Edna Maria F. S.

Nascimento Lenira Marques Covizzi

JOÃO GUIMARÃES ROSA
Homem plural escritor singular

2001

EDITORA ÁGORA DA ILHA

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FICHA CATALOGRÁFICA
NASCIMENTO, Edna Maria Fernandes dos Santos e COVIZZI, Lenira Marques / João Guimarães Rosa: Homem plural escritor singular. – 2a ed. – Rio de Janeiro, 2001. Rio de Janeiro, maio de 2001 - 2a edição 76 páginas

Editora Ágora da Ilha Brasil: Escritores: Biografia Escritores brasileiros: Biografia Ficção: Literatura brasileira: História e crítica

ISBN 86854 928.699 928.699 869-9309

Copyright © Edna Maria Fernandes dos Santos Nascimento (edna.fernandes@uol.com.br) e Lenira Marques Covizzi DIREITOS DESTA EDIÇÃO RESERVADOS ÀS AUTORAS, CONFORME CONTRATO COM A EDITORA. É PROIBIDA A REPRODUÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTA OBRA SEM AUTORIZAÇÃO EXPRESSA DAS MESMAS. João Guimarães Rosa: Homem plural escritor singular EDITOR: PAULO FRANÇA Capa: Paulo França RIO DE JANEIRO, MAIO DE 2001 EDITORA ÁGORA DA ILHA TEL.: 0 XX 21 - 3393-4212 agorailh@ruralrj.com.br

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SUMÁRIO

JOÃO GUIMARÃES ROSA ...........................................................

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JOÃOZITO ..................................................................................... 10 HOMEM PLURAL ......................................................................... 12 ESCRITOR SINGULAR Criação/Criador ............................................................................ 18 Expressão singular ................................................................. 20 Precisão da palavra ........................................................... 21 Horror ao lugar-comum .................................................... 24 Universo singular .................................................................... 35 Arquitetura de universo engenhoso .................................. 35 Imaginário de universo singular ....................................... 42 Processo narrativo: oralidade e reflexão de documentos animados ..................................................................................... 45 Criação/Público..............................................................................51 Magma .................................................................................. 51 Contos/Sagarana. Engano de Graciliano Ramos e nascimento do escritor ....................................................................................... 53 Corpo de Baile. Mistura de gêneros ........................................ 56 Grande Sertão: Veredas. Inovação da estrutura narrativa ..... 56 Primeiras Estórias. Condensação da linguagem ..................... 60 Academia e reconhecimento público ....................................... 62 Tutaméia. Prefácios travestidos .............................................. 65 Capítulos não terminados: Estas Estórias e Ave, palavra ... ....67

BIBLIOGRAFIA ATIVA, PASSIVA E COMPLEMENTAR .......... 71

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Para quem o enigma é tentação. Em especial à profa. Dra. Cecília de Lara, responsável pelo Arquivo Guimarães Rosa, quando da pesquisa com o material inédito do autor.

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Registro Civil de nascimento de João Guimarães Rosa. Cópia expedida a 25 de março de 1934. (Documentos Pessoais – IEB)

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“(..) a separação de minha biografia da minha obra é impossível (...)” (Lit...)

“(...) às vezes, chego a acreditar, que eu mesmo, eu, João, sou uma estória que eu contei”. (Lit...)

“Vou-lhe revelar um segredo: creio que eu já vivi uma vez. Naquele tempo, eu também era brasileiro e chamava-me João Guimarães Rosa”. (Lit...)

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ABREVIATURAS

AP = Ave, Palavra. Cor. trad. it. = J. Guimarães Rosa - correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizzarri. EE = Estas Estória. EM = Em Memória de João Guimarães Rosa. GR em guarda contra... = “Guimarães Rosa em guarda contra as emoções e a expansividade”. GSV = Grande Sertão: Veredas. IEB = Instituto de Estudos Brasileiros. Joãozito = Joãozito. Infância de João Guimarães Rosa. Lit... = “Literatura deve ser vida”. MM = Manuelzão e Miguilim. NA = Novo Dicionário de Língua Portuguesa. NS = Noites do Sertão. PE = Primeiras Estórias. SAG = Sagarana. TUT = Tutaméia. UP = No Urubùquaquá, no Pinhém.

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JOÃO GUIMARÃES ROSA
“Era um nome, ver o que. Que é que é um nome? Nome não dá: nome recebe.” (GSV)

Cordisburgo, Minas Gerais, 27 de junho de 1908. Documentos atestam que nasceu João Guimarães Rosa, filho de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. Copacabana, 19 de novembro de 1967, domingo 20:30 horas. Três dias após sua posse na Academia Brasileira de Letras, morreu aos 59 anos, sozinho, à mesa de trabalho, vítima de enfarte. O corpo foi trasladado para a Academia e exposto à visitação. Foi sepultado no cemitério São João Batista. O escritor Guimarães Rosa deixou publicadas as seguintes obras de ficção: Sagarana; Corpo de Baile (a partir da 3ª edição dividido em três livros: Manuelzão e Miguilim; No Urubùquaquá, no Pinhém; Noites do Sertão); Grande Sertão: Veredas; Primeiras Estórias; Tutaméia (Terceiras Estórias); e dois volumes de organização póstuma: Estas Estórias e Ave, Palavra. A maior parte dessas obras foi traduzida em vários países. Algumas, como Grande Sertão: Veredas e “A hora e vez de Augusto Matraga”, foram ainda adaptadas para a linguagem de outros veículos de comunicação. Inúmeros são os artigos, os livros e as teses que têm como objetivo o estudo de sua obra. Os apontamentos, cadernos de estudo, recortes, correspondência, originais, biblioteca, transformaram-se no Arquivo Guimarães Rosa, pertencente ao Instituto de Estudos Brasileiros. João Guimarães Rosa é hoje nome de escola, em Magalhães Bastos (RJ), e em Osasco (SP), e de pico de 2 150 metros na fronteira com a Venezuela. Há em Minas Gerais uma sala em sua homenagem na Faculdade de Medicina, onde estudou. A casa em que nasceu foi transformada no Museu Guimarães Rosa.

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JOÃOZITO
“Pois não é ditado: menino – trem do diabo.” (GSV)

Cordisburgo – antes Saco dos Cochos, depois coração de Jesus da Vista Alegre, abreviadamente Vista Alegre – assim descrita no início do discurso de posse na Academia Brasileira de Letras: “Cordisburgo era pequenina terra sertaneja, trás montanhas, no meio de Minas Gerais. Só quase lugar, mas tão de repente bonito: lá se desencerra a Gruta do Maquiné, milmaravilha, a das fadas; e o próprio campo, com vasqueiros cochos de sal ao gado bravo, entre gentis morros ou sob o demais das estrelas, falava-se antes: os pastos da Vista Alegre”. O cenário está montado para Joãozito. Perto, Maquiné. A pedra de sua pia batismal é extraída da caverna. Adquire na observação direta das plantas, dos bichos, da natureza, os primeiros conhecimentos de botânica, de zoologia, de geologia. Explora os campos e, não raro, assusta os cinco irmãos com as descobertas que traz para casa: sapos, cobras. Faz tijolinhos com barro em fôrmas de caixa de fósforo para construir casinhas de bonecas de suas irmãs. Escolhe sabugos de espiga de milho e os transforma em bois de carros. Cria um jornal: escrito à mão, em folhas de papel de embrulho, do armazém do pai. Joãozito – menino pouco comum. Aprende a ler sozinho, soletra as letras dos jornais ou os rótulos dos caixotes do armazém de seu pai Florduardo. Rejeita os brinquedos; prefere os bichos, os mapas. Fica famoso na família o dia em que some. É quase noite. Todos o procuram. Está no fundo do armazém, no depósito de mercadorias, já adormecido sobre um saco de arroz com um livro nas mãos. A vela ainda acesa. Dessas fugas, talvez a confissão magoada: “Não gosto de falar de infância. É um tempo de coisas boas, mas sempre com pessoas grandes incomodando a gente, interferindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. (...) Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas tempo bom de verdade, só começou com a

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Joãozito (EM)

conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta. Deitar no chão e imaginar estórias, poemas, romances, botando todo mundo conhecido como personagem, misturando as melhores coisas vistas e ouvidas”. (EM) A leitura é um hábito constante; sua posição predileta: sentado, pernas cruzadas como um pequeno buda, sobre elas o livro. Inicia o estudo da língua francesa com frei Estevam, religioso franciscano. Traduz revistas francesas que sua mãe, dona Chiquinha, recebe. Lê seu primeiro livro em francês – Les femmes qui aiment – entre seis e sete anos. Com frei Canízio Zoetmulder começa a estudar holandês e, mais ou menos aos dez anos, toma contato com a língua japonesa com um lavrador. Míope, usa óculos com apenas nove anos. Como Miguilim, personagem de “Campo Geral”, a revelação do mundo?: “Miguilim olhou. Nem podia acreditar! Tudo era uma claridade, tudo novo e lindo e diferente, as coisas, as árvores, a cara das pessoas. Via os grãozinhos de areia, a pele da terra, as pedrinhas menores, as formiguinhas passeando no chão de uma distância. E tonteava. Aqui, ali, meu Deus, tanta coisa, tudo...” Com dez anos é levado por seu avô, Luís Guimarães, para Belo Horizonte. Aí estuda no Colégio Arnaldo, por onde também passam Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava, Gustavo Capanema. Com o menino vai Cordisburgo: cenário e personagens para as suas (dos outros) estórias.

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HOMEM

PLURAL
“Mas agora já chegamos de novo naquele ponto, que indica o momento no qual o homem e sua biografia resultam em algo completamente novo. Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes da minha vida, e, em rigor, a seqüência representa um paradoxo. Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte. ..” (Lit...) “Você pode me tratar como quiser. Me chama de João, de Guimarães Rosa ou de Rosa. Todos são eu.” (Rosiana)

A mudança para Belo Horizonte, em 1918, não altera a personalidade de Joãozito. Os conhecimentos adquiridos diretamente com a natureza são agora aperfeiçoados nas aulas de História Natural, sua disciplina preferida. Aproveita esses conhecimentos para montar uma coleção de borboletas e insetos. O estudo de línguas, iniciado muito cedo, é aperfeiçoado pela sistematização gramatical. Continua a ler muito e, já nessa época, conhece a obra de Euclides da Cunha. A paixão pela leitura leva-o freqüentemente, aos domingos, à Biblioteca Pública, onde devora os livros juntamente com empadinhas e soda limonada, compradas com a mesada de dois mil-réis. Joãozito ainda encontra tempo para ser center half no time de futebol do colégio e estudar, nas horas vagas, violino. Conta-se que por falta de dinheiro vende o violino para visitar uma namorada que se mudara para outra cidade. Isso tudo se passa até 1925, quando decide matricular-se na Faculdade de Medicina de Minas Gerais. Ainda estudante de Medicina, ocupa os seguintes cargos: Agente Itinerante da Diretoria do Serviço de Estatística Geral do Estado de Minas Gerais / Secretaria da Agricultura (1928), percebendo o salário anual de 4:800$000; Auxiliar Apurador da Diretoria do Serviço de Estatística Geral do Estado de Minas Gerais / Secretaria da Agricultura, em caráter de substituição (1930). O salário é pouco, os livros de Medicina custam caro. A revista O Cruzeiro promove um concurso de contos. O quintanista de Medicina está agora

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com vinte e um anos. Envia para o periódico o conto “Mystério de Highmore Hall”, que é selecionado e publicado no número 57 d’O Cruzeiro (1929). Este conto, lembrando Oscar Wilde e passado na Escócia, valeu-lhe o prêmio de cem mil-réis. Em 9 de fevereiro de 1930, publica, no suplemento dominical de O Jornal, o conto “Makiné”. Ainda no mesmo ano, publica mais dois contos na revista O Cruzeiro: a 21 de junho, “Chronos Kai Anagke” (Tempo e Destino) – uma história de xadrez passada no sul da Alemanha; a 12 de julho, “Caçadores de Camurça”. Estes contos são a estréia literária de João Guimarães Rosa. Escritos em estilo convencional, eles não agradam ao próprio autor, que confessa, em carta datada de 19 de outubro de 1966 e dirigida à prima Lenice, que eram outros os seus interesses na época: “Mas, escrever, mesmo, só comecei em 1929, com alguns contos, que, naturalmente, não valem nada. Até essa ocasião, eu só me interessava, e intensamente, pelo estudo da Medicina e da Biologia”. (Joãozito) Mas os personagens estrangeiros com os nomes inventados – Inagywyddol, Affael, Lleoddag, Duw-Rhoddoddag, Inverary, Sviazline – antecipam o seu gosto pelo inusitado. Os cenários longuínquos – Bulgária, Londres, Alemanha, depois substituídos pelo sertão – são explicados na carta à prima: “Desde menino, muito pequeno, eu brincava de imaginar estórias, verdadeiros romances; quando comecei a estudar geografia – matéria de que sempre gostei – colocava as personagens e cenas nas mais variadas cidades e países; um faroleiro, na Grécia, que namorava uma moça no Japão, fugiam para a Noruega, depois iam passear no México... coisas desse jeito, quase surrealistas”. (Joãozito) No mesmo ano de sua formatura, 1930, Joãozito se casa no dia de seu aniversário, com a jovem de 16 anos Lygia Cabral Penna. O Dr. Guimarães Rosa é o orador da turma. O casal muda-se para Itaguara, interior do Estado de Minas Gerais, em 1931, onde Joãozito inicia a carreira médica. A 5 de junho, nasce a primeira filha: Vilma Guimarães Rosa. A carência de médicos, na região, exige que o recém-formado galope grandes distâncias para atender a clientes. Aproveita até esses momentos de viagem para estudar. A sua dedicação à profissão chega a extremos. No artigo “Perfil de Guimarães Rosa”, Renard Perez fala da perturbação de Dr. João Rosa quando perde um paciente: “E uma vez em que isso aconteceu ficou aflitíssimo, sem saber que resolução tomar. O padre já esperava ao lado do morto, para encomendar-lhe o corpo, e Rosa ainda lhe

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aplicava injeções sobre injeções, como se pretendesse ressuscitá-lo. Foi uma noite de agonia. Em casa, mais tarde, o escritor fechou-se no quarto, sem querer jantar, imaginando represálias por parte dos parentes e amigos do morto, quem sabe um linchamento... Soube depois que a preocupação era inteiramente infundada, e que todos haviam reconhecido que ele fizera o impossível”. Apesar dos atropelos da Medicina e os imprevistos da morte, a vida calma de Itaguara permite o retorno aos estudos das línguas ao lado de outras atividades: Inspetor da Secretaria da Educação e Saúde Pública (1932); voluntário da Força Pública, durante a Revolução Constitucionalista, servindo no Setor do Túnel (1932). É nesses dias dramáticos da revolução que estreita laços de amizade com o colega Dr. Juscelino Kubitschek de Oliveira. Em 1933, o Dr. João Guimarães Rosa presta concurso para a Força Pública e passa a integrar o 9° Batalhão de Infantaria, como oficial médico, sediado em Barbacena (MG). Guimarães Rosa continua a estudar línguas e não perde oportunidade para exercitar e aperfeiçoar os seus conhecimentos: com um soldado da Polícia Militar de Minas, de origem russa, confronta sua pronúncia pela primeira vez; o que retoma mais tarde com um grupo de cadetes e antigos oficiais do exército czarista – componentes de Coro dos Cossacos do Juban e do Don – que se apresenta em Barbacena. Ainda como homem público, é membro do Serviço de Proteção ao Índio de 1933 a 1935. No início do ano de 1934, nasce Agnes, segunda filha do casal. E a 12 de maio, é nomeado para o cargo de capitão-médico do Serviço de Saúde da Força Pública do Estado de Minas Gerais, com vencimentos anuais de 10:200$000. O seu continuado interesse por línguas leva o amigo, Dr. Jorge Vaz, a sugerir-lhe a diplomacia. A essa conversa informal, segue-se a entrada para o Itamaraty depois da realização de duras provas; classificado em segundo lugar, inicia nova carreira como Cônsul de Terceira classe, a 11 de junho de 1934, no Rio de janeiro. É assim que o Dr. João Guimarães Rosa abandona a Medicina para correr mundo como diplomata, ocupando e exercendo os seguintes cargos e funções: 1938 – 5 de maio. É nomeado Cônsul-adjunto em Hamburgo, onde conhece Aracy Moebius de Carvalho, na companhia de quem viveu até a morte. 1941 – 20 de maio. Vai a Lisboa na qualidade de correio diplomático da Embaixada do Brasil em Berlim. 1942 – de 28 de janeiro a 23 de maio, com a ruptura entre o Brasil e a Alemanha, ficou internado, junto com Cícero Dias e Cyro de Freitas Vale, em Baden-Baden. Quando libertado, retorna

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ao Brasil. – 1de julho. É enviado para a Embaixada de Bogotá, como Segundo-secretário. 1944 – 27 de junho. Exonerado do cargo em Bogotá, volta ao Rio de Janeiro para a Secretaria de Estado. 1946 – É nomeado Chefe de Gabinete do Ministro João Neves da Fontoura. – É enviado a Paris como Secretário da Delegação à Conferência de Paz. 1948 – 19 de março. Segue para Bogotá como Secretário-geral da Delegação Brasileira à IX Conferência Pan-americana. – 10 de dezembro. É nomeado Primeiro-secretário da Embaixada do Brasil em Paris. 1949 – 20 de junho. É promovido a Conselheiro da Embaixada do Brasil em Paris. 1951 – Promovido a Ministro de Segunda Classe. – 29 de março. De volta ao Brasil, é outra vez nomeado Chefe de Gabinete do Ministro João Neves da Fontoura. 1953 – 9 de outubro. É nomeado Chefe da Divisão de Orçamento do Ministério das Relações Exteriores. 1958 – Promovido à Ministro de Primeira Classe (Embaixador). 1962 – Assume no Itamaraty a Chefia do Serviço de Demarcação de Fronteiras. – Toma parte ativa em casos como os do Pico da Neblina (1965) e das Sete Quedas (1965). – Serve como correio-verbal de mensagens cifradas em Berlim e Lisboa. Do diplomata, Guimarães Rosa faz o seguinte comentário quando responde a Günter Lorenz o que o havia motivado, em Hamburgo, a arriscar-se na perigosa aventura de arrancar judeus da Gestapo: “(...) um diplomata é um sonhador, por isso eu pude exercer esta profissão. Ele acredita poder reparar o que os políticos estragaram. Por isso eu agi assim e não de outra maneira. Por isso também gostei de ser diplomata. E então, em Hamburgo, acrescentou-se ainda outra coisa. Eu, o homem do sertão, não posso presenciar injustiça. Na minha terra, num caso assim, a gente atira muito rápido. Lá não foi possível. Então, fiz um estratagema diplomático. Não foi assim tão perigoso. Mas agora eu lido

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com limites de fronteiras e por isso vivo muito mais ilimitado”. Além das atividades diplomáticas, participa de várias sociedades culturais: Pen Club, Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, hoje Sociedade Brasileira de Geografia, Academia Brasileira de Letras, Cat Club. O reconhecimento público lhe confere em 1965 a Medalha da Inconfidência, outorgada pelo governador Israel Pinheiro, e a condecoração da Ordem de Rio Branco. Em 1967, é convidado a integrar a comissão julgadora do II Concurso Nacional de Romance Walmap, ao lado de Jorge Amado e Antônio Olinto. Como membro do Conselho Federal de Cultura, em outubro de 1967, elabora extenso pronunciamento sobre o novo acordo ortográfico. Na qualidade de relator do debate, Guimarães Rosa manifesta-se contra o problema levantado pelos filólogos brasileiros e portugueses em favor de um acordo lingüístico luso-brasileiro. Seu parecer é apoiado por unanimidade pela comissão constituída também por Raquel de Queiroz, Moisés Velhinho e Cassiano Ricardo. Apesar das múltiplas atividades realizadas enquanto profissional liberal e no funcionalismo público, as paixões de Joãozito continuam no homem João

Nas visitas ao zoológico, a descrição transfigurada do rinoceronte: “Nepali consente que eu lhe coce a testa. É o rinoceronte hindustânico monócero, bem emplacado, verrucoso”. (AP) (Foto EM)

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Guimarães Rosa. O estudo das línguas leva ao Itamaraty. O amor pela natureza – espaço de sua infância e adolescência – é agora ampliado para âmbito universal. É membro de um clube inglês de gatos e freqüentador de zoológicos, como confessa a 12 de junho de 1963 em carta a Mário Calábria: “Peguei-me com o coração me lembrando aquela nossa entretida ida ao Parc Zoologique de Vicennes, onde bisões gorgeiam e as girafas (maluco-metódicas) galopam. Luís Sérgio está no fecundo feliz, e descobridor, sério sorridente, cosmical atento – e tudo muito o que ele é: feito de sensível e clara e energética, suavidade. Vejo-o vendo muito mais que nós alcançamos ver, o búfalo, a tartaruga, o carneirinho-da-charneca. Imagino como o espírito dele estará daqui por diante enriquecido. E, mim para mim, depois dessa experiência, desta dele mágica aventura, passei a saber coisas novas a respeito do ouriço e da folha de faia. Fica programada – para quando vocês os de Ushi, voltarem ao Rio – uma fina e festiva expedição toda nossa ao zoológico da Quinta da Boa Vista, lá com ariranhas, gaturamos, sabiás, tatus. É perto dos bichos que os homens se amam mais”. Os animais caçados em Cordisburgo e levados vivos – passarinhos, pombos, perus, veados, perdizes, sagüis – pelo pai Florduardo, são substituídos por gatos e cachorros. Gatos: Tout Petit, Xizinho, Boizinho... O seu último cachorrinho pequinês mereceu uma lápide no Cemitério dos Cães, em Mangueira: “Sung, Sunguinho de Deus”. A tendência à interiorização, manifesta desde a infância, se reafirma de forma sistemática no adulto que alinha notas de comportamento numa cadernetinha: “1) Combater a expansividade em todas as suas formas. De uma maneira geral, é preciso guardar silêncio. 2) Dominar todos os impulsos. Não comunicar notícias, não transmitir novidades. 3) Never explain, never complain! (Nunca explicar, nunca queixar-se!) 4) Não ser afirmativo (dogmático) nem demonstrativo (explicativo). 5) Não expressar nunca as nossas impressões, especialmente as que resultam das conversações que ouvimos. 6) Cada exclamação, cada palavra, cada gesto – conservador – aumentam nossas reservas. 7) Moderar todos os movimentos expressivos e dar apenas mui ligeiras mostras de emoção, surpresa, alegria, descontentamento, etc. Todo gesto desordenado ou toda mostra de agitação rouba-nos algo”. (GR em guarda contra...) A experiência do homem plural é fonte para a criação lingüística de universo singular.

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ESCRITOR SINGULAR
CRIAÇÃO/CRIADOR
“Mas eu choco também meus livros; uma palavra, uma única palavra, ou uma frase, podem ocupar-me durante horas ou dias”. (Lit...) “Genialidade, pois sim. Mas eu digo: trabalho, trabalho, trabalho!” (Lit...)

A busca da forma precisa: sinal característico de Guimarães Rosa (m% = meu cem por cento). (Estudo de Vocabulário – IEB)

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Anotar. Meditar. Escrever e guardar. Tornar a escrever. A técnica de trabalho, a busca da forma precisa. Quando chega a ela, o sinal característico: m%, que significa “meu cem por cento”. A angústia da perfeição: “Apenas sou incorrigivelmente pelo melhorar e aperfeiçoar, sem descanso, em ação repetida, dorida, feroz, sem cessar até o último momento, a todo custo. Faço isto com os meus livros. Neles, não há nem um momento de inércia. Nenhuma preguiça! Tudo é retrabalhado, repensado, calculado, rezado, refervido, recongelado, descongelado, purgado e reengrossado, outra vez filtrado. Agora, por exemplo, estou refazendo, pela vigésima terceira vez, uma noveleta. E, cada uma dessas vezes, foi uma tremenda aventura e uma exaustiva ação de laboratório. Acho que a gente tem de fazer sempre assim. Aprendi a desconfiar de mim mesmo. Quando uma página me entusiasma, e vem a vaidade de a achar boa, eu a guardo por uns dias, depois retomo-a, mas sinceramente afirmando a mim mesmo: – vamos ver por que esta página não presta! e, só então, por incrível que pareça, é que os erros e defeitos começam a surgir, a pular-me diante dos olhos. Vale a pena, dar tanto? Vale. A gente tem de escrever para setecentos anos. Para o Juízo Final. Nenhum esforço suplementar fica perdido”. (Carta a Meyer-Clason)

Angústia da perfeição. Correção de página do original de “A hora e vez de Augusto Matraga”. (Originais – IEB).

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As correções dos originais eram tantas que levaram o editor José Olympio a fundir as matrizes de Sagarana, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas. A preocupação com as traduções gerou uma farta e rica correspondência, repleta de glossários e considerações sobre língua e literatura. A criação lingüística do universo rosiano é fruto de trabalho. O material armazenado empiricamente desde a infância, depois nos cadernos de anotações, nas pastas de recortes para a obra, compõe um universo singular; a depuração lingüística dá-lhe uma expressão singular.

Precisão da palavra: correspondência do Autor colaborando com a tradução para o inglês – glossário ilustrado. (Correspondência – IEB)

Expressão Singular Desde menino a preocupação com a expressão: o conhecimento de línguas e o estudo de gramáticas. Sua biblioteca e arquivo, a confirmação desse interesse: dicionários, gramáticas, glossários – listas de termos específicos, principalmente ligados a boi e usos e costumes do sertão. Do manejo das línguas à criação. Criação ampla em vários níveis da língua: lexical, sintático, sonoro, pontuação. A definição de língua a Lorenz:

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“E quero frisar, que ela foi fundida de elementos que não são minha propriedade privada mas estão à disposição de todos os outros da mesma maneira”. (Lit...) A explicação a Lorenz da relação com sua língua: “É uma relação de parentesco, de amor. Minha língua e eu somos um casal de amantes, que juntos procriam fervorosamente, mas ao qual se recusou até hoje a bênção eclesiástica e científica. Mas como sertanejo não ligo para a falta de tais formalidades. Minha amante para mim é mais importante”. (Lit...) Precisão da palavra A necessidade de nomear e descrever viva e exatamente as pessoas, os animais, as coisas, leva o Autor a empregar termos especializados. Busca a palavra exata e afirma: “Eu não escrevo difícil. EU SEI O NOME DAS COISAS”. (Rosiana) Obra repleta de vocábulos já existentes da língua portuguesa ou em outras línguas: elementos eruditos, arcaicos, técnicos, brasileirismos, formas populares, empréstimos. Uma passagem de “São Marcos” (SAG) é representativa pelo uso freqüente de elementos eruditos greco-latinos, geralmente relativos à disciplina científica: “É que o meu parceiro Josué Cornetas conseguiu ampliar um tanto os limites mentais de um sujeito só bi-dimensional, por meio de ensinar-lhe estes nomes: intimismo, paralaxe, palimpsesto, sinclinal, palingenesia, prosopopese, amnemosínia, subliminal”. O termo arcaico é também reaproveitado. É freqüente encontrar em Sagarana o emprego de mui por muito. Nos exemplos abaixo, al, imigo e malino são formas arcaicas, respectivamente, de algo, inimigo e maligno. “(...) por al, por mal, eu estava soflagrante encostado, rendido, sem salves”. (GSV) “(...) no imigo, em véspera, não se proseia”. (GSV) “A bala eu chupei, estava azedinha gostosa... – ainda dizia, depois, mais malino”. (MM)

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Se o tema do conto é “A simples e exata estória do burrinho do comandante” (EE), a linguagem do homem do mar será a usada. Palavras e expressões típicas permeiam o texto: “Imagine-o: sobressaindo à meia-nau, uma escalavrada superestrutura, uma barraca – o spardeck ou casa das máquinas – de onde sobe a chaminé; outra, fazendo corpo com a proa, o castelo; e mais outra, à popa, o tombadilho. Aí já pode ter como seria o seu perfil. E a quantidade de burros, sobreexcesso deles, lá, acotovelados, enchendo tudo, mui tranqüilos. Com a luneta, alcançava-se perceber como alguns levantavam cabeça, abrindo as ventas, para tomar o sempre desacostumado forte cheiro de sal, que subia na brisa, digo, vento 3, na tabela de Beaufort”. Os brasileirismos, principalmente na denominação de usos, costumes e elementos da flora e da fauna, não são só de Minas Gerais, mas termos regionais de todo o país: lapeava (Norte): “cortar com o chicote ou lapo; chicotear.” “(...) pai acudiu, tiro não podia ter cautela de dar, lapeava só com o facão.” (MM) urupuca (Sul): “armadilha, arapuca”. “ – Dito, amanhã eu te ensino a armar urupuca, eu já sei (...)”(MM) sebaça (Bahia): “aquisição de objetos alheios à mão armada; assalto à propriedade, seguido de roubo”. “Posso até livrar de sebaça, às vezes, mas não posso perdoar isto não (...)” (SAG) bate-pau (Goiás): “Indivíduo armado a serviço da polícia rural; aquele que presta serviços policiais em lugares desertos, onde é deficiente a força pública”. “Dali a pouco, porém, tornava o Quim, com nova desolação: os bate-paus não vinham (...)” (SAG) savitu (Sul): “saúva”. “Içá, savitu, já ouvi dizer que homem faminto come frita com farinha essa imundície (...)” (GSV) caculucage (Minas Gerais): “planta herbácea da família das Compostas”. “As lagartixas que percorriam de leve, por debaixo das moitas de caculucage.” (GSV) O elemento popular também auxilia a composição da expressão singular: pileca: “cavalgadura ordinária e escanzelada”. “O cavaleiro freou

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quase encostado em Turíbio, tal que, a um resfolego da pileca, um floco de escuma branca voou-lhe no braço.” (SAG) cavalicoque: “cavalo pequeno e de pouco valor”. “Justo no momento, o cavalicoque cobreou com o lombo.” (SAG) osga: “aversão estranhada”. “Uma osga! P’r’aqui mais p’r’aqui que eu fiquei! (...)” (SAG) Algumas formas populares são resultantes de deformações fonéticas. São mudanças normais do sistema que ocorrem, em geral, para facilitar a pronúncia, não alterando o significado do vocábulo. Muitos desses vocábulos podem ser coloquialismos mineiros, mas alguns deles, como arreunir de reunir, alembrar de lembrar, arresidir de residir, são ouvidos em outras regiões do Brasil. As deformações fonéticas podem resultar de: l trocas vocálicas: jenuária por januária, “cachaça”. “Vamos consumir uma jenuária, seu Camilo?” (MM) l quedas de fonemas: branquiçadas por esbranquiçadas. “Árvores branquiçadas, traiçoeiramente.” (GSV) l aumento de fonemas: serepente por serpente. “Nem cobra serepente malina não é”. (GSV) A busca do termo preciso leva Guimarães Rosa a introduzir na obra também termos estrangeiros. O empréstimo conota o modo peculiar de cada povo denominar os seres e objetos; por isso, afirma o Autor, há palavras e expressões intraduzíveis: “Aprendi umas línguas estrangeiras só para enriquecer a minha própria linguagem. E porque existem demasiadas coisas intraduzíveis, pensadas em sonho, intuitivas, que só se podem encontrar no som original. Quem quer entender corretamente Kierkegaard, tem de aprender dinamarquês, senão nada lhe ajuda, mesmo a melhor tradução; quem quer entender Dostoievski tem de lê-lo em russo, assim é em toda parte onde uma realidade lingüística é velada diante de uma outra, de maneira que não se pode mais penetrar o véu (...) Por isso, aprendi línguas. Cada língua tem para si própria uma verdade interior que não é traduzível”. (Lit...) São empréstimos: drill, “exercícios” (inglês); cachiporras, “cacete” (espanhol); bouvier, “vaqueiro” (francês); tutira, “tio” (tupi). “Escapara então ao rigor do drill prussiano (...)” (AP) “(...) não quiseram pegá-lo com as cachiporras (...)” (SAG)

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“(...) o bouvier das landes gascãs (...)” (AP) “Jaguaretê tio meu, irmão de minha mãe, tutira (...)” (EE) Horror ao lugar-comum O uso desgasta o poder expressivo das palavras. As palavras se tornam clichês e perdem sua poesia. Cada autor, se quiser executar a sua tarefa, tem de usar cada palavra como se ela estivesse acabando de nascer. Revitalizar a palavra e, se necessário, criar o seu próprio vocabulário, aconselha Guimarães Rosa na entrevista a Lorenz: “Nesta Babilônia espiritual dos valores na qual vivemos hoje em dia, cada autor tem de criar seu próprio vocabulário, ele não tem alternativa, senão ele não poderá executar a sua tarefa. Esses jovens ignorantes que declaram abertamente que não se trata mais da língua, que só conta o conteúdo, esses são coitados dos quais só podemos ter pena. O melhor conteúdo não vale nada quando a língua não lhe faz juz, isso mostra Zola. E o conteúdo mais perigoso torna-se uma função humana quando é exprimido em língua poética, isto é, em língua humana. Podemos notar isso em Astúrias. Essa língua, como provam também Astúrias, Thomas Mann e Musil, esta língua deve ser hoje em dia uma língua criada pelo próprio autor, porque o material lingüístico existente basta ainda para prospectos de publicidade e declarações políticas, mas não basta mais para poesia, não basta mais para pronunciar verdades humanas. Hoje em dia, um dicionário é, ao mesmo tempo, a melhor antologia lírica. Cada palavra é na sua essência um poema. Pense só na sua gênese. No meu centenário publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário. Talvez já um pouco mais cedo. Isso será então minha autobiografia”. É assim que age o personagem-narrador de “São Marcos” (SAG). A emoção nova experimentada por ele não pode ser descrita por palavras gastas pelo uso alheio. Procura o vocábulo de “ileso gume”, “raramente usado, melhor fora se jamais usado”: “Sim, que, à parte o sentido prisco, valia o ileso gume do vocábulo pouco visto e menos ainda ouvido, raramente usado, melhor fora se jamais usado. Porque, diante de um gravatá, selva moldada em jarro jônico, dizer-se apenas drimirim ou amormeuzinho é justo; e, ao descobrir, no meio da mata, um angelim que atira para cima cinqüenta metros de tronco e fronde, quem não terá ímpeto de criar um vocativo absurdo e bradá-lo – Ó colossalidade! – na direção da altura? E não é sem assim que as palavras têm canto e plumagem”.

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É o que também recomenda o personagem José Proeza do conto “Cara-de-Bronze” (UP). É preciso “buscar palavras-cantigas” para se achar “o quem das coisas”. É exemplo de revitalização da palavra, enquanto “palavra-cantiga”, o trecho de “São Marcos” em que o Autor emprega um rol de reis somente por causa dos nomes: “Sargon Assarhaddon Assurbanipal Teglattphalasar, Salmanassar Nabonid, Nabopalassar, Nabucodonosor Belsazar Sanekherib Era para mim um poema esse rol de reis leoninos agora despojados da vontade sanhuda e só representados na poesia. Não pelos cilindros de ouro e pedras, postos sobre as reais comas riçadas, nem pelas alargadas barbas, entremeadas de fios de ouro. Só, só por causa dos nomes”. No nível fraseológico, é exemplo significativo de revitalização da linguagem a alteração de certas expressões clichês. Expressões como “tigela e meia”, “Todo o mundo tem onde cair morto” certamente foram calcadas em “meia tigela”, “Não tem onde cair morto”. “Sua estória recordada foi longa: de tigela e meia, a peso de horror.” (TUT) “Tirava os olhos das muitas fumaças. Todo o mundo tem onde cair morto.” (TUT) A busca da poesia. A fuga ao lugar-comum: a necessidade sempre presente da criação do seu próprio vocabulário. O amigo e crítico Oswaldino Marques assim descreve essa verdadeira mania de Guimarães Rosa fabricar palavras: “Durante o percurso, a conversa girava sobre os assuntos do dia, quase nunca sobre literatura. Nos trechos em que o tráfego ronceava um pouco o barulho era ensurdecedor, ele às vezes tirava a caneta do bolso e, num retalho de papel, punha-se a combinar e a recombinar as letras, que, invertidas, transcoavam do vidro do pára-brisa do veículo, onde estava escrito o itinerário. Quando lograva uma invenção original, curiosa, mostrava-me e, os olhos esfuzilando por trás das lentes espessas, abria-se numa risada juvenil, como um colegial a jactar-se de suas habilidades”. (Rosiana)

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Na criação de vocábulos novos, utiliza-se de diferentes mecanismos lingüísticos: derivação, composição, parassintetismo, reduplicação, formação anagramática, analogia morfológica, formação onomatopaica. Numerosos neologismos são resultados de derivação sufixal:

l substantivos
espanholaria de espanhol + o sufixo -aria, dando idéia de coleção. “(...) eu já estou farto dessa espanholaria toda...” (SAG) ceguez de cego + o sufixo -ez, designando qualidade. “(...) na ceguez da noite.” (PE)

l adjetivos
jaguarado de jaguar + o sufixo -ado, significando “aquele que tem caráter de jaguar”. “E Diadorim, jaguarado, mais em pé que um outro qualquer (...)” (GSV) safirento de safira + o sufixo -ento, designando abundância. “Mas como é que o senhor, que deveria de estar enjerizado com esse serviço ruim de arribada, está assim tão safirento, rindo tanto sem a gente saber de que?” (SAG)

l verbos
coqueirar de coqueiro + o sufixo -ar. “O coqueiro coqueirando.” (UP) centaurizar de centauro + o sufixo -izar. “Mas tinha custado mais de conto de réis, num tempo em que os animais não valiam quase nada, e era o orgulho do manuel Fulô. Mais do que isso, era o seu complemento; juntos, centaurizavam gloriosamente.” (SAG)

l advérbios
fortunosamente de fortunoso (“afortunado”) + o sufixo -mente. “Tu veio, fortunosamente.” (GSV) sozinhamente de sozinho + o sufixo -mente. “(...) o passarinho azul que sozinhamente cantou.” (NS) Os sufixos flexionais diminutivos e aumentativos, que exprimem uma nuança da forma primitiva, dão ao vocábulo um valor mais afetivo do que lógico. As formas diminutivas aparecem em maior número e, muitas vezes, o seu valor afetivo é redundante: “O mangusto, só a diminutivos. Eis: um coisinho, bibichinho ruivo, ratote, minusculim, que assoma por entre as finas grades a cabecinha triangularzinha”. (AP)

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O sufixo -inho, um dos sufixos diminutivos mais comuns da língua portuguesa, aparece sob as formas -im, -inh’, -zinho. Às vezes ocorrem as formas -im e -inho num mesmo exemplo. “Filhote, jaguaraím, cachorrinho-onço, oncinho.” (EE) “Ou será que é algum sariguê, de grito fino que nem passarinh’ (...)” (SAG) “(...) duns brejos, buritizalzinho.” (GSV) A redundância diminutiva pode ocorrer na própria palavra: “A casa nova é grandinhazinha.” (AP) “Iam encher o mundo de passarinhozinhos.” (NS) “(...) arqueadas pernas, pequeninotezinho debaixo de extensas abas chapéu couruno.” (TUT) Os sufixos aumentativos emprestam ao neologismo uma nuança pejorativa: “Ela socorria o indiaço.” (AP) “(...) eu militão, ele guerreiro (...)” (GSV) “Gago, não: gagaz.” (GSV) Para maior expressividade, Guimarães Rosa amplia o uso dos sufixos flexionais a categorias gramaticais como o verbo, o pronome, o advérbio, a conjunção, que normalmente não possuem flexão de grau: “Arranjeizinho lá um lugar de guarda-civil.” (SAG) “(...) seo Olquiste exclamouzão: Ypperst!” (UP) “Pois essezinho, essezim (..)” (GSV) “(...) é só issozinho que tu sabe?” (UP) “Ah... e quase, quasinho, quasezinho, quase (...)” (PE) “Tinha de vir, demorão ou jájão.” (GSV) “Ai, viram. Quandão, donde viera a má voz, se soerguia do chão uma cabeçona de gente.” (UP)

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Há revitalização do sufixo -ã, forma feminina de -ão. Esse sufixo não é mais produtivo na nossa língua. Aparece apenas em poucas palavras como aldeão, alemão, que são antigos gentílicos. Nas criações desse tipo, hoje se empregam as formas eruditas -ano e -ense, como por exemplo, baiano, paranaense. São neologismos formados como o sufixo -ã: assassinã, ilhã, madrugã, noroestã. “(...) para castigar onça assasinã.” (GSV) “(...) uma mancha ilhã de capim-vermelha.” (EE) “(...) como a tirolira desabrocha madrugã, tamanho de um bago de orvalho (...)” (NS) “(...) em sua raia noroestã, para dizer com rigor.” (UP) Alguns neologismos são derivados de radicais emprestados de outras línguas: clownescos: adjetivo derivado de clown, vocábulo inglês que significa “palhaço”, + o sufixo -esco, que indica “referência, qualidade”. “O canguru, pés clownescos, não é que se ajoelha às avessas.” (AP) flipasse: verbo derivado de flip, vocábulo inglês que significa “tocar de leve”, + o sufixo verbal -ar. “(...) acaso entanto, uma borboletazinha flipasse recirculando em ziguezague redor do tronco (...)” (NS) lontania: substantivo derivado do lontano, vocábulo italiano que significa “longe, afastado”, + o sufixo grego tônico -ia, que indica substantivo abstrato. “(...) se exportar, exairar-se, sem escopo, à lantonia, às penúltimas plagas.” (AP) A derivação regressiva é também responsável pela formação de alguns neologismos: mau-olho provém de mau-olhado. “Pensou que estivesse com mauolho.” (MM) clango provém de clangor. “(...) nem nenhum clango feeril de instrumento (...)” (AP) chocarra provém de chocarrear: “chalacear grosseiramente”. “(...) tiram graças e chocarra.” (PE) obtempero provém de obtemperar: ponderar. “– Sim, sim, seu (...) – um obtempero.” (TUT)

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rilho provém de rilhar: “roer (objeto duro); trincar”. “(...) – era tranqüilidade de um hábito ouvir o rilho dos torrõezinhos marrons (...)” (NS) Outro tipo de derivação que também é responsável pela criação de novos vocábulos é a derivação imprópria. Denomina-se derivação imprópria o processo de formação de palavras que altera o sentido de um vocábulo pela mudança de sua classe gramatical. Este tipo de derivação opõe-se à derivação própria ou sufixal. Na primeira, não ocorre alteração na forma do vocábulo; na segunda, há o acréscimo de um sufixo. Essa propriedade que a língua tem de alterar a classe gramatical de uma palavra é um meio prático de se criar novos vocábulos. Basta a anteposição de um determinante (artigo, possessivo, demonstrativo etc.) para formar um novo substantivo. Dos determinantes, o artigo é o mais empregado na nominalização de palavras. São exemplos de derivação imprópria a substantivação de:

l infinitivos
dobar: “v. enovelar, rodopiar”. “Nós dois, e tornopio do pé-de-vento – o ró-ró girando mundo a fora, no dobar, funil de final (...)” (GSV) trupitar: “v. desusado. O mesmo que estrepitar”. Äí o trupitar – cavalos bons! (...)” (PE)

l pronomes
“(...) nem no tom nem no se-dizer das palavras – o nenhum (...)” (PE) “O que disse, o quanto (...)”(GSV)

l palavras invariáveis
“– Arte que me vou, em meus agoras, compadres (...)” (NS) “Não tinha nascido no ontem.” (GSV) “(...) conforme e mim, nesses enquantos?” (GSV) Além da derivação, outro processo utilizado por Guimarães Rosa na formação de vocábulos novos é a composição. A composição consiste na formação de novos vocábulos pela união de dois elementos de significação própria: prefixo + radical ou radical + radical. Os elementos que constituem o composto se fundem para representar uma nova idéia.

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A união de um prefixo a um radical denomina-se composição prefixal. O prefixo é uma partícula secundária que acrescenta ao novo vocábulo idéias acessórias de:

l anterioridade
“E já de prenarrar-lhe do Paracatu (...)” (GSV) “Dava eu de prenarrar-lhe romance a escrever (...)” (TUT)

l repetição
“(..) velhice colorida: duros o bis-bisco e o caráter de uma arara.” (AP)

l movimento circular
“Mas, mais causas, no mundo e em si, ele, à esperança, em sua circunvisão, condenado, descobria (...)” (PE)

l companhia, sociedade
“O comandante e o barco plásticos um ao outro, conforme se confazem (...)” (EE)

l intensidade
“E Nhorinhá eu deamei no passado (...)” (GSV)

l negação
“(...) o cego Retrupé esbarra com o impoder da cegueira (...)” (PE)

l superioridade
“Deixei a pequena janela da cozinheta, arquifeliz (...)” (TUT) O neologismo pode também ser originário da substituição do prefixo. A forma desfeliz é criada pela troca do prefixo -in do vocábulo infeliz por des-: “Era assim um cantiga sorumbática, desfeliz que nem saudade em coração de gente ruim (...)” (SAG) A expressão singular é conseguida também com o emprego isolado do prefixo supra flexionado, significando “excesso”: “Melim-Meloso renegou dele, só sorrindo; se o regateou, foi com supras de amabilidades.” (TUT) Pela composição de radicais, pode-se unir vocábulos sem que haja alteração gráfica ou prosódica dos elementos componentes. A maioria desse tipo de compostos por justaposição é ligada por hífen.

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“Naquele poço, corguinho-veredinha (...)” (MM) “(...) terminado a torna-viagem (...)” (UP) “Restou desenxavido; não mal-alegrado de todo.” (TUT) “Acontecia o não-fato, o não-tempo (...)” (PE) Às vezes, há a nominalização de frases inteiras: “Principalmente pronto a um ajoelhar-se-de-adorar aos pés de Lalinha (...)” (NS) “– E o-que-deita-para-se-esconder-no-meio-do-meloso-alto?” (SAG) A justaposição pode juntar vocábulos de origem tupi: jaguaretê de yaware’te: “onça verdadeira”; pinima de pi’nima, “pintada”. “(...) de jaguaretê-pinima que eu matei (...)” (EE) urubuquara de urubu + quara: “buraco”. “(...) entre barrancos e grotas – uma urubuquara – casa de urubus.” (UP) Há compostos em que os elementos formadores sofrem alteração na forma gráfica e na acentuação. À nova palavra resultante da aglutinação calculada de dois significados dá-se o nome de palavra portemanteau. Originariamente portemanteau significava mala de viagem provida de cabides para que as roupas ficassem dependuradas, ou dobradas sobre si mesmas. Hoje, este termo é também empregado para nomear vocábulos formados pelo acondicionamento de dois significados. Tal qual um portemanteau: há dois significados acondicionados numa só palavra. Os neologismos, resultados da junção semântica e da redução morfológica dos elementos, determinam conceitos novos bastante expressivos e dão um colorido especial à obra rosiana. Temos psiquiartista de psiquia(tra) + artista, embolatidos de embola(do) + latidos, engenhingonça de engenh(o) + (ger)ingonça, solistência de soli(dão) + (ex)istência. “(...) nu, Adão, nado, psiquiartista.” (PE) “(...) a cachorrada pulava, embolatidos.” (MM) “(...) se desdobrou, em engenhingonça (...)” (PE) “Mas não o só da solidão: o só da solistência.” (AP)

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A formação de um novo vocábulo pela junção simultânea de um prefixo e de um sufixo a um mesmo radical chama-se parassintetismo. Como exemplo de formações parassintéticas temos: desdentadurada e desonçar. “(...) com sua voz desdentadurada, mas, mesmo assim, vozeirão.” (EE) “Então Nhô Nhuão Guede me mandou vir para cá, pra desonçar.” (EE) Muitas criações rosianas são resultantes de imitações de sons ou ruídos. As onomatopéias representam o modo de o Autor sentir e ouvir o mundo. Para o grilo há vários substantivos onomatopaicos que imitam os seus rumores: “E o chiim dos grilos ajuntava o campo (...)” (GSV) “E os grilos no chirilim.” (GSV) “O chirpio dos grilos.” (AP) “Assim eu ouvindo o ciciri dos grilos.” (GSV) “(...) entre ele o crico dos grilos e tantos bichinhos devagados.” (GSV) “(...) os grilos enchiam com seu griliriu os espaços.” (MM) Para o gado temos: “Bom era o môm das vacas devendo seu leite.” (GSV) “O môo de bois.” (UP) “O oõo das vacas (...)” (MM) Para o gavião temos: “Tanto o gruxo de gaviões (...)” (UP) “(...) que cessou o pipar de dois gaviões (...)” (UP) “(...) e contava como na curva da Baixada um gavião, pousando em buriti, gritava seu constante quirito de chamar o companheiro perdido (...)” (NS)

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Além de vozes ou rumores de animais, aves e insetos, há vocábulos que representam ruídos da natureza, de objetos e seres inanimados, de serem humanos: “(...) a chuvinha no bruaar e a pálida manhã do céu.” (PE) “(...) um pigarro discreto, o bloco dos cubos de gelo nos copos (...)” (EE) “A cidade – catastrapes!” (PE) “(...) o vuvo de falinhas e falas (...)” (GSV) “(...) as pestanas til-til.” (PE) Com o processo da reduplicação, também chamado de redobro, Guimarães Rosa forma novos vocábulos pela repetição total ou parcial do próprio vocábulo. O caráter repetitivo desse processo produz na palavra resultante um efeito enfático e intensivo. Vejam-se os exemplos: “Extorquidos se espichavam e encolhiam-se os vaqueiros, ao friofrio, relento, paralelos como paus de Jangada (...)” (TUT) “(...) contra o rumorrumor e os estalos rubros, moça maga.” (NS) “– É o dindinheiro... é o dindinheiro...” (MM) “(...) um esguicho ágil que se mijemijava.” (NS) “(...) um gaviãoão vistoso que gutura.” (UP) No livro Ave, Palavra, encontramos quatro psudônimos de Guimarães Rosa: Meuriss Aragão, Romaguari Sães, Sá Araújo Ségrim e Soares Guiamar. São formações anagramáticas resultantes da transposição das letras do nome J. Guimarães Rosa ou Guimarães Rosa. Na sua correspondência, é o próprio Guimarães Rosa que explica o anagrama Aí, Zé, ôpa!, encontrado em “Cara-de-Bronze”: “Na página 620, há um oculto desabafo lúdico, pessoal e particular brincadeira do autor, só mesmo para seu uso, mas que mostrar a Você, não resisto: ‘Aí, Zé, ôpa!’ intraduzível evidentemente: lido de trás para diante = apô-éZ-ía: a Poesia...)”. (Cor. trad. it.)

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Algumas criações rosianas são resultantes de analogia. A analogia é um fenômeno lingüístico que, determinando igualdades ou aproximações, tende a estabelecer o paralelismo das formas. Qualquer indivíduo que usa uma língua pode criar novos vocábulos analogicamente, reduzindo as formas irregulares em regulares. Como a analogia ocorre onde há maior diversidade de formas, é no campo da morfologia, em virtude da variedade das flexões, que se sente mais sua ação: a mutabilidade das formas torna-as vulneráveis, e o povo tende a uniformizar as desigualdades. Os substantivos figura e gentuça terminados em -a, recebem -o, analogicamente à forma masculina: “O figuro da mulatinha cor de violeta mandava em todas as partes onde batia seu sangue (...)” (UP) “Era decerto uma fatia misturada assembléia, onde brancos e escuros, o de dizível família e o rústico ou gentuço (...)” (AP) O substantivo rão é analogicamente o masculino de rã: “A rã e o (impossível) rão – por hipótese? – se amam, também (...)” (AP) Depois dessa longa e necessária argumentação demonstrativa, pinçamos depoimentos do Autor no doutorado de Maria Célia de Moraes Leonel: “E riqueza, oh! riqueza... Pelo menos, impiedoso, horror ao lugarcomum; que as chapas são pedaços de carne corrompida, são pecados contra o Espírito Santo, são taperas no território do idioma. Mas, ainda haveria mais, se possível (sonhar é fácil, João Condé, realizar é que são elas...): além dos estados líquidos e sólidos, por que não tentar trabalhar a língua também em estado gasoso?” O manejo de toda essa riqueza expressiva criada com os mecanismos comuns de formação de palavras dá colorido ao universo singular.

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Universo Singular Arquitetura de universo engenhoso
“(...) o sertão é uma espera enorme.” (GSV) “Quem é que diz que na vida tudo se escolhe? O que castiga, cumpre também.” (GSV)

O singular do universo criado por Guimarães Rosa pode ser definido por haver sido encontrado o ponto na expressividade da sua visão de mundo a partir de temas como a alegria, o amor, o bem e o mal, o medo e a coragem, o natural e o sobrenatural; num panmisticismo em linguagem à luva que amarra essas experiências de vida expressas de forma consistente através de meios virtuais da linguagem: a descontinuidade narrativa pelo encaixe de outras estórias que seccionam a narrativa-base; o estourar da sintaxe no seu sentido mais convencional; na flexão sonora do casamento som/sentido de seu léxico com novas formas e movimentos que fazem essa linguagem cantar e dançar; (Apoiando na cultura popular, esse sertanejo no mundo resgata sem reduzir, por exemplo, a musicalidade dessas falas; na medida em que não exila provérbios e canções populares que não são fundo; são o próprio falar do sertanejo nos sertanejos seus narradores e/ou ouvintes, sustentados pela força do erudito, da diversidade de falares regionais fortificados por respaldos lingüísticos de outras regiões, de sonoros arcaísmos, do diverso expressivo de estrangeirismo e/ ou a surpresa dos neologismos.); pelo resgate morfológico na mistura que já é a língua brasileira recriada por ele nas suas potencialidades: com a liberação dos neologismos, mais misturas ainda de novos matrimônios com línguas modernas e arcaicas. Experiência bebadamente lúcida, sem anestesia. A perspectiva narrativa do seu universo imaginário é sempre, no limite, um monólogo (ficção reflexiva) bem dinâmico, contrariamente à tendência desse recurso para a introspecção; inclui o outro na medida em que figura um ouvinte. O que pode ser lido enquanto diálogo criador/criação (reflexão sobre a construção estética numa construção estética), criador/criador (reflexão também sobre a sua vida) ou todo e qualquer outro seu leitor: em toda a situação em que for revivido por um leitor, espectador ou ator. Esta a marca registrada do seu imaginário lírico-reflexivo: crítico-criador. A sua temática é verossímil enquanto ação, motivo e enredo (fábula e função).

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Os personagens são gente simples – rústicos mas não folclóricos; gente, com problemas humanos –, com significativa presença de anormais, velhos, crianças e estrangeiros em especial. Situados mágica, mística e misteriosamente entre o lógico e o alógico, em ambientes rústicos geográfica e historicamente localizados... e arbitrários ao mesmo tempo: que podem ser todos e qualquer um. Os movimentos do Grande Sertão: Veredas, por exemplo, se desenrolam num Brasil sertões entre Minas, Goiás e Bahia do início do século; o que, dependendo da leitura que se faz, é descartável. Pelas relações entre o específico vário de todos esses elementos que fazem a narrativa do Autor é que ele é conhecido ao menos pelo já lugarcomum de ser resultado de ingredientes só aparentemente contraditórios; um regionalista-irrealista ou o realizador de textos universais através de particulares concretos; ingredientes híbridos de mistura singular. O popular de um sertão que ganha o estatuto do sertão-mundo. A partir do registro quase patológico de observação atentíssima do seu conhecimento do mundo (vida em geral; leituras ficcionais e especializadas; estudo de línguas), sempre com vistas ao código lingüístico (documentarista), seleciona e combina artesanalmente tais elementos pela manipulação desse código, construindo real volúpia de linguagem em progresso, transfigurando o conhecimento (logos) em estórias coerentes pela sua consistência (verbo). E é assim que Guimarães Rosa atravessou caminhos deixando formas criadoras: partindo da mão-de-obra da pesquisa (documento) e da atenção ao sempre duplo que é o real-concreto (natureza/cultura, ficção/ realidade, a realidade de linguagens/experiências de vidas), transfiguradas ficcionalmente. A vaidade de perfeccionista se patenteia na criação de eternidade infinita no contingente de uma linguagem. Que é; podendo ser tantas mais. A ficção falante de Guimarães Rosa – o Grande Sertão: Veredas é uma fala desde o travessão inicial até o seu ponto final – é talvez a mais reflexiva da literatura brasileira. Trata-se da dúvida (metafísica) através da palavra criadora sem ponto de chegada; só andanças a serem vividas. Do “Nonada.” inicial que, lido enquanto aglutinação da expressão “Não é nada.”, se nega – e afirma – pela longa viagem de estórias em suas quase 600 páginas terminadas com a afirmação de tudo... para mais: a eternidade e o infinito através de experiências vitalmente letais: “Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se fôr... Existe é homem humano. Travessia”. Enfim, um realista-feiticeiro querendo e buscando uma linguagem que se adequasse à sua compreensão e expressão do mundo filologicamente falando; assim como também sabia que essa busca é figura de ânsia metafísica: pela relação linguagem e vida, linguagem e processo criador. A este respeito se

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pronuncia o Autor: “(...) meu método (...) implica a utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu estado original”. A afirmação é depoimento pouco comum ao Autor – avesso a falar de seu processo de criação – o que é, na verdade, exigência e marca da correspondência com os seus tradutores – , em entrevista a Günter Lorenz. Assim, numa experiência abrangente com a linguagem para fazê-la um mundo nos seus limites e aberturas para a vivificação expressiva de mundos, o seu processo de trabalho é lento, delicado, sistematicamente organizado. Sempre refeito a cada nova descoberta que possa torná-lo mais apaixonadamente vivo: expressivo. Utilizando-se dos cinco sentidos que estão – e todos os outros possíveis – na linguagem humana. Enfim, criando outros pela especial maneira como os combina: cruzando-os, tomando um pelo outro, combinando-os de forma a estarem um no outro ao mesmo tempo. Ou seja, de forma bem humana querendo mais: ir além. Exemplos dessas analogias que consegue construindo fino e atento podem ser esclarecidas pelo estudo lexicográfico, filológico e sintático da armação de linguagem que é o sustentáculo do seu universo. Com personagens em ação, em tempos e espaços possuidores de significados que são os seus corpos, vivos. Não significam o que já foi estabelecido sobre eles – novas experiências, conhecimentos, novos conhecimentos excluídos ou acrescentados –, mas são mais: potências que se concretizam. Ou seja: como a lógica, a repetição de achados, a “ordem” da não criação não é o seu modo de construir. O sabor, melhor, a sensação da sua diferença confere o tom de mistério a universo engendrado pelas mágicas do seu móvel: a linguagem. Ela insufla a já repetida magia a mundos a que o primitivo é essencial; por ser menos limitado pelo império da razão e embotar novas emoções e conhecimentos sempre possíveis. Mais abertos ainda pelas diversificadas atitudes de personagens em estágios etários extremos (crianças, velhos), isolados da civilização, loucos, estrangeiros e bêbados. Enfim, sempre marcados por limites para o conhecimento convencionalmente estabelecido, dando a sua vária perspectiva num mundo em movimento: variando. Mutável. A sua compreensão da vida enquanto sucessão de mistérios desvendáveis – a desvendar – está bem sintetizada em reflexão que ponteia a fala de Riobaldo já em mar alto da narrativa: “(...) existe uma receita, a norma dum caminho certo, estreito, de cada uma pessoa viver – e essa pauta cada um tem – mas a gente mesmo, no comum, não sabe encontrar; como é que sozinho, por si, alguém ia poder encontrar e saber? Mas, esse norteado, tem. Tem que ter. Senão a vida de todos, ficava sendo sempre o confuso dessa doideira que é”. (GSV) O Autor assume essa seriedade voluptuosa na sua transação com a linguagem: “Na literatura, Dantas, há muito de penoso sacerdócio.

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É uma posição que se assume muito seriamente, importantemente sobre o mundo. Persigo sempre as formas mais altas. Sou um homem de vida ascética. Naquela vitrola que você viu no meu apartamento toca muito disco de Luiz Gonzaga, de Tonico e Tinoco. Aprecio a autêntica música sertaneja; gosto de modas de viola. Usei algumas em meus livros, recriandoas, em forma de contra-canções. O folclore existe para ser recriado. Receio demais os lugares-comuns, as descrições muito exatas, os crespúsculos certinhos, tipo cartões postais. Se abusa muito na ficção nacional”. O crítico Eduardo Coutinho o traduz: “(...) sendo a vida um constante fluir, ou seja, algo em perpétua mutação, a linguagem também deve constantemente evoluir. Como tudo na vida, as formas da língua também envelhecem e se tornam completamente inexpressivas após uso prolongado: palavras perdem o seu significado originário, expressões se tornam obsoletas, construções sintáticas inteiras caem em desuso e são substituídas por outras. Cabe, então, ao escritor, consciente de sua missão, refletir sobre cada palavra ou construção que utiliza e fazê-la recobrar sua energia primitiva, desgastada pelo uso. Em outras palavras, ele tem de revitalizar a linguagem”. É com ludismo muito lúcido que o Autor se fala, em carta a Vicente Ferreira da Silva a 21 de maio de 1958: “Desconfio que sou um individualista feroz, mas disciplinadíssimo. Com aversão ao histórico, ao político ao sociológico. Acho que a vida neste planeta é caos, queda, desordem essencial, irremediável aqui, tudo fora de foco. Sou só religião – mas impossível de qualquer associação ou organização religiosa: tudo é o quente diálogo (tentativa de) com o ∞. O mais, você deduz”. Para quem se identifica assim não fica difícil entender a paternidade de obras de escritor fascinado pelo paradoxal; pelo contemplador que às vezes chega a expressar iluminações minuciosamente construídas: “Criador de mundos mágicos, de universos em que se travam lutas épicas, de demônios, de santos, de loucos, de titãs, de fadas, onde foi buscar os seus personagens? Entre as crianças açoitadas pelo sofrimento – Miguilim, Dito – os pré-seres de consciência ainda incriada – Urugem, Joana Xaviel, Gorgulho, Quatraz ou Qualhacoco, Guégue, Chefe Zequiel, Nominedomine, Jubileu Santos Óleos, Nhorinhá, a estupenda Doralda, os seres empurrados para as grotas do mundo, os humilhados à espera de redenção.”, é um seu batismo feito por Franklin de Oliveira. O mágico, para ele, não significa o perdido, o impossível de ser compreendido ou atingido, mas caminho possível para as tão complexas relações da realidade irem sendo desveladas. A sua “irrealidade” é fecundada pelo ou estribada no real; ela não é afetação, berloque, decoração de realidade que na verdade a encobre; fazendo com que nos extasiemos surpresos das suas

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surpresas, encarando-a de viés. Guimarães Rosa nos coloca “na rua no meio do rodemoinho”, em liberdade no centro do mundo para, na ânsia da busca, irmos nos armando/desarmando para eventuais encontros; sempre possíveis se, conhecendo, consegue-se atravessar as pontes tão inseguras da condição humana. O narrador de “Orientação” (EE) sintetiza: “O mundo do rio não é o mundo da ponte”. Ou seja: tudo flui; só a experiência permite escolher (se) ultrapassando. O que confirma o atributo de transcendência inerente ao ser humano. Assim, o seu conflito está na mistura tensa de uma prosa poética. Fato que confere quente afetividade ao prosaico do popular/erudito que é o sertão/ mundo expresso por eu que é também outro: numa escrita oral modernamente expressa, estribada em velhas tradições; no devir. Modernidade pela fissura do clichê, do estereótipo, nos mais diferentes níveis: da palavra, sua significação e a de toda a narrativa... num mundo massificado. Na situação de fato da cisão espírito/matéria, todo e partes “expressos nos moldes pré-lógicos da cultura: o mito, a psique infantil, o sonho, a loucura” (Alfredo Bosi), torna-se artificial a separação real-surreal, limites préconscientes do homem. Essa ambigüidade de contrários possibilita vários níveis de leitura: a do conflito pessoal, sexual e todas as modalidades da dúvida Mal/Bem; numa região que avaliza o popular e o coloquial da sua fala eruditamente construída; penetrando modernamente nas suas origens. A sua ruptura com o molde tradicional da narrativa pode ser sintetizada por algumas marcas: l recriação do vocabulário, remontando às suas origens: apoiado na tradição, rompe com ela ao recuperá-la em nova articulação de elementos que se constituem na sua especial forma de contar estórias: com regionalismos e vocábulos de origem indígena (geralmente para a flora e a fauna tropicais), termos e expressões modernos e arcaicos, eruditos e coloquiais; mais estrangeirismos, vocabulário científico, com ainda o tempero de neologismos; l nova ordem sintática que desintegra convenções; através de lógica peculiar em estrutura compacta e telegráfica que põe em xeque a norma do português; l mistura de gêneros: épico, narra acontecimentos dramaticamente vividos por personagens em intensas relações (lírica); de onde a predominância da linguagem poética conseguida com dados prosaicos. Dizendo de outra forma: a expressão lírico-reflexiva de seu imaginário constitui-se na representação tensa de ações narradas. Daí o particular regional ser transfigurado pelo geral da experimentação com outras línguas articuladas ao código básico (português) da

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sua “língua brasileira” que está na e é a sua forma de expressar realidades: a nada simples mas compreensível linguagem da ficção de Guimarães Rosa. Inventada com liberdade, a partir da paixão pelo conhecimento exigente de mais de um código lingüístico. A quebra de gêneros a partir da fusão das vozes do discurso – com o patente predomínio lírico – confere a estranheza maior de cada realidade ser reversível, justaposta, implicada. Tudo, menos anestesiante. E fica quase indispensável nos valermos de explicações de criador que não serve na bandeja ou dá de graça o seu quitute supimpa. Ele se explica à Harriet de Onís em carta de 4 de novembro de 1964: “Mas o mais importante sempre é fugirmos das formas estáticas, cediças, inertes, estereotipadas, lugares-comuns etc. Meus livros são feitos, ou querem ser pelo menos, à base de uma dinâmica ousada, que, se não for atendida, o resultado será pobre e ineficaz. Não procuro uma linguagem transparente. Ao contrário, o leitor tem de ser chocado, despertado de sua inércia mental, da preguiça e dos hábitos. Tem de tomar consciência viva do escrito, a todo momento. Tem quase de aprender novas maneiras de sentir e de pensar. Não o disciplinado – mas a força elementar, selvagem. Não a clareza – mas a poesia, a obscuridade do mistério que é o mundo. E é nos detalhes, aparentemente sem importância, que estes efeitos se obtêm. A maneira-de-dizer tem de funcionar, a mais, por si. O ritmo, a rima, as aliterações ou assonâncias, a música ‘subjacente’ ao sentido – valem para maior expressividade”. E, queira-se coisa mais singular: com assuntos do dia-a-dia, que são o mais plural e exceção, afora o seu cenário poder valer para diferentes pessoas de tempos e/ou lugares. Partindo da crença de que o homem é ser em trânsito, logo, que seus pontos no tempo e no espaço são efêmeros, Guimarães Rosa acredita no fazer para ser em todos os sentidos. No moral, e nas diferentes outras construções em que se deve empenhar para se construir harmonicamente. Tendo realizado fazeres em diversos setores enquanto homem público, sua crença-compromisso é mesmo com a linguagem que elabora à exaustão para conseguir tocar, movimentar e agitar com as suas idéias tornadas figuras. Narradas. Em ação diante de e com quem se dispõe a conhecê-las enfrentando-as... se houver empatia com esse Autor que “acreditava no aperfeiçoamento da consciência individual” (Franklin de Oliveira); do que é imagem a obsessão perfeccionista que permeia o seu processo de construção. (A afirmação se patenteia na consulta do diversificado material inédito no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo.)

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Franklin de Oliveira explica essa obsessão pelo per-feito: “Na literatura brasileira, escassa de pensamento, epidérmica, a grande revolução foi criar sub specie perfectionis – projetar no esppírito humano a imagem da vida possível de ser vivida segundo as leis da alegria e da beleza, sob o império da poesia incorporada à existência humana, e não como realidade externa ao homem, alienada de seus destinos”. As suas “invenções”, a sua arte tão artifício (artefactum) são nada mais do que combinações possíveis com a língua brasileira; ou não se as entenderia se fossem, mais do que herméticas, arbitrárias. Reduzindo o seu processo criador: como flagra observando, e deflagra criando ao detonar novos possíveis do código língua portuguesa do Brasil. Acentuado também, por exemplo, identidades veladas que ela contém em potência: as quais são condições, constatações da evidência diferente de uma outra cultura: a européia. O que a singulariza sem preconceitos com juízos de valor pouco maduros. Guimarães Rosa é inovador revolucionário porque vai muito além do modo de existência estabelecido para a língua portuguesa padrão no Brasil; na mesma intensidade com que, superada a estranheza primeira, e dispondo-se o leitor a uma aventura descômoda/compensadora com elaborada linguagem a atravessar, poderá passar da má vontade primeira a, não diríamos desde o início paixão, mas radical surpresa. Quem tem sede de decifrar a realidade é comprometido com a vida. E esse desejo só pode ser realizado na relação com ela e seus personagens, e concretizado em diferentes formas: por engajamento social variado, pelo isolamento social e a relação com ideais místicos ou científicos, pela relação com a vida através da sua representação estética, e outras. Guimarães Rosa se enquadra no último tipo citado; agindo a provocando ações: ele tem um leitor. Além de, pela oralidade que é marca registrada de seu estilo, obrigar o leitor a ser ativo: 1) para a melhor degustação sensitivo-cognoscitiva das estórias; 2) para o que a oralidade coloca-o em casa, personagem que também é, do que lê sentindo/compreendendo: uma forma de participação que o formará; 3) a particularidade das narrativas poderá ser um atrativo; e a sua tensão, superadas as surpresas da nova linguagem, é interesse indescartável. Em explicação do próprio Autor: “Legítima literatura deve ser vida. Não há coisa mais terrível do que uma literatura de papel, pois eu creio firmemente que literatura só pode nascer da vida, que ela tem de ser aquilo que eu chamo engajamento do coração. Literatura deve ser vida! O escritor deve ser o que ele escreve.” (Lit...)

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Digamos: os fios de linha horizontal que o tecelão de sempre – agora substituído pela indústria têxtil da era tecnológica – prendia ao seu tear. Fios que necessitam a vertical para sustentar cada ponto a ser amarrado para se chegar a ter um tecido. Enfim, matéria de vida. Ocorrendo em lugar convencionalmente situado e datado. Guimarães Rosa amarra aqueles assuntos acima com linguagem de pontos tão caprichados, caprichosos e requintados que a experiência do seu consumo apaixona o aventureiro destemido leitor. Mas, como o material de seu trabalho é o código de uma língua nas suas infinitas possibilidades de combinação – artista não é aquele ser personagem arteiro que faz arte? –, tem-se de possuí-la atravessando-a para penetrar não raso esse universo consistente e intenso na sua tensão. Esta apresentação da vida de um criador sabe não ser pura biografia – a que o Autor também considerava caricatura –, misturada com passagens autobiográficas e textos histórico-teórico-críticos. É apenas resultado de fascínio instigante por sertanejo no mundo: os obstáculos (ambigüidades) que o homem precisa superar e os seus movimentos não serem cristalizados pelo medo precisam do conhecimento e da coragem para adquirir e enfrentar o peso da liberdade; no caso de João Guimarães Rosa, através de memórias de linguagens.
“Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia.” (GSV)

Imaginário de um universo singular Sendo a originalidade (creatio) o ser da linguagem artística, constatase que ela passou a ser a nota dominante da literatura moderna e contemporânea; na ocupação enfática com a palavra e suas relações; nas surpreendentes construções em que resulta; consigo própria, enfim. A ponto de os seus temas girarem em torno do tema mais amplo que é ela própria, linguagem. Esse tipo de construção só escapa à pura brincadeira, à impossibilidade de compreensão ou a requintes eruditos se o mundo narrado exigir ser expresso nessas formas cada vez mais nada comuns.

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Primeira página de um dos esboços (4º draft) do discurso de posse na ABL, preparado durante 4 anos, 3 meses e alguns dias (8/8/63 -16/11/67). (Originais -IEB)

É óbvio não ser fácil ir até o final dessas leituras. Mas a aventura pode ser compensadora. Se são experimentadas novas maneiras de expressar o mundo, essa não-certeza deixa para o leitor a brecha, a liberdade exigente de também ele participar da tentativa de viver criando uma leitura sensível desse novo universo. É significativo o depoimento do Autor a respeito do problema – em carta de 2 de maio de 1959 à Harriet de Onís: “Deve ter notado que, em meus livros, eu faço, ou procuro fazer isso, permanentemente, constantemente com o português: chocar, ‘estranhar’ o leitor, não deixar que ele repouse nas bengalas dos lugarescomuns, das expressões domesticadas e acostumadas: obrigá-lo a sentir a frase meio exótica, uma ‘novidade’ nas palavras, na sintaxe. Pode parecer crazzy de minha parte, mas quero que o leitor tenha de enfrentar um pouco o texto, como a um animal bravo e vivo. O que eu gostaria era de falar tanto ao inconsciente quanto à mente consciente do leitor.” Guimarães Rosa é especial criador desse tipo. Batizou o seu último conciso texto preparado durante 4 anos e meses – o Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras – de “O Verbo e o Logos” (A Palavra e o

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Conhecimento), onde está afirmação que sintetiza bem o seu comércio vital com a palavra: “(...) o mais difícil não é um ser bom e proceder honesto; dificultoso mesmo é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.” Dificuldade limite que já está – 11 anos antes – no Grande Sertão Veredas: “(...) toda ação principia mesmo é por uma palavra pensada.” A reação primeira do leitor é a de pôr de lado narrações tão complicadas na sua não-linearidade, que são mesmo, se quem escreve é tudo menos improvisador; se não fugiu da raia da linguagem na evidente mão-de-obra que são as suas estórias, confirmando algumas das marcas do Autor: o horror ao lugar-comum, o incansável estudioso das mais diferentes línguas (português, espanhol, francês, inglês, alemão, italiano, latim, grego – clássico e moderno –, sueco, dinamarquês, servo-croata, russo, húngaro, persa, chinês, japonês, hindu, árabe, malaio, tupi, esperanto, holandês), o documentarista que antecede complementando o criador: que brinca com a linguagem na mira da perfeição, narrando experiências de vida experimentadas em novas articulações de linguagens em outra nova e desacomodante; ao estourar hábitos. Esse narrador reitera sempre a necessidade facilmente constatável de conhecer a realidade. Se a língua é universo à mão que distingue o homem dos outros seres, por que não se valer das suas potencialidades? Guimarães Rosa subverte-a, de maneira fundamentada, com trabalho mais do que evidente como se vê nas suas singularidades lingüísticas; conseguindo escapar ao hermetismo de que já foi gratuitamente criticado. Que às vezes a sua linguagem é pedante, nenhuma dúvida. Mas que seja incompreensível brincadeira inconseqüente, alto lá. No ano seguinte ao lançamento do Grande sertão: Veredas, o crítico Antonio Candido afirmava: “Na extraordinária obra-prima Grande Sertão: Veredas há de tudo para quem souber ler, e nela tudo é forte, belo, impecavelmente realizado. Cada um poderá abordá-la a seu gosto, conforme o seu ofício; mas em cada aspecto aparecerá o traço fundamental do autor: a absoluta confiança na liberdade de criar.” (A que, é curioso acrescentar opinião do Autor sobre o crítico em carta de 8 anos depois (1965) para Jean Jacques Villard, tradutor de parte de sua obra para o francês: Antonio Candido “será, no momento e sempre, um dos meus mais queridos e autorizados porta-vozes.”) Bernardo Gersen desenvolve com rara felicidade esse aspecto de improvisação construída de subconsciente ordenado em forma concreta na pouca ordem dessa fusão quase alucinante de palavra (pensamento) e ato (ação). A oralidade da narração – personagem-narrador e todos os outros atores – dinamiza o narrado. Do outro lado – o do destinatário –, por mais que “o senhor...” (GSV) que ouve a(s) estória(s) não se concretize textualmente, pois ele nem uma só vez responde à avalancha de dúvidas do contador mais enduvidado que se

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possa encontrar, isso não pode ser entendido enquanto passividade. Porque, “O Senhor...” é cada leitor; que fica mais ou menos tocado pelos problemas levantados e não resolvidos (no caso, o narrador pode ser concretizado pela figura de interrogação forte e mansa que só chega a uma resposta esperafazendo: “Nonada. O diabo não há! (...) Existe é homem humano. Travessia.”). Mas que viveu esses problemas no decurso da leitura-decifração do texto. Processo narrativo: oralidade e reflexão de documentos animados Começando pela marca de grande participação de Autor que envolve: a típica oralidade de “causos” sempre voltados para o destinatário leitor ou/e ouvinte. Ora, nada mais bem achado do que o recurso à maior espontaneidade da linguagem oral para a sua requintada experimentação lingüística; além de esse campo ser ainda mais aberto pelos personagens iletrados do ambiente primitivo que é quase 100% de seu universo e reflexão criadora. Assim, vale tudo o que for mais expressivo; e o que já foi sugerido falha, desequilíbrio ou paradoxo – inadequação entre o primitivo das situações e a sofisticação erudita do aparato lingüistico –, se impõe aparência. Sim, a sua leitura exige atitudes do consumidor; que deve fazer de conta que está lendo, mas na medida em que é parte do enredo – ouvinte –, logo, também personagem participante da ação, é exigida dele a situação menos tranqüila de ter que decifrar o que ouve – ou traduzir mesmo – para a estória poder continuar. Senão o seu mecanismo emperra. Para não repetir a já um pouco mais conhecida abertura do jagunço aposentado (Riobaldo) que inicia a sua estória para ouvinte – cada leitor? – que não vai abrir a boca até o final dela, ousamos o exagero de vários começos das 40 curtíssimas estórias (TUT), última publicação do Autor ainda vivo (1967): “– E o senhor quer me levar, distante, às cidades? Delongo. Tudo, para mim, é viagem de volta.” (“Antiperipléia”) “Convosco, componho. Revenhover : a casa, esta, em fama e idéia. Só por fora, com efeito ; prédio que o Governo comprou, para escola de meninos quefazer vitalício. Dizendo, formo é a estória dela, que fechei redonda e quadrada. Mas o mundo não é remexer de Deus ? com perdão, que comparo. Minha será, no que não se tasca nem aufere, sempre, em fachada e oitão, de cerces à cimalha. Olhem. O que conto, enquanto; ponto. Olhos põem as coisas no cabimento.” (“Curtamão”)

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“Do narrador a seus ouvintes: – Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro da cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.” (“Desenredo”) “Conta-se, comprova-se e confere que, na hora, Joãoquerque assistia à Mira frigir bolinhos para o jantar, conversando os dois pequenidades, amenidades, certezas. Sim, senhor, senhora, o amor. Cercavam-nos anjos-da-guarda, aos infinilhões.” (“Estória nº 3”) [Grifos nossos] Não são, todas, formas possíveis do popular “Era uma vez...”?, sempre palco de um diálogo? Além do que, elas nunca são resolvidas: terminam com interrogações, ou “Foram infelizes e felizes, misturadamente.” (“A vela ao diabo”); com citação DAS CANTIGAS DE SERÃO DE JOÃO BRANDÃO: “– Deu seca na minha vida e os amores me deixaram tão solto no cativeiro.” – no “Barra da Vaca”. Ainda: “O padre e Mira dali a dois meses, o casaram. Conte-se que uma vez.” (“Estória nº 3”) “Então, ao narrador foge o fio. Toda estória pode resumir-se nisto: – Era uma vez uma vez, e nessa vez um homem. Súbito, sem sofrer, diz, afirma: “Lá...“ Mas não acho as palavras.” (“Lá, nas campinas”) “Muito devagar, sempre com cheio o caneco seguro direitinho, veio para junto do paredão do bicame, lá sozinho ficou parado um tempo, até ao entardecer. Estava bem diferente, etc, esperando um tudo diferente. Não falemos mais dele.” (“Mechéu”) “A vida de Melim-Meloso nunca se acaba. Ao que, na voz das violas, segundo o seguinte: Conte-se a estória de Melim-Meloso Sempre sem sossego, sempre com repouso, Vivo por inteiro, possuindo amor:

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Melim-Meloso, ao vosso dispor...” (“Melim-Meloso”, SUA APRESENTAÇÃO) [Grifos nossos] E esse recurso é também sinal do caráter reflexivo de obra que é, toda ela, constante interrogação; também do Autor, para o leitor e nos mais diferentes níveis de sua composição. Esse ingrediente transcende – lírica e metalingüisticamente – as línguas e linguagens que aprendeu e recriou na sua expressão de ações apaixonadas pela vida ... para superá-la; pelo (pre)domínio de suas linguagens. A utilização do recurso como um dos princípios formadores da arquitetura de sua obra não empobrece o alto número de provérbios que perpassa toda ela (assim como versos incorporados às falas dos personagens, poemas e canções folclóricas que intercalam a narrativa principal); não redutivos porque ilustram reflexivamente ações vividas e expressas em “caráter prático e popular, comum a todo um grupo social, expressa em forma sucinta e geralmente rica em imagens; adágio, ditado, anexim, refrão, rifão.” (NA); ou provérbios mais comuns que são recriados pelo Autor. Como: “O pior cego é o que quer ver.”; “Trancou a cara a sete rugas.”; “O que o assunto tinha era pés na cabeça.” Cavalcanti Proença já disse bem que a utilização do recurso, documental na origem, é recriada: “Convém (...) esclarecer que o aproveitamento das peculiaridades orais (...) não implica reprodução documental da linguagem falada. O que existe é a estilização dos processos expressivos que a caracterizam e de sua tendência para a intensificação.” O que quer dizer que Guimarães Rosa se salva de moralismo porque o seu caráter conceitual de uma mesma realidade é mutável; depende da experiência que o provocou, fazendo-o um possível adequado e não afirmação categórica. Senão, veja-se a só aparente contradição de duas “definições” de mundo: em “Lá, nas campinas” (TUT) está: “O mundo se repete mal é porque há um imperceptível avanço.” Em passagem de “O dar das pedras brilhantes” (TUT), “O mundo não muda nunca, só de hora em hora piora.” Ainda: se “Viver sempre vale a pena” (“Buriti – Noites do Sertão), não há pessimismo mas só constatação quando, no “Hipotrélico” (TUT), “Viver é encargo de pouco proveito e muito desempenho.” Contradições? Não: apenas a perspectiva de cada experiência vivida é uma escolha; o que não determina ou esgota outras perspectivas, novas experiências, diferentes escolhas. É evidente o máximo de liberdade conseguida homeopaticamente: através do moralizante que é a natureza do provérbio; que não é do Autor mas de diferentes personagens. E prova de que o Autor se vale dele sem economia, (1) leia-se a sua obra,

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o que é mais apaixonante. Ou (2) consultem-se os verbetes do pequeno “dicionário” (Rosiana – Uma coletânea de conceitos, máximas e brocardos de João Guimarães Rosa) selecionado por Paulo Rónai de A a V, com mais de uma definição para cada verbete, e que não pretende ter esgotado a riqueza de reflexões que é a produção do Autor. Verdades? Não. Possíveis. Paulo Rónai aponta contradição aparente que só se evidencia se lidos os seus contextos: “A gente morre é para provar que viveu.” (Discurso de Posse na Academia Brasileira de Letras), ou/e “A gente morre para provar que não teve razão.”, como reflete neto do patusco Vovô Barão – que “nem era barão, nunca tendo tido pleno direito ao título”–, no conto “Os Chapéus Transeuntes.” Com toda a família dos Dandrades Pereiras Serapiães reunida na espera da “morte do muito chefe da família” que “se preparava para falecer.” Neste ponto já é redundância observar que a única certeza é a dúvida: narrativa montada no popular e no prosaico, construída em filigranas de linguagens, jamais resolve. Começa e termina em suspense, tendo a dúvida como única certeza. Pode-se caracterizar o seu imaginário, do primeiro ao último texto publicado, como a volúpia de uma linguagem em progresso, se partirmos do permanente não-fechamento que marca as narrativas; já que o diálogo reflexivo-interrogativo está sempre implicado nelas de alguma forma. A vida? “Words. Words. Words.” Pois até Michelangelo “se trai” provocando legenda: “Parla!”, impreca diante da vitalidade de seu Moisés que, mudo, ganha cutelada no joelho. O Autor se fala em carta a Curt Meyer-Clason, a 9 de fevereiro de 1965: “Em geral, quase toda minha frase tem de ser meditada. Quase todas, mesmo as aparentemente curtas, simplórias, comezinhas, trazem em si algo de meditação ou de aventura. Às vezes, juntas as duas coisas: aventura e meditação. Uma pequena dialética religiosa, uma utilização, às vezes, do paradoxo.” Antonio Candido, em “O Homem dos Avessos”, arredonda, na longa mas tentadora citação, a reversibilidade – ambigüidades, contrastes, aparentes paradoxos – que é o princípio organizador das narrativas de Rosa, referindose aqui ao Grande Sertão: Veredas: “Ambigüidade da geografia, que desliza para o espaço lendário; ambigüidade dos tipos sociais, que participam da Cavalaria e do banditismo; ambigüidade afetiva, que faz o narrador oscilar, não apenas entre o amor sagrado de Otacília e o amor profano da encantadora “militriz” Nhorinhá, mas entre a face permitida e a face interdita do amor, simbolizada na suprema ambigüidade mulher-homem que é Diadorim; ambigüidade metafísica que balança Riobaldo entre Deus e o Diabo, entre a realidade e a dúvida do pacto, dando-lhe o caráter de iniciado no mal para chegar ao bem. Estes diversos planos da ambigüidade compõem um deslizamento entre os pólos, uma fusão de contrários, uma dialética

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extremamente viva – que nos suspende entre o ser e o não ser para sugerir formas mais ricas de integração do ser. E todos se exprimem na ambigüidade inicial e final do estilo, a grande matriz, que é o popular e o erudito, arcaico e moderno, claro e escuro, artificial e espontâneo.” Estranho experimentalista que não cede à tentação da Academia; o homem de comportamento convencional, de “vida ascética”, comido pelo próprio umbigo, na sua vaidade e misticismo? Ambigüidade máxima: confere caráter demoníaco ao Bem, se ele é alcançado por périplos via-crúcis: se se chega a ele pela ultrapassagem do (auto)enfrentamento de viver não evitando, mas assumindo/enfrentando de forma vital (isto é, letalmente) os males do grande mundo sertão veredas que é o diabo na rua no meio do redemoinho. Reversibilidades: os males enfrentados resultam algum benefício. Como? Só atravessando-os para saber. Sem medo. Para as graças do amor e a alegria, coragem diante de caminhos intrincados. Com Guimarães Rosa, a dessacralização de expressões da realidade na modernidade literária tem excelente exemplo: ele coloca em perda o caráter divino (convencional) da linguagem ao penetrá-la possuindo-a; ao estourar os seus nexos em forma consistente; na coerência da busca da harmonia pelo trabalho constante para o amor e a alegria neste caos também tão maleficamente encantador. Conhecimentos. Em formas. Tal a fecundação recíproca mundo/linguagem criados pelo Autor; no estouro do nexo causal entre ambos, com o seu resgate expressivo; e realizado pela mais acirrada atenção ao real, do que é exemplo a pesquisa, científica mesmo, do infatigável estudioso de línguas, botânica, geologia, entre outros saberes sistemáticos, que foi o Autor. Do que é prova o seu espólio no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. A partir de temas em ação, combina-os através do manipular com pente fino o seu material – linguagens no código lingüístico língua portuguesa do Brasil –, conseguindo a sua interação dinâmica difícil mas envolvente: vital. O que resulta em prosa poética nada comum pelo ponto criador das dosagens regional/universal, particular/geral, temporal e atemporal que é a sua produção insólita de caráter mágico tão lógico. Como a sua compreensão da vida: peregrinação necessária de ser que se busca; no caso do Autor, por criar ficção lírico-reflexiva na fiação oral de tensões continuadas. A linguagem faz o mundo. Se, como diz o Autor, “O sertão é do tamanho do mundo”, a linguagem, selva selvagem a ser desbravada – criada –, é o sertão com as suas lianas e liames a serem entretidamente atravessados; tecendo os fios da experiência na construção de mistérios de que se busca o tecido. Vida: andanças revisitadas. Em redução quase didática: por que as dificuldades de linguagem

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não impossibilitam a compreensão dos textos de João Guimarães Rosa? l Pela sua oralidade envolvente. l Porque, pelo multifacetado de estórias que é, toca os diferentes leitores na sua reflexão sobre a condição humana. Eles saem personagens transformados das veredas por que se embrenharam. Qual o seu papel? Antes de qualquer outro, por exemplo, com o personagem-problema com o qual mais se identificou, está a perturbadora empresa que é a sua leitura quase a decifrar em travessia de tradutor. l Porque suas estórias são formadoras, na sua agitação refletida. Magia elaborada onde o mundo é a personagem principal. A vida. Linguagens. Daí talvez a importância maior – porque esta engloba todas as outras – de os textos do Autor serem a de se constituir num mundo vivo; o que obriga cada um que o lê a se mexer de alguma forma; a um estar para ser, no mundo: objeto e sujeito. E o próprio Autor se apresenta, em diálogo com Günter Lorenz: “Não, não sou um romancista; sou um contador de estórias fabulosas críticas (...) A Gramática e a Filologia foram inventadas por pessoas que eram inimigas da Poesia.” Na relativamente nova e dependente realidade americana do Brasil com os seus 500 anos, comparando-o à cultura européia que é a sua origem mais ampla e imediata, não surpreende o fato de a literatura brasileira ser pouco conhecida no exterior. À condição cultural de país do terceiro mundo acrescenta-se a dificuldade de a sua língua ser pouco conhecida: numa época em que a comunicação se impõe. Não é novidade esse pouco conhecimento da literatura brasileira. (Também no Brasil, o que constitui um outro tipo de problema.) É apenas em termos contemporâneos que pode ser notada sensível divulgação dela através de traduções; além de adaptações para teatro, cinema, motivos para músicas, exposições e TV. E João Guimarães Rosa, autor contemporâneo que narra estórias passadas em ambientes rústicos e não precisamente situados no tempo, em linguagem nada fácil até para o brasileiro em geral, está traduzido para o inglês, italiano, francês, espanhol, alemão, polonês, holandês, tcheco, sueco. Argumento a mais, para a sua reiterada universalidade?

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CRIAÇÃO/PÚBLICO
“O livro pode valer pelo muito que nele não deveu caber.” (TUT)

Magma Os primeiros passos de João Guimarães Rosa como escritor foram dados em 1929/1930 com aqueles quatro contos de que ele confessa não gostar; três publicados na revista O Cruzeiro e um, no suplemento de O Jornal. Esses contos não tiveram repercussão. Somente em 1936, o autor começa a ser conhecido: já diplomata, organiza um volume de poesias e concorre ao prêmio da Academia Brasileira de Letras juntamente com mais vinte e três candidatos. Entre eles: Mário Donato, Odilo Costa Filho, J. G. de Araújo Jorge. O primeiro crítico de Guimarães Rosa é o poeta Guilherme de Almeida, relator do parecer da comissão do concurso que concede ao volume de poesias Magma o prêmio Olavo Bilac a 29 de junho de 1937. Guilherme de Almeida tece comentários altamente elogiosos à obra, concluindo que esta deveria receber o primeiro prêmio e que não houvesse um segundo. A distância de qualidade entre o premiado e os outros textos concorrentes se evidenciava. Foram apenas concedidas, em igualdade de condições, duas menções honrosas aos livros Noite Confidente, de Mário Donato, e Livro de Poemas de 1935, de Odilo Costa Filho e Henrique Carstens. Apesar do elogio, Magma permaneceu inédito no cofre da Academia Brasileira de Letras e no Arquivo Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo. Foi publicado em 1997. Para se ter uma visão de Magma é importante conhecer na íntegra as palavras de Guilherme de Almeida, que apontam já nas poesias os seus temas preferidos: todo o Brasil – “a sua terra, a sua gente, a sua alma, o seu bem e o seu mal”; suas tendências: recriação da língua e dos gêneros; a precisão da palavra e os jogos sonoros. “Fiz-me assistir, no cuidadoso exame, por um único, bem simples critério: buscar e premiar poesia, poesia autêntica e completa, que é beleza no sentir, no pensar e no dizer. Ora, a meu ver, um único, dentre os trabalhos apresentados, tem isso, e no mais puro, elevado grau. Poesia que está sozinha – parece-me – no atual momento literário brasileiro.

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Neste, como em quaisquer outros torneios, tal obra mereceria sempre um primeiro prêmio. E tão altamente distanciada paira ela sobre as demais, que não me parece possível a concessão, a qualquer outra, de um aproximador segundo prêmio. É o livro ‘Magma’, de João Guimarães Rosa, inscrito sob o número 8. Pura, esplêndida poesia. Descobre-se aí um poeta, um verdadeiro poeta: o poeta, talvez, de que o nosso instante precisava. Nativa, espontânea, legítima, saída da terra com uma naturalidade livre de vegetal em ascensão, ‘Magma’ é poesia centrífuga, universalizadora, capaz de dar ao resto do mundo uma síntese perfeita do que temos e somos. Há aí, vivo de beleza, todo o Brasil: a sua terra, a sua gente, a sua alma, o seu bem e o seu mal. Aí estão a ‘Iara’, os ‘Ritmos selvagens’, a ‘Boiada’, a ‘Gruta do Maquiné’, a ‘Maleita’, o ‘Luar na mata’, o ‘Batuque’, o ‘Caboclo d’água’, e, principalmente aquela ‘Reportagem’ (pag. 43), que é, sem dúvida, uma das mais espantosamente verdadeiras e doloridas páginas da nossa literatura; e todos os quatro poemas do ‘No Araguaia’, uma quase-epopéia bárbara na sua verde simplicidade de água e vegetal... E, ao lado disso, as mais finas emoções lírica, como, por exemplo, a ‘Elegia’ e ‘Ausência’ (pag. 29 e 59). E ainda a nota novíssima dos ‘Haikáis’ (pag. 15) – o sutil concentrado poético japonês de dezessete sílabas – que o autor tão finamente soube compreender e ‘recriar’ em português... E, mais, os esplêndidos conceitos das dezoito pequenas estrofes dos ‘Poemas’ – pouco mais do que breves ‘haikáis’ – brilhantes de ironia uns, exatos de poder descritivo outros. E tudo isso – diga-se – extraordinariamente atual, mas de um atualismo certo e proveitoso, tanto nas concepções, como no verso livre tão dominador que nele nem sequer se nota a ausência do metro ou da rima; e – o que é notável – na linguagem ‘nossa’, porém, correta sempre, sem um único abuso inútil, sem nenhuma dessas bobas, contra-producentes negações da gramática, com que alguns ‘novos’ pretendem ser... novos. E nem se diga que o autor de ‘Magma’ não mede nem rima por não saber medir ou rimar. A poesia ‘Toada da chuva’ é exemplo do que seria capaz de fazer ele – se quisesse ou precisasse fazê-lo com esse ‘bijou d’un sou qui sonne creux et faux sous la lime’...”

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Contos/Sagarana. Engano de Graciliano Ramos e nascimento do escritor Nesse mesmo ano de 1937, sob o pseudônimo de Viator, que em latim significa “o passageiro, o viandante”, Guimarães Rosa concorre com o livro Contos ao Prêmio Humberto de Campos, da Livraria José Olympio Editora. A comissão julgadora, formada por Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Prudente de Moraes Neto, Dias da Costa e Peregrino Júnior, concedem às doze estórias que compõem o volume o segundo lugar. Antes de chegar a essa decisão final, há polêmica entre os membros do júri, principalmente entre Graciliano Ramos e Marques Rebelo. Marques Rebelo se recusa a assinar a ata final, achando que o primeiro prêmio deve ser concedido a Viator. Graciliano Ramos é de opinião contrária. Viator desaparece. Graciliano Ramos, que votara contra o livro Contos, torna a lê-lo, agora com outra visão. Havia vacilado e se enganara. “Se se cortassem alguns contos, publicar-se-ia um bom livro.”, foi o comentário de Graciliano Ramos ao editor José Olympio. Os dois procuram Viator: no envelope fechado, que acompanhava o volume, o Autor se esquecera de colocar seus dados identificadores. Ninguém sabia, pois, quem fosse o autor de Contos e, para ver se ele aparecia, o editor José Olympio chegou a encomendar ao escritor Graciliano Ramos um artigo em jornal sob o título “Um editor à procura de um autor.” Procura vã. É já 1938 e Guimarães Rosa encontra-se em Hamburgo como Cônsul-adjunto. Recebe a notícia de que a obra premiada fora Maria Perigosa, de Luís Jardim. Casualmente, já no Brasil, em fins de 1944, Guimarães Rosa encontra-se com Graciliano Ramos. Depois de uma conversa informal, Viator é descoberto. Graciliano Ramos confessa ter votado contra o livro Contos e sugere-lhe as alterações que guardara de memória. Aceitas ou não as sugestões, o fato é que Guimarães Rosa, em 1945, após voltar de uma viagem a Minas Gerais, onde revê a paisagem em que passara a infância e a adolescência, retoma o livro Contos e, em cinco meses de trabalho, lhe dá nova feição. Depura-o com critério rigoroso. Suprime duas estórias e o livro fica reduzido a mais ou menos trezentas páginas. O seu original tinha cerca de quinhentas. Assim, nasce Sagarana, o seu primeiro volume de contos, onde narra estórias em estilo próprio: uma linguagem salpicada de neologismos – a começar pelo próprio nome do livro –, arcaísmos e regionalismos; uma sintaxe cortada mas precisa, que obedece o fluir da linguagem oral: sonora, ritmada. O livro Sagarana, que sai em 1946 pela Editora Universal do Rio de

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Janeiro, com capa de Geraldo de Castro, faz sucesso. Ganha o prêmio da Sociedade Felipe d’Oliveira e mais: duas edições esgotam-se no mesmo ano. Motivado pela publicação de Sagarana, Graciliano Ramos escreve a crônica Conversa de Bastidores publicada primeiramente em junho de 1946 na revista A Casa, do Rio de Janeiro, e reproduzida em vários jornais do país. Nesse texto, o já consagrado Graciliano Ramos narra os fatos relatados acima e confere ao livro elogios que, em 1937, época do concurso, foram-lhe negados. Antecipa também o futuro, anunciando que Guimarães Rosa escreverá um romance: “Esse doloroso interesse de surpreender a realidade nos mais leves pormenores induz o autor a certa dissipação naturalista – movimentar, por exemplo, uma boiada com vinte adjetivos mais ou menos desconhecidos do leitor, alarga-se talvez um pouco nas descrições. Se isto é defeito, confesso que o defeito me agrada. A arte de Rosa é terrivelmente difícil. Esse antimodernista repele o improviso. Com imenso esforço escolhe palavras simples e nos dá impressão de vida numa nesga da catinga, num gesto de caboclo, numa conversa cheia de provérbios matutos. O seu diálogo é rebuscadamente natural: desdenha o recurso ingênuo de cortar ‘ss’, ‘ll’, e ‘rr’ finais, deturpar flexões, e aproxima-se, tanto quanto possível, da língua do interior. Devo confessar que Rosa é um animalista notável: fervilham bichos no livro, não convenções de apólogo, mas irracionais direitos, exibidos com peladuras, esparavões e os necessários movimentos de orelhas e de rabos. Talvez o hábito de examinar essas criaturas haja aconselhado o meu amigo a trabalhar com lentidão bovina. Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfacelar-se.” Outros críticos escrevem artigos apontando Sagarana como obra que será um divisor de águas na literatura brasileira. Todos apontam e descrevem a maneira peculiar de Guimarães Rosa compor o texto e anunciam o nascimento de um escritor. Desses artigos, convém lembrar: “Nasce um escritor”, de Lauro Escorel (Correio da Manhã), “Sagarana” (A Manhã), de Marques Rebelo, também do júri que não premiara o livro Contos, “Sagarana”, de Antonio Candido (O Jornal), “Uma grande estréia”, de Álvaro Lins (Correio da Manhã), “Sagarana”, de Francisco de Assis Barbosa (Diretrizes).

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Correio da Manhã (28 de abril de 1946): Lauro Escorel “Nasce um escritor”. (Recortes – IEB)

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Da viagem feita a Minas Gerais em 1945 resulta também a entrevistaretrato “Com o vaqueiro Mariano”, publicada pela primeira vez no número de 25 de novembro de 1947 do Correio da Manhã. Este texto é republicado em 1952 pelas Edições Hipocampo (Niterói), ilustrado por Daniel Valença Lins, numa edição fora do comércio, para assinantes, em 110 exemplares numerados e assinados pelo Autor. Hoje ele integra a obra póstuma Estas Estórias sob o título “Entremeio: com o vaqueiro Mariano.” Corpo de Baile. Mistura de gêneros Novamente Guimarães Rosa retorna a Minas Gerais em 1952. Agora em companhia de vaqueiros. Embrenha-se pelo sertão por dez dias, acompanhando uma boiada de 300 reses. Uma reportagem sobre essa excursão é publicada a 21 de junho do mesmo ano na revista O Cruzeiro sob o título “Um escritor entre seus personagens.” Como se tivesse ido buscar fôlego na paisagem e no convívio com os vaqueiros e animais, impregnado do sertão mineiro, escreve dois massudos volumes: um de “novelas”, Corpo de Baile, e a longa narrativa do Grande Sertão: Veredas. O primeiro é publicado em janeiro de 1956 em dois volumes. A partir da terceira edição, sai em três volumes independentes, figurando Corpo de Baile como subtítulo: 1º volume: Manuelzão e Miguilim; 2º volume: No Urubuquaquá, no Pinhém; 3º volume: Noites do Sertão. São sete narrativas, denominadas pelo autor “contos”, “romances”, “poemas”, que se passam no mesmo mundo telúrico: o sertão mineiro. As inovações lingüísticas e estilísticas apontadas por Guilherme de Almeida e Graciliano Ramos continuam; acentuamse as descrições relativas à flora e à fauna, em particular dos bois, dos acidentes geográficos, enfim de elementos ligados à História Natural. Os personagens formam um verdadeiro corpo de baile: são tipos psicológicos singulares que compõem o universo da obra e ficam na memória do leitor. O menino Miguilim e sua miopia (“Campo Geral”), o vaqueiro Manuelzão e sua festa (“Uma estória de Amor”), o fazendeiro paralítico e solitário Cara-de-bronze, no texto com o mesmo nome, o qual queria que seus vaqueiros achassem para ele “o quem” das coisas. São bailarinos que dançam conforme a música de suas vidas. Grande Sertão: Veredas. Inovação da estrutura narrativa Logo a seguir, em maio, depois de dez anos, a “premonição” de Graciliano Ramos se concretiza: vem a público o romance Grande Sertão: Veredas. Obra que consagra Guimarães Rosa, tornando-o verdadeiro sucesso de livraria. O romance lhe dá, além da consagração

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pública, três prêmios: “Machado de Assis” (Instituto Nacional do Livro), “Carmem Dolores Barbosa” (de São Paulo) e “Paula Brito” (da municipalidade do Rio de Janeiro). A narrativa tem, conforme observa Cavalcanti Proença no seu livro Trilhas no Grande Sertão, dois planos simultâneos: um objetivo, a narração dos fatos passados – combates, andanças e amores do jagunço Riobaldo – e outro subjetivo, as reflexões presentes sobre o mundo, a vida e a existência do bem e do mal. O estranho amor de Riobaldo pelo jagunço Diadorim, mulher travestida em homem, só desvelado no final do livro, tem grande relevo na obra. É a partir da descoberta da identidade de Reinaldo/Diadorim/Maria Deadorina de Fé Bettancourt Marins que Riobaldo questiona o pacto com o demo e os fatos ocorridos. Esse questionamento faz o livro saltar o espaço regional que é também ele, sendo um conflito do ser humano. O sertão, lugar onde se passa a ação do romance, figura o mundo “(...) mostrando que o pitoresco é acessório e que na verdade o sertão é o mundo”, como Antonio Candido já diz em 1957. A temática da coexistência do bem e do mal leva críticos à comparação da obra ao Dr. Faustus de Thomas Mann. Às inovações lingüísticas já características suas – neologismos, regionalismos, arcaísmos, empréstimos – soma-se uma sintaxe arrevesada. O livro é agora comparado a Ulisses, de Joyce. Além dessas particularidades, a narrativa apresenta ainda uma grande inovação. O Autor, que já anunciara a quebra dos gêneros literários dando uma feição portuguesa aos haicais em Magma, denominando em Corpo de Baile as suas narrativas ora de “contos”, ora de “romances”, ora de “poemas”, inova a estrutura narrativa. Grande Sertão: Veredas é constituído sem nenhuma divisão em capítulos. É um monólogo ininterrupto em forma de diálogo pela metade: a fala do personagem principal incorpora a resposta do destinatário. Sentimos a presença constante do destinatário pela inserção, no discurso de Riobaldo, de frases como estas: “Digo ao senhor.”, “O senhor entende?”. A certa altura ficamos sabendo que quem o ouve é um doutor: “O senhor não acha? Me declare, franco, peço. Ah, lhe agradeço. Se vê que o senhor sabe muito, em idéia firme, além de ter carta de doutor. Lhe agradeço portanto. Sua companhia me dá altos prazeres.” A narrativa é entremeada por frases fáticas, mais características da forma oral, que têm o objeto de saber se a mensagem está sendo entendida. Isso ocorre porque ela é um jorro: obedece à memória de Riobaldo. As lembranças são embaralhadas, a ordem é a dos fatos que mais marcaram o personagem-narrador, isto é, fluem mais naturalmente soltas: sem ordenação cronológica. Muitos são os artigos publicados sobre esta obra polêmica. Anos

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mais tarde, precisamente a 23 de abril de 1959, em carta à Harriet de Onís, Guimarães Rosa comenta a obra e registra os efeitos psicossomáticos que ela teria provocado no criador: “Como a Amiga já viu, o romance de Riobaldo é uma espécie descomedida de cetáceo, com seu toucinho todo querendo ser de poesia e metafísica. É um livro terrível; não é à-toa que o Diabo é seu personagem. Sua tradução será muitíssimo mais árdua que a de qualquer conto do ‘Sagarana’, mais cheia de dúvida, de peculiaridades, de ciladas e remoinhos. Chego a pensar que foi de escrevê-lo, e, mais tarde, rever-lhe as provas, que adoeci: eu, que sempre tive pressão arterial baixa e que agora passei a tê-la verticalíssima... E, à Amiga, mesmo, rogo que se faça fazer um bom checkup médico, antes de atirar-se ao empreendimento da travessia... Agora, no meu caso, como ia dizendo, acresce que o fenômeno angustiante seria mais de processo psicológico.”

Grande Sertão: Veredas obra polêmica. Crônica favorável, de Mário Newton Filho: “Grande Homenagem” (Folha do Povo – Campos – 29/06/57).

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Crítica desfavorável, do Prof. Silveira Bueno: “O Grande Sertão: Veredas” (A Gazeta – São Paulo – 07/06/57). (Recortes – IEB)

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Num álbum de recortes, cuidadosamente preparado, Guimarães Rosa registra aquelas críticas que o consagram e aquelas que, por algum motivo, chegaram a fazer ataques violentos à obra. Estes últimos artigos são colocados de cabeça para baixo. Forma possível de apresentação de obra reconhecidamente realizada na sua inteireza: em dúvida até o final da narrativa, o personagemnarrador Riobaldo, já distanciado dos acontecimentos, conta também a estória vivida de um amor não efetivado; o que ocorre sendo privilegiada a luta guerreira de bando de jagunços que assessoram o poder das províncias, brigando com o poder central representado pelas tropas do governo, em situação política que gera idéias federativistas (do que Zé Bebelo é personagem representativo); e, principalmente, amarrando todas as outras perspectivas que são este texto (machismo/feminismo; hetero/homossexualismo; justiça/injustiça; medo/coragem; ódio/amor; sexo/prostituição; natureza-vegetal e animal/cultura-instrução, educação, criação estética; maldade; amizade; alegria; sofrimento; ruído-silêncio). Enfim: o bem e o mal, Deus e o Diabo, liberdade-necessidade, fé: vida/morte. Tudo misturado em requintada construção lingüística que sintetiza tradicional e modernamente a condição humana. Através de estórias em ambiente rústico brasileiro. Poesia com o prosaico. Mistérios suadamente trabalhados por artesão artista. Primeiras Estórias. Condensação de linguagem Um novo volume magro – com vinte e um pequenos contos – é publicado em 1962, sob o título Primeiras Estórias. Outra vez a quebra dos gêneros; não são contos, são estórias – neologismo na época, atualmente incorporado aos dicionários –, pequenas narrativas ficcionais cujos personagens são, na maioria, loucos ou crianças. Esses personagens são propícios à invasão do irreal porque extinguem limites precisos entre a realidade e a ficção. A realidade torna-se ambivalente, a história pode tornar-se estória, ou vice-versa. O texto vai ficando cada vez mais mágico, por alegorização ou figuração de abstrações. O conto “Pirlimpsiquice” é um exemplo da extinção entre os limites ficção/realidade: as crianças constróem uma “sobrepeça” à margem da peça teatral que ensaiam. O transrealismo do livro é comentado por Guimarães Rosa em carta, de 14 de outubro de 1963, a seu tradutor francês J. J. Villard: “Vi que já notou a dificuldade dele. É que, sendo pequeno, de

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estórias tão curtas, exige uma tradução muito meticulosamente afinada, capaz de transmitir também um interesse em cada frase, em cada linha, quase em cada palavra. Só aparente e enganosamente é que ele se finge de simples, de livrinho singelo. Muito mais que uma coleção de estórias rústicas, o ‘Primeiras Estórias’ é, ou pretende ser, um manual de metafísica, e uma série de poemas modernos. Quase cada palavra, nele, assume pluralidade de direções e sentidos, tem uma dinâmica espiritual, filosófica, disfarçada. Tem de ser tomado de um ângulo poético, anti-racionalista e anti-realista. Há pouco, com poucos dias de diferença, um crítico, aqui, aludiu ao que há nele, como sendo um ‘transrealismo’, e outro crítico dava à coisa a denominação, aparentada, de ‘realismo cósmico.’ É um livro contra a lógica comum, e tudo nele parte disso. Só se apóia na lógica para transcendê-la, para destruí-la. A esse respeito, seria interessante ler os ‘rapports’ que os leitores da editora forneceram às Éditions Seuil (...)”. A precisão da palavra e outras características lingüísticas já apontadas continuam a ser suas marcas. Em carta de 23 de dezembro de 1964, enviada também a J. J. Villard, tece comentários a respeito de como Curt Meyer-Clason verteu este texto para o alemão. As dificuldades da tradução são motivadas pelo seu caráter poético e pelos neologismos: “Compreendo bem a dificuldade, suplementar, decorrente da mudança de ‘ton’ e de ‘climat’, ao sair de uma estória, para entrar em outra. Também o Tradutor alemão, Sr. Curt Meyer-Clason, que já verteu algumas delas (a ‘SOROCO, SUA MÃE, SUA FILHA’, já saiu até publicada, em três jornais alemães), encontrou, a princípio, essa dificuldade. É que ele, normalmente, para traduzir, empregava seu método costumeiro: deixava-se primeiro embeber do ‘espírito’ da novela, deixando-se guiar por esse espírito, interpretando-o. MAS... com as ‘Primeiras Estórias’, logo verificou que esse processo não bastava, não dava certo. E viu que: tinha de traduzi-las, quase palavra por palavra – COMO SE TRATASSE DE... TRADUZIR POESIA... De fato. Acho que ele tem toda razão. As ‘PRIMEIRAS ESTÓRIAS’, como o Amigo já viu, são mais densas, numa especial condensação de linguagem; além disso, cheia de soluções baseadas na própria forma e num certo vago-ambíguo mas ao mesmo tempo estricto, das expressões. Além disso, poderá o Amigo sentir que, não obstante a mudança de ‘ton’, o que predomina realmente em todas é uma espécie de ‘manha’ expressiva. E foi assim que Meyer-Clason preferiu: 1) ler,

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assinalando a lápis as ousadias formais e novidades; 2) fazer uma primeira tradução quase mot à mot, como base; 3) sobre essa, fazer o trabalho definitivo. Achou que assim não se cansava tanto, aliviando um pouco o árduo da empreitada. Além do mais, porque quase todas as expressões empregadas no ‘PRIMEIRAS ESTÓRIAS’ não são tiradas da linguagem comum, mas sim criadas por mim, de toutes pièces – de modo que, também para o leitor brasileiro elas soam como novas, estranhas, completamente inéditas. Por isto mesmo, e se tratando de estórias muito curtas, essas tournures não poderiam ser omitidas (nem vertidas para fórmulas usuais do outro idioma) sem prejuízo, tudo podendo resultar em mole, frouxo, incolor, sem valer a pena.” O cenário, agora menos específico do que nas obras anteriores – onde pode-se dizer que chegara a desempenhar papel de protagonista –, é de fácil identificação. Bichos, plantas, costumes, hábitos, folguedos e superstições vêm acompanhados de atributos precisos que, juntamente com os topônimos como “Pãodolhão”, “Torto Alto”, “Casco”, “Congonhas”, “Lagoa dos Cavalos”, “M’engano”, “Temor de Deus”, e antropônimos como “Man’Antonio”, “Zé Boné”, “Joaquincas”, “Mula Marmela” demonstram que o cenário continua a ser o mundo onde passara infância e adolescência. Academia e reconhecimento público Candidata-se em 1956, pela primeira vez, à Academia Brasileira de Letras na vaga de D. Aquino Correa. Concorrem também Raimundo Magalhães Júnior (historiador), o Cônego Bueno Silveira (escritor de livro sobre Raimundo Correa e Paulo Chagas), de Belo Horizonte. Apesar da consagração pública, não é ainda dessa vez que o escritor Guimarães Rosa será membro daquela Casa. Desiste da candidatura sem motivo aparente, conforme nota publicada no jornal Última Hora do dia 27/ 03/56, encontrada em seu álbum de recortes. O periódico arrisca – indeterminando o sujeito – a apresentar uma causa para a desistência: “Segundo se fala teria o escritor e diplomata mineiro desistido, ou melhor, deixado tudo para outra oportunidade, pois não desejava disputar a vaga, e sim ser apresentado como candidato de ‘todos os partidos’, sem luta.” A consagração oficial como escritor vem somente em 1961, quando a Academia Brasileira de Letras confere-lhe o prêmio “Machado de Assis” por conjunto de obra. Neste mesmo ano sua obra começa também a ser reconhecida no estrangeiro: Sagarana é editado em Portugal e parte do Corpo de Baile é traduzido na França, por J. J. Villard, com o título Buriti.

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Última Hora (27 de março de 1956): nota de desistência à candidatura na ABL. (Recortes – IEB)

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O ano de 1963 reserva ao mineiro de Cordisburgo uma agradável surpresa. Candidata-se, pela segunda vez, à Academia Brasileira de Letras, na vaga do escritor, diplomata e amigo João Neves da Fontoura. É eleito por unanimidade – a 8 de agosto – para ocupar a cadeira de número 2, que tem como fundador Coelho Neto e cujo patrono é Álvares de Azevedo. Mas não marca o dia da posse. A sua obra continua a correr mundo: em 1963, é traduzida para o italiano, por Edoardo Bizzari e P. A. Jannini, parte de Sagarana (Il Duelo); o Grande Sertão: Veredas é traduzido nos Estados Unidos, por James L. Taylor e Harriet de Onís, sob o título de The Devil to Pay in the Backlands; em 1964 é lançada a tradução alemã (Curt Meyer-Clason) do Grande Sertão: Veredas, simplesmente como Grande Sertão (há três edições sucessivas); é editado, em Portugal, parte de Corpo de Baile, sob o título Miguilim e Manuelzão; em 1965 sai a tradução francesa (J. J. Villard) do Grande Sertão: Veredas, como Diadorim – “Le diable dans la rue, au milieu du tourbillon”; é traduzido por Pavla Lidmilova, na Tchecoslováquia, o conto “A Terceira margem do rio”; e, em 1967, chega ao público espanhol o Gran Sertón Veredas de Ángel Crespo. O sucesso não vem somente de terras estranhas. No Brasil, sua obra começa a ser vertida para outras semióticas: 1965 – Grande Sertão: Veredas passa para o cinema sob o título Grande Sertão, numa adaptação, produção e direção de Geraldo Renato Santos Pereira; o conto “A hora e vez de Augusto Matraga” é vertido para o cinema, com o mesmo título, numa adaptação, produção e direção de Roberto Santos; 1967 – o conto “Conversa de bois” é adaptado para o teatro, sob o título Boi de carro, e é apresentado pelo Teatrinho Chique-Chique (Bahia) no II Festival de Marionetes e Fantoches da Guanabara. Ao longo dos anos, são freqüentes as adaptações. O escritor Guimarães Rosa também corre mundo. Vai ao México em abril de 1967, representando o Brasil no II Congresso Latino-americano de Escritores, no qual atua como vice-presidente. Motivado pelas críticas feitas pelos delegados de Cuba e do Panamá ao governo dos Estados Unidos, renuncia ao cargo. Agora as tarefas se multiplicaram e com elas as preocupações: escrever, representações diplomáticas e como escritor, revisões, respostas às consultas dos tradutores. Divide o tempo entre a diplomacia e a obra. Às vezes trabalha até de madrugada no Ministério; a situação do Brasil é difícil. Confessa-se cansado e acometido de males causados por pressão arterial, em carta de 3 de abril de 1964, à Harriet de Onís: “Lutei também com a falta de tempo, pois outras tarefas e coisas urgentes me assaltavam, de todos os lados. Minha saúde, aliás,

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não me ajudando muito. E – como a Senhora terá acompanhado, pelos jornais – o grande movimento cívico-militar que nos livrou de J. Goulart e seus perigosos agitadores se desenrolava aqui, enquanto eu trabalhava nas notas – fazendo justamente como o Burrinho Pedrês na travessia do Córrego da Fome cheio. (Minha casa é encostada ao Forte de Copacabana, e eu tinha de comparecer ao Ministério, que é encostado ao Ministério da Guerra...).” Adia a posse na Academia. O discurso ainda está sendo preparado. Quer escrever, mas a saúde, o excesso de compromissos vários, não deixam. Queixa-se, em carta de 9 de fevereiro de 1965, a Meyer-Clason, das angústias que o atormentam e da necessidade que tem de escrever um livro que não quer mais esperar: “Atravesso um ano muito cheio de obrigações, trabalhos, incumbências, e minha saúde não agüenta. Examinar o livro nas Fahnen, com responsabilidade, é tarefa que seria para mim demasiado angustiosa, angustiante. Tenho de preparar o discurso para a Academia, tenho de atender à correspondência com editoras e tradutores, tenho o serviço do Itamaraty; e tenho de terminar um livro, cujo preparo me atormenta e que, dentro de mim, não quer mais esperar. Tenho tido, e ainda terei trabalho enorme, incrível, com a tradução inglesa de ‘SAGARANA’ (...). Estou cansadíssimo, não agüentando; penso que quis ‘abarcar o mundo com as pernas’ .” Tutaméia. Prefácios travestidos Se os recursos estilísticos aumentam em elaboração nas Primeiras Estórias, eles são levados a extremos em julho de 1967 com a publicação de Tutaméia ou Terceiras Estórias, o livro que anuncia na carta a Meyer-Clason. Ele acentua o processo de condensação de linguagem evidente já nas Primeiras Estórias de 1962, sem existirem as segundas. Às 21 estórias em 176 páginas do primeiro, com o ambiente rural complementado por situações urbanas e a elaboração lingüística cada vez mais evidentemente buscada, seguem-se as Terceiras Estórias intituladas Tutaméia (denominação no próprio texto com a síntese latina da expressão mea omnia). Em espaço gráfico não muito maior (192 páginas), o número das narrativas aumenta para 40, continuando as características gerais já apontadas nas Primeiras Estórias; a redução do tamanho das narrativas é homologada pela obsessão sintético-criadora em termos de linguagem; ficando as-

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sim privilegiado o caráter explicativo (metalinguagem) da sua expressão. Logo, não espanta a necessidade de entremear essas pílulas narrativas tão densas com 4 prefácios (?), num impulso lógico-racional; denominados travestidos porque misturam-se com as outras narrativas do livro pelo seu caráter também narrativo, ao lado de terem como princípio organizador a reflexão sobre esse duplo que é a atividade criadora: ficção/realidade. Já se viu algum prefácio que tenha nome elaboradíssimo – “Sobre a Escova e a Dúvida” é o 4º deles – dividido em sete partes diferentes e implicadas entre si, com onze epígrafes ao seu longo – glossário, “glosação em apostilas”, notas de rodapé, Pós-Escrito? Ou seja: explica, esclarece, demonstra, para concluir que a ficção é mais verdadeira se consegue o equilíbrio nas doses de realidade e irrealidade que ela é. Para isso, cita Tolstói em uma das epígrafes da sétima parte do quarto prefácio: “Se descreves o mundo tal qual é, não haverá em tuas palavras senão muitas mentiras e nenhuma verdade.” Esses prefácios não deixam de ser uma explicação de seu processo criador. Mais: são testamento e profissão de fé sobre a criação literária, através dos quatro curiosos “prefácios” que permeiam as curtas narrativas, escritos pelo próprio Autor. Eles tratam, “Aletria e Hermenêutica”, da significação vária do ato criador no seu caráter polissêmico, advindo daí a importância da obra literária; o segundo deles, “Hipotrélico”, problematiza a utilização do neologismo; “Nós, os Temulentos”, o terceiro, é a preocupação com o duplo realidadeirrealidade, condição do ser ficcional; e o quarto, “Sobre a Escova e a Dúvida”, sintetiza a tentativa de conciliação ideal de tendências complementares: conteúdo/forma, realidade/irrealidade. Ou a funcionalidade da palavra escrita – se poética – para a expressão ideal de referências que são em si reduzidas pelos limites de sua concretude. E quando tudo isso é situado, ocorre num tempo-espaço ambíguo, misto de sono e vigília, real e transreal. Trata-se de prefácios, sim, no seu caráter especulativo (base abstrata); mas ilustrados com estórias (base concreta). Como exemplo desse radical insólito para um prefácio, fiquemos apenas com a introdução da parte I do já citado acima: “Vindo à viagem, em resto de verão ou entrar de outono, meu amigo Roasao, o Rão por antonomásia e Radamante de pseudônimo, tive de apageá-lo.” Ao indefinido de uma ação e o seu espaço (“Vindo à viagem...”), e em situação que não esclarece muito mais (“... em resto de verão ou entrar de outono...”), com personagem batizado três vezes sem ser por isso melhor identificado (Roasao, Rão e Radamante também sugerem anagramas do autor Rosa), e narrador (“...tive de apageá-lo.”) que é Guimarães Rosa se se assume o texto enquanto

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prefácio; mas que é um narrador se comprarmos o texto no seu caráter também ficcional. Ou seja, sempre o duplo: do/no mundo, das/nas fiações ficções e nas suas linguagens. Enfim: não hermético porque é acompanhado com relativa facilidade; e nada simplista porque tenta expressar represando o todo contido em cada parte da sua visão do mundo lingüisticamente representada. Não é de envisgar o leitor essa volúpia de querer entender a vida na transação entre corpos em ação? Aqui a sua modernidade caracteriza bem a fissura do estereótipo; do clichê que a sua criação nunca é. Em todos os níveis: no da palavra em sua organização para toda a narrativa. É então normal essa originalidade desacomodar o desafio do seu leitor; pelo integrante que ela é, num mundo massificado. O trivial finíssimo do seu universo criador em requintes do prosaico; permitindo outras variadas denominações para autor que se caçava identificando-se com os mais variados pseudônimos (Guima, Guima Rosa, Viator...). Também nós podemos batizá-lo de diferentes formas, que se correspondem: Sertanejo Universal, Sísifo Radical, Mudante Imutável, Constante Efêmero, Tocador (Trovador) de boi bravo... sempre persona; ator. Aliás, é o próprio Autor quem, mais do que permite, exige a ousadia: “Você pode me tratar como quiser. Me chamar de João, de Guimarães Rosa ou de Rosa. Todos são eu”, dizia a Pedro Bloch. Entre-se armado/desarmado na sua leitura; porque o já lugar-comum do “Decifra-me ou Devoro-te” cabe à perfeição nessa esfinge de não impossível decifração; se a recifrarmos no que tem de sensibilidade, ludismo e reversibilidade. Enfim: o imaginário do narrador é sobreposto pelo crítico que é também, ele. Capítulos não terminados: Essas Estórias e Ave, Palavra Os quatro últimos anos da vida do escritor Guimarães Rosa foram bastante atribulados. A angústia pela falta de tempo e as muitas tarefas como homem e escritor levam-no a sentir depressão. Poupa emoções. Não vai a festas; nem mesmo ao lançamento de Acontecências, primeiro livro da filha, a escritora Vilma Guimarães Rosa. Teme que seu coração não agüente. Continua a protelar a posse na Academia. O medo da morte é explicado pelos amigos e conhecidos como superstição. Conta Otto Lara Rezende que uma vez o jornal mencionou o nome de Guimarães Rosa como possível candidato ao Prêmio Nobel; este o procurou aflito e pediu por favor que evitasse associar o seu nome ao Nobel. “– Por quê?” “– O Nobel mata” – disse ele, brincando a sério. E pediu ao

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amigo e escritor que ainda desse uma nota sobre a candidatura de outro brasileiro ao Prêmio Nobel. “– Pode dar, com ele não acontece nada.”, disse. “Temia a ‘consagração’, porque talvez a tomasse como fim de uma obra e portanto de uma vida. E ele planejava ainda escrever muito.”, concluiu o amigo. O tio e escritor Vicente Guimarães tenta amenizar o seu medo pela morte, atenuando uma outra superstição. Com ele que de sete tios de Joãozito, quatro morreram quando viviam nos cinqüenta e oito anos. Joãozito, que os considerava irmãos, tinha medo de também não vencer o aniversário fatídico. Daí a decisão: posse na Academia só mesmo depois dos cinqüenta e nove anos completados e ainda com alguns meses distanciados. O tio tenta tranqüilizá-lo, demonstrando que tanto ele como Joãozito estavam fora do esquema dos que não ultrapassam os cinqüenta e oito. Assim explica no livro Joãozito. Infância de João Guimarães Rosa: “Só morreram os que assinavam Lima, de minha mãe, Maria Lima Guimarães. Foram: João Lima Guimarães, Nestor Lima Guimarães, José Lima Guimarães, Cinéias Lima Guimarães e Osvaldo Lima Guimarães. Vivos estamos os que assinamos apenas Guimarães, do Papai, Luís Guimarães, que faleceu aos oitenta e cinco. Somos Francisca Guimarães Rosa, que trocou o Lima pelo sobrenome do marido, Luís Guimarães Júnior e eu, Vicente de Paulo Guimarães. Como ele, Joãozito, era João Guimarães Rosa, sem Lima nenhum, nada devia temer. Chegaria aos oitenta e cinco do avô. Ele, lembrome bem, sorriu animado. Satisfeito, agradeceu-lhe a descoberta. Mas já era muito grande a impressão dos cinqüenta e oito anos e, também, à morte não importa sobrenomes.” Nesses anos que antecedem a posse na Academia, prepara-se psicológica e fisicamente para enfrentar o grande momento de emoção e talvez a superstição. Em junho, completa 59 anos. Marca a posse. A data escolhida é o dia do aniversário do seu antecessor, João Neves da Fontoura, que faria então oitenta anos. Finalmente usaria o fardão doado por minas Gerais, através do então Governador Magalhães Pinto. O pavor da posse ainda o atormenta, teme o conhecimento público da data marcada. É mais uma vez o amigo Otto Lara Rezende quem narra o fato. A pedido do Autor, devia-se colocar uma nota no Jornal do Brasil, informando apenas como boato que João Guimarães Rosa, “segundo consta”, iria afinal tomar posse de sua cadeira. Reescreve o discurso nas semanas que antecedem a posse. Cuida da saúde com o amigo, o Dr. Pedro Bloch, a fim de controlar rigorosamente a voz, a

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respiração, a velocidade da leitura. Na véspera, reproduz de cor parte do discurso na casa dos tios Marieta e Vicente, na presença da mãe. Chega mesmo a gravá-lo para poder apreciar os seus efeitos. Combina com Austregésilo de Athayde que, caso se sentisse mal durante a leitura, passaria a mão na testa. Ensaia todo o ritual da posse. Depressão. Angústia. Dia da posse: 16 de novembro de 1967, quinta-feira. Geraldo França Lima conta que Guimarães Rosa estava deprimido, controlando a emoção e o medo. O nervosismo é tal que os dois têm dificuldade em encontrar a alça que prende a espada ao fardão. Está pronto: fardão, capa, espada, chapéu bicorne de plumas, uniforme bordado a ouro. Não é o medo de discursar. É o medo da emoção, da morte. Confessa, pouco antes de subir à tribuna da Academia, que está com medo de morrer. Afonso Arinos de Melo Franco tranqüiliza-o. Peregrino Júnior, médico e acadêmico, estaria lá. Inicia-se a cerimônia. Pronuncia o discurso intitulado “O verbo & o Logos”. Revivendo o chefe e amigo João Neves da Fontoura, revive Cordisburgo. A primeira e última palavra do discurso: Cordisburgo, Cordisburgo é Guimarães Rosa. João Neves da Fontoura, reconhecendo a identidade, o chamava assim. Guimarães Rosa é Joãozito. “Ser mineiro é mudar por fora, e ficar o mesmo por dentro”, conforme a sua própria definição. Homenageando o amigo, faz um balanço da condição humana. Duas frases sintetizam seu pensamento: “A gente morre é para provar que viveu.” À afirmação da morte – tão temida – segue a sua negação: “As pessoas não morrem, ficam encantadas.” Emocionado, termina o discurso em lágrimas. Consegue vencer a morte, a superstição. Ironia? Destino? Superstição? Domingo, nem três dias após a posse, o enfarte o leva. Vestido com o fardão da tão esperada e temida posse, é velado na Academia. As mesmas rosas que dias antes enfeitaram a sua festa – mesmo sem banda de música, como com mineiro desejava – enfeitam a sua morte. Como vaticinara dias antes no discurso: “Esta horária vida não nos deixa encerrar parágrafos, quanto mais terminar capítulos.” De fato, deixa capítulos sem terminar. Em 1968, publica-se, postumamente, Estas Estórias. Organizado pelo Prof. Paulo Rónai e por D. Maria Augusta de Camargos Rocha – amiga e também funcionária no Itamaraty – já estava sendo preparado pelo Autor. Entre seus papéis foram encontrados vários esboços de índices e a alguns textos faltava uma última revisão. O volume reúne trabalhos inéditos e alguns textos publicados na revista Senhor, além da estória “Os Chapéus Transeuntes”, que

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figurara no livro Os Sete Pecados Capitais (obra conjunta) e o “Entremeio: Com o vaqueiro Mariano”, antes impresso em edição limitada. Em 1970, publica-se Ave, Palavra. também já vinha sendo preparado; o próprio título foi deixado no original. Trinta e sete textos foram retrabalhados pelo Autor e considerados definitivos. Notas de viagem, diários, poesias, contos, flagrantes, reportagens poéticas e meditações, tudo o que constituíra sua colaboração de vinte anos em jornais, em revistas brasileiras, durante o período de 1947 a 1967. Quando se referia a esse volume em preparação, Guimarães Rosa identificava como “miscelânea”. Em alguns textos faltavam os retoques finais: nove já publicados em periódicos e quatro inéditos. Os mesmos organizadores de Estas Estórias resolvem acrescentar ao volume cinco crônicas, das quais quatro já publicadas em jornais. Elas faziam parte, eram o indez, segundo expressão do Autor, de um “livrinho” que se chamaria Jardins e Riachinho. Diante de tal obra, pouco pode a morte. Guimarães Rosa é personagem de estória da sua real vida vivida.

“Por absurdo que pareça, a gente nasce, vive, morre. Tudo se finge, primeiro; germina autêntico é depois. Um escrito, será que basta? Meu duvidar é uma petição de mais certeza.”(TUT)

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BIBLIOGRAFIA ATIVA, PASSIVA E COMPLEMENTAR

Apesar de contemporânea já é longa a bibliografia sobre a obra de João Guimarães Rosa e não é o caso indicar toda a conhecida. A sua Fortuna Crítica (6, Ed. Civilização Brasileira/Pró Memória/INL, Rio de Janeiro, 1983, 579 p.), organizada por Eduardo de Faria Coutinho, é consulta suficiente para o conhecimento não exaustivo da cronologia de sua vida e obra, bibliografia ativa, passiva – com mais de 250 títulos –, edições e periódicos especiais, depoimentos e estudos de caráter geral e específico. O que deve ser complementado com Em Memória de João Guimarães Rosa (Livr. José Olympio Ed., Rio de Janeiro, 1968, 255 p.) e com trabalhos publicados nos últimos anos. É de grande importância o material vário (originais, notas de viagens, correspondência...) do Acervo Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, fonte primária para a realização desta biografia. Acrescentamos aqui apenas os títulos utilizados que não constam deste texto com referência completa. (Obs.: As obras de ficção do Autor estão especificadas em ABREVIATURAS.) COVIZZI, Lenira Marques. O insólito em Guimarães Rosa e Borges. Crise da Mimese/Mimese da Crise. São Paulo: Ática, Col. Ensaios 49, 1978. DANTAS, Paulo. Sagarana emotiva – Cartas de João Guimarães Rosa. São Paulo: Duas Cidades, 1975. GUIMARÃES, Vicente. Joãozito. Infância de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: José Olympio/INL, 1972. GUIMARÃES ROSA, Vilma. Relembramentos. João Guimarães Rosa, meu pai. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983. LORENZ, Günter W. “Literatura deve ser vida”. Entrevista in Exposição do Novo Livro Alemão no Brasil, no livro Diálogo com a Amé-

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rica Latina – Panorama de uma literatura do futuro. São Paulo: Pedagógica e Universitária, 1973. LEONEL, Maria Célia de Moraes. Guimarães Rosa alquimista: processos de criação do texto. USP – Tese de Doutorado (mimeogr.), 1985. NASCIMENTO, Edna Maria Fernandes dos Santos. Contribuição para o estudo do léxico em Guimarães Rosa. USP – Dissertação de Mestrado (mimeogr.), 1979. RÓNAI, Paulo. Rosiana. Uma coletânea de conceitos, máximas e brocardos de João Guimarães Rosa. Ed. comemorativa dos 75 anos que faria este ano o autor. Rio de Janeiro: Salamandra. (Ed. especial e fora do comércio para MPM PROPAGANDA, numerada de 0001 a 11.000.), 1983. MOTA E SILVA, Gutemberg. “Guimarães Rosa em guarda contra as emoções e a expansividade”. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22/12/1979.

(...) Lá onde a vida entra na literatura, torna-se literatura propriamente dita e deve ser apreciada como tal. É interessante deter-se na importância do fato artístico em período de revolução literária, quando começam a se desfazer os limites da literatura admitidos por todos, quando o fermento da literatura se exaure e a nova direção não é ainda encontrada. Nesses períodos a vida artística tornase ela mesma provisoriamente literatura e toma seu lugar. (J. Tynianov, “A Noção de Construção”.)

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O livro
O título condensa, com precisão, as duas vertentes desenvolvidas no livro: o homem e a obra. Fundamentadas em documentos do Arquivo Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP) e na fortuna crítica do escritor, Edna Nascimento e Lenira Covizzi reconstituem o homem plural Guimarães Rosa, médico, diplomata e conhecedor de várias línguas que ficou famoso por suas ousadias lingüístico-literárias. O livro, em 2.ª edição atualizada, revela um escritor incansável, sempre preocupado com os múltiplos aspectos da linguagem, que sofre com a angústia da perfeição, com a busca da palavra exata e que para tanto se mune de vasta pesquisa documental, do neologismo, de uma nova ordem sintática desintegradora das convenções lingüísticas. Esse aparato lingüístico tão bem trabalhado que imprime singularidade à obra do escritor é referendado pela inovação nos gênero literários que se misturam do épico ao lírico. Por essa característica, a obra funda um sertão mágico, o sertão roseano, e é considerada complexa, de difícil leitura. O livro João Guimarães Rosa. Homem plural escritor singular apresenta de forma agradável e com linguagem acessível, a obra deste escritor mineiro a quem esteja interessado em compreender o seu universo lírico-reflexivo.

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As autoras
Edna Maria Fernandes dos Santos Nascimento e Lenira Marques Covizzi são doutoras pela Universidade de São Paulo (USP), desenvolveram atividade de pesquisa no Arquivo Guimarães Rosa, pertencente ao Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), atuam como professoras nos Programas de Pós-graduação em Lingüística e Língua Portuguesa e em Estudos Literários da Universidade Estadual Paulista (UNESP - Araraquara-SP) e têm publicações sobre Guimarães Rosa no Brasil e no exterior.

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EDITORA ÁGORA DA ILHA

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