COPYRIGHT

:

1979
DO LIVRO

DISPONIBILIZAÇÃO DIGITALIZAÇÃO: REVISÃO:

: Valeria O.

Joyce

Néia

Lucy foi abandonada num colégio de freiras na Espanha, e cresceu inconformada com as injustiças que sofria por parte das freiras. Aos dezessete anos, fugiu para a cidade. Faminta, maltratada e vestida como um moleque, conheceu Lucas, dono de um barco, que passava a maior parte do tempo navegando como um aventureiro pelos mares. Fascinada por aquele homem forte, que se confessava cruel e impiedoso, Lucy resolveu segui-lo. Lucas podia ser um homem inflexível, mas tinha jurado protegê-la da maldade do mundo. O que ela não contava é que se apaixonaria por ele. Ela, uma quase freira, caída aos pés do próprio anjo do mal?

Anjo de Pedra
"

Satan Toor a Bride "
Violet Winspear

CAPITULO I Lucy estava lavando a louça na cozinha do convento. Olhou para a pia e seus pensamentos estavam tão turvos quanto a água suja cheia de bolhas de sabão. Quantas vezes lavara pilhas e mais pilhas de pratos e talheres ultimamente, como castigo imposto pela irmã para curá-la de sua rebeldia? Não tinha conta... Lucy fora encontrada pelas freiras do convento na porta do orfanato, uma roda de pedra onde as crianças indesejadas eram abandonadas pelos pais. A roda era virada e o bebê era recolhido pelas freiras. As meninas, especialmente, permaneciam muitos anos no convento, às vezes a vida inteira. Ao atingirem a maioridade, faziam votos de obediência e de castidade permanente. Um prato escorregou da mão de Lucy e respingou água suja no seu rosto. Limpou os pingos com as costas da mão, os olhos brilhantes de raiva. Se a irmã Imaculata houvesse presenciado a cena, daria a ela alguns trabalhos extras para lhe ensinar a humildade e a paciência. O fato de Lucy ser criada no convento desde os primeiros anos de vida não era uma justificativa, aos olhos da irmã, para merecer um tratamento especial. Ela tinha que aprender a ser humilde e a respeitar cegamente a autoridade. O convento estava construído ao lado de uma igreja muito antiga, famosa pela severidade de sua disciplina. Contavam que uma freira fora enterrada viva no passado por ter recebido um homem no jardim do convento. As meninas comentavam esse caso em voz baixa no dormitório, com receio que os sussurros chegassem aos ouvidos da irmã. As freiras da comunidade acreditavam piamente no pecado original e estavam certas de que todas as pensionistas do convento carregavam essa maldição — especialmente Lucy, a mais rebelde de todas. Talvez isso fosse devido ao fato de Lucy ser irlandesa, e não espanhola, como a maior parte das meninas. Quando as freiras a encontraram na porta do convento, num dia chuvoso de novembro, há dezessete anos atrás, o bebê tinha um medalhão de ouro com uma correntinha passada no pescoço, e havia um nome irlandês gravado no interior, além de duas fotografias, uma do pai, outra da mãe. O medalhão de ouro era tudo que Lucy possuía no mundo e a superiora do convento disse que ela o receberia quando fizesse dezessete anos, o que ocorrera duas semanas atrás. Não houve festa de aniversário, no entanto. A irmã Prudência fez um bolo de coco e as meninas mais velhas ganharam uma fatia cada uma. Lucy ficou encantada ao receber a lembrança deixada pelos pais, mas a irmã Imaculata acabou com sua alegria ao comentar que o medalhão de ouro teria que ser vendido para custear as despesas de sua educação — já que era filha de pais reconhecidamente pecadores. Lucy não conseguiu engolir a fatia do bolo de aniversário depois que ouviu essa notícia e tomou a firme resolução de fugir do convento na primeira oportunidade. Ela não era espanhola de nascimento e não dedicava um culto sincero à Virgen de la Soledad. Lucy não apenas era irlandesa de coração, como era muito parecida com o homem que estava no medalhão. Sua vocação não era absolutamente ser freira e passar a vida inteira enclausurada no convento. Como as duas fotografias

eram coloridas, ela podia ver que o pai tinha cabelos castanhos e pestanas tão compridas que davam aos olhos verdes uma aparência misteriosa. No homem, o olhar tinha um ar cativante; na filha, no entanto, revelava uma certa rebeldia e petulância que os sonhos e as esperanças que nutria no coração não chegavam a disfarçar. Como Lucy tinha os cabelos claros, o que era considerado uma ofensa pela irmã Imaculata, ela foi obrigada a cortá-los bem curtinhos. como os de um menino. Só assim não brilhavam ao sol como as panelas de cobre que estavam penduradas na cozinha do convento. Lucy deu um suspiro e olhou pela janela aberta em direção ao jardim cercado do convento, onde as irmãs tinham uma horta que produzia legumes, verduras e algumas frutas. Os produtos da horta eram colhidos regularmente e contribuíam para a alimentação simples das freiras e das quarenta pensionistas. Lucy não fazia questão de comer pratos finos, como camarão e lagosta, como era o caso de Florália, uma das moças que estava noiva e que sairia em breve do convento para casar e ter sua família. Lucy desejava algo mais raro e precioso que os prazeres da mesa — ela ansiava pela liberdade. Esse desejo estava escondido atrás dos cílios compridos e ela tinha dificuldade de ocultá-lo dos olhares penetrantes da irmã Imaculata, que entrou nesse momento na cozinha para verificar se ela tinha lavado e enxugado a pilha de pratos e de tigelas, até brilharem como as paredes caiadas de branco do refeitório. A irmã ficou um instante parada, observando-a com o rosto fechado. — Você está sonhando de novo, menina! — comentou por fim. — Já era tempo de ter enxugado essa louça e de ter guardado tudo no armário da copa. Lucy ouviu o comentário em silêncio, olhando fixamente para os pratos que estavam empilhados cm cima da pia. — Responda quando eu falo, menina! — exclamou a irmã sacudindo-a com força, enquanto enterrava os dedos grossos na carne delicada do ombro. — Você está sonhando de novo? A irmã examinou-a de alto a baixo, com raiva. Por seu gosto, teria aparado há muito tempo os cílios compridos, da mesma forma que raspara os cabelos com uma tesoura velha. — Eu estava pensando por que sou sempre eu que lavo os pratos — disse Lucy por fim. — Ah, você quer saber por quê? É para você aprender a ser obediente. Além do mais, você não precisa ter mãos macias para agradar o noivo, não é mesmo? Não se esqueça, Lucy, que muito em breve você pronunciará os primeiros votos e precisa estar em estado de graça para a cerimônia. Você precisa, além disso, ter o coração humilde e submisso para ser uma noviça na Ordem da Virgen de la Soledad. É a vida que Deus escolheu para você, minha filha. Só assim você poderá expiar os pecados dos seus pais... e os seus também. — Meus pecados? — repetiu Lucy surpresa. — O que foi que eu fiz, irmã? Desde pequena fui criada neste convento e o único homem com quem falei até hoje foi o

onde ela tinha um esconderijo . reservada. menina — disse a irmã. — E vou sugerir a ela que lhe dê um castigo que fira seu orgulho. Lucy sabia que não devia falar desse jeito com uma mulher que dedicara a maior parte da vida a servir aos outros... Dessa vez você vai ficar isolada numa cela durante vinte e quatro horas. Lucy apoderou-se furtivamente da calça comprida e fugiu com ela em direção ao quintal. uma criatura sobrenatural que abria as portas da liberdade e do amor. as freiras a aceitariam de bom grado. — Seu pecado foi ter nascido fora do casamento. — Vou comunicar à madre superiora que você foi insolente de novo — disse a irmã. Insistiria para a menina loira ser severamente punida. fazendo menção de sair da cozinha. onde os fantasmas das freiras sepultadas vagavam à meia-noite pelos corredores sombrios. porém. Irmã Imaculata saiu da cozinha e Lucy sabia que iria diretamente à sala da madre superiora. — Ela pelo menos foi amada e não sei se o mesmo aconteceu com muitas pessoas que eu conheço. Para elas. essa figura misteriosa que dominava a imaginação das meninas que moravam no convento atrás de quatro paredes e que tinham uma idéia muito vaga da realidade existente lá fora. A cela solitária tinha paredes grossas que não deixavam entrar nenhum ruído e ficava na parte antiga do convento — a ala malassombrada.padre Horácio. As freiras naturalmente não acreditavam nessas bobagens. como era o caso de Hermosa. não ocorria a nenhuma delas que uma adolescente morria de medo de passar um dia e uma noite numa cela solitária na companhia de almas do outro mundo. dessa vez por desrespeito e excesso de orgulho. cujo pai era proprietário de uma casa de carnes e pagava sua educação. Da última vez você esfregou o chão dos corredores. Se fosse obediente. como as meninas a chamavam. ela era a ovelha negra do convento que não se adaptava às normas estabelecidas e que sofria as maiores injustiças nas mãos de uma mulher severa. ela não achava justo. Você está me ouvindo? Lucy ficou branca como cera. — Eu não gosto que falem da minha mãe desse jeito! — exclamou Lucy com o rosto vermelho de raiva. O portão foi aberto para Lucy por um par de calças que estava pendurado atrás da porta da cozinha e que pertencia ao jardineiro que ia duas vezes por semana ao convento para tratar dos canteiros de hortaliças e colher os legumes e as verduras que eram usados nas refeições. que tinha os olhos frios de um inquisidor.. Em suma. o destino era uma mistura de Don Juan e de Santo Antônio. submissa. uma jovem de cabelos e pele claros e hábitos muito diferentes das outras pensionistas. mas o sangue irlandês de Lucy estava muito vivo nas suas veias. para refletir em silêncio sobre as palavras que disse e para pedir perdão a Deus por seus pecados. Como as freiras consideravam o silêncio e o recolhimento uma prática salutar. a perseguição que sofria por parte da irmã.. sem falar na imaginação fértil que herdara dos pais. — Não seja insolente. de uma mãe pecadora. Lucy contudo era uma estrangeira ali. O que aconteceu na noite seguinte foi ordenado pelo destino. a filha ilegítima de um casal.

a não ser o . lembrando-se das meninas que tinham sido suas amigas. O único problema era saltar de uma altura de uns três metros no chão. Naquela ocasião. Era fácil correr com um corpo que se mantivera esguio graças ao regime severo do convento. A grama era alta e amorteceu o choque. ela preferia esses aromas ao cheiro de umidade da cela solitária. Fugiu à toda. — Vaya con Dios — murmurou em voz alta. uma lembrança amarga do passado e um fantasma que ia perseguila no futuro. Se partisse a perna ou o braço. Nunca havia nenhum imprevisto muito excitante nesses passos. Ela sofrera muito tempo com a idéia de fazer os votos habituais de obediência e de castidade. Lucy enrolou rapidamente as duas pernas até a altura do calcanhar. estava a liberdade com que sonhava. Ela não se inquietava no momento com o fato de não levar alimentos consigo. não quebrou o pescoço nem a perna na queda.. Vestiu a camisa xadrez que estava guardada no esconderijo e. Vestiu em seguida a calça jeans. e apertou com força o medalhão de ouro na mão. nem mesmo o endereço de uma casa onde pudesse passar a primeira noite. Entretanto. Do outro lado do muro havia uma rua sossegada e. dinheiro. fazendo o pedido em voz baixa a Santo Antônio para ser bem-sucedida na fuga. — Adiós. que abominava de todo o coração. Ela guardara ali uma camisa xadrez que o jardineiro tirara do corpo num dia quente de verão. nas paredes cinzentas e encardidas do convento. que estava enorme para ela. Preferia morrer a viver enclausurada atrás daquelas paredes. Como a calça era muito comprida. Conhecia bem a região. Ela tinha confiança no futuro.atrás de um pé de limoeiro. para os quais não tinha a menor vocação. Embora sentisse uma dor forte na sola dos pés. sabia que Santo Antônio estava protegendo-a naquela noite. mas ela foi tomada da mesma bravura paterna quando fez uma oração em voz baixa a Santo Antônio. No momento em que caiu no chão. Estremeceu de medo ao subir no galho da árvore.. graças aos passeios que dava com as outras meninas de sua classe. Lucy não estava certa ainda do seu plano. teria ao menos uma desculpa para não ser levada para a solitária do convento. o medo ficara para trás. Ao levantar-se. Não ia passar mais um único dia no convento! Despiu rapidamente o hábito cinza que vestia. Saíam sempre acompanhadas da irmã que tomava conta da aula. lançou um último olhar para o convento que fora sua residência nos seus dezessete anos de vida. Pensaria nas outras coisas quando fosse o momento oportuno. além dessa rua. saltou do paredão e foi cair em cima da grama do outro lado. e apertou o cinto de couro na cintura. que pulara mais de uma vez os muros altos de uma casa para visitar a namorada. protegida pela penumbra da noite. No momento não pensava em outra coisa a não ser na liberdade que lhe sorria. embora tivesse cheiro de fumo de rolo e de suor. antes de arrumar um emprego qualquer. fora somente nas últimas semanas que lhe ocorreu o pensamento que havia a possibilidade de fugir para sempre dali e nunca mais voltar. mas agora estava absolutamente decidida. Lucy não sabia que seu pai tinha sido um grande aventureiro.

sob o céu estrelado. — Proteja-me das mãos da irmã Imaculata. Lucy não sabia o que era pior: ser forçada a permanecer no convento como freira . porque era a primeira vez na vida que estava completamente só no mundo. A fotografia era do ator que fazia o papel do conquistador espanhol. ele daria uma bela gargalhada e voltaria as costas sem olhar para trás. lembrando das roupas com cheiro de lavanda que vestia no convento. A irmã Prudência gostava de fazer saquinhos de lavanda que colocava nos bolsos fundos dos hábitos das freiras. Por momentos. depois andou mais devagar. A irmã fazia isso para tirar o cheiro de cebola das roupas. mas Lucy imaginava que seu noivo seria assim. e ele não teria medo de nada nem de ninguém: seria completamente livre e não obedeceria às ordens de pessoa alguma. ela tinha vontade de chorar como uma criança. Quando andavam pelos corredores. diabolicamente lindo. Os olhos. Eu quero um marido. com bigode bem preto e lábios sensuais. porque o noivo era um bom partido. a ter as mãos sempre vermelhas de esfregar o chão e encerar o assoalho. O amor que a irmã dispensava às meninas era o único sentimento de carinho que Lucy experimentara na vida. muito menos de uma mulher. Correu algum tempo. a lavar os pratos sujos de gordura na água fria da pia. mas não quero ser freira porque não tenho a menor vocação para isso. mas achava que seria parecido com a figura de Don Juan que vira certa vez na capa de uma revista de cinema que uma menina levara às escondidas para o convento. Sorriu ao recordar essa cena e olhou para as primeiras estrelas que surgiam no alto do céu. Preferia morrer a ser obrigada a recitar as orações em latim. mas Lucy tinha a impressão de que ela seria uma excelente dona-decasa se tivesse um marido e crianças para cuidar. — Meu querido Santo Antônio — pediu em voz baixa. Ela pode estar bem intencionada. como aquelas estrelas que brilhavam no firmamento. suas idéias também logo estariam claras. meu querido Santo Antônio. para tomar fôlego. Lucy também não olhou para trás. na direção do porto de Santa Flávia. e estava muito excitada e cheia de esperança com a fuga para sentir o menor sinal de cansaço. Ela não tinha idéia de como seria esse marido. sem contar que teria as pernas mais compridas e elegantes deste mundo. Lucy costumava rir quando o avistava de longe e comentava em voz baixa com Florália. uma verdadeira nuvem de perfume acompanhava seus passos. sentindo a brisa marinha penetrar no tecido leve da camisa de algodão e arrepiar-lhe a pele. alto. Não estava certa ainda do que pretendia fazer. sobretudo porque estava rasgada bem no meio do peito. Correu mais um pouco para se esquentar e tornou a andar outro tanto. por simples conveniência. Se alguém tentasse sujeitá-lo. que elas eram o rebanho que as freiras levavam para o matadouro. teriam um brilho demoníaco. moreno. Entretanto. mas tinha certeza de que não podia ser encontrado num casamento arrumado pelos pais. por sua vez. sua amiga. Não tinha idéia de como era o outro tipo de afeto.encontro ocasional com um ou dois camponeses que topavam no caminho ou com o cavaleiro de chapéu de couro que levava a boiada para o matadouro.

Seu rosto estava muito pálido sob lâmpadas coloridas da pracinha embandeirada. enquanto o estômago vazio dava voltas com a visão das pessoas que comiam roscas açucaradas. como o canto de uma cigarra. onde o som da música espanhola animava o ambiente. churros. roçavam o corpo de leve e tornavam a se afastar. espetinhos de carne. Na mesma hora. amendoim torrado. pulando cercas e atravessando os riachos com água pelos joelhos. As duas situações pareciam semelhantes às armadilhas que o jardineiro deixava no quintal para apanhar os coelhos que iam comer os legumes da horta. batatas assadas na brasa. e havia grupos de pessoas reunidos em volta de barracas improvisadas que vendiam toda sorte de comidas típicas. Estava exausta. a excitação da fuga — tudo contribuiu para criar essa sensação de vertigem. enquanto descreviam círculos em volta um do outro. Quando chegou ao porto de mar. As castanholas mantinham o ritmo acelerado e ininterrupto da dança. Ela se apoiou no primeiro objeto que encontrou para não cair no chão — e esse objeto era um homem troncudo que estava ao seu lado. A jovem fugitiva chegou a Santa Flávia por volta das nove da noite. Nem se lembrou que fazia uma hora mais ou menos que estava correndo pelo mato. camarão frito. Lucy ficou parada entre as pessoas que assistiam à dança. pipocas. enquanto os olhos negros do homem lançavam faíscas sob o chapéu de abas largas. e os brincos dourados da mulher cintilavam sob as lâmpadas da pracinha. Fileiras de lâmpadas coloridas estendiam-se ao longo do cais. Uma delas piscou o olho. uma infinidade de petiscos deliciosos e tentadores. Como não tinha um tostão para gastar. como se Lucy fosse um menino do interior que tivesse vindo à cidade para a festa à fantasia.a vida inteira ou casar com um desconhecido que não amasse. é que Lucy não tinha dinheiro nem mesmo para comprar um pastel e matar a fome. o cansaço. O sangue latino corria pelas veias dos dançarinos que executavam passos complicados e graciosos no meio de terreiro. de camisa bordada no peito. contentou-se em andar pelo meio da multidão. A fome. com vestidos de babadinho e flores espetadas nos cabelos. As rendas do vestido da mulher descreviam desenhos bonitos ao lado da calça justa do homem. juntamente com bandeirolas e estandartes de diversas cores. com os braços levantados na altura dos ombros. churrasquinhos. caíram na gargalhada quando viram seu traje caipira — a calça larga e a camisa rasgada no peito. percebeu imediatamente que a cidade estava em festa. ao ritmo do paso doble executado por uma jovem de saia rodada e por um homem de cabelos negros. morta de fome. no entanto. De repente. mas muito excitada com sua aventura para se incomodar com esses pequenos inconvenientes. A dura verdade. ostras com limão e outros frutos do mar. com punhos de babadinho e um chapéu de palha na cabeça que cobria parcialmente os olhos escuros.. Lucy sentiu-se tonta como a mariposa que bate na luz. Três garotas de braços dados. Lucy sentiu água na boca com o cheiro embriagador da comida.. Alguns meninos jogaram serpentina e confetes em cima dela e seus cabelos claros ficaram cobertos de pontinhos coloridos. .

com a voz furiosa. menino — comentou o homem de camisa rendada. O que ele roubou de você? Você tem alguma prova de que ele estava com a mão no seu bolso? — Ele se encostou em mim! — disse o homem. como se não admitisse a interrupção da dança. mas não tem cara de batedor de carteira. Os olhos dela estavam brilhantes e continuava batendo as castanholas na mão. Embora o homem de camisa rendada tivesse a aparência de alguém muito rico ela não podia aceitar publicamente uma caridade! Lançou um último olhar em sua volta antes de se perder no meio da multidão. Ela se encostou no ombro do homem de camisa bordada. — O que aconteceu? Você vai matar o menino espancando-o desse jeito! — disse o homem com a voz autoritária de alguém que está acostumado a ser obedecido. pegue este dinheiro aqui e vá comer alguma coisa. — Ah.. o homem pensou que Lucy era um moleque cigano que estava tentando bater-lhe a carteira. — Você está com jeito de quem andou passando necessidades ultimamente. — Você não pode mandar um menino dessa idade para o xadrez. com a voz trêmula. Não vou permitir que você seja preso numa noite de festa. Olhe. que a afastou com um gesto brusco do corpo.. se bem que estivesse morta de fome e de sede.como se tratava de uma festa popular e os roubos eram freqüentes. — Eu não roubei nada — disse por fim. ouviu? — Eu acredito em você. Eu vou levar esse moleque para a delegacia. — Isso é demais. de cabeça baixa. — Muito obrigado mas eu não posso aceitar seu dinheiro — disse Lucy. Estava contente consigo mesma por ter recusado o auxílio do homem. — Ele enfiou a mão no meu bolso — respondeu o homem troncudo. — Mas ele é apenas um menino! — exclamou o outro. libertando Lucy das mãos de seu agressor. seu vagabundo de uma figa. — Ladrão! — gritou em voz alta. A gente não pode nem mesmo ir a uma festa sem alguém tentar roubar a carteira. segurando-a pela orelha e sacudindo-a com toda força. Tinha que encontrar urgentemente uma maneira de ganhar um dinheiro. Minutos depois avistou a porta dos fundos de um . eu te apanhei com a mão no bolso! O homem estava arrancando literalmente sua orelha quando o dançarino de camisa abriu passagem por entre a multidão e aproximou-se dos dois. — O que foi que ele fez? O homem troncudo continuou segurando Lucy pela orelha e olhou para o dançarino que estava acompanhado da mulher de saia rodada. tratada publicamente de ladra diante do povo. Você deve estar com fome. se bem que estivesse ligeiramente arrependida de não ter matado a fome e a sede por causa do seu orgulho! Passou diante de uma barraca onde uma mulher fritava churros e sentiu novamente uma contração no estômago. — Eu não sou ladrão nem vagabundo. Lucy ouvia.

Decidiu entrar ali e perguntar se precisavam de alguém para lavar a louça por algumas pesetas. A mulher. — Opa. entrou na cozinha do restaurante onde uma mulher gorda e um homem baixinho tomavam vinho tinto e se lamentavam de ter que trabalhar no feriado. jogou um punhado de sabão em pó e se preparou para executar o serviço que já se tornara uma rotina na sua vida. até estarem brilhantes. com um sorriso sem graça. querido. Eu preciso arrumar uma máscara para entrar no cordão.restaurante. não fizera outra coisa no convento a não ser lavar pratos e tigelas. enquanto os outros se divertiam lá fora. Isso é melhor do que passar o último dia da festa trancada numa cozinha. Estava prática no assunto. — Eu cobro baratinho — repetiu Lucy. dirigindo-se à porta que comunicava com o salão. — Além disso. garotão. A limpeza dos pratos e dos talheres levou uma hora mais ou menos. lançando um olhar reprovador na direção de Lucy. — Primeiro você lava a louça e depois você recebe. Era perto da meia-noite quando Lucy deu por encerrado o trabalho.. Pode começar. então. você pode lavar os pratos e os talheres. Afinal. — Posso receber uma parte adiantado? — perguntou Lucy. Lucy aproveitou a indireta e se ofereceu para lavar a pilha de pratos e de talheres que estava amontoada dentro da pia. — Está bom. — Mas ele vai querer dinheiro — disse o baixinho. no entanto. — Eu cobro baratinho para lavar todos esses pratos e talheres — disse com um sorriso da porta. — Está bom. quando as máscaras eram retiradas dos rostos e os pares se viam pela primeira vez. — Não. isso é demais! — interveio o baixinho. Em seguida. Lucy deu um suspiro ao olhar para a pia cheia de pratos sujos. Nada de bancar o esperto pra cima da gente e dar o fora com o dinheiro. Ela não via a hora de comer um pastel e de tomar um refrigerante. hoje é festa! — disse a mulher com displicência. Depois que os dois saíram. Com as mãos nos bolsos da calça e o jeitão desembaraçado de um adolescente. Caso contrário você não vai receber as vinte e cinco pesetas que estou disposta a lhe pagar por seu trabalho. A algazarra que vinha do salão dava a entender que o baile à fantasia estava se aproximando do final. desconfiado. O homem observou-a em silêncio. Assim a gente vai ao baile à fantasia. Apanhou a chaleira em cima do fogão e despejou água quente em cima das louças. isso não! — disse a mulher com autoridade. cujo rosto largo estava corado pelo vinho que bebera e que devia estar ligeiramente tonta. — Jorge. aceitou imediatamente a sugestão. Vamos andando. . Você pode usar a água quente que está na chaleira e esfregue bem os pratos. esse menino parece que não põe nada na boca há uma semana..

Estremeceu ao avistar a máscara escura inclinada sobre ela. Ao atravessar a porta da cozinha. por favor — disse. O queixo era fino e fugidio. que se apagou finalmente na escuridão total. Sabia que era apenas uma brincadeira nova que tinham descoberto. porém. — Cuidado! — berrou alguém. — Não temos mais copos limpos no bar. O nariz era enorme e a boca estava acentuada com linhas bem definidas. Deu uma exclamação abafada e.. de onde vinha a algazarra que ouvia. A mulher gorda estava vestida com um casaquinho vermelho. sentiu-se completamente desorientada. alguém a empurrou com mais violência e ela caiu no meio do salão com um grito de susto. — Eu fui paga apenas para lavar a louça — disse Lucy com firmeza.. Continuou deitada onde estava. Lucy tinha a impressão de estar vivendo um pesadelo. — Lave esses copos. Outros empurravam Lucy de um lado para o outro do salão. Passou em silêncio pelo garçom e dirigiu-se à sala do restaurante.. da cor de esmeralda. como se o mascarado sorrisse com ironia dos desatinos da existência. mas suas emoções estavam muito tensas com todos os acontecimentos anteriores para achar graça na festa popular. Ela se lembrou repentinamente. com a cabeça dolorida e podia jurar que escutava vagamente o ruído do mar. Seria fácil reconhecê-la no meio do cordão. CAPITULO II O quarto estava iluminado por uma lâmpada no teto no momento em que Lucy voltou a si. Com um suspiro de desânimo. . devia receber o dinheiro para poder pagar o quarto e não tinha a intenção de lavar duas dúzias de copos a troco de nada. no mesmo instante. como uma chama ardente. — Vocês vão machucar o garoto! Ela sentiu uma dor lancinante quando o bico do sapato atingiu sua testa e tudo em sua volta começou a girar a uma velocidade espantosa. Era impossível encontrá-la no meio de tanta gente. caiu embaixo dos pés que dançavam. garoto! — berravam alguns pares. Em dado momento. com um tremor de susto. A fome que sentia antes se transformou subitamente numa espécie de enjôo e a única coisa que desejava no momento era sair da cozinha que fedia a alho e cebola. Antes de ir embora.Estava enxugando as mãos na toalha de pratos quando o garçom entrou na cozinha com uma bandeja cheia de copos de vinho. dos saltos altos das mulheres e das botas dos homens. — Saia da frente. fruto do excesso da bebida e dos impulsos recalcados o ano inteiro. abrindo passagem lentamente e recebendo empurrões dos pares que dançavam a sardana. De repente. mas era com certeza o efeito de ter recebido um golpe na cabeça. porém.. que estivera sob os pés dos pares que dançavam no salão de baile. ligeiramente cruéis. a brincadeira se tornou mais vibrante e animada. caminhou pelo meio da multidão. um vulto debruçou-se sobre a cabeceira da cama.

. pensou Lucy. A cabeça está doendo muito? Ela assentiu em silêncio e sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha quando o desconhecido desabotoou a camisa xadrez para examinar as marcas que recebera no peito. — Posso — murmurou Lucy. O homem a tomava por um menino. finalmente você voltou a si — disse o homem com a voz arrastada. — Sua camisa está imunda e eu vou providenciar uma limpa. mascote. Lucy teria notado os traços elegantes do indivíduo. Imediatamente ela deu uma exclamação de dor e o desconhecido observou-a com atenção. — Você pode tomar sozinho ou quer que lhe dê na boca? O homem colocou um dos copos na cabeceira da cama. Lucy era delicada como um filhote de animal selvagem.. inclinando-se sobre Lucy e segurando-a pelo queixo para examinar os ferimentos que recebera na testa. passou o braço em volta de suas . hein? Por que eles estavam se divertindo às suas custas? O homem sentou-se na beira da cama com dois copos na mão e lhe serviu uma dose de conhaque. como se enxergasse o próprio demônio na sua frente. que estava grande demais para ela. — Você está branco como cera. rebelde e inocente ao mesmo tempo. No momento. Você gostaria de tomar alguma coisa? Um gole de conhaque. e o homem que a examinou de relance. porém.. Esguia como uma gazela. Não havia indicação das curvas do corpo embaixo da camisa grosseira de algodão. um travesseiro fora posto embaixo de sua cabeça para erguê-la ligeiramente. fazendo um esforço para levantar o corpo dolorido. descontraindo os músculos.. Antes que Lucy pudesse protestar. o queixo delicado de adolescente. — Eu vou lhe fazer companhia e beber alguma coisa.. toda sua atenção estava voltada para a máscara. Por favor.. Ele foi até o armário das bebidas que ficava no canto do quarto e ela ouviu o ruído de copos e de garrafas. o anjo do mal que não gostava da luz e que zombava das pessoas que seduzia com sua beleza irresistível. não pareceu muito impressionado com a curva delicada e graciosa dos quadris. Era natural por isso que a examinasse com tanta liberdade. A luz da lâmpada elétrica batia diretamente no seu rosto e revelava os ossos aparentes sob a pele. — Você vai ficar com manchas roxas nos primeiros dias. — Ah. por exemplo? Seria bom para você se sentir mais bem disposto. Lucy olhou em volta e viu que estava deitada numa cama beliche. seu coração bateu mais depressa.. Não é todos os dias que salvo um náufrago de um baile à fantasia. sem falar num galo na testa. não vá desmaiar de novo! — disse o homem com um gesto de impaciência. Como você foi parar lá. — Você está me reconhecendo agora? — perguntou o homem retirando a máscara do rosto e jogando-a para o lado.. os olhos verdes de cílios compridos. da cabeça aos pés.Em qualquer outra circunstância.

— Eu estava lavando a louça na cozinha e. passando a língua nos lábios. você vai me contar como se chama e como foi parar no meio daquela festa? — Foi por acaso — murmurou Lucy sem jeito. Era humilhante a maneira como fora tratada no salão de baile. por instinto. fui ao salão para ver se recebia da mulher que tinha me dado o serviço. Está sentindo o cheiro gostoso do mar. mascote. quando terminei. — Num barco ou num veleiro. o brilho da madeira que revestia a peça. No momento em que bebeu o último gole de conhaque. os olhos estavam pesados e sonolentos. a austeridade do ambiente tipicamente masculino. Nunca tinha provado álcool antes e achou muito gostoso. tenho a impressão de que você andou passando dificuldades ultimamente. Os indivíduos desse tipo nasceram para liderar os outros e vivem de acordo com as suas leis. uma espécie de carisma ou de poder magnético que esse homem tinha.costas e colocou o copo nos lábios. — Beba isso. — Fico contente que você tenha gostado. — Fez uma pequena pausa e voltou a observá-la com atenção. Bom. mascote? Lucy apertou a colcha com nervosismo e pensou que algum anjo ou demônio . menino. mas suspeitava que o desconhecido era responsável por isso. Chama-se Miranda e é minha casa durante a maior parte do ano. para se divertir às minhas custas. não? O homem segurou o copo de conhaque com as duas mãos. como um verdadeiro entendido. Pelo jeito. sem prestar contas a ninguém dos seus atos. Era algo inato. Lucy parou. Ela não se lembrava mais como fora levada do restaurante. hein? O líquido desceu pela garganta e ardeu no seu estômago. o luxo do carpete e do sofá ao lado da estante de livros. Esse conhaque vem da França. — Então. De alguma forma. Estava procurando-a no meio dos pares quando eles começaram a me empurrar de um lado para o outro. que se bebe conhaque. Mascote. Um toureiro amigo meu tem loucura por conhaque. Nós partimos de Santa Flávia há uma hora e estamos em alto mar no momento. que alguns homens são de uma categoria diferente. Olhou em volta pela segunda vez e avistou uma vigia atrás de uma cortina.. — É assim. sem que ninguém tivesse ensinado. sem jeito. mas ele não paga o preço exorbitante que cobram pela garrafa. — Muy bueno — disse para o homem. uma personalidade forte que levava os outros a lhe prestarem instintivamente obediência. Sabia. respirou profundamente o bouquê penetrante da bebida antes de sorver um gole.. como você preferir. salvara-a dos pés dos dançarinos e a transportara para a tranqüilidade desse quarto onde ela estava. — Nunca tomei nada tão gostoso na minha vida. levou-o ao nariz. — Onde estou? — perguntou surpresa. Sentia-se agora segura e confiante na presença do desconhecido que a tratava com amabilidade.

— Depende do quê? Ela queria ouvir uma resposta direta e ficou na dúvida quando viu um sorriso esboçar-se nos lábios do homem. antecipar-se aos meus desejos. Uma parte da fumaça saiu pelo nariz e Lucy respirou sem querer o aroma intoxicante do fumo escuro. Pelo visto. Lucy observou com atenção o homem riscar o fósforo e aproximar a chama do fumo. de olhos arregalados. sacudindo a cabeça com vivacidade. — O que você vai fazer comigo? — Não sei ainda. não voltaria nunca mais para o convento das freiras. mascote. — E como você se chama? — repetiu o desconhecido. — Mostre-me suas mãos. não brigar com ninguém e estiver sempre de bom . Se você obedecer minhas ordens. Observou com ansiedade os olhos negros examinarem detidamente os dedos e as palmas avermelhadas pelo trabalho.. Os ciganos não se deixam apanhar facilmente. Por que você saiu de lá? Brigou com o proprietário do sítio? — Eu queria ser independente. — Ah. — Como você se chama? — indagou o homem. — Não é qualquer menino da sua idade que possui mãos marcadas pelo trabalho como as suas.. Quer um cigarro? — Não. Você precisava ver a pilha de pratos que lavei no restaurante. Para ela isso era novidade. — Eu acredito. onde moram? — Eu não tenho pais — respondeu Lucy com naturalidade. muito menos uma cigarrilha forte que deixava um cheiro penetrante no ar. não é verdade? Você não me disse ainda seu nome.tinha atendido seu pedido. estendendo a mão para apanhar uma cigarrilha em cima da mesinha de cabeceira. soprando a fumaça para o alto. O homem soprou a fumaça para o alto em espirais azuladas. Depende. — Mas você está com fome. muito obrigado — disse ela.. Fui criado num sítio e ajudava o dono a cuidar da horta. — Depende de seu comportamento a bordo.. Não tenho medo de pegar no batente. posso saber? Você fala a língua como se houvesse nascido aqui.. E seus pais. — Você é um cigano que vive de biscates e que não se envergonha de enfiar a mão no bolso dos trouxas? — Eu não roubei nada — exclamou Lucy com vivacidade. Era um ordem e Lucy obedeceu. um irlandês! — exclamou o desconhecido. — Eu me chamo Toni. — Eu nasci na Espanha. — Você pode se orgulhar de suas mãos — disse o homem satisfeito com o exame. — Esse fumo é muito forte para você.. Ninguém fumava no convento. — O que um pequeno irlandês veio fazer na Espanha. antes de receber aquele chute na cabeça! — Ela fez uma pausa.

Lucy confiava muito na sua sorte e não lhe passou pela cabeça o que poderia acontecer quando Lucas descobrisse sua verdadeira identidade. Como passava por menino. garotão. Eu me chamo Lucas e você pode me chamar pelo primeiro nome. Era algo assustador e cativante ao mesmo tempo e Lucy sentiu seu coração bater mais depressa com a perspectiva que surgia na sua vida. com arrogância e superioridade. Eu também vou chamá-lo de Toni. O sorriso era enigmático e combinava com o rosto cínico.. reflita sobre o que lhe falei. Claro. A camisa branca de cambraia brilhava sobre a pele bronzeada. E foi somente então que Lucy reconheceu o homem de camisa rendada que dançara o paso doble na festa popular. — Eu não brinco em serviço. Estamos entendidos? A fumaça da cigarrilha cobriu os olhos escuros no momento em que Lucas se levantou e olhou do alto para o novo marujo da tripulação. quase insolente na sua energia. nem costumo dar esperanças que não podem ser realizadas concretamente. Sem exagero nenhum. Lucas lhe oferecera um trabalho a bordo do veleiro.. No fundo. eu não sou paciente nem muito bondoso. as meninas aprendiam a ser sinceras ou completamente falsas. caminhando com uma graça e uma elegância tipicamente espanholas. Os motivos dele para suas ações eram sempre misteriosos e se Lucy fosse mais experiente — e menos confiante na sua inocência — teria fugido dele como o diabo da cruz. Enquanto isso. entendeu? Um santo gosta de ser chamado de santo. Lucas tinha a fisionomia muito interessante. — Você pode ser franco comigo — prosseguiu o homem. Por sua parte. sem cerimônia.. porque a coragem de dizer o que pensava e um pequeno medalhão de ouro eram os únicos bens que ela possuía na vida. posso guardá-lo comigo. ela preferia sempre a verdade à simulação.. como olhava para ela. portanto! Eu sou cruel quando tenho motivos para ser. Minhas crueldades são de um outro tipo. o pecador no entanto é mais sensível. A maneira como Lucas falava. embora seja meio ingênuo para sua idade. a maneira como a adotara a bordo do veleiro.. meditando nas palavras que ouvira.humor.. ela só podia ficar imensamente agradecida com a proposta e estava disposta a ser o criado mais obediente e . Como você deve ter notado. — Acredito — murmurou Lucy. Mas será que você é capaz de fazer tudo isso? Você acha que vai se dar bem com essa vida em alto mar? — Você está falando sério? — perguntou Lucy de olhos arregalados. Que fim levara a mulher que lhe servia de par? Ela continuou deitada na cama estreita. Você não é nenhum bobão. ou de qualquer outro apelido que me passar pela cabeça. No convento. criada num convento. ele parecia com um príncipe que reinara no passado nas cortes da Andaluzia. como estou vendo. Eu vou buscar uma tigela de sopa na cozinha e uma fatia de pão. Era uma sorte grande trabalhar para esse homem misterioso e amável que tinha um olhar muito diferente da expressão plácida e bondosa do padre Horácio. assustada com as palavras do desconhecido. Embora fosse uma jovem inexperiente. Tome cuidado. — Mas não confiado demais. Lucas fez meia-volta e saiu do beliche.

Era meia-noite em ponto quando subi a bordo com você nos braços.. — Quer mais? — perguntou. — Você não precisa morder as mãos. Daqui a um ano vou ser maior de idade... que idade você tem? — Eu fiz dezessete anos há um mês.. se não for esse seu desejo. — E você... Foi você que me trouxe para cá? — Foi. Não demora nada. com um cheiro muito apetitoso. Você deve ter suas razões para agir assim e não sou eu que vou contrariá-lo. notando o nervosismo de Lucy. não é? Os espanhóis também costumam ser. Você está com o rosto muito pálido. — Muito obrigado. e uma fatia grande de pão.. mas quem podia prever até quando duraria essa situação? Estava refletindo sobre isso quando a porta se abriu e Lucas voltou com uma bandeja redonda na mão. como se estivesse faminta. estava deitado nessa cama. — Eu sou supersticioso e muitas outras coisas além disso.. Lucas a observou em silêncio. Lucy já tinha tomado muitas vezes sopa de cebola no convento. — Eu trouxe uma sopa de cebola para lhe dar força. — Ah. — Eu não devia levar você comigo sem obter antes a autorização de um responsável. — Posso mandar fazer uma omelete para você. você me trouxe para cá. eu estava inconsciente e não me lembro de nada. Quer dizer então que você está decidido a trabalhar conosco? O que foi que o levou a tomar essa decisão? — Bem. filhote — disse Lucas. sem falar que uns quilos a mais não lhe fariam mal nenhum. garotão? — Acredito — murmurou Lucy em voz baixa. onde havia uma tigela fumegante. foi a melhor que tomei na minha vida. não querendo entrar em detalhes. Você acredita no destino. quer dizer que você é supersticioso como todo bom irlandês? — perguntou Lucas com um sorriso irônico... Você vai me mandar de volta para lá? — Não. depois que ela comeu a última migalha de pão. Bebeu tudo e raspou o prato. — O que você comia no sítio onde morava? As sobras da mesa? — Mais ou menos — murmurou Lucy sem jeito. antes de mais nada.. Espero que você goste de nossa comida a bordo.. como se ela fosse uma criatura vinda de um outro planeta. notou imediatamente que era muito melhor e mais gostosa que o líquido sem graça que as freiras faziam.. — A sopa de cebola estava uma delícia.submisso de toda a tripulação. — O destino é quem dirige nossas vidas. Eu tinha dito ao capitão para levantar âncora à meia-noite e ele obedeceu ao pé da letra minhas instruções. Entretanto. Por falar nisso.. como você vai . Aprendi a ser livre e a respeitar a liberdade dos outros. no momento em que provou a sopa que Lucas trouxera. Quando voltei a mim. eu comi demais — disse Lucy reclinando a cabeça no travesseiro. Eu não quero voltar para a casa onde morava. que dava perfeitamente para duas pessoas.

A cabeça estava doendo ainda. Afinal. . diferente de todos os adultos que ela conhecia... exclusivamente seu. mascote! Eu vou lhe mostrar onde você vai dormir. muito contente com o quartinho minúsculo. Lucas não podia suspeitar que ela era uma jovem de dezessete anos.. Lucy levantou-se da cama e sentiu-se meio tonta quando ficou de pé. como as outras pensionistas do convento davam a entender que fosse. a não ser a mim.. Outra coisa. como pressentia. sem prestar atenção às outras implicações do comentário. esfregando os corredores e o refeitório. mas essa não seria uma atitude muito correta para um adolescente de sua idade. Mas como não costumo levar comigo nenhum criado quando viajo em alto-mar. ia ter um quarto independente. — Esse é o quartinho onde normalmente eu acomodaria meu criado. Além disso. Imagine só uma moça viajando sozinha no meio de uma tripulação exclusivamente masculina! Ela vira Lucas dançar na festa popular e sabia perfeitamente o perigo que havia quando ele estava na companhia de uma mulher. mas tinha conhecido dores mais fortes no convento após passar muitas horas ajoelhada no chão. porém. Se fosse necessário. — Sangue inglês? — perguntou Lucy surpresa. cujo dono era um homem simpático e amável.descobrir com o tempo. o amor não era nenhum sentimento extraordinário. Será que o padre Horácio faria a mesma coisa? Ela o seguiu até o outro beliche que ficava ao lado do primeiro.. O camareiro é meio estúpido. Você não pode dormir no meu beliche. o quarto está vazio. Lucy ignorava a maior parte dos laços que unem os sexos. Seria muito perigoso. senão os outros vão pensar que eu me deixei corromper por seus cabelos claros e isso não fica bem para meu sangue inglês. arrumado. Agora.. — Claro que sei! — disse Lucy olhando em volta de si. cheirando a madeira e a metal polido. a muitos e muitos quilômetros do convento terrível de onde fugira. Limpo. ele seria capaz de entrar numa casa em chamas para salvar uma criança.. Lucas pelo visto nunca dissera uma oração na sua vida. mas era mais atencioso e humano que muito padre de batina que ela tinha encontrado no convento. embora fosse bem menor. mas eu vou recomendar que seja paciente com você nos primeiros tempos.. — Você parece mais espanhol. Na opinião de Lucy. Pode ler os livros que estão naquela estante. finalmente. Ela achava muito mais divertido passar por menino e velejar num barco com todo conforto. dê o fora da minha cama. Aqui a bordo somente eu me reservo o direito de lhe dar uns tapas quando for oportuno.. Eu vou levá-lo comigo como meu criado pessoal e você não deve obediência a mais ninguém. ela estava agora a bordo de um veleiro maravilhoso. a não ser o que fora murmurado no convento pelas meninas que estavam noivas. Sentiu vontade de estreitar nos braços seu novo patrão. disposta a aceitar qualquer coisa contanto que não fosse mandada de volta para o convento. se Lucas descobrisse sua verdadeira identidade. Você pode dormir aqui enquanto não arrumamos um quarto maior. tinha uma colcha bordada espanhola em cima da cama estreita. Ela dormira a vida inteira num dormitório com outras quarenta meninas e agora.. — Eu só herdei da minha mãe os olhos claros. mais ninguém. mascote. Está combinado então. se é que você sabe ler.

Mesmo assim. Esse bicho é meio diabólico e é por isso que gosta das chamas — comentou Lucas com um sorriso. ele estava de volta no beliche pequeno.. acompanhando o movimento ritmado do veleiro sobre as ondas. — Buenas noches.. não podia abandonar de uma hora para outra . observando seu gesto com um sorriso. a peça que lera no convento há algum tempo: — Admirável mundo novo. — Exatamente. Mas você podia vestir por enquanto somente o casaco. vai fazer tudo que eu mandar e não deve se esquecer de que minha palavra é sagrada. com a lâmpada apagada.. ela o viu abrir a porta do armário e retirar de dentro um casaco de pijama de seda preta. Que tal a idéia? Lucy assentiu sem jeito e Lucas saiu do beliche para apanhar o casaco do pijama. Vão ficar grandes demais. Continuou deitada no escuro. enfiando as mãos nos bolsos da calça. Eu prefiro que você use esse banheiro aqui em vez de usar o banheiro da tripulação. abraçada no casaco do pijama de seda que fazia uma carícia na pele nua. — Estamos entendidos. — Isso é uma salamandra — explicou Lucas apontando para a figura do dragão. para o bem e para o mal! Ela foi até a porta. — Essa calça está muito grande para você — comentou Lucas. ela achou preferível ajoelhar-se ao pé da cama e dizer suas orações. Não sabia para onde estavam indo. Afinal. No minuto seguinte. Você costuma dormir sem roupa no corpo ou de pijama? Meus pijamas infelizmente não vão servir em você. Lucas fechou a porta e Lucy ficou um instante parada no meio do beliche minúsculo. de olhos abertos. Somente umas duas vezes antes estivera no mar e agora estava sendo levada para longe de tudo e de todos. Podia ouvir o barulho repousante da água no casco do veleiro..— Você foi muito gentil de me receber a bordo do seu veleiro — disse Lucy. Você deve estar morto de sono e o melhor agora é cair na cama. a parte que tomei para mim. mascote.. capitão. Ela não estava acostumada com esses contatos e ficou toda arrepiada na cama. Pela porta aberta. Repleto também de portentos e de receios estranhos. refletindo nas palavras que ouvira. com um gesto tipicamente masculino. nem quanto tempo duraria a viagem. então? Você vai viajar com minhas cores. Avistava somente o brilho diáfano das estrelas pela vigia aberta. pela vontade de um homem que conhecera por acaso num baile à fantasia. Buenas noches. — Faz parte do brasão da família. repleto de maravilhas estranhas. — Ouvi dizer que a salamandra não tem medo do fogo. pelo menos. mas lembrou-se das palavras de Miranda na peça de Shakespeare. fora melhor do que muito padre de batina. com uma figura vermelha de dragão estampada no peito.. Despiu-se em seguida ao lado da cama. — Há um banheiro no outro lado do beliche. Que importância tinha se o homem fosse ruim como o inferno? Para ela. que a levaram a deitar-se rapidamente na cama. — Mas vamos deixar isso para amanhã.

como se você quisesse engolir o mundo e há mil perguntas que estão escondidas atrás de sua cabeça. Pelo jeito. porque nunca tive religião nenhuma.um hábito de tantos anos. — Sem falar que você recebeu uns chutes na testa! Olha. pequeno? Só faltava essa! Um moleque sem um tostão no bolso que se ajoelha para agradecer o que recebeu da vida. — Eu não sei como todo esse trabalho no sítio não acabou com você. mesmo para olhos inocentes. a bordo deste veleiro. na Espanha. pela comida. Não faça cerimônia. havia ali um motivo concreto de atração física. guri? O fato de estar comigo neste veleiro? — É — murmurou Lucy sem jeito. O mar pode ser cruel. Não acredito em nada e não sei rezar. a vida está começando para você.. Lucy voltou a cabeça.. Eu estava sem um tostão no bolso e não sabia como ia fazer para passar a noite. depois de tomar aquela tigela de sopa de cebola... Surpresa e agradecida. mas nunca é tão solitário quanto no meio da multidão. — Você tem tudo e é uma pessoa importante. observando-a em silêncio. Lucy segurou a jarra nas mãos. no meio do mar. quando a lâmpada perto da porta se acendeu e clareou o pequeno beliche como se fosse a luz do dia. Eu só tenho um lugar onde me sinto bem. pela cama.. Carregava na mão um pote de louça e um copo.. por não ter que passar a noite deitado em baixo de uma porta. com a cara espantada. Toni. Como você pode saber o que é a gente sentir-se agradecido por um favor que recebeu? Agradecido pelo trabalho.. como se não pudesse entender a cena que presenciava. Dei a volta ao mundo nesse período duas vezes. você está muito abatido. apagou a luz e saiu do beliche. A camisa dele estava aberta no peito e. — Por aí — concordou Lucas com um sorriso. — O que você está fazendo? Lucy levantou-se. eu trouxe uma jarra de mate gelado. com as mãos e os olhos fechados. porque me envolvi num caso famoso de divórcio.. — Eu vivi duas vidas enquanto você viveu apenas uma. mas não é tão cruel quanto as pessoas. bem distante do mundo. e cobriu o corpo esguio com o casaco do pijama que lhe batia nos joelhos... Este mate é uma delícia para matar a sede.. Ele tornou a examiná-la sem cerimônia. Que idade você disse que tem? Dezessete anos? Você tem idéia de minha idade? — Você deve ter uns trinta e cinco anos. O mar pode ser um local de solidão.. Você estava agradecendo o quê. chico. sem ninguém para me aborrecer a vida. De qualquer maneira. bebendo em . sou um motivo de escândalo. e piscou os cílios compridos sob a claridade intensa da lâmpada elétrica.. Meus parentes ingleses não querem saber de mim e.. Seus olhos estão esfomeados.. Estava ajoelhada. envergonhada. Lucy permaneceu alguns minutos sozinha na escuridão do quarto. A mulher para quem eu lavei os pratos no restaurante não me pagou. Lucas estava em pé ao lado da porta.. — Você estava rezando. Talvez você esteja com sede. Lucas despediu-se de Lucy com essas palavras. assustada. da cabeça aos pés.

— Ouça o que estou lhe dizendo. seu escudeiro. Lucy ouviu os comentários trocados na cabine de Lucas. Mas se você fizer todas as suas vontades. rodeado de mulheres e de música. Marcelo. Como menina. Acho preferível. a fim de atender suas necessidades pessoais. Uma menina criada no convento e que fugira de lá porque não queria pronunciar os votos de obediência e castidade! O que diria a irmã Imaculata se visse agora a jovem rebelde que ela desejara transformar numa santa? Vestida com o casaco do pijama de um homem que pregava a revolta e os vícios! A querida e terrível irmã diria que Deus havia permitido que a moça irlandesa. adeus sossego! Ele vai se tornar tão insolente que ninguém mais vai aturá-lo. Ele levou uma vida dura até agora e eu não quero que o criado de bordo o maltrate ainda mais. até se cansar de tudo e retornar ao oceano azul onde podia respirar novamente o ar puro da brisa marinha. Na condição de menino. que são uns ladrões e uns vadios. caísse nas mãos do próprio demônio.pequenos goles o mate gelado e refletindo em tudo que ouvira. Lucy ouviu a gargalhada sonora de Lucas. Como a porta permanecia sempre aberta entre os dois beliches contíguos. Lucy terminou o mate e enfiou-se embaixo da colcha. Eu vou ficar de olho nele. Lucas. — Eu não sou nenhum santo. teria uma noite ou uma hora apenas na sua existência. Só que dessa vez estou disposto a fazer uma concessão à minha natureza boa e educar esse menino. Um homem solitário que se sentava diante de uma mesa de jogo e de uma garrafa de uísque. — Tome muito cuidado porque eles costumam roubar tudo que acham pela frente. Ela seria seu pajem. que ele durma no porão com os outros. de cabelos claros e rosto pálido. Por que você não quer deixá-lo aos meus cuidados? Prometo que ninguém vai judiar do moleque. podia viver a vida inteira com ele. mais claro que o outro. promessa de redenção no olho direito. Os olhos eram a alma do homem... Tinha que tomar muito cuidado para Lucas não descobrir sua identidade. no entanto. Se você está disposto a levá-lo a bordo do veleiro. . CAPITULO III Lucas era tão excêntrico que ninguém se surpreendia mais com suas atitudes. e depois seria esquecida. seria preferível deixá-lo aos meus cuidados. Pecado e maldição no olho esquerdo. como as outras. — Esses moleques árabes são perigosos — disse o capitão do iate. o capitão e a tripulação do Miranda não demonstraram surpresa muito grande quando souberam que o dono do veleiro tinha trazido um menino para bordo. por mais contraditórios que fossem. As freiras falavam o tempo todo no pecado e no inferno. a fim de aprender o ofício de marujo. mas ela nunca os vira antes refletidos em dois olhos humanos como na fisionomia sombria de Lucas. Assim. Esses moleques em geral saem aos pais.

que lhe dava a aparência de uma pantera negra. envolta no casaco do pijama que lhe batia nos joelhos. — Pode continuar deitado. — O que você acha? Ele vai ficar bom logo? — O golpe foi sério pelo jeito. Mas continua de repouso. Lucy passaria certamente um mau bocado se fosse entregue aos seus cuidados. Como foi que o recebeu? Numa briga? — Não. examinando atentamente os cabelos claros . — Esse menino nunca teve nada na vida. porque sua roupa fora levada embora e não recebera outra calça e camisa para vestir. Lucas retirou a cigarrilha da boca e soltou uma baforada para cima.. Não seria ela que morderia a mão que lhe fazia festa. se bem que a barba preta e o uniforme da Marinha Mercante lhe dessem um ar severo de autoridade. Lucas estava vestido aquela manhã com uma calça preta.— Você tem receio que eu vá estragá-lo. — Ele vai dormir aqui por enquanto — disse Lucas. Se ele botar as manguinhas de fora. Já ficou bom? — Quase bom. O que nós temos em reserva. Lucy tinha vontade de segurar na mão dele e beijá-la. Marcelo.. No momento em que o capitão examinou-a de alto a baixo. menino — disse com a voz cordial. A impressão que se tem é que passou a vida toda preso numa corrente no quintal. Lucy voltou-se para Lucas com o olhar suplicante. Você pode ficar tranqüilo. — Puxou o lençol e voltou-se para Marcelo. Lucas não era nenhum santo. Eu sei tomar conta de meninos dessa idade. Ela continuou em pé. O capitão deu uma risada como se duvidasse da capacidade pedagógica de Lucas. — Vou ver no porão — disse Marcelo. Caminhava com passos silenciosos e. e uma malha de gola rolê. Ele caiu no chão e as pessoas pisaram em cima de sua cabeça. como se ela fosse um animalzinho de estimação. eu vou cortar suas asas. Marcelo? Há alguma roupa sobrando de um tamanho pequeno? Minha calça fica muito larga e comprida no seu corpo. foi no salão de baile. levantou-a no colo e deitou-a de novo na cama. aproximou-se dela. Lucy ouviu os dois homens se aproximarem do seu beliche. Não foi. era alguém que levava muito a sério sua posição no veleiro. O capitão era mais baixo que Lucas. junto da porta. mas tinha uma maneira misteriosa de conhecer o fundo da mente das pessoas e a tratava com carinho. justa no corpo. num minuto. mascote? Lucy assentiu com a cabeça. — Aproveite para descansar bastante esses dias. Pelo visto. — Posso ver o menino? Ouvi dizer que ele recebeu um chute na cabeça. — Só que precisa de uma muda de roupa para vestir. Marcelo? A fumaça da cigarrilha ia na direção do beliche de Lucy e ela podia visualizar a fisionomia divertida de Lucas enquanto conversava com o capitão. Era a primeira vez na vida que alguém tomava sua defesa.

ele tem olhos de irlandês — concordou o capitão. menino? — Um pouquinho — murmurou Lucy. Você sabe nadar? Toni balançou a cabeça negativamente.. pode crer. mas as coisas acontecem sem a gente querer. As meninas no convento trabalhavam por amor a Deus. Não há nada como a brisa marinha para curar um homem. Nadar é tão indispensável a bordo quanto respirar. O capitão pareceu mais benevolente depois que examinou a ferida. — De fato.. menos dançar e nadar. Lucy se dera conta do galo enorme que tinha na testa. Mas tome cuidado. alguns minutos antes..de Lucy. É bom você descansar um pouco mais. — Podia mesmo — concordou Lucy com vivacidade. O pouco que Lucy saía no jardim não era suficiente para torná-la morena. — Especialmente depois de todo aquele trabalho na cozinha. No momento.. sem poder acreditar que os dias de lavar pratos e talheres tinham terminado de fato. Lucy não se conformava de ter trabalhado à toa. pode subir no convés depois que o capitão arrumar umas roupas para você vestir. sem receber o salário a que tinha direito. . a pele branca que nunca fora bronzeada pelo sol da Espanha no interior do convento. — Nesse caso. e não receber nada. mas era muito diferente suar na cozinha de um restaurante. — Espero que sim. — De fato. — Isso já ficou para trás. — Como você gosta do mar. a testa continua bem inflamada. menino! Agora e olhar para a frente e tocar o bonde! — Isso é bom de dizer — comentou Lucy. A cabeça doía ao menor contato.Eu não vou lhe causar mais nenhuma amolação. — A cabeça continua doendo. mas a vida não era feita de milagres. As meninas do convento aprendiam muita coisa. — Como esse menino tão claro foi nascer no sul? — Ele nasceu na Espanha por acaso. orgulhosa como só ela! — Voltou-se para Lucy. nem mesmo um muito obrigado! — Você não se esqueceu ainda desse dinheiro? — exclamou Lucas com uma risada. — Ciente rebelde à autoridade. —. não me vá cair na água! Eu não estou disposto a salvá-lo uma segunda vez de uma situação perigosa... — Eu espero que ele esteja completamente recuperado dentro de alguns dias — disse Lucas. cheirando a alho e cebola. — Eu vou tomar cuidado — murmurou Lucy agradecida. — Aquele bando de bêbados podia ter matado esse menino. Todos nós estamos sujeitos a cair na água de uma hora para outra. A única água que conheciam era a dos baldes e das torneiras. suba ao convés para respirar o ar fresco. Os pais eram irlandeses. Quando melhorar. tudo que desejava era continuar a bordo do iate. você tem que aprender rapidamente. No momento em que fora ao banheiro.

O capitão tinha saído do beliche e os dois estavam sozinhos. a seu modo. não é mesmo? Maios ojos. — Ah.. pensou Lucy mordendo o lábio. Não que fosse má. Como tinha coragem de confiar em Lucas? Ele tinha uma aparência meio diabólica que assustava os outros. Era natural que os espanhóis fizessem o sinal da cruz quando o avistavam na rua. Lucas não seria aceito como um inglês cem por cento pela sociedade tradicional.— Deus nos livre desse dia! — murmurou o capitão.. cabelos negros que começavam bem baixo na testa. Lucas observou-a atentamente e passou o dedo de leve por cima do galo no alto da testa. que bebia rum e dançava o paso doble para alegria dos amigos nos inferninhos mal-parados de Santa Flávia. Um peixe fora da água. Ele se parece um pouco comigo. Lucas não podia suspeitar que ela estava fingindo ser menino. com os joelhos dobrados embaixo do lençol. — Ah. — Acorda! — disse Lucas estalando os dedos diante de seu rosto distraído. sobretudo devido a sua pele morena e a seu talento de conquistador. você é supersticioso como todo espanhol que se preze comentou Lucas com um sorriso irônico à intenção do capitão de barbas longas. eu estava pensando. embora usasse uma espécie de gíria que tornava sua conversa colorida e cosmopolita. com o rosto repentinamente sério.. Tinha a pele de um tom dourado. Ela conhecia muito bem a atração que Lucas exercia sobre as mulheres. Lucas era mais do norte que do sul. segundo a qual devia se comportar como fidalgo e não como um marujo de alto-mar.. — Está doendo muito? — Um pouquinho. cruel às vezes. impiedosa. Ele atirou a ponta da cigarrilha pela vigia aberta. — Os espanhóis se benzem quando eu passo na rua. — Que remédio! — disse o capitão com um sorriso. Ele podia ter nascido em qualquer grande cidade do mundo. Ela imaginou que estava mais pálida que de costume em conseqüência da pancada na testa. Ninguém podia imaginar que ele tinha sangue inglês. Lucy. porque Lucy não estava em condições no momento de resistir ao seu fascínio. Lucy levou um susto e bateu com a cabeça na cabeceira da cama. deitada na cama estreita. Mau olhado. de todas as . Na Inglaterra. — Supersticioso e atento ao mau olhado! Não sei como você viaja com um homem como eu. Revoltava-se contra a tradição espanhola. acompanhava a conversa em silêncio. Lucas era também um rebelde de coração. mas era sinistra. Como Lucy. — Que olhos grandes você tem. Só que no caso dele um tubarão que subiu das profundezas perigosas do oceano. — Lucas deu uma gargalhada e apontou para os olhos de tons diferentes. golfinho! O coração dela bateu mais depressa ao contato da mão morena na pele e também devido à proximidade dos olhos castanhos.

garotão! Lucas retirou o lençol de cima de Lucy e jogou-o para longe. cujos sentimentos femininos estavam começando a criar problemas toda vez que esse homem a tocava. Lucy. — Esse é um dos melhores perfumes do mundo! — disse Lucas dando uma aspirada no bafo quente do café.. levantou-a no colo e transportou-a para uma saleta. Em seguida.. — Eu me encostei no homem porque estava meio tonto. As mulheres são assim.. meu pequeno. do . — Verdade? — A zombaria desapareceu instantaneamente do rosto magro como a máscara que retirara na noite anterior. Ah.. tanto as maduras quanto as inexperientes. Lucas deu uma risada sonora que ecoou pelo beliche minúsculo como uma mistura de pimenta e de vidro moído. coitado de você. deixam sempre uma cicatriz no corpo da gente. Vamos tomar um café juntos. só que dessa vez foi uma cicatriz bem dolorosa. Não tinha comido nada o dia todo.. sem falar nas demais comodidades de um homem educado que passa a maior parte do ano num veleiro. receber o chute de uma mulher na cara. Eu sou contra o cafezinho ralo da manhã com torradas e bolachas. ela se ofereceu a mim como uma flor e eu estava na idade em que não perdia uma oportunidade de conhecer as coisas. sem falar nas fatias grossas de pão integral e no bule de café forte e aromático. O salto daquela mulher deixou uma marca no seu rosto. — Lucas segurou o queixo delicado de Lucy e voltou a cabeça dela na sua direção. em cima da qual uma bandeja estava servida com o substancial café da manhã à moda inglesa. — A dor vai passar quando o galo diminuir. — Eu tive minha primeira namorada aos quinze anos.. — Essa é uma experiência que desconheço.idades. embora fosse fascinante como a face do próprio Lúcifer quando foi expulso das regiões celestiais e precipitado nas trevas do inferno. que cara é essa.. está na hora de levantar as velas. onde havia uma mesa redonda e um sofá. sem ter feito nada de mal! A zombaria estava visível na face magra e angulosa que. Ela surpreendeu o sorriso que Lucas deu antes de sentar-se à mesa. meu Deus? Não me diga que você está com vergonha! — Eu não estou acostumado com essas conversas — murmurou Lucy sem jeito. por milagre. não era bela.. — Coitado. — Como você pode ter vergonha disso se você estava com a mão no bolso do homem? — Juro que não estava! — respondeu Lucy com ardor. respirou aliviada quando Lucas a deitou no sofá e puxou o casaco do pijama sobre as pernas. que não era um cachorrinho mas uma jovem de dezessete anos. — Você não aprendeu ainda a tratar as mulheres? — perguntou com um sorriso irônico. Lucas levantou a tampa e o cheiro apetitoso de ovos fritos com bacon deixou imediatamente Lucy com água na boca.. Nunca passei fome a ponto de perder o equilíbrio! Ah. inclusive o animal de estimação que tinha agora na pessoa de Lucy. Vamos. Eu gosto de comer substancialmente quando acordo. — Melhor do que o cheiro de cera de abelha..

O gosto da comida era tão especial e tão raro quanto o fato de estar conversando com aquele homem estranho na sala do iate. Esse ovo estalado com bacon é gostoso enquanto está quente. corando como um pimentão.. não é verdade? — perguntou Lucas estendendo o vidro de molho inglês. No momento em que deixam de me agradar. — Não me diga que você é virgem! — exclamou Lucas sem cerimônia. afastando a vista do seu rosto. — Eu não sou nenhum herói. pequeno. Ela estava com uma aparência cômica. — Nesse assunto eu sou meio inexperiente. Para falar a verdade. Você quer? — Não sei — disse Lucy sem jeito. se eu deixasse. mas intragável depois que esfria. — Muito obrigado — disse Lucy levando à boca um pedaço de pão com manteiga. Eu faço as coisas que me agradam. chico — disse o homem. — Não olhe para mim desse jeito. — Ah.. ainda bem que você não deixou! Imediatamente a fisionomia de Lucas assumiu uma expressão de zombaria. Marcelo teria mandado você subir no alto do mastro. Eu sou o que as pessoas chamam de homem volúvel. Você vai aprender isso quando crescer. Eu posso ser um homem educado ou um patife. porque tanto uns quanto os outros querem sua alma em troca. garotão.. — Eu não posso dizer — murmurou Lucy. eu não sou a pessoa certa para ter um cachorrinho de estimação. engolindo uma garfada de bacon com cogumelos fritos no azeite. eu me descarto delas sem a menor cerimônia. para não estragar o paladar da comida. dependendo de minha disposição no momento. Ele serviu o prato dela com dois ovos estalados e algumas fatias de bacon bem tostadinhas. vou arrumar uma namorada para você. quando me agradam. Não vale a pena arrancar a página do livro antes disso.. vestida apenas com o casaco do pijama e . — Depois de você engordar uns quilos. É isso mesmo.. Vamos. Nunca tinha visto tanta comida de uma só vez! Se a primeira refeição do dia era assim. Ninguém deve perder a alma por nada deste mundo! Lucy ouviu com atenção as palavras de Lucas enquanto terminava seu prato. senão eu não consigo comer. — É que você me intriga.. No fundo você tem razão. como seriam as outras? — Você passou muitas vezes fome. Eu me sinto esquisito de proteger um menino da sua idade. coma sem cerimônia. como um namoro que começa com um pé de vento e que termina com uma brisa..que o perfume de jasmim na pele de uma mulher. O que podia responder? — Não me leve a mal. Lucy abaixou a cabeça sem jeito.. Adoro minha liberdade e não a troco por nada deste mundo.. Ela aceitou os pratos da mão dele com os olhos arregalados. Está se guardando para o dia em que conhecer a pessoa certa. mascote. Eu não estou acostumado a ser bom. — Desculpe. Não adore os santos nem os pecadores. — Ponha só umas gotinhas. Meu livro da vida não é muito bonito....

O maior receio de Lucy era que Lucas perguntasse o nome da instituição de caridade e concluísse que ela só podia ser menina para ter sido educada lá. Depois.. não pare de comer. O sol entrava pela vigia e os cabelos claros brilhavam como cobre. Era tudo mentira? Que lugar era esse onde você trabalhava? Uma instituição de caridade? Que tal você me contar a verdade agora. não ia aceitar a explicação pouco provável que dera na noite anterior. Um santuário privado onde as mulheres raramente eram admitidas.. — Você foi deixado na roda? — Fui. Se ele começasse a fazer perguntas embaraçosas.. Eu fui criado lá desde pequeno. A "Virgen de la Soledad" era um convento dirigido por freiras espanholas para a educação de meninas órfãs. De tempos em tempos. As freiras me educaram e me criaram. com as pálpebras abaixadas. Ele continuou sentado ali. por minha causa. A atmosfera da sala era tipicamente masculina. misto de ironia e de benevolência. — Disse e não vou voltar atrás. — Ah. — Quem lhe ensinou a ouvir os mais velhos com a boca fechada? — perguntou em dado momento.deitada no sofá. ao mesmo tempo confortável e funcional. — Um orfanato? Em Santa Flávia? — É. menino. — Deveria mandá-lo para o colégio e pagar sua educação. você é bom! — exclamou Lucy segurando a mão de Lucas e beijando-a com fervor. Aquela saleta era seu mundo particular.. Lucas enviou de volta um sorriso inquietante. que ele fumava a intervalos regulares. Você disse que eu podia ficar aqui no barco. eu vou falar a verdade. Lucas lançava um olhar na sua direção. Termine o pêssego primeiro. com a figura do dragão vermelho bem no meio do peito. pelo menos durante algumas horas? — Está bom. Fui muito infeliz lá e pensava o tempo todo em fugir. soprando a fumaça da cigarrilha pelo ar claro da manhã. eu não gosto de falar nisso. O caldo do pêssego escorreu pelo queixo de Lucy no momento em que lançou um olhar para ele por baixo dos cílios compridos. Eu estava numa instituição de caridade. — Minha filosofia faz sentido para você? Ou você está com a boca cheia e não pode responder? Não. inteiramente distinto da vida normal que levava quando descia nos portos e freqüentava os inferninhos mal-parados. isso não! Eu fugi de tudo isso. que cheirava a comida e a maresia. Lucas certamente sabia disso. — Como? Você me contou que cuidava da horta num sítio. recostando-se na cadeira e acendendo uma de suas cigarrilhas preferidas. Por favor. ataque os figos secos. — O que eu vou fazer com você? — perguntou entre duas baforadas. já que temos tempo de sobra e que você está com a barriga cheia. . — Ah. Ele parecia se divertir em silêncio com a presença dela na sala.

Fui criado com uma lembrança amarga de minha mãe. Eu sou um homem ruim! Nasci numa família de espanhóis que escondem a roupa suja dos estranhos. seu idiota. Parou diante da escotilha e olhou em silêncio para a superfície azul do mar. conte para mim. mamãe fugiu de casa com um artista inglês. no fundo. menino? — disse Lucas afastando a mão. é melhor me botar para fora do seu barco. Mais tarde. Até que um dia eu soube que ela estava viva. Lucas interrompeu sua narrativa e voltou-se para Lucy. segurando o medalhão entre os dedos. Quando eu tinha três anos. — Você tem sorte de não saber se sua mãe amava ou odiava seu pai. Ninguém mencionava seu nome e. menino. Lucas jogou a almofada para longe e. — Você pode pular pela escotilha. descobriu o medalhão que estava pendurado no pescoço de Lucy.— O que é isso. bronzeado e nítido. Aproximou-se do sofá onde ela estava deitada e tirou a almofada que ela abraçava contra o peito. Lucy apanhou uma almofada e abraçou-se com ela. a ostentação — disse com a voz áspera. casou-se com meu pai. Eu não sou um ladrão e se você pensa que eu sou. afastando a mão dele do objeto de estimação. — Você está assustado com minha raiva? Você tem medo que eu vá agredi-lo para satisfazer meu ressentimento? Solte essa almofada. Como ela era uma herdeira rica. que era nobre. A maneira como ela gritou de dor quando eu nasci. — Alguma coisa que você furtou de alguém? — Não! — exclamou Lucy com ardor. diziam que ela tinha morrido. . — Eu odeio a hipocrisia. se quiser — disse Lucas segurando-a pelo ombro. — Você não deve beijar minha mão nem lamber minhas botas! Eu não sou bom. eu não o roubei de ninguém. Eu queria entrar em contato com ela mas meu pai me proibiu. — O casamento arrumado pelos pais parece harmonioso aos outros mas. para herdar as propriedades e o nome da família. Os dois se odiavam de todo o coração! Eu nasci desse ódio e não do amor. soube outras coisas a seu respeito. — O que você está fazendo com esse medalhão de ouro pendurado no pescoço? Vamos. Mas eu não escondo a minha e por isso as pessoas me julgam um excêntrico! Lucas levantou-se e começou a andar de um lado para outro da saleta como uma pantera negra presa na jaula. Eu fui o rebento da noite de núpcias de uma mulher que temia e odiava o marido. que pintava castelos na Espanha. — Esse medalhão é meu. O terror que ele inspirava em minha mãe. a simulação. com esse movimento. e pare de ranger os dentes como se fosse receber uma surra. quando eu perguntava. com a expressão divertida que lhe era habitual. Meu pai contentou-se em observá-la com o rosto impassível e disse que era bom o filho ser homem. o perfil recortado sobre a luz ofuscante do dia. esconde o ciúme e a desconfiança mútua A família de minha mãe — que era inglesa — tinha uma indústria de vinho. A partir de então eu me desentendi com meu pai. — O que é isso? — perguntou. como uma moeda espanhola antiga.

já basta a reputação que eu tenho. eu posso provar! Lucy abriu o fecho e mostrou as duas figuras que estavam no interior. — Você acha? O que me custa alimentar um guri como você? Eu faço isso para me divertir. Eu sou o patrão benevolente que supervisiona de longe o trabalho dos outros. ele morreu de morte violenta. Tonico? Há santos severos demais e há . pequeno? Lucy sabia que era sua maneira de pedir desculpa por ter desacreditado nela. — Você quer me dar um soco no olho. como faço aliás a maior parte das coisas. homens que preferiam saquear e apoderar-se à força dos bens alheios a dedicar-se a ocupações mais respeitáveis. — Não. Lucas examinou-as com atenção e depois encarou-a em silêncio. — Seu pai ainda está vivo? Lucas balançou a cabeça lentamente. Lucas deixou o medalhão cair no meio da gola do pijama e Lucy ficou toda arrepiada quando os dedos morenos tocaram no seu peito. quanto mirava os olhos que eram como a luz e a sombra. você não o teria. — Você pode provar? — perguntou. apertando o ombro dela como se quisesse intimidá-la — Sim. que é muito pior do que eu. olhando para o caroço do pêssego que acabara de comer. como essa viagem em alto-mar com um desconhecido.. Muito obrigado.. — Você já tem um olho mais escuro —. Bastava um olhar para perceber que um anjo e um demônio o tinham feito assim. O caroço simbolizava tudo que podia ser apreciado na vida.. — Isso é o que se chama um golpe sujo.. — Não deixe ninguém ver isso. Eu não me considero virtuoso por ser descendente de piratas.disse com um sorriso. sabe quem ia se aproveitar disso? Meu primo. Está entendendo. O que eles iriam dizer se soubessem que levo um menino efeminado a bordo? Com uma expressão enigmática no rosto. Se eu abrisse mão de minhas propriedades. da mesma forma que viveu. Você está impressionada com minha riqueza. Um administrador competente toma conta de minhas propriedades na Espanha e esse acordo funciona perfeitamente bem. Você é um homem muito generoso. não é mesmo? — Isso não vale! — exclamou Lucas segurando-a pelos cabelos. Eu levo a vida que gosto e não obrigo ninguém a pensar como eu. Toni? — Ê bom ter algum para não passar fome — disse Lucy. — Você gostou do café? — Foi o melhor que tomei na vida. Foi minha mãe que deixou para mim. Você gosta de dinheiro. — Sua mãe era uma mulher muito bela — disse Lucas fechando o medalhão.— É meu. como todos os outros? — Se você não gostasse do dinheiro e do poder que ele dá.

— A calça comprida e a camisa do menino. — Pois não. — Mas a tripulação vai ficar com inveja — murmurou Lucy. Logo que ele estiver em condições de pegar na vassoura.. Deseja mais alguma coisa? — Não. — Pode entrar! Um homem baixinho entrou na sala com roupas no braço. Ele vai ajudar na limpeza dos beliches? — Provavelmente.pecadores de coração mole. Acho que essa roupa vai servir perfeitamente por enquanto — disse Lucas examinando a muda de roupa que o marinheiro lhe estendeu. Talvez fosse preferível eu começar a fazer alguma coisa. Toni. lembrando-se de sua experiência no convento. — Deseja mais alguma coisa. Estava a caminho do seu beliche quando Lucas disse nas suas costas: — Não vista a cueca de trás para a frente! Lucy corou como um pimentão. Era a primeira vez na vida que alguém lhe dava uns dias de férias. Eu ainda não decidi nada. — Agora leve essas roupas para seu beliche e vista-se. — O criado de bordo é um bom sujeito. patrão. — Seu primo se parece mais com seu pai que você? — Exatamente. patrão? O capitão disse que o menino não vai trabalhar sob minhas ordens. Lucy apanhou a muda de roupa que tinha cheiro de sabão de coco e de água do mar. patrão. Eu vou até o convés conversar com o capitão. Ele precisa se recuperar primeiro do ferimento que recebeu na cabeça. — Muito obrigado. — Você está de férias por enquanto e isso é uma ordem! — Muito obrigado. Lucas suspeitava de alguma .. — Você não precisa ter medo dele. era só isso. — Isso é verdade! — disse Lucy.. Apertou as roupas contra o peito até que as batidas do coração se normalizassem novamente. mas leva um pouco longe demais o zelo do trabalho — comentou Lucas com um sorriso de condescendência. — Com licença. — Lucas afastou-se de Lucy ao ouvir uma batida leve na porta. patrão. eu mando avisá-lo. Eu sou o dono deste veleiro e ninguém ousa contrariar uma ordem minha. Ela tinha aprendido no convento que não era nada mole trabalhar sob as ordens de alguém que levava a disciplina a sério. O criado de bordo retirou-se da sala e Lucy deu um suspiro de alívio. Vamos aguardar um pouco mais antes de arrumar-lhe um trabalho.. — Eles vão dizer que você está me protegendo. O trabalho nesse caso passava a ser a própria vida e qualquer negligência era imediatamente punida.

não é verdade? No fundo. Estava vestida com uma calça blue jean e uma camisa esporte de mangas curtas. mas nunca podia imaginar que viria dessa forma. você precisa ver a lua cavalgando as ondas à noite.coisa? Descobrira que ela era uma jovem e não um adolescente? Estava protegendo-a por alguma razão misteriosa? Era impossível saber o que se passava na cabeça dele. — Quer dizer que o diabo só tenta as pessoas ociosas como eu? — O que ele pode querer com alguém que passa o dia lavando pratos numa pia . CAPÍTULO IV Nos dias seguintes o galo na testa de Lucy perdeu a aparência doentia e se transformou numa simples mancha roxa. da mesma forma que esvoaçava seus cabelos. Ele estava vestido com uma calça de linho e uma camisa marrom clara. O casco era pintado de azul. Ele não tem fim. Lucas era muito vivido e ladino para ser compreendido por uma menina inexperiente. onde a brisa marinha soprava para longe as idéias tristes. então? Você acredita que um dia eu fui tão inocente quanto você? — Impossível! Você nunca foi educado num orfanato. Lucy não tinha idéia de que sua aparência chamava a atenção dos outros tripulantes do veleiro. Os cabelos ruivos brilhavam à luz forte do sol e o azul do mar tinha penetrado nos olhos verdes-acinzentados. como se tivesse receio de que algum imprevisto fosse terminar subitamente com sua felicidade. Ela passava os dias no convés. ele era um homem excêntrico e imprevisível. a não ser quando se une ao céu. mantinha os olhos sempre alertas e raramente permitia um contato íntimo com os outros. com exceção de uma faixa vermelha logo acima da linha d'água. — Eu nunca pensei que o mar fosse tão lindo. Ah. — E eu. mesmo aqueles que o conheciam há muitos anos. Ficava horas perdida debruçada no parapeito do convés. que fora educada desde pequena num convento de freiras. eu invejo sua inocência. observando a espuma que o veleiro deixava sobre a superfície brilhante do mar. Indiscutivelmente. Mas eu sempre achei que esse papel cabe à lua. Tinha sonhado durante muitos anos com a liberdade. Lucy nunca tinha pensado seriamente no seu gosto pelo mar até o dia em que Lucas comentou o fato.. que o tornava muito atraente.. Estava exultante e apreensiva ao mesmo tempo. Quantas coisas que você nunca viu. — Talvez eu não seja tão inocente quanto você imagina. — É por isso que os poetas dizem que o mar e o céu são amantes. — O mar está no seu sangue — disse Lucas com o braço apoiado no parapeito. Mesmo quando estava à vontade.

Algumas noites Lucas jantava com o capitão numa mesa servida no convés. Eu só quero ficar aqui e não ser mandado de volta para o orfanato. Com o prato apoiado em cima dos joelhos. onde podia apreciar a comida e maravilhar-se com a beleza do céu estrelado. Ela não fazia parte da tripulação nem desfrutava a honra de comer na mesa do patrão. sentava-se com seu prato num canto escuro do deck. ele fazia o possível para ignorá-la completamente. Tonico. — Eu não me importo — disse levianamente. sem dizer nada. Aliás. menos a juventude inocente. Lucy observava em silêncio a diferença que havia entre os dois homens. O que vai acontecer se eu estragá-lo? Se o diabo que existe em mim decidir corromper sua inocência maravilhosa? Lucy apertou com força a corda do parapeito.. mas não sei o que vai ser quando isso terminar. aparecia com seu uniforme azul da Marinha Mercante e. — Você e eu estamos fascinados um com o outro. do seu canto. me faz sentir gente. Eu me sinto bem na sua companhia. No momento em que eu estava começando a me entediar com a vida que levava. gozava de certos privilégios a bordo e ninguém comentava nada. Eu excito sua curiosidade e você excita a minha. Eu gosto mais daqui do que de qualquer outro lugar onde estive antes. não concorda comigo? — Plenamente! — disse Lucy.. Na opinião dele. Lucas limitava-se a olhar de tempos em tempos na sua direção. Lucas costumava vestir-se a rigor para esses jantares de cerimônia. O melhor é deixar isso por conta do destino. No momento porém em que sentiu a brisa marinha no rosto e respirou o cheiro forte do fumo. Como era o empregado pessoal de Lucas. sob as massas densas das estrelas.. ela não era mais que um pequeno cigano que não devia estar a bordo do veleiro. — Faça o que lhe agradar. De novo ficou na dúvida se Lucas conhecia sua verdadeira identidade. Lucy comia os quitutes preparados . Você.. Nada acontece por acaso. — Você prefere o perigo que desconhece ao que conhece? — Isso mesmo! Você acertou em cheio. Nós somos no fundo os lados opostos da mesma moeda. prometendo a si mesma que não pensaria nunca no fim dessa viagem e disposta a desfrutar cada momento presente. ele murmurou no seu ouvido que você devia fugir e cair nas mãos de um dos seus discípulos. decidiu que preferia abandonar-se de corpo e alma a esse homem a voltar para o convento e pronunciar os votos de obediência e castidade. No fundo. Os santos são muito severos e eu gosto mais daqui. Lucy não era convidada para fazer parte da mesa. De qualquer maneira.cheia de gordura? — Mesmo assim. pelo menos. assustada com a expressão maliciosa dos olhos dele. era melhor assim. O capitão. Lucy não se sentia à vontade na presença do capitão de barbas longas. por sua vez. As vozes baixas da conversa chegavam até onde estava e ouvia com atenção os comentários que faziam sobre o tempo e os incidentes da navegação. o destino me atirou você nas mãos. você tem juventude e inocência e eu tenho tudo o mais. eu não acredito que você seja tão perigoso quanto pintam.

Perfumavam a pele . O capitão. Do lugar onde estava. Marcelo? Pelo menos você não sucumbiu até hoje aos perigos do casamento. Faltava-lhe alguma coisa. Lucas não era um homem feliz. — Esse veleiro é a única coisa que eu amo sem reservas — disse Lucas. Ela respirou aliviada quando os dois homens mudaram de conversa e passaram a falar sobre as qualidades e vantagens da navegação à vela. — Desconfio que alguma coisa o inquieta. distinção c que era dotado de uma personalidade fora do comum? O amor no entanto estava ausente desses encontros e era por isso que Lucas adotava uma atitude cínica na vida.pelo cozinheiro de bordo e cada garfada que levava à boca era um prazer. A verdade é que deposito inteira confiança nesse veleiro. — O que o leva a pensar isso. Marcelo? Você ouviu o boletim meteorológico? — Não.e sabiam exatamente o que deviam fazer para enfeitiçar os homens. O cozinheiro primava especialmente na salada de legumes com maionese. mas falei pelo rádio com o litoral norte. Indagava consigo mesma se tinha gostado de alguém... logo. — No que você está pensando. As gargalhadas de Lucas chegavam até seus ouvidos como uma música em surdina. de uma mulher da sociedade. essa não será a primeira nem a última vez. porque viviam unicamente para os prazeres e as satisfações do corpo.. Na opinião da irmã Imaculata essas mulheres estavam condenadas ao inferno. que se vestia de seda e pintava os lábios de vermelho. levantando o copo de vinho.. bela e sofisticada.. — Você não concorda comigo. — Se vamos em direção a uma tempestade.. — Pois é. aguardando sua resposta. Daí as paixões ardentes que despertavam! Era muito provável que Lucas houvesse conhecido mulheres desse gênero.. Um pequeno silêncio seguiu-se a essas palavras do capitão. como se refletisse sobre algo que o inquietava. pelo visto. não podia ser isso.. Mas eles julgavam que ela era um menino. não tinha dinheiro para casar com a moça que . preferia não se pronunciar a respeito. Fui informado que o tempo está bastante instável naquela direção.. — Por que você acha que o tempo vai mudar? — perguntou Lucas em determinado momento.. para alguém que possuía tantas coisas. Pensava às vezes que. Quando era mais moço. beleza. Lucy viu Lucas segurar o copo com as duas mãos. É provável por isso que enfrentemos algum pé de vento muito em breve. Como podiam resistir a um homem como ele. Marcelo? — perguntou com a voz indolente.. Ouvira falar na superstição existente entre os marinheiros de que uma mulher a bordo de um veleiro traz sempre má sorte. é o menino que levamos a bordo? Você acha que ele trouxe azar ao nosso barco? O capitão lançou um olhar oblíquo na direção de Lucy e ela ficou tensa... Eu não tenho receio a bordo do Miranda. que tinha fortuna. — Deus queira que você tenha razão..

. — Talvez — concordou o capitão sem muito entusiasmo. Mas no meu caso. O capitão não negou a afirmação.. Ele podia matar um homem no ardor da luta.. Se havia pecado no rosto de Lucas. O sangue latino em mim arde de paixão pelas coisas deleitáveis do mundo. só há um caminho. como a mordida silenciosa de uma cascavel e Lucy sentiu um calafrio ao ouvi-las do seu canto. — É por isso. — Lucas deu uma risada. Navegava o veleiro para Lucas desde alguns anos e o conhecia melhor do que ninguém. Eles vivem de ilusões e esperam tudo do futuro. — Não seria esperar muito do homem e da mulher? A mulher teria que ser um verdadeiro anjo para criar um santuário doméstico para o homem. Era por isso que Lucas rejeitava o amor e preferia os deleites fáceis do momento? Temia o estigma que pesava no seu sangue? Tinha medo de ser como o pai. O casamento em geral é um inferno. Embora fosse nobre por nascimento. Sem contar que você é muito mais cheiroso que um criador de porcos. Por isso mesmo é preferível permanecer solteiro! — Lucas recostou-se na cadeira e admirou o céu estrelado. Só muito raramente as pessoas casadas se dão bem. inclusive seu nome? Nesse caso. Lucy observou-o de longe. como você faz.. — Depois que ganhei dinheiro suficiente para pedi-la em casamento. — Imagine só se eu casasse e tornasse a vida da minha mulher um inferno! Eu sinto que isso está no meu sangue. Mas você teve sorte de não casar.. Mesmo assim. estão misturados dois vinhos. teria casado com você sem dinheiro. Marcelo. — Eu não sou dessa opinião.. — O casamento é para os jovens. mas podia também salvar uma criança. o que passa pela igreja. Mesmo durante a embriagues eu não perco minha lucidez. Marcelo. que você é o capitão do meu barco e que eu sou apenas um passageiro em férias. no fundo. dessa vez com uma certa amargura. Olho para os dois lados ao mesmo tempo e acho impossível seguir uma linha reta na vida. Não descobri ainda qual é o elemento predominante em mim. enquanto o sangue anglo-saxônico continua sendo um enigma que me intriga. um tirano terrível? — Nós somos o que devemos ser — prosseguiu Lucas com a voz indolente.. Marcelo. Podia admirar à vontade a face magra e angulosa sob a luz da lanterna. Marcelo. Lucas aceitava as pessoas como eram. — Mas você não gostaria de ter um filho que herdasse sua fortuna. soube que ela estava casada com um criador de porcos e tinha diversos filhos. Marcelo.. Essas palavras saíram quase como um sussurro.eu gostava — comentou o capitão. Se eu fosse completamente espanhol poderia aceitar essa idéia. conseguira desvencilhar-se dos preconceitos de sua classe. Casar para ter um herdeiro não me convence. meu amigo. sem pronunciar nenhum julgamento e isso era uma virtude. — Se ela fosse uma mulher emancipada. invisível no seu canto sombrio. não podia dizer que desfrutava de uma perfeita intimidade com o dono do iate. Era esse contraste que despertava . — Você acha que o casamento devia ser sempre um paraíso? — perguntou o capitão. havia também muita ternura. o tinto do sul e o branco do norte. Marcelo. — Exatamente.

eu lhe darei outro de volta — disse Lucy do seu canto. inclusive das que lhe eram caras. — Se você me der um chute. rapaz. Marcelo. e seria essa sua função se permanecesse no veleiro. Era a proteção que usava para defender a privacidade de seus princípios.. Tonico? — perguntou Lucas de repente. O rosto era inexpressivo e impassível.. a não ser uma distração do momento. A luz brilhou intensamente no beliche e Lucy piscou os olhos sem querer. — O que foi. como se nada o afetasse. silenciosa e serena como aprendera a ser no convento após ter recebido uma repreensão.. mesmo com as pessoas a quem queria bem. Era impossível saber o que se passava na sua cabeça nessas ocasiões. — Eu odeio a caridade! Foi sempre isso que recebi das pessoas.um amor e uma admiração tão grandes nela. Sozinha na escuridão do beliche. Ninguém agredia impunemente Lucas. e não um orfanato para crianças abandonadas. Lucy sentiu-se ferida por ser tratada na presença de estranhos com tanta ironia. mas não suportava a ironia de suas palavras. — Por que você está parado aí como uma estátua? — perguntou Lucas observando-a da porta. Podia ser seu cachorrinho de estimação. quando Lucas desceu ao beliche e encontrou-a em pé diante da vigia. mantendo-se tensa no lugar onde estava. olhando diretamente na sua direção. luminosos como duas panelas de cobre.. Não é todos os dias que a gente encontra uma dedicação desse tipo. . Fora insolente com ele e era o mesmo que morder a mão que a alimentava . — Você está esperando que eu lhe dê uma surra? É assim que foi educado? Uma surra toda vez que cometia uma insolência com seus superiores? — Eu não queria ser grosseiro com você — disse Lucy com um nó na garganta. Zombava de todas as pessoas. Lucy saiu correndo. — Eu estou vendo seus olhos daqui. Antes que alguém pudesse detê-la. — É assim que você fala com quem tirou você da rua da amargura e lhe deu casa e comida? Isso aqui é um veleiro. sofreu com a frustração de não ser nada para Lucas. eu não vou revidar.. mas não era a insolência que irritava tanto Lucas quanto a agressão contida nas suas palavras. muito menos um pirralho como Toni.. e foi refugiar-se no seu beliche. Meia hora mais tarde. Correu como a mulher foge do homem que ama. Se você me bater. mas sabia que Lucas agia sempre assim. Veja esse menino.. intervindo na conversa. — Eu não sou tão manso quanto você pensa! — Você é um menino malcriado — disse o capitão. meu caro! Essa devoção satisfaz meu coração cínico e desiludido. — Você foi bom para mim.. — Eu não pedi para ser trazido para cá — retrucou Lucy levantando-se do seu canto. Eu posso lhe dar um pontapé e ele vem beijar minha mão. melhor do que todas as outras pessoas que conheci. ela estava mais calma.

por acaso? Você não reage se eu o tratar injustamente? — Você tem direitos sobre mim. mascote.. — Não seja insuportavelmente humilde! — exclamou Lucas.. — Pois eu acho que você tem um coração bondoso. Os dentes estavam batendo contra a borda do copo e ela estremeceu com o gosto forte da bebida. Juro que foi sem querer. Como eu posso entender um menino como você? Só nervos e pele. Foi sem querer..... Eu não queria que isso acontecesse com você.. eu vi animais que tinham medo dos adultos. — Eu sou estúpido e. — Eu prefiro que você seja corajoso e orgulhoso. — Você tem uma . Você pode fazer comigo o que bem entender. mas vou procurar me corrigir e não mais me comportar como uma criança. Aquele era seu ombro ferido... beba sem derramar nada no chão! — Obrigado — disse Lucy. Quando eu era criança. Deixe-me ver como está esse ombro machucado.. Lucy rangeu os dentes de dor. — Você não é estúpido. Ele afastou a gola da camisa com os dedos sensíveis e descobriu o ombro ferido antes que Lucy pudesse protestar... Qualquer coisa deixa uma marca! Você é apenas pele. — Um gole de uísque vai acalmar seus nervos. e não um criado humilde que serve de capacho para os outros. Você não deve ter medo de mim. pequeno. — Desculpe. Não precisa tremer tanto. pequeno.— Você está falando sério? — indagou Lucas segurando-a pelos ombros e dirigindo-lhe um olhar que era tão impiedoso quanto uma agressão física. sacudindo-a pelo ombro. Tonico. Sinceramente eu não sei o que fazer com você. — Eu acredito — murmurou Lucy. mas ela não podia controlar os tremores que a percorriam de alto a baixo. que coisa horrível! — Ainda bem que você reagiu dessa forma! — disse Lucas apoiando-se na borda da mesa e bebendo a dose que servira no outro copo... nervos e ossos. porque eles andavam com uma bengala ou com um chicote na mão.. — Arre.. Por que você está com essa cara? Está gemendo de dor? — Você está machucando meu ombro — murmurou Lucy. Ela tremeu da cabeça aos pés quando Lucas correu os dedos sobre a carne macia da omoplata. Eu não suportaria ir embora. apenas muito sensível para sua idade. pequeno. Os adolescentes não são o meu forte. Eu só lhe peço para não me mandar embora daqui. Tonico. eu me jogaria no mar.. — Você não tem culpa! — exclamou Lucy. eu não vou machucá-lo de novo. — Você é um banana.. Vamos. as tais que se julgam caridosas e que passam a vida criticando e castigando os outros. — Você acha mesmo? — perguntou Lucas corri uma risada. eu vou lhe arrancar o couro fora! Beba isso e pare de falar bobagens. Eu não sou bom para você. Lucas foi ao armário de bebidas e apanhou uma garrafa de uísque. desajeitado. — Se você fizer isso. Eu me sinto um animal na sua frente. mais generoso que a maior parte das pessoas. — Que pele sensível você tem.

—. ajoelhando-se em cima do sofá. No dia em que me lembrasse de seus olhos inocentes. pequeno. — Você está nas minhas mãos e eu poderia fazer o que bem entendesse. — Eu não me importo com o que você faça comigo — murmurou Lucy. Estava tão ansioso para agradá-lo que lavaria o veleiro de uma ponta a outra se Lucas pedisse. O que você acha? — Eu farei qualquer coisa por você — disse Lucy com naturalidade. você não está falando sério. Você jamais faria isso. Aliás..O rosto dele tinha uma expressão sardônica e meio sinistra.. espessas. Você acabaria freqüentando os inferninhos do cais. — Pelo que fiz até hoje. Nas mãos certas e com a educação correta. Lucy estava com a gola da camisa aberta e a mancha avermelhada 1os dedos de Lucas era visível no ombro. Os meninos de sua idade aprendem tudo rapidamente. você pode vir a ser uma criatura inteligente e encantadora.Eu sei disso... — Eu faço idéia de como foi. onde parou e contemplou o mar azul. e eu não gostaria de ser seu mestre nesse caso. — Não seja idiota! Você é muito criança para saber o que é bom para você. olhando para o copo cheio de uísque. — Entendo.. — É isso que você não suporta? Viver de caridade? — Com você é diferente. — Lucas caminhou com impaciência até a vigia mais próxima. vou sucumbir mais uma vez ao pecado. . acho também que você não faz bem para mim. eu não mereço ter você a bordo do meu veleiro. como é meu costume.. — É o sorriso do diabo. — Eu não sou bom para uma criatura impressionável e sensível como você. Minhas mãos estão sujas com as ações humanas e eu não quero corromper sua inocência. com o perfil voltado para Lucy. Você não sabe disso? Se eu não resistir à tentação. vou fazer a coisa errada. A maçã cai da árvore e eu a apanho. — Claro que faria! —.filosofia de vida que não está muito longe da verdade. Você veste a calça de um marinheiro. Eu não me sinto imprestável na sua companhia. mas eu não sou a pessoa indicada para cuidar de sua educação. É só isso que você ambiciona na vida? — Se você soubesse o que foi minha vida até agora. É . recebe um prato de comida na cozinha. — Seria um inferno para mim se você me mandasse de volta para o orfanato. seu idiota. — Lucas voltou-se pensativamente e encarou-a com os olhos apertados que brilhavam estranhamente por baixo das sobrancelhas. Você quer ser meu aprendiz de feiticeiro? É isso que você deseja realmente? — Eu não quero outra coisa. eu pagaria meus pecados mais cedo do que mereço. Você também não imagina como foi minha vida.. onde eu voltaria a viver de caridade. o bom e o mal. — Você vai me mandar de volta para o orfanato? — perguntou Lucy com ansiedade. — Você não corrompe. A serpente sussurra no meu ouvido e eu presto atenção ao que ela diz. Você está sorrindo. — Não. ouve minha conversa com o capitão. Mas.

mas vai amadurecer um dia. mais ou menos. Lucas estava dando palmadas nas suas costas para curá-la do engasgo quando ouviram bater na porta do beliche. pequeno. o Miranda era jogado de um lado para' o outro das ondas como um barquinho de papel numa . Nossa carga é muito preciosa para sofrer danos com a tempestade. Marcelo. — Eu vou trabalhar com vontade — prometeu Lucy. Vamos dar uma espiada para ver se está tudo em ordem a bordo do nosso querido veleiro. — Acho melhor você ir para o beliche e tirar um cochilo. — Penso que sim. — Você tem medo de tempestade em alto-mar. virou de um gole o resto do uísque — e quase morreu sufocada de tosse. Impedida a vida inteira de amar alguém de todo o coração. que ouvia a conversa com atenção. Já mandei amarrar bem os caixotes no porão. menino? — Não sei. Eu vou com você. você disse? — Lucas voltou-se para Lucy. se é isso que você deseja com tanto ardor.. Os dois homens saíram e as vozes se perderam no corredor estreito que levava ao convés. Lucy amava agora pela primeira vez um homem que ela mal conhecia. A tempestade não a assustava. Dentro de uma hora mais ou menos. — Mas vou fazer o possível para me comportar como um homem. Embora fosse um veleiro extremamente robusto. São aparelhos médicos para o hospital. Você vai para o inferno comigo. O uísque lhe dera um pouco de sono e ela deixou a cabeça afundar no travesseiro. Marcelo. — Vou ganhar minha vida e não vou incomodar ninguém. Eu faço questão de que nossa cidade tenha o que há de mais moderno em equipamento hospitalar.. Lucy ajeitou-se na cama e refletiu sobre tudo o que ouvira. — A tempestade é muito violenta. nada podia atingi-la na companhia de Lucas. O que ela temia passara. Lucy deu um suspiro de felicidade.. Marcelo. desfrutando o torpor que antecede o sono. Para provar que estava decidida a fazer o que tinha prometido. Ele prometera que não a mandaria de volta para o orfanato e nada mais importava além disso. O capitão entrou e disse que a tempestade estava começando a soprar com força na baía para onde estavam se dirigindo e era provável que a encontrassem dentro de uma hora. os olhos brilhantes de excitação. Nunca estive numa antes — respondeu Lucy. Talvez você possa ser meu secretário. meu assistente e eu vou cuidar de sua educação.. enfiando a mão no bolso do casaco. capitão? — indagou Lucas com indolência. você não poderá dormir com o barulho do vento e das ondas no casco. Era de fato uma grande ironia da sorte: uma menina criada num convento de freiras estava apaixonada pelo próprio diabo! A tempestade que os atingiu durou várias horas.uma maçã verde no momento. Quando a tempestade nos atingir. — Ótimo! Pelo visto você está esperando um verdadeiro furacão. — Trabalhar? O que você sabe fazer? Eu tenho todos os empregados que necessito. As vagas enormes passavam por cima do convés e os relâmpagos riscavam o céu escuro com suas faíscas azuis e avermelhadas.

Lucy avistava as ondas enormes. altas como montanhas. Os relâmpagos iluminavam o mar encapelado e. Vão imaginar provavelmente que eu mudei de gosto.. — Seu doido! Chegará o dia em que você se arrependerá amargamente de ter-me conhecido. — Tenho — disse em voz baixa. Você não se assusta com essa perspectiva? — Eu não tenho medo de nada quando estou com você — disse Lucy com sinceridade.. pequeno.. — Você vai acabar me convertendo num santo! O que você vai fazer quando desembarcarmos? Eu não posso lhe dar um trabalho na cozinha ou no jardim. — Não seja confiante demais. — Eu só tenho medo de uma coisa. — Olhe lá! Não vá se arrepender depois. da vigia onde estava agachada. uma vaga maior virou repentinamente o veleiro de dorso. Nesse momento. Eu confio em você. Se chegarmos amanhã à baía. — Pois eu tenho certeza de que nunca me arrependerei de nada do que me aconteceu a bordo deste veleiro. Você não se importa com isso? — Que importância tem a opinião dos outros? — Alguns podem ser cruéis com você. ser mandado embora daqui. As vagas mais altas varriam o deck de uma ponta a outra. Nós estamos nas mãos do destino. como se as palavras de Lucas fossem um desafio ao destino. — E você. mascote? — perguntou Lucas passando os dedos de leve sobre seu ombro ferido. Essas ondas que você está vendo podem virar o veleiro a qualquer momento e nos mandar para o fundo.... mas podemos naufragar antes disso. Foi você que quis assim. ela sentiu uma emoção estranha. Lucy escorregou e foi precipitada . que podiam partir o veleiro como uma caixa de fósforos. — Eu estou acostumado com a crueldade. não faço idéia do que as pessoas vão pensar de você. Você é uma exceção.. entende? — Faça o que lhe agradar. — Já vem você de novo com suas afirmações temerárias! Você tem tanta confiança assim no diabo? Lucy sorriu ao pensar que morrer na companhia dele era melhor que viver longe dele. Quando Lucas entrou no beliche alguns minutos depois. não tem? — Seu doido varrido! Você está confiando demais na sorte só porque prometi guardá-lo a bordo. Ninguém tem pena dos pobres. Era aterrorizante e excitante ao mesmo tempo presenciar uma tempestade tão violenta quanto aquela.banheira.. gigantescas. Tonico. — Você não está com medo da tempestade. Pode ser que cheguemos com vida à baía. Tonico.. O destino tem sua maneira de nos mostrar que nada na vida é durável e seguro..

Não velejaria mais pelos mares azuis. Sonhara com trovoadas que partiam do céu. ostentando orgulhosamente o emblema da salamandra vermelha. e acordou . CAPITULO V A enfermeira olhou atentamente para a moça deitada na cama do hospital. Logo depois que o barulho e a confusão passaram. Tomada de susto. ela lembrou que Lucas nunca se iludira com sua verdadeira identidade. conseguiu abrir a porta do beliche. Caíram no meio das ondas furiosas. completamente zonza. a única sensação que não fazia parte do pesadelo era a dor forte que Lucy sentia no ombro. que estava sendo invadido rapidamente pela água. sob os raios que riscavam o céu negro no alto de suas cabeças. O belo veleiro jazia em pedaços sob a espuma branca que o lavava noite e dia. A palidez do rosto parecia acentuada pela claridade do mar que se refletia nas paredes e no teto branco do quarto. Você está segura nas minhas mãos! O mar tempestuoso os recebeu no seu meio. — Lucas! — gritou Lucy com a voz do desespero. enquanto eram jogados de lá para cá. com as velas brancas estufadas ao vento. gritou na escuridão do beliche: — Lucas. Continuou caída no chão. A única realidade. com vagas do tamanho de montanhas. enquanto as ondas varriam o convés e molhavam suas pernas. Ouviu o ruído de vidros e de madeiras quebradas. Nina era como os espanhóis chamavam as meninas. onde os dois se ajoelharam no chão. Lucy acordou com um gemido do pesadelo horrível que tivera. agarrados um ao outro. muito menos ao homem elegante e mundano que estava conversando com a diretora nesse momento sobre as peripécias do naufrágio. ela ouviu o apito aflito da sereia de bordo. quando as ondas passaram por cima de suas cabeças e Lucy prendeu a respiração.contra a porta do beliche. até serem lançados para fora do veleiro no mar negro como pixe. após bater nos recifes da costa que eram perigosos em tempo calmo e muito mais quando havia uma tempestade forte soprando no litoral. com um esforço inaudito. ao ser apertada nos braços de Lucas. Lucas arrastou-a com dificuldade em direção ao deck. Lucas levantou-a nos braços e. Lucy viajava com Lucas quando o veleiro afundou na baía de Mawgan Pias. A moça não parecia pertencer a ninguém. nina. onde você está? Mãos fortes a agarraram no meio da escuridão e ela ouviu o ruído de copos partidos. — Não tenha medo. de metais arrancados do casco.

— Não se demore demais. — Há quanto tempo eu estou aqui? — indagou Lucy. Você está apenas esgotada e necessita de uns dias de repouso. A fortuna e a arrogância natural de Lucas tornavam-no antipático aos olhos das pessoas comuns e ninguém podia acreditar que o espanhol orgulhoso fosse se casar com uma adolescente simples e despretensiosa como Lucy.. Eu não sei como nós saímos com vida. — Ah. meu bem? — perguntou a enfermeira em voz baixa. — Pode nos deixar. por favor — disse a enfermeira dirigindo-se para a porta. Nem era também o tipo de garota que exercia uma fascinação irresistível sobre os homens maduros e experientes. meu bem? Ou esse homem moreno que veio visitá-la é seu parente? — Ele está lá fora? Ele veio me ver? Ah. da porta. Você está com outra cara. Não havia nada disso nela. Estava muito pálida no pijama branco e os cabelos claros pareciam chamas sobre a brancura da face. Lucas entrou no quarto com a familiaridade de alguém que conhecia o hospital e as enfermeiras como a palma da mão. Ela interrompeu a conversa quando ouviu a porta se abrir. Onde estão seus parentes.. O que você me diz. Foi realmente uma experiência horrível. Não é brincadeira. mas Lucy não tinha cara de uma jovem aventureira que procura o prazer e as situações excitantes na companhia dos homens ricos. você quase morreu afogada. enfermeira — disse com autoridade. sente-se um pouquinho para eu pentear seus cabelos. — A diretora me deu permissão para visitar a paciente. Como escapara com vida do naufrágio? — Você está melhor.. agora sim. você não faz idéia de como as ondas eram enormes — disse Lucy fitando a enfermeira com os olhos muito grandes. — Vamos. Era verdade que ela estava no veleiro no momento do naufrágio. — Passavam por cima do convés. — Ela ainda está um pouquinho esgotada com tudo o que aconteceu. Visita? Lucy fez um esforço para sentar-se na cabeceira da cama enquanto a enfermeira passava um pente em seus cabelos. segurando a mão da enfermeira. Lucy estendeu a mão em silêncio com um sorriso nos lábios. que bom ele não ter morrido afogado! — Não é uma tempestadezinha dessas que vai afogá-lo! — disse a enfermeira com um risinho malicioso. mas isso não impedia que ele gozasse de uma reputação meio duvidosa entre as enfermeiras e os outros funcionários subalternos.. Parecia incrível que podia ver.Onde é este hospital? — Você está no melhor hospital da cidade. — Pronto. . — Esses espanhóis são corajosos como tudo! O hospital onde Lucy estava fôra fundado por Lucas. —. Toni? Você quer me receber? Os olhos dele encontraram os dela. — Você ainda está muito abalada com tudo que aconteceu. sentir e alimentar-se. Felizmente.sobressaltada. Você tem visita e precisa estar bonita para recebê-la. não foi nada muito sério. meu bem — disse a enfermeira dando um tapinha afetuoso na sua mão.

— Você é frágil como um objeto de porcelana chinesa. Está contente? — Muito — disse Lucy. ninguém aprova o casamento entre homens. Lucas inclinou-se para a frente e passou o polegar na sua testa. Está lembrada do que você disse pouco antes do naufrágio? Eu atendi seu pedido. — O que você vai fazer comigo? Vai me mandar para um colégio? — perguntou Lucy com ansiedade.. — Que tipo de trabalho? Lavar pratos num restaurante? — Ah. o pedido de casamento foi a mais extraordinária de todas. O contato dos dedos morenos era uma carícia abençoada que a despertava para a vida após muitas horas de inconsciência na cama do hospital. Era impossível.. Lucy estava contente e assustada ao mesmo tempo com sua reação inesperada. e que tinha fugido de lá porque não queria ser freira. — Como é natural. Um homem com um pouco mais de juízo na cabeça daria o fora em você.. onde não era correto um homem andar para cima e para baixo com uma órfã de pai c de mãe que fora levada inconsciente para o iate. — Agora você está sendo sarcástico — murmurou Lucy.. Eu não vou mandá-la de volta para o orfanato. Você pode casar comigo. — Eu devia ter deixado você morrer afogada.. Lucas não ia casar com uma menina que fora abandonada pela mãe num orfanato. Parecia mais um próspero homem de negócios do que o espanhol esportivo que Lucy conhecera no iate. embaixo dos cabelos avermelhados. Eu prefiro trabalhar. não? — comentou Lucas quando os dois se viram sozinhos no quarto. — Como você está se sentindo? — Bem. Esse casamento era tão pouco provável quanto sua permanência no convento na . eu mando e desmando neste hospital — disse Lucas sentando-se ao lado dela na cama.. enquanto alisava a pele macia. Seus olhos procuraram os dele. Afinal. . Ela sentiu-se completamente zonza e afundou o rosto no ombro dele. ou você ainda está se disfarçando de menino? Por mais liberal que seja este país. você é terrivelmente cruel à vezes — murmurou Lucy magoada. De todas as coisas surpreendentes que tinham acontecido desde o instante em que Lucy voltou a si no interior do veleiro.— Ela é meio mandona. Lucas debruçou-se sobre a cama. ela morre de medo de você. mascote? — Até que nem. — Eu não quero voltar para o orfanato. — Terrível demais para casar. mas eu não me deixo intimidar pelas convenções de nossa sociedade. O que Lucas pretendia fazer com ela? Estavam agora em terra firme. muito bem. sem poder acreditar que teria segurança o resto da vida. — Ela encheu muito sua paciência. afastando a cabeça de seu contato. que há um momento atrás fora tão bem recebido. Nosso acordo continua em pé. fazer qualquer coisa. sua malcriada. Ele estava muito elegante no casaco de couro com a gola de cordeiro. Ela foi boazinha comigo. coberta de pequeninas veias azuis.. Felizmente está inteira e pode sair do hospital no fim da semana. apertou-a nos braços e puxou-a para si. Pelo jeito.

— Mas você não precisa casar comigo — murmurou Lucy. Todos sabem que você estava a bordo do iate quando naufragamos e eu disse aos meus conhecidos que nós vamos casar em breve. você é a noiva de Lucas de Mayo. mas essas coisas pareciam muito remotas na vida de todos os dias. e acho bom aceitar a aliança que vou lhe dar. enxugando uma lágrima com o polegar. Tonica. — Quem falou? — exclamou Lucas com o rosto sério. ela experimentou a sensação estranha de que tudo aquilo era uma situação absurda e irreal. Por que não poderia pedi-la em casamento? Você é mais mulher que muitas outras. — Por que eu não posso casar com quem eu quero? Toda minha vida lutei para fugir das convenções. de olhos fixos na jóia que cintilava com um brilho inconfundível.. Ela era apenas uma adolescente abandonada pelos pais que andava com os cabelos curtos para não atrair a atenção dos homens. Ela olhou para a aliança de diamantes como se estivesse hipnotizada. observando as lágrimas que rolavam pela face pálida.. Você apenas tem pena de mim. As lágrimas rolaram pelo rosto quando ela balançou lentamente a cabeça. E pare de me chamar de Toni. — Eu posso trabalhar para você. que faça você se sentir importante. — Você sabia disso desde o primeiro dia? — perguntou Lucy de olhos baixos. Lucas deu-lhe um beijo no rosto e Lucy estava trêmula quando recebeu a aliança no dedo. Você queira ou não. Lucy. Como é possível haver amor entre uma guria de dezessete anos e um homem da minha idade? Eu vou apenas tomar conta de você. Ao ver o brilho inconfundível das pedras preciosas e sentir o peso do anel no dedo. ser uma empregada na sua casa.condição de freira. As meninas no convento tinham falado de alianças e de paixões à primeira vista. — Fazia uns trinta anos que não via uma . e esse não era seu caso. É por isso que você quer casar comigo? Para se divertir às minhas custas com seus amigos? — Que juízo você faz de mim! — exclamou Lucas com uma risada cínica. Eu não dou essa impressão. — Acordos desse tipo são comuns na Espanha. — Você me deixou fazer papel de idiota com aquelas calças grandes demais para mim. essa pessoa pertence a você". — Um homem como você deve casar com uma mulher elegante. As alianças eram dadas para mulheres belas e adoradas. mais nada. Só assim você não passará o resto da vida lavando pratos numa pia suja de gordura. furtando-se ao seu olhar penetrante. — Imagine só o que as pessoas diriam... Além disso. há o ditado que diz: "Se você salva a vida de uma pessoa. Meu nome é Lucy! — Não seja idiota! — exclamou Lucas com impaciência. O amor não entra nesses casamentos. . — Ou você prefere tirar um cochilo em vez de responder? — Ele levantou o queixo dela e forçou-a a encará-lo nos olhos. — Você ouviu minha pergunta? — insistiu Lucas.

num certo sentido..mulher chorar. Ela ia partir aquela noite com seu amante. — Claro que há! — exclamou Lucas com os olhos brilhantes. mas perdurava um sentimento de dor no fundo do coração. Se você fosse dez anos mais moça. Você será meu anjo da guarda. A casa necessita urgentemente de uma mulher que tome conta dela. — Você. eu não entendo? — Você necessita de alguém que a proteja e. — Se me casar com você. Ela morreu anos depois e deixou para mim a casa onde encontrou a felicidade verdadeira na companhia do amante. educá-la. Eu era menino de calça curta quando encontrei mamãe chorando e soluçando na casa onde morávamos. Por que esse acordo lhe desagrada? Nós seremos apenas marido e mulher em palavra. Lucas a pedira em casamento. Eu sou capaz de fazer uma besteira um dia desses. Vou precisar também da sua certidão de nascimento. Tudo que eu tenho é esse medalhão que uso no pescoço. de carne e osso. — Eu teria muito gosto em tomar conta da casa — murmurou Lucy em voz baixa. — Lucy mordeu o lábio com nervosismo. freira? Essa não! — Pois é. Você achou que eu era um cigano que . Não queria ser freira e não tinha nenhuma vocação para a vida religiosa. Foi por essa razão que as freiras queriam que eu entrasse para o.. encontrei por acaso uma calça comprida no jardim e pulei o muro do convento. — Absoluta. — Não há necessidade da gente casar por causa disso. Eu não a vi mais depois desse dia. nem a amava como um homem ama.. alguém que nunca teve uma casa antes e que saberá apreciá-la devidamente. — Eu não tenho certidão de nascimento. — Pode parecer fantástico. Um dia. É um estigma que pesa na minha vida. mandá-la para o colégio. Eu não sei quem são meus pais. Mas não precisa fazer essa cara! Eu não vou esganá-la se você mentiu para mim.. eu poderia adotála. você me pertence. para fazer uma visita à sepultura de minha mãe. Dentro de um ano porém você será maior de idade e a melhor solução é o casamento. Eu preciso obter a autorização da pessoa que era responsável por você para podermos casar legalmente. espanando os móveis. A única coisa que desejo é esclarecer certos pontos que continuam obscuros para mim. É por isso que eu venho todos os anos aqui. com os olhos arregalados. mas eu não sabia de nada. Lucy ouviu-o em silêncio. arejando as salas. Eu pensava constantemente no mundo fora do convento. mas ele não a desejava como esposa legítima. Assim. Isso está no meu sangue.. vou abandonar a vida absurda que levo atualmente. — Como. mas é a pura verdade. Foi por isso que eu fugi do convento. ventilando os quartos. — Você tem certeza do que está dizendo? As lágrimas tinham secado. quando fosse viajar de novo.. haveria alguém lá. como se Lucas tivesse esmagado seu coração com as mãos morenas. minha proteção contra meus instintos perversos. convento como noviça. Lucas queria uma mulher apenas para tomar conta da casa.

O diabo casado com um anjo! — Não fale assim! — murmurou Lucy silenciando sua boca com a ponta dos dedos. macia como pêssego maduro. — Quando você descobriu isso? . Em vez de declarar toda a afeição que sentia por ele. nem vale a pena procurar as freiras do convento. Nosso casamento vai dar o que falar! Meus conhecidos ainda se lembram das tragédias que ocorreram no passado. Havia porém outras coisas que amava nele. quando os espanhóis invadiam os portos e levavam as moças nas suas galeras como reféns.roubava dinheiro das pessoas. — Não. eu também sou meio espanhol e tenho duas vezes sua idade. — Eu aceito qualquer coisa menos isso. — Sem falar nessa pele branca como leite. como fazia a bordo do veleiro durante os jantares intermináveis no deck. tudo menos isso! — Lucy agarrou-se nele como um animal assustado e afundou o rosto no seu peito. eu teria me aproveitado de você quando estávamos a bordo do veleiro. Essa igrejinha está perfeita para mim.. sem querer alterar ou modificar sua maneira de ser. porque elas podem querer você de volta. Eles vão achar estranha essa união. Não precisa ter medo. não preciso da autorização de ninguém. como se adivinhasse seus pensamentos. — Não tenha muitas ilusões a meu respeito. Imagine se um menino tem esses cílios compridos — disse Lucas passando a ponta do dedo nas pestanas de Lucy. — Vamos mudar de conversa antes que você tenha outra crise de choro — disse Lucas afagando seu rosto. Você vai sair do hospital no fim da semana e. Eles vão morrer de raiva quando eu sair da igreja de braços dados com você! Afinal. — Eu não quero ser freira! — Ninguém vai obrigá-la a ser. ela preferiu adorá-lo em silêncio. fazer o bem e odiar os outros que não fazem o bem. vou providenciar os papéis necessários para nosso casamento. coisas secretas que estavam guardadas no fundo do seu coração. nina? Era a segunda vez que Lucas a chamava de nina.. nesse meio tempo. — É muito engraçado rir-se nas minhas costas! — Ela deitou-se ao comprido na cama para furtar-se aos seus contatos. — Se você não fosse tão criança. viver atrás daqueles muros. — você não precisa ser outra coisa a não ser a dona da minha casa. exatamente como os padres da Inquisição. — Ah. Ela o amava por tê-la aceito como era. Podemos nos casar na igrejinha onde minha mãe foi sepultada. não.. — Então está decidido. nina — disse Lucas. eu não sou supersticiosa. — Por que você não me disse que sabia? — exclamou Lucy indignada. Ou você é supersticiosa e não deseja isso. — Nesse caso. mas eu nunca roubei nada na minha vida.. Dessa vez porém eu me conduzi como um homem decente e deixei você fingir de menino para ver no que dava. A primeira quando a salvou do naufrágio. juro por Deus.

querida. Você não tem medo? — Eu não tenho medo de nada quando estou com você. Somente Lucas ocupava realmente sua alma e seu coração. mas possuía também uma ternura infinita que o tornava irresistível aos olhos de uma mulher faminta de amor como Lucy. A casa é muito grande e você não gostaria de morar lá somente com os empregados. causado tanto pelo naufrágio recente quanto pela vida que levava no convento. Lucas no fundo era bem capaz de fazer certas coisas que até então só ouvira as meninas cochicharem no convento. Encostou-se um instante na cabeceira com a respiração ofegante. em qualquer situação que fosse. Não se preocupe muito com meu passado.— No momento em que eu a carreguei no colo para o veleiro. Ela podia comentar o caso com as outras enfermeiras do hospital e logo todos saberiam que a noiva de Lucas ganhara uma aliança de diamantes que valia uma fortuna. Onde porém poderia guardá-la longe dos olhares curiosos da enfermeira? Percorreu o quarto com a vista e enxergou o armário branco encostado no canto. Veja nem. Lucas podia ser terrível quando estava de mau humor. Ela sorriu para ele com os olhos embevecidos. sem falar que todos sabem que nós estávamos juntos no veleiro. Desceu da cama com cuidado e deu uma exclamação de dor quando firmou a perna no chão. O presente era lindo de doer. foi por isso então que você me levou para bordo? Lucy estava chocada com a descoberta. Tudo que mais desejava no mundo era estar com ele. minha querida. deixando um vazio repentino no quarto. — Claro — confessou Lucas com um movimento indolente aos ombros. — Vou passar aqui sábado de manhã para apanhá-la. Ela acompanhou-o com a vista quando ele saiu do quarto com sua elegância habitual. As outras pessoas entravam apenas como sombras em sua vida. vou fazer todo o possível para estragá-la. A expectativa de morar na mesma casa que Lucas era tudo com que sonhava na vida. — Agora vou me despedir de você. mas ela preferia que a enfermeira não a visse com a aliança no dedo. Lucy pensou esconder a aliança em algum lugar. eu disse estragá-la. — Ah. Você já imaginou? Vamos escandalizar os vizinhos morando na mesma casa antes de nos casarmos! Mas eu não me importo com a opinião dos outros sobre o que é certo ou errado. Lucy sentou-se na cabeceira da cama e examinou detidamente a aliança que Lucas lhe dera. Nisso está a diferença! Lucas inclinou-se sobre a cama e beijou-a no alto da testa. nina. e não corrompe-la. Você saberá o que é comer as iguarias finas que eu sirvo na minha casa e beber os vinhos franceses que guardo na minha adega. Vou tentar ser um marido exemplar e você não terá motivo algum de queixa. onde era forçada a trabalhar . Lucy não fazia idéia que estava sofrendo as conseqüências de uma crise de esgotamento aliada a um sério abalo nervoso. Quando a porta bateu atrás da figura alta e morena. quando a irmã estava longe. — Você é uma mulher condenada.

Em seguida. de puro esgotamento físico. Ainda bem que guardara a aliança no armário. Estava ali. Segurou a maçaneta do armário e virou-a com um movimento lento da mão. isso passava por uma afronta pessoal. Era seu segredo que amava Lucas de todo coração e não queria que a enfermeira desconfiasse de alguma coisa. Aproximouse da cabeceira e observou-a atentamente. Era de estrutura frágil e. a primeira pessoa na vida que demonstrara bondade sem exigir nada em troca. Na estante. Lucas comprara aquelas roupas como parte do enxoval e ela sentiu os olhos rasos d'água ao olhar mais uma vez para tudo o que estava guardado no armário. havia também uma jaqueta de couro e um chapéu de camurça da mesma cor que o vestido. Avistou admirada uma bolinha de couro em cima de uma estante. Tudo aquilo era dela! Desde o chapéu de feltro verde até a liga delicada com uma fitinha branca. — Ah. quando a enfermeira entrou no quarto. belo e caro como ela nunca tinha sonhado possuir na vida. Nós vamos dar um passeio pela cidade. dormira trinta e seis horas a fio. ela fechou o guarda-roupa e voltou para a cama. com um suspiro de alívio. cansada mas feliz. — Como está se sentindo. com seu jeito habitual de curiosidade e de interesse humano. que combinava com o chapéu. — Eu ouvi dizer que ele vem aqui todos os anos para visitar a casa da família. seu herói. após ter sido salva das águas por Lucas. Ele era seu ídolo. Sentindo-se um pouco como Cinderela.. ao lado da caixa de papelão.além da sua resistência física. de alto a baixo. estava um par de sapatos de saltos altos. não apenas porque o sapato cabia no pé como também porque as cores combinavam com sua personalidade — o verde e o creme — o bosque e a gazela que fugia dos caçadores. meu bem? Gostou de receber uma visita? Lucy balançou a cabeça com um sorriso mas não comentou nada. Você não tem cara de espanhola. Ela sabia disso instintivamente. meu bem. . todo pregueado. — Eu estava apenas morando na Espanha. Que importância tinha se não sentisse amor por ela? O que era a paixão afinal senão algo que tornava a vida um céu ou um inferno? Ele gostava o suficiente dela para querer guardá-la consigo e Lucy ficou contente com isso. repleta de produtos de beleza. — Ele vem me buscar no sábado. Um conjunto completo de soirée. um par de meias compridas e uma liga com um lacinho branco. A enfermeira era boazinha mas não simpatizava evidentemente com as maneiras arrogantes de Lucas e. Foi lá que nos conhecemos. mas eu imaginava que você era nascida aqui. sim? — disse a enfermeira ajeitando a roupa de cama e puxando o lençol sobre o pijama branco. passou o dedo pelo vestido de crepe. ao olhos de Lucy.. Lucy abriu a caixa de papelão com as mãos tremulas e viu as peças de lingerie de seda. A aliança caiu no fundo do bolso de cetim e. Beijou a aliança de diamantes antes de escondê-la no bolso da jaqueta de couro. enfiou o pé no sapato e viu que cabia perfeitamente.

você gosta muito dele. meu bem. — Aliás. sem situação social. que sabem se vestir e conversar sobre qualquer assunto. Eu prefiro que você sugira alguma coisa. Ela pertencia a ele e só devia dar conta de sua vida a ele. Os homens não são melhores do que a gente.. por exemplo. Eu ouvi contar essa história — disse Lucy com impaciência. Eu entendo que você sinta excitação em casar com um nobre. Ouça o que estou lhe dizendo! — Eu estou disposta a correr o risco — disse Lucy. como coisas sem valor.. não tenha muitas ilusões a respeito dos homens. não é mesmo? Olhe. mas é preferível deixá-la descansar em paz. Lucas. Aprendera com Lucas a não se abrir com os outros. Lucy ouviu o comentário em silêncio. A enfermeira saiu do quarto para buscar seu lanche. — Bem. meu bem. menina. Mas durante quanto tempo? As novidades cansam rapidamente. senão a aliança vai escorregar de seu dedo.. não precisa. As jovens costumam imaginar mil coisas até o dia em que se desiludem completamente. era um personagem conhecido e ela. — Já sei. se tornaria uma mulher ilustre no pequeno porto de mar. A mãe dele. eu posso pedir uns sanduíches de rosbife com alface e uma fatia de torta de maçã. Quer que chame a encarregada da cozinha? — Não. Lucas é muito cativante como homem. tenho certeza de que você faria o mesmo se estivesse no meu lugar. Você está precisando engordar um pouquinho. se você não se importa de ouvir a opinião de uma mulher que tem o dobro de sua idade. — Eu sei por que ela fugiu de casa. mulheres que foram educadas com o propósito de conquistar os homens. Pelo visto. — Desculpe. aceitando com resignação o silencio que a garota de dezessete anos lhe impunha. — Um pouco cativante demais — disse a enfermeira com um risinho malicioso.disse a enfermeira. ao casar com ele. Eles são pessoas de carne e osso. como você e eu. e sentiu-se tentada a dizer umas verdades que não teria coragem de falar para uma mulher . se você gostar. — O que tem para o lanche? — perguntou. — Ele vive rodeado de mulheres. eu não sabia que você não gostava de falar nesse assunto. Ela descobrira instintivamente que Lucy era uma moça pobre.— E seus parentes? Eles não vêm visitá-la? Lucy balançou a cabeça com reserva. fugiu de casa para viver com um artista. Pelo visto o casamento dos dois era motivo de conversa na pequena cidade do litoral. — O que você quiser —. mas eu a previno de que não é nada fácil conviver com um homem dessa classe social. — Você pode pedir o que tiver vontade. até que são postas de lado. mudando de assunto.. Você no momento é uma novidade para ele. — Você sabia que Lucas recebeu o título de lorde quando o primo morreu numa pesca submarina? São todos meio loucos na família e ninguém tem a cabeça no lugar. evidentemente. sem se deixar intimidar por nada nem por ninguém.

onde o tempo tinha parado. mas não havia as emoções habituais entre um casal. com as freiras espanholas do convento. contudo. sentia-se exatamente como tempos atrás no convento. Lucy observava em silêncio a paisagem. estava profundamente emocionada com tudo aquilo. passavam cavalos. Morria de curiosidade de conhecer a casa onde a mãe de Lucas encontrara alguns anos de felicidade na companhia do homem que amava. As copas eram tão fechadas que os raios do sol mal conseguiam atravessálas. Por dentro. sob muitos aspectos. Era inverno. nesse momento. mas isso não impedia que se alarmasse com essa perspectiva. nem fingir que eram falsas. Por aquele mesmo caminho. pensou com tristeza que se morresse não haveria ninguém que sentiria sua falta. Lucy sentiu uma indisposição momentânea e perdeu o apetite que sentia antes. A pequena população local era parecida. Sombras estranhas se formavam na passagem do carro. As palavras no entanto ecoavam dentro de sua cabeça e não havia maneira de silenciá-las. muitos anos atrás. As novidades cansam. O antigo escândalo era comentado ainda pelos moradores da região. encolhida no canto do carro..de classe social mais elevada. seguia reto durante um certo pedaço. Ela o divertia e ele se sentia responsável por sua segurança.. as novidades são postas de lado. Ela encolheu-se na cama como um animal que procura um abrigo das ameaças exteriores. como agora. que contrastava nitidamente com o sossego e o ar campestre da paisagem. carros de boi. Lucy desejava de todo coração viver na companhia de Lucas. Naquela ocasião. . Lucas fora o primeiro a reconhecer que o casamento dos dois não era por amor. Cada uma delas a feria como um pontapé na testa. um automóvel de luxo grande e possante. Era preciso que alguém a amasse de todo coração para chorar sua perda! CAPITULO VI O caminho que conduzia à casa fazia curvas fechadas para um lado. deviam estar plantadas ali há centenas de anos. Lucy estava com um vestido de seda que Lucas lhe dera de presente e. cintilava a aliança de diamantes. muito menos o amor que resiste a todas as pressões vindas de fora. carroças e carruagens que se dirigiam ao casarão familiar. Somente Lucas podia ter a audácia de levar para a casa da família uma outra mulher que fora abandonada pelos pais. depois virava no sentido contrário e era o tempo todo ladeado por árvores enormes que... As palavras da enfermeira repetiam-se obsessivamente na sua cabeça. Ela não tinha um único amigo a quem pudesse recorrer num período de dificuldade e. Ela apanhara uma gripe muito forte e passara alguns dias na cama. Ela não sabia defender-se das insinuações que ouvia. na mão direita. cm qualquer condição e situação que fosse. Uma gente fanática que não perdoava aqueles que desobedeciam às antigas tradições.

os muros marcados pelos anos. construídas de tijolos descobertos. Por falar nisso. — Você arruinaria a fama de pirata que eu levei anos para adquirir! — Você não gosta de ser bom? — Bom? Por favor.. — Lucas virou a cabeça na sua direção e as sombras das árvores encobriram seu rosto. Estava envolvida até os ossos no fascínio que a personalidade de Lucas exercia sobre si. mas você está agora aos meus cuidados e eu sou responsável por você. — Logo adiante vamos avistar a casa — anunciou Lucas. Gostava demais dele para ter vontade de exigir amor de volta. Parecia que estava num outro mundo. As freiras podiam ser bem intencionadas. que formavam verdadeiras massas azuis e vermelhas na passagem. mas elas lhe deram trabalho demais. No fundo. os vitrais que brilhavam sob a luz forte do sol. Se bem que você não tenha muita cara de mulher com esse chapéu e esse vestido. O mais surpreendente porém é a maneira como você cruzou meu caminho. Eu sou um egoísta de primeira e só faço as coisas que satisfazem meu interesse. Você se parece mais com Peter Pan. — Eu gostaria de dizer aos outros como você foi bom para mim — comentou Lucy com um sorriso. No momento. Antes porém passaram por outras dependências. Lucy. eu a entregaria nas mãos de uma pessoa responsável e a encarregaria de tomar conta de você. basta saber que você aceitou meu pedido. Eu reconheço que sou inescrupuloso e que vivi muito tempo entre mulheres de vida fácil e nas mesas de jogo. Lucy. — Elas queriam me corrigir — disse Lucy com o rosto sério.— Como você sabia meu tamanho. deixando apenas dois olhos brilhantes como pedras preciosas. mas agora é tarde demais. — Achavam que eu era rebelde e que devia expiar os pecados dos meus pais. as mãos caídas em cima do colo. evidentemente. todas essas coisas eram tão fascinantes que Lucy gostaria de demorar-se . — Nosso casamento está nesse caso? — indagou Lucy. — Pois é — murmurou Lucy. — Foi apenas por conveniência ou você gosta um pouquinho de mim. me poupe esse defeito! Eu sou bom como um touro bravo é bom e somente uma garota inocente como você poderia encontrar bondade em mim. Isso prova que você tem bastante vitalidade no corpo aparentemente frágil. — Eu admiro que você tenha agüentado tanto tempo. você dormiu como uma pedra. ? — Vamos deixar esse assunto para outra ocasião. sua reputação foi atingida com nosso convívio a bordo do veleiro e só me resta fazer de você minha mulher. Lucas? As roupas e os sapatos couberam perfeitamente em mim.. A inclinação do telhado. — Eu pedi à enfermeira para tirar suas medidas enquanto você estava dormindo. cercadas por árvores antigas e por canteiros de azaléias. Sem falar nos meus. — Se eu tivesse mais juízo na cabeça.

Lucy viu que a aldrava tinha a forma de um rosto enigmático. Pelo contrário. Aqui as pessoas escondem o sentimento como outros escondem seus crimes. nas areias movediças. Seu casaco de couro brilhava como o líquen verde que cobria os pés das árvores. até o dia em que fez uma mágica que acarretou sua desgraça. Quando Mawgan ouviu a notícia. — Não vou me esquecer — prometeu Lucy obedientemente. O pátio não era sombrio nem tristonho. convencido pelos ministros. desapareceu do castelo e só foi visto de novo na forma de objetos estranhos na floresta. A viagem abriu nosso apetite. como se fosse uma figura demoníaca que fitasse atentamente os visitantes. ao mesmo tempo fantástica e fascinante. nina. Nunca mais ninguém soube seu paradeiro. em forma de agulhas. há alguns anos. grande e maciça. Quando chegaram ao alto. O sol batia nas janelas góticas da torre e resplandecia no telhado inclinado de ardósias. Ela imaginou com tristeza o menino pequeno que corria pela praia à procura de conchas e que foi surpreendido pelas areias movediças. Aqui você vai ver lugares de extrema beleza ao lado de coisas tristes e melancólicas. — Vamos — disse Lucas segurando-a pela mão. — Esse é Mawgan. Lanyon. como Lucy imaginava. o mago — explicou Lucas batendo com força na porta. A casa tinha o telhado caído e passagens estreitas pintadas de branco e de preto como um tabuleiro de xadrez. como são chamados aqui os bancos de areia. Essa impressão perdurou no momento em que desceu do carro e ficou parada no primeiro degrau da escada que levava à porta da frente. O rei. com uma aldrava enorme de ferro batido. Um homem de botas longas e de espingarda a tira-colo recebeu-os no portão. era alegre. pitoresco. Não se esqueça disso. — Aqui estamos. Espero que vocês tenham preparado o almoço para matar nossa fome. patrão. — Dizem que ele era um grande rival de Merlim. mas não é lá muito dado a conversas. Um silêncio triste desceu sobre ela no momento em que o carro atravessou o último par de árvores inclinadas e penetrou no pórtico gótico que ia desembocar numa área retangular da grande propriedade.mais tempo ali antes de conhecer o velho casarão da família. com torres altas. ordenou sua morte. A cozinheira recebeu suas instruções e preparou tudo ao seu gosto. que apontavam para o céu de um azul intenso. Ele é um indivíduo tranqüilo que faz bem seu serviço. — Que história fantástica — comentou Lucy no momento em que o criado abriu a porta da frente. com um sorriso nos lábios. — Está tudo pronto. Tinham um filho pequeno que morreu. . — Esse é nosso caseiro — explicou Lucas em voz baixa. — Ele e a mulher moram na casa dos empregados. Lucy tinha a impressão de estar vendo uma pintura medieval.

Agora do homem que se tornara cínico por ter vivido muitos anos sem conhecer o amor da mulher e que se julgava incapaz de amar sinceramente. Chama-se Tamsin e sabe preparar a melhor carne assada do mundo. Lanyon. — Foi o que eu pensei — disse Lanyon. Vamos almoçar na sala chinesa. Ela se chama Lucy. vão voltar ao trabalho. Lanyon. mas ninguém podia escapar de uma tempestade daquelas. Você sabe se o quarto da minha noiva foi arrumado? É o que dá para o jardim. — Esta é minha noiva. Por falar nisso. de paredes cinzentas. o que é um grande consolo para quem vem de longe. — É um exemplo raro do estilo britânico e só por isso merece ser visitada e apreciada pelos conhecedores. Foi educada num convento e não se sente muito à vontade na sociedade. que é mais acolhedora que a sala de jantar. os perfumes fortes e os diamantes eram desconhecidos. — E a tripulação? Recuperou-se completamente? — Estão todos passando bem. mesmo depois de ter perdido seu veleiro preferido. No momento estão tirando alguns dias de férias na casa dos parentes. Além disso. onde os vestidos rodados. — Lanyon é um inglês cem por cento — comentou Lucas com um sorriso. há umidade nas . Lanyon não escondeu sua surpresa ao avistar Lucy. —. Quando o novo veleiro estiver pronto. patrão — disse Lanyon tentando explicar seu embaraço. Nós tivemos muita sorte de sair com vida do naufrágio.Nós tivemos um pequeno problema com o telhado da torre. — Eu gostei muito da casa por fora. Imaginava que fosse um casarão velho e triste. com exceção do capitão.Apesar de seu jeito cerimonioso e educado. — Esta é uma das casas mais bem conservadas da região — explicou Lanyon. fechando a porta da frente. estendendo a mão para cumprimentar o criado. — Fez boa viagem? — Ótima — disse Lucy. Casa do mago e da mulher que desprezou as etiquetas da nobreza espanhola. — O almoço está pronto. — Muito prazer em conhecê-la — disse Lanyon com uma pequena inclinação da cabeça. que está supervisionando o acabamento do novo veleiro. Lucas percebeu seu gesto a tempo e segurou-a pelo braço. Pelo contrário. preciso fazer alguma coisa para tornar essa sala mais alegre. — Foi de fato um acidente lamentável — disse Lanyon. Lanyon. é muito alegre e cheio de vida. O quarto do outro lado da torre dá para o mar e eu não gostaria que cia tivesse recordações tristes do naufrágio. Lucy lançou um olhar a sua volta e sentiu imediatamente um ar da antiguidade e de mistério na atmosfera da sala branca e preta da velha residência. Posso mandar o copeiro servir a mesa? — Por favor. Por mais bem vestida que estivesse. ela dava a impressão de ter vindo de um outro mundo. Não há dúvida de que foi uma perda lamentável. patrão. — As telhas velhas deslizaram durante a última tempestade e surgiram goteiras no quarto. Eu adorava aquele iate. — Nossa cozinheira porém nasceu aqui.

Hoje à tarde vão chegar diversas encomendas de Londres e seria bom que você fosse buscá-las de carro na estação. — Bem. que são estranhas como a lua. minha querida.paredes e o aposento não está em condição de ser usado no momento. patrão. Os homens sabem perfeitamente como vieram ao mundo. procurando facilitar o problema da acomodação. — A mulher imagina possuir certos segredos que o homem não pode entender. Eu sei que são uma amolação para um homem maduro como você. as estrelas. — Essa observação comprova sua ingenuidade — comentou Lucas. então. em função de sua biologia. Lanyon. antes de mais nada. logo depois que recebemos seu telegrama. — Nós arrumamos para sua noiva o quarto que dá para o mar e procuramos torná-lo tão agradável quanto possível — disse Lanyon procurando desculpar-se do contratempo. a deusa da misericórdia — explicou Lucas. — Eu não sou nervosa e não costumo ter pesadelos à noite. — Pois não. onde havia uma estatueta em cima de um pedestal. — Ainda bem — disse Lucas com o rosto tenso. Ela não queria parecer medrosa diante dos empregados da casa. — Nós chamamos. — Eu não me incomodo de dormir com o barulho das ondas — interveio Lucy. ser bem vista por todos e poder desfrutar ao máximo os dias que pretendiam passar na casa antiga. — Eu prometo que não vou lhe dar trabalho com meus temores infantis. Lucy vai dormir no apartamento que foi preparado para ela. São as mulheres. Ela olhou em volta e notou que estavam numa sala diferente de todas as outras . Desejava. — Por que você diz isso? Por que não posso esperar nenhuma bondade de você? — perguntou Lucy quando entraram na sala de objetos chineses. — Está certo. — Por que vocês não chamaram alguém para consertar o telhado? — perguntou Lucas com impaciência. Mas eu não pude avisá-lo a tempo porque não tinha seu endereço em Londres. o mar. fechando a porta atrás de si. É um engano. nem uma criatura nervosa e incômoda que só dá trabalho aos outros. Lucy acompanhou Lucas até a porta no lado oposto do vestíbulo preto e branco. Por que eu me sentiria incomodado com seus temores infantis? — Porque você falou dos meus pesadelos como algo desagradável. — Talvez você tenha necessidade dela. o pedreiro que veio consertar o telhado não encontrou as telhas que combinavam com as antigas e somente dentro de alguns dias a loja de materiais de construção vai fornecer o pedido. — Essa é Kuan Yin. há outros quartos na casa — disse Lucas acendendo o isqueiro. Além disso. Ela segurou no braço de Lucas e lhe dirigiu um sorriso com seus olhos verdes e luminosos. O mordomo se afastou com passos regulares...

Sua pele clara combina com o verde do vestido. Ele colocou o casaco nas costas do sofá. — Você não me disse se gostou da aliança. Eu me sinto deslocado ao seu lado. Entre as janelas que davam para o jardim havia uma mesinha baixa em cima da qual estava um vaso enfeitado com plantas e pássaros. Lucy sentiu um arrepio na espinha quando Lucas desabotoou seu casaco grosso e o retirou do seu corpo. cercado por muros cobertos de trepadeiras. colocando a mão em cima do seu ombro. onde aves do paraíso resplandeciam com suas plumagens magníficas. Um raio de sol entrou pela fresta e bateu em cheio na aliança de diamante que cintilou.. não é mesmo? Você está parecendo um pajem com esses cabelos curtos. Ela permaneceu um instante parada no meio da peça com os olhos embevecidos na contemplação dos objetos que havia em redor. para não perder o equilíbrio. trejeitos aristocráticos e virtudes domésticas! Nós passaríamos provavelmente uma semana em perfeita harmonia e morreríamos de tédio o resto da vida. Passou as mãos nos cabelos enquanto Lucas a observava com admiração. A austeridade da vida no convento não a preparou para as tapeçarias orientais que avistou nas paredes. cujas almofadas eram forradas de seda pintada à mão. você tem as cadeiras de um adolescente e o colo de uma jovem de mais idade. tecidas à mão. Era tão maravilhosa que parecia um sonho. Lucy levantou a mão sem jeito e segurou a dobra da cortina. Suas pernas são bem feitas. — Não seja ciumenta e possessiva antes do casamento.. Lucy estava sem jeito. Ele enlaçou-a pela cintura. . se um lorde inglês não pode fazer o que tem vontade.. ou pintados delicadamente com figuras douradas e prateadas. laqueados em diversas cores. — Também não precisa exagerar — disse Lucy com um sorriso.Você fica bem de vestido — disse Lucas examinando-a da cabeça aos pés. muito menos de onde veio! — Nina mia. — Esse não é o quadro completo da situação — disse Lucy indo até a janela que dava para o jardim. — O amante de minha mãe era um homem de temperamento artístico — explicou Lucas. como se ela fosse um dos objetos da sala chinesa. Parece até que você se vestiu de propósito para fazer parte da decoração desta sala. — Seu único erro é casar com uma moça que ninguém sabe quem é. quem mais pode? Para mim seria um inferno casar-me com uma mulher que tivesse sangue azul. Aproximou-se dela e a fumaça da cigarrilha descreveu um círculo azulado em volta de sua cabeça. Eu gostava mais como você era antes. — Deve haver alguém de quem você gostou.. Ela não conhecia tampouco os objetos de madeira. Lucy. —. Eu virei Londres inteira para achá-la. — É mais gostoso andar com um vestido de seda do que de calça comprida. porque era a primeira vez que aparecia diante de Lucas com um vestido longo.que vira antes. — Eu só gosto de mim mesmo — disse Lucas com cinismo.

Esse diamante foi comprado num dos joalheiros mais honestos de Londres. Comparou a bela porcelana chinesa e o serviço de prata com os pratos grosseiros de cerâmica que usavam no convento. — As sombras dos pecados antigos. muito menos de diamante. Que elas apodreçam. Lucy observou fascinada o complicado cerimonial. sentada num canto do convés. Lanyon estendia uma toalha de rendas em cima da mesa e colocava os talheres de prata. O primeiro almoço de Lucy na casa antiga foi memorável por diversas razões. As abotoaduras que usava eram quadradas. estava visível na face morena. Achou estranho por isso o ambiente íntimo do jardim. nem uma das jóias da família que estão guardadas nos cofres da Espanha. — Essa truta está excelente! — disse Lucas voltando-se para Lucy. Nesse momento. ela o temia. vendo se o pão era distribuído igualmente entre todas e se a sopa de legumes era tomada até a última gota. ouviram uma batida leve na porta. Lucas estava muito elegante no terno de três botões com a camisa de listas e a gravata estampada. Ele não usava anel no dedo. Ela era muito inexperiente e preferiu não arriscar. Quando Lucas estava de mau humor. no refeitório de paredes caiadas de branco. de pedras pretas. os rubis vermelhos como sangue. característico dos espanhóis. Lanyon c o menino foram até o jardim e armaram a mesa lá fora. nas feições magras . e não se meta com minhas paixões espanholas. Enquanto isso. Lucy estava na dúvida se devia ir na sua direção ou na direção oposta. acompanhado de um menino que trazia duas cadeiras. e não adiantava querer aproximar-se dele para apaziguá-lo. Lucas apagou a cigarrilha no cinzeiro e amassou cuidadosamente a ponta acesa. Lucy tomava as refeições sozinha. sendo observadas por duas freiras que ficavam sentadas nas extremidades da mesa. porque elas não merecem confiança. Não me ame e não queira ser amada por mim. Procurou ocultar seus sentimentos enquanto o observava com o canto dos olhos. mas o orgulho da raça. — O que você queria que lhe desse? Uma aliança de fantasia?' Eu tenho horror das imitações baratas. servida numa travessa de prata que tinha o formato de um peixe. Seria uma pena desperdiçar um dia como este. Seja a esposa do meu lado inglês. Elas se estendem até aqui e lançam uma escuridão sobre a mente. Eu não esperava receber uma aliança. sem levam ar as cabeças dos pratos. Caminhou pela porta aberta em direção ao jardim e foi recebida pelo perfume das rosas.— É belíssima. Lanyon entrou com uma mesa de dobrar. — Prefere que sirva o almoço no jardim? — Por favor. as esmeraldas verdes como o medo! Ele se afastou da janela e foi até o meio da sala. O mau humor de Lucas desapareceu quando se sentou à mesa e tomou com prazer o copo de vinho branco que Lanyon serviu com a truta pescada no rio da propriedade. e as unhas estavam aparadas e polidas. Eu não posso dar uma aliança de latão a minha noiva. No veleiro. onde as meninas comiam em silêncio. Lanyon. enquanto Lanyon servia um segundo copo de vinho branco.

as emoções opostas. da paisagem tipicamente inglesa que se estendia em volta da casa. — No convento você não tinha um vinho desses — disse Lucas com uma risada irônica. das rochas altas que se levantavam a muitos metros acima do mar. saboreando o almoço delicioso. por nada desse mundo. o perigo e o fascínio que exercia sobre as pessoas.Você costuma andar sozinho à noite por essas bandas? — perguntou Lucy quando Lucas terminou a narrativa. — Os muros do convento são altos para não deixar a virtude fugir. — Vamos fazer um brinde ao nosso futuro. Um poeta escreveu essas linhas e todos aqueles que as repetem encontram um grande consolo para a vida. Ela seguiu seu conselho enquanto ouvia Lucas falar dos vizinhos. ela estava disposta a aceitar todas as conseqüências desse ato. antigas feiticeiras que tinham se transformado em pedras. — Tudo menos isso. Ali é que se observava o sangue misto. Eu não suportaria voltar para lá. — Não! — exclamou Lucy com horror. como acontecia no convento. . O copeiro levava os pratos vazios para a cozinha e não havia a perspectiva deprimente de ter que lavar os pratos sujos depois da refeição. metade inglês metade espanhol. — Coma seu peixe antes que esfrie. Como você prefere? Em espanhol ou em inglês? — Como você quiser — murmurou Lucy segurando o pé do copo comprido. Antes eu suspeitava que fosse. mas agora eu tenho certeza absoluta". os dedos ficavam feridos das horas que passava com as mãos embaixo da água gelada. — Está delicioso — murmurou ela. O peixe fora seguido por uma torta de legumes. — Vamos fazer em inglês então e que nosso lema seja esse: "A vida é uma farsa e todas as coisas confirmam isso. de sorte que cada garfada que dava era um prazer. — Então somos dois — concordou Lucas com um sorriso. Não há motivo para sentir remorso em comer um peixe delicioso acompanhado de um copo de vinho branco. Lucy. — Sentiu a garganta seca e bebeu outro gole de vinho. olhavam para trás. — Eu vou repeti-las. Lucy observou a maneira como Lucas bebia o vinho. Muitas vezes Lucy ia dormir com as costas doendo. colocando o copo em cima da mesa. a menos que você queira voltar para lá. repetindo as palavras do poeta. Eram seus olhos porém que revelavam o aspecto bizarro de sua personalidade. Se fosse um pecado estar ali com Lucas. As pessoas que caminhavam à noite sozinhas por aquelas partes costumavam assobiar para afastar os maus espíritos e. levantando seu copo. Lucy nunca comera mais de um prato por refeição. no sorriso arrogante. então — disse Lucy. — Eu sou rebelde por natureza. —. de ficar debruçada sobre a pia da cozinha e. creio que isso está no meu sangue. no inverno. Eles brindaram o futuro com a fisionomia séria. em pequenos goles.do rosto. muito menos preparado com tanto requinte. Nas terras áridas estavam os menires que eram considerados pelos habitantes do lugar como.

Em vez de apreciar e de elogiar a comida.— Sim. é o mesmo que você dar um beijo na Enciclopédia Britânica. Há muita coisa estranha neste mundo. eu caminhei algumas vezes por essas regiões desertas — disse Lucas respondendo a sua pergunta. pelo menos no sentido autêntico da palavra. ele inclinou a cabeça e beijou-a nos lábios entreabertos. Lucy? Já foi beijada alguma vez? Ela passou em revista os anos da adolescência e concluiu. ela passa o tempo todo fazendo perguntas e gesticulando como um vendedor de rua. — Normalmente a gente associa . Os lábios dele eram quentes e firmes e Lucy experimentou uma sensação rara de prazer. — Que costume estranho! — Pois é. Mas eles são tão tolerantes que agüentam essas mulheres por uma simples questão de cortesia. — E você. — Os beijos não eram bem vistos no convento — disse Lucy após um momento. Lucy caiu na gargalhada com o comentário inesperado de Lucas. com uma impressão penosa. É provavelmente meu lado espanhol que detesta esse tipo de mulher. Desejava simplesmente ter uma mulher que lhe desse liberdade para levar a vida que bem entendesse. que nunca fora estreitada nos braços e beijada com amor. — Mais? — perguntou Lucas com um sussurro. Lucas levantou-se da cadeira e deu a volta na mesa em direção a Lucy. No fundo. Aquelas que são verdadeiramente inteligentes costumam esconder o que sabem e deixam transparecer apenas o charme que possuem. os olhos extasiados. Ele não a amava. mas essas carícias não contavam. Aquelas que desejam mostrar que são mais sábias que os homens são simplesmente intragáveis! É preferível almoçar com um homem ignorante do que com uma mulher intelectual. Lucas a beijara no rosto quando lhe dera a aliança de noivado. — Mas nunca olhei para trás. — Não há de ser nada. Nós vamos remediar essa situação. No momento em que ela olhou espantada para cima. Lucy sorriu com a careta que Lucas fez. — Você prefere beijar uma mulher que seja meio burrinha? — Mil vezes! — disse Lucas com o rosto sério. — Um não bastou? — É uma sensação estranha — murmurou Lucy. As mulheres são mais interessantes quando ignorantes e aquelas de mais idade que fascinam os homens com o conhecimento que possuem da vida. É bom que você não tente entender essas coisas. Ela permaneceu um instante parada. — Você não aprecia as mulheres intelectuais? — Não muito. — As meninas deviam aprender a aceitar a caridade e o dever como o pão de cada dia. — Os ingleses em geral gostam das mulheres intelectuais? — Nem sempre.

minha querida inocente. mas não queria também ser tratada como uma adolescente que Lucas exibia aos outros numa coleira de diamantes.. passando pelos cabelos. Ouça o que lhe digo. mas eu passei a adolescência inteira no convento. Nesse momento. — Por que não? — Porque enfraquece a pessoa.a boca com comida. os dois ouviram passos que se aproximavam no caminho de pedras. pelas pernas bem feitas.. pela cintura fina. você nunca mais me procurou! Eu só fiquei sabendo que você estava de volta quando li a notícia no jornal. — O beijo não deixa de ser uma espécie de fome. Eu gostei muito quando você me beijou. — Por falar nisso. Da segunda vez os lábios dele tocaram nos dela como uma carícia bem leve. rompendo o silêncio gostoso que havia no jardim. aprendendo a ser casta. — Tia Charlotte. — Ah. sem a menor cerimônia.. Ela passa a viver em função disso. é? — perguntou Lucas com os olhos brilhantes. O beijo não passa de uma carícia e é melhor você se habituar desde já a privar-se disso. mas casar é outra coisa . a que devo a honra de sua visita? — Seu ingrato. Ela não pedia para ser amada. Você tem alguma objeção. Lucy voltou a cabeça e ficou surpresa ao avistar uma mulher alta e gorda que vinha acompanhada de uma garota loura com um vestido estampado de flores azuis. — Está certo que você viajou com ela no iate. — Onde você corta seu cabelo? — perguntou para Lucy. Lucas voltou a cabeça na direção dos passos e amarrou a cara. — Você está fugindo ao meu controle. A filha também olhou para Lucy com insistência. É verdade que você quase morreu afogado ao salvar sua noiva? — Exagero — disse Lucas com a fisionomia impassível.. nina. acho bom você não criar um gosto por esse tipo de prazer. — Olha. Ele voltou para sua cadeira. — Você está completamente doido! — exclamou Charlotte sem se conter mais tempo. com um sorriso malicioso nos olhos. — Sou eu que corto o cabelo dela! — respondeu Lucas com o rosto impassível. — Só faltava essa! — Ele levantou-se da cadeira e foi ao encontro da mulher e da menina que se aproximavam. afastou o prato da frente e começou a brincar com o copo de vinho. — Isso pode acontecer com alguém que já beijou todos os tipos de mulheres e está farto de tudo. Lucy no entanto desejava estreitá-lo nos braços e apertá-lo com força contra si. sobretudo sabendo que Lucas rejeitava esse tipo de sentimento. vamos nos casar na sexta-feira que vem. tia? — Você ainda pergunta! Charlotte voltou-se para Lucy e examinou-a de alto a baixo. como se fosse a sobremesa e não o prato principal da refeição. — Temos visita — disse Lucy em voz baixa para Lucas.

Por isso não pretendo convidar nenhuma pessoa da família para o casamento. Aliás. — Quanto à graça da mulher da sociedade. nem muito menos de onde vem! E de cabelos claros. Além disso. Lucas — comentou Charlotte com o rosto fechado. trata-se apenas de um artifício para uma série de vícios sociais. — É sua aliança de noivado? Foi esse comentário que despertou Lucy de sua letargia. Ela é a inocência em pessoa. eu nunca fui muito amante de olhos verdes. — Lucy e eu vamos viajar para Paris logo depois da cerimônia na igreja.. Ela é a jovem que eu escolhi . não possui nenhum desses vícios. — Pois eu adoro os olhos verdes — disse Lucas impassível. levantando-se da cadeira.. — Entendo — disse Charlotte sem despregar os olhos de Lucy. ela é uma criatura rara em nossa sociedade. os olhos de Lucy são cinza. Lucy estava muda no seu canto. se bem que os olhos verdes não são sinal de inocência. completamente hipnotizada pela cena que se desenrolava na sua frente.. nem que vá ao Jockey Club de calça comprida. — Eu vou deixar vocês conversarem à vontade enquanto troco de roupa — disse ela. — Eu não vim aqui para ouvir essas bobagens! — exclamou Charlotte com irritação. Eu não me incomodo que ela derrame café no tapete da sala. — Nós não vamos dar uma festa de casamento. Lucas? A moça tem algum problema? Ela me parece ser muito ingênua.completamente diversa! — No quê? — perguntou Lucas com a voz calma. uma virgem de corpo e de alma. tia — continuou Lucas com a voz serena. pontilhado por baforadas de fumaça azulada. — A gente se vê mais tarde. — Você sempre gostou de situações absurdas. Lucy. felizmente.. Lembre-se de que você é nobre e tem que zelar pelo bom nome da família. — Na realidade. — Como é possível você casar com uma moça que não possui a graça inata de uma mulher da sociedade? E de onde ela vem. — Eu não vejo diferença alguma. se não for indiscrição perguntar? — Isso não diz respeito a ninguém — respondeu Lucas em voz baixa. ainda por cima! — Os cabelos claros são o meu fraco. — Um homem de sua posição não pode casar com uma desconhecida. como é comum entre os irlandeses. Ela nunca pensou que os parentes de Lucas fossem tão desagradáveis e grosseiros. — Que anel bonito você tem! — comentou a filha com os olhos vidrados na mão de Lucy. Como pode casar com uma criatura que ninguém sabe quem é. Um silêncio pesado seguiu-se às palavras de Lucas. — Você não vê que isso é totalmente absurdo? Você tem o dobro da idade dessa menina. — Não. tia — disse Lucas impassível. Suas mãos estavam firmes no momento em que acendeu uma cigarrilha e puxou uma tragada. — Mas por que toda essa pressa. não vá embora — disse Lucas estendendo a mão e puxando-a para perto de si.

você pode devolver as agressões por minha conta. — Eu não fazia idéia que as pessoas pensavam isso de mim. Elas pararam no alto do terraço de onde se avistava o mar. naturalmente. — Dêem uma volta pelo jardim. Eu. Lucy é virtuosa mas é também corajosa. mas quando ela cisma com uma coisa.. Abelhas e outros insetos zumbiam em volta das duas quando passaram pelo meio das plantas. que ouvia a conversa com impaciência. Lucas voltou a atenção para Charlotte. — Foi assim que sua noiva aprendeu a virtude? — perguntou Birdina com olhar de pouco caso. Ela não seria uma garota mimada se tivesse lavado pratos sujos num refeitório. Eu creio que esse é um mal de família. uma abelha zumbia no cálice de uma flor. Apaixonado? O coração de Lucy bateu mais depressa com a pergunta inesperada. Ela acha que você é uma oportunista que está interessada na fortuna de Lucas. Lucy caminhou com relutância ao lado de Birdina e tentou iniciar a conversa enquanto seguiam o caminho de pedras que ia do jardim à outra parte da casa. Birdina. pelo visto! — disse Charlotte respirando com dificuldade. mas Birdina se assustava toda vez que um marimbondo passava perto dela com seu zumbido característico. Veja bem o que você diz! Com um aceno de mão. não há ninguém que o convença do contrário. não acredito nisso. As ondas batiam nas pedras da enseada e levantavam uma nuvem de espuma para o alto. — Lavando pratos e esfregando o chão? — Cuidado.Lucas está apaixonado por você? — perguntou Birdina em determinado momento. CAPITULO VII De novo houve um silêncio pesado que parecia deixar os nervos à flor da pele. — Você está decidido. de maneira que o peito arfava sob o vestido de seda. que trabalhara muitas vezes com o criador de abelhas no convento. —. perto dali. Lucy será para todos os efeitos lady Helburn. Elas não molestavam Lucy. — Vocês fazem amor? — insistiu Birdina sem se deixar intimidar pelo silêncio de . por favor. Se Birdina agredi-la. Segurou com força o parapeito do terraço e os raios de sol fizeram o diamante cintilar em seu dedo. — Você deve estar sob o feitiço dessa moça. um homem de sua idade! — Lucy.para casar e nada do que você possa dizer ou pensar vai alterar minha decisão.. vá conversar um pouco com Birdina — pediu Lucas com indolência. Na sexta-feira que vem. — Eu não estou acostumada com esses bichos — queixou-se Birdina com ansiedade. — Eu disse a minha mãe que seria pura perda de tempo vir até aqui e discutir esse assunto com Lucas. Você sabe como são essas coisas.

— Acredito — disse Birdina com o ar pensativo. Sem falar que essa vida será um inferno para você. o cordeirinho sai correndo para perto da mãe. — Eu não gosto desse tipo de conversa — retrucou Lucy com o rosto sério. Uma mulher casada envolveu-o num processo de divórcio e houve um escândalo terrível porque o marido era um diplomata espanhol. — Ela mudou de inflexão. — Veja só como você empalideceu! — disse Birdina. fitando-a atentamente. — Ele é tão fabuloso quanto as pessoas dizem? Na minha opinião.. Você nunca sabe o que se passa na cabeça dele. Lucas contou a verdade a sua mãe. Nós nunca dormimos juntos. ele foi maravilhoso comigo. você fala como se tivesse saído da igreja... — O que você entende por sexy? — perguntou Lucy surpresa.. de sorte que os olhos pareciam muito grandes e verdes no rosto delicado. talvez por ter sangue espanhol nas veias. Você terá obrigação de receber e de freqüentar as pessoas do círculo de amizades de Lucas. Você está com uma aparência cômica com esse vestido longo e esse cabelo muito curto..Lucy. Lucy sentiu um nó na garganta. — Será que ninguém acredita no amor hoje em dia? O amor se tornou um prazer tão barato que qualquer um pode comprá-lo na esquina? — Minha querida.. Sobretudo porque Lucas nunca negara que possuía uma certa perversidade inata. depois desse período de abstinência prolongada. como se uma mão impiedosa a esganasse.. — Não foi por essa razão que Lucas me pediu cm casamento! — Foi por que então? — insistiu Birdina com uma risada. A maldade das palavras de Birdina penetraram fundo no seu coração.. — Quando o lobo aparece no bosque.. Contam que os dois brigaram feio. herdada de seus antepassados. repentinamente pálida.. Lucas é um homem terrivelmente sexy. Isso quer dizer que você deverá . Você vai ser um fracasso como mulher de Lucas. como se fosse um coroinha de igreja! Talvez alguns homens se interessem por seu tipo. Seja como for. Lucy. mas não fiquei sabendo se Lucas confirmou ou não o boato. Lucas é uma criatura imprevisível. mas isso não quer dizer que você possa se tornar uma figura da sociedade. — No fundo. Você não nasceu para levar a vida de uma mulher da sociedade. — Vai ver que ele se arrependeu da vida anterior que levava ou então está reservando você para uma orgia monstro.. Eu acredito que seja verdade. — Não é possível! Lucas tem a reputação de ser irresistível. — É o mesmo que magnetismo pessoal? Quanto a fazer amor. O espanhol foi visto com o braço na tipóia e dizem que Lucas foi o responsável por isso. — Ele já se cansou de todas as formas de divertimento e voltou a se conduzir como um legítimo espanhol! Você é o cordeirinho inocente que ele vai levar à perdição. — Isso não é verdade! — exclamou Lucy com ardor. — Não me diga depois disso que Lucas a levou no seu veleiro apenas para lhe oferecer uns dias de férias! — Pois foi exatamente o que aconteceu — disse Lucy olhando com candura para Birdina. É verdade que Lucas foi desenterrá-la num convento de freiras espanholas? Ele é bem capaz de fazer uma coisa dessas! Dizem que o diabo só ama as pessoas inocentes e que as leva finalmente à perdição..

É pena que Lucas não a escolheu para sua mulher! — Lucas tinha razão — disse Birdina com o rosto vermelho e os lábios trêmulos de raiva. mas possui a violência de um espanhol e há um sangue cruel que corre nas suas veias. procurando ocultar da outra sua ansiedade. — Você não fica atrás de ninguém nas agressões.. E o que você me diz do sangue inglês? A família não agiu com uma crueldade incrível ao esconder do filho que a mãe estava muito mal e que podia morrer de um momento para o outro? Eu entendo que Lucas seja amargo e cruel.. já teve a oportunidade de ver Lucas furioso? Ê um espetáculo muito interessante. especialmente quando ela caiu doente e ninguém lhe falou nada. especialmente quando se unem a adolescentes inexperientes e com corpo de menino. com esse corpo de garoto! Lucy sentiu um tremor lhe percorrer a espinha. A família merece esse tratamento. com um sorriso de desprezo nos lábios. sem um tostão no banco e que não tem a menor condição de dar um herdeiro à família. Por falar nisso. O tecido leve cobria uma criatura volúvel como o vento. fazendo um movimento gracioso com o corpo e o vestido de crepe esvoaçou à brisa da tarde.. sem se deixar intimidar por essa explosão de franqueza. Ele nunca perdoou à família por ter cortado relações com sua mãe. sensuais. — Bem se vê que você está apaixonada por ele! — comentou Birdina com ironia. — Mais cedo ou mais tarde Lucas vai pular a cerca. divertidas. sem saber o que responder. A vida que se estendia a sua frente parecia tão cheia de perigos quanto o mar que batia nas pedras da enseada. — Está claro como o dia o que Lucas pretende fazer com você. — Eu imagino que você gostaria de estar no meu lugar. Esse casamento é a maneira que ele encontrou para ir à desforra. Lucy ouviu o comentário em silêncio. Era como se Birdina a agredisse com setas venenosas que paralisassem sua reação. Ela abriu a bolsa e examinou o rosto num espelhinho. É gostoso passar uns dias a bordo de um veleiro. Ele é bem educado como um lorde inglês. — Você vai ser igualmente compreensiva quando ele tiver uma amante? — perguntou Birdina com um sorriso zombeteiro. tendo sido educada desde menina a insultar com um sorriso no rosto as pessoas que você julga inferiores. — Você diz que Lucas é cruel devido ao sangue espanhol.receber em casa um milhão de pessoas das mais diversas procedências num jantar de cerimônia! Você vai ficar como uma barata tonta. É bom você ficar sabendo disso desde já. Amar para . Ele é um homem vivido e está acostumado a flertar com mulheres inteligentes. Os homens como ele são maridos difíceis. mas é bem diferente ser a mulher de um aristocrata! — Talvez seja — concordou Lucy. Unir-se com uma garota ingênua. O que você vai fazer quando isso acontecer? Você tem alguma idéia? — Eu não creio que Lucas seja tão volúvel quanto vocês pintam — respondeu Lucy com dignidade. belas. Birdina se afastou um passo e olhou para Lucy de alto a baixo.. sem uma gota de sangue azul nas veias. sem saber o que fazer e o que dizer a toda essa gente.

— Que coisa mais romântica! — exclamou Birdina com ar de pouco caso. — Ele me salvou a vida duas vezes — confessou Lucy com simplicidade. — Eu não esperava nenhum consolo de você. sob os pés dos pares que dançavam e pulavam alucinadamente. É natural por isso que ele se sinta orgulhoso de ser seu mestre. Era verdade.Birdina nunca seria o sacrifício de si mesma. desde o momento em que a encontrara no baile à fantasia. caída no chão. — Lucas escolhe seus vestidos? Não é possível! O que ele entende de moda feminina? Os homens devem apenas pagar as contas. mas o vestido de noiva é diferente.. — Eu fui levada para lá bem pequena. Se deixar seu marido decidir tudo desse jeito.. Você é diferente da maior parte das moças que eu conheço. mas são as mulheres que decidem o que querem. Se era assim como Birdina dizia. quando perdi meus pais. encontrar-se no alto de um pedestal. Mudando de assunto. até a noite em que a tempestade desabou sobre a baía. Por falar nisso. eu a desprezaria de todo o coração. — Você se ofende facilmente — disse Birdina com um olhar de benevolência. mas fui educada num convento de freiras na Espanha — confessou Lucy. Você tem muito que aprender. Quer dizer . — Quer dizer então que você pertence a ele de corpo c alma? Você é a fã incondicional que ele necessitava... você vai se ver em maus lençóis. vamos falar abertamente — continuou Birdina diante do silencio prolongado de Lucy. que não era muito adequado para sua idade... — Muito obrigada pelo elogio — disse Lucy com dignidade. muito menos alguém que saiu recentemente de lá. — Eu soube que Lucas a tirou de um convento na Espanha e imagino que ele seja o primeiro homem que você conhece na intimidade. você é espanhola ou inglesa? — Eu sou irlandesa. ser adorado como um deus.. — Essa será uma experiência nova e divertida para Lucas. Lucy. Lucas salvara Lucy do naufrágio em todos os sentidos da palavra. havia pouca chance de seu casamento ser bem sucedido! — Olha.. pensando consigo mesma o que Birdina diria se soubesse toda a verdade. É Lucas quem vai escolher meu vestido. — Não me diga! Eu nunca conheci nenhuma menina educada num convento de freiras espanholas. — Você não me é antipática. fechando o estojinho de pó compacto com um movimento brusco do dedo. O que ele fez para merecer esse culto? Salvou-a de um naufrágio? — Birdina deu um risinho de despeito. mas há alguma coisa nos seus olhos. — Você está brincando! — disse Birdina encarando-a de olhos arregalados. mesclado de amargura. Se você fosse uma simples oportunista. como era para Lucy. na sua maneira de ser que me agrada. Que vestido você vai usar para o casamento? — Não sei ainda. Eu reconheço que Lucas tem um bom gosto impecável para se vestir e imagino que ele escolheu esse vestido que você está usando. Você não sabe que o noivo não deve ver o vestido da noiva antes de encontrá-la no altar? Lucy sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha.

eu não posso vivei sem isso! — Eu podia ter sido uma freira — disse Lucy em voz baixa. com um sorriso sem graça. mas ela achou preferível vocês duas voltarem juntas. Eu adoro as emoções fortes. até perder o fôlego! Ah. Deu um sorriso ao ver os cabelos claros de Lucy que pareciam chamas sob a luz forte do sol. dos fatos que eram apresentados numa linguagem puramente científica. Birdina..então que você é quase uma freira? — Quase — concordou Lucy com um sorriso. — De qualquer maneira. — Eu gostaria tanto de ficar. É estranho e excitante e tem algo de insólito que não queria perder por nada desse mundo! — Sua mãe faz questão absoluta que você volte com ela. sobre o sexo? — Um pouco. Não havia discussão do amor inerente num relacionamento ideal. fria e impessoal. — Se bem que eu nunca tive vocação para a vida religiosa. Birdina fez beicinho de criança. — Lanyon vai até a estação. embora muitas pensionistas fossem casar com rapazes escolhidos pelos pais. No momento estou morando nesta casa com Lucas e é com ele que vou me casar na sexta-feira que vem. Lucas apareceu no alto da escada que levava ao terraço. Nesse momento. se bem que mais simpática e amável depois que abandonou a sua maneira insolente. os olhares que a gente troca com os homens.. Eu sugeri a ela que você ficasse hospedada aqui até o dia do casamento. .. Depois vamos à Paris em lua-de-mel. No fundo. Deve ser horrível você não ter ninguém para abraçar nem para beijar. acenou com a mão ao avistar as duas e aproximou-se lentamente de onde estavam. — Lucy lembrava-se das lições que ouvira. não haverá festa de casamento. eu não suportaria passar uma semana num convento. você é terrivelmente inocente! Lá no convento as freiras falavam sobre a vida conjugal. elas fizeram votos de castidade e não entendem nada de sexo! — comentou Birdina. que elas só ficariam conhecendo na intimidade depois do casamento. — Eu não entendo como uma pessoa pode viver sem amor. — Tudo isso é muito complicado para mim — disse Birdina por fim. Lucas! Nunca fui ao casamento de uma noiva que ia ser freira. espantada com o fato. quero ser mulher de carne e osso e não um anjo de pedra. — Eu fui educada para a vida de castidade e de obediência. Ah. Além disso. Mas tudo isso são coisas do passado. O rosto de Lucy refletia o terror e a beleza estranha de alguém que anda no meio das trevas. — Não é esquisito ouvir as freiras falarem sobre essas coisas? Afinal. apenas uma pequena cerimônia na igreja. se Deus quiser! Birdina encarou-a atentamente. — Ah mamãe é insuportável com suas exigências! – exclamou Birdina com irritação. Sua mãe vai aproveitar a carona e mandou chamá-la. os contatos físicos que deixam a gente toda arrepiada.

. das capas de pele e de lingeries francesas. Lucy? — perguntou Birdina com o rosto triste.. Eu estava convencido de que ela não existia mais. Mudando de assunto. Birdina. percebendo a irônia que havia nas palavras de Lucas. — Ela não sabe nem mesmo o vestido que vai usar no dia do casamento.. . — Pois eu desejo que meu marido gaste rios de dinheiro comigo — disse Birdina com despeito. — Eu fiquei sabendo que você está bancando o Dom Quixote e que a salvou de dois naufrágios: no mar e no convento! — Uma boa ação para compensar as más ações que pratiquei na vida — disse Lucas com um sorriso. — Era isso que você queria. . — Vocês discutiram por causa do casamento? — Entre outras coisas. mas Lucy e eu preferimos nos casar da maneira mais rápida e discreta possível.. mas agora estou vendo que vocês dois combinam bem um com o outro. você terá um casamento esplêndido. você vai acabar encontrando alguém que tenha esses desejos loucos na cabeça. Um dia. como se Lucy desempenhasse um papel secundário no drama do matrimônio. Sua mãe e eu travamos um duelo verbal tão violento que ela proibiu você de ficar hospedada aqui. por favor. quero que ele me estrague com presentes caros. Birdina.. Eu não vou ser importunado constantemente por uma mulher cuja felicidade depende do guarda-roupa. — É natural que mamãe o considere um homem intragável.— Ah. — Ela ficará sabendo quando for a hora — disse Lucas com indolência. — A virgindade é uma jóia tão rara hoje em dia que não quero perdê-la. — Às vezes você diz as coisas de uma maneira que me dá vontade de chorar. menina.. Acho bom você voltar com ela para sossego e tranqüilidade de todos... Birdina? Lucy contou como vai ser nosso casamento? — Mais ou menos — confessou Birdina evasivamente.. Eu não quero irritá-la mais ainda atrasando sua partida. Lucy se sente feliz de calça jeans e camisa esporte. — Deus me livre. Eu quero ser algo especial para meu marido... que me trate como se eu fosse uma coisa rara. Já basta sua mãe e eu termos nos agredido mutuamente. — Não se preocupe. — Ao contrário de você. Lucas. A mulher virtuosa e o marido econômico. Ela está esperando por você na sala. eu tinha pena dela. peça a mamãe para eu ficar! Eu queria tanto assistir ao casamento.. Ê nisso por sinal que está seu encanto particular. Birdina! As lágrimas vão estragar sua pintura. como se fosse a mulher de um pachá. Ela disse que não quer mais saber de mim e me condenou às profundezas do inferno. — Deus te ouça! — disse Birdina com despeito. e não dá a mínima importância às vaidades do nosso mundo.. Vamos inclusive tomar nossa taça de champagne em Paris. com muitos convidados e muita festa. passando a mão pelos cabelos ondulados. — Por que esse desejo repentino. Não se esqueça da vidinha mansa que a espera em Belgrávia. — Pobre Lucy.

Birdina. — Ah. Lucas? — perguntou Lucy. — Mamãe disse que você tem sociedade com o diabo. momentaneamente esquecida de sua boa educação. Muito pelo contrário. Vá com Deus! — Lucas voltou-se para Lucy. Birdina é boazinha. — Eu fiquei ligeiramente chocada. Birdina saiu correndo pela escada acima como se fosse uma ave de penas claras. — Eu admito que ela seja virgem. no entanto. surpresa. — Minha virgem inocente? — repetiu Lucas. antes que sua mãe apareça por aí e diga que estou tentando seduzir sua filha adorada. uma libélula. Felicidades. — Como se fossem uma praga de gafanhotos! Charlotte vai arrumar um belo partido para a filha.. mas elas têm seus momentos de surpreendente beleza. que ela detestava. com a fisionomia espantada. A mãe dela. Com um movimento brusco. que sai do casulo com asas iridescentes e que são facilmente partidas pelos ventos da sorte. .Você diz tudo que lhe passa pela cabeça. Birdina. amar alguém sem o consentimento da família. Esse foi seu crime. que ouvia a conversa em silêncio. que esvoaçou a saia do vestido. — Adeus. mas não é tão inocente quanto você supõe. — Ela tem razão. Lucy. Eu vou dar o fora antes que isso passe para mim! Adeus. foi podada pela família porque viveu publicamente com o homem que gostava e não conseguiu se divorciar do marido. Minha mãe. é uma chata insuportável e espero que você não tenha prestado atenção aos comentários maldosos que ela fez. Cuidado! — Cuidado uma ova! — exclamou Birdina com irritação.. Lucas! Espero que você dê pelo menos um dinheiro trocado à sua virgem inocente para ela mandar um cartão postal de Paris para mim. — Sempre que possível. apoiada no corrimão da escada que levava ao terraço. A vida não é fácil para as libélulas. só isso — confessou Lucy. coitada. Birdina. quanta bobagem você disse. Agora nós vamos nos despedir de você. E eu saí à minha mãe! Adotei o título da família como uma forma de vingança e penso que minha mãe deve estar sorrindo a essa hora no céu ao saber que agi como ela. Divirta-se em Paris. — Tudo de bom para vocês! — exclamou do alto do terraço. — Bem estamos livres das visitas importunas. Lucas! — Você está se parecendo com sua mãe. — Nunca pensei que seus parentes fossem fazer uma visita de surpresa nesse estilo. como se não entendesse o significado das palavras. pelo menos. mas nunca foi encorajada a usar a imaginação para dar maior colorido a sua existência. Birdina ouviu o comentário em silêncio. guria. — Você é um homem terrível. Ela se parece mais com um inseto. voltando-se para Lucy. — Você acredita no céu. — Mamãe tem razão quando diz que a loucura de alguns membros da família é contagiante.

. nina? Se há inferno. em última análise? Alguém tem a resposta certa para isso? Os puritanos são considerados indivíduos virtuosos.. Eu sinto muita simpatia pelos deuses do paganismo. Eram menos severos que os deuses que vieram mais tarde.. surpreso. misto de prazer e de espanto. Você quer experimentar um pouco de tudo. Se você tiver um pesadelo.. — Eu não expliquei bem — corrigiu a tempo. Os olhos dele contemplaram o mar azul cuja superfície prateada brilhava como se milhões de escamas de peixes tivessem sido espalhadas em cima. Lucy sentiu uma reação confusa. tem que haver céu também. se for preciso. sozinha no seu canto. — Eu quero saber se não vou acordá-lo com meus pesadelos. Era isso no fundo que ela representava para Lucas? Uma adolescente disponível que fora encontrada no chão de um salão de baile. Ele estendeu a mão e puxou-a para si. Lucy. A alegria que existe no imenso mar azul ou num copo de vinho? A alegria que está no infinito ou nos olhos de uma mulher? — Lucas deu um sorriso. tudo que lhe passar pela cabeça. muito menos a de Lucy. mas você adora os bailes à fantasia. mas era para evitar que o marulho despertasse recordações tristes em você.— Que remédio. mas matar a alegria é uma coisa tão feia e condenável quanto espetar uma borboleta com um alfinete. pisada pelos pares que dançavam? Com a arrogância . O que é o pecado. os carros-esporte que andam à toda velocidade. — Pelo visto. você me considera um perfeito aventureiro. eu quero estar perto para poder tranqüiliza-la. talvez. Há alguma coisa em você que anseia por uma agitação constante. Lucas começou a assobiar baixinho uma melodia muito conhecida. Se você tiver um pesadelo. Comigo você não precisa sofrer em silêncio. Zombava dela por ter aceito o casamento. e Lucy notou que sua pergunta podia ser mal interpretada. os cassinos onde as pessoas jogam a alma. que não tinha outro sentido a não ser a necessidade passageira de unir duas pessoas por um vínculo reconhecido socialmente por todos. Lucas. — Não seja criança.. zombava do próprio casamento como instituição. foi isso. basta me chamar e eu lhe farei companhia a noite toda.. Eu não creio que você vá se acostumar a viver aqui ou na Espanha. — Daqui a pouco porém voltará ao normal e as ondas baterão com violência nas pedras. Você vai estar por perto? Lucas observou-a. Você vai conseguir dormir com esse barulho? — Acho que sim. com um gesto brusco e inesperado. — A maré está muito baixa — disse em dado momento. — Você não acredita que encontro prazer nas coisas simples? — Durante algum tempo. como se não desse importância à opinião dos outros sobre seu comportamento. Era a marcha nupcial que ele estava assobiando. — Mas você não disse que era melhor eu não dormir no quarto da torre para não ouvir o marulho do mar e me lembrar do naufrágio? Não foi isso que você disse quando nós chegamos? — Sim.

provavelmente sem perceber que Lucy lhe dava tudo que tinha. isolada para sempre da verdadeira vida. Vamos deixar porém meus pecados de lado. embora isso doa às vezes. Você será minha mulher em todos os sentidos.. Um olhar de desprezo fala mais alto que todas as palavras grosseiras que você aprendeu comigo. Ele simplesmente tomou posse dela. porque não convém que sejam contados a uma criatura inocente. Era um mundo fascinante e ela estava deslumbrada com tudo que avistava em seu redor. mas muitas vezes eu não consigo controlar minha irritação. atrás daqueles muros altos. nina. eu me sinto gente. quando o veleiro afundou sob a tempestade. nina. que não tinha nada a ver com desejo nem com amor. — Você não tem curiosidade em saber quanto custaram? . CAPITULO VIII Tomaram café na sala de objetos chineses.. — Muito. elas dirão que você aprendeu a lição comigo. — Pode ser. — Gostou dessas peças? — perguntou ele do sofá. Lucas a transportara inconsciente para o veleiro e. admirando as pinturas e as miniaturas em jade e em marfim. Lucy. Lucy. Nosso café foi interrompido pela chegada de Charlotte e eu vou recuperar o tempo perdido tomando várias xícaras cm seguida. pelo menos. a enseada que se avistava do alto do morro. assumiu sua proteção e propôs casamento. Com você. — Lucas enlaçou-a pela cintura. Ela agora era dele.que lhe era natural. Mesmo no convento era considerada de natureza rebelde e a irmã dizia sempre que estava condenada ao inferno se não aprendesse a ser humilde e submissa. — Ele deu uma risadinha que tinha uma inflexão sarcástica ao extremo. — Eu daria tudo para ouvir os comentários que as pessoas vão fazer sobre nosso casamento. — Assim é a vida. — Pelo visto a profecia se realizou plenamente! Você fugiu do convento para viver o inferno comigo. — Meu coração se partiria de qualquer maneira se eu ficasse no convento. — Vamos voltar para a sala. Ao mesmo tempo. vão dizer. salvou-a das ondas. Um prazer violento seguido de uma dor violenta. como a casa. O que você vai dizer quando as pessoas a chamarem de mulher do diabo? — Eu mandarei as pessoas para o inferno. acompanhando com a ponta do dedo as figuras entalhadas na madeira. e a chance é que ele parta o coração da noiva. O diabo se casou. Os humildes e os submissos são as vítimas da sociedade. — Salvar você do naufrágio foi a única coisa decente que eu fiz na vida. Seria a última coisa que eu desejaria que acontecesse com você. Lucas sentou-se no sofá enquanto Lucy circulava pela peça. simplesmente! — Se você falar isso. São deslumbrantes. o jardim com seus canteiros de azaléias. tinha consciência de que Lucas seguia cada um dos seus movimentos de olhos entreabertos.

e eu prefiro termos específicos de referência. Era um prazer que tinha sua origem em diversas outras sensações. — Ah. por exemplo. como se quisesse dizer que a aliança de noivado era tão intangível quanto a roda de fumaça azulada. — Eu sei disso. nisso como em tudo o mais. — Eu nunca possuí nada. Quem sabe Lucas preferia que ela tivesse um corpo mais cheio e usasse vestidos leves e esvoaçantes como os de Birdina? — Você gosta das mulheres que se pintam? — perguntou Lucy em dado momento. eu sugiro que mude de idéia. O que você queria que eu dissesse? Que você devia se pintar como uma atriz de cinema? — Não. o que não é seu caso. Por que você pergunta? Você está pensando em pintar-se como Birdina? Nesse caso.. Afinal. a não ser meus próprios sentimentos — disse Lucy ajoelhada no chão. porém ela seria a mulher de Lucas e ele a veria numa perspectiva diferente. — Gosto de tocar esses objetos. — Ele soprou a fumaça na sua direção fazendo um círculo perfeito no ar. Em breve. nos raios de sol que atravessavam as cortinas de voai e que desenhavam figuras no tapete e nas pernas dela. — Ainda bem. No momento.. Mas não se esqueça que envio mensalmente quantias importantes aos pobres e você não deve ter remorso por possuir essas obras de arte exóticas. rompendo o silêncio que reinava na sala. — Você está querendo me agredir com essa indireta.. de jeito nenhum. você vai casar comigo. Birdina tem o tipo físico que combina com a maquilagem carregada. você tem amigos? Eu pensei que o diabo só tivesse súditos. — Gosto se usam a pintura com moderação. de pernas compridas e ossos à flor da pele. desde um canteiro de tulipas até um local de veraneio na praia. você não costuma perdoar as ofensas. você é uma adolescente graciosa. — O termo atraente se aplica praticamente a tudo. nina? — Não. — Eu aprecio sua reação. Falei sem pensar. — Muito obrigada pelo que me toca! — Você só quer receber elogios. Há tanta gente passando fome no mundo que parece criminoso adquirir peças de jade e de porcelana em vez de dar alimentos aos pobres.Lucy sorriu consigo mesma enquanto sentia o aroma do café misturado com o da cigarrilha. Um dia talvez você tenha alguma coisa de bruxa na sua figura e eu vou pedir a um pintor amigo meu para fazer seu retrato. . Mas não gosto do exagero.. nina? As críticas também são construtivas. mas você podia fingir que eu sou atraente. Essas peças foram feitas para serem apreciadas pelas pessoas de bom gosto. às vezes. — Pelo que eu sei. nina. diante da mesa onde estavam as obras de arte. Ajoelhou-se ao lado da mesa chinesa e passou os dedos pelos relevos com um prazer maior do que podia expressar com palavras. nina. mas não desejo saber quanto custaram. inundando-a de um calor delicioso.

revelando impaciência. — Venha. Ao colocar o objeto chinês em cima da mesa. mas agora o rosto e a voz estavam ligeiramente alterados. das coisas. levando as mãos à cabeça. nina. debruçando-se sobre a mesa e segurando uma peça de porcelana chinesa. Venha até aqui para eu ver. que desastre! — exclamou Lucy alarmada. Você foi agredida pelas duas e quer ter certeza que não sobrou nenhum veneno na ferida. nina. Estou muito confortável nessa posição para me levantar. — Ele estalou os dedos. ainda bem que não aconteceu nada. — Ah. Não seja implicante. — Você zomba de tudo — murmurou Lucy sem jeito. — Se quebrou. eu não tenho graça nem elegância para freqüentar a sociedade. — Eu estou entendendo onde você quer chegar. Eu quero vê-la de perto. Lucy sentiu o calor do seu corpo e cedeu imediatamente ao desejo de entregar-se aos seus . havia uma certa indolência em suas maneiras. Você acabou de dizer que tenho pernas compridas e ossos de fora e a verdade pura e simples é que você está disposto a casar comigo para se vingar da família. — Quer dizer então que Charlotte e Birdina a deixaram de mau humor? É por isso que estou recebendo as sobras? — Era preciso estar com uma armadura para não sentir as flechadas que as duas dispararam contra mim! Sua tia tem razão. — Das pessoas.. você pode colar os cacos. — Não foi nada — disse Lucas com a voz serena. Ela abaixou-se finalmente e apanhou o objeto de porcelana em cima do tapete. os cílios compridos encobrindo os olhos verdes. — Ou colado — disse Lucas estendendo a mão e puxando-a para si. faça o que eu pedi. você age assim porque julga que tudo pode ser substituído facilmente. Ela lançou um olhar rebeldia na direção de Lucas. Lucy sentiu os nervos tensos e um ligeiro tremor nos dedos. Está inteirinho! — Então ponha-o em cima da mesa antes que aconteça outro desastre e eu tenha que me levantar do sofá para apanhar um calmante para você. — Por que eu deveria obedecer sua ordem? — Os súditos não questionam as ordens do chefe — disse Lucas apagando a cigarrilha no cinzeiro que estava perto do sofá. — Nunca mais será o mesmo — comentou Lucy desconsolada.— Quem disse? — Eu adivinhei. — Ponha isso aí e venha aqui. para atender ao pedido de Lucas. dos objetos preciosos. — Que coisa mais linda! Tão delicada quanto um casulo de seda.. ele escorregou na superfície lisa e caiu no chão.. No fundo.. A princípio. imaginando que a peça se partira em mil pedaços. — Ah. — Venha cá! — Eu estou bem aqui — disse Lucy.

braços. Lucas a irritava profundamente mas ela o amava mesmo assim. Brigava com ele, discutia, ficava vermelha de raiva, mas nunca saía vencedora desses atritos. Era impossível atingi-lo seriamente. Ele era diabo e ídolo ao mesmo tempo. Podia fazê-la sorrir, chorar, sentir-se bem ou mal, dependendo apenas de sua vontade no momento. Ela encarou-o no fundo dos olhos e desejou ser uma bruxa de lábios vermelhos, conhecedora de mil artifícios femininos, para fazê-lo sofrer como um cão! — Eu não estou tão confortável aqui como antes — disse, quando Lucas a deitou no sofá ao seu lado. — Azar o seu — disse Lucas, puxando-a mais para perto de si, apertando o corpo de adolescente nos braços, estreitando-a com força, a tal ponto que ela sentiu falta de ar. Nesse momento, alguém bateu de leve na porta. — Pode entrar — disse Lucas, sem se levantar do sofá. Lanyon apareceu e informou que tinha ido à estação e trazido as encomendas de Londres. — Ótimo — disse Lucas abraçado com Lucy. — Leve-as para o quarto de Lucy. Nós vamos subir daqui a pouco para abri-las. — Pois não, patrão. Posso levar a bandeja de café? Lucas assentiu com a cabeça. Lanyon aproximou-se dos dois e observou com o canto dos olhos o abraço íntimo que trocavam. — Minha tia e sua filha voltaram bem? — perguntou Lucas, a fim de desfazer o embaraço que Lucy sentia com a presença do criado. — Voltaram muito bem. Estão a caminho de Londres neste momento. — Graças a Deus! — Deseja mais alguma coisa? — Por favor, Lanyon, diga a Tamsin que nós vamos jantar em casa e que eu gostaria que ela abrisse uma garrafa de Chateau d'Or. — Pois não. Lanyon fechou a porta da sala atrás de si com o rosto impassível. Lucy pensou que ele devia ter visto muitas vezes o patrão com uma mulher nos braços e que não se surpreendia mais com isso. — Por que você ficou envergonhada no momento em que Lanyon entrou? — perguntou Lucas. — Você não gosta que os outros a vejam abraçada comigo? — Eu não estou acostumada com isso — explicou Lucy, sem jeito. — Eu sei disso. Mas como você estava um pouco nervosa, eu queria fazê-la esquecer a visita de Charlotte. Um homem tem duas maneiras de distrair a mulher. Levá-la a uma loja para fazer compras ou abraçá-la com ternura. Eu fui bem-sucedido, querida?

— Maravilhosamente. Você é um especialista em psicologia feminina. — Nem tanto assim... — Lucas puxou-a com força para si e beijou-a nos lábios com brutalidade. — Existe um fio muito tênue entre nós dois, Lucy, como se numa outra vida nós tivemos uma experiência em comum. Eu não sei o que possa ser... Você acredita na reencarnação? — Nunca pensei nisso — disse Lucy, apanhada de surpresa com a pergunta. — É uma idéia fascinante imaginar que há milhares de anos tivemos uma outra vida. Seu espírito se sente ligado ao meu, nina? Era o corpo dela que parecia estar fortemente ligado ao dele, como se fizesse parte de sua própria pele. — Mais ou menos — respondeu sem jeito. — Você gostou de me conhecer nesta existência, ou me considera um homem muito ruim, que preferia não ter conhecido? — Não sei. De uma coisa no entanto eu tenho certeza... Eu não gostaria de tê-lo como inimigo. Birdina me disse que você quebrou numa briga o braço de um homem. — Ah, quer dizer que Birdina tentou assustá-la com essas lendas a meu respeito? Ela foi bem-sucedida, pelo menos? — Não, não foi. Eu sei que você pode ser cruel. Está escrito no seu rosto. Vi isso quando sua tia apareceu de repente. Eu sempre pensei que os parentes eram um remédio contra a solidão. — Alguns parentes são, realmente. Mas não é o nosso caso. Somos uma família arrogante, temperamental, sem contar que eu tenho o defeito de ser espanhol, ainda por cima. Os espanhóis são extremos em tudo. Ou são santos ou são uns demônios, e você sabe perfeitamente que eu não sou nenhum santo. — Para mim, você é apenas Lucas, um homem que não me obriga a fazer o que eu não gosto. Lucy pensou no comentário de Birdina ao se despedir. Ela dissera que Lucas provocava às vezes o choro das pessoas que estavam na sua companhia. Impulsivamente, passou os braços em volta do seu pescoço beijou-o na boca, com a intenção de afastar-se em seguida, mas Lucas a segurou com força e mudou de posição no sofá. Agora ele estava por cima e Lucy deitada sobre as almofadas, abandonada à força superior dele. Ela teve a impressão de que estavam de novo no meio das ondas, sob a tempestade, abraçados, juntos para sempre. O choque ocorreu quando Lucas se levantou bruscamente e deixou-a sozinha no sofá. Ele ficou parado no meio da sala, encarando-a fixamente. — Não deixe um outro homem fazer isso com você, Lucy! Eu quase perdi a cabeça. Acho preferível você sentar-se no sofá e puxar o vestido sobre os joelhos. Lucy fez como ele sugeriu e percebeu que estava trêmula diante de seu olhar sombrio. Era como se Lucas a tivesse levado ao paraíso unicamente para atirá-la de volta à terra, sem se importar com sua queda dolorosa. Os olhos dos dois se encontraram um instante, com ressentimento. Ela afastou a cabeça e procurou

ocultar que estava prestes a explodir numa crise de choro. Lucas adivinhou porém seu estado de ânimo. — Pelo amor de Deus, Lucy, não vá chorar por causa disso! — exclamou com impaciência. — Todos nós temos que aprender as coisas um dia e hoje você aprendeu como pode ser perigoso oferecer-se a um homem. É tão perigoso quanto nadar no meio da correnteza. Você é arrastada para longe da praia e não consegue mais voltar... a menos que alguém corra em seu auxílio. Os homens perdem facilmente a cabeça. Não os tente, por isso, com seus beijos. — Eu nunca mais vou beijá-lo... nunca mais. — As lágrimas picavam seus olhos e sua garganta estava seca. Ela queria fugir para longe, esconder-se e não ter que falar com esse homem cruel que a observava atentamente. — Você é odioso! — exclamou sem se conter mais tempo. — No fundo, você é como todos os outros. Eu vivo de sua caridade e você se aproveita de mim quando fica com raiva por algum motivo. Você não sente nenhuma afeição por mim, nem um pouquinho, e eu não quero mais viver aqui. Ela fez menção de arrancar a aliança da mão e deu um grito de dor quando Lucas a segurou com força pelo pulso. — É bom você me odiar, Lucy! Só assim você não se apega a mim. Está entendendo agora? — Não! — exclamou Lucy, lutando para soltar-se de sua mão. — Eu pensei que as pessoas se casassem por amor. Eu queria gostar de você, Lucas, mas você só me quer como uma espécie de sombra na sua vida. Alguém que se preste aos seus caprichos, que sorri agradecida com os presentes que você dá e com a comida que come em sua mesa. Eu me sinto como um boneco de papel que a gente vê. nas vitrines das lojas. — Pois eu gostaria que você fosse de fato um boneco! — disse Lucas em tom de zombaria. — Você fala demais, Lucy. Não gostou das roupas que lhe dei? — São muito bonitas — disse Lucy com indiferença. — Como você disse a Birdina, eu me sinto feliz quando estou de jeans e de blusa esporte. Eu nunca tive coisas finas na vida... Essa aliança, por exemplo, é cara demais para meu gosto. É natural que sua tia tenha olhado espantada para mim. Onde já se viu uma órfã de pai e de mãe com uma aliança de diamante no dedo? — Chega, Lucy, você já desabafou bastante! — O que você quer? Eu não posso parar de pensar e me tornar um boneco de papel que não sente nem chora. — Ela estava trêmula de raiva mas sabia que o amava apesar de tudo. Lucas possuía seu coração contra sua vontade. Ele tinha controle de sua vida, por mais que ela lutasse para se libertar. — Ah, chega dessa conversa! — disse Lucas com impaciência. — Eu não posso deixá-la sozinha no mundo e permitir que você dê seu coração faminto de amor ao primeiro homem que cruzar seu caminho. Eu também não posso passar a vida inteira com você sendo meu ajudante de navegação. Só há uma solução, portanto, e é a gente se casar, sobretudo porque as pessoas sabem que você vive comigo. Venha aqui. Vamos ver o vestido de noiva que comprei para você.

. Segundo. porque o costureiro é excelente. Lucy observou-o em silêncio enquanto Lucas abria os embrulhos e levantava as tampas das caixas. Lucas atravessou o quarto circular com passos rápidos e foi ao outro. — Eu não estou de cara amarrada. com vista para o mar. Lucas não podia entender que Lucy desejava retribuir uma parcela do que recebia dele e a única coisa que ela tinha para dar era sua própria pessoa. — Birdina disse que o noivo não deve ver o vestido da noiva antes do casamento. — Primeiro. onde havia uma cama de dossel coberta com uma colcha de rendas.. — Em suma. eu não sei escolher as roupas que as mulheres elegantes usam.Lucy queria recusar mas não estava com disposição para discutir com Lucas. mas como uma criatura viva. em direção ao quarto de dormir que ficava no alto da torre. dotada de vontade própria. especialmente em alguém que passou a metade da vida . O casamento dos dois seria um fracasso se Lucas não aprendesse a tratá-la como uma pessoa humana. — Bobagens! — comentou Lucas com um gesto expressivo. observando-a com uma expressão divertida nos olhos. Afinal. teria agradado imensamente a ela. — Mandei fazer o vestido em Londres por duas razões — disse Lucas apoiado no pilar da cama de dossel. — Essa não é a primeira nem a última vez que brigamos e eu não suporto uma mulher de cara amarrada. Pertencer a ele de corpo e alma.. Entraram no aposento que. pegado. um sofá forrado de veludo grená e alguns móveis antigos decorados com peixes e flores. porque você não está acostumada a tratar com essa gente e eles são insuportavelmente esnobes. em forma de alcova. Você tem medo que eu escolha o estilo errado e que todos vejam que você está se casando com uma caipira. ela não era mais uma criança que esquecia tudo ao ver uma caixa de brinquedos. — Minha querida. Estava magoada com a briga recente e não tinha a menor vontade de ver os presentes que ele comprara. Eu achava que isso era um milagre. mas seu desejo era jogar todas aquelas coisas na sua cara. a menos que estejam realmente com febre! Gostou desse presente? É isso que as mulheres chamam de slip! Lucy sabia que Lucas estava querendo distrair sua atenção com os presentes. Seguiu-o em silêncio pela escada acima. As coisas que tinham dito um ao outro penetraram profundamente nela. — É um mistério para mim a razão pela qual as mulheres andam sempre num estado permanente de febre. Era isso que ela desejava. Tinha janelas fundas. E era verdade. Uma das coisas que eu gostava quando estávamos no veleiro era que você me divertia com sua simplicidade e não se importava a mínima com os problemas habituais das mulheres. — Não se faça de rogada — disse Lucas com impaciência. em outra circunstância. chamando sua atenção para o que estava dentro. Ela hesitou a princípio. não seja irritante. Levantou a tampa de uma caixa e retirou do interior uma peça de lingerie. Em cima da cama enorme estavam os embrulhos e caixas de papelão que Lanyon trouxera da estação..

lavando louça e esfregando o chão. O que aconteceu com você de lá para cá? Você perdeu sua naturalidade? — Talvez eu esteja um pouco nervosa. Mas isso não era verdade. O amor tomara conta de sua pessoa. Desejava correr para ele, atirar-se nos seus braços e sentir que seu amor era correspondido. A desconfiança porém impedia-a de agir assim, sobretudo depois que Lucas rejeitou seus sentimentos. — Não deixa de ser um grande passo que estamos dando — comentou Lucas com um sorriso de benevolência. — Sem falar que você é muito moça, muito inexperiente. A despeito de tudo isso, você não tem curiosidade de ver seu vestido de noiva? Quando a voz dele se tornou mais afetuosa e a zombaria desapareceu do seu rosto, Lucy sentiu desejo de ver a caixa onde o vestido estava embrulhado em papel de seda. Com as mãos trêmulas, afastou para o lado o papel macio e deu uma exclamação de surpresa quando avistou o vestido. Sem dizer uma palavra, retirou-o da caixa e sentiu um arrepio quando o tecido delicado roçou sua pele. O modelo era muito simples, mas ela pressentiu instintivamente que estava correto para seu tipo físico e adorou o tom ligeiramente esverdeado que combinava com seus olhos. — Foi você quem escolheu essa cor? Lucas assentiu com a cabeça, estendendo a mão para apalpar o tecido muito fino, quase transparente. — Você gostou do feitio? — Gostei muito. Tudo é maravilhoso, a cor, o feitio, o modelo e eu gostaria de ser mais elegante para não decepcioná-lo. — Você é elegante a seu modo, nina — disse Lucas com uma expressão afetuosa. — Veja o resto do enxoval. Enquanto isso eu vou dar um telefonema. Depois que Lucas saiu do quarto, Lucy sentou-se na cama no meio de caixas onde estavam os presentes mais lindos que ganhara na vida. Era assim que Cinderela se sentiu quando a fada sacudiu a varinha mágica que a transformou de uma empregadinha doméstica na jovem bela e sedutora que conquistou o coração do príncipe. Lucy não podia deixar de sorrir diante de tudo aquilo e sua depressão anterior se desfez lentamente. Sentiu no rosto o contato do tecido macio de seda, esverdeado como a água do mar. Não adiantava negar, ela estava presa de corpo e alma ao encanto enfeitiçador de Lucas, como se fosse uma mariposa atraída pela Luz. Seu tormento interior era sutil, mas podia ser suportado e não apenas porque Lucas lhe dera todas as coisas deslumbrantes que uma jovem deseja possuir. Ela gostava dele independentemente de tudo isso. Mesmo quando sentia ódio por ele, o amor era sempre maior. Mirou-se no espelho e percebeu que estava com os nervos tensos quando ouviu as batidas do relógio na parede. Era o final da tarde. Logo estaria na hora do jantar. O céu lá fora estava dourado com os últimos raios do sol poente, as

sombras muito compridas estendiam-se sobre o jardim, o brilho avermelhado do sol tingia as vidraças. Apanhou outra caixa e retirou a tampa. O ar estava impregnado com o perfume das flores e podia-se ouvir o ruído distante das ondas quebrando nas pedras da enseada. Apoiou-se no parapeito da janela e deu um suspiro fundo, respirando o ar puro da tarde. A brisa marinha trazia consigo o sabor acre da maresia. O perfume e os ruídos do mar levaram-na de volta ao veleiro e às noites passadas no deck sob o céu estrelado. Lucy não poderia jamais esquecer aqueles dias a bordo. Agora o iate estava encalhado nos recifes, sendo lentamente destruído pelas ondas. Lucas dissera na viagem de carro que não ia autorizar o recolhimento dos destroços. Preferia que o belo veleiro fosse enterrado no mar, como o bom marinheiro que fora em vida. Ela velejaria no iate novo ou ficaria tomando conta da casa? Fosse qual fosse a decisão de Lucas, ela a aceitaria como parte do acordo. Com o passar do tempo, acabaria amando a casa antiga no meio do bosque, onde a mãe de Lucas encontrara os anos de felicidade que não conhecera na Espanha. Como a casa era diferente do convento! Ali não havia regras severas que deviam ser obedecidas à risca, não havia os sinos que tocavam para as orações da manhã e da tarde, nem os muros altos que isolavam as meninas do contato de homens como Lucas. Apesar de tudo isso, ela conseguira fugir do convento e estava ali agora, protegida pela presença de Lucas. Faltavam apenas alguns dias para se tornar sua esposa — a mulher do diabo, como ele dissera. Lucy lembrou-se que sonhava com um casamento bem diferente. Desejava desposar um ideal e não apenas ser a companheira de um homem por quem sentia uma forte atração física. Lucy perdera a fé? A irmã dissera isso algumas vezes quando estava irritada com seu comportamento, seja porque Lucy conversava com o jardineiro sem autorização ou porque mastigava as cenouras cruas, como um coelho. Deu um suspiro ao se lembrar dessa época. Não fora feita para vestir o hábito cinza das freiras e para seguir o caminho da virtude. Arriscara tudo para fugir do convento e faria isso de novo, se algum terrível contratempo a separasse de Lucas e ela voltasse novamente para trás daqueles muros altos. "Eu saí a minha mãe", — pensou consigo. — "Eu arrisco tudo para ter o que quero. Se com isso me tornei uma mulher sem fé é porque não tinha realmente fé. Afastou-se da janela e notou que o quarto estava escuro. Acendeu a luz perto da porta e piscou no momento em que a lâmpada forte ofuscou sua vista. A cama de dossel, com a colcha bordada à mão, estava pronta para recebê-la... ela tomava tanto espaço no quarto quanto quatro camas estreitas das que tinham no convento. Havia, além disso, cadeiras de braços forradas de veludo, com motivos de flores, vidrinhos de perfume em cima da penteadeira e o assoalho estava coberto com um tapete estampado, com motivos de rosas e de folhas enroladas. — Está tudo do seu agrado? — perguntou uma voz feminina perto da porta.

Lucy voltou-se surpresa e avistou uma mulher pequena parecida com uma monja espanhola. Estava vestida de preto e tinha os cabelos presos no alto da cabeça, com um coque. O rosto envelhecido tinha uma expressão de tristeza profunda. Parecia com certas mulheres que, após terem perdido o marido ou o filho num desastre, passam a usar preto em sinal de luto o resto da vida e que andam na sombra para não receber nenhum raio de sol. Retiram-se em suas casas e vivem num isolamento completo, como se a tristeza houvesse alterado para sempre suas existências. CAPITULO IX — O quarto é muito confortável — respondeu Lucy com um certo nervosismo, enquanto os olhos negros a examinavam atentamente, fazendo um julgamento silencioso de sua pessoa, dos cabelos ruivos aos pés descalços. Lucy não se habituava a usar sapatos de salto alto. — Eu sou Tamsin. Tomo conta da casa quando meu patrão está viajando. Como ele disse que você é muito moça, achei que gostaria da roupa de cama azul e rosa. — Gostei muito, mas acho que desarrumei o quarto com minhas coisas. — Eu arrumo tudo num minuto — disse Tamsin aproximando-se da cama e apanhando as caixas e os embrulhos que estavam espalhados em cima. Avistou as peças de lingerie que estavam fora das caixas e pegou-as com um sorriso. — Meu patrão é um homem muito generoso. — Eu fico até sem jeito — disse Lucy com hesitação, imaginando que a empregada a julgava uma dessas mulheres que extorquem presentes dos homens. — Todas as minhas roupas se perderam no naufrágio e Lucas me deu outro guarda-roupa. — Estou vendo — comentou Tamsin arrumando as peças que estavam espalhadas em cima da cama. Ela suspeitava naturalmente que Lucy nunca tinha possuído uma lingerie tão fina quanto aquela, comprada na loja mais cara de Londres, nem aqueles vestidos deslumbrantes, modelos exclusivos de grandes costureiros franceses, sem falar nos sapatos italianos costurados à mão. O que Tamsin podia pensar de uma moça que aparecera de repente, vinda ninguém sabe de onde, que seria a dona daquela casa magnífica, esposa de um lorde inglês? — Eu espero que a gente se dê bem uma com a outra, Tamsin. Como você deve ter percebido, eu não estou habituada com esse tipo de vida. — Meu patrão explicou que você foi educada num convento na Espanha. Há muitos anos eu também morei na Espanha. Fui para lá com minha patroa, a mãe do meu patrão atual, quando a família marcou seu casamento com um jovem espanhol, Don Beltran de Mayo y Juanluis. Mais tarde, quando minha patroa voltou para cá, eu a acompanhei. Eu segurei seu filho no colo.

Ela achava que o fato de viver lá seria uma compensação para outras coisas que lhe faziam falta. somente o casal sofre com o fato. Tamsin achava provavelmente que Lucy não era a mulher ideal para Lucas e via a história se repetir mais uma vez na família. — Vou ser a esposa que ele deseja. A dedicação estendeu-se mais tarde ao filho e ninguém. Apesar disso. Todos os bens materiais não foram suficientes para torná-la feliz na companhia do homem de quem ela não gostava. Mas isso não aconteceu. Eu estava no quarto dela. — Ela tinha cabelos dourados como mel. que perdurara mesmo depois de sua morte. Ele desejava um casamento em que não houvesse afeto nem separações dramáticas. Lucas afastou-se dela com tanta raiva que Lucy ficou com receio de enfrentá-lo. podia encontrar uma devoção igual aos olhos de Tamsin. mas era isso que devia ter feito. Ela não queria criar problemas com a família levando consigo o filho pequeno. olhos castanhos. porque isso termina sempre em tristeza e infelicidade para todos. eu não me importaria se Lucas fosse um pescador que ganhasse a . O menino teria sido mais feliz na companhia da mãe. muito menos uma moça de fora como Lucy. estava com um vestido do qual eu me lembro até hoje. devia aceitar uma situação em que o afeto fora completamente banido. na véspera de sua viagem para a Espanha. — Você pensa que eu quero casar com Lucas para possuir tudo isso? — perguntou Lucy fazendo um gesto em direção às caixas que estavam espalhadas pelo chão. — Eu vou fazer o possível para fazer Lucas feliz — disse após um momento. Meu patrão atual permaneceu na Espanha depois que sua mãe saiu de lá. cor de areia. Lucy. Pouco depois ela se desiludiu completamente de seu casamento. A empregada antiga dedicava à patroa um verdadeiro culto. Não foi um casamento feliz. escovando seus cabelos compridos. no entanto. Ela dera vazão aos sentimentos antigos que tinham vindo à tona depois que Lucas lhe falara a respeito de seu futuro casamento. cor de amêndoas. com uma túnica lilás e ela usava uma pequena tiara de diamantes na cabeça. As dúvidas e os temores de Lucy voltaram a incomodá-la quando pensou na cena que ocorrera horas antes na sala-de-estar. Tamsin mordeu o lábio com um tique nervoso. Era de seda. — Minha patroa era uma das mulheres mais bonitas de Londres na ocasião do seu casamento — prosseguiu Tamsin com um certo orgulho. mas depois outras pessoas se envolvem nas discussões. Ele fora educado por um pai severo que não dava carinho ao filho e aprendeu pelo abandono da mãe que não podia confiar no amor. A história da empregada era o resumo do que ouvira contar anteriormente sobre o casamento da mãe de Lucas.— Ah. Uma fotografia dela com esse vestido apareceu numa revista francesa e foi assim que Don Beltran a conheceu e desejou casar-se com ela. — Foi isso que minha patroa disse quando casou com Don Beltran. inclusive os filhos. No dia de sua apresentação ao palácio. sim? — comentou Lucy surpresa. No início. — Na verdade. no entanto. tinha necessidade de amor há tanto tempo que não desejava outra coisa senão receber e dar toda a afeição que guardava no coração. Duas pessoas que não combinam de temperamento não deviam casar.

A raiva recalcada dera lugar a uma atitude de fria resignação. Tamsin. mas a verdade é que ele nunca vai se adaptar à vida de família. esfregando as mãos com nervosismo. — Como todos vocês são injustos! — exclamou Lucy com impaciência. Muitas coisas começam bem e terminam mal. todos diziam que eu era sua amante.vida vendendo camarões. é necessário que haja semelhança entre o casal. — Os jornalistas podem ter dito isso. Eu não sou uma mulher ambiciosa. talvez seja a mistura de sangue espanhol e inglês. Eu não creio que você seja a mulher ideal para o meu patrão. — Lucas é livre para fazer o que bem entender. Todos acham que meu casamento está condenado ao fracasso antes mesmo de me conhecerem. — Só Deus sabe o que pode acontecer. — Eu não pretendo fazê-lo mudar de vida — negou Lucy com ardor. porque você não interfere na sua maneira de ser. Todos os anos ele passa alguns dias aqui e depois retorna à vida movimentada de antes. — Alguém tem que corrigir essa situação e eu estou disposta a tentar — disse Lucy. Lucy estremeceu ao ouvir essas palavras. — Você é muito moça. — Se você fosse minha filha. não? Que tipo eu sou? Quando nós estávamos no veleiro. apanhou o vestido verde de seda que Lucy ia vestir no dia do casamento e pendurou-o no cabide. Tamsin. . como se Lucas merecesse uma mulher que vive apenas para o prazer do momento! — Para o casamento ser harmonioso. sem falar nos anos de infelicidade que conheceu quando era menino. — Se eu fosse uma mulher frívola e vaidosa. — Algumas mulheres tentaram fazer meu patrão feliz. — Mas eu conheço meu coração! Eu não sou uma mulher oportunista que está atrás de um marido rico. mas eu sei que meu patrão não se casaria com você se não tivesse sérias razões para isso. — Ah. Feito isso. separado da mãe e educado com a idéia de que ela estava morta. com o coração duro como pedra. muito menos uma moça inexperiente e jovem como você. Ninguém pode modificar isso. que pareciam tão cruéis e verdadeiras. — Talvez seja por isso que ele a escolheu para mulher. Tamsin passou a mão sobre a colcha rendada para alisar as dobras. vocês todos aprovariam o casamento. Não é justo você pensar isso de mim. Meu patrão é um homem generoso mas é muito esquisito. Levou em seguida as peças de lingerie para o armário e arrumou-as nas gavetas. Não sabe ainda o que quer da vida. eu a aconselharia a encontrar um outro homem ou a levar uma outra vida. Ele não suporta a tranqüilidade por muito tempo. Tamsin voltou-se do guarda-roupa onde havia pendurado o vestido de noiva.

Seguiu-se um silêncio pesado após o comentário de Tamsin. A água estava quente e gostosa. disposição e não se intimidava com a perspectiva de trabalhar para ganhar a vida. porque o aquecedor estava ligado. e não havia nada no mundo mais valioso do que manter a cabeça erguida nas adversidades. ela estava com tanto frio que as pernas tremiam incontrolavelmente. Tamsin despediu-se de Lucy com essas palavras pouco animadoras. Eu também pensei que seria feliz quando tive meu primeiro filho. Que esperança ela podia ter. Eram duas criaturas de pontos diferentes da terra. . nos quais não havia um único brilho de alegria. O mesmo frio que sentia às vezes no convento. — Ah. eu adoro torta de morangos — disse Lucy. É uma fascinação momentânea que desaparece quando menos se espera. As mulheres belas da sociedade tentaram conquistálo com seus encantos mundanos. Eu aprendi a desprezar a felicidade. Tomaria um banho demorado de imersão para acalmar os nervos tensos e relaxar os músculos doloridos. Mas a gente não deve contar com a felicidade. com seus ruídos sinistros. A peça estava aquecida. inacessíveis e invulneráveis. mas agora ela estava sozinha no quarto e a aliança saiu facilmente do dedo. sem vida. Pode-se tê-la num minuto e vir a perdê-la no instante seguinte. conservaria seu amor próprio intacto. cujo brilho agora parecia uma coisa gelada. Tinha saúde. Lucy? — perguntou Tamsin observando-a com os olhos parados. Lucas não deixara que ela retirasse a aliança do dedo quando discutiram na sala. Ela saíra do convento na esperança de fugir desse frio interior e ocorreu-lhe que devia fugir novamente dessa outra casa. dos picos cobertos de neve que o sol não derretia. a fim de ser feliz com o homem que ela amava. tendo inclusive bancos de areias onde várias pessoas perderam a vida. Colocou a aliança ao lado da cama e dirigiu-se ao banheiro que fazia parte do quarto. Além do mais. Se fizesse isso. mas ela sentia um frio interior que nada podia aquecer. Fria como o diamante que tinha no dedo. a paisagem noturna do interior era assustadora. inexperiente e ingênua como era? Tamsin tinha razão. — Minha patroa foi forçada a abandonar o filho pequeno com o pai. energia. mas não tiveram sucesso. antes de se encontrar novamente com Lucas. aberto para a vida. O dele era semelhante aos picos cobertos de neve. Não podia sair de casa antes da manhã seguinte porque a região em volta era muito perigosa. Devia procurar um outro tipo de vida e esquecer-se de Lucas. Ela mudou repentinamente de atitude e perguntou com um sorriso nos lábios: — O que você gostaria de comer na sobremesa? Nós fazemos aqui uma torta muito gostosa de morangos com creme de leite. quando o vento do inverno soprava das montanhas. Ela tinha um coração sensível. cintilante como uma estrela cadente vista no céu da meianoite. As rosas do tapete pareciam indiferentes ao sofrimento dela. Ah. — Mas será que você não podia dizer alguma coisa boa sobre nosso casamento? Você conheceu a mãe de Lucas na intimidade! Você não deseja que o filho dela seja feliz no casamento? — O que é a felicidade.

Ela não era a mulher ideal para Lucas. mas com uma brutalidade cínica. grandes e felpudas. Lucy. a não ser sua pessoa. gostaria de achar que tudo estava certo e que terminaria bem para ela e para Lucas! Mergulhada até o pescoço na água morna. como dissera Tamsin momentos antes. provocante. Ah. que anunciara o amor que sentia por Lucas.. Estava toda arrepiada e tiritando de frio no momento em que saiu da banheira. Ah.. Lucy deu um suspiro ao sair da banheira. Birdina e Tamsin confirmaram essa impressão. a carne estava colada ao tecido. Se ao menos tivesse um corpo onduloso. que "pareciam ter sido passadas "recentemente. Não podia negar a evidência. O amor que era ao mesmo tempo uma bênção e uma maldição. Após passar a esponja no sabonete. retirando os restos de espuma. Não era passiva nem submissa e fora por isso que dera tanto trabalho às freiras do convento. a dormir entre os lençóis de cambraia previamente aquecidos. como era proibido igualmente mirar-se languidamente diante do espelho. havia toalhas coloridas. Desconhecia praticamente tudo do mundo que Lucas frequentava e não tinha nada para lhe dar. O luxo do banheiro era algo estranho e desconhecido para ela. começou a sentir as pálpebras pesadas de sono e olhou distraidamente para os azulejos azuis e brancos que revestiam as paredes do banheiro. não fora com ternura nem com paixão.Despiu o vestido e a lingerie de seda que parecia tão luxuosa perto das roupas grosseiras que usava no convento. As freiras não podiam imaginar seu paradeiro atual. no entanto. Passou os dedos pela calcinha minúscula e estremeceu ao contato. a comer pratos requintados com talheres especiais. Por que tinha que se atormentar com esses pensamentos? Talvez Charlotte tivesse razão. Nos cabides. Esticou a perna ensaboada e pensou na reação da irmã Imaculata se a visse deitada naquela banheira com sais de banho perfumados. A vida era muito mais fácil para as pessoas que não questionavam a existência e que aceitavam as coisas calmamente. muito menos que tinha sido levada para o veleiro de Lucas após ser encontrada sem sentidos num salão de baile. Ao pisar no chão molhado. não seria nunca uma pessoa desse tipo.. Fora a tempestade em alto mar que precipitara os acontecimentos. sensual. Quando Lucas a beijara. Aproveitou para tomar um banho de chuveiro e tremeu de frio no momento em que a água gelada bateu no seu corpo. começou a esfregar os braços e as pernas para afastar a sensação desagradável de frio. não adiantava ter esses pensamentos! Deitou-se ao comprido na banheira e respingou água pelo piso de azulejo. Mergulharia de olhos fechados no mundo de prazeres que Lucas lhe oferecia. Se fosse ambiciosa... não teria os temores e as dúvidas que sentia no momento. Lucy sentiu um arrepio de frio ao se lembrar das palavras da mulher toda de preto e afundou o corpo na água quente. como as pessoas imaginavam que era. como se quisesse adverti-la que ser possuída não era o mesmo que ser amada. escorregou e . Agora no entanto ela se observava longamente diante do espelho embaçado do banheiro e pensou no comentário de Lucas a respeito de suas pernas compridas e dos ossos de fora. num contato excitante e proibido.. aprenderia a usar as coisas caras.

Passou a mão nos cabelos úmidos com um gesto de angústia e desviou a cabeça para não encontrar seus olhos. a dor foi tão forte que o suor escorreu pelo rosto dela. Não tenho forças para me levantar. — Eu vou apertar o local para ver se tem uma fratura — disse. — Talvez você tenha apenas se machucado de leve.bateu com o cotovelo na borda da banheira. dos ossos do corpo. Agüente firme. No momento em que Lucas apertou o osso dolorido. — Tome esse gole de conhaque — disse Lucas passando o braço em volta de seu pescoço para ajudá-la a levantar-se da cama. Naquela ocasião ela se fazia passar por menino. Ela deitou-se ao comprido e pensou que era a noiva mais desastrada do mundo. — Passe os braços em volta do meu pescoço — disse Lucas. segurando o braço dolorido nas mãos. não encontraria nenhum trabalho enquanto estivesse com o braço quebrado ou gessado. Lucas estava passando pelo corredor no momento exato em que ela caiu no chão e deu o grito de dor. nina. Eu volto num minuto. — Essa região está muito sensível. Estava sentada no chão. das regiões sensíveis. Eu vou apanhar um balde com gelo e um cálice de conhaque. Deu um grito alto e contorceu-se com a dor violenta que sentiu. lado. e como manter a cabeça fria numa emergência. Está doendo terrivelmente. mas não há nenhum osso fraturado. quando a porta do banheiro se abriu e Lucas apareceu com a fisionomia preocupada. como se Lucas pudesse ser enganado tão facilmente! Ele sabia tudo a respeito das mulheres. Um calafrio a percorreu de alto a baixo quando Lucas afastou os cabelos úmidos da testa. Ele era tão adulto que podia olhar para a nudez dela como se fosse uma criança brincando . — Você vai se sentir melhor. — O que aconteceu. Lucas embrulhou-a numa toalha que estava pendurada no cabide e levou-a no colo para o quarto. nina? — perguntou com a voz ansiosa ajoelhando-se ao seu. Por felicidade. Uma lágrima rolou dos olhos quando apalpou de novo a região dolorida. encarando-a com o rosto sério. mas é bom ter certeza.. Onde você se machucou desse jeito? — Eu bati com o cotovelo na borda da banheira. os olhos rasos de lágrimas.. Foi somente quando ele a deitou na cama e esfregou a toalha no corpo molhado que Lucy se deu conta de que estava completamente nua. A bebida ardeu na garganta como fogo e ela lembrou-se da noite no veleiro em que provara pela primeira vez na vida um gole de conhaque francês. Lucy não fechara a porta à chave. Fique deitada. Felizmente não tinha fraturado nenhum osso! Seria terrivelmente desagradável fugir de casa com o braço na tipóia! Além disso. Lucas segurou o braço esquerdo que estava com uma mancha roxa e apalpou de leve a região dolorida com a ponta dos dedos. — Você está branca como cera e toda arrepiada. — Vou levá-la para o quarto.

Não vai dar certo. Você sempre aparece no momento oportuno. está lembrada? — Ah. — Ah. desajeitada. — Eu não fazia idéia que era ela! Pensei que a tristeza dela estivesse relacionada com sua mãe. Depois de tomar o conhaque e de ajeitar-se na cama. Tamsin tem razão. . porque o beijo que recebeu no braço machucado parecia mais a carícia de um amante do que o consolo de um amigo. Lucy sentiu-se melhor. Já imaginou que desastre seria se estivesse fungando e espirrando na sexta-feira? Lucy voltou a cabeça e encarou-o nos olhos. deve ter sido terrível perder o filho desse jeito! Que sofrimento não foi para ela! Uma ferida que não cicatriza nunca. — Pois é.. chata. — Muito obrigada. Foi culpa minha. Não sei o que seria de mim sem você. — Vou lhe fazer uma massagem para você não se resfriar. nina — disse Lucas indo ao banheiro apanhar uma outra toalha seca. — Você sempre pode contar comigo. nina. que horror! — Lucy entendeu o motivo da expressão terrível de sofrimento que estava estampada na face sombria da empregada.nua na praia. — O banho pelo menos estava bom? — perguntou Lucas afastando um cacho de cabelos úmidos da vista. Ela contou que foi sua criada durante muitos anos e que segurou você no colo.. Lucas. Tamsin é a mulher do meu caseiro e a mãe do menino que desapareceu nos bancos de areia. quer dizer que Tamsin encheu sua cabeça de bobagens? Minha querida... ingênua e não sei como você me suporta na sua casa. Lucas parou de esfregar a toalha no seu corpo e levantou a cabeça com a fisionomia surpresa. Lucas levantou o cotovelo machucado e inclinou a cabeça para beijá-lo com ternura. — Ah. o que você pode querer de uma mulher que perdeu o filho único de um momento para o outro. — Você vai ter manchas de diversas cores pelo corpo.. como eu lhe contei.. Essa conversa está começando a ficar cansativa. Nós dois não temos nada em comum e não devemos nos casar. você não acha? — Eu sou uma criatura cansativa. Como foi que escorregou? — Eu respinguei um pouco d'água no chão quando entrei na banheira. da forma mais trágica desse mundo? Ela ainda se lembra dos gritos que deu quando procurou o filho e encontrou apenas o balde e a pá de brinquedo jogados na areia. Desculpe todo esse trabalho que lhe dei... é? Você vai falar de novo nesse assunto? Eu pensei que já fosse um ponto pacífico. — Eu não vou mais me casar com você. — Está melhor agora? — Um pouquinho. Ah. — explicou Lucy com um tremor. Estava perfeitamente calma agora e esse era o momento oportuno para abrir-se com Lucas.

— O que você decide? Vamos nos casar sexta-feira? — Eu me sinto como uma borboleta espetada num alfinete — murmurou Lucy. Explique para mim. — Eu gostaria de poder lhe dar todas as coisas que você está acostumado a encontrar nas outras mulheres. Eu não digo isso por minha causa. — Eu tive casos com diversas mulheres.— Estava uma delícia. O que podia lhe dar estava visível nos seus olhos e ela já experimentara uma vez a dor da rejeição. — Que pensamento antiquado. Você ainda é muito sensível às críticas dos outros para se divertir com essas coisas. com a fisionomia resignada. terminaria com um harém! — Não foi isso que eu disse. No fundo eu acho que vou ser um motivo de piada para seus amigos quando me casar com você. . — É impossível que você não tenha gostado de outra mulher! — disse Lucy. Segurou a toalha pelas pontas e puxou-a para si. É só isso. Eu gostaria de compreender seu problema. — Que outras mulheres? — perguntou Lucas com um sorriso irônico. Lucy ouviu o comentário em silêncio. pelo amor de Deus! Somente com o casamento eu posso guardá-la comigo sem provocar um escândalo na família. Mas acontece que eu não sou a pessoa certa para casar com você. Eu tive muitas coisas na vida. para brigar. Lucas. — O que você gostaria de me dar? Ela abaixou o rosto sem jeito. Você está me dando tudo isso gratuitamente e não tenho nada para retribuir. — Você acha que o homem ama todas as mulheres com quem faz amor? Nesse caso. minha coisa. nina! Eu não entendo por que você sente remorso de desfrutar as coisas agradáveis da vida. Você está levando minhas palavras na brincadeira. querida. enquanto levantava o queixo dela com a mão direita e segurava a toalha com a esquerda. só minha! Você é meu objeto. recolocando-a no lugar. — você é minha. para apanhar! Você é minha espuma do mar. Não tem nada a ver com amor. Tudo nesta casa é maravilhoso e eu gostaria de não sentir remorso de estar aqui. A toalha escorregou dos seus dedos e ela sentiu o movimento que ele fez. mas por sua causa'. porque adoro provocar escândalos. Lucy. — A opinião dos meus amigos não interessa — disse Lucas com impaciência. branca como a inocência e verde como o mel silvestre. mas nunca tive uma mulher que fosse só minha e não vou abrir mão de você por nada desse mundo. — Você não me solta por mais que eu me debata. — Não sei — disse Lucy pensativamente. — Eu não ganhei essas coisas com meu trabalho. minha amante para receber presentes. Não vamos mais falar nesse assunto. encarando-o nos olhos. mas isso é bem diferente.

— É um presente seu — disse Lucy. que tinha olhos cor de jade e a pele mais branca que a espuma do mar. nina. — Pois é. nina. coberto de seda. Eu a segurei com força para você não fugir de mim. e escolheu esse perfume para você. mas com maior disposição para enfrentar a realidade que a aguardava. porque era meu prato favorito em criança. — É presente seu também. O dinner-jacket caía como uma luva no corpo musculoso e ele parecia muito à vontade no traje de cerimônia.— Isso mesmo. onde se avistavam pássaros voando lado a lado na paisagem de linhas delicadas. — Ah. — Esse vestido fica muito bem em você. uma figura esguia e frágil sobre o fundo sombrio da tapeçaria pendurada na parede do corredor. Ela não estava preparada ainda para os aspectos formais da nova residência. porque o salão de jantar era muito solene para seu gosto. Eu não sei distinguir um perfume francês de uma água de colônia comum. Lucas a aguardava na sala chinesa ao lado de um biombo de vime. — Que bom você ter descido para me fazer companhia! — disse. porque ele me custou os olhos da cara! — Você é realmente terrível — disse Lucy com uma risada. Só me resta agüentar as conseqüências. como você está cheirosa! Muito sedutor esse perfume. deixou para trás a segurança dos santos e correu de braços abertos para o diabo. — Quando você pulou o muro do convento.. O amor a vencera finalmente e ela desceu a escada para se encontrar com Lucas.... — Eu expliquei nosso caso ao gerente da perfumaria. Lucas enfiou a mão no . Pôs um vestido de mangas compridas que ocultava as manchas roxas do braço. Espero que você não sinta remorso de usá-lo. — Ele examinou-a com atenção. com ar de entendido. com abotoaduras de ébano no punho branco da camisa de peito rendado. Escovou os cabelos e colocou a aliança na mão direita. apreciativamente. — Tamsin fez um jantar muito especial para comemorar nossa volta. como você fugiu do convento. A estátua brilhante de Kwan Yin estava na passagem iluminada que levava ao hall e Lucy desejou que o jantar fosse servido na sala pequena. Lucy dormiu uma hora e acordou ligeiramente dolorida. Vamos ter suflê de legumes à parisiense. O gerente balançou a cabeça. Ela fechou os olhos quando Lucas a deitou na cama e cobriu seu corpo com a colcha de seda. onde estavam os objetos da arte chinesa. Ele sorriu quando avistou Lucy e lhe estendeu a mão com um gesto de carinho. para um anjo de pedra! Agora agüente as conseqüências. — Lucas deu uma risada divertida de homem que está habituado a ter seus desejos satisfeitos. Ele saiu do quarto após apagar a luz ao lado da porta. segurando-a pelo braço. Disse que você era uma adolescente parecida com uma figura de Ticiano. Lucas estava vestido a rigor. fazendo um esforço para não recuar quando Lucas se inclinou e cheirou sua pele.

Ela gostaria de não ter aprendido no convento que a humildade é uma virtude e o amor das coisas mundanas um pecado. mas havia uma certa verdade em suas palavras. Lucas estava brincando naturalmente e dizia isso unicamente para implicar com ela. — O jantar vai sair num minuto. eu não sei distinguir entre pedras verdadeiras e pedras de imitação. um salão muito bonito mas ligeiramente intimidante com seus lustres de cristal e móveis pesados de madeiras escuras.. — Você acha que eu daria a minha mulher uma jóia falsa? Pelo amor de Deus. Ela estava tensa por isso quando entraram na sala-de-jantar. — Ainda bem que você gostou disso pelo menos.. Lucy. não? Combina com o vestido. — Ponha-o aqui — disse Lucas espetando o broche em cima do seu coração. eu posso dá-lo a uma das mulheres da minha coleção. — As paredes são revestidas com as madeiras provenientes de um navio sueco que naufragou há muitos anos atrás no litoral. — Muito obrigada pelo broche. Lucy compreendeu naquele momento que ia aprender finalmente as etiquetas sociais numa mansão que seguia o protocolo da nobreza. como você tem coragem de me dar um presente caro como esse? — Minha querida. Eu estou morto de fome. Era frágil como um botão verdadeiro e as pedras estavam montadas num suporte que balançava quando se tocava com o dedo. Lucy balançou a cabeça em silêncio. A sexta-feira não chegara ainda e o motivo do casamento continuava sendo um mistério para Lucy. — Esse broche certamente custou uma fortuna! — disse Lucy sem conter sua admiração. Você gostou do broche? Se você não gostou. Use-o com naturalidade. Você é minha dádiva do céu. uma mulher verdadeira não olha o custo das coisas. Acho que é o ar marinho que abre o apetite — disse Lucas. conduzindo-a pelo braço em direção ao salão imponente de jantar. Lucas. sejam vestidos ou jóias. — Bonito. você não está mais vivendo de caridade no convento e os anjos não vão atirar setas de fogo porque eu lhe dou um presente de noivado. como se fosse algo a que você está habituada. com folhas de pequenas esmeraldas. — Esta sala é muito interessante — observou Lucas..bolso e retirou do interior uma caixinha de jóias e abriu-a na sua frente. Afinal. A mesa estava iluminada com um candelabro de prata e os pratos de porcelana chinesa tinham motivos de pássaros e de flores.. É a jóia mais linda que já ganhei... — Ele é muito lindo. afastando uma das cadeiras de espaldar alto para Lucy sentar. Não se esqueça que eu sinto um prazer especial em lhe dar coisas bonitas. com uma carga de sândalo e de cedro do Líbano. Lucy avistou deslumbrada um broche de diamantes em forma de flor. mas eu não queria que você fizesse extra-vagâncias desse tipo comigo. Lucas. A mesa e as cadeiras são de . — Ah.

embora ela sorrisse no instante em que foi retratada. muito animados. Depois da sobremesa. com um vestido marrom que combinava com a cor dos olhos. quando se deparou com todas as preciosidades que a mãe havia colecionado no decorrer dos anos. ervilhas e batatinhas miúdas. Meus sentimentos no momento são um misto de ternura e de amargura. A salada de aspargo da entrada foi acompanhada por um frango ao curry. sem problemas sérios. — Eu posso imaginar o que ela sentiu quando ouvia as críticas da família. — Ela fez a única coisa possível. Provavelmente nunca se perdoou por ter deixado o filho com o pai. — Você foi criada pelas freiras e eu recebi a educação severa de um pai que não perdia nunca a oportunidade de criticar minha mãe. Para todos os efeitos. jeitosa e acolhedora. se bem que estava um pouco fria no momento por ter ficado fechada muito tempo. O outro era de uma mulher de meia-idade. nina. ela era a mulher adúltera que merecia ser escarnecida no meio da rua. com cebolas e cogumelos ensopados. Num deles via-se uma jovem de cabelos dourados e de olhos brilhantes. admirando embevecida o retrato da mulher que morara tantos anos naquela casa. que entrou na casa pela primeira vez depois de grande. Aliás. Levantou a tampa e retirou o pano verde de cima. com um vestido estampado e uma pequena coroa de diamantes na cabeça. olhos que tinham uma certa tristeza. Lucas atravessou a sala e dirigiu-se ao piano de cauda que estava escondido numa alcova atrás de uma cortina. nós dois temos isso em comum. mas não a culpo mais por isso. onde havia dois retratos a óleo de sua mãe. Lucas contou a história da casa durante o jantar delicioso servido por Lanyon e o copeiro. Eu não posso esquecer os anos de solidão que vivi longe dela. Lucas convidou Lucy para conhecer a pequena sala de música. Aquela mansão na Inglaterra era bem diferente da casa de estilo árabe em que morava na Espanha. Fui privado durante muitos anos do amor que a criança e o adolescente necessitam para crescerem normalmente. Após um momento de silêncio. Lucy comeu com apetite e notou que as inflexões estrangeiras eram mais freqüentes quando Lucas recordava seu passado. após ter perdido sua beleza. Lucy ouviu o comentário em silêncio.carvalho e os talheres de prata pertenceram ao capitão que navegou com a frota de Drake. O destino quis que ela não conhecesse a velhice. Sentou-se em seguida no banquinho e correu os dedos sobre as teclas brancas e . Lucas sentou-se na extremidade da mesa e seu sorriso era o de um beduíno que havia seqüestrado uma jovem indefesa no deserto. onde o sol era sempre quente e as leis que governavam o casamento eram tão severas quanto na época da rainha Vitória. As crianças crescem e adquirem energia. como se esquecesse momentaneamente de sua personalidade de nobre inglês e voltasse a ser o menino criado na Espanha. — Sua mãe era muito bonita — disse Lucy com admiração. mas um casamento errado não endireita. como era o costume na antiguidade.

voltando em seguida ao encontro do mar. de sorte que o peito estava parcialmente descoberto. como castigo por alguma coisa que tinha feito. sonhou que estava presa na cela solitária do convento. coberta da cabeça aos pés por um manto. uma peça que ele próprio compôs. — Acorde. O vulto permaneceu ali em silêncio enquanto Lucy sentia um frio que penetrava até os ossos. ao tomarem chá na sala chinesa.. Rolou de um lado para o outro da cama. aquela música simbolizava a mãe que perdera há muitos anos. No momento em que deitou no catre duro de madeira. Ele me ensinou a tocar piano e eu sempre gostei muito de uma canção chamada A Pomba Branca. tirando do instrumento uma melodia delicada de uma outra época. . puxou os lençóis com arrepios de frio e se mexeu tanto que a colcha rendada caiu no chão. Lucy custou a dormir aquela noite no quarto da torre que dava para o mar. Seja devido ao vinho que tomou no jantar ou à doce melancolia da música. o vulto sombrio começou a mexer-se. Ficou acordada muito tempo na escuridão.. Em dado momento. Lucy prestou atenção à beleza insinuante da música e observou em silêncio a face morena concentrada no teclado do piano. estaremos bebendo champagne em Paris. Aquela era a freira que fora enterrada viva muitos e muitos anos atrás. a essa hora. com ou sem amor. Lucy compreendeu naquele momento que não podia deixá-lo nunca. com o robe de chambre passado frouxamente em volta do corpo. ouvindo as ondas quebrarem nas pedras da enseada. Pouco mais tarde. — Meu único consolo quando adolescente foi aprender música com um professor alemão. que sua presença na casa era indispensável. não? — murmurou Lucas ao terminar a canção. Lá fora o céu estava escuro e coberto de estrelas. seu coração estava batendo alucinadamente e sentia a artéria que pulsava no pescoço. A pobre mulher tinha amado um homem e fora castigada por seu crime..pretas. e que era dele para sempre. — Se Deus quiser — disse Lucy com um sorriso triste. A cortina pesada de veludo encobria os ruídos do mar e do vento que soprava nas pradarias desertas. Para Lucas. Lucas comentou com uma certa inflexão de melancolia: — Na semana que vem. Lucy tornou a gritar quando sentiu ser sacudida com força pelos ombros. Ela deu um grito de susto. Lucas tocou a canção com a maestria de quem a conhecia de cor. Lucy! O que foi? Ela despertou sobressaltada. De repente. O terror estava estampado nos olhos quando avistou Lucas inclinado sobre a cama. atirou para trás o capuz que cobria a cabeça e Lucy percebeu com horror que os dedos das mãos estavam partidos e que não havia olhos nas órbitas escancaradas. lavando a superfície irregular das rochas. Seu sono porém foi agitado. Havia porém uma outra pessoa na cela. Em dado momento. Era um ruído regular e monótono como o da pulsação e teria sido repousante em outras circunstâncias. uma figura sombria escondida num canto.. — Bonita.

— Ele retirou o robe de chambre. com a voz macia como veludo. — Durma sossegada. Inclinou-se para apanhá-lo e mostrou-o em . Eu vou fingir que você é o urso com que costumava dormir quando era criança. aninhando-se nos seus braços. estava sozinha na cama. Vou apanhar a colcha que está caída no chão e endireitar os lençóis na cama. — Ah. O terror passou pouco a pouco. Foi somente quando se preparava para sair que a empregada avistou um objeto de couro em cima do tapete claro. deitou-se ao lado dela e abraçou-a com ternura. Agora não tem mais perigo. Os cílios compridos tremeram em cima dos ombros dele. Ele não precisou explicar que o urso de pelúcia desapareceu de sua vida juntamente com sua mãe e Lucy não se importou com o fato de ser um substituto materno. pelo contrário. bem como o sentimento do certo e do errado. — Estou. O travesseiro ao lado não tinha mais a marca funda de uma cabeça e o lençol estava arrumado em volta do seu corpo. por favor! — Eu não vou deixá-la. Não me trate como se eu fosse um bebê — murmurou Lucy. Lucas. Tamsin não ficou sabendo. quando trouxe seu café na cama. Espere um minuto. nina. — Foi a freira embuçada que me assustou. — Eu não quero ver de novo aquela mulher! Ela estava com o rosto lívido e tremia como uma criança nos seus braços. Passou o braço em volta do seu pescoço e. — Eu não estava sonhando com o mar — disse Lucy com um tremor. — Mas agora passou. Deu um suspiro. Eu estou aqui com você. com um murmúrio inarticulado. Ao acordar na manhã seguinte. com os olhos pesados. puxou-o para junto de si. — Eu não sou mais criança. Ela não tinha olhos e os dedos da mão estavam quebrados. e mergulhou no sono profundo. Lucas. Lucy sabia apenas que estava com Lucas e que ele a defendia dos sonhos assustadores da noite.— Eu sabia que você ia ter um pesadelo nesta torre! Daqui se ouve o marulho quebrando na praia. nina. — Não me deixe sozinha — suplicou Lucy. — Que bom você ter vindo. que Lucas dormira aquela noite no seu quarto. por que foram deixar você num convento de freiras! Você é muito sensível e impressionável para conviver nesse ambiente. abraçandose nele. — Está melhor agora? — perguntou ele. Eles o tiraram de mim quando eu cresci. — Não me deixe. e você? Não estou incomodando? — Não.

Era a cigarreira de Lucas que caíra do seu bolso na noite anterior.silêncio para Lucy. criando sombras fugidias e misteriosas. Lucas tivera uma boa idéia ao escolher aquele pequeno hotel para passarem a lua-de-mel. a paisagem encantadora de Paris era docemente melancólica. Sorriu ao se lembrar do incidente. com o rosto impassível. está se sentindo bem depois do seu primeiro vôo? — Muito bem — disse Lucy com um sorriso. Debruçou-se sobre o parapeito de ferro e viu que os postes de luz acendiam-se lentamente ao longo do cais. limpo e bem cuidado. dirigido por um escocês que residia há alguns anos em Paris e que vivia das rendas de seu pequeno hotel exclusivo. Lucas segurou em sua mão e roçou os lábios na aliança de ouro. depois porque havia uma atmosfera familiar que agradava imediatamente. Ao entardecer. Primeiro porque não encontrariam nenhum conhecido dele. em direção ao carro que os aguardava para levar ao aeroporto. debaixo da chuva. — Quer que a devolva ao meu patrão? — perguntou Tamsin. — Então. — Que idéia de Tamsin de colocar rosas vermelhas no buquê da noiva! Você não disse que queria somente margaridas? . — Seria um favor. CAPÍTULO X As árvores estavam floridas ao longo do rio Sena e uma neblina azulada flutuava sobre as águas. Ela voltou a cabeça quando a porta do quarto abriu. Um fotógrafo disparou um flash no momento em que saíram na porta da igreja e Lucy voltou o rosto espantado para a objetiva. Lucy observou-a sair do quarto e fechar a porta atrás de si. mesmo que tivesse dormido com Lucas da maneira mais inocente do mundo. sem ser luxuoso e sofisticado demais. Felizmente não chovia em Paris. Não era a pose tradicional dos recém-casados de mãos dadas diante da igreja. Fora até a recepção conversar com o dono do hotel e entrou no quarto com um sorriso enigmático nos lábios. A fotografia de casamento pelo menos era original. Não houve um raio de sol para alegrar a cerimônia religiosa na pequenina igreja onde se casaram e somente alguns raros curiosos viram os dois saírem correndo da igreja. Lucas estava de volta. Tamsin. Lucy estava debruçada no balcão do Hotel Torquillstone. como no momento em que saíram de Londres. Não fazia mal se Tamsin pensasse mal dela. Era seu segredo ou seu tormento pessoal saber que Lucas não sentia vontade de fazer amor com ela. O hotel era confortável.

— Eu estou feliz! No íntimo. — Ela descobriu que dormimos na mesma cama e concluiu que tínhamos feito amor — explicou Lucy voltando o rosto para a paisagem que se estendia a seus pés. — Contanto que você seja feliz comigo. Eu não assimilei tudo isso com naturalidade. que Lucas a amasse. mesmo quando estamos a sós. pensou Lucy. — Se você não estiver cansada. podemos dar uma volta hoje à noite. Y — Prometo fazer sua vontade na primeira oportunidade — disse Lucas com um sorriso. mas sobrou mesmo assim um clima inalterável de magia. — Eu gosto muito dessa parte de Paris.. Todos os momentos. Eu nunca estive em Paris antes com alguém como você. — Por que não? — perguntou Lucas franzindo a testa. — Eu tenho a impressão de que vou adorar essa estada aqui. O cozinheiro prepara umas panquecas maravilhosas na hora. divertida. após um intervalo de silêncio. Vamos dar uma volta amanhã para conhecer os arredores? Quero ver tudo e aproveitar todos os minutos. — Eu sei disso. É que não estou acostumada ainda com todas essas novidades. — Onde vamos hoje à noite? — perguntou Lucy com animação. Você podia abandonar um pouco de sua maneira cerimoniosa dos parentes espanhóis. uma página em branco à espera de ser preenchida. — Por que você está com esse ar pensativo? Não gostou da minha sugestão? Podemos ir a outro lugar. Sobretudo com o fato de estar casada. Talvez sejam seus cabelos negros e a maneira impecável como você se veste. somos marido e mulher. para não se lembrar que Lucas não gostava dela da maneira como um marido amava normalmente sua mulher. — Não. Queria ser sua mulher de verdade e não apenas uma companhia disponível. — Lucas examinou-a atentamente. — Vamos jantar numa boate onde a comida e a música são excelentes.. não é isso. uma camisa de seda de um tom mais claro e uma gravata estampada. Somente então seria feliz.. Você estaria com melhor disposição se o sol .... Muita coisa mudou em Paris ultimamente. de ser sua mulher para todos os efeitos. para todos os efeitos. mas me sinto sempre um pouco intimidada diante de você. nina. Ele estava vestido com um terno marrom-escuro de listas finas. com quem Lucas passeava pelas ruas da cidade.. É como se estivesse sonhando com a cerimônia que nos uniu na igreja. — Aproveite então para se sentir mais à vontade na minha companhia. ela só desejava uma coisa. — Foi uma pena ter chovido.. porém. Você vai ver a cidade com olhos novos e eu vou aproveitar para recordar minhas primeiras impressões de muitos anos atrás. Talvez eu me sentisse mais desinibida na sua companhia. como você disse. Lembre-se que. Ela pensou que eu não era mais virgem. risonha.— Eu achei que não valia a pena brigar por causa disso. se você quiser.

vai ser maravilhoso ter uma casa permanente para morar! Eu estava apavorada com a idéia de ficar sozinha naquela casa enorme. — Viu só? Eu falei em sorte e nós caímos no chão.. no íntimo. Ele. Primeiro foi minha mãe. Ela não procura transformá-lo numa criatura perfeita ou no ideal dos seus sonhos. como é o costume. apesar das rosas vermelhas como gotas de sangue que levava na mão. Felizmente não me machuquei desta vez. Não há coisa pior que as mulheres que pretendem modificar a vida ou salvar a alma dos maridos.. Como estava escuro. Há uma tradição nos latinos segundo a qual as flores de cores vivas são dadas às mulheres de vida criticável. tropeçou na cadeira que estava perto da cama e caiu no chão abraçado com Lucy. admitia que se Lucas fosse um pecador. Você não se machucou? — Não. Você é tão leve que se machuca com qualquer coisa. — Pelo contrário. O segredo do casamento está na mulher ser tolerante com os caprichos do marido. — Você está aprendendo depressa.. — Você está falando sério? Ah. Que idéia de Tamsin! — Ela não fez de propósito. nina. Meu administrador na Espanha é um homem de toda confiança e não preciso me preocupar. enquanto as flores de cores claras às mulheres virtuosas. porém. ela o preferia aos santos que conhecera no convento. a minha também está. — Vamos para dentro — disse Lucas enlaçando-a pela cintura e levantando-a no colo.. pelo menos. E por isso mesmo merece toda sua afeição.. — Que importância tem a opinião dos vizinhos? — Muito obrigado pela sua lealdade — disse Lucas com um sorriso.. Os vizinhos diriam horrores de mim. Eu não queria que a situação se repetisse. Minha alma está condenada.houvesse alegrado a cerimônia. agora é você! — Que importância isso tem? Nós não vamos passar muito tempo na velha casa. Estou meio cansado de viajar. Lucy falou de brincadeira mas. Lucas atravessou a porta da sacada. — Você gostaria que eu fosse uma mulher forte e mandona? . — Eu acho que ela queria agredi-la de uma maneira sutil. Eu pretendo residir a maior parte do ano lá.. Ficaram um instante deitados no chão.. — Quando entramos no hotel eu me esqueci de carregá-la nos braços. você estava muito bonita com o vestido verde de musseline. — Ainda bem. Dizem que isso dá sorte. não foi nada. Você não pode querer que uma mulher de luto sinta alegria com o casamento dos outros. não exibia a severidade dos outros e aceitava de bom ânimo as fraquezas humanas. — Você está sonhando! Imagine se a deixaria sozinha naquele casarão. rindo às gargalhadas com o incidente. De qualquer maneira. amparando-a na queda com seu corpo musculoso. nina. inclusive que eu tinha me cansado de você. e não há ninguém que possa salvá-la! — Nesse caso. querida.

— Coitadinho de você! — Pois é. Havia muitas promessas de céu e de inferno na companhia de Lucas.— Não. — Não está na hora da gente se vestir? — Você está ansiosa para conhecer a cidade? — Lucas levantou-se com agilidade e escovou os joelhos da calça. Um dia eu vou deixar de ser a adolescente engraçada que o diverte. se pintam e se penteiam da mesma maneira? Sua graça está em ser diferente. Levantou-se do chão e acendeu a luz do quarto. vamos. — Só por um milagre — disse Lucy passando a mão desconsoladamente pelos cabelos curtos. como se eu fosse um bezerro sem pai nem mãe. Além do mais. Os outros . — Eu posso tentar. Meu pai assustava os meninos com sua carranca gelada. — Eu queria ter uma peruca para esconder meus cabelos medonhos. o medo lhe deu a força e a coragem para afastá-lo de seus braços. A única diversão que eu tinha eram as priminhas que apareciam lá em casa nos aniversários. Somente porque você colocou um anel no meu dedo não é motivo para me arrastar pelo nariz. mas eu gostaria que isso levasse bastante tempo.. uma adolescente de pernas compridas e ossos de fora. Lucy. Lucas inclinou o rosto como se fosse beijá-la. Eu nunca tive um amigo quando era menino. Ela podia suportar melhor a situação se mantivesse uma certa distância entre os dois. Para que você quer se parecer com Birdina e com milhares de outras mulheres que se vestem. — Socos e beijos? — É. A claridade repentina adiou o momento perigoso. — Você está me chamando de machista? — Talvez.. socos e beijos.. detestaria. Eu adoro sua fragilidade. — Você não ficaria bem de cabelos compridos. Você vai se cansar de mim quando isso acontecer? — Não. coitado de mim. meu corpo são coisas minhas. — Até que seria engraçado arrastá-la pelo nariz com uma argola. Meus cabelos. — Você lembra daquela discussão que tivemos no veleiro? Você ameaçou responder às minhas agressões com outras agressões. — É justo que eu devolva o que você me der na mesma moeda. eu gosto de você como você é. Pobre menino rico! — Eu serei qualquer coisa que você quiser.. meu rosto.. — Então. Por mim você seria sempre assim.. Ao mesmo tempo. — Isso é típico da arrogância masculina. mas a natureza tem sua vontade própria. Lucy sentiu o desejo violento de ser possuída. Eu quero vê-la mais bonita que nunca essa noite.

— Para a vida toda. Lucy sentira frio no interior da igreja e somente a mão de Lucas parecia quente no momento em que colocou a aliança no seu dedo. Faça minha vontade. Era preferível fazer-lhe a vontade nas pequenas coisas. — Já deve estar seco a essa hora e algumas gotas de chuva não fazem mal à seda legítima. do órgão que tocava uma cantata solene de Bach. Estavam ocupando a maior suíte do hotel que consistia numa sala-de-estar. A voz de Lucas estava firme e segura. O quarto de Lucy tinha papel de parede cor-de-rosa e paredes brancas. iriam beber champagne e dançar na boate. as dobras lisas como se tivessem sido passadas a ferro. estava a imagem de Nossa Senhora. Por trás dos ombros do padre. — Para sempre — murmurou Lucy consigo. — Ele mudou de tom. Não é uma ordem. Lucas apertou com tanta força sua mão que a aliança deixou uma marca no dedo. Foi ao armário e apanhou o vestido de musseline que estava pendurado no cabide. Esse vestido vai muito bem com seu tipo e você só o usou um minutinho durante a cerimônia. dos curiosos que a observavam da calçada.homens ficariam com inveja de mim. Lucy dormiria sozinha no seu quarto. antes de voltarem para casa no final da noite. onde o casamento de conveniência tinha suas origens e Lucy teria que aceitar o fato de ser esposa durante o dia e . Lembrou-se das promessas feitas diante do padre. com a camisola de rendas abotoada até o pescoço. Mais tarde. A chuva batera nas vidraças durante toda a cerimônia e embaçara os vitrais coloridos onde havia figuras de santos e de anjos. de paramento branco. Quando Lucas se cansasse de sua companhia. Se não tivesse pulado o muro. Ela foi ao quarto de dormir e fechou a porta atrás de si. — Por que você não põe o vestido verde do casamento? — Molhou com a chuva. seria agora uma noviça a serviço da Virgem e passaria a vida inteira enclausurada. evocando muitas recordações tristes do convento. é um pedido. Nenhum homem alto e moreno a pediria em casamento e não teria feito a promessa diante de um padre de amá-lo até o dia da morte. das flores brancas que perfumavam o ar. teria uma amante. A capa de peles protegera o vestido da chuva e somente a bainha estava um pouco úmida. vou fazer. por terem corrido por cima das poças d'água de mãos dadas. Estavam agora em Paris. como dormia no convento. Felizmente o vestido estava perfeito. um banheiro grande e confortável e dois quartos de dormir conjugados. deixando de fora apenas os pés e o rosto. Mas será que Lucas aceita isso? Lembrou-se do que Birdina dissera. mas a dela tinha tremido na hora em que jurara fidelidade eterna. — Está bom. Lucy sacudiu-o de leve e lembrou-se da cerimônia religiosa na igreja. No momento estava de bom humor mas ela conhecia suas fases de impaciência e irritação. Lucy inclinou a cabeça e os cílios compridos esconderam seus olhos quando Lucas a encarou fixamente.

Você transformou uma imagem de mármore numa mulher de carne e osso. — Ele estendeu a mão e acompanhou com a ponta dos dedos as saliências de seu rosto. No momento em que se dirigiram para o elevador. O vestido realmente combinava muito com seu tipo físico. — Também não precisa exagerar! Você nunca foi insensível nem fria. Lucy sentiu um arrepio de prazer com esse contato. — Eu gosto. ou quase nada. — Que pena! Eu gosto mais do seu rosto sem pintura. como se estivesse na dúvida sobre o que devia dizer. generoso.. Ela olhou surpresa para as pedras verdes que brilhavam entre os diamantes. — Você pintou os olhos? — perguntou por fim. Você mesmo disse isso e eu pensei que iria gostar de minha nova aparência. no íntimo. — Você não precisava se pintar por minha causa. Nem por isso eu gostei menos de sua aparência. Ele observou-a com atenção na sala iluminada. Os olhos estavam com uma leve camada de sombra verde e o rosto com um pouquinho de base. — Eu me pintei para agradá-lo. — Eu não posso andar a vida inteira desse jeito. O elevador descia lentamente até o térreo quando Lucas segurou-a pela mão e passou uma correntinha no seu pulso. Ela falava a verdade. você estava de calça comprida e de rosto lavado. Quando a conheci. O que ela conhecia da vida e dos prazeres? Nada. estava tensa com a possível reação de Lucas. — Esmeraldas! Ah. — Ah. — Eu sou como Galatéia. Somente os lábios estavam vermelhos e ligeiramente brilhantes. Lucas. de onde vinha o cheiro inconfundível da cigarrilha. Quando voltou à sala com o casaco branco de peles em cima dos ombros. fazia todas as suas vontades. Nunca fora a uma boate antes e isso parecia a essência da coisa proibida e sofisticada. mas não sentia atração por seu corpo de adolescente. Ela procurou manter-se calma mas. não brinque! Você acha que o vestido combina com a pintura dos olhos? — Você está linda. Lucas era bom. Era a primeira vez na vida que pintava os olhos e os lábios. deu uma tragada comprida e soprou a fumaça para o alto. Você está tão bonita que tenho medo de levá-la para jantar fora. Lucas continuava debruçado na sacada. você está me estragando com esses presentes! Como eu posso lhe retribuir tudo isso? . inclusive de ordem sexual. Sentiu-se um pouco mais animada com sua aparência jovem.mulher solteira à noite. Depois de pôr o vestido verde-claro. mirou-se no espelho do armário. Lucy estava com as pernas bambas. Sentou-se diante da penteadeira e apanhou o estojo pequenino que ganhara. por sua inexperiência em muitos assuntos. comprado em uma das melhores lojas de Paris.. mas permaneceu parada e fingiu ser uma estátua fria de pedra.

Vamos aproveitar o presente. levantando seu pulso e roçando os lábios sobre a correntinha de ouro. Eu tive muitos brinquedos antes de você aparecer. — É um bracelete de escrava árabe — disse Lucas. O ar frio da noite bateu no rosto de Lucy. que estava corada com o olhar que as pessoas lhe lançaram no hall. querida? Eu tenho um temperamento insuportável. — Teria sido melhor para você. nina.— Continuando a ser como você é. — Estou de pleno acordo — disse Lucy deitando a cabeça no seu ombro. — Você já me deu um brinco e um broche! — Isso foi apenas o início. — Você parece um anjo no vitral de uma igreja. É isso que dá casar com um homem conhecido. O táxi estacionou na calçada e Lucas abriu a porta para ela entrar. — Eu tive a impressão de andar no meio do fogo — disse Lucy. Ao chegarem na calçada. — É isso que você quer? Ela não se importava de ser sua escrava. Ele recebeu o que merecia quando eu completei vinte e um anos. Nunca fora amada por ninguém e preferia no fundo pertencer de corpo e alma a um homem que tinha a qualidade de ser extremamente gentil e generoso. mas quebrei todos e fiquei sem nenhum. . fizeram sinal para o táxi que passava.. e que vendia os cavalos estropiados da fazenda para serem mortos no picadeiro. Ele tentou fazer o mesmo comigo. — Não vamos pensar no futuro. — Com o tempo você vai se acostumar com a curiosidade dos outros. ele que vá para o inferno! — Lucas passou o braço em volta de sua cintura e apertou-a contra si. Ah. Um silêncio repentino desceu sobre a sala quando os dois passaram de braços dados em direção à porta giratória. — Muito obrigada pela pulseira. em Madri. estamos em lua-de-mel e não convém nos aborrecermos com lembranças desagradáveis. mas esqueceu que eu era seu filho. A lua-de-mel era feita também para o amor. O que vai ser de nós agora. mas Lucas estabelecera um limite que não pretendia ultrapassar. No fundo. — Seus olhos inocentes me deixam tonto. Qualquer um pode ver que você tem a metade da minha idade e eles estavam tentando descobrir o que podia nos unir um ao outro. minha escrava agora. querida. Atravessaram o hall do hotel onde algumas pessoas conversavam ou aguardavam os conhecidos. quando se ajeitou no seu lugar.. Você não tem medo que eu perca a cabeça? — Eu tenho juízo por dois. Pudera! Estar casada com um homem que tem o dobro de sua idade! — Eu prefiro isso a me casar com um rapaz da minha idade. — Você é. às vezes. nina — disse Lucas após um momento de silêncio. continuo sendo o filho do homem inflexível que tinha seu camarote reservado na praça de touros.

Lucy sentou-se de frente para o conjunto e olhou em redor com curiosidade. Havia diversos olhares voltados para os dois. Lucas tinha prevenido Lucy de que seriam alvo da atenção dos presentes mas que logo ela se acostumaria com isso. — Pronto. picante. tinha vontade de levantar-se da cadeira e dizer a todos que ela não se importava com o passado de Lucas. bem gelada. de pé comprido. durante muitos anos. — À sua. Sabia que Lucas assumira uma atitude sardônica a fim de defender-se das agressões que recebera em menino e ela estava disposta a enfrentar de cabeça erguida os olhares curiosos que homens e mulheres dirigiam aos dois. estava muito à vontade no ambiente noturno e parecia indiferente aos olhares insistentes de que era alvo. com cravos vermelhos. . — À sua felicidade. Ao lado estava acesa uma lâmpada de opalina que dava uma luz crepuscular ao ambiente. mas era difícil reconhecer as fisionomias à luz fraca da sala. chegamos. O maitre os conduziu a uma mesa de canto em cima da qual havia um vaso pequeno. que ela o amava a despeito de tudo e de todos. Lucas. fitando-a nos olhos enquanto levava a taça aos lábios. O estampido do gás comprimido no interior da garrafa. Ela provou a bebida espumante. Estava apoiado displicentemente no encosto da cadeira no momento em que o garçom retirou a garrafa de champagne do balde de gelo. foi a resposta de Lucas às pessoas que invejavam sua situação. que conhecia muito pouco do mundo. o conjunto estava tocando uma melodia lenta de uns anos atrás e que não foi identificada por Lucy.— Você diz isso agora! — Ele apertou a mão dela com força. Seu rosto estava ligeiramente inclinado e a luz rosa da sala acentuava o brilho dos cabelos vermelhos e dava à pele clara uma tonalidade rosada. O champagne foi servido em taças de pé alto. no entanto. Lucy não conteve um sorriso de alegria diante do líquido dourado e borbulhante. minha querida esposa — disse. que parecia correr pelas veias como um sopro de calor. — Que música é essa que o conjunto está tocando? Eu conheço mais música de igreja do que música popular. — Vamos descer e provar o vinho da casa! — disse Lucas com uma risada. O porteiro dirigiu-se até o carro e abriu a porta para os dois descerem. por sua vez. O táxi diminuiu a marcha e estacionou diante da boate iluminada. meu lorde — disse Lucy com um sorriso. O vestido verde de musseline era de um feitio impecável e ela estava com as jóias que Lucas lhe dera de presente de casamento. CAPITULO XI Quando os dois entraram na boate. Lucy. Lucas levantou sua taça e Lucy apanhou a sua.

Você é a primeira na lista. Olhe só que música deliciosa estão tocando agora. Pode deixar que eu guio seus passos. — Eu não sou mais uma freirinha — protestou Lucy. como dizem as pessoas em San Luis Bara. onde nasci e passei uma boa parte da adolescência. descontraiu-se e abandonou-se a esse prazer novo que desconhecia. — Birdina disse que eu não tenho nada de freira. Você é como o bebê que não sabe nada e tem a vida inteira para aprender. quando eu penso que há tantas coisas que você desconhece. — Ah. — Deve ser o sangue espanhol que você tem nas veias. Em seguida. Havia um clima de suspense e de silêncio na sala. Lucy sentiu-se puxada para os braços de Lucas. O homem só pode corromper o que é inocente e eu nunca me dei bem com mulheres inocentes. é uma composição de Irving Berlin.— Não me faça pensar na freirinha com quem eu me casei. Ela permaneceu ali até a música terminar e os casais voltarem para suas mesas. basta apenas você acompanhar o ritmo da música. Olhou para a taça de champagne e novamente para o brilho malicioso que havia nos olhos dela. Ainda bem que o diabo está aí para lhe servir de mestre! — Eu não quero outro mestre. Você já foi alguma vez ao cinema? — Nunca. — Vamos dançar? — Eu não sei dançar — respondeu Lucy sem jeito. Eu sempre gostei de brincar com essa idéia. — Você gostaria de aprender todos os truques do meu repertório? Sabe no que estão pensando essas pessoas que nos olham com inveja? Que são os malandros como eu que estragam as mulheres. apertada com firmeza contra seu corpo e guiada nos movimentos lentos da dança. onde outros pares giravam ao ritmo lânguido de uma trilha sonora de filme. Lucy observou-o com o canto dos olhos e sentiu uma contração no estômago quando viu Lucas olhar na direção de um reservado onde uma mulher muito bonita estava sentada. Minha reputação é tão horrível que basta eu olhar para uma mulher para ela se julgar perdida! O diabo escureceu meu olho. — A dança é algo que acontece naturalmente. — Não sei — comentou Lucas com a expressão pensativa. Estendeu a mão a Lucy e conduziu-a à pista de dança. — Uma das coisas que não aprendi no convento foi dançar. todos ao mesmo tempo aplaudiram entusiasticamente a cantora e os nervos de Lucy estavam tensos ao . como você deve estar lembrado. No início tropeçou nos pés dele mas. Lucas levantou-se e deu a volta na mesa. Quem seria aquela mulher tão bela? Lucy voltou-se e viu a mulher subir os degraus que levavam à plataforma onde o conjunto estava tocando. Você também é muito leve. — Você dança tremendamente bem — murmurou Lucy junto ao seu ouvido. logo depois. Outra foi nadar. — Sem falar no hábito de dançar freqüentemente.

— Melisande é de opinião que a roupa de baixo estraga a linha dos vestidos justos que modelam seu corpo à perfeição. De repente. — Nós temos um documento legal que prova isso. incapaz de adiar mais tempo sua curiosidade. Melisande é Melisande e você é você! Eu sou espanhol por parte de pai e não admito que minha mulher ande seminua na frente dos outros. O garçom apareceu nesse momento com o caviar. No instante seguinte. com fatias fininhas de salmão defumado e limão galego. Voltando ao assunto anterior. Ela é esplêndida. assinado por duas testemunhas. Lucy voltou-se para Lucas e notou que os olhos dele estavam fixos na figura esplêndida da mulher. — Esse não é naturalmente seu nome verdadeiro. Parecia a reencarnação de Vênus. Ela prefere as safiras às outras pedras preciosas porque combinam com a cor dos seus olhos. Os olhos oblíquos pareciam ter uma insolência de felino no momento em que se aproximou do piano e apoiou-se ali com toda a graça da sedução feminina. — Você tem razão — concordou Lucas.ouvir as palmas calorosas que Lucas dirigiu à mulher. como se tivesse recebido um tapa no rosto. em meio de um silêncio completo na sala. As luzes diminuíram e formaram um círculo luminoso em volta da cantora que estava no alto do tablado. — Eu não me sinto sua mulher. acompanhado com pão preto. Posso beber mais uma taça de champagne? Ela estendeu a taça na sua direção mas Lucas ignorou seu gesto. servido numa pequena salva de prata. — Melisande — respondeu Lucas com indolência. ela compreendeu toda a extensão do fato. a deusa do amor. — Vamos esperar pelo caviar. — Se você pensa assim por que gastou aquele dinheirão com a lingerie que me deu? Estou com sede. . os lábios entreabertos. Ela canta para ganhar a vida e também jóias de diamantes e de safiras. Caso contrário você vai ficar tonta. Entendido? — Só por que eu não tenho o corpo dela? — Essa é uma das razões. as mãos cobertas de jóias apoiadas graciosamente na cintura. odiando-se a si mesma por sua falta de pudor. onde brilhavam pedras preciosas. Lucas conhecia aquela mulher e ele a amava! — Quem é? — perguntou Lucy. Os cabelos eram uma torre de rolos ondulados. o pianista atacou uma canção francesa dolente. Ela ficou um instante parada no alto do tablado. não? Parece uma estátua grega. vestida com um longo prateado e muito justo no corpo que sugeria um físico tão perfeito quanto as formas de uma estátua de mármore. — Ela me dá a impressão de não usar nada por baixo do vestido — comentou Lucy. minha querida esposa. de olhos fechados. olhando para as pessoas em volta com um sorriso beatífico nos lábios vermelhos.

Essa é sua canção preferida. sem falar que tinha o físico de uma Vênus. — Ela me pareceu ser o tipo de mulher que recebe a adoração dos homens. — Que música foi essa que ela cantou? Me pareceu um pouco triste. mas devia saber naturalmente que Lucas estava ali com a mulher com que se casara recentemente. Ela se esqueceu durante alguns minutos que Lucas tinha conhecido Melisande na intimidade e mantivera com ela um relacionamento mais ou menos prolongado. a simetria das feições era um prodígio de perfeição. — E o sentimento. Ao terminar seu número. Relacionamento era uma palavra muito vaga. Aprendera no convento a aceitar as situações inevitáveis com resignação. Melisande foi aplaudida entusiasticamente pela assistência. — Você tem razão. talvez porque narre as ironias do amor. primitivo.. Melisande não olhara uma única vez na direção da mesa onde estavam. Mas talvez fossem. se bem que combinava com. — O sentimento é um mistério. Melisande devia cantar ali todas as noites e isso era suficiente para tornar o programa noturno mais excitante. não conta? Lucy estava decidida a saber o que Lucas sentia por uma mulher que parecia preencher todos os desejos masculinos. A beleza é sempre homenageada. Lucy mordeu o lábio com nervosismo. Ela fingiu que não tinha visto e continuou a mastigar seu pãozinho com caviar.No momento em que Melisande entoou a música francesa com a voz rouca e sedutora. Os aplausos ecoaram pela sala e a mulher de vestido prateado desapareceu do tablado. Lucas tivera provavelmente uma paixão por aquela mulher. embora não tivesse certeza se as palavras da música eram dirigidas especialmente a Lucas. — Ela cantou Columbin. de onde agradeceu os aplausos com os olhos brilhantes. sua voz abafada. — Eu não posso imaginar uma mulher como ela apaixonada por alguém — comentou Lucy com cautela. Sabia agora por que Lucas escolhera aquela boate para jantar. Era impossível esquecê-la. Lucy voltou-se para Lucas. Sempre foi assim e enquanto os homens continuarem a habitar este planeta será o drama constante de todas as idades. onde quer que se encontre. que chamou imediatamente a atenção de Lucy. Foi essa impressão que fez a balada seguinte adquirir um significado mais importante para Lucy. Lucy mastigou com fúria uma fatia de pão salpicado de caviar e viu o olhar reprovador que Lucas lhe dirigiu. As luzes tornaram a brilhar com intensidade. A música recomeçou com um ritmo estranho. que estava comendo tranqüilamente o salmão defumado. Lucy concluiu que era sua figura sexy mais que sua voz que despertava o entusiasmo dos ouvintes. nina. uma adoração por seu corpo de linhas perfeitas. a . dotada de braços brancos e carnudos que estreitavam um homem possessivamente. Melisande foi até outro ponto do tablado e apoiou-se numa coluna de mármore.. Os cabelos eram incomparavelmente louros.

contrastavam vivamente com a cor clara da pele. notou que Lucas olhava fixamente para alguém que se aproximava da mesa. Ao levantar a cabeça do prato. mas você continua bonita como sempre.. ma chère. a sorte não me faltou até hoje. — Você tem sorte de poder comer essa calda à vontade. Champagne é a única bebida que eu não recuso nunca. Eu queria convidá-la para tomar uma taça de champagne conosco. Ele trouxe a travessa coberta num carrinho e foi somente depois que o garçom se retirou que os dois retomaram a conversa interrompida. — Você fala como um homem que amou — comentou Lucy. Ela voltou-se de frente para Lucy. minha querida. que pôde observar rapidamente sua figura impecável. Melly? Faz muito tempo que a gente não se vê. Nós nos casamos hoje e viajamos diretamente para Paris. — disse Melisande com uma risada alta que deixou Lucy gelada. A pele era muito branca e os cabelos ondulados e compridos batiam em cima dos ombros.. — Ainda bem! — disse Melisande com um sorriso encantador. — Ou você ainda ama essa mulher? Lucas ouviu a pergunta em silêncio enquanto o garçom limpava a mesa e se preparava para servir um outro prato. pelo jeito. Melisande sentou-se e olhou com curiosidade para a sobremesa que Lucy estava comendo. No instante seguinte. Lucas mudou habilmente de assunto e os temores de Lucy foram amplamente confirmados. que balançava entre os seios. Os aplausos continuam tão vibrantes quanto antes. derrama lágrimas de sofrimento. explode em gritos de alegria. Eu sempre fui de opinião que um homem maduro devia casar com uma . a mulher de vestido prateado estava em pé ao lado da cadeira de Lucy. Melisande estava com um vestido azul de veludo e tinha no pescoço uma corrente de prata com uma enorme safira no meio. — Com muito prazer. Lucas sorriu e fez sinal para o garçom trazer outra cadeira. como sempre. Os lábios. de uma tonalidade vermelho escura. — Ouvi dizer que você casou com uma menina. Lucas. Felizmente. As pessoas a adoram. meu querido. — Sempre gostei de escandalizar as pessoas. Ela é menor de idade. Lucas gostara de alguém e não tinha a intenção de discutir esse assunto com ela. Lucas levantou-se e cumprimentou-a com a fisionomia impassível.respeito do qual o homem dedica canções. faz cinco anos que nos vimos pela última vez. A sobremesa consistiu num pudim de figos com uma calda açucarada. — Como vai. — Eu tenho o dobro de sua idade — disse Lucas impassível. apertando com força a taça de champagne. — Pois é. Não tem perigo de engordar. Lucy estava tensa com a conversa anterior. Vim ver se era verdade. — Estou vendo.

— Merci. você partia numa de suas excursões pelo mar alto. Uma mulher fatal. homem? Eu me lembro que as mulheres se apaixonavam perdidamente por você e quando elas saíam do seu controle. — Você usa esse cabelo curtinho. Chegava a incomodar. naturalmente. — Ouvi dizer que você foi educada num convento. Só assim ele pode ensinar a ela todas as coisas que aprendeu na vida. — A boca vermelha se contraiu sem querer. — Não diga! — exclamou Melisande percorrendo-a com os olhos. apreciando o modelo do vestido verde de musseline e demorando-se no peito onde Lucas espetara o broche de diamantes. Melisande acentuou as últimas palavras enquanto recebia a taça de champagne das mãos de Lucas. — Que delicado de sua parte dizer isso — comentou Melisande com um risinho irônico. — Você viu só. inclusive sua experiência sexual. Lucy afastou os olhos do decote profundo que deixava os seios praticamente descobertos. Você não concorda comigo? — Meu querido. mon cher. — O homem e a mulher. . sem jeito diante da beleza impecável da cantora. Não há nada mais raro hoje em dia. Como é possível que um diabo velho tenha se casado com um anjinho como você? Você tem esperança de corrigi-lo? — Eu gosto dele assim mesmo. Melly. para não atrair os homens? — Eu sempre usei os cabelos curtos — disse Lucy. na minha opinião. sem cerimônia. Como você notou. petite. Concordar com o outro cansa. devem estar sempre se provocando um ao outro. em todos os sentidos da palavra. essa moça! A menos que seja muito jovem para avaliar os riscos. como se estivessem num campo de batalha.mulher bem mais moça. você continua cruel como sempre. — Sua mulher deve ter uma fascinação muito especial para seduzir um solteiro inveterado — disse Melisande em voz baixa. — E mesmo assim ela casou com você? Ela tem coragem. bem entendido. É verdade que seu veleiro bateu nos recifes da baía? Ele afundou com todos os seus antigos amores? — Pois é. — Pelo visto. Os cílios compridos tremeram sobre os olhos azuis no instante em que o encarou com a taça na mão. — Ela é as duas coisas ao mesmo tempo: jovem e corajosa. — É o privilégio da inocência. os cabelos dela são um sinal de rebeldia. como ele é. meu querido? Sua mulher disse que gosta de você do jeito que você é! O que aconteceu com você. — Verdade? — perguntou Melisande com as sobrancelhas levantadas. No palco ela parecia mais esguia que vista de perto. Só assim a vida é realmente excitante. nós nunca concordamos em nada — respondeu Melisande com uma risadinha. Mas é do veleiro que eu sinto mais falta. Melisande era realmente uma beleza. Sua mulher concorda sempre com você? Ela o julga um marido perfeito? — Deus me livre! Lucy conhece todos os meus defeitos. minha cara.

O amor e o ódio estavam visíveis nos olhares que trocavam. a cantora de boate. — E ele também a adora. — Podíamos ter sido. Melisande levou-a ao seu camarim atrás do palco. . Eu não tinha outra alternativa senão morrer ou quebrar-lhe o braço. A briga que tivemos foi por sua causa. uma adolescente que não sabe nada da vida! Talvez seja esse o motivo da atração! Você é a flor exótica que ele encontrou por acaso caída no chão.. por sua causa! — Você me odiava — murmurou Melisande em voz baixa. Lucy seguiu silenciosamente a cantora. Lucy acompanhou a conversa de olhos atentos. Tentou secar o vestido com o guardanapo até que Lucas segurou seu pulso com força.. — Por que você está tremendo? — perguntou Melisande com a voz afetuosa. — Vamos! — disse Melisande levantando-se da mesa com uma onda de perfume. agora essa taça de champagne. petite. — Por que você não esfrega uma toalha seca no toalete? Esse vestido está sem sorte. se ele não tivesse posto a honra na frente do prazer. Entretanto. Lucas e Melisande pareciam ter esquecido sua presença na mesa. Lucy estendeu a mão para apanhar o copo de vinho e. não é? Lucy levantou a cabeça para Melisande que estava lambendo o dedo lambuzado de chocolate. — Eu vou ajudá-la a dar um jeito no vestido. — Não me diga que você tem alguma dúvida a esse respeito! Eu conheço Lucas de muitos e muitos anos atrás. esbarrou na taça de champagne e respingou a bebida em cima do seu vestido. Rafael acreditou em você mais do que em mim. e nunca o vi olhar para ninguém como ele olha para você. em vez de irem ao toalete. Melisande era a mulher de Rafael. no seu nervosismo. — Você gosta muito dele. que estava repleto de corbeilles de flores que recebera dos seus fãs. Melisande deu uma gargalhada sonora e quando ela se encostou na penteadeira uma rosa caiu no chão e suas pétalas se espalharam pelo tapete. vocês foram? — perguntou Lucy num sussurro. — O que dói mais? Ele brigar com você ou você saber que nós dois fomos amantes uma época? — Ah. Está lembrada de Rafael? Você deu a entender que eu abusei da amizade dele ao ter um caso com sua mulher. Melisande. não é mesmo? — perguntou Melisande apanhando uma caixa de bombons em cima da penteadeira. Primeiro foi a chuva. ele não bate numa mulher — murmurou Lucy sem jeito. que Lucas aplaudira alguns minutos antes.— Minha querida. — Tem medo que seu marido bata em você? — Não. não se esqueça de que você também foi cruel comigo. Fora ela que envolvera Lucas num divórcio escandaloso que tivera sérias repercussões na sociedade.

Há homens que melhoram com o passar dos anos. Vamos. Lucas acendeu a luz e despediu-se rapidamente de Lucy. — Você aprendeu também algumas outras coisas — disse Lucas de mau humor. — Cabe a você fazê-lo feliz. Lucy balançou a cabeça sem saber o que responder. — Pelo menos eu aprendi a dançar. Provavelmente. durante os quatro anos de casados. Eu não sei por que razão escolhi esse lugar para jantar. Melisande examinou Lucy de alto a baixo. . encolhida no banco do carro. é claro! Eu não deixei minha cicatriz no corpo dele. encontrou-se com Lucas. No meio do caminho. pois eu sabia que Melisande cantava aqui. Eu o traí com uma dúzia de homens e Lucas foi único que se conduziu como um perfeito espanhol. porém. como você já deve ter notado. — Foi uma das raras ações decentes da minha vida. — Elas esclareceram alguma coisa que você queria saber? — Esclareceram — disse Lucy com o coração batendo depressa no peito. — Ah. Ele se ajoelhava aos meus pés quando meu desejo era ser dominada por ele. Lucas é um desses. sem cerimônia. Ele é mais atraente agora do que quando o conheci há cinco anos. ela disse uma porção de mentiras a meu respeito.— Você teria coragem de trair seu marido? — Por que não? Ele me cansava. — Eu gostei que você não tivesse traído seu amigo espanhol. bem afastado de Lucy. — Eu sou uma outra. que passou o casaco de peles em cima dos seus ombros com uma expressão sombria nos olhos. sentado no canto do banco. Era tarde o hall de entrada estava deserto no momento em que o atravessaram em direção ao elevador. Ele concordava com tudo que eu dizia e nunca tivemos uma discussão. há um táxi esperando por nós na porta. Lucy saiu correndo do camarim da cantora. — Eu não devia ter deixado você sair com Melisande. mais nada. menina. sim? Vamos embora daqui. Ele me voltou as costas e por isso eu o esfaqueei! Lucy estremeceu com as palavras de Melisande. — De mentirinha. Ele continua musculoso e forte como sempre. — Até que a noite foi gostosa — disse Lucy após um momento. Ao entrarem no quarto que fazia parte da suíte. não? — Acho que sim. segurando a saia de musseline na mão enquanto atravessava o corredor em direção à sala de jantar. Lucas continuou em silêncio até que o táxi parou diante do hotel. Melisande afirmara que Lucas a amava! Seria uma mentira que dissera para iludir a moça inocente que tinha necessidade do seu amor? — Ela me ajudou a secar o vestido.

Lucy apagou a lâmpada e aguardou a vinda dele com o corpo tenso de excitação.— Lucas. — Você está com medo de ter um pesadelo? — Não. E se as palavras de Melisande não fossem reais? Se Lucas não gostasse dela e simplesmente a expulsasse de mau humor da sua cama? Seu coração estava batendo à toda no instante em que a porta do banheiro se abriu e tornou a fechar. indiferentes. eu queria. Ela voltou-se e dirigiu-se ao seu quarto. pertencer a Lucas em todos os sentidos da palavra. Em seguida. — O que é isso? — A mão dele encontrou a camisola de seda.. por mais leves que fossem. de maneira que todos os olhares trocados entre os dois tivessem um significado profundo e todos os contatos. Continuavam inexpressivos. Boa noite. o que você está fazendo na minha cama? Você se assustou com alguma coisa? Entrou um morcego no seu quarto? — Não. Aquela era a noite de núpcias e ela não queria dormir sozinha na sua cama. como se ela não entrasse nos seus pensamentos. — balbuciou ela num sussurro. Era somente isso que Lucy desejava e ela tinha que encontrar a coragem para satisfazer seu desejo. Durma bem. concorressem para uni-los ainda mais. Como podia fazer para declarar seu amor. dirigiu-se ao quarto dele. Lucas. de um tecido leve e transparente. — Boa noite. Lucy. mas não havia sinal disso nos seus olhos.. sem contar que Lucas oporia menos resistência a sua presença na cama se a encontrasse no escuro do quarto.. Não sabia como a mulher podia romper a barreira que o homem punha no seu caminho. Ela não tinha um plano bem definido de ação até o instante em que ouviu o ruído de água escorrendo no banheiro do quarto de Lucas. levantou o lençol e enfiou-se embaixo da coberta. Se Lucas a amasse. Lucas atravessou silenciosamente o quarto e parou surpreso no meio da peça. — Ela engoliu em seco e tomou coragem para dar o mergulho. levantou a coberta e entrou embaixo com um movimento ágil da perna. sem saber como continuar. era evidente que a desejaria fisicamente. irradiando em sua volta o calor e o perfume do corpo moreno.. Colocou o casaco de peles em cima da cadeira e foi até a cama. mas sabia o que queria. Talvez fosse preferível apagá-la para aumentar a surpresa. Ela interrompeu a frase pelo meio. — Lucy. A lâmpada de cabeceira estava acesa. onde a camisola de dormir. — Você deve estar exausta. estava estendida. Tomando coragem. um amor que não era vazio e superficial como o que as mulheres do tipo de Melisande ofereciam aos homens que lutavam para possuílas? Ela era jovem e ingênua. — .

mas ela podia sentir as pulsações do coração batendo no mesmo ritmo que o dela. mas eu desejo igualmente conservá-la inocente.. — Ah.Eu queria ter uma lua-de-mel verdadeira. eu estou começando a acreditar que você é um diabinho em pessoa. — Você sempre diz isso. — Eu te quero tanto. comunicando-se pelo corpo todo. os dois corpos colados como se fossem um só. com uma espécie de desespero do amor. amor — murmurou no seu ouvido. querida.. — Eu não vou usar o mesmo sistema — disse Lucas com um sorriso. Antes que Lucas pudesse refletir sobre o significado das palavras e negar o pedido. eu não fui um homem muito bom até o dia de hoje. — Ah. que estava entreaberta e ávida de seus beijos. — E tenho controle suficiente para não querer que isso aconteça. — Era isso que a irmã dizia. mais uma vez. os lábios se encontraram com avidez e alegria no meio da noite. Ela tentou me amansar com o pano de chão. roçando os lábios na sua boca.. Lucy adorada. que só havia uma única pessoa que conhecia em Paris — no mundo inteiro — e que essa pessoa era Lucas. — Ah. querido! Eu não vou partir como um brinquedo. você me deixa com água na boca — murmurou Lucas maliciosamente e. eu tenho medo de perder a cabeça. — Tenho o dobro de sua idade e de sua experiência. deixe a tempestade desabar. Lucy passou os braços em volta do seu pescoço. Lucy — murmurou Lucas estreitando-a nos braços. Lucy. eu sou uma mulher. — Duvido! — Lucy. — Você vai melhorar com o tempo.. até o instante em que teve a impressão que respirava o mesmo ar que ele. Lucas. e quero ser sua! — E eu. — Lucy. Ele não disse nada. * * Fim * * . É a felicidade que torna as pessoas bondosas e eu vou fazê-lo o homem mais feliz desse mundo. — Eu também a quero. Você desperta uma tempestade em mim. sou um homem. meu querido Satã. — Eu sei disso.

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