Śivasūtra Um estudo realizado pelo Espaço Kaula :: Tantra, Yoga & Āyurveda Por Anuttara Kulācārya & Māḷikā [O estudo dos

sūtras aqui publicados foram retirados da Apostila de Estudo do curso sobre o Śivasūtra realizado pelo Espaço Kaula. As lições foram modificadas para publicação na internet. O estudo ocorre assim: o sūtra sempre segue comentado. Os comentários são baseados nas interpretações de Bhāskara (Vārttika) e de Kṣemarāja (Vimārśinī). No fim do texto há algumas meditações acerca da natureza do sūtra.]

Śivasūtra
Seção I

Śāmbhavopāya[1] Śāmbhavopāya,[2] como descrita no terceiro capítulo do Tantrāloka, no Tantrasāra e em outras escrituras Śaivas após Abhinavagupta, é a prática (sādhanā) da unidade – a prática de se visualizar toda a criação dentro de si mesmo como um reflexo ou projeção da própria Consciência ou Ser. Em outras palavras, é a prática de identificar a si mesmo com Śiva.

samvidātmani viśvoyaṁ bhāvavargaḥ prapañcavān | pratibimbatayā bhāti yasya viśveśvaro hi saḥ || Ele é o Senhor do Universo (Viśveśvara ou Śiva) no qual, em sua Consciência, todo o mundo de diferenças aparece como um reflexo. TĀ III: 268 Essa consciência unitária pressupõe uma metafísica absolutista que mantém que todo o universo é a expansão do Altíssimo na forma de aparência ou reflexo da Consciência. Por isso Abhinavagupta apresenta a doutrina da aparência ou reflexão (Ābhāsavāda ou Pratibimbavāda) sob o título de Śāmbhavopāya.[3] Quando alguém vive esta filosofia – i.e. quando alguém visualiza todo o mundo ao seu redor dentro de si mesmo como a aparência de sua própria consciência – então pode se transformar em um liberto em vida (jīvanmukta).[4]

Em Śāmbhavopāya nós podemos pensar em nossa unidade com o universo de três maneiras: 1. Tudo isso surgiu diante de mim (matta evoditamidam); 2. Tudo isso é refletido em mim (mayyeva pratibimbitam); 3. Isso não é diferente de mim (madabhinnamidam).[6] Este é um estado de amor universal onde cada um pode sentir-se como uma unidade com todos os elementos – em todos os níveis – ao seu redor. O conhecimento (parāmarśa) de que todo o mundo é sua própria projeção e, portanto uno consigo mesmo, não é simplesmente uma idéia, um pensamento mecânico meramente deliberado que se repete mentalmente e que, por fim, torna-se automático. Não é um sentimento artificialmente criado, mas ao contrário, é uma realização espontânea (nirvikalpa). A reflexão mental consciente é vikalpa. Aquilo que vem a mente de forma espontânea é nirvikalpa. A reflexão deliberada (vikalpa) acerca da unidade incondicional está associada ao recurso Śāktopāya, conectado a seção II do Śivasūtra, como veremos no decorrer do estudo. No caso do Śāmbhavopāya, esta reflexão espontaneamente brota do interior do adepto (nirvikalpa).[7] Das três Śhaktis – icchā, jñāna e kriyā – Śāmbhavopāya está associado a icchā, i.e. ao estágio de manifestação de Sadāśiva onde o universo está contido na Consciência na forma de unidade. É por isso que Śāmbhavopāya também é chamado de icchopāya.[8] Icchā, no contexto deste upāya (recurso), implica que no estágio de Śāmbhava o adepto adentra a um estado de completa sintonia com Śiva (Śiva-samāveśa ou Śiva-samādhi) apenas por sua vontade. Tendo cruzado os níveis de pensamento deliberado (bhāvanā), o adepto chega em uma fase que pode adentrar a morada do Senhor Śiva (śivāvasthā) por sua livre vontade. Considerando a hierarquia do Yoga físico, mental e espiritual, Śāmbhavopāya encontrase relacionada ao Yoga de nível espiritual. No Yoga espiritual o adepto se livra de toda egoidade e se torna uno com o grande todo. Este é o Yoga do amor universal. Os upāyas também se relacionam aos desdobramentos da kuṇḍalinī. Desta maneira, Śāmbhavopāya está associado a bodha-kuṇḍalinī, i.e. o despertar da kuṇḍalinī em níveis estritamente espirituais. Neste estágio a kuṇḍalinī é chamada de bodha ou jñāna porque aqui existe a sensação de união com todo o universo e um transbordamento de amor universal, uma característica das almas liberadas. Como no estágio de Śāmbhavopāya a reflexão e a visualização (parāmarśa) é espontânea (nirvikalpa) e não criada ou adquirida, ele somente é possível de se alcançar quando o adepto adquiriu um elevado estado de purificação após ter passado pelos estágios de Aṇavopāya e Śāktopāya. Em outras palavras, Śāmbhavopāya é o resultado de Aṇavopāya e Śāktopāya. Este recurso ou método (upāya) é conhecido pelo nome de Caminho de Śambho ou o Caminho de Śiva, pois não exige nenhum artifício que explique o que é o estado de Śiva. Portanto, neste estágio, o adepto se torna um yogī realizado em Śiva sem a utilização de técnicas físicas. O estado de Śiva é percebido naturalmente.

[6] matta evotitamidam mayyeva pratibimbitam | madabhinnamidaṁ ceti tridhopāyaḥ sa śāmbhavaḥ || TĀ III: 280. – Ātma: a Alma em sua totalidade. TĀ I: 178. a subjetividade que contém em si toda objetividade. Ele atua dentro da pura consciência indivisível que é reino de Śiva. 19. p. [8] tarādye svaparāmarśe nirvikalpaikadhāmani | yatsphuret prakaṭam sākṣat tadiccākhyaṁ prakīrtitam || TĀ I: 141. Portanto. TS 3. Praticando este recurso o yogī é transportado ao nível da Suprema Consciência pelo poderoso e direto estado de consciência desperta que é a realização da graça de Śiva. este é o recurso mais avançado no Śaivismo da Caxemira.Notas: [1] Este é o recurso divino. Para as mentes ocidentais. [2] Texto extraído do ensaio Os Meios para se atingir Mokṣa segundo o Śaivismo da Caxemira. Fernando Liguori. Natureza do Sūtra: [Śāmbhavopāya] Ātma é a consciência primordial caracterizada por absoluta liberdade de conhecimento e ação. livre de todas as constrições mentais. TĀ III: 274. Através deste recurso ele adquire a identidade com Śiva sem se ater a nenhuma forma de meditação ou prática espiritual física.[3] . (c) nirvikalpe parāmarśesśāmbhavopāyayanāmani. a essência do Ser. [3] Filosofia ou metafísica é tida por Abhinavagupta – e por toda tradição tântrica – como um meio de vida (sādhanā) que leva a realização da realidade interior. Mas os filósofos indianos consideram que uma acompanha a outra. a consciencia individual. isso pode parecer uma confusão entre filosofia e religião. TĀ I: 211. Tradução O Ser é Consciência. Sūtra 1[1] १[2] caitanyam ātmā – caitanya: a Consciência fundamental. (b) avikalpapathāruḍho. [7] (a) tenāvikalpā samvittirbhāvanādyanapekṣinī. a absoluta liberdade que a tudo conhece e se realiza em todas as formas. Eles geralmente perguntam: para que serve a filosofia se ela não pode ser usada na vida? [5] Ityevaṁ sakalaparāmarśaviśrāntimātrarūpaṁ pratibimbitasamastatattvabhūtabhuvanabhedam ātmānaṁ paśyato nirvikalpatayā śāmbhavena samāveśena jīvanmuktatā.

O Senhor Śiva não existe em um corpo como uma entidade material. tanto na matéria como em estados vibracionais além dela. Todavia. – anugraha – graça. Não existe mokṣa sem a graça de Śiva. tais como a eternidade. Nisso existe a intenção em demonstrar aqui a liberdade absoluta que não existe em nenhum outro ser. Então. . a capacidade de penetrar em tudo e em todos etc. – vilaya ou pidhāna – o ato de ocultar a natureza da Alma (jīvātman). tornando-o um realizador em toda a sua plenitude e consciência do mundo. Todos estes atos são realizados no estado espiritual e não na manifestação física. É o estado daquele que é desperto em sua manifestação com absoluta liberdade (divina) de conhecimento e ação para realizar sua livre atuação ou manifestação (paripūrṇam svātantryam).[4] A Atividade da Consciência é o que integra o Ser. Śiva é então classificado no Śaivāgama Yoga Śāstra[7] com liberdade de atuação por manifestar seus cinco grandes atos de manifestação: – sṛṣṭi – (√srj) deixar ir. A atuação Suprema é sempre na Consciência. mas se manifesta através de todas as entidades vivas (sensientes). o Senhor Śiva (Maheśvara). Śiva o revela ou manifesta-o. somente Deus pode realizar atos por ser completamente independente. densa. o Ser Supremo possui outros atributos em números infinitos. pois os atos são a forma independente (svātantrya) da vontade do Senhor Śiva (Maheśvara) e não a vontade de uma pessoa limitada enquanto no estado de matéria. o Supremo. – sthiti – o ato de manter o Universo. Segundo a filosofia Śaiva. – saṁhāra – o ato da Dissolução. todos estes atos do Senhor Śiva são realizados naquilo que a tradição chama de Estâncias da Alma. O Universo não é criado. possui esta liberdade.[6] Só o grande Senhor Śiva (Maheśvara).Explicação Este sūtra explica que a existência individual não se encontra fora do alcance da Consciência (acetitasya). Portanto. Este estado de caitanya dá ao yogī liberdade de ação em conhecer todos os elementos e todos os estados de consciência. chamamos isso de atividade dependente. O indivíduo é dependente da vontade de Deus. A existência individual não realiza atos de acordo com sua própria vontade porque não consegue. quando nos referimos a realização (das atividades) de um indivíduo manifestado em um corpo denso. elevando o indivíduo do estado de jīva a um estado conhecido como caitanya[5] que é transcendente e universal em toda sua forma. Caitanya é o estado que torna o ser absolutamente livre para conhecer tudo e realizar como lhe apraz.

Consciência Indiferenciada . Isso implica que a atividade da Consciência é a mesma para todas as coisas existentes. Portanto. esta tradição mantém que tudo o que é percebido existe como um objeto de percepção porque ele é percebido como tal. intelecto. e como este é um nome abstrato. Ela é livre de todos os meios (anupāya) e alto-iluminada (svaprakāśa). esta mesma Consciência é. o Vārttika. efetivamente. De acordo com Kṣemarāja em seu Vimārśinī. A Consciência tem o poder de fazer com que tudo e todas as realidades entrem em contato com ela e. com liberdade absoluta entendida aqui como Ātmā ou o Ser. e não outra coisa de natureza variada. Śiva não é inativo como o Brahman do Vedānta de Śrī Śaṅkara. como assumem os pluralistas da doutrina de bheda ou diferença entre os seres. nem o espaço. esteja ela em um estado consciente ou inconsciente (sarvasāmānyarūpa). em todos os níveis de consciência. É atravé desta atividade que nós podemos discernir a presença da Consciência e a experiência última de sua verdadeira natureza. a ignorância não pode obscurecê-la. Consciência é conhecida como Ser-Consciência e não há nada que possa obscurecê-la. o Absoluto sob todas as formas e além de todas as especificações. a pura consciência reflectiva do ego absoluto que é a subjetividade increada que é a essência da subjetividade concebida (kalpita) atribuida ao corpo. I . Todas as formas de disciplina espiritual pelo qual nós experienciamos a verdadeira natureza da Consciência são. obscuro e ambíguo aquele que denigre a natureza de Śiva? O Śaivismo da Caxemira ensina que. Portanto. a Consciência em si mesma. Assim. não existe nada fora da consciência e nada que ela não conheça. do ponto de vista prático. Deus (Śiva) é definido como possuidor de svātantrya que é Sua liberdade sem limites de atuação. Bhāskara em seu comentário. pois no Śaivismo. comenta: A natureza do Ser é Consciência que é tanto conhecimento (jñāna) quanto ação (kriyā).Segundo os Śaiva Āgamas. A Consciência livre que é o estado de Paramaśiva. a Consciência é perfeitamente livre e reconhecida pelos autores śaivas da Caxemira como a união de todo conhecimento (jñāna) e ação (kriyā). é livre de todas as coisas para se manifestar em todos os níveis e além deles. pois todos os outros seres dependem de Sua consciência autônoma para sua existência. Isso significa que. em um nível macrocosmico.[8] Contudo. mais do que qualquer outro de seus atributos. em termos microcosmicos. A presença desta Consciência Universal dá vida ao organismo psico-físico. Meditação . o que conhecemos como caitanya é a Consciência. ao mesmo tempo. É vago. é a chave para existência de todos os seres. Essa característica de Śiva como o Supremo tem sido indicada pelo termo caitanya (estado de ser consciente). alento vital e a experiência vazia do sono profundo. Tudo faz parte de sua Realidade. o tempo ou a forma pode dividi-la. exclui todos os demais atributos por si só. impelindo a atividade dos sentidos e da mente. Assim. Paramaśiva apenas goza desta liberdade. Consciência é puro Ser.

Um sūtra deve conter o menor número de palavras. – Medite pelo tempo que achar necessário. deve estar livre de . Você suporta todo o universo com sua consciência e o despertar desta consciência é o maior poder de cura que existe. 100 Meditação . I I I . O Ser é Consciência 2. Meditação . Se uma o mais se mostrarem mais poderosas a você. uma pessoa que contemple completamente considerando-se cheio dessa (Consciência) pode se elevar acima da existência transmigratória.१०० ciddharmā sarvadeheṣu viśeṣo nāsti kutracit | taśka tanmayaṁ saṛvaṁ bhāvayanbhavajijjanaḥ ||100|| O mesmo Ser caracterizado pela Consciência está presente em todos os corpos. Vijñānabhairavatantra. A Consciência é o Ser 3. Consciência é Realidade 5. Está é a meditação vipāssana do Śaivismo. A Realidade é Consciência 4. Todo sentimento ou sensação é Citi. citi Contemple. Consciência é tudo Contemple uma a uma dando tempo. Notas: [1] Sūtra aqui significa algo que mantém unidas certas idéias. o saṅkalpa: ‘meu corpo é Citi’. Meditação . para que insights possam emergir. I I . caitanyam ātmā O primeiro sūtra diz: caitanyam ātmā. I V . Consciência é um profundo oceano que contém todas as coisas. Contemple que dentro de sua brilhante consciência existe um amor ilimitado e uma inteligência luminosa. a cada uma delas. Tudo é Consciência 6. Não existe diferença nele e em nenhum lugar. Do latim. contemple sua consciência. fórmula. Contemple as seguintes possíveis traduções: 1. Contemple sua Consciência Com os olhos fechados. com seus olhos fechados. sutura. Portanto. Uma norma. medite mais intensamente na que lhe chamar mais atenção.

[7] Escrituras (śāstra) reveladas (āgama). A mente discursiva. Qualquer aparência é apenas expressão da consciência. o Ser-Consciência é a natureza da Realidade. onde exista aparência. 2. Uma aproximação seria tentar traduzir o termo como um estado consciente ou alerta. portanto. [6] Svātantrya significa lit. mas apenas para indicar uma relação (de dualidade sujeito-objeto). além de imperfeições. A Consciência que possui absoluta liberdade de conhecer ou realizar o Ser ou a natureza da Realidade. mas não no sentido de luz física. Nenhuma luz física como o sol. [4] Acetitasya significa aprakāśitasya (não aparecendo com a luz que é consciência). Ela brilha e tudo mais brilha por sua existência. 3. Sem prakāśa ou a luz da consciência nada é visível. não dependente de qualquer material ou meio externo para sua atividade. A absoluta liberdade para se criar inclui jñāna e kriyā (conhecimento e atividade). Podemos traduzí-la como consciência. Portanto o sūtra pode ser interpretado de duas maneiras distintas: 1. Śaivāgama Yoga é o Yoga do Śaivismo da Caxemira. um Ser ou um eu sem relação predicativa entre ele e seu atributo ou natureza. A Consciência plena é o ātman. deve ter sentido e amplo alcance de entendimento. conhecimento e atividade. A existência individual é a mente envolvida no ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Caitanya.ambiguidades. o Ser-Consciência (sat-cit) é o Ser. [5] Gramaticamente. não relacional (sem relação sujeito-objeto) e sem relação predicativa em sua forma essencial. É apenas por sua luz que todo o resto aparece.15): Consciência é a luz suprema. inseparável do condicionado estado relacional. liberdade absoluta para criar. como luz. Kaṭha Upaniṣad (II: 2. significa o estado de consciência e ser formado pelo prefixo taddhita que assinala um estado de relacionamento entre aboluta liberdade. e nem mesmo o fogo brilha mais que esta luz. não alcança ou concebe o que é caitanya. Cf. Não existe no português uma palavra equivalente a caitanya. i. É um termo técnico que comporta três importantes idéias: 1. o que indica saṁbandha ou relação. absoluta soberania (aiśvarya). as estrelas ou um relâmpago. existe prakāśa ou presença de consciência. Desta maneira. Prakāśa é a Luz da Consciência pelo qual até mesmo a luz física é visível. Toda aparência indica consciência. mas caitanya não é relacional. [3] Outras traduções cognatas podem ser: 1. 4. conhecido e o meio pelo qual se conhece. dependência de si mesmo. A Natureza da Realidade é Consciência. Não deve conter palavras inúteis e pausas. Prakāśa na filosofia indiana é uma palavra mais significante e podemos traduzí-la para o português. Tudo é Consciência. completa autonomia da Vontade. 2. 5. 3. [2] A palavra ātmā do sūtra significa tanto Ser como svabhāva (a natureza da realidade). vimarśa ou sempre presente auto-consciência. jñāna e kriyā. É por isso que Kṣemarāja qualifica caitanyam com a expressão sarvajñānakriyāsambandhamayam e adiciona paripūrṇam .svātantryam ucyate.e. 2. . caitanya indica absoluta liberdade de conhecimento e liberdade. a lua. Consciência é sua própria luz. imperfeitamente. o Ser que é conhecedor. a palavra caitanya é formada de cetana (essência da consciência) e pelo prefixo taddhita ṣyañ. Todos os sistemas de filosofia da Índia mantém que o Ser é pura consciência.

Este processo cognitivo ou conhecimento limitado é uma percepção múltiplo-diversificada que. obscurecido? O segundo sūtra responde que a escravidão do indivíduo se dá através de seu processo cognitivo limitado (jñānaṁ) o que é. a impureza de Māyā (māyīyamala) é escravidão. obscurece a verdadeira natureza da Consciência pelas noções de existência e não-existência. pois ele é dual. obscurecido? Quem se encontra escravizado. É isso que [o Senhor Śiva] foi dito no atigo aforismo. cognição. Seguindo a linha de pensamento de Bhāskara. prisão. o obscurecimento da Cansciência. Se o Ser é pura Consciência. A fonte para se eliminar este conhecimento limitado é entrar em contato com a verdadeira natureza interior inseparada da Consciência livre (svātantrya). Tradução Cognição é escravidão[1] Explicação Este sūtra é a resposta de uma indagação deixada em aberto no primeiro sūtra. Natureza do Sūtra: [Śāmbhavopāya] A escravidão do indívíduo empírico ocorre por sua condição de limitação inata.) Sūtra 2 jñānaṁ bandhaḥ – jñānaṁ: conhecimento. verdadeiramente.[8] Abhinavagupta escreveu: caitanyan iti bhāvantaḥ śabdaḥ svātantryamātrakam anākṣiptaviśeṣam sad aha sūtre purātane. associada com a noção de eu e isso é meu. É a impureza da individualidade (āṇavamala)[3] que obscurece o soberano poder da Consciência através do processo cognitivo limitado. Bhāskara. O único fator existente que impede a experimentação da Consciência livre em toda sua plenitude é a ignorância (ajñānaṁ) que gera o estado de limitação (mala). Este processo cognitivo limitado é o que podemos chamar de conhecimento diferenciado. o que é que se encontra escravizado. diz que o conhecimento [baseado nas noções de] ‘eu’ e ‘isso é meu’ surge incutido na fala[2] e consiste da percepção (prathā) das distinções relativas. . (A consciência [do mundo] é uma objetivação abstrata que expressa o conceito de liberdade. é a ignorância de nossa verdadeira natureza. que ocorre em detrimento da própria fragmentação da Consciência. cujo símbolo é a ignorância. portanto. de fato.e. discernimento. escravidão. cujo nome é āṇavamala e que. como ensina o primeiro sūtra. Ele é enraizado na impureza de Māyā que é escravidão. um processo de ignorância (ajñānaṁ). em seu comentário (Vārttika). limitado. [absoluto] Ser além de todas as especificações. i. – bandhaḥ: limitação.

Kṣemarāja. Se não despertamos para este trabalho espiritual e para este estado não visível aos olhos. percebendo o Ser além do ego. por outro lado. Por isso dizemos que descendemos. Como a forma deste processo cognitivo limitado resulta desta percepção e é baseado na distinção relativa que se apóia entre o sujeito e o objeto. i. a fonte infinitamente condensada (aṇu) através da falsa identificação com o organismo psico-físico. o sujeito universal. cujo resultado é. sua capacidade de conhecer e de atuar torna-se completamente restrita. confundidas pela alma agrilhoada (paśu). Bhāskara o atribui a māyīyamala que é a impureza que engendra o sentido de dualidade. Dessa maneira. assim como objetos individuais em si mesmos. um. em total estado de absorção cognitiva (samādhi). o Criador. no Absoluto. toma uma atitude diferente ao identificar este processo cognitivo limitado a āṇavamala. a limitação em que não é percebido que o indivíduo já está contido no Ser. é necessário elucidar mais uma vez que este é um estado auto-imposto. quando passamos a existir através do nascimento. voluntariamente limita a si mesmo. Com o trabalho do processo espiritual e da atuação de nosso karma. . é através destas percepções que Śiva projeta na vacuidade de Sua própria natureza todas as manifestações de ordem inferior e seus mundos de atuação. a restrição da Consciência dá-se por āṇavamala que atua de duas maneiras: 1. a fim de que possa manifestar o drama cósmico. como um ator.e. centrado na percepção objetiva do corpo que. perdendo assim a visão da natureza universal da Consciência. eterno e penetrante. Novamente. assume o papel da alma individual encoberta por suas limitações. Portanto. pauruṣa ajñāna. como enfatizado anteriormente. nega Sua própria natureza e. em um nível macrocosmico. foi identificado com a percepção subjetiva da Consciência. É a ignorância inata da verdadeira natureza do Ser. baudha ajñāna. No Śaivismo Trika da Caxemira é ensinado que pauruṣa ajñāna é eliminada pela meditação no Ser. voltamos ao estado primordial em que a Consciência se encontrava. de forma equivocada. conforme as instruções de um śaivācārya e baudha ajñāna é eliminada pelo estudo (svādhyāya) das escrituras śaivas que explanam sobre a Realidade do Eu (Pratyabhijñā) e pela iniciação (dīkṣā). A ignorância referida no sūtra é pauruṣa ajñāna. Contudo. como é. então toda plenitude da Consciência que a tudo abrange torna-se aparente e passamos a ver o mundo como ele é.Isso ocorre porque o Supremo Senhor. a ignorância metafísica através do qual o Criador. a ignorância de sua verdadeira identidade. para Kṣemarāja. uma Realidade Absoluta onde tudo e todos são. contraída (por Si mesmo) pelo seu poder de Māyā. 2. Essa identificação dá nascimento a diferentes percepções. a qualidade discriminativa de completa lucidez. O conhecimento empírico de ordem discursiva é então igualado ao conhecimento incompleto da unidade de Consciência Absoluta em nós mesmos. Quando não mais escolhemos nos apegar a natureza e paramos de procurar um preenchimento através da percepção sensorial do mundo e seus mecanismos de engendramento e embotamento da Consciência. a Consciência se contrai a um estado limitado por ação do próprio Senhor. no sentido de ego. de fato. a ignorância intelectual inerente a buddhi. Em outras palavras. sua Consciência. Bhāskara equipara o processo cognitivo limitado referido neste sūtra com a percepção discursivamente representada que conecta a alma individual. então nos mantemos na dualidade que é a causa da limitação da Consciência e de nossa existência. baseada.

[3] No Śaivismo Trika da caxemira é ensinado que existem três formas de impureza (mala) que obscurecem a Consciência. A causa deste conhecimento nascido dos sentidos e das idéias criadas faz o indivíduo perder o desfrute do néctar do Ser Supremo e sua liberdade inata.Kā. 4-5) define estas impurezas como se segue: A Impureza da Individualidade (āṇavamala) ocorre quando alguém perde a consciência de sua verdadeira natureza (svasvarūpa) e ela é de duas formas: a perda da consciência de sua própria liberdade e a perda da liberdade de sua própria consciência. A terceira é a Impureza do Karma (kārmamala) que leva a consciência individualizada a sofrer as consequências de suas ações. denominada Impureza da Individualidade (āṇavamala). 4. Cognição é prisão. Conhecimento é escravidão. A impureza do Karma afeta a ação daquele que ignora sua real e verdadeira natureza interior. Tal conhecimento nascido dos sentidos e do mecanismo criador de idéias está confinado a esfera dos tanmātras. na rede da dualidade. A segunda é a Impureza de Māyā (māyīyamala). Ela envolve a consciência. a cor. Ela engendra os repetidos nascimentos e a experiência do mundo (bhoga). Notas: [1] Outras traduções cognatas podem ser: 1. o som. Sūtra 3 yonivargaḥ kalāśarīram – yoni: a progenitora do mundo material (māyā). [2] Cf. Conhecimento diferenciado é prisão e o não conhecimento do indiferenciado é prisão. A ignorância da real natureza do ser é a causa da prisão. A primeira. o tato e o olfato e os prazeres derivados deles.Deixamos uma reflexão final retirada da Spandakārikā (III: 14): parāmṛtarasāpāyastasya yaḥ pratyayayodbhavaḥ tenāsvatantratāmeti sa ca tanmātragocaraḥ Todo conhecimento de um paśu (individuo condicionado) nasce dos sentidos e do mecanismo criador de idéias. por fim. Sp. aparentemente contrai a Consciência desde sua infinita plenitude até sua densificação atômioca (aṇu) que. . A [impureza] chamada Māyā é a percepção do objeto separado do sujeito. 5. Utpaladeva em Īśvarapratyabhijñā (III: 2. 47. 3. o gosto. então contraída. a forma. O conhecimento limitado é escravidão. assume a forma da alma individual. 2. – vargaḥ: o princípio ou forma dos tattvas.

Como enfatizado no comentário do aforismo anterior. sua liberdade soberana é ocultada por sua própria [projeção interna] de Māyā. Em outras palavras. É por conta disso que a alma individual é privada de seu poder. Portanto. contribuem na escravidão do indivíduo. Tradução O grupo das matrizes constituem o corpo das energias que obscurecem[1] Explicação Kṣemarāja interpreta este sūtra em conexão com o anterior e explica que ele se refere a duas impurezas que ainda condicionam a Consciência: a Impureza de Māyā (māyīyamala). ele criou para si mesmo como conseqüência de suas ações passadas. – śarīram: forma. do ponto de vista de Kṣemarāja. Unidas a āṇavamala. O segundo aforismo diz que o indivíduo se encontra em um estado de escravidão por conta de sua inata qualidade de contrair a Consciência (āṇavamala). Aqui. na realidade. māyīyamala provê ao indivíduo seus veículos físico e psíquico com os quais ele experimenta o confinamento. o cativeiro. Kṣemarāja diz: Kalā gera a diversidade (kalayati) projetada externamente.– kalā: produz limitação com respeito a ação ou eficácia. Natureza do Sūtra: [Śāmbhavopāya] Existem duas outras condições de limitação: māyīya e kārmamala. não valorizando sua condição humana e. Kārmamala faz . Caverna (guhā). incluindo as cinco couraças de obscurecimento (kañcukas)[2] e a Impureza do Karma (kārmamala). portanto. cujo poder é dar nascimento a ação limitada que genericamente igualamos a Māyā. Juntas. quando conjugada com a principal selecionada aqui é: o grupo das categorias associadas ao Útero (da diversidade) e o corpo das energias que obscurecem (que dão nascimento a ação limitada) também são escravidão.[3] Quando o indivíduo está fortemente afetado por esta impureza ele se sente totalmente perdido. Nó (granthi) ou Útero do Universo (jagadyoni) são expressões usadas para denotar Māyā. Esta é à base da Impureza do Karma que aqui é denominada como energia que obscurece (kalā). Esta atividade escravizante é chamada de criação impura (aśuddhasṛṣṭi). indiretamente. Māyā é referida como Útero porque é através dela que a Consciência cria o mundo e o corpo de cada alma individual dando nascimento ao despertar das distinções relativas tanto diretamente (sakṣāt) entre si mesmo e a realidade que nos rodeia e. entre os objetos que populam esta realidade. É o poder de Māyā que diferencia e condiciona pela limitação. há duas outras malas (impurezas) que obstruem o poder da Consciência: māyīyamala e kārmamala. Uma tradução aceitável. O terceiro aforismo diz que não é apenas por causa de āṇavamala que o indivíduo se encontra em um estado de escravidão. se tornando vítima das circunstâncias que. este aforismo traduz-se como: māyīyamala e kārmamala também são escravidão ou māyā é a fonte de escravidão do mundo na forma de māyīyamala e kārmamala. que desce desde a categoria de Māyā até a terra.

significa a classe de elementos (tattvasamūhaḥ) associados com Māyā diretamente ou através de estágios sucessivos. Portanto. kalāśarīram significa isso cuja forma é atividade limitada. que provê o seguinte significado: māyīyamala e kārmamala também são escravidão. uma das maiores autoridades Śaiva dos tempos modernos e considerado por muitos como a encarnação de Abhinavagupta. Ele discute a idéia dizendo que a palavra yonivarga significa conhecimento diferenciado como isso é meu. sob a interpretação tradicional do Śaivismo da Caxemira. Portanto. enfatiza que para que este aforismo seja compreendido conforme as idéias de Kṣemarāja. por outro lado. Portanto. Estas duas classes. māyīyamala. kārmamala que. Yoni significa a causa do universo e varga significa classe. Portanto. seu ser e todo seu conhecimento e na sua mente e todos os seus pensamentos. a ação limitada. isso é ruim. ele deveria ser lido como yonivargaḥ kalāśarīram bandhaḥ. um tipo de classe que está diretamente ou indiretamente conectada ao corpo.com que ele se entregue a ações motivadas pelas vāsanās ou impressões deixadas na mente pelo karma. a palavra sânscrita kalāśarīram significa ação incorporada como isso foi feito. i. é causa da escravidão. de novo e de novo. i. isso é meu dedo. do elemento terra ao elemento kalā. este é o discípulo. Em outras palavras. iniciando o processo desde kalā tattva (ação limitada) na ordem descendente até a terra. Agora. i. começa com kalā tattva. de uma vida a outra. são a causa do nascimento do corpo e de sua separação individualizada das coisas do mundo em relação ao seu corpo. se relaciona com as ações que atuam sobre seu corpo. estamos sob a vigência de yonivarga. . isso foi mal feito. Kalā é o que divide o mundo de entidades em coisas separadas (dualidade) como isto ou aquilo por meio da atividade cognitiva. isso deve ser feito. este é o arroz. Todas essas sentenças são exemplos de kalāśarīram. Portanto.e.e. o universo é o produto da energia da ilusão e suas classes (varga). Vargaḥ. quer dizer. quando estamos limitados de todas as maneiras. Māyā. os sentidos e aos diversos mundos. de acordo com a cosmogonia Śaiva da Caxemira (Ābhāsavāda) isso dá origem ao corpo. isso é ruim. Todas essas sentenças são exemplos de yonivarga e que este tipo de conhecimento diferenciado é da natureza da impureza conhecida como māyīyamala. Assim. tanto māyīya quanto kārmamala levam a escravidão. Swami Lakṣmanjoo. isso é feio. este é o bolo. isso foi bem feito. Quer dizer. kalāśarīram. Śarīra significa forma. de kalā (agente limitador) e os outros kañcukas[4] até a terra. Este tipo de conhecimento é da natureza da impureza conhecida como kārmamala. Estes traços residuais ou forças karmicas arrastam o indivíduo a experiência terrena. Por outro lado. Esta é a classe diretamente conectada ao corpo: isso é bom. isso é o meu joelho. Māyā[5] se manifesta como a objetividade que limita a ação dinâmica da mente e os sentidos. Kṣemarāja diz que neste aforismo a palavra bandhaḥ (escravidão) – do sūtra anterior – deve ser levada em consideração e que a palavra yoni significa a fonte do mundo fenomênico. isso não é meu. Esta experiência de limitação começa com kalā e vai até a terra porque a manifestação do mundo diferenciado (Māyā). A palavra yonivargaḥ é a combinação de duas palavras: yoni e varga. Acima de Māyā somente existem elementos puros (śuddhavidyā). limitados na ação e no conhecimento. experimentamos yonivarga. yonivargaḥ é sinônimo de māyīyamala. isso é bom. direta e indireta. isso é bonito. A classe indiretamente conectada ao corpo: esta é a esposa. Este corpo é yonivarga.e. assim como māyīyamala.

pelos cinco tanmātras (elementos sutis) e pelos cinco elementos densos.[6] Essa limitação é intensificada pela limitação do ego. Isso é kārmamala.. Ele é limitada pela mente. É estabelecida na realidade de buddhi (o intelecto).[7] O Ser Universal é limitado ao eu individual. Por causa da impureza de āṇavamala. Isso. estou quase morto etc. é o tipo de pensamento e ação resultante de kārmamala. produzido pela identificação de si mesmo com sua individualidade incondicionada. A Spandakārikā (I: 9) define estes dois tipos de escravidão: nijāśuddhyāsamarthasya kartavyṣv abhilāṣiṇaḥ yadā kṣobhaḥ pralīyeta tadā syāt paramaṃ padam O ser empírico é reduzido a ineficácia por causa de suas condições impuras. perdi minha preciosa esposa. que está conectada a kalā (ação limitada) e vidyā (conhecimento limitado). Quando pensamos: não sou nada. portanto. Quando ela cessa. pelos órgãos de ação. Onde esta existe. as outras também são destruídas. as outras duas impurezas também existem. caitanya (a Consciência Universal independente) se perde. então ele expertimenta o estado supremo.deixando sempre uma impressão. A natureza da limitação da Consciência. está conectada a āṇavamala. limitativas e inatas (āṇava. A Svacchandatantra (II: 39-41) diz: mala pradhvasta caitanyaṁ kalāvidyā samāśritam rageṇa rañcitātmānaṁ kālena kalitaṁ tathā niyatyā yamitaṁ thuyaḥ puṁthāvenopabṛṁ hitam pradhānāśayasaṁpannaṁ guṇa traya samanditam buddhi tattva samāsīnama ahamkāra samavatam manasā buddhi karmākśaistanmātraiḥ śthūlathūtakaiḥ Concluimos que a palavra caitanya significa a completa liberdade da Consciência Universal. Ela é absorvida em rāga (o apego) e limitada por kāla (o tempo). māyīya e kārmamala) e se vê impulsionado a desejar diversos objetos que são a causa de sua ineficiência e que nunca lhe deixam completamente satisfeito. Dessa forma [a Consciência] é absorvida no corpo de prakṛti e então unida aos três guṇas (raja. é escravidão. também. pelos órgãos de percepção. tama e sattva). estou perdido. . Ela é confinada a prisão de niyati (limitação ou apego a um objeto particular). Quando cessa completamente este estado de inquietude em sua mente.

Ambikā e Raudrī. é a fonte de todas as energias. este é o poder da bemaventurança (ānandaśakti) que. enquanto que a linguagem. de acordo com Bhāskara. Portanto. além do tempo. criando. as energias que obscurecem constituem as energias fonêmicas arranjadas de A a KṢ. Esta é a Consciência Transcendental (anākhyā) da Consciência Universal que. Ela é a deusa que preside a incessante roda de transmigrações. Em seu comentário. em união harmônica. Estas energias que obscurecem. Bhāskara interpreta este aforismo de uma forma consideravelmente diferente de Kṣemarāja. preservação e destruição no qual todo fenômeno está sujeito. Śakti e a alma individual. Elas manifestam a noção (pratyaya) de alma agrilhoada na medida em que são indefinidamente expressas pela fala. Estas energias que obscurecem são chamadas de mãezinhas. Śiva. Representada pelos poderes do Absoluto. Eles são Vāmā. o grupo das matrizes (yonivarga) se refere as quatro principais energias do Absoluto (anuttara) que são: Vāmā.A Mālinīvijayatantra (I: 24) conclui: dharmā dharmātmakaṁ karma sukhaduḥkhadilakśaṇam Ele [o jīva] realiza boas e más ações que lhe produzem prazer e dor. além da suprema energia da vontade (parātitā). Ambikā e Raudrī.[8] O corpo das energias que obscurecem (kalāśarīra) se refere aos cinquenta poderes da Consciência representados pelas letras do alfabeto que emergem destas quatro energias. ele [a alma] se torna uma vítima porque o conhecimento que elas manifestam invariavelmente lhe privará de seu verdadeiro poder. De acordo com ele. assumem. Este é o supremo estado da kuṇḍalinī que é a liberdade criativa de Śiva e consiste da união dos três níveis de existência. gerando assim o mundo das palavras e significados. Todos são formas de Śiva. Jyeṣṭha. comum ou letrada (laukika e alaukika) gera a noção de agrilhoamento na medida em que é privada de seu verdadeiro poder. pela conjunção de palavras e sentenças. Estes quatro poderes são: 1. Bhāskara diz: Este é o conhecimento das matrizes (yoni) que são os quatro poderes universais que envolvem a manifestação de todas as coisas. permeia os três momentos criação. tornando-se assim o objeto de seu próprio envolvimento com o prazer e o deleite que o mundo fornece. Assim. Agora. coletivamente. deusas e raios. que consistem dos fonemas mais densos. a causa de todas as coisas. para . Elas se manifestam através de quatro poderes que são. O grupo ou a agregação destes (poderes) constituem um corpo coeso entre as energias que obscurecem (os fonemas arranjados) de A a KṢ que dão forma a fala (śabda). Jyeṣṭha.e. sua vontade e o desabrochar de seu conhecimento caminham juntos. a fala em toda sua totalidade e diversidade. Vāmaśakti – também conhecida como Vyomavāmeśvari. poderes. i.

Abhinavagupta comenta: Vāmā é a dama daqueles que estão imersos na existência transmigratória e concede o poder do Senhor (prabhuśakti). 2. p. são escravidão. Jyeṣṭhā é a dama dos Despertos e Raudrī é a dama daqueles que procuram os prazeres do mundo. 2. 3. para os quais têm um valor completamente diferente do utilizado pelo Śaivismo da Caxemira. Ele bloqueia o caminho para liberação dando nascimento as dúvidas na mente do aspirante ou causando apegos aos prazeres ocasionais da existência cíclica. Esta é a Śakti que cria obstáculos no caminho dos perversos e destrói os obstáculos em benefício das almas elevadas. [4] O que lança um véu de ilusão sobre a Pura Consciência (śuddha saṁvid). particularmente no que concerne ao karma. 3. Jyeṣṭhā é assim conhecida porque Ela é da natureza de Śiva e Raudrī porque Ela dissolve o mal e fixa a ação. comparar e aqui é o princípio que limita e estabelece condições dualistas sobre o Todo. 68. Esta é a Śakti ativa na manifestação do mundo. . 5. 4.o ignorante. 2. Māyā é a fonte de escravidão do mundo na forma de māyīyamala e kārmamala. este é o poder através do qual o conhecimento puro e a ação da Consciência Universal é cultivado em seu interior. Māyā não é simplesmente um poder ilusório ou mágico destituído de origem. Māyā com seus princípios associados e kalā. 3. que provê a origem dos corpos e mundos. mensurar. 4. Raudrīśakti – este poder é responsável pela contração (saṃhāra) da consciência mais elevada cultivada por Jyeṣṭā. VI: 56-57) Notas: [1] Outras traduções cognatas podem ser: 1. retirando sua atenção do objetivo último da realização do Ser. convertendo uma emanação em condição de divindade na forma de um humano limitado. Este é o poder de Śiva para aqueles que se encontram imersos na ignorância. (Tantrāloka. ação limitada (kalā). E também o grupo das matrizes e o corpo da obscuridade. Māyā vem da raiz verbal mā. Jyeṣṭāśakti – esta é a segunda energia que emerge do Absoluto como o poder que dá sustentação a persistência (sthiti). o mundo da diversidade e ilusão. Esta é a Śakti que coloca obstáculos em todas as manifestações. limitação espaço-temporal (niyati). apego (rāga). Ambikāśakti – este é o poder da consciência que sustenta o estado de vigília em um único nível de vibração. [2] As cinco couraças de obscurecimento são: 1. pois nesta tradição. [3] Spandakārikānirṇaya. tempo (kāla). Vāmā é assim conhecida porque Ela vomita a existência fenomênica (saṃsāravamana). [5] Não confundir este termo com o comumente utilizado pelas outras escolas filosóficas indianas. 4. conhecimento limitado (vidyā) e. Esta é a Śakti que conduz a liberação. Māyīyamala e Kārmamala também são escravidão. Para o Desperto.

Quando caitanya torna-se limitada. por sua vez. – mātṛkā: a Mãe desconhecida ou incompreendida ou o Poder do Som que corresponde as letras do alfabeto. ela se transforna na natureza do intelecto ou atividade cognitiva superior. É um fato claramente comprovado (siddha) pela experiência pessoal que a fala está intimamente conectada ao pensamento. Representações mentais que ordenam e cadenciam o influxo de sensações e nos apresentam uma magnífica paisagem . assento (do conhecimento limitado). irremediavelmente. forma a base do conhecimento limitado. a primeira letra do alfabeto sânscrito. têm profunda influência em nossas vidas. poranto. Cada uma delas são energias em sua própria unidade. Estas palavras são formadas pelas letras que constituem a mātṛkā. Sūtra 4 jñānādhiṣṭhānaṁ mātṛkā – jñāna: conhecimento limitado. relaciona-se a Anuttara. Este obscurecimento é a condição básica necessária para emergência da percepção (vikalpa) diferenciada. [8] Cada uma das cinquenta letras do alfabeto sânscrito simboliza uma vibração no fluxo de energia que gera e retrai a ordem cósmica e transcendental na medida em que ela assume ou abandona aspectos de sua própria natureza. i. obscurecem o infinito poder da Vontade (iccha).[6] Por conta de niyati você é levado a pensar: esta é minha casa. – ādhiṣṭhānaṁ: base. Portanto. A.[4] Ela é o veículo e essência manifesta do pensamento. enquanto que o pensamento é a fonte da fala. a fala.e. a Impureza de Māyā (māyīyamala) que gera a diversidade e a consciência de distinções relativas e a Impureza da Ação (kārmamala) que acorrenta o indivíduo aos frutos de suas ações. [7] Além do intelecto existe caitanya. A mātṛkā. esta não é sua casa. Conhecimento (jñāna) e Ação (kriyā) da Consciência Universal. mas niyati lhe levou a pensar que sim. o Absoluto. você não possui casa alguma. eles estão unidos em todos os aspectos.[1] Natureza do Sūtra: [Śāmbhavopāya] As três condições limitantes são de um tipo de conhecimento viciado e limitado cuja raiz são as palavras que. este aforismo discute o fator essencial que persiste na formação de representações mentais e o conhecimento empírico que elas tornam possível. Portanto. Na verdade.[2] Tradução A fonte da cognição é a mātṛkā[3] Explicação Kṣemarāja explica que a Impureza da Individualidade (āṇavamala) que limita a liberdade e o despertar da Consciência. respectivamente.

Nós poderíamos dizer que o mundo em que vivemos como indivíduos. mãezinha) porque (esta energia) contém em um estado potencial (o universo manifesto como uma expectante) mãe.[7] Mātṛkā como energia mântrica é a fonte do mais elevado conhecimento da nãodualidade quando ela atua como o poder de Aghorā Śakti. Entender a base da linguagem leva a compreensão da fonte do mundo em que vivemos no dia-adia. mas virão a se manifestar. torna-se a conexão essencial entre o mundo interior e o mundo dos fenômenos materiais.[6] Assim. A Consciência Criativa (vimarśa) através da linguagem se torna aqui muito significativa. percebendo e projetando nosso próprio universo interior.e. Os vários aspectos da objetividade aqui ainda não estão manifestos. pois a virtude de podermos articular nossas intenções e idéias.[8] Mātṛkā é também a base de todo conhecimento inferior e limitante associado com o pensamento discursivo quando sua verdadeira natureza é incompreendida. .[5] Abhinavagupta explica: Mātṛkā é o poder de Bhairava na Sua forma como a Massa de Som (śabdarāśi). Bhāskara. é fruto da linguagem. A mātṛkā é a forma sutil da fala. O sufixo ka em sânscrito dá a idéia de que a palavra na qual ele é adicionado é algo desconhecido ou incompreendido. Notas: [1] Este poder se chama Mãe porque produz todo o universo.equilibrada do mundo exterior. a mātṛkā é igualada ao poder criativo da ação de Śiva. i. Portanto. quando seu poder é realizado. Quando ela é conhecida. é a natureza última e essencial das letras que é chamada de mātṛkā. A partir deste ponto de vista até mesmo os animais têm sua própria linguagem na medida em que respondem e interagem com o ambiente que os cercam. ela é o som interno (anāhata) escutado em um nível elevado de fala (parā vāc) que é tanto a vitalidade (vīrya) de Śiva quanto o poder oculto no mantra. Mātṛkā é o poder que suporta ou serve de base para ambos. todos os mantras consistem de letras e energia é a alma destas (letras). diz: Existem duas formas de conhecimento. tanto para nos mesmos quanto para os outros. Linguagem. ela é chamada de mātṛkā (lit. nos leva a liberação. Na verdade. quando expressa através da Consciência Iluminada. fazendo o interior e o exterior se manifestar em concordância com sua natureza em toda experiência da consciência liberada. Portanto. Kṣemarāja cita a Essência dos Tantras (Śrītantrasadbhāva): Ó amada. mātṛkā significa a Mãe que não é apropriadamente conhecida ou compreendida. em seu comentário. é aqui determinada como mātṛkā. a Mãe desconhecida de toda manifestação. superior e inferior. Quando desconhecida. funcionando como o poder de Ghorā Śakti que priva o homem da consciência da unidade e obscurece a Atividade Universal de Śiva. a memória. todos deveriam conhecê-la por ser da natureza de Śiva. a mātṛkā nos impele a todo tipo de atividade mundana conectada aos sentidos. portanto. Enquanto a energia é mātṛkā. a elaboração de idéias e o inconstante fluxo de emoções estão intimamente conectados a linguagem.[7] Nascida da vontade de Śiva quando Ele desejou manifestar Seu poder como o alento que anima toda criação.

māyīya e kārmamala). As palavras exercem uma tremenda influência na formação de idéias que nos impedem de realizar o explendor da Consciência de Śiva aprisionada em nós mesmos.vi. Este conhecimento é sutil e. como cada experiência pessoal comprova.Sū. Quando é conhecida de maneira incorreta. sem ser acompanhada pelo aspecto sutil e interno da fala como.vi. 3. Todo constructo mental (vikalpa) é. mātṛkā é responsável pelo conhecimento limitado na forma das três malas. Swami Lakṣmaṇa Joo diz em seus comentários sobre este aforismo que ajñātā mātā é o estado onde a energia universal é compreendida – e portanto conduzida – de uma maneira equivocada. regosijo e paixão. a Mãe Universal que rege o conhecimento condicionado na forma das três malas. p. eu sei disso ou ao contrário. [5] ajñātā mātā mātṛkā viśvajananī. na medida em que a energia universal é compreendida. eu executo o sacrifício agniṣṭoma (kārmamala).]. A Mãe Universal domina o triplo conhecimento limitado. Veja Ś. p. p. 5. Veja Sp. uma criança não conseguiria compreender a indicação inicial de convenção (que conecta a palavra ao seu significado) porque ela seria destituída da consciência interna que distingue uma coisa da outra. sem ser associada com o aspecto mais grosseiro da fala. 26. Se você se aprisiona ou se liberta.. eu sou imperfeito (āṇavamala). 25. E a Mãe não compreendida ou o Poder do Som inerente ao alfabeto é a base do conhecimento limitado (na forma de āṇava.[2] Kṣemarāja diz em seu comentário sobre este aforismo: Ela (mātṛkā) causa o conhecimento na forma limitada. não importa. As letras do alfabeto. na medida em que a energia universal não é compreendida. Quando a energia universal é compreendida de maneira correta. eu sou magro ou gordo (māyīyamala). Dentro de nós mesmos existe uma compreensão interna que comanda um gesto silente com a cabeça e isso é uma expressão da consciência refletiva da fala interior de um entendimento mais profundo. 4. Portanto. de A a KṢ. está nas suas mãos o controle da ação. 2. por exemplo.. Portanto.. é ajñātā mātā. A base do conhecimento limitado é a mātṛkā. [3] Outras traduções cognatas podem ser: 1. imbuído pela manifestação grosseira da fala. Ś. é svātantrya śakti.Nir. expresso de forma mais concreta (avikalpakasavikalpaka-purāmarśa-mayasya). por exemplo. são a base do conhecimento limitado. . Dessa maneira. svātantrya é sua verdadeira vontade. Assim. As palavras são o reflexo das letras e seu som primordial é conhecido como mātṛkā. A base para as três malas são as palavras que nos aprisionam nos conflitos das distinções e idéias fragmentadas. orgulho. é māyā śakti.Sū. segundo Swami Lakṣmaṇa Joo. Se isso não fosse verdade. A base da cognição é a mātṛkā.. e pela penetração de distintas palavras na mente [. Isso não ocorre somente pela fala. Mātṛkā. [4] Kṣemarāja escreveu: O surgimento de representações mentais (pratyaya) consiste do fluxo da consciência cognitiva que é tanto discursiva (vikalpaka) quanto não-discursiva (avikalpaka). 71. quer dizer. Mas ela é svātantrya. trazem o sentimento de dor. até mesmo as intenções dos animais se tornam claras quando fugimos das convenções linguísticas.

Vācya significa o mundo ou os objetos criados pelas palavras que. ** O brahmarandhra é uma abertura sutil no topo do crânio que é perfurada pela força de cit-kuṇḍalinī quando ela ascende desde o mūlādhāra-cakra pelo canal central (suṣumnā-nāḍī). A regente destas três malas é. 2. Ghoratarī são as Śaktis que iludem a mente inferior orientada para o exterior. o grande éter da Consciência. Esta mãe não somente permeia o mundo do alfabeto (vācaka). Sūtra 5 . *** Estes são os pīṭheśvaris para aquele que se tornou um joguete nas mãos da Mãe. Por estas palavras. sentados aos seus pés. às vezes maravilhada.e.*** Estes pīṭheśvaris se tornam terríveis (mahāghorā)**** pois eles. são a combinação das letras ou o poder inerente a elas. 3. a cada momento. **** Segundo Kṣemarāja. Aquele que assuime a consciência do jogo não mais torna-se um brinquedo nas mãos da Mãe. são: o sentimento de imperfeição (apūrṇam-manyatā). ela se move do corpo para o universo. 15/130b-131a. aflita.Os três tipos de mala (impureza) que foram anteriormente definidos. uma pessoa pode se sentir triste.. Aghorā são as Śaktis que inspiram o jīva (alma individual) ao caminho da liberação. os assentos ou órgãos dos sentidos para estas Śaktis. O que acontece então com uma vítima assim? A Mãe (mātṛkā) faz algo terrível: ela faz desta vítima seu brinquedinho. eu sou um professor renomado mundialmente. De forma limitada. * Citi significa Consciência. magoada.** Ao redor desta Mãe. eu tenho muitos discípulos. 21/38. feliz e ao mesmo tempo com raiva e apegada.T.. a mente. Quando a energia universal reside no campo de Māyā. [8] Veja o aforismo 2/7. por sua vez. i. as Mahāghorā Śaktis são as deidades que presidem os pīṭhas. portanto. Ghorā são as Śaktis que provêem os prazeres mundanos ao homem colocando obstáculos em seu progresso espiritual. invariavelmente criam a ilusão e continuamente se esforçam para manter aprisionada consciência. eu sou a única pessoa afortunada no mundo. eu sou um grande mestre. eu sou fraco. os órgãos da ação. a Mãe é o fator essencial e os pīṭheśvaris são seus agentes. etc. Aqui. A Mãe Universal (citi* mātṛkā) reside no centro do brahmarandhra. Tendo penetrado nesta abertura sutil. Ele existe no estado de Consciência. ela induz a pensamentos como eu não sou completo. adquire o conhecimento discriminativo e constritivo. o intelecto e o ego (pīṭheśvari). [6] TĀ. Elas são de três tipos: 1. a Mãe Universal (mātṛkā) que permeia todas as letras do alfabeto de a a kṣa. mas também o mundo objetivo (vācya) formado pelas letras. [7] N. conhecimento discriminativo (bhin-navedyaprathā) e as impressões de prazer e sofrimento (śubhāśubhavāsanā). dirigindo-a cada vez mais em direção ao apego do mundo. letras e objetos. estão os órgãos de percepção.

no qual a idéia de eu. No Mālinīvijaiatantra (II: 23) está escrito: oṁkiciccintakasyaiva guruṇa pratibodhaḥ jāyate yaḥ samāveśaḥ śambhavo sāvudīritaḥ A absorção da consciência individual na Divindade (śāmbhavasamāveśa) é o resultado de um despertar (pratibodhaḥ) impartido pelo guru (mestre espiritual) àquele que tenha liberado sua mente de toda atividade criadora de idéias. pois este tipo de experiência somente pode ocorrer quando existe a completa cessação de todos os constructos mentais. em manas ou buddhi. o complexo psico-físico (nāma-rūpa) desaparece e apenas Śiva é experienciado como o verdadeiro Eu.udyamo bhairavaḥ – udyamo: A elevação da consciência divina. Śiva. Neste Yoga não ocorre qualquer atividade. no prāṇa. seja no corpo. o Ser real. Este meio de realização espiritual sem esforço também é conhecido como icchopāya ou icchā-yoga.[1] – bhairavaḥ: A Realidade Suprema. Natureza do Sūtra: [Śāmbhavopāya] A elevação espontânea da Consciência que é Bhairava ou a Consciência Transcendental que destrói o véu da ignorância e liberta o indivíduo. a natureza de śāmbhava-yoga é esta aparição espontânea e repentina da Suprema Consciência do Eu que é o estado de Śiva no qual todos os constructos mentais cessam completamente (sakalakalpanākulālaṅkavalana) que ocorre naqueles cuja consciência está completamente absorvida no estado de Bhairava (antarmukha-etat-tattvāvadhāna-dhanānāṁ jāyate). Kṣemarāja interpreta o termo udyamaḥ como unmajjanarūpaḥ. o meio de realização espiritual que ocorre espontaneamente. Um outro nome dado a este meio de realização é avikalpaka ou nirvikalpaka-yoga. o yoga no qual existe a completa identificação do Eu – o Ser – com Śiva. Tradução A elevação é Bhairava[2] Explicação Este aforismo explica a natureza de śāmbhavopāya[3] ou śāmbhavo-yoga. o que denota uma mera orientação da vontade para sua execução. sem esforço. Ele também é conhecido como abhedopāya. Portanto. a forma de aparição espontânea e repentina da consciência de Śiva. .

o Ser brilha. ocorre então o śāmbhava-yoga ou śāmbhavasamāveśa. os processos de distinção se anulam e o yogī realiza abhedopāya. contudo. amorfa. o yogī é absorvido no mais elevado estado de contemplação (śāmbhavasamāveśa) no plano do Ser além da mente (unmanā). é Bhairava. através da qual o yogī aniquila as restrições impostas sobre ele pelas três impurezas. que é o [telão de] fundo de ambos os pensamentos. No jīva ou indivíduo empírico. Este fluxo de energia. Este aforismo não lhe ensina a seguir sua verdadeira natureza pelo esforço pessoal. não algo que pode ser conjecturado segundo as noções do falso ego (sādhya). apenas por uma intensa orientação do poder da Vontade (icchā-śakti) em direção a Realidade interna. Ele testemunha o mundo através da atividade da consciência cuja natureza universal. embora qualquer um possa deduzir de uma maneira intelectual. de onde o mundo da percepção diferenciada surge. Quando o fantasma do pensamento discursivo vai embora. A Spandakārikā (III: 9) ajuda a compreender este aforismo: ekacintāprasaktasya yataḥ syādaparodayaḥ unmeṣaḥ sa tu viñeyaḥ svayaṃ tam upalakṣayet Enquanto o indivíduo está ocupado com o pensamento e surge outro. Despertado pela graça de seu guru. mas ao contrário. a roda de imaginação e o sono psíquico precisam ser impedidos. uma com a verdadeira natureza do yogī. . é imediatamente manifesta. Vikalpa. Quanto mais tentamos nos agarrar as conjecturas intelectuais deste processo espiritual mais longe ficamos da verdade interna. a Realidade ou Śiva. que seja levado por um esforço inato de sua natureza interior identificada com a suprema intuição (parāpratibhā) da liberdade (svātantrya) da consciência. sem vida. levando o yogī a percepção do mais alto nível de consciência.Quando existe a identificação com Śiva sem qualquer constructo mental. Isto é um fato comprovado (siddha). Não é algo que pode ser percebido pela rede de constructos mentais (vikalpa-jāla). oculto pelos constructos mentais. Ele contém em si mesmo todos os poderes do Absoluto e espontaneamente assimila todas as percepções (vikalpa) diferenciadas no instante em que elas emergem. O yogī que alcançou o nível mais elevado da prática (śāmbhavopāya) integra-se ao esforço ativo utilizando o vibrante (spanda) poder da consciência que impele e dá a vida aos sentidos e mente. alcança a expansão mais poderosa (unmeṣa) de sua consciência. a atividade dicotomizante da mente tem de cessar. A Realidade é a Presença Eterna em todos os seres. adquirindo assim o supremo conhecimento (parajñāna). o ponto de união entre os dois é o estado de unmeṣa. situado no centro entre um pensamento e outro. Todos podem experimentar este estado por si mesmos. o puro Ser de bem-aventurança sempre brilha em toda sua glória em seu interior. Bhairava. quando vikalpa é anulado. Com a mātṛkā operando como Aghorā Śakti. uma revelação da verdadeira natureza do Ser. Todos os constructos mentais têm que desaparecer para que a Realidade de Śiva possa ser percebida em sua totalidade.

a palavra é composta de ut + yam. A elevação da Consciência é Bhairava. Ut significa acima. No instante que esta percepção ocorre na esfera microcosmica. A súbita emergência da iluminação é Brairava. em todo Seu poder. o que este aforismo quer ensinar é o śāmbhavopāya ou śāmbhavo-yoga. neste contexto. Como todas as práticas ensinadas nas três cessões dos Aforismos de Śiva pertencem a suas respectivas categorias. discute as práticas que levam a realização da verdadeira natureza de Śiva diretamente como um lampejo da intuição. nos escritos de Abhinavagupta que. apresentou sua interpretação do Śivasūtra dividindo-o em três cessões. O florescimento repentino da Consciência Universal é Bhairava. XI d. A primeira cessão. a realização suprema do Ser. vêm e vão em seu interior. 2. pois tamanha é Sua liberdade (svātantrya). Kṣemarāja. sem esforço exterior. A aparição espontânea e repentina da Suprema Consciência do Eu é o estado de Bhairava. Portanto. de acordo com Kṣemarāja. [3] A classificação da prática do Śaivismo da Caxemira conforme o Yoga transmitido pelo Śivasūtra em três upāyas foi uma inovação que apareceu somente por volta do Séc. em síntese. pois. quando flui como a consciência ativa. uma tradução mais acurada do termo seria a elevação espontânea da Suprema Consciência do Eu. Śiva transforma-Se em todas as coisas sem afetar Sua unidade. Swami Lakṣamaṇa Joo nos ensina em seus comentários que há dois tipos de esforço. Pela regra de sandhi. refletidas em sua divina consciência. 6. A prática neste nível está centrada na fonte unitária de diversidade que. adorada como Śiva. Aquele esforço – do brilho externo da consciência ativa – que faz a Consciência Universal brilhar instantaneamente é Bhairava. Śambhunātha. enquanto que a última lida com a caracteristica mais densa. que Ele faz aquilo que para qualquer um seria impossível. há um certo esforço ativo que é o estado de elevação do Eu-consciência que é Bhairava. o yogī descobre a unidade (abheda) que contém e sustenta o incessante ciclo de criação e destruição que marca o aparecimento e desaparecimento de todas as coisas que. Assim. 4.C. como imagens no espelho. sustentar. seguindo as instruções de seu mestre. 5. o passivo e o ativo. Essa tripla classificação não aparece nos recessos anteriores a Abhinava. incondicional e toda-abrangente da vibração (spanda) do mais puro Eu-consciência contém todos os divinos poderes do Absoluto. é a consciência sagrada que habita o sentido interior de auto-existência pura que se afirma espontaneamente como Eu sou. Embora este aforismo ensine o śāmbhavo-yoga. muito provavelmente. [2] Outras traduções cognatas podem ser: 1. a primeira cessão lida com a característica mais elevada da consciência. faz com que a Consciência Universal brilhe instantaneamente. A súbita iluminação da divina Consciência é Bhairava. refletindo o esquema de prática e avanço espiritual em três etapas.Notas: [1] Udyamaḥ. o meio de realização espiritual sem esforço. Este também é o caso das três cessões da Spandakārikā. O yogī que sustenta concentradamente a consciência espontânea (svata udita) e auto-evidente (svataḥ siddha) de sua própria existência que se expressa em um . recebeu estas idéias de seu mestre Trika. Um esforço que. Este esforço é encontrado nos adeptos cuja consciência está sempre introvertida no despertar da consciência de Śiva. para cima e yam significa elevar. Essa noção perpétua. significa a elevação da consciência sem a realização de esforço. 3. que é Śiva.

apropriadamente. é o puro sentido de totalidade universal em todos os seres. Uma prtática deste tipo. centrada no poder criativo e destrutivo da vontade (icchā) descoberta na unidade da consciência de Śiva. compartilha da experiência de Śiva que. que é o verdadeiro Ser que representa a natureza mais íntima do indivíduo é. o meio de realização do próprio Senhor.profundo sentido de Eu sou. . com seus poderes.e. śāmbhavopāya. o Meio de Realização Divina. i.

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