BRINCADEIRA É COISA SÉRIA

Márcia Maria Almeida Figueiredo
Mestre em Educação e professora do Centro Universitário do Leste de Minas Gerais

“Agora eu era o rei Era o bedel e era também juiz E pela minha lei A gente era obrigada a ser feliz E você era a princesa Que eu fiz coroar E era tão linda de se admirar...”

Chico Buarque Este texto aborda o ato de brincar, numa perspectiva prática, buscando uma reflexão e subsídios para a compreensão da sua seriedade para a criança. É importante ressaltar, que durante o decorrer desse texto os termos brincadeira, jogo e lúdico podem ser vistos com um mesmo conceito, isto é, como atividades livres ou dirigidas, que tenham um caráter de não seriedade, capazes de envolver seus participantes e gerar prazer. Independente de época, cultura e classe social, os jogos e os brinquedos fazem parte da vida da criança, pois elas vivem num mundo de fantasia, de encantamento, de alegria, de sonhos, onde realidade e faz-de-conta se confundem. (Kishimoto, 2000). O jogo está na gênese do pensamento, da descoberta de si mesmo, da possibilidade de experimentar, de criar e de transformar o mundo. Portanto, com as brincadeiras a criança entra em contato com o mundo, dá asas a sua imaginação, isto é, pode ser o que bem desejar, ser rei, ser bedel, ser juiz, ser feliz... Huizinga (1971) analisa esses jogos que a criança realiza, apontando algumas características: o prazer, o caráter “não sério”, a liberdade, a separação dos fenômenos do cotidiano, as regras, o caráter fictício ou representativo e sua limitação no tempo e no espaço. No entanto, não se analisará todas essas características do jogo neste texto, mas precisamente, o caráter “não-sério” do jogo. Huizinga esclarece ainda, não que a brincadeira infantil deixe de ser séria, mas quando uma criança brinca, ela o faz de modo bastante compenetrado. A pouca seriedade, a que faz referência está mais relacionada ao

edificando com cubos. com que lida com as regras criadas para esses jogos. é necessário estar atento a esse caráter sério do ato de brincar. não é mero divertimento. Ao observarmos atentamente crianças brincando de médico. levam-na até mesmo ao cansaço. ocupação do tempo livre. descobre papéis sociais. de dominó. esse é o seu trabalho. aprende a viver e avança para novas etapas de domínio do mundo que a cerca. A brincadeira para a criança não representa o mesmo que o jogo e o divertimento para o adulto. como pensam alguns adultos. incluindo fadigas. de roda. pois. à medida que o interesse é transferido para diferentes tipos de jogos. as crianças detestam ser interrompidas em suas brincadeiras e não admitem zombarias. brincando de polícia e ladrão. Podemos perceber então. gosta sempre de “fazer-se de boba”. fazendo uma massa de areia. atividade através da qual ela desenvolve potencialidades. o primeiro aspecto que nos chamará a atenção será a seriedade com que ela o faz. Segundo Chateau (1987) uma criança. Percebe-se isso quando ela chega às vezes a nos dizer “agora eu não estou brincando. o ato lúdico e se contrapõe ao trabalho. limites. Brincar de faz de conta. A criança se empenha durante as suas atividades do brincar da mesma maneira que se esforça para aprender a andar. brincando de casinha com papai. a criança pode chegar segundo . a falar. em seus primeiros anos de vida. forma um novo conceito de si mesma. de jogo de câmbio (1) são situações que vão sendo gradativamente substituídas por outras. de divertir-se. reagem quase sempre ignorando a interrupção. que acompanha na maioria das vezes. porque nos seus primeiros anos de vida. A seriedade também. ao riso. de amarelinha. estou falando sério”. recreação. é muito mais. de esconde-esconde. a comer etc. no entanto todos eles são tratados com a seriedade respectiva. mas conhece perfeitamente a diferença entre “fazer-se de boba” e brincar/ jogar. que quase sempre são regras rígidas. experimenta novas habilidades. mamãe e filhinha (o). às vezes irritadas ou até mesmo agressivas. incorpora o papel de corpo e alma e é tão consumida em tudo isso quanto nós em nossas pesquisas mais sérias. Brincar não é ficar sem fazer nada. brincando de “dar aula”. seriedade que pode ser voluntária ou involuntária. que esta atividade. Além do mais. Isso tudo acontece. isto demonstra claramente a sua capacidade de diferenciar o brincar de “fazer-se de boba” da seriedade do seu jogo. afastamento da realidade. se isso acontece. considerado atividade séria.cômico.

dando-lhe uma característica marcante. No jogo a criança cresce. amplo e social no qual está inserido. simulação”. e ao mesmo tempo oferecendo-lhe novos poderes. professor. ela se projeta no imaginário da brincadeira/brinquedo. destacando no ambiente o objeto lúdico para apagar todo o resto” (Chateau: 1987. O jogo. cria uma outra realidade. O adulto também se utiliza dessa evasão quando procura no jogo de aposta. ao destacar assim o objeto lúdico. pai. isto é o seu mundo lúdico. então podemos dizer. assim. Essa seriedade do jogo implica um afastamento do ambiente real. a criança não age com a decisão de entrar no jogo. à ilusão” ou faz-deconta. entretanto. o pai. simulando um outro mundo só para ela. o médico.Chateau (1987. o filho. a criança parece esquecer o real e se torna o personagem em questão. Essa absorção do papel que representa. a criança está se destacando. por certo ela cria o seu próprio mundo. a vida séria. o esquecimento dos seus problemas. o alívio de suas tensões. o restante desaparece ou se esconde temporariamente. o professor etc. caçador. depois retorna ao mundo real . constitui um mundo a parte. o ladrão. “Tudo acontece como se o jogo operasse um corte no mundo. primeiro executa o planejamento no papel. Essa seriedade do jogo infantil é. Essa perspectiva analisa. de bilhar. distante das pedras. distante do mundo dos adultos. Tendo em vista que lúdico segundo Huizinga(1971) significa “ilusão. do cimento etc. simula. só assim. onde ela pode exercer sua soberania: pode ser rei. liberando-se do domínio sob o qual ela era nada mais que um submisso e como se sente pequena. tenta se realizar no seu mundo lúdico. Idealiza. já que se conhece como criança. distancia-se do mundo no plano real.20) “a absorver-se tão bem no seu papel que ela se identifica momentaneamente com a personagem que representa”. desapareceu. a sua personalidade. evadir-se.21). imagina. a criança que joga não percebe o mundo a sua volta como um jogador de futebol num campo. Nessa perspectiva a criança só tem consciência da cena que está em primeiro plano. um arquiteto que faz uma barragem. Mas essa fuga do real nem sempre é evasão. mas mergulha fundo em seu jogo. a polícia. distanciando-se do mundo dos adultos. isto é. pode ser considerado involuntário. A ênfase é dada à “simulação. O quadro real. a mãe. isto é. um outro mundo. pois. porque ele é coisa séria. por objeção ao jogo. p. p. diferente daquela que consideramos. esse afastamento do ambiente real. Neste caso.

onde as regras válidas são aquelas “combinadas pelo grupo”. com efeito. proclama seu poder e sua autonomia. sobretudo ajudar as crianças nesse ato e compartilhar com elas. desejos. É triste ter meninos sem escola. absorve esse mundo em doses pequenas e toleráveis. quando a criança utiliza das brincadeiras de competição ou de roda. faz pequenos ensaios. 1987. para que a criança tenha a oportunidade de provar a sua superioridade. com exercícios estéreis. mas. apud Chateau. nenhuma criança brinca só para passar o tempo. às regras pré-estabelecidas: “Quem joga. brincar é sua linguagem secreta. inclusive uma atitude de observação e de intervenção quando for o caso. ou até mesmo por ensiná-las a brincar. Para concluir é oportuno transcrever o pensamento de um dos grandes poetas brasileiros: “Brincar não é perder tempo. então faz-se necessário que o professor/educador fique atento. ela cria um distanciamento a um mundo onde ela tem poder.23). compreende e assimila gradativamente suas regras e padrões. p. Assim. de expressar-se. isso não significa que o professor/educador não necessite ter uma atitude ativa sobre ela. sua escolha é motivada por processos íntimos. apesar do jogo ser uma atividade espontânea nas crianças. mas este é um juramento de esquecer o mundo da vida séria. em primeiro lugar. um ato muito sério. Portanto. ansiedades. esse distanciamento do mundo ambiente pode ser voluntário. explora o mundo. é. todo projeto. O que está acontecendo com a mente da criança determina sua atividade lúdica. brincar é o trabalho da criança. O distanciamento funciona como um juramento de obediência às regras tradicionais. para oferecer possibilidades e situações de jogos/brincadeiras. é imprescindível que as suas aulas sejam “recheadas” de atividades lúdicas. de evadir-se do mundo real. distanciamento do mundo ambiente. Dessa forma. Mas.da construção propriamente dita da barragem. Por isso o distanciamento surge voluntariamente. em que ela decide fazer parte. jurou” (Alain. mas mais triste é vê-los enfileirados em salas sem ar. é ganhá-lo. Mas. de ser séria no seu diminuto mundo lúdico. um mundo onde as regras do jogo têm um valor que não têm no mundo dos adultos. que se deve respeitar mesmo se não a entende. 1932. e por meio de suas conquistas no jogo. onde pode criar. problemas. sua atitude não passará apenas por deixar as crianças brincarem. ela afirma seu ser. .

HUIZINGA. Só brincar? O papel do brincar na educação infantil.). Homo Ludens – 1938. J. São Paulo.sem valor para a formação humana. Artes Médicas. P. Jean. 1998. Tizuko Morchida (org. Artmed. 2002. O jogo e a criança.” Carlos Drummond de Andrade REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BROUGERE. Monteiro. Jogo. Summus. Cortez. . São Paulo. Porto Alegre. Janet R. Porto Alegre. brincadeira e a educação. 1971. Jogo e educação. CHATEAU. Gilles. 2000. 1987. MOYLES. brinquedo. Perspectiva. Tradução de J. KISHIMOTO. São Paulo.