Unidade de Investigação em Psicologia da Saúde Instituto Superior de Psicologia Aplicada Bolsa de Integração na Investigação - BII

Envelhecimento e minorias sexuais: Ambiente Psicossocial e Necessidades de Saúde

Relatório final da Bolsa de Integração na Investigação, desenvolvida ao longo do ano lectivo de 2009/2010, como requisito final para o término da bolsa.

BII - Julieta Martins Azevedo

Coordenador: Henrique Pereira

Covilhã – 2009/2010

AGRADECIMENTOS

Agradeço ao Docente Henrique Pereira que me orientou no desenvolvimento deste estudo e no incentivo à investigação. Agradeço ainda às Câmaras Municipais por todo o país, que divulgaram esta investigação e demonstraram interesse neste tema. Reconheço ainda o apreço e interesse demonstrado pelos jornais regionais, como “A Gazeta” e o “Povo da Beira” que apresentaram o meu estudo nas suas publicações, assim como o jornal “Diário de Noticias”. Mostro ainda o meu apreço, por todos os amigos que me apoiaram e ajudaram na divulgação desta investigação, assim como da minha família, pedra basilar que suporta todos os meus esforços académicos e pessoais para atingir objectivos maiores.

II

RESUMO Este estudo surge no âmbito de uma Bolsa de Integração na Investigação, proposta pela Unidade de Investigação em Psicologia E Saúde (UIPES) e foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. O tema proposto, é muito pertinente pois na actualidade discutem-se cada vez mais questões sobre minorias sexuais, mas há ainda um grande défice a nível dos estudos acerca do envelhecimento desta população, que pela sua especificidade, como tem vindo a ser demonstrado noutros países, requerem especial atenção numa idade mais avançada, sendo por isso importante perceber quais as suas necessidades. Este estudo vem portanto tentar preencher essa lacuna, averiguando através de um questionário exaustivo, divulgado a nível nacional, qual o ambiente psicossocial em que a comunidade LGB com mais de cinquenta anos vive, e quais as suas necessidades psicossociais e de saúde, no envelhecimento. Neste trabalho é ainda feita uma breve revisão sobre aquilo que se sabe acerca da homossexualidade no envelhecimento e quais as suas implicações. Conclui-se com este estudo que há ainda muita opressão sentida por parte desta minoria, que se reflecte em comportamentos de evitamento e oclusão da sua orientação sexual. Verifica-se ainda que grande parte dos sujeitos não revela a sua orientação sexual aos seus cuidadores primários, e muitos já experienciaram situações de preconceito em serviços públicos.

Palavras-chave: Envelhecimento e homossexualidade, necessidades psicossociais, necessidades de saúde, Preconceitos, Opressão.

III

ABSTRACT This study is the result of a Research Integration Scholarship, proposed by the Research Unit in Health Psychology and is financed by the Foundation for Science and Technology. The theme is very relevant because nowadays, more and more issues about sexual minorities are discussed, but there is still a large deficit when we think about studies about the aging of this population, which by their specificity, as has been demonstrated in other countries, require special attention at a later age, so it is important to realize which are their needs. This study has therefore, attempt to fill this gap by examining through an extensive questionnaire, released at national level, which is the psychosocial environment in which the LGBT community (with over fifty) lives in, and what are their health and psychosocial needs in aging. In this work it‟s also made a brief review on what is known about homosexuality in aging and what implications does this brings. The conclusion of this study is that this minority still feels a big oppression, which is reflected on their avoidance behaviors and occlusion of their sexual orientation. This investigation also discovered that there is still a large proportion of subjects who don‟t reveal their sexual orientation to their primary caregivers and many experienced situations of prejudice in public services.

Key Words: Aging and homosexuality, psychosocial needs, health needs, Prejudice, Oppression.

IV

Índice
1. Introdução .......................................................................................................................... 1 2. Enquadramento Teórico Acerca Da Evolução Histórica Das Nessecidades Psicológicas e De Saúde Dos Idosos LGBT ................................................................................................... 2 2.1. O Envelhecimento e o Seu Impacto Na Comunidade LGBT ................................... 2 2.2. As Redes De Suporte Social e a Saúde, Física e Mental Da População LGBT ......... 4 2.3. Teorias Do Envelhecimento Na População LGBT .................................................. 7 2.4. Cuidados e Necessidades Das Pessoas LGBT fora das suas casas – Opressão, Discriminação e Aceitação ..................................................................................................... 8 3 - Apresentação Do Estudo ................................................................................................. 10 3.1. Objectivos ............................................................................................................ 10
3.1.1. Objectivo Geral......................................................................................................... 10 3.1.2. Objectivos Específicos............................................................................................... 10

3.2. Tipo De Estudo ..................................................................................................... 11 4. Método ............................................................................................................................. 11 4.1. Caracterização Da Amostra................................................................................... 11 4.2. Procedimento ........................................................................................................ 11 4.3. Instrumentos ......................................................................................................... 13 5. Resultados Da Pesquisa .................................................................................................... 14 5.1. Caracterização Sóciodemográfica ......................................................................... 14 5.2. Religião ................................................................................................................ 19 5.3. Habitação ............................................................................................................. 20 5.4. Relacionamentos................................................................................................... 21 5.5. Escala De Redes Sociais ....................................................................................... 24 5.6. Opressão Social .................................................................................................... 27 5.7. Escala De Ânimo .................................................................................................. 30 5.8. Saúde.................................................................................................................... 31

V

5.9. As Melhores Coisas Da Vida ................................................................................ 38 5.10. Preocupações com o Envelhecimento.................................................................. 38 6. Discussão de Resultados ................................................................................................... 39 7. Sugestões para Pesquisas Futuras...................................................................................... 44 8. Referências Bibliográficas ................................................................................................ 46 Anexos ..............................................................................................................................xlvii Anexo A ...................................................................................................................xlvii Anexo B ...................................................................................................................xlvii Anexo C ...................................................................................................................xlvii Anexo D ...................................................................................................................xlvii Anexo E ...................................................................................................................xlvii Anexo F ...................................................................................................................xlvii

VI

Índice de Quadros
Quadro 1 - One-Sample Test – T-Student ..............................................................................14 Quadro 2 - Caracterização Sóciodemográfica .......................................................................15 Quadro 3 - Continuação da Caracterização Sociodemográfica ..............................................16 Quadro 4 - Continuação da Caracterização Sociodemográfica ..............................................18 Quadro 5 - Continuação da Caracterização Sociodemográfica ..............................................18 Quadro 6 - Atracção Sexual ..................................................................................................19 Quadro 7 - Religião ..............................................................................................................20 Quadro 8 - Habitação ............................................................................................................21 Quadro 9 - Relacionamentos .................................................................................................22 Quadro 10 - Escala de Redes Sociais, dimensão da família face à dimensão amigos .............25 Quadro 11 - Escala de Redes Sociais ....................................................................................26 Quadro 12 - Satisfação com o Suporte Social........................................................................26 Quadro 13 - Relativamente aos amigos que indicou, como é que os caracterizaria relativamente à sua orientação sexual? ..................................................................................26 Quadro 14 - Opressão sentida e a diferença entre os géneros .................................................30 Quadro 15 - Escala de Ânimo – Solidão ...............................................................................31 Quadro 16 - Escala de Ânimo – Atitudes Face ao Envelhecimento ........................................31 Quadro 17 - Escala de Ânimo – Agitação..............................................................................31 Quadro 18 - Item 32. Quem trataria de si se doente? ............................................................33 Quadro 19 - Item 33. Se não conseguisse viver sozinho onde esperaria viver? ......................33 Quadro 20 - Item 37. Faz Check Ups e/ou rastreios Regularmente? ......................................34 Quadro 21 - Item 47. Com que frequência tem relações sexuais? ..........................................36 Quadro 22 - Item 54.1.1 Com que frequência consome drogas? ............................................37 Quadro 23 - Preocupações com o Envelhecimento ................................................................39

VII

Índice de Figuras

Figura 1 - Factores que influenciam a escolha de um parceiro sexual ....................................24 Figura 2 – Escala de Redes Sociais – Resultados Gerais .......................................................25 Figura 3 - Quem sabe da sua Orientação Sexual....................................................................27 Figura 4 - Situações de descriminação experienciadas ..........................................................28 Figura 5 - Comportamentos de Evitamento ...........................................................................28 Figura 6 - Prevalência de diversas doenças na amostra..........................................................32 Figura 7 - DST‟S Diagnosticadas ao longo da vida ...............................................................35 Figura 8 - Serviços procurados nos últimos meses ................................................................35 Figura 9 – As melhoras coisas da vida ..................................................................................38

VIII

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo 1. INTRODUÇÃO Esta investigação surge no âmbito de uma Bolsa de Integração na Investigação, proposta pela Unidade de Investigação nº 4010 em Psicologia e Saúde do ISPA, cuja temática se insere na linha de investigação: GÉNERO, IDENTIDADE E SAÚDE SEXUAL, e gere-se pelo regulamento de Formação Avançada e Qualificação dos Recursos Humanos da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT). Esta proposta de estudo vem tentar colmatar as lacunas que ainda existem na investigação neste campo, que são muitas. O campo de estudos sobre género, identidade e saúde sexual é bastante vasto, deste modo, esta investigação tem como tema específico: Envelhecimento e minorias sexuais: ambiente psicossocial e necessidades de saúde, procurando responder a algumas questões existentes neste campo. Sendo estudante do terceiro ano de Psicologia, na Universidade da Beira Interior, concorri a esta bolsa de investigação pois penso que este é um tema muito interessante e importante para a minha formação académica e pessoal, mas também pelo facto de considerar que será uma contribuição importante para a investigação na área da Psicologia da saúde, nomeadamente, acerca das necessidades psicossociais e de saúde das minorias sexuais, neste caso, de pessoas com mais de 50 anos em Portugal. No nosso país, não existem ainda estudos feitos acerca deste tema, e isso revela a pouca consideração que lhe é atribuída, por essa razão torna-se indispensável que se perceba a importância desta investigação, assim as especificidades da população em estudo, e o porquê de se encontrar exposta a um maior número de factores de risco face ao resto da população. Para que isso aconteça, torna-se fundamental uma breve revisão bibliográfica sobre os estudos feitos na área, noutros países, que são escassos, mas que nos permitem perceber que o envelhecimento de uma minoria sexual é logo à partida um duplo estereótipo, resultante da conjugação de dois preconceitos associados. Esta condição verifica-se em primeiro lugar face ao envelhecimento, que é uma condição visível e por isso mais vulnerável a atitudes preconceituosas e que acarreta muita discriminação, que se junta aos estereótipos associados aos homossexuais e bissexuais que são inúmeros. Este trabalho começa então por fazer um enquadramento teórico, onde é apresentado o envelhecimento e o seu impacto na população LGBT, em seguida são analisadas as redes de suporte social e a saúde, física e mental da população LGBT, seguem-se as teorias do envelhecimento na população LGBT, terminando esta revisão bibliográfica com os cuidados e necessidades das pessoas LGBT fora das suas casas, referindo as quetões da opressão, da discriminação e da aceitação.

1

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Posteriormente é então apresentado o estudo, onde é feita toda a análise estatística, seguida da discussão de resultados e finalmente é feita uma breve reflexão crítica acerca das dificuldades encontradas na elaboração do estudo, apresentando as suas limitações. Por último são feitas algumas observações para futuros estudos.

2. ENQUADRAMENTO TEÓRICO ACERCA DA EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS NESSECIDADES PSICOLÓGICAS E DE SAÚDE DOS IDOSOS LGBT A revisão bibliográfica que se segue irá explorar questões relacionadas com o envelhecimento, tais como redes de apoio social, as teorias sobre o envelhecimento, vida assistida e tratamento por cuidadores de saúde, questões relacionadas com o fim de vida e como os serviços de saúde lidam com esta população. Apesar de grande parte das questões aqui abordadas serem vividas no envelhecimento, tanto por homossexuais como por heterossexuais, a ênfase será na população LGB e na sua especificidade. 2.1. O ENVELHECIMENTO E O SEU IMPACTO NA COMUNIDADE LGBT A velhice, assim como a adolescência é uma fase de mudança, no entanto, enquanto na adolescência são estudadas as mudança e os ganhos cognitivos, na velhice são avaliadas as perdas e os défices que com o envelhecimento se acentuam (Fonseca, 2005). O modo como a sociedade vê o envelhecimento tem se vindo a alterar com o tempo, e varia de cultura para cultura. Em algumas civilizações a velhice era vista como o auge da sabedoria e as pessoas eram muito respeitadas, Platão idealizava a cidade ideal como uma gerontocracia, onde os prazeres físicos acabavam por ser substituídos pelos prazeres do espírito, no entanto, na antiguidade a esperança média de vida não era muito alta, consequentemente as pessoas morriam mais cedo e o período de envelhecimento era mais curto (Paúl & Fonseca, 2005). Actualmente a população envelhecida aumentou bastante, e em muitos países, a percentagem de idosos é já de vinte por cento, isto deve-se ao facto da qualidade de vida ter aumentado, assim como o acesso aos cuidados de saúde, o avanço da ciência e da tecnologia no mundo, permitindo que a investigação cientifica amplie cada vez mais o conhecimento sobre o envelhecimento, a implementação de politicas de saúde publica e investimento na medicina preventiva, a nível da fiscalização do saneamento e higiene, que contribuiu para a proliferação de doenças e epidemias, como acontecia no passado, e todas estas condições permitem que as pessoas vivam agora mais tempo (Lima, 2006; Paúl & Fonseca, 2005). Desta forma, tornou-se necessário criar infra-estruturas e serviços públicos direccionados para esta população, tanto a

2

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo nível dos apoios da acção social, como na construção de lares onde possam ser recebidos quando já não conseguirem viver sozinhos (Lima, 2006; Paúl & Fonseca, 2005). No Reino Unido estima-se que cinco a sete por cento da população idosa seja homossexual (Musingarimi, 2008), nos Estados Unidos, prevê-se que todos os anos, cerca de 500.000 homossexuais (gays e lésbicas) fazem cinquenta anos, aproximando-se da velhice
(Makadon, 2006). Apesar de terem aumentado os estudos realizados nos últimos anos, para

examinar os efeitos do envelhecimento, em questões como a qualidade da prestação de cuidados de saúde, a habitação e serviços de apoio, comparativamente, existem muito poucas pesquisas que procurem determinar as necessidades dos idosos LGBT. Tal evidência parece resultar da dificuldade em adquirir uma amostra de tamanho adequado, o que parece advir da relutância dos gays e lésbicas mais velhos, em divulgar a sua sexualidade (Baumgartner, 2007). O envelhecimento aumenta a probabilidade de desenvolver doenças crónicas, e ver a sua mobilidade diminuída o que resulta claro num maior contacto com serviços de saúde e serviços de acção social, como tal, geram-se mais frequentemente situações em que os sujeitos LGBT têm de lidar com esses serviços, e o problema que aqui se levanta é se serão ou não capazes de revelar a sua identidade homossexual, e quando o fazem como reagem os cuidadores de saúde. Os estudos revelam que há ainda uma grande estigmatização destas minorias, existem inúmeros relatos de pessoas LGBT que ao revelarem a sua orientação sexual, foram tratadas de maneira diferente, e assistiram a actos preconceituosos (Musingarimi, 2008a). Num estudo feito com enfermeiros, para averiguar as suas atitudes no atendimento a pessoas homossexuais, revelaram emoções de raiva homofóbica, culpa face a pensamentos homofóbicos e apurou-se ainda que 36% dos profissionais inquiridos, referiram que se tivessem a opção de evitar tratar essas pessoas iriam fazê-lo, o que vem confirmar os estudos que têm sido feitos (Rondahl, Innala, & Carlsson, 2004). Vivemos numa sociedade heterossexista, que valoriza os padrões de beleza e juventude como ideal, onde paralelamente subsistem mitos e estereotipos acerca da velhice, nomeadamente, a ideia de que o envelhecimento só acarreta mudanças negativas, que se caracterizam por uma perda de destreza e de aptidões anteriormente adquiridas, associa-se ainda o envelhecimento à senilidade, ao isolamento, aos problemas de saúde, à crença de que as pessoas mais velhas são menos competentes para trabalhar, com o aumento da idade deixa de existir actividade e desejo sexual e estes preconceitos refletem-se num etarismo social ainda muito demarcado (Lima, 2006). O declínio do desejo, a perda da atractividade física e o

3

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo gradual desvanecimento como pessoa sexuada, estão entre as principais marcas e condições do envelhecimento que sustentam, em grande parte, o repúdio e o medo generalizados do corpo em definhamento e, em contrapartida, a avaliação positiva que se faz da juventude (Lima, 2006; Simões, 2003). O problema destas crenças, é que elas acabam por ser internalizadas pelos sujeitos, diminuindo a sua auto-estima e havendo um menor esforço, face a uma falsa crença pessoal (Paúl & Fonseca, 2005). Nas pessoas LGBT esta condição agrava-se pois adicionam-se os estereotipos face à sua orientação sexual. No que diz respeito à homossexualidade masculina, alguns autores referem que o envelhecimento é visto por estes como um período, de redução das oportunidades de vida que desencadeia sentimentos pesados de depressão e solidão, pois sentem-se menos atractivos e capazes, para que ocorresse uma transição bem sucedida por essa fase de crise, deveria existir uma afeição e apoio da rede social, o que deixaria os homossexuais em séria desvantagem, porque não disporiam de filhos e de um cônjuge, enfim, dos vínculos familiares dos quais se poderia esperar apoio (Simões, 2003). A velhice é encarada pelos dois géneros como uma fase de perdas e limitações, é vista como um período de mudança que traz consigo maior isolamento, enfrenta-se a reforma e geralmente, consequente perda de identidade laboral, o rendimento mensal é reduzido, ocorrem alterações físicas e surgem mais vulnerabilidades devido à idade e há ainda perda de amigos e familiares mais velhos (Bridget, 1996). O problema agrava-se quando as pessoas começam a antecipar a institucionalização, pois quando já não conseguirem fazer a sua vida diária poderão ter de ir para um lar, e como se sabe, nos lares não têm em conta a orientação sexual e há por vezes grande discriminação por parte dos utentes e cuidadores, caso esta seja revelada. E a esta condicionante, junta-se ainda o estereótipo dos idosos serem assexuados, pois alguns autores referem que o contacto sexual, ou simplesmente mais íntimo, é visto por alguns técnicos destas instituições como inadequados (Low, Lui, Lee, Thompson & Chau, 2005; Musingarimi, 2008 b).

2.2. AS REDES DE SUPORTE SOCIAL E A SAÚDE, FÍSICA E MENTAL DA POPULAÇÃO LGBT Mail e Safford (2003), identificaram quatro influências sobre a saúde que necessitam de ser consideradas: a hereditariedade, o ambiente, a disponibilidade e utilização de serviços de saúde e o estilo de vida. A hereditariedade é descrita como a variável interna, ou de acolhimento, do estado de saúde, que dá ao indivíduo pouco controlo acerca do seu

4

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo património genético. O ambiente é o factor externo envolvente que influencia as pessoas, desde o ar, à água, aos diversos contaminantes químicos e biológicos que existem na natureza, todos influenciam a nossa saúde. Torna-se também importante considerar o ambiente sociocultural pois este envolve as pessoas com quem nos relacionamos, e as relações interpessoais que desenvolvemos, quer no trabalho, família, em instituições religiosas entre outras, e tem a capacidade de reduzir ou aumentar a auto-estima e a auto-eficácia, assim como os níveis de stress (Baumgartner, 2007). A acumulação de eventos significativos ao longo da vida (life events) como as condições de vida e vivências, a acessibilidade aos serviços de saúde, assim como passar um período significativo desempregado ao longo da sua experiência profissional, têm grande influência na sua saúde e envelhecimento, e é neste campo que a população LGBT se diferencia da normativa, pois ao longo da vida tem que ultrapassar grandes obstáculos internos, o “coming out” e a construção e aceitação de uma identidade homossexual, e externos, na medida em que têm que enfrentar os preconceitos e estereótipos da sociedade (Cascais, Santos, Amaral, Barreira, Rayner, Moita, Pereira, Leal, et al. 2004; Pereira, Leal & Maroco, 2009) Quando as pessoas têm historial de doença mental, a sua experiência nos serviços de saúde pode ter dois resultados, ou a cura imediata no caso de doença aguda, o que não implica geralmente um tratamento muito prolongado ou internamento, ou pelo contrário, pode haver necessidade de cuidados continuados (Musingarimi, 2008b). Deste processo resultará ou uma boa relação com os serviços de saúde ou uma aversão a esses serviços resultante do heterossexismo que prevalece na sociedade e a consequente discriminação das minorias (Ceará & Dalgalarrondo, 2010; Musingarimi, 2008). Se os pacientes não sentirem que existe um ambiente favorável para o coming out, e tiverem a percepção de que os cuidadores de saúde revelam atitudes heterossexistas e homofóbicas, isso fará com que não comuniquem a sua orientação sexual, omitindo também outros factos que podem ser importantes, e consequentemente, não será feita uma correcta avaliação da história pessoal dos indivíduos, assim como dos factores de risco e as necessidades específicas que a eles estão associadas (Davison, 2001; Wright & Canetto, 2009). A omissão deste tipo de informação pode afectar directamente a qualidade do tratamento, prova disso, são os resultados de um estudo feito com lésbicas na Inglaterra, que revela que o heterossexismo nos serviços de saúde leva a que haja evitamento, por parte das pacientes, de fazer testes de rotina e mostram-se geralmente pouco comunicativas nas consultas, pois não querem dizer algo que possa revelar a sua orientação sexual. Foi ainda referido, que algumas pacientes que revelaram a sua orientação sexual

5

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo tiveram experiencias negativas (King & McKeown, 2005). No que diz respeito à saúde mental, é importante referir que a população LGBT está mais vulnerável, num estudo feito por Ceará e Dalgalarrondo (2010), os sujeitos homossexuais revelaram, na maturidade e na velhice, maior frequência de transtornos mentais, porem melhor qualidade de vida, é possível que a homofobia internalizada possa estar associada a dificuldades psicossociais. Os autores sugeriram que a não revelação da homossexualidade e o esforço no curso da vida em ocultá-la talvez representem os factores predisponentes para uma maior ocorrência de transtornos mentais (Ceará & Dalgalarrondo, 2010). Diversas psicopatologias têm vindo a ser associadas à população LGBT, e de facto alguns estudos apontam para uma grande prevalência da depressão, perturbações de ansiedade e doença mental em geral (Pitts, Smith, Mitchell, & Patel, 2006). Num estudo feito no Reino Unido, para além da elevada prevalência de doença mental, 43% numa amostra de 1285 LGB, uma percentagem significativa, 20%, revelou ter feito alguma tentativa de suicídio (Warner et al. 2004 cit in Pitts, Smith, Mitchell, & Patel, 2006). Apesar da escassez de estudo com a populaçãao LGBT envelhecida, alguns autores dedicaram-se de facto a tentar perceber qual a prevalencia da doença mental e física nestas pessoas, Jan Bridget (1996), faz uma recolha detalhada da investigação que tem vindo a ser feita nesta área e os resultados são alarmantes. Nos Estados Unidos, um estudo feito por Kaiser e Oregon (2006, cit in Bridget, 1996), com mulheres lésbicas e bissexuais, revelou que apesar da amostra apresentar maior nível sócio-economico e maior grau académico, simultaneamente revelavam taxas mais altas de obesidade, fumadoras e consumos de alcool abusivos e ainda baixo suporte social. O stress homofobico que é sentido durante grande parte da vida desta população, torna-a mais susceptível de apresentar depressão e suicidio, como supra citado, mas ainda maior risco de enfarte do miocárdio, asma, diabetes, doenças gastrointestinais e alguns estudo revelam ainda maior prevalência de cancro, rectal nos homens e cancro da mama nas mulheres, de infecções virais e deficiências auto-imunes (Bridget, 1996; Iwasaki & Ristock, 2007). A investigação científica revela ainda que as pessoas LGBT, nos EUA, têm maior probabilidade de serem obesas, é duas vezes mais provável que sejam fumadoras, é menos provável que usem contraceptivos, mais provavel apresentarem problemas com o alcool, e parece existir maior vulnerabilidade ao cancro do pulmão, nos ovários e do cólon (Bridget, 1996; Gruskin & Gordon, 2006). Ainda no campo da saúde, o HIV é uma das grandes preocupações a nível global, mas ainda mais nesta população, que devido ao enfoque das campanhas em faixas etárias mais

6

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo jovens, e em grande parte dirigidas aos heterossexuais, não parecem surtir efeito na população idosa homossexual que mantém comportamentos sexuais de risco, e por isso o vírus da Sida continua a propagar-se. Torna-se indispensavel intervir nesta área, e por isso as instituições LGBT têm investido em campanhas preventivas com o intuito de travar esta problemática (Musingarimi, 2008b; Pitts, Smith, Mitchell, & Patel, 2006). As redes sociais são uma vertente fulcral na vida de da população LGBT, pois uma rede bem estruturada de suporte, é um bom preditor de um envelhecimento saudável Uma rede de apoio social robusta não é apenas um veículo para

facilitar a adaptação para os efeitos do envelhecimento na saúde mental e física, como é também uma ferramenta para ajudar a aliviar o estigma que as pessoas LGBT sofrem devido a experiências negativas face à sua orientação sexual (Baumgartner, 2007). Consequentemente, uma rede social reduzida e frágil, pode ser muito prejudicial no processo de envelhecimento, aumentando o isolamento e diminuindo as interacções sociais, pode resultar num decréscimo significativo na qualidade de vida e fomentar problemas de saúde (Mota, 2009; Paúl & Fonseca, 2005).

2.3. TEORIAS DO ENVELHECIMENTO NA POPULAÇÃO LGBT Schope, (2005) desenvolveu um estudo para compreender melhor, como os gays e lésbicas viam o processo de envelhecimento. Os resultados revelaram que os gays, percepcionavam este processo como mais negativo face às lésbicas, pois tinham mais estereótipos em relação à idade, e pareciam mais preocupados com a sua atractividade estar diminuída. Por outro lado, as mulheres pareciam mais seguras de si próprias, numa idade mais avançada, abordando o tema do envelhecimento directamente, ao contrário dos homens (Schope, 2005). As teorias do “envelhecimento acelerado” e das “competências de crise”, tentam explicar como os homens gays experienciam o envelhecimento (Baumgartner, 2007). A teoria do envelhecimento acelerado, declara que os homens gays vêm-se a eles próprios mais velhos, comparativamente aos heterossexuais da sua idade, no entanto, tirando um estudo com uma pequena amostra que referiu de facto que os homossexuais sentiam-se velhos mais cedo por comparação aos seus semelhantes heterossexuais, não existem resultados válidos de que tal seja verdade. Na realidade, as evidências mostram que na crise de meia-idade, os homossexuais lidam tão bem com isso como os heterossexuais (Schope, 2005). A teoria da competência de crise, por outro lado, acredita que os gays lidam melhor com o

7

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo envelhecimento do que os heterossexuais, pois eles tiveram de reconstruir a sua identidade sexual, através de um processo de “coming out”, permitiu-lhes desenvolver capacidades, que lhe permitem mais facilmente ajustar ao processo de envelhecimento. Alguns homossexuais mais velhos confessam que envelhecer é um processo positivo e satisfatório, não só de sobrevivência, mas uma fase onde podem desfrutar da vida (Baumgartner, 2007; Schope, 2009).

2.4. CUIDADOS E NECESSIDADES DAS PESSOAS LGBT FORA DAS SUAS CASAS – OPRESSÃO, DISCRIMINAÇÃO E ACEITAÇÃO O medo de muitas das pessoas pertencentes a uma minoria sexual, está relacionado com os pensamentos acerca de como serão as suas vidas se um dia deixarem de conseguir viver sozinhas e tiverem de ser institucionalizadas, o medo da discriminação por parte dos cuidadores é significativo, tendo em conta que há relatos de atitudes preconceituosas nos serviços públicos. O medo de experienciar discriminação pode reforçar o isolamento social e consequentemente, colocam-se em maior risco de se auto-negligenciarem, provocando um decréscimo na qualidade de vida, e aumentando a mortalidade Musingarimi, 2008). Johnson, Jackson, Arnette & Koffman, em 2005, desenvolveram um estudo exploratório, com o objectivo de apreender quais as reais percepções da população LGBT, acerca das tendências e comportamentos preconceituosos em centros de acolhimento. Os resultados demonstraram que 73% dos entrevistados acreditavam que a discriminação contra as pessoas LGBT ocorrem frequentemente neste tipo de instituições, acreditavam que recebesse, o mesmo por tipo de tratamento 60% indicaram que não de saúde 74% e serviços (Baumgartner, 2007;

sociais comparáveis aos recebidos

residentes heterossexuais,

acredita que

essas instalações não foram incluem normas relativas à orientação sexual em suas política anti-discriminação, e 34% disseram que esconderiam a sua orientação sexual se fossem para este tipo de ambiente. Além disso, os participantes do estudo que acreditavam que a

discriminação ocorre nestas instalações de assistência, afirmam que esta viria da equipe de cuidados, administradores e moradores (Baumgartner, 2007; Johnson, Jackson, Arnette & Koffman, 2005). A discriminação pode ser vivida de diversas maneiras, desde a violência aberta ao abuso subtil ou tácita reprovação ou abandono. Muitas pessoas LGBT tiveram experiências dentro deste espectro e estão já familiarizadas com este tipo de comportamentos de discriminação e

8

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo violência. Um estudo recente do Victorian pessoas LGBT mostrou que mais de 80% dos participantes tinham experimentado insultos públicos, 70% experienciaram abuso verbal, 20% ameaças explícitas e 13% agressão física (McNair e Thomacos, 2005 cit in Pitts, Smith, Mitchell, & Patel, 2006). Um estudo acerca de pessoas com atracção pelo mesmo sexo, atraiu os jovens, demonstrando que 44% haviam sido agredidos verbalmente e 16% tinham sido abusados fisicamente. Os participantes indicaram que o medo de preconceito ou discriminação os obrigou a que por diversas vezes, modificasse, as suas actividades diárias daqueles que modificaram as suas actividades diárias, pelo menos, algumas vezes, 13,7% fizeram-no em casa, no trabalho, 53,7% e 51,1% em contextos sociais e 42,2% com a família e quase três quartos (72,9%) em público. Especialmente inquietante é a constatação de que 90% dos sujeitos da amostra relataram que tinham, em algum momento, evitado expressões de afecto. Este simples prazer todos os dias, que é comum entre os heterossexuais, é claramente diferente e raramente demonstrado com segurança por casais do mesmo sexo (Pitts, Smith, Mitchell, & Patel, 2006). Jan Bridget, em 1996, também se debruçou sobre as questões da multi-opressão sentida pela comunidade LGBT e as possíveis consequências, a nível dos feitos internos da opressão, a autora refere que o sentimento de menor visibilidade, mais estereótipos negativos e menor aceitação, conduzem a um maior isolamento, que internamente resultará numa diminuição da auto-estima, menor confiança e assertividade, pior saúde mental, maior necessidade e consequente consumo de álcool e drogas e pior saúde no geral. A opressão é sentida em diversas dimensões: na religião, onde a homossexualidade ainda é vista como pecado: na medicina, que até há bem pouco tempo a via como uma doença; na lei, sendo que até há bem pouco tempo era crime ser gay antes dos 18/21, e era ilegal; nos mass média, que vê a homossexualidade como um entretenimento e passa uma imagem negativa e sensacionalista disso mesmo; no Ensino e Educação, pois permanece uma questão invisível, omitida do plano de estudos e com pouca informação; e por fim na própria Família, que sendo heterossexual, tem dificuldade em aceitar uma tendência diferente (Bridget, 1996). Em suma, a literatura é ainda muito escassa acerca das matérias aqui referidas, há dados contraditórios, uns que revelam que a população LGBT tem todas as condições para enfrentar o processo de envelhecimento, antecipando uma auspiciosa velhice, enquanto outros estudos revelam dados preocupantes acerca dos problemas de saúde mais acentuados nesta minoria, é por isso de extrema importância a descrição do estudo aqui desenvolvido, para tentar contrariar ou confirmar as diversas questões aqui erguidas.

9

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo 3 - APRESENTAÇÃO DO ESTUDO

3.1. OBJECTIVOS 3.1.1. OBJECTIVO GERAL O objectivo desta investigação, foi conseguir avaliar e caracterizar sócio-

demograficamente uma minoria sexual (homossexuais e bissexuais), com mais de cinquenta anos e perceber qual o ambiente psicossocial em que vivem e quais as suas necessidades de saúde, para desta forma, poder compreender como melhorar as suas condições de vida no envelhecimento, através da sugestão de mudanças que possam ser desenvolvidas nos centros de saúde, e serviços de saúde públicos. Importa referir que era objectivo do estudo abranger também os transexuais, no entanto, não foi possível por falta de amostra significativa.

3.1.2. OBJECTIVOS ESPECÍFICOS 1. Como se caracterizam demograficamente os homossexuais e bissexuais com mais de

cinquenta anos; 2. Caracterizar a sua pertença ou não a uma religião e o modo como esta aceita a sua

orientação sexual; 3. 4. Caracterizar a amostra quanto à situação habitacional; Verificar o status do relacionamento amoroso, e se não tem compreender se teve no

passado ou gostaria de ter; 5. 6. 7. Caracterizar as redes sociais que suportam o indivíduo; Perceber o estado de ânimo geral, em relação ao último ano; Caracterizar os níveis de opressão sentidos face à sociedade e aos serviços públicos a

que acedem; 8. Caracterizar a amostra quanto ao seu historial clínico e saúde física e psicológica no Verificar qual a prevalência das DST‟s nas minorias sexuais com mais de 50 anos;

presente; 9.

10. Perceber com que frequência os participantes adoptam comportamentos sexuais de risco; 11. Perceber se os sujeitos da amostra comunicam aos seus cuidadores primários, a sua orientação sexual; 12. Averiguar se existe abuso de álcool e drogas e caracterizar o consumo quanto à frequência e ao tipo de substâncias ingeridas;

10

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo 13. Compreender quais os campos mais valorizados nas suas vidas (Ex: Saúde mental, Família, Amigos, Trabalho, etc...); 14. Perceber quais as expectativas e preocupações face ao envelhecimento.

3.2. TIPO DE ESTUDO O estudo aqui apresentado classifica-se como um estudo descritivo pois tem como principal objectivo caracterizar a amostra, não permitindo qualquer tipo de relações de causa efeito, mas sim, permitindo a reflexão acerca dos seus resultados, e providencia dados que podem ser úteis para novas investigações. Caracteriza-se ainda como estudo transversal, pois a recolha da amostra é feita num único momento.

4. MÉTODO 4.1. CARACTERIZAÇÃO DA AMOSTRA Esta amostra foi constituída por 34 indivíduos, 23 do sexo masculino (4 bissexuais e 19 Homossexuais) e 11 do sexo feminino (3 Bissexuais e 8 Homossexuais), com idades compreendidas entre os 50 e os 68 anos, sendo que a idade média dos participantes é de 56,98 anos (SD 4,6). A grande maioria da amostra, 32 sujeitos, vivem no meio urbano, e apenas 2 vivem no meio rural. Quanto ao estado civil: 17 são solteiros (50%), 5 são casados (14,7%), 4 estão em União de Facto (11,8%) e 8 são divorciados (23,5%). Dado que era objectivo da investigação a caracterização Sóciodemográfica da amostra, os restantes dados que a descrevem serão apresentados nos resultados do estudo.

4.2. PROCEDIMENTO Numa fase inicial desta bolsa de investigação, dei inicio a uma abrangente pesquisa acerca das minorias sexuais mais envelhecidas, os estudos já feitos, diferentes teorias do envelhecimento e estereótipos da sociedade, tentado assim compreender quais as principais questões às quais seria importante dar resposta. Após sensivelmente três meses de pesquisa, deu-se início ao processo de desenvolvimento do questionário a utilizar. Este questionário foi desenvolvido com base em estudos já feitos acerca desta temática, tentando abranger as diversas dimensões da vida dos sujeitos. Para ser possível responder online ao questionário, este foi desenvolvido na aplicação Google Docs, de onde foram

11

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo posteriormente extraídos os dados da amostra. A sua divulgação foi feita primeiro através de um blog, que foi desenvolvido exclusivamente para este efeito, onde são explicados os objectivos do estudo (www.investigacaominorias.blogspot.com – Anexo A: Imagem do site). Nesta página era possível aceder ao questionário que foi colocado online, onde se poderia responder de forma anónima e confidencial (Anexo B – Questionário). Antes de activar o blog, efectuei um pré-teste, dado tratar-se de um questionário nunca utilizado, a 6 pessoas com idades superiores a 50 anos, pertencentes à minoria sexual em estudo, as quais responderam e comentaram as dificuldades no preenchimento do mesmo, e consequentemente o questionário foi revisto e reformulado no sentido de suprimir essas complicações. As questões éticas da investigação estiveram sempre salvaguardadas, sendo garantida aos participantes a confidencialidade e anonimato dos dados, assegurando o uso exclusivo da informação fornecida, para o estudo em causa. Após ter sido activado o blog, tornando-se visível online, fiz panfletos com um pequeno resumo do estudo e com o nome do blog, para que quem quisesse responder ao inquérito se pudesse dirigir à página. Estes panfletos (Anexo C), foram distribuídos por associações LGBT (ILGA, Ex Aequo entre outras), bares e restaurantes Gay‟s e Gay Friendly, e foram ainda deixados em locais muito frequentados na cidade de Lisboa, Castelo Branco e Covilhã. A divulgação foi ainda alargada através da criação de uma causa no facebook acerca deste estudo (Anexo D – Print Screen da causa), criei perfiles em redes sociais LGBT onde divulguei a investigação e enviei para mailling list’s. Também contactei Câmaras Municipais e Jornais Regionais e Nacionais, para a divulgação do estudo e por essa razão nomeio nos agradecimentos todos aqueles que colaboraram e divulgaram esta investigação (Anexo E – Notícia do Jornal Gazeta, Anexo F – Notícia do Diário de Notícias). Para além de toda esta divulgação, estabeleci ainda contacto pessoal com algumas pessoas desta amostra, pessoas essas que preencheram o questionário presencialmente e com as quais tive oportunidade de falar acerca das questões levantadas neste estudo. Os dados foram processados através do programa de análise estatística SPSS 17.0, e o tratamento de dados foi essencialmente descritivo, no entanto, estabeleceram-se algumas estatísticas de teste (t-student) para verificar se existiriam algumas diferenças estatisticamente significativas entre grupos. Foi ainda necessários criar algumas dimensões gerais para uma melhor leitura dos dados, e estes estão distribuídos por categorias gerais mais abrangentes.

12

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo 4.3. INSTRUMENTOS Este questionário, como já havia referido, foi construído na tentativa de responder aos objectivos a que esta investigação se propôs, para isso, foi necessário desenvolver itens que abrangessem as áreas de interesse, que são nove, com a pretensão de caracterizar a amostra: sócio-demográficamente, a nível habitacional, relacional (status do relacionamento), do seu suporte social, da opressão social, ânimo, valores religiosos, e questões de saúde, que abrangem a saúde mental, física e sexual assim como a actividade física praticada. Este questionário era inicialmente constituído por 148 itens, sendo que 2 foram retirados pois eram condicionados pelo facto de a pessoa se encontrar num lar, e como não houve respostas afirmativas por parte dos participantes, nenhum respondeu aos itens (Item 11.1.1 “Se está a viver num lar, como caracterizaria as condições que este apresenta? Item 11.1.2 Se está a viver num lar, como caracterizaria os cuidados que lhe são prestados?”). Fizeram ainda parte deste questionário algumas escalas, pré-construídas, com o intuito de melhor caracterizar a amostra a nível das suas redes sociais, do seu estado de ânimo, e do estado geral de saúde. Para esse efeito foram usadas respectivamente a escala de redes sociais de Lubben (1988), a escala de ânimo de Lawton (1973) e o SF-12 Health Survey (2002). Escala de Redes Sociais de Lubben (1988) Para medir o suporte social, foi inserida no questionário esta escala, que procura compreender com que frequência a pessoa contacta com familiares e amigos e qual o grau de intimidade que mantém com eles. Escala de ânimo de Lawton (1975) Esta escala foi inserida neste questionário para perceber qual o estado de ânimo em que a pessoa se encontra, como se tem sentido no ultimo ano e quais as suas atitudes face ao envelhecimento. É constituída por 14 itens, que de distribuem por 3 dimensões, Solidão, Atitudes face ao Envelhecimento, e Agitação. SF-12 Health Survey (2002) Na área da saúde foi incluído este questionário, com 12 itens, que pretende avaliar duas grandes dimensões, a saúde física e mental, para isso contém várias questões acerca da mobilidade e capacidade física, saúde em geral, dor sentida, vitalidade, funcionamento social, saúde mental e acerca do seu papel emocional. Por último, o questionário termina com uma questão de resposta aberta que procura perceber quais são as ideias gerais e receios que as pessoas possuem em relação ao envelhecimento.

13

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo 5. RESULTADOS DA PESQUISA 5.1. CARACTERIZAÇÃO SÓCIODEMOGRÁFICA Os resultados serão apresentados de acordo com a estrutura do questionário, e serão referidos os dados mais relevantes, dado que os restantes serão apresentados em quadros e gráficos. Os primeiros 15 itens recolhem essencialmente dados sociodemográficos, estes permitem caracterizar com algum pormenor a amostra em estudo e são apresentados

pormenorizadamente no Quadro 2. A amostra é constituída por 34 sujeitos, 23 Homens e 11 Mulheres, com idade média de 57 anos, sendo a maioria (50 %) solteiros. Efectuou-se a estatística de teste T-student, para apurar se existiram diferenças estatisticamente significativas entre os dois géneros, desta forma estabeleceram-se as seguintes hipóteses: Sendo μ o Género - H0: μ masculino = μ feminino - H1: μ masculino ≠ μ feminino Deste modo verificou-se que existem diferenças estatisticamente significativas (t (33) = 16,252, p<0,05) entre géneros, permitindo-nos rejeitar a hipótese nula e aceitar a hipótese alternativa. Estes dados são observáveis no Quadro 1, onde se verifica que o nível de significância é p= 0,000.
Quadro 1 - One-Sample Test – T-Student Test Value = 0 t Género 16,252 Df 33 p ,000 Diferença entre Médias 1,324 95% Intervalo de confiança da diferença Mais Baixo Mais Elevado 1,16 1,49

A amostra advém maioritariamente do meio urbano (94,12 %), e 44,1 % dos sujeitos afirma ter filhos. Quando questionados acerca da relação com os seus filhos, a grande maioria respondeu ser Muito Boa (60 %), e 27 % descreveu o relacionamento como Razoável, nenhum dos participantes referiu ter uma relação “Muito Má” ou “Má”, “. A quantidade de filhos varia entre 1 e 3 filhos, a moda é ter 1 filho, e a média é de 2 filhos. No que diz respeito às habilitações literárias, 50 % dos sujeitos são licenciados, sendo que destes 41,18% são homens e 8,82% são mulheres. Dos inquiridos 20% refere ter o 12º ano (11,76% homens e 8,82 mulheres) e 12 % referem ter o 3º ciclo apenas (2,8% homens, 8,82%

14

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo mulheres), os restantes dados são apresentados no Quadro 3. Quadro 2 - Caracterização Sóciodemográfica N 34 Género Masculino Freq. Absoluta 23 Idades Moda 55 Frequência Absoluta 18 6 9 1 34 Mínima Percentagem 67,6% 59 Máxima Feminino Freq. Absoluta 11 68 Percentagem 32,4% Média (Anos) Género Feminino 6 2 3 0 11 Percentagem % 50 % 14,7 % 11,8 % 23,5 % 100 % Meio Rural 2 Não Percentagem 44,1 % Máximo 3 Freq. Absoluta 19 Média 2 Percentagem 55,9% Moda 1 15 Total 4 2 9 15 27 % 13 % 60 % 100% 5,88 % Masculino 12 4 6 1 23 56,98

Distribuição das Idades 50 - 55 56 - 60 61 - 65 65 - 68 Total Estado Civil Solteiro Casado União de Facto Divorciado

Percentagem

52,9 % 17,6 % 26,5 % 2,9 % 100,0 Frequência Absoluta 17 5 4 8

Total Local de Residência N/% Tem Filhos 32

34 Meio Urbano 94,12 % Sim Freq. Absoluta 15

Se Sim, quantos filhos tem? Dos que têm filhos: Como avaliam a sua relação com eles: Razoável Boa Muito Boa Total

Mínimo 1

Responderam Afirmativamente Género Masculino 2 13 % 2 13 % 5 34 % 9 60 % Feminino 2 13 % 0 0% 4 27 % 6 40 %

15

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo No Quadro 3 é ainda possível observar a fonte de rendimentos dos participantes, e verifica-se que a grande maioria recebe salário, 61 %, sendo que destes 41,18% eram homens e 20,58% mulheres. São ainda referidos como fontes de rendimento a Reforma da Segurança Social, 18%, o subsídio de desemprego, 9%, a reforma por invalidez, 3%, e investimentos, 3%. São também observáveis os rendimentos mensais, que foram divididos por intervalos, onde se apura que a moda se localiza na categoria 2, entre 750 e 1000 euros, com 23,5% da amostra a localizar-se neste intervalo. A média dos rendimentos mensais é de 1714,7 euros, sendo que os valores variam entre 650 e 5000 euros.

Quadro 3 - Continuação da Caracterização Sociodemográfica Homens Mulheres Total Habilitações Literárias Freq. % Freq. % Freq. 3º ciclo (9º ano) 1 2,8 3 8,82 4 Ensino Secundário (12º ano) 4 11,76 3 8,82 7 Bacharelato 2 5,88 0 0 2 Licenciatura 14 41,18 3 8,82 17 Doutoramento 2 5,88 2 5,88 4 Total Fonte de Rendimentos 23 67.54 11 32,35 34

% 12 20 6 50 12 100

Género Masculino Freq. % 14 41,18 3 8,82 1 2,8 2 5,88 1 2,8 2 5,88 23 67,36 Feminino Freq. % 7 20,58 3 8,82 0 0 1 2,8 0 0 0 0 11 32,20

Emprego (Salário) Reforma da Segurança Social Reforma por invalidez Subsídio de desemprego Investimentos Outra Total Rendimentos Mensais (€) Categoria 1 Categoria 2 Categoria 3 Categoria 4 Categoria 5 Categoria 6 [ 650 – 750] ] 750 – 1000] ] 1000 – 1500] ] 1500 – 2000] ] 2000 – 2500] ] 2500 – 3000]

Total (Valor aproximado) Freq. % 21 61 6 18 1 3 3 9 1 3 2 6 34 100

Frequência Absoluta 1 8 7 4 6 2

Percentagem % 2,9 23,5 20,6 11,8 17,6 5,9

16

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Categoria 7 ] 3000 – 5000] Missing 1714,7 € Total Média Situação Profissional actual: Empregado a tempo inteiro Empregado a tempo parcial Desempregado(a) Reformado(a) Dono(a) de casa Outra Total Dos reformados: Número de Sujeitos (que responderam) Idade média com que se reformaram Não reformados: Número de Sujeitos (que responderam) Idade média com que pretendem reforma-se: 1 5 34 Sujeitos 19 1 3 8 1 2 34 Homens 5 55,75 Homens 12 57,4 2,9 14,7 100,0 Percentagem % 55,9 2,9 8,8 23,5 2,9 5,9 100,0 Mulheres 3 60 Mulheres 3 67

Ainda no campo laboral, foi possível apurar quais as profissões praticadas pelos sujeitos da amostra, ao momento do questionário ou no passado, caso já não estivessem a trabalhar, toda a informação que se segue e alguma complementar encontram-se na Quadro 4. Assim foi possível aferir que a moda centra-se no Ensino, com 23,5% dos sujeitos, seguindo-se a área da Gestão com 14,7% da amostra, e as restantes com uma prevalência que varia entre os 5,9% e os 2,9% (n=2 e n=1), distribuem-se por áreas como as Artes Plásticas (2,9%), Administrativa (5,9%), Bancos (5,9%), Ciências Sociais (2,9%), Relações Internacionais (5,9%), Saúde (2,9%) entre outras que podem ser observadas no Quadro 4. Os participantes foram ainda questionados face à sua situação profissional actual, o que permitiu aferir que 55,9% dos inquiridos trabalham a tempo inteiro, 23,5 % estão reformados e 8,8% estão desempregados. Dos reformados, os homens reformaram-se em média aos 55, enquanto as mulheres se reformaram em média aos 60. Dos que ainda não estavam reformados, muitos referiram ainda não saber a que idade se desejavam reformar, dos que responderam, os homens esperam reformar-se por volta dos 57 anos (responderam 12 homens), já as mulheres apontam para os 67 anos (apenas 3 responderam). Os dados apresentam-se no Quadro 4.

17

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Quadro 4 - Continuação da Caracterização Sociodemográfica Profissão (Actual, ou anterior à reforma) Administrativa Artes plásticas Banco Ciências Sociais Comércio Internacional (Exportações) Ensino Gestão Imobiliária Informática Jornalismo Justiça Professora Universitária e Investigadora Relações Internacionais Saúde Secretariado Segurança Têxtil Vendas Ensino Moda Total Frequência Absoluta 2 1 2 1 1 8 5 1 1 1 1 2 2 1 1 2 1 1 34 Percentagem % 5,9 2,9 5,9 2,9 2,9 23,5 14,7 2,9 2,9 2,9 2,9 5,9 5,9 2,9 2,9 5,9 2,9 2,9 100,0

Quanto à distribuição geográfica da amostra, esta concentrou-se maioritariamente em Lisboa, 41,2%, Castelo Branco 17,6%, e Porto (14,7%), as restantes localizações são apresentadas no Quadro 5.

Quadro 5 - Continuação da Caracterização Sociodemográfica Localidade Cascais Castelo Branco Coimbra Covilhã Funchal Lisboa Monção Portalegre Porto Sujeitos 1 6 1 2 1 14 1 1 5 Percentagem % 2,9 17,6 2,9 5,9 2,9 41,2 2,9 2,9 14,7

18

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Sesimbra Total 2 34 5,9 100,0

Foi ainda pedido aos sujeitos que escolhessem a melhor expressão, que os descrevesse face à sua atracção sexual, aqui importa relacionar as respostas com o género e com a orientação sexual: das 11 mulheres, 3 afirmam-se bissexuais, e 8 caracterizam-se como homossexuais. Das três primeiras, uma respondeu ter preferência pelos dois sexos igualmente, e as restantes responderam sentir-se atraídas principalmente por mulheres, houve ainda uma resposta deste tipo por parte de uma mulher que se afirmou como homossexual. As outras 7 mulheres, mencionaram que no que respeita à atracção sexual, a frase que melhor as caracteriza é “Só Mulheres”. Quanto aos homens, na mesma questão 4 afirmam ser bissexuais e os restantes 19, declaram-se como homossexuais. Dos primeiros, 1 dos bissexuais respondeu “Os dois sexos igualmente”, e os restantes 3 responderam “Principalmente Homens”. Dos sujeitos que afirmaram ser homossexuais, 17 responderam “Só Homens”, e 2 responderam “Homens Principalmente” (Quadro 6).

Quadro 6 - Atracção Sexual Atracção Sexual 1 - Principalmente mulheres 2 - Os dois sexos igualmente 3 - Homens Principalmente 4 - Só Homens 5 - Só mulheres Total 5.2 – RELIGIÃO Relativamente à questão “10”, onde se inquiria qual a religião a que os participantes pertencem, 41,2 % respondeu a Religião Católica, 2,9% respondeu ser Protestante, 11,8% referiu ser Ateu, 8,8% Agnóstico e 35,3% afirmaram não ter nenhuma religião. No item “10.1” os participantes eram questionados acerca da aceitação da religião face à sua orientação sexual, apenas 44,1 responderam, e destes, 17,6% responderam ser “Muito Má”, 17,6% responderam “Má”, e apenas 6,7 a situaram entre “Razoável” e “Muito Boa” como é possível visualizar no Quadro 7. Homens 0 1 5 17 0 23 Mulheres 3 1 0 0 7 11 Total 3 2 5 17 7 34

19

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Quadro 7 - Religião Item “10- Religião a que pertence:” Religião Nenhuma Católica Protestante Budista Judaica Islâmica Ateu Agnóstico Total Frequência Absoluta 12 14 1 0 0 0 4 3 34 Percentagem % 35,3 41,2 2,9 0 0 0 11,8 8,8 100

Item “10.1” Se pertence a alguma religião, como qualificaria a aceitação da sua orientação sexual por parte dela? Aceitação da Religião Frequência Absoluta Percentagem % Muito Má 6 17,6 Má Razoável Boa Muito Boa Missing Total 5.3 - HABITAÇÃO Nesta dimensão tentou-se caracterizar a situação habitacional em que os sujeitos vivem, se têm boas condições e se gostam da casa onde vivem. No item “11” os participantes foram inquiridos relativamente à sua “Situação Habitacional”, ao que 58,8% referiram viver com o parceiro, 38,2% assinalou viver sozinho, e 2,9% assinalou a opção “Outro” e referiu viver com mulher e filhos. Nesta questão era possível assinalar mais do que uma opção, apesar de apenas um sujeito o ter feito, assinalando a opção “Vive com parceiro” e “Vive com pais”. No que diz respeito à “Posse de Habitação”, 67,6% refere ter casa própria paga, 23,5% afirma ter casa própria a qual está a pagar, apenas 5,9% referem estar a numa habitação (privada) alugada, e apenas um sujeito seleccionou “Outro”, no qual mencionou “vivo em casa do meu pai”. Relativamente à preservação da habitação, 41,2% caracterizaram-na como “Muito Boa”, 44,1% descreveram-na como “Boa” e apenas 14,7% a descreveram como razoável. No item “11.3- Está satisfeito com a sua habitação?”, 97,1% referiram que sim, e somente 2,9% 6 1 1 1 19 34 17,6 2,9 2,9 2,9 55,9 100,0

20

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo responderam que não. Os dados são apresentados no Quadro 8.

Quadro 8 - Habitação Item 11.1 Posse de Habitação: Casa própria (paga) Casa própria (a pagar) Aluguer de habitação privada Outra Total Preservação da habitação Muito Má Má Razoável Boa Muito Boa Total Item 11.3 – Está satisfeito com a sua habitação? Sim Não Total 5.4 – RELACIONAMENTOS Nesta dimensão, pretende-se caracterizar a qualidade dos relacionamentos, compreender se têm ou não algum relacionamento afectivo e se sim a sua duração, e ainda perceber o que atrai os sujeitos na escolha de um parceiro sexual. No que diz respeito ao item “12” onde o sujeito é questionado se tem algum relacionamento significativo actualmente, 67,6% responderam sim, e 32,4% respondeu que não. Dos que responderam não, fio-lhes perguntado se gostariam de ter uma relação, ao que 81,8% responderam que sim, e apenas 18,2% responderam que não. No item “12.2- Se não possui uma relação, já teve uma no passado?”, 26,5% responderam que sim, e 5,9% responderam que não. Aos sujeitos que responderam sim no item “12.2”, foi-lhes ainda pedido, numa pergunta de resposta aberta, que referissem quantos relacionamentos já tiveram (até cinco), e que descrevessem o tempo de duração de cada uma delas. Desta questão, apurou-se que em média os relacionamentos foram de 7 anos, Frequência Absoluta 23 8 2 1 34 Frequência Absoluta 0 0 5 15 14 34 Percentagem 67,6 23,5 5,9 2,9 100,0 Percentagem % 0 0 14,7 44,1 41,2 100,0 Percentagem Acumulada 67,6 91,2 97,1 100,0 Percentagem Acumulada 0 0 14,7 58,8 100,0

Frequência Absoluta 33 1 34

Percentagem % 97,1 2,9 100,0

21

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo verificando-se, no entanto, uma grande amplitude que varia de 1 ano a 20 anos e como este item era de resposta aberta, um dos participantes revelou ainda “tenho uma relação de fachada com uma mulher, não tenho um relacionamento significativo de acordo com a minha orientação sexual”. Os participantes foram ainda inquiridos acerca do seu relacionamento actual, sendo-lhes perguntado, no item “12.3” se seria com um homem ou com uma mulher, ao que 35% responderam ter uma relação actualmente com um homem, sendo que todos os sujeitos são do sexo masculino, 32% afirmam-se homossexuais e 3% bissexuais. Dos participantes, que referiram ter uma relação actual com uma mulher (35%), 29% são do sexo feminino, e destas 20% definem-se como lésbicas e 9% como bissexuais, e os restantes 6% dizem respeito ao sexo masculino, esta informação pode ser vista de forma mais detalhada no Quadro 7. No item “12.3.1” pretendia-se averiguar se quem afirmou ter um relacionamento actualmente, vive com o seu parceiro, ao que 76% responderam que sim e 24% responderam que não. Ainda relativamente à relação actual, inquiriu-se no item “12.3.2 - Há quanto tempo mantém esse relacionamento”, ao que os participantes revelaram que a média da duração das relações em anos, é de aproximadamente 11 anos, a mediana á 12 e a moda é igualmente 12. Ainda no campo dos relacionamentos, foi perguntado aos sujeitos se desejavam formalizar a sua relação, e dos 23 sujeitos que afirmaram ter uma relação significativa, 52% responderam que sim, e 48% responderam que não. Quando questionados acerca do modo como pretendiam fazê-lo, desses 12 sujeitos, referiu ser através do Casamento (os restantes dados são apresentados no Quadro 9. Relativamente aos itens “14” e “15” que se referem ao prazer, físico e emocional respectivamente, com o mais recente parceiro sexual, no primeiro a maioria respondeu “Muito Prazeroso”, 50%, e quanto ao segundo, a maioria respondeu “Razoavelmente Satisfatória”, 41,2%, este valores podem ser vistos mais pormenorizadamente no Quadro 9. Quadro 9 - Relacionamentos Género (Participantes) Feminino Freq. 0 10 Total 10 % 0 29 29 Masculino Freq. 12 2 14 % 35 6 41

Item - 12.3 Actualmente tenho um relacionamento com: Um Homem Uma Mulher

Orientação Sexual Homossexual Freq. 11 8 18 % 32 24 69 Bissexual Freq. 1 4 5 % 3 12 15

22

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo

Item - 12.3.3 Deseja formalizar a sua relação? Sim Não Total Item - 12.3.3.1 Se sim, como deseja fazê-lo? Casamento União de Facto Outro Total

Frequência 12 11 23 10 1 1 12

Percentagem 52 % 48 % 100% 84% 8% 8% 100%

Item 14. Prazer físico com o mais recente parceiro sexual: Frequência Percentagem Percentagem Acumulada Não Prazeroso 1 2,9 2,9 Ligeiramente Prazeroso 1 2,9 5,8 Moderadamente Prazeroso 10 29,4 35,2 Muito Prazeroso 17 50,0 85,2 Extremamente Prazeroso 5 14,7 100 Total 34 100,0 Item 15. Satisfação emocional com o mais recente parceiro sexual: Percentagem Frequência Percentagem Acumulativa Nada satisfatória 0 0 0 Pouco Satisfatória 5 14,7 14,7 Razoavelmente Satisfatória 15 44,1 58,8 Muito Satisfatória 10 29,4 88,2 Completamente Satisfatória 4 11,8 100 34 100,0 Total No item “13”, questionou-se quais os factores que mais influenciavam na escolha de um parceiro sexual, o aspecto mais valorizado foi “Personalidade”, com 91% dos participantes a assinalar, seguido de “Se a pessoa é interessante”, com uma prevalência de 88%, os dados são apresentados em forma de gráfico na Figura 1. Importa referir que os participantes podiam seleccionar mais do que uma opção.

23

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Figura 1 - Factores que influenciam a escolha de um parceiro sexual

5.5 – ESCALA DE REDES SOCIAIS Nesta fase do questionário foi inserida a Escala de Redes Sociais de Lubben (1988), constituída por 6 itens, através da qual se pretende avaliar a rede de suporte dos sujeitos. As questões referiam-se à quantidade de pessoas que os indivíduos percepcionam como pertencendo à sua rede de suporte, quer na família, quer nos amigos, e face a itens como por exemplo: “17.1. Com quantos familiares contacta pelo menos uma vez por mês?”, as possibilidades de resposta variavam entre “0 = nenhum”, “dois”, “três ou quatro”, “cinco a oito”, e “nove ou mais”. Foi criada através do SPSS 17.0 uma dimensão que reunisse os 6 itens, e a conclusão a que se chegou foi que, sendo a pontuação máxima possível 30, a média esperada seria 15, desta forma analisaram-se os dados obtidos, e constatou-se que a média aritmética obtida de todos os itens foi de 17,14, o que significa que está acima da média esperada, o que revela uma boa rede de suporte social (Quadro 11). No entanto, como pareciam existir diferenças entre a dimensão da família e dos amigos, distribuíram-se então os itens por duas dimensões, a da família e a dos amigos, e compararam-se através da estatística de teste ANOVA, no seguimento do tipo de estatística desenvolvido, considerou-se importante investigar se existem diferenças estatisticamente significativas entre a dimensão da famíllia e a dimensão amigos, para α = 0,05 estabeleceramse as seguintes hipóteses: Sendo μ a escala de redes sociais da dimensão família e n a dimensão dos amigos - H0: μ dim.amigos 1 = μ dim.amigos 2 = … = µ dim.amigos n - H1: pelo menos uma das médias é diferente das demais

24

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Depois da execução da ANOVA, foi possível comprovar que não há evidências empíricas que comprovem a existência de diferenças estatisticamente significativas (F (10) = 2,810, p <0,05) entre a dimensão dos amigos e a dimensão família, uma vez que o seu nível de significância é superior a 0,05 o que implica que se aceite a hipótese nula e se rejeite a hipótese alternativa (Quadro 10). Quadro 10 - Escala de Redes Sociais, dimensão da família face à dimensão amigos
Escala de Redes Sociais F 2,810 Sig. 0,02

Foram ainda comparadas as médias entre a dimensão família (M=7,08), e a dimensão amigos (M=10,05), e tendo em conta que os valores variam entre 0 e 15, sendo a média esperada de 7,5, torna-se evidente que apesar do suporte social, na dimensão dos amigos, ser positivo, a nível da família, o suporte parece ser insuficiente. Os valores da escala de redes sociais mais significativos, são apresentados na figura 2, onde se verifica que existe ainda uma grande percentagem, cerca de 27% dos sujeitos, que afirma não contactar com nenhum familiar, ou apenas um, e cerca de 9% também afirma apenas contactar com um amigo ou não contactar com nenhum. Pretendeu-se ainda medir o nível de satisfação dos participantes com o seu suporte social, nesse sentido no item 19, foi perguntado aos sujeitos qual a satisfação com amigos, família, companheiro(a), e com as pessoas em geral, os valores variavam entre 4 e 12, sendo assim calculada a média esperada no valor 8, a média aritmética calculada foi de 8,05, o que reflecte uma satisfação moderada com a rede de suporte (Quadro12).

Figura 2 – Escala de Redes Sociais – Resultados Gerais

25

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo

Quadro 11 - Escala de Redes Sociais Valido 34 N Missing 0 Media Mediana Moda Desvio Padrão Mínimo Máximo 17,1471 17,5000 20,00 4,60653 5,00 24,00

Quadro 12 - Satisfação com o Suporte Social Valido 34 N Missing 0 Media 8,0588 Mediana 9,0000 Moda 9,00a Desvio Padrão 3,27471 Mínimo 0,00 Máximo 12,00 a. Múltiplas modas. Valor mais pequeno apresentado

Relativamente ao item 18, os participantes responderam como caracterizariam os amigos referidos na escala de redes sociais, face à sua orientação sexual, ao que a maioria respondeu “Heterossexuais e Homossexuais” (47,1%), e 26,5% respondeu “Maioritariamente Heterossexuais”, os restantes dados podem ser vistos mais detalhadamente no Quadro 13. Quadro 13 - Relativamente aos amigos que indicou, como é que os caracterizaria relativamente à sua orientação sexual? Frequência Percentagem % Acumulada Unicamente 2 5,9 % 5,9 % Heterossexuais Maioritariamente 9 26,5 % 32,4 % Heterossexuais Homossexuais e 16 47,1 % 79,4 % Heterossexuais Maioritariamente 6 17,6 % 97,1 % Homossexuais Unicamente 1 2,9 % 100,0 % Homossexuais 34 100,0 % Total Questionaram-se ainda os participantes, no item 20, se pertenciam a alguma instituição, ao que a grande maioria respondeu que não, 91,2%, dos que responderam que sim, as instituições apontadas foram a rede Ex-aequo e a Ilga, foram ainda inquiridos acerca do tipo de apoio que recebiam, onde foi referido apoio político, social e informativo, e quanto à

26

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo satisfação com esse apoio, 2,9% referiram estar muito satisfeitos, e 5,9% referiram estar razoavelmente satisfeitos. No item 21, foi pedido aos sujeitos da amostra que assinalassem (podiam assinalar mais do que uma resposta), quem sabia da sua orientação sexual, a hipótese mais seleccionada foi “Amigos mais próximos”, com 79%, seguida da opção “Irmão(s)/ Irmã(s)”, com 50%, sendo que os restantes dados são sistematizados na Figura 3.

Figura 3 - Quem sabe da sua Orientação Sexual

5.6 - OPRESSÃO SOCIAL Nesta fase do questionário a amostra foi questionada acerca das situações de opressão pelas quais já passou, de que tipo de situações de discriminação já foi vítima, com que frequência evita comportamentos que possam revelar a sua orientação sexual e onde, e solicitou-se ainda que respondessem qual o grau de conforto/desconforto dos participantes, face à sua sexualidade. Esta secção do questionário inicia-se com o item 23 que pretende averiguar, se a pessoa já sofreu algum tipo de agressão/assédio físico ou verbal devido à sua orientação sexual, ao que 47,1% responderam que sim, e os restantes responderam que não. O item 23.1, reuniu um conjunto de situações opressivas, às quais o sujeito deveria responder, sim ou não, consoante já se tivessem ou não passado consigo. Esses dados são observáveis na Figura 4, onde se visualiza que a situação mais referenciada, como já tendo ocorrido são os “Insultos pessoais ou abuso verbal”, na qual 63% referiram já ter sofrido.

27

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Figura 4 - Situações de descriminação experienciadas

Na Figura 5 é possível visualizar a frequência dos comportamentos de evitamento, no item 24, é pedido aos sujeitos que refiram se já alteraram (sim), ou não, ter comportamentos que pudessem denunciar a sua orientação sexual, nos lugares sugeridos. No gráfico apresentado na Figura 5 é possível observar estes dados, dando especial destaque para o facto de apenas em casa a percentagem de pessoas que não evita comportamentos é maior face às outras, em todas as outras situações as pessoas referem já ter evitado comportamentos que pudessem revelar a sua orientação sexual. Foi feita uma questão no sentido de tentar perceber se o medo de agressão ou discriminação fez com que a pessoa alterasse as suas actividades diárias (Item 25), ao que 44,1% referiu que sim e 55,9% que não.

Figura 5 - Comportamentos de Evitamento

28

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Nos itens 26 e 27, procurou-se perceber com que frequência os sujeitos evitavam expressões de afecto que pudessem revelar a sua orientação sexual, e com que frequência evitavam que se soubesse a sua orientação sexual respectivamente, ao que no primeiro 58,8% referiu evitar “Muitas Vezes”, 23,5% “Algumas vezes”, 11,8% “Poucas vezes”, e 5,9% referiu “Sempre”. No item 26, uma grande parte afirmou evitar “Muitas vezes” 29,4%, e em igual percentagem afirmaram evitar “Algumas vezes”, 7% assinalaram “Poucas vezes”, 17,6% afirmou fazê-lo “Sempre” e 2,9% disse “Nunca” o ter feito. Quando inquiridos acerca do grau de conforto/desconforto com a sua orientação sexual, os sujeitos da amostra referiram maioritariamente sentir-se “Totalmente Confortável” (50% dos inquiridos), e 8,8% afirmou sentir-se “Pouco confortável”. Foi também perguntado, no item 29, se alguma vez teriam feito queixa à polícia devido a algum tipo de agressão, ao qual apenas 14,7% respondeu que sim, e a estes sujeitos era ainda perguntado qual a sua concordância com a seguinte frase: “Fui tratado(a) com educação e respeito e foram tomadas as medidas apropriadas por parte da polícia.” (item 29.1), à qual dois sujeitos referiram “Discordo levemente”, e 2 “Concordo Fortemente”. Desenvolveu-se uma dimensão que incluiu diversos itens relacionados com a opressão, para assim poder considerar em que medida esta dimensão se relaciona com a variável género, fomos comparar estas variáveis através da estatística de teste de T-student, a fim de verificar se existem diferenças significativas entre o género masculino e o género feminino, no que diz respeito à Opressão, considerando um α = 0,05 formulamos as seguintes hipóteses: Sendo μ a Opressão sentida - H0: μ masculino = μ feminino - H1: μ masculino ≠ μ feminino

Deste modo verificamos que existem diferenças estatisticamente significativas (t (32) = 2,162, p<0,05) entre o género masculino e o género feminino, o que nos permite rejeitar a hipótese nula e aceitar a hipótese alternativa. Para melhor compreender os dados apresentados no Quadro 14, importa referir que os valores variavam entre 15 e 30, sendo que o valor mais baixo significava ter passado por muitas situações de descriminação, e o valor mais alto o oposto.

29

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Quadro 14 - Opressão sentida e a diferença entre os géneros
Sexo Opressão Masculino Feminino N 23 11 M 27,0870 25,0000 DP 2,72885 2,162 2,40832 0.038 t p

5.7. ESCALA DE ÂNIMO Esta escala é constituída por 14 itens como anteriormente referido, os quais se distribuem por 3 dimensões, a da Solidão/ Insatisfação, a das Atitudes face ao envelhecimento e da Agitação. Na dimensão da Solidão, verificou-se que como esta tinha 5 itens, a pontuação obtida podia variar entre 5 a 10, sendo que mais perto de 5 era significado de solidão, e quanto mais perto de 10, menor o grau de solidão, face à média de respostas, que foi de M=8,79, pode afirmar-se que no geral a amostra não revela muitos sentimentos de solidão (Quadro 13). Nesta dimensão utilizou-se ainda a estatística de teste T-student, para verificar se nesta dimensão existem diferenças significativas face ao género, o que não se verificou (t (32) = -0,109 , p = 0,914 >0,05), desta forma aceita-se a hipótese nula (H0: μ masculino = μ feminino), e rejeita-se a hipótese alternativa (H1: μ masculino ≠ μ feminino). A dimensão das Atitudes face ao envelhecimento, é constituída por 5 itens pelo que os valores são semelhantes à primeira, variando entre 5 e 10, sendo o valor intermédio 7,5, acima do qual as atitudes são positivas, e abaixo deste são negativas, o valor médio obtido foi de 7,3, o que significa que as atitudes face ao envelhecimento são maioritariamente negativas (esta situação reflecte-se através dos itens 30.8, 30.9, 30.10, 30.11 e 31.12, ex: “30.8 As coisas pioram conforme envelheço), estes valores são observáveis no Quadro 15. Ainda nesta dimensão usou-se a estatística de teste T-student, para apurar se nesta dimensão, existem diferenças estatisticamente significativas face ao género, o que não se verificou (t (32) = 1,963, p = 0,058 > 0,05), assim aceita-se a hipótese nula (H0: μ masculino = μ
feminino),

e rejeita-se a hipótese alternativa (H1: μ

masculino

≠ μ

feminino).

No entanto, quando

comparadas as médias, foi possível ver que o sexo feminino (M=6,63) se situa mais abaixo que o masculino (M=7,65), aludindo para atitudes mais negativas face ao envelhecimento, por parte das mulheres (Quadro 16).

30

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Quadro 15 - Escala de Ânimo SOLIDÃO N Média Mediana Moda Desvio Padrão Mínimo Máximo Valido Missing 34 0 8,9706 9,0000 9,00 1,08670 5,00 10,00 Quadro 16 - Escala de Ânimo ATITUDES FACE AO ENVELHECIMENTO N Valido 34 Missing 0 Média 7,3235 Média Homens 7,6522 Média Mulheres 6,6364 Mediana 7,0000 Moda 7,00 Desvio Padrão 1,47135 Mínimo 5,00 Máximo 10,00

Por ultimo na categoria da Agitação, constituída por 4 itens, que variam entre os valores 4 e 8, sendo o valor intermédio 6, foi possível calcular a média aritmética, que foi de 6,73, o que significa que não há elevados níveis de Agitação (Quadro17).

Quadro 17 - Escala de Ânimo AGITAÇÃO Valido Missing 34 0 6,7353 7,0000 8,00 1,13642 4,00 8,00

N

Média Mediana Moda Desvio Padrão Mínimo Máximo

Foi ainda desenvolvida a estatística de teste T-student, para averiguar se existiriam diferenças estatisticamente significativas nesta dimensão, face ao género, o que não se verificou (t (32) = 0,668, p = 0,509 >0,05), o que significa que aceita-se a hipótese nula (H0: μ masculino = μ feminino), e rejeita-se a hipótese alternativa (H1: μ masculino ≠ μ feminino). 5.8. SAÚDE No que toca à saúde, quando questionados acerca do seu estado geral, a maioria caracteriza-o como “Bom” (53,3%), cerca de 26,5% como “Muito boa”, 11,8% como “Fraca”,

31

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo e 5,9% como “Excelente”. No entanto, verifica-se a prevalência de algumas doenças, especificamente, 26,4% revela ter o colesterol elevado, 23,1% já lhes foi diagnosticada uma depressão, e 16,5% têm asma (na Figura 6, é possível observar a incidência das várias doenças). Utilizou-se o SF-12 Health Survey (2002), para melhor caracterizar o estado da saúde mental e física, este divide-se em diversas áreas: Mobilidade e Dor, inseridas na saúde física, e bem-estar psicológico e emocional, para avaliar a saúde mental. Figura 6 - Prevalência de diversas doenças na amostra

Na mobilidade, a grande maioria refere que a sua saúde não os limita nada, nas suas actividades diárias (70,6%), enquanto 17,6% referem limitar um pouco, e apenas 2,9% referem limitar bastante (Itens 31.2 e 31.3). Quando inquiridos acerca da dor interferir ou não com o seu trabalho normal e/ou actividades diárias, a maioria referiu não interferir nada (55,9%), enquanto apenas 26,5% referiram interferir um pouco, 8,8% moderadamente, 5,9% bastante, e apenas 2,9% referiu interferir extremamente. Na vertente mais da saúde mental, perguntou-se aos participantes se teriam tido algum problema com o trabalho, na medida em que não o executaram tão cuidadosamente como é costume, ou a nível daquilo que

32

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo alcançaram, se sentiram que alcançaram menos do que gostariam, como resultado de problemas emocionais (devido a sentir-se deprimido ou ansioso), ao que 72,05% responderam que não, e apenas 27,95% responderam que sim. Pretendeu-se ainda averiguar, a maneira como os participantes se teriam sentido no último mês, ao que lhes foi perguntado: se se teriam sentido calmos e pacíficos, ao que a maioria respondeu “A maior parte do tempo” 41,2%, e 35,3% respondeu “Algum tempo”; questionou-se ainda se se sentiram com muita energia, ao que 41,2% respondeu “A maior parte do tempo” e 26,5% referiram “Uma pequena parte do tempo”; e ainda se se sentiram em baixo ou tristes, ao que 47,1% referiu “Uma pequena parte do tempo”, 32,4% “Algum tempo”, e 17,6% respondeu “Em nenhuma altura”. Inquiriram-se os participantes acerca de quem trataria de si se doentes, ao que a grande maioria referiu ser o parceiro 41,2%, e 14,7% apontaram amigos heterossexuais como cuidadores, os restantes dados são apresentados no quadro 18.

Quadro 18 - Item 32. Quem trataria de si se doente? Frequência Amigos LGBT Amigos Heterossexuais Família Biológica Parceiro Ex-Parceiro Outro Total 2 5 4 14 5 4 34 Percentagem % 5,9 14,7 11,8 41,2 14,7 11,8 100,0 Percentagem Acumulativa 5,9 20,6 32,4 73,5 88,2 100,0

No item 33, foi perguntado onde o sujeito esperaria viver se não conseguisse viver sozinho, ao que uma grande parte respondeu em lar com assistência, cerca de 26,5%, e a mesma percentagem respondeu com amigos, os resultados surgem no Quadro 19. Questionouse ainda se os participantes possuíam alguma limitação física, ao que apenas 5,9% referiram que sim, ao que os restantes responderam não. Quadro 19 - Item 33. Se não conseguisse viver sozinho onde esperaria viver? Frequência Comunidade de reformados Lar com assistência 3 9 Percentagem % 8,8 26,5 Percentagem Acumulativa 8,8 35,3

33

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Com Familiares Com Parceiro Com amigos Outro Total 6 9 5 2 34 17,6 26,5 14,7 5,9 100,0 52,9 79,4 94,1 100,0

Tentou-se perceber, com que frequência os sujeitos da amostra fazem rastreios e/ou Check up‟s, ao que a grande maioria respondeu “Sim, faço Rastreios e Check Ups” 41,2% e uma menor parte respondeu “Não costumo fazer” 20,6% (Quadro 20)

Quadro 20 - Item 37. Faz Check Ups e/ou rastreios Regularmente? Frequência Sim, faço só Check Ups Sim, faço só Rastreios Sim, faço Rastreios e Check Ups Não costumo fazer Nunca fiz nenhum Total 11 1 14 7 1 34 Percentagem % 32,4 2,9 41,2 20,6 2,9 100,0 Percentagem Acumulada 32,4 35,3 76,5 97,1 100,0

A nível da saúde torna-se relevante verificar que 38,2% declararam ter algum tipo de disfunção sexual (16,7% disfunção eréctil e 12% ejaculação retardada) e a 76,7% dos participantes já lhes foi diagnosticada alguma DST (na Figura 7 é mostrada a prevalência das doenças sexualmente transmissíveis na amostra, os participantes apontaram todas aquelas que já lhes foram diagnosticadas ao longo da vida, podendo seleccionar mais do que uma).

34

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo

Figura 7 - DST‟S Diagnosticadas ao longo da vida

Quando questionados acerca do conhecimento por parte do seu médico de família acerca da sua orientação sexual, 43,3% responderam que este não sabe, e 10% responderam que talvez saiba. Inquiriram-se os sujeitos quanto à procura, nos últimos meses, de diversas especialidades de saúde, ao que 65% referiram ter ido ao dentista, 53% ao médico de família e 26% às urgências hospitalares, como se pode observar na Figura 8. Figura 8 - Serviços procurados nos últimos meses

35

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Ainda no seguimento destas questões, no item 41, questionou-se se a pessoa teria ido a algum psiquiatra ou psicólogo nos últimos 5 anos, ao que 35,3% respondeu “Sim, fui ao Psicólogo”, e 52,9% respondeu “Não fui a nenhum deles”, e 11,8% respondeu “Sim, fui ao Psiquiatra”. Os que consultaram esses serviços, foram questionados acerca da razão que os levou a procurá-los, ao que 75% referiu ser devido a “Depressão/Ansiedade”, 31% devido a “Problemas Familiares”, 25% por “Perda/ Luto”, 19% devido ao término de uma relação, 6% para “Aumentar a sua auto-compreensão” e a mesma percentagem devido à “Identidade/ Orientação sexual (Item 41.1). Foi ainda perguntado se alguma vez tiveram uma experiência negativa em serviços de saúde face à sua orientação sexual, ao que 23% responderam que sim e os restantes responderam não. Relativamente ao item 43, procurou-se perceber se os sujeitos fazem algum tipo de actividade física com regularidade, ao que 61,8% respondeu que sim, em seguida questionou-se quais as actividades físicas que faziam com regularidade (os sujeitos podiam seleccionar mais do que uma), 62% referiu fazer “Passeios”, 26% “Jardinagem”, 12% mencionou “Dança”, e na mesma percentagem surge a “Hidroginástica”, o Ginásio e a Natação, numa minoria surge o “Desporto” com 6% e a Aeróbica, também com 6%. Quanto ao item 45 onde se questionavam os pacientes acerca da presença de uma doença crónica, 20,6% respondeu que sim. Perguntou-se aos participantes se estariam a tomar algum tipo de medicação ao que 52,9% respondeu que sim, sendo que o medicamento mais prevalente foi o cipratex, com 25% e medicamentos para o colesterol 31 %, descreveram ainda medicamentos para a prostata, diabetes e asma. Relativamente ao item 47, procurou saber-se qual a frequência com que os sujeitos da amostra têm relações sexuais, ao que a maioria, 47,1%, referiu ter “1-3 vezes por semana” (os restantes dados encontram-se no Quadro 21). Quadro 21 - Item 47. Com que frequência tem relações sexuais? Frequência 4-6 vezes por semana 1-3 vezes por semana Mensalmente Anualmente Ocasionalmente Não Sei Total 3 16 4 1 6 4 34 Percentagem % 8,8 47,1 11,8 2,9 17,6 11,8 100,0 Percentagem Acumulada 8,8 55,9 67,6 70,6 88,2 100,0

36

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo O item 49, procurou saber se a pessoa já pagou para ter sexo, ao que 23,5% responderam que sim e 76,5% responderam não, e à questão “Já foi pago para ter sexo”, 2,9% responderam que sim, sendo que os restantes responderam que não. Diversas questões remeteram para a protecção aquando do acto sexual, percebeu-se que o género feminino não utiliza qualquer protecção sexual, e o sexo masculino utiliza o preservativo masculino (apenas 2,9 % do sexo masculino referiu não utilizar nenhum). Quando questionados acerca da frequência com que fazem sexo desprotegido, 47% revela fazê-lo “Com pouca frequência” (só do sexo masculino), 17,6% afirma fazê-lo “Com bastante frequência” (só do sexo feminino), 14,7% referem fazê-lo “Sempre” (destes 11,8% são do sexo feminino, e apenas 2,9% do sexo masculino) e 20,6% diz “Nunca” o fazer (17,4 % são do sexo masculino). No que toca ao consumo de drogas, inquiriu-se se já alguma vez teriam consumido drogas ilegais, ao que 52,9% respondeu que sim, e 41,2% referiu que não. Quando lhes foi perguntado se teriam consumido drogas nos últimos 3 meses, 55,9% respondeu que não, e 44,1% afirmou que sim. Em seguida pedia-se às pessoas que tivessem respondido sim, que seleccionassem todas as que haviam consumido, e destes 53,3% referem consumir Haxixe, % 66,7% fumam tabaco e 86,7% consomem álcool. Foi-lhes ainda questionado, quantas vezes ao dia consumiam drogas, ao que 29,4% responderam ocasionalmente, 11,8% referiram várias vezes ao dia e os restantes dados podem ser vistos no Quadro 22.

Quadro 22 - Item 54.1.1 Com que frequência consome drogas? Frequência 13 4 2 2 3 10 34 Percentagem 38,2 % 11,8 % 5,9 % 5,9 % 8,8 % 29,4 % 100,0 % % Acumulada 38,2 50,0 55,9 61,8 70,6 100,0

Várias vezes ao dia Uma vez por dia 1-5 vezes por semana 1-5 vezes por mês Ocasionalmente Total

Procurou-se ainda avaliar qual a acessibilidade a cuidados de saúde, pelo que 47,1% caracterizaram o seu acesso a estes cuidados como difícil, 35,3% como fácil, 14,7% como muito fácil, e apenas 2,9% como muito difícil.

37

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo 5.9. AS MELHORES COISAS DA VIDA Apesar de ser importante compreender a qualidade de vida da população LGBT, considerámos ainda mais relevante perceber quais as melhores coisas da vida para eles, que podem proporcionar um maior bem-estar, assim foi apresentada aos sujeitos uma listagem onde deveriam seleccionar as 3 melhores coisas da vida, no entanto, a grande maioria dos participantes seleccionou mais do que 3, e o que se verificou foi que o “Relacionamento” é o mais valorizado por 56% das pessoas inquiridas assim como os “Amigos”, e 53% valorizam a “Família”. Na Figura 9 pode observar-se as coisas mais valorizadas pelos sujeitos da amostra. Figura 9 – As melhoras coisas da vida

5.10. PREOCUPAÇÕES COM O ENVELHECIMENTO Na última questão, que era de resposta aberta, sobre quais são os maiores receios da pessoa quando pensa no seu envelhecimento, as respostas mais predominantes foram o medo da solidão (38,2%), o medo de não poder manter a sua identidade, que foi inserido na categoria de “Manutenção”, cuja percentagem de respostas foi de 5,9%, e o receio de caso tenham de ir para um lar, serem afastados dos seus companheiros, respostas estas que foram inseridos na categoria de discriminação, que constitui 23,5% das preocupações da amostra. As restantes preocupações referidas, foram inseridas em categorias mais abrangentes que são listadas no Quadro 23 assim como as suas percentagens de resposta.

38

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Quadro 23 - Preocupações com o Envelhecimento Frequência Discriminação Solidão Manutenção da Identidade Razões Económicas Interesse Sexual Saúde Relacionamento Total 6 8 13 2 1 1 2 1 34 Percentagem Percentagem % Acumulada 17,6 17,6 23,5 41,2 38,2 79,4 5,9 85,3 2,9 88,2 2,9 91,2 5,9 97,1 2,9 100,0 100,0

6. DISCUSSÃO DE RESULTADOS A estrutura da discussão de resultados decorrerá de acordo com os objectivos específicos propostos na realização do estudo. È importante compreender que a amostra recolhida é muito pequena, pelo que os resultados não são representativos da população LGBT com mais de 50 anos, apesar de ser esse o objectivo inicial, no entanto, os resultados retirados desta amostra poderão ser importantes para futuras pesquisas mais abrangentes, que consigam reunir uma amostra representativa desta população. No que diz respeito ao primeiro objectivo, no qual me propunha a caracterizar demograficamente os homossexuais e bissexuais com mais de 50 anos, foi um objectivo conseguido, dentro da amostra possível, que foi constituída por 34 sujeitos, 23 Homens e 11 Mulheres, com idade média de 57 anos, sendo a maioria solteiros, alguns casados e uma quarta parte divorciados. Foi possível verificar que existem diferenças estatisticamente significativas entre os dois géneros (p=0,000), sendo estas diferenças posteriormente relacionadas com áreas específicas. Apurou-se ainda que a amostra habita maioritariamente em meio urbano, o que pode dever-se ao facto da divulgação ter sido feita maioritariamente em grandes centros urbanos e através de meios electrónicos como a internet, aos quais o acesso é mais facilitado nas cidades. Verificou-se ainda que 44,1 % dos sujeitos afirma ter filhos, em média 2, o que provavelmente se deve a relações anteriores, ou comportamentos sexuais em desacordo com a sua presente orientação sexual (no caso dos homossexuais, que representam a maioria), nalgumas questões de resposta aberta alguns sujeitos referiram

39

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo manter relações de fachada para encobrir a sua orientação sexual, outros referem já ter tido relações heterossexuais no passado. No respeitante às habilitações literárias, metade dos sujeitos são licenciados, o que revela ser uma amostra muito específica e invulgar, mas que vem confirmar outros estudos, que referem que as minorias sexuais geralmente apresentam um grau académico mais elevado do que a população normativa (Bridget, 2002) sendo que dos restantes inquiridos um quinto refere ainda ter o 12º ano e apenas 12 % referem ter unicamente o 3º ciclo. Foi ainda possível verificar qual a fonte de rendimentos dos participantes, sendo que a grande maioria está a receber salário, sendo a média dos rendimentos mensais do participantes de 1714,7 euros, os valores variam entre 650 e 5000 euros, o que vai ao encontro de estudos mais recentes que revelam que os seus rendimentos são médios/ superiores (Baumgartner, 2007). Estes elevados rendimentos podem igualmente dever-se, como supra referido, ao modo como este estudo foi divulgado, tendo este questionário chegado apenas ao estrato social médio/elevado e também ao facto da amostra ser muito reduzida (Baumgartner, 2007; Bridget, 1998; Pitts et all, 2006). Constatou-se ainda que 23,5% dos sujeitos são reformados, o que ocorreu em média aos 56 anos no homem, e aos 60 nas mulheres, e dos que não estão reformados e responderam (apenas 38,23%), os homens pensam reformar-se aos 57, e as mulheres pensam reformar-se aos 67, mas o que é de facto significativo é que 53% da amostra, ou não respondeu ou afirmou ainda não ter pensado nisso, o que vai ao encontro de alguns resultados considerados alarmantes, referidos noutros países, que referem que um dos problemas na velhice destas minorias, é precisamente o facto de a sua reforma não ser preparada e projectada para que a pessoa saiba depois enfrentar esta fase de mudança (Baumgartner, 2007; Bridget, 1998; Pitts et all, 2006). No que diz respeito à distribuição geográfica da amostra, esta concentrou-se maioritariamente em Lisboa, Castelo Branco, e Porto. Quanto à orientação sexual, 79,4 % caracterizam-se como Homossexuais e os restantes como bissexuais. No segundo objectivo, pretende-se caracterizar a pertença a uma religião e a sua subsequente aceitação ou oposição, desta forma, na amostra caracterizada foi possível averiguar que 41,2% são católicos, 2,9% protestantes, e os restantes não se identificam com nenhuma religião. Dos que pertencem a uma religião, a grande maioria revela que a aceitação da sua orientação sexual por parte desta é Má (40%), ou “Muito Má” (40%), o que vai ao encontro dos resultados de vários estudos, que consideram a questão da religião muito importante ao longo da vida e envelhecimento desta população, pois tanto pode funcionar como factor protector, quando a aceitação por parte desta é boa, ou de risco quando a sua

40

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo aceitação é má, que é o que parece acontecer com maior frequência. Esta é uma questão delicada que deve ser trabalhada com estas pessoas, pois estudos revelam que os preconceitos mais internalizados, e que criam maior homofobia internalizada, e prejudicam o autoconceito, advêm da religião, pois têm conceptualizações muito rígidas, e as pessoas mais religiosas acabam por reprimir os seus sentimentos ou comportamentos “pecaminosos”, ou sentem-se simplesmente culpadas pelas suas acções (Mott, 2000; Berger & Kelly, 1996). O terceiro objectivo, pretendia caracterizar a situação habitacional da amostra, o que se conseguiu apurar foi que a maioria dos sujeitos (68%) tem casa paga, mais de metade vive com seus parceiros, a maior parte considera a preservação da habitação “Muito Boa” ou “Boa”, e no geral os sujeitos estão satisfeitos com a sua habitação. No quarto objectivo fala-se do status do relacionamento, neste estudo verificou-se que mais de metade dos inquiridos estão num relacionamento, que dura à mais de 5 anos (havendo poucas excepções), o que vem contrariar um pouco a ideia de que os relacionamentos homossexuais são instáveis e promíscuos, sendo defendido por diversos autores que estes relacionamentos são, em termos gerais, iguais aos heterossexuais, devendo por isso usufruir dos mesmos direitos (Supreme Court of the State of California, 2007). Foi ainda perguntado, ao que têm uma relação, se desejam formalizá-la, ao que metade respondeu que sim, optando a maioria pelo casamento, e uma pequena parte pela união de facto. No que respeita às redes sociais os resultados foram melhores do que o esperado. Respondendo ao objectivo 5, em média os sujeitos contactam com três ou quatro amigos, ou mais, o que esta acima da média esperada, já no caso da familia o mesmo não se verifica, de modo que os dados se situam abaixo da media esperada, o que indica uma fraca rede social pelo lado familiar, o que pode ser um factor de risco para a doença mental e o isolamento social. Quanto ao estado de ânimo, que é representado por três dimensões, verificou-se que na dimensão “Solidão” e “Agitação”, os sujeitos da amostra revelam níveis positivos de ânimo, já na dimensão das atitudes face ao envelhecimento, foi possivel verificar que se situa abaixo do valor médio, o que indica atitudes negativas face ao envelhecimento, verificando-se valores mais baixos no género feminino (deu-se assim resposta ao objectivo 6). Este estudo propunha-se a avaliar os niveis de opressão sentidos pela amostra apurando que tipo de situações de discriminação ainda acontecem no dia-a-dia dos participantes, com que frequência evitam comportamentos que possam revelar a sua orientação sexual e onde. Constatou-se que praticamente metade da amostra já sofreu algum tipo de agressão/assédio

41

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo físico ou verbal devido à sua orientação sexual, a situação mais referenciada são os “Insultos pessoais ou abuso verbal”, na qual 63% referiram já ter sofrido. Foi ainda possível visualizar a frequência dos comportamentos de evitamento dos sujeitos, e esta é alarmante pois só em casa existem mais sujeitos a referir que não ocultam qualquer tipo de comportamentos, pois em todos os outros locais: trabalho, serviços públicos, serviços de saúde, locais públicos, ou locais onde esteja presente, algum familiar, a percentagem de indivíduos que evitam comportamentos que possam revelar a sua orientação sexual, é sempre superior aos restantes. Estes dados são interessantes pois parecem estar relacionados com o facto de na dimensão relativa à opressão sentida, os níveis apresentados serem baixos, ao contrario do que seria espectável, o que revela existirem poucos comportamentos opressivos por parte do meio em que os sujeitos vivem, no entanto, tal pode dever-se ao facto destas pessoas não assumirem ou demonstrarem a sua orientação sexual, como sustentam os dados relativos ao evitamento, o que é também sinal de isolamento social. O que se torna relevante retirar destes resultados, que vão ao encontro de outros estudos feitos noutros países, é que se torna imperativo relembrar às empresas empregadoras, e aos funcionários dos vários serviços, de que todos têm a obrigação de promover uma politica de anti-discriminação, através do fornecimento de mais informação e palestras educativas, acerca das consequências deste tipo de comportamentos, e das razões que os tornam injustificáveis (Pitts et all, 2006). Assim será possível criar ambientes mais favoráveis ao come out, consequentemente a diminuição do stress latente e de outros problemas de saúde mental, advindos da repressão de certas condutas/sentimentos (Bridget, 1998; Pitts et all, 2006). Os objectivos ulteriores focam-se em questões relacionadas com a saúde, neste campo os resultados mais importantes a reter são que a amostra caracteriza a sua saúde maioritariamente como boa, muito boa e até excelente, sendo que apenas uma ínfima parte a descreve como fraca, ainda assim, tal como outros estudos já haviam alertado, existe grande prevalência de doenças como o colesterol elevado, a asma, a doença cardíaco, e a nível da doença mental, uma boa parte dos sujeitos da amostra já sofreu alguma depressão, e/ou tem problemas de ansiedade. Percebeu-se ainda que uma boa parte dos sujeitos, espera que o seu parceiro trate de si se doente, os restantes confiam em amigos para isso, e esperam vir a viver num lar caso não consigam viver sozinho, com o parceiro, ou na casa de familiares. No que diz respeito aos comportamentos de prevenção da doença, foi positivo constatar que a grande maioria faz check ups e rastreios, ou só check ups, o que pode ser um factor protector na contracção de algumas doenças (Musingarimi, 2008b). Por outro lado, considera-se alarmante

42

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo o historial de DSTS apresentado pela amostra, que podem ser mais um reflexo da falta de informação e do meio ambiente societal em que se desenvolveram estes sujeitos, onde havia grande discriminação e por isso maior constrangimento para falar sobre assuntos relacionados com a sexualidade (Bridget, 2002). Quanto ao conhecimento da sua orientação sexual por parte do cuidador de saúde primário, a maioria respondeu que este sabia, mas houve ainda uma proporção significativa (43,3%), que revelou não contar ao seu médico, e como a literatura referiu anteriormente, este facto pode significar um atendimento menos adequado, ou um caminho mais longo para chegar a um diagnóstico, devido à omissão de dados (Musingarimi, 2008b). Apesar de em número mais reduzido, alguns participantes do estudo revelaram ter sentido discriminação em serviços de saúde por parte do pessoal técnico e enfermeiros essencialmente, o que mais uma vez vem alertar para a necessidade da psicoeducação nestes locais de trabalho, e ainda promover um esforço conjunto com os médicos e assistentes, para que cada vez mais as consultas procurem promover um ambiente favorável ao coming out, e que os diversos profissionais saibam reconhecer as particularidades de uma minoria sexual envelhecida. No que toca aos comportamentos

sexuais de risco os dados obtidos situaram-nos abaixo do esperado, apontando para uma crescente percepção dos perigos deste tipo de comportamentos. Há ainda dados que corroboram o consumo de substancia ilícitas, mas que nesta amostra se resumem ao haxixe, e de resto verifica-se o consumo de álcool e tabaco, ainda assim, os consumos excessivos destas substâncias, podem ser predisponente para o desenvolvimento de diversas doenças graves, como o cancro, problemas gastrointestinais, úlceras, entre outros (Bridget, 1996, 2002) Verificou-se pelos resultados, que esta população é ainda fortemente estigmatizada, e como outros estudo já haviam revelado parece haver um conjunto de factores, como o isolamento social, comportamentos de risco, constante stress devido à opressão social, que poderão torná-la mais vulnerável no envelhecimento, pelo que seria importante dar mais atenção a esta minoria, que parece ainda ser um pouco negligenciada nos serviços de saúde, na medida em que as campanhas de prevenção que são feitas raramente são direccionadas para estas pessoas, o que talvez seja uma questão a pensar, para assim poder melhorar a sua qualidade de vida no envelhecimento. Conclui-se ainda que as melhores coisas da vida para estes sujeitos são o Relacionamento, a Família e os Amigos, dados que podem ser importantes na promoção e desenvolvimento de campanhas informativas, que envolvam as pessoas que pertencem ao seu meio social, para

43

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo assim proporcionar uma melhor qualidade de vida aos idosos LGBT. A ultima questão procurava perceber quais as expectativas e preocupações face ao envelhecimento, onde foi possível apurar que os principais medos, remetem para a solidão, a separação dos seus/suas companheiros(as), caso eventualmente tenham de ir para um lar, medo na discriminação por parte dos funcionários e utentes dessas instituições, medos que parecem ser sustentados por alguns utentes que já passaram por situações de preconceito e discriminação face à sua orientação sexual. Para que este ciclo não se perpetue no tempo, é imperativo que se tomem medidas, nomeadamente, proteger os utentes com leis que os protejam da discriminação, e formam os técnicos que com eles lidam, para que percebam as suas particularidades, e abandonem os comportamentos heterossexistas e homofóbicos que se perpetuam, geralmente por falta de informação ou falsas crenças acerca da origem da homossexualidade

7. LIMITAÇÕES DO ESTUDO, REFLEXÃO E SUGESTÕES PARA PESQUISAS FUTURAS As principais limitações deste estudo foram sem dúvida: a dificuldade em encontrar a amostra em estudo; a pouca colaboração de algumas instituições ligadas à população LGBT; o facto de ser uma população mais envelhecida fez com que os meios utilizados fossem ineficazes na divulgação do estudo; e ainda o facto de eu possuir pouca experiencia, que fui adquirindo ao longo do trabalho efectuado para esta investigação, mas que por vezes me conduziu a alguns impasses que me foram difíceis de resolver. Apesar de tudo e tendo em conta que não existia nenhum estudo feito em Portugal com esta amostra especifico, considero que é um bom contributo, e espero que consiga despoletar o interesse e curiosidade de outros investigadores, que queiram chegar mais além. Neste estudo, contactei com imensas pessoas da população LGBT, que me falaram das dificuldades que ultrapassaram para poder assumir a sua identidade sexual, de como a homossexualidade era vista, numa altura de repressão e ditadura, como a que vivam antes do 25 de Abril, e falaram ainda do rompimento dos laços com alguns dos seus familiares mais queridos que foram incapazes de aceitar as suas escolhas. Foi por isso um enorme ganho a nível pessoal, ter oportunidade de contactar com pessoas de outra geração e com uma diferente orientação sexual, e poder ainda perceber todas as implicações que isso lhes provocou na vida. Quanto às sugestões para futuros estudos, considero que seria importante conseguir uma amostra maior, se possível que fosse representativa da população LGBT com mais de 50 anos,

44

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo para permitir tirar resultados mais conclusivos, pois esta amostra foi de conveniência e a selecção das pessoas não ocorreu de forma aleatória, mas apesar da pequena amostra conseguida, penso que os resultados são suficientemente relevantes, para alertar para a necessidade de planos educativos, que formem os profissionais de saúde e as entidades empregadoras para que criem ambientes mais favoráveis a estas pessoas. Sugiro ainda que se tente aprofundar as questões da saúde mental, do stress sentido, do auto-conceito e noção de auto-eficácia sentida por estas pessoas, para melhor compreender até que ponto conseguirão lidar com o envelhecimento. Seria ainda interessante conseguir uma maior variabilidade na amostra, reunir mais bissexuais e incluir os transexuais, para compreender se estes se diferenciam ou não dos restantes. Por fim, considero que uma tentativa de aproximação e sensibilização junto aos lares, acerca das questões da sexualidade na velhice, e da identidade sexual de cada utente, seria bastante útil, pois com a colaboração dos lares, poderia haver uma percepção mais clara de como de facto esta minoria enfrenta o envelhecimento.

45

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Aplication for Leave to File Brief Amici Curiae in Support of Parties Changelling the Marriage Exclusion, S147999 (Supreme Court of the State of California, 26 de Dezembro de 2007). Baumgartner, T. C. (2007). Aging And Sexual Minorities: Exploring The Health And Psychosocial Issues Of Older Lesbian, Gay, Bisexual And Transgender (Lgbt) Individuals. Pittsburgh: University of Pittsburgh. Berger, R. M. e Kelly J. J., (1996) Gay men and Lesbians grown older. In R.P Cabaj and T.S. Stein (Eds). Textbook of Homosexuality and Mental Health. Washington D.C: American Psychiatric Press. Bridget, J. (2002). Lesbians, Gays and Mental Health. Overview For Workshop At Age Concern Conference, Londres, 30 de Abril de 2002, pp. 1-8. Bridget, J. (1996). Lesbian Information Service. Obtido em 17 de Agosto de 2010, de http://www.lesbianinformationservice.org/mof.htm. Cascais, A.F., Santos, A.C., Amaral. A.L., Barreira, C., Rayner, F., Moita, G., Pereira, H., Leal, I., Menezes, I., Mourão, J.A., Vale de Almeida, M., Carneiro, N., Levy, T. e Tavares, T.C. (2004) Indisciplinar a Teoria - Estudos Gays, Lésbicas e Queer. Lisboa, Fenda. Ceará, A. d., & Dalgalarrondo, P. (2010). Transtornos mentais, qualidade de vida e identidade em homossexuais na maturidade. Revista Psiquiátrica Clínica, 37 (3), pp. 118-23. Davison, G. C. (Maio de 2001). Conceptual and Ethical lssues in Therapy for the Psychological Problems of Gay Men, Lesbians, and Bissexual. JCLP/ln Session: Psychotherapy In Practice , 57 (5), pp. 695-704. Fonseca, A. M. (2005). Desenvolvimento Humano e Envelhecimento. Lisboa: Climepsi. Gruskin, E. P., & Gordon, N. (2006). Gay/Lesbian sexual orientation increases risk for cigarette smoking and heavy drinking among members of a large Northern California health plan. BMC Public Health, pp. 6-241. Iwasaki, Y., & Ristock, J. L. (September de 2007). The nature of stress experienced by lesbians and gay men. Anxiety, Stress, & Coping, 20 (3), pp. 299-319. Johnson, M.J., Jackson, N.C., Arnette, J.K., & Koffman, S.D. (2005). Gay and lesbian perceptions of discrimination in retirement care facilities. Journal of Homosexuality, 49 (2), pp. 83-102. King M and McKeown, E (2003). Mental Health and Social Wellbeing of Gay Men, Lesbians

46

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo and Bisexuals in England and Wales. Manuscrito não publicado, projecto conjunto entre University College of London and MIND. Lima, T. G. (2006). Tornar-se Velho: O Olhar da Mulher Homossexual. Tese de Mestrado não-publicada, Pontificia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, Brasil. Low, L., Lui, M., Lee D., Thompson DR and Chau J. (Agosto, 2005) Promoting awareness of sexuality of older people in residential care. Electronic Journal of Human Sexuality, 8. Makadon, H. J. (2006). Improving health care for the lesbian and gay communities. New England Journal of Medicine , 354 (9), pp. 895-897. Mail, P.D. & Safford, L. (2003). LGBT disease prevention and health promotion: Wellness for gay, lesbian, bisexual, and transgender individuals and communities. Clinical Research and Regulatory Affairs, 20 (2), pp. 183-204. Mota, M. P. (Dezembro de 2009). Homossexualidade e Envelhecimento: algumas reflexões no campo da experiência. SINAIS - Revista Eletrônica – Ciências Sociais. Vitória: CCHN, UFES , 1, pp. 26-51. Mott, L. (2000). Por que os homossexuais são os mais odiados de entre todas as minorias? Apresentado em Seminário Gênero & Cidadania: Tolerância e Distribuição da Justiça, a 6 de Dezembro de 2000. Núcleo de Estudos de Gênero – Pagu, Universidade de Campinas, Brasil. Musingarimi, P. (Novembro de 2008a). Older Gay, Lesbian and Bisexual. Londres: The International Longevity Centre. Musingarimi, P. (Novembro de 2008b). Health Issues Affecting Older Gay, Lesbian and Bisexual People in the UK. Londres: The International Longevity Centre. Older LGBT Network, Cardiff, Age Concern Cymru. (2008). A report of the older LGBT Network into the specific needs of older lesbian, gay, bisexual and transgender people. Retirado a 22 de Setembro, 2010, do Tai Pawb web site:

http://www.taipawb.org/USERFILES/FILE/NEWS/LGBT_NETWORK_REPORT.PD F Paúl, C., & Fonseca, A. M. (2005). Envelhecer em Portugal : psicologia, saúde e prestação de cuidados. Lisboa: Climepsi. Pereira, H., Leal, I. e Maroco, J. (2009). Psicologia da Identidade Sexual. Covilhã, Universidade da Beira Interior. Pitts, M., Smith, A., Mitchell, A., & Patel, S. (2006). PRIVATE LIVES A report on the health and wellbeing of GLBTI Australians. Melbourne: La Trobe University.

47

Envelhecimentos nas Minorias Sexuais - Ambiente Psicossocial e Necessidades Julieta de Saúde Azevedo Rondahl, G., Innala, S., & Carlsson, M. (2004). Nursing staff and nursing students„ emotions towards homosexual patients and their wish to refrain from nursing if the option existed. Nordic College of Caring Sciences, Scand J Caring Sci , 18, pp. 19-26. Schope, R.D. (2005). Who‟s afraid of growing old? Gay and lesbian perceptions of aging. Journal of Gerontological Social Work, 45 (4), 23-39. Simões, J. A. (2003). Homossexualidade masculina e curso da vida: pensando idades e identidades sexuais. Simpósio Sexualidade e Saberes: Convenções e Fronteiras, organizado. Campinas. Wright, S. L., & Canetto, S. S. (10 de Dezembro de 2009). Stereotypes Of Older Lesbians And Gay Men. Educational Gerontology , 35, pp. 424-452.

48

Anexos

Anexo A

Anexo B

Anexo C

Anexo D

Anexo E

Anexo F

A primeira investigação em Portugal
25 Novembro 2010

Estudo

Não existem estudos sobre os idosos homossexuais portugueses e as dificuldades que sentem no processo de envelhecimento. Por isso, Julieta Azevedo decidiu fazer este estudo proposto pela Unidade de Investigação em Psicologia da Saúde, sediada no Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa. O estudo, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), está quase a terminar e foi realizado ao longo deste último ano. Por ser uma investigação pioneira e com foco numa população tão específica, Julieta Azevedo confessa ao DN ter tido alguns problemas em conseguir uma amostra significativa. Em Julho, a autora do mestrado criou um blogue (http://investigacaominorias.blogspot.com) onde está disponível o inquérito que serve de base ao estudo e ao qual é ainda possível responder. Julieta Azevedo está surpreendida com o número de respostas conseguidas até ao momento, mas espera que mais pessoas preencham o questionário de forma a ter uma ideia mais aproximada da realidade. No final do inquérito, Julieta Azevedo espera responder às questões: Quais os principais problemas que esta população enfrenta no envelhecimento?; Quais as suas necessidades

de saúde?; Qual o ambiente psicossocial em que vivem?; Será o seu suporte social suficiente?; A quantas pessoas revelam a sua orientação sexual?

Gays acima dos 50 anos não revelam orientação a médicos População homossexual portuguesa não planeia o envelhecimento e não fala com o clínico de família, apesar de ter historial de doenças sexualmente transmissíveis. Os homossexuais portugueses não revelam a sua orientação sexual aos médicos de família, apesar de quase todos terem um historial de doenças sexualmente transmissíveis. Além disso, confessam que também não planeiam o envelhecimento, embora receiem a solidão e serem separados dos companheiros se forem para um lar de terceira idade. Estas são umas das primeiras conclusões do inquérito feito no mestrado sobre Envelhecimento e Minorias Sexuais: ambiente psicossocial e necessidades de saúde, de Julieta Azevedo, do Instituto Superior de Psicologia Aplicada. O objectivo do trabalho é perceber as necessidades psicossociais e de saúde da população homossexual com mais de 50 anos. Para isso, a investigadora está a fazer o levantamento através de um inquérito online, ao qual responderam até agora 30 pessoas. "Ainda são poucas, mas já dá para perceber alguns dos problemas desta população", reconhece a investigadora Julieta Azevedo. Um deles é o desconhecimento dos clínicos em relação à vida sexual dos doentes. De acordo com as respostas no inquérito, estes não revelam a sua orientação sexual "porque os médicos não perguntam e eles acham que não é relevante", justifica. Por isso, um dos objectivos deste estudo passa também por "conseguir uma mudança de atitude por parte dos médicos, para que abordem este assunto nas consultas". Uma medida que o presidente da LIGA Portugal, Paulo CôrteReal, também defende (ver entrevista). A forma como preparam o seu envelhecimento também revela algumas fragilidades, sublinha Julieta Azevedo. "A rede social desta população é muito reduzida. Quase todos admitem que quase não fala com a família e é nos amigos, a maioria da comunidade LGBT [(Lésbicas, gays, Bissexuais e Transgéneros] que se apoiam", explica. Além disso, "não há uma estrutura social que os proteja". Os lares também não estão a par da sexualidade das pessoas que acolhem. Ou seja, "não há um acompanhamento do envelhecimento", conclui a autora do estudo. Em parte, porque os homossexuais "não se prepararam e não têm a quem recorrer quando envelhecem". Julieta Azevedo adianta que os próprios gays admitiram no inquérito que "a sua maior preocupação é acabar sozinhos ou serem separados dos seus companheiros, uma vez que a maioria dos lares não aceita casais". Em termos de saúde, o estudo mostra que, tal como revelam as investigações internacionais, esta população está mais exposta à depressão, as mulheres têm uma taxa de incidência maior de cancro da mama e os homens de cancro rectal, explica Julieta Azevedo. Mas ao contrário de outros estudos, em Portugal a comunidade gay com mais de 50 anos não apresenta maior taxa de alcoolismo ou obesidade, por comparação

com a população em geral com esta idade. Apesar da evolução social, o preconceito pode continuar a perseguir os homossexuais idosos. "Aqueles que estão a envelhecer enfrentam agora pessoas da mesma idade que ainda não compreendem a sua orientação sexual, como os jovens já aceitam", diz. ANA BELA FERREIRA publicado a 2010-11-25 às 08:28

Consulte: http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1719679