Susan Squires - O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866

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O MISTÉRIO DE IAN RUFFORD
Susan Squires
The Companion

Egito, 1818. Prisioneiro do desejo Ian Rufford foi capturado, escravizado e depois abandonado nas solitárias dunas do deserto Egípcio. Seu algoz era uma mulher de incrível beleza, embora terrivelmente má. Então, Ian passou a ansiar por uma morte que não viria. Somente depois de ser resgatado foi que ele percebeu que não era mais a mesma pessoa. Alguma coisa dentro dele havia mudado, embora Ian não conseguisse compreender o quê... O lar que Elizabeth Rochewell conhecia era o Egito. Após a morte de seu pai, no entanto, ela foi enviada de volta a Londres, e a bordo do navio conheceu o misterioso Ian Rufford, por quem se sentiu imediatamente atraída. Mas aquele homem guardava um segredo chocante, do qual Elizabeth não poderia fazer nem mesmo a mais remota idéias...

Digitalização e Revisão: Marina Campos Formatação: Monica

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Susan Squires - O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866)

Copyright 2004 by Susan Squires Originalmente publicado em 2004 pela St. Martin's Press PUBLICADO SOB ACORDO COM ST. MARTIN'S PRESS NY, NY - USA Todos os direitos reservados. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência. Proibida a reprodução, total ou parcial, desta publicação, seja qual for o meio, eletrônico ou mecânico, sem a permissão expressa da Editora Nova Cultural Ltda. TÍTULO ORIGINAL: The Companion

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Susan Squires - O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866)

Capítulo I
El Golea, Deserto do Saara, Agosto de 1818. O medo abandonou-o à medida que ele a observava por baixo dos cílios. Uma unha pintada de dourado apontava em sua direção. Ela estava recostada em uma poltrona. Um tecido de seda vermelho como sangue pendia de seus ombros, preso apenas por um broche de ouro na cintura. Lá fora, o vento começava a uivar. A areia açoitava a tenda. Um aroma de canela e algo mais que não conseguia distinguir enchia o ar quente e seco lá dentro. A luz difusa, a pele dela brilhava de transpiração e o ar vibrava com sua vitalidade. Sob o tecido quase transparente, os mamilos eram claramente visíveis. Ele não queria ceder à tentação, mas a ânsia que o acometia era mais forte que sua vontade. — Venha — convidou ela. Ele poderia perder-se naqueles olhos negros. Levantou-se. Seu corpo nu ainda estava úmido do banho que tomara no poço do oásis. Seu ombro e uma das coxas sangravam. Ela gostaria disso. Ela indicou um lugar a seu lado na poltrona. Ele se ajoelhou mais uma vez. Estava ciente do que ela queria e de repente desejava saciá-la mais do que tudo na vida. Então ergueu a cabeça, tomou os lábios macios e beijou-a. Uma parte de sua mente tinha conhecimento do perigo, mas o volume da masculinidade em sua virilha foi aumentando até deixá-lo entregue. Enquanto ela vinha em sua direção, seus olhos brilhavam com uma luz tão vermelha quanto o tecido de seda que a rodeava. Sussurros e um gemido o arrancaram do pesadelo. Suas veias pulsavam, levando a dor a todas as fibras de seu corpo. O gemido saíra da própria garganta. — Acabe logo com isso — alguém gritou em árabe. Ele abriu um dos olhos. A luz quase o cegou. Uma horda de homens o rodeava. Os raios de sol incidiram sobre uma espada. Estava fraco demais para resistir à morte. A única coisa que poderia fazer era fechar os olhos. Caos. Gritaria. — O que está fazendo, homem? — o árabe gritou, dessa vez em inglês. — Este aqui está mal. Ele tem as cicatrizes. — Ninguém será morto aqui. Este solo é inglês — o inglês disse.

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Na verdade. Os árabes foram empurrados para fora e o inglês aproximou-se. As vozes estavam se tornando indistintas. Depois. ele arriscou-se a abrir os olhos. Quantos quartos como aquele em quantas cidades ao longo de Levante e do norte da África tinha visto desde que se juntara ao pai em suas expedições? Cinquenta? Juntos. Ouviu as respirações ofegantes enquanto os homens verificavam o conteúdo da bolsa. tosco e belo ao mesmo tempo.Susan Squires . pensou ele. O pilar que Romances em Ebook . — Quem é você. Jamais havia pensado em usar o suvenir que trouxera de Barcelona daquela forma. nada. um armário escuro em estilo nativo. — Por que se preocupam? Ele vai morrer de qualquer jeito. Setembro de 1818. O quarto desapareceu. Estavam todos de uniforme. Elizabeth Rochewell olhou em volta do minúsculo quarto: paredes brancas sem quadros. A alça foi puxada. enquanto a porta se fechava. Reclinou-se sobre a mantilha negra que cobria a cabeceira da cama. Deserto do Saara. Foi a última coisa que conseguiu ouvir. Certifique-se de que ele seja inglês. A luz agora era cortada pelos homens à porta. eles representavam o único lar que conhecera e se sentia confortável. — Chame um guarda. Em seguida. amigo? Ele não podia responder. O quarto oscilou. — O que é isto? A bolsa de couro pendurada em seu pescoço balançou. — Levem-no daqui. A escuridão estava vencendo a batalha. a escuridão turvou os cantos de seus olhos. Bi'er Tegheri. — Reze ao seu Deus para que ele morra — o único árabe que permaneceu no recinto falou. Será que isso é possível para alguém como eu? O inglês inclinou-se para a frente. Morte.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Mais uma vez. — E eu rezarei a Allah. não esperara nada do que havia acontecido nos últimos tempos.

Ouviu a porta se abrir e um homem de estatura baixa. puxou a mantilha e colocou-a sobre as tranças. que os guiaram na busca pela cidade perdida de Petra. Mas ali. e traduzira os textos antigos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) se desintegrara após quatro mil e quinhentos anos. Mal podia crer que estava se preparando para o funeral daquele que fora seu mentor profissional e o único esteio em sua vida. Fora ela quem organizara as expedições. sócio do pai nas três últimas expedições. Os enormes olhos não eram nem da cor de mel. fosse na Inglaterra ou na África. Na África. o proprietário daquele apartamento. Elizabeth passara toda a vida adulta ajudando o pai a catalogar a história da humanidade. Ele era um homem forte. nem verdes. o modo de vida dele coincidia com os sonhos de seu pai. — Monsieur L'Bareaux — cumprimentou-o no corredor estreito. Observou o rosto de traços egípcios que herdara da mãe. não como mulher dentro dos padrões conhecidos. Ele deveria estar cego de amor. estava mais interessado em vendas do que no significado histórico das peças que encontravam. que a deixou atordoada. conferindo-lhe uma beleza extravagante apesar da idade. O pai sempre dizia que sua mãe havia sido a mulher mais linda que conhecera e que Elizabeth se parecia muito com ela. as guerras eram subordinadas à sedução pela antiguidade. A boca era larga demais para ser bonita e a pele só poderia ser considerada morena. mademoiselle Elizabeth? Romances em Ebook . Uma batida soou na porta do andar inferior. Sua origem francesa poderia surpreender. Seu cabelo negro estava trançado e preso em volta da cabeça. Em seguida. tão injustamente. — Está lidando bem com esta tragédia. L’Bareaux. escapara para juntar-se ao pai. pois a França e a Inglaterra viviam em guerra. Estudara a idade das rochas a fim de descobrir a importância de seus achados. Não dormia mais do que alguns minutos de cada vez após aquele fatídico evento. saudá-la. as pessoas a viam como uma criatura estranha.Susan Squires . mas a amara muito. Respirando fundo e consternada. levou seu pai tão de repente. A única forma que conseguia domá-los. pois nunca seria atraente para qualquer homem. Não podia sequer imaginar a vida sem ele. mas se considerava muito pequena. examinou o corpo. Não era malfeita. Ao menos era útil. mas algo entre uma cor e outra. porém. O bigode de L'Bareaux era negro e expressivo. O espelho sobre a cômoda refletia seus olhos vermelhos pela falta de sono. Após uma experiência desastrosa na Escola Crofts para Moças. Ele fora um pai pouco convencional. Era uma pessoa além das convenções. No entanto.

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— Sim. — Seria verdade? Não tivera sequer tempo de chorar pelo pai, mesmo porque não a compreendia. — E uma moça forte. — L’Bareaux bateu de leve em seu ombro. — Bem, já estou pronta. Não pensaria no fato de que estaria sepultando o pai naquele dia. Pensaria em como obter o que precisava de L'Bareaux. Era a única maneira de levar adiante o sonho do pai e a única forma de preservar a única vida que conhecia. Os pesadelos cessaram. Ele estava acordado, mas mantinha os olhos fechados. Algo mudara. A dor que queimava os músculos havia desaparecido. Na verdade, sentia-se mais forte do que sempre fora. Era possível sentir o sangue pulsando nas veias, fazendo com que o coração batesse em ritmo possante dentro do peito. O linho do lençol deslizou por sua pele. O aroma de bife e cebolas fritando em azeite era óbvio, tanto quanto o de jasmim. Mas o odor de poeira e couro sobrepunha o dos alimentos ou flores. Por que estaria com os sentidos tão aguçados? Sentia-se movido por júbilo estranho ao pulsar de seu sangue. Lembrava-se de que ela havia dito que se sentia daquela maneira quando se alimentava. O desespero travava uma batalha com o prazer dentro de seu corpo forte. Ele não iria morrer. Agora seria realmente um condenado, ou pior, seria o próprio diabo? Será que se tornara igual a ela? Precisava de um médico inglês. Um árabe assustado havia dito que havia ingleses em El Golea. E lembrava-se de vozes falando inglês. Abriu os olhos e percebeu que estava no mesmo quarto de seu delírio. Os raios de sol que se insinuavam pelas venezianas, embora fracos, queimavam sua pele. Arrastou-se para fora da cama, tropeçando até a janela. Conseguiu manter-se em pé, mas em vez de fechar as venezianas, empregou força demais, quebrando-as. A madeira deu um estalido e a luz entrou com maior intensidade. Ele soltou um grito, fechando as cortinas rapidamente, deixando o quarto em uma reconfortante penumbra. Mesmo no escuro, porém, conseguia ver cada detalhe do gesso rachado, cada ferrão dos insetos. Bem devagar, foi deslizando até o chão. As costas pressionadas contra a parede de gesso. Por que não conseguira dominar a própria força? Um barulho de botas retumbou do lado de fora. A porta de madeira se abriu. Estava satisfeito pelo fato de a figura enorme bloquear a luz que provinha da porta aberta. Levou a mão ao rosto para proteger os olhos.

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— A luz — proferiu com uma voz que nem ele reconhecia. — Sem luz. — Desculpe-me — a figura respondeu em inglês com sotaque de Yorkshire. Era a voz que ouvira durante a febre. A porta fechou-se. — Já deve ter pegado sol demais. Agora que o quarto estava novamente na penumbra, ele podia divisar a figura com maiores detalhes. O rosto era inglês, e os olhos azuis levemente saltados. Ainda assim o homem poderia ser considerado bem afeiçoado. Usava um uniforme da Sétima Cavalaria. Quanto tempo se passara desde que tirara as botas? O homem havia comido ovos, torradas e suco de laranja no café da manhã. Antigamente, jamais seria capaz de saber disso. Agora, o fato de que podia farejar aromas o assustava. Não podia deixar que aquele homem soubesse no que havia se transformado, ou jamais o ajudaria a encontrar um médico inglês. — Sim — respondeu ele, pois o homem aguardava alguma resposta. Os olhos pálidos o examinavam atentamente. Ele desviou o olhar. Estava nu. O que o oficial estaria vendo? As cicatrizes? Será que elas eram reveladoras? As marcas de chicote indicavam que havia sido um escravo. E quanto aos círculos idênticos pelo corpo inteiro? O oficial ajudou-o a se deitar. — Sou o major Vernon Ware — informou o homem, sentando-se na beirada da cama. — A serviço da Legião Inglesa em El Golea. Nós o encontramos na rua uma semana atrás. Como se chama? Poderia responder de diversas formas, mas nenhuma parecia satisfatória. E o major esperava algo simples... um nome. — Ian George Angleston Rufford. — Não pensava em si mesmo com aquele nome havia mais de dois anos. — Rufford? — O major encarou-o. — Eu perambulei por Londres com Rufford Primus. Você deve ser seu irmão mais novo. — Ele estendeu a mão. Ian não o cumprimentou. Não estava certo de que poderia ousar tal coisa. — Terceiro filho — informou ele. Meu irmão é lorde Stanbridge agora. Os olhos do major brilharam com a lembrança. — Seu irmão disse que você levou vantagem em Jackson. Ganhou um pónei. Será que algum dia ele já fora aquele rapaz sem preocupações, que lutava por um boxe no Clube Jackson? Aquele homem agora desaparecera.

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— Vou mandar um dos rapazes trazer um caldo — informou o major. — Logo estará pronto para um bom bife. Não pensávamos que iria sobreviver. Deve ter passado por maus bocados. Ian acenou com a cabeça indicando aquiescência. Se o major soubesse o que ele havia passado, o desprezaria. Sentia-se cansado. Mas o objetivo que o fizera se arrastar milhas e milhas pelas areias do deserto o incitou a falar. — Preciso de um médico inglês. O oficial levantou-se. — Não existe nenhum médico inglês em um raio de seis milhas. Descanse agora. Vamos trazer algumas roupas. Guardei seus pertences. Ian surpreendeu-se. Não se lembrava de ter alguma coisa. Ainda assim acenou com a cabeça. — Joguei fora o cantil. Algo apodreceu ali dentro. Mas a bolsa que estava pendurada em seu pescoço está segura comigo. Ah! Os diamantes. Eles eram sua passagem de volta para a Inglaterra. Após ser curado por um médico, iria comprar roupas novas e cavalgaria pelo Hyde Park após as cinco horas, como alguém que não tivesse nada mais com que ocupar o tempo. O quarto oscilou. O major notou a fraqueza e retrocedeu. Ian não precisava ser como ela e jamais se submeteria a uma mulher outra vez. Algum dia, o horror no deserto seria apenas um pesadelo. Enquanto seus olhos se fechavam, imagens de Londres povoaram sua mente. O barulho da areia, sendo jogada sobre o caixão, era como um sussurro informando que aquele era um túmulo estranho em um local desconhecido. Havia apenas uma cruz de madeira para identificar o local, a lápide chegaria apenas dentro de três semanas. O ritmo era lento naquela parte do mundo. Elizabeth voltou o olhar para longe da sepultura. Seus olhos continuavam secos e vazios. Ali presentes encontra-vam-se vários árabes, que trabalharam com seu pai durante anos. Era um grupo pequeno que logo se dispersou por conta do sol forte do final da manhã. L'Bareaux ajudou-a a subir na charrete e sentou-se a seu lado, dirigindo para a vila. O calor estava castigando, deixando o vestido de cambraia pegajoso. Encontrava-se sozinha no mundo. O pai havia acabado de partir, e a mãe morrera dando-lhe a vida. Não tinha irmãos. De parentes, restava apenas a irmã do pai, lady Célia Rangle em Londres. Elizabeth a encontrara uma meia dúzia de vezes.

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Inspirou fundo e reuniu forças. se revisarmos a tradução atrapalhada de Robard. Elizabeth manteve o olhar fixo à distância. porém firme. — Eu assinei o contrato com Revelle. — Meu pai alguma vez ligou para o que é apropriado? — Elizabeth meneou a cabeça. Por sorte. então que seja assim. L’Bareaux tomou a iniciativa: — Mademoiselle Elizabeth — começou. — Não pode continuar aqui. ou estivesse apenas pensando em como comunicar uma mudança de planos. — Não seria apropriado. — Contratei um capataz. estamos apenas cavando bugigangas. — Bem. A única tática seria ser direta. Não podia perder o apoio de L'Bareaux. sem fitá-la.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Mas não queria voltar à Inglaterra. Temos que nos virar sem um erudito. — Não tenho dúvidas de que está certa. lutando por concretizar o sonho do pai. Podemos ficar prontos em quinze dias. Não pertencia àquele país. Afinal. Não podia deixar o medo transparecer na voz. mesmo assim. L'Bareaux possuía a chave e teria que abordá-lo naquela manhã. — Quem organizará tudo e quem traduzirá os textos para o senhor? Ele coçou o bigode. L'Bareaux afrouxou o colarinho. faltava o ânimo de conversar. petite. ma petite — disse com suavidade. Pertencia à África. Elizabeth não ousava encará-lo. Mas os franceses dizem que devo escavar Qued Zem — anunciou ele. — Estou plenamente de acordo.Susan Squires . — As informações que recolhemos corroboraram o texto daquele obelisco fora do Cairo. não por causa do calor. Talvez ele concordasse. serei capaz de mapear a rota para Kivala. — Mas por que terá que se virar sem um erudito? O que mudou? Romances em Ebook . — Acho que chegou o momento de falarmos sobre o futuro. — Mas logo agora que conseguimos a pista da Cidade Perdida? — perguntou ansiosa. monsieur. franzindo o cenho. Houve uma longa pausa. Quando encontrarmos o tal Imam em Túnis. ma petite. Ele pagará bem pela escavação do Kasbah em Qued Zem.

de repente. Eles haviam chegado à estrada principal que levava à vila. petite? — Estou pedindo que se case comigo. Escrevi a lorde Metherton. Os homens sabiam que tinham que tratá-la com respeito. seu pai estava conosco. Foi aquele pensamento que lhe deu coragem. Como alguém não se sentiria perto de Deus no deserto? Lá. — O que está pretendendo dizer. — Ela sabia que o dia chegaria em que teria que fazer um sacrifício para conseguir o que desejava. Como poderia desistir da liberdade. Ela já completara vinte e quatro. como se ela. —Existe uma solução para nossos problemas. — A voz de Elizabeth soava muito baixa. amigo de seu pai. — O senhor poderia me proteger. O silêncio que se seguiu pesou entre ambos. Agora vai ser diferente. — Uma beduína ou berbere — respondeu Elizabeth prontamente. enquanto eu permaneço no norte da África. — Irá com uma família árabe que eu conheço.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Antes. tivesse se transformado em uma criança. — Providenciei para que a senhorita seja escoltada na próxima caravana para Tripoli. L’Bareaux não deveria ter mais do que quarenta e dois anos. Por que ele hesitava? Romances em Ebook . — Isso não traria propriedade nem proteção. Bem.Susan Squires . — Qual a diferença entre estar sozinha em uma caravana ou numa expedição com o senhor? — Elizabeth tentou um último protesto. testemunhara muitas coisas que não poderiam ser explicadas pela razão: a velha senhora que curava feridas. — O senhor poderá contratar alguém para organizar e traduzir. jamais veria o sonho do pai concretizado. balançando a cabeça. Vira mais do que qualquer mulher na Inglaterra jamais imaginasse presenciar. — Já chega — o cortou. A escuridão e a calma da noite ecoaram em sua mente. da aventura? E se não pudesse continuar na África. como filha deles — L'Bareaux falava bem devagar. pedindo que garantisse sua chegada à Inglaterra em segurança. Precisava deixá-lo considerar a proposta. — E se eu contratasse uma dama de companhia? — Que mulher vagaria pelo deserto durante meses a fio? — indagou ele. — Ouviu-se dizendo. o amuleto que queimava quando alguém mentia. era uma mulher adulta que poderia permanecer na África se assim desejasse.

— A diferença de idade não importa. levando com ela as ilusões. Já se passara quase um mês desde que Ian acordara pela primeira vez para a nova vida. Isso não faz a mínima diferença. mas nenhuma quantidade de carne jamais o satisfazia. — Ele clareou a garganta. As brasas das cigarrilhas brilhavam no escuro. — Não tenho queda para damas. Não havia mais esperanças. prometo. até aquela noite. ao levantar-se abruptamente para sair da sala. Nem mesmo uma tão talentosa quanto a senhorita. sob um caramanchão coberto de jasmins. Podia vê-lo pulsar. Ian podia ouvir o sangue pulsando nas veias e as batidas dos corações das pessoas que o rodeavam. se é que me entende. teriam ficado muito mais horrorizados com o que ele teria feito caso tivesse permanecido no recinto. Até naquele momento podia sentir o sangue correndo nas veias do pescoço do major. A noite já se aproximava no alojamento inglês. O desespero de saber o que seu corpo necessitava atingia-o até que não conseguia dormir em seu quarto escuro durante a claridade do dia. Oh. A fome vinha aumentando a cada semana. Ele comia como um faminto. tenho ciência da honra que a senhorita me dá. mas não estou procurando uma esposa. mas estou certo de que nos arrependeríamos mais tarde. Não podia continuar daquele jeito. As ruas estreitas da vila já se faziam ver.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Não serei um fardo para o senhor. Eu poderia desempenhar as tarefas de esposa que o senhor desejasse. Apenas significa que o casamento seria realmente de conveniência. Restara apenas a saudade das noites negras e do cheiro de jasmim. — Não. — Não insista. A febre havia cedido.Susan Squires . — Mademoiselle Elizabeth. bem. mas ele ergueu uma das mãos. assim como ele. Assustou a todos com o barulho da cadeira. No entanto. Estava prestes a protestar. não minha. mesmo no Romances em Ebook . enquanto afagava a mão delicada. o sonho de seu pai estava morto. quando se sentou à mesa de jantar com o embaixador Wembertin e sua comitiva. mademoiselle — pediu. Ian estava sentado ao lado do major Ware no pátio. Seria um casamento à sua conveniência. — Elizabeth não podia deixar o desespero transparecer na voz. — E para o seu bem.

— Não tente me enganar. — Sim. Quanto tempo ficou por lá? Ian não queria perguntas.. — Não tenho certeza — respondeu ele num tom indiferente. Esse casaco serve.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) escuro. Não. Ian sentiu o sangue do major pulsando nas artérias. É tudo que se necessita para ser bem sucedido no corpo diplomático. nem aos diplomatas. — No serviço diplomático? — Sim. com o conteúdo de sua bolsa de couro. parecia um espantalho ao chegar aqui. Tenho uma boa escrita e não sou um mal dançarino. talvez não.. Ele só escolhe o que há de melhor. Não sei nem como fui escolhido. Ware levantou a sobrancelha. Aquela pequena lâmina era sua esperança. — A morte de meu pai pôs fim à minha libertinagem.Susan Squires . Romances em Ebook . — Meu Deus. Mas ainda precisa de um médico? Ian mudou de assunto. — O major tinha providenciado para que tomassem conta dele até que se recuperasse por completo. — Aquela era a primeira informação que fornecia. Somente a constante vigilância de Ware mantivera os árabes na linha. — Presumo que já esteja forte o suficiente para viajar em breve para a Inglaterra. — Tem sido muito generoso. Sinto muito que nenhum de nós tenha um casaco que acomode esses seus ombros. Henry ficou bem de vida com a herança. — Bem. — Minha ida por Tripoli já estava marcada. Dinheiro não será problema para tocar a vida. Sob o comando de Rockhampton. O major assentiu com um gesto de cabeça. — Mas chegou a servir? — Piratas bárbaros tomaram o navio na Argélia. — Você deve ter engordado uns três quilos. — Bem. jogando fora o cigarro. Então. — O major comentou. convenci Rockhampton de que havia sossegado. se não quiser — disse o major. Poderia pegar um navio na Argélia. Precisava continuar falando para afugentar a necessidade que comprimia seu peito. —Prefiro ir por Tripoli. No bolso do casaco apalpou a pequena faca que havia ganhado para aparar as unhas. Não precisará servir a Whitehall. Eu não podia ser um fardo na vida do meu irmão. Você disse que lá havia um médico inglês.

— Não sem deixar nenhuma mancha. Romances em Ebook . mas assentiu. Os nativos acreditam que foram mortos por um demônio. — Eles estão fechando El Golea e mandando Wembertin para casa. prendendo a respiração. ele caminhou por entre os arbustos de jasmim. — Oh. — A propósito. — Ótimo. Ware fitou-o com o olhar estranho. Ian permaneceu sentado sem se mover. A fome quase o deixava paralisado. até poder voltar para a Inglaterra.Susan Squires . Era uma esperança mínima. segurando a pequena faca. Ninguém a deteria agora. — E o que é pior. — Vou deixá-lo em paz. Ian franziu a testa. Ian sabia quem fizera aquilo. Cortou uma das artérias do animal com a pequena faca e sorvera o sangue. Uma caravana inteira foi deixada aos abutres a cem milhas em direção ao norte. Ou cedo. Levantou-se. Coisas terríveis estão acontecendo no deserto. Em seguida. — Uma caravana inteira? — perguntou. Os animais estavam mortos. mas possível. A noite estava viva e só ele podia ouvi-la. Não havia uma gota de sangue em seus corpos. deveria viajar com um grupo bem armado. Escondeu o casaco inglês e substituiu-o por uma capa. Tocando a testa em uma saudação.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — É verdade. sabendo que sua explicação não era nada convincente. Ian pensou que beber o sangue de uma vaca saciaria sua fome. Estavam brancos como sua camisa. ciente da graça que a nova força o conferia. Já é tarde. — Ware levantou-se. O plano havia falhado. O sangue podia ter se enterrado na areia — Ian disse. você se acostumará ao sol outra vez. — Quando termina seu turno de trabalho aqui? — Em alguns meses. — Ele sabia o que tinha a fazer após usar a faca naquela noite. — Por que pergunta? —Mantenha-se afastado do deserto. — A areia. já percebi sua preferência pela noite. Seu tempo estava findando. — Não foi minha escolha. é claro. Chegara a hora de saciar a fome com algo que o major Ware acharia repugnante. saiu escondido do alojamento. mas não profanados. — Ware fez uma carranca.

faria qualquer coisa para saciá-la. Mas poderia tê-lo feito. A verdade é que se transformara naquilo. Pior.. A luta pela sobrevivência era parte do que ela tinha feito. onde havia sido cortada. enquanto contraía o rosto em repulsa. — Uma tristeza imensa comprimia seu peito e o fez respirar com dificuldade. O tom de voz era incerto.. A tristeza se transformou em ira. Sugara o sangue do jovem vaqueiro. A cadeira estava virada. era chegada a hora certa. Esperava que. — Está morto. Ele abriu os olhos. — Até mesmo o último consolo me foi negado. Oh. Jenks e Evans pularam para trás. pois estaria tentando se redimir do maior dos pecados. Um pedaço de corda ainda balançava. Alguém segurava um de seus pulsos. ele notava sua palidez. Agora. sem dúvida seria o menor dos males. Encontrava-se deitado em um colchão no chão. no calor da tarde. enquanto todos descansavam. Estaria louco? Não. Ian subiu na cadeira. não precisara utilizar a pequena faca para abrir a artéria no pescoço do homem. havia herdado o mal! Existia apenas uma resposta. Romances em Ebook . — Rufford? — chamou.Susan Squires . Mas não teria descanso se não cortasse a corda que segurava o colchão em seu catre.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Mas vomitara-o em seguida. O olhar de Ian correu pelo quarto. Teve vontade de gritar de culpa e de terror pelo monstro que havia se tornado. Os sussurros dos homens que o cercavam se intensificou. Os homens se afastaram como se ele fosse atacá-los. Ele engoliu em seco. Cada fibra de seu corpo lutava contra o que queria fazer. Quando a fome apertava. O major Ware inclinou-se sobre ele. Era verdade que não matara o rapaz. E a fome o atacara impiedosamente até induzi-lo a fazer algo impensável. Ele parecia ter visto um fantasma. — Agora me lembro. — Ian ouviu a voz do major ao longe. Deus o perdoasse. Deus. Mesmo na penumbra do quarto. Precisou colocar uma das mãos sobre a própria boca para evitar a saída de qualquer som. escapou por pouco — disse o major. pobre homem. quando o fizesse. Porém. Sabia que o que estava preste a fazer era errado. Ian sentia o pescoço estranho. — Por que vocês estão assim? — Você. enquanto ele se sentava.

nem sobre que espécie de líquido havia no cantil. — Tornei-me meu maior inimigo. Brest e Portsmouth. — Não pode fazer nada de bom aqui. — O que aconteceu com você no deserto? — perguntou Ware. rumo a Porto Mahon. Jenny Fellows. A incerteza era visível em seu rosto. Gibraltar. Marinheiros corriam por todos os lados no convés e escalavam o cordame. meu amigo. O comboio seria escoltado por um dos barcos a vela de Sua Majestade até Lisboa. preparando-se para zarpar — disse Elizabeth num tom condescendente. Meu maior pesadelo. ou as marcas no corpo. embarcaram no navio mercante Beltrane. — Nenhum destes homens rudes parece saber como tratar uma dama. pois jamais o questionara sobre a escravidão. Vá. até porque nossas bagagens estão a caminho. Romances em Ebook . Apenas Ware ficou. que não podiam ser feitas. Tripoli. Fora vítima da morte inesperada do último marido. Pargutter e a criada. — A mulher estava na mesma situação de Elizabeth. Ele merecia uma resposta. — Tenho certeza de que logo nos darão atenção. Outubro de 1818. antes que o casal pudesse chegar a Nottingham. — Eu diria que estão muito ocupados. para proteger a embarcação do ataque de piratas. O major se levantou. Ian encarou-o por um longo momento. — Bem — disse a sra. Agora saia. para seu próprio bem. Pargutter com os enormes seios. um comerciante de azeitonas e óleos entre os portos do Mediterrâneo. O sol se punha por trás da pontiaguda floresta de mastros pretos no porto de Tripoli. onde viviam.Susan Squires . Os rumores que vinham do pavimento inferior davam conta de que enfrentariam mares hostis. — Vou partir amanhã — Ian anunciou. Perguntas tão assustadoras. quando Elizabeth. a sra. despontando sob as vestes enlutadas.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Saiam todos daqui! O que estão olhando? Eles desapareceram como uma névoa evapora sob o sol. Ware encaminhou-se até a porta. deitando-se outra vez. Estava decidindo se deveria sair de perto de um homem que acabara de tentar cometer suicídio. Ian podia sentir a interrogação em seu olhar. — Você também — berrou.

senhoras — uma voz estridente as chamou. impaciente atrás dela. com enormes botões metálicos ao longo do tórax. bem. sr. um dos homens correu pelo cordame e o escalou como um rato. Mas o que poderia esperar da sra. Pargutter seguiu o rapaz. deparando-se com um homem corpulento. Severn. murmurou: — Maldição! Onde estará ele? Nesse instante. mas a sra. — Talvez queiram ir para suas cabines? — Sim. levem estas malas para as cabines da frente. porque nunca gostei de viajar. sentiu-se feliz por Jenny estar ali para arcar com o fardo. nem parece humano! — Fique tranquila. — Ela bateu de leve na mão da mulher. sim. madame — replicou o comandante. Fellows. Elizabeth estava acostumada com tal comportamento. Pargutter? De repente. o oficial se curvou em uma mesura. — O homem chamou os marinheiros mais próximos. Sou o comandante Tindly—dizendo isso.—A sra. — Sr. — Não vou perder a maré. Tenho uma provisão de láudano na bagagem. — Seu criado.Susan Squires . Elizabeth não as acompanhou. — Bem-vindas ao Beltrane. — Não assim! Isso é totalmente bestial! Além do mais. — Levantaremos âncora com o pôr-do-sol. — Droga! Juro que o deixarei para trás — resmungou o comandante. o mar me deixa enjoada. inspecionando a sua volta. Rochewell e permita-me apresentar a sra.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Bem. já viu marinheiros em ação em sua outra viagem. O marinheiro surgiu com as malas. — Viu isso. com Jenny em seu encalço. Pargutter e sua acompanhante. Pargutter deixou escapar um pequeno grito e segurou-a pelo braço. o melhor navio mercante do Mediterrâneo e a casa das senhoras durante algumas semanas se a brisa cooperar. o começo da viagem não tinha sido tão animador. — Sou a srta. Elizabeth suspirou. Elizabeth e a sra. a srta. — Por certo. — Preciso de um pequeno revigorante. minha querida? Santo Deus. — Posso observar a partida se permanecer encostada à parede do tombadilho sem atrapalhá-lo? Romances em Ebook . Rápido! — Ele se virou e. que andava meio desequilibrado. Pargutter se viraram. trajando um fino casaco azul-escuro. passei a viagem inteira em minha cabine. Cobb.

Uma mala içada por um guincho balançou junto à lateral do navio e pousou sobre o convés principal. La fora. um barco golpeou a lateral do navio. afastando-se do ancoradouro. Ian Rufford. ela reparou que seus olhos eram azuis. nariz aquilino e maxilar quadrado que conferiam uma beleza singular àquele homem alto e vigoroso. irritado. Elizabeth podia sentir o poder que emanava do recémchegado. Os cabelos castanho claros estavam presos para trás como costumavam fazer os ingleses que conhecia. depois seu. satisfeito por sua preocupação em não incomodá-lo. — Acabei me atrasando em um jantar. A boca do porto se abriu diante do olhar entristecido de Elizabeth. Elizabeth viu um rosto de sobrancelhas espessas. — Estávamos quase partindo sem você. do sonho agonizante que fora de seu pai e. Romances em Ebook . sr. mas estava certa de que ele não a tinha visto. Mas isso não foi o que mais a surpreendeu. As luzes do porto enfraqueceram e se distanciaram. Os cabelos compridos se agitaram com o vento. Rufford! — exclamou o capitão. Quando o capitão curvou-se para cumprimentá-lo. — Por que demorou tanto. da liberdade. Que homem olharia para uma moça tão sem atrativos? Os cabos foram içados. resolveu retornar à cabine. homem? — reclamou o comandante. A dor que espelhavam era algo terrível de se constatar. O passageiro. Ele tinha um par de ombros largos e coxas bem torneadas. — O barco de passageiros está se aproximando! — gritou um dos marinheiros. mesmo porque foi a boca carnuda e sensual que mais chamou sua atenção. na crescente escuridão do crepúsculo. De onde estava não conseguiu ver os olhos. Fixou o olhar nela. Agarrandose ao parapeito. — A voz do passageiro soou como um ribombar potente naquele tórax volumoso. como fora chamado. pegou sua mala. Ao passar por Elizabeth. As luzes de Tripoli piscaram na negritude crescente e começaram a se esvanecer. Mesmo distante. O navio oscilou lentamente.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Fique perto daquela porta. — Bem a tempo. Uma figura alta pulou no deque. O comandante começou a gritar ordens para iniciarem a viagem. — O oficial sorriu.Susan Squires . Jamais se sentira tão só. Aquela era a última visão da África.

— Muito prazer. Romances em Ebook . cumprimentando-a. Sentiu-se como uma intrusa. baixou os punhos da camisa e acenou com a cabeça. — Com essas palavras. vislumbrou algo ao redor dos pulsos que não conseguiu identificar. senhorita. espionando-o. pareceu não vê-la. Ele se virou. Constrangido. Ao lado dele. Eram pulseiras? Não. agarrou-se ao parapeito para se firmar. Elizabeth teve consciência de sua baixa estatura. não. se desviasse teria que atravessar o convés. Agora. Elizabeth respirou fundo e pensou que evitá-lo seria impossível. Então. já que passariam semanas como dois dos quatro passageiros do navio cargueiro. Seus pensamentos. por certo. Ele se endireitou. Elizabeth podia simplesmente correr para a escada.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) No caminho. preparou-se para pegar a corda presa à parede do tombadilho. De início. — O que traz alguém como a senhorita a Tripoli? — A voz máscula soou indiferente. Algumas mechas dos cabelos castanho-dourados haviam escapado da pequena tira que os prendia e esvoaçavam ao vento. virou-se. O homem parecia tranquilo com o balanço do navio. — Elizabeth Rochewell — gritou. sua expressão tornou-se vazia. repousavam em algo desagradável. o que não ousaria.Susan Squires . Quando se aproximou mais. Com esse pensamento. Seria um comportamento impróprio ficar e conversar com um homem sem se apresentar. Será que ele podia ver sua cútis morena sob a luz ténue dos lampiões? Por certo. sem esperar resposta. decidiu conhecê-lo. apoiado na amurada. Contudo quando ele a percebeu. surpreso por sua coragem. Cicatrizes. Ian. viu o outro passageiro. Os olhos azuis a perscrutaram como se ele soubesse algum segredo seu. A combinação e a intensidade de emoções que turvavam aqueles olhos era algo que jamais vira no semblante de um homem: revolta. desejo e talvez até mesmo medo. contemplando o mar. Um aceno cortês seria o suficiente. Ian Rufford. Seu casaco era azulescuro como o índigo do céu e o mar encrespado atrás dele. encobrindo aquelas emoções de um modo mais determinado. Ele estava postado bem no seu caminho. bem próxima. Ele a fitou. uma vez que o mar estava mais agitado e o balançar do navio era mais evidente.

Veja a cidade perdida de Petra. Elizabeth enviou-lhe um relance furtivo. sobre nossa origem e o que a nossa espécie foi. Bem. lembrando-se das cicatrizes. Foi uma descoberta muito importante. Será que ele fora um prisioneiro?. Mas não pôde resistir a humilhá-lo com palavras de uma natureza mais reveladora. se tornou um tesouro de cultura. o que é isso? — Sua curiosidade fora aguçada. — repetiu ela. Os lábios sensuais se curvaram num sorriso breve e zombeteiro. Rufford. — Não vai entender muito. srta. — Então.. — Oh. A rudeza daquele homem merecia que lhe desse as costas. agora todos os aristocratas entediados estão vagando pelo deserto à procura de algum significado para suas vidas. determinada a não deixar transparecer a raiva que sentia.. — Não foi uma descoberta obscura. sr. Estive muito ocupado durante os últimos dois anos. — Procurando conhecimento. Romances em Ebook . — Sim. — O deserto guarda muitos segredos. procurando tesouros como lorde Elgin? Elizabeth evitou fitá-lo. que agora os rodeavam.fazia parte de uma expedição arqueológica no deserto. — Petra. Em vez disso. Ele a contemplou mais uma vez. Descoberta há sete anos na Palestina. ou não? Ian não respondeu de pronto. observando os navios da escolta.. — Ela fez uma pausa. — Descobri que todas as suposições existentes sobre a idade da Esfinge no Egito estavam erradas. observou-a mais uma vez. perguntou-se curiosa.. enquanto se virava para contemplar o mar. Descobriu alguma coisa importante. que poderiam deixar transparecer a afronta que sentia... com o pai.Susan Squires . — E pensou que acharia isso nos desertos estéreis do norte da África.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Alguém como eu. Não confiava nos próprios olhos. Foi manchete em todos os jornais. até mesmo as mulheres. se nunca ouviu falar de Petra. que nos deu mais de dois mil anos de história. Sem tempo para ler noticiários sobre descobertas arqueológicas. Ian estava novamente apoiado sobre a amurada. — Já ouviu falar da Esfinge. Aquele homem não parecia muito interessado em mulheres ou pelo menos mulheres como ela — . A aura de perigo que rondava assumira uma forma mais palpável. Rochewell? Elizabeth suprimiu um suspiro.

— Dez mil anos. Ian pegava as coisas no ar. A terra muda. pelo menos. — Gostaria de conhecer seu pai. Um tempo muito remoto. Parece ser um tipo interessante. — Tem razão. são os mistérios do continente. Eles deixam padrões muito diferentes nos objetos que corroem. pensou. — Água no meio do deserto? E não estaríamos falando de inundações a partir do Nilo. E nem sabia quanto. Mas então quem poderia ter..Susan Squires . Achei que poderíamos utilizar a erosão para datar as coisas. — Sim. Oceanos surgem e desaparecem. Erradas. quando estava dando uma olhada nos fenómenos geológicos ao redor de Petra e como esses desfiladeiros foram parar ali. de certo modo. Interessei-me pelos padrões de erosão. — E isso não é verdade? — Foi corroída por água. — De que modo? — A erosão se apresenta de várias maneiras: aquela formada pelo vento e a outra do tipo formado pelo gotejar da água. Romances em Ebook .O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Erradas? — Ele deixou sua descrença fluir pelo ar com um pouco de escárnio. Quer dizer que choveu na Esfinge? Impossível. Ian franziu o cenho. Todos pensavam que a Esfinge contava com três ou quatro mil anos de idade e que havia sofrido erosão pelos ventos e as areias do deserto. — Ah. buscando apoio na amurada para se equilibrar. sr. Mas pense em termos de tempo geológico. Montanhas se erguem e se extinguem. — Há quanto tempo? — Uns dez mil anos.. Não creio que a cabeça seja mesmo original. Elizabeth virou-se e o encarou. Rufford. Choveu na Esfinge durante séculos. Era mais perspicaz que a maioria dos homens. — O senhor está pensando no Egito como o conhecemos hoje. bem maiores do que eu e o senhor podemos imaginar. — Feito isso? — Elizabeth concluiu a pergunta. O padrão de desgaste está bastante claro. Elizabeth sorriu. E foi isso que fiz. — Ela o havia ferido. Deve ter havido um tempo em que o deserto era úmido. Deve ter notado o quanto é pequena e muito mais preservada que as partes inferiores. Foi alterada.

— Oh. — Estava com uma delegação britânica em El Golea. — A voz grave soou sincera. senhor. com a expressão fechada. Meu pai morreu antes do início da expedição. Kivala. Zombava e se desculpava logo em seguida. esperando evitar a Romances em Ebook . — O que quer dizer? — Aquele homem não podia estar dizendo que tivera sorte pelo pai ter morrido.. — Acredito que haja mais coisas no deserto do que podemos imaginar. em particular. — Tinha falado demais. Em que estranha criatura havia se transformado. — Eu também. — Elizabeth queria fazer mais perguntas. — Então tiveram sorte — sentenciou ele. — Sinto muito. que ele fosse um foragido da prisão. Durante as quatro últimas noites. para ser apenas um sinal de uma embarcação! — berrou o oficial. Ian deveria ter percebido pelas roupas de luto que usava o quanto havia sido indiscreta a sua observação. A perda que a abalara tão recentemente pesou sobre seus ombros. Ele a contemplou com intensidade. antes de subir a bordo. parecendo esconder algo. — Parece muito forte. Ian havia tomado cautelosos goles da terrível substância que agora precisava.. — Meu pai e eu estávamos organizando uma expedição a Bi'er Tegheri a fim de procurar a cidade-irmã de Petra. — E acharam? — Medo e horror flamejaram nos olhos azuis. Quando Elizabeth virou-se. percebeu que o passageiro misterioso havia desaparecido. — E o senhor? O que fazia em Tripoli? Ian hesitou. — Preparem-se para subir ao topo. é perigosa — respondeu apressado. Aquela área. ostentando conhecimento como uma literata. pensou ele. Em um segundo o navio foi tomado por um grande movimento. Durante alguns segundos. mas justo naquele momento o comandante Tindly apareceu no tombadilho. um silêncio constrangedor abateu-se sobre os dois. a menos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Elizabeth engoliu em seco. determinada a impressionar e disfarçar sua tristeza. Não era uma pergunta difícil. atraindo a atenção dos dois.Susan Squires . que repousa em algum lugar. sob as areias do deserto. Ele morreu há mais de um mês. — É muito tarde para isso. é claro. — Não.

Por todos os lugares. sem endereço e de aparência esquisita. Os que podiam ficar de pé ficavam. casaco. Os que não podiam.. cinto. colete. frutas maduras e carne exposta às moscas havia vários dias. enquanto o golpeava com suas teorias preciosas. algumas com as faces tão cobertas quanto os corpos. tropeçando. Seus pensamentos voltaram à estranha jovem que havia ficado tão brava quando ele duvidou de sua extravagante teoria sobre a Esfinge. Um homem barbudo atarracado. Algumas eram exibidas nuas. Tudo que pôde conseguir foi apenas um pouco de cada uma das vítimas. relógio de bolso. Era um mau presságio em qualquer viagem. Foi tudo tão rápido que mal teve tempo para sentir vergonha. O guardião tinha dividido o grupo em lotes individuais. anel de sinete e até mesmo as meias. Uma literata. Ian se viu empurrado.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) necessidade que o afligia. Então vieram as primeiras de muitas faixas ao redor de seus pulsos. Precisava fazer o que devia ser feito em terra firme. para suprir a fome bestial em suas entranhas. cercado por gritos e cores girando. não nos estreitos e movimentados confins do navio. em meio a um círculo empoeirado. Não se preocupou em baixar os punhos da camisa. Ficou rubro de vergonha ao se lembrar das criaturas sujas que lhe tiravam tudo. apoiando um dos pés sobre uma rede e contemplou o mar. fora jogado na cela junto com outros corpos sãos. Não foi difícil perceber a carapaça que recobria a incerteza que pairava sobre ela. o cheiro de suor humano e medo se misturavam ao odor de temperos aromáticos. Um ou dois cortes ainda o qualificavam como saudável. Mulheres. O mercado de escravos era ainda mais frenético do que o próprio bazar. Ficou surpreso por ela ser inglesa com aqueles traços tão diferentes.. Curvou-se na amurada. A necessidade aumentava duas semanas após ter se alimentado. O sol incidia impiedoso sobre suas cabeças.Susan Squires . lançou uma corda sobre o Romances em Ebook . camisa. não havia ninguém para vê-las. Usando apenas cuecas... Ian encarou as cicatrizes ao redor dos pulsos. queimando os corpos pálidos e ensopados de água. taganelando na sua direção. Fora com um tempo assim que o seu navio tinha ido parar na Barbaria dois anos atrás. A água suja na parte inferior do navio tinha a profundidade de um metro. Grupos de homens negros com suas peles de ébano reluzentes encontravam-se jogados sobre o solo poeirento. Comerciantes anunciavam as virtudes das mercadorias humanas. amontoavam-se umas sobre as outras. botas. O que estaria indo fazer na Inglaterra? O mar estava calmo e os ventos fracos.

Sua respiração acalmou. inspirando a brisa fresca do Mediterrâneo na escuridão da noite. entreter-se com ocupações triviais. Graças aos diamantes. enquanto tropeçava atrás dos camelos. horrorizado. Um chicote erguido castigando suas costas. mas as lembranças insistiam em voltar. sem sacrificar sua alma imortal e se tornar como ela. igualmente carregados. Fora vendido como um burro de carga a uma caravana. Ian dispersou os pensamentos. acenou com a cabeça.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) seu pescoço. poderia escapar da África e de tudo que havia lá. a Inglaterra de Henry e sua família. Tentaria se concentrar no futuro na normalidade brilhante da Inglaterra. Havia médicos mais conceituados na Inglaterra. Ouviu o rangido de madeira. Pensaria em uma Inglaterra que ostentava as mentes médicas mais valiosas. então teria que ceder de alguma maneira às suas necessidades. empurrando-o através da multidão barulhenta. sob o inflexível e torturante sol do Saara.Susan Squires . Não pensaria no que se seguiu. Ergueu-se da estreita cama. Se não houvesse meios de reversão. Ninguém precisava saber sobre o seu segredo vergonhoso. Elizabeth acordou na manhã seguinte e percebeu que o navio seguia o seu curso normal. E ainda levar uma vida corriqueira. O caos de Londres seria a melhor oportunidade para a obscuridade e uma vida segura. Poderia evitar as mulheres. Jamais colocaria os pés naquela costa novamente. apesar daquela aberração. E se não houvesse caminho de volta? Estremeceu com uma repugnância de abalar a alma. aconselhando-o a consultar um médico especializado em histeria. Se pelo menos pudesse superar a falta de esperança. Provavelmente. teria bastante dinheiro para desfrutar Londres como nunca fizera antes. Ainda poderia se livrar da criatura abominável em que havia se transformado. a dor da pele lanhada e sangrando sob as cordas que mantinham seu gigantesco fardo preso. Mais tarde recebera uma missiva. Não devia se desesperar. O médico inglês em Tripoli não havia sido de grande valia. graças a sua constituição avantajada. Retiraria um pouco do que precisava da abundância de gente na grande metrópole pecadora. o pusera para fora do consultório. Tinha se sentido ferido e irritado. uma figura alta oculta por um capuz usado pelos árabes. O homem forte lhe disse algo e então puxou a corda. espiou através da escotilha e avistou várias Romances em Ebook . Histeria era um eufemismo para substituir a palavra loucura. O doutor. Acima de tudo. Não devia divagar sobre aquele tempo. o ruído de uma corda e a água de encontro ao casco do navio. Quem era o homem que estudava o sangue? Blundell? Quem sabe pudesse ajudá-lo. No fundo.

sozinha na grande cabine de popa. Como sentia falta dos dias ocupados com as expedições do pai. a determinação. sempre com a esperança da próxima descoberta para satisfazer sua curiosidade por coisas estranhas e raras. precisava se esforçar para interagir com as pessoas que a cercavam. Aquela era uma parte do mistério de Ian. E por que crime teria sido condenado. taciturno e rude. Era o horror. O peso da perda do pai abateu sobre seu corpo frágil. Romances em Ebook . o cinismo e a sinceridade daquele estranho que incitavam seus pensamentos. começava a escurecer lentamente. que misturadas remetiam à cor de uma ametista. Os livros e os próprios pensamentos eram seus únicos companheiros na minúscula cabine. A cor do mar era um espetáculo à parte. enquanto ela contemplava dois navios de escolta que navegavam à frente. Por que ele a atraía tanto? Não podia negar que a curiosidade se transformara quase que de imediato em fascínio. impulsionando-a a descobrir mais. * * * O dia havia sido longo. Como o sol havia se posto alguns minutos atrás. desde então estava distante de si mesma e do mundo. como acontecera durante longas horas aquela noite. emprestara às águas parte de suas cores. Sentia-se deslocada. E agora. A maneira de ser de Ian deveria estar relacionada com aquelas cicatrizes nos pulsos.Susan Squires . voltou a se deitar. oferecido pelo comandante. com suas magníficas velas brancas sob o azul do céu do Mediterrâneo. uma estranha naquele navio.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) outras embarcações da escolta ao redor do Beltrane. Com o movimento oscilatório das ondas embalando seu corpo. A dor que seus olhos exibiam mantinha todos a distância. Os pensamentos mais uma vez se dirigiram ao estranho passageiro. Quem sabe não havia sido um prisioneiro? Imaginou quais seriam as razões pelas quais supostamente teria sido preso e se pelos britânicos ou franceses. Tinha se acostumado a conversar com homens que possuíam idéiass e opiniões e sabiam ouvi-la. Às vezes. qual seria o obje-tivo de sua vida? Tomou chá. O céu visto através das grandes janelas. Mas não eram apenas as cicatrizes ou o fato de alguém tê-lo feito prisioneiro. Ele era o oposto do cavalheiro bem qualificado.

voltar o olhar para o convés e depois para ela.. espero que continuemos a deslizar sobre mares tranquilos cedo ou tarde.. deu uma olhada nas embarcações ao redor. — Tudo bem espero? O comboio navega prosperamente? — Sim. Foi o suficiente para que sentisse o rosto corar.. Tinha a barba bem-feita e os cabelos presos para trás. surgiu a sombra do mais intrigante dos passageiros. Ela o viu estudar a posição das outras embarcações.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ainda tinha escolhas. Mas. Elizabeth deu voltas à imaginação para encontrar um modo de mantê-lo falando. Romances em Ebook . — Há sempre a possibilidade de sermos atacados por piratas locais. Simplesmente.. Não ostentava nenhum relógio de bolso ou anéis de sinete. Não mostrou-se inclinado a continuar conversando.—A hesitação proposital foi para demonstrar falso desinteresse. Nenhum pirata ousaria nos atacar. — Srta. Ian não a contradisse. naquele momento. Fiquei sabendo que se acovardam quando há navios de carga envolvidos.. Rochewell. caminhando sob a luz difusa do crepúsculo no Mediterrâneo. — Contamos com uma embarcação da Marinha Real para nos proteger. Jurou a si mesma interagir com o mundo ao seu redor. Até mesmo os marinheiros ocupados sentiram aquela presença marcante.. O belo espécime masculino caminhou decidido em sua direção e se curvou em uma mesura. — Certo. — A voz grave se elevou. Por que não? — Oh. repudiando os medos de Ian. Elizabeth riu. Aquele homem parecia exalar poder. se o barco do comandante lutar de verdade. Pargutter. determinada a fazer companhia para a sra. dirigiu-se ao convés principal. energia. Rufford..—Pareceu ter dificuldades para lembrar-se do seu nome. Em seguida. O que não a surpreendeu.. Erguendo-se da mesa. Usava um casaco preto e calças amarelas. — Quem é mais competente que a Marinha Real? Eles regem as águas. embora receasse não se ajustar mais a lugar algum. fitando-a com um ar especulativo. Ele fitou o mar novamente. Que nome poderia dar àquilo? Carisma. — A amargura daquela voz estava de volta. silenciosas e distantes.Susan Squires . — Sr.

— O senhor roubou. Quero ver se é capaz de jogar de verdade.. A começar pelos braços fortes. — Vi um tabuleiro de xadrez na cabine de popa. Elizabeth reuniu coragem. ele a encarou. Ele assentiu com a cabeça e conferiu o relógio. Elizabeth foi capaz. Contudo. Jogaram em silêncio durante algum tempo. Uma possibilidade. — A senhorita joga? — perguntou. emoldurados pelo casaco em pregas sobre os músculos bem definidos. senhor. Ian fez uma jogada que abriu espaço para que ela movimentasse a rainha livremente.. Segundos se passaram enquanto decidia o que fazer. sua atenção voltava-se toda para o físico másculo daquele homem misterioso.Susan Squires . O jogo continuou com certa tensão... — Então vamos nos refugiar na cabine de popa. montando uma estratégia para um possível contra-ataque. Não está gostando muito da viagem? Ele a encarou com um olhar penetrante. — Ah. Vai jantar com o comandante? Receio que ficará faminto. ela estudou o tabuleiro. Ambos colecionaram peças adversárias capturadas como se fossem preciosidades. — A noite combina mais com o meu temperamento. sobre a rainha Elizabeth.. — Pare! — disse ela. porque toda sua vida jogara com o pai para passar o tempo naquelas longas noites equatoriais. Ele moveu o rei. — Um pouco. ela desejou encontrar algum assunto que fosse de interesse mútuo.. — Ainda temos algum tempo — observou ele parecendo consciente. Por várias vezes. O ambiente pesou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Ficou o dia inteiro na cabine. Com cuidado. embora precoce. prendendo a respiração. curioso. De repente. Faltavam duas horas para a comida ser servida. — Percebo que joga da maneira mais clássica. Por fim. como se considerasse a possibilidade de uma proposta. se perder a hora do jantar. — retrucou ele. movendo o cavalo em um ataque perigoso. Um breve sorriso curvou os lábios sedutores de Ian. Ele respirou fundo e pausou. Romances em Ebook .

— A Inglaterra. — Talvez eu preferisse fazer minha própria escolha — disse ela. — Elizabeth tinha consciência de que não era uma mulher atraente. A luz do lampião oscilava. — Talvez. O que ele estava querendo dizer?. Ele se ergueu.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Mas não ganhei. — A Inglaterra—repetiu ela. fingindo não notá-lo sem-graça. — Eu. — É uma mulher diferente. Rochewell. Elizabeth percebeu. — Posso oferecer uma limonada antes do jantar? — Um conhaque para mim e um vinho para a senhorita — respondeu Ian. Atrás dele. dentre todas as pessoas. Ian a fitou com um desejo que chegava a ser doloroso. Redding. Feliz ou infelizmente Redding retornou com as bebidas. O que havia Romances em Ebook . O silêncio pairou constrangedor na sala. Mesmo estando de costas. — Desculpe-me — murmurou ele em um tom de voz sensual e desviou o olhar. podia sentir o calor daquele olhar estudando-a por inteiro.Susan Squires . com bem menos entusiasmo.. colocando as peças na caixa. não tenho direito de chamar os outros de diferente. srta. Rochewell. srta. Ian recostou-se na cadeira. fascinada. — Ele afastou o peito da mesa.. deixando claro que já esperava por aquilo. propondo um brinde. E foi o suficiente para sentir o rosto corar. o esforço valoroso que ele fazia para se manter indiferente. como se pretendesse fugir. contemplando o tabuleiro mais uma vez como se buscasse uma alternativa. sombreando o belo físico. o rapaz da cozinha. e a uma viagem bem rápida — disse. Redding curvou a cabeça e partiu. olhou para os dois. perguntou-se Elizabeth. Ao voltar surpreendeu-o e sua reação imediata foi baixar o olhar. Mas ser diferente trazia conotações boas e más. — Bem. — Então. — Onde mora? — perguntou Ian. talvez sejamos iguais em nossas diferenças. — Teremos oportunidade de uma revanche durante a viagem? — Se estiver interessado.. — Não — concordou Elizabeth..

mas era tão distraído que. — Minhas condolências. — O que quer dizer? — Ele pôs os braços sobre a mesa para brincar com o copo de vinho. — Ele bebeu um gole de vinho. Meu irmão também se surpreenderá com a minha chegada. — Mulheres podem gerir suas próprias vidas. Suas mãos estavam a centímetros das dela e a atraíam como um ímã. menos na Inglaterra. — Eu. seria útil em qualquer lugar. não é necessário. Enviei uma carta avisando que iria. A independência que adquiri. — Então. Romances em Ebook . acredite-me. Ian ergueu as sobrancelhas.. — O marido controla a fortuna da esposa e seus bens.. aqui na Inglaterra parece que ninguém permite que as mulheres possam se sustentar sozinhas. Se não se controlasse. aguardando por uma resposta. através das grandes janelas de vidro. era capaz de despertar os seus mais íntimos desejos. Não. — Oh..O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) naquele homem que o tornava tão. acabaria tocando-o. — O velho autocrata aterrorizou a família e destruiu a propriedade com seu vício de jogar. se esquecia de prover meu sustento. estou pensando em algo mais direto. O meu me amava. Meu único consolo é que aos quinze anos fui forçada a insistir que ele me levasse com ele. por ser o homem mais bonito que conhecera. hesitante. Estou a caminho da casa de uma tia em Londres. — Apenas. imagino que também deve ter perdido seu pai — disse ela. organizando suas expedições. — Ou conseguindo que um homem o permita por meio de uma procuração — protestou ela.. Espero chegar depois da carta. assim ela poderá fingir uma boa acolhida. O olhar de Ian ficou perdido nas águas escuras do mar. eu não tenho uma residência fixa na Inglaterra.. — E o senhor? Para onde está indo? — Talvez para Sufíblk. — Os pais podem ser complicados. As mensalidades da minha escola quase sempre eram pagas com atraso. sem contar que.Susan Squires . atraente? Era possível sentir sua forte presença por meio do perfume que ele deixava no ar por onde passava. desde que esteja determinado em um contrato de casamento... em direção aos lampiões dos outros navios que subiam e desciam com o movimento das ondas. às vezes. e outros hábitos..

— Considerou se ousaria dizer aquela palavra tão bem cantada em verso e prosa. concluiu: — . não tem com que se preocupar. geologia e árabe. chamando a tripulação para o jantar.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Diz arrumando um emprego de governanta? Elizabeth exalou um suspiro. quando ele faleceu. — Sorriu saudosa. já estava refeito.. __ Talvez sua tia a ajude a conseguir um bom marido. até mesmo todos esses contos de vampiros e antigos demônios. acumularam-se em seus olhos. __ Espero que encontre escolhas mais agradáveis. — Podemos ir? — perguntou. respirou fundo e deixou escapar uma imprecação. Eu estava considerando a possibilidade de oferecer uma parte dessa importância para financiar sua próxima expedição. __ A senhorita deveria mudar seus planos. no entanto parecia reprimida diante daquele homem. __ Deve haver alguém que respeite minha independência. Romances em Ebook .. Ian franziu o cenho. — Espero não ter que recorrer a um emprego. A face de Ian se contorceu em horror.. Estávamos no caminho certo quando meu pai. em Túnis que acho que pertenceu a Kivala. Quando a fitou novamente.. — Minha contribuição teria sido um pequeno sacrifício. muito velho. __ Improvável.amar. __Meu pai depositou dinheiro em meu nome no consulado. atestados.. Apenas uma leve rouquidão carregava a angústia que ela havia testemunhado segundos antes. Irritado.. Mesmo assim. Jamais me casarei com um homem que não possa respeitar. Sei que poderíamos tê-la encontrado. Ergueu-se tão depressa. consciente do olhar de Ian. Ele queria encontrar a Cidade Perdida mais do que qualquer coisa na vida. Ian foi salvo pelo toque da corneta. — De repente as lágrimas não choradas até então. — Então. que acabou batendo com a cabeça em uma viga de madeira. — O senhor não imagina como esse sonho era importante para o meu pai. Aquela cidade é maldita. ou até mesmo. que. Quase ninguém quer que seus filhos aprendam arqueologia. Conheci um sacerdote muçulmano.Susan Squires . — Colecionei mapas. __ O que houve? — perguntou ela preocupada. __ Assim diz o folclore — concordou ávida. — Ela saboreou um gole do Madeira.

portanto. Por essa razão havia impermeabilizado suas emoções.. agora já bem distante da costa. Jamais permitiria que uma mulher o dominasse novamente. Teria dito alguma coisa que o tivesse provocado? Ian se recostou na amurada. Contudo. caminhou um pouco desequilibrado ao longo do convés principal em direção aos degraus da escada em espiral. acerca das lendas de um demônio do deserto? O jantar com os oficiais evitara qualquer pergunta curiosa..Susan Squires . ele sabia que aquele charme especial não seria apreciado na Inglaterra. Não era bonita de uma forma convencional. enquanto o irmão procurava consolo em outros braços femininos. Talvez ao chegar à Inglaterra encontrasse Mary grávida.. ao mesmo tempo em que a esposa garantia a perpetuação da família gerando filhos. Seria o fato de ser original? Que mulher havia conhecido que sabia jogar xadrez e falava turco? Ou eram suas atitudes que remetiam a uma inconsciente liberdade? Fosse o que fosse. bem diferente do praticado nos salões de Londres. Elizabeth falava turco fluentemente. significava que seus segredos não estavam seguros. Henry e sua Mary. E havia algo mais em sua fisionomia que o deixava confuso. se não tudo. preocupou-se com a estranha reação. era uma mulher. A imortalidade.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Elizabeth assentiu com a cabeça. caindo em uma cascata branca em contraste com a negritude do casco. Romances em Ebook . Deixaria que seus pensamentos fluíssem com o vento.. As ondas quebravam na lateral do navio. Danem-se os olhos dela! Por que tinha que estar confinado em um navio com uma das poucas pessoas inglesas que sabia algo. O fato de Elizabeth ser inteligente e até mesmo conhecer Kivala por nome. não merecedora de confiança. pensou no irmão. mais uma vez observando as luzes no navio. Se ao menos fosse possível manter as primeiras tênues promessas de felicidade e a harmonia inicial ao longo dos anos. Contemplou as águas mais uma vez. e assim foi possível avaliá-la com mais critério. Era naturalmente atenciosa com a tripulação. Aqueles olhos verdes fulvos eram magníficos e conferiam um ar exótico ao rosto delicado. Afastando-se da amurada. Acima de tudo. exibindo inclusive certo traquejo social. Então. Sabia de vários casamentos onde a situação se invertera com o correr dos anos. e deixava transparecer a ciência do fato.

O nariz longo e reto. Romances em Ebook . Lampiões chamejavam na bonita tenda. o bastante para se comunicar com o negro e o francês. podia ser vista através da saia cor de laranja translúcida. Como conseguira sobreviver à marcha do mercado de escravos na Argélia até aquela extensão remota do deserto. os cabrestos de corda coloridos e brilhantes eram providos com borlas oscilantes para manter as moscas afastadas de seus olhos. Homens em albornozes listrados e lisos caminhavam entre as bestas. lábios cheios em uma boca pequena. Quando o crepúsculo se aprofundou. uma vez que os escravos apanhavam se falassem uns com os outros. Nada mais natural. a caravana começou a murmurar. mas de nada valia. um francês. Ian falava francês muito bem. impelido por um grito em um idioma que não entendia e pelo estalar do chicote em seu dorso nu.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) A caravana se reuniu na extremidade do deserto. Quando o sol se pôs no horizonte. com músculos bem delineados e belas feições. Suas costas estavam em carne viva por conta das chicotadas. As moscas infestavam o ar. todos seminus como ele. O rosto era hipnotizante. Estava preso com uma corda de linho áspera que o ligava ao pescoço de outros cinco. Uma manta áspera era atirada sobre eles nas piores partes do dia. fora amarrado na mesma fileira que ele. altos. Ian pôde ver uma forma se movendo no interior. Apenas outro europeu. Ian chocou-se contra o grupo. à luz difusa. olhares fixos vindos de todas as partes do acampamento da caravana se concentraram naquelas formas curvilíneas. Mas o ponto alto de suas feições eram os olhos. Era permitido aos escravos beber água e dormir em intervalos regulares. O restante era árabe e um homem negro enorme. Caminhava com as ancas quase de fora e apele branca e suave das pernas esguias. Tinha um queixo delicado. quando o calor se tornava escaldante. a borda da tenda foi erguida e uma mulher emergiu. Havia ganhado um par de sandálias para proteger os pés.Susan Squires . não sabia dizer. provocando um colar de sangue. pontudo. delirando e com uma infecção no ombro. Estava queimado pelo sol. Imediatamente. Havia dias vinha tropeçando. Pretos. A zurraria dos camelos deitados na areia podia ser ouvida por toda parte. Os fardos empilhados ao lado dos animais. A corda em seu pescoço machucava as peles suadas. Os seis escravos eram todos excelentes espécimes masculinos. aberta nas laterais. uma forma feminina particularmente flexível. até onde ele conseguiu visualizar. Ian jamais vira pernas tão bem-feitas.

Ele lutou para ficar de pé e o homem ordenou que os outros fizessem o mesmo. a caravana despertou. Em tom quase musical. O guardião o golpeou na cabeça com um garrote e depois acertou seus joelhos. A majestosa mulher fez uma pergunta ao menino. encostando suas frontes na areia. que lhe deu uma resposta afirmativa e voltou a se aproximar. O árabe alto gesticulou para aqueles que seguravam as estacas onde os escravos novos haviam sido amarrados e sussurrou algo ao ouvido da mulher. Os outros tomando de exemplo as consequências da sua explosão. Camelos e escravos foram carregados. Um cheiro adocicado misturado com outra essência invadiu os sentidos de Ian. Por certo. falou com o guardião. respeitando as instruções e apertou seus testículos. um dos meninos se aproximou dos escravos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Havia uma aura vibrante ao seu redor. incluindo um dos árabes do grupo dele. A figura alta. em defesa. até deixá-los nus diante da mulher. o homem ainda o chutou nas costelas. aparentemente para confirmar se eram eunucos.Susan Squires . o que o fez se curvar. Romances em Ebook . A insolência fria do olhar deixava claro que era ela a dona do poder. O menino deu um passo à frente. Os homens se curvaram diante da beldade. com o capuz afastado. Ian pôde ver os pés femininos com as unhas dos dedos pintadas com opalescência delicada. Quando a lua ia alta no céu. A mulher conversou alto com o árabe alto e em seguida apontou para seis dos escravos. Desejou saber se ainda seria capaz de corar depois de tudo que havia suportado nas últimas semanas. A pulseira de ferro. o negro e Ian. Não era um escravo. de forma que brilhavam até mesmo no crepúsculo. testando cada homem. Resmungando. Ian foi equipado com um enorme pacote: uma estrutura de madeira amarrada com ásperas correias de cânhamo sobre seus ombros. agora. Ian deu um berro e o esbofeteou. Então. O movimento dos quadris arredondados revelava que ela sabia seduzir um homem. pois tinha uma aparência altiva. do mesmo grupo além dele. Logo atrás vinham alguns jovens. talvez com uns quatorze anos de idade. Então caminhou ao sabor da brisa leve. magra que o havia comprado caminhava logo atrás dela. não protestaram. Erguendo os olhos. O árabe alto seguiu-a em silêncio. empurrando as tangas. devia ser a dona da caravana e de todo o seu conteúdo. que cutucou Ian no ombro com o chicote. Jamais se sentira tão miserável quando as finas e bem trabalhadas sandálias de couro pararam a sua frente. escravos a julgar pelas correntes que traziam nos pulsos magros. Ela olhou por sobre a caravana inativa e emitiu outras ordens que Ian não entendeu.

o sol se pôs com todo o seu esplendor. enquanto a caravana vagava pelo deserto. O escuro funesto agora se movia rapidamente para o Norte. quando despertou com a luz do dia infiltrando-se por baixo da porta da cabine. E havia a horrível doença que parecia estar dizimando a maior parte dos pobres escravos. Não havia nenhuma outra escolha se queria evitar ser surrado. Um enorme estrondo fez Elizabeth deixar a cabine. Nem um único navio da escolta era visível naquele momento. Ian assistiu quando a dona da caravana entrou com movimentos delicados no interior sedoso. laborando sobre a areia no meio da noite. A despeito da atividade frenética. tinha se transformado em uma besta.. Talvez o único sinal de que ainda era humano é que aprendera a falar um pouco de árabe com os homens rudes ao seu redor. O guardião chicoteou o grupo. — Virar a oeste! Romances em Ebook .O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) que esfolava seu pulso. Que tipo de expedição não comerciava. Ian cambaleou sob o peso do fardo que carregava. as feridas estranhas que sempre marcavam um escravo que caminhava ao lado da liteira. apenas acumulava bens como suprimentos para alguma viagem que dava inúmeras voltas? Deveria ter percebido que havia algo errado. O comandante gritara ordens para erguerem mais velas. Um grito vindo de cima. mas recordações que se infiltraram na consciência de Ian. balançava a corrente que poderia ser usada para prendê-lo a qualquer pilar. alinhando-os. pontuados pela agitação da chuva e trovões de uma tempestade persistente. no final da tarde. O convés estava inundado de água. Como fora ingénuo! Mas mesmo que tivesse percebido a importância do que viu. enquanto os homens não escolhidos se uniam aos outros escravos na parte de trás da longa fileira. Não passava de um animal nu que integrava a caravana. Foram muitos meses de tratamento cruel. a fez erguer a cabeça. O dia fora repleto de gritos confusos e gemidos da sra.. dos bandidos fugirem deles. Pargutter.. A caravana rumou para o Sul através de uma terra inundada e rochosa em direção ao deserto aberto. o que poderia ter feito? Não havia como escapar no meio daquele deserto. O fato de só viajarem à noite. As pessoas morriam em poucos dias de alguma enfermidade que os deixava como cascas secas na areia. como aprendera a duras penas. Não era um sonho. Os escravos carregavam as estacas de madeira sobre os ombros.Susan Squires . Aos poucos. Fora posicionado em frente à liteira pelo guardião barbudo. O homem negro foi enviado à liteira.. Os camelos se ergueram. parecendo não ter destino.

A tripulação parece bastante preocupada. estamos completamente sem proteção no momento. ela estava em um dos cantos do convés a estibordo para tentar não atrapalhar as atividades dos homens. Elizabeth duvidou que ele pudesse ver algo naquela escuridão. meu Deus! É o senhor. O comandante se apoiou na amurada e ergueu o binóculo. Ele a fitou e ergueu uma sobrancelha. Ficamos para trás.. Perdemos um mastro na tempestade. A embarcação atrás deles mantinha-se a mesma distância.. Não gostava de ficar na cabine. Portanto. pedindo o binóculo. A tensão pairava sobre o ar. ela percebeu que haviam se afastado da escolta por causa de um mastro quebrado e uma embarcação estranha atrás do Beltrane não era uma boa notícia. mas não avistou nada no convés principal. perscrutando ao redor da popa. — Nosso caçador é esperto. Estava tão concentrada na forma escura ameaçadora que deixou escapar um pequeno grito quando a voz grave de Ian retumbou em seus ouvidos. depois o céu. — Meçam a velocidade! — gritou. — comentou. Lentamente. O navio oscilou bruscamente para frente. Tindly emitia ordens incessantemente. as velas voltaram à posição. embaixo das cobertas. explicou: — Aquele barco apareceu mais ou menos uma hora atrás. o vento do nosso. Ela cambaleou até o parapeito. porque ninguém poderia continuar dormindo com tamanho estrondo... nos momentos em que o navio passava por dificuldades. Agora. Nas laterais. E a escolta se espalhou. embora não pudesse fazer nada para ajudar.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Elizabeth olhou ao redor. O comandante subiu os degraus. Ninguém parece acatar as ordens do comandante e não o respeitam. E o outro navio claramente roubou. — Eles sabem qual é o tipo de embarcação? Romances em Ebook . — Bem. como asas. — Entendo.Susan Squires . todos os homens se dirigiram ansiosos ao tombadilho superior.. — O que está havendo? — Oh. Elizabeth viu o oficial esquadrinhar o cordame. — Ele apontou para a uma sombra na escuridão ao leste. O que já deve estar sabendo.—Recompondo-se do susto.. acho que não percebeu a confusão.

E não estou nem Romances em Ebook . Palavras ásperas se seguiram. então? — Sim. — Controle-se. respondeu à pergunta antes mesmo de ele falar. — E um xebec pelo jogo de velas. — Virá-lo a favor do vento. eu sei. — Ou terá que ser algemado. retirando-se logo em seguida. — Não temos tempo para precauções.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — O comandante sabe. — Virar? — perguntou ela. apesar da escuridão. quando ele se agarrou ao parapeito. — Talvez tema quebrar outro mastro. porque tem um binóculo e está se movendo o mais rápido que pode. mas com certeza desnecessária — observou ela. — Talvez ainda tenha esperanças de virar o navio.Susan Squires . antes que o outro navio nos alcance. — Pirata. senhor — murmurou o primeiro imediato. culminando com Ian sendo escoltado para fora. mas para isso teria que ter erguido mais velas — disse Ian com a voz controlada. esperar até ficar verdadeiramente escuro e seguir um novo curso para ver se pode enganar nosso caçador. talvez seja um navio bárbaro ou turco. — Tolo! — Sim. — Ele girou nos calcanhares e subiu os degraus da escada que levava ao domínio sagrado do comandante Tindly. — Uma mentira agradável. — Ele pretende tentar ser mais rápido. Elizabeth não duvidava mais que ele pudesse ver o navio no escuro. mas a tolice é do comandante — respondeu o rapaz em um tom baixo. Então. Diz ter certeza de que virão nos resgatar. — Acha que pode contar com a proteção da escolta. E por isso que deixou as luzes acesas e não planejou nenhuma manobra evasiva. — Ian olhou para cima. — Acha que é possível? — Talvez. — As palavras foram proferidas entre os lábios contraídos. — No caso de pensar que não sei o que isso poderia significar. Ian olhou para as velas do Beltrane. Elizabeth prendeu a respiração. — Não pode ser uma embarcação amistosa? A tensão no corpo de Ian.

perguntou-se Elizabeth. Ter todas as possibilidades da vida usurpadas tão de repente lhe parecia injusto. Ian perscrutou ao redor. Ela poderia ser morta ou acontecer coisa pior. E ela.Susan Squires . O que vamos fazer. Se conseguirem subir a bordo. As ordens do comandante eram tímidas e contraditórias. Tentarão subir a bordo. —Devem ter visto ação.. um pensamento lhe ocorreu. Ian observou o navio pirata com Elizabeth a seu lado. — Batalhas no mar são muito demoradas. — Vamos pôr as mulheres no porão — comentou ele.. Ainda pode haver esperança. Não se resolvem em apenas algumas horas.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) um pouco interessada em enfeitar um harém de primeira classe. Olhe como estão ansiosos. incitando-o. Devia haver outro papel mais ativo para ela exercer. Romances em Ebook . então? — perguntou. sem entender. Elizabeth jurou que não ficaria confinada no porão. Não pretendem ver nossa carga no fundo do mar. causando uma grande desordem no convés. não teremos que tomar essas medidas de imediato. — Então vamos rezar para que estes reajam e lutem — rebateu ela. Ian endireitou os ombros. Pargutter! Certamente. Teremos que deixá-los chegar bem perto e disparar fogo. Então. Graças a Deus que os piratas estão dispostos a lutar à noite. Ian poderia ser morto na batalha que se aproximava. teriam muito mais chances se os piratas não os atacassem durante a noite. O que ele quisera dizer com aquilo?. Capítulo II Durante as horas seguintes. Aquele maldito incompetente queria levar a tripulação à morte. esperando decidirem seu destino. Rochewell.. — Não vão nos afundar. Isso se estes bastardos souberem lutar.. jamais havia sido beijada. Ian jamais poderia viver para ver a tristeza em seus olhos se extinguir por um amor renovado de vida. Por certo. poderemos repeli-los. — Pobre sra. srta.

— Então. Alguns passos à frente. — É para proteger o convés dos estilhaços. jamais saberia o gosto de. submissa. Por que ele fizera aquilo? Não havia jurado jamais ceder aos encantos femininos? Que direito ela tinha de pedir Romances em Ebook . — O que foi? — perguntou ele.. — Já vi alguns com mais de sessenta centímetros. — Isso significa que são estilhaços muito grandes. girou sobre os calcanhares e o chamou ansiosa. Afastou-se de repente e ela o encarou sem piscar. — E com a infelicidade das derrotas. Estava com medo. Virou-se sentindo um arrepio na espinha e partiu. O breve contato o excitou mais do que o desejado. jamais estivera correndo risco de morte.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian jurou que não seria feito escravo novamente. porém ainda queria algo que não poderia deixar para depois. Elizabeth engoliu em seco e assentiu com a cabeça. nunca fui beijada. Ian quase sorriu.. — Tenha cuidado com os fragmentos! Ian observou-a caminhar apressada para a cabine. Mãos içaram uma rede de cordas sobre o poço da embarcação. tem experiência com batalhas no mar? Ian tentou manter a voz controlada. Por fim foi dada uma ordem: — Navio sendo atacado! Prepare a artilharia a estibordo. também. Rufford. Fitou-o por um longo momento com olhos brilhantes. — Obrigada — disse simplesmente. — Não adiantava minimizar o perigo e ela não parecia ser uma mulher que gostava de ser enganada. — A senhorita precisa descer — ordenou ele. Não pretendia se demorar. obviamente. não certo se queria saber. recuperando a razão. teria que lutar até a última gota de sangue. mas mesmo assim. pensou. E. Porém.Susan Squires .. — O que é aquilo? — Elizabeth quis saber. Mas Elizabeth não se virou para partir. Não possuía nenhuma arma. — Os piratas tentarão destruir nosso cordame com o canhão em vez de nos afundar. ele apenas deixou que os lábios se roçassem. A boca daquela mulher era macia. Ela clareou a garganta. Considerando que não conseguira se suicidar. mas poderia retificar aquele lapso uma vez que a luta começasse. — Sr.. Curvou a cabeça e Elizabeth o contemplou com os olhos arregalados de expectativa. Se morressem naquela batalha.

descontrolando-as. Fora capturado por homens como aqueles. A única esperança agora era afundar o inimigo antes que eles encostassem. Olhou para o tombadilho. Ian sentiu um aperto no coração. Mas não era. A ordem se repetiu ao longo do convés. Os piratas atiravam rapidamente e o Beltrane contra atacava pouco. O cordame das velas caiu sobre a rede. percebeu que o gosto dela ainda estava presente. O maldito covarde ia se render! Cabos foram lançados a bordo do inimigo para manter os navios juntos. cheias de cicatrizes. As armas dispararam. a amurada do navio pirata transbordava com faces morenas ansiosas. A poucos metros de distância. O mestre no convés inimigo podia ser visto girando o leme com movimentos frenéticos. Mais uma salva de tiros impiedosos e a embarcação não podia mais se desviar do vento. os piratas começaram a surgir por todos os lados como um enxame de abelhas agressivas. puxou o punhal da bota. cabelos presos sob lenços ou pendurados em tranças e barbas compridas. os homens estavam confusos e inseguros. — Os homens se viraram para ouvi-lo. sua voz reverberando pelo convés. Um dos barcos da escolta devia estar avariado. o navio recuou. O comandante emitia ordens. de repente. O mastro estremeceu com o impacto. — Preparar para o combate corpo a corpo! — gritou o comandante. Ao redor.Susan Squires . virou e emparelhou com o Beltrane. Um atirador gritou quando o canhão se quebrou. Romances em Ebook . Esfregando a boca com as costas da mão. O navio pirata se aproximou devagar. preparando-se para o combate brutal bem próximo. Velas se agitaram e. — Farão escravos todos aqueles que resistirem às torturas. — Não vamos nos render sem antes lutar! Lutemos por nossa liberdade! Naquele instante. seguindo uma ordem irregular. Os homens se apoiaram em suas armas. — Se nos pegarem — gritou Ian. esmagando-o contra o parapeito oposto. mesmo com a inexatidão dos canhões e a dificuldade de acertar a mira em razão da fumaça. Os cheiros sulfurosos de pólvora e fogo misturavam-se ao longo do convés em espirais de fumaça. E jamais se deixaria prender novamente! Com esse pensamento.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) um beijo? Parecera um simples pedido.

Ian retomou a posição de ataque. O segundo foi cortado ao meio. conseguindo abater vários dos inimigos ao mesmo tempo. uma força descomunal despertou dentro do corpo de Ian e o poder. Corpos se empilhavam no chão. — Desça agora mesmo! — gritou ele. Por sorte.Susan Squires . Sentiu um golpe ao longo da coxa. golpeando-os loucamente. Ele empurrava e cortava os adversários. Mas ele era invencível. ela o viu. desferido por um pirata caído e o chutou em revide. Limpou o cano da arma e colocou pólvora. De repente. Mas não havia como acendê-la. Com isso. gritando em línguas estrangeiras. Procurou alguma tocha pelo convés. Pôs em um dos ombros uma grande arma e rolou seus noventa quilos até uma posição estratégica que pegaria o restante dos piratas despercebidos. O ombro de lan sofreu um corte que jorrou sangue no mesmo instante. arrancou uma tocha acesa da mão inerte de um marujo morto e se lançou adiante. Ergueu a parte de trás da arma e Elizabeth acendeu o pavio. mas acendeu o pavio assim mesmo. Os piratas avançavam gradualmente. Quando praguejou. Naquele instante tornou-se o mais temido dos homens dali. portanto sem nenhuma valia.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ele se lançou sobre o alvoroço de corpos. e Ian reavaliou a situação. Romances em Ebook . Em seguida. Os piratas começaram a recuar. Olhou ao redor e viu que os canhões estavam todos avariados. Ian voltou a atenção ao combate e recarregou a arma. gritando: — Atirem nos malditos! O marinheiro protestou que o coice o mataria. reconhecendo imediatamente sua necessidade. avistou Elizabeth encostada na parede do tombadilho e não na segurança do porão. Empurrando-a em direção à escada do tombadilho. um marinheiro reconheceu que precisava de ajuda e veio acender o segundo pavio. Não demorou para que a sorte mudasse de lado. Lutas esporádicas ocorriam sobre o convés. O primeiro homem que sentiu o fio da lâmina curta e afiada de Ian perdeu um braço e caiu gritando. os outros marinheiros muniram-se de toda a coragem. Em poucos segundos o convés estava inundado de sangue. sem piedade. afluiu em suas veias. tendo Ian como líder. Naquele momento.

que em um rastro rápido chegou ao um saco de pólvora que explodiu no mesmo instante. Ian respirou aliviado. Um cansaço estranho apossou-se de seu corpo dolorido. Os marinheiros comemoraram entre a chuva de fragmentos. A chama saltou para cima atingindo as cordas dos marinheiros e o velame. Pequenos estilhaços de madeira ainda queimavam no convés. Alguns deles carregavam os companheiros para o compartimento dos doentes. Havia reparado que ele tinha o corpo coberto de sangue. Depois de fechar a porta com mão trêmula. os olhos vidrados e os passos trôpegos. mas a dor era quase imperceptível. desmoronou no chão. Aos poucos. A lanterna balançava em arcos preguiçosos. deparou-se com Elizabeth balançando uma lanterna de um lado para outro e no instante seguinte lançou-a na lateral do navio pirata. A lanterna chocou-se contra o tecido de uma vela derrubada pegando fogo. — É bom que isso sirva de lição para não atacarem mais navios ingleses. Não demorou para que o Beltrane voltasse a deslizar pelas águas escuras do oceano. entrou no salão comum dos passageiros. Um movimento à esquerda chamou sua atenção. Um dos piratas se lançou sobre Elizabeth.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) O coice da arma causou outro ferimento no ombro de Ian. Apressada. visivelmente ferido. Vários dos marinheiros do Beltrane aderiram à idéias e começaram a lançar tochas em direção ao navio pirata. Elizabeth viu quando Ian passou cambaleante por ela. sob altos brados de seus superiores. Não foi capaz de fazer nada além de acenar com a cabeça. Estava quase perdendo a consciência. Ninguém fora feito de escravo dessa vez. e o cheiro forte de pólvora empesteava o ar. moça!— berrou ele. Ao virar. De súbito a lembrança do estado de Ian a golpeou. Ian correu pelo convés em seu socorro. — Levem os feridos para baixo! — berrou o comandante. Os piratas ainda saltavam para o poço do cargueiro. — Afaste-se. Enquanto isso. os marinheiros voltavam aos seus afazeres. Espero que o médico não esteja bêbado. ela pensou. o comandante Tindly gritou à tripulação que fizessem o possível para colocar o navio em movimento. antes de se refugiar no escuro de sua cabine. A porta da cabine de Ian estava fechada. lançando sombras fantasmagóricas nas paredes. Romances em Ebook . no momento em que encontrou Elizabeth.Susan Squires . tentando sufocá-la.

Tinha que conseguir ajuda! Mas se o deixasse ali ele podia sangrar até a morte. Tinha mais o que fazer. Por certo. alguma artéria tinha sido cortada. já saturado de sangue. pelo menos podia improvisar um torniquete ao redor daquele terrível corte na perna. A poça de sangue se espalhava. com um ombro obviamente deslocado? Retirou o lenço que rodeava o pescoço de Ian e o torceu. Mesmo assim ainda tinha intenção de pedir ajuda. então dobrou o joelho sobre o nó e o amarrou ligeiramente acima do ferimento para estancar a hemorragia. encharcando suas roupas. Quanto àquilo. Havia um ferimento à bala na parte inferior das costas. viu um equipamento pequeno que continha uma navalha. A ferida na coxa parecia mais urgente. O que fazer? Bem. fez da manga uma compressa. As solas das botas de couro impediam que a porta se abrisse totalmente. Só saiu da cabine quando teve a certeza de tê-lo deixado mais confortável. Bateu novamente. Em seguida passou a cuidar da lesão do ombro que também sangrava em abundância.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Sr. Ian estava caído no chão. O tórax estava repleto de pequenos cortes que ela limpou um a um com todo o cuidado. não podia fazer nada. Olhando ao redor. cercado de outros feridos. Puxou o lenço. prendendo-a com o restante de tecido em volta do corpo. Examinou-o. Segurou a manivela de marfim e usou a lâmina para cortar a roupa encharcada. encontrou o médico. Não havia um espaço sequer naquele corpo forte que não estivesse machucado. mas não foi atendida.Susan Squires . Enfiando a cabeça na pequena abertura visualizou o seu maior temor. Nunca fora uma mulher melindrosa e aquela não era hora de pensar em decoro. percebeu que era inútil tentar reavivá-lo. Como ele conseguira lutar com tanta garra. Elizabeth imaginou como havia sido difícil ter lutado e sobrevivido a tamanha dor física. logo abaixo da junção dos quadris. Até os cabelos dourados estavam ensopados de sangue. arriscou a abrir a porta devagar. — O senhor está bem? O silêncio foi a única resposta. resoluta. No convés inferior do navio. pôs as mãos entre as coxas ensangüentadas para aplicar o torniquete. Romances em Ebook . Rubra de vergonha esforçou-se para não prestar atenção à masculinidade protuberante à sua frente. Deitando-o de costas. Ela a empurrou com o ombro até poder passar pela abertura estreita. Rufford? — chamou. apertou. Mordendo o lábio inferior e com o coração disparado. Ao contemplá-lo. Rasgou a camisa.

flutuante e insensível. O médico a fitou surpreso. O que fazer? Certamente não estava habilitada a remover-lhe a bala. — Está ferida. ele estava se curando diante de seus olhos! O pânico tomou-a de assalto. Precisa do senhor. Elizabeth sentiu o coração bater descompassado e prendeu a respiração ao notar que o ferimento do ombro se fechava sozinho. Santo Deus! No pescoço havia uma cicatriz similar àquela que já havia notado nos pulsos dele anteriormente. senhorita? — perguntou. Em choque. Talvez então devesse continuar a limpar o sangue impregnado pelo corpo. Teria de trazer Ian à sala de cirurgia. condizentes com alguém que tinha carregado muito peso amarrado a tiras largas. que parecia ter se alojado próximo à coluna cervical. Conforme a pele ia se desnudando. Havia outros ferimentos sobre os braços. mas há um paciente que está muito mal. Seria a próxima etapa. Como por encanto. Em pânico. temendo encontrá-lo morto. a porta se abriu facilmente e. apressou-se até a cabine. Granger. sentindo o coração disparar. — Granger selecionou uma serra em meio aos instrumentos dispostos em uma gaveta. O que estava acontecendo ali? Que tipo de homem era aquele que podia se curar de tão Romances em Ebook . dando instruções para amarrar um dos pacientes com correntes de couro acolchoadas. Com esse pensamento. percebeu que ele havia se arrastado até o catre para se deitar com mais segurança. O que as teria causado? De repente. Decidida. as antigas cicatrizes foram aparecendo. Porém. virou-se e voltou aos degraus que levavam ao pavimento superior.Susan Squires . Então. Havia muitos feridos e o médico não podia deixá-los em meio a tanta agonia para dedicar-se apenas a um homem. Tentou se concentrar ao máximo para não se deixar levar pela emoção de percorrer aquele corpo magnífico. Tinha o olhar fixo no teto. Notou também vários pares de cicatrizes circulares.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Dr. para sua surpresa. por favor! — chamou elevando a voz acima dos gemidos e murmúrios de dor. — O pedido parecia pouco convincente até mesmo para ela. pegou uma toalha limpa e começou a esfregar o tórax largo e os braços musculosos. — Não. Elizabeth correu os olhos por aquele corpo tão judiado. voltou a atenção para os cortes menores. —Peça alguns homens para trazê-lo para baixo.

desistiu e resolveu obedecê-lo. — Não toque a boca! Sua mão está cheia do meu sangue. como podia acontecer tal coisa? De súbito. antão por que tinha aquelas cicatrizes nos pulsos? Romances em Ebook . Se ele podia se curar daquela maneira. Elizabeth não teve dúvida de que não deixariam marcas. Puxando uma colcha suja de sangue. — Não quero causar nenhum mal. — Meu Deus! — murmurou horrorizada.. era verdade. Ainda estava nu. deitado em uma cama a alguns metros. o sangue parecia coagulado. sabão e verteu água. — Agora lave bem a boca.Susan Squires . perplexa. a prova física de sua masculinidade repousava em um ninho de pêlos escuros. — disse ele num tom suave. remetendo inclusive a um certo carinho. Não tinha intenção de permanecer naquele quarto nem mais um segundo. primeiro e depois embaixo das unhas. Em um ato mecânico. Era um homem particularmente belo e parecia forte e saudável. Então. Como podia. Estava desfigurado. cobriu o quadril. As feridas aos poucos cicatrizavam uma a uma. Elizabeth olhou para a própria mão. Havia um estranho matiz avermelhado em suas pupilas. Ian percebeu seu desconforto e se deu conta de que estava nu. — Receio que Deus não tenha nada a ver com isto.. Ali havia um mistério. sentiu a face fervendo. Sua mente confusa começou a funcionar enquanto ela secava o rosto.. os olhos vermelhos de Ian se alargaram. Uma das poucas coisas que sei sobre a minha condição de saúde é que se propaga pelo sangue. receando erguer-se e virar as costas para algo tão anti-humano. olhando aqueles olhos. agora não tão vermelhos. Elizabeth encarou-o. paralisada de medo. Ela o fitou de relance. Agora. — As instruções murmuradas eram reconfortantes. De repente. — O sussurro rouco deixou-a arrepiada. humanas. decidiu que seria melhor sair para o convés em meio à correria e gritos dos marinheiros. ele tomou uma de suas mãos. pegou mais uma toalha. a ciência da sua nudez a invadiu de uma maneira diferente e sensual. ele se ergueu do travesseiro e afastou a mão que ela levava à boca para evitar os gritos de horror. que o medo de que ele pudesse morrer havia passado. Vá se lavar na minha bacia. Mas não estava morto e a cor começava a voltar às faces. Mas de alguma maneira. Ela se encolheu e antes que se afastasse.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) horríveis feridas em tão pouco tempo? Sentou-se..

já vi mistérios demais para saber que nem tudo pode ser explicado. Vi homens caminharem sobre carvão em brasa. srta. ninguém acreditaria mesmo. se é isso que receia. tão intensamente azuis. Viram-me erguer o mastro. Tenho uma força incrível.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Uma onda de medo a envolveu. — Lamento minha reação indiscreta. empurrando a colcha para cobrir as coxas e os quadris. E tudo começou com uma simples gota de sangue que caiu em meus lábios.. piscaram algumas vezes. — O que sabe sobre a sua doença? — insistiu ela gaguejando. — As possibilidades se iluminaram na mente de Elizabeth. cauteloso. Mas por quê? Porque ele representava o desconhecido? O Mal? Seus pensamentos travaram uma batalha. Romances em Ebook . bem. Ian assentiu com a cabeça. Ian inclinou a cabeça. — Eles já estão meio intranqüilos. superou sua aversão inicial. sem ficarem com queimaduras ou cicatrizes. as consequências podem ser desastrosas. — Ela se aproximou. Todos nós tememos o desconhecido. Quem ou o que seria aquele homem? Com a curiosidade impelindo-a. — Espero que um bom médico inglês possa me esclarecer.. clareou a garganta e tomou coragem. Fico imaginando em quanto tempo a vida podia ser prolongada. — Os homens às vezes podem fazer demonstrações de força extraordinárias em momentos de grande tensão. sem conhecimento completo dos seus efeitos. — Em resumo. — Pelo visto. Se descobrirem que não sou como eles. — Curo-me de qualquer ferida com imensa rapidez. — Mas não seria maravilhoso passar esses poderes para outros? As pessoas poderiam se curar sozinhas. — Seria um pecado passar esta doença para outros.Susan Squires . já que eu mesmo o desconheço — contou ele. agora que todo o vestígio de vermelho havia desaparecido. Aliás. Rochewell. — Não tenho intenção de contar a alguém o que vi. Mas os marinheiros são supersticiosos. senhor. Afora isso. Mas foi uma resposta natural. Mas sei que alguém construiu a Esfinge antes mesmo que os homens soubessem juntar dois blocos. não sei de mais nada. — Qual é o seu verdadeiro estado de saúde? — Não posso explicar. Os olhos de Ian.

O guardião usava algemas de metal para prender os escravos aos postes. sr. srta.. Tinha curiosidade em saber como ele havia se contaminado com uma gota de sangue e quais seriam todos os efeitos da sua doença. estou em dívida com a senhorita. — Mas por certo quer estudar as ramificações que podemos descobrir sobre isso. — Na verdade. mas seus pensamentos continuariam focados naquele estranho homem. Tudo que peço é que me deixe sozinho. junto aos demais escravos escolhidos. — Enquanto estive em Tripoli. Sabia que Ian não contara toda a verdade. — Espere. não é? E o caminho da ciência e o progresso da espécie humana. Ian estava nu e agachado. Âmbar-gris. Rochewell. Murmurava palavras sem nexo.Susan Squires . algo almiscarado. Romances em Ebook . — Queria muito viver normalmente como todo mundo. De todos os escravos. Sentiu como se o coração estivesse saindo por sua boca. Os escravos podiam pousar a liteira. — Muito bem. Eu o deixarei repousar. Talvez a lucidez já o tivesse abandonado. Saía dali. Mas quando a viu se dirigir à porta da cabine. A caravana parou. mas não é bem assim. — Então possuir a habilidade para se curar significaria negar a luz do dia sempre. A tenda da líder foi montada enquanto o sol se erguia.. não é? — meditou ela. — A expressão de Ian se anuviou. lamparinas queimavam. Lá dentro. Um oásis.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — E não gosta do sol. Ian podia sentir seu perfume. pelos cuidados que teve comigo. fora ele o escolhido para ser lavado e enviado à tenda dela. Elizabeth fechou a porta suavemente depois de passar. Podemos conversar mais tarde. Rufford. — A ciência não poderá contar comigo. Havia várias almofadas macias e no centro uma pequena mesa com pratos de tâmaras e doces. não me custaram nada e foram desnecessários. deixando a impressão de verdadeiras labaredas contra o vermelho da tenda. chamou-a. É um preço bem alto. Ele a fitou resignado. achei que se usasse lentes coloridas e me cobrisse da cabeça aos pés poderia sobreviver. presa em um dos ombros por broches de ouro. — Meus olhos e pele são particularmente sensíveis — ele confidenciou. Ela estava deitada em um divã. Usava uma roupa diáfana que mal escondia seu corpo.

subindo até o joelho e em seguida até a coxa. enquanto ela acariciava sua masculinidade. Era tão linda e segura de si. O desejo o confortava como um bálsamo no corpo ferido. arranhando-o com suavidade. enquanto a outra mão deslizava pelas costas. enquanto dava um passo após outro na direção daquela mulher. Ela também queria sentir sua língua e ele obedeceu. E naquele momento. Naquele instante. Uma risada abafada escapou-lhe dos lábios. Apele alva e macia como se nunca tivesse visto o sol. deslizando-a para dentro da boca carnuda. Ela queria que ele os tocasse. oferecendo-os para serem sugados avidamente. A boca daquela mulher era macia e voluptuosa. só que vermelhos. Ian deu um passo à frente como se estivesse hipnotizado. Ian estava sob total comando daquela mulher. com os dentes cerrados. como se estivesse excitada com a rebeldia de Ian. Ian fechou os olhos. Romances em Ebook . mas não foi capaz. Surpreendeu-se ao ajoelhar e estender a mão para acariciar o tornozelo delicado. prendeu-o por meio dos olhos brilhantes. Ela levou a mão com aquelas unhas incrivelmente longas até a base de sua nuca e tomou-lhe os lábios nos dela. Aos poucos. Ela sorriu. ansiando proporcionar prazer àquela mulher única. compreenderia o significado por meio de sua expressão de profunda ira. Ela livrou-se da roupa e expôs os seios. Ele não se lembrava de algum dia ter estado tão excitado. rendeu-se à luxúria.Susan Squires . Tentou parar e olhar em outra direção. de corpo e alma. suavemente e em seguida com mais força. ela envolveu os dedos na intensidade de sua ereção. Não seria capaz de se conter por muito mais tempo. Moveu os lábios pela. os olhos dela começaram a brilhar mais do que a lamparina que pendia no alto da liteira. Ele sabia que não tinha vontade própria. ela o fez olhar bem dentro de seus olhos e apenas com aquele gesto o refreou. Ian obedeceu. Mesmo que ela não entendesse inglês. Não se importava que o mandasse espancar até a morte. Os seios estavam ao alcance de suas mãos. E naquele momento. Os olhos eram negros. Sentia uma dor aguda na virilha e sabia que estava pronto para ela. Não o deixaria atingir o clímax. inebriando-o. esfregando-lhe um dos mamilos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Se acha que vou servi-la como um touro. Era a coisa mais estranha que já vira. Quando ela se inclinou. face dele. Ele julgou que iria explodir. Como os olhos de um gato. Deu um longo gemido. Ela abriu os lábios e com a língua acariciou o interior da boca de Ian. está redondamente enganada — rosnou ele. O horror daquela descoberta chocou-o. Não tinha controle sobre si mesmo.

convidando-o a saciar a fome com tâmaras e mel. era ela que ainda estava no comando. Apesar de ter permitido ser invadida em sua recôndita intimidade. Ela queria obter prazer utilizando a língua dele. Retinha o poder de escolher a duração e a intensidade dos movimentos. E então ela o deixou encontrar o próprio prazer. guiando a cabeça até a altura da cintura. Após alguns minutos. ela apontou para a mesa. Frustrado. Sua masculinidade continuava ereta em uma dor torturante. Em seguida o empurrou. Ian ficou caído sobre o tapete sentindo uma estranha fraqueza. enquanto ela sugava. o Romances em Ebook . descendo com. O perfume almiscarado quase o fez vomitar. Fez uso depravado daquela. Ele continuava as investidas. Seu próprio prazer insatisfeito. Se fosse de sua escolha o manteria rijo e insaciável para sempre. Em seguida. Quando Ian moveu o quadril.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Por fim. ela puxou-o mais para perto e começou a lamber-lhe o pescoço. Ian sentou-se. Então. Ian sentiu uma dor fina na base do pescoço e lutou por ar. ao mergulhar na fonte do prazer feminino. prendendo-o ao poste. E. oferecendo o membro rígido para ser abocanhado. Ele permaneceu jogado na areia por muito tempo. como uma gata selvagem estendeu-se lânguida sobre as almofadas e sedas coloridas. ela se afastou. lambuzando-se inteiro. Como se estivesse tratando de um animal de estimação. Aquela sensação durou um longo tempo até ele sentir que perderia a consciência. Ele quedou-se embriagado à realeza do doce mel. penetrou-a com a língua ainda sequiosa. Sem dizer palavra. ela recostou-se nas almofadas e puxou-o pelos cabelos. Ela ordenou que saísse e ele teve que deixar a tenda acocorado. deixando escorrer pela boca o doce líquido. os lábios carnudos pela trilha de pêlos escuros que dividia o abdômen de músculos bem definidos. ela se afastou com um sorriso sádico. Agora que tudo acabara. o membro intumescido dolorido. colméia pulsante. enquanto ela circundava seus quadris com as pernas. um par de mãos o arrastaram. pôs uma das mãos no pescoço. Em pleno delírio. Naquele instante ficou claro que sua intenção não era obter prazer da forma conhecida. Com um dedo ergueu o queixo protuberante para que ele a fitasse. ela afagou-lhe os cabelos. prontos para atingir o clímax a qualquer movimento.Susan Squires . Mal conseguia erguer a cabeça. onde ela o havia sugado e a levou à boca. Foi então que o brilho estranho voltou àqueles olhos misteriosos. E como uma serpente insinuou-se pelo peito musculoso e mordeu um a um dos mamilos. Do lado de fora. movendo-se em um desesperado vaivém até levá-la ao clímax.

Sonhara com aqueles olhos vermelhos e brilhantes e despertara com o barulho dos marujos. A nudez do corpo masculino perfeito a fez corar. Será que estaria dormindo? — Entre. Será que ele estaria no deque? Pouco provável. As botas brilhavam contra a água da bacia que estava à sua frente. Os músculos dos braços e ombros daquele homem eram rijos e pulsavam com uma força estranha. seu coração pulsou mais forte. A única certeza que tinha era que precisava saber mais sobre Ian. até arranjar uma desculpa para se afastar. Agora. pendurado na porta. O cabelo. A princípio imaginou se não havia sido um pesadelo toda aquela batalha. Enrubesceu ao se recordar do beijo que pedira a Ian. O gosto daqueles lábios macios contra os seus. A voz profunda sempre a excitava. Elizabeth tomou seu café no deque. Fora uma guerra sangrenta entre marujos e piratas onde para ela. A pela do rosto Romances em Ebook . srta. que acima da beleza. os piratas e o homem que não parecia humano. No entanto. deitada em seu catre. Ela poderia ordenar que fizesse qualquer coisa. E o rosto. Não havia. apenas o tornava mais incrivelmente masculino. escapatória. Ao passar pela silenciosa cabine de Ian. — Sr. que estava botando os bofes para fora. Viu outra prova da verdade contundente. Vestia um casaco azul marinho e calça da mesma cor. Ergueu uma das mãos. Estaria mais enamorada agora que sabia que aquele homem guardava segredos impensáveis? Ela abriu a porta da cabine. A luz do dia ainda brilhava. A lembrança daqueles mortais olhos vermelhos e brilhantes o terrificava. a admiração e o espanto ao testemunhar ferimentos graves cicatrizarem sozinhos. Lá estava a unha quebrada quando tentara agarrar-se ao cabrestante. Em seguida. foi até a cabine da sra. o vestido negro estava coberto de sangue. Ian estava sentado. Mas lembranças piores da batalha substituíram o doce momento. batendo suavemente à porta.Susan Squires . espesso e macio. Pargutter. Rufford! — chamou ela. houve apenas um herói: Ian Rufford. as sensações da noite anterior a dominavam. Permaneceu lá algum tempo ajudando a pobre mulher. Mais uma vez. Elizabeth acordou de madrugada de um sono turbulento. Rochewell. nada a impedia de ir até a cabine dele para ver como estava. foi invadida pelos sentimentos contraditórios.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) horror do que havia acontecido o atormentava. demonstrava força de caráter.

Devia ter saído de suas costas. . A dor nos olhos dele se espalhou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) estava macia e levemente brilhante. A enormidade daquela singularidade atingiu-a em cheio. Uma bala de revolver jazia na mesa-de-cabeceira. um tanto atrevida devido ao meu. contendo o riso. Elizabeth precisava explicar por que havia pedido aquele beijo tão fora de hora e contexto. De qualquer maneira. — Nunca ouvi uma desculpa tão inusitada.. No mesmo instante. Elizabeth mudou de assunto. estou agradecido por sua iniciativa e atitude prática. Sinto muito. pôde visualizar o corpo expulsando à bala enquanto cicatrizava por si mesmo. Quando ele se virou para encará-la. estranho pedido de ontem. E se ele fosse alguma espécie de monstro? Em seguida. Eu expliquei que alguns homens são capazes de triplicar sua força quando sentem medo ou no calor de uma batalha. — Eu lhe devo outro pedido de desculpas. a expressão desapareceu. Era como se a noite anterior jamais tivesse existido. denotando o barbear recente.. — Os marujos estão muito agradecidos pela força de sua atuação na luta contra os piratas.. — Então a covardia agora é encarada como combustível de minha força? Elizabeth deu de ombros.Mais uma abordagem prática do problema — disse ele. Elizabeth viu uma emoção dolorida turvar-lhe os olhos. O senhor deve ter me achado. Mas no espelho. — Suponho que devo agradecer-lhe por não ter ido gritando chamar o comandante Tindly — interrompeu ele. — É melhor do que. como deve se recordar. Aceitara a explicação de uma infecção no sangue com total ingenuidade. Sentiu os nervos à flor da pele. Ela sentiu o estômago se contrair. ouviu a própria voz dizendo: — Acho que devo ter arruinado a lâmina de sua navalha cortando suas roupas.. Ele parecia perdido e então as linhas do rosto se suavizaram.. — Eu não fiz nenhuma objeção. Romances em Ebook .Susan Squires ..

inconsciente. — Talvez. Saltou da cama. mas a cura o devia ter debilitado.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — O senhor me julga mal — ela contestou. Ian lançou um olhar penetrante e para escapar.Susan Squires . percebeu que o sol começava a se pôr no horizonte. Nenhum sino ou grito dos marinheiros seria capaz de despertá-lo. — Alcançou o corredor sorrindo. esquadrinhou as figuras até encontrar o texto que queria. — O senhor costuma ler romances? Confesso que achei que preferisse ler A Ilíada. comandado pelo próprio corpo. Estendendo-o na pequena escrivaninha. Elizabeth estava concentrada nos mapas espalhados sobre a escrivaninha da cabine de popa. Passei aqui apenas para saber se havia se recuperado — anunciou antes de sair. — Ela hesitou. por exemplo. embora já os tivesse lido mais de mil vezes. — Então estamos quites. com pequenas marcas nos oásis e vários "X" onde as ruínas de tumbas de mais de seis séculos. mesmo que fosse em um tabuleiro. Mordeu o lábio inferior. Ali estava marcado o Saara oriental. escondido embaixo do travesseiro. embora a luz não invadisse a cabine. Mas por quanto tempo? Ainda faltavam quatro dias para chegar a Gibraltar. Romances em Ebook . — Ainda não consegui distinguir se a senhorita me surpreende ou enerva. Por enquanto o sintoma estava sob controle. endireitou o casaco e saiu para o convés. Os olhos de Ian se fecharam sobre o livro e ele caiu num sono profundo. voltou também aquela fome voraz. Com extremo cuidado. A Cidade Perdida não fora achada. As pistas provavelmente estavam nos textos mais antigos. Tinha revelado parte de seus temores. Gostaria de enfrentá-lo mais uma vez. Ian levantou-se para pegar um exemplar. tinham sido encontradas. Mas não havia nenhuma marca sobre a ruína mais importante. quase se desintegrando. — O senhor precisa descansar. Quando despertou. de um cilindro de papelão. — Que tal um jogo de xadrez ao anoitecer? Ela não olhou para trás. Havia passado a noite anterior da mesma forma. que ela sabia existir em algum lugar naquele deserto. De agora em diante teria o dom de adivinhar a hora do poente? Com o retorno da consciência. A Ilíada. ela mudou de assunto ao notar uma pilha de livros. retirou um rolo de papiro. Não se alimentava havia quatro dias! Contara com duas semanas de intervalo.

Manifesta-se dentro do Templo de Espera que foi esculpido na cidade de Kivala. É um veneno para a alma. Embora suas necessidades sejam impuras. onde as evidências seriam óbvias. Já haviam se passado três dias desde que os piratas tinham sido derrotados. Subiu que também ela gostava da sua companhia. O comandante não fazia idéias de quanto tempo levariam para chegar a Gibraltar. Por conta daquele incidente. Será que a demora era apenas para mostrar seu poder sobre ele? Naquele instante. expondo suas almas ao perigo. bem. nem sangue. por isso saltou algumas linhas: E quando a lua tocar os cumes mais altos da crista da Terra. nem idade. a porta se abriu e Elizabeth entrou chupando um dedo. então sua luz revelará a cidade que repousa nas pedras. esperando pelo retorno daqueles que abandonaram seus irmãos. Afugentará a morte. como para o corpo dos homens. todas as noites. Onde estaria Elizabeth? Ela sabia que era aguardada ali. Na metade do solstício será conhecida a cidade e apenas os homens íntegros entrarão.Susan Squires . mas que vive na terra. a seis dedos polegares do cume mais alto ao norte. a viagem se atrasou. àquela mesma hora. não puderam parar em Porto Mahon. Não podia mais suportar. há um grande demônio. Tinha que admitir. sem recorrer às afetações femininas que ele conhecera na Inglaterra. nada o preocupa. sustentado pelo sangue dos homens. traduziu para si mesma. Sua boca estava tão seca que nem água e nem vinho conseguiam umedecê-la. movendo os lábios em silêncio. o tempo e as chagas. nem chagas. Aquilo seria verdade? Tentou convencer-se de que não e continuou a leitura: Nem morte. Sentou-se em uma cadeira em frente à grande mesa e empurrou as peças do tabuleiro de xadrez.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) E no deserto. Romances em Ebook . e agora o vento cessara por completo. O destino de Ian estava nas mãos do clima e ninguém sabia quanto tempo a calmaria iria perdurar. nascido do céu. Aquele que misturar seu sangue com o do demônio obterá esse poder à custa da sua alma. Começara a desfrutar da companhia daquela mulher. Não podia se alimentar no navio. As palavras a faziam estremecer toda vez que as lia.

— Consegui me cortar em uma folha de papel. Achei que as mulheres preferissem o branco. Não gosto muito de esperar.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Perdoe-me — desculpou-se. — Ela ergueu o dedo cortado. recostando-se na cadeira. Ian sentiu o mundo desaparecer ao seu redor. — Ele se moveu mecanicamente. acho. dando uma tossidela. Tinha esperanças de já estarmos em Gibraltar a esta hora. sabendo que ia perder aquela partida. notando-o áspero. — Está se sentindo bem. — E com quantas mulheres já jogou xadrez? — ela quis saber. sentir aquela riqueza grossa em sua língua. — E melhor fazer um curativo para estancar o sangue..Susan Squires . é todo este marasmo. — Perdoe-me — resmungou. respirando fundo. desinteressada do tabuleiro. pensou. e o que mais? Não consigo decifrar. — Entendo. — A senhorita é a primeira. ele percebeu o quão descortês suas palavras soaram e se sentou novamente. — Pelo menos se lembrou de colocar perfume. Ian respirou fundo e sacudiu a cabeça. E acha que não se barbeando e desleixando com sua aparência. ajuda o navio a chegar mais rápido? Ele passou a mão no queixo. — Talvez seus pensamentos precisem de um pouco de distração.. — Preto ou branco? — Oh. O senhor passa muitas horas sozinho. — Sempre escolhe o preto. Rufford? — Perfeitamente bem — mentiu ele. O sangue escorreu formando um filete vermelho na pele alva. — Devo ter pegado a doença da pontualidade dos marinheiros. Ian preferiu não olhar para o machucado. Havia se esquecido de fazer a barba. Não quer me contar a respeito? — Oh. É de canela. Era por isso que ela o fitava de maneira estranha.. sr. quase doce. Podia sentir o cheiro. — Sinto que algo o está aborrecendo. Posso contar os meus problemas? Romances em Ebook . o sabor de cobre.. — Então. Você é craque nisso. — Sente o perfume de canela e âmbar-gris? — Isso mesmo — respondeu Elizabeth. mostrando-lhe o dedo. — Estive examinando alguns papiros e esqueci a hora — desculpou-se. preto.

Deus. Elizabeth continuou: — Jamais consegui ver o velho sacerdote que havia lá. — Não posso contar nada — respondeu Ian num tom áspero. O vento voltara. percebeu que o rapaz seria a solução para o seu dilema mais urgente. E os textos parecem confirmar sua afirmação. — Lembro-me de ouvi-lo dizer em nossa primeira conversa que ali era um lugar maldito. Talvez a cadeia Atlas. contanto que estivesse bem longe na Inglaterra? — O senhor parecia saber algo sobre a cidade — continuou Elizabeth. Então. Elizabeth não pôde segui-lo. Mas naquele momento. Mas onde fica essa crista? Alguns acham que fica nas montanhas ao sul de Adis Abeba. talvez outros também achassem a cidade ao leste das montanhas de Atlas e ao sul de Rif. Ela o fitou com uma expressão prosaica.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Sim. permitiu que aquela força fluísse através do seu olhar para aquietar o jovem. — Então. — Ian ergueu os olhos. esperando que ela não percebesse o horror que expressavam. Tiraria o alimento suficiente apenas para chegar a Gibraltar. pensou Elizabeth. — Venha aqui. Ele subiu até o mastro. — Será que ela sabia que ele podia sentir o sangue latejando e circulando em seu corpo frágil? — Talvez possa me ajudar. rapaz — sussurrou.Susan Squires . Ian ordenou para que ele saísse dali ou escolhesse outro mastro. mas talvez os papiros me mostrem. Por certo chegariam a Gibraltar no dia Romances em Ebook . achei que pudesse conhecer Kivala e assim poderia me dizer exatamente como localizar a crista da Terra. claro. — Eu quase a achei. — Saber a localização agora não trará nenhum benefício em Londres — disse ele num tom repreensivo. ela de fato sabia a localização! Se os textos fossem tão específicos assim. contudo lá não há areia lavada como as de Petra. — É mesmo? — perguntou ele com a impressão de que iria sufocar. Graças aos deuses do céu e do mar. erguendo-se da mesa e dirigindo-se à porta. Estive estudando alguns papiros que indicam a localização de Kivala. mas ela se estende a centenas de milhas. inclinando-se para agarrar as pontas da capa e se cobrir. quando a luz do sol se declinava dando lugar à noite. Os textos são bastante específicos quanto à posição da lua sobre a crista da Terra e a época do ano. cedendo ao poder que corria em suas veias. O camareiro se encontrava sentado sobre as velas dobradas. Mas para que se preocupar.

— Espero que fique bom logo. Só procurei ajuda porque me disseram que as marcas eram estranhas e pensei que estivesse delirando de febre. Pargutter sintase melhor — o médico interrompeu a inspeção que Elizabeth fazia no pescoço do rapaz. Resolveu desviar os pensamentos. — Bem. — Acredito que ele tenha sido mordido por um morcego. — Bebe sangue? Como assim? Romances em Ebook .Susan Squires . ao vê-lo ocupado com um camareiro ferido. — Não quero interrompê-lo. existe um morcego que bebe sangue e deixa a marca exatamente neste mesmo lugar. Pargutter e no seu enjôo infindável. Fiz uma sangria. e ele logo estará curado. Estava apavorada pela lembrança de já ter visto aquelas mesmas marcas em Ian quando o limpava dos ferimentos da batalha com os piratas. perto da carótida. Granger aproximou-se. Ela apenas murmurou uma resposta. Se bem que no Beltrane não há roedores deste tamanho. Já mostrava sinais de inquietação antes mesmo de ela abordar aquele tópico. Quem sabe o fato não acalmaria os nervos abalados de Ian. Granger — disse ela. senhorita.. Talvez tivesse algo a ver com aquela conversa sobre Kivala.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) seguinte. Elizabeth baixou para olhar o ferimento do rapaz. Callow não corre perigo de vida. — Creio que sim.. e arregalou os olhos. para buscar mais elixir. Dirigiu-se até onde o médico costumava estar naquele horário. ou talvez por um rato. Percebendo seu interesse. lembrando-se da sra. Mas era pouco provável. dr. — Acho que esse tanto de láudano é suficiente para que a sra. que não tinha sido visto o restante da noite em parte alguma. Foi então que ela reparou no ferimento em forma de pequenos círculos paralelos bem próximos à veia arterial do pescoço. o dr. — Não há problema. Ele foi picado por algum inseto e inflamou. ainda com os olhos fixos no pescoço do rapaz. — Mas então como surgiram marcas tão evidentes? — perguntou ela.

Apesar da vontade. Ou vergonha? Ele inspirou a brisa marinha e ergueu o rosto em direção às estrelas. Era evidente que ele sabia. Ela começou a suspeitar que houvesse alguém ou algo escondido no navio. pois seria facilmente vista. — ela confortou o rapaz. Era melhor esperá-lo no lugar de sempre. Quando retornou. como vai? — Bem. Perdoe-me por adiar nosso jogo — dizendo isso. Por um momento. enquanto outros se alimentam de sangue. Elizabeth quase bateu de frente com a figura vigorosa de Ian.. tenho certeza de que ele vai melhorar. onde ele teria que reaparecer. — Vou dar uma olhada no rapaz. no entanto. — Espero que se recupere totalmente. Elizabeth não teve coragem de perguntar o que causara aquelas marcas no camareiro. E apenas uma fraqueza.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Na verdade alguns morcegos preferem frutas. viu que ele estava com a face iluminada pelos lampiões e havia uma tristeza. Rochewell. — Mas Callow não está. quando se sentia tão claramente devastado pelo seu conhecimento.Susan Squires . resolveu não segui-lo. Ergueu a cabeça e percebeu que seu semblante estava bem diferente da noite anterior. Não chegam a matar as vítimas. e o senhor — respondeu ela. afastando uma mecha de cabelo para trás da orelha. apressou-se escada abaixo com graça sensual. — Srta. nada mais — murmurou Elizabeth. um pesar incrível. — O camareiro? Está doente? — perguntou. São chamados de morcegos hematófagos. avaliando a expressão dele. Caminhando pelo convés. Que mistério envolvia aquele homem? Ficou em dúvida se realmente gostaria de descobrir. — Sim. — O médico disse que ele vai ficar bom. Ela. Mas jamais contaria a verdade. Romances em Ebook . Ian assustou-se. Ele franziu o cenho.. Elizabeth pensou que jamais vira uma incorporação mais clara de poder. ainda está aqui — disse com a voz sufocada. e a voz baixa feminina afastou os pensamentos. Ian não a viu escondida pelas sobras. deixando-se ver. olhando através da escotilha. tomou o vidro de remédio e saiu da cabine. — Srta. parecendo não vê-las. Sua fisionomia era de horror. Rochewell...

— Por favor. Que tipo de pensamento era aqueles? As longas horas que passava trancafiado na cabine estavam abalando sua sanidade. exceto suas vítimas. Não tinha sido fácil. Entretanto suas necessidades se tornarão obscenas. Ao entrar na cabine. O universo era frio e fortuito e o mal crescia incontrolado. Já tentara acabar com a própria vida sem sucesso. Não era uma criatura confiável. Ela o fitou caminhando com os cabelos soltos cobrindo a face. sem ninguém para lamentar. Teria que ficar confinado até chegarem a Gibraltar. mas assumiria a natureza que ela impusera. Mas não serei uma boa companhia esta noite — disse Ian sem ousar encará-la. as cicatrizes ou o sangue o preocuparão. Ele estremeceu. E se o jovem Callow tivesse morrido? Mais uma vez. um sentimento de revolta o abalou. libere-me de minha obrigação. Prova daquilo eram as marcas e cicatrizes no corpo. O que de fato significariam aquelas palavras? Elizabeth estava disposta a passar a noite para decifrá-las. a resposta estava em um de seus papiros. Pelo que sabia. ele havia sido prisioneiro por mais ou menos dois anos. Ian tinha adquirido estranhas habilidades. a brisa a balançar o casaco comprido. Ian sentou-se na cama com a cabeça entre as mãos. De um jeito ou de outro. Deus! Por que se afligia tanto? Não devia haver nenhum Deus. E Elizabeth. Havia uma frase que saltava aos olhos: Nem a morte. A cada vez que precisava se alimentar.Susan Squires .. não como os homens supunham que Ele fosse. ela o fitara de um modo muito estranho quando ele havia contado que Callow estava doente. Como esperava levar uma vida normal quando tinha necessidade de sugar sangue humano para se sustentar? Não havia solução. Não tinha forças para negar a fome quando a sentia queimar suas veias. — Ele se curvou brevemente. Qual seria o maior temor de Ian? Qualquer que fosse o segredo. a origem estava no norte da África. Reconhecia a descrição da doença que o afligia. O quanto ela sabia ou adivinhara? Ela lera uma descrição do templo. olhou para frente e rumou para sua cabine. Podia sonhar com a Inglaterra. a idade.. O que mais seus textos lhe revelaram sobre ele? Romances em Ebook . E com certeza.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Peço que me perdoe. o desprezo que sentia por si mesmo depois era tão forte quanto se fosse a primeira vez.

. então desligou a lamparina e foi para a cama. O guardião imergiu um trapo no líquido precioso e esfregou-o com sabão de barreia. o sono parecia ter desaparecido. Não seria bom continuar. Fedeyah. Nas últimas vezes... — Presumo que não estamos longe. variando de uma a outra ao seu bel-pra-zer. A manipulação áspera abriu alguns dos cortes mais recentes. Respirando fundo. Difícil mensurar. Mas já estava acostumado com aquilo. depois lave-o por completo. O calor e o ar seco deixaram-no com a visão turva. Ah.Susan Squires . os dias e noites pareciam iguais. venerada dama? Devo consultar o sextante? — indagou Fedeyah. Quer a companhia de seu escravo favorito? — Pode ser. — Allah traçará nosso destino. Balançando a cabeça. — Faça isso — respondeu ela em árabe. Ela poderia aceitar a curá-lo. a compulsão. buscando algum foco. não deveria permitir que sua verdade fosse descoberta. ela havia arrancado tiras de sua pele. para poder lamber e sugar o sangue com maior facilidade. Asharti falava centenas de línguas. Meses. Romances em Ebook . — Quanto tempo mais. Seu corpo estava coberto pelas marcas dos dentes afiados daquela mulher. Enrolou o papel e o repôs na bolsa.. talvez? Contudo estava mais enfraquecido a cada dia que se passava.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Na verdade. até mesmo aceitar sua força extraordinária. Mesmo assim. tentou se lembrar quanto tempo fazia que havia sido chamado para servir à soberana. Ian bem sabia o que aquelas paradas geralmente significavam. já não conseguia se concentrar. seguiu até as cortinas de seda da liteira que Asharti ficava e em seguida ordenou que a caravana parasse. Suas feridas arderam. era esse o nome do tal árabe. Era aquela a maior maldição e sua maior tentação. A cota de água para os poucos escravos que restaram havia sido cortada. quem sabe ali também não existiria alguma fórmula enigmática que devolvesse sua condição de humano. mas jamais aceitaria vê-lo sugando sangue de outros e mal sabia da sua habilidade de compelir suas vítimas. dê água a ele e aos outros. Elizabeth oscilou sonolenta sobre o papiro e a transcrição cuidadosa que estava fazendo. ele passou a língua nos lábios ressecados. Agora que estava deitada. Fedeyah e o guardião levaram Ian até o barril de água.

Mas estava determinada a descobrir mais sobre aquele estranho passageiro. Estava a ponto de fazer algo que lady Rangle menosprezaria. Podemos tentar lá primeiro. Queria saber o que ele ia fazer lá. Pargutter com ar preocupado. Rochewell? Não será maravilhoso sentir terra sólida sob nossos pés? Elizabeth contemplou o imenso rochedo que se erguia sobre a pequena cidade portuária. Um plano audacioso começou a tomar forma em sua mente. — O comandante informou que partiremos amanhã à noite. Porque a agitação dele desaparecera como que por encanto? Por que ficara tão angustiado ao saber do estado de Callow? Parecia ansioso para chegar a Gibraltar. uma mulher britânica usando um vestido chamaria muita atenção. A sra. Notou com satisfação que o batelão faria seu trabalho com o pôr-do-sol. — E bem situada e tranquila. — Também vai dormir em terra. — Bem! Preciso reservar um quarto em alguma hospedaria. srta. havia se recuperado e estava ao lado de Elizabeth e Jenny junto à amurada do Beltrane. Porém. — Ela relanceou um Romances em Ebook . — Temos que aproveitar as raras oportunidades. — Quanto tempo ficaremos aportados? Tenho que ver todas as lojas. Você virá conosco. senhor? — perguntou. Ouvira-o perguntar repetidas vezes ao comandante. — A voz da mulher parecia ansiosa e suas bochechas rechonchudas estavam coradas. — Elizabeth esperava que Ian tivesse tempo para fazer tudo que planejava. porque pretendia descobrir o que era. — Espero que consigamos achar um alojamento — disse a sra. Elizabeth sorriu na escuridão. Quando o navio atracasse em Gibraltar ele iria desembarcar. Pargutter desanimada. — Apenas um dia? — perguntou a sra. O comboio chegou ao porto de Gibraltar com a maré alta da tarde.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Não conseguira mais nenhuma referência que revelasse mais sobre a possível condição de Ian ou sobre a cidade de Kivala. — Meu pai e eu sempre ficávamos em uma hospedaria chamada The Fruit of the Vine nas várias viagens que fizemos ao Mediterrâneo — observou Elizabeth. Pargutter. enquanto o timoneiro o dirigia a um assento em frente ao dela. como por milagre.Susan Squires . Isso poderia ser resolvido. Conforme previra. se quiser. Ian apareceu no exato momento em que o barco estava sendo baixado e pulou em seu interior com uma pequena valise nas mãos.

Mas um cachorro começou a latir e ele se afastou. No céu. mesmo sem ser indagada. Casas pequenas construídas com paredes de pedra ladeavam as ruas.Susan Squires . Quando começava a perder as esperanças. Ela o esperou contornar o aclive e o seguiu em silêncio. senhor? — Não — a resposta foi curta e desencorajadora. Algumas jóias de prata foram trocadas por calças de homem. Reconheceria aquele porte físico em qualquer lugar. que ela prendeu com uma corda. Elizabeth aconchegou o áspero tecido do casaco ao redor do corpo e se dirigiu à porta da hospedaria. alguns do Beltrane. enquanto vagava pelas áreas mais pobres da cidade. havia acatado sua sugestão. uma blusa folgada de tricô e um par de sandálias. Ele não disse nada. De repente. onde uma janela se encontrava entreaberta para receber a brisa do mar. monsieur L'Bareaux. As sobrancelhas de Ian se ergueram. As ruas se encontravam repletas de soldados bêbados e marinheiros. Aqueles moleques de rua sabiam de tudo o que se passava ao redor. Para Elizabeth só restava a esperança de que sua sugestão fosse acatada. Não foi difícil prender os cabelos sobre um lenço. Não queria ficar procurando a cidade toda tentando descobrir onde ele havia se hospedado. começou a temer que seu homem misterioso tivesse deixado o lugar por alguma porta dos fundos. Ele não fazia nenhuma tentativa de se esconder. — Homens solteiros preferem o The Bells. o viu parar em frente a uma construção. que comprara no mercado.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) olhar a Ian. Ian espreitou ao redor e se dirigiu à esquina com largas passadas. entre eles. Passava da meia-noite. Encostou-se junto à entrada do alojamento de solteiros perto do The Bells e ficou à espreita. Romances em Ebook . O pessoal fala inglês. Com o passar dos minutos. a lua e as estrelas estavam parcialmente encobertas pelas nuvens e no ar havia a ameaça de chuva. Por causa de sua cor e a baixa estatura. uma sombra escura cruzou a porta da frente do hotel em direção à rua. reparou onde o inglês de ombros largos se hospedara. — O sócio do meu pai. Elizabeth passou facilmente por um garoto. — Já tem algum lugar em mente. sempre se hospedava ali. francês bem como espanhol e catalão — informou ela. A brisa cortante que vinha do porto anunciava que o calor do outono chegara ao fim. Ficara sabendo que Ian. O garoto de quem havia comprado as roupas. por fim.

Talvez estivesse negociando seu preço. os seios fartos projetaram-se sob o tecido fino da blusa. até que a tira que os prendia se soltou. do que parecia ser uma pequena taverna. como se fizesse uma súplica. O som da porta batendo foi a única resposta. Elizabeth sentiu o corpo arrepiar. Ian se avultou sobre a silhueta feminina. como se a qualquer momento fosse se virar e fugir. A blusa branca. que deu um passo atrás. de onde não pudesse ser vista. Então. caía por um dos ombros. mas com clara visão do rosto de Ian. surpreso. fazendo-a recordar da noite em que testemunhara as feridas se cicatrizarem sozinhas. deixando à mostra.Susan Squires . Com passos estudados e silenciosos. Elizabeth se escondeu atrás da folhagem de uma trepadeira florida que se alastrava ao longo de um arco. avaliando Ian de cima a baixo com um olhar experiente. em contraste com a noite escura de Gibraltar. No momento seguinte. enquanto Ian voltava a cabeça para o céu. Elizabeth prendeu a respiração em susto. a mulher saiu para a rua e quase foi parar nos braços de Ian. A luz da lua refletia a cor carmim. num murmúrio ininteligível. Cest une nuit par-fait pour Vamour. Estância corria os dedos lentamente pelos cabelos fartos dele. iluminou seu belo semblante. Quando ele baixou o olhar. n'est pas? Cest umjardin tout prés. Estancia deitou-se lânguida no banco. A mulher o incitou. — Estancia. entremeando promessas de êxtase.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Por fim. imaginando-se no lugar daquela mulher. Ian continuou hesitante. cercado por um emaranhado escuro de plantas tropicais. — Bon. Romances em Ebook . — Soy yo. indeciso. uma porta se abriu no instante em que ele passava e a luz. A prostituta pressionou os seios contra o tórax dele. como se guiasse um animal selvagem. Resmungando. — Ehh. Ele se deixou levar até o arco. a pele bronzeada. hombre — desafiou a mulher. Tu quieres hacer com uma mujer a muy habilidos esta noche? Ele hesitou. Elizabeth o viu cobrir a mulher com seu peso. —Français ? — perguntou ela. sendo observada por aquele mesmo olhar sobrenatural. A desconhecida o alcançou e o conduziu pela mão. Os olhos de Ian já não eram mais azuis e sim vermelhos. atrás do qual Elizabeth se escondia. ela se esgueirou através das plantas até conseguir uma posição melhor. Por sorte passaram adiante até um banco de pedra em um círculo pavimentado. aonde você vai? — gritou uma voz em espanhol.

mal. lobos. — Donde estás? Ian ergueu-se e fugiu ao ouvir a voz chamar outra vez. Seguia o demônio no meio da noite. A sua frente tremeluzia outra sombra ou eram duas? Romances em Ebook . Ian afastou os lábios do pescoço da mulher e caiu sobre o corpo inerte. uma sombra mais preta na escuridão. Beijava? Sugava? Elizabeth se sentiu enojada. sol. A mulher despertou como de um transe. morto-vivo.Susan Squires . Ian arquejou sobre ela por um longo momento e então abriu a boca. Caso contrário. A mulher agora estava em seus braços. você só se lembrará que alguém a achou bonita e que foi amada — murmurou ele. pensou com o coração aflito de horror. com os seios arfantes e o pescoço exposto. Elizabeth assistiu com uma fascinação quase mórbida quando os olhos de Estância se abriram devagar. sangue. Tentou se lembrar das vagas lendas: alho. onde ele havia desaparecido. O brilho daqueles caninos longos feriu os olhos de Elizabeth. imortal. enquanto ele a beijava. num movimento quase sobrenatural. Ela viu quando a mulher o empurrou uma vez e depois puxá-lo para si.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian contemplou a prostituta que repentinamente parecia flácida. mas ele a amparou a tempo. Elizabeth reparou que Ian tinha a pele corada. Por que estaria fazendo aquilo? Seu coração batia acelerado. — Quando acordar. depositando uma moeda de ouro sobre o banco. O Mal. Então. Aquilo não era uma doença. também poderia cair vítima daquela criatura. o viu planando. mas o cérebro clareara o bastante para pensar. Claro que a estava sugando! Como um morcego. Parou e se dirigiu devagar até a esquina. mas não ousou se mover. Quase contra sua vontade. Viu-o entrar em uma ruela estreita e de repente. Com um grunhido de esforço. Sentou-se e o fitou confusa. — Estância — chamou uma voz masculina da taverna. Elizabeth se escondeu melhor para evitar ser descoberta. Sentiu vontade de fugir. mesmo sob a luz tênue da noite. virou-se e foi atrás dele. A luz que vinha de uma janela iluminou o jardim. enquanto o azul retornava aos seus olhos. Então é isso! Ele é um vampiro?. Teria caído. abandonando-se em uma entrega sensual. ele se curvou sobre o pescoço da meretriz. — Isto é para as dificuldades — disse ele. teve a impressão de ter avistado outra sombra. Então.

Mas não a sacudiu. Porém um forte aperto segurou seu braço. comprimindo o peito musculoso nos seios. trapos e sujeira humana. não viu uma pedra oculta na relva alta. virouse e fugiu. fazendo-a sucumbir. Desesperada. A frente. os lábios espessos que se contraíam docemente. Ian deslizava atrás de sua caça. Ian hesitou e voltou a atenção para ela. O fedor era nauseante. Apenas pensou que seriam mais afiados. Podia vê-lo perfeitamente sob a luz do luar: a covinha no queixo. chamuscada pelo fogo que destruíra a construção. Mas tudo o que importava era o cheiro e a proximidade do corpo másculo e sentir os lábios macios de encontro à sua pele. Elizabeth se esquivava em meio ao labirinto de obstáculos. inclinou-se levemente sobre seu pescoço desnudo. Mas o mais impressionante era a força que emanava daquele homem. não bateu. Arrastou-a até uma Lareira de pedra em ruínas. Sua cabeça repousava ao longo do braço forte. os cabelos cacheados e soltos. nem fez as mil coisas que poderia ter feito se estivesse bravo. Por mais estranho que pudesse parecer. enquanto tentava soltar o colarinho da camisa. tropeçou e caiu com um suspiro. E não podia deixá-lo saber que fora descoberto. — Você! — exclamou. Os braços fortes a rodearam. Estava alcançando as outras sombras? Que pelo visto eram três pedreiros. fazendo-a mover o corpo instintivamente para prender a coxa que de alguma maneira ele havia enfiado entre as suas. —Não tenha medo — murmurou Ian. Seria capaz de subjugá-los todos ao mesmo tempo? Ficou sem saber que atitude tomar. Elizabeth não sentiu medo. ele se movia mais rápido em direção a um terreno baldio com a relva crescendo ao redor de vigas de madeira e pedras caídas. Romances em Ebook . — Por que fez isso? — Ian estava com os olhos vermelhos e brilhantes. Mergulhada em pensamentos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) A ruela estava repleta de engradados. pouco visíveis. tentou escapar. Ele a prendeu pelos ombros. Entretanto. legumes podres. Ele a apertou de encontro ao tórax. Agora ele a abraçava fortemente. Deveria gritar para advertir aqueles homens do perigo que corriam? Mas isso a revelaria. Elizabeth pensou que ele a afastaria. a boca sensual a sugava. Por um momento. Elizabeth lutou para ficar de pé. A dor que sentiu quando os caninos lhe perfuraram a pele não a surpreendeu. mantendo a face virada e o olhar baixo. Os pedreiros olharam para trás e começaram a correr.Susan Squires . abrigada apenas por uma árvore. Agora. Ele se inclinou e a fitou. o perfume almiscarado a embriagava.

Ian a apertou com mais força.. inebriandose ainda mais com aquele perfume misterioso. Ele a examinou novamente. mas sabia que era tarde demais para repetir aquilo.. ele imaginava como poderia mudar o que havia acontecido. limpou o sangue e sacudiu a cabeça. Os olhos vermelhos se alargaram e o azul voltou. Desejou saber se outro homem seria capaz de deixá-la naquele delicioso estado letárgico. antes que haja um escândalo. com ele. sem parar de sugá-la. o que eu fiz? Ela sorriu sonolenta. Isso não a preocupou. Ajoelhando-se a sua frente. ela conseguiu enxergar a dor.. — Não se lembrará de nada. Ela não se preocupava em voltar. confortando-se com o calor que emanava daquele corpo másculo. Com um murmúrio. Você se lembrará. — murmurou Elizabeth. Queria ficar ali. tropeçando alguns passos e caindo outra vez. Ian segurou-a pelos ombros para firmá-la e examinou seu pescoço horrorizado. pensou. Levando a mão à boca. Entendeu que.. Quase não podia respirar e agora ele movia os quadris num movimento desprovido de pudor. Ian virou-se e ergueu-a nos braços. como se quisesse clareá-la. para sempre — sussurrou ela... — Tenho que levá-la de volta à hospedaria — anunciou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Elizabeth se sentia arder por inteiro. Elizabeth caiu de joelhos.. Seriam eles igualmente poderosos? — Qual é o número do seu quarto? — ele perguntou. Permitiria que ele absorvesse a quantidade de sangue que desejasse. Ian se afastou. arrependido. — O fruto da videira? — Hum. Na imensidão daqueles olhos azuis. — repetiu ele.Susan Squires . desde que a deixasse ficar ali para sempre. Romances em Ebook . Jamais ficara assim tão próxima de um homem. nas ruínas. seu sangue latejava. — Tenho que levá-la de volta.. — Deus. — De tudo. incapaz de se levantar sozinha. — Foi muito.. incapaz de falar.. ajudando-a a se erguer. enterrando o rosto nos músculos do peito largo. naquele quase êxtase incompreensível.

Por que estava tão alterado? Não era aquela a primeira vez em que despia uma mulher. pois ela ainda corria risco de vida por estar seriamente debilitada. Elizabeth era virgem aos olhos de um homem e consideraria o que ele estava fazendo uma violação. Por que em nome de Deus aquela jovem o tinha seguido? Daquela vez não tivera participação alguma nos eventos ocorridos. Os cabelos escuros e vastos espalhados sobre o travesseiro. Mas eram parceiras dispostas e muito mais experientes do que aquela pequena figura. — Agora. os empilhou perto da porta. Depois removeu as sandálias dos pés delicados. Juntando as roupas e os sapatos. Ian contemplou-a adormecida. Sentindo-se enorme e desajeitado. friccionando o polegar e o dedo mediano na carótida dela. O corpo de Elizabeth confundia-se com as linhas sinuosas do bordado da colcha. Retrocedeu à cama e parou. sentou-se próximo à cama. Impossível. repouse.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Oito. Desconfiou não existir um matiz igual em qualquer escala de cores. mas fizera.Susan Squires . Ele assentiu com a cabeça. A pele dela era da cor do café com muito creme. E pior. Desesperado. esvaiu-se ao vê-la fragilizada daquela forma. vestida igual a um moleque! Jamais teria feito. Os batimentos eram quase imperceptíveis. Ela tinha a pulsação fraca. Hesitou antes de apalpar o cinto de corda preso à cintura delgada. tentando culpá-la por tê-lo seguido. que se infiltrava através das venezianas abertas. De repente entrou em pânico. Primeiro. Havia se alimentado dela. deslizou a palma da mão sobre o pescoço de Elizabeth. O quarto estava banhado pela luz do luar. livrou-a finalmente da calça comprida rota. retirou o lenço da cabeça e soltou os cabelos longos. O dois círculos vermelhos maculando a pele perfeita o acusavam. Elizabeth sorriu e perdeu a consciência. assim não os esqueceria quando partisse. Tentou aquietar a mente. E em demasia. Elizabeth não tinha nada que cruzar o seu caminho justo quando havia saído para se alimentar. Forçando a mente a se manter imune ao toque suave proporcionado pela pele macia a cada peça retirada. O breve alento.. Tocou o pulso fino mais uma vez. mesmo assim não parou. Mesmo após ver aqueles olhos verdedourados inconfundíveis não pôde controlar o desejo febril.. A visão Romances em Ebook .

Susan Squires - O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866)

deslumbrante o cativou. Era uma mulher pequena, mas bem constituída e tinha seios bem fartos para a sua estatura. As aréolas escuras emolduravam os mamilos delicados. O ângulo da clavícula a fazia parecer mais frágil do que era. Tinha uma cintura estreita e quadris opulentos, algo que o corte moderno do vestido jamais revelaria. Ian sentiu um desejo tão forte de tocá-la que o fez prender o fôlego. Ela jamais cederia de boa vontade. Um pensamento, passageiro, perpassou-lhe a mente. Poderia hipnotizá-la. De imediato, sentiu uma repulsa. O horror daquele pensamento contraiu seu estômago. Em que estava se transformando para pensar tais coisas? Ergueu-a com um braço e puxou a colcha. O calor daquela pele o torturou. Para seu assombro, os cílios escuros se ergueram, emoldurando à perfeição os olhos verdes amendoados. Continham alguma acusação? Mal teve tempo de concluir, pois ela o enlaçou pelo pescoço. As bocas se roçaram. Ian prendeu a respiração. — Você é um sonho? — murmurou ela, arqueando seu corpo nu em direção ao dele. Ian gemeu já se contraindo na antecipação do prazer. Desejava aquela mulher, mas agora como homem e não como a besta que o dominara horas antes. Sabia que o conflito iria acompanhá-lo para sempre, se não encontrasse a solução. Afora isso, havia também a repulsa que Asharti deixara como herança. — Não me importo pelo que possa acontecer, mas quero que me ame. Elizabeth não precisava ser hipnotizada, estava disposta a se oferecer por inteiro. No entanto, suas palavras soaram como um comando. Ele a fitou e viu uma espécie de segurança nos seus olhos. Ian estremeceu ao perceber que estava preste a cair na mesma armadilha. Depois de tudo o que havia passado no deserto, jurou que nunca mais deixaria uma mulher comandar seus desejos. E com aquela mesma fúria que repeliu Asharti, empurrou-a para longe. Elizabeth caiu de encontro ao travesseiro. — Não estou sonhando? — murmurou ela, desfalecendo em seguida. Um desejo opressivo de escapar o dominou. Um momento era tudo que precisava para cobri-la, recolher as roupas de moleque e sair para a noite onde criaturas como ele pertenciam.

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Susan Squires - O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866)

De volta ao seu quarto no The Bells, não conseguiu dormir. Caminhava da janela até a porta, torturado pela perspectiva de não poder controlar sua nova natureza. As lembranças voltaram a incomodá-lo. Asharti repousava entre as luxuosas tapeçarias. O pálido verde-amarelo do seu vestido reluzia na escuridão de encontro apele clara. Lentamente, os olhos de Ian se ajustaram às sombras. Uma chamada para reiniciar a caravana ecoou na noite. Ele se ajoelhou à base do frondoso leito. A respiração pesada ainda lhe oprimia o tórax em antecipação à próxima provação, repetida tão frequentemente, que não era capaz de se lembrar das vezes em que ela não o obrigava a servi-la. Esperou que os olhos dela ficassem vermelhos e seu corpo respondesse aos apelos femininos, apesar de todos os esforços para suprimi-los. Fechou os olhos quando ela rastejou para frente e esperou. Então, veio a ordem em forma de uma leve batida na cama e ele se deitou ao seu lado. Os mamilos proeminentes sob a seda translúcida roçaram seu tórax. Os cabelos escuros o inundaram como uma cascata, quando ela se inclinou e sussurroulhe em francês: — É capaz de sentir que hoje será uma noite especial, escravo? As unhas longas arranharam seus ombros já tão feridos, fazendo com que o corte jorrasse sangue. O poder vibrava no ar. Os lábios cheios e sensuais tocaram-lhe a testa suada. — Tomarei um gole primeiro. — Ela ergueu o tronco e o contemplou. — Onde devo abri-lo agora? Ian exalou um suspiro profundo e ofereceu o pescoço, o lugar preferido de Asharti. Mas ela não acatou a sugestão. Em vez disso, correu os dedos lentamente sobre os sulcos sangrentos no peito e na barriga dividida em gomos de músculos enfraquecidos. Iniciando uma exploração sensual, ela tocou as marcas gêmeas nas artérias da virilha, passando para o corte nas coxas, para então seguir para os quadris e finalmente terminar nas nádegas, onde circundou algumas incisões que já havia feito. O tórax de Ian se contraiu de ansiedade. Os lábios ávidos roçaram a face contraída. Podia sentir aquela respiração quente excitar seus sentidos. Na ânsia de aplacar parte da dor prazerosa que o consumia, ele mordeu aqueles lábios entreabertos, sugando-os com voracidade.

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Susan Squires - O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866)

Asharti mostrou o quanto estava satisfeita por meio de um grito agudo. Em seguida, ela delineou a boca de Ian com a ponta da língua, fazendo-o excitar-se ainda mais. Curvando-se espremeu seu corpo sensual contra o dele e correu as mãos até envolver o pescoço largo. A cabeça de Ian entregou-se àquele aperto, exibindo a jugular protuberante. Ela sorveu o suor que escorria em pequenos veios que nasciam na vasta cabeleira. Depois beijou seguidamente as marcas deixadas ali, unindo-as todas com uma linha de calor escaldante. — Vamos, acabe comigo — murmurou ele, já não suportando mais aquela tortura. Jamais havia implorado como ela queria que ele fizesse. — Ao seu comando — sussurrou ela, deitando-o de costas sobre as sedas macias e acomodando-se sobre ele. Ian gemeu submisso, incapaz de reagir, odiandose por estar completamente dominado. Por que não tinha forças para resistir? Num gesto rápido, Asharti segurou seu membro ereto e o introduziu na cavidade morna e úmida que o acolheu em suaves espasmos, como se o acariciasse internamente. Em seguida, ela começou a se mexer devagar para dentro e para fora, antes de se inclinar e cravar-lhe os caninos no pescoço. As mãos fortes rodearam a cintura fina, enquanto ela acelerava o ritmo das investidas, cavalgando-o como uma amazona desvairada. A excitação crescia a cada instante e Ian desejou saber se ela não o controlava pela força de vontade que o refreara tantas vezes antes. Em geral, não o deixava ejacular logo no começo do ato, por vezes sequer tinha o direito de explodir em êxtase. Mas dessa vez, ela não impediu a tensão crescente que o torturava. Pelo contrário, o estimulou, gemendo em sua necessidade enquanto o sugava, primeiro no pescoço, depois no peito e então mais uma vez no bíceps. O êxtase não tardou a explodir, fazendo-o estremecer com um espasmo violento. A luz o engolfou ao mesmo tempo em que a ouviu gritar de prazer. Quase desmaiou. Sentia-se completamente vazio. Ela se curvou, ainda sentada sobre os seus quadris. — Então, escravo, está completamente submisso? Ele afastou as mãos da cintura estreita, sem entender o significado daquela pergunta. Sua submissão era total desde a primeira vez que os olhos dela ficaram vermelhos. Um sorriso sórdido curvou os lábios femininos. — Você não sabe?

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—Já está acordada? Romances em Ebook .Susan Squires . Elizabeth tentou sair das camadas de cobertas. Batidas na porta despertaram-na. Um sentimento de horror o dominou. meu escravo mais submisso. Mas dissipou-se como a névoa da madrugada. E imediatamente Ian sentiu toda a sua força se evaporar. — Acha que usei meus poderes em você? Não esta noite. O sonho era intenso e. — Um novo sorriso de satisfação curvou os lábios de Asharti. sensual. Estivera sonhando. — Deveria o quê? —perguntou ela... fazendo-o cair de encontro às almofadas. Mate-me agora. e ela tentava voltar àquele mundo ilusório.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Não entendi — rosnou ele. Deus! Ele a empurrou — Cadela! Eu deveria. pois seria um esforço enorme abri-las. — Você me serviu por conta própria. a face feminina brilhava triunfante. Como não fora capaz de prever o jogo a que estava sendo submetido? Ela havia conseguido que ele implorasse para também atingir o prazer máximo. — Eu poderia rasgá-lo da cabeça aos pés. Oh. Ian se corroia por ter deixado a certeza de que a servira por livre e espontânea vontade.. Os olhos de Asharti ficaram vermelhos. Foi apenas por aquela razão que ela não havia feito nenhuma tentativa de impedir sua jornada ao ápice do prazer. Pois então me mate. ele sucumbira sozinho. Apenas recorri ao meu poder para introduzir meus dentes da melhor maneira possível. Daquela vez. quase sem conseguir respirar. Ian a encarou. Por que se sentia tão fraca? — Srta. Por conta daquilo. com uma expressão furiosa. Aquele fardo carregaria para sempre.. não foi necessário usar a hipnose. pensou ele. Rochewell! — chamou Jenny. O sol afagava-lhe as pálpebras cerradas. No entanto.

Elizabeth deixou-se cair no travesseiro. Segurou a cabeça com as mãos para não desmaiar. vívida em sua mente. Fedeyah dissera que com o passar do tempo aquilo aconteceria. Com dois dedos no pescoço alvo. Rochewell — cumprimentou-a. sentindo as marcas gêmeas. então iremos. A situação daquela moça era sua responsabilidade. uma das mãos alcançou o pescoço. mas os cantos dos olhos escureceram. De súbito. surgiu a imagem daquele homem deslumbrante inclinando-se sobre ela. srta. Ian estava a seu lado. E então. Tinha que encontrá-la. Ian espreitou pelas cortinas usando os óculos escuros que comprara em Tripoli. Naquele instante. onde estaria ela? Talvez se encontrasse muito fraca para se locomover. Com um resmungo exasperado. Colocou um chapéu e as luvas e esgueirou pelas ruelas. Elizabeth abriu os olhos e olhou em volta confusa. uma das criadas do hotel apareceu à porta. Elizabeth jazia inerte na cama no mesmo lugar onde a deixara. Com duas passadas. Seus olhos já toleravam um pouco mais o sol. sentando-se na beirada da cama. Rochewell! — A voz da sra. Onde estava? Tentou sentar-se. círculos escuros eram visíveis.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Srta. Teria se oferecido a ele? Sentiu a face queimar de vergonha. colocou a capa negra sobre os ombros e ergueu o colarinho até a altura das orelhas. Será que tinha sido ele a livrá-la dos trajes de moleque? O pouco sangue que lhe restara correu mais rápido nas veias. Espiou pela milésima vez a baía na esperança de ver a Elizabeth voltar ao Beltrane. sob os olhos. embora fraca. — Chame um médico agora — ordenou ele. Ele com certeza a vira nua. tão prosaico quanto possível. Mas.. Pargutter era aguda. A face estava pálida e. Ela não se moveu nem abriu os olhos. O que estava errado com ela? Na noite anterior seguira Ian e o vira sugar o sangue de uma prostituta. Estou com uma terrível dor de cabeça. — Por favor. Seria a perda de sangue que a deixara tão fraca? Lembrava-se de Ian carregando-a até a hospedaria. — Bem. — Estamos atrasadas para as compras. sigam sem mim. — Sinto muito encontrá-la tão fraca.Susan Squires .. se é assim. Romances em Ebook . sentiu que havia pulsação. Os cabelos escuros espalhavam-se em contraste com o travesseiro branco. Roçando os lábios nos dela e. Quem sabe ainda havia uma chance de que não seria sempre uma criatura da noite. — Bom dia.

talvez ele não tivesse controle algum sobre aquela força aterrorizante. — Não vai sangrá-la. examinando-lhe os olhos... carregando uma maleta. Ian clareou a garganta. — Se pensar em alguma forma de eu mostrar meu extremo arrependimento.. Uma batida à porta interrompeu-a. afinal. Um homem de estatura baixa entrou.. Podia sentir a vergonha estampada no rosto másculo. Seria possível o Mal sentir vergonha de si mesmo? Claro que não! Mas.. Bem. Sabe se em seu navio existem ratos? Acho que uma sangria irá ajudá-la. Elizabeth tinha razão de temê-lo.. Era inglês. E também garanto que não será forçada a aturar minha presença. Aquela sensação fazia-o lembrar os pensamentos vergonhosos que tivera na noite anterior. Ian antecipou-se para ajudá-la..... Romances em Ebook . fraca e vulnerável demais para falar. mas parecia estar havia muito tempo fora da Inglaterra. — Bem... — Quais são os sintomas? — perguntou o doutor. minha querida. — Bem. Bem. seu charlatão! — gritou ele. sentiu que suas pernas se roçavam. sente-se. Ela assentiu com a cabeça. enquanto Ian o empurrava porta afora. separadas apenas por uma coberta. Não pretendia. — A voz de Ian falhou. O médico entendeu que Ian a estava acompanhando. Ian não sabia o que dizer. — Eu. ah.. — Solte-me — pediu o homem. Em seguida examinou-a no pescoço. mas asseguro que receberá o tratamento de que precisa e voltará ao navio antes que ele zarpe. Ian deu um passo em direção ao médico.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) A moça assustou-se com a aparência de Elizabeth e saiu correndo. — Uma enorme fraqueza — murmurou ela. — Se houver alguma forma de. pela noite passada. Então é passageira do Beltranel Elizabeth assentiu e tentou sentar-se. O pequeno homem pediu que ela abrisse a boca. eu gostaria de desculpar-me por.. segurando o homem pelo braço. O que seria apropriado após quase drená-la de todo o sangue? Além disso. Ela o fitou..Susan Squires . — Se me deixar. a senhorita sofreu da forma mais abjeta em minhas mãos. imploro que me informe. — Meus honorários..

. Afinal. — Se a senhorita preferir ficar em Gibraltar por alguns dias até recuperar as forças. Ian caminhou até a porta.. Agora saia. Romances em Ebook . Mas estava tentando responsabilizar-se por seus atos. fraca e incapacitada. — Perdoe-me o acesso de raiva — disse ele. que saiu correndo dali. Isso poderia acabar com a esperança de levar uma vida normal. Nos últimos dias havia captado comentários temerosos a seu respeito. Com a audição privilegiada. apressou-se em passar a refeição e sair dali. Não havia segredos em um navio. Relembravam sua força contra os piratas e estranhavam o fato de ele nunca ser visto à luz do dia. até que tenha tomado todo este caldo. tudo estaria solucionado. trouxera-a para o barco e a estava cuidando. Ela simplesmente manteria a moça como uma serva. Elizabeth não desejava ficar confinada em Gibraltar. O estômago de Ian se revoltou com o simples pensamento. E havia um problema ainda maior. seus ouvidos sensitivos capturavam tudo o que os marujos comentavam. A última coisa que Elizabeth ouviu foram seus passos se afastando. uma distância segura. A lua lutava no céu contra as nuvens escuras que teimavam em escondê-la. posso contratar alguma dama para. A sra. dirigindo-se a Elizabeth. Todos estavam certos. Quando viu a fisionomia transtornada de Ian. Pargutter me ajudará a voltar ao navio. onde podia encontrar um pouco de solidão. — Ele pousou a bandeja no colo dela e caminhou até a lareira. Ian estava em pé na extremidade do barco. Chegara à conclusão que seu destino estava nas mãos daquela mulher. Se ele pensasse como Asharti. por favor. havia uma criada com uma bandeja com o café da manhã. Ele era um monstro.Susan Squires . gostaria de ficar sozinha — conseguiu dizer com a pouca força que restava. visivelmente envergonhado. Parada à porta.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian levou a mão ao bolso e pagou ao médico. ambos estavam a caminho da Inglaterra. — Por favor. — Não. — Não se preocupe comigo. Elizabeth forçou-se a tomar a sopa. Mas aquilo não era o pior.

senhorita. E o doutor também está aqui para vê-la. O preço da submissão de seu orgulho era alto demais. Não podia fazer aquilo. — É Redding. O balanço do navio era um alívio. sentindo o líquido fluir por sua garganta. Redding. A batida na porta soou um pouco mais alta. tão atraente quanto perigoso. Era o sinal de que ele deveria retirar-se para o isolamento de sua cabine. enquanto seus corpos de amoldavam. pois era uma pesquisadora em busca da verdade. trouxera galinha assada na noite anterior e cerveja preta. Sentia-se um pouco melhor naquela manhã. Aquela altura já deveria estar a milhas de distância de Ian. Uma mulher prática. conseguira escapar. Entretanto estaria mais uma vez nas mãos de uma mulher. — Oh. Não estou vestida. Não importavam as consequências. Coisas que estava determinada a não pensar mais. Sem contar que ela talvez pudesse encontrar a chave de seu dilema.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) O que poderia fazer? Inclinou a cabeça ao sabor do vento. — Sim — respondeu espantada com a fraqueza da própria voz. Afinal. Romances em Ebook . o chefe de cozinha. Sentia-se feliz em estar longe daquela figura poderosa. — Achei que uns ovos mexidos e um pouco de mingau lhe fariam bem.Susan Squires . deixe a bandeja aí fora. mais inteligente do que qualquer homem que conhecia.. não importando o quão estranha pudesse ser. acordou em sobressalto várias vezes por conta de sonhos ruins. Aquela seria sua única esperança de sobrevivência em Londres. como se fosse possível que ele levasse todo o seu sofrimento. O vigia da manhã estava sendo chamado para assumir o posto. Apesar de ter dormido a noite inteira. Capítulo III Elizabeth despertou com a luz do sol que entrava pela portinhola e com a batida à porta. O que o teria levado ao desvario de alimentar-se do sangue dela. Teria de contar ao menos parte da verdade se quisesse ajuda.. Elizabeth tinha todo o direito de estar assustada. prontos para o amor? Teria de convencê-la a não contar o que sabia a ninguém.

— Não podia ser incomodada nem para ajudá-la a embarcar.. E em seguida saiu quase correndo da cabine... Pensei que tivesse que fazer uma sangria. não havia mais ninguém para ajudá-la. Agora se lembrava..O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Mas a porta se abriu e o doutor entrou carregando a bandeja.. Para mim não faz diferença se o paciente está vestido ou nu. Rochewell. — Se me matar. mas tive que quebrar a promessa. O doutor virou-se para ver Ian bem atrás dele. pensou estupefata. — Uma voz familiar retumbou na cabine. deixando o ambiente na penumbra. não precisava se preocupar. — Vá neste minuto.. Pargutter. — O que há para explicar?—Ele tinha sugado seu sangue. de fato sua aparência melhorou bastante.. teria sido muito fácil. Se quisesse matá-la. Romances em Ebook . — Sou um médico minha querida. — Srta. sem acreditar nos próprios olhos.. Ian inclinou-se sobre ela. Além disso. Ele olhou as próprias mãos como que a tomar coragem. — Se pudesse se acalmar e deixar-me explicar.. mas apenas a dieta já funcionou. — A sra.. — Parece bem melhor hoje. senão eu grito. — Seu coração retumbava alto no peito.Susan Squires . Não podia confiar que o doutor não faria uma sangria. — Bem.. — Precisamos conversar. — Acalme-se. — Depositou a bandeja em seu colo e encarou-a. — O que está fazendo aqui? — perguntou Elizabeth trêmula. — Fico feliz por não ter que me sangrar. — Retire-se agora.. Isso significava que planejava demorar-se. — Ele esgueirou-se da luz que entrava na cabine. — E eu também. — Sinto muito. O doutor não me sangrou e Redding trouxe-me um jantar substancial ontem à noite. — Jurou que ficaria em terra. O rosto dele estava vermelho e um pouco inchado como se tivesse tomado sol. O que de fato ocorrera. Encaminhouse até a portinhola e fechou a cortina. todos saberão que foi o senhor e será preso. Ele tivera que ir à hospedaria à luz do dia para ver como ela estava e ajudou-a até a barcaça.

— A senhorita possui uma mente científica.. Acostumei-me àquela desventura e ao chicote. Mas se desejar. embora a vontade fosse de pedir que ele se retirasse.Susan Squires . — Fui vendido como um cavalo de carga para uma caravana. a senhorita já havia adivinhado. se quiser. Dor física. Tem as marcas em seu pescoço que podem corroborar suas palavras. Tratavam-me como uma mula ou um boi. de forma que eu pudesse aguentar o trabalho. — Só queria voltar à Inglaterra para conseguir recuperar de alguma forma uma vida normal e talvez encontrar um médico que me cure. Descobri que podemos nos acostumar a quase tudo. Ninguém falava comigo até Fedeyah. — Respirou fundo e continuou: — Sem rodeios. — Ouça e então poderá fazer o que quiser. Quando aqueles olhos azuis se ergueram para fitá-la. um árabe. Os vigias surravam-nos e a vida era dura. — Acha mesmo que a mataria? Jamais faria algum mal contra a senhorita. — Que coisa horrível! Ele deu um sorriso sarcástico.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Elizabeth também estava com a atenção naqueles dedos longos que pouco tempo antes a tinham acariciado o corpo. ela percebeu a culpa que turvava o brilho. querer praticar seu inglês. — Fez Romances em Ebook . — Foi tratado com crueldade? Ian tomou fôlego e encarou-a. — Fui retirado de um navio da Marinha há dois anos por piratas. e ele franziu o cenho. O olhar de Elizabeth deslizou pelo rosto másculo. incapaz de prosseguir. Ele pegou um banco e sentou-se em frente à cama. — Fez uma pausa. Pode chamar o comandante. meu pecado não tem perdão. Por quê? Confessar tudo significaria o cárcere. e vendido como escravo. Ou assim pensava na ocasião. A Execração. Elizabeth não disse uma palavra. Mas alimentavam-me bem e me davam de beber. — Ian fez uma pausa. talvez achasse minha história ao menos interessante — murmurou ele. o pescoço. Tudo que conseguia divisar era uma imensa vergonha que beirava o desespero. — Mas a atrocidade maior não foi essa. — Não tive opção para ficar assim. poderei confessar tudo. — Vou considerar sua proposta de confessar tudo — ponderou ela. Talvez acreditem na senhorita. Até aí. Apenas tentei reparar minha indiscrição..

— Ele engoliu em seco. Apenas suprimentos para uma jornada sem fim através do deserto. E descobri que posso dar às minhas vítimas algo em troca. Mas com a senhorita. E agora até o suicídio me é negado. Kivala. — Pode perguntar por que não me deixo morrer por falta de sangue? Eu tentei. — Ian respirou fundo.Susan Squires . Os dedos de Ian estavam brancos de tanto apertar as mãos. — Mas aquela era uma caravana especial. era capaz de hipnotizar qualquer um com um olhar apenas. Ele assentiu e deu de ombros. Será que ele realmente estivera lá? Mal conseguia segurar sua curiosidade. — Retiro bem pouco sangue de cada pessoa. Um sentimento de terem sido reconhecidas e valorizadas. não sei o que houve. sinto uma espécie de desconforto incontrolável.. Espero que possa. Romances em Ebook . — Não é uma situação confortável. — Ela só comercializava para adquirir escravos que suprissem suas necessidades. Estivera preste a pedir seu perdão. Aliás. Mas tinha outros pensamentos ainda mais terríveis. porém não julgava ser merecedor.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) uma pausa. — Ela vagava pelo deserto à procura de sua Cidade Perdida. Minha mente não consegue raciocinar com clareza. — Ian respirou fundo e continuou num repente. mas quando a fome aperta. — Eu vi as marcas dos dentes dela em seu corpo.. Ela só retirava um pouco do meu sangue de cada vez. mas infelizmente não tive essa sorte. mas jurei nunca fazer mal irreparável a ninguém. — Quem era essa mulher? — O nome dela era Asharti. — Eu vivi mais do que os outros. A dona da caravana viajava em uma liteira carregada. Elizabeth arregalou os olhos. não. — Ela me deixou ali para morrer. — De repente ficou em silêncio. — A palavra saiu com dificuldade de sua boca. Os escravos eram enviados à tenda da dona e saíam de lá mortos. Acho que nunca pensou nisso. Ele tentara suicidar-se? Elizabeth mordeu o lábio inferior. Deus! Ela podia fazer uma boa idéias da história que viria a seguir. perdi o controle e exagerei. — Um escravo de cada vez era escolhido para servir à dona de maneira muito íntima. Viajava sempre à noite e não levava mercadoria para comercializar. — Ele desviou o olhar. Oh. — Ela o forçou a matar alguém? — Oh. Foi apenas uma gota de sangue que me infectou.

O tempo passava como uma névoa para Elizabeth. mesmo na presença dele. Romances em Ebook . Mas como contar que era um vampiro? — Uma vida normal não é pedir muito — murmurou ela. ou ao menos. portanto meus amigos morrerão antes de mim. a maior parte. Ian virou-se e abandonou a cabine. O vento do Atlântico empurrava o Beltrane em direção a Brest. Precisa alimentar-se bem para recuperar as forças. — Olhe.Susan Squires . E jamais veria aqueles dois outra vez.. já que não passava mais tempo exposto à luz do dia. Ele a visitava todas as tardes e todas as noites. — Não sei exatamente o que sou — continuou. — Aquela altura. Apenas Asharti e Fedeyah sabiam. E conforme os dias iam passando. Sabia o que ele era.. E insistia para que se alimentasse bem e bebesse cerveja preta. os outros todos estavam mortos. era possível notar que Ian estava ficando cada vez mais pálido. — Não estou com fome. Sei bem que algumas coisas me serão negadas. uma vez que estivesse em segurança na Inglaterra. Ela garantiu que tentaria sair do quarto na manhã seguinte. Sei que viverei mais do que meus contemporâneos. Jamais poderia revelar a degradação que chegou ao final. — Assim dizendo. sob os olhares vigilantes de Ian e disse que esperava vê-la em breve no deque.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Agora que contara sua história. Tanto ela quanto Ian agiam como se aquela confissão não tivesse acontecido. estão fora de questão. — Mas agarro-me à minha condição humana. ao mesmo tempo em que limpava com as costas das mãos as lágrimas que escorriam dos olhos. ou tudo que poderia contar. ela já tinha esquecido totalmente da comida. De sua parte. Ele havia contado a história inteira. sentia-se envergonhado. O comandante também a visitara duas noites após o jantar. por exemplo. Casamento e filhos. — Talvez seja. Vou buscar outra bandeja. sua comida está fria. — Bobagem. Ele lia para ela ou perguntava-lhe sobre suas expedições. Nenhuma palavra que pudesse dizer apagaria a dor daquele homem. sem dúvida ficaria gorda. à âncora de uma vida próxima da normalidade na Inglaterra. — Ian passou a língua pelos lábios e ela poderia jurar que os olhos dele se encheram de lágrimas. ela cochilava. navegavam ao longo da costa de Portugal e da Espanha. Se continuasse daquele jeito. Não podia odiá-lo.

Além disso. — Se pensa assim. Apenas Elizabeth podia sentir os dedos pressionados em seu braço. — Ela abriu uma gaveta e entregou-lhe um frasco com um líquido azul. — Mas. Elizabeth ergueu o olhar e viu que o rosto dele estava muito vermelho. — O senhor não deveria se arriscar assim. disse: — Isto é tudo que consigo aguentar por hoje. Rochewell. se não puder suportar um raio de sol? — perguntou sorrindo e oferecendo o braço mais uma vez. Qualquer que seja o nível da queimadura.Susan Squires . — Já estou menos sensível à luz. Ele assentiu aliviado. Os músculos dos braços dele se retesavam e ele cambaleou um pouco como que atordoado com a respiração pesada. rangendo os dentes. Vai melhorar a ardência. Ian ofereceu o braço. Puxando-o pelo braço. — Não há razão para sofrer tamanho desconforto. — Seu rosto está vermelho. Elizabeth acenou com a cabeça e aceitou a oferta. vestindo um casaco preto e usando luvas. certamente o senhor não poderá ir ao deque! — Estou resolvido a testar meus limites — disse ele... — Não gostaria de dar uma volta? lan procurava se manter calmo enquanto caminhavam pela sombra. Notou que os marujos os observavam.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Surpreendeu-se ao ver Ian aparecer por volta das dez horas da manhã.. um chapéu e óculos escuros. Muitos os cumprimentavam. — Bem. Estava mesmo indo até o deque. Voltaram à cabine e lan se deixou cair em uma cadeira. — Bobagem — disse. não é fatal. Romances em Ebook . Caminharam pelo corredor até chegar ao deque.. sim. — Passe isso. como poderei almejar uma vida normal. suponho que esteja preparada para tomar um pouco de ar. — Srta. — Vamos entrar — murmurou ela. —Acredite-me. retirando as luvas e os óculos. — Se permanecer à sombra. conseguindo dar um sorriso amarelo. Ele fez uma mesura quando ela abriu a porta. — Viu? Não foi tão difícil assim — disse ele.

Eles podem dar-nos alguma luz sobre sua condição.. Por várias vezes evitou o contato com a desculpa que já estava se sentindo bem. mantinham-se na extremidade da mesa. Todas as noites.. chegaremos lá em dois dias. Elizabeth sorriu para ele. outros precisavam de uma rebuscada tradução. que também entretinha alguns convidados após o jantar. — Acho que voltarei a consultar meus pergaminhos. se Deus quiser e o vento ajudar. Aquele esforço continuou até Brest. A estratégia era traduzir seções de diferentes locais em cada pergaminho. E como Elizabeth e Ian aparentemente não estavam interessados naqueles longos relatos. acha que poderá esperar até Brest para se alimentar? — Fala como se essa necessidade horrível fosse normal.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Bem. mas ele não se dava por vencido. guiando-a com as mãos fortes. — Claro que não. levando-os a se tornarem cada vez mais íntimos. Alguns já conhecia quase de cor. que se sentava lendo as transcrições que ela fazia. — Deve manter sua força — disse ela enquanto o navio ancorava no porto pouco antes do jantar. Outras vezes. — Estou analisando sob o seu ponto de vista. E assim começou sua tediosa busca por uma informação em particular em meio aos pergaminhos. as mãos fortes em seus cotovelos. embora o rubor de suas faces o traísse. Um homem não precisa de carne para sobreviver? O senhor acha que consegue aguentar até alcançarmos a próxima parada? — O comandante disse que. Muitas vezes. Ian.Susan Squires . A propósito. despertando um desejo que ela lutava para não sentir.. — Mas só se isso não a cansar em demasia. perdia-se e começava a traduzir trechos sobre oásis ou ruínas. emitindo-lhe faíscas por todo o corpo. Geralmente em estado de embriaguez. sentavam-se em uma das extremidades da longa mesa na cabine do comandante.. Foi Elizabeth quem o lembrou que ele teria que descer a terra. — Eu ficaria muito grato — disse ele quase humildemente. principalmente quando a acompanhava de um lado a outro. mas continua dolorida. ele contava histórias das guerras napoleônicas. A fome ainda não me atacou — lan respondeu. — É melhor que não deixemos repetir os efeitos de uma fome Romances em Ebook . a guiava à cabine dela.

Não conseguiu pregar o olho até ouvir o barco de Ian voltar pouco antes do alvorecer. Elizabeth fora convidada para um lauto jantar na cabine do comandante. Não era uma mulher religiosa no sentido normal. — Tenho certeza que ele nos cederá um barco — anunciou ela. Não está sentindo a necessidade? —Vamos chegar à Inglaterra em breve — respondeu ele. — Estarei aqui a essa hora. Ruffbrd tem negócios a tratar em Brest. Elizabeth seguiu-o. Mesmo de longe. mas não gostaria de incomodá-lo pedindo um barco. ela caiu em um sono profundo. — Tome cuidado — ela advertiu. exausta. levantando-se. posso dispensar-lhe um barco e um marujo. Não sabia qual eram as suas preferências. Em seguida.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) excessiva. Apesar dos pensamentos conflitantes. Romances em Ebook . Ian não apareceu até o final da tarde. — Ian fez uma reverência e seguiu até o deque. — A esta hora da noite? — perguntou o comandante. com o olhar perdido no horizonte. pelo menos se acalmaram. que se ajoelhou e fez suas preces. — Já se passaram duas semanas desde Gibraltar. — Comandante! O sr. ela conseguiu sentir o desespero dele. — Mas o comandante não vai enviar barcos a terra até o amanhecer. Seus temores.Susan Squires . Apenas ficou algum tempo observando as luzes de Brest. entrou no barco cabisbaixo. Ele não respondeu. imaginando o que o estaria ajudando a fazer naquela noite. Aquela noite foi longa para Elizabeth. Ela trabalhara a tarde inteira em um dos pergaminhos. — As quatro horas da manhã. — A que horas zarpará amanhã. — Isso se não tivermos que lutar contra o vento no canal. Imaginava se ele estaria sorvendo o sangue de alguma prostituta ou de algum garoto inocente. Ele assentiu com um gesto de cabeça. Seus passos fortes soaram na cabine ao lado. mas acreditava firmemente em uma força poderosa do universo. cuja tradução estava difícil e agora estava exaurida. — Bem. senhor? — Ian indagou em um tom baixo de voz. Então ficou tão envergonhada pelos próprios pensamentos. apesar de não resolvidos. Entendia que obter o alimento que precisava era um peso para sua alma.

O silêncio era o único companheiro de Elizabeth e Ian. E eu era bom na tarefa. mas fiz uma tabela de símbolos. com os olhos brilhando de excitação. Elizabeth sentiu-se invadida pelo perfume almiscarado. tanto que chegara a causar certa abstinência quando ele estava em terra. sentando-se frente a ela. Consigo ler as palavras decodificadas. Ian se inclinou sobre o pergaminho. pois a tradução literal soaria ridícula. Uma energia indescritível emanava daquele corpo exuberante. A embriaguez causada por aquele cheiro a viciava. — Quebrar códigos é uma habilidade muito valorizada nos corpos diplomáticos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ao reconhecer as passadas de Ian. — Ele puxou um pergaminho e começou a desenrolá-lo. — Sim e todos sobreviveram. Elizabeth assentiu e voltou aos pergaminhos. — O que pretende fazer? — Claro que não conseguirei traduzi-lo na íntegra.. — Verdade? — perguntou espantada. e começou a estudá-lo.. não. Pelo semblante e o brilho daquele rosto forte. Romances em Ebook . examinando o rosto de incomparável beleza. — Achou o que precisava? — perguntou ela. — Oh. — O que encontrou? Ian empurrou o pergaminho na direção dela. — disse ele de repente dez minutos mais tarde. Mas é preciso fazer uma interpretação. — Bem. é apenas um código para mim. ficou evidente que ele tinha conseguido alimento. Essa é mais sua seara do que a minha. — Você fala a língua antiga? — perguntou ela. voltou a atenção para a entrada. deixando-a trêmula. — E você parece cansada — comentou ele.Susan Squires . Mas não se demoraram por conta dos excessos da noite anterior. — Dê-me um desses. retirando um papel do bolso. você parece ter revivido. — Ian baixou os olhos. — Espere. — Vou interpretar quando terminar o texto. em desaprovação àquela pergunta. Trabalharam até o comandante chegar. comparando suas transcrições com os originais — respondeu ele.

Eles se foram agora. Ele apontou outra vez. — Kivala? — perguntou ela. Ian não disse uma palavra. Elizabeth encarou-o. Ela voltou à leitura: Eles nos ensinaram a lavrar. — Sabemos sobre essa parte. sem serem vistos. antes mesmo de todos os deuses. O ar não era tão pesado quanto nas montanhas. o que não significava que não o usasse de outras formas. — Eu estive lá e o vi. A descoberta de Fedeyah sobre a posição da lua entre duas montanhas os tinha levado a um labirinto de córregos. instigando-a a continuar a leitura. Até ali ele também havia traduzido. O mundo ficou menor. Ela começou a ler devagar: Antes do primeiro de nós. Asharti não sugava seu sangue havia três dias. eles se movem invisíveis pela noite. Elizabeth fez uma pausa. é sua companheira. Talvez isso signifique que eles morreram. cobertos pela água da neve do inverno que corria através do arenito vermelho. leu em silêncio para comentar em seguida: — Daqui em diante começam a descrever os monumentos. Nós ficamos menores. E ele está no Templo de Espera. O poder do sangue brilha em seus olhos vermelhos. Romances em Ebook .O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Pode traduzir nesta passagem? Você é mais rápida do que eu. "Se foram" pode ser um eufemismo para morte. — Apontou o trecho com o dedo indicador. Como os morcegos. avaliando as reações. Deve ser alguma espécie de hipnotismo — Ian comentou. segurando a respiração. Ela fitou-o. Alguns dizem que geraram o fogo. na certa. pois não poderemos mais servi-los. — Eles se foram. exceto um.Susan Squires . eles já estavam aqui. ela o estava poupando com algum objetivo. Ele estava imóvel e pensativo. Foi em agradecimento que erguemos seus monumentos. Ian desviou-se do corpo do escravo quando a caravana pôs-se em movimento outra vez. Nenhum homem pode resistir. da terra. Todos. Por um longo momento. As feridas estavam cicatrizando. em Kivala. prendendo a respiração. O sangue deles detém o poder. — Não — respondeu Ian. A força da pedra.

Após várias curvas e desvios. Impossível saber o que estavam procurando.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian cambaleava ao lado dos quatro carregadores remanescentes. — E quanto aos transportadores? — Deixe-os aqui. surgiu na noite como uma entrada. De pronto as cortinas de seda se afastaram. Até mesmo Asharti e Fedeyah sussurravam.Susan Squires . assomou uma fenda vertical em uma rocha. — Minha deusa — chamou ele. os olhos de Ian foram se acostumando à escuridão. uma ravina. mas ao menos seria o fim. Deixe os camelos e traga os escravos. Ela ergueu o olhar diante da rocha fendida. Ian. Não iria sobreviver àquela jornada. Romances em Ebook . parecia uma boca aberta de uma criatura pronta para devorar alguém. Ian podia divisar o olhar excitado da mulher de extrema beleza. como ele já havia percebido. Talvez fosse dado em sacrifício a algum Deus. Em meio à negritude. Um sem-número de possibilidades para a morte iminente assolou seu espírito. ladeada por dois grandes pilares. — Vamos nos aproximar esta noite. pousando-lhe a mão sobre a cabeça suada. que ele o acolheria de bom grado. A frente. envolta em um manto de lã vermelha e estacou em frente a Ian. Fedeyah ordenou que estacassem e foi consultar Asharti. Ou poderia ainda ser esquartejado por alguma besta. — Sim. uma escada incrustada na pedra surgia à esquerda. com uma corda atada ao pescoço segura por Asharti. De soslaio. Precisaremos deles para voltar — dizendo isso. enquanto o vento quente que soprava dos rochedos assolava a caravana. Os degraus excessivamente altos para um ser humano escalar. Ambos pareciam enxergar perfeitamente através do breu. — Levem o meu favorito. cambaleava atrás de Fedeyah em direção à fenda escura. Ainda assim. Todo o grupo caminhava em silêncio. desceu da liteira com graciosidade. É assim que a descrevem os textos antigos. — Podemos acampar? — Não — ordenou Asharti. carregavam lamparinas caso precisassem. Será minha oferta mais preciosa. Aos poucos. Após algum tempo escaparam do alcance do vento.

De que mais necessita? Está acima de qualquer mortal. ganhando vida com o movimento. A magnitude das sacadas e do frontão triangular. e parecia ancorado na rocha. Asharti puxava a corda que o prendia pelo pescoço. Ninguém pode ir contra sua vontade — argumentou o árabe com a voz trêmula de medo. O arenito se tornava vermelho e dourado. É a nossa raça que terá de se curvar a meus pés. Rubius. Entradas ornadas que pareciam tumbas estavam escavadas na rocha. Ousaram questionar meu modo de Romances em Ebook . Ele sentia os pés descalços sendo cortados pelas pedras pontiagudas. Ela volveu o olhar brilhando pela avareza a Fedeyah. ricamente incrustados com bestas aladas e caveiras. ouviu Asharti gritar em êxtase antes de estacar. Eles não me exilaram? Aqueles de alma pequena. Sincai. o urro se transformou em uma risada de hiena. Os escravos quase em colapso. Tudo edificado em pedras vermelhas. Até mesmo Asharti e Fedeyah paralisaram. Ambos relaxaram. — O Templo de Espera — sussurrou Asharti. Um grito horrendo cortou a noite. apavorados. as pedras deram lugar à areia para o alívio de Ian. Khalenbergue e até mesmo Beatrix Lisse. Por fim. um túnel escuro. Por fim. embora os escravos ainda tremessem. Sinais de uma antiga civilização se faziam presentes por todos os lados. Porém. dirigiram-se à outra abertura na rocha e ele foi forçado a correr. fitando a escuridão da entrada. — Os humanos servem apenas para saciar minha sede.Susan Squires . parecia irreal. a ravina se abriu em uma imensa quadra. — Deusa — chamou-a Fedeyah. os escombros de uma escadaria de anfiteatro e as estátuas devastadas. — Ou triunfo ou morro aqui. Após uma última curva.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Kivala! — exclamou Asharti. Um templo com centenas de metros de comprimento. Apressados. Os demais escravos eram incitados a segui-los com chibatadas. Degraus rasos levavam a. Ian cambaleou para frente quando ela se precipitou em direção à entrada. —Não precisa correr esse risco. sorrindo em antecipação. Ian observou os pilares tombados em um círculo. ávida pelo encontro do que quer que estivesse à frente. Sentia as últimas reservas de força o abandonar. conforme avançava pela quadra. — Lá! Ian ergueu o olhar para encontrar algo próximo a um milagre aparecer em meio à parede de ravina.

Que os humanos nos perseguiriam se não fosse mais discreta. maculando o silêncio. Ela seguiu em frente. Ela se encaminhou em direção à massiva fachada de pedra. A sensação de algo muito estranho que não sabia denominar emanava do outro lado do imenso túnel escuro. que pulsava em uma dúzia de cores. o corredor se nivelou e abriu-se outra vez em um amplo salão. Bem ao centro havia uma piscina verde ladeada por ladrilhos azuis e dourados. Asharti estacou. Atrás deles. Ele pensou reconhecer alguns arábicos. safiras e diamantes se alternavam com uma infinidade de outras pedras capazes de dar vida ao pilar. erguendo a lamparina contra o pilar coberto com pedras preciosas. Eram necessários olhos vermelhos para hipnotizá-los para enfrentar o desconhecido. Era como se o templo tivesse ganhado vida. Asharti passou a unha em uma pedra pontiaguda. — Consegue senti-lo? Ian a fitou. ele cambaleou. As paredes reveladas pela luz das lamparinas estavam repletas de símbolos. Asharti se voltou com um sorriso enigmático. Romances em Ebook . O que isso importa? Não somos infinitamente mais fortes do que eles? Pois que se faça a guerra! E os humanos se transformarão no rebanho de ovelhas mansas que devem ser. A fragrância almiscarada se tornava cada vez mais forte à medida que desciam.Susan Squires . afilada na extremidade. Ian percebeu que estava diante de um monumento de incalculável fortuna. Fedeyah baixou a cabeça em consentimento. ainda cobertas com camadas de ouro e lápis-lazúli que emolduravam outra entrada. Quando chegaram ao topo da escada. descendo a rampa. Uma fonte de brilhos surgiu à frente deles. trazendo atrás de si um cambaleante Ian.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) vida — bradou ela. Disseram-me que sou um perigo para nossa raça. Rubis. pulsando e emitindo uma canção inalcançável para a compreensão humana. estupefato e então percebeu o tremor sob seus pés. Na extremidade da porta. Fedeyah reuniu os guardiões e escravos. — Gosto de matar. Estupefato. perceberam duas imensas estátuas com cabeça de pássaro e corpo de cachorro. Por fim. musicado pelo som de água caindo. Quando ultrapassaram a soleira da porta. Logo à frente o solo se transformava em uma rampa descendente. Da fonte se erguia uma coluna em espiral. puxando a corda de Ian.

porém não possuíam unhas. O ser permaneceu em silencio. Vagarosamente o ser a ergueu. O ser era delgado e extremamente alto. Desceram outra vez uma rampa de pedra.Susan Squires . Ian percebeu que Asharti mentia. Romances em Ebook . tocando os símbolos de maneira precisa. A figura que se encontrava sentada em um trono na extremidade do aposento também não parecia humana. Era ali a origem da força retumbante. Em seguida. Um líquido viscoso e a escuridão o envolveram. Elas os levarão à loucura. Fizeram menção de se aproximar. Fedeyah entrou atrás deles. E então a passagem terminou repentinamente em uma parede de pedra vazia. mantendo Ian preso e bem junto a ela. prometendo: — Não olhem demoradamente para as pedras. Asharti ergueu a lamparina. O ar se tornava cada vez mais rarefeito. O ambiente onde foram parar possuía um brilho azul que provinha de centenas de safiras brilhantes. examinando os símbolos. Os dedos eram finos e longos. Os olhos eram grandes e ovais e de um preto profundo como nenhum olho humano poderia ser. Ian engoliu em seco ante o semblante desumano. Porém. Em seguida.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Os escravos soltavam exclamações e risadas estridentes profanando o ambiente. O nariz tão pequeno que parecia quase invisível e a boca um mero traço. — Grande Ancião. Asharti deu um passo adiante e se postou em frente ao ser. mas ela os impediu. A cabeça estava pendida e as mãos pousadas nos braços do trono. Ela tentou outra vez em francês. Os olhos pretos inexpressivos alternando-se entre os intrusos. Ian não conseguiu definir se era homem ou mulher. trajado em um costume preto. trocou um olhar cúmplice com Fedeyah e deslizou as mãos sobre a placa. puxando Ian consigo. procuro-o há anos! — declarou ela em árabe. inexoráveis. passou através da porta. Há um tesouro maior ainda a explorar. com exceção de uma placa quadrada repleta de indecifráveis figuras encravadas. arrebanhando os escravos. A cabeça era de um branco brilhoso e sem cabelos. A parede de pedra de pronto cedeu e descortinou-se diante dos olhos incrédulos um abismo negro. Ian observou ricos tapetes e tapeçarias de parede que retratavam figuras não totalmente humanas caçando uma grande besta. e ladeada por duas imensas esmeraldas incrustadas em nichos.

fartando-se do sangue que esguichava. — Sim — respondeu Asharti em latim. não quero. sangue. minha. O ser ergueu um dedo e Fedeyah lhe trouxe outro escravo. — Sangue.. embora fossem extremamente velhos. Romances em Ebook . com extrema lentidão. Fedeyah cortou a carótida do escravo com uma lâmina e o postou em frente ao trono. Quando terminou. que não me alimento de sangue. indo juntar-se em seguida a sua ama... enquanto ele tomava o sangue de vários escravos bem diante de seus olhos.. nascente? — Sim... sangue? — Trouxe um presente de sangue para Aquele Que Espera — afirmou ela. o Companheiro. o Ancião enterrou os dentes no pescoço do escravo.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — A senhora tem. Nas montanhas Cárpatos. No mesmo instante os olhos do Grande Ancião ficaram vermelhos. —revelou o ser. Ian assistiu horrorizado.. Demonstrando uma extrema avidez.. O ser piscou várias vezes.... me tortura. jogando o corpo seco para um canto. há tanto tempo.. estremecendo.. com o. —Mas. O homem caiu aos pés da criatura. —Posso tomar esse sangue sem seu consentimento — ameaçou o Ancião com sua voz dotada por uma emoção sinistra.. —Por que me trouxe todo esse sangue ?—indagou o Ancião com a voz que ganhara um tom normal.... — Um presente para aquele que aguarda há tanto tempo pelos compatriotas que o levarão de volta para casa. a figura ergueu os olhos para fitá-la. ergueu o escravo e abriu a boca. A nascente que chamamos de A Fonte. Os olhos haviam ganhado vida. ignorando as palavras do ser.. revelando caninos imensamente maiores e mais pontudos do que os de Asharti.. ordenando a Fedeyah que trouxesse um escravo até ele...Susan Squires . Em seguida. apesar da lentidão dos movimentos..... movendo a cabeça de um lado a outro — Porque. — Abra-o — ordenou ela.. — De. — Trouxe o meu companheiro. de sangue — declarou o ser em latim com extremo vagar. eu.

Por fim. Não se arrependerá. — Vejo que é muito ambiciosa. — Quem sabe isso esteja escrito. Ele é determinado. em sua face. — Agora. Os guardiões trouxeram-nos um por um e todos tiveram o sangue drenado e os corpos atirados para o lado. puxando Ian pela corda. Asharti e Ian. por fim. Apenas uma gota dele — Os olhos a fitaram. forte e acho que satisfará sua sede. — Ajoelhe-se e se ofereça. No mesmo instante os guardiões se adiantaram. suplico em troca uma gota de seu sangue — sussurrou Asharti. — Mas eu trarei sangue para saciar seu Companheiro — prometeu ela. restaram apenas os guardiões. — E o que quer em troca? — Seu sangue. apontando para os demais escravos. Asharti anuiu. gesticulando para Ian. Romances em Ebook . Bebi e agora vou precisar de mais — dizendo isso. Os olhos do Ancião vagaram pelo corpo de Ian. — Como prova de minha lealdade. Em minutos. A cabeça desproporcional do Ancião se inclinou para o lado.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — E também pode me matar — replicou ela. — E o presentearei com meu favorito. pousando. todos tiveram o mesmo fim que os escravos. E se não estiver aqui quando seus companheiros voltarem? O Ancião pareceu considerar as palavras. Ela bebeu a gota que caiu com avidez. — Escravo! — chamou ela. Ele sentiu o corpo inteiro regelar. Fedeyah. inexpressivos. — Ainda estou sedento — declarou o Ancião. — Já estou arrependido. — Nossa barganha está selada. hipnotizados por aqueles olhos vermelhos. mas em seguida o ser virou a cabeça em repulsa. o Ancião cortou a ponta do dedo com um dos caninos afiados e ofereceu seu sangue. Pode servir-se dele agora ou guardá-lo para mais tarde. — Traga-os e considerarei seu pedido — ordenou o Ancião. trouxe-lhe meu escravo favorito — concluiu ela.Susan Squires . Dentro de um mês retornarei com mais um carregamento de sangue. — Mas nesse caso quem lhe traria mais? Não pode deixar este lugar.

— Ian percebeu o Ancião passar por ele. caminhando em direção ao árabe. Quando passaram pelo aposento do tesouro. ela se dobrou. no entanto. — Venha escravo! — ordenou Asharti. Aquele ser esperava pelos de sua espécie por milênios e ainda assim tinha esperança. Quando por fim alcançaram a saída. irradiando uma energia redobrada. Leve-o consigo. — Pegue o suficiente para financiar nossa guerra contra os humanos. Asharti atirou o manto de lã para o lado. inútil como consorte. o ser desviou o olhar. Você sugou este humano. Percebeu a mão de Asharti puxar a corda de seu pescoço para trás. mulher. Ian percebeu o arrependimento. Você é da minha espécie. depois levantou os olhos para encarar ò estranho ser. Aquela mulher sorvera apenas uma gota do sangue do ser e ainda assim era perceptível à transformação. Romances em Ebook . Ian percebeu os mamilos de pronto intumescer. Com um movimento brusco. — Consegui! O sangue do Ancião! Posso senti-lo queimando minhas veias. Fedeyah obedeceu. soltando uma risada quase histérica. — Sinto a vida brotando por todos os meus poros — afirmou ela. E de repente. puxando a corda de Ian. sem saber se devia ou não lamentar a rejeição do Ancião. —Nunca lamentei tanto a perda de sua masculinidade. A expressão de Fedeyah não se alterou. enchendo várias sacas de couro. hipnotizado. embora fosse evidente a dor que o atingia. — Não quero seus restos. Os olhos femininos brilhavam. mas não olhe para as jóias. Ian se ergueu. — Tem razão. Este homem luta contra a rendição.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian deu um passo à frente. à medida que o Ancião o observava algo naqueles olhos inexpressivos faiscou. mas manteve os olhos fitos no Ancião por mais alguns segundos.Susan Squires . a perda e a saudade neles estampados. Ian ergueu o olhar para fitá-la. ela estacou de modo abrupto. voltando-se ao árabe. e com Fedeyah em seu encalço. Porém. Sentia-se sob total comando para oferecer o pescoço. Asharti se curvou em uma mesura e precipitou-se pelo vórtice que agora se encontrava aberto. Seria seu último ato de rebeldia contra o inevitável.

quando sentiu a mão do árabe em seu ombro. desnudo e trémulo. Asharti fitou o árabe com os olhos dilatados de indignação. Porém. —A morte lenta de um novato o punirá mais do que o pior castigo. Não ali. os reposteiros de seda bem atados. Porém. deslizando os lábios pelas têmporas. Havia superado o próprio desejo. O dente de lan cortou o lábio da vampira. Inclinou-se sobre ele e beijou-lhe a testa. Ian sentiu o membro ereto ao comando da diabólica mulher. lan Romances em Ebook . — O sangue do Ancião me excitou — murmurou ela. Que o matasse!. fornecendo um refúgio contra o alvorecer. Em silêncio. —E voltando-se a Fedeyah. vagarosamente a mão ferina baixou antes de explodir em uma risada histérica. Os camelos se ergueram e os quatro carregadores equilibraram a liteira nos ombros. Quando cambaleara em direção ao banho.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) O olhar de Asharti pousou em Ian. beijou-o. já rajado por tons de rosa. Ian caiu de joelhos. — Para que me preocupar? — indagou ela por fim. — Venerada! — gritou Fedeyah. A caravana se preparou para partir. mordiscando o lábio inferior de Ian. silente. que de pronto meneou a cabeça em negativa. embora estivesse enfurnada ali por quase uma hora. Ela se afastou com um movimento brusco. ignorando os gemidos de revolta que ele emitia. Ela se aproximou com os olhos faiscantes vermelhos. pensou. E então ela paralisou antes de se voltar para Ian. Fedeyah se postou ao lado dele. Ele o sorveu. vindas do sol que ameaçava se erguer. não naquele momento. — Como ousa me interromper? — indagou para em seguida desferir-lhe um golpe violento que o jogou a metros de distância. Em seguida. Asharti não o chamara. Asharti já estava reclinada nas almofadas de seda. sobre a areia do deserto que se estendia até parecer encontrar com o céu. — Necessito me aliviar. sugou o dela. A pedra escura de Kivala erguia-se solene. —Vamos. contrastando com aquelas cores claras.Susan Squires . Ian não se moveu. Os dois serão punidos. — Você estragou tudo! — gritou. conforme o comando que recebia em sua mente. a força que ela emanava era mais forte do que nunca. e uma gota do sangue que possuía o amargor do cobre se espalhou em sua boca. erguendo a mão em direção a ele. que por sua vez.

Pior. que percebeu que ele carregava um pacote sob o braço direito. Afinal não tinha se oferecido para ser sugado por ela e conseqüentemente não era. sentira algum tipo de conexão com aquela existência inusitada. — Um homem merece a morte que Asharti planeja para você? — indagou mais para si mesmo do que para Ian. alternando suores com calafrios.Susan Squires . Não a havia perseguido durante meses? Contudo não podia se furtar em praguejar contra a raiva injusta de Asharti. A realidade era o sofrimento e a morte iminente. Teria sido de fato aquela a razão pela qual o Ancião o rejeitara como oferta? No instante que fitara aqueles olhos antigos. A única fonte disponível além do oásis que ficava a três dias dali. Nem havia mordido o lábio dela intencionalmente. observando o objeto de seu anseio secular e infrutífero. e o encontrou postado a seu lado. Talvez tivesse imaginado aquilo. sem comida ou água. A caravana se encaminhou para sudoeste ao longo dos despenhadeiros. era a piscina daquele ambiente de horrores. Nenhum homem jamais sobreviveria naquela terra abandonada por Deus. Toda aquela jornada agora parecia irreal. Não me sentiria tentado a desafiá-la. Fedeyah jogou o pacote no chão em frente a ele e girou nos calcanhares. sua a culpa de ter sido rejeitado pelo Ancião. estacando em seguida para tomar fôlego. seria apenas outro animal para mim. Aquilo significava a morte. Quando ela ordenou que a caravana partisse. pensou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) sentia-se febril. Teria sido um reconhecimento do sofrimento mútuo? Algo tão alienígena e poderoso não poderia se conectar a um escravo humano. como Asharti bem sabia. observando a caravana avançar. Romances em Ebook . Ian aguardou silencioso que o homem continuasse. — Deixe-o aqui. Ian preferia morrer a voltar lá. na iminência de ter um colapso. nu e doente. — Inglês — disse Fedeyah. No último minuto. tanto Fedeyah quanto Asharti acreditavam que seu futuro seria ainda mais tenebroso do que fenecer de exposição ao sol e de sede. Ergueu o olhar a Fedeyah. ele caiu de joelhos. Ele carregava seu próprio castigo. O árabe inspirou profundamente e olhou para Ian. — Se não tivesse me identificado com você por nossas conversas sobre a Inglaterra e sobre minha venerada dona. ele emitiu uma única ordem a Fedeyah. E a morte seria um alívio. afastando-se.

uma bolsa de couro de água e uma pequena algibeira com uma tira comprida. mas era arremessado de volta à realidade quando o fogo da luz solar alcançava suas mãos. poderia ter feito melhor. No entanto. Abriu o pequeno saco. Não lograva sequer pensar. abriu o pacote com os olhos embalados. Ergueu a cabeça ao lembrar-se da capa que o árabe havia deixado. Jogou o traje por Romances em Ebook .Susan Squires . convulsionando. O coração de Ian bateu descompassado ao observar uma vez mais os itens do pacote. Ian observou apressar o passo em um trote para alcançar a caravana. ofegando. Estendeu-se ali. Na certa. sem se importar com a dor causticante. As silhuetas ficavam cada vez menores até desaparecem. A forte luz o cegava e a pele levantava em imensas bolhas. As horas se arrastavam. enquanto se esforçava para alcançar a estreita faixa de sombra que agora se projetava do outro lado da ravina. Se não tomasse uma providência. Não olhe para as pedras. Cada movimento levando uma eternidade. Fedeyah pensara em sua sobrevivência ao colocá-la ali. A ravina! Arrastou-se até a plantação. A sombra que a ravina oferecia estava dando lugar ao sol que se elevava ao céu. Deverá ser o suficiente para que consiga superar a enfermidade. O sol! Como os tênues primeiros raios solares eram capazes de causar tanta dor? Precisava de sombra. ainda incapaz de fazer mais do que entreabrir os olhos. Cambaleou pela areia. O ar não lhe chegava aos pulmões.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Proteja seu corpo do sol. A frieza da pedra contra suas costas foi um bálsamo para a carne ferida. perfez o caminho de volta. Estamos indo para Marrakesh. Uma vez alcançando o tecido. o pacote estava distante e não havia um galho sequer para ajudar a alcançá-lo. e começou a se arrastar. ao meio-dia seria queimado vivo. O blaterar dos camelos havia fenecido. cada vez mais vagaroso à medida que se expunha à luz. Assim. inspirou profundamente. Se Fedeyah tencionava lhe dar uma chance de sobreviver. Tudo que conseguia era se manter deitado sobre a areia com o braço estendido sobre os olhos e os dentes tiritando. Algumas vezes delirava. observando o brilho dos diamantes e afastou o olhar. Fitou o tecido bege. As veias pareciam pegar fogo e a pele queimar. Em seguida. Ergueu a cabeça. Ele soltou um grito e desabou ao chão. Não demorou a sentir as agulhadas solares a fustigar sua pele sensível. ofegante. Continha uma capa com capuz. atingindo seu corpo nu como um punhado de agulhas. Os raios vermelhos do sol tingiam o horizonte. A luz radiante o cegava. E então os tremores voltaram quando a febre assolou seu corpo. Beba frugalmente.

Iria deixá-la triunfar? O ódio acendeu uma chama em seu interior. Sentia a língua seca e áspera como uma tira de tecido dentro da boca. A bolsa de água parecia estar a dez milhas de distância. como era o desejo de Asharti. O sabor indescritível da água o assolou. Desejara morrer para escapar dela. volvendo o olhar à bolsa que não continha água. mas sim algo que causava um misto de alívio e repugnância. Retirou a rolha de cortiça do gargalo e espremeu a bolsa. foi sangue que espirrou em sua boca. Porém. Rolou.Susan Squires . O ar frio do deserto soprava sob o tecido da capa. com o tecido raspando dolorosamente sobre a pele queimada. De pronto o tremor e a febre cederam e o bem estar retornou. Puxou o capuz sobre a cabeça. mas não impossível de ser alcançada. Era como se o sangue ingerido tivesse lhe devolvido a vida. Noite. desmaiando. observando as estrelas. usou seus últimos resquícios de força para alcançara tira de couro. se moveu pela areia até alcançar a sombra. deixando-o com uma sensação estranha. conseguiu vestir a capa. As estrelas estavam mais nítidas e a lua já não era uma sombra fantasmagórica e sim reluzia em todo o seu esplendor. deitando-se com as costas na areia. mas não conseguiu expelir a quantidade que já havia engolido. a razão voltou para mostrar a verdade avassaladora. Assim como a visão. acordando Ian. Com esforço conseguiu retirar o traje e de-tar-se sobre ele. Lutou para se pôr de pé. Mas agora. Seria tão escravo daquela mulher a ponto de permitir que o matasse mesmo ausente? Fedeyah lhe dissera que a bolsa de água duraria o suficiente para fazê-lo sobreviver. ela havia partido. precisava voltar à proteção da ravina. em vez da refrescante pureza da água. tossindo. De pronto. Havia se transformado em. Enfraquecido. O corpo ardia como se tivesse sido submetido a uma fogueira. A febre havia aumentado. Sentia sede como nunca antes em sua vida. confortou-se. um deles! Necessitava de sangue para viver! Romances em Ebook . recostou-se à pedra rochosa e. Mas não tinha força suficiente para chegar até ela. Rolou para o lado e os dentes de pronto começaram a bater. inconsciente. A dor da pele agredida abrandou e a visão pareceu clarear. Engatinhou pela areia. Morreria. Revirou os olhos e avistou a luz da lua refletir o acostamento da ravina. Os pensamentos se voltaram para a bolsa de água que Fedeyah deixara. Ele engoliu em convulsão. A camada de suor sobre a pele o tornava ainda mais vulnerável aos calafrios. gemendo.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) sobre os ombros e de imediato a chama causticante se abrandou. Enquanto se sentia fortalecido. Sangue? Cuspiu na areia.

veio a esperança. Não podia ser! Não permitiria que aquilo fosse verdade! Deixou-se cair sobre a frieza das trevas. a rebeldia sempre fora seu traço mais forte. mordendo-a. poderia ser igual ao árabe. um lampejo o fez abrir os olhos. tomou consciência de que sua morte coroaria Asharti com os louros da vitória. A febre havia voltado. Acompanhando o terror da possibilidade. Sentia-se como um graveto seco. Não matava os escravos que o alimentavam. país e amigos. Se aquilo fosse uma Romances em Ebook . Removeria a capa e se exporia aos raios solares mortais até morrer queimado. O demônio o infectara. juntando-se ao corpo diplomático para dar um significado útil à sua vida. As lágrimas haviam cedido. alheia ao seu desespero. A noite se transformou em madrugada. Entretanto. Fedeyah era diferente de Asharti em alguns aspectos. quando pensou estar agredindo-a. E para sua desventura. Um grito agudo e sentido ecoou na escuridão da noite. tragando-o para o maior dos infortúnios que a compreensão humana poderia alcançar. como o sol o faria em breve. enquanto o cérebro recapitulava tudo o que havia acontecido. Era só o que lhe restava. voltou à ravina como se quisesse escapar do significado da bolsa de sangue. Não poderia se corrigir de novo? Mas temia que aquela doença transmitida pudesse modificar sua natureza.Susan Squires . assim como toda a emoção. estava na verdade. enquanto encontrava-se no martírio das longas horas de espera. Mesmo sendo da mesma espécie estranha. mas se corrigira. Não havia sido um homem mau. seria fugindo como um covarde. Já estava decidido. sacudido por calafrios. Não abandonaria uma batalha se quisesse vencer a guerra. Se morresse. Asharti desejava o sangue do Ancião para aumentar seu poder. Não.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Cambaleante. se contaminando com uma única gota de sangue que caiu daqueles lábios malditos! Uma onda gigantesca de desespero o engolfou. Ela o condenara à morte e o abandonara à sua infelicidade. De súbito. pintando o céu com uma promessa de luz que se espelhava a oeste do horizonte. Fora imprudente e devasso em sua juventude. o que seria o mesmo que submeter-se a ela como o pobre Fedeyah.

Pendurou a algibeira no pescoço e ergueu a bolsa de couro. Faria sua caminhada à noite e se esconderia sob a veste durante o dia. fazendo-o estremecer da cabeça aos pés. Os olhos de Ian clarearam à medida que as lembranças feneciam. Elizabeth falava em tom sério. Um bom médico inglês poderia curá-lo. Ao lado se encontrava a pequena algibeira que continha os diamantes. Os imensos olhos verdes refletiam preocupação. Talvez o extrato de alguma erva o livrasse das consequências do sangue de Asharti. Foi também naquela noite que entendi no que me tornei. Poderia seguir a trilha deixada pela caravana até o primeiro oásis. Para conseguir seu intento. embrenhou-se pelo deserto. Precisava de sangue para sobreviver. Não a deixaria triunfar. — O suficiente. — Está se sentindo bem? — indagou ela. Voltou o olhar para a bolsa de sangue. Jogou a alça da bolsa por sobre o ombro. A febre estava voltando mais forte. necessitaria de alimento e meios para obter ajuda. Puxou as fitas que se desprendiam da capa e cobriu com elas as mãos e os pés. pensou sentindo as forças se renovarem. Romances em Ebook .Susan Squires . — Tanto quanto posso estar nestes dias. E então se encaminharia a Marrakesh. O sol se ergueria dentro de uma hora ou duas e Ian ajustou o capuz à cabeça. Tinha de conseguir chegar até um médico inglês. Ele sacudiu a cabeça como se aquilo pudesse dispersar as recordações da noite em que havia descoberto a respeito da sua nova existência. Teria de lançar mão dos presentes de Fedeyah. mas agora Ian já sabia o que a faria ceder.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) doença não seria passível de cura? Os médicos estavam conseguindo obter resultados fabulosos em condições antes consideradas misteriosas. Ajustando o traje ao corpo. — O ser que viu em Kivala era tão tenebroso? — ela inquiriu em tom casual. Talvez fosse o sangue de Fedeyah. A determinação se solidificou motivando-o. deixando um gole de sangue deslizar garganta abaixo. mas ele não merecia tal sentimento vindo de uma mulher virtuosa. Que fosse assim.

Susan Squires . — Isso seria péssimo. voltemos ao nosso objetivo inicial. Asharti não pode ir tão longe. depois passa para os monumentos. sem coragem de pronunciar as palavras. E esta referência de poderem ser morcegos invisíveis? — Ergueu o olhar para fitá-lo. Minha opinião é que ela tinha planos ambiciosos para aquele canto do mundo. — Mas estaremos na Inglaterra. Diga-me o que acontece quando seus olhos se tornam vermelhos. Ela mencionou fazer uma pergunta. —Bem. baixando o olhar ao pergaminho. contido. Ian se ergueu. — Não. — Não! — objetou Ian. temos de nos concentrar no que sabemos. — Para que propósito? — Queria governar os homens. Tampouco Aquele que Espera. Ao que parecia. Romances em Ebook . — Tente fazer seus olhos se tornarem vermelhos — incitou-o Elizabeth. Ela pensou que aquilo a tornaria invencível. mas em seguida se arrependeu. O sangue envelhecido é muito poderoso.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Ah! Era Asharti quem esperava? Disse-me que foi o sangue dela que o envenenou. — Existe um Companheiro de Sangue. — Alguma vez se transformou em um? — Não — informou Ian. Elizabeth comprimiu os lábios. Isso é tudo que os pergaminhos nos contaram sobre os Anciães. E o que aprendemos? — indagou Elizabeth. Ela almejava o sangue do Grande Ancião. Vimos que são muito antigos. Pode fazê-lo voluntariamente ou apenas acontece? — Ocorre quando tenho fome e surge a oportunidade de me alimentar. — Poderia forçar? — Não sei? — Asharti conseguia? Ele anuiu. exasperada. — Está louca? Ela inclinou a cabeça para o lado. E ocorre algum tipo de hipnose que acontece com o avermelhar dos olhos. ele era o ser que deu origem aos vampiros. o que quer que signifique. — Bem. que não acredito que saia de Kivala. é mais do que uma doença.

mas ela estava determinada. — O que devo fazer? Elizabeth mordiscou o lábio inferior. ondulando com o balanço do mar. ele permaneceu sentado. Pensando assim. não? Sim. Sinta seu peso contra a cadeira. inspirando. Elizabeth apontou para a cadeira. mas nada aconteceu. — Está bombeando sangue para todo o seu corpo. — A voz feminina estava impregnada de uma cadência animada. enquanto os dedos delicados massageavam as têmporas de Ian no ritmo do batimento cardíaco. expire.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — E apenas uma experiência. continuou: — Pode sentir o odor do mar e de madeira? — indagou. Não vejo outra forma. — Agora pense no ar entrando em seus pulmões e inspire fundo e em seguida. Romances em Ebook . — Agora pressione a mão direita sobre o peito e sinta as batidas de seu coração — continuou ela. — Agora pense em seu corpo. isto é. erguendo-se e caminhando em volta dele. — Sim — retrucou ele. Ian começou a passear pelo quarto. entrando na freqüência da ondulação. obedeceu. Para combater o mal que o acometia era preciso enfrentá-lo e não fugir. — E depois que ele obedeceu. Sinta-o correndo nas veias. Ele retomou a caminhada pelo quarto. — E se eu fizer surgir algo que não posso controlar? — Como aprenderá a controlar se não tentar? — Ela ergueu o queixo. com as mãos para trás das costas. piscando. O corpo humano é maravilhoso. Ela estava certa. se quiser saber mais sobre sua condição. respondeu Ian em seu íntimo. — Tente avermelhar os olhos. Sinta seus músculos se contraírem. Sem idéias de como conseguir. desafiadora. Ian podia notar o sutil tremor do tom de voz feminina. — Tente fechar os olhos. As únicas sensações eram a voz de Elizabeth e o balanço do mar sob seus pés. Ele é chave. Quando voltou a encará-la. inclinando-se para não bater com a cabeça nas vigas do teto. Sinta o sangue. Elizabeth massageou-lhe as têmporas com suavidade e de imediato ele foi distraído pelo toque gentil.Susan Squires .

Lutou para se aproximar do navio que se afastava a cada momento. —Não quebre a conexão. Em uma subida vertiginosa em direção à luz lunar. O toque gentil cessou. Era como se estivesse sendo virado de dentro para fora. ainda que uma parte dele temesse aquele vertiginoso redemoinho de poder. E então alcançou a total escuridão do ponto mais profundo da descida. O choque na água fria do mar. Por um momento ele Romances em Ebook . transformando o brado em um gorgolejo. lan podia ver o barco progredir nas águas com suas luzes brilhando contra a escuridão do Atlântico. enquanto os olhos vermelhos brilhantes da figura à sua frente vibraram nas extremidades e de repente desapareceram. uma onda o atingiu. Elizabeth deu um passo atrás. Porém. debateuse na superfície da água. tilintando. Olhou em volta. A distância. Praguejou contra o peso das botas que não conseguia remover. Por um longo instante quedou-se paralisado pela desconexão. Sentia o âmago arder e a batida do ritmo sanguíneo aumentar. Elizabeth ofegou. como se os tornassem um só. Retrocedeu até vislumbrar o brilho do luar.Susan Squires . Ele mergulhou de encontro ao oceano negro. mas não conseguia conter a sensação que o invadia. Algo estranho os unia. Ouvi-la era perigoso. Os sentidos pareceram voltar ao normal. A alegria e o poder eram quase dolorosos. Ian abriu os olhos e eles estavam vermelhos. Estava em pé. incitado pelo desespero do medo. A força e o bem estar que sentia eram como uma melodia suave. embora não se lembrasse de ter levantado e observava Elizabeth através de uma neblina vermelha de júbilo e poder que sabia estar errado. De repente o manto da escuridão o envolveu e uma dor excruciante tomou conta do seu corpo. Emergindo. mas ele não podia se furtar. Permita-se experimentar ou nunca saberemos. ouvia a voz Elizabeth. enchendo seus pulmões reverberava em seus sentidos. O retumbar do sangue correndo desafiava o mais potente dos tambores.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian podia sentir o sangue correndo por todos os vasos sanguíneos de seu corpo. tornando-o mais do que jamais fora. Aquela sensação prazerosa aumentou até que ele sentiu a vida correndo nas veias. deixando apenas o ritmo do coração. e não viu nada além da escuridão. — Beltrane! — gritou.

Rait meneou a cabeça. — Srta. agarrando-se à corda lançada. — Sr. Será que lan estava morto? Teria ido para outro mundo? Naquele instante. Uma série de ordens foi emitida pelo comandante. Rait! — gritou pelo comandante. — Onde ele está? — Elizabeth ergueu o olhar às velas que oscilavam ao vento. inclinando-se sobre ele. Ele desaparecera do mesmo modo como os pergaminhos diziam ser possível. à mercê da oscilação do navio. Romances em Ebook . arrependeu-se de ter instigado os olhos vermelhos. O monstro que fizera surgir do homem e que no instante seguinte evaporara. Rufford? — indagou. — A senhorita está bem? Os marinheiros pararam suas tarefas para a fitarem. Como um morcego na noite. Deslizou o olhar pela cabine vazia. Naquele instante. mas não havia lugar possível para lan ter se escondido. — Beltrane! Elizabeth correu até o parapeito do navio. — Ele alcançará o navio antes que possamos descer um bote para resgatá-lo — afirmou. Surgiu falando apressado. E então ele surgiu. enquanto escrutinava o convés em busca da capa preta. Enorme. enquanto os marinheiros se encaminhavam para a grade. — Cuidado — gritou Rait. O navio estava se movendo com rapidez. —Viu o sr. ameaçador. Ian subiu pela escada lateral. Rochewell? — bradou o comandante em resposta. surpresos. — Homem ao mar! — O vigia por fim gritou. O pânico a invadiu. imaginando se ela não havia perdido a sanidade. — Não há como saber — retrucou o comandante. — O que você está vendo? Durante um tempo que pareceu uma eternidade ela se manteve colada à grade e Rait postou-se a seu lado. Por alguns segundos se encontrava tão maravilhada que pensou ter imaginado tudo aquilo. Cambaleou pelo convés.Susan Squires . ambos ouviram um grito. nadando com fortes braçadas pelo mar revolto. mas Elizabeth ainda não conseguia avistá-lo através do mar batido da baía de Biscay.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) estava lá.

Rait pelo transtorno. Elizabeth assentiu. Ela se deteve a observá-lo. no entanto. distante uns trinta e cinco metros da popa. ele desencorajou qualquer pesquisa ou estudo dos pergaminhos. Elizabeth aproveitava os dias para pesquisar os pergaminhos sem.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Desculpe-me. maravilhoso. Encontrava-se ainda dominada pela densa bruma.Susan Squires . sr. — Pretendo me dirigir à minha cabine e tentar não sair de lá — murmurou ele. espero nunca mais fazer isso. Elizabeth ponderou se deveria intervir com algum motivo plausível. Diante da reação de querer se enclausurar. no entanto.. enquanto navegavam rumo a Portsmouth nos dias que se seguiram. Nenhum dos dois julgou que aquilo fosse necessariamente um bom sinal. Ele estudou a face delicada e os desconfiados olhos claros. — Piscou várias vezes. Quanto mais Ian ansiava por alcançarem a Inglaterra. Romances em Ebook . provocada pelo repentino brandir da capa escura. sem. — Bem. — Seus olhos ficaram vermelhos e então uma espécie de um manto negro o envolveu e acho que fiquei em estado de total torpor para distinguir qualquer coisa. — O que viu? — indagou ele ansioso. — E reapareci a um metro acima da água. Ainda bem que não fui parar mais longe. — O que sentiu? — quis saber Elizabeth. a pesquisa sobre a natureza de Ian não pareceu trazer conforto algum. — Sugiro que faça o mesmo — dizendo isso. afastou-se. Ian anuiu.. Ian deu as costas aos olhares inquisitivos e seguiu pingando para sua cabine com Elizabeth no seu encalço. o que ergueu uma barreira entre ambos. Depois daquela vez. — Acho que se movimentou pela noite como o tal morcego invisível. oferecer qualquer explicação pelo fato de ter se lançado ao mar. — E foi. Parou sob a luz da cabine e ergueu o olhar quando ela entrou e fechou a porta. encontrar qualquer outra revelação. mais ela temia a chegada. Sequer fez menção ao ocorrido daquela noite. Parecia ter se submetido a uma aceitação austera de sua condição. — A vida pulsando em minhas veias como uma canção. — Ian estava ofegante. tentando não transparecer desaprovação.

fitou-a do alto de seu um metro e noventa centímetros com olhar severo. Romances em Ebook . Pagou ao condutor. — Edwards. chegara a seu destino. Teria a carta que enviara. — E então? — indagou ao percebê-lo parado a seu lado. erguendo a trave. no entanto. Alguns transeuntes lhe lançavam olhares de reprovação. Enfim.Susan Squires .. além da África e do pai. minha tia está em casa? O reconhecimento imediato se refletiu nos olhos do homem. gostaria de lhe agradecer pela. — Não há o que agradecer. observou-o fazer uma discreta cortesia e se dirigir à porta. A carruagem de aluguel parou em frente ao número vinte e sete da Cruzon Street. Mal chegara e já se sentia desconfortável. ele continuou falando: — Eu. O mordomo que a atendeu. mas no momento em que ancorassem em Portsmouth.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) O vazio que sentiu pela perda do pai fora substituído momentaneamente pelo mistério que envolvia a vida de Ian. mas em vez de estar tranquila. compreensão. Ainda assim. — Não me deve nada — retrucou Elizabeth.. informando Célia Rangle de sua chegada.. enquanto o condutor da carruagem a ajudava a descer e descarregar a bagagem. — Acho que nunca conhecerei alguém tão disposto a me ajudar efetivamente. Elizabeth ergueu o olhar para a imponente fachada de pedra da casa. O pensamento a fez sentir uma pontada inesperada de dor. Quando volveu o olhar. voltar o olhar. sua mente se encontrava agitada pelas dúvidas. tentando ser delicada. Surpreendeu-a a forma como o pensamento a feriu. ele surgiu onde ela estava jogando xadrez sozinha. sem contudo conseguir. Era um homem idoso que trabalhava para Célia havia muito tempo. O distanciamento que ele mantinha nos últimos dias só servia para aumentar o vazio de sua alma. ele desapareceria de sua vida. alcançado o destino antes dela? A tia a receberia de bom grado ou a veria como algum tipo de fardo? Deixou escapar um suspiro. na noite que antecedeu a ancoragem do Beltrane. e se encaminhou à porta. atracaremos amanhã. Como ela apenas meneou a cabeça em resposta.. sem. Estarei sempre em débito com você. seguido de um reflexo de desaprovação. — Segundo o comandante. Seria outra perda. Elizabeth não desejava que terminasse daquela forma.

o agasalho de peliça vermelho e deslizou o olhar à sua volta. presos em um penteado elegante. Portanto. estou certa de que pode ter chances com alguns viúvos bem-sucedidos. — Claro que não. todos os cômodos foram enfeitados por peças decorativas daquela região. Elizabeth retirou as luvas. Mas vou chamar um criado para levar sua bagagem ao quarto que ocupará — afirmou. — Poderia ser pior. — Bem — declarou por fim. afastando-se para que ela entrasse. A casa era mobiliada no mais moderno estilo. com o atual interesse dos franceses em explorar as antiguidades egípcias. — Sente-se. — Espero que minha carta não tenha sido inconveniente — começou Elizabeth. — Que bom revê-la! — cumprimentou. deixando-se afundar em uma confortável espreguiçadeira. como parecia fazer sempre que caminhava por conta de sua estrutura frágil e cor pálida. deslizando os olhos azuis pálidos pela estrutura frágil da sobrinha. Herdou-os de sua mãe. Romances em Ebook . Não se surpreenderia se encontrasse uma múmia deitada no sofá do amplo aposento para o qual Edwards a guiou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Ela está descansando. a tia entrou na sala de visitas. um xale de seda. Nunca faria o estilo dos tipos modernos. austero. Célia fazia questão de redecorála para estar sempre dentro dos padrões ditados pela moda contemporânea. era emoldurada por cachos de cabelos loiros. —Lizzy! — exclamou a senhora. senão à sua única parente? — indagou a tia.Susan Squires . negligente. incapaz de corrigir a tia pelo uso do diminutivo de seu nome. levando Elizabeth a imaginar se estaria sendo sincera. mas não diria que não possui sua beleza. Poderia ser mais alta. querida Lizzy! A quem deveria recorrer em tão chocante circunstância. quase flutuando. O fato de ter um quarto reservado confirmava que estava sendo esperada. que sequer lembrava a formosura que possuíra quando jovem. minha querida e deixe-me observá-la — começou Lady Rangle. o qual detestava. srta. porém. — Poderá aguardar na sala de visitas. A beleza decadente. Por sobre os ombros pendia. Elizabeth. Pouco tempo depois. O traje matinal tinha um brilho discreto e listras da cor lilás. com a voz sempre afetada. Não podemos fazer nada quanto à sua cor ou à de seus olhos.

Susan Squires . Ian aguardava na confortável recepção do consultório do dr. Eu. Ninguém se interessaria por uma moça de luto. Elizabeth pensou em protestar. Lady Rangle estendeu a mão e Elizabeth caminhou até se postar em frente a ela. Seremos convidadas para as melhores casas. era apaixonada pelo meu marido. — Minha pobre Lizzy. indulgente. rindo à socapa. — O que mais pretende fazer? — Posso garantir que sou perfeitamente capaz de sustentar minha independência. Em vez disso. Romances em Ebook . Pode parecer estranho. Criada em uma terra de bárbaros longe da civilização. — Será divertido transformá-la. — Eu gostaria de estar apaixonada antes de casar. Mas não se preocupe. — Se pensa que a procurei para que me arranjasse um casamento. Meu nome tem um certo peso e abre muitas portas. deu uma tossidela para conter a vontade de falar. mas não quero comprar uma mercadoria sem vê-la. — Uma moça não pode simplesmente montar uma casa para si mesma— protestou a tia. Começaremos aposentando o preto. E não pretendo me casar se não houver amor dos dois lados. impondo-me em sua casa. Sinto muito pelo transtorno.—Ninguém a acolheria. Elizabeth usaria o termo indiferença para definir o sentimento que a tia devotara ao falecido e austero marido. por exemplo. minha querida e deve se esforçar para me ajudar.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Elizabeth sentia a face queimar de indignação à medida que a tia falava. tia. Pressionou os lábios em uma linha ténue. Quanto ao amor. Afinal. Edwin já interferiu o suficiente em sua vida. mas limitou-se a forçar um sorriso. A excitação e o medo travando uma árdua batalha em seu íntimo. Duvido até mesmo que as lojas lhe vendessem sequer um corte de tecido. sorrindo. embora a cidade esteja carente de boas companhias nestes feriados. O que Edwin pretendia? Como era tolo meu irmão! Não me admira que você não saiba o que fazer de agora em diante. — É muito amável. seu pai não se importaria se ela usasse preto ou não. este vem com o tempo. Elizabeth estava ciente de que a tia queria ser gentil e decidiu não objetar. Amanhã procurarei o banqueiro de meu pai no Drummond's. — Mas terá de se casar — retrucou a tia. James Blundell na Harley Street. não me tem em alta conta.

tinha de suscitar o interesse do médico por seu caso.Susan Squires . tentava marcar uma hora com o renomado hematologista. Blundell ergueu a sobrancelha e anuiu. O que o faz pensar que é uma doença sanguínea? Ian estava preparado para aquilo. havia três dias. em um dos cantos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Todas as suas esperanças estavam depositadas no que aconteceria na próxima hora. O médico exibiu um sorriso indulgente. não era medo que divisava na expressão das pessoas e sim uma espécie de reverência. Matutou como poderia descrever seus sintomas sem mencionar a forma como havia adquirido a doença. Não poderia relatar que necessitava sugar sangue humano para viver. — Contagiei-me em contato com sangue de uma pessoa doente. O que um médico com minha especialidade pode fazer pelo senhor? Ian clareou a garganta. Por outro lado. O médico indicou para que ele sentasse em uma cadeira de couro em frente à sua mesa. havia uma mesa longa repleta de tubos de ensaio. Desde que chegara a Londres. embora não conseguisse ver no espelho nenhum sinal de mudança em seu corpo ou semblante. colocando os óculos e apanhando a pena. Os olhos experientes estudando o novo paciente. As paredes do aposento eram preenchidas do chão ao teto por estantes repletas de livros e. O dr. — Obrigado por concordar em me receber em horário tão avançado — começou ele. Por fim. sorrindo. Os pacientes que dividiam a recepção com Ian o fitavam de modo estranho. Porém. — Parece exalar saúde por todos os poros. Romances em Ebook . Por fim. — Quais os sintomas? Detalhe-os. — Creio que adquiri uma enfermidade em meu sangue. Ele engoliu em seco. Blundell. a jovem secretária o introduziu no consultório do médico. assim como todos em Londres desde que chegara. — Deixe para mim o diagnóstico. — Não é sempre que recebo alguém com aspecto tão saudável em meu consultório — declarou o dr. para a qual espero que o senhor prescreva um tratamento. conseguiu um horário para aquela tarde. mas aquele era o ponto crucial de seu problema.

. Isso é algum truque? — Quisera eu que fosse — interveio Ian. embora não fique vermelha e sou obrigado a usar óculos de lentes escuras à luz do dia. Rufford! — protestou o dr. — Blundell se dirigiu à mesa e retirou de lá várias lancetas e frascos. sempre tão prazeroso. — Como se infectou? — Com uma gota de sangue em meus lábios. Blundell. — Talvez queira fazer a incisão o senhor mesmo? Sinta-se à vontade em usar o instrumento que achar conveniente. — O que são essas marcas? — Antigos ferimentos. enquanto o sangue estancava. — Então devo coletar uma amostra da saliva também. — E volvendo o olhar ao braço de Ian. em uma linha de onde de imediato vazou sangue.Susan Squires . O médico o obedeceu e o resultado foi o mesmo quando utilizou o bisturi. — Deixe-me ver. Ian ergueu a palma da mão para que o médico a visse com clareza. O corte havia se transformado em uma linha vermelha. — Sr. — Antes que infeccione — completou Ian. — A pele ou os olhos são afetados? — Ambos. produzindo um profundo corte no músculo do antebraço de Ian. motivo pelo qual solicitei a consulta à noite. Romances em Ebook . Mas antes vamos recolher o sangue. A caneta do médico deslizava ligeira sobre o papel. Os olhos do dr. O médico se ergueu resoluto. ciente de que atraíra o interesse do homem. Em seguida.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Extrema sensibilidade à luz. — Parece que tem uma facilidade incrível em cicatrizar. Retirou um canivete do bolso da capa e abriu a lâmina. passando pela musculatura até o punho. Sentiu o formigamento ao longo das veias. em seguida se tornado branca e desaparecido. dobrou a manga da camisa e cortou a palma da mão desde a base do polegar. — Se pudéssemos aproveitar essa habilidade. Aquela era sua única chance e seu maior risco. Não suporto a luz solar.. — Outros sintomas? A sorte estava lançada. Blundell se arregalaram. Minha pele queima em segundos de exposição ao sol.

os ver. posso dizer que acabou de me dar razões para eu não dormir esta noite — afirmou Blundell. a noroeste de Marrakesh. Não precisou dizer mais nada. Depois que o médico recolheu as amostras de sangue e saliva. sem.. — Como posso saber antes de ter noção do que aconteceu? — E quando terá a resposta? — pressionou Ian. Retorne na quinta-feira. Não sei precisar exatamente onde. o que era essencial para o cargo de educadora. Tampouco dispunha dos predicados de uma moça educada. curioso. Não fizera aquilo para magoá-la. Mas que tipo de ocupação procuraria? Educadora? Pouco provável. O sr. Se pudermos aumentar o poder de cura de nossos soldados e navegadores. Não poderia abusar da boa vontade da tia. Apesar de tudo. — Esta é sem dúvida uma doença desconhecida. Elizabeth saiu do Banco Drummond ao entardecer e olhou ao redor para as pessoas que transitavam na Cockspur Street. Tinha de arranjar uma ocupação se não quisesse ficar à mercê do objetivo de Célia de empurrá-la para algum viúvo que não poderia desejar coisa melhor. — Dentro de alguns dias. mas por certo Romances em Ebook . — Oh. mas seu latim tinha o sotaque continental e não sabia o italiano. no entanto. — Bem. as possibilidades. Mas pode se tornar uma valiosa descoberta. Dominava o idioma francês. Elizabeth sabia que o pai lançara mão de sua segurança financeira no futuro para financiar a última expedição que empreenderam.. — Posso ter esperança de cura? — indagou ele. De qualquer forma. adeus à independência. não estava zangada.Susan Squires . Poderia se candidatar ao posto de tradutora ou mesmo instrutora em Oxford ou Cambridge. Ian desenrolou as mangas da camisa.. Era tão característico dele a certeza de que a próxima descoberta seria triunfante.. excitado. Seu dote havia sido gasto e com ele esvaíra a esperança de independência.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Onde estava quando foi infectado? —No deserto do norte da África. Stevenson a informara que o pai havia fechado sua conta com um saque feito no Banco do Cairo. pai! — murmurou ela. O mundo parecia sucumbir ao crepúsculo. imagino.

percebendo as lágrimas iminentes nos olhos de Elizabeth. querida? — indagou a tia. mesmo sem dote. mas teremos de comparecer ao baile da condessa Lievenna quarta-feira. — Qual é o problema. se conseguirmos encontrar algum traje decente para você usar. então mãos à obra. desapareceria e livraria todos do fardo de sua presença. — Bem. — E volvendo um olhar terno à sobrinha. — Não tem mais nada? Elizabeth anuiu. ajustando o xale aos ombros. — As explorações de meu pai eram mais importantes do que qualquer dote.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) não estavam dispostos a empregar uma mulher. Os pensamentos se voltaram a Ian. mesmo sem amor. Chegando à casa da tia. — Estou comprometida a visitar lady Hildebrand esta noite. querida. mas antes que a noite findasse. Aventara a possibilidade de se casar com o sr. exibindo um sorriso lânguido. Vamos conseguir um casamento seguro. tocara seu coração. Elizabeth se ergueu. Elizabeth optou por não protestar ou informá-la de seus recentes planos de arranjar um emprego. dirigiu-se ao próprio quarto para evitar o confronto. Mas ele também a abandonara. — Teve más notícias no Drummond? Isso não me surpreende. — Não tema. Célia a procurou. Deveria saber que o irresponsável do meu irmão iria gastar seu dote. sentiu o peso da solidão oprimindo seu peito. Vou informar a todos os meus conhecidos esta noite que uma jovem dama está hospedada em minha residência — afirmou. A resolução daquele homem em procurar uma vida normal e combater o que considerava a parte demoníaca de si mesmo. A perspectiva de ser arrastada para uma série de acontecimentos sociais em busca de um marido a aterrorizava. enquanto a tia disparava pela porta.Susan Squires . Que estanho. Quando encontrasse o emprego adequado. L'Bareaux. Romances em Ebook . tia. Apenas assentiu. e imaginou onde ele estaria. O único ofício que lhe restava era ser uma criada de trabalhos domésticos. Quando se deitou naquela noite. O que mudara para não concordar mais em casar naqueles termos? Balançou a cabeça para afastar os pensamentos infrutíferos. — É muito gentil.

mas não tinha a intenção de embaraçar a tia. — Acho que minha sobrinha apreciaria um refresco — sugeriu Célia. quando foi cutucada pela tia. almirante Anstey que prazer em vê-lo! — exclamou Célia. — Lizzy. O almirante Anstey pertence ao círculo do duque de Clarence. o almirante se voltou para Célia. que fez com que suas juntas rangessem ruidosamente. srta. E o tipo de mulher que admiro. que se encaminhava em direção a elas. — Permitame apresentar minha sobrinha. Elizabeth Rochewell? — Era o que estava pensando em pedir que fizesse — declarou o cavalheiro. — Boa idéias. enfadada. Elizabeth suspirou aliviada. a intenção era chamar a atenção para um homem aparentando quase sessenta anos. Não podia se imaginar rodopiando nos braços rangentes daquele senhor. Ian caminhava de um lado para o outro da recepção vazia do consultório de Blundell em meio à crescente escuridão. A agência de empregos se mostrara reticente quando ela afirmou não possuir carta de referência. Após alguns torturantes minutos de conversa. Sua pesquisa não fora satisfatória. Célia trocava amenidades com a condessa Lieven. enquanto não encontrasse um lugar para trabalhar tinha de suportar situações como aquela.Susan Squires . Se fosse afeito à dança a convidaria para uma valsa. Elizabeth anuiu. Por que demorava o maldito charlatão? Romances em Ebook . Contudo. fazendo uma mesura afetada. minha querida! — exclamou o almirante. — Oh. achando o ponche sem sabor.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) * * * Célia pousou a delicada xícara repleta de ponche e observou os casais rodopiarem pelo salão. Elizabeth não se divertia muito mais do que em qualquer outro dos compromissos sociais aos quais atendera durante a última semana. afastando-se para providenciar a bebida. Elizabeth revirou os olhos. Finas cadeiras Chipendale se encontravam alinhadas em uma fileira em ambos os lados da ampla sala da residência de lorde Winterly na Grosvenor Square. — Gostei de sua sobrinha. Na certa. Ergueu a xícara num gesto automático.

era o suporte e a redenção do irmão. Uma criada se aproximou. E Mary? Em vez de encrenqueira e dominadora. examinei seu sangue no microscópio. porém grande o suficiente para ser visto com clareza na lente. A moça deveria ter idade próxima à de Elizabeth. A experiência que passara no deserto e a nova existência que lhe fora imposta o haviam afastado de uma vida simples como a que um dia tivera. — Eu sabia! É uma doença e como tal pode ser curada. — chamou o médico. — O que descobriu? — disparou Ian. a família fora forçada a vender quase tudo que possuía e dispensar os criados. incapaz de conter a ansiedade. Romances em Ebook . O melhor lugar para guardar aquela imagem que fora tão reconfortante em dias obscuros seria na memória. — Por favor.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Estivera em Stanbridge e descobrira. A única conclusão a que chegara após visitar Stanbridge era que nunca poderia pertencer àquele lugar outra vez. sente-se. A porta interna do consultório do dr. quando a vira inclinada sobre o tabuleiro de xadrez? Bem. que todas as suas suposições estavam erradas. — Parece coexistir em harmonia com as demais células. — Bem. para seu desgosto.. Ao contrário. Quando havia se dado conta da beleza de Elizabeth? Em Gibraltar? Ou antes. Ela havia seguido sua própria vida. — Sr. Rufford.. Blundell se abriu. porém não tão bela. O médico fingiu consultar algumas notas. Henry não colocara as coisas nos eixos. abrandando o frio do ambiente. fazendo um gesto para que entrasse. não? — Sim e não — contestou Blundell. que se descortinava à sua frente. para que pudessem permanecer com as terras. Mas não era apenas aquilo.. há um organismo presente na amostra que não pertence ao grupo das células vermelhas ou brancas. Chegou a se sentir tentado em contatar a tia que ela mencionara. mas lembrou-se de que Elizabeth havia decidido se instalar bem antes de a viagem terminar. O amor explícito no olhar de ambos chegava a ser enervante. mas aquilo era passado. Seu irmão. Sua simples presença constituía um perigo para o irmão e a família. curvando-se em uma mesura antes de alimentar o fogo da lareira.Susan Squires .. Ela fora uma ilha de amizade no que parecia ser uma longa e solitária vida.

Aquele médico significava tudo que o mundo civilizado podia oferecer. A ciência requer tempo. Vampiro? Era isso que se tornara? Quem não conhecia a história do ser que sugava sangue humano para sobreviver? Como não percebera que havia se tornado um deles? Segurou a beirada da mesa para se equilibrar. Possuía um parasita no sangue? Que dependia dele ou o fazia dependente? —A amostra da saliva foi ainda mais evasiva— continuou o médico.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Mas não pode ser destruído com alguma erva ou droga? O médico mordiscou o lábio. — Não posso aniquilá-lo sem tirar sua vida. mas vou descobrir o segredo dessa natureza.. — Ainda é cedo... decisivo. Tinha tanta esperança. — Possui a mesma substância anticoagulante que se encontra em algumas espécies de morcego da América do Sul e que se alimentam de sangue humano..Susan Squires . — Minha saliva não pode. — Os remédios comuns não teriam efeito. Então era aquilo. — Pode — interrompeu-o o médico. — Quero voltar a ser como era! — vociferou Ian. A esperança se esvaiu de Ian. — Os olhos do médico brilhavam de excitação. Ian teve a impressão que a sala fugiu de foco. Ao ouvir aquilo. — Ainda não posso descrever o mecanismo. Desculpe-me. Subsiste com os mesmos mecanismos que o tornam saudável. Está difundido em seu organismo. Ian anuiu. sem encará-lo.. — Eles utilizam a saliva — dizia o médico. Qualquer erva ou droga afetaria seu sistema orgânico geral. perdendo o controle. o matarei — afirmou Blundell. Se ele não podia curá-lo. — Para manter os furos que fazem nas vítimas abertos por tempo suficiente para que possam sugá-las. quem poderia? — Compreendo. — O que quer dizer com isso? — Se tentar liquidá-lo. Romances em Ebook . — Se eu pudesse isolar as propriedades positivas. — Poderia infectar outros com minha doença.. O horror se estampou nos olhos de Blundell. — Encontre um jeito de exterminar essa coisa! Blundell foi pego de surpresa.

ficaria ainda mais difícil tomar apenas um pouco de sangue da vítima. Não deve. moveu-se em direção a uma jovem que descia sozinha de uma carruagem em um rua deserta. A fome o fustigava com violência. — Não tema — garantiu Ian. Encontrava-se em uma armadilha. ela devia saber. Fairfield acenando para mim. Então o médico havia descoberto as partes obscuras de sua doença. sentia a fome começar a rastejar por suas veias. Seus passos começaram a se tornar mais vagarosos. Ian caminhou sem destino pela noite que Mi' Iornara fria no fim de novembro. onde estava escondida? Elizabeth sentiu o estômago revirar ao avistar Blakely caminhar em sua direção no salão de dança principal do Almack's na King Street. — Vou guardar meu sangue comigo. deixou o consultório. Para que resistir? Se demorasse a se alimentar. Uma chuva fina caía. — Será suscetível a seu sangue. precipitando-se em direção à jovem que conhecera em uma festa na semana anterior. pensou. pela umidade e desespero. Uma vez na rua. Pele clara. Como poderia suportar a ambos? Blakely ameaçou ler o poema que fizera para homenageá-la. Romances em Ebook .Poderá me encontrar em Albany House se descobrir que posso te ajudar— dizendo isso. cabelos cor de ouro e uma doçura e simpatia inigualáveis. — Oh. Podia sentir a criatura desconhecida flutuar em seu sangue. — Posso contar com sua discrição? — Sou um médico — retrucou Blundell..O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Qualquer pessoa que tenha um corte ou ferimento — sussurrou.Susan Squires . mas ela o impediu desculpando-se. Ao contrário dela. Rochewell. Ainda assim. Pensando assim. — E fitando o médico nos olhos. — Aí está a srta. Vampiro? Como Elizabeth não revelara algo tão importante? Mesmo que os textos antigos não fizessem referência à palavra. A empatia com a moça havia sido imediata.. lá está a srta. E então percebeu que estava em uma praça desconhecida. Volveu o olhar ao almirante pos-tado a seu lado. não antes de sabermos mais sobre essa condição. enormes olhos azuis. Emma Fairfield era atraente em todos os sentidos. Se me derem licença — desculpou-se. — De que adiantaria minha prática sem a discrição? .

— Não o encontrei em nenhuma festa a que compareci — afirmou ela. — Deve ter tido muitas propostas de casamento — comentou Elizabeth. A conversa trivial das moças do grupo já estava aborrecendo Elizabeth. Minutos mais tarde as duas moças foram convidadas a dançar. — Parece que precisa mesmo ser resgatada — concordou Emma. — Ouvi dizer que ele fez fortuna em terras estrangeiras — aparteou a srta. — Estou quase enlouquecendo entre as atenções daqueles dois cavalheiros. — O caçula de Stanbridge. srta. — Porém não se podia creditar à simples experiência a proficiência de Emma. — E que fortuna! E os Stanbridge são uma família secular — acrescentou a srta. Campton fez seu coração disparar. — Oh. ajude-me — suplicou Elizabeth. é admirável o modo como navega por essas águas sociais como se tivesse nascido para isso — Elizabeth elogiou. — Ele só frequenta os eventos mais refinados. a amiga a introduziu no grupo de jovens do qual fazia parte.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Oh. Já o conheceu. — E estão esquecendo o fato de ele ser uma pessoa bastante agradável. Ian Rufford. — Apenas Emma captou a ironia no tom de Elizabeth. srta. sr. Romances em Ebook . Rochewell? Os olhares das moças se voltaram para Elizabeth. — Será difícil encontrá-lo em um salão como o Almack's — afirmou a srta. — Esta é minha terceira temporada — retrucou Emma. — Deve ser por isso que ainda não o encontrei. quando o comentário da srta. Emma sorriu. Campton. Belchersand. deixando-a a sós com Emma. aliviada por não estar faltando com a verdade.Susan Squires . No mesmo instante. Campton. por favor. Fairfield. rindo divertida. Já o viram? Elizabeth agradeceu o fato de as jovens não estarem prestando atenção a ela ou do contrário se surpreenderiam com seu rubor. acabou de chegar à cidade.

Susan Squires . em Emma. Um grande exército segue uma mulher como se ela fosse uma deusa. — O dey foi deposto? — quis saber Elizabeth. — Eu estava em El Golea com a delegação inglesa. Meu irmão já perdeu as esperanças quanto a mim. Estão cruzando o deserto. — Ou foi derrubado por um dos irmãos? O major exibiu um sorriso nervoso. Acabei de chegar — informou o major. — A expressão do homem era séria. . Ela é uma aficionada do norte da África como o senhor.—Vim na mais veloz chalupa que pude encontrar. Embora ruborizado. modesta.. é ela? — indagou Elizabeth a Emma. A beleza incomum não se expressava apenas na pele pálida e cremosa. Romances em Ebook . — Ele estava a caminho de casa na Whitehall Lane esta tarde quando eu e meu irmão o encontramos por acaso. — O que é pior? — Emma indagou.Oh. —Major Ware. Os olhos do major pousaram. Era a mais bela mulher que Elizabeth jamais vira.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Não tentadoras o suficiente para abrir mão de minha independência. intensos. major! — exclamou Emma. trajado com vestes oficiais. — Nem todos — esclareceu Elizabeth. deixe-me apresentá-lo à srta. A figura feminina era esplendorosa em todo o seu conjunto. Rochewell. O haras de seu pai é vizinho ao nosso. ou nos olhos escuros.. Tampouco nos cabelos avermelhados. — Marrakesh acabou. e Elizabeth se deu conta de que ficaria sozinha no salão. O decote pronunciado do vestido deixava o colo perfeito à mostra. — Temo ter sido pior ainda. — Quem. Mas era a vitalidade que emanava de sua presença que mesmerizava a todos os presentes. Elizabeth estava tentada a acreditar que a amiga não acreditava no amor quando os olhos da moça pousaram em um lido homem com bigodes loiros. Eu o conheço de longa data. o major estava prestes a explicar quando as portas do salão se abriram para revelar uma extraordinária mulher seguida por um séquito de criados. Acho que minha amiga já esteve em todos os lugares do Mediterrâneo. deixando para trás um rastro de destruição e coisa pior.

Todos observavam a esplendorosa mulher se encaminhar em direção às condessas de Lieven e Jersey. — Sim. — E muito original. de Amsterdã—esclareceu Emma. cabelos cacheados. A condessa se inclinou sobre a menina. — Sim. A moça retirou o lenço. — E uma necessidade. Ian Rufford de fato estava na cidade. precipitando-se. deixando os presentes atônitos.. Assim como ela. decidida de encontro à moça. Tive um sonho e acordei com essa estranha mordida. Elizabeth estava certa de que a mulher sabia o que acontecera àquela jovem. nada mais. Elizabeth a observava fascinada. — Todos os homens da cidade se arrastam a seus pés. sussurrando. seu lenço é esplêndido — elogiou a condessa em voz de contralto. milady. De onde tirou a idéias de usá-lo desta forma? A moça ergueu o olhar para fitá-la. — Minha cara. olhos verdes. Enquanto Elizabeth as observava tudo se clareou em sua mente. Qual é mesmo o nome dele? — Tentou lembrar a moça. — Qual a aparência do homem do seu sonho? — Olhos azuis e às vezes. que usava um lenço de seda enrolado em torno do pescoço. A mulher pareceu não ver mais nada à sua volta. Romances em Ebook . vermelhos. — Cabelos negros. Atualmente.. O rosto da jovem se tingiu em uma máscara rubra. Dizem que está em Londres para concluir um negócio urgente. você deve conhecer. e os lábios. mas conte-me. Ela usava um perfume sensual e tentador. Após cumprimentá-las. — Não sei.Susan Squires . — Compreendo — a condessa se empertigou. intrometendo-se na conversa. Os olhos castanho-escuros brilharam. mas está ansiosa por retornar para os braços do amado. ela circula na Europa em companhia de um abastado nobre francês. De maneira especial um conde. Lady Lente girou nos calcanhares sem cerimônia e dirigiu-se apressada aos portões do salão de baile. a atenção da vibrante figura feminina se voltou para uma jovem que se encontrava atrás de Elizabeth. — Um sonho prazeroso? — perguntou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — A condessa de Lente. nunca vi lábios assim tão perfeitos.

como recompensa por ter salvado o navio do ataque pirata. o que o fazia ciente do que ela era. A única conjetura que Ian podia fazer se baseava na experiência que tivera com outra mulher de sua espécie. ele parecia se multiplicar sem que fizesse o menor esforço. Um perfume familiar envolveu o ambiente. — Parece desconfortável. Dessa forma se torna inconfundível. forçando uma Romances em Ebook . quando percebeu um redemoinho escuro em um canto do aposento. o mais elegante endereço dos solteiros de Londres. mas diante de seus olhos a névoa escura se transformou em uma bela mulher. foi a grande soma. Os diamantes ao menos foram de alguma utilidade.. Era esplendorosa. O rebanho de vacas leiteiras estaria saindo de Histon naquele momento e a mobília que Henry vendera já devia ter sido devolvida. sabia a resposta. Estava prestes a apagar as luzes das velas.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian dobrou os papéis da hipoteca de Stanbridge e os enfiou dentro de um envelope. Um arrepio de medo percorreu a espinha de Ian. Poderia abrir mão de um montante que garantiria o conforto ao irmão e à cunhada. — Beatrix Lisse. Talvez seja melhor se sentar — sugeriu a mulher. Ele se sentou à mesa e endereçou a carta ao visconde de Stanbridge. — O que quer aqui? Ela retirou a capa e a dobrou cuidadosamente sobre a cadeira. Um dos exemplos. condessa de Lente — apresentou-se com sotaque. — Ela estava certa quanto aos lábios — murmurou a desconhecida. — E deveria ter cortado seus cabelos. pensando estar sonhando. Aquela mulher tinha a mesma energia de Asharti. Mesmo não dando muita importância ao dinheiro. A luz das velas bruxuleava na sala de estar em Albany House. Piscou. Olhos escuros. acomodando-se em uma cadeira próximo à lareira. Sem levar em consideração a fragrância almiscarada. enquanto a mulher olhava ao redor.. enviada pela companhia marítima. Elizabeth lhe dissera que ele tinha se transformado em uma névoa negra antes de desaparecer. Preferiu permanecer silente para não demonstrar ignorância ante alguém tão obviamente poderoso. Ian se aproximou. alemão? — Beatrix para os de minha espécie. pelo menos em parte.Susan Squires . cabelos ruivos e exalava energia. — Acho que sabe. — Quem é você? — Porém. Ian deu um passo atrás.

Beatrix ergueu a sobrancelha. — E por que deveria? — Porque só pode haver um de nós por cidade e Londres é minha outra vez.Susan Squires . Portanto. — Pobre Fedeyah! — disse por fim. considerando as palavras de Ian. então acho que devo lhe contar algumas coisas que provavelmente soltarão sua língua. portanto tem uma mente resistente. Não deve ter sido muito agradável com ela. — Agora temos de determinar o propósito de Asharti em enviar um de seus vassalos a Londres. portanto Asharti deve ser responsável por sua transformação. abandonou-o sem orientá-lo. Percebo-o distintamente. — A condessa levou um dedo aos lábios carmim. Rubius tinha razão. — É ignorante. Muito bem. — Os olhos castanho-escuros o encaravam com tanta intensidade que Ian desviou o olhar. Você não enlouqueceu. — Fedeyah deixou-me uma quantidade de seu próprio sangue e uma capa para que me protegesse do sol. porém incisiva. Conheço-a o suficiente para saber. A momentânea insegurança de Ian deu lugar ao ultraje. desde a partida de Davinoff. Aquela mulher sabia de tudo. não pode permanecer aqui sem minha permissão. Por que ele se arriscaria em cair em desgraça depois de tantos séculos? Romances em Ebook . Isso significa que pode se tornar extremamente forte até mesmo para um de nós. Disseramme que veio do norte da África. — Ela não me enviou para cá. tentando controlar as batidas do próprio coração. E vejo que espera o pior de mim. Arrastei-me até El Golea e fugi para Londres para escapar dela. — Ainda a segue para todos os cantos que ela permite. — Talvez possa me dizer o que está fazendo aqui — disse a condessa de Lente por fim. embora eu esteja ausente. — Sua força está emergindo enquanto o Companheiro se acomoda. — Acho que sim — a condessa respondeu por ele. — Mas não deve saber disso... Estou certa? Ian engoliu em seco. o que significa que se transformou recentemente e quem quer que o tenha feito. — Ninguém pode sobreviver à infecção sem a aplicação contínua do sangue de um vampiro para que o corpo crie imunidade ao Companheiro. mas também detinha informações sobre sua condição. Ela me infectou acidentalmente com uma gota de sangue e abandonou-me à própria sorte para morrer queimado no deserto. — Não. Ainda assim é perigoso deixá-lo agir na ignorância.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) aparência relaxada. — Fitou-o nos olhos. — Está mentido — afirmou Beatrix em tom suave. foi ela quem me salvou — explicou Ian.

Uma batida à porta às cinco horas da manhã? — Rufford atenda. E pensar que se iludira por pensar que tinha deixado o terror para trás. Levou o olhar à condessa. Em Londres? Não queria que ninguém naquela cidade além de Elizabeth. pedindo silêncio e se dirigiu ao quarto. — O que está fazendo aqui a esta hora? — Tenho uma mensagem para você. A condessa ouviria todas as acusações de Ware. Mas aquilo não era nada comparado ao próprio desespero. Ware. deixando a porta aberta. — Era tudo que podia admitir. Podia sentir a vibração atrás da porta do quarto. Algumas passadas se fizeram ouvir no ar. Romances em Ebook . Foi por isso que foi exilada no deserto e pelo fato de não ter escrúpulos em matar humanos ou produzir vampiros. — Deve ter se tornado seu amante. adentrando na sala iluminada pelas velas. disse Ian a si mesmo. E agora ele retornava na respeitabilidade de Albany House em janeiro de mil oitocentos e dezenove. desejando que ela desaparecesse da mesma forma como surgiu. — Nunca desejei o que me tornei. — De quem? — indagou. mas a mulher limitou-se a levar o dedo aos lábios. Sou eu. — Fazemos o que ela quer. — Como ela soube que estou aqui? — Eu contei — redarguiu Ware. fechando a porta atrás de si. Ela me hipnotizava. — Ware passou por ele. — Sim. para adquirir o poder do Companheiro. confortou-o saber que isso seria possível ao menos para alguém. Se a conhece.Susan Squires .O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Concentre-se. Era um escravo. A condessa o fitou com desconfiança. Ian e a condessa congelaram. — Acho que o nome dela é Asharti. Ian escancarou a porta. Sei que está acordado. Ware? Indagou Ian sem entender. O major retirou um envelope do bolso e entregou a ele. Ian sentiu o estômago revirar. sabe bem disso. Necessitava da boa vontade daquela mulher. baixando o olhar. soubesse de sua condição. — Já que ele não tem força de vontade para escapar.

matar. — Ela matou o dey.. Henry. indicando uma cadeira. Não tinha ilusões quanto ao significado da palavra "consorte". — Alger? — indagou Ian. quebrando o selo de cera e rasgou o envelope. Aquela criatura possui um séquito que a segue como a uma deusa. — Como a conheceu? O major lhe contou como ela tomou Marrakesh e depois se dirigiu a Alger até El Golea. O exército dela se dirigiu para Alger. E o pior de tudo é que a Inglaterra não era longe o suficiente. — Eu era o único que sabia onde você estava. Encontre-me em Tripoli. suas veias. Ele era o único que possuía o sangue enriquecido pelo poder do Ancião.Susan Squires . Sei onde está. Meu exército deve estar chegando aí quando estiver lendo essa carta. Ian franziu o cenho. Romances em Ebook . Poderá ser meu consorte quando eu for a rainha de ambos os mundos vampiro e humano. Asharti Ian sentiu a garganta seca. Não me faça ir atrás de você. Não havia como escapar da-quilo. Ware anuiu.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian compreendia.. Ela me poupou para que eu entregasse esta missiva a você. curioso. ou mesmo se arrependido e tentado retificar seu erro. Tudo se encaixava. Senti muitas saudades de você. Ela sabia sobre Stanbridge. A morte seria uma boa opção ante a possibilidade de se subjugar ao poder daquela mulher. Dirigiu-se à garrafa de licor e serviu uma porção ao major. Um daqueles que violam antes de. — Sim. alguns dizem que com suas próprias mãos. Ian ergueu o olhar ao major e recuperou a razão. Ian volveu o olhar à carta. Asharti o desejava como escravo ou então para matá-lo. claix! Talvez tivesse revelado que o tinha ajudado em um momento de rebeldia. — Exceto você. Como ela descobriu que estava vivo? Fedeyah. Mary e os meninos corriam perigo também. É o único com meu sangue correndo em. Querido Ian. e pode retornar com eles à África. Abriu. — O que está escrito na carta? — indagou Ware. Dizem que ela pretende tomar toda a Europa. Matou toda a delegação inglesa perguntando a um por um sobre seu paradeiro. assim como todos os seus parentes e colocou uma de suas criaturas no trono.

Seus contatos podem esperar. Ware deu de ombros. pois havia notado que a missiva fora violada e selada outra vez. Quando o major partiu. mas pensei que fosse possível. — Você submeteu a carta ao Ministério das Relações Exteriores de Whitehall? Ou ao Almirantado? — Observou o major tentar disfarçar. A condessa sabia segredos que precisava conhecer. erguendo-se. por que estaria ali apenas obedecendo a ordens? — O que seus superiores querem que eu faça? — retrucou Ian. Ware sabia que ele havia tomado o sangue de Asharti assim como o restante de seu exército. Mas então. a condessa voltou à sala de estar. O que me oferece é um retorno à escravidão ou enviar me matar caso eu me torne uma ameaça.Susan Squires . Para aquela mulher não existe relacionamento entre iguais. A condessa se inclinou sobre a mesa. — Estarei no Hart and Hounds. — Ela lhe oferece uma posição a seu lado — comentou Beatrix. Não quero ser escravo de novo. — O que o faz pensar que eu tentaria? — Não estava certo. — Eu disse que você é capaz de impedi-la.E por que se considera uma ameaça? — inquiriu a condessa. Ian atirou a carta na mesa.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Sabe muito bem — afirmou ele. —Porque fui contaminado com o sangue de Asharti depois que ela tomou o sangue do Ancião. ainda pensando que alguém que recebia cartas de Asharti poderia ser seu servo. Os patriotas não devem ser desprezados.. .. A servidão eterna ou a morte imediata. — Não importa. Direi em Whitehall para aguardarem até quarta-feira. — Não. — O que pretende fazer? A carta confirmava a condição de Ian. Era preciso saber com o que podia contar para mudar o destino que havia sido traçado para ele. Ian considerou por alguns instantes. mas já não sentia mais raiva. Romances em Ebook . vagarosa à mesa e leu a carta. — Não sei o que fazer. que eu decida? — Quanto tempo ficou com ela? — Até ela me descartar. A revolta e o medo emergindo de seu interior a despeito da aparência calma. Encaminhou-se.

Ela matou Ivan Remstrev no mês passado. informou que a condessa de Lente o aguardava. Ele deixou o olhar perder-se na paisagem com a mente em turbilhão. dentro em pouco haverá mais vampiros do que humanos para nos alimentar. — A condessa se ergueu e retirou um cartão de uma pequena bolsa de contas. — Ela caminhou até a janela e em seguida se voltou para ele.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Seu sangue está misturado com o do Ancião? — Asharti sorveu uma gota das veias dele e em seguida cortou seu lábio em meu dente. mas não a abriu. ela havia partido. A criada que lhe abriu a porta. Decisões precisam ser tomadas. — Não estou certa se podemos. Uma revolta imensa tomou conta de Ian. Há coisas que precisa saber. Era quase madrugada. — É uma pena que eu tenha demorado tanto para encontrá-lo esta noite.Susan Squires . — Isso explica todo o poder que está exalando. Romances em Ebook . ela se encaminhou à porta. Em segundos uma névoa negra a envolveu e. Observou a condessa se voltar para a janela salpicada pelos pingos da chuva. mas aquilo deixaria vulneráveis o irmão e a família. — Então impeça-a! — disparou Ian. — Entre em contato comigo ao entardecer. Asharti espalharia um mar de destruição de Alger até Londres e até mesmo a Stanbridge até eliminá-lo. Havia considerado a possibilidade de fugir para a América. — Se ela não for impedida. Beatrix ergueu o queixo em atitude altiva. embora diluída. Ele era a única fonte de poder. O que significará a guerra entre as raças. Capítulo IV O número quarenta e seis da Berkeley Street era um magnífico exemplo de residência construída em pedras Portland do último século. Várias tonalidades de azul se espalhavam desde o grosso tapete aos drapejados das janelas que abriam para um parque. quando as sombras se dissiparam. — Assim dizendo. Ian entrou em uma das graciosas salas de visita. do Ancião. Era o segundo mais forte depois de Rubius. Se não podiam impedi-la.

O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Sentiu a presença da anfitriã às suas costas.Susan Squires . mas uma nova forma de existência. Ian não perdeu tempo. Agora. — A expressão de Ian era de que não possa ser emendada é eficaz. lady Lente. O traje cor de pêssego realçava os cabelos ruivos e fazia os olhos parecerem ainda mais escuros. Isso nos confere a imortalidade. Dois seres em um só. observando-o. — Então.. porém a condessa o serviu de uma taça de conhaque. — Qual a abrangência desse poder? — indagou ele. inclinando-se para a frente com os cotovelos apoiados nos joelhos. Ian dispensou a comida. Mas uma vez que consiga. seu Companheiro divide com você um poder que meros humanos não podem sequer imaginar. — Vim à procura de esclarecimentos. um parceiro simbiótico que divide conosco nosso sangue. — Ou seja. Tinha passado o dia todo formulando as perguntas que faria. Imortalidade? Sabia que Asharti e Fedeyah viviam havia séculos. explique-me o que é Companheiro? — Um parasita — respondeu a condessa. o mordomo surgiu com bebidas e canapés. Excelente escolha — afirmou Beatrix. ordenando em seguida ao mordomo que trouxesse bebidas e uma bandeja de guloseimas. sucinta. imortalidade? Romances em Ebook . Ian não conseguiu falar por alguns instantes. sentese e pergunte. mas. Vai precisar de toda a informação que puder. — Não pedirei nada se não o achar capaz. Se entrar em suas veias você deve adquirir imunidade do sangue de um vampiro para sobreviver. Vamos começar com as perguntas e depois passaremos para a parte prática. mas agora é mais do que isso.. havia experimentado as cobranças de mulheres daquela espécie. A mulher se deixou afundar em uma espreguiçadeira cinza de listras bege e. Não é uma doença. pouco depois. Do contrário ele reconstrói rapidamente órgãos e repugnância. decidiu vir. — Primeiro tenho de saber o que pedirá em retorno — começou ele em tom austero. Beatrix ergueu a sobrancelha como se tivesse ouvido um insulto. — Primeiro. Afinal. E não usarei hipnose. — O Companheiro reconstrói seu hospedeiro indefinidamente. — Tem razão. Girou para encontrá-la contemplando-o com os olhos semicerrados. — Ainda é humano.

Uma decapitação total. — É o mais difícil de aceitar. — E sobre a força? — Como disse. membros. Como? — O dano deve ser muito grande para o Companheiro reparar. E os induz a esquecer o que aconteceu? — Sim.Susan Squires . — E ante o silêncio de Beatrix. Não poderia descrever as depravações daquela mulher para uma desconhecida. acomodando-se a seu lado e deslizou o braço por sobre os ombros largos como se quisesse aliviar a dor dos músculos tensos. Beber sangue é da nossa natureza. Aproximou-se. — Espero que sim. — Eu sei. Podemos liquidar uns aos outros se um for mais forte. para em seguida se calar.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Por fim. — E descreveu todas as tentativas frustradas. E então Beatrix Lisse fez algo inesperado. No entanto. tentando soar o mais natural possível. não podemos resistir. — Isso é uma violação! — disparou Ian. deu uma tossidela antes de continuar: — Mencionou matar vassalos de vampiros. — Quantas vezes já tentou? Ian desviou o olhar. mas nosso Companheiro necessita de sangue humano para sobreviver. A condessa o fitou nos olhos. não podemos ler pensamentos. Podemos plantar impressões ou fazer as pessoas agirem como quisermos. — Há alguma alternativa para a necessidade de sangue? A condessa meneou a cabeça em negativa. — Tem agido bem. — Três. O segredo é se alimentar com mais freqüência e de pequenas porções — explicou Beatrix. Não sentia orgulho por sua covardia. mas suicídio está fora de questão. Quando a fome aperta. Já deve ter usado a hipnose. — Utilizei-a para me alimentar — informou. — Somos demoníacos! — O leão é demoníaco quando mata uma gazela para se alimentar? Nós sequer precisamos matar. o Companheiro nos confere poder físico e mental. — Asharti — começou Ian. Romances em Ebook .

Ian ergueu a cabeça. incrédula. conte-me sobre os pergaminhos. Deve aceitar o fato de que pode ser bondoso. — Fez? — indagou a condessa. — Mas é melhor não lhe contar agora. podemos controlar onde aparecer com maior precisão. Acabei no mar. — Agora. — Beatrix estacou. — Exceto quando somos decapitados? —Não exatamente. mas não como ela.? — Uma amiga estava lendo um pergaminho que parecia descrever nossa espécie. — Oh! Isso é inusitado.. Não sentiu o prazer da força cantando em suas veias? — Oh. Romances em Ebook . Tentei suscitar aquela sensação em minhas veias no navio em que saí de Tripoli. O que ocorre é que o poder se concentra em um vórtice tão intenso que nos força a desaparecer do espaço que nosso corpo ocupa. Todos nós utilizamos a hipnose. — Não tinha idéias do que estava fazendo. — Devemos ser todos nivelados por eles? Ele encarou-a angustiado e Beatrix sorriu.Susan Squires . Como sabia. sim — admitiu Ian com voz rouca. ela prosseguiu: — Deve se perguntar se as lendas são verdadeiras. Agora. erguendo a cabeça. — Eu fiz isso uma vez. Não nos transformamos em morcegos. poderíamos desaparecer.. Há um modo de subjugar o Companheiro. mas você não. antes de adotar uma expressão severa. Os humanos sentem a energia do Companheiro. cheguei a pensar que iria me afogar. Tampouco somos queimados por símbolos religiosos ou repelidos por dentes de alho. As que são utilizadas para assustar crianças de todo o mundo. mas não precisa ser.. É mais seguro guardar alguns segredos. Você não é um monstro. Mas não são totalmente verídicas. — Não correria esse risco. e é por isso que lhes parecemos tão vitais. — Então somos invencíveis? — questionou Ian. — E ante ao silêncio de Ian. Nunca estivemos mortos. Lá estava escrito que quando nosso sangue canta. Chamou o Companheiro sem nenhum treino anterior.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Toda a raça possuiu seres demoníacos — sussurrou ela. — A voz da condessa soava como um sussurro suave. É apenas uma fábula inventada para justificar a capacidade de sumir e aparecer em outro lugar. Com a prática.. pergunte mais. — Não é pecado regozijar-se com o que é. Aquela mulher é doente. — Acha que a crueldade de Asharti é nosso destino. levando um dedo aos lábios.

Devo proteger minha espécie. — Com duas largas passadas ele a alcançou. Mia não representa uma ameaça para você. Ian sentiu o poder do Companheiro vibrar. Labaredas de fogo pareciam lhe engolir por inteiro.. partindo em defesa de Elizabeth. Em algum lugar ao longo de suas veias.. miserável que sou. Havia traído Elizabeth? A que ponto aquela mulher chegaria para guardar seus segredos? — Apenas eu percebi o que ela havia encontrado. A condessa ergueu a sobrancelha. — Ela soube. Testemunhou minha força por ocasião do ataque pirata ao navio. — Pretende me dar ordens? É muito perigoso para os humanos saberem quem somos. — Talvez seja uma estúpida. — É difícil mentir para alguém tão velho quanto eu — retrucou Beatrix. — Ela saiu correndo e gritando quando percebeu o que você era? Ou desmaiou? — Não fez nada disso — garantiu Ian. Aquela mulher deveria ser prevenida de que não poderia tocar em um fio de cabelo sequer de Elizabeth. Não presuma que pode se opor a mim. E depois viu como cicatrizei quando tratou de meus ferimentos. queimando seus membros. E mesmo assim não gritou. Companheiro! Concentrou-se Ian. Ian sentiu um arrepio de medo percorrer a espinha. — Essa. amiga parece saber muito sobre você. Até mesmo me alimentei de seu sangue. Por fim. O poder emergiu de imediato. — Não a machucará. observando-o atentamente — Ela está em Londres? — Não quero que cause mal a ela. nem saiu correndo.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Estão com minha amiga. Beatrix deu de ombros. ela ficou sabendo de quase tudo. então diria a verdade e defenderia a amiga com a vida se preciso. Beatrix ficou em pé e seus olhos também se avermelharam. — Entendo — afirmou Beatrix. — É uma avezinha ainda emplumando. Estava vivo e cheio de força.Susan Squires . nem que a hipnotize. — Sente-se! Romances em Ebook . como o fizera no navio. Se não podia mentir. Ian cerrou os dentes com raiva.

deixando-se afundar na espreguiçadeira. — Tudo que farei será partir para a América — afirmou Ian. Ela ofegou e tossiu. erguendose e postando-se em frente a ela. — Olhe para mim! — A mulher vampiro ordenou. mas não tinha tempo para discussões naquele momento.Susan Squires . — O que. — O que quis dizer com testar-me? — Tive que suscitar sua raiva para que se opusesse a mim. Rubius desconfiava disso. estava fazendo? — Queria testá-lo — explicou Beatrix. não por estar hipnotizado. Se necessário apagarei apenas sua memória. enquanto sentia a condessa tentar hipnotizá-lo. mas para provar a própria força. — Não vou fazer mal algum à sua amiga. Aquela mulher parecia ter mais força que ele. Talvez o mais forte que já conheci. irado. Foi por esse motivo que me mandou de volta a Londres. Nunca mais permitiria que uma mulher o dominasse! O poder fervia em seu estômago. permaneceu imóvel. tomado de surpresa. Ian permaneceu parado. você é muito forte.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian observou-a evocar o próprio poder. Ian não estava certo se desejava que as lembranças de Elizabeth fossem apagadas. Sua amiguinha me forneceu uma excelente oportunidade. Sua força o torna importante. Venha até mim. — E soltou uma gargalhada. E assim ele o fez. Para um novato é surpreendente. Em silêncio ela atirou o poder que possuía em Ian. — E fitando-o com ar austero. A tentativa o enfureceu ainda mais. Tive que lançar mão de todo o meu poder para que não me atingisse.. mas não importava. E de repente a cor vermelha dos olhos da condessa feneceu. — Sente-se antes que caia. — Oh.. aguardando enquanto o poder abrandava em suas veias. Romances em Ebook . que o sentiu como uma onda de energia que o deixou sem ar. Companheiro! Juntos somos mais que um. pronto para escapar. pensou. refletindo seu novo poder através dos olhos. — Por quê? — Sabe que há algo que precisa ser feito e talvez seja capaz de realizá-lo. Ainda assim. — É realmente forte.

produzindo uma horda de novos vampiros. vestidos em peles e ceifeiros de sementes e frutos nos altos vales. eles habitavam as terras em torno da Crescente Fértil. E assim o fez. — Apenas alguém com o sangue do Ancião em suas veias possui a chance de se opor a ela. Ninguém sabe como. Ela o encontrará onde quer que esteja. Por sua espécie. pelo mundo e por você mesmo — sentenciou Beatrix. Para nossa espécie.Susan Squires . Tampouco derrubando governos. Mas um ou outro conseguiu sobreviver. Tomei uma gota do sangue dela e com isso me beneficiei por ter sorvido também o sangue do Ancião. Essa mulher tem de ser impedida. A condessa deixou escapar um longo suspiro. ele é uma lenda! — exclamou Beatrix estupefata. Não adianta fugir.. Não pode sair por aí. Descobrimos que o sangue dos sobreviventes podia salvar os outros. deve superar o que aconteceu de alguma forma. Não conseguia responder. O que experimentou nas mãos dela o apavorou. em algum lugar e tanto tempo atrás que apenas Rubius se recorda. — Nenhum de nós o viu. — Do que está falando? O olhar de Beatrix transmitia toda a gravidade da situação. —Existia uma raça. Geralmente. lembrando o ar frio do templo. — Não sou páreo para ela. Há algo mais importante do que a ameaça de Asharti à sua vida. Não pode fugir dela porque sempre a levará consigo. Porém. sabia que a condessa tinha a razão a seu lado. No princípio. — Sim — afirmou Ian. conte-me mais sobre a lenda. Nós a chamamos de Nascente. E assim nasceu nossa raça. Rubius precisa de você. Deveríamos ter feito isso há anos. Deve fazê-lo. Ian inspirou profundamente. Romances em Ebook . morriam. franzindo o cenho. todos que bebiam daquela fonte. — Então. — E matá-la. — Sua alma não lhe pertence. O Companheiro em seu sangue contaminou uma fonte. — Ela o chamou de Aquele que Espera.. Mas um entre eles foi para o Norte. A lenda conta que ele desejava moldar a raça humana à sua própria imagem. ao menos em parte. — A voz de contralto falseou pela emoção. Nossos antepassados eram caçadores.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Tem de encontrar Asharti. Quem pode dizer quanto se ela não esteve diante dele outras vezes? — Viu o Ancião pessoalmente? — indagou a condessa. Já a vi produzir feridas como as suas uma vez.

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— Imunidade — murmurou Ian. — E os Anciãos? — Eles partiram — explicou Beatrix, sucinta. — Aquele que infectou nossa fonte ficou para trás como um castigo por sua arrogância ou por ter perdido a hora da partida, ninguém sabe. — E então ele ainda espera? A condessa anuiu. — Sim. Até que voltem. — Mas eu ainda tenho opção? — quis saber Ian. — Sim. — Então vá até esse Rubius e diga-lhe para lidar com Asharti que eu estou de partida para a América. Não sou capacitado para essa tarefa. Se ele quiser me matar por recusar, deixe que o faça. A condessa comprimiu os lábios e ergueu o queixo. —Muito bem. Mas até lá teremos de aparar algumas arestas como preparação para sua viagem. Ian a fitou, incrédulo. Teria Beatrix desistido de persuadi-lo tão facilmente? — Não quero que faça nada contra Elizabeth — advertiu ele. Os olhos da condessa se estreitaram. —Julgarei o que será necessário quando a vir. Quem mais sabe de sua condição? Ian contou sobre a visita ao médico e das amostras de sangue que havia dado. — Bem, então este será seu primeiro exercício de materializar-se em lugares diferentes. Resgataremos aquelas amostras e induziremos o bom doutor a esquecer que o conheceu um dia — dizendo isso, a condessa lhe estendeu a mão.— Venha. Vou ensiná-lo a controlar a escuridão. Ian aceitou a mão estendia. Havia muito a aprender com aquela mulher. Porém, a impediria de alterar a memória de Elizabeth a todo custo. Ian tirou o colete e a camisa em seu quarto em Albany House, enquanto a luz do alvorecer começava a pintar o céu, tentando lidar com os sentimentos confusos que oprimiam seu peito. Havia presenciado maravilhas naquela noite, a magnitude do que era e o vislumbre do que poderia vir a ser. Beatrix Iisse o ensinara a dirigir o poder de seu Companheiro. Ele havia sentido o poder crescer em suas veias, e com apenas um piscar de olhos desapareceu

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no espaço, materializando-se no consultório médico em meio às centenas de frascos de vidro. Após reaverem as amostras, a condessa induziu a mente do médico para o total esquecimento no que concernia a vampiros. O tremor que perpassava o corpo de Ian naquele momento não tinha nada a ver com a lufada de ar frio que emanava da janela que ele havia escancarado. Seus pensamentos se concentravam, inexoráveis ao que Beatrix havia dito sobre Asharti. Não tinha como fugir daquela mulher. Ela viria sempre para assombrar sua alma. Depois a condessa postou uma carta para Rubius, o líder de sua nova espécie que vivia em algum monastério nas montanhas da Transilvânia. Ela lhe dissera que ele iria conclamar os outros, mas e se não conseguissem detê-la? Aquela vampira o seguiria pelo mundo, deixando um rastro de destruição atrás de si. Além disso, sua partida não protegeria a família de Henry ou Elizabeth. Andando pelas sombrias ruas de Londres, Ian ouviu as badaladas dos sinos de alguma igreja indicando a hora real. As luzes amareladas em Albany Court não convenciam a névoa a se dissipar ao seu redor. Uma única carruagem passou em frente ao Piccadilly, cora o trotar dos cavalos rompendo o silêncio da noite. Oh, Deus! Queria apenas voltar a ser o que era antes. Mas aquilo era impossível. Maldita mulher! Ela não havia destruído apenas seu corpo, mas levou consigo suas esperanças. E Beatrix havia lhe apresentado a única solução possível para recuperar sua vida. Teria de enfrentá-la. Sabia que não estava à altura da soberana dos vampiros. Mas quem mais estaria? Necessitaria de mais força para que houvesse qualquer esperança de vitória. E bem sabia de onde tirá-la. Do sangue do Ancião. Era a única possibilidade. E então, quando estivesse forte, aceitaria o convite de Asharti para encontrá-la em Tripoli. Embora tivesse passado por Kivala, não sabia ao certo a localização. Entretanto, conhecia alguém que podia ajudá-lo a encontrar o lugar. Capaz de traduzir os textos que abriam as portas do templo do Ancião. O coração de Ian batia descompassado, enquanto esboçava o plano em sua mente. Não era justo pedir aquilo a ela. Seria acareada com um monstro. O que poderia lhe dar em troca? Elizabeth se condoia de saudade da África no navio. Talvez pudesse oferecer algo que ela tanto prezava e dar a oportunidade de escapar de uma vida, que por certo, estaria achando tão vazia quanto a dele. Era terrível e perfeito ao mesmo tempo o fato de ser ela a possuir a chave para resolver seu problema.

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Elizabeth e Emma estavam sentadas com o major Ware na noite de jogo dançante de lady Jersey. Ambas tentavam arrancar informações sobre a situação no Marrocos, mas o oficial se mostrava reticente. Após muita insistência, Elizabeth conseguiu saber que a líder dos seguidores se chamava Asharti e pela descrição de Ware, correspondia com perfeição à perseguidora de Ian. — Então os corpos sugados são deixados por ela? — quis saber Elizabeth. — Ou por seus seguidores. Quem pode saber? — inquiriu o major, embora ela estivesse certa de que o oficial escondia alguma coisa. Quando os casais começaram a girar com os primeiros acordes da valsa, Elizabeth percebeu que a atenção do salão se voltava à porta. Como que comandada, ergueu o olhar para encontrar Ian parado do outro lado do salão, executando uma mesura para a anfitriã. Ele estava impecavelmente trajado com uma capa preta e calças que evidenciavam os músculos das coxas. A gravata larga branca atada de modo perfeito e os cabelos ligeiramente cacheados, com uma fita. Após beijar a mão da anfitriã, ele levantou os olhos e logo localizou-a. Ela tentou em vão desviar a atenção, mas foi pega por aquele tão conhecido magnetismo. Ele se empertigou, murmurou algo para lady Jersey, desculpou-se com a mulher à sua direita, a esplendorosa ruiva que reconhecera as marcas dos caninos no pescoço de outra jovem dama. E decidido, abriu caminho em direção a Elizabeth. A multidão se abria para sua passagem. — Srta. Rochewell — disse ele, parado, um tanto sem graça. Se é que um homem belo como aquele podia se mostrar desajeitado. — Sr. Rufford, eu... eu espero que esteja bem.—Ela sentiu que eram observados atentamente. — Gostaria de me conceder a honra desta dança? — Ian perguntou com sua costumeira objetividade. — Claro... — murmurou ela ainda sem ter se refeito do encontro inesperado. Ian estendeu a mão e os dedos morenos pousaram de pronto nos seus, fazendo-a corar do que o simples toque a fez sentir. Ele a guiou para a pista, onde os casais giravam. Elizabeth engoliu em seco, ao senti-lo enlaçar sua cintura, aproximando os corpos. Mal conseguia dominar as pernas trêmulas, mas os braços fortes a conduziram, emprestando um pouco daquela

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A rigidez dos músculos sob a mão de Elizabeth relaxou. Mas encontrei alguém que poderá me ajudar. E então Elizabeth compreendeu quem era a pessoa que ele acabara de referenciar. ela sentiu o mesmo perfume almiscarado de Ian. enquanto ele a guiava para fora da pista de dança. aquilo era pedir demais. Elizabeth podia sentir o eco da voz máscula reverberar no peito musculoso. Esgotara seu estoque de civilidade banal. era possível sentir o toque firme daqueles dedos. Desde a noite em que o tratara dos ferimentos da batalha com os piratas. — Esperava que dissesse isso. Ela ainda tinha esperanças de poder dizer o mesmo de si. — Encontrou sua cura? — arriscou ela. nunca estivera tão próxima dele. Romances em Ebook . — Otimo. Eles deslizaram pelo salão. fico feliz com isso. E você? Sua tia está bem? — Sim — redarguiu Elizabeth. Tentou forçar um sorriso. Apesar de estar com a mão enluvada. — Oh. só que em uma versão mais feminina. Mesmo com a rápida passagem pela condessa. lançando um olhar desafiador. — Sufocante — retrucou. — Como tem passado? — conseguiu dizer. fitando-o nos olhos. — Não. sucinta. quebrando o silêncio. — Bem. Claro! Ele encontrara outro ser de sua espécie. passando em frente a Beatrix. obrigado. optando por não discorrer sobre os próprios infortúnios. Inclinou a cabeça para trás para fitá-los nos olhos e percebeu Ian desconfortável ante a especulação.Susan Squires . Os últimos acordes da valsa se fizeram ouvir.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) força vibrante. — Desejo que fique bem — murmurou. Ian havia encontrado seu lugar e destino. E o que acha da Inglaterra? Oh. — Quis me convidar para dançar apenas para ser gentil? — perguntou ela. eu desejava rever uma velha amiga. mas não menos sedutor. — Não.

sabia sobre Asharti e.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — E eu a você — retrucou Ian. Quem poderia amar a banal Elizabeth. portanto. — Sr. Rufford — disse Elizabeth. Estou desconsolada. — O major Ware acolheu-me quando eu estava doente em El Golea — Ian explicou. Fairfield e o major Ware? — indagou. Naquele instante o major Ware retornava da pista de dança com Emma. — Estou sendo requisitado. sim. — Encontramo-nos de novo.. A expressão de Ian era de censura. conhecia a condição de Ian. — Ah. acompanhando-a até seu assento.Susan Squires . Certamente. notando-a intrigada. — Permite-me apresentar-lhe a srta. Elizabeth observou-o guiar seu par para a pista de dança e a compreensão a atingiu como um j ato de água fria. O olhar de Elizabeth se alternou entre ambos. — Abandonou-me. distraidamente. Romances em Ebook . — Apenas abatido pelo sol — minimizou o oficial. percebendo no mesmo instante que ambos os cavalheiros já se conheciam. Naquele instante a atraente condessa emergiu por trás de Ian. quando criaturas como Beatrix Lisse. a orquestra começou a tocar outra vez. lorde Rufford. — Rufford.. ela se lembrou que o major. existiam? Ian retirou o agasalho dos ombros de Beatrix no número quarenta e seis da Berkeley Street. confusa. — Recuperou-se prontamente. Quando se apaixonara por aquele homem? Estudando os mistérios dos pergaminhos? Tocando-lhe o corpo desnudo e ferido? Amava um homem que estava perdido para ela. — Major. — O oficial franziu o cenho. Ian fez uma mesura para o grupo. e a de Ware demonstrava uma certa reserva que beirava o medo. Ouça. No mesmo instante. — Permiteme procurá-la em um dia desses? Elizabeth piscou várias vezes. Observou a condessa rir e jogar a cabeça para trás num gesto cheio de vida. a condessa de Lente. Desculpem-me.

Claro que nenhuma prisão poderá detê-lo. Rufford — chamou Beatrix. mas mão poderá continuar na Inglaterra. uma vez que aceitara valsar. dirigindo-se em seguida à porta. arrancando-o dos devaneios. continuou a falar: — Você será preso como traidor. Ulberno está lá. eu não apagaria a memória da srta. sucinto.—Ela é a amiga que leu os pergaminhos e o ajudou a fazer materializar-se em lugares diferentes? — Sim — respondeu ele. — Ian fez uma mesura. mas ele pressentia que ela iria tomar alguma atitude. Desejava apenas retornar à Alemanha. no entanto. Ao contrário — afirmou a condessa. iria propor o inacreditável. teremos de limpar os rastros de Asharti. — Em seu lugar. Retornarei a Roma. — E então? — indagou. Poderia ter as mais belas damas daquele salão. Ian não respondeu. — Duvido muito que seja necessário. Quando partirá para a América? — O que pretende fazer? Ian temia o que Beatrix poderia fazer agora que conhecia Elizabeth. Os comentários foram triviais. Rochewell. junto com outros que irão nos encontrar se for o caso. A sensação da cintura delgada sob musselina do vestido ainda lhe queimava a palma da mão. mantinha-se de costas com o olhar fixo na janela. Mas devo fazer o necessário. Ela sabe sobre sua condição e. Romances em Ebook . — Se for o caso? — Sim. A condessa então. apagamos a memória do médico. — É a sensação da cidade. Posso cuidar do major Ware.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) No dia seguinte.Susan Squires . servindo-o. Por que não conseguia pensar em outra coisa? — Sr. dirigindo-se à garrafa de conhaque e servindo duas doses. —Interessante. levando a taça aos lábios. não demonstra repulsa. — É difícil dizer. Caso decida nos ajudar e se vencermos. Seria assim para ela também? Talvez não o considerasse um monstro. Mas a simples visão de Elizabeth naquela noite o abalara. Fiquei surpresa quando favoreceu a morena comum com sua atenção — comentou. O conhecimento que ela possuía de sua condição pareceu aceitável em um navio no meio do oceano. Ela pode ser sua única chance de conseguir o que quer. — Bem. caso se recuse a lutar contra Asharti. mas em plena Londres era impensável.

— Ela tem gota. — Que prazer revê-lo! Ian deu um passo à frente a beijou a ponta dos dedos de Célia. só não esperava que fosse tão cedo. Ian Rufford — anunciou Edwards. — Apesar de cumprimentar as duas. Conhecia alguém que só poderia fazer visitas à noite. Os olhos astutos da tia não perderam aquele detalhe.Susan Squires . ao que parecia. — Sr. — Boa noite. uma batida se fez ouvir à porta.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) O coração de Elizabeth se contraiu ao ouvir a tia dizer que achara a ocupação ideal para ela. senhoras. mas não tinha outra alternativa. Afinal. — Faço-o entrar — ordenou ao mordomo. — Que inconveniente! Uma visita a esta hora. Naquele instante. — Oh. ele prometera entrar em contato. estendo a mão em um gesto lânguido. poderia ser melhor companhia. Chively. que de imediato corou. que servia apenas para emoldurar aquele corpo perfeito. franzindo o cenho. — Espero preencher os requisitos. E também não precisará se ocupar da casa porque ela tem empregados para isso — completou a tia. A capa preta completando o belo traje bem cortado. Quem poderá ser? — indagou Célia. tinha uma tia-avó que vivia em Yorkshire. A senhora necessitava de ajuda com a leitura e seus bordados. seu olhar não se desprendeu de Elizabeth. um conhecido de Célia. — Sr. — O prazer é todo meu — murmurou ele. Elizabeth percebeu o olhar de Célia se transformar de surpreso a avarento em questão de segundos. Elizabeth volveu o olhar desanimado para a tia. mas não precisará cuidar disso. volvendo o olhar a Elizabeth. O coração de Elizabeth se acelerou e as mãos tremeram. se ao menos estivesse me sentindo melhor. Ian entrou a sala de vistas e tomou conta do ambiente com sua presença devastadora. Romances em Ebook . Estava trajado para algum evento. Rufford — retribuiu a dona da casa.

— Já esteve lá. — Eu.. Sorrindo timidamente. Juntos podemos encontrá-la. Estupefata. mas não podia crer no que estava ouvindo. — Vejo que minha visita é inoportuna. Elizabeth a observou se erguer e sair da sala. — Ele quebrou o silêncio. não poderá viajar a menos que esteja casada. — Muito bem. Você quer voltar à África? Parece um peixe fora d'água em meio a essas pessoas ignorantes e insípidas dos círculos sociais. percebeu-a atordoada e achou que precisava ter mais explicações. — Para quê? — indagou ela sem mais rodeios. ficou caminhando de um lado a outro da sala. por minha vez. — Bebe alguma coisa? — Não se incomode com isso — replicou Ian. mas agradecida. Elizabeth o fitou. Elizabeth observou que algo o atormentava.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) O pesar e o desapontamento por uma fração de segundo estamparam no rosto másculo. — Achei que nunca mais quisesse voltar à África. A menção da África sentiu uma pontada de saudade no coração.Susan Squires . — Sempre achei que não tinha problemas em abordar qualquer assunto diretamente. pois ele se-quer se sentou. O olhar de Ian demonstrava a ansiedade por uma resposta afirmativa. retornando em seguida ao ar determinado de sempre. Porém. Tenho uma proposta a lhe fazer. moribundo por semanas até chegar a El Golea. — Vaguei pelo deserto.. Não conseguiria encontrá-la de novo. Em seguida. —Não se incomode. Você tem os textos que mostram o caminho. incrédula. Romances em Ebook . — Preciso saber a localização de Kivala. necessito dos conhecimentos arcanos que sei que possui. — Não sei como começar. No entanto. — Que tipo de conhecimento? Ian tornou a sentar-se de modo abrupto. Vou me deitar e deixo minha sobrinha para me representar nas honras da casa. ela indicou uma poltrona junto à lareira na tentativa de deixá-lo mais confortável para prosseguir. clareou a garganta outra vez e se ergueu.

Elizabeth anuiu e o fitou. por trás de duas inscrições que não serei capaz de traduzir. que seja sua vontade continuar com a vida que está levando. Contudo prometo que jamais a violarei de novo. Eu financiaria tudo. — Sei que uma criatura como eu não tem direito a fazer esse tipo de pedido. — Ian clareou a garganta. mas seria apenas um casamento de conveniência. Ian piscou várias vezes. Então Ian era imortal? As consequências daquela informação quase a devastaram. Talvez com a esplendorosa condessa de Lente. coragem e dor se mesclavam naqueles olhos claros. Sabia que não a havia mencionado para ele. Não posso fugir enquanto ela destrói tudo. — Acho que posso detê-la.. Sentiu como se o coração se perdesse na espiral da desesperança. Ela está produzindo muitos vampiros. Romances em Ebook . Enquanto já admitira seus sentimentos mais profundos por ele. — Vou revelar minha situação. Vampiro!. — Eu envelhecerei. — Eu vim aqui pedi-la em casamento — continuou Ian. — A voz máscula falhou ao pronunciar a palavra. Asharti sabe onde estou e ameaça vir atrás de mim. Confusão. mas com as vantagens que o casamento confere a uma mulher. — Essa mulher é uma ameaça aos humanos e aos vampiros. A não ser. a palavra ecoou na mente de Elizabeth. Existe um parasita em meu sangue que necessita que eu me alimente de sangue humano e não há nada que eu possa fazer quanto a isso. baixando a cabeça. Poderia ter a vida que deseja sem o impedimento de um marido que cobrasse outros compromissos além do que gosta realmente de fazer. Ian sequer fingia amá-la. Essa é uma diferença importante. Ian deveria tê-la descoberto por outros meios. Vampiros. — Ainda não me disse por que tem de retornar a Kivala.Susan Squires . então eu desapareceria e a deixaria livre. Posso desaparecer e impor minha vontade sobre os outros. Elizabeth jamais escutara um discurso tão desanimador. É isso que somos. em clara demonstração que não havia pensado naquilo. Se ao menos ele fizesse o pedido de outra forma. Estaria apta a conduzir suas pesquisas e montar expedições.. — Ao que parece não vou envelhecer. claro. ela o aceitaria de pronto. mas não posso evitar. A resposta está ali.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Eu não queria.

Claro! Por certo já recebeu outras propostas. não a sobrecarregarei com ela.. E joga muito bem o xadrez... Tenho uma certa urgência. E mais uma prova de seu caráter e bondade. portanto. — Certo — disse Ian por fim. Mas antes de aceitar. É interessante em todos os aspectos. Romances em Ebook . tomando lições com a não menos bela Beatrix se formou na mente de Elizabeth. quase a despedaçaram. Merece a maior consideração de minha parte e por mais desagradável que isso possa ser.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Ficarei sempre a seu lado. — Ficarei feliz em aceitar sua proposta de casamento. mas há textos na tumba que necessitam ser traduzidos para se conseguir entrar e. — É páreo para mim. — Se não se casar comigo — continuou Ian como se não quisesse perder tempo. confuso. mas se minha presença se tornar um fardo. terá de ir comigo. O que mais eu poderia desejar? Elizabeth sentiu um laivo de esperança. — Detesto a idéias de amarrá-lo a tão penoso fardo por sabe Deus quantos anos. Aquele era o momento. Suas observações são sempre pertinentes. Enfadar-se-á de mim ainda na viagem. mas o discurso caótico de Ian criara uma ilha de esperança em seu íntimo. Não confio em mais ninguém. — Não poderá voltar à África. — Sei disso. Nunca reclama de nada. precisava saber mais detalhes. — As palavras. E decidiu que se agarraria a ele. — Exibiu um sorriso enigmático. — Quando seria conveniente? Havia pensado em amanhã..Susan Squires . sua reputação estaria arruinada. quem iria protegê-la? Era incrível. Com Asharti cometendo tantos crimes. uma vez ditas. Ainda sou nova. — Não tenho nenhuma outra proposta — murmurou Elizabeth. Não posso permitir que isso aconteça. — Fardo? — indagou ele. — Não consigo imaginar mais apropriada companheira de viagem. O que estava fazendo? Ambos se fitaram como se um enorme buraco tivesse se aberto na sala e os tragado. vivendo em um palácio com um belo e vigoroso jovem. De repente a imagem nada agradável de uma anciã. Se me acompanhasse sem a proteção de um casamento. — Eu o ajudaria a encontrar Kivala sem ter sido necessária sua oferta gentil.

— Meneou a cabeça. Elizabeth franziu o cenho. — Não é uma grande chance. Acho que podemos começar por lá. tocando a campainha para chamar o mordomo. Ele é conhecido como O Ancião.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Amanhã? — Aquilo estava se tornando muito real ao mesmo tempo em que surreal. Se conseguir convencê-lo a me dar seu sangue. — Trouxe uma licença especial. O sangue dele produziu os primeiros vampiros. Rochewell. É dele o sangue que fortalece Asharti. Há um navio partindo de Portsmouth para Casablanca antes da madrugada de sábado.. — Quem lhe concedeu uma licença especial? Ian desviou o olhar.. Ian a fitou diretamente. — É difícil resistir ao pedido de um vampiro. — Acho que devo pedir permissão à sua tia. nos olhos.Susan Squires . diante dos motivos mais sérios dele.. procurando divisar-lhe a alma. Ele aceitou. Kivala fica em algum lugar entre o leste das montanhas Atlas e a oeste de El Golea.. Aquele que Espera. mas é a única que tenho. Há proclamas e preparos. objeção que não tinha coragem de verbalizar para Ian. — Um templo. — Preparada? Ela está ansiosa por isso — retrucou Elizabeth. — O que há por trás da porta que deseja que eu destranque e que o tornará capaz de enfrentar Asharti? Ele engoliu em seco. um estranho ser. Dentro dele. decidida que era um desafio que estava disposta a vencer. O casamento seria no dia seguinte e não tinha sequer um traje apropriado para vestir. mas ainda havia uma dúvida cruel que precisava ser desfeita. desconcertado. decidido a contar a verdade. talvez possa enfrentá-la. Romances em Ebook . — Não se pode providenciar um casamento de um dia para outro. — Você merece essa chance. — E bastante direta srta. — Poderíamos adiar para depois de amanhã? Isso me daria tempo de fazer as malas e ainda conseguiríamos embarcar no sábado. — Respirou fundo. mas temos tão pouco tempo. — Há algo que preciso saber — disse Elizabeth. caso concordasse. Por certo não está preparada para isso no momento. Ela empertigou os ombros. Ian retirou um maço de papéis do bolso da capa um tanto sem jeito. Farei o que tem de ser feito.

Graças a Célia. Durante todo o percurso para a casa dos Fairfield. ansiosa por uma oportunidade de espalhar a notícia entre as matronas da sociedade inglesa. — Se me permitem acompanhá-las. Elizabeth respondia. Por que concordara com aquele plano perigoso? Porque ele precisava de ajuda. — Está indo para o baile dos Fairfield? — indagou Célia. — Rufford! — Soou a voz musical inconfundível atrás deles. Os dois cruzaram o salão com vagar ante os olhares surpresos das matronas. — Por onde andou? Decidiu viajar para o exterior? — Decidimos. minha carruagem aguarda. sucinta.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) E ela não estava errada. Ian se inclinou em uma profunda mesura. quando o dinheiro de um rico irmão de um visconde estava envolvido. — Condessa — continuou Ian. Elizabeth pousou a mão no braço de Ian. Célia não se importava nem um pouco com as boas maneiras. Quando chegaram à casa dos Fairfield. Mas casamento? Afinal. Elizabeth sentia-se oprimida pela antecipação de dançar nos braços de Ian e do assombro da sociedade pelo fato de alguém como aquele homem ter proposto casamento para uma mulher como ela. mas para o norte da África. para que tantos questionamentos se a verdade era tão evidente? Amava aquele homem. o boato do iminente casamento correu o ambiente em segundos. às perguntas da tia. havia deixado evidente que a estimava e queria protegê-la. foi tomada de surpresa. quando ambos revelaram que se casariam em dois dias. em vez da América. Beatrix flutuava esplendorosa pelo salão em direção ao casal. — Estávamos de partida quando chegou. Ele a encarou com um olhar tão cheio de. Por outro lado.Susan Squires . vampiro ou não e queria ficar ao lado dele. Sua mente se encontrava em um redemoinho de sensações. o que não lhe daria tempo de organizar uma recepção decente. mas acabou por se convencer do rompante de amor do noivo. Oh... minha futura esposa? Romances em Ebook . sentindo a energia que dele emanava como uma descarga elétrica. Ian afirmara que não a amava. No momento. Elizabeth percebeu a expressão de alívio naquela bela face radiante. Rochewell. — Permita-me apresentar a srta. claro. Mesmo assim. Célia foi chamada de pronto pelo idoso conde de Silchester e começou a cochichar em seu ouvido. quê? Não conseguia interpretá-lo. não se importava com o que o futuro ao lado de um homem que convivia com criaturas extraordinárias pudesse lhe reservar.

— Mais. — Espero que saiba o que está fazendo. — Lady Rangle indicou-a para tomar conta de minha tia-avó. Beba a taça toda. quando foi interrompida por um senhor sorridente... embora soasse frágil. — Srta. — Começaremos nossa viagem de núpcias no sábado.Susan Squires . A condessa se afastou e Elizabeth se concentrou no falatório a seu redor. Elizabeth obedeceu. lançando um olhar cínico a Ian. Rufford — explicou Elizabeth. Espero que não se importe com o estado do lugar. — A srta. — Acredito que temos uma missão urgente. Rochewell não poderá ir — afirmou ele em tom decisivo. Por fim. — Entendo. Ante o olhar estupefato de Elizabeth. Mas mal teve tempo para dar atenção. Oh. — O ventre de Elizabeth se contraiu. fitando Elizabeth com curiosidade. Não temos uma criada há meses. — Por que sua tia. Pode tomar o veículo que transporta correspondências na sexta-feira. Romances em Ebook . — Partiremos no sábado — interrompeu Ian.. Pedi que me ajudasse a encontrar um emprego e ela o fez. Rochewell? Sou Bernard Chively. deixando o homem boquiaberto. — Sou capaz de ler os textos antigos e. colocou as mãos sobre os ombros de Elizabeth e a afastou. Elizabeth sentia-se deveras envergonhada para falar. — Seu pai gastou o seu dote? — Em sua última expedição. Ian se adiantou. — Encantada em conhecê-la — disse.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) A mulher ergueu uma das sobrancelhas em total surpresa. — Beba seu champanhe — ordenou ele. Temo que tenha de procurar outra vítima para tomar conta de sua tia — dizendo isso. decidiu ela.? — Recusei duas propostas de casamento.. — Espero ser útil para a busca do sr. Ele devia estar tão constrangido em descobrir que pedira uma futura criada em casamento. não pensaria naquilo. Não poderia concordar em ser um fardo para ela. não? — Sim — concordou a condessa. Expressões indignadas se faziam ouvir de todos os lados. ela perdeu a paciência comigo. — Eu sei — garantiu ela. sorvendo um gole da bebida espumante.

mas um brilho divertido se refletia nos olhos azuis. — O que houve? — Viajarei para o exterior em uma missão. Elizabeth experimentou a mesma sensação da outra vez. — Posso pedir mais um favor? — Tudo que desejar. surpreso. Vamos embora. — Pode colaborar conosco? — indagou Ian em tom áspero. Enquanto o salão girava em torno dela. Precisamos de um padrinho de casamento. confirmando o desejo que havia entre eles. quinta-feira às dezessete horas. — Aí está o homem com quem eu precisava falar — anunciou Ian. Ian se inclinou em uma mesura. — Estaremos longe a essa altura. — Meus parabéns — cumprimentou-o por fim. — A expressão do rosto másculo era séria. Ware entendeu na hora do que se tratava e baixou o tom de voz para perguntar: — Tem alguma chance de triunfar? Ian baixou o olhar e em seguida o ergueu para fitar o oficial. quando estacou. Ela anuiu e ambos se encaminharam à pista de dança ao som dos acordes da valsa. Ware alternou. — Igreja de St. continuou: — Pode conhecê-lo há mais tempo do que eu. — Faça-os olharem. — Já ia se voltando para partir. Ian tomou a taça de suas mãos. Em seguida. o olhar entre Ian e Elizabeth. mas eu conheço mais os segredos dele. sou sim. Ian avistou o major Ware.Susan Squires . — Já cumprimos com nossa obrigação social. —Tomando-lhe a mão. Romances em Ebook .O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Desculpe-me por embaraçá-lo. — Acha que não sou uma noiva adequada? Pois. — E ante o olhar estupefato do oficial. abriu caminho entre a multidão em direção a Célia. voltou a face lívida a Elizabeth. O contato da mão em sua cintura emitia um calor por todo o seu corpo. Não poderei comparecer ao nosso compromisso. — Dance comigo. a qual não aprovaria. Quando a música cessou. O oficial pareceu ter sido tomado de assalto. Talvez ele não conte para ninguém. James. mas antes que pudesse alcançar seu destino. — Uma chance.

— Nunca terá motivos para tal. Então pesquisou os pergaminhos mais uma vez. Teriam de adquiri-los em Portsmouth. a mais conceituada de Londres. Elizabeth deu a desculpa de estar com dor de cabeça. colocou sua frugal bagagem em um pequeno baú. Durante todo o tempo. sentia-se extenuada com os acontecimentos do dia. não obstante o que acontecesse com ele.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Acho que sim. escreveu a Emma que aceitou o convite com entusiasmo. obrigando uma contrafeita Célia a acompanhála. Ele se inclinou para frente e tomou as mãos pequenas nas suas. garantindo que a esposa ficaria amparada. seguiu até a residência de Beatrix. Ela parou a fim de pedir à tia que convidasse Emma para ser sua madrinha. dirigiu-se às lojas do centro para comprar os suprimentos de viagem e artigos femininos para Elizabeth. Agora tem de ir para casa. Uma vez dentro da carruagem. decidida. Ainda temendo o passo que ia dar. para escolher o tecido do vestido da noiva e instruí-la do que desejava. O pedido de casamento inesperado e os comentários maldosos da corte de Londres haviam drenado suas forças. Ian anuiu e guiou Elizabeth pelo restante do caminho. — Não tenho medo de você — assegurou Elizabeth. pensamentos sobre a noite de núpcias invadiam sua mente. Em seguida. Elaborou uma lista de suprimentos para a caravana e relacionou as tarefas e providências que teriam de tomar quando chegassem a Casablanca. Qual seria a atitude de Ian? Como seria fazer amor com um vampiro? Ian também teve um dia atribulado. afundou-se no assento acolchoado do veículo. Edgely. Não tenha medo — garantiu Ian. dizendo apenas que Elizabeth poderia ser de maior valia que ele próprio. — Tudo sairá bem. exigindo explicações de como aquela exótica mulher poderia ajudá-lo. Em seguida. Não poderia se esquecer de levar sextantes e cronômetros. Pela manhã se encaminhou ao ateliê da estilista madame d'Arette. Ele foi sintético na resposta. Por fim. O dia seguinte foi um caos na vida de Elizabeth. a condessa se mostrou resistente ao casamento. Romances em Ebook . consultando um livro de Matemática da Navegação para calcular a diferença sazonal que mudaria a posição da lua da hora que estava descrita nos textos em relação à hora em que estariam chegando ao leste de Casablanca.Susan Squires . Passou a maior parte da tarde confinado no escritório do sr. Como esperava.

Ficara claro que ele não a amava.Susan Squires . — Elizabeth consultou o relógio no criadomudo. A cintura era baixa. — Certamente. Os criados circulavam em volta de pilhas de caixas de todos os tamanhos. Vencida pela exaustão. senhorita. O papel fino do interior da caixa revelava um cetim entre branco e dourado.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Por fim. já que não poderia ir andando para o próprio casamento. embora contrafeita. Sentou-se na cama. — Espere apenas um minuto. — Polly. — O que foi? — Chegaram alguns pacotes para a senhorita — gritou o criado do outro lado. Rufford estava escrito com caligrafia caprichada. pode me ajudar a vestir? Estou muito atrasada. cortou as fitas e a abriu. Acordou com uma batida nervosa à porta. Após a segunda noite insone. Uma linda cor bege amanteigado. Tenho jeito para penteados. Elizabeth se voltou pedindo a James que providenciasse uma carruagem de aluguel. pegou uma tesoura. como ditava as Romances em Ebook . O Ilustre sr. — São endereçados à senhorita — informou uma das criadas. deixando o tecido pesado pender. — Leve-os para o andar superior. Três horas! Lutou para se erguer e examinou o próprio reflexo no espelho. As sombras do fim da tarde de fevereiro se refletiam no quarto. A jovem exibiu um sorriso de superioridade para os demais criados. sim? — pediu ela antes de se voltar para a criada. Uma vez no quarto. A peça era toda ladeada de rendas de Bruxelas e possuía um insinuante decote. As palavras que usara quando a pediu em casamento ainda ecoavam em sua mente. ainda corando. constatando que faltavam menos de três horas para chamar uma carruagem de aluguel. olhou para a caixa de maior tamanho e. A criada suspirou e Elizabeth prendeu a respiração antes de retirar o traje do invólucro e o suspender. Jogou um pouco de água no rosto e em minutos se encontrava no andar térreo. a condessa concordou com a aventura. Antes de atingir o topo da escada. Elizabeth se apressou em pegar o cartão que fora entregue junto com os pacotes. Elizabeth observou Célia partir para um compromisso à uma hora da tarde. Os olhos estavam apenas um pouco inchados. Lutava contra o medo secreto de não encontrar Ian a aguardando quando lá chegasse. Elizabeth se deitou na cama e caiu em sono profundo.

sofisticado e elegante. uma elegante gravata branca perfeitamente atada e com os cabelos ligeiramente cacheados. Os olhares se prenderam e ali ficou selado uma parceria não só de conveniência para uma viagem. entendeu que Ian pensara em todos os detalhes. Evidentemente jóias caríssimas.Susan Squires . Polly havia feito um excelente trabalho em seus cabelos e o traje emoldurava com perfeição as curvas de seu corpo longilíneo. construída em tijolos vermelhos e pedras Portland do século dezessete. Como Ian fora capaz de tanta precisão? Talvez se lembrasse da noite em que a despira. luvas e um grande manto em lã creme com finíssimo acabamento. Elizabeth agradeceu à criada e desceu a escada com cuidado. pousouo na cama e pôs-se a abrir os demais pacotes.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) regras da moda. Seus olhos percorriam enaltecidos o rosto másculo e o corpo exuberante do futuro marido. longas e apertadas. Elizabeth sequer reparou na vestimenta. Estupefata. A porta da carruagem se abriu para revelar Ian trajando calça e sobretudo pretos. Não foi menor a surpresa de Ian ao vê-la tão deslumbrante. Nos outros pacotes encontrou meias finas. corando. senhorita. o veículo estacou de fronte da imponente igreja. Meia hora mais tarde. acompanhado de brincos de pérolas e diamantes. Edwards abriu a porta da saída para revelar um sorridente James parado junto a uma deslumbrante carruagem provida de dois criados trajados de preto. composto de renda e fitas brilhantes. eram confeccionadas em renda pura. sorrindo tímida ante os olhares curiosos dos criados. E o chapéu! Na mesma cor que as demais vestimentas. com uma sobre-saia de renda na rica cor creme. — A carruagem. Minutos depois. Elizabeth nunca vira traje tão belo. por isso ocupou-se em se fazer bela e deixar de lado pensamentos mais obscuros. mas um acordo secreto de Romances em Ebook . Com um sorriso. O coração de Elizabeth se contraiu diante da generosidade do futuro marido diante de um casamento de conveniência. roupas intimas de seda. Mas era um dia importante em sua vida. penteados com esmero e presos com uma fita. concluiu. Naquele instante uma suave batida à porta se fez ouvir. As caixas menores traziam um colar de pérolas grandes e lustrosas que combinava com perfeição com o traje. O primeiro continha um par de sapatos delicados confeccionados em couro também creme que combinavam perfeitamente com o vestido. Elizabeth se ergueu da cadeira que ocupava de fronte do toucador. As mangas. uma bolsinha perolada.

Ian retirou o manto que cobria os ombros frágeis sem nada dizer.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) cumplicidade e amor eterno. Os minutos seguintes transcorreram como em um conto de fadas. Ian estava parado a seu lado. seguindo os mesmos procedimentos. Os padrinhos se alinharam no altar e o sacerdote se apresentou como reverendo Jessop. além de mim mesma — retrucou Elizabeth. Imaginava o que o religioso pensaria se soubesse que ela estava casando com um vampiro.. está esplendorosa nesse vestido. — O noivo não deveria ver a noiva antes do casamento.. sorrindo com ternura. não precisava. — As pérolas. que não necessitava de palavras ou atos formais para ser selado. não sei o que dizer.. — Obrigada pelos presentes gentis — murmurou ela. Elizabeth sorriu..Susan Squires . Por fim. Elizabeth não conseguia se focar nas palavras. — Então devo dizer que é a única a achar isso. — Querida.. chegou hoje à cidade. irmão dele. aceitando a oferta e pousando o braço no do major vestido em trajes oficiais. O que está fazendo? — E voltando-se para a amiga. Ela ergueu o olhar para fitá-lo e encontrou duas poças azuis nas quais poderia mergulhar e se perder para sempre.. Elizabeth estendeu a mão enluvada e a partir daquele momento os eventos se sucederam como que em câmera lenta. um casal que Elizabeth desconhecia e o clérigo se encontravam reunidos em um semicírculo próximo ao altar. — Srta. — Não sabe como sou grata por sua assistência! O major Ware. — Não se preocupe com isso. e todos se voltaram quando a majestosa porta de entrada da igreja se abriu. Rochewell. Quando entraram pelos portões da igreja. acompanhado da esposa e terá prazer em desempenhar tal papel. mas respondia quando era solicitada. Ware se precipitou em sua direção. tomando o braço de Ian. Emma se adiantou. Estou sendo compensado pela visão delas na senhorita. ele se inclinou e aqueles maravilhosos Romances em Ebook . acharia presunçoso de minha parte se lhe pedisse a honra de acompanhá-la até o altar? — E quem será o padrinho de Ian? — O visconde.

Não era uma moça tola. Ela se voltou para deparar com a cunhada de Ian sentada a seu lado. porém Ian já conversava com outra pessoa. erguendo a taça em um brinde. — Fiquei tão feliz por ter podido comparecer ao casamento. Deveria uma criança suportar as terríveis consequências de sua atração por um vampiro? Antes que pudesse responder àquela pergunta. — Talvez o casamento lhe faça bem. pois em casamentos daquele tipo não haveriam de dormir juntos. — Ele é de fato muito generoso. compostos de pato e perdizes. Viemos para agradecer a Ian pela generosidade que teve para conosco e nossos filhos. alguém a tocou no braço. não haveria do que se preocupar. Os deliciosos pratos. O reverendo os declarou marido e mulher e se seguiram os cumprimentos efusivos. Contou-nos que foi capturado e feito escravo. Se Ian pretendesse exercer seus direitos de marido. Uma onda de calor assolou seu corpo. que retribuiu o sorriso.. Romances em Ebook . dúvidas sobre a noite de núpcias preencheram sua mente. Pudemos apenas imaginar os horrores por que passou — concluiu a mulher.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) lábios carnudos roçaram os dela pela segunda vez.. não conseguiram despertar o apetite de Elizabeth. fazendo-a sentir-se feminina em toda a sua essência. O pequeno grupo que se encontrava na igreja jantou em um salão privado do Restaurante Rules. Ao menos não no início. — Nossa carruagem nos espera — sussurrou Ian. pousou a mão no braço musculoso e. — Vieram especialmente para a cerimônia? Lady Stanbridge sorriu. envergonhada. deixando escapar um profundo suspiro e fitando Ian. O nome a atingiu como um raio e Elizabeth ergueu o olhar para fitá-lo. Bem.Susan Squires . Esse homem merece ser feliz. — Sra. já o vira desnudo e estava ciente do quanto a atraía aquele corpo vigoroso. — Espero que sim. Elizabeth anuiu. não poderia arriscar uma gravidez. Rufford. que continuava imersa em pensamentos. oferecendo-lhe o braço num gesto quase tímido. Meu cunhado mudou muito depois do que aconteceu com ele. Tomada de assalto. gentis e suaves. — Não foi sempre assim. de imediato. Sabia das relações entre homens e mulheres. Elizabeth sorriu. Além disso. — Não exatamente.

surpresa. incitando a todos a acompanhá-lo. — Vá exibir seu troféu. fornecer qualquer outra explicação. solicitou que ele dançasse com Emma e saiu à procura da condessa de Lente. sem. Pensando assim. o espectro de uma criança que necessitava de sangue humano em vez de leite materno não lhe saía da mente. caminhou. exatamente como desejava. fitando-a. você é um felizardo! — bradavam outros.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Naquele instante. evasiva. Ali estava a única pessoa que por certo poderia confirmar ou refutar a possibilidade de ela conceber um vampiro. Ian se ergueu. — Viva o feliz casal! — gritavam alguns. — Milady.. até ela. — Não poderia esperar nada melhor. Após entregarem seus agasalhos. Beatrix — elogiou Ian. A certa altura. conduzindo-os através da multidão. Porém. Elizabeth se descobriu recebendo cumprimentos efusivos e congratulações das mesmas pessoas que antes a fitavam com desdém. — A condessa girou. o mundo está aos pés de sua esposa. Ian a cobria de atenções. Havia reparado que Emma e lady Stanbridge estavam vestidas para um baile. decidida. Os gritos dos homens e o olhar de cobiça das mulheres tomaram Elizabeth de assalto.Susan Squires . beijando a face da noiva. trajando um elegante vestido azul. — Posso lhe falar em particular? Romances em Ebook . Muitas pessoas a questionavam sobre a ausência da tia. ao que respondia. Dançou com o marido durante toda a noite. —Bem—disse a condessa. Esta noite. deslizando o olhar pelo salão. — Rufford. Toda a nata da sociedade londrina estava ali. — Os convidados de honra! — disse. seu destino se tornou claro. mas não ouvira comentários na sociedade londrina sobre um evento na residência da condessa. sem muitas justificativas e sem mencionar que se tratava de uma prima em segundo grau. O criado anunciou a presença dos noivos e uma salva de aplausos explodiu no salão. Porém. quando Elizabeth se aproximou da fileira de carruagens do número quarenta e seis da Berkeley Square.. fazendo-a imaginar se exigiria seus direitos maritais. Elizabeth e Ian subiram os degraus que levavam ao primeiro andar. A condessa emergiu da multidão. no entanto.

— Como a criança-vampiro? — Elizabeth estacou. Elizabeth sentiu-se aliviada. — Disse a Ian que deveria superar Asharti. O sangue é vida. Não o culpe. mas apenas se a mãe for da mesma espécie. Entre um humano e um de nossa espécie pode nascer uma criança-vampiro. guiando-a para uma sacada onde havia um conjunto de confortáveis sofás de dois lugares. entendi que da mesma espécie. minha querida — concordou Beatrix.Susan Squires . Percebe a diferença entre o que era quando foi um simples humano e o que é agora. porque o bebê se desenvolve com o sangue da mãe. — O que quer saber? — Quero saber sobre filhos. — Bem. sentando-se. Rufford sabe disso. E também por causa de seu perfume. Ela o feriu de várias maneiras. — Claro. que por certo tem conhecimento. — Sim. por exemplo. — É um desafio. — O Companheiro fica inativo até que eles atinjam a puberdade. Elizabeth mordiscou o lábio inferior. mas havia algo mais que desejava saber. Mas precisam ser alimentados e devemos ajudá-los a conseguir o sangue. poderá ter filhos. E uma opção dos pais incutir-lhes valores apropriados sobre o modo como vão obtê-lo. — O que devo fazer? Romances em Ebook . Espero que sua expedição para a África o ajude a escapar da influência daquela mulher. Talvez você tenha um papel importante nisso. Ele é um hospedeiro novato do Companheiro. curiosa. temendo demonstrar o horror que por certo a condessa não partilhava. porém gratificante. A compreensão atingiu a condessa de imediato. Não podem utilizar o poder. — O que deseja? — indagou a condessa. Elizabeth a fitou com expressão séria. Como poderia perguntar o que queria saber? Só havia uma forma. — Quero que me esclareça algo. — E por que acha isso? — inquiriu a condessa.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Beatrix inclinou a cabeça para o lado. — E voltando com um sorriso luminoso. Concluí no momento em que a vi perguntar àquela jovem o motivo pelo qual estava usando um lenço no pescoço. — Ele não me contou nada sobre a senhora.

Nem mesmo ele esperara tal transformação. Espero de todo o coração que tenham sucesso. caminhando em sua direção. — Venha comigo — ordenou ela. Porém. — E erguendo-se. não importava a que custo. — Acabei de me ver em uma situação embaraçosa. guiando-o para a sacada e pedindo que Ian fechasse a porta atrás deles. inteligente e extremamente gentil. Por que está se incomodando com essa questão? — Porque sua esposa me questionou sobre a questão. A silhueta generosa dos seios no vestido a sensação da estrutura delicada em seus braços enquanto valsavam o fizeram ansiar por consumar o casamento. De imediato. nunca daria motivos para que se arrependesse. Romances em Ebook . Como recém-casado deve saber que não é possível passar sua condição à prole. voltando-se para observar a noite londrina pela janela.? — Como disse. Sua esposa! Ainda estranhava o fato de Elizabeth tê-lo aceitado. Nunca a obrigaria a aceitar a intimidade física entre ambos. Ian ergueu o sobrolho. tinha de resistir à tentação de hipnotizá-la para ceder a seus desejos. Ian procurou a esposa pelo salão. a idéias de Elizabeth concebendo seus filhos preencheu-lhe a mente. — Gosto dele e sinto muito pelo fardo que lhe estamos impondo. — Mas como. — Como assim? — Sua esposa é amável. Não foi culpa dela.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Ter coragem. Ian nunca considerara aquela questão. Saberá quando chegar a hora. faria com que ela voltasse em segurança a Gibraltar. mas o impacto que Elizabeth causara na noite do casamento o havia deixado em profundo êxtase. mesmo sabendo de sua condição. Se fosse preciso a protegeria com seu próprio sangue e jamais permitiria que Elizabeth se infectasse com ele. Porém. Beatrix surgiu de uma das sacadas.. ela é inteligente e concluiu por si mesma que sou de sua espécie — explicou Beatrix. — Não há risco de isso acontecer. Nunca agiria como Asharti. A beleza exótica sempre estivera latente naquela mulher. Uma vez que chegassem a Kivala. antes de confrontar Asharti. majestosa. De repente. Necessitaria de antolhos para evitar os efeitos que Elizabeth produzia nele.. Apenas se o sangue dela contivesse o Companheiro é que produziria um filho vampiro.Susan Squires .

e agora ele se manifestava à sua frente. de costas para o aposento. E um homem experiente. Beatrix sorriu divertida. Para sua irritação. O amplo aposento decorado em vários tons de azul. Se não consumassem o casamento naquela noite. A tensão entre ambos era quase palpável. — Dormirei nesta poltrona — informou ele. quando os noivos se recolheram sob outra salva de aplausos. antecipara como seria aquele momento. Ian já havia comunicado sua escolha. seja cuidadoso. de qualquer forma aconselho-o a ir com calma com ela. que se encontrava em frente à lareira. Dormiria na poltrona. Na realidade. enquanto retirava o cordão de pérolas do pescoço. porém anuiu com um gesto de cabeça. Em seguida. — O quarto de vestir fica depois daquela porta — apontou na direção oposta à dele. silente. Sobre a cama estavam dispostos um pijama masculino e uma fina camisola de seda. Os rumores dão conta de que era um mulherengo. — Acho que deve deixar a natureza tomar seu curso. — Bem. Ian voltou-se para a esposa. — Não acredite em tudo que falam de mim. encaminhou-se à cama e ergueu a diáfana camisola. quebrando o silêncio. a tensão entre ambos cresceria a tal ponto que formaria um abismo entre eles. A condessa olhou-o com malícia. Nos últimos dois dias. bem como uma bandeja de guloseimas. — Acordamos um casamento de conveniência. No quarto de vestir havia um baú cheio até a metade com roupas femininas que o marido havia comprado em tons ricos que combinavam com perfeição com sua pele. pensou Elizabeth. Sabe como fazer isso. ansiava por Romances em Ebook . Qual teria sido a expressão da esposa quando questionara Beatrix? De repugnância? Mas não podia perguntar nada sobre aquilo. Elizabeth acabou por descobrir que a condessa tomara providências para que a noite de núpcias do casal fosse passada em sua melhor suite de hóspedes. ainda repleto de mistérios. A festa ainda efervescia.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Mil perguntas vieram a mente de Ian. Mas lembre-se. Mas aquele não era o único motivo. para onde foram levados possuía uma lareira e candelabros com velas acesas em vários pontos.Susan Squires . Conhaque e vinho Madeira descansavam no aparador. Elizabeth fitou-o.

mas não se sentiria completa enquanto não o desvendasse. sentiu o corpo inteiro se retesar diante das memórias e rapidamente voltou a abotoar a camisa. Removeu o traje com dificuldade e depois fez o mesmo com a gravata e os sapatos. Elizabeth retornou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) fazer amor com ele e realizar parte de seus sonhos românticos. — Oh. Enquanto isso. Romances em Ebook . corando. — Ou. Ian sentou-se desajeitado na poltrona onde pretendia dormir. — Vou pegar um travesseiro — preveniu-a ele. A visão do corpo feminino tão próximo foi o suficiente para que ele entendesse que seria muito difícil manter-se imune ao desejo que já começava a consumi-lo. Não poderia dormir de sobretudo. Esperava que pudéssemos discutir o assunto mais detalhadamente. imaginando o quanto das vestes seria apropriado retirar. servindo-se de outra dose. Isso seria o suficiente. forçando-se a desviar o olhar dos seios que se evidenciavam através do tecido fino. Observou o próprio vulto no espelho.. Deslizou a fina vestimenta de seda pelo pescoço e dispensou a criada. De pronto. — Precisa mesmo dormir na poltrona? — indagou ela.. Trazia os cabelos soltos em cascata sobre os ombros. dirigindo-se à cama. fitando-o com um brilho sensual no olhar. Elizabeth meneou a cabeça em negativa. mas ela permaneceu parada onde estava. Porém. não estava certa disso. — Se quiser posso apagar as velas ou prefere fazê-lo? — Gosto da luz. O ato sexual ainda era um mistério para ela. Ian caminhava pelo aposento. O tecido suave roçou-lhe os mamilos que de pronto intumesceram. — Nosso acordo não incluiu nenhuma obrigação conjugal de sua parte. trajando a camisola branca que ele havia escolhido. Deixe-as acesas por mais um pouco. deixando apenas a camisa e a calça. — Como quiser — concordou Ian.Susan Squires . conhaque? — completou. parecendo querer dizer algo. e percebeu que a camisa semi-aber-ta deixava à amostra as cicatrizes. quando girou para voltar à poltrona deparou com Elizabeth parada à sua frente. Ele sorveu de um só gole o resto do conhaque e se dirigiu para a garrafa. Estava esplendorosa! — Deseja um pouco de vinho Madeira? — indagou ele. como se assim* pudesse afastar qualquer amargura passada.

O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Claro. ao roçar os mamilos rijos contra aquele peito musculoso. — O que gostaria de discutir? — inquiriu. sobrepondo todas as demais cicatrizes. ditas com tamanha sinceridade: "Eu te amo". embora não soubesse dizer se a faísca. — Sendo assim. — Acho que vamos ficar casados por muito tempo e já que fiz os votos na igreja seria justo que eu conhecesse os prazeres da união carnal do casamento. desejou que aquelas palavras marcassem seu corpo tão ferido. mas não contara com a possibilidade de ela sugerir que o fizesse. Elizabeth ergueu o rosto. que o incendiaria por completo. Ian sorriu. Naquele momento. — Não incluí a fidelidade em suas obrigações — afirmou ele. — Elizabeth — repetiu e o nome soou como a própria respiração. partiria do coração ou do membro intumescido. Atônito. Romances em Ebook . Como poderia negar aquele pedido se estava queimando por dentro. oferecendo os lábios entreabertos. Com extrema alegria soube que ele também a desejava! Sentia uma sensação prazerosa. Elizabeth? — Elizabeth — corrigiu ela. Oh. No mesmo instante. Ao mesmo tempo. Ian deixou cair o travesseiro para tomá-la nos braços e estreitar a distância entre eles. embora tal possibilidade não o agradasse. Foi então que pensou que explodiria em êxtase. havia pronunciado palavras que ele jamais ouvira. quando ela delirava em febre. Elizabeth sentiu a urgência de Ian crescer e a rigidez da virilidade comprimida contra seu ventre. — Anuiu Ian com um gesto de cabeça. — Quer dizer que poderia arranjar amantes? — Sim. Ao percebê-la tão entregue. recordou-se que no navio. A fragrância almiscarada era igualmente familiar e excitante. colocando o travesseiro estrategicamente entre eles. meus amantes iriam esperar experiência de minha parte. Deus! Havia jurado nunca se aproveitar dela. Para acabar com qualquer dúvida que ainda pudesse restar. para que a ereção colossal não fosse notada. Agora a via se oferecendo com uma sensualidade tão avassaladora quanto inocente. sentiu a leveza do corpo feminino se encaixando no seu. Como poderei obtê-la se não for com você? — Deseja incluir uma relação sexual em nosso acordo.Susan Squires .

Elizabeth estava ciente da umidade crescente entre suas pernas. enquanto ela desatava o nó da fita que prendia os cabelos longos do marido. Foi então que deslizou um braço sob o pescoço delicado e a ergueu alguns centímetros. que ainda titubeava em entrar no ritmo da nova melodia. Como amava deslizar os dedos pela textura sedosa! Tomada de ousadia. continuou a despi-lo até que o torso musculoso ficasse livre da camisa. enquanto se inclinava para beijá-la. mas em vez de cobri-la com seu peso. o que conferia uma penumbra aconchegante ao aposento. deslizou a camisola pela cabeça de Elizabeth. entreabriu as pernas. Ao deparar-se com a esplendorosa nudez. As respirações ofegantes entraram em sintonia no mais puro deleite de antecipação para a completude do ato de amor. percebeu o embaraço e ergueu seus lábios para encontrar os dele. Ian a deitou sobre os travesseiros e ela. soltou-a e se afastou para apagar as velas espalhadas pelo quarto. E a parte íntima. Um sorriso luminoso se estampou no rosto de traços fortes. enquanto as mãos pequenas alcançavam os botões das calças. deslizou as mãos pelas costas largas e sentiu os músculos tencionaram conforme seus dedos executavam carícias em pequenos círculos. roçando por inteiro no corpo másculo. deixando-a nua no quarto aquecido. — Vai desfrutar de muito mais — sussurrou. Ainda com receio que ele se esquivasse. quando Romances em Ebook . Nunca em sua vida. Ele a tomou pela mão. Ian se sentira tão essencialmente pleno em sua masculinidade. num gesto nervoso. apresentava-se naquele momento em completa ereção. enquanto falava. e deu-se início uma dança de uma língua experiente. O beijo era profundo e sensual. ele deitou-se a seu lado. E então. Elizabeth lembrava-se de que o corpo de Ian beirava a perfeição. puxando-a para a cama. deixando acesas apenas as que estavam nas mesas próximas à cama. Antes quero apresentá-la aos prazeres das carícias preliminares. — Afinal é minha obrigação como marido. De pronto. Porém.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian tomou a boca carnuda. — Teremos tempo suficiente para isso mais tarde. Ainda com a respiração acelerada. continuou estático. Ian sentiu faltar o ar.Susan Squires . superando qualquer escultura que vira em suas expedições. Elizabeth deixou-se guiar pelo desejo ao mover-se languidamente. A timidez de Elizabeth ia aos poucos sendo sobrepujada pelo calor dos beijos ousados. Em seguida. ensinando os passos rumo ao prazer à outra. que no navio observara inativa.

— E riu ante o olhar surpreso do marido. Romances em Ebook . executando movimentos de vaivém por toda a extensão. aproveitando a umidade presente para lubrificar toda a extensão da ereção. colo e mais abaixo até tomar um dos mamilos. Quando abriu os olhos. sugando-os com avidez e arrancando-lhe gemidos de prazer. repousando o rosto no peito musculoso. deixando-a frustrada. em um gesto instintivo. Enquanto arqueava o corpo em direção à boca que executava aquela doce viagem. tocando-lhe os testículos e os sentiu contrair. escorregou a mão pelo abdome definido e mais abaixo até lhe envolver o membro excitado. acariciando a penugem sedosa que o cobria. Em seguida.Susan Squires . Ian parou por torturantes segundos. Ian deslizou os lábios quentes por seu pescoço. As mãos grandes tornaram-se do tamanho do monte-de-vênus.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) ela imaginou que já havia sentido o máximo que os carinhos poderiam proporcionar. na viagem de volta à calmaria do quarto. Quando a sentiu pronta. Tudo que desejava era dar a ele o mesmo prazer que desfrutara. Mas antes que reclamasse. Elizabeth continuou a exploração. E então. concentrou-se com precisão no ponto mais sensível até que ela ofegasse com o corpo tremendo em seguidos espasmos do mais puro prazer. — Tem ótimos instintos — elogiou Ian. que pareciam estar por todos os lugares. fazendo-a navegar rumo ao clímax. Ele parecia controlá-la apenas com a boca. — Presumo que agora seja sua vez. Daquela forma. — O que devo fazer para lhe dar o máximo de prazer e pelo maior espaço de tempo? — indagou. Elizabeth nunca imaginara que uma parte de sua anatomia pudesse suscitar sensações tão inebriantes. dispensando o mesmo tratamento dado ao primeiro. Os dedos experientes começaram a executar movimentos prévios. O estímulo dos lábios quentes nos mamilos se propagava por todo seu corpo até que ela sentiu que as comportas das sensações represadas se abrissem. Ian se veria estimulado a cumprir sua obrigação de marido por muitas outras vezes. até finalmente se perderem no interior da feminilidade de Elizabeth. ele recomeçou com mais força e rapidez e a sensação a atingiu com intensidade redobrada. voltou a atenção ao outro. deparou-se com o marido observando-a. mãos fortes passearam por seu corpo até alcançar a fenda úmida e pulsante entre suas pernas.

e ele concluiu que havia chegado o momento. Em seguida. Sua recusa em fazer amor com outra mulher durante todo aquele tempo era pelo temor de não conseguir completar o ato. Aquela vampira soberana e suas perversões sempre se interporiam em seu caminho. tão desejosa de obter e dar prazer. Elizabeth mordiscou os lábios carnudos e depois o pescoço. antes que o fizesse. De alguma forma.. as perversões de Asharti passaram aceleradas na mente de Ian. Ela arqueou o corpo e ele a penetrou com um movimento preciso. Elizabeth ofegou. — Não tema — sussurrou na orelha delicada. — gemeu ela. A carícia que os dedos pequenos executavam em seu membro roubava o ar de seus pulmões. Muito diferente daquela que o tornara tão submisso. Até que as lembranças o engolfaram. — O que foi que eu fiz? — Nada. Aquilo não era uma ordem e sim um pedido de uma mulher que o amava. enquanto levava as mãos às têmporas. — Mais fundo. as mãos pequenas se espalmaram em suas nádegas firmes.. puxando-o de volta. Ian posicionou-se entre as coxas macias e investiu contra a barreira delicada. atônito a ereção ceder. Jamais conhecera uma mulher tão aberta às descobertas sexuais. observou. Ela vencera mais uma vez. Como em um filme. com o peso do próprio corpo apoiado nos cotovelos. Romances em Ebook . Tinha de prepará-la da melhor forma possível para que o ato não se tornasse doloroso. — O que foi? — A voz de Elizabeth tinha um tom preocupado. Talvez o prazer não mais fosse possível. imaginando como poderia se controlar quando a penetrasse. Apenas não podia se esquecer que Elizabeth era virgem. Os quadris femininos começaram a se mover em um gesto inconsciente contra suas coxas. Ian a conduziu para o ritmo de uma dança conhecida há milênios. enquanto ela abria os joelhos em um gesto espontâneo e convidativo. fazendo-o rolar para o lado.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian permanecia deitado ao lado da esposa. ainda era seu escravo. suscitando as terríveis lembranças do passado. mas. inexoráveis. Elizabeth o beijou no pescoço onde estavam as cicatrizes deixadas por Asharti. o que fez retroceder um pouco. Beijou-a com toda a ternura de que era capaz.Susan Squires . De modo lento e delicado. Não foi culpa sua e sim minha.

Uma criada a acordou nas primeiras horas da manhã com uma xícara de chocolate e a notícia de que uma carruagem a aguardava para levá-la a Portsmouth. lavou-se e vestiu o costume verde de viagem que a criada havia separado. pegou o pijama e desapareceu pela porta que levava ao quarto de vestir. Rufford. o oficial fez uma mesura. Em meio ao silêncio da noite. concluiu que a mensagem subliminar era de que não voltaria a fazer amor com ela. Mas como? Talvez abrindo mão daquele aspecto do casamento. Beatrix havia dito que Asharti o ferira de várias maneiras e que só ela poderia ajudá-lo.. embora tivesse sido maravilhoso fazer amor com o marido. E como obviamente aquela não era sua condição. E sem lhe dar tempo para argumentação. — O resultado seria o mesmo — murmurou o marido. Não havia tempo de se despedir da condessa. Ian abriu os olhos. Elizabeth engoliu apressada a bebida quente. imaginando qual a melhor atitude a tomar em relação ao que acontecera. Tivera a prova física do desejo dele. pois a anfitriã não havia acordado. — Eu falhei. Em seguida. curiosa. lamentando o fato de não ter compartilhado a primeira refeição do dia em companhia do marido. Elizabeth amargou uma longa noite de insônia. apressada. falhei.. — Sra. Ian se autodenominara eunuco. puxando o lençol até cobrir os seios. Ao perceber sua presença. As cicatrizes provavam aquela teoria. caminhando de um lado para o outro. desceu apressada a escada. deslizou para fora da cama. recordou o que Ian insinuara sobre a experiência que teve com a vampira soberana.Susan Squires .. — Eu. — Desculpe-me. podemos? — Claro — Elizabeth concordou. Ficara claro para ela que a mulher vampiro o forçara a executar coisas que ele mesmo considerara pervertidos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Elizabeth sentou-se na cama. Diga-me de que forma. E não por que não a desejava. — Poderíamos tentar outra vez — sugeriu Elizabeth. Entrou.. fitando-a com amargura. Temo que tenha casado com um eunuco. na sala de jantar para tomar um gole de chá e encontrou o major Ware. Romances em Ebook .

Rufford sabe o que o espera. —Encontrarão suas cabines logo à frente. os marinheiros foram muito corteses. Decidida. não respondendo à pergunta de Elizabeth. Olhou para o marido. Aquele era exatamente o tempo que poderiam ficar juntos em algum quarto escuro se o marido assim o desejasse. Passou o resto do dia na cabine. saiu do quarto e o seguiu. Ao entardecer. foram escoltados até a popa do barco. antes do nascer do sol. desfazendo as malas. não é? — Confio em sua coragem. Os criados se esforçaram para garantir o maior conforto possível. Após receberem os cumprimentos atenciosos do jovem comandante Stilton.Susan Squires . — O major lançou um olhar preocupado. Foram levados até ao navio por uma pequena embarcação. — Ele o contatou? Ontem à noite? — Mande-nos avisar onde estará — continuou o oficial. mas a viagem até a hospedaria foi solitária e maçante. mas ao que parecia ele não compartilhava de sua vontade. Ian seguiria depois do entardecer. Desta vez navegariam em um veleiro a serviço de Sua Majestade.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Rufford incumbiu a mim e ao irmão de fazermos valer as providências que tomou para ampará-la no caso de a missão não ser satisfatória. mas ele parecia ainda mais fechado que antes. próxima à minha. Quando chegou à carruagem. e ainda assim está disposto a enfrentar. escutou os passos de Ian em direção ao convés. Agora devo partir. Romances em Ebook . Não entendo por que ele insiste em levá-la. Ela prontamente justificou a ausência do marido. — Pois eu o ajudarei a enfrentar — afirmou Elizabeth. mas Elizabeth só conseguia se focar no fato de serem duas cabines. — Sem mim a missão não seria possível. se me der licença. pesquisando os pergaminhos para descobrir qual seria de maior utilidade. Elizabeth se viu sozinha em sua cabine. ela constatou que a expressão de seu rosto não suavizara. arranjado pelos amigos do major Ware em Whitehall. Quando Ian chegou. — O senhor não confia nele. Os dois homens iniciaram uma conversa sobre os ventos e o tempo. constatou que viajaria sozinha. decidida. Quando por fim se dirigiu ao convés. — E iremos encontrá-la para garantir seu retorno seguro. explicando que ele possuía intolerância ao sol.

Susan Squires . tentando não parecer suplicante. A tristeza que viu refletida naqueles olhos claros era ainda maior do que a de antes. meneando a cabeça... — Estou pedindo muito? — Ao contrário.. pousando uma das mãos no braço forte. — Quando éramos apenas amigos. — Por certo podemos voltar no tempo— começou Elizabeth. Sim.. Haasi Ghemiles. — Lembra-se por quanto tempo viajou em direção a noroeste? Ele mordiscou o lábio em apreensão. Ambos examinaram as localizações próximas e as distâncias entre elas por mais algum tempo. Precisarei de sua ajuda para determinar a possível localização de Kivala. Ian se inclinou para ver mais de perto. Haasi Zegdou. — Não estava em boas condições físicas. Deve ser por isso que é tão difícil. — Muito bem. — Haasi Fokra. — É a única faixa entre El Golea e Marrakesh. Muito pouco. Ian voltou-se para encará-la. — Sim. — A crista da Terra deve ser nas montanhas Atlas — afirmou ela. — Espere! — interrompeu Ian. —Desejava que fosse menos. — Interrompa-me se algum destes nomes lhe for familiar. Haasi Fokra.. Este será nosso primeiro destino. — Disse que encontrou um oásis nas cercanias de Kivala. De acordo com Fedeyah a algumas milhas... — Espero que a encontremos. — E deixando escapar um suspiro: — Devem se estender por milhas. Elizabeth puxou um dos mapas para perto de si. — Semanas — disse. Os dois consultaram os mapas estendidos sobre a mesa de jantar do comandante. Podemos até mesmo encontrar algum tempo para jogar xadrez. — Então os arenitos estão nesta diagonal. pontuando a rota que fariam. Ian anuiu.. Ela analisou a topografia descrita no mapa. Romances em Ebook . Haasi Chafaia. eu me recordo.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — O comandante prevê dez dias até Casablanca — informou ela.

Em Casablanca não podia fazer outra coisa senão admirar a esposa e a competência com que aproveitava a luz do dia para resgatar os contatos do pai e tomar providências para a viagem. surpreso. Aquela altura. ela escancarou a porta. Sabiam que tinham de agir com discrição naquele território que estava sob o domínio de berberes. Além de estar ligada a um monstro ainda não podia ter seus desejos satisfeitos. Para o diabo com Asharti! Fora a servidão que ela impusera que o tinha arruinado! A insolência daquela mulher era o que mais o irritava. Por mais de uma vez tivera de se afastar dela para disfarçar a evidente ereção. controlados por Asharti. O fato de a esposa ter concordado que fossem apenas amigos o ferira ainda mais. A presença de Elizabeth era perturbadora. dez dias depois que chegaram a Casablanca. Ela nunca poderia amar um homem assim. oleando o mecanismo das duas pistolas que havia adquirido. permitindo a entrada de um criado que carregava um longo tubo embrulhado e um grande pacote. As dúvidas acossavam a mente já tão atordoada de Ian. — Tenho novidades — anunciou ela. Na verdade. Os dias em Casablanca passavam em um frenesi.Susan Squires . — A caravana nos aguarda nas cercanias da cidade. a fragrância almiscarada os denunciara. tão logo providenciassem as provisões. Podemos partir. Planejavam dirigir-se às montanhas em uma caravana puxada por camelos. Seu pior tormento era saber que havia falhado com Elizabeth. Em seu íntimo desejava que ela o amasse. Desejava-a mais que nunca. Uma mulher que desejava tanto da vida não devia ser privada de seu aspecto mais elementar. — Esta noite? — indagou. Falava o idioma árabe e os dialetos dos berberes.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Uma semana depois. desembarcaram em Casablanca. Ian reconhecera dois vampiros por ela transformados. Ian passava as noites treinando o controle da mente e de materializar-se em lugares diferentes. Observar o contorno dos seios fartos era uma tortura e qualquer contato físico tinha consequências desastrosas em seu corpo. Subjugando a tudo e a todos sem consciência ou compaixão. Romances em Ebook . Asharti já se servira do sangue do Ancião por várias vezes. Como convenceria o poderoso vampiro a lhe dar o próprio sangue? Elizabeth parecia ter fé ilimitada que seriam bem sucedidos. — Se assim desejar — dizendo isso. Alimentava-se com mais frequência e em pequenas porções. Decidiu se misturar à multidão e tomar banho duas vezes por dia para evitar o cheiro tão característico. Era uma perfeita combinação de inteligência e praticidade.

fitando aqueles olhos luminosos. Mas lembre-se. Entendeu? — Sim. A lâmina prateada brilhava à luz das velas. Ian sorriu. Ian rasgou as embalagens para encontrar vários albornozes. — Pensou em tudo. Elizabeth girou nos calcanhares para sair. revestida de lã. mas foi detida pelo braço forte. Pistolas só disparam dois tiros. O barulho agudo de metal contra metal encheu o aposento quando Ian retirou a espada da bainha. De pronto a dor prazerosa em seu ventre se fez sentir. E lá estava ele. Necessita de algo mais substancial para se defender quando elas estiverem vazias. o frio emanava dos embrulhos de pano pressionados no caixote. — Excelente! — E voltando a atenção ao tubo comprido. Dentro. Desembrulhou um e o gelo caiu no chão revelando uma garrafa de vinho tinto repleta de sangue humano. Você é maravilhosa. Era a primeira vez que a tocava desde Londres. — Por certo descobrirá centenas de coisas que esqueci. Romances em Ebook . conseguindo sorrir. — Bobagem. então — convidou ele com um sorriso encantador nos lábios. não? — A caravana. — Acho que será mais útil do que o cutelo do comandante — observou ela. seguirei sozinho a Alger.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Depois de colocá-los no chão. Mas antes temos de começar a viagem. Abra o engradado. Elizabeth havia conseguido que os nativos o doassem em troca de dinheiro. —Muito obrigado—tornou a agradecer. — Para o trajeto nas montanhas — explicou ela. o homem arrastou um caixote para dentro do aposento. Faço isso desde os meus quinze anos. — Tão logo traduza as transcrições nas placas das portas. Ian obedeceu sem precisar de nenhum instrumento. botas e uma jaqueta de couro comprida. — Obrigado. A força que possuía ainda o surpreendia. retirou o invólucro e descobriu um sabre de metal do qual sobressaía um cabo de espada finamente forjado. voltará imediatamente a Casablanca em companhia dos carregadores.Susan Squires . Caso consiga o sangue do Ancião.

— Por Allah e Asharti! — bradou ele. — Os dentes do agressor brilhavam no escuro. Em estado de choque.Susan Squires . não? O homem tremia de raiva. — Ian sentiu o sangue ferver em suas veias. O agressor sacudiu a cabeça. abrindo caminho entre a multidão. trajando vestimentas típicas se acotovelava em busca de espaço. — Não pertence ao exército de Asharti. — É uma fraca imitação dela.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Eles mergulharam na noite em meio à multidão que se espremia nas ruas. um homem surgiu de uma ruela. Aquele tolo não desistiria nunca. Companheiro venha até a mim. Asharti não o alimentou com seu sangue. Ian permaneceu parado a observar a poça de sangue que se formara no chão arenoso. Estava certo de que seus olhos haviam se tornado vermelhos. — Seu bastardo! — vociferou o homem em inglês. Ele girou. investindo para Ian outra vez. segurando o berbere pelo pescoço e torcendo-o até que a cabeça se despregasse do corpo. — Quero apenas deixar sua cidade em paz — explicou Ian. Seu adversário era um berbere. agarrando-se ao braço na tentativa de deslocá-lo da junta. Dê-me força e vida. estendeu as mãos. Os olhos do berbere se tornaram vermelhos. O berbere voltou com força total. Uma variedade de raças. que o empurrou para longe. De repente. E o sangue que pulsava nas veias de Ian lhe sussurrou que aquela criatura denunciaria a sua comandante a presença dele na cidade. exalando aquele perigoso perfume almiscarado. — Desista. Ian podia senti-lo convocando o Companheiro e de imediato fez o mesmo. — Mandaram outros para combatê-la sem sucesso. caminhando como um autômato em Romances em Ebook . e empurrou Ian para um canto escuro. investindo a cabeça contra as costelas de Ian. atirando-o contra a parede. Não pode me matar. erguendo-se. — Jure lealdade à soberana ou morra! — urrou o berbere. — Não há paz a não ser que jure lealdade à soberana. Porém. Pensando assim. Ele caiu de joelhos na areia áspera. — Aposto que não foi você a combatê-los — desafiou Ian. Ian ergueu o braço ensanguentado e girou o homem no ar.

A medida que subiam as montanhas. Talvez alguém saiba que estamos aqui. Os ossos quebrados na briga com o vampiro em Casablanca haviam se unido. Ela ergueu o olhar para o marido. Sendo assim. Só pararam de correr quando as casas se tornaram pequenas. Mas seu tempo de ação chegaria. Ian baixou o olhar ao próprio corpo. puxando-a pela mão e a afastando apressado dali. A noite de núpcias a havia mostrado os prazeres sensuais. reparando nas roupas ensangüentadas do marido. pois isso só a preocuparia e faria com que ela se sentisse na obrigação de ajudá-lo. que se espraiava por mais de milhares de milhas. antes de desaparecer na multidão. Correu para o lado da esposa.Susan Squires . A roupa se encontrava repleta de respingos de sangue. Ian sentia todo o horror de retornar ao lugar de seus pesadelos. Os dias que passaram em Casablanca haviam sido torturantes para ela.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) direção à entrada da ruela. Elizabeth observou os últimos resquícios de neve derreterem quando alcançaram Zagora. Elizabeth! Ian retomou a razão. — O que aconteceu? — indagou ela. o frio os impedia de prosseguir viagem à noite. — Um vampiro. — Então temos de nos apressar. tinham de seguir durante o dia. horrorizadas. Algumas pessoas o observavam. Capítulo V Perfizeram o trajeto pelas montanhas em um bom espaço de tempo. o Ancião e mesmo Asharti se encontravam em algum lugar adiante no deserto. o que Romances em Ebook . conduzidos por um guia que Elizabeth contratara em Casablanca. Kivala. Sabia que o sangue de que o marido necessitava acabaria em breve. Elizabeth tomara o total controle da expedição. Ele era apenas um passageiro na caravana. Ansiava por tocá-lo. Não contara nada a Elizabeth. atravessando a neve fria e o vento a quase cento e cinquenta metros de altura. com Ian escondido sob a proteção da capa e dos óculos escuros. Precisei matá-lo. Dentro em breve seria por conta dele.

E se não conseguisse traduzir as inscrições das portas que se abriam para o templo? Temia Calhar quando ele mais precisasse. Elizabeth se desculpou e saiu apressada do estabelecimento para levar a notícia a Ian que a aguardava na caravana. o modo como pressionava os lábios carnudos toda vez que estava preocupado. — Então voltou. Porém. fitando a poça de água. Mas estava ciente que não deveria falar sobre o que acontecera. As terríveis lembranças lhe assaltavam a mente. mas sabia que não seria tão fácil conseguir que os residentes da aldeia trocassem sangue por dinheiro como em Casablanca. inglês — o árabe se pronunciou com extremo vagar. movendo-se durante a noite outra vez. Estivera tão ocupada com o marido que não tivera tempo de questionar a própria habilidade em ajudá-lo. Tampouco suscitar qualquer contato físico entre ambos. Elizabeth decidiu comprar mais sangue. tão naturalmente que parecia o estar aguardando. já que o tempo estava bem mais ameno. trocou as calças e botas de viagem por trajes femininos e dirigiu-se a uma taverna com uma saca repleta de dinares. — Mais uma vilania de Asharti! — exclamou um dos homens. Na aldeia de Zagora havia poucas choupanas e alguns cercados de ovelhas e cabras. Atrás dele. a caravana começava a erguer as tendas para descansar. Uma vez na penumbra do interior do estabelecimento. Uma jovem adiantou-se em atendê-la e ao escutar sua proposta e fitar a saca de dinheiro deu um passo atrás com expressão aterrorizada. na qual se banhara antes de ser comprado por Asharti. Ergueu o olhar e como por encanto avistou Fedeyah caminhando em sua direção. Ian estacou.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) tornara a proximidade de Ian uma tentação. Quando alcançaram a poça rasa entre as tamareiras. Apressados. franziu os olhos para se adaptar à falta de luz. dúvidas inexoráveis assolaram Elizabeth. dirigiram-se para leste. Em breve o dia amanheceria. Com a vista já acostumada à parca iluminação. O movimento dos ombros largos sob a capa. tudo a atraía naquele homem.Susan Squires . Romances em Ebook . Decidida. ele não notava o que se passava a seu redor. percebeu que todos os presentes apresentavam as marcas no pescoço. Atingiram Haasi Fokra duas semanas depois da partida apressada de Zagora. levando as mãos ao pescoço. seu rosto parecia um espectro humano de tão magro.

Susan Squires . — Veio para se certificar se estou forte o suficiente para libertá-lo. fora aquele homem que o salvara e o único a tratá-lo como um ser humano. Pode controlar-me por hipnose. e por certo mais poderoso do que um vampiro novato. — Ela pode ser destruída. — Onde ela está agora? — Onde quiser estar. — Já tive oportunidade.. E então que Allah nos guarde. — Ela vai regularmente a Kivala. pensou Ian. — Foi o que pensei. durante o período de escravidão. — Ian sabia que o árabe não a trairia. Ainda não. por que está aqui? — Talvez para ver o fruto de meu trabalho ou vê-lo pela última vez antes que morra. mas não a aproveitei. — Ela sabe disso? — Asharti sabe tudo. Quando soubemos da morte em Casablanca e as histórias em Zagora. — Como ela pode castigá-lo? É um vampiro também. — Por que me deixou a bolsa com seu sangue? — Só Allah poderia dizer. Mas não sei se a morte de Asharti o libertaria. Leva escravos e bebe do sangue do Ancião. Fedeyah deu de ombros. — Se não veio me matar. — Sabe que não vou para Tripoli. — Está muito longe de Tripoli. — Ele fez uma pausa. Além disso. Romances em Ebook . pensou Ian. transformado depois que Asharti tomara uma gota do sangue do Ancião. — Só você pode fazer isso. se o matasse. Fedeyah era idoso.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Sim. Continuará fazendo isso até que se torne tão poderosa quanto ele. ele certamente contaria à sua soberana onde se encontrava. Porém. Beatrix Lisse me contou. sabia disso? — Sim. mas nenhuma delas o agradava. Paguei caro por isso e vou pagar depois deste dia. — Inclusive que não vou matá-lo agora. ela viria à sua procura.. Ian estudou-o por alguns instantes. — O tom de voz de Fedeyah era tristonho. — Mas é ela a soberana. Agora é tarde para voltar atrás. Vivo. — Poderia fugir. O árabe anuiu. Não é lá que combinou de encontrá-la? Havia várias possibilidades. — E ante o olhar inquisitivo do árabe.

Ambos anotaram as coordenadas do sextante e colocaram o cronometro para a posição de vinte e uma horas do dia seguinte. — Sim.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian bateu de leve no ombro de Fedeyah e se afastou. — Entre. Ian Rufford! E se morrermos. — Acha que ela pode nos interceptar antes de chegarmos a Kivala? — Depende de onde ela está e se Fedeyah contará sobre nosso paradeiro. El Kabhir. calcularam a diferença sazonal entre o ponto que estaria na lua cheia do solstício e onde estavam agora. A raiva se dissipou com a mesma velocidade que havia brotado. atando-os com uma fita.. Deveria afastarse. O simples contato de pronto o excitou. Ele virou de costas. não é. sentindo o impacto que ela lhe provocava. Aquela diferença a colocaria exatamente no meio dos picos gêmeos das maiores montanhas em Atlas. Mas por quanto tempo conseguiria se manter ereto? Pensando assim. Em seguida. a crista da Terra. o dia está quase amanhecendo! — gritou ela. engolindo em seco. Elizabeth consultou os pergaminhos e checou a referência mais uma vez à luz da lamparina. Parecia ainda mais feminina de calças e botas do que com vestidos. envergonhado do que fizera.Susan Squires . Elizabeth acenou para ele. Ela sorriu insegura.. Os olhos de Elizabeth faiscaram. Ele a puxou de encontro a seu corpo. enquanto ela caminhava em sua direção. Fedeyah havia desaparecido. voltou-se. O tom irritado o surpreendeu. embora entendesse o temor que o assombrava. — Estamos bem próximos agora— afirmou ela. Ian caminhou a passos largos em direção à tenda. Roçou os lábios na pele macia do rosto delicado. — E fitando-a nos olhos: — Talvez toda esta expedição seja um suicídio. enrolando os pergaminhos. tem razão. Elizabeth questionou-o sobre o homem com quem estava conversando e ele lhe contou toda a história do árabe. mas aquela talvez fosse a última vez em que estariam juntos por bastante tempo e ansiava por sentir os seios fartos pressionados contra seu peito. mas antes de entrar. será porque estamos na busca de uma nova vida e não por um capricho do destino. Romances em Ebook . Ele estendeu a mão para locá-la. Se ao menos pudesse se livrar de Asharti. — Não. desvencilhou-se do abraço.

O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Espero que nossos cálculos tenham sido precisos — disse Ian. Apavorados. O Companheiro parecia cada vez mais Romances em Ebook . Mas aquilo não a protegeria se ele fosse abatido. Um dos agressores desferiu-lhe um golpe no ombro. O pensamento despertou o auxílio imediato do Companheiro. — Não vamos conseguir escapar! — bradou Ian. Tinha de manter aqueles bárbaros longe de Elizabeth. Os pontos se alongavam e avolumavam. tomando o braço da esposa. Que fossem oito! Os momentos que se seguiram pareciam envoltos em névoa. jogando o homem por terra. Os olhos azuis se tornaram vermelhos. mas aquilo não importava. não importava as consequências. Seus atacantes eram berberes. Os quatro condutores remanescentes e o guia tentavam se defender com pequenas espadas sem êxito. Ian percebeu algumas cabeças voarem ao seu redor. Quantos eram? Seis? Ele sorriu. O sangue de Ian começou a formigar. Saqueadores! — Corram! — gritou ele em árabe. Em seguida. Os condutores fizeram o mesmo. enquanto se encaminhavam de volta à caravana.Susan Squires . ao mesmo tempo em que Ian lançava mão da espada que Elizabeth o havia presenteado. Deteve-se a observar. Sentiu uma dor aguda na perna e percebeu que fora atingindo pela lâmina de um dos berberes. e gritavam em triunfo. girou para ver Elizabeth se esconder atrás das dunas. os berberes remanescentes começaram a correr. Ele mirou a cabeça do líder do grupo e atirou. quando mais dois se juntaram ao grupo que naquele momento o rodeava. Já estava amanhecendo quando a visão noturna acurada de Ian avistou um ponto preto aparecer ao longo de uma duna a leste e depois outro. Golpeando para ambos os lados. — Para a ravina! Quando se aproximaram da plantação. mas eles pareciam se avolumar e quatro condutores já haviam sido abatidos. Podia perceber o medo estampado nos olhos de seus oponentes. — Estamos sendo atacados! Elizabeth olhou para o horizonte e fustigou o camelo. Presenciou a cabeça de um dos condutores ser decepada por uma espada curva. Restavam apenas três. Sacou a pistola e atirou atingindo um dos atacantes. Ambos montaram em seus camelos e a caravana prosseguiu pelo deserto. Mudou a espada para a mão esquerda e golpeou mais uma vez. Não podia se furtar em tocá-la. a julgar pelas vestimentas. enquanto a direita estrangulava uma garganta até que encontrasse os ossos. ele desmontou e girou.

Seja sensato. girou de modo abrupto. A mesma escada gigantesca encontrava-se incrustada na rocha com os degraus extremamente altos. recostando-se contra a rocha. podia sentir os ligamentos da coxa se unirem. Caso se concentrasse. A capa estava ensopada de sangue. trazendo consigo os animais. mas ela o interrompeu. — Está ferido? Foi então que ele baixou o olhar ao próprio corpo. Assustado. enquanto a observava juntar os animais com maestria. Romances em Ebook . cambaleante. Aquela mulher possuía uma conexão invejável com a natureza. Elizabeth surgiu das sombras. A mão em seus ombros o despertou para a realidade.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) presente. mas não me escutou. Ian permaneceu parado em meio à areia ensanguentada e aos corpos inertes. E ali! Ergueu-se de pronto e deu alguns passos à frente. Elizabeth! Olhou a seu redor e correu em direção à ravina. — Vão cicatrizar. — Por Deus! Poderia matá-la! — Desculpe — pediu Elizabeth. observando a fenda escura que olhos humanos não seriam capazes de divisar. Vou juntar os animais. — Ian! — Ela se aproximou. Avistá-la foi como se estivesse revivendo a noite em que estivera lá com Asharti: a exaustão e o desespero que o assolavam faziam-no ansiar pela morte. o contrário do que desejava naquele momento. — Precisamos de você inteiro. O que fizera? Matara os doze atacantes. fitando a escuridão. Enquanto a observava se aproximar. Ian começou a protestar. — Chamei-o. tímida. Percorreu o olhar a seu redor. E então se empertigou. A premonição o atingiu em cheio. percebeu que a pele e os músculos se recompunham com maior rapidez.Susan Squires . Sabe disso. Ele deixou escapar um suspiro. — Sente-se — ordenou ela. focando a parede da rocha oposta. Estreitou o olhar. mas os únicos ferimentos eram o do ombro e o da perna. Os camelos e cavalos pareciam atender a seu comando sem hesitar.

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Ian olhou por sobre o ombro da esposa, onde um camelo e um cavalo estavam amarrados juntos. Seus sentidos analisaram o ar. E apenas levemente, sentiu a fragrância almiscarada que estava por vir. Elizabeth lhe estudou a face por alguns instantes. — Este é...? Ian assentiu, dirigindo-se para onde os animais se encontravam. — Se nos apressarmos conseguiremos chegar, se não no templo pelo menos em alguma tumba, onde poderemos nos abrigar antes de o sol nascer — dizendo isso, pegou as duas bolsas de couro de água e as atirou sobre os ombros, antes de passar apressado por Elizabeth. Sabia que ela o seguiria. E assim ela o fez, embora de vez em quando tivesse de correr para alcançá-lo. Observava, extasiada, as portas ornadas das tumbas, desejando parar para analisálas, mas não havia tempo a perder. O sol já despontava no horizonte. Haviam caminhado por mais de uma hora quando alcançaram o pátio arruinado, com as colunas tombadas e as estátuas profanadas. Elizabeth estacou em frente a uma delas e examinou a face esculpida. — O que é isso? — indagou o marido ao se aproximar. — Diga-me você — retrucou ela. Ian inclinou a cabeça para o lado. — E a imagem do Ancião, Aquele que Espera? Elizabeth deu de ombros e se aproximou da outra estátua. Aquela retratava claramente a cabeça da Esfinge, como a que havia no Cairo. O que ficava claro é que as duas estátuas pertenciam aos dois lados de um arco. Ela estreitou os lábios, pensativa. —Agora sabemos quem construiu a Esfinge há tanto tempo atrás que poderia ser erodida pela chuva. A brisa da madrugada trouxe consigo o perfume almiscarado ainda mais forte. Ian estremeceu. — Ali. — Ele a guiou pelas ruínas. Tinha consciência de que a levava a um lugar extremamente perigoso. Teria de mandá-la de volta à superfície tão logo ela traduzisse os textos. Mas os condutores estavam mortos. E se o Ancião o matasse? Elizabeth estaria sozinha no deserto à mercê dos berberes. E se a presença daquele povo ali representasse o exército de Asharti? A mulher-vampiro tinha todos os motivos para estar naquele lugar para no mínimo

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proteger a fonte da força. Pensando assim, Ian tomou a mão da esposa e começou a correr. Não demorou para que ambos se vissem de frente para a fachada do templo. O calcário róseo cortado em milhares de extraordinárias gárgulas e um sem-número de cenários em baixo-relevo, todos recordando Ian da noite em que deixara de ser humano. As gigantescas colunas suportavam um suntuoso frontão triangular, que emoldurava um vão de entrada de aproximadamente sete metros de altura. Não estavam longe de onde o Ancião provavelmente os aguardava. Ou quem sabe, não era a morte que os espreitava. Houve um tempo em que ansiara que ela o levasse consigo para sempre. Hoje não mais, e a certeza estava a seu lado, armando-o com coragem. Por Elizabeth queria viver uma eternidade, porém precisava derrotar Asharti para realizar o sonho. Elizabeth prendeu a respiração em frente ao templo. Era extraordinário. Assim como Petra. Um tremor intenso a fez estremecer. Não por medo do que os aguardava no interior daquele aposento, mas por temer não conseguir ajudar o marido. Ian a observou determinado, fazendo-a engolir em seco. Aquela seria a única chance de os dois sobreviverem. Ambos adentraram a escuridão. O primeiro aposento surgiu. A poeira se espalhava pelo ar, refletindo suas inúmeras partículas coloridas em meio à luz que se infiltrava pelas portas e frestas. E então depararam com as estátuas gigantes com cabeça de íbis que guardavam outra porta. — Venha. Sua parte terminará em breve — sussurrou Ian. Elizabeth tinha fé em Deus que a fizesse com sucesso. Nunca se sentira tão insegura em sua vida. Apenas o calor que emanava da mão de Ian dava forças para continuar. — Não terá dificuldade em encontrar o caminho de volta. As portas levam a apenas um lugar — Ian continuou a explicação, enquanto desciam os degraus. A rampa parecia interminável. A fragrância almiscarada ficava cada vez mais forte assim como a pulsação no solo, sinalizando que o Ancião os aguardava. Ian se esgueirou pela parede, entrando em um aposento que tirou o fôlego de Elizabeth. Luz! Era plena de iluminação em centenas de cores que emanavam de uma coluna central e cintilavam pelas paredes e teto. A coluna era composta de gemas gigantes, constantemente lavadas pela água que emanava de uma fonte que desembocava em uma piscina no centro do aposento.

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— O que significa isso? — indagou Elizabeth, extasiada. — Deve ser o sinal para aqueles que o deixaram para trás. Não foque nas jóias individualmente, elas são capazes de levá-la à loucura. — Não sou tão avarenta assim — defendeu-se Elizabeth. — Não se trata de ambição. Asharti me preveniu disso. Circundaram a fonte, entrando em uma passagem que levava até outro imenso par de portas. Mas estas estavam trancadas por uma placa retangular incrustada com gravuras. O momento crucial para Elizabeth havia chegado. Ela empertigou os ombros e caminhou, decidida. O som dos batimentos cardíacos desapareceu de sua mente. Estreitou os olhos, estudando a placa, enquanto os dedos pequenos traçavam o contorno das incrustações como se pudessem ler o que os olhos não conseguiam. Havia falhado. Com o coração batendo em descompasso, voltou-se para Ian, meneando a cabeça em negativa. — Olhe de novo — sussurrou ele, emprestando parte de sua bravura com um sorriso tranquilo, apesar da tensão do momento. Oh, ele confiava nela cegamente! Elizabeth se virou para a placa mais uma vez. Muito bem. Alguns símbolos eram os mesmos que já conhecia. O que era aquilo? Aramaico! E copta. Sim! Esperara que estivesse escrito apenas em uma língua, mas eram várias. — "E a música se eleva através do Universo. Sangue atrai sangue. Venha até a mim! Não há nenhuma reconciliação possível durante toda uma vida? Perdoe-me." Os imensos olhos de Elizabeth prenderam-se aos de Ian. — Como é triste este texto. Ele espera há séculos! Acha que os companheiros virão algum dia? — Não me incomodo de não estar aqui quando isso acontecer. — Fitando-a com olhar inquisitivo. — Qual dos símbolos faz a porta se abrir? Elizabeth sentiu como se alguém a esbofeteasse. — Eu... não sei. Voltou a atenção para a placa. Tocou em todos os símbolos mais nada aconteceu. Não podia acabar daquela forma. Estavam tão perto... — Lembra-se de algum símbolo que ela tenha tocado? Ian meneou a cabeça em negativa.

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tomando-a nos braços como se fosse o último contato entre ambos. — Espere por mim na porta principal.Susan Squires .. disposto a enfrentar o que quer que estivesse por trás daquele negro turbilhão. desesperado. — Acho que ela tocou aquele símbolo. Assombrada. Elizabeth prendeu a respiração. Não podia perdê-lo agora. — Eu não vou deixá-lo. Elizabeth estava certa dos próximos. mas. mostrando o que correspondia ao sangue. Os olhos atentos demoraram-se um pouco mais em cada símbolo. — Ali — ordenou ao marido. — Ian apontou. Acionou os símbolos correspondentes a É e VIDA. Meu pé estava cortado. — Tente se lembrar de algo. E por trás dela surgiu um vórtice preto de uma substância rotativa como um grande olho cego pronto para sugar qualquer coisa. Ian obedeceu apertando o criptograma correspondente a SANGUE.. As imensas portas se abriram silenciosamente. Elizabeth deu um passo atrás. para o desconhecido. Aquele era o abraço pelo qual Elizabeth tanto ansiara. Se eu não chegar dentro de uma hora. Mande avisar meu irmão e ele virá buscá-la. Sim! Talvez houvesse um criptograma dentro do próprio texto. Talvez algum movimento padrão.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Eu estava de joelhos atrás dela. Asharti me segurava por uma corda amarrada ao pescoço. Ele pensou durante alguns instantes. Tem condições de chegar até Haasi Fokra. Romances em Ebook . Ian tomou as mãos miúdas nas suas com um sorriso terno. Elizabeth desejou tomá-lo nos braços e confortá-lo. e no presente entraria naquele redemoinho. Uma vez ele quisera morrer. De súbito. mas Ian pousou um dedo em seus lábios. — E a minha vez de subir no palco — afirmou. — Toque o que a viu tocar. vá embora. ansiosa. — O quê? — indagou. lutando pela vida. — Parecia ao acaso. enquanto fitava a corrente giratória. que ali invadisse. Ela meneou a cabeça em negativa. — Sua participação terminou — sussurrou Ian. Ameaçou protestar. lembrou-se das palavras da condessa. Posso ajudar.

meu amor. — Os inexpressivos olhos pretos se tornaram ainda mais sombrios. empurrando-a de volta à rampa. — Ah. O odor dos corpos pútridos que se encontravam amontoados em um canto mesclava-se à fragrância forte de canela. — Eu voltei. — O que faz aqui. Sabia o que tinha a dizer. mas não o efeito que iria causar. empurrando-a de volta. Ian girou naquele redemoinho de fluído viscoso. — Sim. mas que ainda assim escolhe viver. Confio em sua capacidade e coragem para perfazer o caminho de volta — Ian disse. Possuiu o Companheiro. aquele que conhece o sofrimento. posso sentir a fragrância. O Ancião caminhava implacável na direção de Ian. mas a substância a rejeitou. Então. Tampouco desejo a vida de vampiro. O espectro de cabeça humana se voltou com um movimento brusco. agora estava convencida de que Ian teria de fazer aquilo sozinho. tentando focar-se no que deveria ser feito. porém se encontrava vazio naquele momento.Susan Squires . — Não quero esse parasita. Como poderia deixá-lo sozinho naquele momento? Elizabeth virou e o viu ser tragado pelo vórtice. Romances em Ebook . — Sim. Pensando assim. apressada. O corpo gigantesco moviase com os passos agitados e o semblante rígido. Um movimento nas sombras atraiu sua atenção. Ian inspirou profundamente. Como se lembrava.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — E muito perigoso para você. E lembre-se: não olhe diretamente para as jóias. intruso? — indagou em árabe. De alguma forma o Ancião entendeu sua vontade de morrer na última vez em que ali estivera. Decidida. forçou-se a subir a rampa. ainda tonto. — Ancião! — exclamou ele se expressando em latim. O enorme trono ficava no extremo oposto do lugar. voltou e tentou imitar o gesto. — Ela não deveria ter compartilhado o Companheiro. deveria também saber que agora desejava lutar pela vida. aquela que traz sangue. Disparou através da escuridão e cambaleou para o lado na entrada do aposento interno do Ancião. Bem. Para minha desdita — admitiu Ian. o lugar era obscuro e azul. Não fazia idéias do que o esperava do outro lado. Não restava mais nada para fazer a não ser obedecê-lo. Ian surpreendeu-se da sabedoria daquele ser. Asharti me infectou.

— E voltando-se para o árabe: — Fedeyah. Elizabeth caminhava de um lado para o outro no hall de entrada sob as estátuas-guardiãs. Sabia do que se tratava. Aquela mulher era letal e por certo Ian ainda não tivera tempo de beber o sangue que os salvaria. apurando o olfato. — Pois saiba que não será — afirmou Elizabeth. O corpo perfeito realçado pelo tecido diáfano. uma névoa preta rodopiou no hall de entrada. Tudo dependia dos próximos minutos. — Como? — foi a vez de Fedeyah indagar. posso ver que não pertence a nossa espécie. com o nariz aristocrático erguido. ele será seu eterno vassalo? Asharti a estudou com os olhos semicerrados antes de dar a ordem de execução. Romances em Ebook . — Sim. Os olhos da mulher vampiro pousaram em Elizabeth. Estaria ele sendo esquartejado vivo? Concordaria o Ancião em lhe conceder vantagem sobre Asharti que o provia de alimento? De repente. marchando resoluta. — Acredita mesmo que uma vez submetido à sua escravidão.Susan Squires . usando toda a coragem que possuía. — Não. não esta criança humana. A primeira névoa se dissipou em uma mulher deslumbrante.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian observou que o Ancião não se sentou no trono como da outra vez. Foi ele quem liquidou os berberes. — Mate-a. Asharti se voltou e começou a caminhar em direção à entrada. Elizabeth gelou. Talvez tivesse perdido a tranquilidade. minha deusa. drapejado sobre os ombros e atado com uma tira dourada à cintura. disse que viu meu escravo. — Eu o libertei. Podia apenas imaginar o que estaria acontecendo com Ian. — Ele está com o Ancião! Como ousou me desafiar? — afirmou. Quem mais poderia ser? Asharti. O que me faz mais forte do que você. Fedeyah. seguida de outra. — Foi você que despedaçou meus berberes? — indagou ela. de onde pendia uma espada curva. A segunda névoa revelou o mesmo homem que vira em Haasi Fokra. Engoliu em seco. A mente de Elizabeth trabalhava em ritmo frenético.

— Tem razão. — Segurou o pulso de Elizabeth. As unhas se transformaram em garras enquanto caminhava em direção a Elizabeth.. — Apenas por um tempo. — Ousei alterar a velocidade do tempo. Poderá suportar a espera. — Uma vez tive a coragem de recusar o sangue — disse ele naquela voz que jamais se pareceria humana... — Coloque-o entre nós e veremos quem será a escolhida. Asharti está criando uma horda de vampiros. A figura repugnante começou a caminhar de um lado para outro pensativo. que ecoou longe. —Amor suficiente para apagar as cicatrizes que deixou.Susan Squires . Se eu a matar. mas comigo ele o faz por livre e espontânea vontade. Os olhos vítreos se fixaram em Ian.. — Minha rainha — interveio o árabe. — Aquela mulher instigou sua necessidade e agora só ela pode saciá-la — instigou Ian. A menos que me dê forças para combatê-la — Ian Romances em Ebook ... Asharti soltou uma sonora gargalhada. Destruirá toda a raça humana. — Essa espera fica mais suportável mesmo sabendo que cada segundo dura uma eternidade? — Ian ousou indagar. inclusive meus entes queridos. — As palavras pareceram fazer a força de Elizabeth aumentar. — murmurou o poderoso vampiro. — Por que não poupá-la? Se ele a ama. — Asharti nos roubou a paz de ambos quando nos deu sangue — dizia Ian. No mesmo instante a vampira entendeu o que o árabe sugeria. Porém. — A dor. E então tudo voltará a ser como antes. A mulher vampiro emitiu um som rouco de raiva. Sabe do que aquele homem é capaz de se submeter para satisfazer uma mulher? — Sim. — Venha assistir ao fim em um lugar privilegiado. é o único modo de me tornar mais forte do que ela. não haverá mais motivo para ficar atento ao tempo — continuou Ian. lutando com as poucas armas que tinha. — Não pode recusar o sangue quando ela o trouxer. O Ancião parou para encarar Ian. Já não tenho mais essa coragem. — E para isso quer o meu sangue? — Contra minha vontade. — A consumição.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Por meio do poder do amor.

Anseio por sangue... — Traidor! O coração de Ian pareceu parar diante da visão de Asharti! O Ancião o largou e ele caiu de joelhos com o poderoso sangue queimando suas veias. mas não posso impedi-lo de procurar lá fora — retrucou ele. — Sim.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) implorava. Romances em Ebook .Susan Squires . alimentar-me dele torna a espera torturante e Asharti está utilizando minha força contra o mesmo rebanho que pastoreiam por tanto tampo. Porém. Encontro-me em uma encruzilhada. embora soubesse que aquele ser não compartilhava de nenhuma virtude humana. Ian ergueu o olhar. Fizemos uma barganha. em seguida. O sabor forte chegava a lhe queimar a garganta. Ele tentou afastar a cabeça. Ian tentou visualizar o que estaria acontecendo. desesperado. — Promete que não me trará sangue? Ian anuiu. pensou ele. — Irmãos. Não!. Não Elizabeth. ergueu o braço fino. — Mas eu sim. aproximou-se de Ian. O que acham que devo fazer? — bradou o Ancião. Quando me perdoarão? Ian prendeu a respiração. Atrás deles. Não havia espaço para mentiras naquela barganha. que sorveu o líquido viscoso e de forte sabor metálico. — Beba — ordenou. De que outra maneira poderei suportar a espera? — continuou o Ancião em seu monólogo. o vórtice borbulhou. mas o Ancião não o deixou se mover. estendendo-o a Ian. O Ancião o fitou com olhar de dúvida por alguns instantes e. — Sinto-me tão sozinho. mal contendo a ansiedade. A mulher-vampiro estava parada em frente ao vórtice com Fedeyah a seu lado e o pulso fechado em torno de uma mecha de cabelos de Elizabeth. O templo vibrava com a força da voz estridente. — Está transferindo seu poder a outro? Sou eu que lhe trago sangue. fazendo-o engasgar. — Devo sofrer a privação. Em seguida. mas o poderoso vampiro forçou-o a continuar engolindo. — O Ancião levou o próprio punho aos caninos afiados e cortou-o. contudo não houve resposta alguma e então o Ancião baixou o braço.

avançou. Tinha de tentar desarmá-la. fazendo-o cair de joelhos. e dessa vez a espada cortou o seu ombro. ele se moveu para o lado e a espada cortou apenas o ar. Ela agora usava garras. —Como ousa me desafiar?—inquiriu Asharti. Utilizando todo o peso do corpo colossal. embora seus olhos se tornassem vermelhos. indignada. Um sorriso maligno se estampou no rosto da deusa demoníaca. Romances em Ebook . Sabia que o objetivo daquela vampira era sua cabeça. O fogo que o queimava por dentro fazia doer todo o seu corpo. deixando marcas de sangue no rosto e pescoço do oponente. Sou sua senhora e você meu escravo. Ele se empertigou. No entanto. E a soberana dos vampiros estava ali a sua frente. —A que lado favorecerá? — ela perguntou ao Ancião como se o ordenasse a favorecê-la. golpeando Ian. enquanto chutava a espada. A decisão não é minha. forçando-o para baixo. — Uma péssima barganha que está sendo renegociada. — O sangue Ancião de nada vale. que ele sentiu quebrarem de pronto. A espada de Asharti voou indo bater contra as pedras. A queimação nas veias e a fraqueza que sentia nos joelhos o fizeram entender que os efeitos do sangue do ancião não eram imediatos. — Acha que pode me vencer? — desafiou ela. — Uma gota do sangue do Ancião não é suficiente para me enfrentar. A lâmina de aço voou pelos ares. Asharti tinha razão. primeiro na cabeça e em seguida nas costelas. Ian se atirou contra ela que cambaleou para trás. Não podia competir com uma soberana. — Você que me serviu quantas vezes ordenei? As lembranças vexatórias assolaram a mente conturbada de Ian. conseguiu se erguer. Ao mesmo tempo ergueu o joelho. Asharti o golpeou outra vez. que se protegeu com os antebraços erguidos. Pronta para uma luta. pegando-a desprevenida com o golpe. Com um grito estridente. Asharti investiu com mais tenacidade. O Ancião não tomaria partido. Mal conseguia enxergar através da névoa azul que embotava sua visão. — O que terá de ser será. pensou Ian. Empurrou Elizabeth para o lado e sacou da bainha a espada brilhante.Susan Squires . mas Ian conseguiu segurar o pulso resistente. Elizabeth também escutava aquelas palavras. Ela atirou o peso contra o corpo de Ian.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Trôpego. Pior.

Os olhos do Ancião o estudaram.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Não dê ouvido a ela! — gritou Elizabeth a plenos pulmões. Podia sentir a força emanar de seu interior. Assistindo à impressionante transformação de seu oponente. porém. Asharti percebeu o olhar determinado. A mulher-vampiro rolou pelo chão. ele passou incólume pelo casal. ele gritou em seu íntimo. Em seguida. investindo em direção a Asharti. a mulher-vampiro se precipitou pelo vórtice e Ian se adiantou para segurar a esposa que desfalecia ao chão. rasgando o tecido das vestes e a pele. No entanto. — Pensei que não tomaria partido. Em seguida. Fedeyah levou a mão aos lábios para suprimir um grito. Volveu a cabeça para observar a soberana ser cuspida de volta pelo vórtice. enquanto o Ancião caminhava em direção ao grupo. protegendo-se enquanto os membros de mulher-vampiro voavam para se juntarem aos corpos no canto do templo. emitindo um som desumano. erguendo-a apenas com um braço. O som do sangue pulsando nas veias quase o ensurdecia. Sim. Ela já havia espetado as garras no ventre de Elizabeth. Em vez disso. era tarde demais. Ele ergueu o olhar para fitar a mulher que depositava tanta fé em sua força. — O sangue é vida! — murmuraram Fedeyah e o Ancião em uníssono. Ian pressentia o que estava por acontecer. fazendo-a arquear o corpo de dor. dirigindo-se à mulher-vampira. mas ele a fez voar pelos ares. — Ela o teme porque não é mais o homem que ela um dia controlou. Ian sentiu o ar entrar em seus pulmões com força revigorada.Susan Squires . não é errado sentir essa força poderosa. — Não está sentindo o poder correndo em seu sangue? — Elizabeth perguntou. não! O que eu fiz? — gritou ele. — Você tem o sangue do Ancião! O sangue é vida! Foi o que Beatrix nos disse. decidiu não atacá-lo. O Ancião não podia arriscar a sobrevivência de Asharti. pois se jogou com toda a fúria que possuía contra Ian. dirigiu-o a Asharti. Romances em Ebook . Asharti emitiu uma risada insana. Deus. ergueu-se em uma fração de segundos e segurou Elizabeth pelo braço. — Oh. Você é um vampiro. Ele baixou sua cabeça sobre a da esposa. direcionando as garras para seu abdome. O sangue jorrou de imediato. Ian aconchegou a esposa ensanguentada ao peito como a protegê-la de um possível ataque do Ancião. Um sentimento de impotência o assolou. Ian ergueu a cabeça. Não!.

Romances em Ebook . O vórtice se avolumava cada vez mais e ia destruindo tudo por onde passava. Oh. Vá e siga o que está escrito. — Venha Fedeyah. Ian olhou para trás e avistou o árabe que se encontrava imediatamente atrás dele. deixando apenas o sinal pulsante para que seus pares se guiassem até a sala do trono. sentindo o sangue quente tocar a pele onde a capa estava rasgada. se jogou em seguida. Disparou pelo hall de entrada. Alguns passos adiante. Ian baixou o olhar à esposa. com exceção do aposento que era onde o Ancião ainda permaneceria à espera de seus compatriotas. Fedeyah — murmurou para o árabe. Temos de sair daqui — dizendo isso. O vórtice estava expandindo rapidamente. Elizabeth jazia pálida em seus braços. Ian anuiu e ergueu a esposa nos braços. olhou para trás e viu as gigantes portas de pedra desabarem.Susan Squires . segundos antes de elas serem derrubadas pelo vórtice. — Você possui o meu sangue — explicou o poderoso vampiro. Ele voltou um olhar suplicante ao Ancião. Mas logo que recobraram o equilíbrio. empurrou o árabe de encontro ao vórtice e apertando uma desfalecida Elizabeth contra o corpo. — Ela vai morrer. passando pelas estátuas-guardiãs. Céus! O Ancião iria destruir o templo! Ian concentrou todos os seus esforços em correr. — Venha. Em segundos encontravam-se do outro lado. — O que fará conosco? O olhar do estranho se alternou entre os três. — Vamos sair logo daqui! — bradou subindo a rampa apressado com o árabe em seu encalço. — Há vida suficiente para ambos. O Ancião estava se enterrando sob toneladas de pedras. tentando abstrair da mente os estrondos que os acompanhava de perto. onde os aguardaria.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Talvez estivesse escrito que poderia me valer do livre arbítrio. — A voz retumbante do Ancião ecoou atrás deles. Ian sentiu a substância viscosa atingir seu pé. Ian se voltou para o ver o espiral negro se avolumar. — O que está escrito.

Elizabeth observou as lágrimas rolarem pela face do marido. Era admirável a forma com que aquela mulher abraçava sem reservas ante o terrível destino que lhe impunha. agora avassalador. Ian manteve o pulso na mesma posição até que ela erguesse os olhos. Percebia os sentimentos mais acurados. O líquido escorria pela garganta de Elizabeth. Sabia o que fazer. Quando alcançaram a plantação. Ele acabara de lhe dar um presente precioso. De pronto sentiu os olhos avermelharem-se e o poder. derramando o sangue ancestral dentro dela. Algo dentro dela se transformava rapidamente. Ian colocou Elizabeth no chão. — Para a ravina! — Sabia que se olhasse para trás não encontrariam sequer um traço do que fora Kivala um dia. meu amor. Ian reparou que o ventre feminino já havia cicatrizado e não conteve as lágrimas de emoção que pingavam sobre a pele rósea. colocando a mão sobre sua testa.. — Beba. mais poderosos. Em seguida. Recordando as palavras do Ancião. ainda muito enfraquecida. recobrando a consciência. — Está febril. Estaria morta? Com o coração contraído em dor. Não poderia viver sem Elizabeth. crescer em suas veias. no peito exposto pela capa rasgada. Aconchegou-a contra a pele em bolhas pelo efeito do sol. Fedeyah os seguiu. mas não tinha opção. — Elizabeth? — chamou Ian. O sangue coagulado lhe cobria as vestes. Ele a aconchegou ao peito. — murmurou ela. cortou o pulso com o canino afiado e abriu a boca da esposa.Susan Squires . levando-a até à sombra produzida pelo rochedo íngreme. Romances em Ebook . ajoelhou-se ao lado do corpo inerte e chamou pelo Companheiro com toda a força da mente.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Corra! — gritou. O sangue é vida. Ficaria Elizabeth doente e febril por tanto tampo quanto ele ficou quando Asharti o contaminou? Elizabeth engolia de maneira convulsiva. cintilando com a fé que nele depositava.. — Sombra. Estava ali a representação da plenitude de todos os sentimentos. Sabia que a estava condenando a uma vida monstruosa. Teria de esperar para ver os efeitos do sangue do Ancião. ignorando a dor que sentia pela exposição ao sol. tocou-a e sentiu a pulsação débil. A maior prova de seu amor. e a ergueu. E então a realidade se abateu inexorável sobre Ian. A face morena estava acinzentada. indiferentes à natureza humana ou vampiresca.

Ao cair da noite. — Adeus. O corpo feminino estremeceu pela descarga elétrica que parecia percorrê-lo. Ambos observaram o sol se pôr. a proximidade do corpo de Ian a excitava. — Cansada.Susan Squires . Depois de ambos explicarem a ela o destino que o Ancião escolhera. — Para onde pretende ir? — Casablanca. — Asharti deixou lá. desde que tivesse Ian. Não temia o fato de ter se tornado uma vampira.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ian fez menção de cortar o pulso outra vez para alimentá-la. — Não. — Na verdade. estendendo a mão. se estiver em condições. talvez — retrucou Fedeyah. Ian ainda não se sentia capaz de reconstruir a ponte sobre o abismo que se abrira entre eles desde a noite de núpcias.. sei. o árabe se despediu do casal. Elizabeth mantinha a cabeça recostada ao peito do marido. pensando na nova vida que os aguardava. Em seguida. E então. Ian alimentou-a mais uma vez. Teria de lutar pelo que queria. inglês. — Como se sente? — indagou Ian. Era chegado o momento em que teria que se encher de coragem e ajudá-lo. rastros de sua destruição que devem ser apagados. — Temos de seguir viagem. apertando a mão de Ian. — Desculpe-me pelo fardo que impus — começou ele. Romances em Ebook . — Vou erguer a tenda. — Espere até que ela solicite. cedendo de pronto. mas bastante viva. — Dizem que o sangue do Ancião acelera a transição — informou Fedeyah. Deve estar cansada. — Em breve estará completamente recuperada. Ian sacudiu a cabeça como que para clarear os pensamentos. procurando as palavras. A culpa foi minha. Ian a envolveu nos braços e ela sentiu a energia que os unia. Elizabeth lamentou a perda do contato eletrizante. mas foi impedido pelo árabe.. — E tocando a fronte. ergueu-se. Eu a trouxe até aqui. — Não me arrependo. — Posso me banhar e trocar de roupa? Ian sorriu. voltando-se para a esposa.

isso é muito bom! — De pronto a fonte de água secou. A evidente ereção a encorajou ainda mais. enquanto derramava água sobre os longos cabelos de Elizabeth. contraídos ante a visão dos mamilos intumescidos.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Ela nunca estivera tão longe de estar cansada. Apenas a certeza do desejo do marido e a dúvida estampada nos olhos azuis lhe permitiram estender as mãos e tocar o queixo másculo. repleto de dor. Sentia-se revigorada e cheia de vida e sabia o que queria. resoluta. Elizabeth voltou-se. — E lançou um olhar inquisitivo. postando-se de frente para ele com as mãos em concha. posso compreender. Romances em Ebook .Susan Squires . A energia avassaladora que dele emanava a envolvia por completo. Os músculos da mandíbula. fitou-o nos olhos antes de retirar a blusa pela cabeça. — Oh. estendendo a bolsa de couro e soltando os cabelos. despejando água sobre elas. Pensando assim. enquanto esfregava o ventre. Para tanto. — Ela está morta e nós bem vivos. Desatando a fita de couro de uma das bolsas de água. E ela em movimentos lânguidos lavava o rosto.. esticou a mãos para receber mais água. Todo o corpo feminino dava mostras do que queria: terminar o que haviam começado na noite de núpcias. Deveria ser cautelosa. Quando se ergueu. — Se não me ama. atraí-lo para si e o fazer perceber que o passado fora despedaçado com Asharti. — Não posso. Sorrindo.. retirou as botas. — Ian — começou ela. Ian deu um passo à frente. percebeu os movimentos de Ian atrás dela.. Claro que pode. mas ela ocupouse em abrir o fecho da calça e retirá-la. precisaria ser mais corajosa do que jamais julgara ser possível e confiar na canção que vibrava em suas veias. Com um meio giro.. E então Elizabeth tomou a atitude mais corajosa de sua vida. — Eu te amo. A respiração de Ian saía entrecortada. — Pode jogar água sobre mim? — indagou ela. — O sangue está muito grudado — comentou. Ian acabou de assentar a tenda e se postou atrás dela. De imediato a respiração de Ian se acelerou. Estimulada pela reação do marido. Elizabeth se voltou em direção ao marido. Ian prendeu a respiração.

sorrindo maliciosa. — Teremos tempo suficiente para isso — declarou. sentindo toda a extensão da ereção colossal. Estimulado pela força do desejo de Elizabeth. Num gesto ousado. cobrisse os músculos das pernas do marido com movimentos cadenciados. sorvida com avidez ora por um. deitandoa sobre o tapete de areia. Tomada de desejo. Os corpos de ambos vibravam suados na mesma sintonia. Ian a segurava pelas nádegas enquanto ela o sentia totalmente dentro dela. que escorria por suas coxas. fechou as mãos em torno do tecido áspero da capa.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Claro que a amo. Ian gemeu contra a boca macia. A cada vez afundava um pouco mais. ao som de risos e gemidos abafados. — Temos alguns negócios inacabados — concluiu. E então começaram a mover-se alucinados. Quando a mão forte deslizou por entre suas pernas. Elizabeth beijou-o possessivamente. Ele a penetrou devagar. Quando o beijo sôfrego foi interrompido bruscamente. ofegante. Ele a ergueu nos braços com um movimento brusco que refletia toda a sua voracidade e a carregou para o interior da tenda que terminara de montar. fazendo-a ciente de seu desejo. — Então só há uma coisa a fazer. Com um gemido gutural. Estava umedecida e pronta para recebê-lo. como fizera anteriormente. ora pelo outro. tomou-lhe os lábios em um beijo profundo e sensual. Ian postergaria o próprio prazer em seu favor. pressionou o corpo contra a parede sólida do corpo masculino. ela a segurou. Sabe disso. Elizabeth sentiu-se abrir por inteiro sem qualquer pudor. ela percebeu que. mordiscando o lóbulo da orelha do marido enquanto roçava os mamilos rijos de encontro aos pêlos macios do peito másculo. Todos os ferimentos haviam cicatrizado. Mantendo-a cativa sob o corpo. Ela permitiu que o mel. O sangue é vida. deslizando o joelho por entre as coxas torneadas. Desde Beltrane. Em seguida. os líquidos se misturavam na mais requintada bebida. — Quero senti-lo vibrando dentro de mim — sussurrou. investindo e recuando.Susan Squires . Elizabeth deslizou a palma da mão sobre o peito másculo. Romances em Ebook . deixando o corpo masculino desnudo. Ian intensificou os movimentos. pressionou a virilidade excitada contra o ventre macio. deitando-a com as costas na areia ao mesmo tempo em que ela erguia os quadris num gesto instintivo. arrancando-a em um ímpeto. intensificando cada investida. Ian rolou.

levando-a consigo. — Seu nome é como respirar. Ian rolou para o lado. — Seremos seres amaldiçoados. — Nem tudo que é bom é fácil — argumentou Elizabeth. enquanto beijava a orelha delicada. Permaneceram assim por um longo tempo antes de ele soltá-la. — Não como a que acabamos de vivenciar.. despertando o desejo.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) Mas ainda era pouco e Elizabeth queria mais. Ian ergueu a cabeça para fitá-la.Susan Squires . sinto-me viva e amo você. A comparação a agradou. — Elizabeth — murmurou ele. ouviram-se gritos guturais. ternos e cheios de amor. — Aceitou esse fardo muito mais facilmente que eu. — Bem. — Por que o Companheiro não pode ser um presente de Deus em vez de uma maldição? — indagou ela. Aquele que compartilha nosso sangue. A condessa. Elizabeth abriu seus olhos para encontrar os de Ian. sem sair de dentro dela. — Os outros nos chamarão de monstros — comentou Ian. Possuem vasta experiência sexual em comparação com as mulheres. Podemos tentar fazer boas opções. por exemplo. Gosto dela. — De onde quer que o Ancião tenha vindo. A minha é com você. Isso não é maravilhoso? Ian tomou a boca bem desenhada em um beijo apaixonado. mesmo sendo portadores deste misterioso dom. E então.. com expressão preocupada. Elizabeth deslizou as mãos pelo peito musculoso suado. Perdendo o controle dos próprios atos. Depois de escalarem a subida gloriosa. Pode acreditar — afirmou Ian. — Os homens têm sorte. Em breve estaria preparada para amá-lo outra vez. Romances em Ebook . ele tem seus pontos positivos. sentidos. beijando-a seguidamente. envolveu o torso forte com as pernas para facilitar ainda mais a penetração. O sangue já não cantava nas veias daqueles corpos ardentes. Ele a beijou outra vez. ele não é uma aberração. sem nada dizer. ansioso. fitando-o com ternura.—Talvez seja o Companheiro. mas sim urrava como cúmplice que os faria atingir o ápice de maneira gloriosa. deixaram-se ficar ainda presos um ao outro. — Porém. — Pode não ser uma vida fácil — o contrapôs. — Sua única experiência havia sido com Asharti. Por que negar a presença de Deus ali? Conheci outros como nós. Fico feliz que disporemos de muito tempo para repetir o que fizemos.

Não me importo. nos salões da Inglaterra ou mesmo em Casablanca. Ian se inclinou para beijá-la mais uma vez e ela sentiu a deliciosa fragrância de canela. com sinceridade. lutando contra o exército remanescente de Asharti. cruzando o mundo. Romances em Ebook .Susan Squires .. Acreditava naquilo e o faria crer também. — O sangue é vida — repetiu Elizabeth. Aquele mesmo perfume almiscarado que a embriagaria pelo resto de seus dias.O Mistério de Ian Rufford (Bianca 866) — Eu te amo. Quero estar a seu lado na África.. Estou feliz por estar vivo.

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