FACULDADE DE MEDICINA UFMG ALUNOS: FILIPE BORGES e GABRIELA PINHEIRO PROFESSORA: ROSANGELA TEIXEIRA DISPEPSIA

Dispepsia refere-se à dor epigástrica persistente ou recorrente, ou a um desconforto na parte superior do abdome relacionado com a refeição, que pode se caracterizar por saciedade ou empachamento pósprandial, náuseas, vômitos, timpanismo, sensação de distensão abdominal, cujo aparecimento ou piora pode não estar relacionado à alimentação e ao estresse. Azia (tipicamente uma dor ou desconforto em queimação na região retroesternal) é diferente de dispepsia. A dispepsia não se restringe aos sintomas relacionados às refeições, porque pacientes com úlcera péptica frequentemente informam uma dor não relacionada à alimentação. Com o acesso e uso generalizados da endoscopia, ficou evidente que existe uma explicação estrutural em alguns pacientes com dispepsia recorrente, e a maioria dos pacientes sofre dispepsia funcional (ou não ulcerativa). O aparecimento da dispepsia ou sintomas dispépticos pode estar associado a vários distúrbios do trato gastrointestinal superior como, por exemplo, doença ulcerosa péptica, doença do refluxo gastrointestinal, gastrites, neoplasias do trato gastrointestinal superior, doença do trato biliar e dispepsia funcional. Estudos populacionais em todo o mundo indicam que a prevalência da dispepsia gira em torno de 25%. Mas, nos EUA, apenas uma em quatro pessoas procura ajuda médica. Atualmente a dispepsia é definida como a presença de dor e/ou desconforto (sensação subjetiva não dolorosa que se caracteriza por peso epigástrico pós prandial, saciedade precoce, náuseas, vômitos, plenitude gástrica e/ou distensão abdominal) persistente ou recorrente, localizada no epigástrio. Manifestações clínicas Foi sugerido que pacientes com dispepsia funcional podem ser subdivididos em indivíduos com sintomas típicos de úlcera, como dor epigástrica relacionada com as refeições ou que os despertam de seu sono (dispepsia similar à úlcera), e aqueles com sintomas sugestivos de distúrbios motores intestinais, por exemplo, timpanismo pós-prandial ou saciedade precoce (dispepsia similar à dismotilidade). Embora essa classificação seja muito empregada na prática clínica, questionários sintomatológicos padronizados revelaram considerável superposição entre as categorias. Frequentemente, a dispepsia está associada a sintomas clássicos de refluxo menores, em particular azia; se houver predomínio dos sintomas de refluxo, até prova em contrário o diagnóstico será doença sintomática de refluxo gastroesofágico. Classificação Roma II Para se estabelecer o diagnóstico de dispepsia funcional (não ulcerosa): 1) Os sintomas devem ter duração mínima de 12 semanas durante os últimos 6 a 12 meses; 2) Presença de dor/desconforto no epigástrio de maneira persistente ou recorrente; 3) Ausência de doenças orgânicas, incluindo à endoscopia digestiva alta, que possam justificar os sintomas; 4) Sintomas não se aliviam exclusivamente com a evacuação e nem estão associados a possíveis alterações na consistência e/ou na frequência das evacuações (para diferenciar da Síndrome do intestino irritável). Classificação Roma III Apresentação dos sintomas por pelo menos três meses, contínuos ou intermitentes, com um mínimo de seis meses de duração: 1) Um ou mais dos seguintes sintomas: a. empachamento pós-prandial b. saciedade precoce c. dor epigástrica d. queimação epigástrica e

sensibilidade duodenal alterada a lipídios ou ácidos. raramente. malignidade. hipersensibilidade à distensão gástrica. mas de muita importância. sensação de fases no abdome sem distensão abdominal vivível. 2) Dispepsia Funcional Tipo Dismotilidade: desconforto abdominal é o sintoma predominante. hipersensibilidade visceral a ácido ou distensão mecânica. Deve ser crônico e caracterizado por um ou mais dos seguintes sintomas: saciedade precoce. na apresentação dos sintomas e na resposta ao tratamento é área de crescente interesse e de vários estudos. disfunção autonômica. Já a dispepsia funcional seria uma desordem heterogênea caracterizada por períodos de abrandamentos e exacerbações. Outros possíveis mecanismos fisiopatológicos sugerem distúrbios na acomodação gástrica ou relaxamento receptivo. apesar de os mecanismos fisiopatológicos e a causa não estarem totalmente esclarecidos. A dispepsia funcional pode ser dividida em três grupos. podendo acordar o paciente à noite. deve ser prontamente diagnosticada. Em geral. peso epigástrico pós-prandial. de acordo com o sintoma predominante: 1) Dispepsia Funcional Tipo Úlcera: dor epigástrica é o sintoma predominante. desconforto abdominal frequentemente agravado por alimentação. ela é denominada dispepsia orgânica. no mínimo. úlcera péptica. pelo menos temporariamente. Esvaziamento gástrico lento ou gastroparesia primária ou idiopática é uma condição em que ocorre um retardo no esvaziamento gástrico na ausência de obstrução mecânica. Portanto. Esta condição pode ocorrer em até 30% dos pacientes com diagnóstico de dispepsia funcional e pode contribuir para os sintomas. esofagite. e seu diagnóstico é em geral empregado quando. algumas vezes.2) Nenhuma evidência de doença orgânica (incluindo à endoscopia digestiva alta) que justifica os sintomas. por isso. em uma avaliação completa em um paciente que apresenta dispepsia. por exemplo. O mecanismo fisiopatológico ainda é desconhecido e o tratamento ainda não totalmente estabelecido. Caso a dispepsia seja secundária a uma causa específica como. Etiologia O efeito do gênero no mecanismo da dispepsia funcional. Apesar de as drogas pró-cinéticas melhorarem a função motora. alterações da função neuro-hormonal. ocorre após tempo prolongado sem ingestão de alimentos. 1) Úlcera péptica: na prática clínica. pancreatite. ânsia de vômito e/ou vômito recorrente. susceptibilidade familiar. Pode ser periódica. refluxo gastroesofágico (com ou sem esofagite) e. deve-se excluir UP por endoscopia gastrointestinal alta. 2) Refluxo gastroesofágico: suspeita-se em pacientes com desconforto ou dor em queimação epigástrico ou retroesternal predominante que se irradia superiormente na direção da garganta e é aliviada por antiácidos ou drogas antissecretoras. Mais de 50% dos pacientes com RGE patológico confirmado pela pHmetria esofágica de 24 horas não exibem . infecções do trato gastrointestinal. Diagnóstico diferencial As principais causas orgânicas de dispepsia a serem considerados são úlcera péptica crônica. parece haver algumas características específicas relacionadas ao gênero na dispepsia funcional. É uma doença com tratamento definitivo e. duas semanas. parasitoses intestinais ou neoplasias. antes que se possa diagnosticar com firmeza dispepsia funcional. colelitíase. não se consegue identificar a causa para os seus sintomas. infecção por Helicobacter pylori. por antiácidos ou antagonistas dos receptores H2. 3) Dispepsia Funcional Tipo Inespecífica: pacientes com dispepsia que apresentam sintomas vagos inespecíficos e que não se enquadram nos outros subgrupos. motilidade duodenojejunal anormal. co-morbidade psicossocial e estresse. É frequentemente aliviada pela alimentação e. náusea. com remissões de. não há relação entre a alteração na função motora e a melhora dos sintomas na dispepsia funcional.

Entretanto. a prevalência. alendronato. Lee. de forma que estudos detalhados para determinar as alterações nos sintomas e na qualidade de vida dos pacientes que foram submetidos ao tratamento para erradicação de H.3) 4) 5) 6) 7) esofagite endoscopicamente visível. Doença do Trato biliar: colelitíase causa tipicamente uma dor biliar intensa e constante no epigástrio ou no quadrante superior direito. Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP). Semiologia médica: as bases do diagnóstico clínico. Na ausência dessa dor biliar característica.. N. À ultrassonografia. são confundidos com dispepsia funcional. em alguns casos de cardiopatia isquêmica. Universidade de São Paulo (USP) . Jose de Laurentys. Vários medicamentos têm sido empregados com o objetivo de aliviar os sintomas. MEDEIROS. distúrbios metabólicos como hipotireoidismo e hipercalcemia. CECIL. L – Departamento de Cirurgia e Anatomia. não há evidência de que cálculos biliares estejam ligados à dispepsia. Câncer: é causa incomum de dispepsia recorrente (1% nos países ocidentais). Bibliografia LÓPEZ. pylori. 2009 2v “Dispepsia funcional: revisão de diagnóstico e fisiopatologia” – Matsuda M. drogas pró-cinéticas. GOLDMAN. persistindo durante horas e de ocorrência episódica. persistentes que frequentemente irradiam para as costas. Cecil medicina. Mario. História de excesso de uso de bebidas alcoólicas. Costa Maia. cálculos biliares podem ser encontrados em 1% a 3% dos pacientes com dispepsia crônica. erradicação de H. Doença pancreática: ela. digital. Rio de Janeiro: Elsevier. 5. suplementos de ferro ou potássio. Além disso. 23. como supressão da secreção ácida. pylori precisam ser feitos. Dispepsia induzida por medicamento: AINES. Discussão Nenhuma terapêutica isoladamente ou em conjunto parece ser totalmente eficaz no controle da dispepsia funcional. Dennis. aerofagia (causa distensão abdominal ou timpanismo). c2004. O alívio da dispepsia ocorre com a redução da dose ou interrupção da farmacoterapia. mas comumente seu achado é casual. Outros: diabetes mellitus. antibióticos orais (especialmente eritromicina e ampicilina). esses pacientes não devem ser erroneamente diagnosticados como portadores de DF. associados ou não. esses pacientes tendem a sofrer dores intensas. AUSIELLO. bem como alterações nos sintomas após a erradicação da bactéria no nosso meio. ou de fatores de risco para pancreatites. não há estudos epidemiológicos detalhados sobre a incidência. Ernesto de Almeida Troncon. a forma de apresentação e os sintomas causados da dispepsia funcional na infecção por H. ed. pylori e o uso de antidepressivos. ocasionalmente. Rio de Janeiro: Revinter. como também o carcinoma de pâncreas podem causar sintomas que. C.ed. porém um diagnóstico tardio pode afetar negativamente o prognóstico. Russell L.