem lhe disse isso? Coletânea de textos sobre toxicomania e alcoolismo. Rio de Janeiro: Imago. Francisco-Hugo. In: __. Belo Horizonte. Rio de Janeiro: Imago. com nossa escuta. S. Assim. Sobre o narcisismo: Uma introdução. S. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago. In: __. fica a idéia de que pela ―boca‖ saem palavras e que essa é a única forma que a psicanálise encontrou para tratar seus pacientes. Centro Mineiro de Toxicomania. _______. III. 1980. XIV _______ (1915) O instinto e suas vicissitudes. Obras Completas. XI. Rio de Janeiro: Imago. 1980. análise pessoal e supervisão. In: __. sejamos capazes de criar artificialmente essas ―condições favoráveis‖ para que o paciente possa fazer o percurso que não foi possível na vida comum. XVI. Obras Completas. 1980. Rio de Janeiro: Imago. Vol. In: __. Obras Completas. 1980. XIV. Obras Completas. _______ (1910) A concepção psicanalítica do distúrbio psicogênico da visão. (1905[1901]) Fragmento da análise de um caso de histeria. Rio de Janeiro: Imago. Rio de Janeiro: Imago. Centro Mineiro de Toxicomania. _______. Belo Horizonte. Referências Bibliográficas Freda. Obras Completas. In: __. Vol. Vol. 90 . Vol.Resta-nos pensar que. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago. (1897) Carta 79. _______(1916-1917 [1915-1917]). Rio de Janeiro: Imago. 1980. Obras Completas. XIV. Vol. Vol. 1980. Conferência XVII O sentido dos sintomas. Centro Mineiro de Toxicomania. ________ (1916-1917 [1915-1917]). Belo Horizonte. R. In: __. 1980. XVI. In: __. Vol. XII _______(1914). Rio de Janeiro: Imago. Obras Completas. 1980. 1993 Freud. 1980. VII. 1980. Conferência XVIII A fixação em traumas – O inconsciente. In: __. 1993 _______ Existem toxicômanos. Vol. _______ (1912) A dinâmica da transferência. VII. In: __. Vol. Vol. Obras Completas. 1980. 1993 _______. In: __. Coletânea de textos sobre toxicomania e alcoolismo. I. _______ (1898) A sexualidade na etiologia das neuroses. ________1915) O inconsciente.

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mesmo com todas essas transformações. nesse momento de maturação . adolescence. 2001) e coorganizador e coautor dos livros Álcool e outras drogas: escolhas.para o inevitável encontro discordante. econômicas e tecnológicas com que nos deparamos no século XXI. despertase. autor do livro Psicanálise e psiquiatria com crianças: desenvolvimento ou estrutura (Belo Horizonte: Autêntica. Trata-se de uma descoberta que ocorre de maneira privilegiada na adolescência: os dois sexos não são mais a mesma coisa e. que insiste e se mantém. psychoanalysis Introdução A par das inegáveis mudanças sociais. quase paradigmática. somos todos marcados pelo mesmo infortúnio. Abstract: The analyses of two movies about some mishaps faced by the Brazilian youth aims to explicit a structural element that manifests itself mainly during the adolescence: the mismatch between the sexes. 2006) e Psicóticos e adolescentes: por que se drogam tanto? (Belo Horizonte: CMT. Keywords: Youth. para enfatizar um elemento que poderíamos reconhecer como estrutural. ainda que possamos estabelecer uma relação privilegiada. Por isso. paradoxalmente. pelo mesmo desencontro fundamental. entre a adolescência e os impasses da relação sexual. Palavras-chave: Juventude. impasses e saídas possíveis (Belo Horizonte: Autêntica. 2000) 92 .Embaraços dos jovens Oscar Cirino1 Resumo: A análise de dois filmes sobre alguns impasses enfrentados pela juventude brasileira visa explicitar um elemento estrutural que se manifesta de maneira privilegiada na adolescência: o desencontro entre os sexos. sexualidade.em que a conjunção sexual torna-se possível . 1 Oscar Cirino é psicanalista. adolescência. é importante estar advertidos que se a questão da adolescência fosse o mal-estar do sexo. além disso. Entretanto. sexuality. todo sujeito seria um adolescente. independente da idade. Em outras palavras. para o desencontro. a complementariedade entre ambos é da ordem do impossível. somos impedidos de falar de imaturidade sexual quando nos referimos ao ser falante. entre um homem e uma mulher. proponho um recorte temático. pois. coordenador clínico do Centro Mineiro de Toxicomania/FHEMIG. psicanálise.

como fator de aproximação. O narrador e protagonista Buscapé está apaixonado. cheio de expectativas e propósitos. Buscapé. chama Zé Pequeno‖. A droga aparece.como ele disse ..Para estar ao seu lado. Já o diálogo entre Mané Galinha e um garoto armado. A identificação com essa nomeação se efetiva: ―Dadinho.play-boy. 93 . nesse caso. gatinha. louco por Angélica. enquanto no segundo. virado . já matei. um dos assaltantes mais procurados do Rio de Janeiro. Bené tinha mudado o visual. Com 18 anos. a menina se encanta pelo poder de Bené. será destacado o discurso das garotas. Lá. uma das estratégias que encontra é a de se oferecer para buscar maconha para ela. Sou sujeito homem‖. não chama mais Dadinho. ele enuncia: ―Ela era linda e a única cocota da turma que transava‖. Um de ficção. passando a usar o mesmo tipo de bermuda. rapaz?Você é uma criança‖. Já a mudança de Zé Pequeno foi diferente. ele torna-se ―grande‖. Uma travessia: os embaraços de Buscapé e Zé Pequeno Antes de acompanhar esses dois jovens e suas dificuldades na relação com as garotas. No entanto. de integração e não de distanciamento do outro. Mané Galinha: ―O que você tem na cabeça? Você tá maluco. Buscapé teve que aceitar o fato de ser preterido. né! Como é que é trabalhar? O que os cara fala?‖ ―Eu não quero que meu filho seja bandido‖. No primeiro. que explicitam certas questões que afligem grande parte da juventude brasileira. envolvendo-se com ele.Garoto: ―Que criança? Eu fumo. Cocota. o pai de santo profetiza: ―Menino. já roubei. no morro e os dois fumarem. eu cheiro. Cidade de Deus (2002). o bandido mais respeitado da Cidade de Deus. meu nome agora é Zé Pequeno‖. intitulado Meninas. serão ressaltados alguns diálogos entre crianças e rapazes no filme Cidade de Deus. Grande parceiro de Zé Pequeno. camiseta e tênis de um garoto de classe média. ―O que você vai ser quando crescer? Não quero ser bandido nem policial‖. ―Tu já trabalhou. dirigido por Sandra Werneck. tingindo o cabelo. é o caralho. o foco privilegiado será o dos rapazes. Resignado.. Em linguagem dos anos 70. Em um ritual de passagem. e um documentário de 2006 sobre a gravidez na adolescência. que quer entrar para o bando de Cenoura. baseado no romance de Paulo Lins. leva Angélica para um baile. lolita.Abordaremos esse elemento estrutural a partir de dois filmes. manifesta a trágica possibilidade que muitas de nossas crianças encontram para realizar a ―delicada transição‖. como no de muitos outros jovens.

À maneira da Guerra de Tróia. ele o bandido mais respeitado.Inteiramente voltado para seu trabalho. Mané Galinha. escuta de Bené a seguinte interpretação : ―Zé. Primeira filha de um jovem imigrante português. do qual fazia parte Mané Galinha. e o bando de Zé Pequeno. apesar de pouco utilizada em português. tia Ziza engravida-se com 15 anos de idade nas primeiras décadas do século passado. A interpretação de Bené produz efeitos. ressabiado e embaraçado. No entanto. Jovens que ainda veem desenhos na TV ou dormem ―chupando o dedo‖. a acompanhar o olhar da garota. fazendo-o rebolar sem roupa no meio do salão. Zé Pequeno vai humilhálo. ―O que eu imaginei não é nem um pouquinho do que tá acontecendo agora. outra acepção da palavra. Zé Pequeno. 94 . ferir sua virilidade. Esse é um dos depoimentos de Joice. Sua equipe entrevistou mais de 100 meninas grávidas no Rio. Agora. Enfurecido. Ao assistir o documentário Meninas.se aproxima frágil. protagonistas do documentário dirigido por Sandra Werneck. que se inicia com a fúria de Aquiles contra Agamêmnon. Tô muito bem sozinha com minha filha‖. arruma-se. de uma garota e pergunta: ―Você quer dançar comigo?‖ Ela: ‖ Ah! Não entendi‖. nervoso e estressado. você tá precisando de uma namorada‖. 14 anos. é gravidez. Outra travessia: os embaraços de Tia Ziza e outras quatro garotas Se os ―embaraços‖ de Buscapé e Zé Pequeno os remetem às dificuldades e complicações da conquista amorosa. depois em mim. passa a espreitar. uma das quatro adolescentes. Estabelecem-se assim novas condições para a ―guerra‖ entre o bando de Cenoura. Zé Pequeno (em tom mais alto): ―Você quer dançar comigo?‖ Ela: ―Não.‖ Zé Pequeno põe ―o rabo entre as pernas‖ e aparentemente aceita a recusa. muitas jovens e rapazes continuam engravidando. Ao som de James Brown. cuida do visual. lançado em 2006. e Zé Pequeno na expectativa do baile de despedida do parceiro. também agora a disputa por uma mulher se torna motivo de guerra do coletivo masculino. severo e trabalhador. a cadeia das determinações inconscientes trouxe-me à lembrança a enunciação escandalosa e furtiva de minha mãe sobre a gravidez de sua irmã mais velha. Fortaleza. obrigada. o bonitão e conquistador. mesmo com os anticoncepcionais e as campanhas para o uso dos preservativos. eu tô acompanhada. mira-se no espelho. um outro homem. Agora não adianta mais eu pensar em mim. no início do século XXI. primeiro eu tenho que pensar nela. que tem endereço certo. que só conseguia mulher pagando ou à força . que nunca tinha dançado em um baile.

foi o fato de que durante o tempo de gestação. Apesar de estar no penúltimo ano do ensino médio. Mas a garota reclama de tanto tempo à toa: queria um emprego. há a seguinte descrição da rotina de uma jovem de subúrbio. Como muitos de seus vizinhos. Estamos diante do gravíssimo problema da aniquilação dos sonhos e anseios de grande parte da juventude brasileira. 18 anos. Além de Joice. nos atos infracionais. viúva aos 13 anos. nada acontecia. O papel desses rapazes será. somos informados que. Tempo livre não lhe falta. o de ajudar. Passa bronzeador no corpo. que não se diferencia da de outras grandes cidades do Brasil: ―Todo dia. clareia o cabelo de louro. encontra. optando. na realidade pelas garotas e suas respectivas mães. Um aspecto que angustiou a diretora e a roteirista do filme. e encontrou situações muito parecidas. No final do documentário. não fazer ―nada‖ o ano inteiro era a rotina de 98 mil jovens de 15 a 24 anos que viviam na região metropolitana do Rio de Janeiro. arma uma piscina de plástico na entrada de sua casa. Para eles. por focalizar quatro adolescentes do Rio de Janeiro. duas das garotas. Os pais. Suas vidas. Evelin (13 anos) e Edilene (14 anos). três meses depois de terminarem as filmagens. o que fazia da gravidez. desde o momento em que se iniciou a gestação. pela proximidade. o cotidiano de Luana (15 anos). além de dois futuros pais. Eles não estudavam e nem trabalhavam. Edilene e Joice. no máximo. ouve música. o outro não aparece. depararam-se com a árida ausência de um projeto de vida. mas principalmente as mães dessas meninas. Em reportagem da Folha de São Paulo (6/2/2000). até algum tempo depois do parto. frustrações. sonhos. a equipe acompanhou por um ano.Recife e Belo Horizonte. Não havia um belo horizonte. deixando uma filha de 4 meses e Evelin. mas não encontra. ele morreu em confronto com a polícia. mas nunca dividir. dilemas. são também protagonistas. que em sua invisibilidade. não lembra do nome de nenhum livro que tenha lido e faz pelo menos uns 10 anos que não vai 95 . muitas vezes. Também queria fazer um curso de informática. a única possibilidade de que algo acontecesse na vida dessas garotas. Outros 305 mil na mesma faixa etária. ela não se entusiasma com a escola. só ajudavam nos serviços de casa. a estudante Renata. Ou seja. como cuidar dos irmãos e fazer limpeza doméstica. uma maneira de se fazer notar. Um deles engravidou. Segundo levantamento do IBGE em 2000. que poderiam estar estudando ou trabalhando. jovens de 18 e 21 anos. pois tinha se desligado recentemente do tráfico na Rocinha. a palavra ―férias‖ não tinha qualquer significado. na mesma época. Os bebês serão criados. mas não tem dinheiro para pagar.

―Antes eu a achava mais alegre. Me arrependo de ter feito isso. escutá-los cantar. também são destacadas: ―O pessoal fica falando. Alex. é que se insere a gravidez. Aí arrumei outra namorada prá tentar esquecer dela e ai aconteceu o acidente[a outra gravidez]. ela quer trocar o juízo dela com o juízo da irmã de 5 anos‖. porque antes eu ficava cuidando da minha irmã mais nova‖. futebol. o estatuto de pais também os coloca frente a reprimendas. Gostava de fazer esporte.‖ Impossível não estabelecer contraponto entre essa exiguidade e escassez de atividades e as agendas cheias. Eu sofri. que quase ao mesmo tempo se tornou pai de duas crianças. Parei o curso que fazia aos sábados à noite.‖ Sobre a gravidez das duas garotas é assim que ele as explica: ―Nos conhecemos na rua.. Eu é que tirei a virgindade dela. Vou poder brincar de boneca‖. repletas. Até cai de bicicleta por causa dela. porque tenho filho. xadrez. uma mulher já casada. Ser mãe tá me impedindo de várias coisas. porque minha mãe é que tá fazendo tudo sozinha e tá cheia de dívida por causa de mim‖. tenho mulher e também tô procurando serviço. Para muitos jovens. nesse vazio. Ela começou a mexer. quando eu era. ao mesmo tempo. ―Tá dando mais trabalho do que eu imaginava. Realidade que se apresenta com árduas e diferentes facetas. dançava funk. ganhar dinheiro. Ai eu fui e cheguei junto. Esses negócios ai foi só comigo. Ou nas palavras ingênuas de Evelin. dos filhos de classe média: inglês. 21 anos. nesse vácuo. como forma de ter algo. caso não paguem pensão para os filhos. 13 anos. ―O leite fica escorrendo do peito‖.. ―Queria ter uma filha só para mim. ter uma piscina de verdade‘. E de repente. afetivas e a ambivalência. natação. cantava.‖ 96 . Mas. ―Isso ai não é uma boneca. ―Esse umbigo vai ficar para fora‖. Agora eu não sou mais solteiro. ela quer ser. Renata gosta é de imaginar : ‗Queria ser bancária. ah teu corpo vai mudar. . sorrindo enuncia: ―Minha boneca. de serem valorizadas a partir da nomeação de mãe. Já para os rapazes. a espera de um bebê. como diz a mãe de Luana. de encontrar algum sentido. aula de música. afirma : ―Eu gosto de acordar de manhã. é uma realidade‖. cuidar deles. Eu não solto pipa agora. As transformações corporais. 15 anos. Sem nada para fazer. ameaças de prisão. mais adolescente.‖ Em um momento de dificuldade no namoro: ―Ela tava fazendo de difícil para não voltar para mim por causa das fofocas das colegas dela. que segura a filha. ao mesmo tempo não quer nada disso. quer ter uma responsabilidade que não tá na hora de ter.ao cinema. você não vai arrumar mais namorado‖. inseguranças. sair com meus passarinhos na rua.

buscando favorecer o encontro de melhores condições para realizá-lo. . Direção Fernando Meirelles. in: Outros escritos.‖ Eis algumas delicadas transições e travessias de alguns jovens brasileiros no início do século XXI. Rio de Janeiro: Imago. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. Não poderíamos esquecer a fineza de Freud. quando ao discutir o suicídio entre jovens. La maldición sobre el sexo. Direção de Sandra Werneck. . de despertá-los para o mundo.CIDADE DE DEUS.. filho é muito sofrimento e você tem dois prá sustentar. Rio de Janeiro: O2 Filmes.Lacan. uma das meninas que engravidou: ―Você tá com quantos anos? 21? Ih! Ainda vai sofrer muito. Seu destino é assim traçado pelo pai de Joice. responsabilizando-os pela invenção de suas próprias vidas e de sua sociedade. sugeria que nossa função é a de fazê-los ter vontade de viver. é a de acompanhá-los nesse percurso. Rio de Janeiro. Prefácio a O despertar da primavera (1974). Eu trabalho aqui e não fico com nada. 2002. Frente à sua situação.2000. v. J. 97 . Referências bibliográficas .. S. Buenos Aires: Manantial. irá pagar 75 reais de pensão para cada filha: ―Eu não sei como vou sustentar as crianças. Contribuições para uma discussão acerca do suicídio (1910). enquanto profissionais e cidadãos. não os deixando ao sabor do destino. penso que nossa tarefa.XI. C. ..Soler. 2006.Freud.Com seu trabalho de ajudante em uma marcenaria. no início do século passado. . ESB. 2003..MENINAS. mas sim. Dou tudo para minha mãe comprar roupa prá elas‖. 1980.

A Carta 52 é considerada um elo entre o modelo de aparelho psíquico concebido no Projeto e o modelo apresentado em A interpretação de sonhos (1900). como observou Lacan. 1956: 175).Estatuto do inconsciente na psicose: o modelo da Carta 52 Ana Maria Lopes Chagas1 Resumo: A autora analisa o modelo de aparelho psíquico oferecido por Freud na Carta 52 buscando elementos para a definição do estatuto do inconsciente na psicose. uma elaboração que se inicia com a monografia sobre as Afasias (1891). não somente a existência. Psicose. A fecundidade da hipótese lançada por Freud. a partir dele. Desde os estudos sobre as Afasias. é. como afirmou Freud. Com efeito. como o chamou Laplanche em seu Court traité de l‘ inconscient. O esquema foi traçado para explicar aquilo que não vai bem (Lacan. Palavras chave: Psicanálise. Na carta enviada a Fliess em 6 de dezembro de 1896. 98 . 1993: 82) (tradução minha). Freud insiste na concepção de que o registro e a transmissão das impressões que o aparelho recebe não se dão de maneira linear. O fracasso no processo de retranscrição ou tradução 1 Mestre em Psicologia pela UFMG e Psicóloga do CEPAI. poderíamos dizer – do inconsciente‖ (Laplanche. Linguagem. Language. oferecida nessa carta. de que nosso mecanismo psíquico formou-se por um processo de estratificação. mas comportam reordenamentos segundo novos nexos – as retranscrições [Umschriften] a que ele se refere na Carta 52. Abstract: The author analysis the model of the psychic apparatus offered by Freud in the Letter 52 seeking elements to define the status of the unconscious in psychosis. no sentido em que permite predizer as propriedades de um objeto a partir de seu engendramento: ―Ele descreve o engendramento do inconsciente: deveria então ser possível deduzir. mas certas propriedades – a consistência. A hipótese de estratificação sucessiva do mecanismo psíquico. Inconsciente. foi descrito como um modelo genético. Psychosis. sendo desenvolvida no Projeto. Freud retoma o circuito do aparelho psíquico esboçado no Projeto para uma psicologia científica (1895). Keywords: Psychoanalysis. a essência do modelo da Carta 52 reside nas traduções do material psíquico que ocorrem nas fronteiras entre as épocas sucessivas da vida. Esse ―modelo tradutivo‖ do recalcamento. em que ela se aplica ao aparelho psíquico de um doente. consiste. Unconscious. e não ao do indivíduo ideal.

A observação do material psíquico presente na fala de esquizofrênicos. A inscrição [Niederschrift] das percepções se efetua sob a forma de uma indicação ou signo [Zeichen] que é reativado por efeito do investimento. que guarda. em si mesmas. O primeiro registro das percepções corresponde. e explica as peculiaridades das psiconeuroses de defesa. entretanto. mas é ―colocado no lugar do conceito original 99 . corresponde provavelmente à emergência de uma outra ordem de ordenamento psíquico. às Wahrnehmungszeichen. é o segundo registro. nos casos de psicose. Bleuler e Jung. revela a sobrevivência de organizações anteriores à do registro inconsciente – ainda vigoram os fueros de Wz. O registro Wz ―é praticamente incapaz de assomar à consciência e se dispõe conforme as associações por simultaneidade‖ (Freud. apontando para o que ele chamou de uma ―concretização simbólica‖ da linguagem. na Carta 52. ou seu estabelecimento de forma permanente.do material provoca determinados efeitos. Pois. Assim. 1896: 326). em que o material presente é ordenado conforme outros nexos: não mais segundo associações por simultaneidade. para que o material de Wz seja transcrito em Ub. o inconsciente. As afirmações esquizofrênicas seriam. a excitação é manejada segundo as leis psicológicas vigentes no período anterior e consoante as vias abertas nessa época. como o que foi reunido nas pesquisas de Freud. diferente daquela do inconsciente. A noção de que o material psíquico desse registro se articula segundo associações por simultaneidade é um primeiro indício de que esse material apresenta as mesmas características do material revelado na fala de pacientes esquizofrênicos. uma particularidade: o símbolo não é empregado como o é em sua utilização usual. persiste um anacronismo: numa determinada região ainda vigoram os ‗fueros‘. as indicações da percepção. a retranscrição [Umschrift] de Wz. estamos em presença de ―sobrevivências‖ (Freud. provavelmente associações por causalidade. Quando falta uma transcrição subseqüente. mas disposto de acordo com outras relações. 1896: 325). O material psíquico a que Freud se refere corresponde aos traços mnêmicos. é necessário que o processo de excitação seja retirado do registro anterior: Cada transcrição subseqüente inibe a anterior e lhe retira o processo de excitação. O registro do Ub [Unbewusstsein]. Bleuler (1911) descreveu o conteúdo do pensamento dos esquizofrênicos em termos de um ―deslocamento simbólico mórbido de conceitos‖. à gravação dos acontecimentos psíquicos na memória. O que foi descrito por Jung (1914) como ―uma irrupção anormal da atividade regular do inconsciente para a consciência‖. uma linguagem em símbolos.

sem que o paciente o perceba‖. que se pode escrever com um F [H]. 283). Na concepção de Jung. ―porque um porco entrou no curral das vacas‖: Na realidade ele tinha tornado impossível a sua permanência no emprego por ter tido relações sexuais com as vacas no curral. ‗suprimido‘ [suprumu] o menino Jesus [Jésus]. (assonância) Sou universal. Romana. utilizada pela escola de Kraepelin. Loc. o ser todo cru [cru]. a escolha de uma nomenclatura diferente para designar o mesmo distúrbio mental. se relacionava à crítica feita a este último.) É indiferente se denominamos esses distúrbios de dementia praecox ou de outra maneira”. ‗Deixar entrar um porco no curral das vacas‘ era então uma expressão simbólica para o fato de que tinha dado vazão livremente a tendências impuras no curral. Outros exemplos de associações de dementes precoces2 são oferecidos por Jung. primordial.) mostra como o fluxo de associações na dementia praecox se faz a partir do mesmo esquema do sonho: Eu sou o ser [être]. sobretudo as de semelhança. o emprego da nomenclatura dementia praecox. que reuniu observações de outros autores (Pelletier. sobre a teoria do negativismo esquizofrênico. (Jung. pois é muito mais importante saber o que uma coisa é do que o seu nome (. sinistra e horripilante‖ em uma idéia substituta. A função da formação de símbolos foi entendida por Bleuler como um meio que o esquizofrênico encontra para transformar ―uma vivência interior inenarrável. católica. 100 . coexistência e combinações verbomotoras‖ (Jung. 1908: 141) (grifos do autor). divina. é “pouco relevante. 1907: 10). ―passível de ser comunicada aos outros e mais suportável internamente‖ (Ibidem. Em ambos os casos. a velha Faia [Hêtre]. O exemplo dado por Pelletier (apud Jung. A descrição desse processo é muito semelhante à que foi empreendida por Freud em O inconsciente (1915) para tratar do hiperinvestimento das representações da palavra na linguagem dos esquizofrênicos.. Reil e Chaslin) sobre as semelhanças entre as associações dos doentes e aquelas presentes nos sonhos. falta um princípio diretor das idéias. e o fluxo das associações movimenta-se em uma ―progressão vagarosa segundo as leis de associação. (contiguidade) se tivesses crido [cru]. O símbolo adquiriu autonomia no seu pensamento (Bleuler. e não esquizofrenia. o ser [être] antigo. seu mestre no hospital Burghölzli. 1911: 282) (grifos meus).. como propunha Bleuler. cit. Um dos exemplos oferecidos é o de um lavrador que se queixava de ter sido hospitalizado injustamente. (assonância) 2 Para Jung. bastante conhecido pelos psiquiatras a ponto de poder ser tomado como paradigma dentre os grupos de psicoses. contraste. p.

Chamo-me Paulo, é um nome [nom], não é uma negação [négation], conhecemos-lhe o significado [signification] (assonância) Sou eterno, imenso, não há alto nem baixo, fluctuat nec mergitur [flutua e não submerge], o barquinho, vocês não têm medo de cair3 (semelhança e contiguidade: ―imenso‖ lhe sugere oceano, em seguida o barco e o aforismo que formam o emblema da cidade de Paris) A natureza desse tipo de material psíquico revela que sobreviveu, nesses casos, o regime de funcionamento próprio de Wz. Analisando a Carta 52, Lacan (1956: 175) considera que as primeiras sinalizações, as Wahrnehmungszeichen, são o campo do que ele chama o significante primordial. As observações feitas por Freud nessa carta sobre a dinâmica das três grandes neuropsicoses – histeria, neurose obsessiva e paranóia – supõem, para Lacan, ―a existência desse estado primordial que é o lugar eleito‖ da Verwerfung (Ibidem, p. 180).
De que se trata quando falo de Verwerfung? Trata-se da rejeição de um significante primordial em trevas exteriores, significante que faltará desde então nesse nível. Eis o mecanismo fundamental que suponho na base da paranóia. Trata-se de um processo primordial de exclusão de um dentro primitivo, que não é o dentro do corpo, mas aquele de um primeiro corpo de significante (Ibidem, p. 174).

A Verwerfung incide, portanto, sobre a tradução de Wz, impedindo o reordenamento no registro do inconsciente. Tendo ocorrido a inscrição [Niederschrift] inicial, é a sua retranscrição [Umschrift] que é rejeitada:
Para compreender isso, refiram-se ao que Freud constantemente levou em conta, a saber: que é preciso sempre supor uma organização anterior, pelo menos parcial, de linguagem, para que a memória e a historicização possam funcionar. Os fenômenos de memória pelos quais Freud se interessa sempre são fenômenos de linguagem. Em outros termos, é preciso já ter o material significante para fazer significar seja lá o que for (...) O significante é, pois, dado primitivamente, mas ele não é nada enquanto o sujeito não o faz entrar em sua história (Ibidem, p. 180).

O pequeno diagrama traçado por Freud (1896: 329) na tentativa de verificar as particularidades na estratificação do material psíquico na histeria, na neurose obsessiva, na paranóia e na perversão sugere que na paranóia as lembranças não foram recalcadas em
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“Je suis l’être, l’être ancien, le vieil Hêtre, que l’on peut écrire avec un H. Je suis universel, primordial, divine, catholique, Romaine, l’eusses-tu cru, l’être tout cru, suprumu, l’enfant Jésus. Je m’appelle Paul, c’est un nom, ce n’est pas une négation, on en connait la signification. Je suis éternel, immense, il n’y a ni haut, ni bas, fluctuat nec mergitur, le petit bateau, vous n’avez pas peur de tomber”.

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Wz, como é o caso na histeria, mas foram recalcadas nas indicações de Vb (o préconsciente). Apesar das referências confusas à não coincidência dos períodos psíquicos do desenvolvimento e das fases sexuais, que Freud procura explicar com base na teoria da periodicidade de Fliess, o diagrama levanta o importante problema da especificidade do mecanismo psíquico da psicose. A hipótese inicial de Freud, lançada nas primeiras linhas da Carta 52, ―de que nosso mecanismo psíquico tenha-se formado por um processo de estratificação‖ (Freud, 1896: 324), comporta o problema de, no caso da psicose, a estratificação ter sido comprometida. A incidência de um mecanismo psíquico que impede a transcrição dos signos de percepção tem efeitos distintos dos de uma falha na tradução dos traços do inconsciente – ―o que se conhece clinicamente como recalcamento‖ (Ibidem, p. 326). O recalcamento pressupõe a estratificação sucessiva, a saber, a inscrição das percepções e sua tradução pelo aparelho psíquico, ou o estabelecimento de ―lembranças conceituais‖ que possam ser ligadas às representações verbais. No caso da psicose, não é de uma falha na tradução que se trata, mas de uma ausência de tradução. A impossibilidade de estabelecer um primeiro campo conceitual, ou um primeiro corpo de significantes, nas palavras de Lacan, explica as peculiaridades da linguagem na esquizofrenia: o símbolo foi colocado no lugar do conceito, como afirmou Bleuler. Esse ponto de vista foi desenvolvido por Freud em O inconsciente, no exame da fala dos esquizofrênicos: ―o que dita a substituição não é a semelhança entre as coisas denotadas, mas a uniformidade das palavras empregadas para expressá-las‖ (Freud, 1915: 229). Da idéia de que o funcionamento do aparelho psíquico na psicose se dá em conformidade às leis da associação por simultaneidade se depreende a concepção de uma organização marcada pela fixidez de seus elementos, que contrasta com a noção de que no inconsciente reina o processo primário, caracterizado pela mobilidade dos investimentos e pelos mecanismos de deslocamento e condensação. A oposição entre esses dois regimes de funcionamento, o primeiro caracterizado pela fixidez e o segundo pela mobilidade, foi examinada por Laplanche (1993: 88), que propõe como solução ―distinguir esquematicamente dois níveis no inconsciente sistemático‖ (grifo do autor): o primeiro corresponderia ao recalcamento originário, sendo constituído de protótipos inconscientes caracterizados por sua fixidez, e o segundo ao recalcamento secundário, ao qual o processo primário se aplica. A distinção entre processo primário e processo secundário e sua relação

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com o recalcamento é um dos temas tratados por Freud no capítulo VII de A interpretação de sonhos. Nos termos da Traumdeutung, a realização de desejos nos sonhos, ―pela via curta da regressão‖, representava uma amostra do método primário de funcionamento do aparelho psíquico. Buscando a analogia entre o funcionamento do processo primário e a atividade de um primeiro sistema psíquico, Freud postula que a atividade desse sistema está orientada para a livre descarga [Abstromen, livre desaguamento ou saída torrencial] das quantidades de excitação. É da alçada de um segundo sistema, por outro lado, a inibição dessa descarga, transformando seu investimento em um investimento quiescente (Freud, 1900: 542). A atividade psíquica presente durante a crise psicótica parece apontar, à primeira vista, para a ação do processo primário, como a que se revela no sonho: ―O sonho é um ressurgimento da vida anímica infantil já suplantada. Esses métodos de funcionamento do aparelho psíquico, que são normalmente suprimidos nas horas de vigília, voltam a tornar-se atuais na psicose e então revelam sua incapacidade de satisfazer nossas necessidades em relação ao mundo exterior‖ (Ibidem, p. 517) (grifos do autor). Devemos precisar, contudo, que esses métodos de funcionamento voltam a tornar-se atuais no desencadeamento da psicose ou em períodos de instabilidade, revelando ―um hiato na eficácia funcional do aparelho anímico que possibilita aos pensamentos ficarem sujeitos ao processo primário‖ (Ibidem, p. 546). Esse hiato provém da convergência de dois fatores: um deles inteiramente imputável ao aparelho anímico, e o outro concernente a forças pulsionais de origem orgânica. O trabalho de reconstrução realizado pelo delírio aponta, por outro lado, para a presença de forças que buscam a inibição da descarga, ou seja, para a ação do processo secundário. Mesmo a afirmação de Freud de que no delírio os pensamentos são distorcidos, em sua expressão, pela censura (Ibidem, p. 522), nos obriga a reconhecer a atividade do processo secundário na psicose. Com efeito, Freud afirma ser verdade que ―não existe nenhum aparelho psíquico que possua apenas um processo primário, e nessa medida, tal aparelho é uma ficção teórica‖ (Ibidem, p. 546). As enfermidades funcionais – entre as quais a paranóia e a demência precoce – ―não pressupõem a desintegração do aparelho ou a produção de novas divisões em seu interior‖, devendo ser explicadas em termos dinâmicos, ―pelo fortalecimento e enfraquecimento dos diversos componentes da interação de forças‖ (Ibidem, p. 551). No caso da psicose, vemos que é a abolição mesma da inscrição de um significante primordial que fará surgir as palavras impostas ao sujeito como vindas do exterior. O retorno

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Rio de Janeiro: Imago. 249-270: Suplemento metapsicológico à teoria dos 104 .. Rio de Janeiro: Guanabara KOOGAN. um desligamento‖. Abhandlungen und Notizen aus den Jahren 1887-1902. São Paulo: Masson. Lacan abre uma perspectiva inteiramente outra na definição do inconsciente. p. Brisset. Rio de Janeiro: Imago. 1990. 15. Rio de Janeiro: Imago. H. 1974. artigos sobre metapsicologia e outros trabalhos.). p. Aus den Anfängen der Psychoanalyse: Briefe an Wilhelm Fliess. 1987. 1987. ed. 13-82: A história do movimento psicanalítico. 1985. 1. H. sob a forma de vozes. 479 p. Segundo Philippe Julien (1997). Bernard. 1950. ed. 1969. Ey. ed. Manual de Psiquiatria. uma des-nodulação. p. p. retomando as elaborações de Freud a propósito da defesa psicótica. Freud reconheceu um outro mecanismo de defesa em ação na psicose. Ey. S. 443 p.. 2. A psicose não se origina do inconsciente como sede do recalcado. demonstra a exterioridade do inconsciente nessa estrutura clínica. 4). o inconsciente como ―transmissão de uma não transmissão‖. 2. A história do movimento psicanalítico. London: Imago. a afirmação de um significante primordial regulador da cadeia simbólica. Rio de Janeiro: Imago. 1). (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Tempo brasileiro. 85-119: Sobre o narcisismo: uma introdução (1914). 185-245: O inconsciente (1915) p. ed. _______ A interpretação de sonhos (Parte II) e Sobre os sonhos (1900-1901). 165-182: Recalcamento (1915). Desde seus primeiros escritos sobre as neuropsicoses de defesa. 127 p. a propósito de Schreber. Freud. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. distinto do recalcamento neurótico. p. ao definir a foraclusão como ausência da Bejahung. edificou seu conceito de foraclusão. de enunciação de atos a cumprir ou de comentários sobre esses atos. O inconsciente: VI Colóquio de Bonneval . ________. Psiquiatria. v.desde fora nos fenômenos psicóticos. 5). (Org. E. qual seja. _______. Lacan. 1985. P. que Lacan definirá mais tarde como ―uma ausência de nós. Essa perspectiva nos conduz a ―uma função do inconsciente distinta do recalcado‖. 324-331: Carta 52 (06-12-1896 (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Referências Bibliográficas: Bleuer. C. _______ A interpretação de sonhos (Parte I) (1900). Publicações pré-psicanalíticas e esboços inéditos. de eco do pensamento. e precisamente em 1911. 3.

266 p. 69-96. ________. 658 p. J. Jung. C. 19). ed.G. Rio de Janeiro: Imago. _______. Dicionário comentado do alemão de Freud. 2. In: ____. Vocabulário da Psicanálise. ed. 279 p. p. L‘inconscient mis à l‘epreuve. São Paulo: Martins Fontes. O Seminário. Correspondência completa. Rio de Janeiro: Imago. 366 p. p. Ribeiro da Silva. 1990. p. Rio de Janeiro: Imago. 187-193: Neurose e Psicose (1924[1923]). Introdução à metapsicologia freudiana. Livre III: Les psychoses. 707 p. 271-291: Luto e Melancolia (1917[1915]). 14). Paris: Gallimard. 155-173: Algumas notas adicionais sobre a interpretação dos sonhos como um todo (1925). (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. J-B. Le Séminaire. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 10. Garcia-Roza. p. Court traité de l’inconscient. 137-152: Observações sobre a teoria e a prática da interpretação de sonhos (1923[1922]). 1988. 1981. 1993. 1991. In: ____. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Petrópolis: Vozes. Livro 3: As psicoses. p. 1976. 2. 13-83: O eu e o isso (1923). 137-165. 1992. As cartas não mentem jamais (A propósito dos enigmas da Carta 52). O desejo de Freud. PONTALIS. p. São Paulo: Martins Fontes. 505 p. O eu e o isso. 1 e 2. L. ________. 105 . L. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud.sonhos (1917[1915]). Freud/Jung. A. 1988. Nouvelle Revue de Psychanalyse. v. p. Problemáticas IV: O inconsciente e o id. ed. Uma neurose demoníaca do século XVII e outros trabalhos. 3). 227-234: A perda da realidade na neurose e na psicose (1924). Lacan. 1994. 1976. J. 366 p. Paris: Éditions du Seuil. ________. Laplanche. Hanns. São Paulo: Iluminuras. (Obras Completas. A. p. Psicogênese das doenças mentais. 1996.

The psychical treatment. por Freud. respectivamente. Diretor do Complexo de Saúde Mental e do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI) da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG). Keywords: Gratification. O limite enquanto borda constitui o sujeito em sua construção literal e litoral. comprometida com as diretrizes do Estatuto da 1 Mestre em Filosofia (UFMG). punição. the concept of limit. at this meaning.gov. governar e psicanalisar foram consideradas. Abstract: Opposite epistemological positions respectively choose subject or object. e-mail: augusto. used in totalitarian institutions . da ordem do impossível. breaks the polarization between gratification and punishment. psychical the the development of citizens of a more legal and treatment of the subject. nesse sentido. ao privilegiar a noção de sujeito faz. A noção de limite aplicada ao tratamento em saúde mental da infância e adolescência rompe a polarização entre gratificação e punição utilizada nas instituições totalitárias. Psicanalista.mg. contribuindo também para a formação de cidadãos de uma sociedade mais justa e fraterna. tratamento psíquico do sujeito. The limit as an edge constitute the subject in its literal and littoral construction . Jacques Lacan Resumo: Posições epistemológicas opostas elegem. Especialista em Gestão Hospitalar (ESMIG). As tarefas de educar. instituição totalitária. A especificidade de uma instituição psiquiátrica sem características totalitárias que configurem historicamente os manicômios. also contributing to friendly society. while favoring the concept of the subject . voltada para a assistência em saúde mental da infância e juventude.nunes@fhemig. Applying the limit outline into the mental health treatment of the childhood and adolescence. punishment. noção de limite.br 106 . saúde mental da infância e adolescência. sujeito ou objeto. O tratamento psíquico. makes the final choice. totalitarian institution. Palavras-chave: Gratificação. Psiquiatra (IRS-FHEMIG). escolha decisiva. mental health of childhood and adolescence .Gratificação X Punição: Construção do Limite Augusto Nunes-Filho1 ―Como seria mostrado o caminho mais curto de um ponto ao outro senão pela nuvem que empurra o vento enquanto ele não muda de direção?‖ Liturraterre.

modalidade organizacional centrada no totalitarismo promovendo conseqüências previsíveis na objetificação dos sujeitos a elas submetidos. Os livros Vigiar e Punir ou Microfísica do Poder. Se ―em primeiro lugar. Operar com o impossível nos campos da educação. O funcionamento segundo o modelo totalitário. no cotidiano 107 . de Erving Goofmann. Não se pode omitir. os castigos e privilégios são modos de organização peculiares às instituições totais‖ 3 a polaridade entre gratificar e punir norteia ações disciplinares nesses locais. no cotidiano institucional. juntos a Manicômios. Base conceitual de parte significativa da prática exercida na saúde mental. que ―é incômoda a biologia que tudo já dá a si mesma por princípio. a robotização e o automatismo apresentam-se em grande parte como resultado e efeito de experimentos que acabam por não considerar ou mesmo aniquilar a própria condição humana. esta uma franca ideologia.Criança e do Adolescente (ECA). a psicologia comportamental fundamentada na teoria de Skinner ocupa lugar de paradigma dos princípios científicos baseados na experiência com animais. de Michel Foucault. à exaustão. configuram. Modelos comportamentais costumam deslocar ―naturalmente‖ para o mundo dos humanos as experiências feitas com animais como se não existe um grande diferencial eles. As questões referentes à pedagogia e à gestão voltadas para o tratamento do sujeito apontam sempre para um inalcançável limite a ser perseguido. da gestão e do tratamento psíquico é tarefa diuturna enfrentada pelo corpo de profissionais do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI). Inúmeras situações corriqueiras exigem. são marcos referenciais críticos das organizações institucionais. pois. no entanto. posturas profissionais a serem construídas a cada momento como respostas a situações que coloca todos ante o impossível dessas três tarefas. uma vez que ―o sistema de privilégios e os processos de mortificação constituem as condições a que o internado precisa adaptar-se‖ 4. a se bendizer por natural‖. unidade do Complexo de Saúde Mental da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMIG). Conventos e Prisões. notadamente a realidade da adaptação. depara-se no seu cotidiano com o conjunto dessas impossibilidades apontadas.2 O ponto de partida do experimentalismo com animais pode não ser um dado tão inquestionável como muitas vezes é sugerido. Torna-se necessário mencionar que o condicionamento. nem falemos na seleção.

à regência do positivismo devido à amplitude de seu enraizamento nas mais variadas manifestações da cultura ocidental.i Introduzir o conceito de limite como um terceiro elemento na dicotomia existente entre as noções de punição e gratificação rompe a postura costumeira fundamentada no maniqueísmo cartesiano. O tratamento psíquico de crianças e adolescentes regido pela noção de sujeito implica em posições diferenciadas tanto no âmbito da educação quanto no da gestão. Grande parte dessas condutas dificilmente escapa. o mais das vezes. que interferem de forma decisiva na sua postura em seu trabalho. para o campo da saúde mental.com suas manifestações e exigências .a lida com o limite insere-se. A escolha feita por uma ou outra por parte do profissional tem implicações concretas. de alguma maneira. ―A fronteira. no entanto.ii Tal baliza estabelece além de formato e limite. também as próprias fronteiras dos processos civilizatórios. como conseqüência. quanto 108 . onde a individualidade subjetiva é considerada . simboliza que eles são iguais para quem os transpõe. superpõe o reino da cultura ao reino da natureza.denunciam a prevalência de formas de vida pautadas na massificação do consumo. na condução clínica dos casos por eles atendidos. governar e psicanalisar a essa orientação promove. posturas inovadoras na clínica. Uma diferença marcante é colocada entre as duas posições epistemológicas apontadas acima: uma baseia-se no conceito de sujeito.tendo como norte o sujeito ou o objeto . A civilização que reconhece e valoriza a diferença entre natureza e cultura tem como base de sua construção a noção de simbólico. como pontos de demarcação do limite. ―A Lei primordial é aquela que. forçosamente. Gratificação e punição situam-se. evidenciando tanto mudanças abruptas de um estado de coisas para outro. Regida pela orientação escolhida . Horizontes outros de intervenções descortinam-se. com certeza. ao separar dois territórios. governar e psicanalisar. ao reger a aliança. A noção de limite está presente nos atos de educar.institucional. a outra no de objeto. As resistências ante o arraigamento de tal postura por parte de alguns campos de saber . entregue à lei do acasalamento‖. A escolha do manejo prático e cotidiano do limite acaba por denotar a posição de cada profissional. que há entre eles um denominador comum‖.como a psicanálise . vividos no dia-a-dia institucional. A opção de submeter as impossibilidades constitutivas do ato de educar.como inimigo a ser eliminado.

o vir-a-ser. e não mais como o ponto de transição ou mudança estanque da gratificação para a punição. os treinamentos skinnerianos desenvolvidos em circos apresentam. a própria construção do sujeito.formulado como fronteira . Em tais casos. Limite: linha de demarcação. baliza. Evidencia também a diferença existente entre elas duas e a construção do limite. no entanto. o modelo epistêmico pautado na relação causa/efeito não apresenta as garantias esperadas nas pesquisas voltadas para a condição humana. Se o estatuto humano teima. As idéias aqui desenvolvidas apontam para noções que exigem alguns esclarecimentos: 1. Essa noção introduz modalizações variadas no antagonismo existente. esse advir do sujeito implica em constantes mudanças. interrogações sobre as modalidades de fronteiras que se demarcam entre campos diversos. Para desagrado de muitos. movimentos e transformações que constituem a própria vida. acabando por apontar a condição de estrangeiro. Ponto que não se deve ou não se pode ultrapassar. controlável e previsível. retribuição de serviço extraordinário.passa a ser assimilado como um terceiro lugar a ser construído. Gratificação: ato ou efeito de gratificar. animais perfeitamente condicionados a dar as respostas que lhes foram ensinadas como sendo. pena ou castigo. Rompendo a polarização que define gratificação e punição como opostas entre si. A polarização entre gratificar o ―bem‖ e punir o ―mal‖ é base de inúmeras ações cotidianas institucionais nas mais variadas localidades. mas como ‖a borda no furo do saber. Essa situação. A noção de limite termina por bordejar. não pode ser considerada como uma característica do universo humano.iii 2. as mais adequadas às situações repetidas. O conto ―A terceira margem‖ de Guimarães Rosa é exemplar na demonstração de possibilidade dessa construção. a construção de limites provoca. a noção de limite pode ser concebida não como mera delimitação. O lugar do limite . Fim ou termo. vi O limite concebido como desenho 109 . com sua entrada em cena. por sua vez. fronteira. o mais das vezes.iv 3. linha real ou imaginária que separa dois territórios contínuos. Assim.v A significação de cada uma dessas noções aponta para uma aproximação entre as estruturas da gratificação e a da punição enquanto atos. punição e gratificação funcionam como sustentáculos de ações concebidas em um universo fechado.construção e demarcação do próprio limite. Parte ou ponto extremo. sempre. também. não é isso que ela desenha?‖. em escapar aos esquemas estabelecidos por expectativas prévias. Apesar dos esforços envidados. Punição: ato ou efeito de punir.

O que posso? . Borda. poder. Saber. pelo menos no tempo e na hora de sua irrupção e premência. O limite construído com base em tais elementos aponta para a constituição do sujeito nada menos que pela falta. por sua vez. O que sou? . É a falta que desenha o limite da borda chamado desejo. a noção de limite opera dupla subversão . há litoral que só vira literal quando. A construção do limite obedece a seqüência lógica de três tempos. a falta. ―Entre centro e ausência.vii Limite. configura-se por fim através de seu próprio desejo. A falta que se introduz pela construção do limite enquanto borda entre um/outro dimensiona. a todo instante. O que quero? Cada um desses momentos convoca por si e para si. Ambulante metamorfose. a lei funciona como um organizador do que se 110 . o sujeito constitui-se assim como construção eterna e constante. O primeiro tempo – o da constituição narcísica – demanda o segundo como conseqüência lógica imediata que. O sujeito construído neste limite. distanciando-se da massificação e previsibilidade propostas pelos pressupostos teóricos dos condicionamentos comportamentais. É somente a partir daí que podem tomar-se pelo agente que a sustenta‖.da borda do furo do saber coloca em xeque posições estanques e convocam o literal da linguagem a ocupar lugar de litoral na configuração do território. entre saber e gozo. o furo. querer – que será o responsável pelo desdobramento de perguntas fundamentais na constituição subjetiva: . constitui o eu e o outro a partir da idealização. governar. por sua vez.3º. assim. sob a regência última das normas estabelecidas pelo processo civilizatório. de forma contundente e privilegiada. cada um deles regido por um verbo específico – ser. O terceiro tempo da construção da noção de limite é a introdução da dimensão da lei. Nesse intervalo. vocês podem tomá-la. Lei e desejo apresentam-se. configura-se também o sujeito. uma das impossibilidades antes enunciadas: educar. nessa virada.na constituição do sujeito e do outro . como faces da mesma moeda. a mesma.ao configurar sua construção literal enquanto litoral.2º. o sujeito desejante. autômato ou máquina forjada pelo positivismo de tantas psicologias. psicanalisar. como contraposição ao clone. Furo. o desejo enfim.1º. Dessa forma. A instituição da lei apazigua o desejo que não poderá consumar sua realização. advindo assim. Uma vez configurado o limite. dessa maneira. por este limite.

na praia. como o limite que existe. que se distinga nisso a rasura‖. impulsionam o sujeito para um pouco mais além. quando a sociedade e o cotidiano institucional não se mostraram suficientes e eficientes no acolhimento de suas questões. Gratificar e punir devem estar subordinados à construção constante dos limites do sujeito e do outro. é isso que do litoral faz terra‖. A cada movimento da maré e dos ventos o limite se refaz. pois. É preciso. familiar e 111 .x Como lidar com o limite no dia-a-dia de uma instituição psiquiátrica não totalitária? Como inserir a presença de familiares ou acompanhantes em regime de hospitalidade integral junto a crianças e adolescentes na demarcação do limite? Como acolher as demandas de usuários que necessitam de cuidado e de atenção específicos. dúvidas. Um limite assim construído não estará jamais emparedado. Ele se reconstrói diuturnamente em constantes transformações. O limite coloca-se então como lugar de construção do sujeito do desejo constituído na borda de descontinuidade entre gratificação e punição. inserção institucional. A solução para desafios dessa ordem não pode contentar-se com a classificação maniqueísta do ―bloco do bem‖ em oposição ao ―bloco do mal‖. entre terra e água. avança ou recua em direção a um ou outro estado.viii Litoral é areia umedecida ou fina lâmina de água constituindo territórios delimitados por essa fímbria mutante que vai e vem ao sabor do tempo e da vida. O desafio de lidar com usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) – crianças. Lei e desejo. Atender crianças e adolescentes como sujeitos diferenciados e desejantes na constante demarcação do limite entre demandas subjetivas.pode e do que não se pode fazer. Eu o disse: é pela conjunção deles que ele se faz sujeito. adolescentes e seus familiares – na montagem de uma instituição que acolha a singularidade de cada um é campo fértil de invenções. entre areia e mar. organizando-se pela falta. ―Rasura de traço algum que seja anterior. mas por aí se demarcarem dois tempos. desfaz. ―É na história dessas materialidades – tanto políticas quanto econômicas – que se inscreve a transformação física dos hospitais‖.ix Tais considerações fazem sentido quando transformáveis em ações concretas que promovam efeitos efetivos. oscilando a fronteira entre sólido e líquido. ―O escoamento é o remate do traço unário e daquilo que o apaga. da busca do bem de cada um e do bem-estar social que a todos contemple. anseios ou angústias? Instituições voltadas para o atendimento de crianças e adolescentes em saúde mental são obrigadas – pela sua própria missão – a enfrentar diariamente os três níveis de impossibilidade apontados por Freud.

RJ. Jorge Zahar Editor. SP. conventos e prisões. Hollanda. e a formação de cidadãos engajados na construção de uma sociedade mais justa e fraterna coloca-se como desafio constante para os trabalhadores da saúde mental da infância e adolescência. Editora Perspectiva 1974. RJ.social. Referências Bibliográficas Foucault. RJ. Nova Fronteira. RJ. Novo Dicionário Aurélio. Manicômios. 2003. Edições Graal Ltda. 112 . Aurélio Buarque. Lacan. Escritos. _________ Outros Escritos. 1979.. Jacques. Vigiar e punir. Erving. Jorge Zahar Editor 1998. Michel. Goffmann.

Pelo fato do diagnóstico do TDAH ser eminentemente clínico. monitorização e manejo de alguns dos efeitos colaterais destes fármacos. tanto dos Estados Unidos quanto da Europa para o diagnóstico e tratamento.Diagnóstico e Tratamento Farmacológico do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em Crianças e Adolescentes. 2 Residente (R4) em Psiquiatria da Infância e Adolescência do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI). Santa Efigênia. Simone C.MG. The selection and systematization of empirical and clinical evidence could improve and assist clinicians in psychiatric decision making. A mental health assessment criteria may be available to support the clinical The list of references for this review included an expertise consensus from Europe and USA. Palavras-Chave: Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade. critérios e diretrizes diagnósticas são importantes para a caracterização do mesmo. Diagnóstico. Rua Padre Marinho 150. diagnoses. A organização das evidências científicas sob a forma de protocolos pode promover e facilitar maior rigor científico e homogeneidade nas condutas clínicas. Infância. Facuri Lopes. Abstract : The purpose of this report is to review the literature on ADHD to provide further basis to lay out evidence-based protocol to guide clinicians toward the diagnoses and the pharmacologic treatments. Belo Horizonte. à escolha do tratamento farmacológico e à identificação. Tratamento. Facuri Lopes5 Sheila Cardoso Rosa2 Marina Silva de Lucca2 Resumo: A presente revisão visa selecionar a base teórica para posterior confecção de um protocolo clínico para guiar o psiquiatra quanto ao diagnóstico. e os achados foram concordantes com os demais artigos pesquisados para esta revisão.FHEMIG e Professora da Faculdade de Medicina – UNIFENASCampus Belo Horizonte. Localizamos estudos de consenso de especialistas. and their dates are stated in accordance with other studies. 1 Coordenadora da Residência Médica em Psiquiatria da Infância e Adolescência do Centro Psíquico da Adolescência e Infância (CEPAI). Endereço para correspondência: Simone C. as the identification and managing the adverse effects of the medication.FHEMIG. CEP:30140-040 113 . Adolescência.

8%. Os estudos nacionais e internacionais situam a prevalência do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) entre 3% e 6%. provenientes de sistemas classificatórios como o DSM-IV-TR8 ou a CID-109. Introdução O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um transtorno mental de alta prevalência em crianças e adolescentes. A desatenção. o prejuízo no relacionamento com a família e com o entorno social. baseado em critérios claros e bem definidos. Diagnóstico do transtorno de Déficit de Atenção/Hipertatividade O diagnóstico do TDAH é fundamentalmente clínico. adolescência e idade adulta3. Rhode e colaboradores2 usaram o DSM-IV como critério diagnóstico para o TDAH em uma amostra de 1013 adolescentes cuja faixa etária variou de 12 a 14 anos. Existem fortes evidências de que crianças com essa síndrome apresentam um risco aumentado de desenvolverem outras doenças psiquiátricas na infância.6.5. nas atividades acadêmicas e vocacionais. treatment. causando prejuízos importantes no funcionamento psicossocial e acadêmico dos indivíduos acometidos. No Brasil. encontrando uma prevalência de 5. não existem marcadores laboratoriais ou exames de imagem que comprovem o diagnóstico. incluindo artigos de elaboração de consensos realizados por grupos com expertise na área. adolescent. Ressaltamos alguns aspectos que devem ser considerados em relação ao diagnóstico: 114 . Metodologia Utilizamos o medline como banco de dados para a busca das referências bibliográficas.7. O impacto desse transtorno é significativo. diagnoses. hiperatividade e impulsividade constituem a tríade sintomatológica clássica.4.Keywords: Attention-deficit/hyperactivity disorder. sendo realizados com crianças em idade escolar na sua maioria1. Até o momento. considerando-se os efeitos negativos na auto-estima das crianças e adolescentes. Children.

se 115 . mas às custas de muito sofrimento emocional. Normalmente. SPECT Cerebral ou Cintilografia de Perfusão Cerebral. pois sintomas de desatenção.  A frequência e intensidade dos sintomas devem ser valorizadas. as propedêuticas como eletroencefalograma (EEG). A presença de sintomas de desatenção e/ou de hiperatividade/impulsividade por curtos períodos (dois a três meses) e que se iniciam claramente após um desencadeante psicossocial deve direcionar o clínico para a possibilidade de que a desatenção.  É importante investigar os vários ambientes da vida da criança (escola. O DSM-IV-TR propõe a necessidade de pelo menos seis sintomas de desatenção e/ou seis sintomas de hiperatividade/impulsividade. casa ou outros ) e os sintomas devem persistir nos diversos locais e ao longo do tempo. A apresentação clínica pode variar de acordo com o estágio do desenvolvimento. Assim. Sintomas como hiperatividade/impulsividade são mais freqüentes em pré-escolares com TDAH do que sintomas de desatenção. ressonância magnética. as crianças com TDAH apresentam sintomatologia intensa por um período de vários meses. E o grau do prejuízo deve ser sempre avaliado a partir das potencialidades da criança e do grau de esforço necessário para a manutenção do ajustamento social e/ou escolar. Os pré-escolares apresentam um nível de atividade mais intenso e o diagnóstico de TDAH deve ser feito com muita cautela antes dos seis anos de vida.  Os sintomas devem ser contextualizados na história de vida da criança. do tipo predominantemente desatento. Uma criança inteligente pode superar as dificuldades no desempenho escolar.  Exceto nos casos em que existam evidências da presença de patologias neurológicas. o TDAH pode ser do tipo combinado. uma vez ou outra ou até mesmo freqüentemente. mas em intensidade menor. se são satisfeitos os critérios para desatenção e para hiperatividade-impulsividade.  O prejuízo na vida da criança deve ser clinicamente significativo. para o diagnóstico de TDAH. de hiperatividade ou de impulsividade ocorrem mesmo em crianças normais. PET ou Tomografia de emissão de pósitron não são indicadas para a avaliação de TDAH10. pelo período mínimo de 6 meses. a hiperatividade ou a impulsividade sejam mais sintomas e não parte de TDAH.

Dados similares já haviam sido relatados para uma amostra clínica de crianças e adolescentes norte-americanos15. TDAH com predomínio de sintomas de hiperatividade/impulsividade. Momento no qual as exigências escolares colocam em evidência o prejuízo das funções executivas. Segundo os mesmos autores. Rohde e colaboradores14 demonstraram que o padrão sintomatológico. de comorbidade e de prejuízo funcional não é significativamente diferente entre adolescentes com o transtorno que apresentam início dos sintomas que causavam prejuízo antes ou depois dos sete anos. As formas de TDAH com predomínio de desatenção ocorrem com maior freqüência no sexo feminino e parecem apresentar. Entretanto. O DSM-IV subdivide o TDAH em três tipos: 1. Segundo Cantwell11 e Biedermann12. como manutenção do foco atencional. baixas taxas de transtorno de conduta e alto nível de co-morbidade com transtorno de humor e ansiedade. Os sintomas de conduta. 3. causando prejuízos. 2. Desse modo.são satisfeitos os critérios apenas para desatenção. se são satisfeitos critérios apenas para hiperatividade/impulsividade. as meninas são subdiagnosticadas porque têm poucos sintomas de agressividade/impulsividade. quando comparado aos dois outros grupos. TDAH com predomínio de sintomas de desatenção. conjuntamente com o tipo combinado. é o tipo hiperativo/impulsivo. antes dos 7 anos para o diagnóstico do transtorno. sem evidência científica que sustente sua validade clínica13. 116 . planejamento e organização. aos 7 anos. de oposição e de desafio ocorrem mais freqüentemente em crianças com qualquer um dos tipos de TDAH do que em crianças normais. a idade diagnóstica tende a ser mais avançada em relação aos meninos. Quanto ao início do quadro. por exemplo. este critério é resultado de opinião de especialistas (nível de evidência D). o DSM-IV e a CID-10 incluem um critério de idade de início dos sintomas. O tipo combinado está mais fortemente associado a esses comportamentos e apresenta também um maior prejuízo no funcionamento global. o de menor freqüência. do tipo predominantemente hiperativo/impulsivo. As formas com predomínio de sintomas de hiperatividade/impulsividade apresentam maior agressividade e tendem a apresentar altas taxas de rejeição pelos colegas e adultos. maior prejuízo acadêmico. É possível que uma criança possa apresentar sintomas clinicamente significativos apenas a partir do momento em que a demanda social e acadêmica seja maior. TDAH combinado. o tipo combinado em meninas é mais freqüente em relação ao tipo desatento e.

O estudo MTA completou o seguimento dos pacientes até 22 meses após a fase aguda do tratamento16. Estes estudos clínicos com larga amostra randomizada e de seguimento mostram a eficácia do uso de medicamentos a longo prazo e o papel importante das intervenções psicosociais com bases empíricas. 27 examinaram os efeitos dos tratamentos farmacológicos e comportamentais adotados de forma isolada e combinados nos sintomas de TDAH e nos prejuízos consequentes na função acadêmica e social. 24 . † Presença de grande controvérsia na literatura. O estudo MTA . Ocorrência de comorbidades apresentadas por portadores do TDAH PROPORÇÃO DE CASOS ENTRE COMORBIDADES AS CRIANÇAS COM TDAH 54% a 84% 17. Tratamento Farmacológico As seguintes orientações sobre a escolha dos medicamentos tem como base os resultados dos ensaios clínicos e dos consensos de especialistas publicados pelo Texas 117 .Comorbidades As pesquisas mostram uma alta taxa de comorbidade entre os portadores do TDAH 16 . 23. Tratamento As intervenções psicossociais no tratamento do TDAH têm sido estudadas. não considera necessário excluir TDAH por causa de um diagnóstico de Transtorno afetivo bipolar (TAB). Os dados provenientes destes estudos estão sintetizados na tabela 1. 21 16 16 0 a 33% 16% de casos de mania em uma amostra de TDAH 25 22. Os estudos multimodais26.18 Tabela 1- Transtorno Desafiador Opositivo (parte significativa destas crianças vão desenvolver Transtorno de conduta) Tabagismo Transtorno relacionado ao abuso de drogas Problemas de linguagem e de aprendizado* Transtornos de ansiedade Transtorno depressivo Transtorno afetivo bipolar† 15 a 19% 19 20 15% to 19% 25 a 35% 1/3 16. *Variando com os critérios de avaliação.

16. dosagens e tempo de duração do efeito. L-methylfenidato . Medicamentos de primeira escolha Estimulantes: metilfenidato e anfetaminas (nível de evidência A) No mercado brasileiro estão disponíveis: Ritalina® de liberação imediata. As fórmulas de liberação imediata e prolongada são igualmente eficazes em crianças e adolescentes 200631. Tabela 2- Medicamentos estimulantes disponíveis no Brasil. cápsulas 20. No momento. liberação prolongada. os pacientes que responderam ao placebo não mantiveram esta melhora30. sais mixtos de amfetamina e atomoxetine. variando com o critério de melhora clinica utilizado29. As dosagens recomendadas e a duração do efeito estão descritas na tabela 2. 30 e 40mg e Concerta®. 36 e 54 mg. Ritalina LA® e Concerta®). Ritalina LA® de liberação prolongada. Dand D.0. Medicamento Dose inicial Dose usual Duração do efeito Ritalina* 5 mg duas vezes ao dia 5 a 20mg 2 a 3 vezes ao dia 20 a 40mg pela manhã 3 a 5 horas Ritalina LA 10mg Cerca de 8 horas Concerta 18mg 18 a 72mg pela manhã Cerca de 12 horas *Disponível na rede FHEMIG Em estudos duplo cego randomizados em crianças e adultos. No estudo MTA.Children’s Medication Project em 200628 e pelo Practice Parameter for the Assessment and Treatment of Children and Adolescents With Attention-Deficit/ Hyperactivity Disorder em . 65 a 75% dos casos com TDAH mostraram resposta clínica comparado com 4 a 30% do grupo placebo. as drogas aprovadas pelo Food and Drug Administration (FDA) no tratamento do TDAH são: dextroamphetamina. Quando a resposta clínica é medida através de escalas. 118 . apresentação de 18.200716. comprimido 10mg (disponível na rede FHEMIG). Sendo que no Brasil temos o Cloridrato de Metilfenidato disponível no mercado (Ritalina®. o tamanho do efeito do tratamento com estimulantes chega a 1.

embora o número de ensaios clínicos controlados seja limitado. quanto a longo prazo: efeitos neurológicos (cefaléia. Em média. parece ser algo mais pronunciado que a altura. enquanto outras têm seu crescimento suprimido de forma significativa. questionando-se se o próprio TDAH poderia ser um fator de risco independente. tiques. tem sugerido que a altura final na idade adulta não é afetada33. insônia. algumas crianças não são afetadas. efeitos psiquiátricos (humor/ansiedade. Recente revisão de literatura publicada pelo grupo europeu EUNETHYDIS (European Network for Hyperkinetic Disorders)33. tratados na infância com estimulantes. parece que os efeitos são atenuados ao longo do tempo. entretanto o uso em pré escolares tem sido utilizado.O FDA aprova o uso do metilfenidato para maiores de 6 anos. sintomas psicóticos). uma vez que desfechos em adultos. mostrou evidências de redução tanto estatural quanto ponderal com o tratamento de crianças com TDAH utilizando medicações estimulantes.34.5 mg três vezes ao dia em um período de 1 semana. a redução em estatura é aproximadamente de 1 cm/ano durante os primeiros 3 anos de tratamento. Em relação ao peso. Um estudo longitudinal. O achado de acometimento do crescimento tem apresentado uma grande variabilidade. Entretanto.5 mg duas vezes ao dia e depois aumentar para 7. convulsões). Estas doses produzem marcada redução dos sintomas. aproximadamente ganho de 3 kg a menos que o esperado num período superior a 3 anos33. apresentava peso maior 119 . Efeitos colaterais dos estimulantes Vários efeitos adversos tem sido associados ao uso de medicamentos no tratamento do TDAH tanto a curto prazo. 2. embora o tamanho do efeito seja menor do que o encontrado nos estudos com escolares. Efeitos adversos no crescimento O impacto das medicações estimulantes para o tratamento do TDAH no crescimento ainda não está totalmente definido. encontrou que o sexo feminino. tonteira. efeitos gastrointestinais (redução de apetite e sobreposição à restrição de crescimento) e efeitos cardiovasculares. Um estudo que avaliou o tratamento de pré escolares32 sugere que deve-se iniciar com baixas doses de estimulantes. quando apresentava Transtorno Depressivo Maior (TDM) comórbido ao TDAH. Altas taxas de labilidade emocional tem sido observado neste grupo. com 10 a 11 anos de seguimento publicado por Biederman em 201035.

120 . Adotar medidas que melhorem a nutrição e/ou minimizem o risco de alterações no crescimento:  A dose ser tomada após a refeição e em horários mais cedos como o café da manhã. Aproximadamente 25-50% das crianças e adolescentes com TDAH apresentam problemas de sono. utilizando os gráficos de peso/altura recomendados. quanto ao TDAH ou ainda referente a alguma comorbidade. Dias de folga da medicação. apresentavam altura menor do que o grupo sem TDAH.  Oferecer refeições extras mais ao final do dia.   Oferecer lanches mais nutritivos. resistência ao horário de dormir ou à ficar na cama. Entre os parâmetros individuais investigados. É possível que os efeitos dos estimulantes no crescimento sejam dose-dependente.que o grupo sem TDM. ponderando o risco/beneficio da gravidade da sintomatologia e o possível prejuízo no crescimento. como fins-de-semana e férias. cansaço ao acordar e sonolência diurna36. quando o efeito de alguns dos medicamentos usados durante o dia já teriam terminado (meia vida curta). Monitorar o crescimento. nessa mesma situação. podendo suspender ou reduzir a dose. em crianças/adolescentes em uso de medicação para TDAH. com teor calórico-protéico maior. por pelo menos 6 meses. Entretanto estudos focados nas medidas de polissonografia e nos relatos dos pais mostram resultados inconsistentes38. Os médicos precisam orientar o paciente e seus responsáveis sobre a possibilidade de atraso no crescimento secundário à medicação e ponderar o risco/benefício do tratamento e do não-tratamento. 2. a dificuldade em adormecer tem sido a mais observadas nas crianças medicadas37. Os efeitos podem ser maiores em crianças do que em adolescentes. Efeitos Adversos no Sono Um ponto importante é que o distúrbio de sono pode estar associado tanto ao uso do estimulante. enquanto os homens. 3. mas ainda faltam dados conclusivos33 e algumas condutas devem ser recomendadas: 1. provavelmente com maior efeito em doses acima de 1.5mg/Kg/dia de forma contínua. Os problemas mais comuns são dificuldade em iniciar o sono.

121 . em geral.42. não existe evidência para que se considere o tique como uma contraindicação ao uso de estimulantes. Uma investigação cuidadosa do padrão de sono deve ser feita antes do início do tratamento. O uso da melatonina tem apresentado bons resultados ao ser associado com os estimulantes36. Ensaios clínicos com estimulantes não tem verificado o aumento das taxas de tiques em comparação com o placebo16.A experiência clínica também sugere que a medicação psicoestimulante pode ter um impacto negativo no sono. Atomexetina e clonidina podem ser efetivas em substituição aos estimulantes. 33. Alguns autores reportam melhora com o uso de doses pequenas antes da hora de deitar para facilitar o sono. Um ajuste da dose ou do horário de administração deve ser a conduta inicial e a mudança da medicação deverá ser considerada quando o problema persistir. Existem observações documentadas que esta melhora persiste por 1 ano de tratamento41. É plausível que os problemas de sono possam ser secundários a um efeito rebote da medicação e não devido a uma ação direta da droga. Esta é a posição dos grupos americanos e europeus16. A instituição de medidas de higiene do sono com rotinas e horário estabelecido para ir deitar-se devem ser estimuladas e devem envolver toda a família. mas a observação oposta também tem sido registrada. pelos relatos de morte súbita em indivíduos que usaram essas drogas. Tiques A ocorrência de tiques com o uso de estimulantes no TDAH não é completamente conhecida. Nos casos em que um paciente melhora apenas com estimulantes e estes induzem o aparecimento de tiques. levando à inquietude39. Efeitos Adversos Cardiovasculares Morte Súbita A segurança quanto aos efeitos cardiovasculares das drogas usadas para tratamento do TDAH continua sendo motivo de preocupação para clínicos e familiares. o tratamento combinado de estimulantes com clonidina pode ser instituído (Tourette’s Syndrome Study Group)43. Deve-se investigar a presença de tiques e monitorá-los. Quadros de TDAH com transtornos de tiques. apresentam melhora dos tiques com o uso de estimulantes.40. para que seja possível diferenciar quando se trata ou não de um efeito secundário à medicação. No momento. mas seus efeitos variam de paciente para paciente.

Em contraste com adultos, morte súbita ocorre raramente na população pediátrica. As taxas são de 0,8 a 8,5/100.000 pacientes ao ano com mediana de 1,2 a 1,3/100.000/ano33. O FDA e Health Canada identificaram 25 mortes súbitas em indivíduos que usavam medicamentos para TDAH a partir de dados pós-comercialização entre 1999 e 2003, levantando preocupações de uma possível associação. Doze desses indivíduos tinham entre 1 e 18 anos. Entretanto, quando o número de pacientes-ano usando medicamentos para TDAH foi inserido nessa avaliação, a freqüência de morte súbita relatada foi 0,2 a 0,5/100000/ano33. Como a morte súbita em crianças é muito rara, outros estudos epidemiológicos são necessários para analisar esta questão de forma adequada. O FDA está realizando um grande estudo epidemiológico (500.000 pacientes) para aprofundar esta questão.33 Hipertensão Todos os medicamentos estimulantes podem causar elevação da pressão arterial. O aumento médio ocorre na faixa de 1-4 mmHg na pressão sistólica e 1-2 mmHg para a pressão diastólica, no entanto em alguns pacientes esse aumento da pressão arterial é mais significativo. A monitorização da FC e pressão arterial é recomendada para qualquer medicação usada no TDAH, para todos os pacientes e em uma freqüência de 3 em 3 meses ou semestral, podendo variar dependendo do caso. Pressão arterial com valores elevados
33

antes

ou

durante

o

tratamento

com

estimulantes

exige avaliação . Em pacientes que já estão em tratamento para o TDAH a redução da dose ou férias da droga poderá ser proposto antes de encaminhar para o especialista, para confirmar o papel potencial da droga no estado hipertensivo. O tratamento adicional vai depender da gravidade da elevação da pressão arterial e, em consulta com o especialista em TDAH, pode-se incluir o tratamento anti-hipertensivo, além dos estimulantes ou a suspensão desses.33 Prolongamento do Intervalo QT O prolongamento do intervalo QT em indivíduos sem síndrome do QT longo congênita ou anteriormente reconhecido intervalo QT longo pode ser causado por uma variedade de medicamentos e é um fator de risco reconhecido para taquiarritmias ventriculares e morte súbita. Assim, o potencial de efeitos dos medicamentos para TDAH

122

sobre o intervalo QT se torna importante devido às preocupações levantadas sobre a segurança deste grupo de medicamentos. O intervalo QTc médio não é alterado significativamente por nenhum dos grupos de medicamentos (metilfenidato, sais de anfetamina misturada e atomoxetina). A menos que novos dados apareçam sobre um subgrupo particular, não há atualmente nenhuma indicação para monitorar as alterações QTc quando estimulantes são prescritos. Não há evidências atuais que sugerem um benefício adicional para ECG de rotina na avaliação de pacientes com TDAH antes do início da medicação33. Para pacientes com TDAH sem doença cardíaca conhecida, o especialista em TDAH é a pessoa apropriada para a avaliação do risco/benefício do uso do medicamento33. Para pacientes com doença cardíaca congênita, durante o tratamento para TDAH, a entrada de um cardiologista pediátrico / eletrofisiologista pode ser útil, embora o especialista em TDAH continue a ser a pessoa adequada para avaliar risco/benefício do uso dos medicamentos33.

Medicamentos de segunda escolha A Atomexetina (Strattera®) não está disponível no mercado brasileiro. A comparação da eficácia entre atomexetina com metilfenidato e amfetamina mostrou melhor efeito dos estimulantes. Em um estudo de metanálise comparando os dois medicamentos, o tamanho de efeito da atomoxetina foi 0.62 comparado com 0.91 e 0.95 para estimulantes de liberação imediata e de longa ação, respectivamente16. Atomoxetina pode ser a primeira opção para indivíduos que apresentam problemas de abuso de drogas, comorbidade com ansiedade ou tiques. Indicada também nos casos em que ocorreram efeitos colaterais aos estimulantes como: labilidade de humor ou tiques44. A grande maioria dos pacientes com TDAH sem comorbidades respondem satisfatoriamente aos medicamentos citados acima. No caso de falência de resposta, o diagnóstico de TDAH deverá ser revisado para investigar a existência de comorbidade não diagnosticada. Medicamentos de terceira escolha Antidepressivos Tricíclicos (Imipramina e Nortriptilina), Bupropiona, e Alfa- Agonista são utilizados no tratamento de TDAH, mesmo não sendo aprovados pelo FDA para esta finalidade. Embora não existam estudos extensos como dos medicamentos anteriores, existem estudos controlados com pequenas amostras e estudos abertos16. Na tabela 3

123

estão descritas as doses e alguns dos efeitos colaterias mais importantes destes medicamentos. Os Antidepressivos Tricíclicos (Imipramina e Nortriptilina) são os mais utilizados dentre as drogas não aprovadas pelo FDA para o TDAH. Um ECG de base e após cada aumento de dose deve ser solicitado45. A Bupropiona mostra eficácia moderada no TDAH46. Está contraindicada em casos de epilepsia. Pode ser utilizada nas formulações de liberação imediata ou de liberação lenta, mas não há formulações com comprimidos adequados para crianças que pesam menos de 25Kg. A Clonidina tem sido prescrita para TDAH e comorbidades como agressão e para o combate de efeitos colaterais como tiques e insônia. Entretanto faltam ensaios clínicos controlados47,48.

Tabela 3-

Medicamentos de terceira escolha no TDAH com respectivas dosagens e efeitos colaterais mais importantes

MEDICAÇÃO Bupropiona

DOSE INICIAL 3 mg/kg/dia or 150 mg/dia

DOSE MÁXIMA 6 mg/kg or 300 mg/dia

OBSERVAÇÕES Abaixa o limiar a convulsão Utilizar dividido em 2 a 3 doses

Imipramina Nortriptilina

1 mg/kg/day 0.5 mg/kg/day

4 mg/kg or 200 mg 2 mg/kg or 100 mg

ECG antes do uso ECG antes do uso

Clonidina

<45 kg: 0.05mg antes de dormir, aumentar a cada 0.05mg (2,3 a 4 vezes/dia) >45 kg: 0.1 mg antes de dormer, aumentar a cada 0.1-mg (2,3 a 4 vezes/dia) Aumento gradual por 1 a 2 semanas

27 a 40.5 kg: 0.2 mg; 40.5 a 45 kg: 0.3 mg; >45 kg: 0.4 mg

Pode ser utilizado sozinho ou como adjuvante à outra medicação. Efetivo para impulsividade e hiperatividade, casos de piora do Tique com estimulantes e distúrbios do sono. PA e FC devem ser monitoradas.

124

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