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INTRODUÇÃO

Em meu caminho pela vida, dentre os diversos encontros que os acontecimentos me possibilitaram, deparei-me com duas questões teóricas que considero importantes para a ciência e para a minha reflexão pessoal. A primeira é o que denominamos confiança, uma simples palavra tão crucial pela importância que assume nos relacionamentos humanos. A segunda é a palavra imagem face ao fato desta ser primordial em vários aspectos da vida, possuindo vários sentidos, conotações e utilizações tanto no senso comum quanto no mundo da ciência. Ao trilhar o longo e delicioso percurso do Doutorado em Psicologia Social na UERJ me foi apresentado um conceito que considero profundo, simples e prático na sua função de refletir a realidade social e nos possibilitar grandes luzes de entendimento sobre o homem e a sua cultura e que logo incorporei à minha vida acadêmica e pessoal. Este conceito, Representações Sociais, foi escolhido por mim como base que deu suporte teórico a esta Tese e se mostrou bastante eficaz para que eu pudesse estudar tanto a questão da confiança – meu foco principal - quanto a questão da imagem – meu foco secundário neste trabalho. Esta teoria, das representações sociais, é, ao mesmo tempo, simples e poderosa. Simples porque trata os processos de construção de significados sociais de uma forma bastante acessível ao entendimento por toda e qualquer pessoa que dela se apropriar e poderosa porque permite capturar instantaneamente o pensamento social e as suas implicações referentes ao conhecimento e ao comportamento humano. Conforme Jovchelovitch:
As representações sociais se referem tanto a uma teoria quanto a um fenômeno.Elas são uma teoria que oferece um conjunto de conceitos articulados que buscam explicar como os saberes sociais são produzidos e transformados em processos de comunicação e interação social. Elas são um fenômeno que se refere a um conjunto de regularidades empíricas compreendendo as idéias, os valores e as práticas de comunidades humanas sobre objetos sociais específicos, bem como sobre os processos sociais e comunicativos que os produzem e reproduzem (JOVCHELOVICHT, 2007, P. 87).

Deste modo, o que o leitor encontrará nas próximas paginas será um produto destes três pilares preciosos para mim: confiança, imagem, representações sociais. Se a vida relacional é fundamental para a vida humana, a confiança é um ponto chave das redes de relações humanas, do homem consigo mesmo, com outros homens, com grupos sociais, entre

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grupos, com as coisas (como produtos, serviços ou elementos da natureza), instituições sociais ou objetos abstratos (conceitos, idéias, crenças). Entender como se faz para confiar ou não confiar se tornou para mim quase que como uma obsessão nestes últimos quatro anos, período em que estive totalmente ligado, focado, centrado nesta questão sem de maneira nenhuma conseguir esgotá-la. Um encontro com pessoas, um diálogo ao acaso na rua, um programa de televisão, um filme, uma compra pela internet, uma música, enfim, praticamente todos os momentos se tornaram oportunidades de reflexão sobre a questão. Senti também o interesse que as pessoas sempre demonstravam pelo este tema e tal fato me motivava ainda mais a estudar, buscar, pesquisar. Apresento aqui, de uma forma extensa, mas não exaustiva, um primeiro capítulo introdutório onde discorro sobre a importância da confiança como objeto de pesquisa e percorro a literatura e diversos autores importantes selecionados que refletiram sobre este tema. Em seqüência falo da relevância da esfera pública para a minha tese na medida em que foquei inicialmente a questão da confiança no mundo do trabalho como forma de possibilitar a partir deste estudo a geração de resultados interessantes para aplicação no campo organizacional e, igualmente, de evitar dispersar esforços em discutir exaustivamente todos os demais diversos campos possíveis da confiança (amizade, relacionamento amoroso, família, escola, marketing). Fiz a opção de utilizar duas formas de linguagem diferentes e complementares na minha pesquisa de campo, o que adicionou questões importantes à minha reflexão. Escolhi trabalhar com a linguagem imagética e, assim, realizei uma reflexão sobre a importância desta e de como poderia utilizá-la neste estudo. Assim, escrevi um capitulo que discute esta questão. Aqui desenvolvi a pesquisa sobre confiança através do instrumento dos Grupos Focais. Dividi os Grupos Focais em duas etapas em seqüência: imagética e verbal. Trabalhei, portanto, com duas formas de linguagem tendo que processar e discutir os resultados de forma separada e conjunta. Explico estes procedimentos adotados no capítulo da metodologia de pesquisa. Posteriormente apresento a minha pesquisa de campo, os resultados obtidos, os textos imagéticos e verbais e uma discussão de como ampliar as possibilidades de captar o máximo de informações deles. Na conclusão desenvolvo a análise dos resultados sobre a representação

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social da confiança e uma reflexão adicional sobre a importância da utilização da imagem na metodologia da pesquisa nas ciências humanas e sociais.

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CAPÍTULO 1 - A REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA CONFIANÇA NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS

If I trust in you Oh, please, Don't run and hide. If I love you too Oh, please, Don't hurt my pride like her (The Beatles, música: If I fell)

Neste capítulo pretendo estabelecer alguns comentários sobre aspectos importantes para o entendimento da confiança na contemporaneidade, principalmente aqueles relacionados com os aspectos do controle, do risco, da segurança e da liberdade. No interior das sociedades contemporâneas1 podemos identificar claramente a importância cada vez maior que assume a questão da Confiança. Estamos diante de um processo de vida que nos impõe uma constante avaliação de riscos, como bem argumentam diversos autores:
Contamos, hoje, com uma ampla gama de técnicas para a avaliação dos riscos nos mais diversos setores da vida social: seguros de vida, seguros de carga, aviação, danos ao ambiente, terremotos, furacões, cardiopatias, cânceres vários, gravidez e esportes, entre outros. Contamos, também, com uma teoria cultural do risco e com uma teoria social do risco. O número de comissões avaliadoras, instrumentos de regulação e livros focalizando riscos variados cresceu enormemente, especialmente após a Segunda Guerra Mundial (SPINK, 2000, p.156).

A palavra risco, altamente associada com a confiabilidade e a confiança, tem origem bastante recente na civilização ocidental, tendo surgido por volta do século XV como um derivativo de resecare (cujo significado é ―cortar‖) para ―descrever penhascos submersos que cortavam os navios‖ (op. cit., p. 161). Apesar do homem sempre ter se utilizado de sua mente racional para tentar avaliar os perigos e evitar danos, perdas ou sofrimento, foi somente há alguns séculos atrás, com o desenvolvimento da teoria das probabilidades, que se conseguiu a criação de métodos confiáveis de quantificação e da avaliação de riscos, possibilitando o desenvolvimento de indicadores utilizáveis para aplicação em qualquer atividade humana, possibilitando a geração de indicadores matemáticos que possibilitam previsões de futuro e ,

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Optamos aqui por não utilizar nenhuma das diversas denominações que se encontram na literatura como sociedade pósindustrial, pós-moderna, hipermoderna, líquida, capitalismo cognitivo, de trabalho imaterial para evitar as possíveis conotações deste diversos conceitos e suas implicações teóricas. Usaremos simplesmente o termo contemporâneo para expressar o atual momento social.

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assim, auxiliar na redução das chances de infortúnio. Esta aplicação científica se generalizou de tal forma que, hoje, o fenômeno risco se constitui num portal para o entendimento de algumas de nossas questões atuais mais importantes, se estruturando como um dos pilares fundamentais de nossa subjetividade. Para se viver hoje, mais do que nunca, é necessário avaliar todos os riscos possíveis com a antecedência necessária. Os riscos são sempre definidos na esfera dos valores morais de uma sociedade, tendo, portanto, efeito normativo no comportamento dos indivíduos. Risco implica em prever e em temer, implica em um sentimento constante de medo, em um nãoconfiar no puro seguimento do fluxo da vida e, principalmente, na necessidade imperativa de tentar controlar este fluxo. A taxa de risco de uma ação ou empreendimento implica, fundamentalmente, em uma atribuição de níveis de confiança sobre a probabilidade de sucesso ou insucesso que poderemos obter neste. Risco e confiança caminham juntos. A noção de risco provém da emoção de medo, do medo da perda de algo valioso, de forma total ou parcial, temporária ou definitivamente. O medo é natural, o risco é cultural, socialmente construído. Evitar riscos é evitar possíveis sofrimentos futuros. É tentar controlar os processos da vida, obter segurança, previsibilidade. O medo torna-se racionalizado e racionalizável pela mente humana nas nossas tentativas e esforços para prever e controlar. Ivana Marková (2004), destacada cientista do campo da Teoria das Representações Sociais, estabelece uma distinção interessante entre o que chama de confiança/medo, própria das relações interpessoais, e o que denomina por confiança/ risco, própria das relações objetais. A confiança/medo, que aparece nas relações interpessoais, está ligada a um processamento subjetivo: a partir da representação que construí de uma determinada pessoa com a qual tenho interesses compartilhados qual o nível de medo que possuo de ser traído, de me decepcionar, de minhas expectativas sobre o comportamento deste outro não se confirmarem e tal fato me gerar danos afetivos. A confiança/risco pode ser estabelecida em forma calculável, precisa, matemática, objetiva: percentagem de risco de sucesso ou fracasso de um projeto, probabilidade aferida de cura de determinado medicamento, probabilidades estatísticas de acontecimento de um sinistro.

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1.1 - Civilização e liberdade individual Vivemos atualmente numa sociedade que almeja o controle total sobre tudo, no sentido de que há um esforço permanente por monitorar e prever os resultados das ações e eventos relacionados a pessoas, organizações e à própria natureza. Não confiamos na cadência natural da vida, tememos o futuro e queremos evitar riscos e minimizar nossos temores de sermos traídos pelo outro ou de que os objetos que consumimos não atendam nossas expectativas. Estas características da sociedade contemporânea têm sua origem em

determinados acontecimentos históricos da época que a precedeu. Vamos fazer agora uma breve reflexão sobre estas questões. A sociedade humana a partir do período histórico do Renascimento, com o surgimento do que chamamos de ciência e depois, mais intensamente no período iluminista, procurou, incessantemente, através da razão, da lógica, da ciência e da tecnologia estabelecer o controle sobre a vida e os processos vitais. Aqui temos a marca de uma diferença entre um período da história marcada pelas tradições morais religiosas e a entrega ao divino do poder de controlar a vida e o movimento ativo do homem para obter este controle, este poder, através da razão e do conhecimento. Esta atitude histórica, fundamental para a sobrevivência do homem já que levou ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia terminou por levar a sociedade humana a pontos limítrofes quase catastróficos, onde a lógica racional e a ciência acabaram por impor altos riscos para a própria vida do homem e para a vida de seu próprio planeta. Distanciados que hoje estamos do início deste processo (que tem por marco inicial o período que vai da Revolução Francesa e do Iluminismo à Revolução Industrial Inglesa quando se estabelece o denominado paradigma científico newtoniano-cartesiano) finalmente estamos obtendo crescente clareza consciente dos males que criamos e aos quais estamos agora submetidos. A busca humana pela segurança, pela diminuição dos perigos/riscos, já era questão de destaque em um trabalho que S. Freud2 publicou em 1930 denominado Mal Estar na Civilização. Este autor deixa explícito que é a civilização ou a cultura o fato fundamental que diferencia a vida humana da vida dos animais. A civilização serve para o propósito de

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A utilização que aqui realizamos de alguns textos de S. Freud não significam uma adesão à Psicanálise e sim apenas a incorporação de algumas idéias deste importante pensador no que tange à relação entre individuo e sociedade.

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―proteger os homens contra a natureza e o de ajustar os seus relacionamentos mútuos‖ (FREUD, 1969-90, p.17), ou seja, trazer para o humano uma situação de ordem e estabilidade, mas que implica em um alto custo. O homem para alcançar a paz, a harmonia, a segurança, precisa abrir mão de uma parcela considerável de seus instintos. Este autor teoriza o surgimento da civilização através da necessidade de criação de uma ordem em que se estabelece a segurança coletiva, fato que implicou em fortes limitações impostas ao poder individual:
Talvez possamos começar pela explicação de que o elemento da civilização entra em cena com a primeira tentativa de regular esses relacionamentos sociais. Se essa tentativa não fosse feita, os relacionamentos ficariam sujeitos à vontade arbitrária do indivíduo, o que equivale a dizer que o homem fisicamente mais forte decidiria a respeito deles no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos. Nada se alteraria se, por sua vez, esse homem forte encontrasse alguém mais forte do que ele. A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte do que qualquer indivíduo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. O poder dessa comunidade é então estabelecido como ‗direito‘, em oposição ao poder do indivíduo, condenado como ‗força bruta‘. A substituição do poder do indivíduo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização (FREUD, 1969-90, p. 20).

Portanto, segundo Freud, a civilização que produz a substituição do poder do indivíduo pelo poder da comunidade gera fortes limites individuais: ―sua essência reside no fato de os membros da comunidade se restringirem em suas possibilidades de satisfação‖ (op. cit., p. 20). Se o indivíduo precisa se limitar, permitir a repressão dos seus instintos, as suas possibilidades de felicidade ficam ameaçadas (na medida em que esta provém da satisfação daqueles) e como conseqüência acaba ocorrendo que, no processo civilizador, as lutas no interior dos grupos sociais demonstram diversas formas e tentativas de equilibrar as necessidades do grupo e as necessidades individuais:
Grande parte das lutas da humanidade centralizam-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação conveniente – isto é, uma acomodação que traga felicidade – entre essa reivindicação do indivíduo e as reivindicações culturais do grupo, e um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada por meio de alguma forma específica de civilização ou se esse conflito é irreconciliável. (op. cit., p. 21)

Freud nos coloca frente a frente a um dilema: é possível a felicidade do homem individual com a repressão das suas possibilidades de satisfação impostas pela civilização? A diminuição dos riscos pela socialização cria uma restrição insuperável? Estamos construindo agora uma civilização que possibilita a felicidade do homem? Até que ponto podemos confiar que o caminho civilizatório que agora trilhamos nos levará à almejada felicidade? Esta questão é de fundamental importância, pois está vinculada à confiança que temos no projeto civilizatório no qual estamos inseridos.

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A promessa da Modernidade afirmava esta possibilidade de felicidade através do progressivo domínio da natureza por intermédio do desenvolvimento e da aplicação da ciência e da técnica. O homem com o instrumental analítico de sua mente racional resolveria todos os problemas existentes, evitando assim todo o sofrimento e produzindo segurança social e abundância econômica. O controle, a ordenação, o planejamento passaram a organizar toda a vida humana, mas o que se viu depois de séculos foi a permanência do sofrimento, a escassez econômica para a maioria da população do planeta e a geração de uma insegurança generalizada que ameaça a integridade da nossa vida e nos torna extremamente angustiados. A confiança de que a civilização, tal como hoje está instituída, trará a felicidade do indivíduo humano se encontra definitivamente abalada. E qual a posição e o papel deste indivíduo racional, tão ressaltado e exaltado pelos intelectuais do Iluminismo, nesta situação tão frustrante? Este indivíduo moderno, que trocou sua liberdade pessoal pela segurança da vida social civilizada, sofre de um mal-estar produzido por um excesso de ordem, de controle, de vigilância, disciplina, autocontrole. Ao se tornar (em tese) livre passa a ser movido por uma filosofia do auto-interesse, por uma representação de indivíduo que foi sendo construída e internalizada através de séculos. Esta representação prescreve que o indivíduo seja um ser livre e autônomo que deve ter por principal objetivo de vida realizar a sua essência interna, se tornar quem ele já é a priori, através de suas ações conscientes e de seu livre arbítrio. Esta representação social possui a fraqueza de superestimar os aspectos da consciência individual e de seu poder pessoal e simplesmente ignorar as questões relacionadas ao contexto social e cultural e ao momento histórico e tem conseqüências importantes. Este indivíduo imbuído da missão e da crença de que possui esta responsabilidade e poder sofre com as impossibilidades determinadas pela coerção impositiva e restritiva da cultura: a repressão dos instintos causada pelas normas sociais de convivência. E apela cada vez mais para quaisquer narrativas explicativas que possam dar sentido à sua vida, pulando muitas vezes de uma para outra e não encontrando absoluta consistência nem permanência em nenhuma delas: religião, ciência, mitologia, filosofia, esoterismo, auto-ajuda etc. Com o enfraquecimento das grandes narrativas da religião e da ciência, o indivíduo procura outras possibilidades e tudo é possível e permitido nesta busca dado que, cada vez mais, a liberdade se destaca como o mais importante valor humano da atualidade. Como afirma Bauman, ao completar cerca de oito décadas que...

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...o mal-estar na civilização foi escrito e publicado, a liberdade individual reina soberana: é o valor pelo qual todos os outros valores vieram a ser avaliados e a referência pela qual a sabedoria acerca de todas as normas e resoluções supra-individuais devem ser medidas (BAUMAN, 1998, p. 9).

1.1.1 – O Indivíduo, a sociedade e a liberdade enquanto valor O valor liberdade, como destacado valor cultural, foi estabelecido na civilização ocidental a partir do Iluminismo (um dos três valores fundamentais da Revolução Francesa junto com a igualdade e a fraternidade), e vai implicar, progressivamente, numa transferência total - da sociedade ao indivíduo - da responsabilidade da construção de sua felicidade, através de seu próprio poder, esforço e desejo. Importante assinalar aqui que o ser humano individual não foi sempre concebido como algo separado da sociedade, muito pelo contrário. Esta forma de perceber o homem é bem recente na história. Como afirma Moscovici:
...se me fosse pedido para nomear a mais importante invenção da modernidade, eu diria sem hesitação alguma que esta é o indivíduo. Desde a primeira aparição do homo sapiens até a Renascença, o horizonte do homem sempre foi o ―nós‖ (MOSCOVICI apud JOVCHELOVITCH, 2000, p. 83).

A genealogia da construção do conceito de indivíduo - livre e autônomo - é bastante longa, e está totalmente ligada à construção do sentido atual do conceito de liberdade como valor fundamental da sociedade ocidental atual. Este processo remonta a uma discussão moral muito importante. Longe de querer aqui tratar profundamente esta questão vou apenas ressaltar alguns pontos que considero fundamentais para nossa discussão. Embora os antigos gregos não se vissem separados da Polis, a filosofia grega já propunha a utilização do pensamento por cada homem individual para a consecução de uma meta suprema: o desenvolvimento espiritual. Platão falava da disputa entre razão e paixão e de como o homem deveria usar a sua consciência para domar o corpo e as paixões, conseguindo assim o desenvolvimento espiritual. Na Idade Média, a Igreja Católica possuía o monopólio da determinação dos valores morais predominantes, sendo a avareza considerada como a pior das falhas de caráter. Apropriar-se demasiadamente da riqueza através de lucros comerciais ou juros financeiros era absolutamente condenável, um pecado mortal cuja pena era ir para o inferno após a morte física. Mas a própria Igreja teve de ceder a quem lhe financiava: os ricos que temiam o inferno e doavam somas generosas àquela instituição religiosa. Le Goff (La naissance du purgatoire, Gallimard, 1981) mostrou como o Purgatório, como instituição imaginária, proveio das premências de acomodação de novos fenômenos

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sociais e tensões morais e éticas que surgiram no seio do cristianismo medieval, em especial, a necessidade do estabelecimento da não-condenação ao inferno, devido ao pecado mortal da avareza, daqueles que obtinham lucros comerciais, provenientes das grandes expedições terrestres ou marítimas. Assim, o purgatório foi criado como um espaço intermediário onde os avaros pecadores sofreriam por algum tempo, se purificando pelo sofrimento, antes de finalmente alcançar o paraíso. Hirschman realizou um estudo detalhado do confronto entre as paixões e os interesses e mostra que:
[...] nos numerosos tratados sobre as paixões que apareceram no século XVII, não pode ser encontrada qualquer mudança na avaliação da avareza como a ―mais sórdida de todas elas‖ ou na sua posição como o mais mortal dos pecados mortais que veio a ocupar perto do final da Idade Média. Mas uma vez que o enriquecimento colocou o rótulo de ―interesses‖ e entrou novamente sob este disfarce na competição com as outras paixões, foi subitamente aclamado e até mesmo recebeu a tarefa de conter aquelas paixões que durante muito tempo se pensou serem menos repreensíveis (HIRSCHMAN, p. 62-63).

Assim, o que era moralmente condenável - a avareza - tomou o rótulo genérico de ―interesse‖. Essa mudança acabou por justificar toda uma transformação valorativa que implicou no surgimento de uma nova ética comportamental, a ética do auto-interesse que forneceu a base moral para a nossa atual representação social de individuo: somos indivíduos ‗separados‘ da sociedade ou dos grupos sociais em que vivemos e aos quais pertencemos. O interesse se tornou um paradigma cujo efeito curativo era evitar o excesso de paixões. Embora uma dose adequada de auto-interesse seja fundamental para a vida de cada homem, justificar o interesse individual de maneira absoluta e geral implica no esquecimento do interesse coletivo e esta atitude acabou por se mostrar hoje extremamente danosa ao próprio homem. Na Ciência Econômica, desde seus primórdios, a ética do auto-interesse facilitou o estabelecimento da justificativa da importância da livre iniciativa individual. A liberdade de ação econômica do homem nunca deveria sofrer restrições. Para seu fundador Adam Smith, autor do clássico livro A riqueza das nações, não haveria jamais nenhum problema gerado pela livre iniciativa individual, pois todas as ações individualmente interessadas seriam no final harmonizadas por uma ―mão invisível‖ que atuaria em beneficio da coletividade. Assim se justificou ‗cientificamente‘ a ética do auto-interesse que tantos prejuízos têm causado à humanidade na medida em que interesses privados individuais (de pessoa física ou jurídica), na busca de lucros e vantagens, acabaram por causar fortes impactos ambientais como a destruição de rios e florestas, a poluição do ar, o aquecimento global, além da atual desigualdade na distribuição de riquezas e oportunidades que impõe à maioria da população

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uma ampla restrição de possibilidades de vida. O potencial humano acaba sendo desperdiçado. Mas, apesar e acima de tudo, na Pós-Modernidade acontece que:
...a ―mão invisível‖ recobrou a verdade e está uma vez mais prestigiada. A liberdade individual, outrora uma responsabilidade e, um (talvez, o) problema para todos os edificadores da ordem, tornou-se o maior dos predicados e recursos na perpétua autocriação do universo humano. (BAUMAN, 1998, p. 9)

Para esclarecer como este individualismo acontece atualmente é importante entendermos as características da identidade contemporânea. Segundo Hall, existem hoje aspectos marcantes fundamentais da identidade que são diferentes de outros momentos históricos. O autor propõe três concepções da identidade ao longo da história recente: o sujeito do Iluminismo, o sujeito sociológico e o sujeito pós-moderno3. Na primeira concepção a identidade se define através da percepção de um ―centro essencial do eu‖, imutável, dotado de consciência e razão, que nasce com o sujeito, o guia pela vida e floresce com as experiências (determinismo psicológico). Na concepção sociológica, a identidade é construída pela situação e pela ação do sujeito em sociedade sendo fundamentalmente determinada por esta sociedade (determinismo sociológico). Já o sujeito pós-moderno é percebido como não possuindo uma identidade fixa, essencial ou permanente, sendo uma ―celebração móvel‖:
...formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam (Hall, 1987). E definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos, identidades que não são unificadas ao redor de um "eu" coerente. Dentro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos que temos uma identidade unificada desde o nascimento até a morte é apenas por que construímos uma cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora "narrativa do eu" (HALL, 2002, p. 13).

Portanto, a identidade do sujeito contemporâneo passa por um processo contínuo de mudança e transformação que possui como característica a reconstrução constante desta identidade no espaço social. Aqui podemos perceber a importância que o valor liberdade hoje influencia na produção da subjetividade. A identidade contemporânea não é mais essencial nem imposta pelas normas sociais e sim auto instituída através da plena liberdade de cada individuo. Este fenômeno gera uma importante implicação: o individuo é responsável por suas escolhas e, portanto pela constituição da sua identidade, crenças, atitudes e comportamentos. Portando, é o único ator responsável pela construção de sua própria felicidade, de certa forma excluindo esta responsabilidade do âmbito da sociedade.

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Que aqui entendemos como contemporâneo.

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1.1.2 – Liberdade, insegurança, confiança Hoje, portanto, é a idéia de liberdade individual que prevalece subjetivamente, embora Freud já nos tivesse esclarecido que grande parcela dela é perdida no processo civilizatório. Se o homem civilizado recebeu segurança em troca da liberdade, na modernidade esta liberdade individual foi sendo paulatinamente cada vez mais declarada, ressaltada e desejada, embora tenha ainda demorado bastante para ser (aparentemente) conquistada, e o preço foi bastante amargo:
Os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os mal-estares da pósmodernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do prazer que tolera uma segurança individual pequena demais (op. cit., 1998, p. 10).

É esta ―segurança pequena demais‖ – que na verdade consiste em um nível muito elevado de insegurança - que representa uma das mais destacadas características da sociedade contemporânea. Vivemos nossas vidas em uma total incerteza não só pela violência nas ruas, paranóia em relação ao outro, possibilidade de perda de nossos empregos e fontes de rendimentos econômicos, sofrimento face aos amores líquidos (BAUMAN, 2004), ou seja, pela fácil dissolução de nossos relacionamentos amorosos, mas também quanto à qualidade dos produtos que consumimos e frente às ameaças contra o ecossistema planetário. Vivemos o tempo todo na incerteza e fazemos todo o possível para minimizá-la, avaliando os riscos e atribuindo graus de confiança às situações, pessoas ou objetos do mundo da vida. 1.1.3 - Insegurança, risco e confiança Esta insegurança da vida atual (com o estresse decorrente da tensão que os estilos de vida nos impõem) é acirrada ainda mais com a perda da confiança que hoje acontece nas instituições e nas autoridades. Com a facilidade de comunicação e de acesso às informações passamos a questionar intensamente os saberes especialistas. Não podemos arriscar e passamos a questionar e avaliar os diagnósticos, prognósticos, relatórios e declarações com que nos deparamos nos jornais, revistas, consultórios, escritórios e salas de aula. Assumimos viver, então, em uma sociedade do risco, na qual sentimos intensa angústia e insegurança e da qual aparentemente não temos escapatória:
A transição do período industrial para o período de risco da modernidade ocorre de forma indesejada, despercebida e compulsiva no despertar do dinamismo autônomo da modernização seguindo o padrão dos efeitos colaterais latentes. Pode-se virtualmente dizer que as constelações da sociedade de risco são produzidas porque as certezas da sociedade industrial (o consenso para o progresso ou a abstração dos efeitos e dos riscos ecológicos) dominam o pensamento e a ação das pessoas e das instituições na sociedade industrial. A sociedade de risco não é uma opção que se pode escolher ou rejeitar no decorrer de disputas políticas. Ela surge na continuidade dos processos de modernização autônoma, que são cegos e surdos a seus próprios efeitos e ameaças. De maneira cumulativa e latente, estes últimos produzem ameaças

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que questionam e finalmente destroem as bases da sociedade industrial (BECK, 1995, p.16).

Este autor afirma categoricamente que ―a definição do perigo é sempre uma construção cognitiva e social”. Criamos (nomeamos, identificamos) dentro da nossa cultura os nossos perigos e, conseqüentemente, estabelecemos os nossos riscos e os meios de avaliálos e enfrentá-los. Beck coloca três grandes transformações vinculadas à sociedade de risco: o relacionamento da sociedade industrial moderna com os recursos da natureza e da cultura que está conduzindo à dissipação dos recursos naturais e culturais; o relacionamento da sociedade com as ameaças e os problemas produzidos por ela, particularmente na ação política e no processo de tomada de decisões e a exaustão, desintegração e desencantamento das fontes de significação coletivas. Esta última é altamente importante para nós aqui, pois implica na necessidade da geração de outra significação para o processo de individualização:
[...] a diferença está no fato de que atualmente as pessoas não estão sendo libertadas das certezas feudais e religiosas-transcendentais para o mundo da sociedade industrial, mas sim da sociedade industrial para a turbulência da sociedade de risco global. Espera-se que elas convivam com uma ampla variedade de riscos globais e pessoais diferentes e mutuamente contraditórios (BECK, 1997, p.17-18).

É a partir do conceito de ―sociedade de risco‖ que a sociedade atual, segundo Beck, torna-se reflexiva, ou seja, ―se torna um tema e um problema para ela própria‖ (BECK, 1997, p. 19), uma sociedade autocrítica. A incerteza precisa ser calculada e o risco determinado, pois um nível de confiança precisa ser estabelecido sobre todos os sujeitos e objetos do mundo da vida. Aumenta radicalmente a avaliação dos riscos nos negócios (financeiro, industrial, comercial), estabelece-se níveis de risco-país, cresce fortemente a indústria de seguros de todo tipo (de bens imóveis, bens duráveis de consumo, de acidentes pessoais, de saúde), aumentam as exigências das garantias de qualidade dos bens de consumo através da legislação dos direitos do consumidor e do papel mais ativo deste consumidor, intensificam-se os programas de qualidade total nas indústrias, produz-se uma medicalização da vida através da constante aferição e monitoramento de diversos índices criados de risco-doença (de câncer, coração, osteoporose, diabetes etc.), surgem movimentos e organizações que defendem a qualidade de vida no trabalho etc. Este movimento ocorre concomitantemente ao acirramento do processo de individualização do ser humano, que acontece de forma independente da livre vontade de cada um, ou seja, na prática sou coagido a ser um indivíduo livre mesmo que eu não o queira ser:

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Mais uma vez, a individualização não é baseada na livre decisão dos indivíduos. Usando a expressão de Sartre, as pessoas são condenadas à individualização. A individualização é uma compulsão, mas uma compulsão pela fabricação, o autoprojeto e a auto-representação, não apenas da própria biografia, mas também de seus compromissos e articulações à medida em que as fases da vida mudam...(op. cit., p. 26).

Para Giddens, ―atualmente, a característica de nossas vidas é o que se poderia chamar de ‗incerteza fabricada‘‖ (GIDDENS, 1997, p. 219). Ao lidarmos individualmente com riscos e incertezas socialmente fabricados estamos sendo impelidos cada vez mais a avaliações que implicam em graus diferenciados de atribuição de confiança sobre o futuro das nossas vidas, o desempenho das tecnologias incorporadas aos objetos que consumimos, a expectativa de permanência/impermanência de nossas relações amorosas, de trabalho ou de amizade. Cada vez mais precisamos avaliar os espaços de incerteza, imprevisibilidade, desconhecimento e desordem a que estão sujeitas as diversas áreas de nossas vidas. Assim, a confiança se torna confiança ativa, ou seja, ―tem de ser tratada e mantida com energia‖. Como afirma este autor:
Nas profundas transformações que estão atualmente ocorrendo na vida pessoal, a confiança ativa está necessariamente atrelada à integridade do outro. Essa integridade não pode ser tacitamente assumida com base no fato de uma pessoa ocupar uma determinada posição social (GIDDENS, 1997, p. 222).

Estão sendo cada vez mais questionadas as competências das autoridades: a competência dos nossos representantes na área política e a dos donos dos diversos saberes especialistas. Precisamos ter a certeza de que o melhor possível será realizado, que não correremos riscos de falhas, perdas, enganos, traições, negligências. O indivíduo é instado a procurar incorporar e dominar informações e conhecimentos cada vez mais amplos sobre todas as coisas do mundo da vida, ou seja, a desenvolver competência individual cada vez mais abrangente. Conceitos provenientes da área da Administração de Empresas, produzidos em série, descartáveis, e destinados a serem transformados em best-sellers do momento (depois esquecidos) - como empoderamento (empowerment), marketing pessoal, empregabilidade, empreendedorismo e educação continuada, por exemplo - demonstram como ocorre a construção ―científica‖ da atribuição da responsabilidade e, conseqüentemente, da atribuição da culpa pelos ‗fracassos pessoais‘ que recai cada vez mais sobre o indivíduo isolado. Este deve ser capaz de responder sempre com competência e eficácia, de ser criativo, empreendedor e demonstrar transparentemente seus conhecimentos profissionais para que consiga manter a confiança dos outros e das instituições.

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Mas as diferenças econômicas entre as pessoas determinam intensamente as suas possibilidades individuais: ―Quanto mais forte a exigência de ‗construir sua própria vida‘, mais a pobreza material torna-se uma dupla discriminação‖ (GIDDENS, 1997, p.223). Como afirma John Rawls em seu clássico livro Uma teoria da justiça: liberdade sem equidade aumenta a desigualdade e, portanto, é injustiça. Deste modo:
...o princípio determina que a fim de tratar as pessoas igualitariamente, de proporcionar uma genuína igualdade de oportunidades a sociedade deve dar mais atenção àqueles com menos dotes inatos e aos oriundos de posições sociais menos favoráveis (RAWLS, 2002, p. 107).

Pierre Bourdieu4, em sua definição do capital cultural e de como funciona na sociedade, nos demonstra como este se constitui em um fator fundamental nos processos de exclusão social que são determinados pela classe social de origem. A acumulação do capital cultural requer um trabalho de aprendizado e cultivo que custa tempo e sacrifício ao investidor individual. Sua lógica de transmissão beneficia àqueles cujas famílias já o possuem em quantidade e podem iniciar a transmissão desde cedo, gerando uma vantagem competitiva no aprendizado realizado fora do âmbito familiar, como, por exemplo, no sistema educacional. Diferentemente do capital econômico, o capital cultural funciona como capital simbólico, pois não é reconhecido como capital e sim como legítima competência individual, sendo um dos falsos pilares da meritocracia. Capital econômico, capital cultural e capital social são os grandes fatores determinantes do poder individual dentro de uma sociedade. Deste modo, a exigência do indivíduo menos favorecido socialmente construir por si próprio seu capital cultural para adquirir empregabilidade e competência no mercado de trabalho (com a conseqüente retirada de responsabilidade da empresa e do Estado) se torna fator de agravamento da exclusão econômico-social. 1.2 - Auto-estima e confiança Posso argumentar que existe uma relação direta entre auto-estima e autoconfiança. Quanto maior a auto-estima que deriva do sucesso das ações do indivíduo, maior a confiança que este deposita em si-mesmo em relação à sua consecução de seus desejos, isto é, a sua autoconfiança. Quanto maior a auto-estima maior a confiança em si, maior a segurança sentida pelo individuo nas suas ações, maior a capacidade de assumir riscos, de tomar decisões e de lidar com o desconhecido. Portanto, maior a possibilidade de nos permitirmos

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The forms of capital, 1986.

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confiantemente tornar-nos vulneráveis ao outro, entregarmo-nos na relação afetiva humana, de termos menor medo de sermos enganados ou traídos, ou se o formos, a segurança de saber lidar com as situações de forma criativa, assumindo riscos que tornam a vida valer a pena. Confiar é fundamentalmente assumir riscos, enfrentar medos, poder se tornar vulnerável ao outro. O individuo frustrado ou infeliz em suas relações afetivas poderá deslocar seus desejos de realização amorosa, suas carências de afeto para si-mesmo através do amplo consumo de objetos materiais, bens ou serviços. Inclusive no investimento da construção de uma aparência física vinculada às atuais representações sociais da beleza. Assim, utiliza seu próprio corpo como objeto capaz de atrair o desejo do outro, evitando ampliar a sua frustração e sua baixa auto-estima ao evitar os riscos de ser rejeitado ou traído pelo outro. Produzir no seu próprio corpo a representação social predominante da beleza está ligado à necessidade de autoconfiança, do indivíduo acreditar confiantemente de que o seu corpo será desejável. Tal postura movimenta um amplo mercado de produtos e serviços de ‗beleza‘ como remédios para emagrecer, intervenções cirúrgicas, cosméticos, gastos com clubes e academias, gastos com profissionais diversos como médicos, fisioterapeutas, massagistas, farmacêuticos, personal trainers etc. 1.3 – Sociedade contemporânea e o indivíduo Diversos autores como Lasch, Baudrillard, Lipovetsky e Sennett afirmam a predominância da personalidade narcisista na pós-modernidade. Para Lasch, esse novo padrão se refere ―a uma mudança significativa nos padrões de neurose‖ que assumiram formas de:
...caráter narcisista, cujos distúrbios de personalidade estão frequentemente associados a sentimentos de vazio e de falta de sentido, à incapacidade de relacionamento com o outro de maneira profunda e significativa, à hipocondria , às fronteiras difusas do ego e à falta de um sentimento coeso do eu (SEVERIANO, 2006, p. 41-42).

Para Severiano, a mídia é responsável pela difusão do modelo representativo desta imagem de personalidade: indivíduo auto-centrado que procura incessantemente a autorealização, vive intensamente o presente, acredita-se onipotente e persegue

incansavelmente o sucesso e a fama, é manipulador, buscando a vantagem própria utilizandose dos outros para tal fim e despreza as questões coletivas. Esse processo extremo de individualização representa uma estratégia de sobrevivência inescapável:
Entretanto, alerta-nos Lasch (1983) que esse ―neo-individualismo pós-moderno‖ representa não um fortalecimento do ego, mas uma estratégia de sobrevivência do eu, diante das crises sociais, econômicas e culturais da era moderna, que resultaram numa descrença generalizada nos ideais culturais coletivos e no enfraquecimento das relações interpessoais significativas – fontes originárias da auto-estima.

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A cultura do narcisismo trata-se, então, de uma cultura do ―sobrevivencialismo‖ (Lasch, 1987) na qual os homens recuam para se ocupar de investimentos estritamente pessoais, ocorrendo um retorno à própria figura do amor retirado do mundo; uma rearbsorção no próprio eu (SEVERIANO, 2006, p. 43).

Devo ressaltar aqui esta degradação da auto-estima na pós-modernidade. Talvez seja a conseqüência mais cruel de vivermos nestes tempos. A baixa auto-estima reduz a força do indivíduo perante a vida, tornando-o mais adequado tanto aos processos disciplinares e de controle quanto aos desígnios do mercado de consumo. Esta redução da auto-estima contrapõe-se ao imperativo de que este mesmo indivíduo seja forte e livre para construir sua vida em total plenitude. Sennett explica a maneira como o narcisismo é ilusório no que tange à satisfação das necessidades do indivíduo:
O narcisismo, no sentido clínico, diverge da idéia popular do amor de alguém por sua própria beleza; num aspecto mais estrito e como um distúrbio de caráter, é a preocupação consigo mesmo que impede alguém de entender aquilo que é inerente ao domínio do eu e da autogratificação e aquilo que não lhe é inerente. Assim, o narcisismo é uma obsessão com ―aquilo que esta pessoa, este acontecimento significam para mim‖. Este questionamento sobre a relevância pessoal das outras pessoas e de atos exteriores é feita de modo tão repetitivo que uma percepção clara dessas pessoas e desses acontecimentos em si mesmos fica obscurecida. Essa introjeção no eu, por estranho que possa parecer, impede a satisfação das necessidades do eu; faz com que, no momento de se atingir um objetivo, ou de se ligar a outrem, a pessoa sinta que ―não é isso que eu queria‖. Assim o narcisismo tem a dupla qualidade de ser uma voraz introjeção nas necessidades do eu e o bloqueio de sua satisfação (SENNETT, 1988, p. 21).

Assim, uma grande contradição acontece no mundo contemporâneo: exagerada preocupação consigo mesmo, no sentido de se autoconhecer e promover sua satisfação e felicidade, contrapostas a um julgamento de valor sobre pessoas e coisas que inviabiliza esta possibilidade de satisfação e felicidade. O narcisismo veio substituir a histeria, predominante na época de Freud, como principal distúrbio de personalidade. É um grande desafio para os terapeutas, pois não conduz sempre as pessoas a um estado agudo de crise:
O distanciamento para com os compromissos, a busca contínua de uma definição interior de ―quem sou eu‖, provoca dor, mas nenhum mal-estar cataclísmico. Em outras palavras, o narcisismo não cria as condições que poderiam promover sua própria destruição (op. cit., p. 22).

O caráter narcisista se configura como o ápice da construção da representação social de indivíduo livre e autônomo, que tem sua configuração básica inicial expressa pelos filósofos do iluminismo e aparece no mundo contemporâneo de forma proeminente. As soluções particularistas são exaltadas em lugar das coletivas, o individual no lugar do social:

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O culto da expansão da consciência, da saúde e do ―crescimento social‖ expresso em alguns programas psicoterapêuticos; o apelo freqüente de viver com intensidade o momento, desprezando o passado e negligenciando o futuro; a preocupação exclusiva com o desempenho particular em detrimento das causas coletivas; o enaltecimento do poder pessoal e da vontade individual como todo-poderosa e determinante do destino de cada um tendo como conseqüência o isolamento do eu e a depreciação dos interesses político-coletivos; as ilusões de onipotência e personalismo constantemente estimuladas pela publicidade; o atual culto ao corpo etc. (SEVERIANO, 2006, p. 86).

Estas seriam fundamentalmente formas de ―pseudo-resgate dos ideais culturais feito por uma via regressiva‖ (op. cit., 86), que pode ser percebida pela ausência de uma postura e reflexão crítica, pela substituição da realidade pela virtualidade das imagens e pela ilusão de completude através do consumismo que vincula os desejos às determinações e necessidades do mercado. Vamos examinar agora um pouco mais extensamente estas relações entre narcisismo e consumismo. 1.4 – Indivíduo, felicidade, consumismo e marketing Para entender tal dinâmica é importante considerar que é fundamentalmente nos espaços públicos que a subjetividade é construída e disseminada. A importância do espaço público será analisada mais profundamente no Capítulo 3, mas devo aqui adiantar alguns comentários. Na pós-modernidade os espaços públicos estão fortemente diluídos, vazados, fragmentados e dominados pelos interesses comerciais que tornam a indústria da mídia um negócio altamente lucrativo. É a publicidade e a propaganda que são os maiores meios de construção das imagens que modelam as nossas representações internas. É, fundamentalmente, através da grande mídia, em especial a televisão, que este processo se estabelece. Acreditamos que aquilo que é importante aparece na televisão e que se não aparece é porque não tem importância nenhuma, razão pela qual Pierre Bourdieu chamou a televisão de ―espelho de narciso‖ (BOURDIEU, 1997, p. 17). Se a experiência comunicacional pós-moderna se liga cada vez mais à televisão, certos autores, como Humberto Eco, diferenciam esta de uma real experiência cultural ―que requer uma atitude crítica, a clara consciência da relação em que se está inserido e o intuito de fruir de tal relação‖ (SEVERIANO, 2006, p. 80). A comunicação televisiva caracteriza-se pela passividade do sujeito receptor cujo estado interno assemelha-se ao transe hipnótico facilitando a assimilação dos significados sem nenhum processo crítico. Fundamentalmente, o papel da publicidade tem de ser destacado, pois é esta que através da criação de anúncios comerciais produz sentidos para os objetos que são oferecidos

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no mercado global e local. Os slogans vinculados às marcas adicionam valores inexistentes aos produtos vendidos no mercado: ―Você pode tudo‖, pode adquirir ―Um mundo sem fronteiras‖, experimentar ―A coisa real‖, e posso acreditar que eu ―Amo muito tudo isso‖ apenas comprando um sanduíche numa rede de fast-food. É pelo consumo que hoje acreditamos nos realizar como pessoa, que criamos identidade e pertencimento. A indústria da publicidade é capaz de construir vínculos amorosos entre os produtos e os consumidores ou até de criar significados pseudo-espirituais associando-os a seus produtos. Em seu livro Lovemarks: o futuro além das marcas, Kevin Roberts, profissional destacado do ramo da publicidade, afirma que ―as marcas foram desenvolvidas para criar diferenças entre produtos que corriam o risco de não serem vistos, como pedras no meio do cascalho‖ (ROBERTS, 2005, p. 30). Mas as marcas precisam ir além da razão, se diferenciar pela emoção, e dentre elas a emoção de amor. A fidelidade além da razão se estabelece através da confiança:
Minhas idéias começaram a tomar forma em torno da linha usada para o sabão em pó Tide, na década de 70. ―Tide, a limpeza em que você pode confiar‖. Pensei: ―Algo em que você sempre pode confiar. Que seria altamente valioso. Que fosse Fidelidade Além da Razão‖ E a primeira palavra que me veio à mente foi confiança (op. cit., p. 66).

O próximo passo descrito por K. Roberts na história da construção das marcas pósmodernas é a transformação das Marcas de Confiança em Marcas de Amor (Lovemarks), que passou a ser feito através das campanhas publicitárias cujo conteúdo era especialmente construído para produzir no consumidor uma ―ressonância emocional especial‖ de ―mistério, sensualidade, intimidade‖ (op. cit., p. 74). Destaco aqui como os profissionais de marketing perceberam claramente a importância da confiança para o consumismo e, mais ainda, a importância da confiança para as relações amorosas. Naomi Klein em seu livro No Logo nos conta detalhadamente a história das marcas e nos mostra como as empresas conseguiram associar valores pseudo-espirituais a seus produtos através do marketing:
Relatos dessas epifanias de ―visão de marca‖ começam a surgir em todos os cantos. ―O problema da Polaroid‖, diagnosticou o presidente de sua agência de publicidade, John Hegarty, ―foi que ela continuou pensando em si mesma como uma câmera. Mas o processo de ‗visão (de marca)‘ nos ensina uma coisa: a Polaroid não é uma câmera – é um lubrificante social‖. A IBM não está vendendo computadores, mas ―soluções‖ para os negócios. A Swatch não tem relação com relógios, mas com o conceito de tempo. Na Diesel Jeans, o proprietário Renzo Rosso disse à revista Paper: ―Não vendemos um produto, vendemos um estilo de vida (KLEIN, 2004, p. 48).

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A subjetividade implicada no conceito de homem individual (livre, separado, autônomo, auto-responsável por si-mesmo) impõe um constante reconstruir de possibilidades, o livre auto-projetamento de si-mesmo que tem no narcisismo consumista o seu ápice. Mas a construção de nossa auto-imagem a partir das relações intersubjetivas, a partir do olhar do outro, da cultura e do olhar daqueles que a compartilham conosco, tornam-nos dóceis presas dos interesses dos que dominam a mídia lucrativa, dos que investem nela e compram seus espaços-tempo para a divulgação de produtos ou serviços através da publicidade e do merchandising. O marketing seduz, produz ilusões de que consumir determinado produto pode vir a preencher as necessidades humanas fundamentais de amor ou de espiritualidade. Procura e consegue construir novos sentidos para a vida, criar sensações de pertencimento e de ser amado que passam a ocupar o espaço vazio deixado pela desilusão existente em relação às grandes narrativas sociais (religião, filosofia e ciência). Hoje acabamos por pertencer a tribos constituídas de pessoas que compartilham conosco gostos de consumo (comunidades de marca). Isto bastaria para vivermos felizes. O significado de um signo é construído socialmente e as empresas de publicidade dominam profundamente a sutil arte e técnica dessa construção. Seus profissionais possuem o conhecimento das diversas linguagens existentes no mundo da vida humana: linguagem verbal falada e escrita, as significações simbólicas e míticas tradicionais das diversas culturas, linguagem corporal, linguagem imagética, linguagem sonora e musical. Numa peça comercial de trinta segundos o profissional de marketing se utiliza de conhecimentos científicos precisos e intencionalmente escolhidos para conseguir gerar uma impressão no sujeito passivo da mídia televisiva (principalmente, mas não apenas) de uma gama de sensações, sentimentos e significados intencionalmente predeterminados objetivando efetivar a vinculação subjetiva, afetiva e inconsciente de um produto ou marca a valores que estes não possuem e jamais possuirão. Esses profissionais dominam os conhecimentos da Antropologia, Sociologia, Psicologia, História, Artes Plásticas, Design, e, fundamentalmente as técnicas de pesquisa de marketing, que possibilitam o conhecimento da subjetividade do consumidor, permitindo adequar os produtos, serviço e as respectivas mensagens publicitárias dentro de um ―pacote sedutor‖. Aparentemente o consumidor se sente livre para escolher e decidir, mas na realidade está ‗persuadido a se persuadir‘ de que necessita consumir determinado produto ou serviço imediatamente para que possa se sentir feliz.

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A cultura do consumismo estimulada pelo marketing procura nos fazer confiar que os ideais de poder, pureza, perfeição e beleza podem ser realizados através do consumo de bens e serviços. A sua estratégia é nos persuadir a acreditar que as aspirações do indivíduo podem ser satisfeitas com a realidade do consumir determinados objetos. Uma pesquisa realizada por Severiano sobre a influência da publicidade concluiu que quanto menos narcisista é a pessoa, mais tende a se apropriar criticamente da publicidade, apresentando maior resistência à persuasão publicitária e a ressaltar seu caráter negativo. Os indivíduos com mais alto grau de narcisismo percebem a publicidade como autônoma, com menos implicação de interesses ideológicos ou econômicos e se tornam presa fácil do mercado de consumo (PINHEIRO, 2005). Acreditamos que os objetivos a que nos propomos na vida, uma vez alcançados, nos trarão a tão almejada felicidade. Talvez esta seja uma primeira reflexão crítica a ser feita, antes de tudo. Questionar esta confiança no ideal de que as realizações externas e a apreciação do outro serão suficientes para a nossa felicidade possivelmente pode ser o primeiro passo para a crítica e a superação das normas e das crenças internalizadas pelo processo disciplinar da sociedade que, através da família, da escola, da empresa e da mídia nos bombardeiam com representações que podem nos afastar de nós mesmos, embora tenhamos perdido a consciência de tal fato. Em seguida temos de nos perguntar como adquirimos a confiança de que consumindo determinados objetos (ou serviços) que a indústria do marketing nos apresenta como dotados daqueles poderes de nos fazer felizes efetivamente conseguiremos a felicidade. É preciso entender, portanto, o que fazemos para assumir que o consumo pode suprir nossas necessidades fundamentais de amor e pertencimento. Sabemos que a confiança é um sentimento fundamental para a vida social e individual, e que esta é construída nas relações intersubjetivas como base essencial para a própria existência dessas relações:
Lembrem-se destes muitos encontros modeladores da intersubjetividade. A mimese ocorre no encontro com o Outro prescritor, a conversão favorece o encontro com o Outro exemplar e a confiança, o encontro com o Outro numinoso. Minha intuição é que aí temos a principal fonte da confiança, que, por sua vez, a define (MOSCOVICI, 2005, p. 54).

A idéia de numinoso implica na ocorrência de algo que não é controlável ou controlado e que nos arrebata, e nos impõe o que é necessário, indispensável, inevitável através do encontro intersubjetivo. Esta é a característica fundamental da vida: ela pode ser

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racionalizada e podemos através da razão evitar certas perdas ou sofrimentos durante algum tempo, mas nunca conseguiremos evitar todas as perdas e sofrimentos todo o tempo, pois não temos este poder de controle sobre a vida e sobre os outros. A razão fragmenta, isola e procura conhecer e entender as partes do mundo da vida vistas como objetos individualizados, retirados (pelos menos parcialmente) de seu contexto, mas não pode assegurar absolutamente tudo: o Outro numinoso nos arrebata, nos transforma. Devo reafirmar aqui a impossibilidade humana de conhecer completamente qualquer objeto ou pessoa do mundo, de atingir a verdade absoluta sobre qualquer objeto do conhecimento. Embora esta reflexão pré-socrática tenha estado submersa durante milênios na civilização ocidental está ressurgindo agora com total intensidade. Heráclito de Éfeso concluiu que, já que tudo muda o tempo todo, logo, quando me aproximo do objeto do conhecimento para tentar conhecê-lo, este já se transformou. Podemos derivar desta impossibilidade de conhecimento completo da verdade o fato de que mesmo que saibamos muito sobre algo, sobre qualquer objeto ou sujeito social, sempre haverá outro tanto de nãosaber, de ignorância sobre este objeto ou sujeito. Temos sempre, portanto, uma representação dos objetos do conhecimento e nunca a verdade absoluta sobre eles. Existe, então, em toda e qualquer representação social (ou cognição social ou pensamento ou crença ou imagem interna) uma área cinzenta, de desconhecimento em relação ao objeto social representado. Esta área está destinada a ser preenchida por atividades do imaginário e da memória, e é a partir deste espaço do desconhecido que atribuímos (e necessitamos atribuir) graus diferenciados de confiança aos objetos e sujeitos do mundo da vida. Como afirma Simmell, ―todo relacionamento entre pessoas origina uma imagem de cada um na mente do outro e esta imagem se encontra em relacionamento recíproco com aquele relacionamento pessoal‖ e a ―reciprocidade entre os indivíduos é baseada na imagem que eles derivam um do outro‖ (SIMMEL, 2006, p. 2). O grande problema é que a imagem que se constrói do outro (a representação do outro) é apenas isso, uma imagem que se acredita corresponder aquele outro, a ‗verdade‘ sobre o outro. O que se não conhece do outro, o segredo, o não explicitado no comportamento observado, constitui uma zona de sombra, o desconhecido. É aqui que entra em ação o imaginário social e pessoal, produzindo significados que possam tornar aquela representação efetiva para a ação do sujeito em relação ao objeto (ou sujeito) em questão. A atribuição de graus de confiança a um objeto ou sujeito

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tenciona orientar a ação através da minimização dos riscos de resultados negativos, como já foi dito anteriormente. Para se relacionar, portanto, é preciso confiar. Seja ao lidar com pessoas, objetos, saberes ou instituições é preciso avaliar e estabelecer representações da confiança sobre cada objeto de conhecimento de minha rede relacional. E confiar que esta zona de sombra, de ignorância, de mistério, de segredo, não se afaste demasiadamente da imagem (representação) idealizada. Confiar de maneira que afirme e fortaleça ou duvide e enfraqueça, dando suporte ao agir no mundo de forma (aparentemente) racional. Ao se duvidar estabelece-se a desconfiança, cujo efeito é o enfraquecimento ou a quebra do relacionamento com determinado sujeito, objeto ou instituição dado o risco que se apresenta de frustração, de decepção, de traição, de dor, de desapontamento. A atribuição de confiança nas relações interpessoais surge exatamente com essa função, com esse propósito. A questão fundamental aqui é como fazemos isto, quais os critérios que estabelecemos para confiar: qual a minha representação da confiança. 1.5 - Mercado e representação social da confiança Numa sociedade consumista dominada por uma mídia apassivadora, à qual nos vinculamos pela força do habitus, tendemos a confiar cegamente e passivamente nas suas mensagens, a depositar força de verdade nos discursos construídos por ela. Também aprendemos como sendo natural a adoração daqueles indivíduos que nela são destacados: admiramos aquelas personalidades que nos são apresentadas como sendo pessoas de sucesso, fortes, poderosas, vencedoras. Elas são nossos modelos, nossos heróis: as celebridades. Assumem no nosso imaginário papeis mitológicos de deuses ou semi-deuses, cuja ação deve ser admirada e seguida. A forma de vestir, os produtos de vestuário, alimentícios ou tecnológicos consumidos pelos atores nos filmes, novelas e seriados instigam nosso consumo, pois usá-los nos tornam mais parecidos, mais identificados com nossos heróis. Essa identificação imaginária é um poderoso artifício do mercado para cativar seus consumidores. Essa é a característica do processo do Sinóptico. Ao contrário do processo Panóptico, onde muitos são controlados por poucos, no Sinóptico a multidão controla as celebridades, mas perde a noção de que seu próprio comportamento está sendo produzido pela mídia:
O Sinóptico é, por sua natureza, global; o ato de viajar desprende os vigilantes de sua localidade, transporta-os pelo menos espiritualmente ao ciberespaço, no qual não mais importa a distância, ainda que fisicamente permaneçam no lugar. Não importa mais se os alvos do Sinóptico deixaram de ser os vigiados e passaram a ser os vigilantes, se movam ou fiquem parados. Onde quer que estejam e onde quer que vão, eles podem ligar-se – e se ligam – na rede extraterritorial que faz muitos vigiarem poucos. O Panóptico forçava as pessoas à

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posição em que podiam ser vigiadas. O Sinóptico não precisa de coerção – ele seduz as pessoas à vigilância. E os poucos que os vigilantes vigiam são extremamente selecionados. (BAUMAN, 1999, p. 60).

Comento a seguir algumas abordagens contemporâneas que ressaltam a importância da confiança nas redes de relações sociais. 1.6 - A confiança ativa

Beck, Lash e Giddens (1997) ressaltam a existência de uma confiança ativa como característica da chamada modernidade reflexiva5. A confiança ativa tem como características a reflexividade, a autonomia e o diálogo. Para os autores a promessa do Iluminismo, de se obter controle e direcionamento sobre a natureza e sobre a vida possibilitando um futuro previsível, fracassou produzindo na prática uma série de conseqüências ameaçadoras para a própria natureza e vida. A confiança num futuro melhor é cada vez mais reduzida. Existe um ceticismo generalizado em relação à verdade científica, à capacidade dos especialistas e na forma de representação política atualmente em voga. Segundo Giddens (1997, p. 221-222):
O que pode ser chamado de confiança ativa torna-se cada vez mais significativo para o grau em que emergem as relações sociais pós-tradicionais.A confiança ativa é a confiança que tem de ser tratada e mantida com energia. Hoje em dia, está na origem das novas formas de solidariedade social, em contextos que variam desde os laços pessoais íntimos até os sistemas globais de interação.

Esta confiança ativa se caracteriza por uma constante verificação da integridade do outro. Ela não é mais determinada apenas pela posição social ou posição técnica ou posição de poder ocupada por determinada pessoa. Não é mais tacitamente assumida, mas tem de ser constante e explicitamente reafirmada pelas atitudes e ações:
A confiança deve ser conquistada e ativamente mantida; e isso geralmente pressupõe um processo de mútua narrativa e revelação emocional. Uma ―abertura para o outro‖ é a condição

5

Aqui novamente devo ressaltar que não estou assumindo o conceito de modernidade reflexiva como não o fiz com os outros conceitos de Hipermodernidade, Modernidade líquida etc. Meu interesse é mostrar apenas a importância que estes autores atribuem à confiança e como a percebem.

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do desenvolvimento de um laço estável – salvo quando os padrões tradicionais são por uma ou por outra razão re-impostos, ou quando existem dependências emocionais ou compulsões (op. cit., p. 222).

Como se pode perceber, a confiança deixa de ser um processo social dado a priori (confiança absoluta) para se tornar uma questão individual ou grupal a ser

considerada/avaliada a cada momento. Cada indivíduo, em cada situação, deve desconfiar a priori. A confiança ativa é, na verdade, um processo em que existe um grau elevado de desconfiança permanente, face ao fato de que tudo está sujeito ao risco, a perdas, ao fracasso e de que a responsabilidade de evitar os prováveis danos cabe ao indivíduo. O paradoxo é que, apesar do indivíduo ser instado a ser reflexivo e ativo sempre, ele se encontra cada vez mais passivo em relação à mídia se tornando presa fácil da indústria da publicidade e propaganda. As características neo-individualistas narcisistas se encontram face a face com a confiança ativa. Temos que ser cada vez mais ativos no questionamento da confiança, mas por outro lado o individualismo, o auto-interesse e a onipotência narcisistas levam a uma desconfiança cada vez maior. Se a atitude generalizada é a de ser passivo e não se preocupar com questões coletivas torna-se praticamente impossível no mundo do trabalho confiar na cooperação do colega. Se todos estão fortemente empenhados em sua auto-realização, na conquista do sucesso profissional nunca poderemos confiar de que não seremos manipulados, usados estrategicamente pelos outros. 1.7 - Considerações finais Ao longo desse capítulo procurei trazer reflexões sobre diversos aspectos das sociedades contemporâneas no sentido de analisar suas conseqüências em relação à representação da confiança. Analisei como foram construídas as concepções de indivíduo livre e as conseqüências que tal fato causou: individualismo, isolamento e consumismo. Destaquei também como a supremacia da razão levou-nos a uma sociedade do risco, onde sempre precisamos calcular as probabilidades de fracasso ou sucesso de qualquer ação. Falei da impossibilidade de previsão exata das conseqüências já que existe uma limitação da razão humana em efetivamente conhecer todas as variáveis de um problema, ou seja, de conhecer a realidade de qualquer objeto social. Assim, neste espaço do desconhecido, do incerto, estabelecemos Representações da Confiança. Posso concluir que a personalidade do sujeito pós-moderno é altamente marcada pelo individualismo e pelo consumismo. Estas características impõem uma atitude auto-centrada,

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hedonista, preocupada com a própria saúde, prazer e sucesso individual e apresentando como conseqüência um forte afastamento dos processos coletivos e da atitude cooperativa. A grande frustração e a baixa auto-estima são conseqüências destes fatos. O assumir a responsabilidade total pela sua vida individual torna o sujeito passível de se tornar extremamente ansioso ou preso por processos angustiantes. A crença na liberdade individual e na autoconstrução de si-mesmo vinculada a uma atitude passiva frente às imagens veiculadas pela mídia que, longe de ser imparcial, lucra com o interesse do mercado, tornam este indivíduo presa fácil de um processo de produção de subjetividade consumista. Este processo afasta o indivíduo de si-mesmo e dos outros criando a fantasia de que o consumo pode satisfazer suas necessidades fundamentais de amor e de pertencimento social. Como isto não acontecerá jamais, o indivíduo, preso neste processo, torna sempre a consumir acreditando que finalmente agora alcançará a felicidade, o que geralmente não ocorre. E, na verdade, esta frustração individual acaba por ser sadia para o mercado capitalista, já que há necessidade crescente de novos aumentos de consumo, precipitados ainda mais pela obsolescência planejada de origem tecnológica e estética (moda e design). O sujeito individualista e narcisista é a mais adequada para alimentar este processo, já que tende a ser menos crítica e mais suscetível às mensagens publicitárias. Finalmente, naquilo que diz respeito ao meu objeto de pesquisa, a Confiança, e ao campo de pesquisa, o mundo do trabalho, podemos concluir que a subjetividade predominante do homem na época atual, o neo-individualismo, implica em um aumento geral da desconfiança, ocasionando uma extrema dificuldade de estabelecimento de relacionamentos interpessoais profundos, cooperativos e duradouros, seja na vida profissional ou na vida pessoal. A degradação das relações interpessoais no ambiente de trabalho constitui-se em uma característica altamente negativa para a eficácia das organizações produtivas na medida em que o decréscimo da confiança diminui o capital social com conseqüências negativas para a produtividade e o lucro final. Este é o paradoxo atualmente em voga: o sistema capitalista necessita da personalidade narcisista para sua sobrevivência, mas este tipo de indivíduo acaba por prejudicar a qualidade e a eficácia dos resultados dos grupos sociais – das relações afetivas às relações nas equipes de trabalho - sendo, portanto uma ameaça ao desempenho das instituições produtivas.

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CAPÍTULO 2 - O CONCEITO DE CONFIANÇA NAS CIÊNCIAS HUMANAS E SOCIAIS
Cansados destes jogos enganadores, dessas trapaças, sonhando que nossa vida breve escape a esse tempo monótono de sangue e de morte, esperamos voltar a uma instância de confiança que não engana nem trapaceia, para uma teoria do conhecimento que reúna as ciências exatas e as ciências humanas. Novo saber, nova epistemologia, homem novo, educação nova, só escaparemos à morte coletiva nesta condição (Serres, M., 2001, p. 45-46).

Aqui pretendo traçar alguns breves comentários sobre como a confiança é pensada ou utilizada por alguns autores importantes das áreas das ciências humanas e sociais. 2.1 - O conceito de confiança em diversos importantes autores das ciências humanas e sociais Para começar, não posso deixar de mencionar que, já nos primórdios da Psicologia, William James em um de seus mais importantes conceitos - a ―vontade de acreditar‖ (The Will To Believe) – já se referia à importância da confiança. O autor afirma a fundamental importância de se confiar em possibilidades positivas de futuro. Os nossos pensamentos, as nossas crenças permanecem nos direcionando enquanto nelas sigamos confiando:
A nossa razão satisfaz-se cabalmente, novecentas e noventa e nove em cada mil de nós, se encontrar alguns argumentos que se possa recitar no caso de alguém criticar a nossa credulidade. A nossa fé é fé na fé de outrem e, nas questões mais importantes, é isto, sobretudo o que acontece. A nossa crença na própria verdade, por exemplo, de que há uma verdade, e de que esta e as nossas mentes foram feitas uma para a outra — o que é senão uma afirmação apaixonada de desejo, em que o nosso sistema social nos apoia? Queremos ter uma verdade; queremos acreditar que as nossas experiências, estudos e discussões têm de nos colocar numa posição cada vez melhor em direção à verdade; e nesta linha concordamos resolver as nossas vidas pensantes. Mas se um céptico pirrónico nos perguntar como podemos saber tudo isto, poderá a nossa lógica dar-lhe uma resposta? Não! Certamente que não. Trata-se apenas de uma volição contra outra — nós dispostos a avançar para uma vida com base numa confiança ou pressuposto que ele, por sua parte, não se preocupa em fazer(JAMES, W., Vontade de acreditar, p. 50-51).

Confiar é acreditar em algo sem que consigamos ter evidências absolutas de que esse algo é verdade ou que vai acontecer com certeza. Para James, se acreditamos, mesmo sem evidências, o nosso corpo se prepara para a ação, para o evento, e isto torna alta a possibilidade deste se realizar de forma favorável. Caso contrário, sem estarmos devidamente confiantes ou com dúvidas, a possibilidade de ocorrer algo negativo é imensa. Seu conceito

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denominado vontade de acreditar - the will to believe - é a base para a auto-confiança. Ele dá o seguinte exemplo:
Suponha, por exemplo, que você esteja escalando uma montanha e colocou-se numa posição da qual a única saída é um terrível salto. Tenha fé de que você pode fazê-lo com sucesso e seus pés serão enervados para esta façanha. Mas desconfie de si mesmo e pense em todas as doces coisas que você ouviu os cientistas dizerem sobre os talvez e você hesitará por tanto tempo que, ao final, totalmente nervoso e trêmulo ao se lançar num momento de desespero, você rolará no abismo. Em tal caso (e ele pertence a uma enorme classe), a questão de sabedoria, assim como a de coragem, é acreditar no que está na linha de suas necessidades, pois só com esta fé a necessidade será preenchida. Recuse-se a acreditar e você poderá de fato estar certo, pois poderá irrecuperavelmente perecer. Mas acredite, e novamente você talvez esteja certo, pois poderá salvar-se. Você torna um ou outro dos universos possíveis, verdadeiro por sua confiança ou desconfiança (JAMES apud BALLONE, 2008).

A questão da autoconfiança é fundamental para a psicologia e esta representação individual é construída através das experiências relacionais que a pessoa tem na sua história pessoal. Uma questão importante para minha Tese é como se dá gradualmente a passagem da criança de um universo puramente imagético e não-verbal para o universo da lógica verbal e como as identificações imaginárias que ocorrem até a introdução da ordem simbólica, que acontece com a passagem radical da linguagem da imagem para a linguagem verbal, produzem ou estimulam determinadas representações da confiança. Entender como se dá esta passagem das imagens para os símbolos verbais pode ser extremamente importante para compreender as imagens primordiais da confiança e sua influência na representação de confiança construída pelo homem adulto. O estágio inicial de desenvolvimento do homem é tido como crucial por diversos autores, dentre os quais destaco Winnicott, que nos descreve o processo que vai desde o nascimento do homem até a sua fase adulta. Partindo inicialmente de uma dependência absoluta em relação aos outros (não existe um bebê e sim um bebê e um cuidador) até atingir um grau de independência relativa o autor nos mostra como estas experiências têm relação com a confiança. Para ele, esta passagem está marcada por dois gestos fundamentais: o holding (o segurar) e o handling (o lidar) e nos fornece elementos interessantes para meu tema de pesquisa:
Das experiências correlatas ao holding deriva-se a confiança básica no mundo, e das experiências correlatas ao handling emergem os primeiros elementos do Eu relacional, ou da capacidade de comunicação, no sentido pleno do termo. De um a outro estão presentes três grandes conquistas do desenvolvimento: a integração do Eu, a personalização e o início das relações objetais (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 72).

Assim, segundo Winnicott, os processos relacionados à confiança básica são construídos em um período muito remoto da vida humana. As representações imagéticas da confiança formadas nesse período fornecem a pista fundamental para o alicerce que

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condicionará o que vai poder ser construído depois na vida do indivíduo como representação social da confiança no mundo da vida e do trabalho. Numa fase posterior da vida ocorrem as experiências de independência relativa cujos resultados obtidos observados pelo indivíduo a partir destes encontros como o(s) outro(s) irão estruturar a auto-estima através dos resultados (positivos ou negativos) que forem obtidos. Outro autor significativo na contemporaneidade, Z. Bauman mostra a importância da confiança para os processos sociais:
Como diz Giddens, ―[n]um sentido fundamental, todo o aparato institucional da modernidade, depois de romper com a tradição, depende de mecanismos de confiança potencialmente voláteis. Eu modificaria ligeiramente esta seqüência: não são tanto os mecanismos para despertar confiança quanto a confiança mesma que tendem a se volatizar, e não há mecanismos em vista para por fim a essa volatilidade, porque há muitas tradições competindo e nenhuma consegue angariar adesão duradoura e exercer autoridade suprema. Em outras palavras, a instabilidade da confiança, que resulta no enfraquecimento do domínio que qualquer tradição pode manter na sociedade contemporânea, está intimamente ligada ao caráter essencialmente policêntrico da sociedade moderna (BAUMAN, Z., 2000, p. 137-138).

Vale aqui iniciar ressaltando a importante contribuição pioneira já citada de Simmel, que metaforiza a importância social da confiança denominando de ―a cola que une a sociedade‖. Outros autores clássicos da sociologia também abordaram direta ou indiretamente o tema confiança, como Marcel Mauss e Max Weber. A idéia da construção social da realidade (Berger e Luckmann, 2004) implica em que a cultura e a sociedade foram sendo progressivamente construídas pelos grupos sociais humanos. E que quando uma pessoa humana nasce já se depara com uma realidade cultural (símbolos, signos, ritos, artefatos, hábitos, técnicas etc.) complexa pré-estabelecida, a qual se aparenta para ele como natural (indiscutível e inquestionável como a natureza). É dentro desse contexto sócio-espaço-temporal que entramos em relação com o mundo e as pessoas e, através da nossa história de vida e da prática em comum no interior dos grupos sociais que construímos nossas representações sociais. Neste sentido a representação social da confiança está sempre vinculada a um contexto cultural pré-estabelecido, onde os valores e normas compartilhados no interior do grupo a influenciam sobremaneira. Francis Fukuyama realizou um extenso estudo comparativo das culturas italiana, alemã, americana, chinesa, coreana e japonesa analisando o que ele chamou de sociabilidade espontânea, ou seja, a facilidade ou não de se estabelecer laços sociais de confiança em determinada cultura, fator determinante para a construção do capital social. Para

39

ele, o familismo – o quanto a cultura privilegia os indivíduos da família em relação aos nãofamiliares – é determinante. Quanto maior a facilidade em se confiar em pessoas fora da família maior o grau de confiança que se constrói nas organizações de produção de um país ou região. Para esse autor:
De um modo geral, a confiança brota quando a comunidade compartilha um conjunto de valores morais de forma tal, que cria uma expectativa de comportamento equilibrado e honesto. Até certo ponto o caráter peculiar desses valores é muito menos importante do que o fato de serem compartilhados; tanto os presbiterianos quanto os budistas, por exemplo, provavelmente descobririam que seus correligionários têm muita coisa em comum e, por conseguinte forma uma base moral para a confiança mútua. (FUKUYAMA, F., p. 170)

Qualquer que seja a instituição social estudada – família, empresa, governo, comunidade, nação – encontramos a confiança como a atitude que fornece a base do estabelecimento de relações de reciprocidade, mutualidade, identificação grupal, expectativa sobre o outro e para a criação e manutenção das normas de conduta que permitem a um grupo social determinado estabelecer seus limites identitários. É a construção desses limites que dão ao grupo social a característica de fechamento, garantindo seus benefícios e recursos apenas àqueles que são legitimamente reconhecidos como seus membros confiáveis. A adesão dos membros de um grupo aos valores e normas de comportamento compartilhadas leva ao estabelecimento de relações de confiança. Num mundo globalizado, pós-industrial, em que o neoliberalismo e o livre mercado dominam a economia mundial, frente à existência de um mercado de trabalho que apresenta um panorama de ―fim dos empregos‖ é gerada cada vez mais insegurança, medo, competitividade. Como é possível, neste panorama, estabelecer relações de confiança? Como se podem estabelecer relações de cooperação quando se desconfia constantemente? Quando a todo o momento o indivíduo ou o grupo social se sente ameaçado, quando a presença do outro (indivíduo ou de grupo social) é vista como uma ameaça? Confiança está ligada à nossa necessidade de assumir riscos, à incerteza e à impossibilidade de se conhecer totalmente o outro ou de conseguir estabelecer perfeito controle sobre os fatos da vida. Confiança interpessoal implica em uma representação que fazemos do(s) outro(s), através do estabelecimento de probabilidades de uma expectativa de comportamento do outro e interessa aqui investigar como os indivíduos e grupos enfrentam esta questão: o que pensam sobre a confiança, como a representam, como esta representação os predispõem a agir de determinada maneira e como, efetivamente, agem.

40

O sociólogo polonês, anteriormente já citado, Zygmunt Bauman analisa a maneira como o mercado global produz a subjetividade da modernidade líquida. Segundo ele, o mercado, impessoal e naturalizado pela ideologia liberal, destrói o sentimento comunitário ao tornar inadequadas as atitudes humanas de solidariedade e reciprocidade. Na sociedade contemporânea o mercado ―atua na criação das subjetividades arrumando as flores no jardim‖, criando ―atratores eficientes para as abelhas (multidão) ao invés de se preocupar em vigiar e controlar‖, como na época moderna:
Ninguém lidera um enxame em direção aos campos floridos e ninguém precisa repreender os preguiçosos para trazê-los de volta à coluna. Quem quiser manter um enxame na direção correta deve-se ocupar das flores e não das abelhas (2003, p. 115)

Se não há mais compromisso com o outro, se a individualidade e o egoísmo se intensificam, se os vínculos maiores com a família e com a nação se dissolvem gradualmente, o que resta? Talvez, somente, assistir ao espetáculo junto da multidão e compartilhar as impressões. E se não o fizermos? Vergonha e exclusão, que são dois sentimentos fundamentais de coerção normativa social. A conseqüência da destruição do sentimento comunitário é a individualização cada vez maior, a exigência social do indivíduo se tornar totalmente autônomo e responsável pela sua vida, com a obrigação de vencer por si próprio, não precisando da ajuda de ninguém e só podendo contar consigo mesmo para resolver seus problemas. Precisar do outro pode ser considerado sinal de fraqueza, de pouca competência ou pouco mérito. Portanto, nesse sentido é fundamental repensar a questão da confiança como base dos processos relacionais. Ao se tornar uma pessoa com estas características subjetivas necessitará possuir um alto grau de autoconfiança, ao mesmo tempo em que deve desconfiar de tudo e de todos Os benefícios associados à possibilidade da existência de alto grau de confiança interpessoal são diversos e pode-se destacar, entre eles, o comportamento cidadão, o compromisso organizacional, a segurança interpessoal, o clima organizacional, a cooperação, o aprendizado, a transferência de conhecimento. Alguns autores afirmam que a confiança aumenta com o tempo6 e com a intensidade do relacionamento. Para o sociólogo Richard

6

BLAU 1964; LEWICKI & BUNKER 1996.

41

Sennett, a confiança está vinculada à associação de longo prazo, que torna possível o estabelecimento compartilhadas.
7

de

vínculos

que

são

fortalecidos

pelas

experiências

positivas

2.2 – Confiança e capital social Atualmente se percebe o grande destaque que as Ciências Sociais dão ao conceito de capital social. Este conceito foi incorporado pelo Banco Mundial (disponível em: http://www1.worldbank.org/prem/poverty/scapital/index.htm ) nos seus projetos. Seu significado está vinculado às estruturas de relacionamento que facilitam ou impedem a eficácia do fazer coletivo de um grupo social. Dentro das instituições sociais as formas como as pessoas se vinculam e se relacionam é crucial para a eficácia do funcionamento das mesmas. As habilidades, capacidades, conhecimentos e a inventividade só aparecem com toda a sua força na medida em que a rede de relações é possibilitadora, e isto depende do grau de confiança que os indivíduos mantém entre si no interior das organizações ou das comunidades. O capital social se pauta na confiança, ao passo que esta se relaciona dinamicamente com o agir comunicativo8 que, através da expressão transparente dos interesses dos agentes sociais, facilita o estabelecimento de pactos de convivência negociados e compartilhados nos relacionamentos interpessoais e grupais. O alto grau de confiança compartilhada no interior de organizações de produção maximiza a eficácia do trabalho das equipes e otimiza o alcance dos objetivos comuns. A confiança e o agir comunicativo permitem ao grupo social compartilhar profundamente suas potencialidades, principalmente porque grande parte dos conhecimentos, habilidades e experiências é tácita, ou seja, ainda não escrita, descrita e normatizada (mesmo nas organizações altamente burocratizadas). O nível de confiança mais profundo é aquele em que os vínculos de interdependência são maiores entre os participantes do grupo. A questão aqui é: como são estabelecidas estas relações intensas de confiança dentro dos grupos de

7

SENNETT, Richard, 1999.

8

Conceito desenvolvido por Jünger Habermas para representar a ação humana expressiva dos interesses em oposição ao agir estratégico, onde interesses não explicitados pelo agente impossibilitam uma convivência verdadeiramente ética.

42

trabalho. Parece que isto só é possível com a transparência proveniente da comunicação aberta e democrática e com a transparência e a negociação dos diversos interesses existentes, processo esse que, mesmo sendo imprescindível para o estabelecimento de relações de confiança, é deveras ideal e dificilmente alcançável na prática organizacional. A confiança é construída ativamente através das práticas de relacionamento e o puro agir estratégico9, quando finalmente desvelado, mina totalmente os níveis de confiança no interior de um espaço de trabalho, inundando-o do sentimento de traição, de ressentimento paralisante ou vingativo e de intensa e constante desconfiança. O clima organizacional se vê inundado pela hipocrisia cordial. Desse modo, com um alto nível de capital social, gerado pela influência das relações estabelecidas com base na confiança, pode-se obter, em maior intensidade e com maior facilidade, recursos que facilitam o processo de trabalho e o alcance de resultados, tais como informações, dados, idéias, experiências, apoios, favores recíprocos. Aqueles indivíduos que conseguem estabelecer redes de comunicação e de troca ao redor de si mesmos, que ocupam uma posição hierárquica na qual têm facilidade de acesso a informações e recursos ou que se ligam em rede a outras associações, instituições públicas e privadas, a figuras de autoridade, têm o maior grau de capital social individual. 2.2.2 - Capital social e as diversas formas de capital Pode-se observar a crescente utilização do conceito de capital social na produção intelectual recente de economistas, sociólogos e outros profissionais preocupados com a questão do desenvolvimento econômico e das desigualdades sociais. O conceito é relativamente novo no campo das Ciências Sociais, sendo de cerca de vinte anos o período em que se debate procurando definir as características deste tipo de capital a partir de posições que possuem algumas diferenças fundamentais. A discussão, inicialmente impulsionada por James Coleman, Pierre Bourdieu e Robert Putnam, se propagou de forma rápida e ampla. Robert Putnam com os livros Making democracy work e Bowling alone, realizou uma ampla investigação da ascensão e queda deste tipo de capital nos EUA, se tornando um dos principais responsáveis pela popularização do conceito.

9

No agir estratégico utilizamos o(s) outro(s) como meios para o alcance de nossos fins pessoais, sem declará-los antecipadamente.

43

A idéia foi incorporada institucionalmente por organismos internacionais promotores do desenvolvimento econômico e social, que disponibilizam um vasto espaço na Internet para tratamento do tema. O Banco Mundial, por exemplo, estruturou um Grupo Temático sobre Capital Social para discussão e orientação sobre a utilização deste conceito em projetos de desenvolvimento.10 O BIRD possui um web site denominado Iniciativa Interamericana de Capital Social Ética e Desenvolvimento <http://www.iadb.org/etica/index.cfm> que dispõe de vasto material sobre o tema para download, tanto em textos quanto em vídeos, provenientes de eventos apoiados pela instituição. O Capital Social relaciona-se com os investimentos no reconhecimento mútuo, solidariedade e reprodução de um grupo ou rede social e possibilita o acesso e uso dos recursos impregnados nessas redes sociais. Segundo seus teóricos, os indivíduos se envolvem em interações e redes para seu próprio benefício: o objetivo é facilitar o fluxo de informações, reduzindo o custo das transações; exercer influência nos agentes (da decisão ou influenciadores de decisão) através de laços sociais que permitem o acesso a posições e localizações estratégicas; reforçar a identidade e o reconhecimento social que possibilitam o acesso a recursos. 2.2.3 - O conceito de capital social segundo seus principais teóricos Pierre Bourdieu fala sobre as diversas formas de capital: capital econômico, capital cultural e capital social11. Discute as características de cada um e as maneiras pelas quais um tipo de capital se transforma no outro. Capital significa força acumulada (ou poder) para realizar algo. O capital econômico envolve qualquer forma de acumulação material derivada do excedente produzido pelo trabalho humano. É tangível e pode ser imediatamente e diretamente convertido em dinheiro e institucionalizado na forma de direitos de propriedade. O capital cultural se apresenta em três estados: incorporado, objetificado e institucionalizado. No estado incorporado sua acumulação relaciona-se com o que chamamos cultura, requer um trabalho de aprendizado e cultivo que custa tempo e sacrifício ao investidor individual. Sua lógica de transmissão beneficia aqueles cujas famílias já o possuem em

10

Banco Mundial – Grupo Temático sobre Capital Social: Questionário integrado para medir capital social, 2003. BOURDIEU, Pierre, 1998

11

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quantidade e podem iniciar a transmissão desde cedo, gerando uma vantagem competitiva no aprendizado realizado fora do âmbito familiar, como, por exemplo, no sistema educacional. Diferentemente do capital econômico, o capital cultural funciona como capital simbólico, pois não é reconhecido como capital e sim como legítima competência individual, sendo um dos falsos pilares da meritocracia. No estado objetificado se encontra nos objetos materiais e na mídia, como escritos, pinturas, monumentos, instrumentos, sendo transmissíveis em sua materialidade. É indispensável possuir o capital cultural incorporado para se ter acesso ao capital cultural objetificado. No estado institucionalizado relaciona-se principalmente ao reconhecimento institucional de qualquer qualificação acadêmica. Para Bourdieu, ―Capital social é o conjunto de recursos efetivos ou potenciais que estão ligados à possessão de uma rede durável de relacionamentos mais ou menos institucionalizados de mútuo conhecimento ou reconhecimento (BOURDIEU, Pierre, 1998)‖12, que dota cada membro de uma titulação que o credencia a auferir favores ou benefícios. Coleman refere-se a quatro tipos de capital: financeiro, físico, humano e social. O capital financeiro permite adquirir capital físico para ser usado na produção. O capital humano constitui-se no conjunto de conhecimentos, habilidades e capacidades acumuladas em um agente individual que lhe fornece competência para o trabalho produtivo e a possibilidade de negociar melhores pagamentos por seu tempo de trabalho. O capital social se refere às estruturas sociais, com suas características – normas, fechamento, confiança, reciprocidade, laços fortes e fracos – que permitem àqueles que dela façam parte usufruir facilidades ou benefícios que possibilitem ou facilitem determinados fins pretendidos pelo agente social individual (COLEMAN, 2000)13. Putnam atribui o aparecimento inicial do conceito de capital social a J.Hanifan que escreveu em 1916 sobre a importância do envolvimento da comunidade para o sucesso das escolas. Em seu livro Bowling Alone, apresenta um detalhado estudo de como este valor

12

BOURDIEU, Pierre, 1998. COLEMAN, James, 2000.

13

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social presente nas redes de relacionamento opera e observou o seu decréscimo dentro da sociedade norte-americana. Para explicitar o conceito, ele declara:
Através da analogia com as noções de capital físico e capital humano – ferramentas e treinamentos que possibilitam a produtividade individual – a idéia principal da teoria do capital social é que as redes sociais possuem valor. Da mesma forma que uma chave de parafusos (capital físico) ou educação superior (capital humano) podem aumentar a produtividade (individual ou coletiva), também os contatos sociais afetam a produtividade de 14 indivíduos e grupos (PUTNAM, 2000, p. 19).

Como se pode observar, a definição de Putnam privilegia a relação do capital social com o aumento da produtividade individual e coletiva. Utiliza, também, vários conceitos de capital de forma articulada e complementar: o capital físico (máquinas, equipamentos, ferramentas), o capital humano (educação, habilidades etc.) e o capital social, aquele que se refere ―às conexões entre indivíduos – redes sociais e as normas de reciprocidade e confiança que daí derivam‖ (op. Cit., p. 19). O primeiro tipo de capital é tangível enquanto os dois outros são intangíveis. O capital humano se encontra no interior de cada indivíduo e o capital social nos relacionamentos. 2.2.4 - Confiança e capital social Face à percepção da importância do conceito de capital social nas Ciências Sociais se justifica o valor da investigação científica sobre o conceito de confiança, base fundamental do estabelecimento de redes sociais. A confiança como base para o capital social foi estudada por muitos autores como Coleman (1990), Putnam (1995), Fukuyama (Confiança: as virtudes sociais e na criação da prosperidade. Rio de Janeiro: Rocco, 1996), Dirks, K.T. e Ferrin, D. (The Role of trust in organizational settings. Organizational Science, INFORMS, v.12, n° 4, July-august, 2001), Luiz Alexandre Gonçalves Cunha (Confiança, capital social e desenvolvimento territorial. Curitiba: Editora UFPR, 2000), Diego Gambetta (Trust: making and breaking cooperative relations. USA: Basil Blackwell, 1988)., Bruno Pinheiro Reis (Capital social e confiança: questões de teoria e método (Disponível em:<

http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n21/a04n21.pdf > ), Maria Lúcia Maciel ( Confiança, capital social e desenvolvimento, Disponível em:< http://www.scielo.br/pdf/rsocp/n21/a04n21.pdf>), Cláudio Santiago Dias Junior (Capital social e violência:uma análise comparada em duas

14

Tradução do Texto seguinte: By analogy with notions of physical capital and human capital – tools and training that enhance individual productivity – the core Idea of social capital theory is that social networks have value. Just a screwdriver (physical capital) or a college education (human capital) can increase productivity (both individual and collective), so too social contacts affect the productivity of individuals and groups. (PUTNAM, 2000 p. 19).

46

vilas

de

Belo

Horizonte.

Disponível

em:

<http://www.crisp.ufmg.br/capital_social_violencia.pdf>). Posso aqui concordar com McLeod no que se refere à importância filosófica fundamental da confiança interpessoal:
Embora alguns filósofos tenham escrito sobre confiança que não é interpessoal, incluindo ―confiança institucional‖ (i.e. confiar em instituições, ver Potter, 2002, Govier, 1997), confiança no governo (Hardin, 2002) e autoconfiança (Govier, 1993; McLeod, 1007), a maioria deve concordar que estas formas de ―confiança‖ são coerentes apenas se compartilham aspectos de (i.e. podem ser modelados em) confiança interpessoal. Por isto eu afirmo que o principal paradigma da confiança é interpessoal.15

A confiança pode ser considerada como uma atitude perante o outro enquanto que a confiabilidade representa uma qualidade pessoal. Confiar é se colocar em uma situação de risco de ser traído, ―uma inclinação para esperar o melhor da outra pessoa (ao menos nos domínios nos quais confiamos nele ou nela) e a crença ou otimismo de que aquela pessoa é competente em certo respeito‖ (McLeod, p.2). Portanto, só confiamos se formos otimistas em relação ao outro:
Pessoas também não confiam, ou não podem confiar uma na outra se elas são facilmente suspeitosas da outra (Govier, 1997, p. 6). Se uma pressupõe o pior sobre alguém – ―ela está atrasada porque não liga para os meus sentimentos‖ ou ―Eu aposto que ele está falando sobre mim pelas costas‖ – então esta pessoa desconfia mais do que confia na outra pessoa. Confiar envolve ser otimista, mais do que pessimista, que o confiado irá fazer alguma coisa para nós (ou para outros talvez); e tal otimismo é, em parte, o que nos torna vulneráveis por confiar (JONES, 1996, p.12).16

A confiança se relaciona ao otimismo em relação à competência e aos elementos motivacionais (compromisso e/ou interesse de se fazer algo). A confiabilidade pode ser estabelecida pela força das normas do grupo, pelo estabelecimento de um acordo verbal ou por meio de um contrato firmado por escrito. Denomina-se ―risk assessment view‖ aquela

15

Tradução do Texto seguinte: Although some philosophers write about trust that is not interpersonal, including ―institutional trust‖ (i.e. trust in institutions; see Potter 2002, Govier 1997), trust in government (Hardin, 2002), and ―selftrust‖ (Govier, 1993; McLeod 2002), most would agree that these forms of ―trust‖ are coherent only if they share important features of (i.e. can be modeled on) interpersonal trust. This is why I say that the dominant paradigm of trust is interpersonal (McLeod, p.2).
16

Tradução do Texto seguinte: People also do not, or cannot, trust one another if they are easily suspicious of one another (Govier 1997, 6). If one assumes the worst about someone—―she is late because she has no regard for my feelings,‖ or ―I bet he is talking about me behind my back‖—then one distrusts, rather than trusts the person. Trusting involves being optimistic, rather than pessimistic, that the trustee will do something for us (or for others perhaps); and such optimism is, in part, what makes us vulnerable by trusting (Jones 1996, p.12).

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percepção de que as pessoas confiam em outras sempre que acreditam que o risco de confiar nelas é pequeno dado que existe auto-interesse daquela pessoa em agir da maneira esperada (idem, p.4). Outra visão filosófica consiste na ―good will view‖ (Annette Baier), que é dominante, mas amplamente sujeita a críticas. Outra visão sobre confiabilidade é que esta consiste em uma virtude: para uma pessoa ser totalmente confiável deve assumir a disposição moral de ser confiável em relação a todos:
Esta é essencialmente a visão de Potter de confiabilidade. Ele modela confiabilidade em uma concepção Aristotélica de virtude e define uma pessoa confiável como ―a pessoa com a qual podemos contar, como um tipo de pessoa que cuida das coisas que outro confiou a ele e cujos modos de cuidar não são nem excessivos nem deficientes (op. Cit., p. 6).17

A questão epistemológica principal é ―devo confiar ou não?‖ (―é razoável confiar ou não‖) e esta somente vem à tona quando a confiança não é dada como garantida, quando existem razões para desconfiar. Como a confiança está ligada a risco podemos assumir que a tentativa racional de eliminar o risco implica, em princípio, na eliminação da própria confiança (que pode ser considerada como absoluta ou ingênua). Ao mesmo tempo a confiança pode nos tornar cegos para evidências que poderiam modificar nosso otimismo em relação ao confiado (confiança cega). A confiança também se estabelece em relação a fins ou estrategicamente. Confiar em alguém me possibilita estabelecer uma relação amorosa ou de trabalho mais profunda com esta pessoa. McLeod se pergunta qual o valor da confiança:
A resposta sucinta para esta questão é que a confiança tem um enorme valor instrumental e pode também possuir valor intrínseco. Ao discutir seu valor instrumental, eu irei me referir aos ―bens da confiança‖. Estes bens incluem oportunidades para atividades cooperativas, conhecimento, autonomia, auto respeito, e principalmente maioridade moral. E pelo fato destes bens beneficiarem o confiador, o confiado, ou a sociedade em geral, eles são tanto bens sociais quanto individuais, onde o os mais relevantes indivíduos tendem a fazer parte da relação de confiança (op. Cit., p.9).18

17

Tradução do Texto seguinte: This is essentially Potter's view of trustworthiness. She models trustworthiness on an Aristotelian conception of virtue and defines a trustworthy person as ―one who can be counted on, as a matter of the sort of person he or she is, to take care of those things that others entrust to one and (following the Doctrine of the Mean) whose ways of caring are neither excessive nor deficient” (idem, p.6).
18

Tradução do Texto seguinte:The short answer to this question is that trust can have enormous instrumental value and may also have some intrinsic value. In discussing its instrumental value, I will refer to the ―goods of trust‖. These goods include opportunities for cooperative activity, knowledge, autonomy, self-respect, and overall moral maturity. And because these goods may benefit the truster, the trustee, or society in general, they are therefore social as well as individual goods, where the most relevant individuals tend to be parties to the trust relationship. A further point I aim to establish about these goods is that they accompany justified trust, rather than any old trust (idem, p.9).

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Hoje o conceito de confiança se apresenta como o principal indicador de uma economia globalizada. O mercado consumidor é constantemente avaliado através de pesquisas e levantamentos estatísticos e probabilísticos para gerar o denominado Índice de Confiança do Consumidor, indicador que sinaliza crises ou oportunidades e se constitui um fator decisivo nas decisões de investimento. O próprio valor dos ativos nas principais bolsas de valores do mundo responde a este índice. Para entender como isto funciona, durante o período de realização desta tese, acompanhei as notícias sobre confiança no Brasil e no mundo utilizando o mecanismo de busca do Google, o que me permitiu receber emails diários sobre as noticias de jornais referentes às palavras confiança, trust e confidence. Cito como exemplo uma notícia recente da agência Reuters:

Dado de confiança do consumidor pesa e Wall Street cai: NOVA YORK (Reuters) - As bolsas de valores dos Estados Unidos caíram nesta terça-feira, com uma surpreendente queda na confiança do consumidor do país ofuscando sinais de estabilização no mercado imobiliário e sólidos lucros da Walgreen.O índice Dow Jones, referência da bolsa de Nova York, recuou 0,48 por cento, para 9.742 pontos. O termômetro de tecnologia Nasdaq caiu 0,31 por cento, para 2.124 pontos. O Standard & Poor's 500 perdeu 0,22 por cento, a 1.060 pontos.Com o terceiro trimestre se aproximando do fim, os negócios foram voláteis e o volume fraco.As ações iniciaram em alta, mas viraram depois que o índice de confiança do consumidor medido pela Conference Board caiu em setembro, decepcionado estimativas e ressaltando preocupações sobre as finanças pessoais em meio à pior situação do mercado de trabalho em 26 anos19

No Brasil é a Fundação Getúlio Vargas que realiza o calculo do nosso índice interno de confiança:
Confiança do consumidor em novembro atinge menor nível desde 2005, diz FGV: O ICC (Índice de Confiança do Consumidor) da FGV (Fundação Getulio Vargas) teve queda de 4,2% em novembro, ao passar de 101,1 para 96,9 pontos, o menor nível da série histórica iniciada em setembro de 2005. Em relação a novembro de 2007, o índice teve queda de 15,2%. Os dados constam da pesquisa Sondagem de Expectativas do Consumidor, divulgada nesta terça-feira.O ISA (Índice da Situação Atual) caiu 5,7%, para 98,1 pontos, e o IE (Índice de Expectativas) caiu 3,3%, para 96,2 pontos, na comparação com outubro. Na comparação com novembro de 2007, as quedas nos índices foram de 11,9% e 17%, respectivamente.20

19

Fonte : Internet: Disponível em : <http://economia.uol.com.br/ultnot/reuters/2009/09/29/ult29u70167.jhtm>. Acessado em: 17/10/2009.
20

Fonte: Internet. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u471283.shtml>. Acessado em: 7/10/2009.

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Também muito importante é o índice de confiança dos investidores que indica o quanto a economia tende ao crescimento ou à estagnação ou crise. Assim, transcrevo a seguinte noticia para ilustrar:
Confiança dos investidores na economia global sobe pelo segundo mês consecutivo: SÃO PAULO - Com as economias em todo mundo oferecendo sinais de recuperação e os Bancos Centrais se comprometendo a manter os programas de estímulo, a confiança dos investidores na economia global atingiu nível recorde em setembro, segundo pesquisa da Bloomberg com mais de 1.800 investidores de seis continentes, realizada entre 7 e 11 de setembro. O Professional Global Confidence Index subiu dos 58,12 pontos vistos em agosto para 58,54 pontos em setembro, configurando o segundo mês consecutivo acima dos 50 pontos, o que significa que a maior parte dos entrevistados se diz otimista com as perspectivas para a economia internacional.21

Com o cálculo destes índices procura-se estimar tendências econômicas futuras e, com isto, diminuir possibilidades de perdas em investimentos, no caso de índices negativos, ou estimular novos investimentos, no caso de índices positivos e crescentes. Neste capítulo relatei a importância da confiança nas diversas áreas das Ciências Sociais e Humanas, em especial na Psicologia, Sociologia, Psicologia Social e Economia destacando autores relevantes e a importância macroeconômica da confiança.

21

Internet : <http://web.infomoney.com.br/templates/news/view.asp?codigo=1674195&path=/investimentos/rendafixa/>. Acessado em: 7/10/2009.

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CAPÍTULO 3 - A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS

3.1 – Representação social: aspectos teóricos O conceito de Representação Social foi introduzido no campo científico da Psicologia Social por Serge Moscovici, através de seu histórico estudo sobre a psicanálise (La psychanalyse - son image et son public, 1961), fundamentalmente como uma teoria do pensamento do senso comum. Ele parte das idéias de E. Durkheim, autor que propôs a expressão Representação Coletiva para diferenciar o pensamento social do individual. O papel da Psicologia Social, para este autor, consiste fundamentalmente no estudo destas Representações Coletivas: ―Para Durkheim, competia à Psicologia Social estudar ‗de que modo as representações se atraem ou se excluem, se fundem umas com as outras ou se distinguem‘‖ (MOSCOVICI, 1978, p. 25). A preocupação inicial de Moscovici era entender como se dá a apropriação do conhecimento científico pelos diversos grupos que constituem a sociedade. Para ele, o objetivo final da atividade científica, do saber científico, não consiste em permanecer restrito a um círculo reduzido de pessoas eruditas e estudiosas, mas atingir os diversos grupos da sociedade e efetivamente contribuir para a mudança e aprimoramento das práticas sociais. Moscovici, no livro que deu início à teoria, nos forneceu várias pistas para uma definição do conceito de representações sociais, mas, por outro lado, sempre encarou o fato de que este conceito não deveria ficar congelado ou estagnado em uma definição exata e acabada. Conforme Celso Sá (1996, p. 30): ―Moscovici sempre resistiu a apresentar uma definição precisa das representações sociais, por julgar que uma tentativa nesse sentido poderia acabar resultando na redução do seu alcance conceitual‖. Sendo o equivalente, em nossas sociedades, a uma versão contemporânea do senso comum, as representações sociais se manifestam tridimensionalmente: informação, campo de representação e atitude. O conhecimento organizado que um grupo possui acerca de um objeto constitui a dimensão da informação; a atitude se relaciona à maneira como um grupo social se orienta em relação a este conhecimento; o campo de representação constitui-se na ―unidade hierarquizada dos elementos‖ relacionados a um determinado objeto. A definição de Representações Sociais (RS) fornecida por Denise Jodelet (1989) é uma das definições que, com sua clareza e simplicidade, mais nos auxiliam a entender este

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conceito: ―uma forma de conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, que tem um objetivo prático e concorre para a construção de uma realidade comum a um conjunto social‖ (JODELET, D. APUD SÁ. Celso, 1996, p. 32). Esta autora nos diz que:
Na realidade, a observação das representações sociais é algo natural em múltiplas ocasiões. Elas circulam nos discursos, são trazidas pelas palavras e veiculadas em mensagens e imagens midiáticas, cristalizadas em condutas e em organizações materiais e espaciais 22 (JODELET, D., 2001, p. 17 e 18).

Temos aqui, portanto, a indicação de aspectos extremamente importantes do que constitui uma representação social: ela deve ser socialmente construída e compartilhada, deve estar direcionada para a prática dos atores sociais e participar na construção da realidade do grupo. Portanto é um saber prático que interliga um sujeito social a um objeto social, capaz de atuar na construção do significado socialmente construído tanto deste (objeto) quanto daquele (sujeito). Outra definição de representações sociais que pode ser considerada como uma das mais relevantes por pertencer à assim denominada escola sociológica, é a de W. Doise que afirma o papel de princípios geradores de tomada de posição das representações sociais num conjunto de relações sociais. 3.1.1 – Funções das representações sociais Para Moscovici, as representações possuem duas funções: A – ―Convencionalizam os objetos, pessoas ou acontecimentos que encontram. Elas lhes dão uma forma definitiva, as localizam em determinada categoria e, gradualmente, as colocam como modelo de determinado tipo, distinto e partilhado por um grupo de pessoas‖ (MOSCOVICI, 2003, p. 34). B – ―Representações são prescritivas. Elas se impõem sobre nós com uma força irresistível. Essa força é uma combinação de uma estrutura que está presente antes mesmo que nós comecemos a pensar e de uma tradição que decreta o que deve ser pensado‖ (MOSCOVICI, 2003, p. 36). Como as representações são compartilhadas pelos indivíduos constituintes dos grupos sociais aos quais se vinculam, elas ―penetram e influenciam a mente de cada um, elas não são

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Representações sociais: um domínio em expansão. Em: JODELET, D. (org.): As representações sociais. Ed. Vozes, Petrópolis, 2001.

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pensadas por eles; melhor, para sermos mais precisos,

re-citadas e re-apresentadas‖

(MOSCOVICI, 2003, p. 37). E mais adiante afirma: ―Quanto mais sua origem é esquecida e sua natureza convencional é ignorada, mais fossilizada ela se torna‖ (MOSCOVICI, 2003, p. 41). Aqui, pontos importantíssimos nos chamam a atenção. Em primeiro lugar, as representações vêm sendo construídas pela humanidade há muitos séculos e, ao nascer, o indivíduo já se encontra perante representações criadas e que lhe são apresentadas pelos grupos sociais aos quais está vinculado. Luckmann e Berger esclarecem brilhantemente o processo que propicia a construção de esquemas tipificadores para se lidar com a realidade, a formação dos hábitos (tipificação recíproca) e seu compartilhamento produzindo a institucionalização. Segundo estes autores:
Um mundo institucional, por conseguinte, é experimentado como uma realidade objetiva. Tem uma história que antecede o nascimento do indivíduo e não é acessível à sua lembrança biográfica. Já existia antes de ter nascido e continuará a existir depois de morrer. Esta própria história, tal como a tradição das instituições existentes, tem caráter de objetividade. A biografia do indivíduo é apresentada como um episódio localizado na história objetiva da sociedade. As instituições, como facticidades históricas e objetivas, defrontam-se com o indivíduo na qualidade de fatos inegáveis. (BERGER, Peter L., LUCKMANN, Thomas, 2004, p. 86)

Estas representações tendem a não ser questionadas pelo sujeito social, são naturalizadas, devendo ser apenas aceitas, assimiladas, raramente, talvez, com algumas pequenas modificações (como veremos posteriormente, em seu sistema periférico). Tendem a se fossilizar, adquirir uma dureza que protege seu interior quanto ao tempo, conservando valores sociais muitas vezes defasados, ultrapassados e que dificilmente são identificados e questionados (uma vez que, como veremos adiante, são protegidos pelo núcleo central da representação social). Esses são motivos relevantes que justificam a grande importância do estudo das representações sociais. Apenas estudando profundamente este fenômeno social podemos contribuir para o questionamento de velhas formas de olhar e de avaliar a realidade que hoje se encontram estagnadas. Modos estagnados de se representar objetos (e sujeitos) sociais, como por exemplo, o corpo, a pessoa com deficiência, a saúde, podem estar contribuindo para produzir a deterioração da vida humana, diminuindo nossas possibilidades e nossa potência. A desconstrução e reconstrução de representações sociais, seu processo de atualização a partir de valores sociais mais humanos, ecológicos, éticos, se apresenta hoje como uma necessidade humana urgente na multiculturalidade globalizada. Essa atualização só pode ser feita a partir do conhecimento das formas como hoje estamos representando esses diversos objetos no conhecimento do senso comum, ou seja, as nossas representações sociais.

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Abric (1998), por outro lado, nos fornece quatro funções das representações sociais: a função de saber (que permite compreender e explicar a realidade), a função identitária (que define a identidade dos indivíduos e os situam dentro de um campo social que é protegido e especificado por suas representações), a função de orientação (que guia os comportamentos e as práticas) e a função justificadora (que permite, a posteriori, a justificativa das tomadas de posição e dos comportamentos). 3.1.2 – Processo de criação das representações sociais Existem, segundo Moscovici, três hipóteses para explicar o motivo pelo qual os grupos sociais criam representações sociais:
(1) a hipótese da desiderabilidade, isto é, uma pessoa ou um grupo procura criar imagens, construir sentenças que irão tanto revelar, como ocultar sua ou suas intenções, sendo essas imagens e sentenças distorções subjetivas de uma realidade objetiva; (2) a hipótese do desequilíbrio, isto é, todas as ideologias, todas as concepções de mundo são meios para solucionar tensões psíquicas ou emocionais, devidas a um fracasso ou a uma falta de integração social; são, portanto compensações imaginárias que teriam a finalidade de restaurar um grau de estabilidade interna; (3) a hipótese do controle, isto é, os grupos criam representações para filtrar a informação que provem do meio ambiente e dessa maneira controlam o comportamento individual. Elas funcionam, pois, como uma espécie de manipulação do pensamento e da estrutura da realidade, semelhantes àqueles métodos de controle comportamental e de propaganda que exercem uma coerção forçada em todos aqueles a quem eles estão dirigidos. (MOSCOVICI, 2003, p. 54).

Para ele, estas três hipóteses são extremamente gerais, dado que, antes e acima de tudo, o humano deseja se sentir em casa, protegido, e, por isso, ―a finalidade de todas as representações é tornar familiar o não-familiar, ou a própria familiaridade‖ (MOSCOVICI, 2003, p. 54). Esse é o processo de construção do pensamento do senso comum, diferentemente do pensamento científico, que torna o familiar em não-familiar: ―o cientista deve falsificar, deve tentar invalidar suas próprias teorias e confrontar a evidência com a nãoevidência‖ (ibid., p. 59). Para entender como o senso comum elabora, assimila, esta desfamiliarização realizada pelo pensamento científico é que Moscovici desenvolveu sua teoria. São dois os processos pelos quais uma representação social é gerada. O primeiro é a ancoragem, que ―transforma algo estranho e perturbador, que nos intriga, em nosso sistema particular de categorias e o compara com um paradigma de uma categoria que nós pensamos ser apropriado‖ (ibid., p. 61). Na ancoragem, classificamos e nomeamos alguma coisa. Classificar é ―confinar a um conjunto de comportamentos e regras que estipulam o que é, ou não é permitido‖ (ibid, p. 63). E categorizar é ―escolher um dos paradigmas estocados em nossa memória e estabelecer uma relação positiva ou negativa com ele.

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O segundo processo é a objetivação. Consiste em materializar uma abstração, em ―transformar a palavra que substitui a coisa, na coisa que substitui a palavra‖ (ibid., p. 71). Na objetivação transformamos uma idéia em imagem e a projetamos sobre o objeto social real, reconstruindo-o, acreditando ser este objeto real a qualidade icônica de sua idéia, tornando concreto o que foi abstraído. Segundo este autor: ―Objetivar é reabsorver um excesso de significações, materializando-as (e adotando uma certa distância a seu respeito). É, também, transplantar para o nível de observação o que era apenas inferência ou símbolo‖ (MOSCOVICI, 1978, p. 111). O estudo de Moscovici sobre a psicanálise demonstra claramente como a representação social se esquematiza no conjunto

consciente/recalque/inconsciente-complexo e exclui a libido, movimento atribuído à acomodação da teoria cientifica aos valores sociais vigentes na época da pesquisa (década de 50 do século XX). A objetivação é a concretização da representação, o processo que estabelece seu núcleo figurativo: ―um complexo de imagens que reproduzem visivelmente um complexo de idéias‖ (MOSCOVICI, 2003, p. 72). Assim, através de seu núcleo, a representação oculta a avaliação e a simplificação da realidade que aconteceu no processo de ancoragem, ganhando e consolidando sua estrutura e força de permanência. Na objetivação, a construção mental do objeto social ganha valor de verdade para o indivíduo/grupo e uma consistência que resiste às investidas de questionamento de sua veracidade ou adequação ao contexto atual. Aqui devemos ressaltar a existência do papel simplificador da representação e destacar que, ao ocultar o processo de avaliação efetuado sobre o objeto social, a representação social exerce a ação de mascarar os valores através dos quais os grupos sociais constroem seus esquemas de pensamento, naturalizando-os e protegendo-os de qualquer possibilidade de questionamento. 3.1.3 – Formas de abordagem do fenômeno das representações sociais Existem diversas orientações no estudo das representações sociais, muito bem descritas por Jodelet:
Uma primeira perspectiva se relaciona à atividade puramente cognitiva pela qual o sujeito constrói sua representação. Duas dimensões fazem com que a representação se torne social: uma dimensão de contexto e uma dimensão de pertencimento. (...) Uma segunda perspectiva acentua os aspectos significativos da atividade representativa. O sujeito é considerado como um produtor de sentido que exprime na representação o significado que dá à sua experiência no mundo social. (...) Uma terceira corrente trata a representação como uma forma de discurso e faz decorrer suas características da pratica discursiva de sujeitos socialmente situados, (...) da finalidade de seus discursos. (...)

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Uma quarta perspectiva é a prática social do sujeito que é levada em consideração. O sujeito produz uma representação que reflete as normas institucionais que decorrem de sua posição ou as ideologias ligadas ao lugar que ocupa. (...) Para o quinto ponto de vista, o jogo das relações intergrupais determina a dinâmica das representações. O desenvolvimento das interações entre os grupos influi sobre as representações que os membros têm do seu grupo (...) e dos outros grupos. (...) Enfim, uma última perspectiva, mais sociologizante, faz do sujeito o portador de determinações sociais e baseia a atividade representativa sobre a reprodução de esquemas de pensamento socialmente estabelecidos. (JODELET, Denise APUD SÁ, 1998, p. 63)

Na prática da pesquisa podemos identificar três correntes teóricas fortemente estabelecidas e a configuração de uma quarta abordagem. A primeira, mais fiel à teoria original de Moscovici, é liderada por Denise Jodelet. Na segunda abordagem, Willem Doise ressalta a perspectiva sociológica. A dimensão cognitivo-estrutural é apresentada e liderada por Jean-Claude Abric. Wolfang Wagner se posiciona através de uma postura crítica pósmodernista às representações. 3.1.4 - A teoria do núcleo central Abric, partindo da concepção de núcleo figurativo de Moscovici, estabelece que uma Representação Social constitui-se de um sistema central e um sistema periférico. Segundo Abric, citado por Sá:
Nós vamos ver que a teoria do núcleo central retoma em grande parte as análises de S. Moscovici, mas não limitando esse núcleo imaginante ao seu papel genético. Nós pensamos da nossa parte que o núcleo central é o elemento essencial de toda representação constituída e que ele pode, de uma certa maneira superar o simples quadro do objeto da representação para encontrar sua origem diretamente nos valores que o transcendem e que não exigem nem aspectos figurativos, nem esquematização, nem mesmo concretização (ABRIC, 1994 a, p. 21, apud SÁ, C., 2002).

A argumentação acima é extremamente interessante e poderosa, pois nos permite perceber que estudar o núcleo central pode possibilitar a captação e o entendimento dos elementos que estão no âmago, no coração de uma representação: os valores estabelecidos socialmente, a partir dos quais se dá a percepção e a abstração do objeto. Evitamos, ainda, o problema de se lidar com as imagens e seus significados no processo de pesquisa e estudo do objeto da representação, procedimento ainda extremamente difícil, complexo e carente de um desenvolvimento metodológico apropriado. A existência do núcleo central das RS se afirma teoricamente pela necessidade de estabilidade do pensamento social que fornece a um determinado grupo sua identidade. Como diz seu criador, Abric, as representações possuem um núcleo em face de que todo pensamento

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social se constitui em um conjunto de crenças coletivas que não podem ser questionadas para garantir a identidade e a permanência do grupo. O núcleo central possui três funções - geradora, organizadora e estabilizadora – sendo responsável pelo significado, consistência e permanência da representação. Uma representação social se diferencia de outra fundamentalmente por seu núcleo central, não sendo suficiente conhecer apenas seu conteúdo, pois ―duas representações podem ter o mesmo conteúdo e, entretanto serem radicalmente diferentes, se a organização deste conteúdo for diferente‖ (ibid., p. 38) O termo confiança, meu objeto de pesquisa, é um signo verbal altamente complexo e polissêmico, sendo fundamental que se observe, em sua representação, o seu conteúdo e organização, incluindo aqui a caracterização daquilo que torna a representação social da confiança mais estável ou menos estável. Quando, por exemplo, colocamos em questionamento (mis-en-cause) a relevância dos termos que surgem em uma evocação livre quanto à sua importância que desempenham em uma representação social, estou também acessando o nível de confiança que aquele sujeito da pesquisa possui quanto à existência no interior da representação social de determinados significados, palavras ou expressões (e não outros) com elevado grau de importância. Como disse anteriormente, existe, em qualquer representação social, uma área cinzenta, de desconhecimento em relação ao objeto social representado. O grande problema é que a imagem que se constrói do objeto (a representação) é apenas uma imagem que se acredita corresponder a ele – a ‗verdade‘ sobre objeto. O que se não conhece do objeto, nossa ignorância sobre ele, constitui uma zona de sombra, o desconhecido. Para se relacionar (seja com objetos, pessoas, instituições ou conceitos abstratos) é preciso confiar que esta zona de sombra não se afaste demasiadamente da imagem (representação) construída. A atribuição de confiança à representação surge exatamente com esta função, com este propósito e o compartilhamento com outros ajuda a estabelecer confiança na representação. A questão fundamental aqui é como fazemos, ou seja, quais os critérios que estabelecemos para confiar: qual a minha representação da confiança. Portanto, ao não conseguirmos perceber o objeto social em sua inteireza, o próprio fenômeno do representar algo, de se construir uma representação de algo, implica em que parte deste algo não é percebida, conhecida ou reconhecida. Ao assumirmos uma representação de um objeto como sendo o próprio objeto (processo de objetivação) estamos confiando que aquela forma de representá-lo corresponde à verdade do objeto, ao objeto real.

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Ao objetivar, estamos atribuindo confiança à representação, ou seja, não há representação social estável sem um grau razoável de atribuição de confiança Se representar implica em confiar, o quanto confiamos em nossas representações, nas representações sociais dos nossos grupos de pertença e referência passa a ser, para nós, uma questão de importância essencial, que será tratada e aprofundada nesta tese de doutorado. Neste objeto social específico, a representação social da confiança, devo atentar para o quanto confiamos em nossa representação social da confiança. O significado da representação social da confiança enquanto acontecimento psicossocial intersubjetivo é altamente situacional. Por isso, somente através do estudo de seu núcleo central poderemos entender o conteúdo e o sentido que esta representação social assume dentro de um determinado contexto sócio-histórico23. O núcleo central é normativo por excelência, está ligado aos valores coletivos ou individuais. Confiança constitui essencialmente um valor relacional que é atribuído a uma pessoa, um artefato (objeto de consumo, tecnologia), uma instituição, uma representação política ou profissional ou a um grupo social específico. Atribuir graus de confiança na relação de um indivíduo ou grupo com um objeto social implica no estabelecimento de valores normativos com este objeto. Quanto maior a correspondência entre a representação da confiança e a atribuição de confiança ao objeto, maior a possibilidade da intensificação e aprofundamento da relação entre os dois (indivíduo/grupo social e objeto social). Tal fato tem sido comprovado pelas pesquisas que estudam o capital social dos grupos sociais, que afirmam, enfaticamente, a importância da existência de alto nível de confiança interpessoal para o estabelecimento de graus elevados de capital social no interior do grupo. Posso ousar dizer aqui que o núcleo central de uma representação é estabilizador na medida da confiança que o indivíduo ou o grupo social efetivamente depositam nele. A força, a estabilidade e a permanência de uma representação social estão ligados à confiança que nela depositamos. A pergunta fundamental que deve ser feita quando atualizamos ou reconstruímos uma representação é questionar o quanto confiamos que ela, nesse momento situacional, representa determinado objeto social. A desconfiança sobre o ―valor de verdade‖ relacionada a uma representação social determinada põe em questionamento o seu núcleo

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Apesar do conceito de núcleo central ser muito importante para o entendimento do objeto de pesquisa confiança não fiz uma opção metodológica de trabalhar dentro da tradição de pesquisa dos teóricos do núcleo central no Brasil e no exterior.

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central, levando o indivíduo e o grupo social a uma situação de mal-estar, de dissonância cognitiva. Segundo Abric, ―o ataque, o questionamento, do núcleo central é sempre uma crise, e não somente cognitiva, mas que concerne aos valores‖. E continua ainda este autor: ―procurar o núcleo central é procurar a raiz, o fundamento social da representação, que em seguida modulará, se diferenciará e se individualizará no sistema periférico‖ (ABRIC, 2003, p. 40). O núcleo central possui elementos normativos, relacionados aos valores, e elementos funcionais, ―associados a características descritivas e à inscrição do objeto nas práticas sociais ou operatórias‖. São, portanto, os elementos funcionais do núcleo central que tendem a surgir nas situações de relacionamento interpessoal de confiança. O funcionamento do núcleo central é extremamente importante para nós, face à polissemia do termo confiança, pois, segundo Abric ―os elementos do núcleo central são suscetíveis de serem ativados diferentemente, segundo o contexto social‖ (ibid., p. 43). Em um determinado contexto pode haver determinados elementos ativados e outros não, pois são inúteis ou impertinentes ali. Há dois tipos de elementos adormecidos: os não ativados e os escondidos (não expressáveis), muitas vezes só percebíveis através de técnicas de pesquisa não-verbais, como, por exemplo, as ―praticas significantes‖, conforme Denise Jodelet nos ensinou em sua pesquisa sobre a loucura quando constatou o fato de que ―na concepção daquilo que é a natureza da loucura entrariam elementos de crença que, em virtude do seu arcaísmo e do seu caráter gerador de ansiedade, só teriam tradução possível e autorizada nos atos que eles inspiram‖ (JODELET, D., p. 296). A gestão de impressões, conforme estudada por Sharp e Getz, nos indica que o sujeito (da pesquisa) muitas vezes deseja deixar uma imagem favorável de si, fato que implica em expressar aquilo que lhe parece mais adequado na situação, e não exatamente aquilo que realmente pensa ou acredita. Assim, certamente, freqüentemente durante a pesquisa de campo estaremos em contextos onde pode ser delicado ou até proibitivo para o sujeito expressar fielmente seu pensamento sobre como confia ou desconfia de outro indivíduo, de uma instituição ou de um grupo social ao qual se vincula. O campo escolhido para nossa pesquisa, as organizações de produção lucrativas são lugares onde se ganha a sobrevivência pessoal, lugares onde não se pode arriscar alguma declaração que possa ameaçar o emprego ou a possibilidade de crescimento profissional. As pessoas tendem a agir estrategicamente, de forma política, para conseguir seus objetivos e, deste modo, tendem a manipular os seus discursos em função disto.

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Ainda sobre a ativação do núcleo central, devemos ter clareza de quais são os fatores de sua ativação: finalidade da situação, a distância para com o objeto e o contexto de enunciação. Longe da prática se favorece o aparecimento de uma representação mais avaliativa; perto desta aparecerão elementos pragmáticos e descritivos. Como argumento decisivo para estudar o núcleo central representação social da confiança, temos a fundamental questão da mudança das representações sociais. Esta transformação somente se dá com o ataque aos elementos do núcleo central em situação irreversível. Entre as possibilidades de ataque à representação, os ataques ao sistema periférico não mudam a representação social, sejam reversíveis ou não. O ataque ao núcleo central implica em defesas que levam a um retorno ao estado anterior. Somente ocorre a mudança quando os sujeitos da representação percebem a situação como irreversível. 3.2 – A Representação Social da Confiança como objeto de pesquisa A organização da condução de uma pesquisa em Psicologia Social precisa estar baseada na relação entre o fenômeno psicossocial a ser estudado, a teoria na qual me fundamento e no método através do qual a pesquisa será realizada. Passo, então, a analisar estes três aspectos importantíssimos em qualquer pesquisa social. 3.2.1 – Existência e relevância da confiança como objeto social A importância do estudo da representação social da confiança se configura no papel que esta assume em todos os tipos de relacionamentos, tanto àqueles que se referem à interdependência interpessoal quanto aos que se remetem aos processos de comunicação. Tal ocorrência, a necessidade de confiar, confirma a existência imperativa de um compartilhamento representativo nos diversos grupos deste objeto social abstrato e complexo. A confiança exerce uma importância fundamental na ontogênese, segundo E. Erikson, já que se constitui no primeiro elemento da vida mental (MARKOVA et ali, set-dez 2003, p. 4). Para ele o primeiro ano de vida configura o estágio da Confiança X Desconfiança, pois a criança é altamente dependente das pessoas que cuidam dela - alimentação, higiene, locomoção, aprendizado e estimulação. Recebendo segurança e afeto a criança adquire confiança nas pessoas e no mundo. Para Georg Simmel, a ―confiança é o sentimento psicológico fundamental em todas as sortes de socialização‖:
Ele se refere à confiança como uma categoria a priori na formação do conhecimento social. Em outras palavras, a confiança é um aspecto da racionalidade dialógica enquanto a impossibilidade de engajamento dialógico gera a desconfiança. A racionalidade dialógica é o

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modo de pensar de comunicar e de agir subjacente a esta perspectiva eu/outros (MARKOVÁ, 2005, p. 50).

Devemos entender a colocação de Simmell como o esclarecimento sociológico de que todo grupo social através de seu processo normativo estabelece a confiança entre aqueles identificados como seus membros. Como representamos um colega de trabalho confiável? E um parceiro amoroso? Um amigo confiável? Um comerciante honesto? Um produto que atenderá nossas expectativas de consumo? Tem-se, portanto, aqui, já algumas distinções: a existência de uma confiança geral (pré-existente no grupo social) e de uma confiança aprendida, construída, composta por diferentes intensidades de elementos emocionais e racionais. Partindo, inicialmente, da confiança geral, estabelecemos relações que vão sendo permeadas progressivamente pelas nossas experiências individuais e relacionais e pelo conhecimento construído e acumulado pelos grupos sociais, o senso comum e pela incorporação do conhecimento cientifico por este. Como bem afirma Ivana Markova (2005, p. 49):
A confiança, também, é baseada no conhecimento. Como outros conceitos sociais, a confiança nunca faz qualquer sentido isoladamente, mas em relação a seu oposto, seja ele desconfiança, suspeita, fé ou outro, e na rede de outros conceitos, como por exemplo, capital social, crença, solidariedade, reciprocidade, segurança, etc. Usado na rede de conceitos e de práticas culturais e políticas, o termo confiança é altamente polissêmico. O significado da confiança e suas relações na rede de conceitos distintos se desenvolvem através do processo de socialização de conhecimento social e de comunicação entre o eu e os outros.

Estamos perante um problema delicado, pois me proponho aqui a refletir e pesquisar sobre uma representação social que se refere a meu ver a uma das mais fundamentais questões intersubjetivas. A confiança ao ser construída contextual e situacionalmente a partir da nãoassertividade do outro, constitui-se em elemento chave do próprio sistema humano de representação. Os valores e as normas de um grupo social condicionam o processo de ancoragem de qualquer novo conhecimento ou representação a ele estranha. Como confiamos nas normas e valores de nosso grupo tendemos a familiarizar aquilo que é diferente. A questão da confiança como valor também está presente na relação do sujeito social com todas as suas representações sociais, na medida em que estas são mantidas ou transformadas a partir da confiança que o sujeito possui de que elas efetivamente representem o objeto social em questão. Seguindo esta pista, podemos arriscar que a representação social da confiança que possuímos está ligada à estabilidade das representações que compartilhamos

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e que validamos uma determinada representação social ao percebermos que confiamos nela como expressão da realidade de determinado objeto social. Aqui me deparo, também, com a seguinte meta-questão: o quanto confio na minha representação social de confiança. 3.2.2 – A representação social da Confiança na sociedade contemporânea Agora se faz extremamente importante destacar aqui algumas abordagens contemporâneas que ressaltam a importância da confiança na era pós-moderna ou, como preferem outros autores, modernidade reflexiva, hipermodernidade, era pós-industrial ou modernidade líquida. Beck, Lash e Giddens (1997) ressaltam a existência de uma confiança ativa como característica da chamada modernidade reflexiva. A confiança ativa tem como características a reflexividade, a autonomia e o diálogo. A promessa do Iluminismo, de se obter controle e direcionamento sobre a natureza e sobre a vida possibilitando um futuro previsível, fracassou, produzindo na prática uma série de conseqüências ameaçadoras para a própria natureza e vida. A confiança num futuro melhor é cada vez mais reduzida. Existe um ceticismo generalizado em relação à verdade científica, à capacidade dos especialistas e na forma de representação política atualmente em voga. Segundo Giddens (1997, p. 221-222):
O que pode ser chamado de confiança ativa torna-se cada vez mais significativo para o grau em que emergem as relações sociais pós-tradicionais.A confiança ativa é a confiança que tem de ser tratada e mantida com energia. Hoje em dia, está na origem das novas formas de solidariedade social, em contextos que variam desde os laços pessoais íntimos até os sistemas globais de interação.

Esta confiança ativa se caracteriza por uma constante verificação da integridade do outro. Ela não é mais determinada apenas pela posição social ou posição técnica ou posição de poder ocupada por determinada pessoa. Não é mais tacitamente assumida, mas tem de ser explicitamente reafirmada pelas atitudes, posturas, ações (ibid., p. 222): A confiança deve ser conquistada e ativamente mantida; e isso geralmente pressupõe um processo de mútua narrativa e revelação emocional. Uma ―abertura para o outro é a condição do desenvolvimento de um laço estável – salvo quando os padrões tradicionais são por uma ou por outra razão re-impostos, ou quando existem dependências emocionais ou compulsões. Seguindo a trilha desta linha de pensamento, constatamos que a representação social da confiança se constitui, neste momento atual, como uma das representações sociais mais importantes no interior do sistema representacional dos grupos sociais, assumindo o papel de orientadora para as demais. O questionamento do processo de representação política, da

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fragmentação dos saberes através das especializações, do risco ecológico e dos valores e identidades pessoais tornam a representação social da confiança fundamental no pensamento reflexivo atual. 3.2.3 – Representação social da confiança no interior das organizações sociais de produção. Nas relações interpessoais que ocorrem no interior das organizações sociais de produção com fins lucrativos, nos deparamos frontalmente com a questão da confiança. Ao constituir uma organização de homens para produzir algo conjuntamente é fundamental confiar:
É verdade que o agir também jamais pode realizar-se em isolamento, porquanto aquele que começa alguma coisa só poderá levá-la a cabo se ganhar outros que o ajudem. Nesse sentido, todo agir é um agir in concert, como Burke costumava dizer: ―é impossível agir sem amigos e companheiros dignos de confiança‖ (Platão, 7a Epístola 325d), ou seja, impossível no sentido do prattein grego do executar e do concluir. (ARENDT, H., 2006, p. 58)

A ação efetiva – execução e conclusão - pressupõe confiança, que somente ocorre ao existirem ligações através de opiniões, afeições e interesses comuns (ibid., p. 203). Seguindo o conceito desenvolvido por George H. Mead (Mind, self, society, 1934) de ―outros significativos‖ e de ―outros generalizados‖, Serge Moscovici (2005, p. 42) nos afirma:
Creio que o conteúdo efetivo desse ―outro generalizado‖ é o de um outro prescritor – médico, juiz, pai, professor, etc. – que indica o que é recomendável, formalmente aconselhável, pensar ou fazer, a cada eu numa situação determinada. Por isso mesmo influencia a escolha das relações e das maneiras de ser de cada indivíduo, a adoção das regras convenientes a seguir, pois nunca se prescreve contrariamente aos interditos.

Agindo cada eu nosso em seu próprio papel de prescritor em relação ao outro (generalizado) igualmente prescritor são constituídas situações sociais em que são esperadas deste outro e de mim mesmo determinadas atitudes e comportamentos. Construímos uma representação de confiança a partir da expectativa que fazemos do comportamento do outro face ao papel em que este se situa no grupo social. Nas relações interpessoais com os ―outros prescritores‖ nos ambientes de trabalho estabelecemos representações sociais de confiança relacionadas aos papéis específicos que ambos ocupamos no interior das organizações. Estas representações da confiança ocorrem em diversos níveis: entre a empresa e o funcionário, entre este e a empresa, entre um colega de trabalho e outro, dentro de situações hierarquizadas de poder, entre grupos diferentes no interior da organização, entre os membros da organização e o desempenho desta no mercado. Seguindo Richard Sennett, podemos pensar a confiança em duas instâncias: a formal e a informal. A confiança formal é regida por contratos, acordos, normas, estabelecidos por escrito entre as partes. Na confiança informal já não ―vale o escrito‖, e sim o comportamento esperado entre as partes:

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O segundo déficit social, menos óbvio que o da baixa lealdade, diz respeito à confiança. A confiança pode assumir duas formas, formal e informal. A confiança formal significa que uma das partes adere a um contrato na crença de que a outra honrará seus termos. A confiança informal implica saber em quem podemos confiar, especialmente quando o grupo está sob pressão: quem desmoronará? Quem saberá aproveitar a oportunidade? A confiança informal leva tempo. Numa equipe ou numa rede, as pequenas dicas de comportamento e caráter vão aparecendo aos poucos; a máscara com que nos apresentamos aos outros geralmente oculta o grau de confiabilidade que demonstraremos numa crise (SENNETT, 2006, p. 64-65).

Portanto, é nas situações de stress, tensão, crise que a confiança é posta em cheque. Nestas ocasiões podemos perceber além da máscara, da simples representação de papéis, e perceber atitudes e comportamentos incompatíveis com as nossas RS da Confiança. Empresas em crise no mercado, processos de reengenharia, organizações que necessitam responder a rápidas e constantes mudanças no mercado implicam em diminuição do nível de confiança informal. A Psicologia Social Organizacional, através de Edgar Schein (1982), afirma a existência de um contrato psicológico de trabalho, que se adiciona ao que já se encontra estabelecido no contrato formal. Para regular as relações entre as instituições de produção e os indivíduos existem dois tipos de contratos de trabalho: o contrato legal e o contrato psicológico. Enquanto o contrato legal é formal, explícito, o contrato psicológico é implícito e geralmente não declarado, portanto, informal. Esses dois instrumentos regulam o conjunto de interesses e expectativas que se estabelecem entre indivíduo e organização. Este conjunto de expectativas recíprocas das partes, de cada uma sobre o comportamento da outra, é dinâmico e interativo, possuindo influência mútua e mútuo ajuste. Os dois contratos pressupõem o estabelecimento de relações de confiança entre a instituição e o indivíduo. As formas pelas quais e o quanto estes contratos são cumpridos ou não geram situações de alto capital social no interior da empresa ou, inversamente, o aparecimento de problemas psicossociológicos que envolvem ressentimentos, falta de colaboração, ausências do trabalho, queda de eficácia do desempenho, entre outros, que implicam em intensidades cada vez menores de confiança interpessoal nos ambientes de trabalho. Enquanto a confiança informal nos sinaliza sobre as RS de Confiança estabelecidas de forma ampla e geral, o contrato psicológico nos indica as formas de relacionamento nãoformalizadas entre empresa e funcionário. Esses conceitos nos serão fundamentais no entendimento do campo de representação escolhido para nossa pesquisa – a empresa com fins lucrativos – orientando a definição dos instrumentos de pesquisa e coleta de dados que iremos utilizar.

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Considerações Finais Conforme analisado ao longo do presente capítulo, é possível afirmar a relevância da utilização da Teoria das Representações Sociais para o estudo do objeto proposto em meu projeto de pesquisa de Tese de Doutorado: a confiança. Essa forma de abordagem teórica do pensamento social nos permitirá o estudo e a análise de como a confiança se constitui, como é representada e como influencia os comportamentos das pessoas no mundo do trabalho. Ela nos possibilita captar aquilo que acontece nas relações intersubjetivas sem cair no processo de dicotomia característico do conceito clássico de representação:
Primeiro e obviamente, a teoria das representações sociais se ergue sobre o conceito de representação. O que isso significa? De um lado significa que a teoria faz uma distinção entre sujeito e objeto. Mas também significa, de outro lado, que a teoria não transforma esta distinção em uma dicotomia. Senão, vejamos. Uma representação é atividade de alguém, que constrói uma substituição mental de algo, que é alter, que é outro, em relação à coisa que está sendo representada. O sujeito e o objeto, portanto, não coincidem. Há uma lacuna entre eles, e, de modo a preencher esta lacuna, emerge a representação. Este processo não envolve um espelhamento entre sujeito e objeto; pelo contrário, ele envolve de uma só vez e pela mesma via um trabalho de ligação e um trabalho de diferenciação entre o Eu e a alteridade. A representação liga o sujeito e o Outro e pelo mesmo processo os separa, pois a representação é algo que ocupa o lugar de, que faz as vezes de uma outra coisa. A representação portanto é uma mediação que liga a presença e a ausência e uma fronteira que, ao separar o que está presente do que está ausente, permite a um sistema de diferenciações emergir (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 181).

Igualmente destaquei o meu comprometimento com a Teoria do Núcleo Central, única que possibilita analisar a estrutura de uma representação complexa e abstrata como a da confiança, marcadamente normativa e fundamental para as relações interpessoais e intergrupais. Constatei, igualmente, a existência da confiança como objeto de representação social dada a sua relevância tanto para a vida psíquica quanto para a vida social. Finalmente assinalei a importância que a confiança assume na sociedade pós-moderna em geral e especificamente no mundo do trabalho, no interior das empresas lucrativas e demais organizações sociais de produção, traçando alguns parâmetros para a definição de nosso campo de pesquisa.

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CAPÍTULO 4 - REPRESENTAÇÃO SOCIAL DA CONFIANÇA NA ESFERA PÚBLICA E NO MUNDO DO TRABALHO

Mas, enquanto toda ciência, mesmo a mais tradicional, é ainda concebida como positiva e experimental, a crença na magia é sempre a priori. A fé na magia precede necessariamente a experiência: só se vai procurar o mágico porque se acredita nele; só se executa uma receita porque se tem confiança nela (MAUSS, M., 2003, p.127).

The Treachery of Images, Pintura. René Magritte 1928-192924

O objetivo deste capítulo é a reflexão sobre algumas questões fundamentais para esta tese de doutoramento – A Representação Social da Confiança. Para mim, enquanto economista, engenheiro de produção e mestre em psicologia social organizacional é fundamental entender como esta representação social da confiança reflete as formas como nos relacionamos no mundo do trabalho, sua repercussão sobre as equipes no interior das organizações e quais as conseqüências que uma dada representação social da confiança implica na eficácia organizacional. Assim, o mundo do trabalho situa-se naquilo que é chamado de esfera pública, daí a importância de analisarmos este conceito como base de nossas reflexões. Iniciei este capitulo citando acima as palavras de Marcel Mauss que mostram como a confiança sempre foi fundamental no comportamento humano em qualquer tipo de sociedade, desde as movidas por um pensamento mágico àquelas estruturadas por um tipo de

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Fonte: Internet. Disponível em:: <http://www.culturabrasil.pro.br/magritte.htm>. Acessado em: 12/04/2009.

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pensamento denominado científico. A confiança não é apenas essencial, mas utilizada como pressuposto básico da ação. É, portanto um fundamento central do pensamento do ―senso comum‖, foco do nosso interesse dentro da Teoria das Representações Sociais. Inicialmente iremos discutir aqui como estão hoje apresentados os principais paradigmas teóricos em Psicologia Social e avaliar a capacidade desta ciência de nos proporcionar uma abordagem adequada ao nosso propósito de estudo. Que instrumentos teóricos estão hoje disponíveis para a análise de nosso objeto de pesquisa e quais os limites deste instrumental? Posteriormente, iremos tecer algumas considerações sobre o objeto e o campo que foi definido para a pesquisa dentro da abordagem teórica e metodológica escolhida. Finalmente desenvolveremos alguns comentários preliminares sobre o objeto no interior do campo de pesquisa escolhido: como a confiança hoje é representada no mundo do trabalho e quais as conseqüências desta representação para o trabalho em equipe é o foco desta pesquisa.

Pintura. René Magritte

4.1 – A psicologia social e seu diálogo com outras ciências. A Psicologia desde seus primórdios já se preocupava com a relação entre indivíduo e sociedade. Surge como disciplina específica na segunda metade do século XIX, sendo o seu marco de fundação a publicação por Wundt de seus Fundamentos da Psicologia Física em 1873-74, seguida pelos seus dez volumes de psicologia social, publicados já no século XX, entre 1900 e 1920 (FARR, 2001, p. 37). Foi necessário que ainda decorresse certo período de

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tempo para que a Psicologia Social surgisse como campo de saber estruturado e autônomo. Ela nasce da necessidade de compreender e prever os comportamentos dos grupos sociais. Freud, apesar de centrar sua obra no homem individual, foca atenção nos processos sociais em Totem e tabu, O mal estar na civilização e O futuro de uma ilusão e nos mostra que é impossível pensar o indivíduo separado da sociedade. Deixa claro para nós que para a psicanálise a neurose é uma doença social, um produto da repressão dos instintos gerada pelo processo civilizador da humanidade. A decolagem da Psicologia Social acontece nos EUA. Gordon Allport afirma, em 1954, para seus estudantes que: ―as raízes da psicologia social podem ser encontradas no solo intelectual de toda a tradição ocidental‖, mas que seu desenvolvimento moderno é ―caracteristicamente americano‖ (FARR, 2001, p.19). No final da 2ª Guerra Mundial tais esforços de desenvolvimento podem ser percebidos devido às demandas existentes de se compreender e prever os comportamentos dos soldados americanos face às especificidades da vida no ambiente organizacional específico das forças armadas e dos efeitos das diferentes possibilidades de treinamento:
Os cientistas sociais colaboraram para realizar levantamentos sociais sobre a adequação de soldados à vida no exército (Stouffer, Lumsdaine et alii, 1949); na avaliação da eficácia das diferentes maneiras de instruir o pessoal militar (Hovland et alii, 1950); e na solução de problemas técnicos relacionados à mensuração das atitudes e à predição do comportamento (Stouffer et alii, 1950) (FARR, 2001, p. 19).

Tal demanda ocasionou inicialmente uma transposição dos conceitos da Psicologia, em especial da Psicologia Comportamental e Cognitiva, para a análise e tentativa de entendimento dos fenômenos psicossociais. Esta corrente teórica, denominada de Psicologia Social Norte-Americana, possui forte viés reducionista, já que, proveniente da psicologia comportamental clássica e da psicologia cognitiva, analisa os fenômenos sociais fundamentalmente a partir da observação dos comportamentos individuais e os agrega estatisticamente para formular as análises dos fenômenos coletivos. Todo o esforço de superação teórica dessas limitações cartesianas e positivistas que se desenvolve a partir desses momentos iniciais implicou na necessidade de um maior diálogo com outras áreas científicas de forma a que se pudesse desenvolver conceitos e metodologias mais adequados e que efetivamente abarcassem a complexidade e a abrangência dos fenômenos psicossociais. Progressivamente, então, foram sendo incorporados à Psicologia Social conhecimentos e conceitos provenientes fundamentalmente das Ciências Sociais como a Sociologia, História, e Antropologia, além da Lingüística e da Filosofia. Vou a seguir aqui

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tecer alguns breves comentários sobre este diálogo interdisciplinar sem ter a pretensão de escrever ou reescrever a historia da psicologia social. Na Sociologia as contribuições de Max Weber foram fundamentais. Sua Sociologia Compreensiva abarca fenômenos na instância psicológica dado que se preocupou em perceber as racionalidades que existem no comportamento humano dentro da sociedade, estabelecendo uma tipologia das ações e tipos ideais (tipo regular, tipo orientado com relação a fins, tipo mais ou menos consciente etc.). Igualmente abrange fenômenos psicossociais: definindo o agir em comunidade, o agir em sociedade, o sentido das ações humanas, os tipos de associação. Mesmo diferenciando explicitamente a Sociologia da Psicologia esse autor recorre freqüentemente a conceitos e termos psicológicos para construir sua análise racionalista da sociedade, assinalando os limites para esta racionalidade:
A sociologia, naturalmente, não apenas se ocupa da existência de ―motivos pressupostos‖ da ação, de ―satisfações substituídas‖, de orientações impulsivas e coisas similares, mas também, em maior grau, considera que elementos qualitativos, totalmente ―incompreensíveis‖, de um processo de motivações o co-determinam de modo mais estrito, também no que diz respeito à sua relação provida de sentido, em se tratando de suas conseqüências (WEBER, 1997, p. 319).

Verificaram-se, posteriormente, os limites da aplicabilidade de certos conceitos como ―social‖ e ―classes‖ utilizados pela Sociologia que acabaram por se mostrar extremamente vagos e insuficientes para preencher as necessidades teóricas da Psicologia Social Moderna. A renda, a atividade profissional, a faixa etária, o gênero não conseguem abarcar toda a complexidade e a sutileza dos fenômenos relacionados ao pensamento, sentimento e comportamento dos grupos sociais. A própria Sociologia desenvolveu um movimento em direção a explicações mais situacionais, centradas nas diferenças sociais e situacionais através da contribuição seminal de autores como G. H. Mead, Peter Berger, Thomas Luckmann e Erving Goffman entre outros. Fundamentalmente os autores construtivistas - Jean Piaget e seguidores - é que fornecem as novas bases para que a Psicologia Social pudesse se desdobrar em um corpo teórico mais consistente, fornecendo importantes contribuições ao novo campo de conhecimentos, através de abordagens teóricas em que são progressivamente suprimidos os reducionismos sociológico e psicológico. A Epistemologia Genética de Piaget trouxe ao mundo acadêmico a reflexão de que as potencialidades do corpo humano só se desenvolvem a partir da estimulação do meio. Preocupando-se com a criança e seu desenvolvimento suas pesquisas levaram à categorização de estruturas que se apresentam como fases onde determinadas ações e práticas antes inalcançáveis agora são possíveis. Deixa claro a importância do contexto social no

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desenvolvimento das capacidades humanas e o quanto não se pode reduzir o entendimento deste desenvolvimento apenas aos aspectos individuais e cognitivos. G. H. Mead nos mostra como em sociedade o indivíduo se constrói a partir do outro. Seus conceitos de outro significativo e o outro generalizado nos possibilitam a clareza desse entendimento essencial. Berger e Luckman (2004) nos demonstram como se dá a construção social da realidade através do papel da linguagem na construção dos significados, da criação de hábitos, da institucionalização, do desenvolvimento dos papéis sociais, da construção e manutenção dos universos simbólicos. Da Antropologia destacam-se os trabalhos de Marcel Mauss. Esse autor utiliza uma abordagem monista cuja indistinção entre indivíduo e sociedade constrói uma ponte indestrutível entre as análises da Sociologia e da Psicologia. Como é bem destacado por LéviStrauss na introdução que faz à obra de Mauss:
Assim, não é surpreendente que Mauss, convencido da necessidade de uma estreita colaboração entre sociologia e psicologia, tenha constantemente apelado ao inconsciente como o que fornece o caráter comum e específico dos fatos sociais: ―Tanto em magia e em religião como em lingüística, são as idéias inconscientes que agem‖ (MAUSS, 2003, p. 28).

Seus conceitos de fato social total e de homem médio nos fornecem importantes ferramentas analíticas. O fato social total leva em consideração as relações entre instituições sociais, as práticas sociais, o estabelecimento de estruturas simbólicas e ritualísticas e as suas relações e conseqüências com o corpo. O homem médio é aquele em que se observa a média dos comportamentos sociais, sendo, portanto seu pensamento a expressão do senso comum. Mauss se destaca por estabelecer com clareza que os significados dos signos lingüísticos são sempre construídos através de redes de significação, são relacionais. Uma palavra ou uma representação somente adquire sua significação em uma cultura em relação com outras palavras e significados destas. Quando penso em Representação Social da Confiança tenho que indagar quais são as relações da confiança com outros significantes encontrados no nosso campo de pesquisa que possibilitam o estabelecimento de seu significado em determinado grupo social. Aqui, outro autor nos fornece algumas pistas:
Como outros conceitos sociais, confiança nunca faz sentido em isolamento, mas apenas dentro da rede de outros conceitos, como por exemplo, neste caso, capital social, fé, crença, solidariedade, reciprocidade e segurança os quais, também, tem recentemente se tornado sujeitos de avaliação científica das ciências sociais. Utilizado na rede de conceitos diferentes e cenários culturais e políticos, o termo ‗confiança‘ é altamente polissêmico (MARKOVÁ, 2004, p.2).

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Esta procura, este diálogo entre as Ciências Sociais tem um ponto marcante que é o aparecimento da Teoria das Representações Sociais que agora passaremos a comentar. 4.2 – A teoria das representações sociais Na Europa, década de 50 do século XX, tem destaque a pesquisa realizada por Serge Moscovici sobre a Psicanálise na França que deu origem à sua obra seminal – La psychanalyse: son image et son public - um fundamental trabalho que introduz um novo conceito e gera uma nova escola teórica: a Teoria das Representações Sociais. Este autor estava fundamentalmente interessado em saber como o conhecimento científico chega à população e é assimilado e transformado nesta passagem entre dois universos de pensamento diferentes. Duas etapas são fundamentais neste processo: a ancoragem e a objetivação. Na ancoragem torna-se familiar o não-familiar, acomodando aos valores e crenças do grupo um novo conhecimento; a objetivação torna concreto e tangível o que foi representado, o que se encontra numa instância abstrata e intangível. Esta abordagem certamente se coloca como uma das mais ricas e promissoras para o acesso qualitativamente adequado e eficaz aos fenômenos psicossociais dado que possui um viés muito menos psicologizante, permitindo a aproximação teórica e o entendimento das interações entre grupo e indivíduo através da pesquisa de suas representações. Ademais permite ter clareza de como o grupo se relaciona com determinado objeto e prever as conseqüências do tipo de relacionamento estabelecido. Assim, conhecer Representações Sociais pode nos fornecer importantes instrumentos de ação político-social. Criticando a Psicologia Social Tradicional por estar baseada em modelos mecanicistas e positivistas, Moscovici através de sua obra clássica inaugura a chamada Escola Européia da Psicologia Social. Entre suas intenções iniciais estava a criação de uma Psicologia Social do Conhecimento:
Há numerosas ciências que estudam a maneira como as pessoas tratam, distribuem e representam o conhecimento. Mas o estudo de como, e por que, as pessoas partilham o conhecimento e desse modo constituem sua realidade comum, de como eles transformam idéias em prática – numa palavra, o poder das idéias – é o problema específico da psicologia social (MOSCOVICI, 2003, p.8).

Moscovici apoiou-se no pensamento de Lévy-Bruhl que afirma que toda crença é integrada em uma totalidade, em um sistema geral de mentalidade. Este autor ―ilumina as relações entre uma sociedade e suas representações‖ (MOSCOVICI, 2001, p. 50). Utiliza a sociologia de Simmell e Weber para ressaltar, nestes autores, a idéia de representação. O

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primeiro ―vê nas idéias ou representações sociais uma espécie de operador que permite cristalizar as ações recíprocas entre um conjunto de indivíduos e de formar a unidade superior que é a instituição‖ (op. cit., p. 46) enquanto que o segundo ―faz das representações um quadro de referência e um vetor da ação dos indivíduos‖ (op. cit., p. 46). Resgatou o conceito de representações coletivas de Durkheim. Essas últimas se constituem em formas estáveis de representação, obrigatórias para todos os membros de uma cultura e com alto poder coercitivo sobre o comportamento. Percebendo a forte diferenciação entre as sociedades tradicionais, estáveis e rígidas, e as modernas, dinâmicas, mutáveis e permeadas pela velocidade e alcance da tecnologia, em especial dos transportes e das comunicações, Moscovici concluiu que nestas últimas sociedades as representações assumiram novas formas: ―reconhecendo-se que as representações são, ao mesmo tempo, construídas e adquiridas, tira-se-lhe esse lado pré-estabelecido, estático, que as caracterizava na visão clássica‖ (MOSCOVICI, 2001, p.62). Propôs chamar de representações sociais:
Um sistema de valores, idéias e práticas, com uma dupla função: primeiro, estabelecer uma ordem que possibilitará às pessoas orientar-se em seu mundo material e social e controlá-lo; e em segundo lugar, possibilitar que a comunicação seja possível entre os membros de uma comunidade, fornecendo-lhes um código para nomear e classificar, sem ambigüidade, os vários aspectos de seu mundo e da sua história individual e social (MOSCOVICI, 2003, p.20).

O grande papel das representações é a familiarização. É impossível o ser humano se colocar frente a algo novo sem explicá-lo, sem torná-lo familiar: ―a finalidade de todas as representações é tornar familiar algo não-familiar, ou a própria não-familiaridade (MOSCOVICI, 2003, p. 54). A Teoria das Representações Sociais foca o processo de como um grupo social constrói sua relação com o mundo através das interações simbólicas, da linguagem e da ação. Preocupa-se com a relação que o grupo estabelece com os objetos de seu contexto histórico e como estas representações guiam as práticas do grupo e são transformadas pelo grupo. Devo perguntar sempre: ―‗que representação‘, ‗do que‘, ‗de quem‘, ‗por quem‘, ‗com quem‘, ‗onde‘, ‗quando‘ e ‗com qual propósito‘‖ (DE ROSA, 2006, p.176). Hoje a Teoria das Representações Sociais constitui amplo universo de pesquisa e estudo concretizado por um grande número de profissionais atuantes e uma quantidade expressiva de trabalhos realizados e publicados. A Teoria das Representações Sociais se divide em três grandes linhas de abordagem complementares.

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A primeira tem em sua principal representante a maior discípula do fundador da teoria, Denise Jodelet e se caracteriza pela utilização de abordagens provenientes das ciências sociais. O trabalho de Jodelet sobre a loucura nos mostra que dificilmente se tem clareza de uma representação social apenas ouvindo o que as pessoas dizem. Muitas vezes há grande incongruência entre o que dizem e o que fazem. Por este motivo aqui é proposta uma abordagem etnográfica, que permita a convivência no interior do grupo, a observação das práticas, dos hábitos, dos comportamentos, tentando tornando visível o invisível, como afirma Durveen. A preocupação de Jodelet com os aspectos culturais levou-a a se basear em antropólogos como Harold Garfinkel e na sua etnometodologia, nas abordagens culturais de Clitford Geert, em Jerome Bruner e sua interpretação da situação do indivíduo no interior de uma cultura e nas idéias do sociólogo Pierre Bourdieu (seu ethos de classe é semelhante à Representação Social). A segunda corrente tem W. Doise como principal representante e possui abordagem sociológica. Procura entender as Representações Sociais como parte de um conceito mais amplo: uma sociedade específica, em determinado momento histórico, com determinada estrutura e memória social que exercem forte determinação na ação dos indivíduos e grupos enquanto construtores das representações. A terceira, denominada Abordagem Estrutural tem cunho mais cognitivista e tem como fundador Jean Claude Abric. Preocupa-se com a estrutura das representações, como estas se organizam, estabelecem seu significado e acionam seu papel normativo. Dentro dos trabalhos recentes na Teoria das Representações Sociais, o estudo de Sandra Jovchelovicht – Representações Sociais e esfera pública – se destaca por focalizar a discussão no espaço de construção das Representações Sociais. Utilizando-se do conceito de esfera publica, ela abre uma discussão importante sobre o processo de construção das Representações e, certamente, se coloca como uma contribuição altamente enriquecedora ao campo teórico. É na esfera pública que se dá o compartilhamento social e a conseqüente construção e reconstrução das representações sociais. Aquilo que permanece privado, que não tem publicidade, não vai alem dos limites do individuo e é como se não existisse para a sociedade. Só passa a existir, só se imortaliza ou permanece na memória aquilo que é compartilhado na esfera pública.

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Entender e discutir a esfera pública, os mecanismos de compartilhamento e as formas de publicização certamente nos fornecerão instrumentos para estudarmos mais profundamente os processos de construção e transformação das Representações Sociais, possibilitando rumos mais eficazes para nossa análise dos fenômenos psicossociais. Realizarei, a seguir, uma discussão sobre o conceito de esfera pública e sua importância para o estudo das representações sociais. 4.3 – Representações Sociais e seu contexto: a Esfera Pública 4.3.1 – A Ágora: nascimento da esfera pública Denominam-se de públicos os acontecimentos que são acessíveis a qualquer um, que não se realizam em lugares secretos ou em sociedades fechadas. Mas os conceitos de público e privado têm longa história, possuindo origem na Grécia e tendo vindo até nós em sua releitura romana:
Na cidade-estado grega desenvolvida, a esfera da polis que é comum aos cidadãos livres (koiné) é rigorosamente separada da esfera do oikos , que é particular a cada indivíduo (idia). A vida pública, bios polítikos, não é, no entanto, restrita a um local; o caráter público constitui-se na conversação (lexis), que também pode assumir a forma de conselho ou de tribunal, bem como a de práxis comunitária (praxis), seja na guerra, seja nos jogos guerreiros (HABERMAS, 2003, p.15).

A chamada esfera pública em seu nascimento na antiga Grécia está neste momento inicial vinculada ao espaço denominado Ágora, onde se reuniam os cidadãos gregos para discutir e definir a resolução das questões que diziam respeito à vida da cidade. Este espaço se contrapunha à esfera privada a qual se restringia às questões particulares de cada família grega, aquelas questões cuja discussão e decisões não diziam respeito ao público. A Ágora era o espaço que possibilitava a democracia direta, forma política onde cada cidadão pode apresentar questões para discussão em público diretamente, sem necessidade de intermediação representativa. Um fato historicamente relevante foi a morte de Sócrates, decretada através do julgamento público na Ágora ateniense. Apesar de ter se negado a fugir e ter se defendido de forma brilhante Sócrates perdeu o debate e foi condenado à morte. Seu discípulo Platão realizou, então, uma crítica fundamental ao processo de democracia direta. Seu argumento é que a democracia direta, caracterizada pela livre expressão em praça pública dos cidadãos (identidade grega que excluía escravos, mulheres, crianças e estrangeiros) não levaria necessariamente às melhores decisões políticas e ao melhor futuro da pólis. No seu livro A

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República, Platão defende um governo de desiguais, onde o Rei-filósofo, representando a todos com a sua sabedoria filosófica, seria a pessoa mais indicada para decidir com base no conhecimento da verdade. Posteriormente diversos autores refletiram sobre o processo político representativo, democrático ou não. Dentre eles destacamos Hobbes que afirma que:
Uma multidão de homens é transformada em uma pessoa quando é representada por um só homem ou pessoa, de maneira a que tal seja feito com o consentimento de cada um dos que constituem essa multidão. Porque é a unidade do representante, e não a unidade do representado que faz com que a pessoa seja una. E é o representante o portador da pessoa, e só de uma pessoa. Esta é a única maneira como é possível entender a unidade de uma multidão (HOBBES, 1999, p. 137).

A idéia de representação política é uma concepção completamente diferente da forma como se participava politicamente na democracia direta. É importante destacar que todo o argumento de Hobbes passa pelo pensamento da existência de indivíduos no início separados, que se tornam uma unidade apenas pelo aparecimento de seu representante, seja democraticamente ou não. Estes indivíduos vivem em luta perpétua entre si até o estabelecimento da transformação da multidão em uma pessoa – o representante. Existem diferenças significativas entre o processo democrático direto e o atual, indireto ou representativo:
Para os antigos a imagem da democracia era completamente diferente: falando da democracia eles pensavam em uma praça ou então em uma assembléia na qual os cidadãos eram chamados a tomar eles mesmos as decisões que lhes diziam respeito. ―Democracia‖ significava o que a palavra designa literalmente: poder do démos25, e não como hoje, poder dos representantes do démos (BOBBIO, 2000, p. 372).

A diferença fundamental é que no processo indireto nunca podemos estar totalmente assegurados de estarmos bem representados. Tal fato implica em uma necessidade de confiança no representante. Assim, a transformação da democracia direta em democracia representativa determinou substanciais alterações no que se refere à esfera pública, notadamente em relação à forma de apresentação de questões e tomada de decisões políticas que afetam a vida dos cidadãos. Poder decidir diretamente, discutir pessoalmente e influenciar diretamente na decisão final é muito diferente de decidir apenas sobre ―quem vai decidir por mim‖. Eleger

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Demos significa a ―comunidade dos cidadãos‖.

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um representante através do voto trouxe para os sistemas políticos democráticos a questão da confiança nos representantes eleitos. A estrutura da esfera pública das democracias indiretas coloca uma importante luz numa das principais questões referentes ao nosso tema de pesquisa, As Representações Sociais da Confiança. Algumas questões imediatamente se apresentam: Qual a confiança que podemos estabelecer naqueles indivíduos que nos representam na sociedade? Quando delegamos nosso poder de decisão política a um representante eleito pelo voto qual o risco que corremos de que ele efetivamente não nos represente? O quanto podemos realmente confiar nestes representantes? O que os candidatos a representantes fazem para nos convencer de que são confiáveis? Que representação (imagem) deles mesmos tentam construir para nos assegurar confiança em seu caráter, em seus propósitos? Quais são os processos de vigilância e controle, os mecanismos de transparência e de cobrança que possuímos para efetivamente confiar nos nossos representantes? A mudança da esfera pública foi acompanhada pela paulatina mudança da concepção de indivíduo e da relação entre indivíduo e sociedade que iremos descrever a seguir. 4.3.2 - Indivíduo e sociedade: uma questão teórica crucial É importante assinalarmos aqui as diferenças existentes entre as concepções antiga e moderna das relações indivíduo/sociedade. A concepção moderna provém da igualdade de natureza entre os homens, fruto da proposição cristã da ―irmandade entre os homens, filhos de um Deus único‖. Essa igualdade, um dos princípios fundamentais da Revolução Francesa, tornou-se a base da doutrina jus naturalista que se estabeleceu a partir da idéia do indivíduo isolado, livre e autônomo fundamentando a necessidade do estabelecimento de direitos humanos universais e individuais. A base filosófica da democracia moderna se forma tendo como fundamento esses princípios. Em contrapartida, entre os antigos havia uma visão bastante diversa dessa relação indivíduo/sociedade, não existindo entre eles uma forte concepção de separação entre estes dois conceitos:
A filosofia política dos antigos não é predominantemente uma filosofia individualista, e muito menos atomizante. A sua inspiração dominante é aquela bem expressa na tese aristotélica do homem originariamente animal social que vive desde o nascimento em uma sociedade natural como a família. Essa idéia estará na base da teoria organicista que teve longa vida no pensamento político ocidental e contribuiu para manter vivo o conceito de povo como um todo superior às partes até chegar a filosofia romântica alemã. (BOBBIO, N. 2000, p. 378379).

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Assim, a concepção dicotômica estabelecida entre indivíduo isolado e sociedade só se institui fortemente na época da Revolução Francesa e do Iluminismo, quando as idéias de Descartes, Bacon, Newton e posteriormente o positivismo de Augusto Comte fundamentam o método científico moderno que deu base metodológica às obras da Sociologia, Psicologia, Economia, Antropologia, História e Ciência Política. Autores como Max Weber, Adam Smith, Vilfredo Pareto, Sigmund Freud, entre muitos outros, tiveram sua obra transpassada pela abrangência e pelos limites desse paradigma. É importante assinalar que na concepção oriental, sobretudo indiana do mundo, o indivíduo só se desenvolve a partir do seu rompimento com a vida social, o isolamento que permite o desenvolvimento espiritual do indivíduo fora do mundo. Já o modelo ocidental do homem moderno consiste ―no indivíduo que afirma e vive a sua individualidade, encarada como um valor, no interior do mundo, o indivíduo mundano: cada um de nós‖ (VERNANT, 1987, p.25). Esta individualidade moderna se deriva e depende da primeira, pois, conforme afirma Louis Dumont: ―quando surgem os primeiros germes de individualismo, tal sucederá sempre em oposição com a sociedade e sob a forma do indivíduo fora do mundo‖ (op. cit., p. 26). Para entender os limites da nossa representação social hegemônica de indivíduo e não se deixar levar pelo seu reducionismo deve-se distinguir ―o sujeito empírico que fala, pensa e quer, ou seja, a amostra individual da espécie humana, tal como a encontramos em todas as sociedades‖ do ―ser moral independente, autônomo e, por conseguinte, não-social, portador dos valores supremos, e que se encontra em primeiro lugar em nossa ideologia moderna do homem e da sociedade‖ (DUMONT, 1993, p. 37). Devemos insistir em um ponto crucial que precisa ficar bem claro: o indivíduo pensado como separado da sociedade faz parte de uma construção do pensamento social realizada paulatinamente através de séculos, como demonstra Dumont em sua genealogia deste conceito. Este autor inicia a partir do papel do cristianismo neste processo passando pela concepção ética de Lutero até chegar à sua constituição filosófica fundamental, elaborada no período do iluminismo e que progressivamente foi se tornando parte do senso comum do mundo ocidental. Esta representação social de homem individual é a que ainda prevalece nos dias atuais, da forma mais acirrada possível - o individualismo - regendo e justificando o comportamento social auto-centrado e trazendo conseqüências humanas funestas como a corrosão do caráter do homem moderno muito bem assinalada por Richard Sennett (2005).

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Assim se estabeleceu no senso comum a representação social de uma sociedade de indivíduos isolados. Esta forma míope de perceber o mundo da vida e a si-mesmo produz forte sentimento de separatividade do social, competição e medo gerando alta individualização que reduz fortemente o Capital Social e a confiança, implicando em uma grande diminuição da eficiência dos processos produtivos e o desperdício de recursos naturais. Esta concepção de indivíduo baseia-se num tipo de reducionismo filosófico proveniente do pensamento cartesiano-newtoniano e positivista do qual é preciso que o homem moderno se liberte. Abandonar esta visão limitada é tarefa fundamental das Ciências Sociais, principalmente da Psicologia Social, um passo inevitável para que possa cumprir seu papel de dar conta eficazmente de seus objetos e efetivamente conseguir produzir conhecimentos de alto valor, úteis para a melhoria da vida humana. Tal preocupação é fundamental, pois a Ciência necessita cada vez mais sair dos circuitos fechados da produção do saber e chegar aos grupos sociais, transformando-os e sendo transformada por estes. Esta é uma de suas ―funções essenciais‖, como expressa Moscovici em sua obra que inaugurou o campo teórico das representações sociais:
Tal atitude, sob o abrigo da tradição, ignora, entretanto, os prolongamentos mais vastos de uma ciência, os quais representam uma de suas funções essenciais, a saber, transformar a existência dos homens. Ela o consegue à força de fazer gravitar sua experiência ordinária em torno de novos temas, de inculcar significados diferentes a seus atos e a suas falas, de transportá-los, por assim dizer, para um universo de relações e de eventos estranhos, até então desconhecidos. Se tiver êxito, ei-la convertida em material de que cada indivíduo se recompõe e recompõe subseqüentemente a história individual e social, parte integrante de sua vida afetiva e intelectual. Aí trabalham e são trabalhados os seus elementos, passando por estases até se fundirem na massa de materiais passados e perderem a sua individualidade. Uma ciência do real torna-se, assim, uma ciência no real, dimensão quase física deste. Atingindo esse estágio, sua evolução é assunto da Psicologia Social (MOSCOVICI, 1978, p. 17-18)

Portanto, um dos papéis principais da Psicologia Social é entender como este processo – a incorporação do conhecimento cientifico pelo senso comum - está acontecendo e suas conseqüências nos mais diversos campos, sendo que somente através da utilização do conceito de Representações Sociais que podemos alcançar eficácia nestes estudos. Como a construção das Representações Sociais se efetiva pela intersubjetividade nos espaços públicos e privados da sociedade, iremos agora analisar as características destes espaços. 4.3.3 - Esfera pública e esfera privada Iniciamos com duas definições de esfera pública: ―Habermas define a esfera pública como ‗um espaço de livre acesso onde cidadãos se encontram para debater e racionalmente

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desenvolver argumentos sobre questões da vida comum‘ e Hanna Arendt a descreve como ‗um espaço que pertence a todos e é comum a todos‘‖ (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 30-31). O que caracteriza fundamentalmente a diferença entre as esferas pública e a privada é que a primeira se fundamenta na publicidade e a segunda no segredo. Só é público aquilo que é compartilhado publicamente. Publicidade é o mecanismo que possibilita a existência da esfera pública:
O termo ―público‖ denota dois fenômenos intimamente correlatos, mas não perfeitamente idênticos. Significa, em primeiro lugar, que tudo o que vem a público pode ser visto e ouvido por todos e tem a maior divulgação possível. Para nós, a aparência – aquilo que é visto e ouvido pelos outros e por nós mesmos – constitui a realidade. Em comparação com a realidade que decorre do fato de que algo é visto e escutado, até mesmo as maiores forças da vida íntima – as paixões do coração, os pensamentos da mente, os deleites dos sentidos – vivem uma espécie de existência incerta e obscura a não ser que, e até que sejam transformadas, desprivatizadas e desindividualizadas, por assim dizer, de modo a se tornarem adequadas à aparição pública (ARENDT, 1991, P. 59-60).

Arendt mostra com precisão e clareza que aquilo que não é expresso e compartilhado, aquilo que não se torna público, aquilo que permanece retido no indivíduo possui vida limitada. O que fica na esfera privada, como precisamente diz a palavra: priva, possui privação, implica em limites. Quando o indivíduo morre, aquilo que ele não expressou e compartilhou morre com ele. Mesmo o que se compartilha privadamente em família ―jamais pode substituir a realidade resultante da soma total de aspectos apresentados por um objeto a uma multidão de espectadores‖ (op. cit., p.67). Um aspecto importante é a possibilidade de compartilhar. O compartilhamento é tanto maior quanto mais equilibradas são as relações de assimetria e simetria das sociedades. Em uma sociedade tirânica ou nas sociedades de massa onde há alto grau de coerção impositiva de valores e de normas de comportamento, todos devem ser absolutamente iguais, simétricos. Nesta configuração social absolutamente simétrica se impede a expressão e o compartilhamento de diferenças individuais. É aqui ―onde vemos todos passarem subitamente a se comportar como se fossem membros de uma única família, cada um a manipular e prolongar a perspectiva do vizinho‖ (op. cit., p. 67). Como resultado dessa situação ―os homens se tornam seres inteiramente privados, isto é, privados de ver e ouvir os outros e privados de ser vistos e ouvidos por eles‖ (op. cit., p. 67), tornando-se prisioneiros de si mesmos. A simetria absoluta torna impossível publicizar: tudo permanece privado. Por outro lado, ao imaginarmos a possibilidade de assimetria absoluta constataremos também a inviabilidade da publicidade e da esfera publica uma vez que a diferença absoluta

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entre todos impossibilita a comunicação, o entendimento e o interesse. Somente sociedades com graus equilibrados de simetria-assimetria é que viabilizam e estimulam a variada riqueza das trocas intersubjetivas. Nas sociedades de democracia representativa tem-se, desde o seu início histórico, a consciência do papel e da importância da publicidade quanto à necessidade de transparência das ações para a legitimação da própria organização sócio-política, como podemos entender das declarações de Guizot:
A publicidade dos debates nas Câmaras submete os poderes ao dever de que cada cidadão se convença de que essa busca é feita de boa fé (...) representar significa tornar visível (...) um ser invisível por meio de um ser que está presente publicamente (GUIZOT, F., apud BOBBIO, 2000, p. 387).

A importância fundamental da publicidade sempre esteve ressaltada dentro da esfera pública desde o seu nascimento na Grécia até o limiar das formas democráticas modernas, na Revolução Francesa, esta publicidade não se manteve igual ao longo do tempo, mas veio se transformando progressivamente de forma conjunta com as próprias alterações ocorridas na própria esfera pública. 4.3.4 - As transformações na esfera pública e a publicidade Se em seu primeiro momento a esfera pública funcionava de forma direta, através da atuação do cidadão livre na Ágora, com o aparecimento da esfera pública burguesa várias mudanças ocorrem. Em primeiro lugar acontece o aparecimento de uma burguesia mercantil a qual não necessita, num primeiro momento de um processo mais amplo de publicidade. Uma mudança fundamental posterior foi o surgimento da esfera do poder público, a partir do século XVI:
Esta se objetiva numa administração permanente e no exército permanente; à permanência dos contatos no intercâmbio de mercadorias e de noticias (bolsa, imprensa) corresponde agora uma atividade estatal continuada. O poder público se consolida em algo antitético e que apenas é tangenciável por aqueles que lhe são meros subordinados e que, de início, só encontram nele a sua própria definição negativa. Pois eles são as pessoas privadas que, por não terem qualquer cargo burocrático no Estado, estão excluídos da participação no poder publico. Neste sentido estrito, ―público‖ torna-se sinônimo de estatal; o atributo não se refere mais à ―corte‖ representativa com uma pessoa investida de autoridade. Mas antes ao funcionamento regulamentado, de acordo com as competências, de um aparelho munido do monopólio da utilização legitima da força (HABERMAS, 2003, p. 31-32).

E seguindo Habermas em sua genealogia da esfera pública: ...é nesta esfera privada da sociedade que se tornou publicamente relevante que Hanna Arendt pensa quando ela caracteriza, em contraposição à sociedade antiga, a relação moderna entre a esfera pública e esfera privada mediante a formação do social (op. cit., p. 33).

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Progressivamente, então, a esfera pública vai se interpenetrando com o setor privado, destruindo a base da esfera pública burguesa que consistia na separação entre Estado e sociedade. Na segunda metade do século XIX entram em cena intervenções estatais do tipo mecanismos reguladores do livre comércio, prestações de serviços, coordenação de atividades privadas através da elaboração de planos e outras que vão tornando o Estado cada vez mais um Estado produtor e distribuidor. O aparecimento do Direito Privado Publicizado mostra a evolução jurídica necessária para acompanhar as transformações econômicas e sociais do período. A publicidade como nós conhecemos hoje, fundamentalmente representativa e indireta, tem seu início com o aparecimento do mercado de bens culturais que se forma a partir do século XVIII no interior do que Habermas denominou de esfera pública literária. Na medida em que esta avança em direção ao consumo, em que incorpora interesses comerciais e de lucro, perde seu caráter literário e ganha um caráter interessado e manipulador:
Na passagem do público que pensa a cultura para o público que consome cultura, o que anteriormente ainda se permitia que se distinguisse como esfera pública literária em relação à esfera política perdeu o seu caráter específico. A ―cultura‖ difundida através dos meios de comunicação de massa só é particularmente uma cultura de integração; ela integra não só informação e raciocínio as formas publicitárias como as formas literárias da beletrística psicológica, para uma ocupação e ―ajuda‖ de vida determinada pelo human interest; ela é suficientemente elástica para também assimilar ao mesmo tempo, elementos da propaganda, ate mesmo para servir como uma espécie de super-slogan que, caso ainda não existisse, poderia ter sido simplesmente inventado para fins de public relations do status quo. A esfera pública assume funções da propaganda. Quando mais ela pode ser utilizada como meio de influir política e economicamente, tanto mais apolítica ela se torna no todo e aparenta estar privatizada (op. cit., p. 207-208).

E sobre a publicidade, este autor nos indica como ela é usada para a produção de imagens ou aura que serve para o processo de dominação da opinião do público:
A publicidade é desenvolvida como que do alto a fim de criar uma aura de good will para certas posições. Originariamente a publicidade garantia a correlação do pensamento público tanto com a fundamentação legislativa da dominação como também coma supervisão critica sobre o seu exercício. Entrementes, ela possibilita a peculiar ambivalência de uma dominação sobre a dominação da opinião não-pública: serve à manipulação do público na mesma medida que à legitimação ante ele. O jornalismo critico é suprimido pelo manipulativo (op. cit., p. 210).

Dar publicidade é compartilhar significados e construir significados conjuntamente. Vamos refletir sobre o que a Antropologia pode nos fornecer sobre as relações entre as duas esferas e o processo de atribuição de significação.

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4.3.5 – Esferas pública e privada como espaços de significação A Psicologia Social em seu diálogo com a Antropologia apreendeu que o espaço possui configuração simbólica: ―o espaço se confunde com a própria ordem social de modo que, sem entender a sociedade com suas redes de significações e valores, não se pode interpretar como o espaço é concebido‖ (DA MATA, 1997, p. 32). Este autor nos mostra como existem, nas diversas sociedades, ―esferas de significação social‖ que circunscrevem ―visões de mundo‖ específicas e, nas quais, o comportamento, as atitudes e as crenças individuais se conformam, se transformam, se adaptam. Define, para refletir sobre o Brasil, ―casa‖, ―rua‖ e ―outro mundo‖ como as esferas de sentido perspectivístico:
O comportamento esperado não é uma conduta única nos três espaços, mas um comportamento diferente de acordo com o ponto de vista de cada uma dessas esferas de significação. Nessa perspectiva, as diferenciações que se podem encontrar são complementares, jamais exclusivas ou paralelas. Em vez de serem alternativas, com um código dominando e excluindo o outro como uma ética absoluta e hegemônica, estamos diante de codificações complementares, o que faz com que a realidade seja sempre vista como parcial e incompleta (op. cit., p. 52).

O conceito de esferas de significação permite clarear as relações entre a esfera pública (rua) e a esfera privada (casa, indivíduo) com uma abordagem útil ao nosso tema e campo de pesquisa. Quando inicialmente escolhi o mundo do trabalho como campo de investigação a razão fundamental foi o pensamento de que este seria o espaço ideal para estudar as Representações Sociais da Confiança face ao fato de que é este o espaço mais adequado para medir as relações entre confiança e capital social. Na empresa a eficácia e a eficiência podem ser mais facilmente visualizadas em dados estatísticos objetivos como os da produção e do lucro. Por outro lado, a empresa, apesar de ser um espaço coletivo privado, representa para o indivíduo a rua em relação a casa, o espaço público em relação ao privado. A rua significa o medo, o estranho, o ameaçador: Tudo isso revela gritantemente como o espaço público é perigoso, e como tudo que o representa é, em princípio, negativo porque tem um ponto de vista autoritário, impositivo, falho, fundado no descaso e na linguagem da lei que, igualando, subordina e explora (op. cit., p. 64). Este sentimento de medo, de ameaça, de incerteza é próprio da rua e próprio da empresa, do mundo do trabalho. Na verdade não foi sempre assim. A casa e a empresa não eram diferenciadas na produção artesã da Idade Média e nos primórdios do capitalismo. Posteriormente, durante um largo período de tempo as empresas se espelhavam na casa de família para tentar criar um ambiente acolhedor e amigável que estimulasse a produtividade. A postura do empresário como autoridade paternalista espelha este fato, como bem descreve

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Richard Sennett (2001) contrapondo-a ao tipo contemporâneo de autoridade fundamentada na autonomia e na indiferença. Na medida em que foram aparecendo e se desenvolvendo as grandes corporações burocráticas, magistralmente descritas por Max Weber, as relações no interior das empresas produtivas foram ganhando uma forma mais fria e distanciada. As empresas foram espelhando cada vez mais as cores simbólicas da ―rua‖ e acentuando os sentimentos de insegurança e medo em seus funcionários, com evidentes repercussões para as Representações Sociais de Confiança em seu interior. Com as transformações da era pós-industrial – reengenharia, diminuição drástica dos empregos fixos, aumento da produtividade tecnológica, terceirização – a insegurança profissional tornou-se mais acirrada. E com isso aumentou a competição, o que implica na visão do ―outro como inimigo‖ e não como colaborador dentro das equipes de trabalho. Como resultado desse processo, cada vez mais a empresa é igualada a rua, portanto esfera de significação de desconfiança, incerteza, medo, insegurança. 4.3.6 - A publicidade e o segredo Aqui devemos comentar umas das questões mais delicadas do sistema político moderno e, fundamentalmente, das democracias modernas: o segredo. Apesar da esfera pública se caracterizar pela publicidade, que permite o acompanhamento e a fiscalização dos representantes eleitos, é fato admitido socialmente que é necessário o segredo para governar:
O poder tem uma irresistível tendência a esconder-se. Elias Canetti escreveu de maneira lapidar: ―o segredo está no núcleo mais interno do poder‖. É compreensível também porque: quem exerce o poder sente-se mais seguro de obter os efeitos desejados quanto mais se torna invisível àqueles aos quais pretende dominar. Um dos temas principais dos tratados políticos dos séculos em que prevalecem formas de governo autocráticas é aquele dos arcana imperii. A principal razão pela qual o poder tem necessidade de subtrair-se do olhar do público está no desprezo ao povo, considerado incapaz de entender os supremos interesses do Estado (que seriam, no julgamento dos poderosos, os seus próprios interesses) e presa fácil dos demagogos (BOBBIO, 2000, p.387).

Portanto, segundo este autor: ―pertence à essência mesmo do poder se ocultar‖. O poder autocrático inclui ainda a possibilidade da mentira: ―Faz parte da preceptiva dos teóricos da razão de Estado a máxima de que ao soberano é licito mentir‖ (op cit, p. 389). Platão, Aristóteles e Maquiavel declaram a capacidade de simulação como virtude do soberano, dado que o povo é ingênuo como uma criança e não deve saber, já que não é capaz de boas decisões.

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Certamente a máxima do arcana imperii foi fundamental por muito tempo e ainda hoje o é, só que mais implicitamente assumida do que explicitamente admitida. Aproveitando a precisa citação que Bobbio faz de Canetti:
―o poderoso, que se serve do próprio segredo, conhece-o com exatidão e sabe muito bem apreciar a sua importância nas várias circunstâncias. Ele sabe seu objetivo se quer obter algo, e sabe também qual de seus colaboradores empregar na cilada. Ele tem muitos segredos porque deseja muito, e combina-os em uma sistema dentro do qual se preservam reciprocamente: um segredo confia a este, outro àquele, e faz de tal modo que os indivíduos depositários do segredos não possam unir-se entre si. Qualquer um que saiba de alguma coisa passa a ser controlado por um outro que contudo ignora qual seja na verdade o segredo do espionado‖ (op. cit., p. 399)

Este pensamento se tornou característica do comportamento individual como bem caracterizou J. Habermas através do conceito de ação racional com respeito a fins. É a ação instrumental ou estratégica, o indivíduo privilegia os resultados, as metas e desvaloriza os relacionamentos humanos, justificando a manutenção do segredo de suas intenções finais, não se importando em se utilizar dos outros indivíduos para a consecução de seus objetivos pessoais. Tal comportamento característico do individualismo moderno é a base da quebra da confiança interpessoal, tanto na empresa quanto em outros espaços sociais. Habermas propõe a ação comunicativa como possibilidade ética relacional que permite a construção conjunta de pactos de convivência (HABERMAS, 1975). Esta idéia de segredo necessário introduz um paradoxo relacionado à esfera publica: precisa-se da publicidade para se estruturar a esfera pública ao mesmo tempo em que o setor público necessita do segredo, característica que na democracia direta grega pertencia exclusivamente à esfera privada. As questões relacionadas com a clareza, a transparência e o acompanhamento e controle pelos cidadãos de seus representantes eleitos se tornam ameaçadas. A confiança do público no governo precisa ser bem construída, estabelecida e mantida. No interior das organizações de produção lucrativas o segredo existe abundantemente. A direção da empresa retém uma quantidade expressiva de informações estratégicas como segredo, semelhante ao segredo de Estado. O vazamento de certas informações para as empresas concorrentes poderia ser catastrófico. Mas, assim, outras informações que seriam necessárias à eficácia produtiva igualmente deixam de fluir, gerando intrigas e desconfiança, principalmente em momentos de crise e mudança. A competição interna interdepartamental faz com que informações, que pertencem à empresa como um todo, se tornem segredo de um departamento, de determinada equipe. Na estrutura informal de poder, as redes que se formam

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dentro da empresa guardam segredos em seu interior. Todos os fatores que se vinculam ao segredo, à não publicidade de informações, alimentam a desconfiança e minam o capital social da organização. Por estes motivos há um movimento cada vez mais intenso nas empresas para a gestão do conhecimento organizacional, o que implica em tornar explícitas, organizadas e acessíveis as informações que normalmente estão implícitas, caóticas e secretas. A denominada inteligência competitiva da empresa, ou seja, sua capacidade de exercer poder no mercado, depende da gestão do conhecimento. Mas este esforço por publicizar a informação e a troca relacional dos funcionários de uma empresa pode vir a dar o resultado inverso, conforme comenta Sennett em relação às tentativas arquitetônicas de se ampliar os espaços coletivos e abertos das organizações:
Esta destruição de paredes, adiantam os planejadores de escritórios, melhora o desempenho dos escritórios, pois, quando as pessoas se encontram durante todo o dia expostas visualmente umas às outras, é menos provável que tenham uma atitude reservada. Quando todos estão se vigiando mutuamente, diminui a sociabilidade, e o silêncio é a única forma de proteção. O projeto do escritório em andar aberto leva ao extremo o paradoxo da visibilidade e do isolamento, um paradoxo que pode também ser enunciado inversamente. As pessoas são tanto mais sociáveis quanto mais tiverem entre si barreiras tangíveis, assim como necessitam de locais específicos, em público, cujo propósito seja reuni-las. Em outros termos, diríamos: os seres humanos precisam manter uma certa distância da observação íntima por parte do outro para poderem sentir-se sociáveis. Aumentem o contato íntimo e diminuirão a sociabilidade. Esta é a lógica de um tipo de eficiência burocrática (SENNETT, 1988, p. 29).

Assim, quanto mais estamos expostos aos outros, mais precisamos estar seguros de que aquilo que fazemos não terá atribuição de sentido negativa para nós (fato que pode acontecer facilmente em um sistema competitivo em que se disputam promoções e poder). Assim, desconfiamos do olhar do outro, silenciamos, controlamos gestos e comportamentos e procuramos, fortemente, uma gestão das aparências para proteger emprego e carreira. Esta procura de significados é uma mudança que ocorreu, de acordo com este autor, pela influência do secularismo, surgida no século XIX. Um código do imanente, ao invés do transcendente, a fundamenta, implicando em que o fato, o instante, as aparências fossem vistas como realidade em si:
Essa reestruturação do código de conhecimento secular teve um efeito radical sobre a vida pública. Significava que as aparições em público, por mais mistificadoras que fossem, ainda assim tinham de ser levadas a sério, porque poderiam constituir pistas da pessoa oculta por trás da máscara. Qualquer aspecto da pessoa era de algum modo verdadeiro, porque tangível; de fato, se essa aparência era um mistério, essa era uma razão a mais para que fosse levada a sério (op. cit., p. 37).

O fato de a sociedade acreditar em que tudo possui um significado ―faz deste modo penetrar um profundo elemento de dúvida sobre si-mesmo em seu aparato cognitivo, pois qualquer exercício de discriminação pode ser um equívoco‖ (op. cit., p. 37). Assim, a

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confiança nas reflexões enfraquece e a desconfiança acaba por assumir proporções avassaladoras: hoje desconfiamos e procuramos dar significados a toda e qualquer aparência e, ao mesmo tempo nós perigosamente desconfiamos dos significados que atribuímos ao mundo. 4.3.7 – Transformações da publicidade Como relatamos anteriormente, a publicidade é o fator que caracteriza e diferencia a atuação na esfera pública da atuação na esfera privada. Na sua longa transformação desde a Grécia a publicidade passa de uma forma direta, cara-a-cara, a formas representativas e mediadas tecnologicamente. A seguir fazemos uma descrição sucinta dessas transformações. Inicialmente a publicidade se realiza de forma direta, o indivíduo agindo na ágora, sendo esta publicidade de caráter fundamentalmente político, mas indiferenciado dos aspectos econômico ou cultural da vida humana. Progressivamente a publicidade no espaço político se torna indireta e representativa como aconteceu no Império Romano. Na Idade Média praticamente desaparece a diferenciação entre esfera pública e privada, sendo que o único aspecto notável da publicidade acontece através das marcas e brasões do senhor feudal, que tornam público seu poder e seu domínio sobre determinada região. Na nascente esfera pública burguesa a necessidade de publicidade inicialmente se restringe apenas à divulgação das mercadorias disponíveis para venda e compra. Surgem os primeiros jornais impressos produzidos por uma imprensa cultural e crítica. Num segundo momento da esfera pública burguesa há o aparecimento de uma indústria cultural com objetivo de lucro, fato que implicou na substituição do jornalismo crítico por jornalismo comercial movido pelo lucro. Esta mudança implica em que a publicidade agora é feita por organizações capitalistas privadas e não mais apenas por indivíduos. É o aparecimento da publicidade comercial. Há crescente intervenção do setor público no setor privado. No momento atual a esfera pública é fundamentalmente ocupada pela grande mídia, em especial a mídia televisiva. Os interesses da mídia, enquanto empresa, são lucrativos e estão, portanto subordinados ao interesse de quem a patrocina. São as empresas, principalmente as grandes corporações globais, que adquirem os espaços publicitários da mídia. Reaparecem com força total as marcas, agora associando valores simbólicos aos

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produtos comercializados no mercado. O indivíduo aparece e atua neste espaço público contemporâneo de forma passiva e com uma atitude pouco crítica, favorável a aceitação dos conteúdos ali transmitidos. A publicidade e a propaganda são construídas de forma científica pela indústria da publicidade que domina competentemente os conhecimentos de várias linguagens (verbal, imagética, sonora, simbólica) de forma a potencializar a habilidade de construir uma composição publicitária de alto poder sedutor e de persuasão. As conseqüências destas transformações que promoveram a ―erosão da vida pública‖ são muito bem analisadas por Sennett (1988). Este autor nos mostra a diferença de atribuição de significado da privacidade que há nos dias atuais em relação ao que existiu entre os antigos romanos. Para eles relacionava-se com transcendência e para nós com autoconhecimento. Atualmente:
O eu de cada pessoa tornou-se seu próprio fardo; conhecer-se a si - mesmo tornou-se antes uma finalidade do que um meio através do qual se conhece o mundo. E precisamente porque estamos tão absortos em nós mesmos, é-nos extremamente difícil chegar a um princípio privado, dar qualquer explicação clara para nós mesmos ou para os outros daquilo que são as nossas personalidades. A razão está em que, quanto mais privatizada é a psique, menos estimulada ela será e tanto mais nos será difícil sentir ou exprimir sentimentos (SENNETT, 1988, p. 16).

Este é o principal paradoxo: ser instado a se auto-conhecer termina por implicar em um grande nível de auto-fechamento, o que impede a rica experiência de vida com os outros e a plena manifestação de si-mesmo. Portanto, quanto mais tentamos nos auto-conhecer, mais escapamos de nós mesmos. Talvez o maior problema que tal mudança tenha causado é que supervalorizamos o que chamamos de personalidade do homem público ao invés de focar nas propostas ou programas:
Um líder político que busca o poder obtém ―credibilidade‖ ou ―legitimidade‖ pelo tipo de homem que é, não pelas ações ou programas que defende. A obsessão para com pessoas, em detrimento das relações sociais mais impessoais, é como um filtro que descobre o nosso entendimento racional da sociedade; ela torna obscura essa importância continuada da classe na sociedade industrial avançada; leva-nos a crer que a comunidade é um ato de desvendamento mútuo e a subestimar as relações comunitárias de estrangeiros (op. cit., p. 17)

Tais fatos levam a uma exagerada preocupação com o si-mesmo, uma busca de autoconhecimento, uma volta para a interioridade que levam a ―uma confusão entre vida pública e vida íntima: as pessoas tratam em termos de sentimentos pessoais os assuntos

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públicos, que só poderiam ser adequadamente tratados por meio de códigos de significação impessoal‖ (op. cit., p. 18). A erosão da vida pública igualmente enfraquece as relações íntimas amorosas. Como característica fundamental do caráter ocorre o recrudescimento do narcisismo:
O narcisismo, no sentido clínico, diverge da idéia popular do amor de alguém por sua própria beleza; num aspecto mais estrito e como um distúrbio de caráter, é a preocupação consigo mesmo que impede alguém de entender aquilo que é inerente ao domínio do eu e da autogratificação e aquilo que não lhe é inerente. Assim, o narcisismo é uma obsessão com ―aquilo que esta pessoa, este acontecimento significam para mim‖. Este questionamento sobre a relevância pessoal das outras pessoas e de atos exteriores é feita de modo tão repetitivo que uma percepção clara dessas pessoas e desses acontecimentos em si mesmos fica obscurecida. Essa introjeção no eu, por estranho que possa parecer, impede a satisfação das necessidades do eu; faz com que, no memento de se atingir um objetivo, ou de se ligar a outrem, a pessoa sinta que ―não é isso que eu queria‖ Assim o narcisismo tem a dupla qualidade de ser uma voraz introjeção nas necessidades do eu e o bloqueio de sua satisfação (SENNETT, 2006, p. 21).

Então, uma grande contradição acontece no mundo contemporâneo: preocupação exagerada (do indivíduo) consigo mesmo no sentido de se auto-conhecer e procurar satisfação e felicidade contraposta a um julgamento de valor que inviabiliza as mesmas (satisfação e felicidade). O narcisismo veio substituir a histeria, predominante na época de Freud, como distúrbio de personalidade predominante. É um grande desafio para os terapeutas, pois não conduz sempre as pessoas a um estado agudo de crise: ―O distanciamento para com os compromissos, a busca contínua de uma definição interior de ―quem sou eu‖, provoca dor, mas nenhum mal-estar cataclísmico. Em outras palavras, o narcisismo não cria as condições que poderiam promover sua própria destruição‖ (op. cit., p. 22). O caráter narcisista se configura como o ápice da construção da representação social de indivíduo livre e autônomo, que tem sua configuração básica expressa pelos filósofos do iluminismo. Agora há o encontro da percepção oriental de ―indivíduo fora do mundo‖ que se auto-conhece ao se afastar de tudo e com a concepção ocidental de ―indivíduo no mundo‖: um indivíduo presente no mundo, mas totalmente voltado para si-mesmo, que não consegue nem se satisfazer no mundo, nem consegue efetivamente se autoconhecer, restando-lhe a insatisfação constante, a ansiedade e a angústia do vazio desta vida que assume a responsabilidade de construir. 4.4 - A esfera pública como local de construção das representações sociais Iniciamos aqui com as contribuições de Max Weber que define o agir em comunidade como o fenômeno que acontece ―quando a ação humana se refere de maneira subjetivamente

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provida de sentido ao comportamento de outros homens‖. Segundo esta definição, agir em comunidade é agir conjuntamente na esfera pública construindo sentidos compartilhados e se comportando de acordo com estes. Denomina agir em sociedade a:
Um agir em comunidade na medida em que 1) se orienta de maneira significativa, por expectativas que são alimentadas com base em regulamentações, 2) na medida em que tal ―regulamentação‖ foi feita de modo puramente racional com relação a fins, tendo em mente o agir esperado dos associados como conseqüência e quando 3) a orientação provida de sentido se faz, subjetivamente de maneira racional com relação a fins (WEBER, 1997, p. 325).

Este autor indica com clareza os aspectos fundamentais da ação social: ação coletiva de indivíduos que estabelecem propósitos comuns, sentidos compartilhados. Para tanto é fundamental o espaço de compartilhamento – a esfera pública - aonde estes sentidos vão sendo simbolicamente construídos – as representações sociais – através da participação de todos gerando regulamentações – valores e normas sociais de comportamento – que orientam racionalmente a ação do grupo em direção aos fins estabelecidos. É possível se imaginar uma esfera pública ideal: ―a esfera pública em sua forma plenamente desenvolvida introduz os princípios de transparência, livre acesso, publicidade e o uso da razão na negociação do consenso‖ (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 60). Na verdade estamos longe destas condições ideais propostas, mas certamente elas servem como parâmetros do que seria desejável em uma sociedade democrática em que todos pudessem compartilhar as decisões relacionadas tanto às ações quanto aos processos de pensamento que constroem as representações e os hábitos sociais. Hoje possuímos uma esfera pública enfraquecida, fragmentada e não-confiável. É para este tipo de indivíduo que descrevemos acima que em uma esfera pública reduzida e manipulativa são divulgadas e propagandeadas hoje as Representações Sociais que se apresentam como modelos de comportamento a serem seguidos e modelos de representação a serem adotados. Estes modelos de Representações Sociais estereotipados influenciam fortemente o processo de construção das mesmas nos diversos grupos sociais diferenciados. Não existe fenômeno cognitivo somente individual e privado, esta maneira de analisar pertence a um cartesianismo hoje já ultrapassado: ―existem processos cognitivos que são internos ou privados, mas ocorrem como um produto dos espaços públicos‖ (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 63). A construção social da realidade (BERGER e

LUCKMAN, 2004) através da dialética entre o eu e o outro, o outro significativo e o outro generalizado (G.H.Mead), se encontra no centro da construção das minhas representações e hábitos. Mas hoje temos um importante fenômeno em relação a este outro generalizado: a

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existência de um ―grande outro generalizado‖ que é representado pela mídia televisiva, por esta se constituir num meio de transmissão de informação de massas. O problema fundamental é que a TV é pensada e produzida por um número muito diminuto de pessoas cujo interesse é a manutenção de sua própria renda e do lucro da empresa televisiva e não a informação cultural propriamente dita. Assim, o interesse do lucro sujeita esta importante mídia a um processo de edição e produção de seus programas para que sejam vendáveis e estejam conforme os interesses econômicos e políticos dos grupos que estão no poder dentro da atual sociedade. Desde que Marshall McLuhan, na década de 60 nos afirmou que ―o meio é a mensagem‖ e que existem fontes de informação frias e quentes que não podemos mais ver com ingenuidade a força desta, indiscutivelmente, mídia dominante. Mesmo a Internet, hoje pensada como o início de uma mudança que aponta para várias novas possibilidades, parece tender ao longo do tempo a se conformar e a se agrupar com a grande mídia televisiva ampliando a força desta, como afirmou Victor S. Navasky, Diretor da Escola de Jornalismo de Columbia, em recente entrevista ao programa Milênio da estação de TV por assinatura GloboNews. Apesar da total passividade do espectador da TV estar sendo aparentemente transformada através da interatividade promovida pela articulação com outros meios de comunicação como a Internet, através do e-mail e das Webpages, da telefonia fixa ou móvel o resultado é ainda muito pequeno em termos de mudança para uma efetiva postura ativa das pessoas. Não existe o espaço de uma verdadeira experiência cultural, no sentido definido por Umberto Eco, ―que requer uma atitude crítica, a clara consciência da relação em que se está inserido e o intuito de fruir de tal relação‖ (SEVERIANO, 2006, p. 80). O indivíduo não é um receptor totalmente passivo; tem capacidade crítica e reflexiva, as representações publicizadas são internalizadas e passam pelo crivo das singularidades. Estratégias de ação podem ser executadas. Pode desligar a TV, zapear entre canais (principalmente se tiver recursos econômicos para adquirir a TV fechada), somente ligar a TV em programas de caráter cultural e se posicionar sempre de forma alerta e crítica o tempo todo perante a programação exibida. Outras tecnologias como o gravador de DVD ou a gravação digital (tipo TIVO) permitem somente ver os programas escolhidos evitando os comerciais, mas não estão isentas do merchandising. Estas atitudes dependem ou de recursos econômicos que possibilitem acesso a possibilidades de maior custo ou de um capital cultural, ou seja, de certo grau de conhecimento intelectual crítico que o indivíduo médio (Mauss) não possui.

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4.4.1 – O desencantamento e a confiança O desencantamento com a esfera pública observado no Brasil por Jovchelovitch apresenta-nos a fotografia atual deste espaço em nosso país: reversão de expectativas populares e falta de confiança na resolução dos problemas econômicos e frustração generalizada com as instituições públicas (JOVCHELOVITCH, 2000, p. 25). São seus sintomas principais:
A debilidade do laço social pode ser vista na criminalidade, que no caso brasileiro tornou-se patologia social; no tráfego, que tornou-se uma espécie de campo de batalha para sujeitos que parecem não ter ligação alguma uns com os outros; na ausência de confiança mútua que é extremamente necessária para construir qualquer projeto de vida que, pelo menos em alguma medida, tome em consideração o espaço público, ou seja, o espaço dos outros (op.cit., p. 26).

A falta de confiança mútua e a desconfiança relacionada com a arena política, onde ―a corrupção e a impunidade são velhas questões, e sua naturalização na vida quotidiana é um sintoma do poder que elas detêm como padrões de comportamento social‖ (op. cit., p. 26). A autora aponta para esta questão crucial que é a ausência de confiança e mostra como este fato se liga a uma esfera pública em desencanto. Em A cultura do novo capitalismo, Sennett faz uma forte indagação: será que consumimos políticos como consumimos outros produtos no mercado? Sua conclusão é que isto realmente ocorre:
Se as respostas a todas as perguntas acima for sim, o marketing passa a ser a essência da política, o que não parece bom para a vida política. A simples idéia da democracia exige mediação e discussão face a face; requer antes deliberação que embalagem bonita. Nessa linha de raciocínio, constataríamos com desalento que todos os truques sedutores da publicidade são hoje utilizados para comercializar as personalidades e as idéias dos políticos; observando mais de perto, vemos que, assim como a publicidade raramente torna as coisas difíceis para o consumidor, assim também o político trata de facilitar o ato de sua própria compra (SENNETT, 2006, p. 126).

Esta análise nos alerta para o fato de que isto só se torna possível quando o espaço da política se realiza através de uma esfera pública que possibilita que a aparência se converta na ‗realidade‘. Ao possuirmos hoje a TV como o canal primordial da esfera pública o que acontece é que o fenômeno da publicidade - o tornar público no espaço público – está submetido às características deste tipo de mídia (o meio é a mensagem). Meio frio e receptor altamente passivo, o alcance simultâneo de milhões de pessoas, implicando em divulgação em massa da informação a um custo elevado por segundo. O preço da divulgação da publicidade na TV nos horários nobres se torna um poderoso filtro para determinar quem pode hoje participar ativamente da esfera pública ou apenas aceitar ser um participante apenas passivo.

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A venda dos produtos comerciais através da publicidade e a venda dos políticos através da propaganda é uma realidade do mercado capitalista que conforma aos interesses do lucro absolutamente tudo que acontece no mundo. Fora do espaço televisivo dos ―comerciais‖ – espaço oficialmente reservado pelas emissoras para gerar faturamento e renda - no interior mesmo da programação oficial, a edição interessada dos telejornais e documentários e a introdução do merchandising na produção das telenovelas, seriados e filmes segue o mesmo procedimento. É nesta esfera pública de massas, essencialmente midiática, que penetra nos espaços privados e os dissolve, onde se fazem ainda mais atuais as afirmações feitas por Arendt em 1958:
Nas circunstâncias modernas, essa privação de relações ―objetivas‖ com os outros e de uma realidade garantida por intermédio destes últimos tornou-se o fenômeno de massa da solidão, no qual assumiu sua forma mais extrema e anti-humana. O motivo pelo qual esse fenômeno é tão extremo é que a sociedade de massas não apenas destrói a esfera pública e a esfera privada: priva ainda os homens não só do seu lugar no mundo, mas também do seu lar privado, no qual antes eles se sentiam resguardados contra o mundo e onde, de qualquer forma, até mesmo os que eram excluídos do mundo podiam encontrar-lhe o substituto do calor do lar na limitada realidade da vida em família (ARENDT, 1991, p. 68).

Aqui nos cabe uma tomada de consciência da importância dos espaços de troca existentes hoje no interior dos diversos grupos sociais. São os espaços de construção coletiva das Representações Sociais, espaços nos quais os indivíduos que receberam representações de outros grupos e das diversas mídias e processaram-na internamente formando suas representações individuais irão através da linguagem construir com os outros indivíduos as representações sociais do grupo. 4.5 – Esfera pública e as representações sociais da confiança A esfera pública se constitui no ―lugar do outro na construção da atividade simbólica‖ (JOVCHELOVITCH, 2000, p.68). Como o sujeito privado é uma forma histórica, se faz importante entender o ―lugar do outro‖ na construção deste sujeito e as relações que possui com as Representações Sociais, em especial aqui as Representações Sociais da Confiança. Este conceito tem sido focado nas últimas décadas nas Ciências Sociais como um conceito fundamental. Já no século XIX Georg Simmel afirmou que sem a confiança a sociedade não poderia existir: é a sua base. Niklas Luhmann (1988) afirma que sem a confiança nenhum homem se levantaria da cama de manhã. Para este autor a confiança se estabelece natural e necessariamente em relação àquilo que desconhecemos, não conseguimos entender ou não nos é familiar:

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Nós desenvolvemos formas de avaliar o outro, o lado obscuro das coisas, os segredos da natureza, a surpresa inesperada, o inacessível, ou (em termos modernos) a complexidade. Podemos operar apenas em termos familiares, mas quando observamos e descrevemos nossas operações nós procedemos paradoxalmente. Usamos a distinção familiar entre o familiar e o não-familiar (LUHMANN, 2000, p. 2)26.

Marková nos remete a duas abordagens identificáveis nos estudos da confiança: a confiança/risco e a confiança/medo. Uma se refere ao sine qua non da sociedade, da inquebrantável ligação entre o self e os outros e estuda a dinâmica da mudança na comunicação simbólica e no pensamento conceitual, estando baseada na racionalidade dialógica. A outra abordagem trata a confiança/desconfiança relacionada com o desenvolvimento do individualismo a partir dos séculos XVI e XVII na Europa. Baseia na capacidade do pensamento e lógica individual estando intimamente ligada à avaliação de risco e à teoria dos jogos (MARKOVÁ, 2004, p. 2). Winnicott, como já e referi anteriormente, nos coloca os conceitos de holding (segurar) e o handling (lidar) como fundamentais para a Representação Social da Confiança. O primeiro se refere ―a confiança básica no mundo‖ e o segundo é fundamental na construção da autoconfiança. Moscovici igualmente deposita na confiança uma função destacada nos processos de construção das Representações Sociais através da intersubjetividade já que define a construção da confiança através do encontro com o ‗outro numinoso‘. Representar implica em confiar. Confiar na representação que internalizamos e compartilhamos como sendo a expressão da verdade. Confiar que a zona cinzenta do desconhecimento é conhecida e dominada, embora não seja. Estes argumentam implicam na afirmação da extrema importância da Representação 4.5.1 – Representações da confiança nas organizações de produção O tipo racional de associação para Weber é ―‗uma associação com fins‘: um agir em sociedade conforme o estabelecimento do conteúdo e dos meios da ação social que resultou de um entendimento e de um acordo entre todos os integrantes‖ (WEBER, 1997, p. 328).

Tradução do Texto seguinte: ―We develop forms to account for the other, the hidden side of things, the secrets of nature, the unexpected surprise, the inaccessible, or (in modern terms) the complexity. We can operate only in familiar terms, but when we observe and describe our operations we proceed paradoxically. We use the familiar distinction between the familiar and the unfamiliar‖ ..
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Acordo e entendimento que, como dissemos na seção anterior, pressupõe a construção de Representações Sociais através do compartilhamento de idéias e sentidos na esfera pública daquele grupo social específico. Mas, quando se fala em acordo estamos nos referindo ao estabelecimento de ações distribuídas entre papéis sociais, ações obrigatórias e ações proibidas de acordo com os fins estabelecidos para a associação. Falamos, portanto, de ações esperadas e complementares e interdependentes. Aqui aparece a importância da confiança para a ação em sociedade:
Neste ―agir em sociedade‖, cada sócio confia dentro de um certo âmbito, que os outros sócios se comportarão conforme os estatutos (pelo menos de maneira aproximada) e esta expectativa é levada em consideração na orientação racional do seu próprio procedimento. Para a existência empírica da associação são indiferentes os fundamentos que o indivíduo possa ter para esta confiança, se ele pode supor objetivamente que, no que diz respeito aos resultados, interesses quaisquer, numa configuração qualquer, recomendarão aos outros sócios, com eficácia suficiente e numa média, a observação dos referidos estatutos. Como é natural, a possibilidade pressuposta pelo indivíduo, a saber, que no caso da não-observação se imponham ―coações físicas ou psíquicas (mesmo que sejam muito suaves como, por exemplo, ―a admoestação fraternal‖ no cristianismo) reforça fortemente a certeza subjetiva no sentido de que aquela confiança não será decepcionada (como média) e que haja uma probabilidade objetiva de que aquelas expectativas sejam fundadas (WEBER, 1997, p. 328-329).

Weber diferencia agir associativo, que implica ―acordo com seu conteúdo de sentido subjetivamente pressuposto e imaginado como ―média‖, do simples agir em sociedade. Aquele é o tipo mais importante do agir em sociedade, é o agir típico das instituições, das organizações sociais, o que mais me interessa em minha pesquisa de tese de Doutorado: o agir na empresa. A associação de fins tem caráter duradouro, mas precisa ser eficaz em relação aos seus objetivos compartilhados. Para que esta eficácia aconteça, a confiança entre seus membros é fundamental. Para Sennett os problemas relacionados à confiança aparecem de duas maneiras: a ausência de confiança e a desconfiança ativa. Confiar constitui-se num processo de construção:
O laço de confiança, como vimos, desenvolve-se informalmente nas brechas e fendas das burocracias à medida que as pessoas aprendem de quem podem depender. Os laços de confiança são testados quando as coisas dão errado e a necessidade de ajuda se torna aguda (SENNETT, 2005, p. 169).

A maneira como a organização se estrutura e se identifica pode estar produzindo importantes conseqüências negativas na confiança interpessoal. As organizações ditas

flexíveis incentivam a desconfiança entre seus membros, pois a interdependência entre seus membros se torna infiltrada por um alto nível de insegurança:
As organizações que celebram a independência e a autonomia, longe de inspirarem seus empregados, podem despertar esse senso de vulnerabilidade. E as estruturas sociais que não

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promovem positivamente a dependência dos outros numa crise instilam a mais neutra e vazia falta de confiança (op. cit., p. 170).

Este autor nos indica que dentre as mudanças ocorridas nas transformações da cultura do novo capitalismo se destaca a grande diminuição da confiança: ―Os três déficits da mudança estrutural são baixo nível de lealdade institucional, diminuição da confiança informal e enfraquecimento do conhecimento institucional‖ (SENNETT, 2006, p. 62). Estes três déficits se relacionam com o capital social das organizações conforme definido por Robert Putnam, James Coleman e Pierre Bourdieu, entre outros, como o fator de aglutinação social que amplifica a eficácia produtiva dos grupos e organizações. Mede o quanto as pessoas estão comprometidas com o grupo, cooperam, se doam e recebem benefícios. O baixo nível de capital social encontrado hoje nas sociedades e organizações produtivas é alarmante, pois nos indica o quanto prevalece a filosofia e o sentimento individualista. O individualismo e a confiança caminham em sentidos opostos. A confiança formal é aquela estabelecida por escrito, em contratos. A confiança informal implica em uma escolha de em quem podemos confiar, leva tempo para ser estabelecida e tende a ser enfraquecida em situações de estresse e em épocas de crise:
Formas mais comuns de pressão no trabalho podem gerar um déficit de confiança informal. Os empreendimentos que precisam reagir com rapidez a mudanças na demanda dos consumidores freqüentemente diminuem a confiança informal, já que o pessoal das equipes de trabalho precisa estar mudando com freqüência. A reengenharia corporativa de uma instituição, trate-se de uma empresa ou agência governamental, também pode reduzir drasticamente a confiança informal, pois a reorganização das relações pessoais vem abruptamente de cima e do exterior (op. cit., p. 62)

Considerações Finais Inicialmente comentei brevemente o percurso da Psicologia Social 27 mostrando o quanto progressivamente foi incorporando conceitos e conhecimentos de outras áreas científicas para estruturar um campo próprio firmemente alicerçado e capaz de dar conta de objetos sociais complexos com plena eficácia. O desenvolvimento da teoria das representações sociais constitui-se em um marco fundamental neste caminho já que é uma teoria multidisciplinar que une conhecimentos de diversos outros campos científicos.

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Sem a pretensão de escrever ou reescrever a história da psicologia social, mas de apenas relatar alguns fatos significantes para meu tema.

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Preocupa-se com o pensamento do senso comum, como está estruturado e suas conseqüências nas práticas humanas. Afirma-se como instrumento de previsão e de atuação transformadora destas mesmas práticas, daí poder ser vista como ferramenta útil de intervenção no espaço social. O conceito de esfera pública mostra-se importante para demarcar as dimensões espaciais do processo de criação e transformação das representações sociais. Delimita o espaço das relações intersubjetivas e trans-subjetivas. É necessária uma compreensão precisa de como se apresenta a esfera pública nas sociedades contemporâneas. Também se faz fundamental para que possamos pensar a confiança já que é na esfera pública onde estamos submetidos aos processos não familiares: lidamos com o desconhecido, o estranho, o diferente. Aí o processo de confiar se coloca numa prova-limite. E é nesta esfera que se encontram as instituições sociais denominadas empresas de produção ou corporações, onde se estabelece o espaço da produção econômica que é responsável pela reprodução da sociedade. Se os grupos sociais são tão mais eficazes quanto o grau de confiança existente em seu interior (capital social), decodificar a representação social da confiança no mundo do trabalho localizado no interior de uma esfera pública específica permite entender aonde, em determinado espaço publico nacional ou local, as relações sociais fortalecem ou enfraquecem, através da confiança, a produção e a vida daquelas pessoas. Analisei o conceito de indivíduo e sua evolução na história e percebemos a importância e conseqüências da atual representação social de indivíduo no mundo ocidental como normatizadora do comportamento social do homem contemporâneo. Destaquei como sendo fundamental este entendimento para o estudo de como a confiança hoje está representada na nossa sociedade. Vale ressaltar a conclusão de que o processo de individualização do sujeito social favorece sobremaneira a degeneração da confiança e contribui significativamente para a diminuição da eficiência das redes de relacionamentos, empobrecendo a vida social e econômica. Finalmente realizei uma primeira aproximação ao fenômeno da confiança em diversos autores que recentemente abordaram a questão e procurei traçar algumas considerações em relação ao meu objeto no interior de nosso campo de pesquisa, o mundo do trabalho.

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CAPÍTULO 5 - A METODOLOGIA DA PESQUISA E A IMPORTÂNCIA DAS IMAGENS

A imagem não é simples cópia psíquica de objetos externos, mas uma representação imediata, produto da função imaginativa do inconsciente, que se manifesta de maneira súbita, mas sem possuir necessariamente caráter patológico, desde que o individuo a distinga do real sensorial, percebendo-a como imagens internas. Na qualidade de experiência psíquica, a imagem interna será mesmo, em muitos casos, mais importante que as imagens das coisas externas. Acentuemos que a imagem interna não é um simples conglomerado de conteúdos do inconsciente. Constitui uma unidade e contém um sentido particular: expressão da situação do consciente e do inconsciente, constelados por experiências vividas pelo individuo (SILVEIRA, Nise da. 1992, p. 82).

Tem sido uma prática dominante na Psicologia Social, inclusive nas pesquisas da Teoria das Representações Sociais a utilização de metodologias cujo produto final disponível para a análise do cientista psicossocial se compõe unicamente de formas verbais: palavras, frases, narrativas ou discurso. No entanto, cada vez mais se acentua a consciência da limitação e das dificuldades provenientes de uma análise científica em Psicologia Social realizada a partir de uma coleta de dados e informações centradas unicamente na linguagem verbal, já que o processo de comunicação humana é multimodal e multicódigo, ou seja, ocorrem simultaneamente várias modalidades de comunicação, cada uma delas possuindo códigos diferentes socialmente compartilhados. Os pesquisadores do campo de Psicologia Social, em especial aqueles que se vinculam à Teoria das Representações Sociais, não podem mais ignorar tal fato. Sabemos das dificuldades que se apresentam em nossas entrevistas quando nos deparamos com a gestão de impressão (manipulação conveniente do comportamento e do discurso realizada pelos sujeitos para determinados fins) por parte de nossos sujeitos de pesquisa que desejam se apresentar como inteligentes, politicamente corretos ou evitar qualquer problema posterior na instituição a que estão vinculados que possam derivar daquilo que declarou nas entrevistas. A abordagem de Denise Jodelet e seus seguidores da teoria das representações sociais nos ensina a importância de se perceber além dos discursos, da observação das formas das práticas sociais e do comportamento dos grupos sociais que são omitidos ou disfarçados na dimensão do verbal, como nos mostra esta autora (2005) em seu trabalho sobre as representações sociais da loucura.

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5.1 – Linguagem Imagética e Linguagem Verbal O império autocrático da linguagem verbal, escrita ou falada, já foi apontado e desmascarado por diversos autores ao longo das últimas décadas. Gilbert Durand chama de ―iconoclasmo endêmico‖ o processo de desvalorização das imagens no mundo ocidental. O método da busca da verdade proposto por Sócrates e seus seguidores, Platão e Aristóteles, o socratismo, compõe-se de uma abordagem exclusivamente lógico-verbal: todas as imagens eram tidas como falsificação da realidade, incluindo aqui as imagens poéticas (portanto verbais). A fase posterior deste processo de desvalorização da imagem ocorreu durante a escolástica medieval. Seguiu-se a atuação dos principais fundadores do método científico moderno: René Descartes, Isaac Newton, David Hume e Augusto Comte, entre outros. Esta longa linhagem de pensadores estabeleceu o que podemos denominar de método científico moderno, totalmente centrado na linguagem verbal. A imagem foi desvalorizada e todo o seu potencial para a compreensão do mundo e da vida ficou totalmente excluído do método oficial de investigação da verdade. Esta herança, especialmente no que se refere ao positivismo, contaminou todo o pensamento ocidental e se tornou responsável, no interior das Ciências Sociais e da Psicologia Social pela ―opção ‗monoteísta‘ da psicologia discursiva‖ (DE ROSA e FARR, 96, p.237). Segundo esses autores há ainda hoje uma grande predominância de métodos verbais:
Nos últimos dez anos grande ênfase tem sido dada aos ―aspectos retóricos do pensamento social‖ (Billig, 1987, 1991) e à ―análise do discurso‖ (ver Potter & Wetherel 1987, Potter 1996) mesmo que tais rótulos incluam muitas e várias abordagens metodológicas tais como a análise de textos e repertórios, gravações de programas de rádio e televisão, transcrições ou entrevistas ou conversações, etc. Paradoxalmente este campo de estudos – iniciado à partir de um interesse crítico na ontologia do cognitivismo – gerou uma nova forma de ontologia baseada no monoteísmo logocêntrico. Isto não é apenas uma questão de método, mas - de acordo com estes autores – uma opção teórica mais substancial. A extrema conseqüência da tese da análise do discurso é a identificação tautológica entre discurso, realidade e sujeitos: perspectiva que adota implicitamente uma pressuposição ontológica e dogmática baseada na declaração religiosa: ―No princípio era o verbo‖ (Verbo=Deus) op. cit. P. 237-238).28

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Tradução do Texto seguinte: In the last ten years great emphasis has been given to the ―rhetorical aspects of social thinking” (Billig 1987, 1991) and to “discourse analysis” (see Potter & Wetherell 1987, Potter 1996) even though such labels include many and various methodological approaches the analysis of texts and repertoires, recording of radio and television programmes, transcriptions of interviews or conversations, etc. Paradoxically this field of studies – starting from an interesting critique of the ontology of cognitivism – has generated a new form of ontology, based on a language-centered monotheism. This is not simply a question of method, but – according to these authors – a more substantial theoretical option. The extreme consequence of the discourse analytic thesis is the tautological identification between discourse, reality and subjects: a perspective which implicitly adopts an ontological and dogmatic presupposition based on the religious statement ―In the beginning was the Word‖ (Word = God) (op. cit., p. 237-238).28

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Os autores citados acima chamam fortemente a nossa atenção para o fato aparentemente contraditório de a imagem estar, atualmente, tão desvalorizada no interior da ciência de uma sociedade fortemente caracterizada pela predominância imagética. A esfera pública atual, que se constitui no espaço fundamental para a construção e transformação das representações sociais, se encontra amplamente mediada e influenciada pelas imagens criadas pela indústria da comunicação (televisão, cinema, publicidade, design etc.). O fato de que o pensamento humano constitui-se conjuntamente de imagem e palavras é observado e destacado por importantes autores como Le Goff, Piaget e Moscovici. Não há pensamento sem uma imagem prévia. Há uma relação dinâmica entre os dois códigos de pensamento e de comunicação, o imagético e o verbal. O pensamento é originalmente imagético e podemos traduzi-lo, transcodificá-lo e expressá-lo por meio de palavras para comunicá-lo a outrem ou a si e refletir sobre o mesmo. Por outro lado, as palavras proferidas ou escritas são imediatamente traduzidas em imagens pelo receptor através de sua memória e sua imaginação. Sabemos, seguindo Roland Barthes, que palavra e imagem se articulam e se compõem dinamicamente nos processos de comunicação. A imagem estabelece uma infinidade de possibilidades de significados enquanto o texto a limita, restringindo e focando o significado da comunicação. Neste sentido, uma imagem sem um texto aposto a ela possui a única restrição de ser uma imagem específica e determinada e não outra imagem qualquer. Mas não se pode jamais auferir dela um único significado. Podemos afirmar que possui ilimitados significados possíveis. O texto sem imagens também se constitui em um processo aberto à imputação de diversas significações, não somente pela ambigüidade constituinte dos signos verbais, mas também pela possibilidade que se tem de atribuir diferentes imagens a qualquer texto através do exercício de nossa fantasia pessoal. Tal fato se manifesta patentemente quando lemos um livro e depois assistimos ao filme nele baseado: podemos nos decepcionar ou nos surpreender com o que virmos, pois a nossa criatividade individual pode (e possivelmente o fez) ter atribuído ao texto imagens bem diferentes daquelas escolhidas pelo diretor do filme. A imputação de imagens específicas a um texto escrito o restringe, criando limitações que podem se tornar restrições à criatividade pessoal ou coletiva. Penn nos fala sobre esta relação entre imagens e palavras:

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Esta questão realça uma diferença importante entre linguagem e imagens: a imagem é sempre polissêmica ou ambígua. É por isso que a maioria das imagens está acompanhada de algum tipo de texto: o texto tira a ambigüidade da imagem – uma relação que Barthes denomina de ancoragem, em contraste com a relação mais recíproca de revezamento, onde ambos, imagens e texto, contribuem para o sentido completo. As imagens diferem da linguagem de outra maneira importante para o semiólogo: tanto na linguagem escrita como na falada, os signos aparecem seqüencialmente. Na imagem, contudo, os signos estão presentes simultaneamente. Suas relações sintagmáticas são espaciais e não temporais (PENN, 2000, p. 322).

Portanto, o homem precisa atribuir sentidos (palavras) às imagens para evitar a polissemia, no processo denominado de ancoragem por Barthes, e, portanto, limita o sentido destas imagens ao que já conhece e se identifica (torna familiar), seus valores e crenças. Assim, ao estudar as representações sociais é importante estar atento às imagens que estão no seu processo de construção e aquelas que estão presentes no seu resultado final atual. Ao obter nas nossas pesquisas de campo, por meio de questionários, entrevistas ou grupo focal, todo um produto constituído de material exclusivamente verbal, ficamos diante de um conjunto de dados e informações que devem ser analisados com a maior precisão, imparcialidade e objetividade possível. Certamente dispomos da possibilidade da vivência direta no campo e das técnicas da abordagem antropológica, da prática de leitura da linguagem não-verbal (posturas, gestos, expressões faciais etc.), das leituras analógicas das falas (tempos, ritmos, pausas etc.), das técnicas e instrumentais computadorizados para análise de conteúdo e análise do discurso e das técnicas de construção de redes de significados que nos fornecem fortes metodologias de análise dos resultados que coletamos. Apesar das abordagens metodológicas já desenvolvidas nos permitirem o alcance de resultados eficientemente adequados em nossas pesquisas na Teoria das Representações Sociais creio que o desenvolvimento de técnicas ativas de coletas de informações imagéticas poderá enriquecer, facilitar e precisar as nossas metodologias de trabalho. Associar o código de representação verbal ao código de representação icônico certamente irá potencializar nossas análises e fortalecer os resultados e conclusões de nossos trabalhos. Na Psicologia e na Psiquiatria podemos ressaltar a contribuição de S. Freud e de C.G. Jung e sua discípula brasileira, Nise da Silveira, responsável por um trabalho pioneiro e revolucionário. Freud ressaltou a importância da arte para a psicanálise e escreveu um trabalho sobre a Virgem das Rochas, pintura do renascentista Leonardo da Vinci. A própria teoria do inconsciente influenciou uma vanguarda artística importante: o surrealismo. A figuralidade é para Freud a base dos sonhos, o caminho régio para o inconsciente.

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Jung sempre imputou alta importância às imagens do inconsciente como símbolos fundamentais no processo de desenvolvimento do homem, o processo de individuação. Individual e da cultura (imagens arquetípicas). Referindo-se a seu mestre, Nise esclarece que:
Ao contrário da psicologia de Freud, a psicologia junguiana reconhece nas imagens grande importância, bem como nas fantasias e nos delírios. Jung vê nos produtos do inconsciente auto-retratos do que está acontecendo no espaço interno da psique, sem quaisquer disfarces ou véus, pois é a peculiaridade essencial da psique configurar imagens de suas atividades por um processo inerente à sua natureza. A energia psíquica faz-se imagem, transforma-se em imagem. Se no é difícil entendê-las de imediato, não é por serem máscaras de conteúdos reprimidos, mas por se exprimirem noutra linguagem diferente daquela que consideramos única – a linguagem racional. Exprimem-se por meio de símbolos ou de mitologemas cuja significação desconhecemos, ou melhor, já esquecemos (SILVEIRA, N, p.85-86)

Sem entrar nas discussões referentes aos conceitos de inconsciente e inconsciente coletivo já que não constituem meu foco de trabalho, devo ressaltar que toda esta dimensão imagética e simbólica está contida no plano social, no espaço e no tempo de uma cultura social determinada. É precisamente este o campo, o contexto de construção e transformação das representações sociais. É esta dimensão espontânea e afetiva expressa de forma individualizada das representações sociais que é necessário alcançar para que melhor se possa entender como estão constituídas neste momento no interior de um determinado grupo social. Um dos pioneiros na utilização de técnicas imagéticas na psiquiatria é Hans Prinzhorn (Artistry of the mentally ill: a contribution to the psychology and psychopathology of configuration), citado por Nise, que formulou uma tentativa de sistematizar a leitura e o entendimento da imagem, pois:
...focaliza sua atenção nos princípios formais de configuração que se manifestam nas pinturas: tendências repetitivas, ornamentais, ordenadorasm simétricas, simbólicas, que são, em sua maneira de ver, criação de uma forma de linguagem para o próprio autor (SILVEIRA, p.88)

O campo de pesquisa em representações sociais já conta com alguns trabalhos que se preocuparam em incorporar a dimensão imagética como os de R. Farr e de Annamaria de Rosa, entre outros. A maior parte destes trabalhos lida com as representações que se relacionam com imagens previamente existentes na sociedade, construídas com fins específicos e divulgadas pela publicidade comercial, pela propaganda política, divulgação institucional ou através de matérias jornalísticas. Annamaria de Rosa analisa como a Benetton se utiliza de imagens com alta intensidade simbólica para impactar o público e criar vínculos emocionais positivos para a sua marca, mesmo se utilizando de imagens que geram forte aversão em um grande número de pessoas. Esta autora analisa também o processo de modificação imagético-simbólica da bandeira do PCI mostrando como é importante que esta, como imagem das forças políticas esquerdistas contemporâneas, esteja adequada aos novos

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momentos da esquerda mundial. Outros exemplos são apresentados pela autora como os da British Airways e da água mineral San Pelegrino. É fundamental comentar aqui a atuação da Coca-Cola em se apropriar de símbolos de alta importância cultural para fortalecer sua marca, como o que foi feito com uma das mais importantes imagens do Natal: o Papai-Noel. Este personagem de nossa cultura apareceu, anos seguidos, nas imagens publicitárias desta empresa veiculadas na época do Natal, como um velhinho simpático, gordo e bonachão, sorrindo e tomando o refrigerante, vestindo propositalmente sempre roupa vermelha, a cor da marca. As imagens antigas deste velho senhor o mostram alto, sisudo e magro, vestindo roupas amarelas, verdes e azuis. Depois da apropriação desta imagem pelas campanhas publicitárias da Coca-Cola a roupa vermelha ficou naturalizada: hoje só representamos suas vestes desta única cor.

Fonte: http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=santa+claus+green+images&btnG=Pesquisar&meta=&aq=f&oq=

O pensamento humano é primariamente imagético. Funciona por imagens às quais atribuímos os signos verbais para poder comunicá-lo a outras pessoas. O que chamamos de realidade, o mundo visível dos objetos e corpos no espaço, constitui-se de imagens. A civilização humana construiu a comunicação verbal, a linguagem verbal, atribuindo signos verbais arbitrários e consensuais aos diversos corpos/objetos do mundo. O significado destes signos igualmente é construído e reconstruído de maneira compartilhada nos processos de relacionamento social e seus resultados constituem as representações sociais. As representações sociais compõem-se, conforme Serge Moscovici, de duas dimensões: a imagética e a verbal. O próprio processo de surgimento e transformação das RS ocorre em dois níveis: a ancoragem, quando o não-familiar é tornado familiar ao ser integrado ao conjunto de conhecimentos e valores de uma pessoa ou grupo; e a objetivação, quando se naturaliza a representação limitando-se o objeto à imagem mental construída pelo

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compartilhamento simbólico nos grupo social. O papel da ancoragem nos é aqui crucial. Segundo Jodelet (2001, p. 39):
Por outro lado, a ancoragem serve para a instrumentalização do saber, conferindo-lhe um valor funcional para a interpretação e a gestão do ambiente. Assim dá continuidade à objetivação. A naturalização das noções lhes dá valor de realidades concretas, diretamente legíveis e utilizáveis na ação sobre o mundo e os outros. De outra parte a estrutura imagética da representação se torna guia de leitura e, por generalização funcional, teoria de referencia para compreender a realidade.

E Jodelet reassegura a importância das imagens nas representações sociais ao prosseguir citando Halbwachs – ‗não há idéia sem imagens‘ – e Moscovici – sobre a importância das idéias-imagens na mobilização psicológica das multidões. O objeto, pertencente ao mundo da realidade, tem, portanto, seu significado fixado, limitado e restringido pela representação social que o grupo construiu em sua dimensão imagética. O próprio Moscovici nos ensina que:
No real, a estrutura de cada representação apresenta-se-nos desdobrada, tem duas faces tão pouco dissociáveis quanto a página da frente e o verso de uma folha de papel: a face figurativa e a face simbólica. Escrevemos que: Representação = figura/significação querendo dizer que ela faz compreende a toda figura um sentido e a todo sentido uma figura (MOSCOVICI, 1978, p. 65).

O conceito de núcleo figurativo, cuja origem é o processo de objetivação, pode ser definido como:
...uma estrutura imagética em que se articulam, de uma forma mais concreta ou visualizável, os elementos do objeto de representação que tenham sido selecionados pelos indivíduos ou grupos em função de critérios culturais ou normativos. Assim descontextualizados, reorganizados em uma nova estrutura de conjunto e deles retidas apenas certas qualidades icônicas, tais elementos passam a gozar de uma relativa autonomia em relação à totalidade do objeto original (SÁ, 2002, p. 65).

A Teoria do Núcleo Central da abordagem estrutural das representações sociais propõe a captação desta dimensão central das RS por intermédio dos ―valores que o transcendem e que não exigem aspectos figurativos, nem esquematização, nem mesmo concretização‖ (ABRIC apud SÁ, 2002, p. 66). Sá destaca que:
Isto pode talvez fazer parte de algo como um movimento em direção à acentuação dos aspectos valorativos e cognitivos, em detrimento da estrutura de dupla natureza – figurativa e simbólica – proposta por Moscovici, a qual, de resto, se mostra de difícil demonstração e problemático manejo na pesquisa empírica (SÁ, 2002, p.66).

Concordo com Celso Sá em relação a estes dois aspectos. Ocorreu efetivamente este movimento em relação aos aspectos cognitivos e simbólicos que foi responsável por um desenvolvimento importante da Teoria das Representações Sociais. Abric também nos indica a relação inseparável entre valores sociais (expressos de forma verbal-cognitiva) e o núcleo

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figurativo das Representações Sociais (expresso pelas imagens resultantes do processo de objetivação) o que nos leva a resgatar a equação de Moscovici: Representação = figura/significação. Quais são as imagens que correspondem aos valores sociais expressos no núcleo central das Representações Sociais é um conhecimento fundamental, pois nos remete ao aspecto mais processual e dinâmico das Representações Sociais:
De acordo com Abric (1987, p.68) a passagem conceitual da noção de modelo figurativo à de núcleo central corresponde a uma vontade de ‗passar do processo ao produto‘. Em outros termos, o modelo figurativo constituiu o embrião do núcleo central (MOLINER, 2005, p. 3.2).29

A existência do núcleo central das representações sociais se afirma teoricamente pela necessidade de estabilidade do pensamento social que fornece a um determinado grupo sua identidade. Como diz seu criador (ABRIC, 2003, p. 39):
Se as representações têm um núcleo, é porque elas são uma manifestação do pensamento social; e, em todo pensamento social uma certa quantidade de crenças, coletivamente produzidas e historicamente determinadas, não podem ser questionadas, posto que elas são o fundamento de modos de vida e garantem a identidade e a permanência de um grupo social.

O núcleo central possui três funções - generadora, organizadora e estabilizadora – sendo estas responsáveis pelo significado, consistência e permanência da representação. Uma representação social se diferenciaria de outra fundamentalmente por seu núcleo central, não sendo suficiente conhecer apenas seu conteúdo, pois ―duas representações podem ter o mesmo conteúdo e, entretanto serem radicalmente diferentes, se a organização deste conteúdo for diferente‖ (ABRIC, 2003, p. 38). Sendo assim é fundamental que nossa pesquisa abranja o seu conteúdo e organização, atingindo as características daquilo que efetivamente tornam a representação social da confiança mais estável ou menos estável, a organiza e lhe dá sentido. A função geradora de sentido do núcleo central está intrinsecamente ligada ao aspecto figurativo e a expressão das

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Tradução do Texto seguinte: Des lors, pour Abric (1987, p.68), le passage conceptuel de la notion de modèle figuratif à celle de noyau central correspond à une volonté de ‗passer du processus au produit‘. En d‘autres termes, le modéle figuratif constituerait l‘embryon du noyau central (MOLINER, 2005, p. 3.2).

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imagens da confiança pelos nossos sujeitos de pesquisa poderá nos fornecer indicações mais seguras da representação social da confiança que estamos pesquisando. É importante, portanto, pesquisar a relação existente entre estes dois lados da representação social da confiança: sua parte verbal e sua parte figurativa ou imagética. Este é o motivo principal que fundamenta a nossa opção metodológica de buscar as imagens da confiança. Este conceito abstrato – a confiança - é altamente complexo e polissêmico:
Como outros conceitos, a confiança nunca faz sentido isoladamente mas apenas no interior da rede de outros conceitos, tais quais, neste caso, capital social, fé, crença. Solidariedade, reciprocidade e segurança os quais, igualmente se tornaram focos da pesquisa científica social. Utilizado na rede de diferentes conceitos e circunstâncias políticas. O termo ‗confiança‘ é altamente polissêmico (MOLINER, 2005, p. 3.2).30

A representação social da confiança constitui-se em uma representação social fundamental no interior do corpo de representações de uma cultura:
No nível pragmático, em seu sentido mais geral, assim como Georg Simmell e Niklas Luhmann insistem, confiança é um fator básico da vida, sem o qual a sociedade não funcionaria. Enquanto Simmell proclama que a sociedade não poderia emergir e permanecer sem a confiança, Luhmann argumenta que sem a confiança o indivíduo seria incapaz de se levantar pela manhã (op. cit., 2004, p. 2)31

Sendo confiança um valor central para os relacionamentos interpessoais e intrapessoais iremos encontrar a representação social da confiança como parte do núcleo central de diversas outras representações sociais.

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Tradução do Texto seguinte Like others social concepts, trust never makes sense in isolation but only within the network of other concepts, such as, in this case, social capital, faith, belief, solidarity, reciprocity and security which, too, have recently become subjects of social scientific scrutiny. Used in the network of differents concepts and cultural and political backgrounds, the term ‗trust‘ is highly polysemic Des lors, pour Abric (1987, p.68), le passage conceptuel de la notion de modèle figuratif à celle de noyau central correspond à une volonté de ‗passer du processus au produit‘. En d‘autres termes, le modéle figuratif constituerait l‘embryon du noyau central (MOLINER, 2005, p. 3.2).

31

Tradução do Texto seguinte :At a pragmatic level, in its most general sense, as both Georg Simmell and Niklas Luhmann insist, trust is a basic fact of the life without which society would not function. While Simmell claims that society could not emerge and maintain itself without trust, Luhmann argues that without trust, the individual would even be unable to get up in the morning (op. cit., 2004, p. 2).31

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5.2 – Justificativa da utilização de técnicas imagéticas Seguimos aqui De Rosa e Farr quando afirmam que ―imagens e palavras são sistemas de comunicação providos com diferentes propriedades, e devem, concordantemente, ser considerados como canais específicos da gênese, transmissão e objetificação das RS‖ e que a ―abordagem verbo-centrada implicitamente nega o impacto das novas tecnologias de comunicação, baseadas num ―hypertrophic use‖ das imagens e da sua esfera de aplicação em nosso sócio-cognitivo processo de representação da realidade‖ (op. cit., p. 240). Deste modo, em nosso entender, não há como estudar profundamente hoje as questões fundamentais de Psicologia Social sem utilizar na nossa metodologia de pesquisa e análise instrumento apropriados a dar conta da dimensão imagética das Representações Sociais. Ainda na década de 80 do século XX, Barthes comentava que as sociedades atuais se caracterizam pelo alto consumo de imagens:
O que caracteriza as sociedades ditas avançadas é que hoje essas sociedades consomem imagens e não crenças, como as do passado; são, portanto, mais liberais, menos fanáticas, mas também mais ―falsas‖ (menos ―autenticas‖)... (BARTHES, 1984, p. 174).

Acreditamos que a imagem pode fortemente nos auxiliar a conhecer as representações sociais porque nos permite ir além de seus conteúdos ativados e expressos. Toda representação como produto temporário de processos de comunicação social possui uma imagem objetivada, ou seja, uma representação imagética do objeto social que o simplifica e que é naturalizada, ou seja, tomada como o objeto real. A objetivação é a concretização da representação, o processo que estabelece seu núcleo figurativo: ―um complexo de imagens que reproduzem visivelmente um complexo de idéias‖ (MOSCOVICI, 2003, p. 72). Assim, através de seu núcleo, a representação oculta a avaliação e a simplificação da realidade que aconteceu no processo de ancoragem, ganhando e consolidando sua estrutura e força de permanência. Na objetivação, a construção mental do objeto social ganha valor de verdade para o indivíduo/grupo e uma consistência que resiste às investidas de questionamento de sua veracidade ou adequação ao contexto atual. Aqui devemos ressaltar a existência do papel simplificador da representação e destacar que, ao ocultar o processo de avaliação efetuado sobre o objeto social, a representação social tornada objeto exerce a ação de mascarar os valores através dos quais os grupos sociais constroem seus esquemas de pensamento, naturalizando-os e protegendo-os de qualquer possibilidade de questionamento. É neste

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sentido que as imagens produzidas e posteriormente comentadas por nossos sujeitos de pesquisa podem nos auxiliar a obter maior clareza sobre a representação social da confiança. Existem dois tipos de conteúdos que podem não estar contidos na expressão verbal de uma representação social pelos sujeitos da pesquisa, conforme Jean-Claude Abric: os conteúdos inconscientes individuais, constituídos por processos psicológicos e a denominada Zona Muda das representações sociais (ABRIC, 2005), que são os conteúdos adormecidos e não expressos em face de uma situação social especifica. Segundo este autor ―existem em toda situação, normas sociais, e a zona muda é constituída pelos elementos da representação que tem um caráter contranormativo‖ (ABRIC, 2005, p. 25). A gestão de impressão, conceito desenvolvido por Sharp e Getz, consiste em ―querer dar aos outros uma imagem positiva de si‖ (op. cit., 2005, p.25). A necessidade de ser aceito como pertencente a um determinado grupo social e a necessidade de evitar problemas como a própria demissão ou perdas de possibilidades de promoção pode levar o indivíduo a manipular seu discurso de forma conveniente a proteger seus interesses. A observação das práticas significantes, como propõe Denise Jodelet, é uma metodologia apropriada para nos auxiliar a evitar tais manipulações do discurso. Observar as práticas significantes consiste essencialmente em levar em conta as imagens dos comportamentos e ações dos elementos de um grupo social. A imagem é, ao mesmo tempo, transcultural, atemporal e simbólica. Numa sociedade globalizada e imagética é extremamente importante levar em conta os aspectos imagéticos de uma situação social. Como a imagem criada tende a ser confundida com o objeto real do mundo (Magritte denuncia: ―isto não é um cachimbo‖), ela cumpre a função de naturalizar um conjunto de idéias, um discurso que pode ser politicamente interessado ou ideológico. 5.3 – Metodologia A nossa pesquisa de campo constituiu-se de uma série de Grupos Focais realizados com pessoas de nível superior, a elite dos trabalhadores brasileiros e nos interessa levantar como são construídas as representações sociais da confiança por este recorte amostral de sujeitos da pesquisa. Como sabemos, a confiança é a base do Capital Social (Robert Putnam, James Coleman, Pierre Bourdieu etc.) e, portanto, fundamental na eficácia das organizações de produção. Ao analisar como estas pessoas de nível superior representam a confiança

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podemos entender o processo de confiar hoje presente nas organizações sociais de produção e como esta representação influencia na eficácia destas. Como confiança é essencialmente um valor fundamental de qualquer relacionamento social as representações sociais da confiança se constituem em um componente básico estrutural de todas as outras representações sociais que surgem e se estabelecem, são construídas e modificadas no relacionamento de pessoas no interior dos grupos de trabalho das organizações sociais de produção. Assim, uma rede de significados envolvendo várias palavras e imagens (representações sociais) foi identificada a partir dos resultados da pesquisa de campo. Uma rede polissêmica de representações sociais constituída de palavras e imagens que se interligam e dão sentido específico situacional à representação social da confiança Esta rede se constitui de imagens (pessoas de mãos dadas, ou se mirando face a face, olhos, casa, flor sendo regada, etc.) e palavras interrelacionadas de forma hierárquica (tais como, por exemplo, o respeito, a segurança, o amor, a atenção, a cumplicidade, o compromisso, a boa vontade, a solidariedade, o companheirismo). O meu objetivo de pesquisa foi a detecção, explicitação e a análise profunda desta rede de significados que compõem a representação social da confiança. Mas uma questão fundamental me foi apresentada recorrentemente no processo de definição da metodologia de pesquisa: o significado de cada um destes outros termos verbais igualmente é vago e é definido por diferentes outras redes de significados. Tal fato me levou a acreditar que seria levado a uma situação muito imprecisa e de difícil solução sem a obtenção de imagens sobre a confiança que pudessem dialogar com a rede de termos verbais. Assim, decidi utilizar a expressão imagética da confiança pelos meus sujeitos da pesquisa. Com esta decisão facilmente consegui maior clareza sobre a representação social da confiança. Deste modo, introduzi na minha metodologia da pesquisa de campo em representações sociais a utilização de técnicas de levantamento das imagens relacionadas às representações sociais da confiança. Utilizei, portanto, as técnicas tradicionais de pesquisa psicossocial em nosso estudo de campo, neste caso o grupo focal, incluindo uma etapa adicional onde o levantamento das imagens sobre a confiança foi realizado. O que fundamentalmente me interessou foi a expressão imagética realizada pelos próprios sujeitos da pesquisa. Diversas possibilidades e dificuldades de utilização de materiais e técnicas se apresentaram e sofreram a análise e reflexão profunda das suas possibilidades e

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limites de utilização no decorrer deste trabalho. Em primeiro lugar a escolha da técnica expressiva passou por toda uma reflexão até a decisão de utilizar uma forma e não as outras disponíveis. A linguagem imagética possui uma dinâmica e estrutura próprias. Existem diversas formas possíveis de expressão visual como o desenho, a pintura, a colagem, a fotografia, a escultura, o mosaico, a dobradura de papel, o vídeo, a história em quadrinhos. Outra questão importante refletida e prevista é a falta de familiaridade que os indivíduos possuem em relação à expressão artística devido ao fato do nosso sistema educacional ser altamente voltado para a linguagem e a lógica (monoteísmo verbal), ou seja, formas não-imagéticas. Deparei-me com dificuldades expressivas individuais durante nossa pesquisa de campo que apareceram como resistência a se expressar imageticamente sobre o objeto de pesquisa (exagerada autocrítica, temor de ridicularização, etc.). Apesar das imagens serem informações imediatamente transmitidas e recebidas, ou seja, sua mensagem é instantânea (ao contrário da linguagem verbal que demanda conhecimento especializado para a decodificação de seus símbolos abstratos) toda imagem construída socialmente possui um propósito. Os interesses por trás da criação imagética podem ser de diversas categorias como o ideológico, o estético, o de aprendizagem, a construção da memória social. Portanto, cada imagem é cuidadosa e intencionalmente construída. Tal fato nos leva sempre a indagar o porquê do surgimento de uma imagem e não outra qualquer dentro de determinado contexto; por que exatamente uma imagem foi construída de determinada forma e não outra. Mais especificamente, por que surgem determinados ícones, símbolos, cores, tamanho, luzes, sombras, proporções e composição. Para entender o processo de construção de uma imagem e poder captar a relação entre aquilo que esta imagem representa como objeto visual e os interesses pelos quais foi construída, se faz indispensável o entendimento da estrutura da linguagem imagética. Segundo Dondis (1997), somos analfabetos visuais, pois não nos foi ensinado na escola a estrutura da linguagem visual. Por isso é importante e necessário passarmos por um processo de alfabetização visual para aprender a ler e entender as imagens. Ampliando este pensamento digo que, para atingirmos nosso potencial humano, deveríamos estudar as diversas linguagens do mundo da vida – sonora, corporal, simbólica – e assim nos capacitar para comunicarmos de formas mais eficientes.

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O conhecimento da sintaxe da linguagem visual é bastante recente na história do homem, mas continua restrito a um grupo seleto de artistas plásticos, cineastas, designers e profissionais da área de comunicação e publicidade. A imagem é absolutamente tão natural que simplesmente a aceitamos sem qualquer questionamento, mesmo que esta tenha sido criada pelo homem no interior de uma cultura determinada (imagens artísticas, religiosas ou design de objetos). A estrutura da linguagem visual vem sendo ensinada e passada nas escolas de arte, de mestre para aprendiz, através de séculos, mas é somente com a invenção da fotografia que a própria arte se viu instigada a procurar novos caminhos que a levaram a refletir sobre ela mesma. Assim, a arte exercita o expressar e refletir a si-mesma na intenção de se compreender. Os grandes mestres da arte abstrata do início do século XX foram os responsáveis pelo entendimento desta linguagem, em especial, Piet Mondrian e Vassily Kandinsky, que escreveu Ponto, linha, plano contendo as suas reflexões sobre o código universal da linguagem visual, mas foram igualmente importantes muitos outros artistas abstratos como os pertencentes ao Suprematismo Soviético, à Escola da Bauhaus, os Surrealistas, os Fauvistas etc. Contribuições posteriores foram muito importantes para sistematizar estes conhecimentos de forma organizada como a de Rudolf Arheim, Donis Dondis, Ernest Fischer, e Fayga Ostrower, apenas para citar apenas algumas delas. Possuímos, igualmente, códigos de representação icônica que são situacionais e temporais, ligados à memória social de uma determinada cultura. As imagens recebem sentidos diferentes em grupos sociais diversos ao longo do tempo e do espaço das diversas civilizações. Os dicionários de símbolos como o de Chevalier e Gheerbrant (1994) refletem um esforço de pesquisa e classificação que nos auxiliam a perceber as diferentes (ou semelhantes) significações de uma imagem em sociedades diversas. Outro ponto fundamental é a escolha das técnicas imagéticas a serem utilizadas para a captação das imagens das representações sociais. No Brasil temos um trabalho pioneiro utilizando a técnica artística do desenho para capturar as imagens das Representações Sociais da Escola produzidas pelos sujeitos da pesquisa através da técnica do desenho, de autoria de Sandra Acosta (2005) e que constitui sua Tese de Doutorado em Educação pela USP cujo título é Escola: as imagens que as representações sociais revelam. Este trabalho faz parte de um projeto mais amplo, Imaginários Latino Americanos sediado pelo Laboratoire Européen

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de Psychologie Social – LEPS da Maison des Sciences de l‘Homme – MSH, França, que envolve pesquisadores de diversos países. Segundo a autora:
O material imagético, elaborado a partir do desenho, foi considerado um instrumento significativo para pesquisas que se propõe captar outras formas de expressão, mais personalizadas e menos formais, capazes de oferecer novas informações que textos elaborados com a escrita não são capazes de fornecer ou expressar (ACOSTA, 2005, p. 15).

Outros autores importantes também se preocuparam com esta inserção da imagem na metodologia de pesquisa em representações sociais como, entre outros, De Rosa (2005, 2006), Angela Arruda e Martha de Alba (2007). Estas duas últimas pesquisadoras coordenaram uma publicação importante que congregou diversos trabalhos que utilizam a imagem e o imaginário em suas pesquisas no campo da teoria das representações sociais contando com a participação de destacados pesquisadores como Denise Jodelet. Neste seu trabalho publicado nesta coletânea intitulado La mirada própria: cartografias imaginarias em Brasil, utiliza os desenhos de mapas do Brasil pelos seus sujeitos da pesquisa (jovens universitários) para capturar as representações que construíram de seu país. Martha de Alba igualmente utiliza esta metodologia para capturar os mapas imaginários do centro histórico da cidade do México através dos desenhos de seus sujeitos da pesquisa (Mapas imaginarios del centro histórico de la ciudad de México: de la experiência al imaginário urbano). Em ambos os artigos fica impressionante a força que possui a imagem no entendimento da representação social. Em nosso país a pioneira nesta utilização desta metodologia, Angela Arruda vem implementando esta proposta através da orientação de trabalhos acadêmicos no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFRJ onde tivemos uma dissertação de Mestrado – Representações Sociais de Universitários Cariocas sobre o Brasil e os Brasileiros, de Ana Carolina Dias Cruz - que utilizou a imagem na metodologia da pesquisa através do instrumento gerador dos mapas mentais, construída no projeto de pesquisa ―Imaginário e Representações Sociais no Brasil‖, que se constitui de duas partes: na primeira, o respondente desenha seu mapa mental e, na segunda, preenche diferentes contornos de mapas do país seguindo instruções. Outra coletânea - El giro pictórico - organizada por Casanueva e Bolaños discute, em seus vários trabalhos, a importância e as conseqüências da utilização da imagem na Ciência. Definir a forma de expressão imagética mais apropriada para que os meus sujeitos da pesquisa abordassem objeto de estudo foi uma decisão importante. Teria sido possível utilizar diversas técnicas de criação visual como o desenho, a pintura, a colagem e a História em

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Quadrinho, entre outras formas expressivas que poderiam ser evocadas e experimentadas neste tipo de metodologia. Cada diferente forma de expressão imagética tem suas peculiaridades e provoca respostas diversas em cada pessoa singular. A pintura favorece o fluir expressivo e a espontaneidade criativa. A colagem é uma forma ao alcance de qualquer pessoa, pois dificilmente alguém se nega a procurar e selecionar imagens, recortá-las e colálas em um suporte de papel ou qualquer outro material disponível. Uma técnica que merece uma avaliação mais profunda é a da produção de História em Quadrinhos (HQ) que se apresenta como uma série de imagens seqüenciais sobre um tema ou objeto com ou sem textos associados a elas. A HQ possui a vantagem de associar representação icônica e representação verbal de maneira articulada através de uma série seqüencial de quadros que permitem uma narrativa dinâmica e de fácil construção, aparentemente bastante adequada para a descrição de uma representação de relacionamentos profissionais. Senti a necessidade de uma maior espontaneidade da expressão, de um processo que passasse menos pelo racional e pela autocrítica. As imagens que participam de uma representação tendem a ficar obscurecidas pelos pensamentos formalizados e cronificados sobre o objeto social representado. Por sua estreita ligação com o aspecto emocional e pela dificuldade de controle racional escolhi a pintura como a técnica que a ser aplicada nos Grupos Focais. Selecionei o material (papel, tintas) e preparei o espaço de forma apropriada e confortável para o trabalho expressivo, e solicitei a cada participante que realizasse a partir de uma questão focal, formulada de maneira clara e específica visando facilitar ao máximo, a expressão imagética de nosso objeto de estudo, as representações sociais da confiança: ―Gostaríamos que vocês fizessem uma pintura que expresse como vocês percebem uma relação de confiança‖. Em seqüência todos os trabalhos expressivos dos nossos sujeitos da pesquisa passaram por uma fase de reflexão e comentários por aqueles que os produziram. Após o momento expressivo foi feita a seguinte questão: ―Fale-nos como estas imagens significam para você a confiança‖. Numa terceira etapa conduzi uma discussão geral sobre a confiança sempre baseado nas imagens produzidas. Estas sessões foram gravadas e transcritas para análise posterior conjuntamente com as imagens. Após o término da fase da coleta dos dados, verbais e imagéticos seguiu-se a análise dos mesmos e a reflexão sobre como interligar os dois componentes da Representação Social coletados, a linguagem e a imagem. Os dois conjuntos de dados são objetos de análise em

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separado e conjuntamente com o objetivo de definir da forma mais clara e completa possível a representação social da confiança assim como expressa na formulação original de Moscovici. Dentro da teoria das representações sociais o objetivo é discutir a relação existente na equação proposta por Moscovici: como as imagens produzidas pelos sujeitos da pesquisas se relacionam com os significados verbalmente expressos por eles. Esta relação é expressa da seguinte forma: representação = figura/significado. Estudar esta equação na sua composição imagética e verbal é ir de encontro à compreensão do centro da representação social, de como essa se estrutura como saber social, se organiza, se mantém e se transforma. A organização se conforma em um aspecto central (núcleo central) e um periferico, conforme demonstrado no capítulo III. Marková (2008) nos reafirma isto ao se referir ao semiótico Yuri Lotman que:
...viu o núcleo do espaço cultural como sendo um laço estreito e relativamente inflexível e monovalente. Se um pesquisador adota uma abordagem sincrônica quanto ao estudo da cultura, argumentou Lotman, ele estuda acima de tudo, seu núcleo, isto é, o espaço das normas semióticas. A periferia é o espaço das práticas semióticas. É vagamente organizada e ambivalente. O enfoque nas periferias é mais valorizado nas abordagens diacrônicas, que estão preocupadas com as mudanças culturais (MARKOVÁ, 2008, p. 245)

O que é interessante na exposição de Lotman é sua semelhança com a abordagem das representações sociais, sendo que, por ser um semiótico suas palavras me remetem à importância de se estudar as representações sociais como aparecem nas várias linguagens disponíveis à comunicação humana. A metodologia de pesquisa escolhida, em relação à questão imagética, passou por diversas etapas de estudo iniciando com a análise da literatura sobre linguagem imagética a partir de autores como Roland Barthes, Ernest Gombrich, Rudolf Arheim, Jacques Aumont, Erwin Panofsky, Ernest Cassirer, Gilbert Durand, Fayga Ostrower, Donis Dondis, Anton Ehrenzweig, Umberto Eco, entre outros. Posteriormente, fiz a definição de metodologia para o levantamento e análise de informações imagéticas da representação social da confiança. Finalmente realizei a pesquisa de campo através da aplicação desta metodologia em uma série de grupos focais. No capítulo a seguir desenvolvo um aprofundamento da importante questão da utilização de outros segmentos de linguagem na metodologia de pesquisa em ciências sociais.

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CAPÍTULO 6 - A METODOLOGIA DE PESQUISA E A IMPORTÂNCIA DAS DIVERSAS LINGUAGENS NA COLETA DE DADOS DA PESQUISA
É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs Eu já devolvi as chaves da minha porta E desisto de qualquer direito à minha casa. Fomos vizinhos durante muito tempo E recebi mais do que pude dar. Agora vai raiando o dia E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro Apagou-se. Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada. Não indaguem sobre o que levo comigo. Sigo de mãos vazias e o coração confiante. TAGORE, Rabindranath. Poema de Despedida

Neste capitulo desenvolvo reflexões e defino importantes decisões sobre a minha metodologia de pesquisa, principalmente no que se refere às questões da análise e interpretação das informações imagéticas coletadas na pesquisa de campo e sua relação com as informações verbais, definindo claramente as formas pelas quais vim a trabalhar os dados levantados e chegar às conclusões que apresento no capítulo final. Ao entender o mundo da vida como um complexo campo constituído por relações que se estabelecem através de diferentes e simultâneas formas de linguagens posso concluir ser um fator da extrema importância que nós, cientistas sociais, não nos atenhamos apenas à linguagem verbal, falada ou escrita, na coleta de dados e informações para nossas pesquisas científicas. Após diferenciar língua e linguagem, a primeira como sendo apenas uma das linguagens possíveis, a verbal (falada ou escrita) e a segunda englobando todas as possibilidades que podem assumir os diversos signos de comunicação (imagética, musical, corporal, gustativa, olfativa, genética, computacional, entre outros), Santaella afirma:

Cumpre notar que a ilusória exclusividade da língua como forma de linguagem e meio de comunicação privilegiado, é muito intensamente devida a um condicionamento histórico que nos levou à crença de que as únicas formas de conhecimento, de saber e de interpretação do mundo são aquelas veiculadas pela língua, na sua manifestação como linguagem verbal ou escrita. O saber analítico, que essa linguagem permite, conduziu à legitimação consensual e institucional de que esse é o saber de primeira ordem, em detrimento e relegando para uma segunda ordem todos os outros saberes, mais sensíveis, que as outras linguagens, as não verbais possibilitam (SANTAELLA, L., 1983, p. 10-11).

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Assim, esta autora define a ciência que engloba todas as linguagens, a semiótica:‖ A Semiótica é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno de produção de significação e de sentido‖ (op cit, p.13). Ao assumir que a Psicologia Social - além de já se constituir como uma ciência interdisciplinar - pois interrelaciona diversas áreas científicas como a psicologia, a sociologia, a antropologia, a história, entre outras - necessita hoje, como toda e qualquer outra área da ciência, ampliar suas possibilidades metodológicas de investigação para enriquecer cada vez mais sua potência enquanto área do saber. Proponho aqui que essa utilize amplamente, e cada vez mais, toda e qualquer forma de linguagem que possa ser significante para a sua investigação. Assim, deverá se estabelecer progressiva e paulatinamente uma Psicologia Social Semiótica, movimento teórico que amplia sua transdisciplinaridade, fato em si extremamente desejável nos dias atuais. Entretanto, nessa Tese necessitei realizar escolhas e definir limites, e assim, restringi meu campo de possíveis linguagens para a investigação a apenas duas delas: a verbal e a imagética (associadas à observação dos acontecimentos durante a pesquisa de campo). Quando se pensa na linguagem das imagens sobrevêm diversas questões. Embora uma teoria geral da imagem ainda esteja por ser feita - a semiótica da imagem é uma área do saber que apenas agora começa a ser construída - já existem diversos esforços provenientes de áreas científicas diferentes. As formas de comunicação, a imagética incluso, produzidas em um ambiente sóciocultural-econômico se estabelecem em cinco instâncias, a saber: a do autor/produtor, a do leitor/consumidor, a do texto/produto, a do processo de produção e a do contexto (de produção e de consumo). 1 - O autor é o sujeito expressivo, individual ou coletivo, que em um determinado contexto cultural utiliza signos de diversas linguagens (visuais, verbais, auditivos etc.), a partir de sua competência pessoal atual, com uma intenção comunicativa específica para produzir um composto comunicativo. Aqui adotaremos a expressão texto comunicativo para expressar um composto comunicativo de uma ou mais linguagens diferentes (mais tarde discutiremos o conceito de texto).

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2 - O leitor é o sujeito que em determinado contexto (caracterizado por uma situação específica de tempo e espaço) cultural (caracterizado por um conjunto específico de valores e normas de convivência e comportamento) - que pode ser o mesmo ou ser um diferente espaço/tempo daquele que o autor/produtor do texto estava inserido ao produzi-lo - interpreta perspectiva e singularmente (atualiza) um texto comunicativo a partir de sua competência nas diversas linguagens que o compõem. 3 - O processo de produção refere-se a como o texto foi produzido: que linguagens foram escolhidas para compô-lo, que meios (materiais, tecnologias, instrumentos, equipamentos etc.) foram utilizados para produzir e divulgar o texto comunicativo, que habilidades e que intenções o autor possuía no instante da produção. 4 - O texto comunicativo é o conjunto de signos lingüísticos diferentes utilizados na sua produção, o qual pode conter diferentes linguagens mescladas em diferentes proporções resultando em um produto final cujo sentido se dá pelo conjunto que apresenta e que se coloca acessível a um leitor através da sua forma estrutural. 5 – O contexto no seu sentido amplo envolve o momento histórico e sócio-cultural da produção e/ou da leitura de um texto comunicativo e, em seu sentido restrito, as condições exatas e específicas do espaço-tempo de produção e de leitura do texto comunicativo. Colocada assim a questão, interessa, aqui nessa Tese, traçar alguns comentários e diretrizes sobre a leitura e a interpretação da imagem como um texto comunicativo, dado que, as outras instâncias já se encontram previamente definidas pela metodologia aqui adotada, como explicito a seguir: 1 – Autor/produtor – sujeitos da pesquisa, indivíduos de ambos os sexos com formação mínima de 3º grau, convidados a participar de Grupo Focal pelo autor da presente tese de Doutorado. 2 – Leitor/consumidor – durante a elaboração da tese são os próprios produtores das imagens como sujeitos da pesquisa, o autor da Tese e o orientador do autor da Tese. Após a publicação da Tese: será qualquer futuro leitor do presente trabalho quando disponível na biblioteca da universidade. 3 – Processo de produção – utilização de pincéis e de tinta tipo têmpera sobre folha de papel canson tamanho A3, folha esta escolhida pelo autor da imagem dentro de uma série de

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folhas disponíveis que foram previamente interferidas com traços pictóricos coloridos e simples. Tema previamente definido pelo autor da Tese, a representação social da confiança. Tempo pré-definido de produção da imagem: 30 a 45 minutos para a execução. 4 – Contexto - Salas localizadas na cidade do Rio de Janeiro na Tijuca, Botafogo e Gávea, nos anos de 2007, 2008 e 2009. Fica em aberto, portanto, a questão da leitura da imagem, fundamentalmente no que se refere à leitura que se faz face ao propósito de elaboração deste presente texto de tese. Como analisar e entender o texto visual e este conjuntamente com o discurso verbal. Para iniciar uma reflexão sobre a questão, pode-se partir da relação entre signo, significado e objeto. Segundo Vilches:
Em semiótica, todo problema parece partir da questão da semelhança. Um objeto icônico se nos apresenta em nosso mundo com uma aparência sensível semelhante ao objeto real. Daqui nasce uma relação do tipo semiótico, produto da interação entre um signo, um significado e um objeto (VILCHES, 1984, p.15)32

Assim, têm-se aqui como elementos: 1) Objeto – o objeto da presente pesquisa: a representação social da confiança. 2) Signo – as imagens produzidas pelos sujeitos da pesquisa. 3) Significado – significado atribuído às imagens pelos próprios sujeitos da pesquisa durante a etapa discursiva dos grupos focais e pela análise realizada pelo autor da presente tese.

32

Tradução do Texto seguinte: En semiótica, todo el problema parece partir de la cuestión de la semejanza. Um objeto icónico se nos presenta en nuestro mundo con una apariencia sensible semejante al objeto real. De aqui nace una relación de tipo semiótico, producto de la interación entre un signo, un significado y un objeto (VILCHES, 1984, p.15).

117

Mas, como se dá, na prática, esta atribuição de significados aos signos imagéticos? E como ocorrem as diferenças de atribuição de significado entre o autor da obra imagética e os seus leitores? Conforme Vilches, o código de uma imagem é tão aberto quanto o de uma palavra. Assim como uma palavra terá o seu significado definido em uma rede semântica, a imagem também poderá ter seu significado definido em uma rede imagética, associações de imagens. E que, para se tornarem analisados, explícitos, discutidos e discutíveis, para ganharem significado lógico, analítico, racional, os signos imagéticos deverão ser transpostos para palavras, decodificados em signos verbais. O fato inverso ocorre com as palavras ou o texto verbal: visualizamos imagens, cenas, metaforizamos etc. Essas redes que ocorrem em cada uma das linguagens e nas interconexões entre as diferentes formas de linguagens constituem-se em uma atualização de possibilidades que depende do contexto e do sujeito. No esquema tradicional da comunicação, que pressupõe a transmissão linear de um saber do enunciador para o enunciatário, estabelecia-se a formulação clássica:

Enunciador

Enunciado 

Enunciatário

Fontanille (apud Nascimento) propõe a seguinte formulação esquemática:

Enunciador

Enunciação

Enunciatário

 Enunciado

Portanto, uma vez o texto comunicativo finalizado como enunciado ele se torna dinâmico a cada leitura diferente como uma enunciação. E Nascimento afirma que:
Este segundo esquema evidencia o jogo enunciativo como dependente da construção e da ocupação de espaços actanciais. Segundo o autor, quando a significação se faz por imagens a relação entre os sujeitos da enunciação parece fundada sob uma ―substituição de instâncias‖ evidente (Nascimento, 2002, p. 3).

118

Então, na comunicação imagética estamos na presença de um compartilhamento de informações comunicacionais que se atualiza a cada instante segundo o receptor/leitor singular (suas capacidades, habilidades e interesses) e o contexto específico (espaço e tempo em que o texto comunicacional imagético está sendo lido e interpretado). A semiótica greimasiana foi desenvolvida para a aplicação de leitura das imagens e apresenta a situação de comunicação incluindo cinco elementos:

a)Enunciador/Narrador:autor da enunciação b)Texto/Enunciado:discurso, mensagem c) Enunciatário / Narratário: leitor da enunciação d) Plano de Expressão: os elementos que compõem os textos e) Plano de Conteúdo: compreensão do sentido (significado) (Greimas apud Melo et alii)33

A leitura que realizo neste trabalho das imagens produzidas pelos sujeitos da pesquisa sobre o objeto de pesquisa escolhido – a representação social da confiança – engloba os seguintes níveis: 1º nível – A imagem em si, em sua primeiridade (qualidade pura – o qualisigno de Peirce). O que a imagem nos impacta em termos de beleza, do sentimento geral que ela passa etc. Mesmo que se esteja consciente da intenção do sujeito em pintar a sua imagem da confiança, o impacto primeiro da imagem, o sentimento que ela passa numa primeira mirada mostra muito da sua força, seu forte poder de representar o objeto em foco. Isto pode ser comprovado pela repercussão que a apresentação da imagem nos grupos focais produziu nos demais participantes. 2º nível – A intenção do autor/produtor da imagem e a sua capacidade de utilizar os materiais de expressão pré-definidos. Sua competência para se expressar imageticamente e sua competência em dominar as regras culturais associadas aos signos imagéticos. 3º nível – A expressão verbal (texto verbal) do autor da imagem sobre a mesma. Aqui se percebeu claras diferenças entre pessoas que possuem domínio técnico da linguagem

33

Melo, Desirèe Paschoal de; Brito,Emerson Rodrigues de; Evangelista, Ulisflávio Oliveira. TRAGÉDIA BRASILEIRA – UMA ABORDAGEM GREIMASIANA. Internet: disponível em:< http://recantodasletras.uol.com.br/artigos/783564>.

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imagética e as que não a dominam. Nas primeiras há uma tendência à manipulação consciente dos elementos de produção da imagem para produzir a comunicação desejada com alto grau de sutileza. Nos outros participantes surgem desculpas por não saber desenhar ou pintar - há uma certa expressão de vergonha face à falta de habilidade, mas apesar disto se percebe o impacto e a força comunicativa dos trabalhos. 4 – A expressão verbal dos outros membros do grupo focal sobre a imagem produzida por esse autor individual (a discussão do grupo focal). 5 – A leitura e interpretação desta pelo pesquisador-autor da Tese, em especial naquilo que a imagem produzida pode expressar e que não foi explicitamente abordado pelos sujeitos da pesquisa no discurso da discussão do grupo focal. Ainda, recolocando o problema teórico da leitura e atribuição de significado à imagem, em compasso com Vilches, que afirma e indaga até que ponto o significado atribuído a uma imagem depende do contexto sócio-cultural:
O significado de uma imagem se manifesta através da expressão icônica. Mas existe diferença entre um significado manifestado por uma proposição visual e um significado manifestado por uma proposição escrita? E até que ponto o significado de um objeto visual está determinado pelas formas culturais convencionais da percepção da realidade assim como pelas técnicas que dominam as relações de produção cultural? (op. cit., p. 16)34

A questão da semelhança da imagem criada pelo homem com o objeto pré-existente no mundo real, inicialmente estabelecida por Peirce, sofre a crítica de Eco. Este afirma que o vínculo entre o signo icônico e o objeto é estabelecido por convenção cultural, não existindo, portanto, nenhuma relação natural entre um e outro. Deste modo, a relação entre um signo icônico e o objeto a que se refere depende de um contexto que é fundamentalmente sóciocultural. Aqui ressalta o fato de que uma imagem criada para um objeto dentro de um contexto específico nos indica como aquele objeto está sendo imagéticamente representado socialmente num determinado espaço-tempo cultural.

34

Tradução do Texto seguinte: El significado de una imagen se manifiesta a través de la expresión icônica. Pero, ¿existe diferencia entre un significado manifestado por una proposición visual y un significado manifestado por una proposición escrita? y, ¿hasta qué punto el significado de un objeto visual está determinado por las formas culturales convencionales de la percepción de la realidad así como por las técnicas que dominan las relaciones de producción cultural? ((op. cit p.16)34

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Conforme Vilches, portanto: ―Se se quiser falar de semelhança em semiótica, esta deve ser estudada não como uma correspondência entre um objeto real e uma imagem e sim entre o conteúdo cultural do objeto e a imagem. E este conteúdo é o resultado de uma convenção cultural ―(op. cit., p. 19).35 A analogia é outro conceito bastante utilizado quando se fala da leitura de imagens. Eco (apud Vilches) igualmente aponta para o fato dessas não serem naturais:
... as analogias não se dão naturalmente senão que são condições necessárias para realizar transfomações icônicas, como por exemplo as que se dão entre um siligismo e um gráfico (ou como as utilizadas nas metáforas visuais) (op. cit., p. 19).36

Para Eco, o objeto em si mesmo não motiva a organização da expressão da imagem e nem seu significado, mas sim o conteúdo cultural que corresponde a este objeto. Desse modo, as imagens expressas pelos sujeitos da pesquisa sobre o objeto representação da confiança estão impregnadas destes sentidos culturalmente pré-estabelecidos. E, Vilches acrescenta, esclarecendo o que significa a representação icônica:
Segundo Eco, representar iconicamente um objeto é transcrever segundo convenções gráficas propriedades culturais de ordem ótica e perceptiva, de ordem ontológica (qualidades essenciais atribuídas aos objetos) e de ordem convencional, quer dizer, o modo costumeiro de representar os objetos (op. cit., p. 22).37

Existe uma clara rejeição à noção de se trabalhar a leitura das imagens apenas através de unidades fragmentadas mínimas, como se faz em relação aos signos verbais (fonemas, monemas). Isto seria uma ―ingenuidade logocentrista‖:

35

Tradução do Texto seguinte:Si se quiere hablar de semejanza en la semiótica, ésta se debe estudiar como una correspondencia no entre un objeto real y una imagen sino entre el contenido cultural del objeto y la imagem. Y este contenido es el resultado de una convención cultural (op. cit (p. 19)35.
36

Tradução do Texto seguinte: [...}las analogias no se dan naturalmente sino que son condiciones necesarias para realizar transformaciones icónicas, como por ejemplo las que se dan entre un silogismo e un gráfico (o como las utilizadas en las metáforas visuales) (op. cit., p. 19).
37

Tradução do Texto seguinte: Segun Eco, representar icónicamente un objeto es transcribir según convenciones gráficas propiedades culturales de orden óptico y perceptivo, de orden ontológico (cualidades esenciales que se le atribuyen a los objetos) y de ordem convencional, es decir, el modo acostumbrado de representar los objetos(op. cit., p. 22).

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A semiótica, sem dúvida, deve estabelecer qual o estatuto teórico dos elementos que constituem o plano de expressão visual e qual a relação existente entre a articulação material e o plano geométrico. As unidades propriamente visuais não devem ser reconduzidas a um sistema lógico-simbólico de representação de categorias visuais (op. cit., p. 22).38

Estas considerações levam a assumir uma mudança de postura na leitura imagética que é a da superação do conceito de signo icônico e da adoção da noção de texto visual. Para Maldonado (1974), seguindo Wittgenstein, ‗em toda proposição se mostra ou subjaz uma imagem-modelo e, em toda imagem-modelo se encontra uma proposição‘. Encontra-se aqui esta relação dinâmica entre proposição e imagem, uma evocando a outra, necessariamente, para se completar. O que é importante ressaltar aqui é o fato de uma imagem ser considerada proposição, um texto com sentido a ser atualizado. Peirce afirma que um ícone puro não pode comunicar uma informação fática ou positiva porque não oferece garantia que exista coisa semelhante na natureza, necessitando de outro tipo de signo, o índice, para tal, um nome. Também para ele uma proposição só pode estar formada unindo um nome a um índice. Aqui novamente pode-se verificar a importância de uma rede de relações entre signos diversos para a constituição de um texto comunicativo. Assim, tanto a linguagem verbal quanto a linguagem imagética se referenciam uma na outra. Lembro aqui, novamente Moscovici, quando formula a representação social como uma relação entre palavras e imagens. A representação social constitui-se em uma rede de palavras e imagens que dinamicamente se atualiza no compartilhamento dos indivíduos no interior de um grupo social.

Maldonado, que não é tão determinista cultural como Eco, atribui às imagens poder como forma de conhecimento do mundo. Assim, ―a mente constrói modelos que se adéquam por semelhança à realidade objetiva e neste sentido, os ícones são proposições de imagens‖ (op. cit., p.25).

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Tradução do Texto seguinte: La semiótica, sin embargo, debe establecer cuál es el estatuto teórico de los elementos que constituem el plano de la expresión visual y cual a relación existente entre a articulación material y el plano geométrico. Las unidades propiamente visuales no deben ser reconducidas a un sistema lógico-simbólico de representación de categorias visuales (op. cit., p. 22).

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De qualquer maneira, a linguagem das imagens, como qualquer outra forma de linguagem, necessita de regras prévias para seu entendimento e a competência do receptorleitor para sua decodificação. E aqui volto ao conceito de interpretante de Peirce: é sempre um signo que estabelece o significado de outro signo e assim sucessivamente numa rede de signos (que pode conter signos de diversas linguagens como a verbal, a imagética, a sonora, entre outros) e de significados. O problema para Eco seria reduzido à relação entre os signos e os objetos ou entre os signos e as regras culturais. Seja qual for a escolha, deve-se perguntar ―quais são as proposições decorrentes?‖ pois estas instituem os modelos de mundo que formamos no ambiente social e que modelam os comportamentos humanos. E aqui retorno para nossa questão, as representações sociais como proposições de modelos do mundo constituídas por palavras e imagens e a força emocional estabelecida por essas imagens no sentido de definir o nosso comportamento, nossa ação. E nesse trabalho, a maneira como as imagens da confiança predispõe-nos a confiar ou não. Portanto, tem-se que concluir que o problema fundamental que diz respeito ao signo não é a do signo em si, mas a questão da relação do signo com outros signos: ―Com Hjesmslev (1968) o signo encontrou sua definitiva complexidade sob o conceito de relação, ampliando seu próprio campo teórico: o plano do significante se converte em plano de expressão; e o plano do significado se converte em plano do conteúdo‖ (Vilches p.30).39 Assim, a semiótica passa a se interessar pela relação entre signos e pelas suas funções, e o valor ou significado do signo nunca se dá isoladamente, mas sim pelo seu contexto relacional, e este se expressa na integralidade do texto:‖A teoria da linguagem se interessa pelos textos, e seu objetivo é indicar um procedimento que permita o reconhecimento de um

39

Tradução do Texto seguinte: Con Hjelmslev (1968), el signo ha encontrado su definitiva complejidad bajo o

concepto de relación, ampliando así su próprio campo teórico: el plano del significante se convierte en plano de la exprésion; y el plano del significado se convierte en plano del contenido (Vilches p.30).

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texto dado por meio de uma descrição não contraditória e exaustiva deste texto‖ (Hjelmslev, 1968 apud Vilches, p. 30).40 Então, afirma Vilches, ‗um texto deve ser considerado como o meio privilegiado das intenções comunicativa‘ pois é ‗um todo discursivo coerente por meio do qual se levam a cabo estratégias de comunicação‘ (p. 31). Assim, para se entender as possibilidades comunicativas de um texto visual deverão ser estudadas as ‗regras de competência textual e comunicativa da imagem‘(p. 32). Sugere então que um método de análise textual para análise do texto visual deve conter cinco níveis: a matéria da expressão, as isotopias visuais, os aportes da teoria da enunciação e do discurso, as estruturas narrativas e os níveis de gênero (p. 35). Os níveis produtivos do texto visual se referem ao: 1) Nível da produção material da imagem – manipulação de cores, tons, linhas e formas em diversos meios materiais e tecnológicos. 2) Elementos diferenciais da expressão – estudos dos traços e formas expressos, códigos de reconhecimento, as marcas sintáticas e gráficas (ponto, linha, círculo, quadrado etc.) 3) Níveis sintagmáticos – trabalhar com as diversas linguagens do texto separando-as (visual e verbal, por exemplo). Os sintagmas da linguagem visual são, por exemplo, as proporções espaciais, tipo de perspectiva, diferentes escalas em que as imagens são apresentadas etc. 4) Blocos sintagmáticos com função textual – diversas maneiras de montar uma imagem como narração de um fato, uma peça, uma idéia etc. 5) Níveis intertextuais

40

Tradução do Texto seguinte: La teoria del lenguage se interesa por los textos, y su objetivo es indicar un procedimiento que permita el reconocimiento de un texto dado por medio de una descripción no contradictoria y exaustiva de este texto‖

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6) O mecanismo do tópico – mecanismos de coerência, tanto produtivos quanto interpretativos 7) O gênero como mecanismo macrotextual – grandes estruturas textuais e discursivas que podem coincidir com um grande texto como um filme, um programa de TV entre outros. 8) Tipologias de gêneros Considerar a imagem como um texto, ou seja, como um conjunto que não pode ser reduzido a partes individuais que a compõe, exige analisar a ‗organização lógico-semântica das isotopias que garantem a sua coerência‘ (op. cit. p. 39). Isotopia é um conceito adaptado por Greimas da físico-química e representa toda iteração de uma unidade semiótica, ou seja, a pertinência espacial das unidades semióticas. Assim, ao falar da estrutura de uma imagem em sua isotopia mínima temos de considerar dois traços fundamentais da expressão: espacialidade e cor. A mancha pode ser considerada a unidade elementar da imagem. A unidade intermediária acontece quando duas manchas se colocam em relação: uma mancha englobante denominada suporte, superfície ou fundo e a mancha englobada que seria menor. Assim, ‗estas unidades e suas diferenças mínimas podem ser estudadas como semas de espacialidade e coloração que constituem um espaço isotrópico que aportam uma coerência mínima na manifestação do texto visual‘ (p. 41). Segue Vilches, na sua proposta:
As variáveis isotópicas não se encontram isoladas e, assim, uma mancha localizada à esquerda de um quadro pode ser circular, retangular, azul ou vermelha. Isto quer dizer que o texto visual se forma graças a uma negociação entre diversas variáveis que determinam a isotopia produzida. Apesar de ser difícil determinar estas isotopias (Kandinsky fala do valor do azul que pode ser identificado por um círculo, enquanto que o amarelo é um triangulo) o importante é compreender que uma imagem está atravessada por uma complexidade isotópica; quer dizer, por variáveis de natureza diferente em permanente interação. As isotopias são lidas em um contexto por um leitor41 .

41

Tradução do Texto seguinte: Las variables isotópicas no se encuentran aisladas y, así, una mancha localizada a la izquierda de un cuadro puede ser circular, retangular, azul ou roja. Esto quiere decir que el texto visual se forma gracias a una negociación entre diversas variables que determinan la isotopia producida. Si bien es difícil determinar estas isotopias (Kandinsky habla del valor del azul que puede ser intensificado por el circulo, mientras el amarillo, que es um triangulo), lo importante es compreender que una imagem está atravesada por una complejidad isotópica; es decir, por variables de naturaleza diferente y en permanente interación. Las isotopias son leídas en un contexto por un lector (p. 42).

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Então a imagem funciona como uma proposição, pois toda isotopia, toda mancha, nela presente poderá ter significações diferenciadas dependendo do leitor e da competência desse no momento da leitura. Na superfície textual de uma imagem teremos como elementos importantes da leitura: 1) O contraste (relação de claro-escuro) e a relação contraste-cor. 2) A escala (que pode ser definida através da noção de planos perceptivos: plano geral, plano de conjunto, plano inteiro, plano médio, primeiro plano e plano de detalhe). 3) A espacialidade – perspectiva, profundidade, frontalidade, inclinação. O conjunto de todas as possibilidades de relação entre as unidades mínimas em expressão e conteúdo estabelece a função semiótica. Os sistemas de expressão e de conteúdo de um texto visual são inseparáveis, mais a relação entre esses sistemas não é fixa nem imutável. Outro autor, Ruggero Eugeni 42, propõe o seguinte quadro43 para o estabelecimento de diversos níveis de leitura de um texto visual:

42
43

EUGENI, Ruggero. Analisi semiótica dell‟immagine. Milano: Publicazioni dell‘U.Universitá Cattolica, 2004. Tradução livre do autor.

126

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Segundo este autor a imagem possui quatro níveis perspectivos: o nível plástico, o figurativo, o comunicativo e o metacomunicativo. O nível plástico refere-se aos elementos básicos da linguagem visual, a estrutura da imagem. Aqui a cor e a espacialidade são os elementos a serem avaliados. As imagens abstratas se encontram apenas nesse nível de análise, o que torna a leitura de um texto visual abstrato mais delicada e mais aberta. Aqui, a mancha é a unidade fundamental e o ponto pode ser entendido como a mancha mínima. A relação entre uma mancha e o suporte do trabalho visual gera a informação mínima de um texto visual através do processo de contraste. Esse pode ser de dois tipos: visual e de forma. O contraste visual se estabelece pela diferença de nitidez (entre o mais nítido e o menos nítido). Sua base é o cromatismo, o claro-escuro, os valores da luz. Aqui, além da intensidade do destaque do mais luminoso temos também, no que se refere à cor os valores subjetivos de perto-longe e de quente-frio. Cores como o amarelo, o laranja e o vermelho são consideradas quentes enquanto o azul e o violeta são frios. O contraste de forma se estabelece pelas contraposições de formas geométricas e funciona dentro do processo de figura-fundo e do contraste de escala. Neste aumentamos propositalmente uma forma para focá-la e supervalorizá-la. Ainda no nível plástico vamos encontrar a organização topológica da imagem, ou seja, onde estão localizados os contrastes de claro-escuro, figura-fundo e de escala: acima-abaixo e esquerda-direita. O segundo nível de um texto visual, o nível figurativo, aparece em seguida e através dele procura-se representar as formas tridimensionais do mundo da vida para criar narrativas e apresentar significações simbólicas. Assim, a leitura de um texto imagético se dá através dessas quatro dimensões simultaneamente percebidas pelo leitor. No nível plástico destaca-se a importância do contraste de forma e de cromaticidade. A espacialidade (forma) relaciona-se com a composição de formas individuais (isotopias) no espaço através da posição propriamente dita (forma colocada no alto, embaixo, no centro, à esquerda ou à direita) com sua respectiva colocação espacial (perspectiva, profundidade, angulação), e da escala (tamanho relativo e

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destaque). Quanto maior o destaque, maior o valor relativo que assume uma forma no total do texto imagético. O contraste cromático relaciona-se com o que é mais nítido ou menos nítido através dos processos de luz e cor e das diferenças luminosas das cores e sua respectiva colocação no suporte da obra (alto, embaixo, no centro, à esquerda ou à direita). As relações do contraste cromático estabelecem valores de comunicação emocionais de perto ou longe ou de quente ou frio. O nível figurativo (2º nível de Eugeni, somente presente em trabalhos não abstratos) adiciona os elementos vinculados ao sentido figurativo, estabelecendo narrativas possíveis no texto imagético através das relações entre as figuras que o compõem. O nível comunicativo (3º nível) já estabelece a atribuição de sentido específica de um determinado leitor em um determinado espaço-tempo. Assim, utilizei o seguinte quadro para esquematizar as informações visuais e verbais, construindo fichas de análise do texto imagético:
Seminal identificação sexo profissão

Produção

Suporte ( ) horizontal ( ) vertical

Elementos:

Moldura ( ) sim ( ) não Texto verbal Espacialidade Observações pesquisador: do

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Cor ( ) quentes ( ) frias ( )

complementares ( ) análogas

Psicodinâmica Caro X escuro Contraste contrastantes. Contraste Posição no papel Tamanho / Escala Espessura de linha Angulosidade das formas Proximidade (perspectiva) cromático Cores

Com estas considerações em vista, passo a seguir a uma apresentação dos textos visuais e verbais dos Grupos Focais.

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CAPÍTULO 7 - A PESQUISA DE CAMPO
Eu te desejo muitos amigos Mas que em um você possa confiar E que tenha até inimigos Pra você não deixar de duvidar

(Frejat, Amor para recomeçar)

7.1– Metodologia utilizada Escolhi como abordagem metodológica da pesquisa de campo o Grupo Focal, instrumento de levantamento de informações que possui as características adequadas ao tipo de investigação que estava propondo realizar: a da Representação Social da Confiança. O recorte operacional da amostra é o conjunto de pessoas de nível superior no Brasil. Inicialmente foi estimado como suficiente para os objetivos da pesquisa um total de quatro grupos focais contendo dez pessoas cada um, somando quarenta sujeitos da pesquisa. 7.1.1– Definição de grupo focal O Grupo Focal constitui-se em uma das ferramentas fundamentais de pesquisa das ciências humanas e sociais. Ao lado de outras técnicas da pesquisa psicossocial, como os questionários quantitativos e qualitativos, as entrevistas individuais fechadas, semi-abertas e abertas, o instrumento grupo focal possui algumas vantagens que determinaram aqui a sua escolha com meio principal para o levantamento de dados. Este instrumental constitui-se numa técnica de levantamento de informações qualitativas onde um moderador facilita a discussão focada em um tema específico. Acontece em grupos de aproximadamente 10 pessoas, número suficiente para a dinâmica pretendida. A discussão tem a duração de aproximadamente uma hora a noventa minutos no máximo e tem por objetivo revelar experiências, sentimentos, percepções, preferências sobre determinado objeto de conhecimento social. Os grupos são formados com participantes que têm características em comum definidas a priori e são motivados pelo moderador a debaterem entre si, experiências pessoais e coletivas e refletirem sobre suas idéias, sentimentos, valores, dificuldades etc. O papel do moderador é definir e manter uma ordem no grupo, promover a participação de todos, manter o foco nos objetivos da discussão evitando a dispersão e a centralização de alguns

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participantes sobre outros. O assunto pode ser identificado num roteiro de discussão e são selecionadas técnicas de investigação para a coleta das informações. O resultado das discussões ocorridas no grupo através do compartilhamento dos discursos apresentados pelos sujeitos da pesquisa é considerado comum ao grupo como um todo 7.2 - Organização e acontecimentos prévios à realização dos grupos focais Foram realizados dois grupos focais experimentais no 2º semestre de 2007 que foram fundamentais para a definição final da metodologia da pesquisa de campo. Já havia trabalhado com grupos focais na minha dissertação de mestrado – Poder e eficácia nas Organizações não-governamentais – que defendi em 2004 pelo PPGPS/UERJ, mas não havia trabalhado nesta ocasião com imagens, apenas com discurso verbal. O processo de envolver pessoas como participantes da pesquisa foi bastante árduo. Inicialmente utilizei a minha lista pessoal de emails e a rede do Orkut – conhecido web site de relacionamentos muito utilizado no Brasil - enviando convites de participação para mais de quinhentas pessoas. O retorno foi bastante baixo, menos de dez por cento respondeu. Às pessoas que se interessavam e solicitavam maiores informações enviei email explicativo sobre o processo. Agendei a sala de Pesquisa Qualitativa da UERJ para quatro encontros e divulguei as datas entre os possíveis interessados solicitando confirmação de disponibilidade naqueles dias e horários. Esta sala dispõe de uma infra-estrutura perfeita para trabalhos de pesquisa psicossocial com dois ambientes divididos por um espelho unidirecional. No primeiro ambiente temos uma grande mesa com espaço para 12 pessoas possibilitando a colocação do material para a pintura. Está equipada também com microfones e câmera de vídeo. No segundo estão cadeiras para os possíveis observadores e todo o equipamento de som e vídeo. Com as respostas sobre a possível disponibilidade nas datas oferecidas foi feita uma listagem dos prováveis participantes para cada data. Com uma semana de antecedência solicitei a confirmação de participação por email e posteriormente por telefone. Tive o cuidado de sempre convidar mais participantes do que o inicialmente idealizado para cada grupo (dez pessoas) prevendo uma eventual desistência de última hora.

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Apesar de toda a organização prévia, nos dois dias que antecederam a realização do primeiro grupo focal, cinco pessoas avisaram que não poderiam comparecer. No dia do encontro mais quatro pessoas telefonaram ou enviaram email avisando que não poderiam estar presentes. Assim, o primeiro Grupo Focal (GF1) contou com apenas três participantes, mas teve uma dinâmica muito interessante, gerando um material de grande qualidade. O segundo Grupo Focal (GF2) contou com um número mais elevado: sete componentes. Para o terceiro (GF3) tive a colaboração novamente de sete pessoas. O quarto grupo (GF4) igualmente contou com sete pessoas. O quinto grupo focal (GF5) contou com a participação de dez pessoas. No total foi obtida a colaboração de 34 sujeitos da pesquisa distribuídos por cinco grupos focais. Na pesquisa de campo foram realizados, então, cinco grupos focais, sendo quatro grupos focais durante o segundo semestre do ano de 2008 e um grupo focal no primeiro semestre de 2009. No total foram sete grupos focais, sendo os dois primeiros experimentais, que realizei para o exame de Qualificação e que serviram para a definição da metodologia final da pesquisa de campo, e cinco grupos focais definitivos que geraram os resultados para a presente Tese. 7.2.1– Os grupos focais experimentais Os dois grupos focais experimentais foram realizados na fase da pré-qualificação quando havia a preocupação em definir a metodologia a ser utilizada na pesquisa de campo. O primeiro grupo focal experimental (GFE1) contou com quatro pessoas de nível superior, durou cerca de 90 minutos e teve a seguinte dinâmica: as pessoas que aceitaram o convite foram informadas previamente do assunto do encontro; no começo dos trabalhos expliquei os procedimentos; distribuí uma folha de papel A2 a cada participante e forneci pincéis, tinta e bacias plásticas com água; após o termino da expressão imagética iniciou-se a discussão sobre o tema. O discurso foi gravado, depois transcrito e analisado em referência à imagem produzida. Na reunião de supervisão foi sugerida pelo orientador a interferência prévia na folhas de papel a serem fornecidas, como meio de evitar o excesso de projeção individual nos trabalhos expressivos. Deste modo, para o segundo grupo focal experimental preparei previamente certo número de folhas de papel A2 com intervenções pictóricas e os distribui para o grupo tendo sido os resultados finais mais interessantes face ao diálogo entre

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pesquisador e sujeito da pesquisa e ao limite pré-imposto à expressão. Este detalhe metodológico foi incorporado aos cinco grupos focais da fase final do trabalho. 7.3 – Dinâmica dos grupos focais Os grupos trabalharam por um período que ultrapassou uma hora de duração (hora e vinte a hora e quarenta). O trabalho foi dividido em duas etapas: imagética e verbal. A sala foi previamente preparada, assim como a aparelhagem de gravação de som e vídeo, o material expressivo e o material impresso informativo (anexo). Na primeira etapa, as pessoas foram recepcionadas, acomodadas e apresentadas entre si e foi explicada a dinâmica do trabalho. Receberam uma carta assinada por mim explicando o andamento dos trabalhos (anexo), um documento a ser assinado pelos participantes informando do sigilo dos nomes e autorizando a utilização dos resultados na elaboração de meu trabalho acadêmico, como também um questionário sobre o tema da pesquisa. Após o esclarecimento de algumas questões gerais sobre os procedimentos deu se início aos trabalhos. Forneci, então, o material expressivo – papel Canson (de tamanho A3 – 297 mm x 420 mm) com prévias interferências (ver mais adiante), pincéis de diversos tamanhos - 24, 20, 16, 12, 10 e 6 da marca condor linha 456 e 24 da marca condor linha 473, tintas tempera guache marca Acrilex de diversas cores (azul turquesa, vermelho fogo, magenta, verde bandeira, amarelo ouro, laranja, preto, branco e marrom), bacias de plástico com água para lavar os pincéis ou aguar a tinta, copos plásticos para realização de misturas de tinta caso necessário e toalhas de papel.

As folhas de papel disponibilizadas aos participantes sofreram prévia interferência com o objetivo de traçar limites ao trabalho. A intervenção, feita por mim antes da sessão do

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Grupo Focal, foi executada com o seguinte objetivo fundamental: criar um limite prévio para a representação imagética da confiança a ser feita pelo sujeito da pesquisa. Sempre com a intenção de implicar algum limite, mas nunca de determinar previamente uma imagem expressiva final, criei uma intervenção em cada papel com pinceladas rápidas em cor única para cada folha, mas utilizando as diversas possibilidades de cores distribuídas entre as folhas de papel. Tive, pois, o cuidado de criar formas simples e abertas como retas, curvas, círculos etc., de diversas cores, que sugerissem possíveis continuidades, mas que não implicassem em nenhum tipo de pré- definição obrigatória. As folhas de papel foram colocadas sobre o chão da sala ou sobre uma mesa e as pessoas foram convidadas a escolher uma delas, de acordo com sua preferência, para, em seguida, realizar sua pintura. Como exemplo, apresento a seguir as folhas de papel com as intervenções pictóricas prévias que foram oferecidas ao GF1:

Solicitei, em seguida, que pintassem uma imagem que, para eles, fosse a sua imagem da confiança, mantendo individualmente uma postura de silencio e interiorização durante a execução da obra. O processo de expressão levou em média quarenta minutos e aconteceram algumas expressões verbais dos participantes quanto à dificuldade de se expressar imageticamente, fato este já esperado, devido à falta de experiência de muitos dos sujeitos de pesquisa com a expressão imagética.

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Com as imagens prontas, pedi que cada um comentasse a sua própria obra. Após este momento de discurso individual, solicitei que proferissem comentários sobre o trabalho dos colegas. Num terceiro momento, foi solicitei que contassem histórias ou relatassem situações que envolvessem confiança ou seu oposto, a desconfiança, em especial no mundo do trabalho. Estes relatos deveriam ser provenientes da história de vida pessoal de cada um: da sua vida privada ou do mundo do trabalho 7.4 – Descrição e comentários dos trabalhos Todo o processo foi gravado em áudio, que foi posteriormente transcrito para que pudéssemos analisar os resultados. Também foi feita gravação em vídeo dos primeiros dois grupos focais, facilitado pelos recursos da Sala de Pesquisa Qualitativa da UERJ. No terceiro grupo houve uma falha na utilização do equipamento e a gravação do vídeo não foi realizada. Fotografei o trabalho do grupo durante o processo de criação imagética. As pinturas produzidas pelos sujeitos da pesquisa foram posteriormente fotografadas por mim e as imagens obtidas trabalhadas no computador para que mantivessem um padrão uniforme de luminosidade e tamanho para serem inseridas neste presente texto. Estas imagens foram inseridas no texto da transcrição da gravação para facilitar a própria transcrição e a posterior análise. 7.5.1 – Notação utilizada Para respeitar o anonimato dos sujeitos da pesquisa, facilitar a organização do pensamento e o processo de análise, a comparação e os comentários sobre as imagens e o discurso dos participantes, adotei aqui a seguinte forma de identificação: 1 - os participantes são numerados conforme a ordem de apresentação do trabalho de pintura: Sujeito de pesquisa 1, sujeito de pesquisa 2, etc. com a abreviação SP1, SP2, etc. 2 - O grupo focal que o SP participou é identificado como 1, 2, 3, 4 e 5. 3 - O número do grupo focal foi inserido logo após a notação do sujeito de pesquisa.

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4 - Então o significado de uma notação como SP1.1 é: sujeito de pesquisa numero um do grupo focal 1; de SP2.3 é: o sujeito de pesquisa número 2 do grupo focal 3, e assim por diante.

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CAPÍTULO 8 - APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS DOS GRUPOS FOCAIS

Na vida tudo se baseia na confiança, tamo aí na luta sem perder a esperança você corre comigo porque sabe quem eu sou mais um sobrevivente que o sistema levou Eles falam em crescimento E não fortalecem o povo Enganaram você E ainda vão fazer de novo vão fazer de novo vão fazer de novo

(Charlie Brown Jr música: Vão Fazer De Novo)

8.1 - Resultados do Grupo Focal 1 Foram apenas três participantes, todas do sexo feminino e idade acima dos 40 anos, sendo duas formadas em pedagogia e em Comunicação e trabalhando como jornalista. Das dez folhas de papel oferecidas com as interferências das imagens seminais quatro eram de cor azul, duas verdes, duas pretas e duas vermelhas. Foram utilizadas as duas vermelhas e uma das azuis.

SP SP1.1 SP2.1 SP3.1

Sexo Feminino Feminino Feminino

Idade 40 41 40

Graduação Pedagogia Administração Comunicação

Pós-graduação Pós latu-sensu Pós latu-sensu Pós latu-sensu

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8.1.2 – Textos visuais do GF1

Imagem do SP1.1

Imagem seminal

Trabalho simbólico Cores – vermelho, verde, azul, marrom, laranja. Cores contrastantes. Figuras humanas com as mãos dadas e os olhos fechados cercadas por dois símbolos, tendo abaixo um coração e ao lado um grande olho. Olho – no centro do trabalho em visão lateral e tamanho desproporcional (ênfase) às duas outras formas da imagem, o casal e o coração. Cílios na cor azul. Coração em cor vermelha intensa e enfatizado em relação ao casal. Ocupação maior do lado esquerdo e da parte superior do papel deixando bastante espaço em branco no lado direito. Remete ao trabalho do pintor Philip Guston.

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Imagem do SP2.1

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores: vermelho, amarelo , laranja, azul, verde, marrom. Contraste entre cores frias (azul, verde, marrom) e quentes (vermelho, laranja). Sugere uma rede ou teia, as relações entre partes. Sugere uma caixa craniana com a visão de um cérebro. As curvas vermelhas circundantes cumprem o papel de moldura para o trabalho.

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Imagem do SP3.1

Imagem seminal

Imagem figurativa. Cores: azul, vermelho, preto e marrom. Contraste entre o vermelho e o azul (quente/frio) Figura humana – mulher no centro em grande escala. Bailarina ou dançarina sorridente com olhos aparentemente fechados como se estivesse ‗dançando nas nuvens‘. A saia é transparente e lembra asas. A imagem ocupa praticamente todo o papel e está colocada na diagonal esquerda/abaixo-direita/acima. Curvas azuis funcionam como moldura construindo uma grande nuvem na qual a bailarina dança. Sugere leveza, liberdade, soltura.

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8.1.3 – Textos verbais do GF1 A imagem do SP1.1 contém vários símbolos como o olho, o coração e um casal, duas pessoas de mãos dadas, um homem e uma mulher. O participante fez o seguinte comentário sobre sua imagem:
Pensei na observação. Que a gente, para confiar, tem que estar observando as pessoas. Então fiz o olho para representar a observação e coloquei o coração porque confiança é muito sentimento, vem de dentro. Às vezes você confia numa pessoa que você nunca viu. E as pessoas estão aqui de olhos fechados... Quando a gente tem confiança nas pessoas, quando a gente acredita, não fica mesmo naquela desconfiança. As pessoas confiam mesmo uma na outra e ficam de olhos fechados até que se prove o contrário,

Em primeiro lugar foram ressaltados aqui dois processos antagônicos do confiar: necessidade de observar (olho aberto) e o apenas se deixar sentir (o coração). O primeiro ligado à razão: construímos, a partir da nossa experiência de vida, critérios para confiar ou desconfiar das pessoas e as observamos atentamente (olho aberto) analisando conforme nossos critérios pré-estabelecidos. O segundo processo está ligado ao sentimento: apenas sentimos que confiamos ou não, mesmo numa pessoa que nunca vimos anteriormente. Quando a confiança se estabelece podemos ficar de olhos fechados, relaxar (até que, porventura, algo aconteça que indique o contrário). Estes critérios são partes constitutivas da nossa Representação da Confiança com sua parte constituinte imagética, mais ligada aos sentimentos provocados por imagens que percebemos no mundo da vida e a sua parte constituinte lógico-racional, ligada ao discurso que ouvimos do outro ou sobre o outro e ao nosso discurso interno sobre o que percebemos. Partindo das linhas previamente existentes na folha de papel escolhida por ele (intervenção seminal), SP2.1 cria formas abstratas e arredondadas utilizando-se de diversas cores. Comenta, então, que as linhas ficaram diferentes para expressar que podemos confiar em pessoas diferentes e não apenas naquelas que são iguais ou parecidas conosco. Ressalta que a confiança pode ser perdida, rompida, mas depois reconquistada. E também que

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devemos estar sempre observantes, atentos, a confiança deve ser ativa, devemos confiar desconfiando:
Voltando à minha coisa do desconfiável, não acredito muito em olhos bem fechados, acredito em olhos bem abertos em que você... até porque o outro nem sabe que está quebrando a confiança, aí você fala – eu confiei em você – em momento nenhum eu quis quebrar esta confiança – mas você quebrou.

Aqui continua a se comentar sobre os olhos e a confiança, mas o participante não acredita em olhos bem fechados, porque, segundo ele, a qualquer momento a confiança pode ser quebrada. Então devemos sempre estar com os olhos bem abertos. E que a confiança pode vir a ser quebrada sem a consciência daquele que motivou a quebra, muitas vezes por este desconhecer os critérios estabelecidos pela representação da confiança do outro ou como foi percebido aquilo que aconteceu na interpretação do seu discurso ou do seu comportamento por outras pessoas. Mesmo assim, segundo ele, quando menos esperamos, passamos a confiar profundamente e fechamos os olhos e relaxamos porque assim ansiamos por fazer, já que é confortável:
É bom confiar, é confortável, dá um alento estar entre pessoas que você confia, sensação de proteção gostosa, poder ficar de olhos fechados, de repente você nem percebe e já fechou o olho. Talvez para o adulto seja difícil fechar os olhos. Você fala para um filho seu – papai está aqui, toma conta de você, em três segundos você tem um olhinho completamente dormindo, é muito confortável, a criança sente isto.

Portanto, muitas vezes o olho se fecha e nem sentimos. O olho inicialmente aberto para analisar e julgar (a razão humana) pode ir percebendo sinais de confiança (segundo a representação da confiança) naquilo que vê (segundo a situação, os critérios pessoais etc.) e repentinamente relaxamos (emoção atuante sem controle), o olho se fecha porque se atingiu um grau especifico de certezas em relação à confiança. No fundo se deseja isto porque permite o relaxar. Confiar é ficar confortável e relaxado e não confiar é ficar atento e tenso todo o tempo. Entretanto, mesmo que dominemos a situação, algo pode mudar e ser difícil de ser visto como prova a experiência do ―ponto cego‖ do motorista.

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Já SP3.1 parte dos traços vermelhos iniciais contidos no papel (seminal) e pinta uma bailarina dançando sorridente. Fala da confiança como um processo de entrega:
E a primeira sensação que eu tive da confiança é a entrega, é a liberdade, é estar livre comigo mesma para me entregar para confiar, para intuir e entrar na energia. Acho que a confiança te predispõe a estar aberto, porque é como sempre imaginei, quando você abre um sorriso você está se comunicando porque você pode ter ‗n‘ reações. Você estar livre para se abrir, para confiar, é algo de entrega mesmo. E eu acho que a questão dos olhos fechados passa por aí, eu acho que olhos fechados, na verdade, é no sentido da entrega.

Mas, muito importante, para confiar, para haver a entrega é preciso inicialmente confiar em si mesmo, possuir prévia autoconfiança:
...você se predispõe a estar aberto, a estar livre com você em primeiro lugar, confiar em você, em que você é capaz de estar livre, de se doar, de trocar, de acreditar, de confiar, de observar, de sentir, porque quando você se entrega, se doa, se abre, seja por um sorriso ou um movimento, você também tem suas quedas, também tem seus momentos em que, poxa, sim, mas tudo começa de uma entrega, de uma confiança, para que você inicie o movimento das relações.

Para SP3.1 sem confiar não há relacionamentos, pois não há trocas. É preciso ter confiança em si mesmo, se entregar, se permitir confiar no outro, para que um relacionamento realmente possa existir. Interessante notar como este sujeito representa a auto-confiança (confiar em si-mesmo): é você ser capaz de diversas coisas como ter liberdade, se doar, trocar etc., mas me chama a atenção o ‗ser capaz de confiar‘. Só posso, então, confiar no outro, no mundo, se sou auto-confiante, se sou capaz de confiar. SP2.1 aponta a dissimulação como a atitude que indica a falta de confiança. Confiar implica em: verdade, inteireza, integridade, coragem. O medo leva à dissimulação e esta caracteriza a dificuldade pessoal em confiar no outro;
A pessoa dissimulada não sabe o que quer, tem medo. Tenho lidado no trabalho com pessoas mais novas do que eu e vejo o jovem tão travado, dissimulado, com conceitos de ética tão reduzidos. A pessoa reclama do outro e não toma iniciativa, o projeto não anda porque ninguém faz um milímetro para que a coisa acontecesse.

SP3.1 reafirma a importância da confiança para os relacionamentos. Somente confiando eu me abro e me expando. No mundo em geral e no mundo do trabalho somos altamente interdependentes. A desconfiança acontece por medo e necessidade de auto-

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proteção Assim, a gente tem de confiar desconfiando, mas é necessária a autoconfiança para podermos confiar nos outros e assim obter dos colegas a melhor colaboração:
As pessoas vivem, trabalham, são obrigadas a entregar coisas nas mãos de outras pessoas, mas sempre com o pé atrás, isso é muito ruim. Como você falou, eles criaram um mundo onde eles se sentem confortáveis. A confiança é uma coisa que nasce, assim, acho que é difícil você confiar no outro quando você não confia em você.

O grande problema no ambiente de trabalho é a dissimulação que pode ser caracterizada pelo conceito de ―hipocrisia cordial‖. Pode-se fingir que gosta do outro (―meu querido‖, ―meu bem‖, ―meu amigo‖, etc.), tratar o outro de forma aparentemente cordial e elegante e quando solicitados negarmos apoio, auxílio, informação, criarmos ou participarmos de fofocas visando denegrir a imagem do colega e assim por diante. São atitudes que abalam a construção da confiança ou a confiança previamente estabelecida.

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8.2 – Resultados do GF2 Participaram sete pessoas, sendo cinco mulheres e dois homens, todos de nível superior, sendo dois mestres em História, três pós-graduados latu-sensu e dois apenas com graduação. O numero maior de participantes neste grupo induziu a uma dinâmica mais rica. Notei algumas demonstrações de insegurança sobre a capacidade expressiva e autocrítica sobre a imagem produzida, que prontamente foram trabalhados pelo pesquisador.

SP 1.2 2.2 3.2 4.2 5.2 6.2 7.2

Sexo Feminino Feminino Feminino Feminino Feminino Masculino Masculino

Idade 29 41 28 33 26 26 29

Graduação História Pedagogia Jornalismo Turismo Administração Administração História

Pós-graduação Mestrado Latu-sensu Latu-sensu Latu-sensu Latu-sensu Não Mestrado

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8.2.1 – Textos visuais do GF2

Imagem do SP1.2

Imagem seminal

Imagem simbólica Cor única – vermelha (quente). O contraste de cor é apenas entre o vermelho e o branco do papel. Símbolos individuais com tamanhos diversos (não há proporcionalidade em relação aos objetos reais) e dispostos de forma rítmica. Papel utilizado na vertical. Dois corações, um logo acima da casa e outro no alto do papel sob uma nuvem são imagens simbólicas apresentadas num espaço não convencional – no céu, entre nuvens, estrela, sol. Casa colocada em baixo/direita com telhado, uma porta, janela e chaminé com fumaça indicando fogo, calor, aconchego na parte inferior direita do papel. Sobre ela estão um pássaro, a lua e a estrela.

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Cruz fincada na parte baixo/esquerda. Sol quase no centro sendo atingido pelo grande raio que parte da nuvem maior e mais alta. Três Nuvens, uma maior com raio (imagem seminal) e duas menores. Estrela de seis pontas. Lua triangulando com a estrela e o coração. Seis pássaros voando entre a cruz e a casa.

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Imagem do SP2.2

Imagem seminal

Imagem figurativa Cores – azul, vermelho, amarelo e preto. Predomínio do azul contrastando com o forte vermelho da boca. Muito espaço em branco. Dois rostos se olhando e sorrindo mutuamente – rostos de perfil, mas os olhos estão frontais e abertos Sinais de exclamação e interrogação em cor verde na testa acima dos olhos. Três pontos amarelos interligam a exclamação e a interrogação lembrando reticências. (o que vemos nos surpreende! e nos faz indagar?). Pintura lembra a clássica imagem da gestalt, aqui o vaso está como fundo Utilização vertical do papel

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Imagem do SP3.2

Imagem seminal

Imagem figurativa Cores – verde, vermelho, preto, azul e amarelo. Cores contrastantes quentes e frias. Mostrando uma cena única, um quadro, uma janela: Casal visto de frente de mãos dadas e pés encostados, olhos abertos, e sob um campo verde com flores vermelhas. O casal encontra-se levemente descentralizado à esquerda na composição da imagem. Duas nuvens azuis pairam acima do casal, uma de cada lado. Campo florido (presença da beleza da natureza). Sol no canto superior direito Moldura na cor verde aproveitando a imagem seminal

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Imagem do SP4.2

Imagem seminal

Imagem abstrato-simbólica Cores – vermelho, verde, amarelo preto, azul, marrom. Predominância do vermelho. No interior da moldura vê-se: 1 - Cinco figuras humanas, três em baixo e duas em cima como que se equilibrando em uma pirâmide humana, sendo quatro de cabelo comprido, sugerindo serem do sexo feminino, duas de cabelo mais curto, possivelmente do sexo masculino. As figuras não se tocam em principio, mas foram interligadas por linhas vermelhas. 2 - Cruz em cor verde no canto superior esquerdo. 3 - Um ser multicolorido composto de grande cabeça sorridente verde-amarela , braços (orelhas?) .e pés vermelhos. 5 – Cinco letras em seqüência decrescente: FDSAV que partem da cabeça do ser sorridente. Fora da moldura vemos três imagens: duas azuis, representando a lua cheia cercada de estrelas pretas e a lua quarto minguante, e uma amarela, o sol, cujos raios são

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similares ao ser sorridente. Moldura vermelha na forma de coração, contínua em cima e descontínua embaixo, interligando os pontos verdes da imagem seminal. Oposições figurativas contrastantes: sol versus lua e estrela na parte superior do suporte e cruz versus boneco sorridente dentro da moldura.

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Imagem do SP5.2

Imagem seminal

Imagem figurativa Cor – marrom, vermelho, verde, azul. Quatro nuvens na cor azul no alto do papel. Uma pessoa sobre duas curvas coloridas (sendo a de baixo a imagem seminal), aparentemente uma mulher visualmente destacada por ou enfatizada por tamanho. Outra pessoa sobre outra curva, aparentemente uma criança ou um homem (acima ou longínquo). As duas pessoas de braços abertos e olhos abertos As curvas coloridas sugerem gangorras ou embarcações flutuando no espaço.

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Imagem do SP6.2

Imagem seminal

Imagem figurativa. Cor – azul, preto, marrom, laranja. Utilização intensa de cores frias e tons escuros Sentido diagonal partido da esquerda/baixo para a direita/alto do papel. Um barco no mar durante uma forte tempestade (representada por nuvens negras e raios negros no alto do papel) indo de encontro a uma rocha ou montanha negra emoldurada por uma curva em azul. Tanto a rocha quanto o barco estão envolvidos pela imagem seminal na cor azul. No interior do barco está uma mulher que olha em direção ao homem sob as águas. No canto superior do papel. Do lado de fora do barco, como que sobre as águas está outra figura humana, possivelmente um homem. Os dois seres pintados de cor laranja se comunicam olhando-se mutuamente.

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Imagem do SP7.2

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores: vermelho, azul, preto, marrom, verde, amarelo. Muita utilização da cor vermelha e também do marrom. Cores frias predominam no centro da figura e as quentes na parte externa da figura. Figura multicolorida com a maior parte concentrada no lado esquerdo do papel. A parte da direita do papel está quase toda em branco. O olhar se dirige a uma massa circular azul e verde circundada por vermelho e amarelo de onde partem, ou para onde convergem uma linha preta (seminal), duas vermelhas e duas marrons. A imagem azul e verde sugere um olho. As linhas grossas de cor marrom possuem pontos brancos em toda a sua extensão.

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8.2.2 – Textos verbais do GF2 SP1.2 fez um imagem monocromática usando somente a cor vermelha e pintou vários símbolos: casa, cruz, pássaros, estrela, sol, coração e nuvens. Na sua apresentação relacionou os símbolos com áreas importantes da sua vida como o amor, a família e o trabalho:
Eu comecei com coração, porque veio para minha cabeça o amor, amor homem-mulher, pela família, amizade, e depois eu fiz o sol. Quando eu fiz o so,l me veio na cabeça a imagem de companheirismo, de lealdade, porque eu acho que o companheirismo, a lealdade, a amizade tem de ser uma coisa assim brilhosa, que brilhe. Depois eu fiz a estrela, não sei fazer estrela direito, fiz a estrela do jeito que eu aprendi a fazer, que para mim, a primeira coisa que veio na cabeça foi a confiança no meu trabalho, confiança na vida profissional, aquela coisa de que eu posso me ligar no meu trabalho , na minha vida profissional. Aí eu fiz as gaivotas. Vemme na cabeça uma coisa de liberdade. Aí depois eu fiz a lua e a estrela e as nuvens, que me trouxeram aquela coisa da imaginação, você pode se soltar, você pode soltar sua imaginação. Depois eu fiz a casa, que a casa é onde você tem segurança. Eu pensei tanto na minha casa enquanto lar, por conta de duas coisas: perdi meu pai este ano, então me veio a casa porque a gente se uniu muito, eu, minhas irmãs e minha mãe e a casa que eu quero construir, uma família que eu vou construir no futuro. E eu fiz a cruz, a cruz me veio duas coisas na cabeça: casamento e morte. Casamento que eu vou construir e morte por causa de meu pai.

A representação da confiança tem base nos valores amor, família, amizade, companheirismo e lealdade. Destacou aqui a importância da confiança no trabalho, na vida profissional como uma crença fundamental para o estabelecimento do sentimento de segurança. Poder trabalhar e ganhar o sustento é fundamental. Também a imagem da casa e da família de origem e daquela residência construída pelo casamento constitui imagem muito importante, pois traduz a necessidade da pessoa confiar na realização de uma vida pessoal de qualidade. Deve ser destacada a relação da Confiança com a liberdade (representada pelos pássaros) que já havia sido ressaltada no grupo focal anterior. SP2.2 pintou dois rostos frente a frente. Para ela, confiança gera paz. Se você confia, você não precisa se preocupar e pode ficar de olhos fechados (muito embora ela tenha pintado os olhos abertos). De novo aqui aparece a imagem do olho e a discussão sobre o olho e o olhar, tão presente no GF1, inclusive a mesma expressão lá utilizada para representar o confiar no outro – olhos fechados (confiar é poder fechar os olhos):
Confiança transmite a paz, o sorriso, que eu tentei expressar aqui, fiquei pensando em colocar o olho, mas eu ia até pintar em cima aqui, mas achei que ia ficar meio feio. Porque eu acho que quando você tem confiança você pode fechar o olho para o outro. Você está entregando, pode fechar os olhos e mostrar para a outra pessoa que você confia nela.

SP3.2 pintou um casal de mãos dadas, que também é imagem recorrente, pois aparece igualmente nos trabalhos de SP1.1 e SP4.2. A imagem criada contém o sol, nuvens e flores e o participante expressou que: Pensei mais na força de um casal juntos perante as dificuldades.

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SP4.2 pintou uma imagem de um coração contendo cinco figuras humanas, a cruz, um bonequinho sorridente e as letras FDSAV, a imagem contem também o sol e a lua (imagens recorrentes). E falou desta forma sobre seu trabalho:
Eu pensei no coração e no meio do coração este monte de coisa, aqui a lua, o azul da lua em suas várias faces e aqui o sol e, eu me identifico muito... , eu sou do dia e da noite. Eu sou muito alegre e muito família, Deus, assim. Aqui dentro estão minha família, meus pais sempre juntos com as três filhas, um bonequinho para mostrar que eu estou sempre alegre e aqui simboliza: Família, Deus, Saúde, Amor, Amizade e V de Vitória, porque estou sempre batalhando para sempre fazer sucesso, Isso aqui é fundamental para todo mundo para poder demonstrar confiança. Sem isso aqui é difícil até você confiar em alguém.

Como se pode notar a Representação de Confiança de SP4.2 contem as letras FDSAV que expressam valores contidos no grande coração: família-Deus-saúde-amor-amizade. Interessante o fato de colocar a família em primeiro lugar nesta ordenação. Ressaltemos aqui que o coração é símbolo recorrente da confiança. A confiança também está relacionada à vitória, ao sucesso SP5.2 aproveitou o risco inicial do papel, que para ela denotava uma gangorra ou balanço, onde ela pintou uma pessoa que, ‗no balanço das horas da vida, ora está em cima, ora está em baixo e tem sempre que confiar‘. Mas, para ela, a confiança fundamental é em um ser superior, já que não podemos estar certos da atitude das pessoas:
Você tem de confiar mais em Deus, acima de tudo a confiança em Deus. E quando você tem esta confiança, você não olha dificuldade, não olha barreira, você não olha nada. Por mais que as pessoas até gostem de você, viram as costas para você naqueles momentos mais difíceis, se você confia em Deus você continua. Então por mais que a balança esteja mais em baixo você sabe que tem quem possa te ajudar, que pode estar te amparando.

As pessoas são, portanto, imprevisíveis e podem te trair ou abandonar, decepcionar. SP5.2 tem, portanto, a crença de que as pessoas não são realmente plenamente confiáveis, principalmente nos momentos mais complicados (‗viram as costas para você‘). A confiança plena está além do humano, se encontra na dimensão divina, pois Deus sempre estará ao seu lado para te amparar. E se você realmente confia no divino, nada é impossível para você: E quando você tem esta confiança você não olha dificuldade, não olha barreira, Desta forma, confiando no divino você estabelece plena autoconfiança, nada pode te deter.

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SP6.2

pintou um barco no mar bravio sob uma forte tempestade e se referiu à

passagem bíblica onde Jesus caminha pelas águas. Afirma a relação existente entre confiança e fidelidade:
Primeiramente eu me baseei em uma passagem bíblica em que Jesus está andando sobre as águas e Pedro vê e..... Então, a gente vê aqui o mar bravio e tal, uma tempestade imensa, e eu acho que confiança é isso mesmo, tem a ver com fidelidade... A fidelidade se comprova nas dificuldades, aí se vê quando uma pessoa é realmente fiel a outra.

SP7.2 confiança:

utiliza diferentes cores numa imagem totalmente abstrata para falar da

Aqui está meu desenho, uma coisa bem abstrata, bem colorida. O traço básico foi o traço preto que já tinha na folha então me veio na cabeça usar o azul, esta parte aqui. E eu comecei a pensar o seguinte: esta parte colorida aqui, o laranja, o amarelo, o azul, o verde, seria meu ponto de confiança, abstrata, a confiança interna de viver em sociedade, de me relacionar com a minha família, meus amigos etc. Esta coisa vermelha, era para ser vermelha mas acabou sendo rosa, seria a energia de confiança que eu emano para as pessoas e essas faixas marrons junto com a preta seria a desconfiança, a negatividade existente na minha vida. Então quis mostrar que tem mais confiança que desconfiança ou energia negativa.

Então, confiança e desconfiança existem simultaneamente como pares de opostos, como energias que são emanadas de um sujeito para os outros, de forma positiva (confiança) ou negativa (desconfiança). SP7.2 ressalta que confia mais do que não confia, ou seja, emana mais energia positiva de confiança do que negativa, para as pessoas neste momento de sua vida. SP1.2 volta a falar da importância dos acontecimentos trágicos de sua vida para o aumento de sua auto-confiança:
Quando eu falei da morte, não é questão de desconfiança, é que quando eu vi meu pai, que morreu com 56 anos, que a vida passa muito rápida, isto me deu uma certa força de confiar em mim mesma e batalhar pelas coisas que eu quero, porque de repente a coisa um dia acaba. Aprendi a não ficar mais adiando as coisas, porque de repente as coisas podem acabar, entendeu?

Por este relato pode-se verificar a importância de uma experiência de vida (aqui trágica, a perda do pai) para a autoconfiança e para a Representação da Confiança. SP3.2 ressalta a importância da família de origem para que você possa confiar em alguém, mas admite a necessidade da existência de uma desconfiança a priori face o atual estado de coisas no mundo da vida:

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Se a pessoa é de boa família, batalha, coisa e tal, você diz ―poxa aquela pessoa, porque você não dá um voto de confiança nela?‖ Mas o mundo está tão complicado que mesmo que você esteja a fim de confiar, você desconfia.

Mesmo a pessoa sendo de ―boa família‖ e sendo ―batalhadora‖, o que se deve fazer é apenas dar ―um voto de Confiança‖, ou seja, depositar um crédito prévio face às qualidades observadas (boa família, batalhadora) que a qualquer momento pode ser retirado face ao fato do ―mundo estar tão complicado‖. Votar também expressa a delegação de uma representação. Neste sentido podemos entender que provisoriamente aceitamos o fato de que a nossa Representação da Confiança possa ser atribuída (delegada) a determinada pessoa até que ela prove que não mais é digna desta representação. SP2.2 também afirma a existência de uma desconfiança generalizada no mundo da vida, em especial nos grandes centros urbanos como o Rio de Janeiro:
Eu percebo que no Rio de Janeiro, onde as pessoas conhecem muito pouco uma das outras, sempre estão desconfiando dos outros. Quem é quem? E eu inclusive fui vitima, quase fui vitima, até por ingenuidade, no centro do Rio de Janeiro. Um idoso, ele me parou e eu parei porque ele é idoso e depois eu comecei a observar que o idoso é confiável, a criança é confiável...

Portanto, alguns antigos critérios de confiabilidade não nos servem mais e os acontecimentos nos demonstram isto. Auxiliar uma pessoa idosa ou uma criança pode nos envolver em uma armadilha. ingenuamente. SP4.2 culpa a falta de ética pela desconfiança generalizada:
As pessoas já não têm mais ética, este mundo capitalista, dinheiro, aí a gente passa a desconfiar. A pessoa se aproxima e a gente pensa que está querendo alguma coisa em troca. Eu pelo menos... Tem pessoas boas, mas tem também pessoas aproveitadoras, então ‗fica ligado‘.

Ninguém é confiável a principio, não podemos confiar

SP5.2 pontua que não podemos condenar ninguém a priori, mas temos que ficar atentos sempre, ou seja, a confiança deve ser ativa, deve-se confiar desconfiando. O fundamental, porém, é que se deve confiar, senão não conseguiremos nos relacionar com ninguém:
Todo mundo é bom até que prove o contrário. Mas você, lógico, não deve confiar em todo mundo, largar a minha carteira e sair de perto, dar bobeira com ela ali, mas assim, eu penso que todo mundo merece um voto de confiança, guardando, lógico, as devidas proporções, porque se você não confiar em ninguém, você vai ficar isolado, não tem como. Você tem que confiar na pessoa, até como profissional eu enfrento muito isso.

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SP5.2 destaca que, no mundo do trabalho muitas pessoas possuem interesses escusos, portanto:
Você tem que dar um voto de confiança. Lógico que assim: a confiança desconfiando, aquela confiança investigando para ver se a pessoa está fazendo a coisa certa ou não. Só que, se você não acreditar que a pessoa é boa até prova em contrário, acabou. Você vai se estressar e não vai conseguir fazer nada. Vai achar que todo mundo vai te passar a perna, passar na frente quando você cai de cara no chão. A gente faz realmente isso, mas a gente não pode generalizar

Aparece novamente aqui a expressão popular ―dar um voto de confiança‖ que expressa o ―confiar desconfiando‖. A crença existente no senso comum é exatamente a que SP5.2 aqui expressa: ―acreditar que a pessoa é boa até prova em contrário‖. Os motivos para isso são evitar o estresse da desconfiança, do medo de sermos traídos ou ficarmos decepcionados com o outro que pode impedir que relacionamentos se desenvolvam e que possamos obter os benefícios destes. SP7.2 fala em graus de confiança que vão se estabelecendo na medida em que você vive situações repetidas e se familiariza com as pessoas. A confiança é construída ou destruída ao longo do tempo em que você se relaciona com os outros:
Na verdade são graus de confiança que é necessário para o dia a dia. Desde você ter de confiar que o motorista do ônibus vai dirigir direito e te levar para onde você quer ir até você contar seu segredo pessoal, você desabafar com um amigo, e você confiar que aquela pessoa não vai usar aquela informação para te destruir na primeira oportunidade. Se você pega o mesmo motorista sempre, o mesmo carteiro, o mesmo porteiro, você vai confiar naquela pessoa mais do que você confiaria num profissional na primeira vez que você esta lidando com ele.

SP6.2 ressalta que o nível de confiança é situacional pois depende do grupo em que você se encontra em cada instante, sendo que você pode confiar mais naquilo que é familiar:
O grau de confiança depende do grupo que você está lidando no momento. Na família você tem um grau maior, no trabalho já é razoável.

SP5.2 destaca que as relações de confiança no mundo do trabalho são estabelecidas com o tempo, ou seja uma construção constituída pelos acontecimentos dos relacionamentos.
Você constrói também com o tempo esta confiança. Para o meu grupo do trabalho hoje a gente conseguiu chegar num nível que um xinga a mãe do outro, mas é tudo amigo. Tipo assim: ‗você está me passando a perna, você não pode fazer isso comigo‖. Estou falando assim dentro do mesmo nível, dentro do mesmo cargo. Você está me passando a perna, está acabando comigo lá na frente. E a gente conseguiu desenvolver isso porque assim, reunião de trabalho um bate no outro e assim vamos até a praça de alimentação, vamos até ali tomar um guaraná, vamos sentar e vamos conversar... Isso é claro, não é de uma hora para outra e

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quando entra um novo no grupo dá uma desestruturada, todo mundo dá uma segurada e daqui a pouco está na boa de novo.

No seu grupo de trabalho as pessoas construíram um pacto de confiança dentro do mesmo nível hierárquico em que um acoberta o outro, a menos que, em uma situação extrema, alguém fique na linha de fogo e ressalta que as relações de trabalho são as mais difíceis de serem construídas:
Relação de trabalho é um pouco mais complicada porque envolve várias outras coisas. Todos sabem dos podres um do outro, mas ninguém entrega os podres de ninguém. Meu amigo não foi trabalhar hoje e falou: ―tirei o dia para resolver os problemas do meu carro, e não fui trabalhar‖ Liga e diz – ―vê aquele email assim-assim para mim, porque hoje eu não estou, hoje eu estou fora‖. Um sabe o que o outro faz, mas fica todo mundo calado. Mas é outra história, antes de estourar na minha mão vai estourar na mão dele, então assim, aquela coisa da relação, na hora que apertar vai ter que falar, mas todo mundo sabe, não é nada escondido, se apertar vou entregar, vou dizer o que esta acontecendo de verdade, mas se não me apertar vou continuar, você pode ficar do jeito que você está, não quer trabalhar, não trabalha. Eu não falo, você não fala. Agora, se te apertar e tiver com a faca no seu pescoço você fala. Vai morrer por mim? Não. Eu que morra, eu que fiz. Mas não é tão fácil você ter um nível assim de amizade dentro do trabalho, não é tão fácil. Acho que desenvolver amizade no trabalho é muito mais difícil do que desenvolver relações de amizade em qualquer outro lugar. Porque tem relação de competitividade mais acirrada.

A confiança gera cumplicidade no mundo do trabalho e permite que as pessoas se ajudem mutuamente. Assim, desde que não venha a prejudicar a si, a pessoa auxilia a outra nas faltas ou quando esta outra necessita resolver assuntos de ordem pessoal. Tal atitude é recíproca, mas existe um limite: desde que não venha a prejudicar as outras pessoas.

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8.3 - Resultados do Grupo Focal 3

No GF3 houve um inesperado na chegada do equipamento fotográfico, que somente aconteceu após o início dos trabalhos plásticos, motivo pelo qual não pude realizar o registro das imagens seminais. Logo que foi possível, obtive, na primeira fotografia que pude tirar, uma memória do início dos trabalhos que reproduzo aqui: Através desta imagem recuperei as formas das imagens seminais e as comento durante a análise dos trabalhos expressivos, mas infelizmente não se tem as fotos para fazer a comparação visual. Participaram sete pessoas de nível superior, sendo dois homens e cinco mulheres, um doutor, quatro pós graduados latu sensu e dois graduados. SP 1.3 2.3 3.3 4.3 Sexo Feminino Feminino Masculino Feminino Idade 50 35 40 46 Graduação Comunicação Design Design Ciências Biológicas 5.3 6.3 7.3 Feminino Feminino Masculino 40 29 33 Administração Pedagogia Ciências Contábeis Latu-sensu Latu-sensu Latu-sensu Pós-graduação Latu-sensu Doutorado Mestrado Não

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8.3.1 – Textos visuais do GF3

Imagem do SP1.3

Imagem seminal

Imagem figurativa-simbólica Cores: verde (seminal), vermelho e preto. Predominância do vermelho e do verde (contraste de cores). Papel utilizado verticalmente. Imagem centralizada. Mulher e menina pintadas frontalmente, sorridentes e de mãos dadas, possivelmente mãe e filha (obs.: os pés não foram pintados, apesar das mãos estarem delineadas). Duas retas verdes paralelas (originais da imagem seminal) funcionam como moldura

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Imagem do SP2.3

Imagem seminal

Trabalho abstrato Cores – azul, vermelho, verde, marrom, amarelo. Contraste de cores quentes e frias. Círculos verdes abertos, quadrados azuis, bolinhas amarelas tipo pontos, e traços diagonais marrons e vermelhos grossos e pretos finos. O trabalho preenche totalmente o papel Ritmado

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Imagem do SP3.3

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores – vermelho, azul, amarelo, laranja. Predominância do vermelho contrastando com o azul. Sugere uma teia ou rede na cor vermelha e azul que aproveita a imagem seminal (duas linhas vermelhas se cruzando no centro do papel). Praticamente centralizada, levemente deslocada para a direita Em seu exterior vemos traços amarelos, verdes e vermelhos

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Imagem do SP4.3

Imagem seminal

Trabalho abstrato Cores: verde, azul e amarelo. Imagem que contém semicírculos, pontos e traços e sugere flores amarelas de centro azul e haste verde. Não há perspectiva nem profundidade.

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Imagem do SP5.3

Imagem seminal

Imagem figurativa Cores – marrom, azul, verde, amarelo, vermelho, preto. Casa com flor e quatro arbustos ao lado, tendo atrás uma montanha em três cores frias. A visualização sugere a casa aprisionada por uma forma pontiaguda multicolorida (partindo da forma seminal em azul) que sugere uma montanha. Sol amarelo com moldura verde e três pássaros negros no céu.

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Imagem do SP6.3

Imagem seminal

Trabalho simbólico Cores: azul, vermelho, verde, amarelo, laranja. Contraste de cores quentes e frias. Diversos símbolos espalhados pelo papel, aparentemente sem conexão entre eles. Em destaque, á direita temos uma grande flor vermelha de centro amarelo e haste torta na cor laranja sendo regada por um regador que surge do alto, não se sabe de onde (fora de campo), pois só aparece seu bico. Curso d‘água em diagonal na cor azul no centro da imagem dividindo esta em duas partes distintas. Sol pequeno em amarelo e vermelho na parte esquerda/alto. Círculos ou alianças entrelaçados – em amarelo na parte esquerda/baixo. Linha em cor laranja (seminal) divide o espaço entre o sol e as alianças.

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Imagem do SP 7.3

Imagem seminal

Trabalho abstrato-simbólico Cores: azul, vermelho, verde, preto, marrom. Contraste entre cores frias e quentes, sendo estas predominantes no lado esquerdo e em baixo do papel. Cores aguadas e cores que surgem de misturas de tinta no papel. Explosão de cores sugerindo flores ou sóis nas cores vermelha e azul escuro. Grande olho azul frontal com cílios e sobrancelhas. Mancha vermelha abaixo sugerindo a boca de um rosto completando o olho. Linha verde que sai do olho e se liga a uma imagem vermelha sugerindo a formação de uma flor vermelha. Imagem semelhante a nuvem preta na parte superior esquerda do papel.

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8.3.2 – Textos verbais do GF3 SP1.3 utilizou os dois traços verdes previamente inseridos no papel e no meio deles, como que protegido por paredes ou muros, pinta duas pessoas de frente e de mãos dadas e correlaciona confiança com o segurar na mão, imagem recorrente (casais de mãos dadas) nos grupos focais anteriores (ver imagens de SP1.1, SP3.2, SP4.2 e SP1.3): Eu vejo muita confiança quando você tem uma atitude de segurar na mão. A criança com a mãe, o pai, a coisa de segurar a mão para mim denota muito confiança, protegendo mesmo, então a minha representação em relação a isso. A referência importante aqui é com a família, o pai, a mãe e a criança. A proteção que vem do segurar a mão é o sentimento de confiança que vem daquilo que é familiar, que protege, que apoia. SP2.3 correlaciona confiança com lealdade, mas não esclarece sobre como o seu trabalho expressa lealdade através da abstração que criou: Para mim confiança está relacionada à lealdade, verdade. Posso chamar de lealdade, tem de ser coerente, tem outros inconvenientes da vida, que a vida não é só confiança SP3.3 metaforiza a confiança como uma teia, uma rede, uma estrutura (imagens recorrentes de outros grupos focais) que suporta e que dá segurança:
Eu parti mais do meu momento espiritual que é assim mesmo como uma trama, como uma teia de aranha. Quando você falou confiança, a primeira coisa que me veio (não sei por que eu fiz assim) foi esta correlação imagética, a relação com a teia de aranha. Veio na cabeça uma coisa que eu tenho desde pequeno, em aula de ciência, aquela coisa tão tênue, tão fina que é a passagem, a moradia, é o canto de um inseto que hipoteticamente é muito mais pesado e confia naquela trama, confia naquela rede, naquela estrutura que ele mesmo construiu para si. ...imaginei fazer uma trama, uma tela, uma rede de confiança, mais ou menos simétrica. Eu comecei o desenho no centro do papel, mas depois eu vi que tinha de ter uma intervenção sim, porque nada é estruturalmente confiável. Até a teia balança.

Portanto a imagem da Representação da Confiança é de algo que aparenta delicadeza e fragilidade em relação ao que suporta. Assim se expressa que confiança é risco, é algo frágil, que tem a possibilidade de não suportar, de falhar, de causar danos. SP4.3 afirma que a imagem saiu espontaneamente a partir dos traços iniciais do papel (seminais) e que a confiança é a alegria de compartilhar: Para mim você sabe que na hora eu só dei um rabisco, três pontinhos que tinham aqui e saíram essas flores. E a confiança para mim tem a ver com a alegria de você compartilhar com as pessoas. E foi isso, muitas flores.

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Como no grupo focal anterior aqui surge a Representação da Confiança como algo necessário e indispensável aos relacionamentos e que traz alegria (outros falam de relaxamento, paz, segurança). SP5.3 parte do traço inicial do papel que lhe sugere um caminho e pinta uma imagem contendo uma casa, sol, flor, pássaros e relaciona confiança com segurança, com estrutura e com o familiar (a casa da família):
A primeira coisa quando eu peguei o papel, eu achei que daqui podia fazer uma estrada, um caminho. A questão da segurança, da confiança, a estrutura da casa, a minha casa onde eu moro, eu trabalho, passo a maior parte do meu tempo lá. Onde eu me sinto segura, confio nas pessoas. E aí me veio essa idéia de casa, de tranqüilidade, de paz, de confiança.

É a estrutura da casa, a segurança daquilo que é familiar, que permite o estabelecimento da confiança. E como foi tão ressaltado em outros grupos focais temos de novo aqui a afirmação de que confiar (a casa, o familiar) traz paz e tranqüilidade. Na imagem da confiança se nota a casa (o familiar) protegida pela montanha e iluminada pelo sol. SP6.3 pinta uma flor sendo regada, o sol, duas alianças ou elos, um curso de água e uma mancha de sangue. Fala da construção da confiança através do tempo: A confiança a gente trabalha, vai regando, vai crescendo até você ter confiança, é uma aliança que você faz com as pessoas, confiar. O rio é a questão da instabilidade e o sangue, o tempo resolve, o tempo resolve tudo. A confiança, portanto, é criada ao longo do tempo, construída através do cuidar, do regar. Um elo, uma ligação que se faz. No centro uma grande água (sentimentos) e as mágoas, as dores e as tragédias (sangue) vão sendo curados pelo passar do tempo. Deve haver um esforço contínuo para a construção da confiança.

SP7.3 pinta um olho, imagem bastante recorrente, em meio a algumas imagens coloridas não claramente definíveis. Parte do traço verde preexistente no papel (seminal) para falar da confiança como uma coisa sinuosa, cíclica, que depende do olhar da gente:
Vi este traço verde, o verde da esperança, essa linha sinuosa, sinuosa mesmo. ... Relação de confiança, uma coisa cíclica que depende do olhar da gente, parece uma coisa uma pouco óbvia, esta coisa das emoções, do laranja, do olhar

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A escolha do papel com o traço verde foi intencional: o sujeito relaciona Confiança com esperança. Aponta também a inconstância que a Confiança pode ter: ela é dependente do olhar da gente, que muda ao longo do tempo. SP3.3 ressalta a imagem do olho (muito recorrente) para correlacionar confiança e cegueira:
Me chamou a atenção o olho dele, porque uma das palavras que me veio à cabeça quando fui falar de confiança foi cegueira e eu não quis mudar a palavra. É: a cegueira pode ser um fator que estimule a confiança porque tudo depende do olhar de alguém para se sentir seguro em alguma atitude ou não.

SP7.3 comenta que pode haver cegueira, mas não totalmente a ponto de se colocar em situação de risco, se atirando no espaço de qualquer maneira: A cegueira até que vai, mas necessariamente não quer dizer que tem que se atirar no vôo, se atirar na teia, se atirar no espaço sem a teia por baixo. Problema da confiança cega ou ingênua: a confiança se estabelece não só perante o que vemos, mas fundamentalmente se projeta naquilo que não vemos ou não podemos ou não conseguimos observar. Mas precisamos de alguma estrutura para poder arriscar o confiar (a teia, a rede, etc.) sem a qual o risco é demasiado SP1.3 ressalta a importância da mão que une, apóia, dá segurança:
Tem muito isso, tem uma coisa que me chama muito a atenção, independente, principalmente com criança - aquela coisa da mão, do cuidar - estou sempre observando. É porque às vezes as pessoas acham que é uma coisa corriqueira. Não é corriqueira, é tão expressiva esta coisa da mão que é a primeira coisa da confiança na minha cabeça.

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8.4 – Resultados do Grupo Focal 4 O Grupo Focal 4 não se realizou na UERJ e sim na minha própria residência em Botafogo e o motivo principal foi existir uma quantidade de pessoas da zona sul dispostas a participar do trabalho, mas que não podiam fazê-lo durante a semana ou não achavam conveniente (por comodidade ou segurança) se deslocar até a Tijuca para realizar a colaboração com a minha pesquisa. Utilizei a mesa da sala para fazer o trabalho. Participaram sete pessoas, seis mulheres e um homem, todas de nível superior, sendo seis com pós graduação latu sensu. SP 1.4 2.4 3.4 4.4 5.4 6.4 7.4 Sexo Masculino Feminino Feminino Feminino Feminino Feminino Feminino Idade 44 45 40 36 30 26 28 Graduação Comunicação Pedagogia Pós-graduação Latu-sensu Latu-sensu

Administração não Admnistração não

Administração Latu-sensu Comunicação Comunicação Latu-sensu Latu-sensu

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8.4.1 – Textos visuais do GF4 Face ao fato de não ter registrado as imagens seminais do grupo focal anterior, o GF3, infelizmente não tive a atenção de fazê-lo no GF4. Somente depois de todo o trabalho montado é que me dei conta da importância de tê-lo feito. Aqui, novamente, utilizei-me da memória e dos registros fotográficos para recapturar as imagens seminais e realizar as considerações analíticas.

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Imagem do SP1.4

Trabalho abstrato Cores – vermelho e verde (seminal). Contraste de cores. Ângulos verdes ascendentes e ângulos vermelhos descendentes na direção esquerda/baixo – direita /alto. Grande parte do papel permaneceu em branco, em especial a esquerda/alto e a direita/baixo. O trabalho foi realizado rapidamente devido à sua simplicidade

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Imagem do SP2.4

Trabalho abstrato Cor vermelha. Não há contraste de cores. Formas vermelhas no formato da letra V que seguem a imagem seminal, o V maior da imagem Sugerem pássaros, sendo setes pintados pelo sujeito da pesquisa envolvendo o maior preexistente, num total de oito. Também foi feito com rapidez.

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Imagem do SP3.4

Trabalho abstrato Cores – marrom, verde, azul (seminal), vermelho. Contraste entre o vermelho e o verde e o azul. Círculos, formas orgânicas fechadas e abertas. Ocupação de quase todo o papel.

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Imagem do SP4.4

Trabalho abstrato Cor – verde. Dois semicírculos verdes (imagem seminal) posicionados no canto inferior esquerdo e superior direito interligados por linha que passa através de diversos pontos (oito)

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Imagem do SP5.4

Trabalho figurativo Cores – verde, azul, preto, laranja, vermelho. Contraste entre o sol (vermelho e laranja) e as demais imagens em azul, verde e preto. Figura humana em uma embarcação à vela (construída a partir da linha verde seminal) no mar em um dia ensolarado

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Imagem do SP6.4

Trabalho simbólico Cores – vermelho, azul e verde (seminal). Contraste de cores. Duas figuras humanas, uma vermelha e outra azul Espiral verde que parte da figura azul. Seta vermelha que parte da figura vermelha em direção à espiral Espiral verde é a imagem seminal e pode sugerir a imagem de uma orelha humana

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Imagem do SP7.4

Imagem abstrata Cor – vermelho (quente). Três círculos vermelhos, dois em baixo à direita e um em cima à esquerda interligados por três linhas da mesma cor

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8.4.2 – Textos verbais do GF4

SP1.4 aproveita os riscos existentes no papel e traça outros riscos semelhantes que cruzam com os primeiros na direção contrária. Para ele a confiança se relaciona com mãos se cumprimentando e fala da confiança como algo recíproco:
A primeira imagem que veio na minha cabeça foi a de uma mão cumprimentando outra. E o que eu retratei aqui com essas setas foi isso, para mim, confiança é um caminho de duas vias, tem que ir para um lado e voltar também no mesmo sentido. Então a cores são, por acaso, cores complementares, verde com vermelho.

A visualização interna de SP1.4 foi a de mãos se cumprimentando, imagem bastante utilizada nos grupos focais anteriores. Mesmo não desenhando as mãos, as simbolizou com setas indo e vindo que têm o significado de definir confiança como um processo de duas vias, de ida e de volta, recíproco. Inclusive as cores utilizadas são cores complementares no círculo das cores, o verde e o vermelho. Duas direções e duas cores se relacionando. SP2.4 fala como o traço inicial do papel escolhido (seminal) influenciou sua expressão e como a confiança se relaciona com a verdade e o compartilhamento:
Peguei o papel que na minha cabeça tem um V que vem de verdade. Ela (a confiança) é baseada na verdade. Quando você perde a confiança é que alguma coisa não bateu legal. Então, eu também me lembrei daquela história dos gansos que vão todos na mesma direção: um vôo é baseado na confiança. E essa confiança é compartilhada ou não.Então eu pensei nisso e peguei assim, acho que a confiança tem a ver com o vermelho porque confiança é energia e a confiança você tem que estar alimentando. É verdade, reto, alimentação.

Confiança é baseada na verdade, precisa ser compartilhada para que pessoas possam fazer algo em conjunto (como o vôo dos gansos). Também é energia, movimenta, dá força, tem o poder de impulsionar na mesma direção, desde que você esteja sempre alimentando (regando, cuidando, construindo). SP3.4 Fala da organicidade da confiança ao criar diversas formas arredondadas e de diversas cores:
A confiança é aquela coisa que você se deixa envolver porque você está tranqüilo em relação àquela pessoa, até um animal. São formas orgânicas... E ao mesmo tempo a confiança te dá muita liberdade. Então fiz formas que se encaixam sem se agredirem e sem lutar. É isso. A confiança me traz paz e a paz me traz liberdade de pensamento, porque quando eu não tenho confiança, o meu pensamento está preso, aquilo me preocupa. Então a confiança me dá liberdade.

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Novamente notamos aqui a relação entre confiança e paz e entre confiança e liberdade, associações já constatadas em outros sujeitos da pesquisa. A confiança é orgânica, não é artificial, é natural. Portanto liberta, permite relaxar, traz paz. Para SP4.4 que faz algo como um caminho todo em vermelho que liga uma extremidade à outra passando por diversos pontos.:
Eu fui direta porque eu acho que a confiança é um elo. Ao mesmo tempo em que ela é uma via de mão dupla, tem que ir e voltar, eu deixei aqui, botei como se fossem duas bases, porque eu acho que não deve abrir, não pode abrir, não dá para quebrar. Uma vez que se quebra, você perde a confiança, você não recupera. Perdoa, ah tudo bem... Mas você nunca mais confia da mesma forma que você confiava antes. A folha, só segui o mesmo padrão, uniforme, mas eu acho que é como a confiança tem de ser: plena, uma coisa só, sem haver interferência, um processo de confiança.

Ressalta a solidez que a confiança de possuir: não pode partir, senão fica maculada, não mais se poderá confiar da mesma forma. Também a relaciona com elo, símbolo que se repete (elo, aliança). SP5.4 pinta uma pessoa no mar num dia de sol que, para ela, expressa o momento da sua expressão de auto-confiança, quando está no mar sozinha surfando, já que normalmente é muito dependente de outras pessoas:
Queria fazer alguma coisa diferente e até relacionada com o que a gente vinha conversando antes de chegar aqui, que eu sou muito dependente de alguém, não consigo fazer as coisas sozinha, sempre dependo de alguém para ir a algum lugar. E diferente disso, até mesmo para ser o contrário do que eu sou, quando eu surfo, quando estou no mar, sou só eu e a prancha. Então estou sozinha, então eu tenho que confiar em mim.

SP6.4 pinta duas pessoas frontais (uma em azul e outra em vermelho) com as mãos (imagem recorrente) e os pés quase se tocando, uma espiral que se projeta do pescoço de uma delas e uma seta que vai da outra figura em direção à forma espiralada.
Eu comecei, fiquei meio na dúvida para escolher, quando eu vi, acho que isto aqui parece meio como um ouvido, com um ouvir, ser cúmplice, duas pessoas aqui, um ouvido, uma setinha... São duas pessoas, poderiam ser mais, enfim, mas quis dizer que é uma relação e que confiança é isso: saber ouvir, ser cúmplice da pessoa. Ela fala uma coisa, você pode até não concordar, mas tem que saber ouvir.

Para ela, portanto, confiar é fundamentalmente o saber ouvir, ser cúmplice das pessoas. Ao ouvir passo e crio confiança, estou ao lado, sou cúmplice, mesmo que não concorde com aquilo que está sendo dito.

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SP7.4 escolhe e utiliza o papel em que pré-existem três imagens circulares (seminal) apenas interligando-as com linhas da mesma cor (vermelha) para expressar que a confiança é como um círculo, algo fechado:
Quando eu penso em confiança, eu penso em círculo – círculo da confiança. É, para mim, as pessoas que convivem comigo formam meu círculo da confiança. Então, quando eu cheguei aqui e olhei para a mesa e senti que tinha que escolher alguma coisa, eu já tinha escolhido este circulo desde a hora em que eu cheguei. Era um circulo e aí eu fiquei na duvida se ia pegar este mesmo ou não, ou este aqui (aponta para outra imagem), pois este também iria fechar. Aí depois eu pensei, quando a gente vai teve que escolher mesmo que três círculos... As pessoas caminham em tribos, você tem a sua família ali, seu convívio, é um circulo. Quando eu trabalho, eu tenho outro circulo, a gente fala: eu tenho um grupo de amizade. Eu tenho um grupo aqui, um grupo ali, um grupo lá. Mas eles não deixam de estar interligados quanto à palavra confiança, porque eu tenho que confiar em um, confiar em outro, confiar em outro. Então, assim, eu acho que eles estão interligados. Um círculo, onde começa acaba, tem um limite muito difícil, onde começa, onde termina.

Os círculos de confiança (anéis, elos) são imagens recorrentes. A confiança se estabelece em espaços determinados, ela é confinada em limites circunscritos. A confiança se estabelece em elos, nos círculos, no espaço familiar da casa (lar da família), na extensão da teia que se estabelece no espaço, enfim, dentro dos muros de cada grupo relacional.

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8. 5 – Grupo Focal 5

SPI 1.5 2.5 3.5 4.5 5.5 6.5

Sexo Feminino Feminino Feminino Feminino Feminino Feminino

Idade 30 40 42 39 44 47

Graduação Arquitetura Design Letras Design Design

Pós-graduação Mestrado Mestrado Latu-sensu Doutorando Latu-sensu

Comunicação Doutorando Visual

7.5 8.5 9.5

Feminino Masculino Mascu lino

26 40 30

Design Artes

Feminino Mestrado

Design Mestrando

10.5

Feminino

57

Design

Doutorado

Este quinto grupo focal, inicialmente não foi previsto (combinou-se a realização de quatro grupos), mas foi extremamente importante devido ao pequeno número de sujeitos de pesquisa que havia sido obtido até então (vinte e quatro sujeitos da pesquisa).

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Foi um grupo que teve características bem específicas. Em primeiro lugar, foi realizado na PUC-RJ, na Pós-Graduação em Design, reunindo professores, alunos de mestrado e doutorado e pretendentes à pós-graduação num total de 10 pessoas. A característica fundamental deste grupo que o difere dos anteriores é a prática e o domínio que os sujeitos participantes possuem da linguagem imagética e de sua expressão. Este detalhe leva a facilitar a expressão, mas pode gerar tendência a controlar conscientemente os resultados expressivos pela facilidade do domínio dos materiais e da linguagem expressiva. O grupo se reuniu à partir de uma demanda dos próprios alunos do Curso de Pósgraduação em Design da PUC em conhecer a dinâmica de um Grupo Focal para possível utilização em suas pesquisas de mestrado ou doutorado. Na verdade, como veremos adiante nos comentários sobre as imagens, os integrantes do grupo produziram uma verdadeira aula de como utilizar a linguagem pictórica para expressar um conceito abstrato. Este Grupo Focal, então, apresentou três etapas: a expressão imagética da confiança (duração de 50 minutos), a discussão focada nos trabalhos realizados e, posteriormente, a discussão teórica sobre os Grupos Focais como instrumento de pesquisa. Este terceiro momento trouxe uma importante reflexão para mim sobre o meu próprio trabalho através dos questionamentos realizados pelos participantes. A sala utilizada tinha acomodações adequadas com mesas e cadeiras suficientes e, inclusive, uma pia interna que facilitou a preparação do trabalho de pintura e a limpeza posterior das mesas, bacias e pincéis. Foram instalados três gravadores de áudio digital, duas câmeras digitais de vídeo e todo o trabalho foi extensivamente fotografado. Participaram dez pessoas sendo oito mulheres e dois homens todos de nível superior, sendo uma doutora e professora do programa, três mestres, dois doutorandos e dois mestrandos na área de design e 2 pretendentes ao mestrado. As imagens seminais foram dispostas em uma grande mesa (ver imagem seguinte) e, após a apresentação inicial dos trabalhos as pessoas foram convidadas a escolher aquele papel que achasse mais interessante, atraente ou com que mais se identificassem.

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As imagens seminais dispostas para o processo de escolha

A imagem seguinte mostra o momento de escolha de um dos participantes:

Participante do grupo focal escolhendo sua imagem seminal

A próxima imagem retrata o momento em que as instruções do trabalho foram fornecidas ao GF5 pelo pesquisador:

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Grupo focal 5 durante as explicações iniciais do processo

Um dos momentos iniciais da realização das pinturas:

Processo criativo do GF5 em seu início

O processo de criação já em momentos finais:

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Processo criativo em seus momentos finais

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8.5.1 – Textos visuais do GF5

Imagem do SP1.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - vermelho, azul e verde Forma que inicia na parte inferior esquerda do papel e se alonga diagonalmente até a parte superior direita. Sentido diagonal esquerda/baixo-direita/cima. O vermelho funciona como moldura deixando uma parte significativa do trabalho em branco. A forma lembra um olho ou o peixe do símbolo do Tao.

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Imagem do SP2.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - amarelo (seminal), vermelho e branco. Predomínio de cores quentes. Ausência de contraste. A cor branca é usada como veladura de parte da imagem. Formas redondas ou arredondadas pequenas

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Imagem do SP3.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - vermelha (predominante) e azul (seminal). Duas grandes formas sólidas vermelhas que se tocam levemente chamam a atenção sendo que a maior como se desfaz em um processo espiralado cobrindo toda a superfície do papel e a menor consiste de duas metades que se encaixam.

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Imagem do SP4.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - vermelha (predominante), amarelo e marrom (seminal). Predomínio de cores quentes. De uma base sólida na parte inferior do papel partem linhas vermelhas, amarelas e marrons que se entrelaçam acima. Grande parte do papel permanece em branco.

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Imagem do SP5.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - vermelha, amarela e laranja. Predomínio de cores quentes. Uma forma compacta no centro do papel formada por camadas de traços curvos das 3 cores Bolinhas vermelhas ao redor da imagem central Utilização vertical do suporte

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Imagem do SP6.5

Imagem seminal

Trabalho figurativo Cores – verde (seminal), azul, vermelho, amarelo. Contraste de cores, predomínio de cores frias. A tinta cobre toda a superfície do papel. Casa multicolorida Casal – homem e mulher aparentemente de mãos dadas Natureza

195

Imagem seminal Imagem do SP7.5

Imagem figurativa Cores: preto, vermelho, azul, branco, rosa claro (tom de pele) cinzas e marrons provenientes da fusão das cores no papel durante a pintura. Contraste entre claro (pele das pessoas) e escuro. A roupa das duas pessoas é pintada em cores opostas. Introdução de signos verbais conjuntamente aos imagéticos. Duas pessoas se abraçando (vistas de cima) emolduradas por dois braços que surgem das imagens seminais (parênteses) às quais se acrescentou mãos na extremidade Expressões verbais: ―amor‖, ―no aconchego dos seus braços‖, ―mesmo no escuro há luz...‖ Fundo escuro Coração vermelho na área inferior direita. O trabalho possui definição de profundidade através da utilização dos contrastes de luz e sombra

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Imagem do SP8.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - verde (seminal) e vermelho. contraste de cores. Círculos verdes com centro vermelho concentrados na parte inferior do papel. Sugere individualidade, separação, leveza. Suporte usado verticalmente

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Imagem do SP9.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - vermelho (seminal), azul e preto. Abaixo uma forma sólida preta/cinza semicircular. Sobem dela, ou descem em direção a ela, formas sinuosas vermelhas que sugerem chamas. Uma forma aberta azul constituída por traços retos e áreas pontiagudas. Papel utilizado de forma vertical. As formas pontiagudas indicam direção, contundência, força, agressividade.

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Imagem do SP2.5

Imagem seminal

Imagem abstrata Cores - vermelha (seminal), marrom, verde Duas grandes formas vermelhas e verdes semicirculares das quais partem linhas marrons que se ligam a pequenos pontos (círculos) nas cores vermelha e verde formando uma rede de interconexões Uma linha de cor marrom circula e serve de moldura ao trabalho

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8.5.2 – Textos verbais do GF5 O SP1.5 conta que, para ela, confiança se relaciona com paz e com a natureza, vínculo que apareceu em vários sujeitos de grupos focais anteriores:
Eu comecei a pintar numa folha que estava ali, pintado uma paisagem com cores complementares, o azul e o laranja, porque eu tenho uma visão de liderança que tem a ver com serenidade e fluidez. Para mim, assim, acho que a confiança tem a ver com paz. Se você desconfia de uma pessoa por um ou outro motivo ...E aí usei estes verdes que já estavam na folha e achei que podiam significar um pouquinho da natureza, que eu também associo com confiança. Então eu fiz um movimento fluido, assim....tentei ligar um grau de atração entre estes elementos. É o meu trabalho.

Para SP2.5 confiança tem a ver com parceria, troca, relacionamento e usa formas coloridas par mostrar esse processo. Mostra a confiança com formas que são dinâmicas e sujeitas a aumentos e diminuições de intensidade. Não é apenas pelo fato de uma intensidade relacional de confiança ter acontecido que faz com que esta permaneça! A confiança tem uma instância de fragilidade:
Eu acho que confiança tem a ver com uma parceria, com uma troca, com o se relacionar com o outro. E essas gradações elas vão acontecendo e ora você está de um lado, ora está do outro, ela tem um jogo assim, sabe botar a mão. Então ela tem este movimento, assim, ela expande, ela toma conta. Mas ao mesmo tempo ela é frágil, ela não tem uma estrutura assim, não está amarrada, não está presa, está solta, pode se desfazer.

E utiliza uma veladura na cor branca para significar que a confiança não é necessariamente explicitada, apenas construída no processo relacional e a partir disto, apenas vivenciada:
E também acabei usando o branco para cobrir um pouco o que era aqui e aqui, por que eu acho que tem uma parte disso que eu acho que é muito velada – se eu confio em você, eu não falo ―eu confio em você‖. E, eu confio em você, a gente estabelece uma relação que está por trás de uma coisa que a gente construiu, mas não necessariamente a gente deixa isso explicito, tem algo que está por baixo, não se sabe bem o que é, mas existe, que segura.

SP2.5 explicita igualmente a intenção na utilização das cores para representar a confiança:
E eu acabei usando o laranja porque eu fui achando que se eu usasse uma cor que fosse contrária que eu ia estar falando muito de opostos. Claro que eu tenho confiança em alguém que é muito diferente de mim, mas a união e compromisso têm a ver com isso,

Para SP3.5 a confiança também é construída, condição assumida pelos participantes deste e dos outros grupos focais anteriores:

200

O meu, pensei nisso também, a construção. A confiança, este branco que botei aqui, tinha um espaço vazio para depois a confiança ficar estabelecida aqui (mostrando), estas duas forças. Quando a nossa confiança está sólida, ela espalha estes pontinhos.

Para SP4.5 confiança acontece nos relacionamentos e, igualmente, é construída (conquistada, criada) à partir de uma base sólida, de uma estrutura consistente, tendo, igualmente ao que afirmou SP2.5, um pouco de fragilidade:
Quando você falou sobre confiança, eu pensei em relacionamentos e fiz este trabalho aqui (mostra). A idéia é uma base muito forte, para pensar relacionamentos, são todos linhas e como eu acho que a confiança você vai conquistando, vai criando, ela também está um pouco frágil, pode ser perdida, então por isso que está assim vazada. Então é mais ou menos isso que eu queria dizer: uma base segura para construir a confiança.

SP5.5 se refere à imagem seminal e como a aproveitou e afirma que confiança se relaciona com consistência e que utilizou cores harmônicas para passar este significado:
Primeiro que a folha já vinha com umas ondas grandes, eu aproveitei as ondas, mantive cores harmônicas, homogêneas. Vejo a confiança como uma questão de consistência. Então, como consistente deveria ter cores harmônicas. E aí fui colocando cores parecidas, construindo, mas sempre junto, porque para mim quando se tem confiança não se separa, a consistência.

Também indica na imagem que ao longo do tempo surgem questões relacionadas à confiança e que estas não podem ser muito divergentes daquilo que se construiu (dos critérios que estabelecem a representação da confiança que se vai construindo):
E esses pontinhos aqui do lado são questões que vão surgindo, se acomodando, mas elas têm que estar muito parecidas com o que você tem, senão você não cria um laço de confiança, de sinceridade, ou de transparência.

SP6.5 simboliza a confiança com o homem e a mulher de mãos dadas (imagem recorrente) ao lado de uma casa dentro da natureza (tema recorrente):
Quando pensei em confiança a primeira coisa que me veio à mente foi a natureza. A natureza é uma coisa confiável. Aí quando comecei a pintar a natureza me veio também o homem. O homem dentro da natureza. Aí eu construí a casa para o homem. Aí eu senti falta do homem se relacionando, como em parceria, aí eu construí o homem e a mulher aqui dentro da natureza.

SP7.5 se refere a como a imagem seminal que escolheu auxiliou na elaboração da sua imagem da confiança:

201

O papel que eu peguei tinha dois parênteses assim e me veio uma idéia de aconchego, abraço. Sei lá, é que eu sinto muita falta disso nas pessoas, sei lá, nos relacionamentos, falta relacionamento entre todo mundo. Sei lá, então aí, e eu sou meio assim sei lá, gosto de abraçar os outros, quando um amigo meu chega eu faço questão que me abrace assim, que me aperte.

SP8.5 também coloca a confiança como uma construção relacional
Bom, a confiança é uma construção coletiva, não é uma coisa que a gente constrói individualmente, ela só acontece a partir do outro. E quando eu estava construindo, eu pensei neste lance da infância, da ... A confiança começa na infância, não é? Nas relações que a gente estabelece no seio da família e depois a gente vai ampliando para um contingente maior, para grupos maiores.

Então, SP8.5 concorda com a importância da construção da confiança à partir das primeiras relações do indivíduo (lembrando o holding e o handling de Winnicott) que estabelecem uma base de auto-confiança que vai ser estendida a grupos fora da família de origem (escola, amigos, empresa, igreja, etc.). Também é na vivência destas relações que a confiança pode ser perdida, fenômeno que pode levar à exclusão ou auto-exclusão:
E a ausência dela também é quando a gente deixa de confiar, quando a gente perde a confiança, ela também é fruto destas relações, a gente deixa de confiar no outro, e aí este indivíduo que está aqui separando – é que em algum momento ele, pela ausência da confiança, pela negação dela, ele acaba se afastando do grupo, ou sendo excluído do grupo, por conta da ausência da confiança. Acho que é muito por aí. A questão da construção da confiança como uma coisa coletiva e não apenas individualizada.

SP9.5 também se refere à imagem seminal escolhida, que era como um perfil mas que foi incorporado de outra maneira à imagem da confiança produzida, que expressa estabilidade com coisas acontecendo sobre ela. Igualmente se refere imagéticamente e agora verbalmente à estabilidade, concretude, solidez como qualidades da confiança:
Quando eu peguei tinha um perfil antes da imagem, mas aí eu pensei, são as pessoas, mas tenho que fazer um contexto antes, que eu vejo muito como uma estabilidade, uma coisa concreta, ou fixa, imutável, e de listras que são as coisas que acontecem sobre ela. E quando acontece isto, a confiança, ela é quebrada. Aí eu pintei uma rocha com estes elementos junto à rocha, mas se mantendo sob as nuvens.

SP10.5 também se refere à imagem seminal e como esta a levou a definir a idéia chave de sua imagem da confiança. Para ela, como para vários integrantes do GF5, confiança liga-se a construção e relacionamento (tema recorrente) e teia (imagem recorrente):
Quando eu recebi a folha estavam riscadas estas duas formas vermelhas. E aí eu escolhi como uma idéia chave do desenho a relação e a construção conjunta. E aí eu representei nestes dois, pontos dois indivíduos que são formados pela mesma matéria, mas com composições diversas, cada um com as suas necessidades. E neste meio eu trouxe desta

202

matéria que eu já achei - os pontos vermelhos - eu coloquei os verdes e laranja para representar a cor de cada um deles. Eu utilizei estas linhas que são linhas que ligam um ao outro, que ora elas são curtas e ora elas são mais longas, mostrando que o relacionamento passa dentro do contexto de um recorte da vida. Para essas pessoas o relacionamento passa por questões que fazem parte de um, fazem parte de outro, mas que estas questões de qualquer forma ligam estas pessoas entre elas e essas pessoas formam, vamos dizer assim, uma grande teia de relacionamento, de entrosamento, de construção conjunta.

Nos comentários, SP7.5, confiança exista:

questiona o porque de sempre faltar algo para que a

Eu achei interessante que ela falou assim, olha: ―para mim, primeiro vem a natureza, mas depois ficou faltando...‖ Ficou sempre faltando alguma coisa para ter a confiança! Achei meio engraçado, só a natureza não bastava, então ela fez a casa e só a casa não bastava, aí ela fez as pessoas. Foi isso que eu queria comentar, sempre precisava de uma outra coisa para ter a confiança e não ter uma coisa só que significasse.

E ressaltou que concorda com a idéia de uma base sólida e da construção para representar o processo de estabelecimento da confiança: Eu adorei também o da colega aqui, que eu não tive essa idéia de uma coisa sólida, alguma coisa maior, idéia de construção, de que você pode ir além de uma base que você construiu. SP10.5 afirma a importância da base sólida como aparece no trabalho de SP9.5: Ele apresenta a base sólida, mas ele apresenta a ameaça na base sólida, que precisamos estar atentos à ameaça de perder aquela base sólida. SP3.5 comenta a veladura que aparece no trabalho de SP2.5 e sua relação com o não explicitado nas relações:
Achei interessante o que este trabalho mostrou porque passou a cor para minimizar. A coisa da confiança para mim tem uma coisa um pouco velada. E é interessante também que quando você perde a confiança também fica uma coisa velada. É difícil você dizer para o outro que não confia mais.

Sp10.5 ressalta a relação entre confiança e fé e como o processo de confiar é continuo, criando inclusive o neologismo reconfiar para espressá-lo:
Gostaria de relatar uma coisa que tem a ver com confiança e tem a ver com a palavra fé. É o seguinte, eu sou católica praticante, tem que ter muita fé, mas eu sempre acho que minha fé não é bastante diante das coisas que eu preciso ter. Então tem muito tempo, principalmente nos últimos três anos que eu tenho feito um exercício de ter confiança em Deus. E é muito difícil, porque você normalmente quando você precisa se entregar nas mãos de Deus você esta passando por uma situação complicada dentro da sua vida. Quando a gente está bem a gente se sente na mão de Deus. Quando não está bem a gente sente necessidade de dizer para ele: eu quero que você me guie que você me tenha nas mãos que você segure as minhas

203

mãos. E eu não consigo ter, construir totalmente esta confiança. É uma coisa que eu tenho que construir todo dia, tenho que dizer mesmo que eu quero confiar e o que eu quero ter confiança, mas sempre tem uma coisa que acontece e que aí eu... Então é interessante, é uma coisa que neste sentido, que dá a entender que a confiança é uma construção contínua, você não tem um ponto ótimo de confiança e tem para sempre. Então quando você perde a confiança, você perdeu a confiança e como você vai bancar, você precisa sempre reconfiar, reconfiar todo o tempo. Reconfiar, reconfiar, reconfiar... é um exercício, sempre uma construção do ser humano em relação a Deus e em relação a tudo que a gente sente(?)

SP8.5 fala do abraço que ganhava do filho quando ia buscá-lo na creche para narrar sua experiência da confiança:
Eu tenho uma imagem de confiança para mim muito significativa que é dos primeiros anos de que eu tenho meu filho, primeiros dois anos e pouco. Deixava meu filho na creche e ele me abraçava com muita força. e quando eu ia pegá-lo também abraçava meu pescoço muito forte enquanto a gente ia até o carro. Eu acho assim isso um gesto? De confiança muito marcante para a vida dele e para a minha. A separação da casa, da família, dos pais um ambiente adverso que era a creche, desconhecido, acho que é uma imagem comum, imagem muito viva e forte até hoje de confiança.

204

8.6 – Os grupos focais e as imagens seminais Considero de extrema importância tecer alguns comentários a proposta com relação ao processo de expressão das imagens: a intervenção prévia nas folhas de papéis oferecidas para a escolha dos sujeitos da pesquisa participantes dos grupos focais, aqui denominada de imagem seminal, pelo significado desta palavra: algo que se planta ou se insemina para induzir a geração de uma forma viva adulta (semente gerando vida vegetal ou o sêmen gerando a vida animal). Esta foi uma proposta inovadora na metodologia da pesquisa com imagens e é muito importante realizar aqui um balanço dos resultados obtidos. Marquei com uma linha amarela os seminais com o intuito de identificar claramente sua posição inicial e a sua influência nas formas finais das obras dos sujeitos da pesquisa. A seguir passo a analisar este processo em cada sujeito de cada grupo focal. 1) GF1 SP1.1

O seminal foi totalmente aproveitado tornando-se o ponto inicial, central e principal da imagem: o SP2.1 olho.

A intervenção seminal serviu de base central para a pintura da forma principal do trabalho imagético.

SP3.1

205

A intervenção seminal serviu de base central para a pintura da forma principal da imagem.

2) GF2 SP1.2 A intervenção seminal foi

aproveitada, mas teve pouca ou nenhuma importância para o trabalho. Aqui a influência se restringe à cor do seminal que terminou por ser a única cor utilizada trabalho. SP2.2 na realização do

A intervenção seminal serviu de base para a pintura dos

elementos influenciando nas

principais, formas

pintadas, tendo sido, inclusive, espelhada.

SP3.2

206

A intervenção seminal sugeriu uma moldura para uma cena, mas não foi essencial para o conteúdo desta cena.

SP4.2

A intervenção seminal sugeriu uma linha básica que delimitou o

trabalho em sua parte inferior esquerda, e, embora tenha sido aproveitada na composição, não foi essencial para a definição da

imagem final.

SP5.2 A intervenção seminal definiu a base do trabalho, sua forma central.

SP6.2 A intervenção seminal definiu fortemente a base do trabalho, a sua forma central.

207

SP7.2

A

intervenção

seminal

influenciou nas formas das diversas linhas do trabalho (vermelha e marrom)

3) GF3 SP1.3 A intervenção seminal não teve nenhuma influencia sobre o trabalho tendo apenas sido

aproveitada como uma espécie de delimitação (moldura)

SP2.3

A

intervenção

seminal

influenciou na direção obliqua do trabalho abstrato

208

SP3.3 A intervenção seminal na

influenciou

pouco

pintura da forma principal do trabalho

SP4.3 A intervenção seminal na

influenciou

bastante

pintura da forma principal do trabalho, pois foi à partir dela, como pontos centrais, que as formas do foram criadas

SP5.3 A intervenção seminal

definiu o espaço central dividindo o trabalho ao meio tendo tido grande influência final. no resultado

209

SP6.3 A intervenção seminal foi incorporada, pouca ou mas teve

nenhuma

influência no trabalho.

SP7.3 A intervenção seminal foi incorporada, mas teve pouca influência nas formas

principais do no trabalho.

4) GF4 SP1.4 A intervenção seminal foi

aproveitada integralmente tendo influenciado fortemente o

trabalho na forma e na direção.

Sp2.4 A intervenção seminal foi aproveitada integralmente tendo influenciado bastante o trabalho já que sua forma foi reproduzida em diversas outras de menor tamanho

210

SP3.4 A intervenção seminal

teve pouca influência no trabalho final

SP4.4 A intervenção seminal foi aproveitada integralmente

tendo influenciado a forma única do trabalho, já que serviu como delimitação.

SP5.4

A intervenção seminal foi aproveitada integralmente

tendo influenciado a forma principal do trabalho

SP6.4 A intervenção seminal foi aproveitada integralmente tendo influenciado

fortemente o trabalho já que ocupava inicialmente grande pare da folha de papel. A imagem do SP5.4 foi toda criada em relação à intervenção seminal.

211

SP7.4 A intervenção seminal foi aproveitada tendo trabalho integralmente o

influenciado que

consistiu

apenas em ligar as três formas redondas originais

5) GF5 SP1.5 A intervenção seminal foi aproveitada como tendo

integralmente centro

influenciado o trabalho

SP2.5 A intervenção seminal foi aproveitada tendo integralmente o

influenciado

trabalho já que sua forma original foi repetida diversas vezes.

212

SP3.5 A intervenção seminal foi aproveitada como a parte contrastante do trabalho no aspecto cor.

SP4.5 A intervenção seminal foi incorporada, influenciou trabalho pouco mas o

SP5.5 A intervenção seminal

influenciou bastante a forma e a direção do trabalho.

SP6.5 A intervenção seminal aparentemente pouco influenciou o trabalho

213

SP7.5 A intervenção seminal pouco

influenciou a forma principal do trabalho (pessoas se abraçando), mas foi incorporada como uma ‗moldura abraçante‘.

SP8.5 A intervenção seminal foi aproveitada integralmente tendo influenciado

bastante o trabalho já que os 5 semicírculos iniciais deram origem às diversas formas circulares

SP9.5 A intervenção seminal foi aproveitada integralmente tendo influenciado bastante o trabalho na medida em que sua forma sinuosa influenciou as formas vermelha e azul

214

SP10.5 A intervenção seminal foi aproveitada integralmente

tendo influenciado bastante o trabalho, pois definiu pelo formato e posição as formas maiores e influenciou nas formas menores.

A intervenção seminal influenciou a maioria dos trabalhos realizados, tendo funcionado como forma limite conforme a intenção inicial da proposta. Na grande maioria dos trabalhos ocorreu um diálogo entre o pesquisador e o sujeito da pesquisa.

215

CONCLUSÕES
Neste capítulo final tecerei comentários articulando os resultados da pesquisa de campo com o levantamento teórico presente nos demais segmentos dessa tese, desenvolvendo as conclusões sobre o tema - representações sociais da confiança - e algumas considerações sobre a questão secundária – utilização da imagem na metodologia da pesquisa. Finalmente, estarei propondo alguns desenvolvimentos futuros de questões derivadas deste estudo sob forma de sugestões para novas pesquisas. Ao longo desse trabalho procurei posicionar o leitor, inicialmente no capítulo I, em relação à importância da representação da confiança no mundo da vida e como o modo de representá-la reflete nas relações interpessoais, grupais e organizacionais. No capítulo segundo realizei uma reflexão sobre a importância da confiança nas ciências humanas e sociais selecionando diversos autores importantes sem esgotar o tema. No terceiro capítulo expus a base teórica que norteou esse estudo, a teoria das representações sociais, mostrando como se trata de uma abordagem perfeitamente adequada ao tipo de trabalho proposto. Também nesse capítulo iniciei a discussão da importância das imagens para as representações sociais e afirmei a necessidade de incluir a expressão imagética na pesquisa de campo. Em seqüência, no capítulo IV, discuti a questão da esfera pública, o campo representacional onde escolhi centrar a reflexão sobre a confiança, dado que é nela que se encontram as organizações sociais de produção e onde a confiança se torna extremamente crucial em relação à eficácia da produção social. Nos capítulo V e VI realizei uma discussão mais aprofundada da importância da linguagem imagética na metodologia da pesquisa e, no capítulo VII, descrevi detalhadamente a metodologia da pesquisa de campo. Posteriormente, capítulo VIII, apresentei os resultados da pesquisa de campo por grupo focal, os textos imagéticos e os textos verbais. Finalmente, no capítulo IX, expus algumas formas de organizar a reflexão e a análise dos textos imagéticos objetivando realizar um exercício de compreensão mais das ricas informações ali contidas. Pude concluir que a análise imagética é um trabalho inesgotável, mas que cada movimento deste é extremamente interessante e prazeroso. Então, a seguir, vamos juntar tudo um pouco mais e retirar algumas conclusões, mesmo que não definitivas, sobre a representação social da confiança.

216

O que podemos inicialmente perceber a partir das imagens produzidas pelos sujeitos da pesquisa é que a da confiança é uma representação social extremamente importante no conjunto das redes de representações sociais. A representação social da confiança é necessária para o estabelecimento das relações humanas, sejam essas interpessoais, intergrupais, objetais, institucionais ou intrapessoais. Confiança é a base das relações, servindo para o estabelecimento de uma perspectiva futura favorável ou desfavorável composta de valores e intensidades variáveis, como foi amplamente discutido no capítulo I. Nas diversas dimensões sociais podemos encontrar a confiança nos níveis global ou multinacional, internacional, nacional, institucional, grupal, interpessoal e intrapessoal. Portanto, há diversas instâncias das representações sociais da confiança, algumas mais amplas e outras mais específicas, relativas aos grupos sociais mais particulares. As diversas dimensões sistêmicas das representações sociais da confiança se influenciam e se interpenetram mutuamente, sem se determinarem e se transformam dinamicamente, através do compartilhamento social. Posso ressaltar, para simplificar e auxiliar a reflexão, pela existência sistêmica de três dimensões sociais da confiança: a da subjetividade geral de uma época, a de um grupo social específico e a individual. Todas essas dimensões estão interligadas, são dinâmicas e se inter-influenciam. No nível mais amplo, como discutido no capítulo I, temos as influências de um mundo global de produção e trabalho onde as relações ―flexíveis‖ ou líquidas e o desemprego crônico implicam em um sentimento de insegurança do trabalhador em relação ao seu emprego, como bem caracterizado, por exemplo, por Sennett (2005) em A corrosão do caráter. As rápidas mudanças, a velocidade acelerada das comunicações, a disponibilidade ampla de informações e de conhecimento instantâneo em larga escala, a escassez do tempo do espaço, da atenção, entre outras características, submetem o sujeito a situações de pressão constante, provocadoras de estresse e instabilidade, que influenciando nas formas do confiar, principalmente no que tange à diminuição do grau de previsão dos acontecimentos futuros e do comportamento do outro e de si próprio. As relações são líquidas, como bem aponta Bauman(2004). Amores líquidos, relações liquidas dos trabalhadores com as empresas produtivas e outras instituições sociais (e vice-versa das instituições em relação com as pessoas), dos consumidores com os produtos: falta de estabilidade, comprometimento, fidelidade, que geram a ausência de confiança e, portanto, uma diminuição drástica de cooperação nos grupos sociais e baixo nível de capital social nas organizações de produção comprometendo sua eficácia.

217

Outro autor, Francis Fukuyama (1996) em ―Confiança: as virtudes sociais e a criação da prosperidade‖ , frisa que ―o bem-estar de uma nação, bem como sua capacidade de competir, é condicionado a uma única, abrangente característica cultural: o nível de confiança inerente à sociedade‖. Para esse autor as sociedades baseiam-se em sistemas éticos e são as características desses sistemas que definem o quanto de confiança vai existir naquela comunidade:
Sistemas éticos criam comunidade morais porque suas compartilhadas linguagens do bem e do mal conferem aos seus membros uma vida moral comum. Até certo ponto, qualquer comunidade moral, independentemente das regras éticas específicas implícitas, cria um grau de confiança entre seus membros. Certos códigos tendem a promover um raio de confiança mais amplo do que outros... (FUKUYAMA, p. 51)

A subjetividade mais ampla da confiança (de uma nação, por exemplo) condiciona, mas não determina, as representações sociais dos grupos a ela submetida. Dois pontos se destacam aqui: primeiramente, e acima de tudo, é necessário que os valores sejam compartilhados e, em segundo lugar que determinados valores tendem a aumentar a confiança mais do que outros. Mas as características das sociedades contemporâneas, relacionadas aos valores morais, não favorecem a confiança, na medida em que há hoje grande nível de liberdade de auto-instituição. Para ilustrar tal circunstância posso destacar o trabalho de Lipovetsky (1994) – O Crepúsculo do Dever – onde ele escreve as transformações da moral em três momentos da sociedade humana: a tradição, o modernismo e o hipermodernismo44. Pensando nessa classificação como apenas uma divisão em três momentos diferenciados da sociedade humana (sem precisar rotulá-los), temos a instância primeira (tradição) caracterizada pela inexistência de separatividade entre indivíduo e seu grupo social e a conseqüente plena adesão da pessoa aos valores morais grupais, o que implica em um grau alto de confiança interpessoal. Na segunda instância (modernidade), a separação entre indivíduos e grupo social começa a se intensificar, a possibilidade de escolha de novos valores se institui a partir do instante em que os valores não são mais impostos por uma lei moral divina e sim pelo social, havendo ainda o compartilhamento de altos níveis de confiança entre os membros de um grupo. A terceira instância (hipermodernidade) se diferencia pela ampla liberdade individual, pela possibilidade de auto-instituição de valores. Aqui a coesão grupal se mostra ameaçada e tal fato enfraquece

44

Novamente ressalto que aqui apenas cito literalmente os conceitos do autor sem discuti-los em termos de concordância ou discordância em relação aos significados atribuídos ou possíveis,

218

a expectativa que podemos ter sobre o comportamento do outro, minando a possibilidade de se construir confiança profunda e obter maior colaboração mútua nos processos relacionais. Interessante apontar que a ciência e a tecnologia possibilitaram a existência hoje de uma verdadeira monitoração da confiança social. Os instrumentos de controle da economia foram sendo desenvolvidos, principalmente depois da grande depressão de 1929. A dimensão mais ampla da confiança, que se expressa por uma representação social da confiança ligada a uma subjetividade geral, de algumas décadas para cá vem sendo medida e aferida por ―índices de confiança‖ que estão principalmente ligados ao âmbito econômico. Os ganhos e perdas econômicos podem ser de uma intensidade extremamente elevada para uma nação ou empresa e, por uma necessidade de se avaliar esse risco de perdas e calcular as possibilidades de ganhos, foram sendo instituídas algumas medições no sentido de prever e controlar tais efeitos futuros. São verdadeiros termômetros das tendências do comportamento social. Dentre os mais importantes está o índice de confiança na economia (índice que mede o quanto os empresários, investidores e consumidores acreditam que a economia vai crescer ou não), o índice de confiança do consumidor (que mede o quanto o consumidor está disposto a consumir no futuro) o índice de confiança política (o quanto os cidadãos em um país apóiam o curso das ações de seus governantes e quanto eles confiam que a situação do país vai melhorar) e o índice de risco-país (índice estabelecido para indicar o quanto é seguro ou inseguro conceder crédito ou investir em determinado país). Devo ressaltar que, embora estes instrumentais sejam de alta precisão, não é possível o controle absoluto sobre as tendências econômicas, face à complexidade existente no mundo da vida, o que pôde ser comprovado pela recente crise econômica mundial causada pela quebra das instituições financeiras nos EUA. No segundo nível da representação da confiança remeto aqui ao que foi discutido no capítulo I sobre os conceitos de confiança/risco e confiança/medo. A intensidade da confiança que se atribui a um objeto estabelece o nível de risco que aquele objeto apresenta para o sujeito. Esse processo é o que foi denominado por Marková (2003) de confiança/risco. A própria palavra risco, no seu sentido econômico, se origina da possibilidade de que um bem de alto valor, o navio, poder sofrer riscos em seu casco face ao encontro com rochas submersas. O nível de risco estabelecido fornece parâmetros para a tomada de decisão quanto à nossa relação com objetos. As possibilidades são diversas: desistir em face de um risco não suportável, estabelecer limites de relacionamento, exigir garantias, estabelecer contrapartidas.

219

Na representação da confiança associada aos relacionamentos com pessoas estabelece-se a confiança/medo (Marková 2003), que não pode ser medida por índices econômicos e expressa (somente) por ganhos ou perdas materiais. Finalmente, abordei a última instância da confiança, a intrapessoal, que está vinculada à história de vida de uma pessoa, sua formação de representações individuais sobre a vida, sobre si-mesmo e sobre as outras pessoas, principalmente no que diz respeito à auto-estima. Todas estas dimensões da confiança somente podem ser aferidas pela pesquisa de campo a partir daquilo que expressam os indivíduos pesquisados. Nos grupos focais que realizei, essa representação social da confiança foi expressa como sendo um processo que é concomitantemente racional e emocional podendo ser imagéticamente representado pelo olho (simbolizando a razão) e pelo coração (a emoção), dois signos que apareceram em diversos textos imagéticos e verbais45. Esses, na imagem abaixo, aparecem envolvendo a relação interpessoal e a separando em um espaço protegido e seguro:

SP1.1

Ilustro aqui com alguns comentários dos sujeitos da pesquisa. Como disse SP1.1: Pensei na observação. Que a gente, para confiar, tem que estar observando as pessoas. Então fiz o olho para representar a observação e coloquei o coração porque confiança é muito sentimento, vem de dentro; e SP7.3: Relação de confiança, uma coisa cíclica que depende do olhar da gente.

45

Ver tabela página 208-209.

220

Esta imagem nos informa da importância dos dois processos. Tanto o olho quanto o coração são imagens de grande tamanho em relação ao casal, demonstrando, por contraste, a importância de cada processo (razão e emoção) sendo o olho a figura central da imagem e com um tamanho um pouco maior que o coração. O tamanho do coração na imagem aponta para a importância dos sentimentos no confiar. Pude perceber as pessoas possuem um processo de confiar/desconfiar que, em sua instância racional, se realiza a partir de critérios construídos durante a história de vida pessoal (o que pode ser notado pelas narrativas dos sujeitos). O processo de confiar é determinado por etapas racionais de observação analítica que foram representadas nas imagens pelos olhos, que aparecem em nove produções imagéticas dos sujeitos da pesquisa. O estado (atitude) de confiança mede a expectativa já definida que se tem sobre acontecimentos futuros desse algo ou alguém e é determinante da tendência do comportamento do sujeito em relação ao objeto da confiança. A imagem a seguir ilustra um estado relacional de alta confiança: duas pessoas em simetria de mãos dadas em um ambiente natural e tranqüilo, um campo florido em um dia ensolarado. Passa a sensação de paz e harmonia, amor, calma, estabilidade.

SP3.2 O estado de confiança plena, total, em alguém ou algo é simbolizado como total entrega, uma fusão ao outro, na medida em que podemos fechar os olhos, relaxar e ganhar leveza, o que pode ser ilustrado abaixo, onde se observa o bem estar, a abertura e a harmonia da mulher sorridente que parece dançar nas nuvens:

221

SP3.1 Como disseram SP3.1: E a primeira sensação que eu tive da confiança é a entrega, é a liberdade; SP3.4: A confiança é aquela coisa que você se deixa envolver porque você está tranqüilo em relação àquela pessoa; SP2.1: É bom confiar, é confortável, dá um alento estar entre pessoas que você confia, sensação de proteção gostosa, poder ficar de olhos fechados, de repente você nem percebe e já fechou o olho; e SP2.2: Confiança transmite a paz, o sorriso, que eu tentei expressar aqui. No estado de confiança nos sentimos protegidos, seguros, acolhidos, amparados, há cooperação, somatório de forças e proteção às ameaças externas.

SP1.3 Como bem disse SP2.5: Eu acho que confiança tem a ver com uma parceria, com uma troca, com o se relacionar com o outro; SP2.2: Porque eu acho que, quando você tem confiança, você pode fechar o olho para o outro. Você está entregando, pode fechar os olhos e mostrar para a outra pessoa que você confia nela; E eu acho que a questão dos olhos fechados passa por aí, eu acho que olhos fechados, na verdade, é no sentido da entrega; e SP1.1: E as pessoas estão aqui de olhos fechados... Quando a gente tem confiança nas pessoas, quando a gente acredita, não fica mesmo naquela desconfiança. As pessoas confiam mesmo uma na outra e ficam de olhos fechados até que se prove o contrário. Confiar é, portanto, um processo de entrega, que depende do preenchimento de critérios racionais e, também, como ressaltado no primeiro grupo focal, de uma autoconfiança. Se confiamos em nós mesmos, podemos nos entregar ao outro de uma forma

222

mais imediata e tranqüila, sem ter que, necessariamente, processar tantas racionalizações e julgamentos sobre o comportamento alheio. Há, como ressaltaram alguns sujeitos, menos medo de ser enganado, traído ou decepcionado. O processo de confiar pode ser igualmente intuitivo, passa pelo que sentimos instantaneamente na presença do outro, sem que haja motivos racionais para tal. Os sujeitos relatam que muitas vezes confiamos ou desconfiamos sem saber bem o porquê: apenas sentimos repentinamente que confiamos ou não confiamos. Segundo os sujeitos pesquisados, o processo do confiar deve ser dinâmico, ou seja, um processo contínuo de observação. Mesmo que haja um alto grau de confiança em um determinado momento (estado de confiança) as situações podem mudar, a vida possui impermanência. A confiança, entretanto, pode se tornar confiança-cega e aí entramos em um estado perigoso: fechamos totalmente os olhos e nos arriscamos a nos decepcionar ou sermos traídos. Portanto, é preciso estar sempre atento, olhos abertos para perceber as mudanças contingenciais e o que elas afetam no estado de confiança, como pode ser imagéticamente ilustrado pela próxima imagem, onde o olho bem aberto passa uma sensação de atenção plena:

SP7.3 Como disse SP2.1: Voltando à minha coisa do desconfiável, não acredito muito em olhos bem fechados, acredito em olhos bem abertos. Foi ressaltada nos grupos focais a existência de dois momentos de um mesmo processo de estabelecimento da confiança caracterizado por dois momentos diferenciados: a) O do confiar ou o não-confiar, com determinada intensidade, a partir de análises racionais. Frente ao estranho, ao não familiar, há inicialmente um processo de desconfiança e observação segundo critérios que vão determinando ao longo do tempo a intensidade e a qualidade da confiança possível de ser atribuída. b) Pode acontecer que se chegue num momento em que há um ¨apenas-sentir¨(tal observação foi representada nas imagens pelos corações que aparecem em 4 produções

223

imagéticas), onde o racional se relaxe e haja o estabelecimento de um estado (atitude) de confiança integral em relação ao objeto. Segundo os sujeitos da pesquisa esse pode ser um estado perigoso, pois se retiram as defesas da observação racional que poderiam evitar situações de risco, face às mudanças que poderiam passar despercebidas. Esse ¨apenas-sentir¨ relaciona-se com a possibilidade de relaxar, do bem estar do confiar, de uma agradável sensação tônica corporal, muito diferenciada daquela proveniente de estados como preocupação, insegurança ou estresse. Podemos ficar de olhos fechados nos sentindo muito bem, podemos sentir a fusão com o outro. Esse é o real benefício das relações de confiança, um sentimento de calma, paz, amor. Na imagem abaixo podemos perceber esse estado fusional representado por um abraçar prazeroso:

SP7.5 Ilustro aqui com a fala de SP1.2, para quem a confiança é primeiramente um sentimento amoroso: Eu comecei com coração, porque veio para minha cabeça o amor. Segundo os pesquisados, a confiança é situacional: existe um contexto específico estabelecido para a confiança. A confiança é focal: confiamos em uma pessoa (ou grupo ou objeto) para determinado(s) fim(ns) específico(s). A atitude de confiar/desconfiar é constantemente reavaliada, ou seja, a confiança é ativa, nunca estática. Portanto, os critérios para confiar estabelecidos na representação da confiança também podem ser redefinidos a partir das novas experiências, mas tendem a uma estabilidade. A confiança é construída nas relações através do tempo. Ganha forma e estrutura sólida, mas é afetada pelo que envolve a relação, o que pode ser representado pelas imagens abstratas abaixo:

224

SP4.5

SP5.5

SP7.2

Como disse SP5.2: Você constrói também com o tempo esta confiança; e SP3.5: pensei nisso também, a construção. A confiança, este branco que botei aqui, tinha um espaço vazio para depois a confiança ficar estabelecida aqui (mostrando), estas duas forças. Quando a nossa confiança está sólida, ela espalha estes pontinhos; e SP4.5: e como eu acho que a confiança você vai conquistando, vai criando, ela também está um pouco frágil, pode ser perdida, então por isso que está assim vazada. Então é mais ou menos isso que eu queria dizer: uma base segura para construir a confiança; e SP8.5: Bom, a confiança é uma construção coletiva, não é uma coisa que a gente constrói individualmente, ela só acontece a partir do outro. Logo, trata-se de uma construção da confiança. Como uma pequena planta deve ser regada para poder crescer e florescer ao longo do tempo:

SP6.3

225

Como disse SP6.3: A confiança a gente trabalha, vai regando, vai crescendo até você ter confiança; e SP5.2: Você constrói também com o tempo esta confiança. Nas relações, para construir e manter a confiança, é necessário estar ao lado, ser cúmplice, dar as mãos e é fundamental escutar e compreender o outro, como na imagem a seguir:

SP6.4

Como disse SP6.2: e eu acho que confiança é isso mesmo, tem a ver com fidelidade... A fidelidade se comprova nas dificuldades, aí se vê quando uma pessoa é realmente fiel a outra; e SP1.4: E o que eu retratei aqui com essas setas foi isso, para mim, confiança é um caminho de duas vias, tem que ir para um lado e voltar também no mesmo sentido. O dar as mãos foi uma imagem muito repetitiva nos trabalhos dos sujeitos da pesquisa46. Aparecem cinco casais de mãos dadas e um se abraçando em se tratando das imagens figurativas, sendo que as relações foram também amplamente representadas através de imagens abstratas ou simbólicas (alianças, teia ou rede, círculos, semi-círculos, quadrados ou na relação entre as cores complementares). Evidentemente, o que vemos, escutamos e sentimos pode ser manipulado pela ―gestão de impressões‖ (ver capítulo III, página 52). Na medida em que a confiança é construída pode-se agir de maneira estratégica para iludir o outro, criar a impressão de que somos confiáveis, um processo de geração de confiabilidade interessado em algum objetivo individual. Assim, pessoas podem se comportar ardilosamente de maneira a preencher nossos critérios de confiança, ou seja, podem agir intencionalmente para criar confiança e obter

46

Ver páginas 222-223.

226

benefícios em causa própria. Conforme declarou SP2.2, ao relatar que ia sendo enganado no meio da rua: Quem é quem? E eu inclusive fui vítima, quase fui vítima, até por ingenuidade, no centro do Rio de Janeiro. Um idoso, ele me parou e eu parei porque ele é idoso e depois eu comecei a observar que o idoso é confiável, a criança é confiável... Desta forma, acreditam os sujeitos aqui pesquisados que se deve ter muito cuidado ao confiar, confiar ativamente. Assim, mesmo que confiemos muito e, num determinado momento, cheguemos a fechar os olhos, devemos abri-los, devemos manter uma atitude de atenção relacional. Os sujeitos pesquisados ressaltaram que, nos processos do confiar, há muitos perigo e ameaças, situações arriscadas como a expressa abaixo:

SP6.2

A confiança é essencial, pois sem confiar não se obtém os benefícios dos relacionamentos: o relaxamento, a paz, a sinergia, a força, a sensação de estar em casa, protegidos das ameaças externas. É a sensação do familiar, da casa que abriga e protege, na qual podemos não nos sentir ameaçados e sim acolhidos. A imagem da casa protegida pela montanha nos passa o sentimento de abrigo e segurança do que é confiável e familiar:

SP5.3 Como disse SP5.3: A questão da segurança, da confiança, a estrutura da casa, a minha casa onde eu moro, eu trabalho, passo a maior parte do meu tempo lá. Onde eu me sinto segura, confio nas pessoas. E aí me veio essa idéia de casa, de tranqüilidade, de paz, de

227

confiança. E novamente a referencia ao familiar em SP3.2: Se a pessoa é de boa família, batalha, coisa e tal, você diz “poxa aquela pessoa, porque você não dá um voto de confiança nela? O familiar é contraposto ao estranho, o mundo da casa ao mundo da rua. Veja-se a fala de SP2.2: Eu percebo que no Rio de Janeiro, onde as pessoas conhecem muito pouco uma das outras, sempre estão desconfiando dos outros. Quem é quem?; e SP4.2: As pessoas já não têm mais ética, este mundo capitalista, dinheiro, aí a gente passa a desconfiar. A pessoa se aproxima e a gente pensa que está querendo alguma coisa em troca. Eu pelo menos... Tem pessoas boas, mas tem também pessoas aproveitadoras, então „fica ligado‟. Interessante ressaltar aqui que os processos de construção das representações sociais, como apontou Moscovici, passam pelo estágio da ancoragem, isto é, trazer do não familiar (do estranho, ameaçador e não confiável) ao familiar (conhecido, acolhedor, seguro, confiável). Deste mesmo modo, o confiar é tornar familiar o estranho, é tornar a esfera pública semelhante à sua esfera privada, o mundo da rua ao mundo da casa. Sem confiar não possuiríamos os benefícios da amizade, do amor, dos serviços especialistas, da utilização dos produtos de consumo, da sinergia nos grupos de trabalho. Sem confiar ficaríamos isolados, empobrecidos. Por isso alguns autores ressaltam a importância da confiança para as sociedades humanas e a metaforizam como sendo a cola que une as pessoas nos grupos sociais (ver capítulo II). Os sujeitos da pesquisa trouxeram em seus discursos diversas crenças existentes no senso comum da nossa sociedade e aqui ressalto: ―deve-se confiar até prova em contrário‖. Confiar até prova em contrário é visto como uma postura ética, pois desconfiar a priori é considerado ofensivo e arrogante, e nos afasta das relações sociais que desejamos e precisamos estabelecer, impossibilitando também os benefícios destas. Confiar é essencialmente humano, social, cultural. O animal selvagem não confia, apenas entra em relação com o mundo. A confiança é um processo que passa pela racionalidade e pela memória. Não confiamos ou desconfiamos naturalmente, a confiança é cultural, aprendida, construída. Na cultura aprendemos que somos separados, um indivíduo singular que se encontra em relação com aquilo que lhe é diferente: outras pessoas, objetos, instituições sociais, natureza. Ao relacionar desejamos auferir benefícios e evitar malefícios e procuramos racionalmente obter segurança nos processos relacionais e em seus resultados.

228

Confiar é a forma de se tentar estabelecer algum nível de controle no resultado das nossas ações no mundo ou da repercussão das ações de outros em nossa vida individual ou coletiva. A necessidade de se estabelecer uma representação da confiança para cada objeto do mundo da vida vem, portanto, da necessidade humana de segurança. O homem possui, graças à estrutura de seu sistema nervoso, especificamente devido à estrutura cerebral neo-cortical, a faculdade da razão que nos dá a possibilidade de tentar evitar o sofrimento, o mal, o desagradável, a tragédia. Se não totalmente, pelo menos em parte, ou adiando o máximo possível. O medo que temos de sofrer algum dano físico ou emocional nos leva a analisar constantemente nossas relações com os objetos e pessoas do mundo da vida, tentando exercer níveis de controle, evitando ou minimizando os riscos e aumentando subjetivamente o sentimento de segurança pessoal. Confiança e experiência de vida estão intimamente ligadas, tanto no âmbito individual quanto no grupal. Os critérios de confiar/desconfiar (individuais ou coletivos) se estabelecem nas experiências e nas reflexões sobre as mesmas. Assim, estes critérios são mutáveis conforme as experiências presentes determinem novas perspectivas e possibilidades (para melhor ou para pior) e são também situacionais e diferenciados para cada grupo ou para cada indivíduo dentro de um grupo, o que significa que não existe uma verdade definitiva e absoluta sobre o confiar, nem existe uma forma certa de confiar ou desconfiar, apenas representações sociais e individuais da confiança. Ressalto aqui novamente que quanto mais confiamos, mais relaxamos. Confiar é estabelecer calma, serenidade, bem estar, paz. Não confiar ou desconfiar é estar em estado de alerta, tenso e, em alguns casos, altamente estressado. Assim, a vida contemporânea com sua rapidez de acontecimentos, o estresse e a insegurança face às constantes mudanças leva a que estejamos tensos quase todo o tempo porque não podemos simplesmente confiar e relaxar, devemos estar sempre atentos agindo e questionando reflexivamente cada acontecimento presente, passado ou futuro. Como conclusão, devo acrescentar algumas considerações sobre os aspectos relacionados ao papel de normatização comportamental das representações sociais e suas conseqüências. Salta aos nossos olhos (bem abertos por sinal) a importância identificada na representação social da confiança aos processos da razão e suas conseqüências. Estar atento, observando, tenso com a possível expectativa de acontecimentos negativos, leva a um estado

229

de afetação corporal não-saudável. Estar sempre em alerta é um estado estressante e, ao longo do tempo pode levar à degeneração da saúde física, de forma direta (pela falta de relaxamento que possibilita a manutenção do funcionamento harmônico dos diversos sistemas orgânicos corporais) ou indireta (pela necessidade do sujeito em recorrer a substâncias ou atividades não saudáveis para possibilitar, pelo menos temporariamente, o relaxamento necessário ao bom funcionamento orgânico). Devo acrescentar que o afeto que predomina é o medo; o medo de se decepcionar, ser traído, enganado, passado para trás. Isto sugere uma situação constante de isolamento, de separação em relação ao outro, ao mundo da vida. Na verdade ansiamos por uma confiança que deveria ser imediata, natural, que deveria estar presente de forma espontânea e instantânea na sociedade humana. Essa confiança traria grandes benefícios ao homem. Como síntese, posso afirmar que a representação social da confiança possui um centro, seu núcleo, que revela principalmente que: é extremamente importante confiar, que devemos nos precaver sempre e somente confiar a partir do preenchimento de determinados critérios e que mesmo confiando muito devemos estar sempre alerta face às possíveis mudanças do outro e das circunstâncias. Esta representação se encontra estruturada no interior de um momento histórico em que sobressai como valor um sujeito individualista competitivo e consumista, circunstancia que tende a reforçar e manter esta forma de representar e suas conseqüências relacionais. Quanto à repercussão na esfera pública e no mundo do trabalho da atual representação social da confiança aponto que: 1) Há uma desconfiança crescente nas instituições públicas governamentais seja no âmbito executivo, legislativo ou judiciário, que se reflete em um mal estar generalizado. 2) Há falta de confiança nos diversos discursos profissionais especialistas. 3) As relações interpessoais nos grupos de trabalhos das empresas encontram-se submetidas a um processo de individualização, competitividade e desconfiança que corrói o capital social destas e diminui sobremaneira a eficácia de seu processo produtivo. A dificuldade em estabelecer relações de confiança que implicam em cooperação e sinergia coletiva é preocupante.

230

Em relação à minha segunda preocupação, a imagem na metodologia da pesquisa, devo aqui posicionar algumas reflexões. A primeira é que foi extremamente lúdico e prazeroso realizar a coleta das imagens da confiança. Para os sujeitos da pesquisa foi um resgate de possibilidades de sentir e comunicar. As imagens produzidas demonstraram uma força impressionante de expressão que possibilitaram que a parte verbal da coleta de informações fosse completamente simplificada. O casamento entre expressão verbal e imagética demonstrou a sua eficácia plena. Algumas questões ficaram ainda por desenvolver para que a força da comunicação imagética pudesse ser mais bem aproveitada e isto se deve a um estágio ainda embrionário da literatura e da pesquisa nesta área do conhecimento. Tal fato é muito positivo, pois aponta um campo importante de pesquisa a ser desenvolvido pelos profissionais interessados e que deve ser preenchido de forma multidisciplinar: psicólogos sociais, artistas plásticos, profissionais da área da comunicação e do design entre outros. Fica aqui esta sugestão de continuação de minha pesquisa, o desenvolvimento metodológico da análise dos textos imagéticos aplicados à pesquisa em ciências humanas e sociais. O campo de pesquisa da confiança é muito vasto e merece abordagens específicas. Uma sugestão é o estudo da confiança nos processos de consumo envolvendo as relaç~eos entre empresas e consumidores mediadas pelo marketing (marketing de relacionamento é hoje um dos pontos focais do marketing e confiança um objetivo central deste) e pelos diversos meios de comunicação. Outra área atual interessante de se desenvolver um estudo futuro sobre a confiança são os relacionamentos humanos mediados. Todas as formas de relacionamentos onde há a mediação relacional por um objeto tecnológico (computador, celular) traz a indagação de como isto repercute na representação da confiança. Para finalizar, quero utilizar as imagens coletadas para sintetizar que:

231

A representação social da confiança é uma

construção que ao longo do

tempo se realiza nos relacionamentos interpessoais

ou numa rede de relações

através de processos da razão e da emoção

segundo critérios pré-

estabelecidos para observar e sentir o outro, ouvindo e compreendendo

até torná-lo

familiar

e seguro, e assim evitar as ameaças do que nos é estranho e

perigoso, e, progressivamente, ir alimentando e regando

para

possibilitar o aprofundamento dos relacionamentos de modo que possamos nos sentir

, protegidos e

relaxados, estágio em que poderemos usufruir os

melhores benefícios possíveis

das nossas relações, mas sem esquecer de manter

o olho bem aberto e ativo para observar as possíveis mudanças circunstâncias da vida.

nas

232

Termino aqui com uma indagação: se a confiança é tão importante para o indivíduo, tanto no aspecto que se refere à auto-estima quanto naquilo que tange à saúde corporal; tão importante para os grupos e as instituições sociais, na medida em que potencializa o capital social, aumentando a força do grupo e possibilitando maior eficácia na consecução dos objetivos coletivos, então: O que impede que possamos confiar mais? Primeiramente trago algumas citações de diversos pensadores e posteriormente arrisco aqui uma resposta: “Aquele que não tem confiança nos outros, não lhes pode ganhar a confiança”. (Lao-Tsé) "Um ato de confiança dá paz e serenidade". (Fiodor Dostoievski) "Paz não é a ausência de guerra; é uma virtude, um estado mental, uma disposição para a benevolência, confiança e justiça". (Baruch Spinoza) "Assim que você confiar em si mesmo, você saberá como viver". (J. Wolfgang Von Goethe)

Abandonemos a razão dura e fria do medo Adotemos a razão sensível dos sentimentos éticos onde Gentileza gera Gentileza Confiança gera Confiança

233

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Anexo I

Apresentação da Dinâmica de Trabalho do Grupo Focal aos Sujeitos da Pesquisa

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Pesquisa de Tese de Doutorado

Doutorando: Antonio Luiz de Medina Filho Orientador: Ricardo Vieiralves de Castro Tese: Representações Sociais da Confiança

Grupo de oito a dez pessoas com educação superior contendo homens e mulheres de diferentes formações, faixas etárias e profissões. O trabalho do grupo será gravado em áudio e transcrito para análise posterior. (vídeo?) O grupo funcionará em duas etapas: na primeira parte teremos uma discussão verbal e na segunda a elaboração de uma obra imagética sobre o objeto de estudo. 1 - Introdução aos trabalhos, instruções aos participantes 2 – Elaboração de obra imagética sobre o objeto de estudo pelos sujeitos da pesquisa (30 minutos) 3 – Descrição e comentários verbais sobre a obra imagética (30 minutos) 4 – Discussão verbal sobre o objeto de estudo: Representações Sociais da Confiança (45 minutos de duração). 5 – Comentários finais e encerramento. Descrição das etapas 1 - Introdução aos trabalhos, instruções aos participantes Serão definidas as ―regras‖ do grupo (compromisso, sigilo, respeito), o que se espera dos participantes, alcance e limite da participação e tempo de cada atividade

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2 – Elaboração de obra imagética sobre o objeto de estudo.Será distribuído a cada participante material artístico adequado para a criação de uma imagem sobre a RSC. Será solicitado aos participantes que pintem ou desenhem uma imagem (cena) sobre a Confiança. 3 – Descrição e comentários verbais sobre a obra imagética (30 minutos) Será solicitado aos participantes que, um por um, falem sobre a imagem produzida. Após a narrativa de cada participante será aberta uma discussão sobre as imagens e como elas representam a Confiança. 4 – Discussão verbal sobre o objeto de estudo: Representações Sociais da Confiança Serão feitas algumas questões de caráter geral sobre as RSC: A – O que você entende por Confiança B – Como você faz para confiar/desconfiar nas pessoas, objetos e instituições no mundo da vida em geral. C – Como você percebe a confiança no mundo do trabalho?

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Anexo II

Carta de Informação e Termo de Consentimento Esclarecido para a Utilização dos Resultados da Pesquisa

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES INSTITUTO DE PSICOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL

CARTA DE INFORMAÇÃO AO PARTICIPANTE DA PESQUISA O presente trabalho, sob o título ―Representação Social da Confiança‖ constitui-se em pesquisa de tese de doutorado em Psicologia Social pela UERJ. Os instrumentos de avaliação serão aplicados pelo pesquisador responsável, em local a ser definido pelas autoridades competentes. Este material será posteriormente analisado e

será garantido sigilo absoluto sobre as questões respondidas, sendo resguardado o nome dos participantes, bem como a identificação do local da coleta de dados.
Os resultados da Pesquisa terão, exclusivamente, finalidade acadêmica, esperando contribuir para um maior conhecimento do tema estudado, além do destino prático dos dados, a critério dos interessados. Aos participantes, cabe o direito de retirarem-se do estudo em qualquer momento, sem prejuízo pessoal de qualquer ordem. Os dados coletados serão utilizados na Tese de Doutorado de Antonio Luiz de Medina Filho, aluno do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, sob a orientação do Prof. Dr. Ricardo Vieiralves de Castro.

Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2007.

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______________________________________ Antonio Luiz de Medina Filho Telefone para Contato: 21 22267099 - 88777774

IMPORTANTE Este Documento permanece com o (a) Senhor(a).

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES INSTITUTO DE PSICOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL

TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO Pelo presente instrumento, que atende às exigências legais, o Sr.

_________________________________________________, Colaborador da pesquisa, após leitura da CARTA DE INFORMAÇÃO AO PARTICIPANTE DA PESQUISA, ciente dos procedimentos aos quais será submetido, não restando quaisquer dúvidas a respeito do lido e do explicado, firma seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO de concordância em participar da pesquisa proposta. Está assegurado ao participante da pesquisa ou seu representante legal poderem, a qualquer momento, retirar seu CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO e deixar de participar do estudo alvo da pesquisa, estando ciente de que todo o trabalho realizado torna-se informação confidencial, guardada por força do sigilo profissional. Rio de Janeiro, 29 de setembro de 2007. ________________________________________ Assinatura do Participante ou seu Representante Legal

IMPORTANTE Este Documento retorna junto com o Questionário.

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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO CENTRO DE EDUCAÇÃO E HUMANIDADES INSTITUTO DE PSICOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM PSICOLOGIA SOCIAL Prezado Senhor O Sr(a). está sendo convidado(a) a participar de uma pesquisa que aborda o tema Representação Social da Confiança. O presente estudo, conduzido e sob a inteira responsabilidade do Programa de PósGraduação em Psicologia Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, para o qual contamos com a sua colaboração, tem por objetivo identificar como representamos a Confiança, componente fundamental dos relacionamentos interpessoais, grupais e intrapessoal Vale ressaltar que as suas respostas estarão protegidas e mantidas sob sigilo de confidencialidade. Nenhum colaborador será identificado nominalmente, bem como os seus dados pessoais. Somente o pesquisador Antonio Luiz de Medina Filho e seu orientador, Prof. Dr. Ricardo Vieiralves de Castro terão acesso aos dados brutos. Os resultados dos questionários serão utilizados apenas com fins acadêmicos, não sendo possibilitado o acesso ao banco de dados a qualquer outra pessoa. Como psicólogos pesquisadores, a lei nos permite guardar segredo mesmo sob requisição judicial. Os dados obtidos com a sua colaboração serão usados apenas em percentagens, números e comentários gerais. Agradecemos, antecipadamente, a atenção, a compreensão, a paciência e a fidelidade da sua colaboração. Prof. Dr. Ricardo Vieiralves de Castro - Orientador Antonio Luiz de Medina Filho - Doutorando