Og Leme e o Liberalismo Moderno

J. O. de Meira Penna1 Fevereiro de 2004 Corre nos círculos internacionais do Liberalismo o moto otimista que os “liberais vivem mais tempo” (liberals live longer). A frase é atribuída a um dos mais veneráveis e mais ilustres, Friedrich Hayek, que faleceu aos 93 anos. Outros grandes economistas e escritores liberais foram agraciados com longas vidas para a defesa de idéias que, infelizmente, nunca foram “politicamente corretas” num século dedicado ao crescimento da burocracia, ao culto do Estado hegeliano e ao genocídio bélico que resulta dessas tendências. Um dos mais eminentes economistas vivos, Milton Friedman, o guru de Chicago, tem 92 anos, continua produzindo e, ocasionalmente, freqüenta reuniões de seus discípulos ou as que são anualmente promovidas pela Sociedade do Mont Pèlerin (MPS) - uma ONG informal que possui hoje mais de quinhentos membros de 40 nacionalidades. Og Francisco Leme só tinha 81 quando faleceu, mês passado. Lamentado por seus amigos e admiradores, ele ainda muito poderia contribuir para a difusão de uma doutrina mal conhecida, mal vista e mal interpretada em nossa terra de tupiniquins estatizantes, botocudos iletrados e vira-bostas sedentos de cargos públicos. Talvez os três pontos culminantes na vida desse professor de atitude modesta, fina ironia, inteligência brilhante, voz pausada e excepcional capacidade de aturar a imbecilidade alheia, foram a oportunidade que teve de concluir seu mestrado na Universidade de Chicago; de trabalhar alguns anos em Santiago, na CEPAL; e de participar das atividades do Instituto Liberal do Rio de Janeiro, desde quando fundado há vinte anos. Em Chicago, Og estudou com Milton Friedman de quem absorveu as idéias mais avançadas nessa disciplina. Ali também conheceu outro grande economista, Frank Knight, de ambos se tornando amigo e absorvendo não só os ensinamentos, mas o próprio espírito vibrante desses pensadores liberais. Paulista e formado na Faculdade de Direito da USP, Og obteve nos Estados Unidos o benefício de se descontaminar do vírus da AIDS ideológica que infesta os corredores daquela famosa instituição. Em seguida, no Chile onde permaneceu alguns anos, sua experiência foi curiosa e estimulante pela polêmica que manteve com o argentino Raul Prébich, o maior representante do keynesianismo e do intervencionismo estatal no organismo onusiano, quando pôde avaliar os malefícios que a Comissão Econômica para a América Latina estava gerando neste continente malsinado. Só mais tarde, de 1975 a 89, o Chile absorveria a prática do liberalismo dos chamados Chicago boys que lhe granjearam um excepcional sucesso econômico sob o benemérito governo do general Pinochet. O país é o único da América do Sul que já penetrou no Primeiro Mundo e mantém altos índices de crescimento econômico, graças à elogiável decisão de dois presidentes socialistas de não mexerem na estrutura
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implantada. Com a crise argentina e a estagnação brasileira, seu percapita é hoje o mais alto da América Latina. Og costumava imputar a Raúl Prébich a culpa pelos desastres que interromperam o “milagre brasileiro” a partir do governo de Geisel. As receitas da CEPAL se enraizaram, aqui como alhures, adicionando-se a uma espécie de nostalgia romântica e vocação para o sub-desenvolvimento que o Estado patrimonialista invariavelmente provoca, detendo qualquer crescimento material ou progresso social. Og conseguia, com imensa dificuldade, controlar sua indignação com as políticas calamitosas que inspiraram quase todos nossos governantes nesse período. Insistia, entretanto, que o Estado de Direito e o governo das leis (rule of law) são a base de uma sociedade liberal. Voltando ao Brasil em 64, trabalhou com Roberto Campos até o final do governo Castello Branco, após o que lecionou e foi coordenador do CENDEC. Em 1983 e a convite de Donald Stewart, colaborou na fundação do Instituto Liberal do Rio de Janeiro onde permaneceu como consultor cultural até seu falecimento. Durante esse período foi o representante do Liberty Fund, organizando e presidindo os chamados “seminários socráticos” que esse think-tank de Indianápolis, EEUU, patrocina. Foi num deles que melhor conheci e passei a admirar esse admirável e dedicado scholar de tão excepcional pertinácia, coragem e visão no sentido de difundir em nossa terra os ensinamentos do Liberalismo. Além de inumeráveis artigos, ensaios e estudos que escreveu para o IL do Rio, Og é também o autor de um pequeno ensaio, divertido, conciso e clarividente, com um título que diz tudo Dos Cupins e dos Homens. Pois de fato, que mais devemos temer do que uma sociedade coletivista, dedicada não a produzir bens crescentes em número e qualidade na prática da liberdade, mas a estagnar e corroer a nação na tirania e no marasmo burocráticos? (Originalmente publicado no Jornal da Tarde, 2 de Fevereiro de 2004.)

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