Sob o olhar do corvo branco Quem eu sou? De onde vim? Para onde vou?

Tantas questões cuja resposta se encontra enterrada nas profundezas do meu ser. Já não sei nada! Já não tenho certeza de nada. Porque estou aqui? Não era aqui que eu queria estar. Mas onde queria eu estar? Não era esta “coisa” que eu queria ser. Este lixo desprezado pelo destino, fui abandonado pela minha própria natureza, já não sei o que sou, já não sei quem sou, já não tenho razão para existir. Como acabei assim? Não sei, não me lembro, estou fraco demais para pensar, estou fraco de mais para desejar, estou fraco demais para recordar… Só sei uma coisa… Tudo o que fiz, tudo, mas mesmo tudo foi por uma razão e… Embora não me recorde que razão foi, só sei que não me arrependo de nada! “Bank… Bank.. Tum! Tum!!! Tum!!!!!!” Que é isto? Quem sentimento é este? Algo mudou… Senti! Senti algo que não sentia à muito, muito, muito tempo… Será que vou acordar? Será que vou voltar a viver? Não que estivesse morto, não... Não era isso, eu não posso morrer é essa a minha maldição, estou condenado a viver uma vida que não escolhi mas ao mesmo tempo incapacitado de morrer… Não, isso também não é verdade, eu não quero morrer, eu quero viver! Quero viver! Foi essa a minha decisão há muito, muito tempo… Quero viver para encontra-la outra vez, quero viver para vê-la outra vez, para vê-la cantar e dançar outra vez com aquele olhar que desafia o mundo, com aquele gentil sorriso que ilumina a noite. Já me lembro, estou-me a lembrar… As minhas recordações estão a voltar! Foi por ela que fiz tudo o que fiz, foi por ela que acabei assim mas como já disse, foi por ela e não me arrependo de nada. Será que ela está bem? O que lhe aconteceu? Porque não fui eu contigo minha pequena e doce irmã? As minhas recordações… A minha força, a minha energia…. Está tudo a voltar… Eu estou a voltar! Um cemitério, Uma cerimónia à noite, uma fogueira, uma velha bruxa, a minha irmã doente, uma humana assustada, uma pedra, um acordo… Está tudo a voltar! A velha a cantar, a rapariga a morrer, e o meu coração a animar… Está tudo a voltar… Estava tudo a correr como planeado, a minha irmã ia ficar boa, ela estava a melhorar, nós íamos ficar bem, íamos poder voltar para casa… Finalmente ia tudo acabar, a minha querida irmã poderia cantar e dançar outra vez, jamais precisaria de voltar a sofrer, a minha querida e doce irmã… Tudo o que eu queria era ter aquela imagem para sempre, aquela imagem que tanto me aqueceu o coração… A minha irmã a levantar debilmente a cabeça e a sorrir do fundo do seu coração com aquele sorriso que iluminou a noite… E foi então… Foi então que a maldita velha parou de cantar… Que aconteceu depois? Que aconteceu? Algo está a chamar-me… Algo me chama! Eu não quero ir, não quero… Quero lembrar-me! Quero saber! Onde está a minha irmã? Deixa-me em paz, não quero ir… Apenas quero ir ter com a minha doce e gentil irmã. Porque não me deixas? Quem és tu que me chama? Porque sinto que te devo seguir? Sabes onde está a minha preciosa irmã? Espera! Deixa-me ir contigo… Todo o meu corpo doía, há muito, muito tempo que estava adormecido… Há muito, muito, muito tempo… Movimentei-me devagar, apesar de algum poder ter voltado eu ainda me encontrava muito debilitado. Quanto tempo teria passado? Cada pequeno movimento era uma nova tormenta. Encontrava-me deitado numa superfície dura e fria, seria pedra? Devagar estiquei os braços e as pernas, flectindo e distendendo os músculos entorpecidos. O que teria mudado? Porquê renascer agora? O que me teria chamado? Respirei fundo, nada disso importava… tudo o que importava era onde estava a minha pequena e bondosa

irmãzinha… Devagar sentei-me e pela primeira vez em muitos, muitos anos, abri os olhos e olhei em volta. O cenário que vi era em tudo semelhante aquele daquela confusa memória, daquela afortunada e dolorosa memória em que eu vi, pela última vez, minha bondosa irmãzinha sorrir… Encontrava-me sentado numa lápide de pedra num sinistro cemitério. Era de noite, a lua cheia iluminava um cenário adornado por uma serie de grinaldas de flores que estranhamente alegravam a paisagem. Velas se revelavam como pequenos pontos de luz brilhante ai deixados para guiar as almas perdidas para o mundo mais além. Foi então que a vi parada no meio do cemitério qual fonte de vida no meio de um mar de morte. Ela! Não a minha irmãzinha, não. Mas sim o meu pecado reencarnado. Mas sim ela, ela a pobre rapariga humana que morreu naquela noite desafortunada. Como pode isto ser? Como pode ela não estar morta? Já se tinham passado mais de cem anos e eu tinha-a visto desfalecer, eu tinha-a visto caída por terra, não a terei visto morrer? O que aconteceu naquela noite triste e alegremente amaldiçoada? Ela olhou enigmaticamente para mim, pareceu hesitar mas não demonstrou medo. Não me reconheceu, talvez não fosse ela, talvez a minha memória estivesse confundida e no entanto porque sentia eu que estava penosa e irremediavelmente ligado a ela? A rapariga deu um pequeno passo à frente e olhou ao seu redor como que a certificar-se do local em que se encontrava. Depois de alguns momentos voltou a olhar desconfiada para mim. - Foste tu que me chamaste? – Simplesmente perguntei àquele fantasma renascido. - Chamei? – Respondeu uma voz de cristal surpreendida, uma voz que tanto assombrou os meus pesadelos, uma voz que me fez recordar de tudo, e de quão desafortunada foi aquela triste noite longínqua em que eu vi a minha irmã pela última vez sorrir… Uma voz que me fez lembrar que eu estou amaldiçoado a ser a MALDIÇÃO.

1 O dia estava radioso. O Sol brilhava intenso no céu azul revelando à nossa volta uma paisagem verdejante. Os velhos terrenos de cultivo abandonados estendiam-se por quilómetros ao longo do rio. Á sua volta precipitavam-se pequenos montes rochosos nos quais despontavam alguns carrapiteiros e sargaços que caracterizavam a paisagem. Tínhamos escolhido um bom dia para ir passear. A minha irmã mais velha Alex encontrava-se perto de algumas Oliveiras acorrentando as bicicletas umas às outras para que nenhum engraçadinho se lembrasse de esconder alguma. Vivemos no meio de lado nenhum e o “Tordo”, onde nos encontrávamos, é a capital das terras do fim do mundo, mas nunca se sabe, e pelo sim, pelo não “Mais vale prevenir do que remediar…” O meu pai dirigia-se para o moinho abandonado à nossa frente, eu segui-o de perto como sempre fazia quando íamos passear para o campo. O moinho era velho como todos os outros. A levada ainda corria, mas via-se que já não era utilizada havia muito tempo, pois as ervas e a sujidade acumulavam-se obstruindo a passagem da água. Segundo o meu pai, este era um dos moinhos que se mantivera activo até mais tarde, mesmo assim, eu nos meus dezanove anos não me lembrava de alguma vez o ter visto a trabalhar. - Olha Margarida, este ainda tem as pedras da moagem… - disse o meu pai gravemente. Rime. - Parece que ainda não foi desta - Sorri - o pai diz isso sempre que agente aqui vem e as pedras estão sempre no mesmo sitio… Elas não tem pernas para correr daqui para fora, sabia? – Brinquei. O meu pai fez cara de poucos amigos, mas os seus olhos sorriam e eu sabia que ele não tinha levado a mal a minha pequena brincadeira. Como na maioria dos moinhos da região a porta já não existia e o chão estava caído. Apesar de tudo, isso não importava, bastava a memória das pessoas que ali tinham trabalhado tentando ganhar a vida, para dar um brilho de beleza ao local. A nossa família também possuía um moinho. Quero dizer… Mais ou menos, visto que através das diversas gerações ele foi sendo repartido pelos vários herdeiros, e como poucos tinha querido abdicar do seu quinhão, agora ele pertencia a cerca de nove famílias. Pensando bem, que interessa? Para mim ele é e sempre será o nosso moinho. O nosso moinho era o segundo a contar do inicio da estrada de terra e secretamente o meu preferido… Ficava do outro lado do rio. Deste modo, para se chegar perto da sua entrada, tinha-se de saltitar de pedra em pedra, numa ponte improvisada que os meus antepassados tinham construído. Quando pequena, este difícil acesso aterrorizava-me e o meu pai tinha de me levar nas suas costas para o outro lado do rio. Agora eu achava-o sublime, e adorava sentar-me na pedra central observando a água corrente. - Vocês os dois despachem-se! Ainda temos muito que andar até chegar à nascente do rio – chamou a minha irmã acordando-me – não espero por molengões. - Eu já te dou os molengões… - protestei enquanto me dirigia para o local onde ela se encontrava, tentando desviar-me com todo o cuidado das possas de água dissimuladas pelas ervas. - Pois, pois “ florzinha”, com se fosses capaz de me acompanhar… - És sempre um amor, mana fofa!!! Corri para tentar apanhá-la amaldiçoado os saltos altos que tivera preguiça de trocar antes de sair de casa… Mas estava feliz, tudo estava bem. Tudo ia ficar bem para sempre. Ali, naquele momento nenhum mal me podia atingir, porque eu ainda podia correr ingenuamente apreciando as belezas do mundo, com as minhas botas preferidas arruinadas, mas estava tudo bem.

mas com os quais eu podia contar. Eu quase podia imaginar Titânia. Foi então que reparei em algo que me chamou a atenção.Sim. a percorrer aquele efémero tapete branco em direcção ao outro mundo onde todas as criaturas mágicas habitavam. grito por tudo e por nada. Como seria bom se todas essas histórias se pudessem tornar realidade e eu pudesse ser a heroína de uma delas. Era estranho ver corvos selvagens pousados em locais tão baixos e tão perto das pessoas… Como se pressentisse o meu interesse. Tinha uma irmã chata e “com muitos defeitos” mas que era a minha maior cúmplice.Uau!!! O rio com certeza está lindo… – Suspirei animada pela beleza que se estendia à minha frente.Então maninha… Não sejas assim. Do outro lado do rio. e na realidade eu era feliz. Não é que me assuste. Ignorei-a enquanto se afastava a passadas apressadas na direcção do meu pai. e eu adorava-a. Tinha amigos do coração que passavam metade do tempo a meter-se comigo e a outra metade a gozar. uma heroína de botas arruinadas e que sempre acabou por ficar para traz… Suspirei sentindo-me frustrada. o corvo abandonou repentinamente o seu trabalho e olhou directamente para o local . estava… Mesmo engraçada. mas não consigo evitar emitir um certo número de gritinhos histéricos que eu preferia reduzir para um número muito menos significativo. Que mais podia eu querer? Tinha uma família que não era perfeita mas que me adorava e fazia tudo para me dar um futuro e me apoiar. Que saudades de acreditar em histórias infantis. que não me encaixava perfeitamente? Que me faltava qualquer coisa? Que me faltava qualquer coisa que eu não sabia o que era… Porquê? Abanei a cabeça tentando afastar estes pensamentos sombrios.. a rainha das fadas. porquê? Porque sentia eu. apetecia-me apreciar aquela paisagem mais alguns segundos antes de ir ter com eles. Bom. ela era a minha “Parva” adorada. tudo bem – replicou a minha irmã dirigindo-se na direcção da sua voz – parece que a nossa Margarida não queria ir dar um mergulho… .. que tal um mergulho? – Coaxou a Alex junto ao meu ouvido ao mesmo tempo que me empurrava. Este é mais um dos meus grandes defeitos. onde um reino de magia existe e pessoas comuns se podem tornar em heróis. Não estava chateada com ela. O rio estava completamente coberto por umas magníficas flores brancas e eu não me cansava de olhar para elas. Já caminhávamos há mais de meia hora e a paisagem continuava a maravilhar-me. . Tinha tudo para ser feliz. E o gritinho… Foi mesmo de mais. . e de onde por vezes fugiam em direcção à terra para interferir nas nossas vidas humanas apenas por divertimento..Meninas! Está tudo bem? – Gritou o meu pai soando enervantemente despreocupado algures lá na frente. . numa oliveira enegrecida pela passagem do fogo há muitos anos atrás.Claro que está! E já que gostas tanto. Contudo fiquei para trás. A luz do sol reflectia-se nas pétalas brancas sobre o rio criando uma atmosfera mágica à minha volta.Parva! . devias ter visto a tua cara. Mas… Mas porque desejava eu algo mais para além do quotidiano? Eu desejava… aventura. estava um corvo magnificamente pousado alisando as penas. na realidade brincadeiras como aquela eram quase um ritual entre nós desde que éramos pequenas. não me deixando cair dentro da água. já fora do meu campo de visão. por vezes. Gritei enquanto ela desatando às gargalhadas me segurou no último instante.

– Fiz uma pausa e suspirei – O 1 No interior do país as pessoas costumam apanhar crias de corvos que criam desde pequenos. porque eu um dia questionei-me acerca do que aconteceria… Sentiria medo? Ficaria assustada? Ou ficaria irritantemente indiferente? Ao início não dei muita importância a estas questões. deixa para lá.Aprecei o passo na direcção deles ainda com o coração a martelar dentro do peito e os pelos todos arrepiados. ****** Foi numa sexta-feira. Penso que a maior parte das pessoas encararia esta questão como sendo absurda. Geralmente são tratados como animais de estimação e são mantidos soltos na casa dos seus donos. O dia á muito que tinha acabado. ele sabia o quanto eu detestava aquele nome – Se calhar perdeu-se… . a minha irmã e o meu primo André de Lisboa dirigíamonos para casa depois de um pequeno ensaio de teatro. achas que aquele corvo fugiu de alguém?1 . Pareceu-me que me fixava com os seus olhos inteligentes.Isso era mesmo radical! .Tá! Tá! Já percebi a mensagem! Esperem aí um segundo por mim… . – Acabei por responder.Acrescentei baixinho olhando novamente para o local onde o animal… Já não se encontrava. no entanto. queres ir? – Perguntei sorrindo – Ouvi dizer que o cemitério daqui tem sempre a porta aberta. não se via nada á nossa volta com excepção da pequena porção de estrada iluminada pelos faróis do carro. pois já se afastara mais do que eu esperara. como se soubesse que eu estava interessada nele. que eu vivi a minha pequena aventura.Mas eu quero ir – insistiu o meu primo – isso ia ser mesmo fixe. mais para mim do que para qualquer outra pessoa . . mas tu não pareces normal! – Elevei a voz – Oi Alex. a flor? Onde é que anda a flor de estufa? – O meu pai soava irónico.Deve ser só a minha imaginação… .A sério. como eu fiz? Sim. Afinal que tinha aquilo de especial? . como se estivéssemos numa discoteca e não num carro a caminho de casa.Então. mas a verdade é que muitas pessoas temem aquele local. Olhei automaticamente na direcção onde ela se encontrava. Qual é a pessoa normal que se assusta por causa de um pássaro esquisito e no entanto decide ir ao cemitério à meia-noite só para ver se tem medo.onde me encontrava. por isso muitas por vezes fogem ou simplesmente vão voar para outro lado.Quê? Não percebi? – Gritou a minha irmã de volta. O rádio ia a “bombar” e eu e o meu primo agitávamo-nos ao ritmo da música. eu temia a minha resposta porque eu queria ser normal. lol .Nada. Arrepiei-me até aos ossos mesmo sem saber porquê.E se fossemos ao cemitério dar uma volta? – Perguntei maliciosamente para o meu primo. – Isto é sinistro! – Murmurei baixinho arrepiando-me – eu gosto de corvos. eram dez para a meia-noite e eu. Estes corvos tornam-se “mansos” e não têm medo das pessoas. pois nesta zona da freguesia não existia iluminação de rua a não ser a que era fornecida pela lua e pelas estrelas. . os fantasmas não deixam fecha-la… A minha irmã riu – Está-se mesmo a ver… Para lá de dizer coisas estranhas ao miúdo… . . Era noite serrada. Queria descobrir-me a mim própria um pouco mais. mas elas perseguiam-me querendo arrancar-me uma resposta. “Eu não sou mesmo normal” acabei por admitir para mim própria. a minha verdadeira resposta e eu queria saber. porque eu não sabia. tentando assustá-lo.Deixa lá primo a minha maninha não conhece o prazer do terror! – Suspirei e aproximeime dele sussurrando-lhe baixinho ao ouvido – A verdadeira história não é tão irreal como fantasmas. .

Sei que se não fosse pelo receio do nosso primo ela nunca teria saído do carro. agora estás com medo? Isso não parece teu! – Repreendi-o.Não Margarida! Volta… . . sorri maldosamente para o meu “público” e saí enérgica dirigindo-me aos saltinhos na direcção do portão. vamos? O meu primo olhou receoso para mim.Não Alex espera! Não vás tu também! – Gritou novamente o meu primo nas minhas costas.Então que faço? Vou para casa.. . ou passo por lá? . tentando incita-lo a continuar. O medo dele divertia-me. acho que já não me apetece ir… .A minha irmã estava a ser mazinha deixando-o para trás. mas ela sempre foi e sempre será uma bruxinha… . sozinho e assustado. Não existia luz de rua. deste modo as pequenas velas que as pessoas tinham deixado acesas . apenas continuei saltitando em direcção ao cemitério como se fosse uma pequena criança amaldiçoada em algum filme de terror.antigo portão existente na entrada era automático e as pessoas tinham medo de ficar presas no cemitério que por vezes se fechava antes da hora prevista. O André suplicou que regressasse-mos. O rádio começou a falhar como sempre fazia em zonas menos expostas e eu quase me alegrei por a Aléx ter partido a maldita da antena. . não pensara que eles alinhassem.a minha irmã sibilou alinhando . não ia parar agora.Então primo.Eu vou. Não fiz nada. parece que vamos – disse triunfantemente enquanto a minha irmã virava para uma velha estrada de calçada irregular que nos levaria ao nosso destino. o povo vandalizou propositadamente o portão. mas acabou por concordar acenando com a cabeça. além disso eu não ia parar agora. – Não me deixem aqui sozinho… . colocando pedras entre a ombreira e a porta de ferro de modo a que quando ele se tornasse a fechar avariasse e nunca mais aprisionasse ninguém dentro dos seus sinistros muros.Esperem! Eu vou com vocês! – Acabou por assentir o meu pobre primo saindo aterrado do carro.gritou o meu primo de dentro do carro visivelmente assustado. Olhar para a sua cara assustada era demasiado divertido. saí do carro… .Se calhar é melhor voltarmos para trás. e num tom sussurrante mas perfeitamente audível aquela distância acrescentei – podes sempre vir connosco… . mas não lhe liguei. Assim. não tinhas dito que ia ser radical? . Agora permanece sempre aberto à espera que algum inculto se atreva a entrar nos seus domínios a horas desapropriadas. não queria desperdiçar aquela oportunidade.Oi Alex..Que dizes primo. . Por alguns momentos ficamos todos calados ponderando o que fazer a seguir. . mas agora que estava tão perto eu queria entrar. Olhei à minha volta. O olhar do meu primo pareceu duvidoso. mas não entro – disse ela cautelosamente enquanto surgia ao longe o muro pálido do cemitério.Já vi que vocês os dois estão entusiasmados… . Pelos vistos a minha irmã também se estava a divertir.Não tens de ficar sozinho… .Chegamos! – Anunciou a minha irmã parando o carro – Quem vai primeiro? Eu olhei para o meu primo sorrindo.Sibilei maleficamente olhando para trás. Deu alguns passos na nossa direcção mas rapidamente ficou paralisado sem se conseguir afastar da segurança relativa que jipe representava.Então primo. – Então. o cemitério de noite não era parecido a algo que eu alguma vez tivesse visto. a música continuava a tocar animadamente abafando qualquer ruído que pudesse vir do exterior. Quando fizera a proposta de ir ao cemitério não fora a sério. para depois se fechar e aprisioná-lo para sempre. Eu fui a primeira a reagir. eu que não queria vir. Eu e a Alex olhamos cumplicemente uma para a outra e entramos no cemitério a rir a bandeiras despregadas. . aprisionando os seus visitantes. – Não gosto disto. O meu primo estremeceu com a minha pequena brincadeira e eu deliciei-me apreciando o efeito que a minha história parva tinha produzido nele.

Apeteceu-me fazer-lhe o mesmo. A minha irmã conseguia sempre surpreender-me. Já estávamos a levar aquela brincadeira demasiado longe. e símbolos religiosos como se simplesmente estivesse a dar um passeio. Fiquei instantaneamente petrificada mas estranhamente continuei sem sentir medo. pareceu-me vislumbrar um pequeno clarão que se reflectiu durante alguns segundos.riu a minha irmã. também não sentia medo ou receio. Eu simplesmente não sentia medo ao percorrer sozinha. Era um rapaz. . Era como se estivesse a visitar um distante jardim secreto só meu. tudo era igual. aquele vulto não podia ser a minha irmã. Ouvi a minha irmã chamar-me dizendo que ia voltar com o meu primo para o carro. Caminhei durante alguns minutos atravessando todo o cemitério. Passei por campas. A minha irmã voltara do carro e trouxera a lanterna com ela. Dirigi-me à campa da minha avó e quase sorri ao olhar para aquele estranho canteiro de flores artificiais que despontava sobre a pedra maciça alegrando tristemente a paisagem.É melhor irmos embora. dirigindo-me para uma zona mais profunda do cemitério. porém. Acenei-lhe mas continuei. Isto era estranho porque eu não tinha medo. as mesmas flores as mesmas ruas. Como se me tivesse ouvido aproximar. outra bem diferente era esperar por mim sentada numa campa. estava a tentar pregarme uma partida. mas era impossível distinguir-lhe o rosto. isso não ia resultar. o cemitério à noite…” A minha resposta desapontou-me. mas decidi não o fazer. “não. ele devia estar completamente aterrado. se calhar estava à espera que eu pensasse que ela era uma alma penada que viera propositadamente do outro mundo para me amaldiçoar. ao longe. dirigindo-me a uma zona que já não me era tão familiar. Sei que o que vou dizer é estranho mas aquela paisagem indistinta apenas iluminada pela lua e pelas velas atraía-me. o meu primo tinha parecido realmente receoso e com o meu desaparecimento dentro do cemitério. além disso eu já tinha descoberto o que eu queria descobrir. para lá da capelinha numa zona mais antiga e menos profunda. a única diferença é que era de noite. o seu cabelo parecia claro à luz do luar e podia dizer-se que não estava cortado curto. Decidi penetrar mais um pouco no cemitério. não sei. Foi ao aproximar-me que me apercebi que algo não se encaixava naquele quadro. apetecia-me explorar. não tinha medo. Foi então que reparei num pormenor que captou a minha atenção. Tudo estava apenas igual. Resolvi voltar para traz dirigindo-me ao local onde me parecera ver a luz e onde supunha que a minha irmã se encontrava.em memória dos seus parentes defuntos. Segui um dos corredores que tão bem conhecia dirigindo-me para a zona Leste. as mesmas campas. Ao longe pareceu-me ver um vulto sentado numa das campas perto do corredor principal. eu não era pessoa para me assustar com tão pouco. ignorei-a e continuei o meu caminho. sobressaíam na paisagem como pequenos pirilampos iluminando estaticamente a noite. bom de uma maneira estranha. era mais como se um aparte de mim estivesse exultante por o ver. Não imaginava eu na altura o quão ironicamente perto da realidade aquele pensamento se encontrava. desaparecendo em seguida. tentar arranjar uma maneira de lhe pregar um susto. jazigos. . eu simplesmente não era normal mas talvez isso fosse bom. o vulto levantou a cabeça e olhou directamente para mim deixando que o capuz lhe escorregasse suavemente para os ombros. Sorri para mim mesma. como se ele fosse alguém de um passado distante que eu estava agora a reencontrar. Eu já não sentia o divertimento que me levara até ali. Agora eu já tinha a minha resposta. Olhei à minha volta. decidi. tudo estava simplesmente igual ao que sempre fora. Que local sinistro para se esperar por alguém! Uma coisa era entrar no cemitério. ela não tinha uma capa nem era tão grande. o puto está ficar mesmo assustado… .

****** . uma parte que me visitara em sonhos quando criança e que conversara comigo como se fosse um ser independente. Decidi aproximar-me para ver melhor. Sei que ele não me fez mal porque fui eu que regressei ao carro andando normalmente. Será que desmaiei? Será que foi tudo um sonho? Não sei. Nesse momento algo mudou. e eu a rainha dos lobisomens.Não é nada… É só que… Está um corvo a voar no céu! – Levei a mão ao peito e tornei a perder o meu olhar naquele ponto escuro que descrevia círculos lá no alto. Não tenho qualquer recordação do seu rosto que tanto terror me provocou. certamente que o reconheceria e a curiosidade era mais forte do que qualquer outro sentimento que eu pudesse ter na altura. começando a esconder-se atrás do horizonte.Margarida? . seria ele um fantasma? Sim. aquela pessoa não era a minha irmã e eu já não queria descobrir quem era. Assustei-me ainda mais. Preparei-me para correr o mais depressa que conseguia. Levei a mão ao peito e apertei o meu cristal protector. Os seus olhos continuaram a fixar-me inexpressivamente. Perdera o meu pingente azul que me protegia da voz que só eu ouvia. apenas queria sair dali. .Margarida! Está tudo bem? – Chamou o meu pai captando a minha atenção. junto das nossas bicicletas que ninguém tinha conseguido esconder. Longas horas se tinham passado e o sol já ia baixo. A estranheza de toda aquela situação misturavam-se com sentimentos que não era meus. Aquela situação já tinha passado qualquer barreira de tolerável. Algo de que me quero lembrar. mas talvez seja melhor assim. como se de repente algo inexplicável o tivesse atingido deixando-o em sofrimento. poderia ser que eu conseguisse correr suficientemente rápido para sair dali sem ser seguida. nem do que aconteceu depois que ele se aproximou de mim. aquela cena parecia surreal e no entanto eu estava ali. Lembro-me de levar a mão automaticamente ao pescoço e sentir o meu peito vazio no local onde o meu colar protector deveria ter estado. Uma voz que me encheu de um pavor irracional pela primeira vez naquela noite e que ao mesmo tempo me aqueceu o coração num sentimento inexplicável. Encontrávamo-nos de regresso. . . mas mesmo assim aquilo era tudo menos uma situação normal. Um novo medo invadiu-me e este era sem dúvida completamente meu. Foste tu que me chamaste? – Perguntou numa voz que não reconheci. Como se adivinhasse os meus pensamentos o estranho tornou a olhar para mim e levantouse caminhando na minha direcção.Que parvoíce! Como poderia eu pensar assim? Ele era um estranho e estávamos num cemitério. A partir daqui todas as minhas memórias encontram-se enevoadas. Olhei em volta apenas para me certificar em que lugar me encontrava. mas que ao mesmo tempo me pareceu familiar. Sentimentos de um pavor desproporcionado em que eu receava a morte que me era induzido por uma esquiva parte de mim. apenas me recordo de uma mistura de sentimentos que me atingiram num turbilhão quando olhei para o rosto dele. manchando as pequenas nuvens de algodão ao longe de um laranja avermelhado. o rapaz à minha frente baixou o rosto e ficou hirto durante alguns segundos. Dei um passo na sua direcção. eu conhecia quase toda a gente da região. mas penso que não… Sei que há algo de que não me consigo lembrar.Chamei? – Admirei-me surpreendida por toda a estranheza daquela situação. pareceram-me azuis mas no meio da escuridão era impossível dizer. o carro não estava longe e com o efeito do “elemento surpresa”.

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Não é que ela o fizesse por mal. – Eu trouxe o bolo no último ensaio… . pois eu sei que não o fazia. . O ensaio já tinha acabado e estavam todos a comer o bolo que naquele dia tinha competido à Ana trazer. – Não! – Repeti uma última vez. enquanto se aninhava nos braços dele. Quem trouxe o bolo da última vez foi a tua irmã. . Oi! Já estamos todos a sair. Ela tinha sido comprada pela minha irmã. não. mas sempre que ela dava estas “escapadinhas”. O meu problema residia no seu total alheamento em relação à realidade quando estava com o Luís.Já não está – Replicou a Ana enquanto arrumava o prato do bolo – Ela saiu há já algum tempo. Sejamos francos.A Tânia soava teatralmente indignada – não. Espreguicei-me enérgica e continuei o que estava a fazer. tu trazes para o próximo ensaio.Exclamei indignada respondendo à pergunta dela e tentando simultaneamente negar a informação que me tinha sido transmitida – Não! . nunca ouvia as minhas tentativas de a contactar. iria chegar exactamente no momento em que estaríamos a ir embora.Olha. compreendi frustrada. . não é Alex? – Perguntou relanceando à sua volta. Aliás. onde era o seu lugar. O meu problema não tinha nada a ver com o facto de ela se ter baldado ao ensaio para ir namorar.Margarida! Margarida! – A Roxy interrompeu os meus intricados pensamentos. .Voltei a dizer. acabei por lhe mandar uma mensagem que dizia “Oi. Li ansiosamente: “Fui namorar com o Luís. Tirei apressadamente o telemóvel do bolso e reparei no sinal de mensagem. . A Tânia e a Ana entreolharam-se e olharam novamente para mim com compreensão. – E se o caderno diz que é a tua vez é porque é a tua vez.Para a semana quem traz o bolo é a Margarida. . Beij. vem me buscar o mais rápido possível. mas se ela me viesse logo buscar.O quê. quando estiveres despachada avisa para eu te ir buscar. Bom. por alguma razão. Para não falar da estranha incapacidade de ouvir o telemóvel que se apoderava dela.Mas fui eu que o. Ela não te disse nada? . – Disse a Ana e ambas continuaram o que estavam a fazer. eu outra vez? – Interroguei indignada enquanto guardava uns pratos coloridos dentro da respectiva caixa.” Imaginei-me a bater-lhe. olha! Uma flor a tentar enganar-me.Sorte. quem é que vai ligar muito ao telemóvel quando se está à espera de uma chamada que irá arruinar o nosso encontro perfeito? A minha irmã não é de certeza absoluta… Enfim.Não! . Empilhei duas caixas já amarrotadas pelo uso e carreguei-as aos tropeções por causa do peso até perto do cabide da roupa. temos de chegar juntas a casa. Como pensara a mensagem era da minha irmã e já podia adivinhar o que dizia. – Vais à festa no Sábado? . não era bem verdade. Alex? – Tornou Tânia a chamar enquanto o silêncio se perpetuava nos nossos ouvidos – Onde está a tua irmã? . Beijocas”. foi ter com o Luís. eu acabava sempre à seca à espera dela porque. – Respondi – Ela não estava a falar com a Ana? ..O caderno não mente – cortou-me sorrindo maliciosamente enquanto se atrapalhava a guardar o livro de anotações demasiado depressa. ela nem sequer fazia parte do nosso elenco.. mas desta vez sou mais como um lamento. Não podia acreditar no que me tinha acabado de acontecer.Não sei. Tinha de verificar se todos os adereços haviam sido arrumados nos respectivos lugares e se eu bem conhecia o nosso pequeno grupo de actores ainda tinha muito que arrumar.2 .

Afinal de contas sempre vais à festa no sábado como querias. não é? . que tal convidar o resto do pessoal e sairmos todos juntos. não vais? – A Roxy perseguia-me alegremente tentando captar a minha atenção. eu tenho a certeza que a tua irmã também quer ir! “Claro que quer. Era bom ter pessoas contentes à nossa volta. Quando lá chegamos já todos tinham entrado e o Senhor Tomás. Continuei a sorrir e a acenei enérgica despedindo-me dos meus amigos que se afastavam na carrinha a caminho de casa. eu preferia ir de carrinha. ela já deve estar a chegar… – Respirei fundo.É melhor vires também – alertou-me – o pessoal já está todo na rua. Vens connosco na carrinha? . Sorri para comigo mesma e comecei a verificar a última caixa. afinal de constas tu consegues arranjar sempre tudo.Pois. . . Vá lá – Colocou-se à minha frente e obrigou-me a olhar para aqueles olhos grandes e castanhos – Vá lá.A tua irmã não está aqui e além disso tenho a certeza que arranjas qualquer coisa. – Respondeu olhando para os pés – è que assim os m eu pais não se importam que eu também vá… . Mentir é feio mas eu não podia deixar que o Senhor Tomás ficasse preocupado comigo. Vais. . a minha irmã vem me buscar.É! – Confirmou ela com um ar triunfante que só ela possuía.Obrigado Margarida! – A Roxy saltou-me para cima e deu-me um abraço rápido – Obrigado! Obrigado! Obrigado! Vou já perguntar aos outros.Vá! – Pisquei-lhe o olho . – Concedi – Melhor.. Respirei fundo resignando-me e respondi.Pois… É. – Podes ir sempre onde queres. Assim que se afastaram o suficiente para me tornar invisível na escuridão suspirei e o meu sorriso apagou-se. . onde? – Voltei para traz e fui buscar mais duas caixas que ainda faltavam .Aquela rapariga não parava de tagarelar. sorri tentando parecer despreocupada e acrescentei – Não se preocupe Tomáz. um grupo grande é mais giro? . ainda tinha de verificar os adereços da terceira cena. resolvi interrompe-la.” Pensei para comigo mesma e arrastei uma mão pelo cabelo. É um baile de máscaras. o nosso “motorista”. Acompanhei-a até à carrinha enquanto telefonava à Alex que ainda não tinha dito nada. . .Que sorte ter carta. Aquela seria mais uma oportunidade perfeita para ela desaparecer e ir namorar com o Luís. não é? . quando queres… Mal posso esperar para fazer dezoito anos e… . até para a semana. os da primeira e da segunda já estavam todos – Não tenho nenhum disfarce… – Parei por um segundo e limpei o suor da testa – Além disso. . já se encontrava no banco da frente rodando a chave para ligar a ignição. eu levo. ele já tinha coisas que chegue com que se preocupar.Queres que te leve.Em Sobralverde.Vá. há um concurso. – Disse ela com ar sonhador.Não sei… – Acabei por responder embaraçada. Desliguei irritada a chamada e falei mais alto para que todos me pudessem ouvir – Sim vou com a Alex. . olhando à volta como que a procurar o nosso jipe vermelho.Hum? – Perguntei desnorteada – Sábado.Não. tenho de falar primeiro com a minha irmã.Vais com a tua irmã? – Perguntou-me com ar preocupado. . – Resmunguei baixinho enquanto era atendida pela senhora simpática do voice-mail que me pediu para deixar mensagem.

e confirmei expectante que não se encontrava ninguém naquela praça pouco iluminada. não compreendia porque é que aqueles dois continuavam a namorar às escondidas. divertida e trabalhadora. Encolhi mentalmente os ombros e procurei um sítio para me sentar. Olhei à minha volta. Mais à frente. Aliás. Em baixo existia uma pequena capela pintada de branco onde actualmente apenas se realizava missa em dias festivos. o facto de não ter nada para fazer associado à incerteza de quando me viriam buscar quase parava o tempo naquela pequena praça longe da civilização moderna. decidi jogar um pouco no telemóvel. mas fui atendida pela mesma senhora que me disse para deixar mensagem. havia dois pequenos canteiros abandonados que serviam de enquadramento à capela. mas conforme olhava mais atentamente comecei a distinguir uma mancha escura que descrevia círculos alargados no céu por cima da praça. não imaginava qualquer razão para que os meus pais não aceitassem o namoro deles. senti-me observada e uma onda de desconforto que não me acometia desde as primeiras vezes que tinha ficado de noite na rua sozinha. As pessoas é que fazem mal a outras pessoas. não era o melhor dos passatempos mas sempre dava para matar o tempo. Pelo menos enquanto tentava encaixar os blocos dançantes que caiam no visor. Voltei a telefonar-lhe. . Era óbvio que os dois se adoravam e além disso o Luís era uma pessoa respeitável. Quero dizer. Fechei o fecho do casaco de sarja preto que usava por cima de um top cor-de-rosa rendado e continuei à espera aborrecida. e apesar do bolo que comera não fazia muito tempo o meu estômago reclamava com uma sensação de fome gelada que eu não conseguia definir. Bolas! Eu só tinha de ficar ali. nem com pássaros que decidiram aparecer do nada e desaparecer sem serem vistos. De repente ouvi um bater forte de asas mesmo por cima da minha cabeça. Os segundos arrastaram-se como se fossem anos. cuja fachada indistinta à luz do luar parecia puída pela passagem das estações. o tipo de genro que qualquer pai queria ter. Alegrei-me um pouco. Em volta de toda a praça existia ainda um sem número de outras construções associadas à capela.Ia matar a minha irmã quando ela chegasse. Olhei instantaneamente para cima mas apenas vi os ramos retorcidos do carvalho por cima da minha cabeça. A princípio não vi nada. não me preocupava com pessoas terceiras que se tinham esquecido de me ir buscar. sem querer saber quanto tempo se tinha já passado. Encontrava-me numa espécie de praça calcetada rodeada de edifícios. de noite à espera para a encobrir e ao seu namoro secreto com o Luís. como se um pássaro errante tivesse acabado de levantar voo. namorem à vontade e não contem a ninguém. estava velha e encardida mas era respeitada pela pouca população local. mas não me estejam sempre a arranjar chatices e problemas. Os únicos sons audíveis era o gritar tranquilo dos grilos e o sussurrar do vento nas folhas de um pequeno carvalho de sombra ao qual me encostei. Resolvi sentar-me num pequeno abrigo de metal redondo utilizado para vender rifas na altura das romarias. Resumindo. apoderou-se de todo o meu corpo. Doíam-me o rabo em contacto com o metal duro e frio. No momento em que lutava para encaixar um cubo mo meio de uma construção de formas esquisitas comecei novamente a ouvir um bater insistente de assas por cima do canto barulhento dos grilos. Impaciente. aí despontavam alguns lírios azuis rodeados de ervas secas que corajosamente sobreviviam ao abandono. Não sei porquê. assustado por um fantasma invisível. “Provavelmente foi só uma coruja ou um morcego” pensei para comigo mesma “nada de especial”. Olhei novamente à volta. Preferia estar completamente sozinha à noite do que estar rodeada de estranhos. a escuridão só por si não faz mal a ninguém.

aquela situação já se estava a tornar demasiado esquisita para o meu gosto. mas os meus olhos adquiriram vontade própria e mantiveram-se pregados no ponto indistinto que manchava o céu de uma tonalidade mais escura. nada na noite mudara a não ser aquele novo vento gelado que me penetrara até às entranhas. voou rasante à minha . um som que eu sabia não pertencer à noite. deslocando-se perigosamente rápido na minha direcção. Nesse instante desfez-se no ar um som que eu preferia não ter escutado. Os corvos não voam durante a noite. Levantei-me e comecei a percorrer a praça incapaz de ficar quieta sob o olhar ubíquo daquela ave sinistra. Perscrutei novamente o cenário à minha volta mas apenas distingui as mesmas sombras e vultos meio indefinidos que já anteriormente me rodeavam. No cimo da torre da capela o corvo também parecia estar a observar-me. Era como se o corvo fosse uma ave de rapina e eu o pequeno roedor que ele pretendia transformar na próxima presa. O pássaro não pareceu incomodado. Outra vez um corvo? Naquela altura já andava a ficar paranóica com a ideia absurda de estar a ser perseguida por corvos. o crocitar forte e prolongado de um corvo. Por outro lado uma parte mais intuitiva e mais profunda do meu ser receava aquele pássaro avisando-me que ele não era de confiança. “que mal te pode fazer?” A resposta lógica surgiu automaticamente na minha mente sobe a forma de uma voz insistente que repetia “nenhum. Era quase como se ele fosse uma ameaça que me perseguia desde sempre e da qual eu não me recordava. pelo menos não tão tarde. “È só um pássaro” pensei. Respirei fundo e movi-me cautelosa na sua direcção como uma equilibrista a atravessar uma corda sem rede de protecção. Quando reabri os olhos compreendi apreensiva que o corvo não era apenas fruto da minha imaginação e assisti impotente enquanto ele pousava elegante na cruz alva da capela. que ele não era só mais um pássaro. Decidi aproximar-me da capela. Um novo “Cráaaaaa” prologado e profundo suou sobre o barulho sussurrante da noite. Passei com as mãos pelos braços numa tentativa de repelir o súbito arrepio que me percorreu todo o corpo. nenhum!”. a mancha indistinta subiu no céu pouco iluminado e perdi-o de vista. Era quase como se fossem uma premunição que me perseguia para me avisar de que tempos de tempestade se aproximavam.Após alguns minutos de voo interminável. Nada na noite se movia. que este pássaro em particular não era normal. Irritada comigo mesma e com os meus pensamentos alucinados parei no meio da praça e continuei a fixar aquele ponto escuro com a expressão involuntária de quem estava a olhar para uma alma penada. Pressionei-me contra o carvalho atrás de mim e fechei momentaneamente os olhos na esperança vã de me fundir com a noite e me esconder dos meus pesadelos de criança que naquela noite pareciam perseguir-me. tinha que provar a mim mesma que aquela sensação de frio que me percorria a coluna se devia à baixa temperatura e não a nenhum medo irracional. nenhum. . Não estava assustada. e me fitava com aqueles olhos escuros e inteligentes que na parca luz da noite eu não era capaz de distinguir. Desde aquele dia à beira do rio em que aquela sinistra criatura me fixara nos olhos que me apercebia da constante presença dessas criaturas de asas negras. Resisti teimosa ao impulso de fechar os olhos e colocar os braços em frente à cara e em vez disso permaneci muito direita e fixei o meu olhar naquele necrófago inoportuno. O meu coração disparou com a intensidade de um tambor mas eu tinha prometido a mim própria que não iria demonstrar medo. Era bom que a minha irmã se despachasse.Não tenho medo de ti! O pássaro negro crocitou-me um “cráaaaa!” longo e profundo como se estivesse a desdenhar da minha demonstração de coragem e desceu do topo da capela. olhando-me ininterruptamente como se me estivesse a avaliar da mesma que eu o avaliava.

. envolvendo-me nos seus braços calorosos. o cantar barulhento dos grilos e o sussurrar incessante do vento nas folhas. . Levantei-me impulsiva mas uma dor lancinante atingiu-me a cabeça.Não… Não tenho medo de ti. apenas existia a árvore atrás de mim. Será que não percebia o perigo que corríamos? Tínhamos de sair dali rapidamente. Já sabia onde eu estava. sempre! Ele já me encontrara. nunca mais. já não havia um lugar seguro. era demasiado perto. . . Caí para a frente e não fui mais capaz de me mexer. apenas corri.cabeça e pousou num dos canteiros ao meu lado sem nunca deixar de me fixar. Uma voz preocupado no meio da dor.Estás bem? – Uma mão aflita tocou-me nas costas – Estás bem? Hó! Por favor. nunca. diz-me que estás bem. Ri-me histericamente.Aí não? Não? Não? Cráaaaa! Nesse momento fiz a única coisa que sabia que tinha de fazer. abraçada aos meus próprios joelhos no meio de lado nenhum. E se ele viesse? Ele tinha vindo sempre. Encontrava-me encostada a uma pequena oliveira. rodearam-me os ombros e aquele toque suave transformouse num abraço apertado. Peguei trémula em várias madeixas de cabelo que me caíam ao longo dos braços e puxei convulsivamente. – Ele encontrou-me! Meu Deus. pássaro idiota! – Voltei a repetir teimosa enquanto tentava dominar o meu corpo rígido que não parecia querer obedecer-me . – continuou – Levantaste-te e bateste com a cabeça num ramo. Não sabia durante quanto tempo tinha corrido nem há quanto tempo deixara de o fazer. Não quero. Eu conhecia aquela voz. Aquele lugar não era seguro. demasiado perigoso. As mãos aproximaram-se mais. eu estou aqui contigo.Ele encontrou-me! Que vou fazer? Ele encontrou-me! Não quero morrer outra vez… Não quero. É só uma dor de cabeça.De que estás a falar? . voltei a tentar puxá-la mas ela contrariou o meu movimento aproveitando o impulso para me puxar na sua direcção. Não aguentava com aquele olhar que me observava até às profundezas da alma provocando-me a sensação desconfortável que bisbilhotava os meus segredos mais profundos. no meio do meu pesadelo. apenas sabia que não tinha sido o tempo suficiente para que eu pudesse sequer sonhar estar a salvo. Uma voz aparecera no meio do nada. Mas quem? Onde? Quando? – Só bateste com a cabeça. Tapei os ouvidos e concentrei-me apenas no som do meu coração que começou a abrandar lenta e obedientemente. A voz soava inquieta. . Enterrei a cara nos meus joelhos e comecei a chorar convulsivamente. Correr. Eu não podia ficar ali. O quê? O que é? Fugir! Tinha de fugir. **** A minha mente estava vazia. . -Flor está tudo bem. ficou apenas parada a observar-me com um olhar de censura. Ri-me. Tentei levantar-me para continuar a correr mas simplesmente não consegui.Porque não percebia ela? Tínhamos de fugir tínhamos de correr.Não! – Levantei-me de repente ignorando as dores no meu corpo e puxei-a por um braço tentando fazer com que ela saísse dali comigo. eu só tinha de fugir. Está tudo bem… Nada te pode fazer mal agora. ele encontrou-me! É perigoso muito perigoso… Ela não se mexeu. – A voz mudou para um sussurro meigo e todo o meu corpo estremeceu. Já sabia quem eu era. vai tudo ficar bem. Porquê? Porquê??? Porque é que por mais vidas que eu vivesse ele me encontrava eternamente? Algo tocou-me nas costas. das trevas e da solidão. Eu não tinha conseguido fugir. Tinha de fugir.

quem era eu? Eu era a sétima filha do conde Pereira. Depois aparecera aquele corvo sinistro que olhara para mim daquela forma que parecia espiar a minha alma. quem era eu? . “Tens de te manter afastada dele” Sussurrou uma voz dentro . para te fazer mal. Nenhuma das minhas seis irmãs tinha cabelo louro ou olhos verdes profundos.Tu és a minha irmã fofa. Ele olhou para mim.. Em seguida corvo falara e eu soubera que tinha de fugir. dissera ela enquanto beijava o cristal translúcido e o colocava ao meu pescoço com aquelas mãos defensoras e decididas. – De repente senti-me fraca. – Continuou a rapariga – A irmã que eu tenho de proteger. – Como podia aquela rapariga dizer coisas tão horríveis num tom tão doce? . e nunca nenhuma delas se atreveria a vestir calças… . a minha doce e bondosa flor.Mana? Hó! Mana… – Abracei-me a ela como se ela fosse uma bóia salva vidas e permitime relaxar durante alguns segundos. senti-me como se a conhecesse desde sempre e uma recordação dela muito pequenina a oferecer-me um fio com uma pedra azul e a dar-me a mão assaltou-me a memória. virando-me gentilmente a cara para que eu ficasse a olhar de frente para ela. ele sabe quem eu sou.Mas ele encontrou-me! Ele encontrou-me! Havia uma capela ele estava lá a olhar para mim. Mas. quem és tu? .Diz-me. tu própria o disseste. Tu sabes disso. Eu só tinha uma irmã gémea. – Larga-me! Larga-me! Em vez disso a estranha abraçou-me com mais força enquanto me sussurrava palavras doces ao ouvido. não sabes? .Eu sou… Eu sou… – Espera. não era isso. “Para te proteger dos sonhos maus”. tu tens de ir. Era como se me lembrasse do que acontecera em perspectiva.O quê? De que estás a falar? Temos de fugir… . Mas quem era ele? De quem é que eu devia ter corrido? Não estava lá ninguém. . Não. mas a jovem que olhou para mim pareceu-me estranha. Tu és a minha Margarida. uma irmã que eu adorava e me estava sempre a irritar.Chio… Ninguém vai morrer! – Sussurrou baixinho e abraçou-me com mais força – Não está aqui ninguém para te apanhar. Parecia que estava a acordar de um sonho mau. Tu morreste. Lembrava-me de estar irritada à espera da Alex. *** . . Ela não era a minha irmã. não estava lá nada para além do corvo… A lembrança do rapaz sem rosto que eu encontrara no cemitério inundou-me a cabeça como resposta às minhas próprias perguntas. A minha irmã correspondeu terna ao meu abraço forte e suspirou baixinho. Fugir dele. os meus joelhos fraquejaram e deixei-me cair sobre o meu peso e solucei lamentando-me – Ele vai matar-me outra vez! A minha irmã deslizou suavemente as suas mãos para o meu rosto. Só cá estou eu.Tu… Tu não és a minha irmã. Tudo ficara confuso e não recordo bem do que aconteceu. Estranhamente ela cheirava a casa. Tu não podes estar aqui. Apenas sabia que tinha de correr dele. Por favor volta para mim.A tua consciência não pertence a este mundo. Nessa altura foi como se um milhão de fantasmas me tivessem invadido o corpo. e um medo alheio se apoderasse de mim. Proteger-me dele. não sabes? – A rapariga continuou a abraçar-me com força . – Gritei enquanto uma rajada de vento gelado me atingia a cara. de ela não vir.Não.Sabes que tens de te ir embora. como se não tivesse sido eu a habitar o meu próprio corpo durante aqueles últimos momentos. Segundo a tradição eu tinha sido abençoada com o poder das fadas e tinha de proteger o povo de meu pai dos seres do outro mundo.

da minha cabeça. muito tempo quando a minha irmã me oferecera o colar que eu perdera… “Para te proteger dos sonhos maus”. Abracei a minha irmã com mais força e tentei controlar-me. – A Maria. . Não.Replicou tristemente retribuindo o meu olhar . repetiu aquela Alex pequenina dentro da minha cabeça.Ela voltou! – Constatei olhando a minha irmã nos olhos. a voz que só eu consigo ouvir voltou para me assombrar. Ela não existia. certo? Ela tinha sido só uma fantasia de criança.Sei… . Levei automaticamente a mão ao pescoço e voltei a sentir aquele espaço vazio onde o colar protector que a minha irmã me oferecera já não estava. Eu conhecia aquela voz. ela desaparecera à muito. . Ela desaparecera. não podia ser.

no final. Aquele era o seu jardim. tinha ainda tanto para fazer. A sua mãe vinha hoje. Maravilhada por aquela certeza desconhecida ergueu a mão ao pescoço e soube instantaneamente que estava a sonhar. Foi então que ela reconheceu o local em que se encontrava. cada árvore. A mesa era tão pesada. aquela que se localizava mais a norte e que raramente era utilizada. foi o que acabou por fazer. Suspirou frustrada mas não se afastou. tinha de estar tudo perfeito. cada folha e cada pétala. o seu pequeno esconderijo localizado nas traseiras do quarto que lhe fora atribuído e o único local onde se sentia verdadeiramente em casa. Todo aquele espaço era uma enorme mancha verde salpicada de pequenas manchas coloridas no meio de um mar de rocha cinzenta e fria que caracterizava o palácio. para serem as suas preferidas e ela adorava-as a todos. Acercou-se da mesa e tentou inutilmente levantá-la. Tentou novamente mas apenas consegui suste-la por uma fracção de segundos antes de o peso a fazer desequilibrar e cair de rabo no chão após largar a mesa abruptamente. Era engraçado. Praguejou irritada mas não desistiu. . Aquele era o seu jardim tinha a certeza. Aquele palácio onde não havia tapeçarias nas paredes nem calor nas lareiras. Maria olhou à volta e apercebeu-se que tinha de continuar o que estava a fazer. cada arbusto. cada caule. as flores pareciam reagir à sua passagem. mas o que lhe faltava em tamanho não se verificava em persistência e convicção. tanta coisa para preparar. O seu cristal azul ainda lá estava. Aquele era o seu pequeno mundo e ele pertencia-lhe assim como ela lhe pertencia de toda a alma e coração. no seu sonho ela era muito mais desajeitada do na vida real. Estava na casa de campo da sua família. Estava atrasada. Uma brisa suave acariciava-lhe a face. era como s esticassem pretendendo ficar maiores e mais frondosas. no entanto. Mas ali tudo era diferente. Descontraiu e todo aquele cenário fantasiado deixou de fazer parte da sua imaginação. mostrando o seu tom de verde mais vivo e as suas flores mais frondosas. Olhou para toda a beleza à sua volta e decidiu inconscientemente que queria continuar a sonhar. À sua frente estendia-se um pequeno lago azul-profundo que reflectia toda a paisagem que a rodeava. Tinha tantas saudades daquele abraço gentil e espontâneo… Regressou ao quarto e foi buscar a mezinha de chá que o jardineiro tinha trazido para cima a pedido dela. nada existia que pudesse despertar o riso da mais alegre das crianças. Era quase como se competissem para lhe agradar. Iria conseguir nem que tivesse de a arrastar o que. se mergulhasse dentro das suas águas. como se fosse uma janela para um outro mundo encantado que só se poderia alcançar se. o seu lago e as suas flores. era como se fosse mais pequena e tivesse menos força. Ela sorriu e inexplicavelmente reconheceu aquele lugar apesar de ter a certeza que nunca lá tinha estado. nunca conseguiria levá-la sozinha para o interior do jardim. Quando a sua mãe chegasse e visse a surpresa que ela preparara ficaria feliz e diria “Boa garota” ao mesmo tempo que lhe amarrotava o vestido com um abraço apertado. Suspirou mas não teve medo. trazendo até si um cheiro a bruma e a morangos silvestres. tudo era inescutivelmente gelado. quanto mais daquela criança. Encontrava-se numa pequena clareira num bosque serrado. se a sua pedra protectora estava consigo no sonho era porque aquele não podia ser um sonho mau.3 Margarida olhou à sua volta e susteve a respiração tentando reter toda a beleza que a rodeava. Este pensamento reconfortou-a e protegeu-a contra a certeza de os seus sonhos já não serem seguros. Tinha conseguido deslocar a mesa cerca de cinquenta centímetros na direcção desejada. onde ficava este jardim que tanto a encantava? Aquelas eram as suas árvores.

tinha ansiado tanto por aquele momento em que a sua mãe finalmente viria para a vir buscar e ela a receberia à porta com um sorriso e um abraço. Maria sentiu como se uma espada tivesse trespassado o seu coração. cambaleando para o lado ao mesmo tempo que uma nuvem escura lhe toldava a visão. fora dos seus domínios de actuação. no dia em que completara onze anos e lhe fora indicado que fosse viver sozinha para aquela casa com a ordem de que “aprendesse a ser uma senhora independente”. O seu trabalho estava inacabado. mas fazia sempre tudo o que ela lhe mandava sem nada dizer. já se vê a carroça ao fundo da estrada. a sua preceptora. apressou-se e foi buscar o serviço de chá e a toalha com rosas azuis bordadas com o ponto perfeito da sua mãe. segundo ele.Menina Maria! Menina Maria! Onde está? – Maria levantou-se apreçada. era comum a todo o pessoal da casa. Em seguida eram os botões.Quando finalmente conseguiu colocar a mezinha debaixo do pequeno telheiro junto ao lago. sabe-se lá quão esgotada teria ficado se tivesse acabado de cantar o seu encantamento. Tenho assuntos respeitantes à sua educação que pretendo discutir com a sua família com a maior urgência – Olhou para a janela virada para o jardim . os botões de rosa ainda não tinham florido podendo ver-se apenas pequenas manchas de azul no meio daquela massa verde brilhante.Deverá permanecer neste quarto até que a sua presença seja solicitada. Afastou-se e observou o seu trabalho com um suspiro agradado. Tinha esperado tanto tempo por aquele dia. . Essa iria ser. Estava quase tudo perfeito. Tinha feito com que uma roseira azul céu crescesse no seu jardim. Maria sentou-se no chão e observou a velha ruína atentamente tentando imaginar o que poderia fazer ela fazer. De qualquer maneira. Um restolhar repentino nos ramos por cima da sua cabeça fez com que se assustasse quebrando-lhe a sua concentração. aliás. . As roseiras inexistentes com que ela tinha um dia sonhado. Maria não conseguia compreender a sua recusa que. tudo menos entrar naquele jardim. A Senhora Adelaide. estava rígida ao pé da ombreira da porta. Olhou à volta e viu o gato da família a aterrar de forma graciosa junto ao Acer grande e a esgueirar-se para dentro de um arbusto. perseguindo um qualquer tipo de animal. Roseiras! Roseiras azuis e floridas crescendo à volta dos pilares envelhecidos. tinha conseguido. O senhor Alfredo não era de grandes conversas nem favores. Melhor. que não podia acreditar que até aquele seu pequeno desejo lhe tinha sido negado. roseiras como a sua mãe tinha bordado.Menina Maria? – A voz da Dona Adelaide cortava como o gelo. . uma roseira que não existia em mais nenhuma parte do mundo e iria oferece-la à sua mãe.Onde se meteu? A sua mãe deve chegar a qualquer momento. de certeza. a melhor prenda que lhe poderia dar. Pequenos botões de rosa começavam a rebentar e a desabrochar preparando-se para revelar as suas pétalas aveludadas pintadas com um azul céu brilhante. só faltava ajeitar aquele telheiro envelhecido pela passagem das estações que Alfredo se recusara veemente a reparar por se encontrar. Quase que conseguia ver as folhas a mudar de cor para um tom de verde mais escuro enquanto as plantas se desenvolviam e se tornavam numa massa verde e robusta. circundando-os e abraçando-os. Fechou os olhos e cantando começou a imaginar pequenos rebentos verde-claro a brotar da terra e a subir em direcção aos pilares de pedra. Se calhar tinha sido uma bênção ter sido interrompida pelo maldito do gato. Esperou uns momentos para que a tontura passasse e dirigiuse aos seus aposentos através da porta secreta. Fugiam dali como se fugissem da própria morte não se aproximando daquele local como se pudessem ser contaminados por uma doença perigosa. Maria tornou a fechar os seus olhos lentamente ao mesmo tempo que tentava acalmar o seu coração que martelava descompassado no seu peito e praguejou baixinho por ter deixado que aquele som a perturbar-se. Já passara um ano desde que ela lhos oferecera. .

Encontrou Rosinda. Maria ajeitou o cabelo e disse devagar. Passou apressada por escadas corredores. . . se a encontrarem cá em baixo estará em maus lençóis! Maria deslizou para o pé da velha senhora e deu-lhe um beijo na face sorrindo vitoriosa.Ela não foi propriamente informada… É que eu preferiria tomar chá só a duas se me fosse possível… Por momentos Rosinda ficou petrificada com a subtileza e engenho daquela criança a quem Dona Adelaide insistia em se referia como enervantemente burra. Maria fixou avidamente os olhos da velha senhora enviando uma súplica silenciosa sem nada dizer. iria aproveitar os seus últimos momentos de liberdade para ir à cozinha pedir à cozinheira que trouxesse bolachinhas de limão e chá quente quando a sua mãe viesse para cima. Maria nada disse. Suspirou. Bem sabe que tenho mais que fazer do que aceitar todos os pedidos de uma criança desocupada. Aliás! Farei melhor.Diga lá o que quer e suma-se daqui.Está bem. como se estivesse a caminhar cautelosa sobre um lago gelado.Como desejar. minha senhora. Hoje temos visitas e o trabalho acaba sempre todo por cair em cima destes velhos ossos enferrujados. a velha cozinheira da família na cozinha debruçada sobre um alguidar enquanto amaçava o pão. Eu própria me encarregarei que alguém te leve o que me pediste ao quarto. saiu do seu quarto e virou à direita utilizando as escadas de serviço sabendo que nunca se cruzaria com a governanta se usasse aquele caminho.Menina? A menina não devia estar aqui! – A velha senhora apontou-lhe uma mão cheia de farinha à cara .Maria olhou-a nos olhos e lentamente curvou-se numa vénia rígida e perfeita enquanto dizia entre dentes na sua voz mais doce: .A Dona Adelaide não iria aprovar o seu comportamento. . percebi. Ninguém naquela casa podia saber que ela era diferente. pedirei então à Belmira que te faça companhia. – Fez uma pausa como se estivesse a reunir coragem e continuou – Será que podias pedir a alguém que levasse ao meu quarto alguns bolos limão e chá acabadinho de ferver quando eu levar a minha mãe para cima? A velha cozinheira pareceu baralhada. aliás ninguém naquela casa podia ficar a saber nenhuma das verdades a seu respeito. Assim que Maria ouviu a Dona Adelaide a fechar a porta do corredor do fundo. . – Durante uma pequena fracção de segundos pareceu mais velha e perigosa suplantando os seus frágeis doze anos. salas e saletas desejando ardentemente conseguir concluir o seu plano sem que ninguém descobrisse. . Rosinda suspirou desarmada. Eu própria me encarregarei que aconteça um “imprevisto” na cozinha que afaste a Senhora Adelaide dos teus aposentos. optando por fixar o vazio.É que a minha mãe vem hoje e eu gostaria de lhe preparar um “chá surpresa” para comemorar. – A velha piscou-lhe o olho e voltou aos seus . Maria mordeu o lábio mas não disse nada.A Dona Adelaide não me disse nada a esse respeito. Se Belmira viesse ter com ela não poderia acabar o seu encantamento.Não faça olhinhos para mim. . apenas ficou muito quieta a fixar a velha senhora atarefada com uma expressão de gatinho perdido. Não deveria ser ela a tratar desses assuntos? . Belmira ainda demoraria a chegar.A sua sorte é que eu sou um completo coração de manteiga! Desembuche o que quer de uma vez que eu tenho muito que fazer. .Muito bem. .

Será que algumas das suas irmãs também vinha? Tinha tantas saudades da Paula.Já sei o que vais dizer e não quero ouvir – O tom de voz empregue era ríspido mas Maria não conseguiu deixar de reparar que se assemelhava mais a súplica do que a uma ordem. Pedes-me que tenha cuidado com uma criança de doze anos? O velho Alfredo afastou-se da mulher quebrando o abraço que os unia para a poder olhar novamente nos olhos. Maria hesitou alguns segundos sem saber o que fazer e atirou-se para traz de uns sacos de aveia na esperança que ninguém se tivesse apercebido da sua presença. da Patrícia e da Rita! A porta da cozinha abriu e tornou a fechar-se. . Promete-me! Dona Rosinda suspirou.A garota já foi? – Era o velho Alfredo. Rosinda. eu conheço-te há mais de quarenta anos. nunca conseguiria chegar ao seu quarto antes de Belmira. . Era o que todos sempre diziam. Ela devia ser afastada para um lugar onde não pudesse fazer mal a ninguém. A sua mãe estava tão perto! Por breves instantes Maria esqueceu toda a sua pressa e ficou simplesmente a observar aquela pequena nuvem de pó que se aproximava velozmente. Promete-me que te vais afastar dela.Será que hoje todos tiraram a tarde para me importunar? . – Advertiu-a amavelmente – Ela é “a criança”. . – O velho Alfredo aproximou-se da sua esposa ignorando o olhar fulminante que esta lhe dirigia. . – A Dona Rosinda parecia estar a amaçar a massa com mais força do que seria necessário. Alguém tinha entrado. Também ela já sabia o que o Senhor Alfredo iria dizer.Cuidado? Ouve-te a ti próprio homem. Dona Rosinda sorriu amargamente e desviou os seus olhos do olhar suplicante do marido. pois também eu te conheço desde essa altura e só quero o teu bem. Por momentos Maria temeu que fosse Dona Adelaide à sua procura. mas a cada nova vez que o escutava não conseguia deixar de sentir um pequeno aperto no seu coraçãozinho. – Suspirou cansada . .Por favor promete-me… Promete-me que vais ter cuidado. libertou-se das mãos calejadas que lhe seguravam os ombros com um puxão e voltou aos seus afazeres sem nada dizer. – Não devias dar confiança àquela criança.Eu ia simplesmente a passar e calhou… . o marido da cozinheira. tão nova e tão solitária… O Senhor Alfredo passou os braços em volta dos ombros fortes da mulher e envolveu-a num abraço apertado. da Joana. a sétima filha consecutiva da família Pereira. – Não tens mais nada para fazer? Não sabes que é feio ouvir atrás das portas? O senhor Alfredo olhou para o chão e fungou: . Maria rodou sobre si própria e dirigiu-se ao corredor de serviço murmurando um “muito obrigado” sentido.Já velho idiota.Rosinda! Rosinda! O que faço contigo? – Não sabes o que aconteceu no passado? Não ouviste os avisos das lendas desta terra? – O senhor Alfredo colocou as mãos nos ombros da mulher e encarou-a com um olhar sério . . . Diz lá o que viestes dizer e vai-te embora. O mal que irá amaldiçoar esta terra.afazeres dizendo rudemente – agora some-te daqui antes que entre alguém que não queiras encontrar no teu caminho de regresso. Rosinda fungou mas não se afastou. . .E não foi isso que eles fizeram quando a mandaram para aqui? – Suspirou pesarosamente – Pobre criança.Pois sim. Ao passar pela janela com vista para o portão principal atreveu-se a espreitar e divisou uma nuvem de poeira à distância.Ela é o infortúnio reencarnado.Não sejas resmungona Rosinda. Teria de ser rápida caso contrário.Ela não é uma criança.

ela é só uma criança solitária não faria mal a… . Todos a acusavam de coisas que nunca tinha feito. Queria que todos se CALASSEM.Alfredo? ALFREDO??? Que tens Alfredo? – A voz da velha Rosinda parecia esganiçada. como é que tu não vês? – Maria encolhia-se cada vês mais numa bola pressionando as mãos contra os ouvidos até fazer doer. .HÁAAAAAAAAAAA! – Ouviu-se um baque surdo ao mesmo tempo que o barulho ensurdecedor cessava. Ela não devia estar ali. nem nunca quisera fazer. Porquê? Que tinha ela feito de mal? Não! Não! Não! A sua mãe nunca lhe faria mal. queria… . Maria suspirou de alívio aliviando a pressão que estava a exercer nos ouvidos. Mas então porque a tinha mandado para ali sozinha. ela queria tanto que parasse. devia estar com a sua família. – Mas não te preocupes Rosinda. que desaparecesse. . Levou as mãos aos ouvidos e tapou-os com força. o barulho insuportável tinha parado.Não sejas idiota velha resmungona! – Gritou-lhe o senhor Alfredo dirigindo-se frustrado para o outro canto da cozinha – Não viste o quão frondoso está aquele maldito jardim desde que ela se mudou para cá? Isso não te chega de prova? Já começou! Ouviste bem? Já começou. Maria não saiu do sítio. que não temia abraça-la com força naquele abraço quente e apertado. – Dona Rosinda parecia repugnada. Porque não estava tudo bem? Porque? O barulho tinha parado. . “Pára!” Doía tanto. Queria que todos se calassem… . Não deixes que continue.Mal a ninguém? Ela é um o Demónio renascido das profundezas do inferno. Todos diziam a mesma coisa. A sua blusa onde a cabeça do velho jardineiro pousava estava coberta de sangue. Por vezes era-lhe difícil lembrar-se porque se tinha casado com aquele velho supersticioso. vai tudo acabar. O Senhor Alfredo continuou. A mãe dela amava-a. Maria ficou intrigada.Menina Maria? Menina Maria! Chame alguém! O meu Alfredo precisa de ajuda. Não quero que continue” . . Até a família dela que a mandou para aqui vê isso.Menina Maria.Alguém que ajude! Preciso de ajuda! – Maria saiu de detrás dos sacos de farinha e avistou a dona Rosinda ajoelhada no chão agarrada ao corpo tombado do marido. Era mentira. tinha de ser mentira. não queria. a mãe dela queria-a. Porque estaria dona Rosinda tão preocupada? . então porquê? Porque a tinha abandonado naquela masmorra fria onde ninguém gostava dela. Queria.É tudo culpa daquela cabra da mãe dela que não permitiu que se fizesse o que devia ter sido feito. Estava farta de acusações. Ela é a causa de tudo. A região norte onde ela morava já começou a sangrar. “Faz com que para por favor faz com que pare. não devia ter tudo acabado? . Os viajantes falam de fome pestes e invasões.. não fique aí especada! – Dona Rosinda parecia realmente preocupada – Corra! Corra a chamar ajuda. – Vais ficar livre do encantamento que aquela bruxa te lançou. Ela era a única que a compreendia. Queria que o Senhor Alfredo se CALASSE. Rosinda abraçou o corpo tombado a seu lado com mais força à medida que os seus olhos se arregalavam com uma compreensão aterrada.Não digas disparates homem. . Ela queria que parasse.Eu… Eu… Eu só queria que o barulho parasse. – Maria não queria ouvir.Hoje a senhora condensa vai fazer o que devia ter feito há doze anos atrás e mandá-la para o inferno de onde nunca devia ter saído. Corra a chamar alguém. Era como um burburinho doloroso que a perseguia para onde quer que ela fosse. Estava farta de mentiras.

Esta relutante mas consciente de que algo estranho ainda se passava aligeirou o abraço e afastou-a gentilmente procurando-lhe os olhos inquieta.Cheeet! Está tudo bem! Foi só um sonho. denunciando no seu olhar uma repugnância e um terror palpáveis. como se apenas um fio inseguro lhe segurasse aquela máscara de humanidade. não foi real. já acabou. . tinha jurado protege-la. Gritava impropérios. para sempre perdidos dentro de uma boca sem voz. – A culpa não foi tua. por isso simplesmente apertou-a mais contra si tentando transmitir-lhe algum calor humano. Margarida não se moveu.De que está a falar menina. A sua figura parecia tão frágil.Cheet! Já passou! Está tudo bem. como a confortar. deixem-me ajudá-lo! Por favor.Eu… Eu só queria que o barulho parasse. Mas quem eram eles? O que estava ela ali a fazer? Como tinha ido a li parar. . Tudo tinha recomeçado… Não aguentava ver a irmã passar por tudo aquilo outra vez. Não tinha sido ela a fazer aquilo.. – Margarida debatia-se selvaticamente tentando libertar-se como um animal ferido apanhado numa ratoeira. Já disse que não foi por mal. estás em casa.Larga-me. não havia tempo para pensar. aquilo não estava a acontecer. não podia ser. – Alexandra não sabia mais o que fazer. Aquela não era ela. Afastou-se da mulher e agarrou-se desesperadamente à garganta ao mesmo tempo que emitia uns sons incompreensíveis. estás em casa. . parecia uma boneca de porcelana fixando o infinito com um olhar desprovido de vida. .Eu não queria… Não foi por mal. Tenho de o ajudar. O seu cabelo longo e castanho caía-lhe emaranhado pelos ombros emoldurando-lhe . maldições e súplicas que ninguém mais poderia alguma vez voltar a ouvir. Levou a mão ao peito e sentindo-o vazio gritou uma única palavra que ecoou pela noite. Ela nunca faria mal a ninguém. A velha senhora suspirou de alívio e tornou a abraça-lo com força. Margarida serenou de repente e agarrou-se com força ao casaco da irmã ficando estranhamente estática.Não me tornes a fazer isto velho idiota. O senhor Alfredo ainda sentado no chão olhou na sua direcção e tentou recuar desesperado enquanto apontava um dedo acusatório na sua direcção. como se aquela fosse a sua única fuga à loucura. Dona Rosinda olhava aterrada de um para outro. mas agora que o colar tinha desaparecido não sabia como. Maria recuou dois passos à medida que se agarrava aos próprios cabelos com os olhos muito arregalados. certo? Ela não podia fazer aquilo. **** . Não podia ser. já tudo acabou! . Olhou para baixo e viu-se a si mesma sentada no chão a gritar agarrada aos próprios cabelos. enquanto um casal de velhotes a olhava como se ela fosse Lucifer reencarnado. deixemme ajudá-lo – Margarida choramingava como se a sobrevivência da humanidade dependesse daquela autorização.Só eu o posso ajudar. Sabes quantos anos tenho? Emoções fortes já não são para mim! O senhor Alfredo pareceu ficar agitado. foi tudo apenas um pesadelo. vá buscar ajuda. Porque… Porque não ficou tudo bem? O senhor Alfredo mexeu-se devagar agarrando-se ao peito ensanguentado da mulher tremendo ligeiramente. correu para a cama da irmã e abraçou-a tentando acalmá-la. . Eu só queria que parasse… Eu só queria que aquele som horrível parasse.Nãooooooooooooo! Alexandra acordou sobressaltada. .

. Costumava-se dizer que os olhos eram o espelho da alma. e se o que ela via nos olhos da irmã fosse o que a sua alma realmente reflectia. um olhar negro e vigilante sorria maliciosamente. Oculto nessa escuridão. pois até as estrelas tinham sido apagadas por algumas nuvens perturbadoras e espessas. Por favor. Alexandra suspirou aliviada. do outro lado da janela.Diz qualquer coisa! – Pediu – Estás a assustar-me. planeando que benefício poderia tirar de toda aquela situação. .um rosto vazio e suado. diz que estás bem! Margarida pareceu reagir. Abanou-lhe os ombros gentilmente tentando despertá-la daquele transe inesperado. virou-se lentamente e fixou o seu olhar congelado no rosto da irmã.e começou a chorar convulsivamente. então não queria ter de olhar.Bem-vinda a casa… Nessa noite malfadada tudo era apenas escuridão e trevas. voltou a tomá-la nos braços e sussurrou-lhe ao ouvido: . Mas o que mais a inquietava era os olhos.Voltei . Sorriu e disse simplesmente .

. peguei no arco de dupla curvatura e aprecei-me atrás dela. pegou nas chaves do carro da mãe e saiu porta fora. Hoje era o dia do baile de mascaras e eu não queria.Porque é que tens sempre de te atrasar? Bolas! A Roxy já deve estar à nossa espera… – A minha irmã ignorou-me e eu suspirei para mim própria . olhei pela janela e vislumbrei as sombras e vultos desfocados á medida que passavam por nós numa correria frenética enquanto nos dirigíamos ao nosso primeiro destino. Encolhi-me repentinamente e abracei os meus próprios braços. Para finalizar tinha uma braçadeira com uma ametista azul no braço direito e o símbolo do sagitário desenhado na minha omoplata esquerda.Vamos! – A minha irmã passou novamente por mim. . vamos nos atrasar como sempre! Já sabes como detesto chegar atrasada… – A minha irmã corria para a casa de banho atarefada enquanto vestia um vestido azulcobalto e se preparava para arranjar o cabelo – Já devíamos ter saído de casa à 10 minutos… . .Sim mãe. Ela estava uma verdadeira deusa no seu vestido azul-cobalto. sempre.Hã? Porque não haveria de estar? . – Respirei fundo e saí para o negrume da noite fechando a porta atrás de mim. Finalmente entrei dentro do carro e saímos para a estrada. Uma fita de cabedal castanha enfeitava-me os cabelos soltos ligeiramente desgrenhados combinando com a bolça cheia de flechas que eu levava às costas. A noite estava quente. Por minha vez. Tínhamos combinado em grupo e íamos participar no concurso de máscaras com o tema “Os signos do zodíaco”. Era verdade que estávamos atrasadas mas a culpa não era só da Alex como a minha atitude fazia transparecer.Outra vez… Estava impaciente. Descemos a rua e cruzamos à direita. definitivamente.Oi Alex despacha-te. A minha irmã passou a correr por mim cerca de mais duas vezes apressadas.Té logo! – Despedi-me dos meus pais. – As suas mãos procuravam atarefadamente o recipiente da espuma enquanto modelava os seus maravilhosos caracóis de maneira a ficarem simples mas elegantes. Só faltava o cântaro de barro e o seu disfarce estaria completo. sentei-me no degrau da entrada enquanto esperava.4 . Uma coruja piou longe na escuridão algures perto da barroca que passava ao fundo do quintal. . A verdade é que eu própria só me tinha despachado em cima da hora e a minha incapacidade para alterar esse meu péssimo hábito estava a me irritar profundamente. dirigiu-se à cozinha. fizessem lembrar o som de cascos de um cavalo. deixar toda a gente à minha espera. . ou assim eu esperava.Portem-se bem meninas e tenham cuidado na estrada.Não me chateies! Já vou. A minha irmã já tinha ligado a ignição e preparava-se para fazer marcha atrás. Por cima tinha uma camisola esfarrapada em tons azul-índigo e violeta que se moldava inofensivamente ao meu corpo de formas arredondadas. eu estava vestida com umas calças justas de feltro castanho-escuro que se abriam junto aos tornozelos para esconder uns sapatos de sapateado barulhentos que eu esperava que. a lua brilhava gorda e redonda no céu e milhares de estrelas pontilhavam toda a abobada negra como se fossem tochas do abismo. Parecia uma princesa guerreira. .Margarida! – Chamou baixinho a minha irmã sem olhar para mim – Tens a certeza que está tudo bem contigo? . Ignorei o melhor que pude o frenesim que me pressionava a olhar em todas as direcções e esperei demasiado quieta que ela acabasse de realizar a manobra. de alguma maneira. um colar de ametistas destacava-se-lhe no peito e o tinha o símbolo do aquário desenhado no seu ombro direito.

mas determinada. No centro. Como podia eu lhe dizer que estava tudo bem com ela a olhar assim para mim? A porta do carro abriu-se e fechou-se quebrando o momento e uma Roxy eufórica sentou-se no banco de traz. apercebendo-me onde ela queria chegar. Aguentei o seu olhar o melhor que pude. o recinto em frente à capela estava a abarrotar de jovens ansiosos por mostrar os seus mais arrojadas disfarces. Nem numa festa de carnaval ela se esquecia de estar completamente na moda. Olhou para o espelho retrovisor e fixou o seu olhar no meu com uma expressão calma. Não queria falar sobre aquilo. não haveria corvos. Os pares.Então. . – A minha irmã parecia cautelosa . *** A festa estava animada. .Bora! – Respondemos nós em uníssono enquanto nos colocávamos novamente a caminho. A minha irmã abrandou o carro e parou. inexplicavelmente.Tu sabes… Ultimamente tens andado com um ar um pouco ansioso. não me permitiria pensar novamente no assunto e faria com que a minha irmã não tivesse oportunidade de não fazer o mesmo. tudo bem meninas? . mas um “sagitário” sem o seu arco e flecha não era um verdadeiro sagitário. – Bora? – perguntou. Eu não disse nada. quando a música se tornasse mais animada e o álcool já começasse a fazer o seu efeito aventurar-se-iam no meio dos pares dançantes e separariam as raparigas numa competição fanfarronada para dançarem com as mais atraentes. Mal sabia eu o que na noite me aguardava. Mais tarde. atravessando a periferia do aglomerado de pessoas abrindo caminho com algum custo. shorts de ganga e sapatos de salto. a mesma pergunta mas tão mais fácil de responder. mas num jogo silencioso. Sorri para mim própria. – Respondi o mais eufórico que consegui. .Claro! – Respondi demasiado depressa.Então. pois enquanto não me recordasse do que não me queria recordar.Tudo. um aglomerado de pessoa movimentava-se ao som da música popular. Tinha trancado o que se passara naquelas duas noites num cantinho bem fundo da minha alma. essencialmente constituídos por raparigas. a realidade do que representava não me podia atingir. geralmente os mais giros e menos bêbados. eram observados por grupos aleatórios de rapazes conversando e bebendo cerveja. Esta noite. sonhos ou qualquer outro acontecimento estranho que me perturbasse. aquilo iria ser inconveniente para dançar. O momento tinha passado.. Critiquei-me mentalmente por não ter deixado o meu arco no carro como a minha irmã tinha deixado o cântaro de barro. prontas para a grande festa! Eu mal posso esperar! – O seu entusiasmo dissolveu instantaneamente a o ar denso que se tinha instalado e a minha irmã quase sorriu de antecipação. Roxy estava giríssima no seu top amarelo e preto. . para ver qual delas seria convidadas para dançar pelos rapazes mais cobiçados. Como podia? Aquele olhar fazia-me lembrar que ela era a minha irmã adorada e que ia estar sempre ali para me proteger. desfrutando de um sentido que ainda não tinha sido descoberto pelos cientistas e que fazia com que. mas ao fim de alguns segundos desviei-o. Ninguém se atreveria alguma vez a supor que aquela magnifica personagem tinha apenas catorze anos. Não tinha rímel nem lápis a mais e a sua maquilhagem estava simplesmente perfeita.Tens a certeza que está tudo bem? . ninguém esbarrasse em ninguém. O que não saberiam eles é que também elas competiam. A minha irmã fez-nos sinal para que a seguíssemos. decidi. definitivamente não queria falar sobre aquilo.

Ouvi risos mal disfarçados nas minhas costas. Ela sorriu e prometeu-me que sim alegremente enquanto procurava o resto das amigas que se afastavam da pista de dança agora que a música tinha parado. Enfim. . – Diz lá.Só um? – A minha irmã parecia teatralmente incrédula – Então maninha? Andas a perder qualidades… .. Roxy era popular e estava bem entregue. . não demasiado melosos. . Tinha umas luvas extravagantes de um vermelho forte que lembravam eficazmente as pinças de um caranguejo. vocês e os relógios nunca se deram muito bem… Dirigi um olhar acusador para a minha irmã mas ela limitou-se a encolher os ombros. despenteou-me o cabelo e deu uma cotovelada cúmplice à minha irmã. diz lá – pediu – Aqui a tua maninha esteve foi a noite toda na casas de banho a arranjar-se para impressionar os pretendentes. mas ela já se tinha escapulido para o meio da pista de dança arrastando uma Tânia demasiado divertida consigo.Olá meninas – cumprimentou-nos ela – Então? Estava a ver que nunca mais chegavam. já conhecia algumas delas mas aquele grupo de miúdas. O que não me faltam são pretendentes… . O Daniel.Mais à frente pude ver Tânia que nos acenou de forma entusiasta.Não sejas parva. – Ralhou-me uma Alex indignada enquanto me contornava aos saltinhos para se colocar à minha frente . agora diminuído devido aos pares dançantes. . A sua roupa era um conjunto laranja avermelhado com vários motivos indistintos à claridade inconstante das luzes giratórias.Pois sim. esperamos que a música terminasse e dirigimo-nos na sua direcção. Suspirei… Ficara outra vez sem par. tinha as gémeas tão iguais que era difícil distingui-las não fosse pela grande diferença de atitudes. . Encontrei-os a todos no sítio onde tinha encontrado Tânia. também elas rigorosamente vestidas para o evento. Havia algumas que estavam sempre presentes e das quais eu me lembrava vagamente. vestido de Capricórnio com uns exuberantes cornos retorcidos. Mais para cá estava a Ana Catarina a conversar animadamente com a Tânia e a sua irmã Maria.Brinca! Brinca! Mas o teu príncipe encantado está farto de perguntar por ti. abraçava a um canto a sua namorada Cátia vestida de “carneirinha” como se ela fosse a coisa mais preciosa deste mundo. . Esperei que a música parasse e gritei-lhe por cima da multidão que não fosse a nenhum lugar sem me avisar e que ia ter com o resto do pessoal do teatro.Se os velhotes te ouvissem… Ficavam indignados por não estares agradecida pela sua dedicada atenção… Avancei abruptamente na sua direcção pronta para começar a argumentar. Encolhi os ombros habituada ao seu alheamento e fiz exactamente o mesmo que ela. Na realidade. Havia também uma miúda gordinha que nunca parava de sorrir e a sua irmã mais nova. Tânia deu a volta. uma era popular e adorava dançar e encontrava-se agora na pista de dança a outra era introvertida e embora apanhasse bem o ritmo.” deliberei. Virei-me para traz a tempo de ver Roxy a afastar-se para o meio de um pequeno grupo de raparigas tão bem maquilhadas como ela. tinha medo de dançar o que fazia com que fosse sempre deixada para traz. mas sempre inseparáveis.Não sejas assim. “Bem. O pessoal estava todo vestido a rigor como tínhamos combinado. Faziam um par engraçado eles os dois. “Pelo menos estava tudo a decorrer normalmente…” Segui-a e juntei-me aos coros exaltantes enquanto as suas amigas me eram apresentadas uma a uma.Comentei ironicamente antes que voltássemos outra vez ao costume. À sua volta estava um mar de outras caras que também reconheci e que mal esperava para cumprimentar.. O seu fato estava muito engraçado. – Arreliei-me e virei-lhe as costas para observar a pista de dança caótica. era tão grande e mutável que me era sempre difícil lembrar do nome de todas elas.

A meio da segunda volta. Não depois de Ana me ter abandonado à sua mercê pensando. A Ana Catarina estendeu-me uma mão hesitante. . e ter uma Tânia demasiado trocista a usar o seu nome (e o de outros. ou melhor. Ana apertou-me o ombro acordando-me da minha reflexão despreocupada. A música que passava era ritmada e divertida. Pelo menos estava a agir normalmente. obrigando-me a relaxar e a concentrar-me no ritmo da música e nos pares que nos envolviam. . Maria despediu-se de nós e dirigiu-se apressada nessa direcção. Suspirei. Um pormenor que seria corrigido na próxima ida à casa de banho tinha eu a certeza. olhei à minha volta e surpreendi-me por não reconhecer nenhuma das caras que me rodeavam.Oi onde está a Roxy? Ela não está contigo? – As roupas de Maria pareciam uma fotocópia das de Roxy. mas não por ter feito algo de errado. “Ou não. Apesar de tudo eu gostava de dançar com ele e se tivesse a certeza que as suas intenções se assemelhavam às minhas não me importaria de o fazer com mais frequência.Oi! Oi! Tudo bem? – Cumprimentei enquanto me juntava a eles. eu pousei o arco num canto afastado e segui-a para o meio dos pares dançantes. A Ana não estava habituada a dançar aquela velocidade. Virei-me sobressaltada e por pouco não bati com a cara no peito do rapaz gigante que se encontrava atrás de mim. diga-se de passagem) para gozar comigo. Devia ter ido ter com o Luís e os seus amigos. Movemo-nos rápida e graciosamente. olhei para cima e vi o cabelo cor de azeviche e o sorriso confiante de Fábio. A minha irmã era uma das pessoa com quem eu mais gostava de dançar. dançar comigo. – Disse eu apontando para o local onde ela se encontrava. Coloquei a minha mão na dele e começamos a dançar. Tentei sorrir! O rapaz não tinha culpa nenhuma da minha implicação com ele. O seu único pecado era querer. A música recomeçou. embora a sua principal falha fosse a sua dedicada preocupação em não falhar. Como podia ter-se juntado ali tanta gente de fora? Era verdade que naquela altura do ano todas as vilas estavam cheias de emigrantes que regressavam à sua Terra Natal para umas férias sincronizadas. O signo que ambas representavam era “Gémeos” e não seria permitida uma única discrepância entre elas.. tinha. – Responderam meia dúzia de caras sorridentes dando-me as boas vindas no meio de uma confusão amigável e animada. para mim. mas não reconhecer uma única cara naquela vila pequena era. Embaraçada. contudo. demasiadas vezes. seguindo apenas o ritmo da música para onde quer que ele nos levasse. Mas não fui capaz de recusar a mão estendida que me convidava a juntar-me a ele durante o resto da música. procurei a minha irmã com o olhar para ir dançar com ela mas não a encontrei. um par de idosos atravessou-se à nossa frente e fomos obrigados a abrandar. Conduzia para o centro da pista tentando evitar as zonas mais periféricas onde os pares mais experientes rodopiavam a velocidades alucinantes. abrindo caminho por entre os dançarinos que nos rodeavam.. Ela tropeçou e parou de dançar ao mesmo tempo que uma mão me agarrava o ombro e uma voz rouca me sussurrava ao ouvido “Boa Noite”. obrigando as pessoas a movimentar-se com vivacidade. sem dúvida. “Mais tarde danço contigo. onde eu evitara dançar com Ana. Retribui o melhor que podia e virei-me para a frente para recomeçar a dançar com uma Ana que já lá não se encontrava. um absurdo. tínhamos aprendido juntas e movíamo-nos como se de uma entidade nos tratássemos. Fábio aproveitou .Olá.. deambulando em volta da pista animada. o meu príncipe encantado…” Pensei de mim para mim quase proferindo as palavras em voz alta. . que me estava a fazer um favor.Está ali em baixo com o seu séquito de seguidoras. a sua maquilhagem não tinha metade da exuberância. Olhei-a mesmo a tempo de a ver mexer os lábios sem que os sons que proferira me chegasse aos ouvidos. A pista estava completamente sobrelotada. Abanei a cabeça interrogativa. Ele levou-me para a zona mais afastada da pista.” Prometi a mim própria.

Senti o rosto a ficar vermelho. e me dizer que eu estava deslumbrante. não me apresentas às tuas amigas? – Sobressaltei-me com a repentina intrusão sem saber se havia de rir ou de chorar. tropecei numa pedra de calçada convenientemente irregular e levei Fábio a dar um encontram num casal bem animado que teve a infelicidade de estar no sítio errado à hora errada. Fábio deve ter pensado que era um incentivo pois apertou-me contra si com mais força. Os pares começaram a formar-se e escusado será ser dito que em menos de nada me vi nos braços de Fábio outra vez. . discretamente. Assim que tive oportunidade. Tinham sido mais rápidas do que eu alguma vez imaginara.São todos da tua terra? . Aquela rapariga não conseguia mesmo estar sossegada durante dois minutos no mesmo sítio. Perigo avisou uma luz vermelha dentro da minha cabeça. de certeza que tinha morrido electrocutado.A maior parte. Fábio fez-me o agradecimento de praxe. – Relancei sobre as imediações para ver se encontrava a minha irmã. Suspirei de mim para mim e acenei em concordância. Dirigi-me para o local onde tínhamos estado todos momentos atrás. Tinha acabado de chegar ao Daniel e à Cátia quando a música recomeçou. numa esperança vã que desta vez ele se apercebesse que não era de todo bem-vindo. – Não a vi.Então são teus vizinhos. não tive coragem de lhe sorrir. piscou-me o olho e sorriu-me sabedoramente.Conhece-los há muito tempo? . Após alguns minutos a música acabou. . . Não percebi. . que aquele seria o nosso local de encontro durante o resto da noite. obrigando-me a dançar tão perto dele que lhe consegui cheirar o hálito. Tânia passou por mim a rodopiar com suas pinças a agarrarem bem um rapaz moreno e musculado que eu nunca tinha visto. repetimos o ritual de agradecimentos e voltei a dirigir-me com uma atitude indiferente para o meu lugar. – Anunciei para ninguém em especial. . Nesse momento uma voz que eu conhecia demasiado bem falou de detrás de mim.Voltei. estava mesmo à tua procura! – Disse uma Maria com a maquilhagem completamente reformulada.Há. estavam demasiadas pessoas à minha volta. pelo menos sabia onde ela andava. receio bem que tivesse sido menos bem-educada. Maria continuou a fixar-me com ar interrogativo. – A Roxy pediu-me para te avisar que ia com as gémeas buscar uma amiga a casa e que já voltava.Então. Olhei para Fábio e voltei a desculpar-me. não fosse ele interpretar o meu sorriso da forma errada… A música finalmente acabou. Mordi a língua para não fazer um comentário do qual me viesse a arrepender e apresentei-os um a um. Ri-me da minha falta de jeito e pedi umas desculpas atrapalhadas ao casal que sofrera com a minha desatenção. Afastei-me dele o mais que pude e assenti com a cabeça em reconhecimento. e eu assegurei-me. Bem. . . desta vez ele não me apanharia desprevenida. sabendo por experiência. – Disse-me enquanto se juntava a mim. nada de quizombas lentos ou outro tipo de música que dava a desculpa para dançar devagar e agarradinhos. Fábio seguira-me até ali e olhava-me descaradamente com ar de censura.Pode dizer-se que sim. Felizmente era uma “marcha”. .Os teus amigos parecem simpáticos. Contudo.Um! Um! . Se a minha irritação fosse um raio. ele disse que não tinha mal e recomeçamos a dançar. que ele não me agarraria mais do que o que fosse estritamente necessário. se isso tivesse acontecido. O que estava ele ali a fazer? Olhei para traz e confirmei o que não precisava de comprovação. eu repliquei o que me era devido e afastei-me dele sem olhar para traz.a deixa para se inclinar sobre o meu ouvido numa familiaridade desconhecida.

Queria-a sozinha e iria tela nem que para isso tivesse que distorcer as tramas do destino e aquele rapaz era a chave. avistei o Fábio junto a um grupo de rapazes que não conhecia. Não aguentaria mais aquilo. Queria-a sozinha. mas se perguntassem a cor do seu olhar não seria capaz de o dizer. ou pelo menos tão sozinha que não conseguisse correr para o pé de nenhum dos seus amigos. mas com o avançar da noite estava certo que o momento ideal se apresentaria perante si. tímida como era. se as atenções que eu lograva atrair persistissem a não ser do meu agrado. Uma rapariga seguia-a de perto e ambas desaparecem dentro do edifício. Sorri.Sussurrei de mim para mim. Preferível. Tinha cabelo preto e curto. Se a Alex colete salva-vidas não estava por perto tinha de me arranjar sozinha… . e embora o meu par estivesse constantemente a alterar-se. imaginei eu. se tínhamos andado todos na mesma escola? .Ana! Queres vir comigo? – Ela assentiu com a cabeça e seguiu-me como eu sabia que faria. Não sabia se ela lhe daria conversa. já volto! – Olhei para o lado . Os nossos olhares cruzaram-se e eu fixei um ponto atrás dele relutante por ter sido apanhada a olhar. Deslocámo-nos lenta e suavemente enquanto circundávamos junto ao limite da pista de dança. – O que iria ele me perguntar em seguida. Depois . mas fosse quem fosse o rapaz aparentava um porte destemido no seu disfarce de príncipe das arábias e. não muito forte. Alegreime por ela ao mesmo tempo que uma culposa pontada de ciúme passava veloz por mim.Há… . A música parou.Ainda não. vou à casa de banho.Por momentos pareceu ficar sem saber o que dizer.. Aliás.. ***** “Dançar faz bem à alma” Pensei de mim para mim enquanto me bamboleava na pista de dança com um par desconhecido. apesar da hora avançada. A música parou e dirigimo-nos aos nossos lugares depois de nos presentear mutuamente com o “obrigado” cortês como ditava a tradição.Desde criança. já era a terceira dança seguida que nos separavam. . esse era um lapso que pretendia remediar ainda naquela noite.. Não acreditava que tinha sido apanhada a olhar para ele. não apresentava indícios de ter bebido demais. Ao convidar Ana para que viesse comigo. mas o suficiente. encontraria outra vítima melhor do que eu para atormentar e deixarme-ia em paz. era provável que necessitasse de um empurrãozinho. Tinha ficado mais forte na semana que passara. desejando que alguém me tivesse escolhido como ele a tinha escolhido a ela. – Mas já não irá demorar muito. ***** Ela afastou-se da multidão dirigindo-se para uma pequena construção localizada na periferia. Era alto e magro e a minha cabeça dava-lhe apenas pelo peito fazendo com que eu me sentisse anã ao seu lado. o grupo tinha ficado impar. amigos seus.Olha. preferia continuar só e invisível.. A sua camisa possuía um padrão quadrangular azul e branco e elevava-se dela um odor a água-de-colónia agradável. Há medida que me afastava em direcção á escuridão uma pétala de culpa quase que me roçou a consciência mas repeli-a rapidamente antes que me chegasse a tocar. A Ana Catarina encontrava-se a dançar com um amigo dele. certamente que o tomaria como um encorajamento e me iria procurar novamente. Pensando melhor. Fábio ia ficar sem par. o seu mantinha-se esperançosamente constante. A oportunidade simplesmente ainda não tinham surgido suficientemente aprazível. com sorte ficaria farto de estar à minha espera e voltaria para o pé dos seus amigos. o que só por si já era deveras um bom sinal. Sorri de mim para mim.

Então bela dama perdestes a vossa arma? – Uma voz masculina que não reconheci escarneceu – Porventura deveríeis ter mais cuidado com a vossa segurança não vão os espíritos da noite raptar-vos. Foi então que eu o vi em riste diante de mim. Quem iria roubar um arco num baile de máscaras? Simplesmente não fazia sentido. não sabia se havia de rir.olhei-o fixamente com um ar interrogador. chegou o momento mais esperado da noite – fez uma pausa estratégica para adoçar a curiosidade dos presentes que inevitavelmente já adivinhavam o que ai vinha – O concurso de máaaaaaaacaras vai começar dentro de momentos. para ter a certeza que não estava a ser seguida e congratulei-me por não ver Fábio em lado nenhum. . me aliviava do pequeno sentimento de culpada que ameaçava seguir a minha sombra. . era a mais pura das verdades… Virei costas e dirigi-me para o local onde o tinha deixado.Ou o Senhor comandante da armada? – E fez uma cómica continência a um rapazola perto do palco. A partir daí apenas tivera de garantir que não era deixada sem par durante mais do que 5 segundos e de evitar inocentemente passar perto dos locais onde ele se encontrava. Tinha de ser uma partida. quem irá ser o grande vencedor deste ano? Serão estas malvadas enfermeiras – e acenou para um grupo de rapariguinhas de bata branca . E com estas deliberações saí para a noite. A minha alma ficou perplexa com a estranheza da situação.Então minha bela dama? Ainda estais aí? Julguei-vos digna de me aprazardes saindo da minha presença correndo mais velozmente que este vento. Surpreendi-me ao aperceber-me de Fábio dirigindo-se na minha direcção com um ar decidido. Mordi o lábio. E com isto acenou para o público e começou a tocar uma valsa tradicional. Saudei a noite festiva e prossegui o meu caminho. de chorar ou de fugir dali. O público irrompeu num burburinho e aplausos animados. e o mais provável é que tivesse sido Alex e Tânia a planeá-la. Olhei apenas uma vez para traz. pelo menos tinha uma desculpa plausível para não ir dançar com o Fábio. o que aliás. decidida a fugir com ele para onde Fábio não me pudesse encontrar… Não estava lá! Não podia acreditar… Dei a volta às cadeiras levantando inutilmente os casacos que se encontravam ai abandonados mas não vi nada. E sem outra arma com a qual me defender .visto que ele se tinha apoderado de todas as que possuía . Como eu previra não suportara a espera que eu alongara precipitadamente e dirigira-se para o bar onde se encontravam alguns conhecidos seus. uma que não tivesse sido eu a inventar completamente o que. não precisaria de andar a roubar pertences alheios. tem a próxima dança para se preparar antes de eu vos chamar ao palco. “desta vez não” pensei de mim para mim e despedi-me apreçada dos meus colegas dizendo que tinha de ir buscar o meu arco. Bem diante dos meus olhos alguém apontava o meu arco armado na minha direcção. não tinha como não ter o seu próprio arco pessoal. e se havia. . Passei com a mão pelo cabelo e virei-me na direcção do carro onde sabia que iria encontrá-las.da minha ida precipitada à casa de banho ele acabara por afastar-se. Com o prosseguir da noite e o aumentar da multidão esta estratégia táctica tornou-se cada vez mais fácil e eficaz de assegurar.Como é pessoal. .Boa noite crianças de todas as idades – saudou inesperadamente o vocalista chamando a atenção de todo o público incluindo a minha – Pois bem. aquele era o ponto alto da noite. Estaquei abismada enquanto a incredibilidade me acercava a mente com um milhão de perguntas improváveis. não sei porquê. . nada vendo além do meu arco em riste e um vulto negro na escuridão. Sorri. a escassos metros dali. Eu olhei à minha volta e vi muitos dos meus amigos dispersarem para se prepararem para o concurso de dança ou para aproveitarem a última música antes do concurso. decidi. afastando-me no meio da escuridão. Dificilmente havia alguém naquela vila que o soubesse manusear. – Seja quem for.

mas ele limitouse a levantar o braço fazendo com que as minhas tentativas se tornassem ineficazes face à nossa diferença de alturas. “Um dia venho buscar-te. agarrou-me pela cintura e no último instante caímos os dois desgovernados na calçada por baixo de nós. Ele não desistiu. mas baixou o arco e aproximou-se chamando-me a atenção para a figura que era a sua pessoa. Não me dei por vencida e rodeei-o saltando. A sua gargalhada foi substituída dor um sorriso presunçoso. fazendo-me recordar o restolhar das folhas secas ao vento. prometera ela nesse dia.Devolve-me o meu arco – fiz uma pausa. Arrisquei outra vez. não até me devolveres o meu arco. – Ironizei imitando a sua maneira de falar .Desculpe. No movimento mais fluido que consegui. Por momentos uma imagem semelhante inundou a minha mente. Não saberia dizer o que lhe passava pela cabeça no momento em que o fez. não esperava ouvir um som tão limpo vindo de uma boca tão zombeteira. tentando de alguma forma recuperar o que me pertencia. Saltei para a frente aproveitando o momento de distracção e agarrei-lhe o braço puxando-o para a direita. agia de uma forma estranha e ainda por cima gozava elegantemente com a minha cara? . por momentos arrepiei-me e então lembrei-me que ele não passava de alguém empenhado em irritar-me. O seu cabelo era negro cor de azeviche e trazia o rosto escondido sob uma máscara preta que lhe ocultava as feições. Mas quem pensava ele que era? Falava de uma forma estranha.Que felicidade! Então parece que me vais agradar esta noite com a vossa companhia. Olhei para os pés e pedi apenas: . conseguia sentir a sua respiração no meu pescoço enquanto permanecíamos deitados. Nesse instante o rapaz soltou a boneca que caiu inutilmente numa possa de lama. não conhecia ninguém que mantivesse naturalmente uma postura tão arrogante e altiva. O colete era do mesmo tecido apresentando-se decorado com minúsculos bordados de formas estranhas e tons coloridos.Deu um passo na minha direcção. Parei abruptamente apercebendo-me do quão infantil devia parecer. Estiquei o braço e recuperei o arco segurando-o firmemente nas minhas mãos. .Devolve-me o meu arco! – Exigi. – Soltou uma gargalhada que parecia tudo menos deleitada. Ele riu-se. Não saberia dizer qual a sua idade nem se o seu rosto seria agradável por baixo daquela malfadada máscara. O meu coração disparatou. .Não me parece que vá a lado nenhum. a menina tropeçou e desequilibrou-se. coloquei o meu pé ao lado dos seus e puxei no sentido contrário fazendo-o desequilibrar-se.Então amansaste minha pequena gata selvagem? Julguei-te mais arisca… “Pois julgaste bem!” espantei-me por concordar com ele na mais ínfima coisa que fosse. . Eu não recuei. Vestia umas calças curtas de tecido azul que terminavam dentro de umas meias brancas um pouco acima do tornozelo. Desloquei-me na sua direcção ignorando o arco que continuava apontado ao meu peito e estendi a mão. pude ver um rapaz alto e bem perecido levantar um braço rindo segurando uma boneca enquanto uma menina pequenina de caracóis dourados saltitava à sua volta tentando recupera-la. . mas não penso aprazer-vos esta noite. ele rodopiou sem sair do lugar tornando a minha investida inútil. Apertei-o com força e comecei a chorar .se faz favor. que ireis fazer minha pequena dama? “Irei recupera-la na mesma” pensei e avancei direita pretendendo arrancar-lho das mãos. Levei a mão ao peito e apertei o crucifixo que a minha mãe me dera em tempos. Então. agarrou a menina pela cintura e caíram os dois rindo e rebolando no chão enlameado..E se eu não quiser. Mas de uma coisa tinha a certeza. A sua gargalhada foi clara e fluida. mordi a língua e acrescentei num sussurro . .

Onde ele estava? Onde estava a minha mãe? Onde estava a minha irmã? Senti um par de braços contraírem-se à minha volta. As recordações que me perseguiam assombrando os meus sonhos e convertendo-os em pesadelos. O meu peito doía no local onde o crucifixo da visão tinha permanecido. Tentei focar-me na minha vida. tu não és eu… . mas não me importei. Tinha a minha família. Um arrepio percorreu-me. Morava com a minha irmã e os meus pais numa pequena vivenda no meio do nada. Os meus braços contraíram-se à sua volta. . apertando-me contra ele.Eu sou tu. Nada importava para além daquele vazio que existia e se entranhava no meu ser.Eu sou tu. tu não és eu… Porque me persegues quando o teu ser já morreu? A minha respiração entrecortou-se. pelas recordações dela.. beijandome. Eu não era ela! Não podia deixar-me ir.Eu sou tu. as palavras mágicas que sempre me fazia repetir e que de certa forma me salvavam de mim própria e dela. Tentei lembrar-me de quem era. quem quer que ela fosse.Eu sou tu.Bom hoje vou fazer ao estilo japonês… Quem já leu mangas já reparou que nas lombadas costuma aparecer uma parte dedicada ao autor onde ele escreve todas as baboseira que lhe vêm à alma. . . derretendo um pouco a solidão que ameaçava submergir-me. tinha amigos. Não podia deixarme absorver por ela. o seu peso familiar desaparecido. tinha a minha irmã… As palavras da minha irmã. eu era a “flor”. tu não és eu… Porque me arrastas para a desgraça que te acometeu? Eu sou tu. tu não és eu… Não consegui continuar.Não… – Sussurrei – Durante o dia também… Não… Por favor não… Senti o corpo dele estremecer por entre o meu abraço apertado. tu não és eu… Porque me persegues quando o teu ser já morreu? Juntei a minha voz à dele sussurrando a ladainha incerta. . Os soluços submergiram-me. quando quero ter uma boa ideia não surge nada… E depois à dias em que a magia acontece e surge tudo do nada na tua cabeça… Como se a história já existisse e fosse lentamente revelada para ti à medida em que é escrita… hoje descobri que comer porcarias por vezes ajuda no processo. Comecei a tremer. Então senti a sua respiração no meu ouvido e uma voz meiga sussurrou.Eu sou tu. .solucei com força . Pois bem vou escrever algo do género agora! Nunca pensei que escrever um livro desse tanto trabalho ou que fosse algo tão imprevisível… Quando quero escrever não sou capaz. lol… 16:12h 23 de Agosto de 2011 A imagem eclipsou-se tão repentinamente como tinha surgido deixando apenas um sentimento de solidão e ciúme dentro do meu ser. tentei recordá-las. tu não és eu… Porque me arrastas para a desgraça que te acometeu? .

. então. daquele covil misterioso e irrecusável. impedindome de ir embora.Como sabias? – Perguntei . . segurou minha mão e levou-a aos lábios enquanto proferia simplesmente. Por isso não vos ides embora! Parei por um momento mas não olhei para traz.Esperai! – Exigiu. Levantei-me repentinamente a seu lado.Isso não tem importância… Tentei protestar mas ele colocou uma mão sobre os meus lábios calando-me com um gesto silencioso.Como conhecias a canção da minha irmã? Ele não se moveu. tinha de ser corajosa. vou dar-vos uma recompensa. Numa questão segundos tornei-me consciente dos nossos corpos e de todos os ínfimos lugares em que eles se tocavam. fazendo-me hesitar por um momento – O seu arco. Encolhi-me perante as suas palavras sombrias mas não fugi. cortando o nosso contacto visual. Engoli em seco e respirei fundo. Senti um calafrio quando ele o fez mas desta vez era apenas o frio da noite. Levei instintivamente a mão ao peito e acariciei o pingente que regressara. Tentei afastar-me dele mas não consegui. abandonado ao acaso e à poeira. levantando-se repentinamente e colocando-se de joelhos a meu lado. Ficou silencioso por um momento e então respondeu devagar. – O que queres de mim? Ele fixou o seu olhar em mim perscrutando os meus olhos com os seu olhar azul safira. envolvendo um corpo que eu não conhecia e cujos braços imitavam os meus. Ele sorriu.Elevei o meu tom de voz e terminamos em coro.Perguntei num sussurro. . Os meus braços encontravam-se rígidos. – Guarda bem isto pois ambos sabemos que não é conveniente perde-lo.Eu sou tu.Quem és tu? . O que estava eu a fazer? Quem era ele afinal? Que queria ele de mim? No momento seguinte ele já se encontrava ao meu lado segurando-me pela mão. Encontrei apenas uma mascara escurecida sob uma expressão indecifrável. . . procurando os seus olhos e neles a resposta às perguntas que me confundiam. Era demasiado pedir a mim própria que me afastasse daquele calor. Lentamente baixou a mão desviando gentilmente os meus cabelos de cima dos meus ombros. . Rodei sobre mim própria e fugi na direcção do baile. Não iria mais fugir. . Por momentos nada disse e eu temi que voltasse a evitar a minha pergunta. O meu coração disparou como um tambor descompassado. . hã? Pois bem. . tu não és eu! Deixa-me em paz e leva contigo a azar que te escolheu! Por um segundo tudo mudou e tudo permaneceu igual. – E fixou um ponto atrás da minha cabeça. eu devolvê-lo-eii. O meu arco permanecia tombado no chão. Virei-me na direcção do rapaz.A minha pequena dama é corajosa. Senti-me corar com este pensamento e enterrei o meu rosto no seu ombro aumentando irreflectidamente o meu embaraço. decidi. evitando olhar na sua direcção. Foi ele quem se afastou de mim.Penso que isto vos pertence – Sussurrou perto do meu ouvido enquanto um peso familiar se depositava sobre o meu tórax e se alojava por entre as minhas mamas.Eu sou o teu pior pesadelo.

vou responder-vos – E com isto levou a mão ao rosto. . Não podia ser! Era ele! O rapaz do cemitério era ele! Fechei os olhos..Porque foi por mim que ela foi criada. . Só podia estar a sonhar! E quando os abri ele e o meu arco já não se encontravam ali. – Sussurrou-me o vento aos ouvidos numa voz desvanecida. retirando a máscara e permitindo-me ver a sua cara. Pois bem.Perguntáveis vós como se tornou a canção da Lira do meu conhecimento.

o que só agravava a “minha perturbação”.Capítulo 4 Piriririri piriririri – O meu telemóvel chamou por mim. se quer assim tanto meter conversa comigo ou menos diga alguma coisa de interessante ou pergunte algo que valha realmente a pena. Então. Tínhamos acabado de regressar da festa e tudo o que eu queria naquele momento era esquecer tudo o que nela acontecera. O fio de ceda negra entrelaçada escorregou-me por entre os dedos. derramando-se sobre o meu peito desassossegado.. Peguei nele e voltei a introduzi-lo no orifício vazio percorrendo a sua superfície macia com a pontas dos dedos. Atirei-me para cima da cama e agradeci o picar reconfortante que senti contra o peito. elas não se tornariam reais. Por momentos fiquei apenas assim. repreendendo-me depois por inventar histórias esquisitas. Nem censurariam a Alex por “incentivar os meus desvarios”. Nada dos habituais “Bons dias”. Se apenas eu soubesse da sétima filha ela não teria lugar nem espaço neste mundo. “Quem seria ele?” questionei-me pela enésima vez. disso não havia dúvidas. tentando absorver cada detalhe. eu própria obrigaria todos os meus devaneios fantasiosos a vagar para o mar do esquecimento e nada disso me poderia alguma vez voltar a magoar. observando-a. mas santa paciência. .” Pensei. Fechei bruscamente o telemóvel e atirei-o para cima da cama. “Bom jantar” e “Boa noite e dorme bem” desnecessários que habitualmente me enviava. Rebolei de forma a ficar de barriga para cima e retirei o colar do pescoço. Levei-o aos lábios e beijei-o como a minha irmã fizera antes de me entregar aquele medalhão protector. Fiz uma careta. para não falar do simples e directo “Olá” que surgia no meu ecrã quando a sua imaginação estava mais em baixo. Era do Fábio. que me fazia muitas perguntas e que se limitava a abanar a cabeça e a tirar notas no seu caderno cinzento. Os meus pais não precisavam de me ir buscar embaraçados dizendo a um amigo de família que eu tinha uma imaginação muito fértil. cada reflexo vítreo que deslumbrava o meu olhar. Essa fora uma das primeiras lições que eu aprendera durante criança. pelo menos tinha feito uma pergunta directa. Agora era simplesmente igual. Esse pensamento levou a minha mente a divagar. Sentei-me na cama enquanto lhe pegava e pressionei o botão que iria tornar visível a mensagem recebida. que quereria ele desta vez? Olhei para o pequeno ecrã e li impaciente “Oi crida! Porque desapareceste tu da festa? Beij”. Peguei nele com cautela e virei cristal contra a luz como por vezes fazia. o colar estava de volta e isso era para mim como um farol aceso numa noite de nevoeiro. Se ninguém nada soubesse das dúvidas que me atormentavam elas apenas existiriam na minha realidade. Aquele era o meu tesouro mais belo. Ou me levariam ao médico de ar simpático e olhos preocupados. “Bom almoço”. A pedra azul ficou subitamente cristalina. não existia. “Crida”???? Mas quem pensava ele que era? Bem. “De onde vinha e o que tinha a ver com o meu colar?” Suspirei de frustrações e tentei afastar todas estas questões para o cantinho da minha mente onde guardava e esquecia todas as perguntas cuja resposta temia. porque simplesmente não era real. vibrando no meu bolso como se tivesse uma mensagem importante que devesse ser entregue. Não que haja mal em ele mandar-me essas mensagens. Enquanto guardasse as minhas dúvidas e visões para mim própria e não contasse a ninguém.. brilhando como a água pura de um ribeiro. Fosse quem fosse o rapaz que mo tivesse devolvido e as razões que tivera para faze-lo. “Pelo menos o meu colar está de volta. Ele tinha péssimo sentido de oportunidade. Apreciei com igual prazer cada remendo e cada mancha acinzentada que tinha adquirido com a idade.

bebe. Havia a Alex divertida e irritante. qualquer coisa! Não me trates como me tratavas naquela época. Não me trates como se isto tudo fosse real. fechei os botões da minha camisa escondendo-o do olhar da minha irmã. – Fixei-a repentinamente e olhei-a nos olhos – Para de ser ela! – exigi – Irrita-te comigo! Diz-me que eu parecia meia louca quando voltamos para casa. Foi a Alex quem quebrou o nosso abraço. abraçadas uma à outra.Voltei a observar a pedra azul suspensa nas minhas mãos. – Levou a mão à minha cabeça e acariciou os meus cabelos. Vai fazer-te bem. constituas a parecer meia louca apesar de tudo. a chorar e a balbuciar coisas inteligíveis. que me falta um parafuso. eu não tinha o direito de a preocupar mais do que ela já estava. essa é melhor ninguém conhecer. preocupada. ou tudo o que se passara até agora e desde sempre era real. eu nada lhe tinha contado dos meus encontros com o corvo ou do rapaz do cemitério. era como se dentro dela existissem várias Alexs para as diversas ocasiões. Eu estava a correr. A sua superfície macia fazia lembrar cetim e de alguma maneira pareceu-me familiar e antiga. . certo? Eu devia parecer louca. . Sem pensar. Peguei nela cautelosa. Abracei-a. que sabe sempre tudo e que cuida sempre de mim como se fosse uma avozinha dedicada e eu a sua neta pequena e frágil. certo? Goza comigo e diz que eu devo ter batido com a cabeça. colocou as sua mão gentis nos meus ombros e afastou-se de mim. como se nenhum mal nos pudesse acontecer se ficássemos apenas assim. O que estava a acontecer comigo? Eu já não era uma criança. como poderia ainda acreditar que uma simples pedra azul poderia fazer com que ficasse tudo bem? Mas que outra escolha eu tinha? Ou o rapaz do cemitério e tudo o que me perseguia desde o dia em que o conhecera não passavam do fruto dos meus delírios e eu estava explicitamente a ficar maluca. ficando apenas um pesar ligeiro no meu peito e o fantasma das recordações de todos os acontecimentos estranhos que me tinham perseguido durante toda a semana. Levei a mão instintivamente ao peito como sempre fazia mas desta vez não estava vazio.Sabes. Os meus soluços foram me abandonando um a um. Pousei-a sobre o colo e procurei as patilhas minúsculas que me permitiram libertar a tampa e descobrir o seu conteúdo. Apressei-me a esquecer tudo o que não me podia ajudar naquele momento e coloquei o colar no meu pescoço onde pertencia. Então. Funguei em concordância e continuamos abraçadas durante um longo tempo. tudo ao mesmo tempo. e aquele pequeno amuleto era a única coisa que se entrepunha entre mim e a sétima filha que continuava a perseguir-me.Vá. Ouvi passos no corredor. . que estava sempre a gozar comigo e me abandonava sempre que podia para ir namorar. – Disse-me ela com um brilho intrigante no olhar. . . E depois há esta Alex.Pára com isso – sussurrei – para de ser ela. para de ser essa Alex gentil. era pesada.Vá… Levanta-te e bebe! – Alex colocou gentilmente a caneca mas minhas mãos incentivando-me a beber. – Comecei a soluçar – Vez? Já estou a… – Por esta altura os soluços submergiram-me e eu perdi-me num pranto meio desesperado. sentou-se ao meu lado e estendeu-me algo que cheirou como chá de erva-cidreira. inclinando-se por sobre a sua mala e retirou lá de dentro uma pequena caixa violeta e estendeuma. Só podia ser a minha irmã que regressava da garagem depois de ter estacionado o carro. porque não é.Tenho uma coisa para ti. A minha irmã entrou no quarto. Havia a Alex impossível. a Alex séria. Como é que ela sabia sempre quando me perdia? Como é que eu podia depender tanto dela? . Por vezes eu desconfiava que Alex sofria de personalidades múltiplas. Olhei o seu interior e o meu coração deu um salto. Virou-se para traz. mantendo sempre os meus olhos presos nos seus. irritava-se sem razão aparente e chorava sem que ela própria soubesse porquê.

mas ao memo tempo também uma pontada de dúvida e desconfiança o fizeram.Para te proteger dos sonhos maus – as suas palavras fizeram eco na minha memória. como era possível ela estar ali. Encolhi-me na cama e coloquei a almofada por cima da cabeça.Ali. Tinha pirado de vez. Ela não reparou e continuou num tom que se esforçava por ser alegre. bruxas e sereias habitavam a minha imaginação e o fantasma da sétima filha vivia comigo nos meus pesadelos. Passado um instante encontrou o que procurava. Era em tudo igual à que eu tinha perdido. – Encolheu os ombros – Queria comprar-te um novo para te fazer uma surpresa. a minha irmã debruçou-se sobre mim e colocou o colar no meu pescoço. Como nessa época. era como se eu estivesse a viver no interior de um sonho. . Os meus amigos iriam matar-me da próxima vez que nos encontrássemos. Um sentimento de segurança e certeza de ser amada invadiu-me. Bem que a minha avó costumava dizer quando eu era pequena que eu tinha uma imaginação maior do que eu. Eu estava a ficar doida. deve ter caído lá para dentro de alguma maneira quando o perdeste. virou-se para mim eu pude vê-la colocar a pedra azul num cordão preto que ela comprara uma vez em Espanha com um pingente. Então. Forcei-me a sorrir. levando-me a anos atrás a uma época onde anões. à minha frete dentro daquela caixinha violeta? . fadas. inclinei-me sobre a caixa violeta. de onde vinha a que eu tinha ao pescoço? Alex levantou-se. onde era o seu lugar. dirigiu-se ao armário e começou a mexer numa das suas gavetas. tudo o que me tinha rodeado nos últimos tempos. . só podia ser isso. . no interior de um pesadelo.O fio estava partido. Olhei-a com um ar séptico. peguei na pedra azul e observei-a atentamente. aquecendo o meu coração.Pronto – disse-me ela – Terá que servir até comprar-mos algo melhor… . Mas… Se aquela era a que eu perdera. Mas tudo o que me estava a acontecer. só podia ser isso. por baixo do casaco senti a minha pedra azul alojada na depressão entre as mamas.Encontrei-a esta manhã! – explicou-me a minha irmã – Estava no jipe no porta luvas da porta. Isto caso as pragas que deveriam estar a rogar-me naquele momento não me matassem primeiro.Ajoelhou-se a meu lado e olhando-me nos olhos levou o cristal aos lábios enquanto dizia numa voz decidida como fizera à tantos anos atrás: . por isso ainda não te o tinha dado. ou melhor.