TIME

“And you run and you run to catch up with the sun, but its sinking
And racing around to come up behind you again The sun is the same in the relative way, but youre older Shorter of breath and one day closer to death” Time, Pink Floyd

Tempo instantâneo, infinito, congelado, subjetivo, o tempo se apresenta de várias maneiras, dependendo da situação, por isso, acima de tudo, ele é relativo. Ele pode ser congelado no instante como na “ONDA” de Gustave Le Gray. O instante e preponderante nessa obra, tanto na forma de produção quanto na fruição. Bastaram menos de 2 segundos para o filme estar sensibilizado e menos ainda para sensibilizar quem a olhava pela primeira vez. Uma das primeiras fotos que utilizou a capacidade recém adquirida de menor tempo de exposição, possibilitou imagens mais nítidas. Essa nitidez se exprimiu, nesse caso, com a inédita captura de um instante de um movimento. Essa característica única deve ter causado um grande alvoroço nos grupos de fotógrafos, pois abria um vasto mundo de possibilidades, que culminariam no desenvolvimento da tecnologia cinematográfica. Mas se pensarmos na questão da criação, essa foto exigiu anos e anos de pesquisa, e só foi possível graças à genialidade de Le Gray, um cientista artista. Quantos filmes e anos não foram necessários para ele alcançar o resultado que ele esperava? Quantos artistas da época não tentavam capturar o ápice de um movimento e eternizá-lo na imobilidade do infinito? No início, era necessário que o objeto fotografado permanecesse imóvel, como se estivesse congelado no tempo, mas a partir de Le Gray houve a inversão; agora o objeto, por mais que quisesse se manter em movimento, seria imobilizado em uma fração de segundo. Movimento nada mais é que alteração da posição espacial. Quanto mais rápido temos essa mudança de posição, maior a velocidade do objeto. Mas, para percebermos essa mudança é necessário um ponto de referência, e quanto mais distante estamos do ponto de referência, menor é nossa percepção de velocidade, isso é deslocamento/tempo. Quando vemos uma pessoa se movimentando no “Pier em Espiral” de Robert Smithson do alto de um balão, temos uma percepção de tempo e espaço totalmente diferente da que tem a pessoa que está se movimentando. Na foto realizada por cima do Pier perdemos os pontos de referência que tornam aquela obra especial. Apesar do espiral na foto nos suscitar a sensação de movimento atemporal, o movimento que a obra exige para sua total fruição é o deslocamento espacial temporal, portanto ela é uma obra que

exige a participação física do observador, criando uma relação com o tempo de fruição diferenciada para com as obras estáticas. Apesar dessa obra estar estática, o observador não. Além de seu olhar, seu corpo deve se movimentar. E não dá para se pensar em tempo sem se pensar em movimento. Tempo e Movimento se confundem muitas vezes. Se o espaço parar de se expandir, as partículas pararem de girar, as forças pararem de interagir, o tempo pára também, ou melhor dizendo, o tempo deixa de existir. Por isso, o tempo é relativo pois o movimento é relativo. Sendo o tempo relativo, podemos dessa maneira aprisionar o tempo através de uma pintura, como a “ A estação de Saint-Lazare” de Claude Monet. O tempo que vemos aprisionado nessa obra, o movimento da fumaça dos trens, das pessoas, todos são relativos, e são subjetivos. É impossível um artista, por mais habilidoso que ele seja, pintar a fração de um segundo em tempo real. Mas é totalmente possível que essa fração de segundo seja assimilada pela mente e então representada subjetivamente. (subjetivo: que é próprio do sujeito ou a ele relativo.
Wikcionário).

Mas é no cinema que a ilusão se realiza. Uma obra cinematográfica é uma representação do movimento no tempo, uma sucessão de instantâneos (24 fps é o ideal), que geram a impressão de movimento. Apesar de cada uma das fotos estarem congeladas no tempo, quando devolvemos o tempo de onde ela foi retirada, a vida retorna. A lógica é a seguinte: no momento da captura de uma imagem, como os fragmentos de “Entr' acte” de René Clair, estamos imobilizando o movimento a uma taxa de 24 fotos por segundo. Ao devolvermos esse tempo para as fotos, nós representamos o movimento novamente. Isso comprova a relação indissociável entre o tempo e o movimento. Um não existe sem o outro. Mas René Clair vai mais longe e reduz a velocidade do tempo. Ao utilizar a câmera lenta, ele altera nossa percepção de tempo, mas não altera o tempo em si, pois o tempo está fixado na freqüência do filme. Diferente da fotografia, que permite uma fruição temporal autônoma, o cinema sacrifica essa liberdade de tempo para representar o movimento. E essa brevidade com que é apresentada os fotogramas, também são identificadas em outras obras, como o “Trenzinho” de Mira Schendel, feito de frágeis folhas de papel, penduradas em um fio. Essa fragilidade se contrapõe às obras clássicas, mas representa solidamente a efemeridade das nossas vidas.