Javier Jiménez Ávila (Editor

)

AESPA XLVI

ANEJOS
DE

SIDEREUM ANA I El río Guadiana en época post-orientalizante

ARCHIVO ESPAÑOL ARQUEOLOGÍA
DE

SUMARIO
PRESENTACIÓN ..................................................................................................................................................................................................................................... 9 I. ALTO GUADIANA-ALTO GUADIANA El Horizonte Ibérico Antiguo en el Alto Guadiana Mar Zarzalejos Prieto – Carmen Fernández Ochoa ......................................................................................................................................... 15 Un espacio de culto del siglo V en el Cerro de las Cabezas (Valdepeñas, Ciudad Real) Julián Vélez Rivas – J. Javier Pérez Avilés ................................................................................................................................................................. 37 El Oppidum de Alarcos en los siglos VI y V a. C. Mª Dolores Macarena Fernández Rodríguez ............................................................................................................................................................ 61

El período Ibérico Antiguo en La Bienvenida y su entorno Germán Esteban Borrajo – Patricia Hevia Gómez ............................................................................................................................................ 81 II. GUADIANA MEDIO-GUADIANA MÉDIO El Final del Hierro Antiguo en el Guadiana Medio Javier Jiménez Ávila ........................................................................................................................................................................................................................ 101 Paleoambiente y Paleoeconomía en la Cuenca del Guadiana durante el Hierro I Ana Mª Hernández Carretero ................................................................................................................................................................................................. 135 El territorio de Medellín en los siglos VI-V a. C. Martín Almagro-Gorbea – Alfredo Mederos Martín – Mariano Torres Ortiz...................................................................... 149 El Oppidum de Badajoz en época post-orientalizante Luis Berrocal Rangel....................................................................................................................................................................................................................... 177 O Post-Orientalizante da margem direita do regolfo de Alqueva (Alentejo Central) Manuel Calado – Rui Mataloto ............................................................................................................................................................................................ 185 O pós-orientalizante que nunca o foi. Uma comunidade camponesa na Herdade da Sapatoa Rui Mataloto............................................................................................................................................................................................................................................. 219

................ 373 Mértola durante os séculos VI e V a..................................................................................................................... Portugal): percursos do Pós-Orientalizante no Baixo Guadiana Ana Sofia Tamissa Antunes ................................................................................................................. Carlos Filipe Pereira Pinto de Oliveira ......... na Região Central do Baixo Alentejo........................................... em Portugal Maria Garcia Pereira Maia ........................................................... Portugal) Rui Mataloto – Maia Langley – Rui Boaventura ......................e....................) Francisco Gómez Toscano ............................................................................................................... 251 A necrópole sidérica de Torre de Palma (Monforte.......................................................... 307 “Castro” da Azougada (Moura................................................................................................................................................................................................................................................n...................................................................................................................................................................................................... Ana Margarida Arruda..............................e................................................. 469 ..........................................................n....................................... 415 O Castelo de Castro Marim durante os séculos VI e V a............................................................................................................................. 365 As armas e os barões assinalados? Em torno das necrópoles monumentais do «Ferro de Ourique» Jorge Vilhena ................................... Ana Margarida Arruda – Vera Teixeira de Freitas ................................................n................................................................................................................................................................................. C............................................................. 327 Reflexões sobre os Complexos Arquitectónicos de Neves-Corvo................................................. 353 Topografia e orografia dos habitats proto-históricos do Sudoeste Manuel Maia .................................................................. 429 Produção e consumo de cerâmica manual no Castelo de Castro Marim nos séculos VI e V a.................... 399 El final del Hierro Antiguo en la provincia de Huelva (siglos VI-V a.................................................................. Pedro Barros ......... 447 CONCLUSIONES-CONCLUSSÕES Luis Benítez de Lugo Enrich – Virgilio Hipólito Correia – José Ortega Blanco ........................................................ 283 BAJO GUADIANA-BAIXO GUADIANA O Baixo Guadiana durante os seculos VI e V a..................C................................................................................................................................................................El poblamiento en llano del Guadiana Medio durante el período post-orientalizante Javier Jiménez Ávila – José Ortega Blanco .........................................e...............................................................................

mas cuja funcionalidade não seria. Se propone que durante este período tuvo lugar un proceso de re-necropolización del paisaje estructurado sobre los elementos megalíticos preexistentes. This paper suggests that a process of monumentalising the landscape took place in the Iron Age. considering the prevalence of social complexity processes. como já sublinhado por outros autores.).Anejos de AEspA XLVI. La densidad de monumentos parece excesiva para aquel territorio en un espacio de tiempo tan corto (los siglos VII a V a. Contudo. 373-397 AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? REFLEXÕES EM TORNO DAS NECRÓPOLES MONUMENTAIS DO “FERRO DE OURIQUE” (SUL DE PORTUGAL) Jorge VILHENA Sempre se equacionaram as necrópoles e epígrafes da Iª Idade do Ferro de Ourique (Sul de Portugal) como provas da materialização do poder de elites sociais. incluindo mobilizações de ossadas. normalmente asociadas a las necrópolis. it is estimated an excessive density of monuments for that particular territory and time span. RESUMEN ABSTRACT Early Iron Age tombs and stelae from Ourique (southern Portugal) have been recurrently linked with the power of social elites. 2008. VII-V a. participated in this social construction. estruturado sobre preexistências megalíticas socialmente valorizadas. se deu um processo de re-necropolização da paisagem. a arqueologia processual continuou essa interpretação. including the manipulation of human remains. lo que tuvo como resultado la aparición de layers anormalmente densos de túmulos monumentales. que resultou em cumulativos layers anormalmente densos de túmulos monumentais.C. The epigraphs. enfocándola bajo la perspectiva de los procesos de complejidad social. eventuais causas da sistemática ausência de vestígios osteológicos e da perturbação de ambientes funerários amiúde verificadas. though based upon the ‘megalithic’ substrata. La importancia social de los túmulos podría haber motivado su reutilización (incluso no funeraria). though not exclusively used in funerary contexts. em ambas.). pero cuya finalidad principal no sería necesariamente la sepulcral. Las estelas. apenas sepulcral. lo que conllevaría la remoción de huesos. a densidade de monumentos parece excessiva para aquele território e para um período tão curto (séc. perspectivando. pp. However. terão participado nessa antropização do território. Propõe-se aqui que. . habrían participado en esa antropización del territorio. C. que podría ser la causa de la sistemática ausencia de vestigios óseos y de las perturbaciones de los contextos funerarios constatadas. frequentemente associadas às necrópoles. durante esse período. which resulted in the cumulative layers of tombs identified in the area. which may explain the absence of osteological findings and disturbance in many graves. La Arqueología procesual mantuvo esta interpretación. The social value of these tombs might have originated its reuse. A importância social dos túmulos pode ter dado origem ao uso sucessivo dos receptáculos funerários e a cerimónias não funerárias. necessariamente. RESUMO Las necrópolis y estelas de la I Edad del Hierro de la zona de Ourique (sur de Portugal) se han relacionado siempre con la materialización del poder de las élites sociales. que fueron revalorizados socialmente. Processual archaeology maintained the traditional interpretation. As estelas epigrafadas. manifestações de processos de complexificação social.

1 A par vilha. Isto é particularmente visível na produção de pensamento sobre o 1. partes ocidental de Almodôvar e oriental de Odemira (simplificado para “Ferro de Ourique”) das monumentais necrópoles em que frequentemente surgiam. da identificação do exemplar de Alcalá del Rio.º milénio a. na planície. térmica. Arruda 2005. assim como é única a densidade de túmulos monumentais em Ourique. nos concelhos de Ourique. Torres 1999. Então. como hoje. As primeiras sete1 resultaram de recolhas por frei Manuel do Cenáculo. UMA CONSTELAÇÃO DE ESTELAS As primeiras estelas epigrafadas com “escrita do Sudoeste” surgem nos contextos do Iluminismo coleccionista de setecentos avançado e do Positivismo científico de finais do século XIX e inícios do seguinte. ríamos da crendice dos sagorros da Serra de S. reconhecido como o maior responsável pelo “recuperar do espanto” pelas enigmáticas lápides epigrafadas baixo-alentejanas e algarvias e pela redescoberta. Torres 2002. justamente. de lajes sepulcrais com caracteres que prontamente designou de fenícios ou turdetanos. apesar de tudo. Esses elementos constituíam facilmente a base empírica para reconhecer cronologias. zona onde coincidem as cabeceiras do Mira. As necrópoles. Caetano de Mello Beirão é. Imediatamente a notícia espalhou-se que nem pólvora: o fim do mundo que a bruxa tinha prometido ia começar ali mesmo. Algumas surgiram integradas em sepulturas que mandou explorar nos concelhos de Ourique e Almodôvar. Mas ao escrever sobre as necrópoles sidéricas de Ourique. novas epígrafes foram identificadas em Fonte Velha de Bensafrim e em Cômoros da Portela. mas ásperas. onde os arqueólogos do Serviço Regional de Arqueologia do Sul (a placa lá posta dava-se a parangonas) andavam a mexer no cemitério dos moiros. por decifrar. Com estes conjuntos.C. Sobre ambos os conjuntos. até momentos muito tardios. por oeste. talvez. Uma vidente momentaneamente famosa previra na televisão o catastrófico fim do mundo para esse Domingo (recordo-o porque era dia de ir à praia em família). A Arqueologia peninsular privilegiou. Nós. alguém que por lá passava viu parte do instável corte aberto pela estrada nova da Corte Malhão desmoronar-se por acção. Volvidos cem anos. Não se pretende. contactos e aquisições forâneas. mostravam-se atreitas à recuperação de artefactos magnificentes ou. até à década de noventa do século XX. menos bem compreendidos. pelo menos. que na altura me foi contada como verdadeira. pelo que. no Sudoeste da Península. para além de também ter sido outorgada à escrita o cognome «do Algarve» (Correia 1997: 265).374 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI Sei agora que a história. quando se presumiam potencialmente seladas. sobretudo depois das muitas sínteses elaboradas nos últimos anos (Correia 1999. vingou a associação formal à esfera funerária das lápides cuja escrita estava. Jiménez 2002-2003) corre-se o risco de “chover no molhado”. em muito bom estado de conservação (Chapa 2000: 10). do Guadiana. espero. bispo de Beja. à fixação de uma escrita antiga. Elas surgem-nos na zona mais inverosímil. ante a longa míngua de informação nova. Guerra 2002. Martinho. que separam esta província do Algarve. a investigação da componente tumular sobre a habitacional no estudo das sociedades do passado. para além de ambos os lados da bacia hidrográfica do baixo Guadiana. no Algarve interior ocidental. única na Proto-história do Sudoeste Peninsular. Se- . se deve ter passado num dia quente de Verão de 1989 ou 1990. Mederos e Ruiz 2001. enquanto que as estelas têm uma distribuição bastante mais lata. Para o Sul de Portugal. dados antropométricos e mesmo étnicos (na perspectiva childeana inicial de assimilação de povos a culturas materiais). na portela do Pardieiro. inaugurar uma corrente explicativa marginal sobre este tema arqueológico. 1. mas antes matizar um pouco uma certa homogeneidade interpretativa mainstream dada a alguns dos seus aspectos que parecem. Arruda 2001. o recurso a uma postura mais heurística possa fomentar novas hipóteses sobre este conjunto único de manifestações da Idade do Ferro. mas com clara predominância do lado português. sempre afastadas do mar ou dos troços navegáveis dos rios. E essa associação entre epígrafes e necrópoles é. justificar-se-á (ou não) repensar o corpo de dados obtido nas décadas de 1970 e 1980. do Sado e dos últimos grandes afluentes. com justiça. tecnologias adquiridas. com isto. Torres 2005. já que a maior densidade de achados epigráficos se distribui entre o limite sul da planície baixo-alentejana e as serranias baixas.

Almagro 1966: 199-201).»: 1) um enfoque orientalista.º milénio a. por um lado. tumulados nas sepulturas que aquelas marcavam ou cobriam (Correia 2002. 4) a sua presença seria a principal característica de uma Primeira Idade do Ferro. pusessem em evidência. que contêm antropónimos em associação com uma fórmula funerária pouco variável.. sendo prestada menor atenção às proveniências das estelas. Na historiografia dos três conjuntos. justamente por a ter deixado cair paulatinamente em desuso (Beirão 1986. como tampas ou marcadores de sepulturas. Sobre este aspecto. que leva a concluir. uma “civilização proto-histórica no Sul de Portugal” justamente pelo uso muito antigo da escrita. desde a noção histórico-cultural de terem marcado a consagração de caudilhos de grande valor militar (e. da Idade do Ferro. serão monumentos epigráficos de concepção funerária e. pelo quadrante sul-ocidental da Península.C. de que as epígrafes. até então negligenciado. por outro. na presença de percursores da heráldica medieval e das estátuas de glorificação. foram estudadas em paralelo. 3) uma maior antiguidade na Península.Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 375 Estabeleceram-se. quando era claro que tais sepulturas não existiam. Beirão 1986). Esse caminho continuou na análise paleográfica das estruturas dos textos. Torres 2002: 318) que as estelas epigrafadas foram quase todas encontradas reutilizadas nas necrópoles portuguesas. Embora se reconheça (Ruiz-Galvéz 1998: 308. Untermann 2000: 76. Ou não? Estelas figuradas da Idade do Bronze. a interpretação funerária foi preponderante e comum (Díaz-Guardamino 2005). Ródriguez Ramos 2002). Gomes 1994: 94). figuradas ou grafadas. alfabetizada. possível em apenas metade das estelas. mais especificamente. assinalassem os locais de sepultamento de personagens da sua classe dirigente (e. Esta associação imediata entre estelas e os detentores do poder grupal do 2. podemos ainda encontrar outros traços comuns: a mesma dupla frustação de não conseguir entender ou ler as mensagens nelas contidas e a incapacidade em apurar os contextos arqueológicos originais (Moreno 1998: 57). O pressuposto de associação directa estela/necrópole resultou até na inflação do número real monumentos funerários (e. seja de âmbito sirio-palestino (Beirão 1990: 118). ter-se arreigado na expectativa.g. «ou estamos profundamente equivocados quanto à limitação da esfera de uso da escrita. fenício (Mederos Martín e Ruiz Cabrero 2001. por termos sido induzidos em erro por um conjunto de fenómenos post-deposicionais» (Correia 2002). de muito menor expressão civilizacional. Sobre todas. Beirão 1986). Muito em resultado dos caminhos sempre trilhados para resol- ver o primeiro problema. sepulcral. Foi na descodificação das mensagens que quase todo o esforço foi investido. ao longo do século XX.g. tornou-se um paradigma comum a várias escolas de pensamento.g. grego (Gamito 2002) ou misto (Correia 2002. um género de hic situs est / sit tibi terra levis pré-latino. depois parcialmente revisto em baixa (Correia 1996). consciente e inconscientemente influenciada pela interpretação dada em paralelo às estelas da Idade do Bronze. cujos conjuntos se distribuem. surgiram abordagens alternativas para as estelas figuradas de tipo estremenho (Ruiz-Galvez e Galán 1991. pois. Nos últimos quinze anos. desde então. parece continuar fortemente arreigado. paradigmas sobre as estelas que continham a comummente designada «escrita do SO. que conduziram à heroicização de certos personagens representados individualmente e divinizados pelos seus sucessores como os fundadores míticos de linhagens e chefaturas (Gomes e Monteiro 1977: 328-330. e ainda alguns trechos de texto «livre» (Correia 2002). pois seriam cenotáfios perpetuadores da sua memória. sobrepostos. presentes em túmulos de arquitectura monumental. ou a caminho disso. a suposta intencionalidade funerária dessa escrita. Revalorizou-se o seu contexto espacial e geográfico. o das “decifrações”. e estelas epigrafadas “do Sudoeste”. mas de forma algo “desligada”. Alarcão 2001). portanto. dos tipos “estremenho” e “alentejano”. mantémse de forma persistente a noção de que podemos «tomar como bastante seguro que os locais de achados de lápides epigrafadas do Sudoeste correspondem a necrópoles. a membros de elites guerreiras (sendo o belicismo indicado pelas figurações de armas nas estelas da Idade do Bronze e na estela epigrafada de Abóboda) de sociedades protoestatais. dada sua origem leste-mediterrânica. Hoz Bravo 2005). foi recorrentemente considerada satisfatória a hipotética função funerária.C. com uso entre os séculos VIII e V a. à processualista forma de ler nelas manifestações de diferenciação e status em sociedades em crescente segmentação. relativamente às outras escritas pré-latinas. Mas o primeiro apriorismo. vingou o pressuposto de se tratarem as estelas de alusões. Das cerca de noventa . ante uma Segunda. mesmo sem termos identificado as estruturas sepulcrais» (Correia 1997: 266). 2) a sua recepção e difusão em âmbito tartéssico ou peri-tartéssico. Galán 1993). Correia 1997: 266). Logo. A noção de que as estelas epigrafadas com escrita do sudoeste foram tampas ou marcos de sepulturas pode. Estaríamos. por ora.

Em Fonte Santa (Ourique). presume-se que uma estela cobriu uma sepultura e. 1999). de Mealha Nova. Pardieiro II. Por fim. maiores. trinta e cinco exemplares. a Aldeia de Palheiros. Mealha Nova I e II. Sobre estas últimas. É pouco verosímil que uma conspícua laje grafada pudesse permanecer erecta e imperturbada durante dois milénios e meio. vaus. em onze casos não foram esclarecidos os contextos específicos nas necrópoles3. a situação desta estela de Mealha Nova. Carapetal. que podem ter tido função especificamente funerária mas. Peré Jacques. Fonte Santa III. não deverão também ser consideradas elementos de construção em resultado de reuso casuístico (ou mesmo simbólico) de lajes – e nas quais podemos ter uma maior probabilidade de aproximação a contextos de deposição primária. em algum momento não muito antigo. parcialmente sobrepostas e com as faces epigrafadas voltadas para baixo. na análise do abundante. sendo sistematicamente ausentes dos túmulos centrais. até período tardo-romano. Como outros autores argumentaram (e. sem destaque especial. uma outra foi utilizada como material de construção. como Pego da Sobreira. Casarão. Correia 1996. Essa estrutura foi escavada. em si mesmas. e as restantes quinze epígrafes. Fernão Vaz. como Abóboda. ainda que estes três últimos tenham sido apenas parcialmente escavados. et al. Em Pardieiro (Odemira). vinte e sete eram de proveniência desconhecida e cerca de quarenta e cinco resultavam de achados isolados. Nora Velha e Pardieiro I. Vaga da Cascalheira. precisamente ao centro de uma necrópole de configuração alongada. como em Fonte Santa. Guerra. pelo que se lhes propôs funcionalidade como marcadores territoriais (por vezes. as duas de Biscoitinhos. em possível associação a contextos funerários). pode-se. portanto. Pego I. infelizmente. e mesmo inexplicavelmente desconhecidas em grandes monumentos ou conjuntos. apenas quatro as estelas recolhidas em contexto funerário em que se pôde determinar o contexto preciso e que este não foi construtivo – se é que. as estelas. com razão. admitindo a interpretação dos escavadores. um paradoxo já notado por C. Beirão 1986: 62). cf. vão ocupar nelas túmulos tardios e periféricos. questionar a funcionalidade exclusivamente funerária das lajes epigrafadas do Sudoeste. supostamente identificadoras de personagens importantes ali inumadas. a mesma câmara funerária do túmulo 17 (na mesma necrópole. Beirão e Gomes 1980. pelo que uma função exclusivamente funerária devia ser afastada. mas os registos nunca foram. Correspondente análise nunca foi encetada para as estelas da Idade do Bronze “de tipo alentejano” ou para aquelas com escrita da Idade do Ferro.g. na necrópole de Favela Nova. mas fragmentário. Correia 1997). só uma parte menor. material publicado (e. sobretudo se pensarmos que o local se situa a meros 200 m de uma povoação agrícola actual de dimensão média. cumes. destas. e em túmulos relativamente tardios nas estratigrafias horizontais dos monumentos. Parece mais provável que. as sete2 claramente empregues como material de construção indiferenciado em monumentos do período pós-orientalizante. prática que é comum na região. Este é. etc. quando usadas como tampas de sepulturas. possa ter sido fincada como marco de propriedade. a laje. et al. 3 As restantes duas estelas de Fonte Velha de Bensafrim. um fragmento de estela foi utilizado como material construtivo do tú2 Estelas Bensafrim VI.376 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI estelas daquele tipo então conhecidas. permite ainda aventar a possibilidade de que os túmulos tenham sido dispostos em redor da estela previamente implantada no local – o topo de um pequeno cômoro na peneplanície. duas lajes cobriam. Como com as estelas figuradas estremenhas. eventualmente uma entre outras «soltas» no terreno. aliás. Mas. e sobre a de Fonte Santa houve uma laje anepígrafa implantada no topo (Beirão 1986: 66). As necrópoles são. isolados e/ou de planta circular (tidos como mais antigos). Pego II e III. São as treze estelas encontradas em necrópoles de cronologia indeterminada ou muito tardia (desde a II Idade do Ferro. Essas epígrafes foram empregues na horizontal. as duas de Cômoros da Portela. outras quinze foram de alguma forma reutilizadas. provém a quarta epígrafe (estela III) com contexto determinado e que é também a única de que foi encontrada a provável estrutura de implantação onde terá estado fincada até pouco antes do momento da escavação (Dias. Alagoas I. São. devidamente publicados. ligados a sistemas de controlo e posse de rotas e territórios de pastoreio transumante. verificamos que das cerca de oitenta e seis estelas conhecidas. apenas de cinco se pôde confirmar um contexto funerário claro. por exemplo. Beirão (1986: 102): quando encontradas em necrópoles gregárias. 1970. sendo ainda usadas como limites administrativos ou de propriedades. pontos de referência nesta paisagem monótona. provêm seguramente de necrópoles (Fig. Compreendeu-se que os locais de achados de estelas eram frequentemente pontoschave nos territórios (portelas.g. mulo 11).). Beirão 1986. 1). Isso ainda sucede. como proposto. .

também em Ourique (Marques 1992. a análise de Ruiz-Galvez e Gálan permitiu libertar o pensamento das amarras interpretativas que as haviam fixado ao universo funerário de uma elite guerreira (e. pelo que. . podem ser mais antigas que os túmulos onde foram encontradas. tendo sido mobilizadas para os incorporar. Arruda 2001. Jiménez 20022003. se enquadraria melhor com o que sabemos acerca do uso primordial da escrita no mediterrâneo oriental: em âmbito sacerdotal e palaciano. Delgado Hervás (2001) tem demonstrado a acentuada baixa evidência de conflitualidade de expressão bélica em contextos do Bronze Final da Andaluzia ocidental. Faria e Soares 1998. Mederos e Ruiz 2001: 102). um número considerável de estelas não provém. terão pertencido originalmente a âmbitos distintos. como o caso de Mealha Nova sugere. são de proveniência indeterminada dezassete casos. e depois como instrumento de comércio (Correia 2002).Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 377 Fig. sobretudo os achados mais antigos. II e III. Maia. mais propriamente uma placa e a única proveniente de um edifício de arquitectura complexa de período pós-orientalizante. onde foi encontrada no derrube de parede onde pode ter estado afixada).C. 1): vinte e nove exemplares. se coevas destas. Neves (Castro Verde. 1.– Contextos de proveniência das estelas epigrafadas do SO. nunca foi comprovada a presença de epígrafes em túmulos ou necrópoles integráveis nas fases mais antigas (séc. seguramente. Investigação de A. Efectivamente. Torres 2005). Almoroqui (Cáceres). Podem até mesmo ter tido anterioridade nos locais das necrópoles. Estela de Azinhal. pelo menos parte considerável das estelas deverão ter tido outra funcionalidade original que não a funerária. Como se referiu. «feitoria» orientalizante fluvial). Barradas. Mederos e Ruiz 2001). De volta às estelas figuradas do Bronze Final. Untermann 2000: 76). Folha do Granjão (Beja) (Beirão 1986: 132. se algumas estelas foram claramente reutilizadas em monumentos de fases tardias (com cronologias dos séculos VI e V a. Viameiro. e o Castro da Cola5. Sevilha. Moreno 1998). sustanciada no relativo baixo número de povoados efectivamente fortificados ou na ausência de traços de uso e inadequabilidade das ligas metálicas de muitas espadas de bronze para 4 5 Estelas de Alagoas I. sabemos resultarem de achados isolados. em Loulé. VIII – VII a. de necrópoles (Fig.g. Correia 1993. Chillar (Villamanrique.) da periodização proposta por V.C. juntar-se-lhes-iam Rocha da Pena4. Correia (1993). 1986: 32-34. Correia 1996: 147.. cf. Correia 1999. de certa forma. O que. e cinco estelas foram encontradas mesmo em povoados proto-históricos: Carapetal (Ourique). E. E conhecem-se epígrafes recuperadas na imediações de ou em povoados de altura com ocupações documentadas do Bronze Final e/ou da II Idade do Ferro: a Garvão (Ourique) e Castro de Capote (Badajoz).

própria e continuada.º milénio a. materiais de excelentes qualidades mas custosos de obter nas dimensões e superfícies pretendidas. a necrópole tenha crescido à sua volta. Algumas necrópoles podem ter sido construídas em pontos especiais. por vezes. A frequente associação de estelas a locais destacados na paisagem permite olhar noutras direcções. resultar da continuidade na Idade do Ferro das práticas propostas por Ana Delgado. verifica-se que nos monumentos funerários de planta circular. na periferia de povoados de altura. bens. pelo que a mesma autora. de estranhar. de estelas com escrita do SO. pois. de baixa intensidade. Com efeito. pelo que seria improvável a . resolvida de forma mais simbólica do que real pela realização de cerimónias intra e intercomunitárias. indício óbvio dessas remobilizações e reutilizações. (Torres 2002: 318). como o próprio tipo de lajes escorreitas (de grauvaque. fenómeno investigado em contextos mais antigos mas pouco ensaiado na Proto-história. numa possível continuidade da tradição pré-histórica do ocidente peninsular de erecção de estelas (Díaz-Guardamino 2005). casamentos. fortemente ritualizadas. até tempos romanos não é. em necrópoles de meados do 1. em cumes ou cômoros isolados. entre outras materialidades. devido à predisposição em fazê-lo. também Marques 1992) dão-nos uma imagem próxima dos padrões de distribuição das estelas estremenhas na paisagem compilados por Galán (1993): muitas delas foram encontradas em portelas (o que é denunciado pelos próprio topónimos de proveniência). que são eminentemente negociações e sucessões de direitos sobre territórios. À semelhança da inutilização intencional de armas metálicas. envolvendo. como se referiu. Reuso das epígrafes como tampas de sepulturas desde o século VI a. incorporando ou removendo estas. ultrapassa. de cunho funerário. essas cerimónias junto de estelas erectas poderiam incluir consumo/oferenda ostentosa de alimentos e/ou destruição propositada de recipientes cerâmicos. obviamente. em várzeas de vales apertados. interpretadas. Talvez estelas epigrafadas e necrópoles sidéricas monumentais fossem de início erguidas em espaços distintos. do território antigo.378 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI funções bélicas. deixando vestígios facilmente confundíveis com eventuais necrópoles. monumentos funerários. simbólicos. determinados por características especiais da paisagem. Ainda que. nas fases evolucionadas da arquitectura funerária. parcialmente (ainda) possível mas certamente onerosa em tempo e meios. que vão surgir apenas. e normalmente reutilizadas. sugere a existência de uma conflitualidade latente. Tanto mais que os arqueólogos não participaram presencialmente nas circunstâncias desses achados. É ainda possível que no caso mais singular. mais uma vez como há muito pensado para as estelas de tipo estremenho (RuizGalvez e Galán 1991: 260ss. temos de considerar que é recorrente a presença. de estelas e/ou necrópoles. junto de vaus. mesmo que para reuso. como necrópoles de incineração em urna dentro de cova quando não surgiam restos arquitectónicos palpáveis. não poderão. já assinalados por estelas. Estelas podem ter sido mobilizadas de forma a integrar. É possível que tenha acontecido uma progressiva convergência espacial entre estelas e necrópoles. possivelmente para se adaptarem à função de tampas de sepultura. esse tipo de lajes são muito requeridas na construção e frequentemente reutilizadas. constituição de novas linhagens.C. Dados que contrastam com a “violência” expressa nas estelas. para o que se exige o domínio das técnicas de extracção e desbaste.C. são as frequentes mutilações que estelas e bétilos grafados apresentam. pois. Razões muito prosaicas podem ter estado na origem disso. os poucos dados sobre a proveniência geográfica das lápides recolhidas isoladamente ou em contexto mal apurado (sistematização em Correia 1996. por vezes de águas «santas». Ainda assim. Paralelos para tais festividades especiais de regulação social são demonstrados pela Antropologia Cultural em sociedades de tipo chefatura sob a designação potlach. O estudo dos códigos de apropriação e construção social da paisagem pela implantação. A verificação de cada um dos locais de achado. por vezes. Seria interessante averiguar se notícias vagas sobre cinzas ou cacos associados a achados de estelas epigrafadas. mais antigos. como a de Canafexal (Almodôvar) ou Alcanforado (Odemira). que regulariam as relações de poder e nas quais as estelas poderiam ter um papel importante. não se encontraram estelas. perto de fontes. parece possível que muitos desses achados isolados tenham sido encontrados ainda perto ou mesmo nos seus loci originais. as mesmas dicotomias de ocupação do espaço que se verificam hoje. Assim. para territórios antigos. pode fornecer algumas respostas. na senda de propostas anteriores.). xisto grauváquico ou grés) das estelas. a estela III de Mealha Nova. Na região. em tais cerimónias não seria obrigatória a presença de verdadeiras inumações de cadáveres. cf. o âmbito deste texto e exige uma investigação de terreno dedicada. ou reintegrar. mas sobretudo de afirmação de prestígio e autoridade. E. Não se devem perspectivar.

Tal poderá matizar a difícil compreensão de certas particularidades do Ferro de Ourique. ainda viva. aparentemente. Não sabemos exactamente quantos. . como por exemplo na Escócia. de estelas epigrafadas da Idade do Ferro e de uma laje decorada com armas e podomorfos em relevo da Idade do Bronze em Corte do Freixo (Almodôvar). as duas primeiras com textos epigrafados que. no Sul (como na Pedra de Nossa Senhora. com alguma segurança. motivos 6 Caetano Beirão considerou o que chamo estela IV. E foi precisamente quando chegavam. seria plausível a sua posterior remobilização para necrópoles. talvez por ser anepigrafa. ou mouras encantadas. uma «tampa decorada». III. Na Irlanda. uma tradição anterior à Idade do Ferro. reconhecidas e escavadas nesses locais as necrópoles de Mealha Nova e Pego. cenotáfios ou de outros valores que nos escapam. São de todo desconhecidas plantas e/ou espólios de muitas necrópoles ou contam-se apenas com levantamentos planimétricos realizados após decapagens superficiais. só das intervenções tardias dispomos de plantas pormenorizadas. foram identificados e intervencionados mais monumentos funerários. com carácter de urgência/salvamento. Até final da década seguinte. à Idade do Bronze (Díaz-Guardamino 2005). Abóboda. possam ter tido um algum significado funerário. que tipo de intervenção sofreram. Carapetal I. Desse ciclo de quase três décadas de trabalho. a questão estará em compreender com que sentido: figura tutelar? Culto a antepassados? Alusão à caminhada para a morte? A tradição interpretativa popular topológica da Galiza e do Norte e Centro de Portugal no século XIX (Vasconcelos 1980: 381387. Foram. Carapetal. 2. dado que o espólio documental de Caetano Beirão se encontra disperso entre várias instituições e particulares. algo irónico para a necrópole onde se pretendeu demonstrar a prova definitiva do carácter funerário destas estelas. Garvão (Ourique). quando Caetano Beirão e sua equipa chegaram aquela região. não religiosas (Vasconcellos. encontram-se Biscoitinhos. no Alto Mira. cerimoniais.Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 379 absoluta divisão entre lugares funerários e sítios sagrados ou mesmo profanos. mas o número total aproximar-se-á das duas dezenas. Butter 1999: 12). etc. Perdida ou irrecuperável está muita da informação relativa aos trabalhos realizados nestas necrópoles durante este ciclo. ib. foi apenas identificada no local em 2002 por Lara Bacelar Alves. As representações de podomorfos podem-se conotar. Monte de S. DAS MUITAS NECRÓPOLES DE OURIQUE A investigação sobre as necrópoles monumentais da Idade do Ferro de Ourique iniciou-se no princípio da década de 1970. laje em forma de hemiciclo perfeito com orificio central. confere-lhes um significado não escatológico. no mesmo micro-espaço. no Alto Sado. Representações de podomorfos. Favela Nova e Hortinha. Noutras zonas muito afastadas do ocidente europeu. também. como as da Idade do Bronze. a personagens humanas. e pouco depois intervencionadas. Cerro do Ouro. localidade em que Beirão assentou base à sua prolongada missão arqueológica. Mealha Nova. 7 Para além da inexistência de informação fiável sobre muitas destas necrópoles (ponto de situação em Arruda 2001). da aparente integração duma laje insculturada do Bronze na necrópole sidérica de Mouriços (idem) e da presença de um possível fragmento de outra na necrópole da Idade do Ferro (forneceu à superfície cerâmica ática) de Arzil. as de Fonte Santa e Chada. em busca dos locais de achado das últimas estelas epigrafadas com escrita do Sudoeste. mas não sepulcral – monumentos comemorativos. a estela V. pessoal). A incorporação de estelas figuradas e estátuas-menir em necrópoles atravessa o megalitismo oeste-penisular e perdurará até. Favela Nova. na zona de Aldeia de Palheiros. em risco de submersão pela albufeira que se construía no Monte da Rocha. a que se somarão as referidas Fonte Santa e Chada. na margem do estuário do Mira). sem que se saiba. quando não os próprios monumentos7. para muitas delas. em voos e saltos sobrenaturais sobre grandes barreiras naturais. pois figuras com a aparência ou representações explicitas de podomorfos são frequentemente conotadas com locais de passagem – como o é a portela do Pardieiro – e explicadas como pegadas petrificadas na rocha deixadas por santos em fuga. Alves 2001: 76). com especial concentração onde os cursos de ambos os rios são mais próximos. estão já desaparecidas. então.. Luís e Mouriços. muito ameaçadas. Se se admitir que estas estelas. idênticos recebem uma leitura semelhante. estão também incisas nas estelas II. com a diferença de que são associadas a personagens históricas mitificadas. lhes foram sobrepostos. como o sejam a coincidência. ou sem protecção efectiva alguma. lendas a respeito deste tipo de figurações falam de locais onde antigos «reis» tinham de colocar os pés em cerimónias de legitimação do poder (Bradley com. Monte Poço. pelo menos. destruídas ou irremediavelmente degradadas as necrópoles de Cruzes. IV e V6 de Pardieiro.

. Correia (1993. seguir-se-ia outro caracterizado pela a construção de monumentos rectangulares. muito devido à diluição da equipa após a morte do principal impulsionador dos estudos. em 1992. nem tão pouco para os sistemas montanhosos de Monchique e do Caldeirão – o segundo maior aglomerado de achados de estelas epigrafadas (Guerra 2002).. Este é um primeiro aspecto que deve ser destacado: o conjunto sidérico de Ourique surge como um fenómeno bem delimitado no espaço. Por fim. no vale do Sado e na zona de Aljustrel e Beja. sublinhado pela singular densidade de túmulos. e observações de escavação permitiram avançar que inumações e incinerações coexistiram nas mesmas necrópoles. até às incinerações em cova circular. permitiram-me detectar apenas duas. a análise do conjunto sidérico de Ourique foi empreendida e continuada por Virgílio H. de construção de grandes monumentos de planta circular com covas. nas periferias regionais. se prossegue com a análise do tema. não dispomos de dados para a zona de Mértola e Almodôvar oriental. por isso. no litoral alentejano8. possíveis necrópoles monumentais da Idade do Ferro e apenas na serra de S. definido pelo tipo (sobretudo dos mais antigos) e densidade de túmulos. Sobre isto. no máximo três. monumentalidade que se foi reduzindo com o passar do tempo. essa fase 2 dá lugar a uma terceira de monumentos rectangulares sobre fossas profundamente escavadas na rocha. quase absolutamente inexpressivas. um fenómeno interior. dadas as dimensões individuais de até 5/6 m de comprimento ou diâmetro e até 0. Estas são. O Ferro de Ourique. rectangulares ou ovaladas. assinalados ou não por pequenos cairns de pedra. tempo e espaço. a investigação não logrou encontrar até agora. e é precisamente com a mesma estrutura e nesta ordem que 8 Dois anos (1999/2000) de prospecções a oeste de Ourique. frequentemente em sepulturas de tipo cista com discretas ou (arqueologicamente) inexistentes superstruturas. A um momento no século VIII a. como a estelas que as acompanham. conjuntos minimamente parecidos: os espaços da morte do Ferro Antigo parecem ter preferido tumulações bem mais circunspectas. 1999). que elaborou modelos interpretativos deste conjunto. Correia (1993) propôs uma evolução unilinear para a arquitectura das necrópoles sidéricas de Ourique. no Algarve.380 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI com o refrescamento geracional dos colaboradores de Caetano Beirão.1.5 m de alçados conservados. gregárias. no século V a. Isto sugere uma continuidade da tradição da Idade do Bronze regional. parte oriental do de Odemira e parte ocidental do de Almodôvar. e neste caso circunscrito aos concelhos de Ourique. portanto. de fundo raso ao solo ou pouco aprofundada. O ENREDO DO TEMPO Os monumentos do Ferro Antigo de Ourique/Almodôvar/Odemira mostram algum polimorfismo. a sua vertente funerária. assinaladas por molduras rectangulares.H. Estas necrópoles foram. Sustenta-se sobre observações da estratigrafia horizontal dos monumentos e nas propostas. as intervenções de campo. Ainda com C. e baseado no pensamento de Caetano Beirão. que arranca ainda na mesma centúria e se prolonga até meados da seguinte. pois. V.C. as novas metodologias de escavação e ferramentas conceptuais para a investigação em necrópoles proporcionados pela revolução epistemológica da Nova Arqueologia (Chapa 2000: 10) que cessaram. O Sado e o Mira desaguam no sul da fachada ocidental da península. estruturados sobre dois eixos. Segundo o mesmo autor. Podiam ser as câmaras funerárias dos túmulos mais monumentais de dimensões que permitiriam a inumação de cadáveres distendidos. ao centro. logo a poente de Aldeia de Palheiros e onde já se conhecia a necrópole do Pardieiro. surge como um localismo arqueológico. de datação dos espólios. seguida de algumas considerações sobre os rituais associados às necrópoles. de então. aparecem os monumentos de planta em pi e incinerações em urna. acabando por formar densos encanchados de túmulos. 2. na região. constituindo-se pelo encosto sucessivo de túmulos a um inicial. normalmente maior. com o que têm resistido bem à erosão da crítica). na sua maioria. mesmo depois de prospecções recentes. para o eixo temporal. sendo navegáveis em extensões reduzidas (50 e 30 km) que não permitem alcançar a área das necrópoles. ou mais propriamente. Beirão. monumentais. em todo o concelho de Odemira.C. tanto mais que os grandes túmulos de planta circular têm um configuração arquitectónica similar aos das necrópoles do Bronze . Martinho. escalonados e com câmara destacada. percebendo-se a presença de diferentes tipologias arquitectónicas túmulos na mesma necrópole. Os túmulos tomaram. inicialmente a forma de grandes estruturas destacadas do solo e. já “clássicos” (sobretudo porque nunca foram confrontados com nenhuma abordagem mais “eficiente”.

O compartimento inferior continha carvões e uma ponta de lança e duas pontas de virote dobra9 Documentação e informações transmitidas pessoalmente por Artur Martins. Em torno. daí. 1994: 201. no que se denota uma multiplicidade de eleições topográficas. Cruzes. não têm contacto entre si (Fig. de forma indiferenciada.C. encontraram-se uma ponta de lança dobrada e uma faca de ferro. e realçar o carácter pouco orientalizante e a própria reduzida quantidade dos mesmos (Arruda 2001. Luís e. adornos e recipientes cerâmicos (de produção local a supra-regional). por comparação estilística.H. em redor destes três últimos túmulos e. Alcaria e Atalaia.) para os espólios e. estava compartimentada em dois níveis sobrepostos. até agora. que surgiam de forma combinada ou exclusiva por categorias. efeito que lhes é conferido pela dimensão da mole de pedra (grauvaques e quartzos brancos) e pela elevação no terreno. Túmulos de planta circular raramente se adossam entre si. no Bronze Final (Soares e Cabral 1984). que se encontrou com laje de cobertura. Desde a proposta de faseamento elaborada por Correia (1993). pois afigura-se ser o mais antigo. III e IV de V. Correia 1999: 28. de topo. 3. esta última aparentemente ainda em (re)utilização. algo inédito na área9. Torres 2005). obtidas da necrópole de Nora Velha 2 (Quadro 1). Não se tratará necessariamente de uma “filiação” evolutiva. Por último. mas comparações com mobiliários similares estremenhos e andaluzes.C. pelo lado Norte. de um grande monumento de planta circular (mon. decoração de cronologia possível desde os séculos VIII/VII a. mas talvez mais antes uma “reprodução” dos mesmos modelos arquitectónicos (Jiménez 2001: 220). como Carapetal. serem perpendiculares à circunferência do túmulo VIII. Identificou-se ali uma necrópole gregária mas cujos túmulos. Carapetal). situado no extremo oposto do espectro temporal desta necrópole. no que sugere uma intencionalidade em relacioná-los com ele. 2). Destaque especial merece o monumento VIII. bem como uma tigela com base côncava. implantaram-se três sepulturas em fossa simples (III. foram colocados dois monumentos (I e VII) de molduras rectangulares simples que cobriam pequenas covas pouco profundas e restos de um terceiro (VI). foram identificadas neste túmulo. Estes apresentam a particularidade de os seus eixos longitudinais. a finais do VI (Arnaud. Da sepultura V. para as datações das respectivas necrópoles. sobrepostas por molduras rectangulares geminadas. Nos momentos iniciais da investigação. revistas na globalidade em baixa através da reconsideração dos espólios nelas recolhidos (Arruda 2001: 282.C. conhecem-se. Pego da Sobreira. . Jiménez 2002-2003). em princípio.. surgiram apenas carvões. integráveis nas fases I. encosta. IV. tenham sido o primeiro elemento a fornecer.Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 381 Pleno local. que terá sido o inicial na necrópole. Correia e Parreira 2002). esteticamente muito apelativas. separados por uma laje de permeio que se apoiava em entalhes laterais. os túmulos formam ainda assim conjuntos densos e facilmente identificáveis na paisagem. tanto mais que não se dispunham. um pouco mais afastado. No de cima. sem particulares cuidados de alinhamento além de aproveitar o espaço disponível. mais do que na discussão da hipótese em si mesma. o debate em torno das necrópoles do Ferro de Ourique têm-se centrado mais na cronologia de cada uma das fases. em portela. sendo normalmente estereotipados. S. Duas fossas sepulcrais paralelas. oblíquos entre si. V). vieram baixa-los em bloco para período pós-orientalizante. Não é de estranhar que as oferendas funerárias. ou cujos eventuais tumuli foram destruídos pela reocupação medieval documentada do sítio. Jiménez 2002-2003. Correia e Parreira 2002: 60. em crista. mas na cova 8A (oeste). de planta em pi. 1994. recuperou-se uma urna decorada no colo por impressões digitais descontínuas sobre incisões oblíquas (Fig. de meados do séculos VI a finais do V a. Na paisagem. As cronologias altas para as fases mais antigas que V. uma das mais tardias na estratigrafia horizontal da necrópole. Torres 2002: 163). ou de dimensão reduzida. de datações de radiocarbono fiáveis. túmulos isolados ou conformando necrópoles vastas em áreas planas. a última a ser escavada em Ourique (publicação preliminar em Arnaud. talvez. Na cova 8B (leste). 1). Morais Arnaud. segundo datas de radiocarbono. Monumentos completamente isolados são pouco comuns e resumem-se aos grandes tumuli circulares de Casarão. com autorização de J. embora possa existir mais que um ou dois por necrópole (Fernão Vaz. Correia propõe parecem justamente ter a confirmação em duas datas de 14C inéditas. et al. A ambos um grande agradecimento. Mesmo quando são um pouco afastados entre si (como em Nora Velha 2). avançou-se com cronologias altas (desde o século VIII a. Correia). esporão. compostos por armas de ferro. várzea ou sobranceiros a vaus. Os espólios recuperados tinham frequência irregular. bordos introvertidos e decorada por engobe brunidas em bandas horizontais. et al. ao que parece. VIII). referências cronológicas às necrópoles e sejam também os mais tratados na bibliografia.

Correia (1993). em 10 Referências de laboratório ICEN 1102 e ICEN 1103. admitir que diferentes modelos possam corresponder a segmentos populacionais distintos (género. acordo com as propostas de V. das. a arquitectura tenha evoluído dos túmulos de planta . assim. Informação cedida por Artur Martins. a quem muito agradeço. situando-os. por exemplo.º milénio a. como proposto por A. posto isto. conservadora (Parreira 1998: 271. em Atalaia. surpreendentemente altas (em especial da sepultura 8B). estatuto). pois parece pouco lógico que. 2. Mas será possível pensar mais numa fórmula de temporalidade simultânea do que puramente unilinear. também de ferro. aqui.382 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI Fig. que parecem dar razão à precocidade dos túmulos de planta circular na Idade do Ferro de Ourique.C.. um discurso arqueológico de repetição incongruente sobre o tempo longo. Podese. com asas de orelheta perfurada e superfície alisada. o que é reforçado pelas peças cerâmicas exumadas entre o Bronze Final e a transição a Idade do Ferro. A arquitectura funerária é. por definição. ao longo do 2. pelo que é difícil admitir uma substituição de tipos tão rápida e em ciclos de tão poucas gerações e. parece de facto mais plausível pensar que os diversos tipos de túmulos tenham coexistido. bem como uma tigela mais tosca. Nora Velha 2 parece ser. larga e alta que a anterior. De ambas câmaras do monumento circular foram obtidas datas de radiocarbono calibradas sobre pequenos carvões10. uma necrópole de extensa diacronia e de arquitectura evolutiva.– Nora Velha 2 (Ourique) Planta geral da necrópole segundo Correia e Parreira 2002 (modificado).H. Diáz-Guardamino 2005). Arruda (2001). Existe também.

quando comparada com a construção rural da região. Cerro do Ouro.Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 383 Quadro 1.2. do que pela possibilidade da fundação do edifício habitacional remontar ao século VII a. V. Arruda 2001). afastou a localização do núcleo de povoamento do topo da colina (correspondente à fortificação medieval) e de onde Abel Viana (1961) refere explicitamente ter exumado os referidos materiais. A única fase de ocupação documentada na escavação (parcial) do edifício de Fernão Vaz ofereceu cerâmica ática do século V a. 2. a experiência empírica também nos diz que a melhor forma de proteger os travejamentos de cobertura da acção de xilófagos. sem que haja. Parreira 1998. presume-se. No mesmo texto. e não são incomuns na mesma área construções rurais. que foram associados às diversas necrópoles da Idade do Ferro circunvizinhas. se repetir na mesma área similar evolução na necrópoles sidéricas – da planta redonda à quadrada. Este modelo de binómios funcionais parece ter tido origem em Fernão Vaz. povoado de altura sobre o Mira. . e esta está em cota superior. taipa/adobe). mais pela ausência de dados sobre a necrópole.. Pego da Sobreira. como defendem os seus escavadores. O mesmo padrão proposto por Correia (1999) parece repetir-se nas necrópoles e povoados de Vaga da Cascalheira. Na região. Porém.. A um outro sítio de Ourique terá sido aplicado o mesmo modelo espacial: o Castro da Cola. evidências de grandes reconstruções ou alterações. gerou-se um modelo de ocupação do território por pares de sítio de habitat + necrópole correspondente. Mealha Nova. 1999: 28) defendeu. lentamente exaustados por múltiplas pequenas frinchas nas coberturas (e não canalizado por chaminés).– Datas 14C do Túmulo VIII de Nora Velha 2 (Ourique).º 36. religiosas ou profanas. 1999) verificou a existência de alguns padrões de distribuição espacial das necrópoles. e por consequente garantir uma duração superior a um século. de que não diverge muito (soco de dupla fiada de pedra sob. de cota inferior. circular aos de tendência rectangular (Schubart 1965) para. onde se detectaram pequenos sítios de habitat abertos e sem defesas naturais. Correia (1993: 366. propondo a localização do assentamento proto-histórico no esporão. n. Formam aglomerados em zonas com distintas potencialidades de exploração de recursos.g. etc. não especialmente sólidas (mistos de pedra e taipa) com inscrições do início do século XVIII.C. de uma forma geral. a existência de ocupações do sítio do Bronze Final à II Idade do Ferro. Arruda 2001). sendo intervisíveis. 1994. UMA TRAMA NA PAISAGEM Virgílio Correia (1993. E a implantação de necrópoles em pontos mais altos próximos dos sítios de habitat parece ser frequente em todo o Ferro Antigo do Sudoeste Peninsular (Torres 1999). próximo (2-4 km) aos aglomerados de necrópoles e habitats de Palheiros e Fernão Vaz e sobre o qual se debate há muito se corresponderá a um núcleo centralizador do povoamento da zona (Arnaud et al. é perfeitamente admissível que o edifício possa ter tido uma vida multissecular11. H. Tal prática permitiria explicar a divergência entre as datas de radiocarbono obtidas para as madeiras de cobertura de Fernão Vaz e da olaria recuperada no seu único estrato de ocupação. poucos séculos depois. Com esta análise cruzada. enumerando peças provenientes das antigas escavações de Abel Viana. Correia refere ser possível que no ponto mais alto da colina. a sudoeste. sob o «alcácer 11 No arrolamento dos lugares (montes) da Paróquia de Sabóia (sudeste do concelho de Odemira) nas Memórias Paroquiais de 1758 são referidos muitos dos ainda existentes. Mas. onde povoado de arquitectura complexa (o único intervencionado em escavação) e necrópole homónima são muito próximos (a 200 m).C. Mas nunca foram demonstradas cabalmente correspondência e coetaneidade entre um e outro. e não existe estratigrafia que revele sucessão de ocupações. consiste em manter um ambiente carregado de fumo de lareira(s) interiores na parte superior dos compartimentos. baseados em datas de radiocarbono obtidas sobre carvões de madeiras de cobertura (Beirão e Correia 1991) e tem sido contestado (e.

. sendo interessante questionar se um sítio sucedeu ao outro ou se foram. que Abel Viana. A utilização do mesmo espaço como necrópole. A análise do material cerâmico das escavações de Abel Viana no Castro da Cola. alicerça-se no carácter funerário do material ali encontrado. Moura) (Silva e Berrocal-Rangel 2005). sugestiva. 2: do Castro da Cola. (sumariamente) publicado por A. islâmico». Viana. 3. pessoal). conservado no Museu de Beja e no próprio santuário. O espólio cerâmico (c. (Torres 2002: 163). como comum à Arqueologia portuguesa do seu tempo (Fabião 1998). Não é. Efectivamente. A hipótese. recentemente documentadas no Castro dos Ratinhos (Alqueva. se tenha situado. Correia.. datadas do séculos X?/VIII e VII-VI a.– Urnas decoradas. Do Castro da Cola provém ainda um grande pote decorado com impressões digitais no colo (Fig. 2). Estes lotes de materiais do Castro não permitem testemunhar. inf. 1994: 201). divergindo de ambas nas dimensões. a observação de Virgílio Hipólito das especificidades da Cola é pertinente. mas talvez excessivamente influenciada pela aplicação rígida do modelo que se quis generalizar. sinais de uma ocupação consolidada posterior ao século VI a.384 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI Fig. urnas cinerárias12). sugerida por alguns achados (joalharia. demonstrou que tanto o topo da colina como o esporão que dela se prolonga para sudoeste acolheram uma ocupação apenas desde fases recuadas do Bronze Final ao Ferro Antigo (inclusive) (Vilhena 2006). a necrópole do habitat situado no esporão. considerara «fundo neolítico». 1: de Nora Velha 2. nos séculos sequentes à 12 Materiais que não se logrei identificar nos acervos estudados (Vilhena 2006). sepultura V.C. 70 formas) encontra paralelos fáceis em ambas fases de ocupação. portanto.C. cujo fabrico. O tipo específico de decoração abarca o período entre o século VIII e finais do VI a. pelo menos parcialmente coetâneos. durante a Idade do Ferro.C. et al. 3. forma e decoração são idênticas às urnas cinerárias recuperadas nas necrópoles do Pego e Nora Velha 2 (Arnaud. ainda. no que se observa a aplicação da mesma relação espacial entre sítio de habitat e respectiva necrópole apreendida em Fernão Vaz. efectivamente. muito dissemelhante da cerâmica considerada mais antiga de Fernão Vaz (V. «espada curta de antenas». e na relação topográfica entre um local e outro. já que a sua altura (42 cm) é praticamente o dobro.

Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 385 sua ocupação habitacional durante o Bronze Final e o Ferro Antigo seria inusitada. Um estudo de territórios teóricos de captação de recursos desses habitats (Arruda 2001: 227 ss. só muito recentemente a investigação da Proto-história do Sudoeste peninsular recomeçou a interessar-se. Tem-se mantido um hábito.) demonstrou que são interpenetrantes. a investigação sobre as necrópoles do Ferro de Ourique parece nunca ter ultrapassado a análise de hierarquização e sustento das sociedades antigas. Beirão (1986: 50 ss. Cardoso 2004. que não a mera obtenção de recursos.º milénio a. com o inevitável desequilibro da delicada relação entre espaço e tempo. A eleição dos locais para dispor as necrópoles do Ferro Antigo não respondeu. não corresponder necessariamente ao período das necrópoles monumentais sidéricas. apenas a questões práticas da necessidade de arrumação do espaço: essa dicotomia resulta do racionalismo oitocentista e dela terão partido as interpretações arqueológicas de encontrar binómios necrópole + povoado. como é o caso de Pardieiro (Beirão 1990). de associar as muitas necrópoles de Ourique a igual conta de povoados correspondentes. a tentativa de aproximação a essas construções sociais do passado. conhecidos apenas por prospecções superficiais (à excepção de Fernão Vaz e salvaguardada a especificidade do Castro da Cola). Criou-se. não se sabe de quando ou o que foram. pela análise relacional entre enquadramento espacial e cultura material. Rocha 2003. pelo há muito noticiado fenómeno do reuso de necrópoles megalíticas pelos milénios seguintes (e. neste caso. na verdade. que a sacralidade do sítio. e elementos de colunas) que podem ter pertencido a edifícios áulicos ou religiosos. talvez. a não ser que o local fosse. apenas que estão perto de necrópoles monumentais. ocasionalmente. melhor compreendidos. profundamente arreigado no substrato histórico-culturalista do pensamento arqueológico. Através das ferramentas conceptuais e metodológicas que propõe. cronologias diversas. quando com ele confrontada. lendo dinâmicas de complexificação social nos conteúdos e variabilidade arquitectónica das necrópoles e nas relações de subordinação entre sítios de habitat. Mas. Sabemos. mais uma necessidade. podem (devem) ser investigados e. além Pirinéus.C. enterramentos em solo consagrado. Sobre propostas iniciais de C. o tema atrai a atenção desde há década e meia (síntese em Bradley 2002). Na verdade. certamente. selecção materiais construtivos. como relações com preexistências de origem antrópica. e estudaram-se paleo-economias. contudo. remonta a tempos medievais (Vilhena 2006). parecendo. percorrendo uma nova dimensão de análise proporcionada pela Arqueologia pós-processual – o domínio simbólico das materialidades (Gil García 2003: 32). normalmente o registo mais próximo. laboraram-se modelos de relação topográ- fica (Correia 1993. portanto. materialidades e memórias (Knapp e Ashmore 1999: 18). Em alternativa à mera elaboração de plantas e mapas com pontos e grisés. um dos grandes santuários rurais do Sul. E. Deu-se atenção às formas de relacionamento social.. de período romano. existem elementos arquitectónicos (mosaico. com o que se menosprezou outros eventuais critérios de vinculação ao espaço. e Abel Viana (1961: 9-11) destacou a existência de uma «pedra de fertilidade» no sopé da encosta setentrional da colina do Castro. na verdade. determinados aspectos do complexo funerário que se analisa. 1999) e estudos teóricos de territórios de captação de recursos (Arruda 2001) sobre sítios que. os dois grandes paradigmas processualistas. é objectivo das abordagens do que se convencionou chamar Arqueologia da Paisagem (Pearson 1999: 124 ss. E algumas necrópoles parecem não estar associadas a sítios de habitat detectáveis. um pequeno santuário de topo. Correia e Parreira 2002. relações de visibilidade. muitos deles poderão. pela documentação escrita. o que seria explicável por elevados graus de cooperação entre habitats ou. de isolar do palimpsesto cultural que constitui cada unidade espacial de estudo. As longas pautas comuns que se pressentem ter mantido como um continuum entre o Neolítico e o Bronze Final do ocidente peninsular (Diáz-Guardamino 2006). efectivamente. Ante uma crónica falta de elementos indicadores de integração cronológica fiável dos pequenos povoados do Ferro de Ourique. onde se poderiam realizar. demografia e subsistência (exploração de recursos do território passivo).). a localização do monumento mais condicionada pela portela onde se encontra do que pela presença de um eventual sítio de povoamento com ele relacionado. um modelo ou.g. associação a elementos naturais de destaque. Garcia Sanjuan 2005) mas. podem ter perdurado até bem entrado o 1. através de pautas de comércio (relação de cultura material importada). Parece razoável que isso seja mais . blocos de sítios em fatias analíticas cronológicas. onde estão insculpidas covinhas e sulcos cuja cronologia pode ser pré/proto-histórica. análoga à suposta correspondência estela epigrafada – necrópole.). já então. provavelmente. cf. embora estas sejam gravações simbólicas de muito difícil datação e interpretação.

2 e 3 e Monte Queimado. poderão existir outras duas. Palheiros. necrópoles de época sidérica. et al. identificados num contexto de investigação diferente. Esta interpenetração entre megalitismo e necrópoles sidéricas extravasou por vezes a mera proximidade física. Castro da Cola (tholos de Nora Velha 1 e necrópole de Nora Velha 2). et al. Esta realidade pode não reflectir mais do que o alcance das prospecções e da rede de informações de Caetano Beirão desde a Aldeia de Palheiros (Fabião 1992: 132) mas. 2 e 3 com as necrópoles de Mouriços e Hortinha). Viana. seriam relevantes na paisagem. Carapetal. E nos outros clusters do Ferro de Ourique verificam-se coincidências espaciais semelhantes entre conjuntos ou túmulos megalíticos e necrópoles monumentais da Idade do Ferro: no Mira. Leisner e Leisner 1959. . 1959. Garvão e Panoias. num amplo arco de círculo (raio de 2 km). Mas as razões desta tendência à “clusterização” de necrópoles foram procuradas unicamente na sua vinculação a agrupamentos de povoados e. et al. Arzil ou Cerro das Antas mediante a associação de novos monumentos funerários no mesmo espaço. Jiménez 2002-2003: 152-153. em Panoias. Em Ourique coincidem o maior conjunto megalítico do Baixo Alentejo e o maior aglomerado de necrópoles do Ferro Antigo no Sul do País. 4). No interior dessa orla megalítica. em Gomes Aires (antas de Cerro das Antas 1. de monumentos espaçados a distâncias de poucas dezenas e centenas de metros: são os conjuntos do “núcleo do rio Mira” (que se pode subdividir nos grupos de Cola. onde o grande paradoxo consiste na escassez de espólios de procedência mediterrânica encontrado no seu denso conjunto de necrópoles monumentais. tholos de Monte Velho. drenado a norte pelas cabeceiras do Sado e a sul por afluentes do Mira. Esse interflúvio é também onde a peneplanície alentejana vem tocar. de rebordo irregular e topo suavemente ondulado (Fig. Eventualmente. no ponto em que os rios são mais próximos. Arruda 2001) que as necrópoles sidéricas da região de Ourique se agrupam em clusters. Estevangil 1. 1957. entre as serras do Caldeirão (a sueste) e a de S. (Beirão 1986) e a necrópole e antas 1. Fernão Vaz e Gomes Aires). antas de Monte Machado (também designadas Monte Velho 2 e 3). 1961. É possível que estas coincidências espaciais resultem apenas da preferência de populações muito apartadas no tempo pelo mesmo território e pelas suas potencialidades. Fernão Vaz (anta de Fernão Vaz 1 e monumento do Casarão). Ourique. Essas comunidades parecem ter valorizado os campos megalíticos de Palheiros. confinadas num espaço relativamente restrito e. existe um extenso núcleo megalítico. com as muito próximas necrópole e tholos de Chada. Viana.C. como terá sido o Ourique. 1957. pelo rebordo do planalto13. o mesmo padrão de distribuição sucede com os monumentos megalíticos. A zona da aldeia de Palheiros é um vasto mas discreto planalto.. Biscoitinhos e Monte Poço. alvo de pesquisas no final da década de 1950 (Viana. Cardoso 2004). Na periferia do planalto de Palheiros. estão as necrópoles sidéricas de Mealha Nova. et al. o reuso no Bronze Final/Ferro Antigo dos monumentos megalíticos de Cerro das Antas. talvez com o intuito de incrementar a monumentalidade dos conjuntos. no vale relativamente encaixado do Mira. em grande densidade. em torno da de Cerro do Ouro. quando comparados com os de outras bem mais discretas localizadas nos contextos dos grandes rios e do litoral (Arruda 2001). pois documentouse. oito sepulcros colectivos megalíticos que se distribuem. Cruzes. 239). 2 e 3 de Arzil (Garvão). Nesse planalto. Mas seguramente houve a percepção da existência desse antigo campo megalítico por parte das comunidades da primeira metade do milénio a.. – fossem os monumentos interpretados como tendo sido construídos num passado remoto ou entendidos como peculiares ocorrências naturais (ou sobrenaturais). as necrópoles da Idade do Ferro vão-se rarefazendo. no mesmo concelho de Ourique. Cerro do Gatão e tholos de Nora Velha 1 (Viana. consequentemente. Viana. perficial de monumentos cobertos por cairns. et al. De ambas as formas. Já se observou (Correia 1999. no entanto. implantada no topo de pequena elevação ao centro do planalto e que é o seu ponto mais alto. 5). 1959. pelo menos. simultaneamente corredor natural de passagem. se se verificar que os amontoados de pedras nas proximidades (50 m) da anta de Monte Machado 2 correspondem à assinatura su13 No sentido do ponteiro do relógio: anta de Castelão. 1961. no Sado. Não só sucederia o reuso das câmaras megalíticas ou das estruturas envolventes destas. mais ou menos densos. nas possíveis conexões entre estes (Arruda 2001: 212. mais concretamente. talvez três. mas da própria paisagem monumental megalítica inteira.386 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI tangível em zonas pouco tocadas pelo processo orientalizante. Viana. o que implicaria a repetição das mesmas estratégias agro-pastoris de subsistência. et al. Leisner 1965) onde se contam. assim como se reduzem o número e densidade de monumentos megalíticos (Fig. Martinho (a oeste).

1994: 201). os moiros. por vezes também revestidos de quarztos brancos) dispositivos funerários. em especial. no planalto de Palheiros. 2. tenham ficado indiferentes às antas e mamoas. Em muitas comunidades pré-industriais. foram consideradas como tendo sido violadas (Arnaud. Obviamente. PORQUÊ Em Nora Velha 2. perspectiva de aproximadamente 5 km a NNE. se é inverosímil que os construtores das necrópoles monumentais do milénio a. determinados loci naturais conspícuos e materialidades construídas preexistentes podem ter tido significados socialmente relevantes nos processos de antropização da paisagem. não nós. Da mesma forma. ou assimilados a cosmogonias justificadoras da apropriação de todo o território e/ou.Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 387 Fig. mais simplesmente. Caetano Beirão (1986) observou o mesmo fenómeno em todas as necrópoles que es- . transformam-se ou corporizam uma entidade mítica – no caso das comunidades rurais não letradas peninsulares. (Castelo de Ourique). Ao fundo. quando as sepulturas se encontraram sem espólios. eventualmente em melhor estado de conservação alguns milénios atrás. perpetuados na memória social lata e nela inscritos com a edificação de necrópoles em locais específicos. perdida a médio prazo a sua identidade pretérita. de fundo heroicizante ou mágicoreligioso. COMO. no Ferro Antigo os megálitos poderão ter sido integrados em (ou estado na origem de) narrativas mitológicas. Jiménez 2003: 90-91). real. dos códigos de distribuição e sacralização dos novos.g. QUEM.– Planalto de Palheiros. mas como o de predecessores (mas não antepassados) na terra.C. Ou sequer que os associassem aos seus antepassados reais. cairns ou mamoas artificiais. os mortos são considerados como parte do mundo vivido. culturalmente eleitos e frequentemente sacralizados (Gil Garcia 2003). et al. Entre outros significados possíveis. a Serra de Monchique (cumes Picota e Fóia). mas igualmente bem visíveis (moles de pedra. 4. não no sentido histórico-étnico do termo. As relações de proximidade espacial entre monumentos funerários.3. míticos ou heroicizados (o que não é o mesmo que associação a personagens mitológicas). Vem a propósito a história da bruxa e do Pardieiro de que dei conta ao início. também parece pouco provável que sentissem imperiosamente algum tipo de identificação étnica imediata com essas construções ou mesmo eventuais restos osteológicos com que se deparassem no seu interior. mas o outro – sendo este constantemente relembrado pela sua assimilação a uma amálgama de monumentos funerários e vestígios de habitats de diversas épocas. Esta pode constituir uma forma de compreender o porquê da grande densidade de necrópoles monumentais da Iª Idade do Ferro no concelho de Ourique e. Esta acepção é comum a todas as necrópoles do Ferro de Ourique e tem sido pouco discutida (e.

Carapetal 1 (Cruzes?)..Vaga da Cascalheira.Monte Coito/Junqueira. 69.Arzil.Carapetal 3...Pardieiro.Monte Poço 23.Antas de Baixo. 35. 5.Monte Machado. 42. 3. 2 e 3. 46-48.Estevangil 2. 39.Mealha Nova.Biscoitinhos.Nora Velha 2.. 55.Fernão Vaz.Chada. POVOADOS DOCUMENTADOS COM OCUPAÇÃO DO BRONZE FINAL E/OU FERRO ANTIGO: 56. 27. 53-54. MONUMENTOS MEGALÍTICOS: 31.Pego da Sobreira.388 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI Fig.Castro da Cola.. 12.Monte Machado 2... 58. 44.... 15.Monte Poço.Brejo. 5...Estavangil 3..Monte Pereiro.Monte Coito. 21.Pego... necrópoles. 5.Panoias. 41....Castelo de Garvão. 24. 63.-Cerro do Ouro. 25...Monte Prior 1 e 2. 61. 64.Favela Nova.. 37..Azinhal.... NECRÓPOLES MONUMENTAIS COM DOCUMENTAÇÃO: 1.Arzil. 30..– Localização dos monumentos megalíticos..Mouriços.Fernão Vaz 2.Nobres.Abóboda. 60. 2. 43.Vaga da Cascalheira. Luís.Fonte Santa. 71. 22....Castelão.. 17.. 16.Fernão Vaz 1..Hortinha. 57. 49.... 66.. 36. 68. 6.Cerro do Ouro.... NECRÓPOLES NÃO MONUMENTAIS (OU MAL DOCUMENTADAS): 18..Pego. 4... 33. 11. 7. 62. ACHADOS DE EPIGRAFIA EM NECRÓPOLE: 26. 34.Mealha Nova.Santa Anica 4 e 5... 70...Monte Velho. Arruda 2001: mapa 2 e Leisner 1965: taf.Fonte Santa..Antas do Meio. 45.Carapetal 2... 67.Guerreiros. 50-51.Arzil 1. 38. 32.Cruzes. 40. 65.S. 28. com modificações e documentação própria). 29.Casarão..Monte Queimado 2. 186....Chada...Estevangil 1. 8.Monte Prior 1.Azinhal. estelas epigrafadas e sítios dehabitat da 1ª Idade do Ferro da região de Ourique (Elaborado sobre Correia 1993: fig. 9.Nora Velha 1.Arreganhado.-Penedo. 20..Pego da Sobreira... ..Penedo. 10..Junqueira.Monte Machado 2. SÍTIOS DE HABITAT INSUFICIENTEMENTE DOCUMENTADOS: 59.-Fernão Vaz. 19.. 13. 14.

resultando não só na expulsão directa de ossadas. essa acidez natural/incrementada do terreno nunca foi quantificada ou tipificada. é contra naturam. mesmo considerando um processo de reinvenção da memória social pela usurpação dos espaços da morte alheios. na verdade.C. acrescentaram enterramentos de rito diferente (incinerações em urna). de forma generalista mas nunca discutida. a diversidade de soluções e a sua consequente visibilidade arqueológica são múltiplas. têm sido tradi- . Caetano Beirão (1986) avançou mesmo que o significado dessa suposta vaga de violações se prendia com a substituição da sociedade criadora das necrópoles monumentais por populações de origem céltica que predaram as “riquezas” dos túmulos daquela e. O segundo facto que se salienta na análise deste conjunto funerário pode derivar do anterior: nas sepulturas de inumação (ritual inferido pela ausência de cinzas ou carvões). Pêgo). Dois outros factos devem ser considerados na análise do mundo funerário sidérico de Ourique. deixando espaço para a criação de novas de mitografias e cosmogonias étnicas (Knapp e Ashmore 1999: 19). em Ourique. muitas vezes. outras preenchidas por terras e pedras. como adornos áureos. tendem a «apagar» dessa mesma paisagem a «história» dos «vencidos». puderam ser observados em escavação de monumentos megalíticos da área. Ao obliterar monumentos. então seria incompreensível a profanação dos en- terramentos de uma das componentes da hibridação. melhor visível nos seus monumentos funerários. a simbologia que estes apunham ao território é consequentemente obscurecida. verificou-se uma sistemática falta de restos osteológicos. como alegadamente teria sido feito pelas populações «célticas» ali recém-chegadas. lajes de cobertura surgiam frequentemente in situ e adornos foram encontrados nos locais ou mesmo ainda no interior das sepulturas (em Pardieiro. uma inferência conjectural induzida. situadas na periferia de monumentos maiores. propondo ter existido um saque generalizado dos túmulos da I Idade do Ferro através de um método uniforme. reconhece-se que. Verifica-se também que nos túmulos monumentais os objectos de ferro. a suposta apropriação de necrópoles de Ourique através do reuso de sepulturas ou introdução de incinerações periféricas após o saque. sabendo-se apenas que algumas estariam ocas sob as tampas. tal foi explicado como resultado das perturbações causadas pelas violações de sepulturas. menosprezou-se a informação estratigráfica de contextos supostamente remexidos. Beirão 1986: 62) sobre a presença de carvões e nódulos de cal no interior de alguns túmulos. pelo que a questão será. Ao princípio. simultaneamente. Cerro do Ouro. se se admitisse que essa osmose/entrada da componente “céltica” foi «pacífica». não foi publicada a estratigrafia do interior de uma única câmara funerária (além de um corte esquemático de Mealha-Nova). os processos de adição/substituição étnica num território. nos dois milénios a. Para o investigador. por exemplo na tholos de Malha Ferro (Viana et al. normalmente armas (lanças. Porém. pois as sepulturas de incineração em urna.Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 389 cavou na região. Nesta linha de raciocínio. de prata ou pasta vítrea. acidez que podia ser aumentada pelo próprio processo de putrefacção do cadáver inumado (e. Exceptuam-se um dente de criança em urna de incineração «arcaica» de Cerro do Ouro (Beirão 1986: 49-50) e esquírolas de ossos em Pardieiro e Nora Velha 2. Mas.g. quando impostos pela força. o que foi explicado (Beirão 1986: 62) como falhas ou precipitações no acto do saque. facas) e recipientes cerâmicos foram encontrados na posição original. et al. 1960: 23). Primeiro. que lhe fazia pressupor uma sistematização no processo. Por outro lado. que terá levado por vezes os perpetradores a abandona-los no local. e deposições de vários cadáveres no mesmo ambiente geológico que podem ter o dobro da antiguidade e no interior de estruturas não muito divergentes (no sentido em que são também câmaras semi-fechadas). enquanto que os primeiros surgiam quase sempre despojados de objectos (aos olhos de hoje) mais valiosos. o arrombamento pelas lajes de cobertura ou lateral das estruturas exentas. Actualmente. Dentro destas regras elementares. essa pilhagem teria sucedido na II Idade do Ferro. Na região que analisamos. irresolúvel. ou pouco perturbados. como já foi notado (Jiménez 2003: 90-91). encontravam-se imperturbadas. na periferia imediata ou até reutilizando as câmaras funerárias que se esvaziaram. Depois. 1970. Por exemplo. mesmo que esta fosse socialmente subalterna. como também em alterações micro-geoclimáticas que conduziram à degradação completa das remanescentes. hoje. resultando numa miscigenação étnica. Isto conduz-nos à necessária discussão sobre o ritual funerário praticado nas necrópoles do Ferro de Ourique. Jiménez 2003: 91). de Mealha Nova dispomos de informações confusas e contraditórias (Dias. ao registo funerário das necrópoles de Ourique permitiu engenhosamente abreviar o problema: seria a elevada acidez dos solos que conduziu à perda total de restos osteológicos das inumações. Como as evidências de perturbações nos espaços tumulares foram sistematicamente justificadas com supostas violações.

Mas a mesma observação é válida para Atalaia. durante a Idade do Ferro. Torres 1999).. Richard Bradley (1996) observou que os crânios humanos encontrados em lagos. que não deposição completa de cadáveres. costume que. Talvez seja até possível perspectivar que a zona de Ourique fosse culturalmente desfasada dessas áreas e que. ou a reutilização. errado. por arrasto. como também pela posição de espólios funerários no interior das sepulturas e pela insuficiente dimensão destas para sepultar cadáveres distendidos ou sequer em conexão na posição flectida. mas cujos espólios votivos permaneceram em relativa integridade.C. O autor sugere. leste-peninsulares. rios. implicou a deposição. nos séculos IV/III a. nela se possam detectar arcaísmos e persistências muito antigas. avançou-se (Jiménez 2003: 91) que o único ritual bem documentado é o da incineração. justamente. por isso. em cistas da Idade do Bronze. logo no 2. à semelhança do que se supõe para contextos do Neolítico. como nas práticas funerárias do megalitismo ou da Idade do Bronze. Há muito. Vale Feixe (Vilhena e Alves n. sem cortes abruptos. onde por vezes surgiam ossadas incompletas ou parciais. aduzidas por influências orientais (entenda-se. as primeiras. não só pela presença de cinzas ou carvões. Leite de Vasconcelos (1988: 206) observara que inumação e incineração são. Torres 2005). mediterrânea) ou. Para este período.C. Nas necrópoles monumentais do Ferro de Ourique. Antunes e Cunha 1986). A região compreendida entre os Altos Mira e Sado é um território interior. Para fases já avançadas na Idade do Ferro. sendo por elas substituídas na II Idade do Ferro (e. Cerro do Gatão e Cerro das Antas. as práticas funerárias com maior visibilidade para os arqueólogos porque são mais facilmente documentáveis. vindas da Idade do Bronze. como. existem sepulturas de tipo cista onde foi assinalada a presença de carvões: Atalaia (Schubart 1965). as práticas de inumações e de incinerações: num esquema evolucionista unilinear.p. Procurámos explorar estas incongruências entre o registo arqueológico e as interpretações que lhe foram dadas.º milénio a. et al. mas é demasiado linear. pontual ou sucessiva.C. exógenas. E não deixa de lembrar o reuso. em Punica: «Na terra ibérica é um abutre repelente que consome os mortos. E recorda Silio Itálico (25-101 d. O esquema não estará. parecem ter sido depositados depois de descarnados. de monumentos megalíticos durante o Bronze Final. et al. Em necrópoles da Idade do Bronze da região. et al. verosímil que algum tipo de combustão aconteceu no interior de cistas dessas necrópoles. segundo se diz. acções simbólicas que implicassem a transladação ou mobilização de ossadas ou parte de ossadas de sepulturas de necrópoles monumentais de Ourique. Tal permitiria explicar o porquê dos constantes sinais de perturbações observados no interior das câmaras sepulcrais. pois a opção entre ambos rituais de processamento de cadáveres. parece ter acontecido antes. Talvez tenham ocorrido até meados do 1.. Há já muito que diversos autores se pronunciaram sobre a presença de outro tipo de rituais. deligado do litoral. passaram a coexistir de forma transitória com as segundas. É igualmente possível o crânio tenha sido tenha sido remobilizado desde outro contexto. também a excarnação ou o insepultamento de corpos (Vilaça e Cunha 2005). Nada nos assegura que tenha sido propositadamente sacrificada para o efeito de criação do depósito votivo. em Ourique. que de alguma forma. destas em espectros de tempo mais ou menos curtos. desprovidos de recursos mineiros e agrícolas. a generalizada ausência de manifestações funerárias recuperáveis pela Arqueologia levou a que já se tenham admitido múltiplas soluções. portanto. morta por golpes de machado de pedra de tradição neolítica e que se apurou não ter sido ali originalmente enterrada (Beirão. proverbialmente pobre e periférico. 1999: 17-18). para além de inumação e incineração em monumentos megalíticos. no seu essencial. em caixa formada por lajes de xisto. vem já de longe». generalizado na Europa.390 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI cionalmente admitidas. em Nora Velha 2. É. porventura .C. nem que tenha sido o machado «ritual» conservado por muito tempo. “indígenas”. fosse propriamente para incinerações ou algum tipo de ritual envolvendo fogo. Corte Cabreira (Gamito. Para o Bronze Final do Ocidente Europeu.). mas tal não impossibilita que outros rituais pudessem ter existido em paralelo.). do crânio descarnado e sem mandíbula de uma mulher adulta. pois outras partes do corpo são ausentes ou sub-representadas. onde foram encontradas oferendas cerâmicas ainda de pé e ao centro de cistas (Schubart 1965). etc. recorde-se que o ritual de fundação do depósito votivo de Garvão (Ourique). Odemira e Milfontes (Veiga 1891: 140-143). 1985: 60. parcialmente montanhoso. esses ossos humanos circulavam entre os vivos.g. Não resulta daí estranho que o registo arqueológico da sua Idade do Ferro (especialmente os espólios funerários) seja concomitantemente pobre e pouco tocada pelas inovações aportadas pelo fenómeno orientalizante.. 1991). de forma acrítica e quase exclusiva. em toda fachada ocidental da península (Vilaça. Fernandes 1986: 75.º milénio a. pelo menos. quando comparado com o de zonas litorais e estuarinas e os vales dos grandes rios do Sudoeste peninsular (Arruda 2001.

especificamente de género (Correia 2002) e/ou status (Jiménez 2003: 90). A hipótese —que se admite ser dificilmente documentável— de reuso de sepulturas não resultaria demasiado estranha nestas necrópoles monumentais de Ourique. cujas oferendas funerárias incluíam. em Ourique pouco existe que sustente essa interpretação. Numa cista em fossa embebida na rocha xisto-grauváquica (potencialmente tão ácida quanto em Ourique). é excepcional ou atípico (ibidem). dado o esforço dispensado na construção destes túmulos monumentais. no que se denota a aplicação do conceito da Nova Arqueologia de evolução social unilinear oriunda de algumas propostas da Antropologia Cultural (Pearson 1999: 72). Já a noção de status das personagens colocadas nos receptáculos das necrópoles de Ourique parece radicar em analogias com o imaginário guerreiro e nobiliárquico medieval. As armas podem ter sido simbolicamente depositadas (frequentemente surgem inutilizadas) como insígnias distintivas da dignidade dos sepultados. dos sepultamentos após o III milénio a. Quando objectos de ambas as categorias surgem juntos.. (Barros. A predisposição em pensá-las como receptáculos inumações únicas radica na suposta individualização. oferendas compostas exclusivamente por adornos corresponderiam a enterramentos femininos. forçosamente. então existirá algum tipo de hierarquização social. primeiro. em posição flectida e decúbito lateral. Correia 1993. as deposições de armas encontradas nas necrópoles sidéricas do Baixo Alentejo são relativamente tipificadas e recorrentes (Jiménez 2003: 90). Personagens pertencentes as essas estirpes oligárquicas seriam agrupadas. estariam reservadas ao domínio masculino.C. Mas a obrigatoriedade da associação a itens bélicos ao género masculino parece ser perturbada. pontual ou repetida. se nem toda a gente seria ali tumulada. destas. pode ter existido um significado semântico na tipificação das panóplias. . Jiménez 2002-2003). Este paradigma parece assentar na presunção de que. em cemitérios gregários dos seus pares e/ou dos seus descendentes. E como estas. Jiménez 2001. na morte. e segundo. a abertura. provocaria perturbações pós-deposicionais conducentes à inexistência de vestígios osteológicos. cujos paradoxos residem precisamente em se encontrarem. 2002. tal como nas estelas de tipo estremenho do Bronze Final o conjunto de armas representadas é convencionado (Moreno 1998: 60-62).Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 391 mais antigo. em definitivo. assim convertidos numa espécie de “relíquias” pré-cristãs. já foi notado que.C. de que os espólios encontrados reflectiriam segmentações sociais. não é de estranhar. Correia 1993. para transladação ou remobilização de ossadas (ou mesmo o reuso das próprias câmaras funerárias). Torres 1999. Porém. fossem estes de fundo mais religioso ou da anciania. Os registos históricos e a Antropologia fornecem-nos abundantes exemplos de mulheres guerreiras e mesmo líderes guerreiras em África. pelo que a sua presença nas necrópoles do Ferro de Ourique não é. Ásia e Américas (Thorpe 2005: 5). pelo que essa associação de género feminino e armas descoberta em Silves. numa micro-região quase “fechada”. sinónimo da sua vinculação a actividades bélicas ou a caça lúdica de uma aristocracia proto-histórica rural belicosa.g. conjunto datado de entre os finais do século VI ao final do V a. como parte de um cerimonial que implicasse o culto de ossos de antepassados. arquitecturas muito elaboradas mas que evidenciaram espólios pouco magnificentes. foi recuperado o esqueleto de uma mulher adulta jovem. afinal de contas. et al. consistindo em associações de facas afalcatadas e contos e pontas de lança ou dardos em ferro.g. que na sua maioria foram inutilizadas pela quebra das pontas e das hastes de madeira. no Algarve interior. Alarcão 2001. Inumações ou incinerações individuais em túmulos monumentais demonstrariam um estatuto especial das personagens. e a sua associação a textos epigráficos e armas levaram essa linha de pensamento à suposição da existência de elites guerreiras aparentadas de tipo aristocrático em crescente afirmação social e em domínio (coercivo) sobre a comunidade. pela descoberta feita numa escavação em Silves. uma ponta e conto de lança em ferro. enquanto que as armas. em âmbito familiar e/ou linhagístico (e. no contexto regional. reflectida precisamente na edificação de construções funerárias sumptuosas para as classe privilegiadas. Extrapolando a mesma prática cerimonial para as necrópoles monumentais da Idade do Ferro de Ourique. a par de um pequeno vaso cerâmico e dezassete contas de pasta vítrea. a quem também se destinariam estelas figuradas e epigrafadas (e. representadas exclusivamente por lanças e facas de ferro. Diáz-Guardamino 2006). Assim. 2003). Essa rigidez deste tipo de mobiliário funerário parece obedecer a um código formal. ainda que até ao momento singular. a começar pela relativa uniformidade da arquitectura funerária e dos espólios associados (Arruda 2001: 284-285). Porém. Outra das razões dessa predisposição alicerça-se na forma como têm sido tradicionalmente pensadas as sociedades de momentos iniciais da Idade do Ferro: em progressiva complexificação social conducente à segmentação vertical e à criação de elites.

de tipo falange hoplita. escaravelho com cartela de Pedubaste) ou mais cuidados (cerâmica ornitomórfica) podem igualmente surgir em arquitecturas funerárias discretas na paisagem. efectivamente documentados. muitas vezes sucede precisamente o contrário – basta-lhe a honra e o prestígio (Clastres 1977. interno e/ou externo. não é frequentemente a mesma de líder da comunidade. se possível evitada. para além das aptidões defensivas das próprias topografias de implantação. mas até agora neles não se documentaram muralhas ou fortificações eficientes. Recorde-se. Isto não significa que a sociedade que as produziu fosse pacífica. Garvão. como aliás já era denunciado pela sepultura de tipo cista do Gaio. Alias. O cabo-deguerra. e necessários à construção de modelos teóricos tanto histórico-culturais. em vida (ou na morte). num acesso mais “democrático” às própria armas. sobretudo se atendermos a que ali foram abandonados objectos facilmente recuperáveis. e apenas de necrópoles. ainda que em diversos graus. A violência é transversal. São absolutamente ausentes. para poder afirmar a presença de conflitos reais (Pearson 2005: 20-25): existência de povoados efectivamente fortificados. Se é plausível que pode ter existido reutilização de sepulturas. possuidor de mais bens materiais do que qualquer outro elemento. na qual foram recentemente escavadas duas cistas (Deus e Correia 2005). exigíveis por concomitância. Mas o que destaca a componente funerária do Ferro Ourique do restante Sul português . a todas as sociedades humanas. espadas. marcas osteológicas de traumas causados por armas. armas de caça maior. Thorpe 2005). em contraponto com os poucos e privilegiados indivíduos antes detentores das longas espadas de bronze (Carman 2000: 149-150. as necrópoles foram iniciadas pelos túmulos de indivíduos fundadores de linhagens sobressalientes na sociedade. nomeadamente Fernão Vaz (Beirão 1986).. consequentemente. eventualmente. como Castro da Cola e. para que objectos de importação (contas de pasta vítrea. representações iconográficas de actividades bélicas. durante a Iª Idade do Ferro. e mesmo na região vasta onde se inserem. padrões de alta mortalidade entre varões. ter sido sepultado nestas necrópoles? Tradicionalmente. não existem. dada o seu carácter gregário. mobilização de ossos ou mesmo uma espécie de culto de relíquias pré-medieval. à imagem do que sucedeu em outros complexos monumentais no século V a. possuidores de (ou a quem foram dados na morte) equipamentos marciais normalizados próprios para acção em grupo. dardos e lanças podem também ser. quem pode. Pearson 2005: 29). situada a NE. destes indicadores. mais que um. Mas exemplos etnográficos demonstramnos que a condição de guerreiro. necessário ao manejo de longas espadas. mas também temida e. cujos descendentes terão ocupado os monumentos sucessivamente adossados ao primeiro que criou a tradição funerária do local. a este propósito. cuja “actuação” é normalmente regulada por convenções impostas pelo todo social (e não inverso) não é. que em Fonte Santa e Cerro do Ouro foram encontradas esculturas zoormorfas em argila. A sua presença em sepulturas poderá ser relacionável com o imaginário de uma actividade cinegética além-túmulo. fossas comuns. sugerindo o aparecimento de «castas» de combatentes de composição eventualmente mais igualitária.C. em Sines. talvez dois. ou mesmo de cabo-de-guerra. Conhecem-se sítios de habitat com níveis de incêndio. destruição ou queima de sítios de habitat. Associado às necrópoles monumentais de Ourique. mas isso ter resultado antes de uma destrui- ção cerimonial do edifício. de Ourique. Tal pode ter resultado de ou em importante alteração social.392 JORGE VILHENA Anejos de AEspA XLVI Facas. então. equipamento marcial (ofensivo e defensivo). pois nas sociedades ditas primitivas. a substituição de espadas de bronze por lanças de ferro como equipamentos marciais ofensivos preferidos resultou provavelmente na mudança de um tipo de liça mais individual. são temas recorrentemente integrados (ou implícitos) no discurso arqueológico. a par de utensílios bélicos. Por toda a Europa de inícios da Idade do Ferro. nestas necrópoles. como marxistas e processualistas. Exumaram-se armas ofensivas.C. como um machado e um obelos de bronze. O próprio carácter de itens de excepção dos espólios mais comuns das necrópoles de Ourique é posto em causa pelo ofertório de uma pequena necrópole do século VI a. pensa-se que. um tema repensado no âmbito da “reacção” pós-processual dos anos 90. actividade frequentemente conotada com a coragem pela proximidade que exigem às presas. mais adequado ao uso de lanças. concretamente partes de lanças. Corte Margarida. frequentemente. a arma de combate desde sempre apanágio das aristocracias guerreiras. a guerra é praticada. E a generalidade dos sítios do Ferro de Ourique situam-se em sítios planos e “abertos” (Beirão 1986). Este exemplo particular vem apontar. Existem ainda povoados em altura do Bronze Final com continuidade para o Ferro Antigo. Afinaram-se as evidências. para um combate em grupo cerrado. Foi.. a ideologia guerreira e a concepção de conflito.

ou que terá tido. é possível que um fenómeno semelhante ao tumulatio ad sanctos do cristianismo primitivo (Barroca 1987: 10-11) se tenha praticado nas necrópoles monumentais do Ferro de Ourique. de gente mais “comum” que procurava proximidade à santidade do lugar e/ou a sua “protecção” apotropaica depois da morte. poderia ter sido apetecível a anexação de outros túmulos.Anejos de AEspA XLVI AS ARMAS E OS BARÕES ASSINALADOS? 393 é. com normalização ou incremento do volume dos mausoléus. em parte contra muito do que se expôs atrás. a menos que. uma componente religiosa preponderante (Correia 1999. num local recôndito no fundo de uma depressão sem horizontes visuais e sem passagem. numa convivência com os mortos. com configuração arquitectónica própria (fossem os túmulos circulares ou rectangulares). propondo que inicialmente (período orientalizante) os edifícios monumentais terão sido eminentemente santuários de âmbito intra e intercomunitários. que não o de liderança. Outras análises empreendidas sobre a sociedade que as construiu apontam no sentido de uma isonomia ou reduzida estratificação social e para um número desmesurado de “chefes” nelas supostamente tumulados (Alarcão 1996. Pesem as enormes diferenças entre um sítio e outro (sobretudo de escala e arranque ou não em período orientalizante). uma espécie de homens-santos protectores da comunidade. devotados. aquela em que se enquadrará Fernão Vaz. de forma a realçar perante a comunidade a afirmação de um poder estabelecido ou em crescendo. sustentam a hipótese de este último se tratar inicialmente de um santuário (Celestino 2001): está intimamente associado a curso de água (o Mira. A admitir as hipóteses da remobilização de ossos e da utilização múltipla de sepulturas colocadas. mas não necessariamente pertencentes aos mesmos grupos familiares ou aristocracias de pendor beligerante. sendo em etapa posterior (pós-orientalizante). paralela à que associa necrópoles e estelas sidéricas com a heráldica e a aristocracia guerreira medievais. Os túmulos de planta circular também são os que têm morfologias mais estereotipadas. em que os túmulos seguintes ao primeiro parecem assumir disposição (orientação e proximidade) e configuração (relação entre volumes e modelos) de forma a ele serem afeiçoados. A usar também uma analogia. formar-se-iam necrópoles gregárias.). nesta como em todas as outras necrópoles. reservado a tais personagens especiais. nas primeiras. que não vê nem é . até esta altura. Fernão Vaz partilha com Cancho Roano muitas das características de implantação que. É efectivamente plausível que as necrópoles possam ter sido exclusivas de indivíduos especiais na comunidade. como o seriam artífices especializados. Admitindo. como se depreende do conjunto de Nora Velha 2. e. a correspondência entre as necrópoles monumentais do Ferro de Ourique e dois dos povoados conhecidos. maior do que se supõe. possivelmente. uma terceira interpretação conjuga as anteriores. Um bom exemplo estará na sepultura em fossa anexada ao kerb de Casarão. “apropriados” por oligarquias “civis”. mais conotados com o fundo religioso. Após a construção de um primeiro túmulo. a sua considerável e singular densidade. que a dimensão dos monumentos decai com o seu afastamento do primeiro e mais antigo e que este tem muitas vezes forma diferente (circular) e raramente é geminado a um semelhante. numa zona muito meândrica do rio). mas também pela manipulação ou exposição dos seus restos ósseos em cerimónias ou festividades cíclicas. a par da monumentalidade dos túmulos. Jiménez 2001). veneráveis. tal não compromete a sugestão de terem sido tumulados. Castro da Cola e Fernão Vaz. pelo menos de início. em parte. a tendência seria provavelmente a inversa. Verifica-se. afigura-se possível perspectivá-las também como santuários fúnebres de indivíduos que em vida podiam desempenhar papeis centrais na comunidade. que resultaria num excessivo número de linhagens neste espaço circunscrito. Caso isso fosse resultado de um processo de afirmação de lideranças políticas. enquanto que a Cola albergaria um volume demográfico maior controlado por uma estrutura sacerdotal. Personagens a quem pode ter sido pedida protecção ou cuja simples memória pode ter sido perpetuada não só pela erecção de túmulos especiais. confluíssem à região de Ourique funerais de personagens de âmbito geográfico muito mais vasto. mas sem “preponderância social” (Correia 1999: 28). ancorado na paisagem através de determinados códigos formais. anciãos ou personagens de especiais virtudes. por alguma razão. Com o tempo. À escala mais lata do Sudoeste peninsular. Arruda 2001: 284 ss. menores. Conjectura-se acerca do edifício de prestígio de Fernão Vaz que corresponderia a residência de uma elite aristocrática terra-tenente. mas conservando algumas das conotações religiosas (Mártin 2004). quer na presença de molduras rectangulares centrais. quer nas dimensões. por algum outro motivo. mas em quase todas as necrópoles do Ferro (e do Bronze) de Ourique se verifica a intencionalidade de criar elos entre sepulturas pouco destacadas ou mesmo de tipo sub-estrutura a grandes sepulturas tumulares monumentais. a princípio personagens religiosas ou.

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