Noite de Natal – Sophia de Mello Breyner

Publicado Set Amor , Belém , Consoada , Consumismo , Contos , Crianças ,Diferença , Família , Histó rias de Natal , Histórias infantis , Mundo , Nascimento de Cristo, Natal , Noite de Natal , Pobreza , Solidariedade 11 Comments
O amigo Era uma vez uma casa pintada de amarelo com um jardim à volta. No jardim havia tílias, bétulas, um cedro muito antigo, uma cerejeira e dois plátanos. Era debaixo do cedro que Joana brincava. Com musgo e ervas e paus fazia muitas casas pequenas encostadas ao grande tronco escuro. Depois imaginava os anõezinhos que, se existissem, poderiam morar naquelas casas. E fazia uma casa maior e mais complicada para o rei dos anões. Joana não tinha irmãos e brincava sozinha. Mas de vez em quando vinham brincar os dois primos ou outros meninos. E, às vezes, ela ia a uma festa. Mas esses meninos a casa de quem ela ia e que vinham a sua casa não eram realmente amigos: eram visitas. Faziam troça das suas casas de musgo e maçavam-se imenso no seu jardim. E Joana tinha muita pena de não saber brincar com os outros meninos. Só sabia estar sozinha. Mas um dia encontrou um amigo. Foi numa manhã de Outubro. Joana estava encarrapitada no muro. E passou pela rua um garoto. Estava todo vestido de remendos e os seus olhos brilhavam como duas estrelas. Caminhava devagar pela beira do passeio sorrindo às folhas do Outono. O coração de Joana deu um pulo na garganta. — Ah! — disse ela. E pensou: «Parece um amigo. É exactamente igual a um amigo.» E do alto do muro chamou-o: — Bom dia! O garoto voltou a cabeça, sorriu e respondeu: — Bom dia! Ficaram os dois um momento calados. Depois Joana perguntou: — Como é que te chamas? — Manuel — respondeu o garoto.

Até que ao longe apitou uma fábrica. Ouviu-se tocar ao longe o sino de uma quinta. A luz da manhã rodeava o jardim: tudo estava cheio de paz e de frescura. leve e aéreo. — E onde é que brincas? . — É lá a tua casa? — É. E mostrou-lhe a casa da lenha onde dormia um gato. Por isso somos muito pobres. — Onde é que tu moras? — Além nos pinhais. E sentaram-se sob a sombra redonda do cedro. E foram os dois pelo jardim fora. Até que o garoto disse: — O teu jardim é muito bonito. — É lindo. vem ver. E mostrou-lhe todas as árvores e as relvas e as flores. Joana foi buscar pedras. O rapazinho olhava uma por uma cada coisa. E de novo entre os dois. passou um silêncio. É aqui que eu brinco. — É. Joana mostrou-lhe o tanque e os peixes vermelhos. Joana desceu do muro e foi abrir o portão. — Então? — O meu pai está no céu. Mostrou-lhe o pomar. — Meio-dia — disse o garoto — tenho de me ir embora. é lindo — dizia o rapazinho gravemente. E chamou os cães para ele os conhecer. Brincaram assim durante muito tempo.— Eu chamo-me Joana. — Aqui — disse Joana — é o cedro. E por esmola dá-me licença de dormir ali também. Às vezes do alto de uma tília caía uma folha amarela que dava voltas no ar. A minha mãe trabalha todo o dia mas não temos dinheiro para ter uma casa. as laranjeiras e a horta. mas não é bem uma casa. — Mas à noite onde é que dormes? — O dono dos pinhais tem uma cabana onde de noite dormem uma vaca e um burro. paus e musgo e começaram os dois a construir a casa do rei dos anões.

E foi assim que Joana encontrou um amigo. eram as pessoas crescidas que estavam lá dentro. com jornais velhos. Era como o interior de uma caverna cheia de maravilhas. com os animais e com as flores. Em cima da mesa havia coisas . E também um grande ovo de Páscoa feito de loiça encarnada com flores doiradas. passaram muitas semanas até que chegou o Natal. Saíam claros. Os copos passavam a sua vida fechados dentro de um grande armário de madeira escura que estava no meio do corredor. Joana deu uma volta à roda da mesa. tão frios e luminosos que mais pareciam vindos do interior de uma fonte de montanha do que do fundo de um armário. Esse armário tinha duas portas que nunca se abriam completamente e uma grande chave. e segredos. As flores voltavam as suas corolas quando ele passava. Joana esperava-o empoleirada em cima do muro. Era um amigo maravilhoso. com trapos e com pedras. Quando chegou ao andar de baixo ouviu vozes na sala grande. Não tinha licença de o abrir. Abria-lhe a porta e iam os dois sentar-se sob a sombra redonda do cedro. — Mas eu não posso sair deste jardim. cristais e pássaros de vidro. Mas Joana sabia que tinham fechado a porta para ela não entrar. coisas que não eram precisas para a vida de todos os dias. E daí em diante todas as manhãs o rapazinho passava pela rua. Brinco com as ervas. Agora brinco no pinhal e na estrada. Nos dias de festa. Os copos já lá estavam. Até havia um prato com três maçãs de cera e uma menina de prata que era uma campainha. Brincava com latas vazias. As velas estavam acesas e a sua luz atravessava o cristal. Volta amanhã para brincar comigo. Estavam lá fechadas muitas coisas. Dantes morávamos no centro da cidade e eu brincava no passeio e nas valetas. Só conseguia que a criada às vezes a deixasse espreitar entre as duas portas. caixas. do fundo das sombras do interior do armário saíam os copos. E no dia de Natal Joana pôs o seu vestido de veludo azul. Por isso foi à casa de jantar ver se já lá estavam os copos.— Brinco em toda a parte. Joana nunca tinha visto bem até ao fundo do armário. os seus sapatos de verniz preto e muito bem penteada às sete e meia saiu do quarto e desceu a escada. coisas brilhantes e um pouco encantadas: loiças. a luz era mais brilhante em seu redor e os pássaros vinham comer na palma das suas mãos as migalhas de pão que Joana ia buscar à cozinha. A festa Passaram muitos dias. frascos. transparentes e brilhantes tilintando no tabuleiro. E para Joana aquele barulho de cristal a tilintar era a música das festas. Pode-se brincar em toda a parte. Lá dentro havia sombras e brilhos.

Não vai ter presentes nenhuns. A Gertrudes tinha aberto o forno e estava debruçada sobre os dois perus do Natal. — O Manuel não. que era uma pessoa extraordinária porque mexia nas coisas quentes sem se queimar e nas facas mais aguçadas sem se cortar. com milhões e milhões de estrelas. Estava muito frio. Não pensava em nada. — O Manuel.maravilhosas e extraordinárias: bolas de vidro. mas o próprio frio brilhava. Virava-os e regava-os com molho. Cá em baixo era uma festa e por isso havia muitas coisas brilhantes: velas acesas. e mandava em tudo. A Gertrudes levantou a cabeça e parecia tão assada como os perus. — Ainda falta um bocadinho. Era o Natal. não posso adivinhar. Só o cedro tinha os seus ramos cobertos. — E achas que o meu amigo vai ter muitos presentes? — Qual amigo? — disse a cozinheira. — Gertrudes. As folhas das tílias. e sabia tudo. sem nenhuma sombra. por cima das árvores. copos de cristal. Depois voltou para casa e fechou a porta. menina — disse a criada. Mas no céu havia uma festa maior. era a escuridão enorme e redonda do céu. já estava toda doirada. muito esticada sobre o peito recheado. Os ramos nus desenhavam-se no ar como rendas pretas. Era uma festa. . bolas de vidro. Joana ficou algum tempo com a cabeça levantada. — Que presentes é que achas que eu vou ter? — Não sei — disse Gertrudes —. Abriu a porta e desceu a escada da varanda. ouve uma coisa — disse Joana. Mas Joana tinha a maior confiança na sabedoria de Gertrudes e por isso continuou a fazer perguntas. Então Joana foi à cozinha ver a cozinheira Gertrudes. E nessa escuridão as estrelas cintilavam. mais claras do que tudo. Então Joana foi ao jardim. Porque ela sabia que nas Noites de Natal as estrelas são diferentes. — O que é? — perguntou ela. E muito alto. pinhas douradas e aquela planta que tem folhas com picos e bolas encarnadas. Olhava a imensa felicidade da noite no alto céu escuro e luminoso. — Ainda falta muito tempo para o jantar? — perguntou ela a uma criada que ia a atravessar o corredor. Joana achava-a a pessoa mais importante que ela conhecia. das bétulas e das cerejeiras tinham caído. A pele dos perus.

— Mas porquê. Tinha compreendido que era «assim mesmo». Daí a uns minutos apareceram as pessoas grandes e foram todos para a mesa. Ela nunca se enganava. as pinhas doiradas. . — Isso não pode ser. Conhecia bem o mundo. O jantar do Natal era igual ao de todos os anos. Porque ela sabia que a Gertrudes conhecia o mundo. E sabia tudo o que se passava na vizinhança e tudo o que se passava dentro das casas de toda a gente. Em cima da mesa tudo brilhava: as velas. depois os pudins de ovos. — Mas é assim mesmo — disse a Gertrudes fechando a tampa do forno. E consolada com esta esperança Joana voltou a ficar quase tão alegre como antes. depois os ananases. as facas. Mas o que a Gertrudes tinha dito era esquisito como uma mentira. Os copos tilintavam com um barulho de alegria e de festa. E sabia todas as notícias. as coisas e os homens. De repente abriu-se a porta e apareceu uma criada que disse: — Já chegaram os primos. depois o bacalhau assado. de frutas e de legumes.— Não vai ter presentes nenhuns!? — Não — disse a Gertrudes abanando a cabeça. Joana ficou parada no meio da cozinha. E conhecia todas as receitas de cozinha. Com certeza que ele também tem presentes. E ninguém a podia enganar. Gertrudes? — Porque é pobre. Tinha começado a festa do Natal. depois as rabanadas. Amanhã o Manuel vai-me contar tudo. Então Joana foi ter com os primos. e todas as histórias das pessoas. Porque ela era cozinheira há trinta anos. O Natal é uma festa para toda a gente. Joana ficou calada a cismar no meio da cozinha. de peixes. E as pessoas riam e diziam umas às outras: «Bom Natal». com a peixeira e com a mulher da fruta. Todas as manhãs a ouvia discutir com o homem do talho. E vendo tudo isto Joana pensava: — Com certeza que a Gertrudes se enganou. os copos. as bolas de vidro. E há trinta anos que ela se levantava às sete da manhã e trabalhava até às onze da noite. Havia no ar um cheiro de canela e de pinheiro. depois os perus. Primeiro veio a canja. Gertrudes. sabia fazer todos os bolos e conhecia todas as espécies de carnes. Os pobres não têm presentes.

olhava. falando ao mesmo tempo. a vaca e o burro. Bom Natal — disseram eles. o Menino. a Virgem. Só ardiam as velas do pinheiro. Da árvore nascia um brilhar maravilhoso que pousava sobre todas as coisas. E no presépio as figuras de barro. ali estão os teus presentes. São José. minha querida. se tinha espalhado sobre a Terra. olhava. abriu-se de par em par a porta e entraram na sala. os livros cheios de desenhos a cores. E a porta fechou-se. a caixa de tintas. Mas era sempre como se fosse a primeira vez.No fim do jantar levantaram-se todos. Um dos primos puxou-a por um braço. Joana abriu um por um os embrulhos e as caixas: a boneca. À sua volta todos riam e conversavam. Joana olhava. — Boa noite. . O pai e a mãe de Joana também saíram. Era o Natal. As luzes eléctricas estavam apagadas. Era uma conversa que se via e não se ouvia. a bola. Todos mostravam uns aos outros os presentes que tinham tido. Era como se o brilho de uma estrela se tivesse aproximado da Terra. Às vezes lembrava-se do seu amigo Manuel. E são horas de as crianças se irem deitar. São quase horas da missa. — Joana. Então as pessoas começaram a sair. numa noite muito antiga. As pessoas grandes sentaram-se nas cadeiras e nos sofás a conversar e as crianças sentaram-se no chão a brincar. Joana tinha nove anos e já tinha visto nove vezes a árvore do Natal. E Joana pensava: — Talvez o Manuel tenha tido um automóvel. E a festa do Natal continuava. pareciam continuar uma doce conversa que jamais tinha sido interrompida. Até que alguém disse: — São onze horas e meia. E por isso uma árvore se cobria de luzes e os seus ramos se carregavam de extraordinários frutos em memória da alegria que.

«Que frio lá deve estar!». «Que escuro lá deve estar!». nem árvore do Natal. — Boa noite — disse Joana. Eu não digo fantasias: não teve presentes. Pôs-se a imaginar a Noite de Natal naquela casa que não era bem uma casa.Daí a um instante saíram as criadas. uma bola. — Gertrudes. A casa ficou muito silenciosa. Joana calou-se um momento. — Mas então o Natal dele como foi? — Foi como nos outros dias. Subiu a escada e foi para o seu quarto. Joana pôs-se a imaginar o frio. — Bom Natal — respondeu a Gertrudes. — E como é nos outros dias? — Uma sopa e um bocado de pão. Era a altura boa para falar com a Gertrudes. E Joana foi à cozinha. pensava ela. Os seus presentes de Natal estavam em cima da cama. Deram-me tudo o que queria. que estava na cozinha a arrumar as panelas. São tal e qual os presentes que eu queria. Gertrudes — disse Joana. Depois perguntou: — Gertrudes. E pensava: — Uma boneca. nem rabanadas. E sentada na beira da cama. . — Bom Natal. «Que triste lá deve estar!». pensava ela. Mas agora era melhor que a menina se fosse deitar porque estamos quase na meia-noite. menos a velha Gertrudes. Mas ao Manuel ninguém deu nada. Joana olhou-os um por um. Os pobres são os pobres. nem peru recheado. Tinham ido todos para a Missa do Galo. aquilo que disseste antes do jantar é verdade? — O que é que eu disse? — Disseste que o Manuel não ia ter presentes de Natal porque os pobres não têm presentes. E saiu da cozinha. Têm a pobreza. ao lado dos presentes. uma caixa de tintas e livros. a escuridão e a pobreza. mas um curral de animais. pensava. isso é verdade? — Está claro que é verdade. — Está claro que é verdade.

Os degraus estalaram um por um. Só viria na manhã seguinte. Joana abriu-a e saiu. Ninguém passava. sem muros nem árvores nem casas. Mas Joana tinha a impressão de que as coisas a olhavam e a ouviam como pessoas. Estava tudo deserto. O Alex e a Ghiribita ladraram. sou eu — disse Joana. Quando chegou ao fim da rua virou à direita e meteu a um atalho entre dois muros.» Foi ao armário tirou um casaco e vestiu-o. Pé ante pé Joana desceu a escada. dentro dos seus jardins. Estava toda a gente na Missa do Galo. mas ele era um rapaz e com certeza não gostava de bonecas. . Ao longe via-se uma grande sombra escura: era o pinhal. Depois pegou na bola. Uma noite altíssima e redonda e toda brilhante. Para que ele tenha presentes na Noite de Natal. — Sou eu. Na sala de jantar havia uma porta que dava para o jardim. E no fim do atalho encontrou os campos. abriu as portadas e através dos vidros espreitou a rua. pensou Joana. vindas da Torre da Igreja. Não se viam pessoas. tinham as portas e as janelas fechadas. a noite via-se melhor. Depois atravessou o jardim. — Amanhã vou-lhe dar os meus presentes — disse ela. As árvores pareciam enormes e os seus ramos sem folhas enchiam o céu de desenhos iguais a pássaros fantásticos.E começou a imaginar o curral gelado e sem nenhuma luz onde Manuel dormia em cima das palhas. E os cães. Apetecia-lhe levar também a boneca. As casas. A estrela Quando se viu sozinha no meio da rua teve vontade de voltar para trás. deixando-a ficar só fechada no trinco.» Foi à janela. «Tenho medo». Mas na cozinha a Gertrudes fazia muito barulho a arrumar as panelas e não a ouviu. aquecido só pelo bafo de uma vaca e de um burro. Mas resolveu caminhar para a frente sem olhar para nada. pensou ela. fortes e claras. calaram-se. esta noite. Depois suspirou e pensou: «Amanhã não é a mesma coisa. «tenho de ir hoje. as doze pancadas da meia-noite. planos e desertos. Tenho de ir lá agora. «Hoje». Ali. Àquela hora não passava ninguém. O Manuel estava a dormir. E a rua parecia viva. ouvindo a sua voz. Hoje é que é a Noite de Natal. Então ouviu. na caixa de tintas e nos livros. Então Joana abriu a porta do jardim e saiu. só se viam coisas.

Muito ao longe via. Os seus pés enterravam-se nas ervas geladas. perguntava ela. À medida que se ia aproximando dele. a estrela continuava a caminhar. Até que viu surgir entre os pinheiros um vulto muito alto que vinha caminhando ao seu encontro. e dançavam com grandes gestos.O silêncio era tão forte que parecia cantar. Parou a escutar. Ali no descampado soprava um curto vento de neve que lhe cortava a cara como uma faca. para além de todas as sombras.se a massa escura dos pinhais. verdes. «Tenho frio». E a brisa passava entre as agulhas dos pinheiros. Mas à sua direita não havia rasto. E olhava em todas as direcções à procura de um rasto. pretas e azuis. pensou Joana. Até que ficou enorme. E levantou a cabeça. E começou a seguir a estrela. «Será um ladrão?». pensou ela. roxas. Já no meio do pinhal pareceu-lhe ouvir passos. «Será um lobo?». E vendo-se assim rodeada de vozes e de sombras Joana teve medo e quis fugir. à sua esquerda não havia rasto e à sua frente não havia rasto. que pareciam murmurar frases incompreensíveis. Joana parou um instante no meio dos campos. . Mas continuou a caminhar. Mas continuou a caminhar. «Será possível que eu chegue até lá?». lentamente. pensou. Até que penetrou no pinhal. pensou ela. muito alto. uma estrela caminhava. O barulho dos passos aproximava-se. Então num instante as sombras fizeram uma roda à sua volta. Eram enormes. o pinhal ia-se tornando maior. «Como é que hei-de encontrar o caminho?». «Para que lado ficará a cabana?». pensou. E seguiu a estrela. Então viu que no céu. «Esta estrela parece um amigo». Mas viu que no céu. pensou Joana.

também eu vou com a estrela e o meu nome é Gaspar. roxas e azuis. — Também eu — disse o rei —. Até que chegaram ao lugar onde a estrela tinha parado e Joana viu um casebre sem porta. Pois o casebre estava cheio de claridade. E juntos seguiram os quatro através da noite. — Boa noite — disse ela. A sua cara era preta. — Também eu — disse o rei — caminho com a estrela e o meu nome é Baltasar. também eu vou com a estrela. E sobre essa claridade a estrela parou. — Boa noite — disse Joana. . E vamos com a estrela. — Chamo-me Joana e vou com a estrela. — O meu nome é Joana. E mais uma vez Joana ouviu um barulho de passos e um terceiro vulto surgiu entre as sombras azuis e os pinheiros escuros. — Boa noite — disse ela. E seguiram juntos através dos pinhais. porque o brilho dos anjos o iluminava. E juntos seguiram através do pinhal. E um vulto surgiu entre as sombras da noite. nem tristeza. E de novo Joana ouviu passos. — Como te chamas? — Eu. a brisa murmurava entre as árvores e os grandes mantos bordados dos três reis do Oriente brilhavam entre as sombras verdes. — Eu chamo-me Melchior — disse o rei.Mas o vulto parou na sua frente e ela viu que era um rei. — Boa noite — disse o rei. Já quase no fundo dos pinhais viram ao longe uma claridade. nem sombra. Tinha na cabeça um turbante branco e dos seus ombros caía um longo manto verde bordado de pérolas. Joana — disse ela. E perguntou: — Onde vais sozinha a esta hora da noite? — Vou com a estrela — disse ela. No chão. Tinha na cabeça uma coroa de brilhantes e dos seus ombros caía um grande manto vermelho coberto de muitas esmeraldas e safiras. E continuaram a caminhar. — Também eu — disse o rei —. Tinha na cabeça uma coroa de oiro e dos seus ombros caía um longo manto azul todo bordado de diamantes. os galhos secos estalavam sob os passos. Mas não viu escuridão.

E com as mãos postas os anjos rezavam ajoelhados no ar. 1989 adaptado . — Ah — disse Joana — aqui é como no presépio! — Sim — disse o rei Baltasar — aqui é como no presépio. ajoelhados no ar. Estava deitado nas palhas entre a vaca e o burro e dormia sorrindo. Em sua roda. O seu corpo não tinha nenhum peso e era feito de luz sem nenhuma sombra. Figueirinhas. estavam os anjos. à luz dos anjos. o Natal de Manuel. Sophia de Mello Breyner Andresen A Noite de Natal Porto. Então Joana ajoelhou-se e poisou no chão os seus presentes.E Joana viu o seu amigo Manuel. Era assim.