L. M. V.

Rebello

NOTA-DE-PESQUISA 151

POLÍTICAS REGULATÓRIAS NO SETOR SAÚDE

Lêda

Maria

de

Vargas

Rebello

ABSTRACT: REBELLO, L. M. V. Regulatory policies in the health sector. Rev. Univ. Rural, sér. ciênc. hum., v.23, n.2, p.151-160. - In the current essay, the author describes the process of introducing regulatory health policies in Brazil based on the agenda from which the regulatory agency works. The rules and orientations of the reform in the private health sector occupy the analytic dimension in this text. This essay discusses the historical context and the main problems in public administration as accountability and governance. KEYWORDS: regulatory reform - health care private - state reform

A EMERGÊNCIA DE UM “NOVO PODER” A reforma do Estado, no Brasil, vem sendo analisada através dos debates sobre a crise e desgaste do modelo estatal predominante até então, vertical e centralizador na sua forma de implantar e implementar políticas, e “capturado” por interesses particulares. Fala-se de uma era marcada por uma crise fiscal intermitente, com receitas diminuídas em detrimento das despesas, com endividamento conseqüente na busca de recursos no mercado financeiro internacional, além de um declínio na capacidade de respostas das organizações estatais para as contingências adversas. Os recentes anos 90 têm sido, portanto, a época de redefinição das funções do Estado e de sua burocracia, tendo como tarefa prioritária a reflexão sobre os aspectos políticos voltados para a governabilidade. O Estado é, antes de tudo, e vice-versa, o Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro Aceito em 31/dez/2001
© Univ. Fed. Rural do Rio de Janeiro

reflexo da sociedade. A expressão “covariação estrutural”, colhida por Martins (1999), explicita bem a relação existente entre a estrutura organizacional e a dinâmica do ambiente externo à organização, a partir de variáveis como inovação das tecnologias, a expansão e diversificação do mercado, a cultura e a singularidade dos indivíduos. Ou seja, a noção de covariação estrutural pode ser útil para a compreensão da complexidade da sociedade contemporânea, cujas marcas principais são as incertezas, as imprevisibilidades, as turbulências e as perplexidades, o que demanda grande flexibilidade e dinâmica das organizações para a experimentação de novos instrumentos, tendências e modelos. Portanto, falar de crise de Estado, de ingovernabilidade, de crise fiscal, ligase diretamente às externalidades e às próprias limitações dos sistemas político-representativos, que não conseguem evitar os interesses ilegítimos, a predação fisiológica e o insulamento burocrático. A reforma do Estado não pode afastar-se da contextualização onde são implantadas as
Rev. Univ. Rural, Sér. Ciênc. Humanas Vol. 23(2): 151-160, jul./dez. 2001.

as do setor de infraestrutura. Em decorrência disso. o serviço de trânsito. com foco em: 1. a priorização da implantação do modelo gerencial. a hierarquia funcional. a previdência social básica. e seus colaboradores possuem status de nobreza real. 2. que é servir à sociedade. São exemplos: as universidades. onde a necessidade de reduzir custos e aumentar a qualidade dos serviços torna-se essencial. o poder racional legal. sendo caracterizado pelas atividades econômicas voltadas para o lucro. Legislativo e Judiciário. Serviços não exclusivos. a emissão de passaportes. transformando as atuais fundações públicas em entidades de direito privado. Patrimonialismo – O aparelho do Estado funciona como extensão do poder do soberano. a ineficiência e a autoreferência. A res publica não é diferenciada da res principis. A eficiência passa a ser o foco gerencial. Atividades exclusivas do Estado. onde o Estado atua simultaneamente com organizações públicas não-estatais e privadas. etc. onde deverão ser elaborados os instrumentos legais necessários à viabilização das transformações pretendidas. Em síntese. os centros de pesquisa. maior condição para a implementação das leis e políticas. essa evolução se deu a partir de três modelos básicos (Brasil. Seus princípios orientadores são a idéia de carreira. priorizando a implantação do modelo gerencial. 2. ou seja. Partindo-se de uma perspectiva histórica. Burocracia – Surge na segunda metade do século XIX. tem por base a proposta de uma estrutura mais ágil e resolutiva para decisões. 3. 1995): 1. a Reforma do Estado. compreendendo a cobrança e a arrecadação de impostos. Resumidamente. 3. Produção de bens e serviços para o mercado. como forma de combate à corrupção e ao nepotismo patrimonialista. O Estado voltase para si mesmo. 4. esquecendo sua missão básica. 1995) traçou um desenho com base na experiência Políticas regulatórias no setor saúde internacional. o governo. O Plano Diretor da Reforma do Aparelho de Estado (Brasil. econômicos e administrativos. para as necessidades do cidadão-cliente. e no atendimento a demandas. sem fins lucrativos. tem-se como escopo da reforma do Estado. Administração pública gerencial – Emerge na segunda metade do século XX como resposta às expansões das funções econômicas e sociais do Estado e a partir do desenvolvimento tecnológico e da globalização. Projeto da Avaliação Estrutural. Esse modelo se volta. criteriosamente. a impessoalidade. na época do Estado Liberal. 3. compreendendo os Poderes Executivo. Parte-se de uma desconfiança prévia das relações entre os administradores públicos e os cidadãos que a eles dirigem demandas. e como pontos negativos. o formalismo. a fiscalização do cumprimento de normas sanitárias. Projeto das Organizações Sociais. voltado para quatro setores: 1. a polícia. que examinará de forma global a estrutura do governo. os museus. como por exemplo. 2. Pode-se avaliar como ponto positivo desse modelo o controle dos abusos. como por exemplo. Núcleo estratégico. são sempre necessários controles rígidos dos processos. os hospitais. para os serviços não-exclusivos. A reforma do Estado é um tema amplo e envolve aspectos políticos (governabilidade). nas compras. na admissão de pessoal. no País. e a corrupção e o nepotismo são inerentes a esse tipo de administração.152 modificações ao longo do tempo. que corresponde à área de atuação das empresas. não delegáveis. implementando-se modalidades de regulação por delegação de poderes a autarquias autônomas – . para as atividades exclusivas. Projeto das Agências Autônomas. com o programa de “publicização”. etc.

As políticas regulatórias são políticas de “soma positiva”. e funções do legislativo. por um lado. usurpam parte das funções típicas de cada um dos poderes tradicionais” (Nunes. atuando sobre setores vitais para a economia e para a sociedade. O significado do vocábulo “regular”. e têm o arbítrio para estruturar preços e intervir na qualidade dos serviços (Nunes. transita entre o saber técnico-político-administrativo e o saber leigo. e. O verbo “regular” tem o sentido explícito de “sujeitar a regras.. Humanas Vol. eliminando formalidades desnecessárias. incompreensões.cit. que anuncia uma maneira nova de olhar a coexistência entre os poderes tradicionais. segundo os relatórios do Banco Mundial (Villela. regras. seja a segunda melhor alternativa. Ciênc. na impossibilidade da ampla maioria política. V. o executivo. 1987). 2001. por exemplo. Às agências competem funções de executivo. o legislativo. estabelecer ordem. e demandando um enorme trabalho de ajustes. Rural. Univ. jul. 07. 11. tais como a concessão e fiscalização de atividades e direitos econômicos. híbridos © Univ. 06. com força legal somente na área de sua jurisdição. na Austrália. e pela adoção de novas formas de gestão. A regulação econômica. As agências atuam sobre setores vitais para a economia e para a sociedade. na Dinamarca. IDEC. nos Estados Unidos. Fed. Essas novas instituições monitoram e autorizam o funcionamento das atividades consideradas de relevância pública. e judiciárias. que intervém nos mecanismos burocráticos. 04. na Argentina. São. caracterizando-se tanto por atrair como por contrariar interesses públicos e privados. Na forma técnico-político-administrativa.um novo poder entre os poderes: “Agências são entidades híbridas. comedir”. que intervém diretamente nas decisões de setores econômicos (formação de preços. Rural do Rio de Janeiro 153 de funções legislativas. 09. as quais definem regras de condutas para empresas e cidadãos. regulamentos formais e informais. mas têm como finalidade proporcionar aos usuários dos serviços regulados as garantias assistenciais e econômico-financeiras das empresas nos setores em que atuam (ibidem). que intervém na provisão de bens públicos e na proteção do interesse público. na atual forma em que foram criadas. portarias. M. com as já constatadas consonâncias e dissonâncias.L. 2./dez. etc). . As atividades regulatórias incluem leis. As agências. A emergência desse “novo” modelo de Estado demandou a criação das agências regulatórias . Rebello as agências. mas também fiscalizar as relações de mercado. simplificando as necessárias. A regulação administrativa. Estas devem não apenas normatizar. “saúde” financeira). Existem. o judiciário. 1999). a regulação é um Rev. A regulação social. Com funções assim complexas. ou. na França. como se fossem um quarto poder emergente. mais recentemente. no Chile. entre os países subdesenvolvidos. mesmo que as soluções não sejam unânimes. executivas. de fato. 05. no Reino Unido. 3. disseminando-se por alguns países europeus. com atividades assemelhadas às legislativas. No Canadá há 15. A característica central dessa reforma regulatória é a delegação de expressivo poder decisório a instituições independentes. As funções das agências.). competição. moderar. 70 entidades do gênero. 08. Sua identidade é ainda precária. A política pública regulatória abrange três dimensões: 1. o que significa que a expectativa é de que todos os setores afetados sejam ganhadores pelo bem público gerado. na Holanda. na Suécia e na China. op. 1999). e promovendo a transparência. dirigir segundo certas regras. gerando conflitos. equilibrando as relações entre consumidores e prestadores de serviços. tais como criação de normas. ocorrem superposições de competências com outros órgãos. Sér. na Alemanha e na Suíça. criando regras e normas. uma por Estado. 23(2): 151-160. Meio Estado. meio Sociedade. procedimentos. e na Espanha. não são órgãos de proteção ao consumidor (similarmente ao PROCON. A reforma regulatória teve início nos Estados Unidos. e as restantes federais. assim como seus similares “regularizar e regulamentar” (Luft et al. como sugere Majone (1996). com seus desdobramentos.

Embora sua identidade ainda seja precária. passando a ter 36 artigos. Essa “missão” envolve a difícil tarefa de conciliar a qualidade dos serviços oferecidos aos consumidores e o equilíbrio financeiro dos concessionários. Em fevereiro de 1994. e foi efetivamente implantado a partir de 1996. de 06/08/1997). 100 contra.º 2477. Justiça e Fazenda . contendo apenas três artigos. as estruturas de regulação no Brasil ainda são frágeis. E mais recentemente. e três abstenções. de 26/12/1996). 10º. é necessário estabelecer uma distinção entre o Executivo (governo) e as Agências Reguladoras (órgão de Estado): uma agência reguladora deve ser órgão de Estado e não de governo. foi criada uma comissão para examinar o assunto. de 28/01/2000). sendo a primeira agência reguladora criada. da tentativa de solução para problemas de vasta complexidade. A AGÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE SUPLEMENTAR-ANS / HISTÓRICO DA LEI 9656/98 A lei 9656/98. após alguns anos de discussão. pelo Decreto n. foi sancionada em 03 de junho de 1998. de 16/07/1997). O projeto seguiu para a Câmara dos Deputados. A estratégia de implantação de agências regulatórias vêm gerando conflitos na transição da cultura estatal tutelar para essa contemporânea configuração de Estado. por decreto presidencial. sem vetos. visando a assegurar o cumprimento de contratos de concessão. com o desenho expresso no Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. do Presidente da República. que é conceituada no Direito Administrativo como “Estado essencial” (Freitas. O substitutivo foi apresentado pelo relator deputado Pinheiro Landim. nem mínimo nem máximo. A independência em relação às diferentes esferas de poder e a excelência técnica na aplicação da legislação específica vão dar as garantias desejadas à sociedade. com clara proposta de inovação administrativa.154 processo que leva o poder público a intervir na atuação dos concessionários de serviços públicos. A seguir. a relacionada ao setor de energia elétrica–ANEEL (criada pela Lei 9427. e as duas agências do setor saúde: vigilância sanitária-ANVISA (criada pela Lei de 9782. com 306 votos a favor. Em 14 de outubro de 1997. 6º. O modelo regulatório utilizado no país segue a experiência internacional. foram apresentados 24 novos projetos e 131 emendas. O governo. está estreitamente relacionada ao direito e à ética: uma Políticas regulatórias no setor saúde nova forma de olhar e praticar cidadania.º 9656. o plenário da Câmara votou o substitutivo. Em 03 de junho de 1998. Do ponto de vista jurídico. das quais somente 13 foram aceitas e incorporadas ao projeto de Lei 4425/94. foi proposta a redação final do projeto. sendo nomeado seu diretor. recebendo o n. O Brasil assumiu mais diretamente esta agenda após 1994. e o seguinte percurso: 1º. após longo tempo ausente da pauta de debates. onde participaram representantes de órgãos e entidades envolvidas. de 17/07/00. da monitoração. a de petróleo-ANP (pela Lei 9478. a das águas–ANA. O País entrou na fase do “agenciamento”. Em setembro de 1996. 7º. com a sanção. em cujo debate interno se fortaleceram as idéias de ineficiência estatal para alguns setores estratégicos. Após várias audiências públicas. 8º. 2º. criada pela Lei 9984. 11º.º 4425/94. e saúde suplementar-ANS (criada pela Lei 9961. o Senado aprovou o projeto 93/93 do então senador Iram Saraiva. que regulamenta os planos privados de assistência à saúde. 9º. criou um grupo de trabalho interministerial – Saúde. 1995:13). foram criadas a de telecomunicações-ANATEL (pela Lei 9472. mas suficiente e eficiente. Entretanto. 5º. 4º. A Lei entrou em vigor em 03 de . paralelamente. de 26/01/1999). promovendo a harmonia entre os interesses dos consumidores e os das empresas concessionárias.que apresentou uma versão preliminar para discussão. Foi criado o Departamento de Saúde Suplementar – DESAS. o projeto tornou-se a Lei n. de 28 de janeiro de 1998. 3º. Até agosto de 1997.

23(2): 151-160. por instâncias governamentais. de acordo com parâmetros e diretrizes gerais fixados conjuntamente pelos Ministérios da Fazenda e da Saúde./dez. jul. e às cláusulas abusivas dos contratos. então. que deu origem aos PROCON. • estabelecer parâmetros e indicadores de qualidade e de cobertura em assistência à saúde para os serviços próprios e de terceiros oferecidos pelas operadoras. • fiscalizar aspectos concernentes às coberturas e o cumprimento da legislação referente aos aspectos sanitários e epidemiológicos. Ciênc. R. Rebello setembro de 1998. Rural. os contratos e o equilíbrio financeiro das empresas. vinculada ao © Univ. por órgãos de defesa do consumidor. órgãos que passaram a receber um volume relevante de queixas de consumidores em relação aos planos de saúde. Em síntese. financeira. Fed. e atuação em todo o território nacional. a ANS-Agência Nacional de Saúde Suplementar foi implantada.L. • avaliar a capacidade técnicooperacional das operadoras de planos privados de assistência à saúde para garantir a compatibilidade da cobertura oferecida com os recursos disponíveis na área geográfica de abrangência. compete à ANS: • propor políticas e diretrizes gerais para a regulação do setor de saúde suplementar. então sob controle do Ministério da Agricultura. desde 1971. As medicinas de grupo. patrimonial e de gestão de recursos humanos. com sede e foro na cidade do Rio de Janeiro . era o órgão “regulador” dos seguros-saúde. sob pressão das discussões no Congresso sobre o Código de Defesa do Consumidor.. as relações entre o Estado e o mercado de saúde suplementar no Brasil estiveram restritas à SUSEPSuperintendência Nacional de Seguros Privados. já tendo sido baixadas várias Medidas Provisórias (ABRANGE. Rural do Rio de Janeiro 155 Ministério da Saúde. 2000). com a atribuição de fiscalizar as contas. • fiscalizar as atividades das operadoras de planos privados de assistência à saúde e zelar pelo cumprimento das normas atinentes ao seu funcionamento. Antes da legislação específica. e pelos próprios usuários dos planos de saúde. • estabelecer critérios de aferição e controle da qualidade dos serviços oferecidos pelas operadoras de planos privados de assistência à saúde. Univ. relativos à prestação de serviços médicos e hospitalares no âmbito da saúde suplementar. autonomia nas suas decisões técnicas e mandato fixo de seus dirigentes. M. 2001. • autorizar reajustes e revisões das contraprestações pecuniárias dos planos privados de assistência à saúde. o processo de sua regulamentação. a proposta de regulamentação da saúde suplementar veio sendo pautada desde o início da década de 90. As principais reclamações referiam-se aos reajustes das mensalidades. dando início a crescentes conflitos entre a sociedade e as empresas de saúde privada. Humanas Vol. normatização.RJ. por entidades médicas. controle e fiscalização das atividades de assistência suplementar à saúde. que antecedeu a Lei 9656. que. Um outro movimento institucional importante. V. desde 1966. com o projeto técnico-político de garantir aos usuários dos planos privados de saúde uma assistência responsável e solidária por parte das empresas operadoras desses serviços. • fiscalizar o cumprimento das disposições Rev. Sér. noventa dias após sua publicação. regulando as operadoras setoriais. como uma autarquia sob o regime especial. inclusive quanto às suas relações com prestadores e consumidores. A natureza de autarquia especial conferida à ANS é caracterizada por autonomia administrativa. Os planos de saúde vinculados às UNIMED eram “regulados”. Dessa forma. delegaram ao CONANGE-Conselho Nacional de Auto-regulamentação das Empresas de Medicina de Grupo. 2001). sendo órgão de regulação. Tem por finalidade institucional promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde. o “poder fiscalizador” (Costa. com supressões e acréscimos. . Dentro desse contexto. pela legislação existente para as cooperativas. foi a elaboração do Código de Defesa do Consumidor. começando. de 28 de janeiro de 2000. Foi criada pela Lei 9961. em 1990. às restrições da assistência que excluíam doenças e procedimentos.

recursos humanos. com um Procurador. 2. para se beneficiar da proteção social da poor law (especialmente.656. 3. conduta responsável das empresas do setor. Conforme a “nova” administração pública. Diretoria de Normas e Habilitação das Operadoras – responsável pela normatização. de acordo com o regimento interno. Diretoria de Normas e Habilitação de Produtos – responsável pela normatização. o . REFORMA E REGULAÇÃO : ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL & ESTADO ESSENCIAL Historicamente. de forma democrática. além do apoio ao consumidor e articulação com os órgãos de defesa do consumidor. a atuação da ANS está submetida ao Contrato de Gestão (instrumento técnico e político) cujo primeiro documento foi firmado em 21/12/2000 com o Ministério da Saúde. o nível de informação e entendimento sobre a ANS ainda é pouco consistente. mediante o estabelecimento de diretrizes estratégicas. 5. tendo como um dos objetivos a pactuação de resultados com a finalidade de permitir a avaliação objetiva do desempenho da ANS. 2. através de um relacionamento permanente e transparente com a ANS. subsídios estatais e programas específicos para os pobres e trabalhadores de baixa renda. inclusive as autorizações de reajuste de contratos individuais e familiares. Inglaterra). transparência no processo decisório. suprimentos. Diretoria de Gestão – responsável pelo sistema de gerenciamento (recursos financeiros. 4. ações e indicadores. as tendências de reforma setorial tiveram alguns importantes marcos: § Séculos XVIII e XIX. tanto dos aspectos econômico-financeiros quanto dos aspectos médicoassistenciais. cujos membros pertencem a órgãos representativos do setor. e de sua regulamentação. estruturada da seguinte forma: 1. de caráter permanente e consultivo. e onde são discutidos. informática e informação). a Câmara de Políticas regulatórias no setor saúde Saúde Suplementar. além de unidades especializadas incumbidas de diferentes funções. de 1998. No entanto. A ANS reúne. Conta. 3. onde. 6. empresas e prestadores. de 1998. Uma dessas ações prioritárias refere-se ao estabelecimento de canais de comunicação entre consumidores. sendo um deles o seu DiretorPresidente. Diretoria de Desenvolvimento Setorial – responsável pelo sistema de ressarcimento ao SUS e pelo desenvolvimento de instrumentos que viabilizem a melhoria da qualidade e o aumento da competitividade do setor. inclusive dos processos de intervenção e liquidação. 5. um Corregedor e um Ouvidor. ainda.156 da Lei n o 9. • aplicar as penalidades pelo descumprimento da Lei no 9. Seu desenho organizacional comporta uma Diretoria Colegiada composta por cinco Diretores. a clara definição das funções regulatórias é um grande desafio. sistematicamente. registro e monitoramento do funcionamento das operadoras (empresas). interface com o SUS (Sistema Único de Saúde) para gerar soluções compartilhadas. • articular-se com os órgãos de defesa do consumidor visando à eficácia da proteção e defesa do consumidor de serviços privados de assistência à saúde (Brasil. Por isso. e de sua regulamentação. a combinação de estratégias coercitivas e cooperativas. 2000). registro e monitoramento dos produtos (planos de saúde). favorecimento do direito dos consumidores. participação da sociedade.656. e muitas vezes equivocado. temas voltados às questões que vêm motivando debates na sociedade. também. Diretoria de Fiscalização – responsável por todo o processo de fiscalização. 4. A política regulatória no setor saúde pressupõe: 1.

§ Necessidade de abertura do mercado de serviços de saúde. e passando a ter caráter focal. ora confirmando e reforçando aspectos previstos.L. a partir do seguinte diagnóstico: § Escassez de recursos. Modelo de Saúde Pública – surgido no início do século XX. ampliação da privatização. Rural. e com as políticas sociais deixando de ser universalistas. hegemonia norteamericana. 1999). a crise desse modelo. § Década de 80. Fed. § Décadas de 60. transformando o direito de acesso aos serviços setoriais em direito de cidadania. 2. Modelo de Assistência MédicoPrevidenciária – surgido na década de 20. dando início ao debate das políticas regulatórias (Carvalho. 4. 3. redução dos gastos públicos. mas com prevalência pontual ainda da tese “saúde. com perda de espaço das organizações tradicionalmente encarregadas da questão sanitária (OMSOrganização Mundial de Saúde. Modelos Alternativos – difundidos na década de 60. Univ. a criação de sistemas nacionais de saúde. articulada aos interesses agroexportadores. com incentivos à competitividade. decretando o fim do welfare state. de tal forma que na década de 90. Humanas Vol. (final dos 80). OPASOrganização Panamericana de Saúde). a crise fiscal e de legitimidade do Estado. promovendo a inversão da lógica das políticas públicas na área social. Foi instituída uma rede hospitalar específica. muitas vezes apontando para mudanças importantes em sua lógica. estimulado pelos organismos internacionais (Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional). com a difusão da agenda do Banco Mundial. Rebello indivíduo abdicava da sua condição de cidadão. assim como às ingerências internacionais no controle das doenças endêmicas (ex: Fundação Rockfeller)./dez. com a expansão específica dos serviços de assistência médica. constituiu 76% da oferta de leitos. Nascido na era democratizante da Nova República. 23(2): 151-160. como OPAS. com nítida orientação para o mercado. atuação © Univ. 2001. desperdícios. jul. regionalizada. § Não comprometimento dos atores do setor. com experiências de utilização politizada do espaço da saúde. § Qualidade da assistência insatisfatória. respondendo à necessidade de atenção aos trabalhadores urbanos e industriais. § Pós-Segunda Grande Guerra. Rural do Rio de Janeiro 157 local. Sér. Ciênc. Modelo SUS – os anos 90 são aqueles em que o modelo proposto enfrenta o teste da realidade. permanecendo “indigente”. BID. No Brasil foram constituídos os seguintes modelos de assistência à saúde. Uma das teorias “explicativas” da crise no Rev. que se tornaram o “berço” do clamor por uma efetiva reforma sanitária no país. passou a enfrentar o ajuste estrutural da economia. V. respondendo às demandas apontadas (Silva Junior. na sua vertente campanhista. § Necessidade de mudanças no modelo assistencial vigente. financiados geralmente por instituições estrangeiras. exigindo restrições à autonomia (o profissional médico foi o alvo dessa crítica). § Década de 90. 1998): 1. O quadro a seguir resume de forma interessante os principais paradigmas: Houve no setor um rearranjo. . direito do cidadão e dever do Estado”. § A situação da saúde da população não melhorou. O processo de regulamentação do SUS foi gerando efeitos sobre sua configuraçào institucional. expandindo-se nas décadas seguintes sob a forma de convênios e contratos com o setor privado. 70. M. vivendo momentos paradoxais na sua implementação. § Necessidade da reinterpretação das políticas. ora desvirtuando seu desenho original. OMS.

onde 26. como por exemplo. ficando conhecido como Sistema Único de Saúde (SUS). Quais os princípios consagrados pela chamada “Constituição cidad㔠que devem prevalecer? A saúde como direito. apensou-se um modelo assistencial misto. voltado para os desafios sanitários do país (Carvalho. dando novos rumos às políticas de saúde. igualitário e solidário? Esses princípios devem ser rompidos? Como lidar com o crescimento da oferta da medicina privada? No Brasil. como alternativa ao modelo clássico do welfare state. aqui se expandiam os direitos sociais na Carta Magna. a reforma sanitária ocorreu tardiamente. de cunho universalista. fundamenta-se na crença de que a baixa capacidade gerencial foi responsável pela ineficácia. de cima Período para baixo caracteriz expansão do sistema Domínio dos profissionais Domínio (“expertises”) predomin Consenso técnico-ec Fonte: Almeida. 1996). a reforma do aparelho do Estado.4 milhões de brasileiros se beneficiam da saúde privada. e gerando novas incertezas e dilemas (Almeida. ineficiência e desigualdade. 1996:74 setor. CONSIDERAÇÕES FINAIS Um dos dilemas. . Da saúde consagrada como direito universal e como dever do Estado. enquanto o mundo discutia o ajuste estrutural da economia. sendo o nosso sistema estabelecido pela Constituição Federal de 05 de outubro de 1988. Ou seja. e na “contramão” de tendências internacionais que revalorizavam o mercado. conceito complexo e de difícil definição. A solução apresentada sugere a implementação de práticas racionalizadoras. Concomitantemente. a crise fiscal. diz respeito ao grau de intervenção da regulação em saúde. a ênfase no planejamento Essas demandas levaram ao favorecimento do “ambiente” regulatório. a Teoria Gerencialista.158 Políticas regulatórias no setor saúde Dominante (até anos 80) Monopólio estatal Pluralidad Financia Agências Institucionalidade Desenha Privado (l Implementa Filantrópi Descentra Centralismo Burocrático Por projet Processo de Ausência de livre-escolha pelo Maior par decisão usuário te usuário: o Estado “sabe” Financiamento e Importante participação do Diminuiçã do Estado Fonte de recursos Estado (Des)univ sistemas focalizaçã Objetivo Universalização da oferta necessita Critério de prioridade na Ampliação progressiva. demandando a intervenção regulatória no setor. e certamente o grande desafio que a ANS vem enfrentando. a contenção de gastos públicos. 1999). o mercado de assistência supletiva ampliou-se enormemente. separando o setor estatal do setor privado. Bodstein. no final do século XX. Era um momento específico de reconstrução democrática e resgate da dívida social. 1996.

então. segundo Archer (1988). Política de Saúde e Inovação Institucional. ENSP / FIOCRUZ. Ciênc. Sér. mas um mercado regulado./dez. BRASIl. In: COSTA. regras. responsabilidade e solidariedade. Konrad-Adenauer-Stiftung. 1998. Lei 9961 de 28 de janeiro de 2000. São Paulo. © Univ. Entra. Rev. Reforma do Estado e Administração Pública Gerencial.R. BRESSER. 23(2): 151-160. Cambridge University Press. BRASIL. Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado. 2000. A ANS deve incentivar uma nova cultura organizacional. Univ. além da baixa capacidade de negociação. 1998. Rio de Janeiro.M. 1996. e RIBEIRO. pois esse é um fator estratégico para a consolidação positiva da Agência. Cambridge.. e vem criando condições para um crescimento “saudável” desse mercado – um mercado de “convívio” . O que deve ficar claro para a sociedade é que hoje. Como a intervenção de uma agência reguladora pode “produzir” novos valores e novas práticas? No caso em foco – operadoras de planos de saúde . Coleção Pesquisas n.º 12. Humanas Vol. Brasília. Fernando L. BRASIL. portanto. Culture and Agency. Luiz C. Brasília. J. subordinando os interesses privados aos interesses da sociedade. considerado o mais vulnerável pela ausência de informações sobre o produto que adquire. J. BRASIL. 2001. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRUCIO. 1996). N. N. prestadores e ANS – lida-se com um antigo dilema: cultura e ação humana. (orgs. In: COSTA.. de A. e. Presidência da República. Mesmo não sendo um órgão de defesa do consumidor. pela falta de instrumentos para coibir os abusos.F. que precisa dar conta de garantir a qualidade dos serviços prestados (Montone.). COSTA.equilibrando as relações entre consumidores. Valeriano M. operadoras e prestadores de serviço. Lei 9656 de 03 de junho de 1998. MS.). Ministério da Saúde. Rio de Janeiro. Mas para a implementação das políticas regulatórias no setor saúde. Rio de Janeiro. Presidência da República. Celia. 2000. apesar de influenciar a vida de considerável parte da população brasileira. Ministério da Administração e Reforma do Estado . Novos Modelos de Atenção à Saúde – Bases Conceituais e Experiências de Mudança.º 3327 de 05 de janeiro de 2000. devendo acompanhar os avanços 159 tecnocientíficos. da sociedade. Regina C. ALMEIDA. Contrato de Gestão firmado em 21 de dezembro de 2000. Margaret. 1998. e decisões organizacionais. incentivando a construção dessa nova cultura. A cultura de uma organização é o resultado da sua história e da interação entre seus membros (Gallo et al. Inovações na Análise das Políticas de Saúde no Campo da Saúde Coletiva. ARCHER. jul. porque estariam engajados em atividades que não mudam. 1996. Editora FGV. 1998. Esse foco no consumidor não descaracteriza a ANS como órgão regulador. BODSTEIN. “na ordem do dia”. Brasília. Rural do Rio de Janeiro . Política de Saúde e Inovação Institucional. o mercado de assistência à saúde não é um mercado livre. essa “estabilidade” contextual não pode existir. Brasília. consumidores. ENSP / FIOCRUZ. Decreto n. SPINK.. reproduzem contextos passados através de gerações. 2000. do direito e da ética. Esse setor. Peter (orgs). desregulado durante décadas. A regulamentação do setor significou um grande avanço na defesa do interesse público. V. evidentemente procura atuar ao lado desse segmento. passou a ter como principal marco a “corresponsabilidade”. 2000).. imputando às operadoras dos planos de saúde um maior grau de envolvimento. Rebello expressando um novo pacto de solidariedade e maior grau de mecanismos de responsabilidade (accountability).MARE. onde os indivíduos. e RIBEIRO.R. a pauta de reelaboração do universo de valores. atuava sem regras e com lógicas próprias. Fed.L. Reforma do Estado e o Contexto Federativo Brasileiro. Rural. BRASIL.M. O setor de saúde suplementar operou por mais de trinta anos fora da esfera de controle do Estado. Brasília. Ministério da Saúde. (orgs. M. E. 1995.

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