28

.

RIO

O GLOBO

Domingo, 11 de dezembro de 2011

‘Eu já fui a maior cachorra’
Em cultos nada ortodoxos só para moças, filha pastora de Baby do Brasil atrai candidatas a ‘princesas’
Arnaldo Bloch
Arquivo do GLOBO + blog e facebook de Sarah arnaldo@oglobo.com.br

PERFIL • SARAH SHEEVA

arah Sheeva viu o diabo pessoalmente pela primeira vez em outubro de 1997, quando tinha 24 anos, embora já experimentasse visões assombradas desde criança. Pelo menos, é esse seu testemunho. O homem, desconhecido, aproximou-se e bateu em sua cara. Depois afastou-se, encarandoa, e gritou, repetidas vezes: “Você vai ver!” Sarah jura que viu, e que estava lúcida, sem álcool, maconha ou pó, que não eram sua praia: o homem, transparente, revelou-se um horrível monstro. Semanas depois, ela receberia uma visita ainda mais importante em seu próprio quarto: Jesus Cristo.

S

AS RECEITAS DE SARAH
PARA CONQUISTAR UM PRÍNCIPE
“Sedutor é o diabo. Esposa não seduz marido. Ela conquista” “O homem testa a mulher para saber se é cachorra ou princesa. Para saber se o homem é príncipe, tem que fazer o teste dos seis meses: sem beijar nem pegar na mão” “Quem é casada já tem um peru para chamar de seu. Quem ainda não tem reza para ter, mas não fica de olho grande não, senão vem o tamanho errado, e você acaba não podendo aproveitar direito. Porque Deus sabe a medida exata do encaixe e se você for princesa, seu príncipe vai ser o seu tamanho” “Cachorra usa decote para mostrar os peitos. Os peitos da cachorra são de todos. Princesa não deixar passar a mão no peito. Princesa é pérola rara e preciosa. É o espírito do cofre. O decotão faz os peitos valerem 50 centavos quando expostos. Tem que usar tapa-cofre pra não pagar peitinho.” “Quem é casada tem que aproveitar muito e fazer sexo até de manhã quando só o marido quer, nem que para isso use um lubrificante porque assim ele fará todas as suas vontades à noite” “Príncipe não quer mulher fácil. Se der para o cara, dá atestado de cachorra para ele. Mulher não pode tomar iniciativa, tem que deixar o homem tomar, mesmo quando ele é lerdo, senão ele fica mais lerdo ainda”

“Havia um fogo em Jesus”
“Eu estava muito nervosa”, recorda, num dos vídeos de seu blog. Pudera. “Sarah, há muito tempo eu quero falar com você. Por que não me convidou antes?” — disse o visitante. Havia um fogo em Jesus, mas não era fogo: era amor. Um amor que a queimava, do diafragma ao mais fundo do espírito. O ar faltou. Jesus intercedeu: “Filha, eu vou parar de falar porque seu coraçãozinho não está aguentando. Mas vou ficar com meu espírito santo”. O prazer daquela presença, nas palavras de Sarah, era melhor do que a vida. Ela já poderia morrer, se necessário. E tudo mudou. Sua mãe, a cantora Baby Consuelo, já se separara de Pepeu Gomes e achou que a filha havia enlouquecido. Três anos depois, a própria Baby, sob influência de Sarah, abraçaria a fé, ao se conscientizar de que a crença no espírito de “Rá” — nome que virou uma saudação bastante em voga entre os fãs do casal, nos anos 80 — destruíra sua vida: estivera sob influência de forças malignas que queriam transformá-la, e às suas filhas, em bruxas, e que se passavam por pueris ETs do bem.

“Um peru para chamar de seu”
Ficou ainda cinco anos integrando a banda SNZ com as irmãs e levando uma vida liberal, até aceitar, em 2003, Jesus plenamente. Já havia declarado celibato desde 2001, e assim diz permanecer até hoje, casta. A julgar pela ansiedade com que declara aguardar a redenção, nos braços de seu príncipe — a quem já teria sido apresentada, numa visão enviada por Deus —, não haveria evidências claras que a desmentissem. No último culto só para moças, dia 24 de novembro — ao qual o repórter teve acesso através do relato detalhado de duas jornalistas que colaboraram com esta reportagem —, Sarah ensinava a suas súditas e candidatas como serem princesas. Depois de estabelecer uma escala que começa no nível “cachorra” e vai evoluindo até o trono, Sarah expôs motivos bem pessoais (e ausentes de sua face social na blogosfera e no facebook) para que acreditassem na palavra: “Eu já fui a maior das cachorras e mesmo assim Deus não me abandonou. Livrei-me da obsessão sexual que tinha. Eu me atirava em cima de cada homem bonito que via.” Para fazer o percurso, do canil (se for o caso) ao altar, uma série de regras tem que ser observada (veja resumo no qua●

O MUNDO DE SHEEVA em fotos recolhidas de seu blog público e de
seu facebook (que são visíveis para não-amigos): um universo de pregação que mistura a tradição carismática ao palavrório erótico

“Mulheres devem se valorizar em nome de Jesus. Não aceitar menos que serem princesas”

dro ao lado) para manter os cães afastados e encontrar os príncipes, sejam eles belos ou sapos. Para as que souberem se poupar e não ir com muita sede ao pote, Deus, inclusive, reserva um marido “do tamanho certo”, nem maior, nem menor que o encaixe, pois não há nada de errado em almejar “um peru só para chamar de seu”, e orar por ele. O uso deste linguajar alterna-se com uma quase erudição evangelizadora e com as famosas orações “em línguas” nas quais Sarah é uma poliglota: “surianderê xererererere llelelele suriandere halararararara”, ela profere, estimulando a congregação a encontrar suas palavras-chave personalizadas. O objetivo dessa salada retórica seria “mudar a cultura” de toda uma geração que desaprendeu a se dar valor, pois Deus “quer que o sexo seja a cura através do matrimônio, e que ele seja feito de manhã e de noite”. E mesmo que o desejo não dê o ar da graça pela manhã, que se passe “um lubrificante, pois, à noite, seu príncipe vai atender a todas as suas vontades.” Enquanto não chega essa

abençoada temporada de amor, todo cuidado é pouco: resguardar o “espírito do cofre” é a alma do negócio, “cofre” entendido como “seio”, pois “o decotão faz os seus peitos valeram 50 centavos”. Para evitar tamanha cachorrice, o uso de um “tapa-cofre” à escolha da candidata a princesa é fundamental, pois “pagar peitinho” é não compreender que o corpo é “joia rara”.

Cuidado com a defraudação
● Em seus vídeos, Sarah garante que seu objetivo é todo voltado para a evangelização, e que, parafraseando Caetano, não lhe amarra dinheiro não, nem a vaidade. Inclusive, numa indireta aos cantores-sacerdotes, que pode, contudo, ser interpretada como recado severo ao showbiz, ela recorda que “o último espírito imundo” que caiu em sua vida foi aquele “que leva os artistas a gostarem de ser adorados no lugar de Deus.” O dízimo, contudo, é cobrado no Culto das Princesas. De

uma forma discreta, envelopes são entregues com um folheto sugerindo a doação. Mas não é sem constrangimento às que não doaram que Sarah, ou uma de suas auxiliares, pede às afortunadas que puseram notas ou cheques no envelope que os levantem bem alto, para serem reconhecidas. Na saída, é possível comprar o CD “Tudo mudou”, em sua voz de vibratos espirituais, ou seus livros, “Onde foi que eu errei” e “Defraudação emocional”, conceito que ela define como a arte “de gerar expectativas que não podem ser cumpridas”. Por exemplo, a própria sedução (e congêneres como “azaração e pegação”), que jamais deve ser praticada, por ser uma fraude: a palavra certa é “conquista”, pois quem seduz é o diabo. Há também a terrível autodefraudação, leia-se masturbação, onde o “tempo de Deus é perdido” com aquilo que não interessa. O que interessa é a busca do príncipe, a espera, ainda que longa, pois o refestelo final será indescritivelmente bom. Se ela mesma já está há dez anos à espera, “imaginem como vai ser...”

Homem, só menor de 2 anos
O Culto das Princesas aqui documentado (o próximo será dia 29) aconteceu na Igreja Celular, em Copacabana, onde Sarah, na condição de pastora aspirante, evangeliza e abençoa corações sofredores também em cultos usuais unissex supervisionados por seus pastores chefes, mas desprovidos do caliente conteúdo das noites only for women. Tudo acontece num espaço aparentemente “neutro”, com cadeiras de plástico brancas numa grande sala e um palco fazendo as vezes de altar, com banda, uma cruz e uma menorah, símbolo judaico muito usado também por algumas congregações protestantes. Mulheres, adolescentes e crianças de colo (que podem ser meninos se tiverem menos de dois anos) de todas as classes sociais chegam arrumadas com todo o esmero possível. Calças, saias, vestidos, sandálias, sapatos, cabelos bem penteados e aromas misturam-se formando uma plateia

diversificada.A cerimônia tem início às 21h. A abertura é feita por Sarah Sheeva, que canta acompanhada da filha (de seu casamento desfeito) Rannah Sheeva, na guitarra, cabelos castanhos com mechas mais claras e roupas comportadas num marrom esverdeado sem expressão. Rannah vai soltando uns poucos acordes, languidamente, até a música tomar corpo e Sarah soltar a voz. Ao longo do culto, o tom, que começara tênue, se intensifica, tornandose alto, estridente, quase uma gritaria, bem no estilo carismático. À saída, após uma longa espera, o repórter é admitido no salão quase vazio, acompanhado por um amigo de Rannah, também músico, que garante não ser pretendente dela. O objetivo é marcar uma entrevista, que jamais seria feita, pois os telefones e e-mails de Sarah nunca dariam retorno. Mesmo assim, ela adora a ideia e, com um sorriso, faz seus votos de que tudo corra bem com a reportagem: — Jornalistas são profetas da palavra. Amém. Ou não? ■

Related Interests