IDENTIDADE, RÁDIO E GÊNERO1 Cláudia FIGUEIREDO-MODESTO2 Universidade Federal de Juiz de Fora Resumo: Este artigo lança um olhar

sobre a construção de identidade através da perspectiva de gênero na mídia radiofônica. As identidades são construídas a partir de algo que se narra. Esses sentidos estão contidos em histórias e memórias que servem de referências, de nexos para a constituição de uma identidade. Por isso, a discussão em torno da identidade acaba influenciada por questões sobre: lugar, gênero, raça, história, nacionalidade, orientação sexual, crença religiosa e etnia. O rádio tem sido canal para reivindicações de diferentes vozes, no entanto, contempla maior participação masculina em seus canais de produção, servindo de instrumento de propagação do discurso hegemônico paternalista. Este artigo lança um olhar sobre o discurso criado, recriado e veiculado pelos programas de rádio, apontando como ele tende a minimizar a importância dos papeis femininos contemporâneos. Palavras-Chave: identidade; rádio; gênero.
Abstract: This article takes a look at the construction of identity through gender perspective in the radio media. Identities are built from something that is narrated. These meanings are contained in stories and memories that serve as references, links to form an identity. Therefore, the discussion of identity has just influenced by questions on place, gender, race, history, nationality, sexual orientation, religious belief and ethnicity. The radio channel has been for claims of different voices, however, contemplates greater male involvement in their production pipelines, serving as an instrument of spreading the hegemonic discourse of paternalism. This article takes a look at the discourse created, recreated and broadcasted by radio, pointing as it tends to minimize the importance of women's contemporary roles.

Keywords: identity; gender; radio.

1. Identidade e rádio Entre outros feitos importantes, o século XX foi o berço do surgimento do rádio, um poderoso veículo de comunicação que assumiu um papel fundamental na narração da história desde então, transmitindo notícias, ideologias, modelos e valores.

Trabalho apresentado ao Grupo de Trabalho Estudos do áudio-visual, do III Ecomig, UFJF, evento integrante do VII Encontro Regional de Comunicação, Juiz de Fora, outubro de 2010.
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Graduada em Comunicação Social, Especialista em Globalização, Mídia e Cidadania (UFJF), docente da Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC) e mestranda do PPGCom Comunicação e Sociedade com linha de pesquisa em Comunicação e Identidades (UFJF), Juiz de Fora - MG, figueiredo.claudia@hotmail.com

percebeu a importância do rádio como forma de comunicação popular e democracia cultural em nosso país. devem democratizar o poder de comunicar. devem valorizar e incentivar a produção e transmissão de culturas locais. (FIGUEIREDO) O rádio tem sido canal para reivindicações de diferentes camadas sociais e trabalhadores dos mais diversos setores. apud LAHNI. 1999. 2009. Ele foi o primeiro a definir uma “alma” para o rádio no Brasil. O rádio. esta função tem sido incumbência das emissoras comunitárias autênticas. 3) Em um País como o Brasil. devem ter vínculo orgânico com a realidade local. interesses e cultura. repleto de regionalidades e particularidades capazes de identificar vários naipes de brasileiros em toda sua extensão. que as identidades são . o rádio surge através do médico. através dos autores que trabalham com o conceito de identidade. a força do rádio é sua rápida capacidade de interagir com o público. ao mesmo tempo em que dá voz a diferentes sujeitos também é um instrumento de propagação do discurso hegemônico paternalista. a programação deve ser interativa. permitindo acesso do público ao veículo. Porém. autêntica. ainda não cumpre seu papel social como importante aliado das políticas públicas.418-419. (PERUZZO. termo utilizado por Lahni (2005. Sabe-se. o déficit social que até os dias de hoje apresenta seus graves efeitos.No Brasil. como Canclini. tratando de seus problemas. p. Para ser considerada eminentemente comunitária. p. Bauman e Hall. 2009) em suas pesquisas sobre o tema. Kellner. Silva. diminuindo assim. considerado “Pai do rádio brasileiro” e citado por vários autores como o grande idealizador do veículo. reconhecidamente o mais acessível e popular dos meios de comunicação. tendo como princípio a função de educar. esse tipo de rádio deve atender algumas características: Não devem ter fins lucrativos e sim ser um produto da comunidade. devem ter compromisso com a educação e cidadania. 2008. tem importante papel na construção das identidades dos sujeitos contemporâneos. Com raríssimas exceções entre as emissoras comerciais. antropólogo e educador brasileiro Roquette-Pinto. principalmente quando em 1922. com dimensões continentais. assim como outras mídias massivas. Castells. de transmitir conhecimentos e lições para os ouvintes. o rádio. Levando-se em consideração que o modelo de radiodifusão no Brasil é um serviço público do Estado executado por terceiros através de autorizações ou concessões.

em relação a um território e se organizaria em função de coleções de objetos. Segundo Hall (2006). Canclini (1995. de nexos para a constituição de uma identidade. nacionalidade. mas cujos efeitos se fazem sentir sobre todos nós: a globalização" (GIDDENS. multiétnica. orientação sexual. as identidades eram fixas. Era estabelecido que as pessoas que habitavam certo espaço teriam uma só cultura homogênea e uma só identidade. deslocamento e ausência de referentes fixos ou sólidos para as identidades. . Desta forma. A cultura se formaria. p. conservadas.construídas a partir de algo que se narra. a identidade é poliglota. Por isso. migrante e feita com elementos mesclados de várias culturas”. de acordo com o autor. Ao se manifestar em relação aos efeitos consequentes da nova situação global. raciais. crença religiosa e etnia. os padrões de conduta e ainda as características próprias de cada grupo humano. textos e rituais. p. 13) refere-se à “porosidade e fragilidade endêmicas de todas as fronteiras” e ao fato de que “todas as fronteiras são tênues. raça. gênero. a modernidade propicia a fragmentação da identidade. religiosas. memórias e imagens que servem de referências. as paisagens culturais de classe. que vem ganhando espaço nos estudos contemporâneos e dividindo opiniões. A identidade era espacialmente delimitada. Na percepção individual ou coletiva da identidade. etnia. Porém. linguísticas. No passado. O que existe agora é descentramento. essenciais e permanentes. história. raça e nacionalidade não mais fornecem localizações sólidas para os indivíduos. sexualidade. 2000. objetos e costumes diferenciariam uns dos outros de forma nítida. a discussão em torno da identidade acaba influenciada por questões sobre: lugar.5). somos impelidos rumo a uma nova ordem global que ninguém compreende plenamente. p. "Para o bem ou para o mal. de acordo com Canclini (1995). Este processo é uma das consequências da globalização. a cultura exerce um papel principal para delimitar as diversas personalidades. regionais e/ou nacionais. frágeis e porosas”. de modo que a língua. Bauman (2002. as monoidentidades foram dissolvidas dando lugar às múltiplas identidades. gênero. No entanto. uma identidade cultural enfatiza aspectos relacionados a nossa pertença a culturas étnicas. 129) afirma que “hoje. Esses sentidos estão contidos em histórias.

Tais narrativas facilitam a criação de identidades pelas quais os indivíduos se inserem nas sociedades. As narrativas e imagens veiculadas fornecem símbolos e mitos que ajudam a constituir modelos para a maioria das pessoas em várias regiões do mundo. poderoso ou impotente. antes afastados e desconectados. positivo e negativo. em diferentes regiões. mitos e recursos que ajudam a construir uma cultura comum para a maior parte das pessoas.i E.Se antes as identidades eram construídas com base na cultura. principalmente pelos meios de comunicação de massa. ou seja. moral e imoral. raça. bem sucedido ou fracassado. pela cultura da mídia. Conforme Jesús Martín-Barbero (1997) o rádio permitiu que grupos de diversas regiões de um mesmo país. uma redefinição do senso de pertencimento e identidade. mesmo nas regiões mais ermas. hoje. ele ainda é o principal veículo de comunicação da população. A cultura veiculada pela mídia ajuda a criar identidades pelas quais os indivíduos se inserem nas sociedades. etnia. 129). “rádio e o cinema contribuíram. os meios dominantes de informação e entretenimento são fontes profundas e muitas vezes não percebidas de pedagogia cultural: contribuem para nos ensinar como nos . na contemporaneidade elas são forjadas. As identidades se organizam cada vez menos pelos símbolos nacionais para se formarem a partir do que propõe a mídia. “A cultura veiculada pela mídia modela a vida cotidiana e fornece material com que as pessoas forjam suas identidades” (KELLNER. Presente em quase a totalidade dos lares brasileiros. na língua. no lugar. nacionalidade. nas imagens e nos rituais. na primeira metade do século XX. produzindo uma forma de cultura global. nos costumes. A cultura da mídia define valores de bom e mau. nos objetos. Numa cultura contemporânea dominada pela mídia. 9). p. sexualidade. o rádio foi considerado o veículo de maior credibilidade no país. se reconhecessem como parte de uma totalidade.ii As narrativas radiofônicas utilizadas abastecem as sociedades com símbolos. em muitos lugares. Para Canclini (2008. Os estudos culturais e de mídia revelaram que há. Kellner (2001) explica que a cultura da mídia fornece materiais com os quais muitas pessoas constroem seu senso de classe. de “nós” e “eles”. nas artes. para organizar os relatos de identidade e o sentido de cidadania nas sociedades nacionais”. p. A mídia fornece modelos daquilo que significa ser homem ou mulher. 2001.

religião. Portanto. o rádio no Brasil tem sido um lugar de fala quase que exclusivamente masculino. forjada ou real.Rádio e Gênero Gênero é um termo utilizado em referência aos aspectos psicológicos e sociais da masculinidade/feminilidade. Para Bhabha (1998). dos grupos (diferenciados por geração. Compõem esta identidade os valores subjetivos do sujeito. 2 .comportar e o que pensar e sentir. através do qual se produzem afirmações e se instituem práticas a respeito das diversas culturas.. gênero compreende os códigos culturais e as convenções associadas a um ou outro sexo. nas comemorações do centenário da Independência do Brasil. p. gênero. que de modo geral pode ser conceituada como um conjunto de características de um indivíduo que vão se construindo mediante as transformações histórico-sociais e culturais no âmbito da sociedade. em que acreditar. étnicas até sua sexualidade. o conceito de diferença cultural torna-se crucial na medida em que a diferença é vista como uma forma de enunciação da cultura. profissão. situação econômica e social). Era dia 20 de abril de 1923 quando a primeira emissora de rádio entrou no ar no Brasil: a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. das minorias. Neste sentido. 10) Bittar e Eufrásio (2008) analisam que a noção de identidade se refere às características da personalidade do gênero humano. etc. podendo ser diferente de sociedade para sociedade. ainda. suas características pessoais. Idealizado por Roquette-Pinto ao lado de Henrique Morizeiii. uma identidade individual ou coletiva. ou seja. e seu papel é definido culturalmente. havia acontecido aquela que . a importância dos meios de comunicação de massa como espaços nos quais as representações do que significa ser homem e do que significa ser mulher é inegável para a construção das identidades. 2001. Em 7 de setembro do ano anterior. perdida ou resgatada. etnia. como um processo complexo de significação. presumida ou ideal. o que temer e desejar – e o que não. (KELLNER. Desde seu surgimento. falsa ou verdadeira. É possível haver. o início das transmissões radiofônicas no Brasil foi marcado pelo amadorismo e desconhecimento da linguagem deste novo meio.

que instalou a primeira emissora de Minas Gerais. As primeiras emissões não seguiam uma regularidade. todos os envolvidos eram do sexo masculino. trataram de levar a novidade para suas cidades de origem. dividia-se em apresentações de música clássica. 26) Naquela época. de curta duração. (CERIBELLI. O novo veículo apresentou muitos desafios. pois o índice de analfabetismo era alto no país. vice João Bernardino Alves. a rádio mudou-se para o Parque Halfeld – no andar térreo da Biblioteca Municipal – sob a administração de Pedro Gonçalves de Oliveira. a décima do Brasil e a primeira de Juiz de Fora com o prefixo PRA-J. Entusiasmados com as possibilidades dos veículos. Em 1° de janeiro de 1926 foi oficialmente inaugurada a Rádio Sociedade de Juiz de Fora. Somente na década de 1930. diretor técnico Odilon Andrade. houve espaço para a ocupação feminina no espaço radiofônico local. Quando o controle acionário da rádio passou para o Governo do Estado de Minas. na cidade de Juiz de Fora. auxiliado . era mantido por contribuições dos sócios. p. 2000). diretor de programação João Paggy e técnicos. o secretário. 2002. a programação diária.ficou oficialmente reconhecida como a primeira transmissão radiofônica no País. Desde a diretoria até os locutores. a emissora juizforana chegou a ter 28 sócios conforme estatuto aprovado no dia 30 de setembro daquele ano. Não havia roteiro e ninguém dominava a linguagem radiofônica. o administrador da época optou por colocar seu grupo familiar no comando da emissora. A primeira diretoria da Rádio Sociedade era composta por José Cardoso Sobrinho. No início dos anos 20. o poeta Albino Esteves. diretor artístico Clemente José Monteiro. como presidente de honra. várias emissoras surgiram no Brasil. Como não havia recursos para o pagamento de salários. Floriano Pires e Luiz José Stheling. Em 1929. fundadas por indivíduos que estiveram presentes em 7 de setembro de 1922. Foi o caso do cirurgião-dentista José Cardoso Sobrinho. literatura e informação. restrita a poucos grupos. através do discurso do então presidente Epitácio Pessoa. Na década de 20. 1991. na Rua Tiradentes. (RODRIGUES. passando a se chamar PRB-3 (ACESSA. inclusive com a linguagem oral. p. presidente Odilon Alves. O estúdio instalado na casa de seu fundador. a sociedade conhecia uma tradição de mídia letrada. 13) Voltada para uma elite. a programação refletia os interesses dos representantes das emissoras.

(RODRIGUES. recepcionistas ou. (Idem) Efetivamente. fazendo locução de noticiários ou conduzindo programas. Mesmo assim. já com o médico e empresário Juracy Neves como proprietário.teve o cargo de Direção de Programação ocupado por uma mulher: a jornalista Elizabete Carvalho Gouvêa. Neste sentido.por seus filhos Walter Cavallieri de Oliveira como locutor. como acontece na maioria das grandes emissoras comerciais. 15) Em termos institucionais. Por mais que já tenham ocorrido consideráveis avanços na representação e presença direta das mulheres. 1997. p. que produzia e apresentava programas infantis. quando surgiram os concursos de calouros. a emissora . que tinha assuntos pessoais para tratar. Dificilmente encontramos mulheres na chefia de programação. mas elas quase sempre desempenham papel de secretárias. tratamentos de beleza e moda. cuidados com o lar e com os filhos. os cargos executivos e de direção continuavam sendo ocupados por homens. de fofoca. Mas é a única emissora juizforana a ter uma mulher ocupando cargo de direção ainda em 2010. p. percebe-se em muitas emissoras que o peso das determinações econômicas e de classe na construção das relações sociais anula ou minimiza o peso que tem o modelo machista predominante. Lígia Cavallieri de Oliveira como discotecária. (MATA. Irene Cavallieri de Oliveira como redatora. muitas começaram adotando pseudônimos. Somente na década de 1980. 2002. radioteatro e radionovelas e despontaram as primeiras cantoras e radioatrizes. simpatias. Como a rádio era mantida por uma só família. foram sendo atribuídas às mulheres ocupações menos “importantes” na grade de programação. dando continuidade ao modelo machista predominante na maioria das empresas e repetindo o discurso hegemônico que coloca as mulheres em condições inferiores em relação aos homens. a famosa “Tia Violeta”.que passou a ser conhecida por Rádio Solar . Porém. as mulheres só passaram a ocupar os microfones das emissoras de rádio. 26) Apesar da participação feminina. a identidade feminina é construída por . pois na época “mulher direita não trabalhava em rádio”. que continua à frente da programação da emissora nos dias atuais. Dentro das programações radiofônicas são destinados às mulheres programas de culinária. a partir dos anos 40. e sua esposa. funcionava em dois turnos: um das 8 às 13 horas e outro de 17 às 20 horas. o número de mulheres nos departamentos de cantores e radioatores foi sempre inferior ao de homens. a ordem hierárquica masculina se repete nas organizações de empresas de radiodifusão. E com o passar dos anos.

debates. p. falar da vida de artistas ou saber o que diz o horóscopo do dia. dá as notícias da capital. apresentador geral. Tuninho Malvadeza. direto de São Paulo. fofoqueiras” (MATA. Em recente pesquisa intitulada “30 anos do Show do Antônio Carlos: tradição e audiência diante das novas tecnologias” é possível ter um exemplo claro destas determinações de função de acordo com o gênero. Aos homens cabe a tarefa de informar através do radiojornalismo. há 20 no programa. 1997. p. veicula as notícias do Rio de Janeiro. já que a Rádio Globo serve de referência para a programação de rádios em outras localidades.meio de programas de entretenimento. (PINTO. Está é a equipe que compõe o “Show do Antônio Carlos” programa considerado o despertador do Brasil. transmite as notícias de interesse geral e as principais do Brasil. Zora Yonara é a taróloga e também dá as previsões do zodíaco. em São Paulo. e na sonoplastia. recriado e veiculado pelos programas de rádio tende a minimizar a importância dos papeis femininos contemporâneos. como se as mulheres tivessem suas vidas ocupadas por assuntos de menos importância. Gélcio Cunha. “Poderíamos afirmar que uma série de modos de se comunicar próprios das mulheres não são naturais senão construções culturais que revelam as marcas de gênero: as mulheres são identificadas como faladeiras. a Juju. companheiro de estúdio de Antônio Carlos. “janeleiras”. o show conta com Juçara Carioca. fofoqueira do programa e responsável pelo resumo da novela das 8h da TV Globo. Aldenora Santos. como trocar receitas. Com uma equipe de 11 profissionais. Karla de Lucas a produtora do programa. Carlos Maglio. que trabalham no ar. Carlos Antônio (filho do apresentador) é responsável pelas notícias de Minas Gerais. 25) Este discurso criado. às mulheres fica a tarefa de entreter. Ricardo Campello. também faz o quadro “Você faz o final da História”. até às 9h. informativos e jornalismo. enquanto os homens ocupam o comando de programas de entrevistas. . Edson Mauro e Maécio Ramos na parte de esportes. Este é só um exemplo do modelo reproduzido por emissoras de todo o Brasil. Antônio Carlos. servindo como referência para grande parte de brasileiros e brasileiras. Mário Duarte é o ouvidor do programa. acorda o Brasil às 6h da manhã e. O programa da Rádio Globo tem elevado índices de audiência e cobre toda a extensão territorial do Brasil. 16) Aos homens e mulheres dos programas são atribuídas funções diferentes. a Pudica. passa a simpatia do dia e produz alguns quadros. 2010.

“A ação à distância. É a verdadeira personalidade da voz. p. a oralidade. da expiração do ar contido no peito. a invisibilidade. assim como a cultura são importantes para a construção das identidades. pois adquirem sentido por meio da linguagem e dos sistemas simbólicos pelos quais são representados (WOODWARD. A percepção da importância da voz e o discurso do rádio jornalista abordada pelos profissionais e a criação de um estilo próprio ou de uma assinatura auditiva torna-se importante para demarcar fronteiras e estilos tanto entre os rádio jornalistas. o timbre e a intensidade de volume. p. o poder encantatório da palavra e da música são efeitos que continuam a desafiar o imaginário social” (MEDITSCH. 2005. . 2004. continua encantando o público e promovendo encontros entre pessoas que nunca sequer se viram. Ela preexiste a nós”. com as suas infinitas capacidades. O timbre é a qualidade do som. p. p.13) A voz emanada pela radiodifusão. individual. 40) lembra que “a língua é um sistema social e não. Se estes músculos vibram num número elevado de vezes por segundo a sua tensão aumenta. que nos permite distinguir uma voz da outra. Hall (2006. O tom de voz. Entre os profissionais do rádio há uma preocupação à cerca da voz. no entendimento deles. a altura da voz é maior e a voz eleva-se. A intensidade de volume é a força com que o som é produzido. bem como entre as várias estações de rádio. que. 2000. possibilita a criação de arquétipos físicos e psicológicos que evocam no ouvinte uma série de imagens preconcebidas que nem sempre representam com fidelidade as características físicas e psicológicas daqueles que a emitem. ainda hoje.A voz no rádio No fenômeno da emissão da voz. no caso locutores/locutoras.3 . a altura ou elevação da voz resulta da frequência das vibrações das cordas vocais. depende da potência. Portanto. p. sem contato físico evidente. distingue-se três elementos: o tom. (BESSA. a língua. A voz. 8). mas que constroem laços a partir do processo de comunicação pelo rádio. deve ser agradável aos ouvidos dos ouvintes. 27) Canclini (1995. 129) afirma que “a identidade é uma construção que se narra”.

67) “os indivíduos são identificáveis através do que dizem. 2006. p. revelando imediatamente a sua posição social e até a sua experiência de vida”. lendo notícias para rádio. Professora da Universidad Pontifícia de Salamanca. p. Há preferência pelos tons mais graves. apresentado no Congreso Internacional Mujeres. e 121 (78%) atuam em radiodifusão comunitária de baixa potência. Conclui-se. que este universo do rádio brasileiro é eminentemente masculino e a proporção. mantêm-se entre as comerciais e as comunitárias. há predominância das vozes masculinas em detrimento das femininas. 85% são homens e 15% mulheres e o percentual de gênero nas emissoras comerciais é similar: 70 e 30%. nas mulheres a voz grave agrega atributos como sensualidade e libidinagem. Hombres y Médios de Comunicación. Enquanto que a voz grave a eles atribuída gera um modelo de supremacia. maioria expressiva nas ondas médias. em gênero. . inclusive entre as vozes femininas. chegou à conclusão que as vozes preferidas pelos ouvintes são aquelas que se situam num registo grave para os homens e grave e médio-grave. Uma única palavra o pode ‘denunciar’. (GOMES. No meio radiofônico. Um estudo realizado por Emma Rodero. a que se propunha o escutar de uma série de vozes masculinas e femininas com diferentes tons. 2004. 82% são homens e 18% mulheres. e cujo objetivo era determinar quais as vozes mais agradáveis para a informação radiofónica e procurar explicar a razão das escolhas. no que respeita às mulheres. p. intitulado “El Tono de la voz masculina e feminina en los informativos radiofónicos: Un análisis comparativo”. 5) Gomes (2006) aponta em sua pesquisa “Formação de radialistas na era da inclusão discursiva: uma reflexão sobre a condição comunicativo-educativa do rádio no campo das políticas públicas” uma participação masculina até quatro vezes maior que a feminina entre os radialistas brasileiros. E mais ainda. Deste total. Dos 155 radialistas pesquisados. 74) Os resultados destas pesquisas apontam para uma monopolização deste espaço pelos homens. (BESSA. 34 (22%) atuam em emissoras comerciais. em Novembro de 2001 e que resultou de uma investigação com um painel seleccionado. se expressam e como a sua voz é levada até aos com quem interage. portanto. em Valladolid. No sub-sistema comunitário.Para Barthes (1981.

p. Camacho e Mata (1997. 1516) . apontados por Hermosilla. 14). uma roupa. jovens. mas que eu posso desejar ser. 1998. Uma participação mais efetiva funcionaria como mecanismo de revalorização do feminino e suas potencialidades. e a diferença é estabelecida por uma marcação simbólica relativamente a outras identidades” (WOODWARD. Para enxergar uma mulher parte-se de um produto – seja um automóvel. p. O que é específico da mulher. p. capazes. trata-se de reconhecer a escassez da voz feminina no veículo. estudos sobre a relação entre mulher e rádio popular. No que tange a participação feminina no rádio. na verdade. famosas. Neste sentido. “A identidade é. 40-41). 2000. relacional. o discurso reservado às mulheres vem contaminado por preconceito.No entanto. (KEHL. que têm sucesso e podem decidir o que bem entendem. Assim. um par de sapatos ou um creme para a pele – ou da sua comparação a um animal. Garcia (2007. sem que tivesse consciência de que aquela era a verdade do desejo de alguns homens ¾ sujeitos dos discursos médico e filosófico que constituem a subjetividade moderna ¾ e não a verdade "da mulher". p. concluíram que a participação feminina no veículo constroi modelos positivos para as mulheres: As “mulheres radiofônicas” constituem modelos de identificação e a elas se lhes dá todo tipo de atributos.11) afirma que “o referencial passou a ser diretamente o objeto ou o animal. p. 2006. as “mulheres radiofônicas” servem de referências para possíveis projetos de vida profissional e pessoal de sua audiência feminina. a partir da qual foi sendo estabelecida a verdade sobre sua "natureza"'. deboche e machismo. 39). em sua posição tanto subjetiva quanto social. com interesses opostos à plena emancipação feminina e a esmagadora presença masculina nas emissoras de rádio. é a dificuldade que enfrenta em deixar de ser objeto de uma produção discursiva muito consistente. 4 – O discurso no rádio Em uma mídia controlada por grandes grupos econômicos. “Eu sei quem “eu” sou em relação com “o outro” que eu não posso ser” (HALL. As identidades são sistemas de referências e também são marcadas pela diferença. as locutoras são identificadas como mulheres bonitas.

produtos de limpeza. a partir daí. assuntos econômico-financeiros. categoricamente. colocandoa numa condição de suposta inferioridade. "a única diferença entre um homem e uma mulher é que a mulher é também mulher". Considerações Finais As diferenças culturais têm tanta possibilidade de serem consensuais quanto conflituosas. 2001. O feminino aparece reduzido à sua expressão mais simples: consumidoras domésticas (eletrodomésticos. e assim são as identidades: uma zona de conflito. marginalidade e violência. 328-329). 2005. p. 7) Os ditos populares machistas. (FISHER. a construção da identidade é uma experimentação infindável. cosméticos. móveis). p.Para Kehl (1998. mas. Tais considerações podem parecer exageradas. o mercado do sexo. sedutoras (moda. Definir o que representa ser o verdadeiro perfil identitário da mulher contemporânea. do romance. percebe-se certa condescendência em relação à mulher profissional. da sexualidade da mulher de todas as faixas de idade e de todas as condições sociais indicam uma tensão entre as inúmeras conquistas das lutas feministas e aqueles universais que. só pode ser compreendido à luz das representações do ser . 83). “O campo da batalha é o lar natural da identidade” (BAUMAN. não haveria necessidade de "um lugar para A mulher n'O discurso". entre outras posições. as letras de música e as representações sociais que encontramos nos discursos radiofônicos colocam a mulher numa situação de opressão. Trata-se de amargas relações da mulher com os meios de comunicação de massa. p. A ausência de participação feminina em debates políticos. cuja atividade seria apenas um acréscimo às suas tarefas habituais. Quando a mulher participa de assuntos atribuídos ao mundo masculino. do corpo. Os modos como se constroem representações da afetividade. pois este jamais é uno e completo e as mulheres já se encontram nele como sujeitos e simultaneamente como objetos. em rigor. estratégias e objetivos sociais. colocam a mulher entre a falta e a sedução. nunca uma modificação da divisão “natural” do trabalho. questões jurídicas ou opinativas consagra o papel subalterno que a mulher é induzida a cumprir na sociedade. portanto. as piadas que achincalham as loiras. não são. obesas ou idosas. do amor) e reprodutoras (produtos para maternidade/crianças). na verdade.

ou seja. iii Referências Bibliográficas ACESSA. O grão da voz. Roland. Mariana Forbes. Site www. Ainda em direção à constituição da identidade pelo discurso. Radicou-se no Brasil em 1874. fluída e inconstante. A identidade é. Zygmunt.asp Acesso em 17/11/2009. Edições 70.feminino através dos anos. da Rádio Nacional da Amazônia.com. 1981. BESSA. sabe-se que a identidade é aberta. disponível em http://www. Belo Horizonte: Editora da UFMG. de contornos ilimitáveis. é necessário defender que o ato discursivo é crucial na formação do sujeito porque é no discurso. Acesso em 27 de abril de 2009. 2005. O vocal no radiojornalismo. Ao contrário. No entanto. naturalizado brasileiro. é um processo que perpassa por construções históricas ao longo do tempo do que significa ser mulher.br/internet/96142.uol. ii i A jornalista Mara Régia.acessa. BHABHA. Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências e diretor do Observatório Nacional.adnews.com. que a modelação de nós mesmos se torna realidade. A identidade da mulher não pode ser vista como uma mercadoria e com limites pré-definidos pelo gênero. multiforme. por natureza. Tese de licenciatura apresentada no curso de Comunicação Social. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi.html Acesso em 02/04/2010.. o grau de emancipação a que todas as mulheres têm direito não é reconhecido no conteúdo e no papel das emissoras de rádio do país. híbrida. geógrafo. no texto. astrônomo e engenheiro civil francês. divulgada em 10/11/2009. . Engenheiro industrial. BARTHÉS. O local da cultura. BAUMAN. Notas Pesquisa de mídia encomendada pelo Grupo Máquina ao Instituto Vox Populi.com. inacabada. da Universidade Nova de Lisboa. Ano letivo 2003/2004.br/seminarioderadio/noticias. Disponível em http://portalimprensa. afirma que o rádio ainda representa o único meio de informação naquele estado. Homi. do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. 1998. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. junto à impressão recebida por nós dos outros e do mundo.

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