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OGUNTEC: Uma experiência de ação afirmativa no fomento a educação científica através da educação
Endereço: Rua do Passo n° 04 2° andar. Largo do Carmo - Pelourinho Tel: (71) 32418708 e-mail:biko@stevebiko.org.br

Autores: Sheila Regina Pereira (1) , Leonardo Silva de Souza (1),Gabriela Gusmão (1), Lazaro Passos (2)
Orientador:Abraão Felix da Penha (3) (1) Colaborador(a) do Instituto Cultural Steve Biko (2) Diretor do Instituto Cultural Steve Biko (3) Professor da Universidade do Estado da Bahia RESUMO: A ciência e a tecnologia são conhecimentos que ao longo do processo histórico se constituiram em fortes elementos determinantes de lugares sociais. Em nossa sociedade o acesso a informação científica e tecnológica tem tido um papel dual em que por um lado nos concebe maravilhas em recursos e possibilidade, mas que por outro lado, sob o controle de certos grupos sociais e nações, contribui para o estabelecimento de um fosso socioeconômico entre grupos étnicos, entre homens e mulheres e as nações. É esse cenário que faz emergir dos movimentos sociais iniciativas como a do Instituto Cultural Steve Biko que através do programa OGUNTEC desenvolve ações de fomento à ciência e tecnologia para jovens afrodescendentes de escolas públicas de Salvador na perspectiva de oportunizar aos mesmos uma educação científica que lhes encorajem o ingresso nas referidas áreas e permita a melhor interação desse jovens com os avanços científicos e tecnológicos de nossa sociedade. O programa teve inicio em 2002 e já contabilizou resultados importantes, que vão desde uma maior popularização da ciência entre os jovens afrodescendetes até a aprovação de estudantes em cursos ligados a ciência e tecnologia em universidades do Brasil e exterior. Essa iniciativa é uma ação afirmativa que tem como principal referencia o reconhecimento do caráter racial e de gênero da exclusão científica e tecnológica no Brasil e nesse sentido mobiliza suas ações pedagógicas para a superação dessas barreira que tanto provocam o desperdício de talentos jovens por sua condição étnica e de gênero.

Palavra chave: ação afirmativa, educação científica, afrodescendentes, popularização da ciência

1.0 Introdução
A ciência é uma das atividades humanas que mais interferem nas relações sociais. Ela se constitui em um fator determinante na política de intercâmbio entre as nações, definindo o nível hierárquico destas e delimitando as possibilidades econômicas e de desenvolvimento de um país. Dessa forma, verifica-se que o fomento a ciência deve ser prioridade básica em uma política de estado, exigindo esforços no sentido de qualificar e ampliar o quadro de cientistas e tecnólogos à disposição de projetos e programas de interesses estratégicos. No Brasil, a lógica entre investimento na formação de cientistas, popularização da ciência e desenvolvimento social, apesar dos recentes avanços, ainda não encontrou espaço suficiente na agenda das políticas públicas. O número reduzido de profissionais brasileiros formados nas áreas de ciência e tecnologia e o baixo índice de escolaridade dos trabalhadores brasileiros demonstram a relevância e a necessidade de medidas impactantes para a melhoria do sistema educacional e para popularização da ciência.

2 O Brasil, em 2002, formou cerca de 63 mil profissionais em áreas ligadas à ciência e tecnologia, enquanto que a Rússia formou cerca de 203.000 mil . Em nosso país, pessoas inseridas em ocupações técnico-científicas ou com escolaridade superior em relação à população economicamente, era de apenas 19,6% em 2004 , enquanto que e paises como na Bélgica esse numero é de 55,2%[1]. Outro indicador bastante usado para avaliar a capacidade de produzir desenvolvimento econômico num país é o número de cientistas e engenheiros por mil habitantes: o Brasil tem 0,4 cientista e engenheiro por mil ha bitantes, contra 4,6 do Japão, 3,7 dos EUA. Esse número de cientistas e engenheiros é insuficiente para garantir um desenvolvimento econômico sustentável num cenário de intensa competição internacional. Com efeito, podemos afirmar que a não equalização desse problema de formação de quadros em C&T torna também inviável outras ações políticas governamentais na perspectiva do desenvolvimento econômico ou da conscientização da problemática ambiental. Além desses aspectos mais gerais do impacto econômico das diretrizes da política científica adotadas pelo país, não podemos nos furtar também de termos um olhar sobre os reflexos dessas políticas nos desníveis do conhecimento tecnológico entre os grupos sociais. Em que medida a exclusão tecnológica, a mais recente forma de afastamento dos trabalhadores dos meios de produção, do saber e conseqüentemente da qualidade de vida, estão determinando ou influenciando a dinâmica das relações dos grupos sociais no Brasil? Os números de indicadores como a exclusão digital, não deixam dúvidas a respeito do privilégio de determinados grupos sociais na apropriação dos meios tecnológicos, atualmente fundamentais para a inserção qualificada no mundo do trabalho e no acesso a bens culturais. A taxa de acesso aos meios digitais por raça está distribuída da seguinte forma: branca (15,14%), preta (3,97%), amarela (41,66%), parda (4.06%), indígena (3,72%) (Fonte: FGV-Fundação Getúlio Vargas). Ao focalizarmos a situação de grupos como a população afro-descendente (pretos e pardos), verificamos que indicadores como o da exclusão digital convergem com outro dado também importante, que é o baixo número de estudantes negros dentro das universidades brasileiras 2 . A falta de políticas afirmativas no campo da formação de cientistas e engenheiros contribuiu para restringir o saber científico e tecnológico a um seleto grupo de profissionais, que no Brasil, em sua maioria se concentram geograficamente nas regiões sul e sudeste do país (74 % dos cientistas brasileiros, em média, são formados nessas regiões, segundo dados 3 divulgados na revista do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado de São Paulo - Sieeesp n°256) e o perfil étnico e de gênero desse grupo não deixa dúvidas a respeito do papel do componente racial e do sexismo na concessão das oportunidades de ingresso nessas áreas. A adoção do recorte racial e de gênero em uma política de fomento a ciência e tecnologia traz uma perspectiva inédita, que pode contribuir muito para o avanço científico e tecnológico e para a melhoria na distribuição de renda e oportunidades entre os grupos étnicos em nosso país. As experiências com políticas
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1 Estes dados foram publicados pela Revista Desafios do Desenvolvimento, nº 02, setembro, 2004
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A pesquisa do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) a partir de dados dos questionários dos formandos no Provão de 2000 revela que em média os brancos detêm 79,7% dos diplomas dos cursos ligados a ciência e a tecnologia listados na pesquisa enquanto os estudantes que se declaram negros essa média cai para 2,04% e para a composição negros e pardo – o que constituiria a população de afro-descendentes a média é de 15,7%
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A média foi feita somando -se a media dos profissionais do sul e sudeste

3 para a diversidade em grandes centros tecnológicos em países europeus e nos Estados Unidos têm trazido excelentes resultados para as empresas desses países . No Brasil, essa falta de prática da diversidade pode estar nos custando muito caro, na medida em que, desde a aquisição do conhecimento científico à sua materialização em forma de inovação tecnológica, o processo é permeado por aspectos culturais. Nesse sentido, talvez ainda não tenhamos dimensão do salto qualitativo que se poderia alcançar na produção científica e tecnológica com a fusão das contribuições das diversas culturas que compõem a cultura nacional. É nesse cenário de exclusão racial e de gênero no ambiente científico e tecnológico que deve ser compreendido a fundação em 2002 do programa OGUNTEC : Programa de Fomento à Ciência e Tecnologia para jovens afrodescendentes, gestado pelo Instituto Cultural Steve Biko (ICSB). A referida instituição á j possui uma tradição de pioneirismo no campo educacional; em 1992, criou o primeiro curso pré-vestibular voltados para estudantes negros no Brasil (no que foi seguido por outras iniciativas semelhantes que se disseminaram no Brasil e que hoje se constituem em importantes centros promotores de desenvolvimento educacional e político de comunidades afrodescendentes) sendo essa iniciativa devidamente reconhecida, dentre outras homenagens, com o Prêmio Nacional de Direitos Humanos de 1999, cedido pelo Ministério da Justiça.

2.0 Objetivos
Promover a incorporação do saber científico ao ambiente cultural da juventude de Salvador na perspectiva de uma melhor inserção desses jovens na atual sociedade tecnológica, contemplando as demandas da exclusão racial e de gê nero.

2.1 Objetivo especifico
• • • Contribuir com a educação científica da população tornando a ciência e a tecnologia melhor conhecidas e difundida entre a parcela mais excluída da sociedade. Desenvolver as habilidades e competências em 35 jovens afro-descendentes de baixa renda para ingressarem nas áreas de C&T nas principais universidades (eixo elevação da escolaridade); Mobilizar 35 estudantes matriculados no projeto para serem multiplicadores da proposta, intervindo de forma qualificada no processo de ensino-aprendizagem desenvolvido em suas respectivas escolas (eixo elevação da escolaridade); • Desenvolver 17 atividades de popularização da ciência em escolas e comunidades de bairros (eixo popularização da ciência)

3.0 Material e Método

4 O programa Oguntec é um projeto no âmbito da ciência e tecnologia, que caracteriza-se pela busca de uma metodologia de incentivo aos jovens ,das camadas mais pobres para o acesso as áreas de ciências e tecnologias, sem esquecer as questões que influencia a sociedade, o ser humano e o meio ambiente. A proposta pedagógica é norteada por questões relacionadas à equidade de raça e gênero e a temática dos direitos humanos. Essa contribuição nos possibilitará uma maior confiança em nossos estudantes no que se refere ao emprego mais responsável das ferramentas tecnológicas e a contribuição desses para um desenvolvimento social sustentável. O Projeto trabalhou com 35 jovens negros do ensino médio de sete escolas públicas de Salvador, que através da proposta pedagógica do curso foram preparados para adiquirir habilidades e competências, pertinentes às áreas de ciência e tecnologia num período de 28 meses . Os estudantes foram selecionados mediante entrevistas, dinâmicas de grupo e testes objetivos. A metodologia empregada consistiu em desenvolver três estratégias de ação: Eixo Elevação da Escolaridade, Eixo Popularização da ciência e Eixo Inclusão Digital.

O Eixo Elevação da Escolaridade foi desenvolvido através do pré-vestibular OGUNTEC . Os 35 jovens,
cursando o primeiro ano do ensino médio, ficaram no projeto por dois anos, até conclusão desse nível de ensino. Nesse período, os jovens desenvolveram atividades de caráter formativo visando realizar os exames de vestibular na área de Ciência e Tecnologia nas universidades com cursos afins, preferencialmente públicas. O curso ocorreu em turno oposto ao de aula regular das escolas, com um caráter modular constituído pelas seguintes disciplinas e atividades:

DISCIPLINAS: Ciências da Natureza (Física, Química, Biologia), Matemática, Português, Introdução a Ciência e Tecnologia (ITC), Cidadania e Consciência Negra (CCN), Inglês, Informática, História e Geografia;

ATIVIDADES: OFICINAS (Informática), VISITAS INSTITUCIONAIS (visitas a instituições científicas e empresas de tecnologia), AULAS PRÁTICAS (o uso dos laboratórios para as aulas práticas é viabilizado através de parcerias com universidades, escolas públicas e particulares).

No Eixo Popularização da ciência desenvolvemos ciclos de palestras, exposições e oficinas sobre temas científicos relevantes às comunidades de bairro periféricos de Salvador, de forma a fazer uma aproximação entre esse público de baixa renda e os novos elementos trazidos pelo desenvolvimento tecnocientífico. As atividades tiveram um caráter itinerante e sendo aproveitado as estruturas do próprio Instituto Cultural Steve Biko(local físico do projeto), das escolas e associação de moradores ou outras organizações parceiras que possam abrigar as atividades do ciclo de palestras e exposições.

No Eixo Inclusão Digital tiveram cursos regulares de informática e a concessão do acesso livre à Internet aos usuários de baixa renda.

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3.1 Módulos do curso regular de Inclusão Digital:
• • INFORMÁTICA BÁSICA – Este módulo visa capacitar os participantes para os primeiros passos no uso do computador, abordando seu principio de funcionamento, suas principais utilidades INFOCIDAD@O – Nesse módulo os participantes aprenderam a utilizar as tecnologias para o acesso dos serviços público disponíveis em meio eletrônico. A p erspectiva foi potencializar agentes de organizações sociais para a comunicação e troca de experiências e possibilitar novas formas de organização (e-grupos); • INFORMÁTICA PARA CONCURSOS – Devido à demanda de usuários que prestam concurso, sendo que a info rmática é um dos conhecimentos básicos exigidos, esse módulo proporcionou o estudante um reforço de informática direcionado para resolução de provas de concursos públicos • EMPREENDEDORISMO DIGITAL – Este módulo objetivou fomentar o empreendedorismo utilizando as ferramentas de informática e comunicação. Nesse sentido os estudantes foram preparados para explorar as diversas tecnologias digitais para geração de emprego/trabalho e propor soluções para comunidades (banco de dados de profissionais, catálogos para comercialização de pequenos empreendimentos locais). Nas atividades de formação também será desenvolvida a capacidade criativa e o fortalecer do trabalho em equipe. A avaliação dos estudantes do pré-vestibular OGUNTEC – Eixo Elevação da Escola ridade – foi feita partir da análise do desempenho dos alunos em testes simulados com questões do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e dos principais vestibulares das universidades do país; além disso avaliamos a participação dos mesmos em atividades de cunho científico, político e social. O eixo de popularização da Ciência foi avaliado a partir das impressões colhidas do público alvo das atividades – pesquisa de satisfação. A avaliação do eixo Inclusão Digital será a partir de testes objetivos com os estudantes dos cursos regulares, pelo mapeamento das iniciativas empreendedoras oriundas da capacitação e pesquisa de satisfação.

4.0 Resultados e discussões
No Brasil é grande a concentração de negros analfabetos e com pouca escolaridade, refletindo baixa representatividade de negro no nivel superior como mostras os resultados do ultimo censo do IBGE. Em Salvador, cidade com aproximadamente de 80% de afro descendentes (IBGE 2000), a realidade não é diferente do resto do país, aonde apenas 7,5% dos negros economicamente ativo são universitários, enquanto que 28,3% dos não negros economicamente ativo estão entres os universitário[6] .Essa situação revela que, apesar dos avanços na área da educação a desigualdade social ainda permanecem. A população negra tem mais dificuldade de ingressar e permanecer no ensino superior fato que limita o progresso profissional e atua de forma a reforçar as dificuldades impostas pela discriminação racial.

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Figura 1 Percentagem da PEA com ensino superior completo Regiões Metropolitanas e Distrito Federal - agosto/2006-julho/2007

Segundo o IGBE, numa publicação temática do Censo 2000 sobre educação revela que, entre a população de 25 anos ou mais de idade (85,4 milhões), 5,8 milhões concluíram o curso superior (graduação, mestrado ou doutorado), o equivalente a 6,8%, e a proporção de brancos (9,9%) com esse nível é 5 vezes maior que a de preto(2,1%), pardo(2,4%) e indígenas(2,2%). Os dados referentes à cor das pessoas com nível superior concluído, por área de formação, mostram que em Ciências, matemática, computação, engenharia, produção e construção área ligadas às ciências exatas e tecnologia, predominam as pessoas de cor branca, seguidas das amarelas, pardas, pretas e indígenas.

Tabela 1 Pessoas com curso de nível superior concluído, por cor ou por raça, segundo as áreas gerais de formação - Brasil - 2000 Pessoas com curso de nível superior concluído Cor ou raça (%) (1) Total Áreas Gerais de formação Branca Preta Amarela Parda Indígena Total (2) 5.890.631 82,8 2,1 2,3 12,2 0,1 Educação 659.886 79,7 2,7 1 16 0,1 Artes, Humanidades e Letras 659.999 79,6 3 1,5 15,4 0,2 Ciências Sociais, Administração e 2.314.816 84,4 1,9 2,1 11,1 0,1 Direito Ciências, Matemática e Computação 546.265 80,9 2,2 2,9 13,5 0,1 Engenharia, Produção e Construção 567.093 85,7 1,3 4 8,5 0,1 Agricultura e Veterinária 126.228 83,4 1,1 3,6 11,6 0 Saúde e Bem- estar social 889.409 83,2 2 2,8 11,4 0,1 Serviços 54.728 82,1 1,9 1,3 14 0,3
Fonte:IBGE, Censo Demográfico 2000

O projeto OGUNTEC surgiu para despertar nos jovens negros e de classe baixa o interesse nas áreas de ciências tecnológicas, uma vez que sabemos da real trajetória do negro e de suas dificuldades em adentrar no mercado de trabalh o, e é somente por meio da educação. O interesse por este tema surgiu a partir da constatação de que jovens negros estavão presentes na universidade de forma desigual aos jovens brancos, no que se refere as carreiras de mais alto prestigio e status social.

7 Os alunos participantes do projeto Oguntec, são orindos de sete escolas públicas de salvador. Na tabela 1 está representados a caracteristicas dessa população. 68,2% dos participantes é do sexo feminino, esse resultado está indiretamente relacionado com o fator de que geralmente os adolescentes do sexo masculino na faixa etaria de 16 a 21 anos, procuram um emprego para ajudar no sustento da familia, e por conta disso muitos desses jovens não terminam o segundo grau e quando consegue concluir o ensimo médio não tem pespectivas de ingressar numa universidade, principalmente nos curso de prestigio social. A maioria dos alunos 72,7% tem renda familiar de até um salário mínimo. O desemprego é um fator que está presente na maioria das famílias, onde a principal fonte de renda é o trabalho informal, sendo isso uns dos principais motivos de abandono dos estudos pelos jovens, principalmente na área de ciência e tecnologias que requer estrutura de sustento representativa.

Tabela 2: Característica da população do Projeto Oguntec Sexo Feminino Masculino Idade (anos) 16 a 18 anos 19 a 21 anos Renda Familiar Até um salário mínimo Dois salários mínimos Mais de três salários mínimos Escolaridade materna Analfabeto Ensino fundamental Ensino médio Nível superior Escolaridade Paterna Analfabeto Ensino fundamental Ensino médio Nível superior Pessoas na família cursando o ensino superior Nenhuma pessoa Uma pessoa Mais de duas pessoas

% 68,2 31,8 63,6 36,4 72,7 18,2 9,0 4,5 54,5 36,4 4,5 9,1 59,1 27,3 4,5 63,6 22,7 13,6

4.1 DESEMPENHO ACADÊMICO:
No que se refere o desempenho acadêmico podemos dizer que é marcante a defasagem educacional com que os jovens chegam ao projeto. A ausência de conteúdos é uma das maiores desvantagens desses educandos quando da disputa por vagas universitárias. Isso prova que “[...] a escola pública não está preparada para promover um ambiente estimulante de educação científica e tecnológica” (BRASIL, 2007a). Nesse sentido o esforço do nosso corpo de professores foi muito grande para dar condições competitivas aos

8 alunos. Observou-se que a melhora do rendimento dos educandos foi possibilitada também por uma mudança de atitude perante os desafios educacionais- o que pode ser visto pela melhora relativa nos testes simulados. No ano de 2007 foi de fato o ano de comprovar essas mudanças no rendimento; os alunos foram inscritos em vestibulares de duas faculdades particulares e foram aprovados. Obtivemos 100% de aprovação no processo seletivo das Faculdades FTC- Faculdade de Tecnologia e Ciência e ÁREA 1 Faculdade de ciência e Tecnologia, nos diversos cursos na área de ciência e tecnologia oferecidos por essas instituições, engenharia elétrica, ambiental, mecatrônica e de produção química, sistema de informação, biomedicina, medicina e enfermagem. 25% dos alunos foram aprovados na primeira etapa do processo seletivo da Universidade Federal da Bahia nos cursos: Engenharia química, elétrica e ambiental, arquitetura e urbanismo, ciências contábeis e letras vernáculas com inglês . Esses resultados são significativos e mostra que os jovens negros de periferia tem muita capacidade de ingressar em cursos ligados a ciência e tecnologia. Essa conquista dos educandos foi tomada com cautela pela equipe pedagógica dada a diferença de nível de dificuldade das provas quando comparadas com os vestibulares das universidades públicas. Entretanto essa experiência serviu como preparação para as provas mais difíceis das universidades públicas. Outro fator importante foi a elevação da estima dos educandos que em outras condições nem se quer eram incentivados a ir além da conclusão do segundo grau.
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“Eu nunca pensei em fazer vestibular na minha vida. Para mim, terminar o terceiro ano já bastava. Aqui no Oguntec, eu aprendi ir mais longe” Aluno: Jordeson

“Depois deste projeto meu filho passou a estudar tanto. Este menino só quer estudar” Mãe do aluno Jordeson

4.2 DESENVOLVIMENTO SÓCIO-POLÍTICO:
Com relação ao desenvolvimento político e social desses educandos verificamos um crescimento exponencial em termos de visão critica da sociedade e o reconhecimento dos principais elementos que contribuem para sua condição de pobreza material e marginalização política. As atividades desenvolvidas na disciplina CCN (Cidadania e Consciência Negra) foram fundamentais para a o desenvolvimento do senso crítico, conhecimento da história social (sobretudo da população afrodescendente) e a elevação da estima. Além disso, o histórico de participação social da grande maioria dos professores (majoritariamente formada por exestudantes do Instituto Steve Biko) facilitou o tratamento transversal dos temas relativos a cidadania em que as questões raciais e de gênero tiveram grande espaço. Isso pode ser constatado pelo material didático trabalhado e pelos debates em sala de aula, a partir da vinculação dos temas de cidadania e os conteúdos voltados ao vestibular.

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Até o término desse a rtigo não foi publicado o resultado final do vestibular da UFBA.

9 Com efeito, a mudança de atitude dos educandos com relação ao seu próprio desempenho acadêmico além de contar com o permanente incentivo das discussões políticas em sala de aula, na qual a educação foi reconhecida como grande ferramenta de mudança social e política, lançou-se mão de atividades como visitas Institucionais a locais de fomento a ciência e empresas de tecnologia de forma a estimular o gosto pelas áreas de ciência e tecnologia. Nesse sentido foi bastante interessante verificar as boas impressões que os educandos tiveram com todas essas experiências:

“Hoje eu posso enxergar o quanto sou capaz. Antes eu era muito tímida nem conseguia falar, agora já falo e emito minhas opiniões. Eu aprendi no Oguntec” Aluna:Gabriela

“Sei do trabalho desta instituição, sei o quanto é séria para meu filho mudou em tudo. Veio a fortalecer o que queremos de melhor para ele.” Pai do aluno Flávio As ações do programa Oguntec voltada para a popularização da ciência, atingiram indiretamente varias escolas públicas de Salvador. Os estudantes do projeto dão palestras sobre diversos temas relacionados ligados à ciência, a tecnologia e as contribuições dos povos africanos e da diáspora p ara o conhecimento científico e tecnológico da humanidade. Todos os seminários e oficinas realizados pelo projeto são abertos ao público com o objetivo de aproximar a comunidade e ao projeto.

4.3 Atividades extra sala desenvolvidas pelo projeto:
VISITA A EMPRESA SOL EMBALAGEM

A visita a empresa Sol embalagem teve um impacto grande para os estudantes na medida em que os mesmos vivenciaram o dia-a dia da do emprego da tecnologia na indústria, além disso, tiveram condições de conversar diretamente com os funcionários e saber aspecto de funcionamento dos equipamentos e também aspectos sociais da relação capital-trabalho. Sob o ponto de vista pedagógico foi interessante para o professor da disciplina introdução a ciência e tecnologia contextualizar os conteúdos abordados e levar mais questões para a sala de aula.

“Foi interessante pelo fato de observar o funcionamento das máquinas de uma fábrica e o quanto é preciso ter conhecimento técnico para operar as máquinas” Aluna: Carolina Araújo MOSTRA CIENTÍFICA DA FACULDADE DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA

10 Nessa atividade os estudantes do programa foram convidados a participar da exposição científica da Faculdade de Ciência e Tecnologia –FTC na condição de espectadores e tiveram condições de fazer uma analise crítica dos trabalhos e buscar referencia para futuras produções similares – como é o caso de nossa atividades de popularização da ciência. “Pude observar como os projetos voltados às áreas de Ciência & Tecnologia não tinham uma relação para [como meta] beneficiar as pessoas de baixa renda”. Aluna: Marcela Ramos 5ª MOSTRA CIENTÍFICA JÚNIOR DA BAHIA Nessa atividade os estudantes foram convidados para participar da mostra de ciência Junior - evento integrante da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia de 2006 – nesse momento eles tiveram contato com jovens com aspirações semelhante à deles e isso reforçou neles a identidade com o conhecimento científico e tecnológico e reconheceram o impacto desses conhecimentos na sociedade. “Gostei muito porque observei o potencial de adolescentes como eu, falando de assuntos tão importantes para a humanidade” Aluna: Adriana SEMINÁRIO SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS E CICLO DE CARBONO O SEMINÁRIO SOBRE MUDANÇAS CLIMÁTICAS E CICLO DE CARBONO foi muito importante para suscitar a discussão sobre a problemática do meio ambiente e as conseqüências que essas mudanças refletem em suas vidas. Foi um caminho que encontramos para a formação de agentes multiplicadores da idéia do consumo sustentável e da preservação do meio ambiente atrelada as questões culturais e sociais as quais essas idéias estão associadas. “Cada palestra que participo fica mais curiosa com as informações que recebo. Com está palestra compreendi melhor o aquecimento global” Aluna: Mariene SEMANA NACIONAL DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA NA BAHIA Nessa oportunidade, os estudantes participaram das palestras e eventos referentes a ciência e tecnologia,

“Me senti mais responsável em ajudar o desenvolvimento da Ciência e Tecnologia do Brasil” Aluna: Jaqueline 10º ENCONTRO DE MATEMÁTICA DA UFBA (UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA)

“Pude ter um novo olhar da Matemática através dos jogos. Percebi a Matemática em movimento no nosso dia a dia” Aluno: Elinaldo

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PALESTRA: COMO A CIÊNCIA E A TECNOLOGIA PODEM CRIAR CONDIÇÕES DE MELHORAR E COMBATER AS MAZELAS E OS ÍNDICES NEGATIVOS EM RELAÇÃO AS POPULAÇÕES NEGRAS NO BRASIL E NO MUNDO QUE SE MANTÉM INALTERADAS E EM MUITOS CASOS AGONIZADOS?

“A falta de incentivo do Estado nas áreas de exatas nas escolas públicas vem determinando a ausência de profissionais nestas áreas” Aluno: Jordeson PALESTRA: MÉTODOS ANTICONCEPTIVOS Essa palestra foi bastante esclarecedora para os jovens e gerou um grande senso de responsabilidade. “ A importância da utilização dos métodos era desconhecida por mim” Aluno: Filipe Visita ao laboratório de física da UNICA- Universidade da Criança e do Adolescente na OAF(Organização do Auxílio Fraterno) e visita a base aérea de Salvador

Figura 2 Visita ao laboratório de física da UNICA- Universidade da Criança e do Adolescente na OAF

Figura 3 Visita a base aérea de Salvador

Primeira semana de Fisica e Matemática do OGUNTEC

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5.0 Conclusão
O acesso ao conhecimento científico e tecnológico dos jovens afrodescendentes soteropolitanos é uma importante via de redução das desigualdades raciais – e conseqüentemente das desigualdades econômicas. O que antes era visão de futuro se tornou uma realidade concreta, quando observamos a mudança desses jovens em relação a preocupação com a educação e especial à educação científica. De fato, a ciência foi incorporada ao ambiente cultural desses jovens, de suas famílias e da comunidade diretamente ligada e eles. O sucesso registrado nos vestibulares para as carreiras científica e tecnológica são resultado dessa reorientação educacional em que o legado de deficiências da escola pública está sendo superados a partir da motivação dos jovens e o investimento em sua auto-estima. É essa justamente a proposta da disciplina CCN – cidadania e consciência negra - em que os estudantes a partir do conhecimento de sua ancestralidade, e ampliação do seu conceito de cidadania conseguiram levar esse aprendizado para o seu desempenho educacional. Para além do CCN não podemos deixar de referendar a forma transversal com que a temática cidadania foi trabalhada nas diferentes disciplinas do projeto dando ao aluno uma visão coerente em sua formação. A nossa metodologia empregada no combate a exclusão racial e de gênero na educação em ciências mostrou -se eficiente, pois permitiu aos jovens do projeto novas alternativas de superação das desigualdades através da educação e possibilitou também um novo olhar sobre a “sociedade tecnológica” que vivemos. O papel multiplicador desses jovens em suas comunidades é um resultado importante, pois influenciam outros a despertar a curiosidade para o conhecimento das ciências e tecnologias, facilita a inserção de temas importantes, como a preservação do meio ambient e e melhoria de qualidade de vida, no seu cotidiano. Acreditamos que a introdução de programas de ações afirmativas como o OGUNTEC, em uma cidade como Salvador, traz um panorama positivo para os processos educacionais e mais especificamente para a educação científica, uma vez que, possibilita aos jovens uma preparação para uma melhor interação com os avanços científicos e tecnológicos da sociedade, sem descuidar do tratamento de elementos subjetivos como o racismo, o sexismo e outras formas de iniqüidades que têm impacto direto na auto-estima dos estudantes, inibindo o sucesso escolar e fazendo com que os mesmos não tenham o interesse em ingressar nas universidades e nem se vejam como engenheiros, físicos, matemáticos, médicos ou outras profissões de grande prestígio social e interesse estratégico.

6.0 Bibliografia 1 – BRASIL, Ministerio das ciencias e tecnologia; Disponibilidade de recursos humanos em ciência e tecnologia de alguns países, segundo seus componentes, em relação à população economicamente ativa (PEA) - 1995, 1999 e 2004 <http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/8488.html> 2- – BRASIL, Instituto Brasileiro de geografia e estatistica, Síntese de Indicadores Sociais http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/13042004sintese2003html.shtm 3 – BRASIL,Revista Desafios do Desenvolvimento, nº 02, setembro, 2004, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada-IPEA; Programa das Nações Unidas para o DesenvolvimentoPNUD; www.desafios.org.br

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4 - Escolaridade e Trabalho: desafios para a população negra nos mercados de trabalho metropolitanos; Ano 3 – Nº 37 – Novembro de 2007 5 – BRASIL,Instituto cultural Steve Biko ; www. Stevebiko.org.br