MANFRED KYBER

Também Eles São Nossos Irmãos?

Título Original: GESAMMELTE TIERGESCHICHTEN
Contos Extraídos de “DAS MANFRED KYBER BUCH”

Tradução: TATIANA BRAUNWIESER

1981

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SUMÁRIO

O Crocodilo Patenteado O C.d.M. O Momento Supremo Súplicas Silenciosas A Entrevista Mãe A Mosca Efêmera Tratamento Balneário Heroísmo Krakelius Krequequeque Glória Post Mortem A Terra da Promissão

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Os homens costumam crer num abismo entre si e os bichos. é preciso compreender suas criaturas. Não é senão um degrau na roda da vida. 4 . carece ver nela seu irmão. Para conhecer a natureza. São repletos de semelhanças e relações mútuas. como nós.Os bichos possuem seus momentos cômicos e trágicos. Para compreender uma criatura. Somos todos filhos da mesma mônade.

sob a condição mínima da gente não ser devorado ou abocanhado. que afinal lhe pertencem e que lhe poderão ser úteis em outras ocasiões. Ele engole missionários. o que afinal são superficialidades. “Como seria bom agora um branco!” — disse o crocodilo. macacos e até membros da própria família. A impopularidade é causada pelo apetite. nem tampouco por causa da expressão indiscutivelmente antipática de sua boca. e dentro do rio havia um crocodilo. têm sabor de caça por causa do álcool que tomam. com apetite e zangado. menor a estima. mas porque não tinha nada para saciá-lo. Isso acontece não tanto por causa da sua toilette. Lamento dizê-lo: os crocodilos não são apreciados. até a mais fina dama. geralmente estão bem conservados. Sem dúvida isto é muito superficial. E sendo que o crocodilo tem apetite para tudo. e. não só um crocodilo. o que ressaltou ainda mais a 5 . piscando ao sol. são mais oleosos e nutrem mais. sapos. Bem picantes são os vendedores ambulantes de vinhos.” O crocodilo sorriu com melancolia. — “Os brancos são mais gostosos para o desjejum. pretos são melhores para o almoço. então. e tudo quer engolir. Não estava zangado por sentir apetite. Também tudo lhe faz bem — louado seja Deus — e ele digere tudo. É tal qual a diferença entre uma galinha e um pato. e tudo por causa do apetite.O CROCODILO PATENTEADO Havia um deserto. mesmo os próprios parentes. Amor e estima prosperam quando se exclui o apetite. O crocodilo. pois ninguém há de querer — mal tenha trocado algumas palavras amáveis — ficar logo sem mãos e pernas. ninguém gosta dele. e costuma-se até anuir a uma conversa despretenciosa. negros. e numa ocasião dessas qualquer um fica zangado. estava deitado dentro do rio que havia no deserto. não. Por isso não são estimados os que querem engolir os outros. freqüentemente lamacenta e desmazelada. e no deserto havia um rio. No mundo inteiro é assim: quanto maior o apetite. porém compreensível.

— “Psiu. sinto muito dizê-lo. pois a boca de qualquer jeito é grande demais e. hoje em dia não se encontram mais sentimentos de solidariedade entre parentes. e o que sobra — coça. estranhos cacetes. uma parte deles eu comi. além disso. que o tinha visto. permanentemente feliz por ser macaquinho e. quero devorá-lo. existir.” — continuou ele e engoliu em seco — “dar-me-ia por satisfeito até com comida caseira. os mais longos braços e as pernas mais curtas. bruscamente interrompida pela voz rouca do crocodilo. e cochilou. olhando para cima. “Vou cochilar” — pensou. dentro de seu pêlo. os outros desceram rio abaixo. e exterminava-os indistintamente — machos. Nem se deu ao trabalho de cobrir a boca com a pata. Em cima da tamareira herborizava atarefado um macaquinho. guinchando baixinho. com um sobrinho ou sobrinha. Então sentava-se num galho e procurava com a máxima atenção. A análise de suas vestimentas foi. grato e lucrativo. cerrou os olhos com resignação e bocejou. fêmeas e mesmo tenros filhotinhos. porém. Porém.” — disse o macaquinho arreganhando os dentes com satisfação — “seguro-me com o rabo e um pé. simplesmente. Que adianta ter apetite?” E o crocodilo enterrou seu estômago esfomeado mais para dentro do lodo molhado. De vez em quando fazia um pouco de ginástica pelo método Meu sistema. 6 . “Posso coçar-me em três lugares ao mesmo tempo. Era um ente muito alegre. porém. Como é sábia a natureza!” o macaquinho era de um temperamento alegre e modesto. você aí!” — chamou — “desça para cá.” — Ele disse devorar pois o crocodilo não usa expressões finas. ou Como adquirir o mais lindo rabo. o crocodilo não liga muito para as boas maneiras.expressão antipática da sua boca. “Não se consegue nem mesmo um cardápio indígena. Era trabalho penoso.

adquiridos por meio do Meu sistema. e soprou com raiva pela narinas.” — rosnou o crocodilo. — “Psiu.” O macaquinho não disse mais nada. é indiferente ser um grande homem. em muitos outros assuntos isso também é indiferente. E quando se está às voltas com pensamentos desse gênero. estava apenas com um medo terrível porque ia ser devorado. carne de macaco é bem comum!” O macaquinho. Onde ficou a sabedoria da natureza? Para que servem os braços compridos e as pernas curtas. O pensamento foi tão lindo que o macaquinho parou imediatamente de chorar. quando aí não houver mais nada. existe algo no mundo que se compadece de pobres criaturas assustadas. ou da filha maior do vizinho. aquele focinho sorridente que lhe concedeu o primeiro beijo. pigarreando com ódio. — “Está bem. podia ser a voz do papai ou da mamãe. Mas. se eles podem ser devorados? “Sujeito arrogante. “Então o senhor não quer. apanhou uma folha de tamareira e nela soluçou com desespero. Eu sei disso. aquela alegria que se torna sobremaneira bonita quando ilumina um rosto feio. e seu pêlo eriçou-se de pavor. por ter-lhe limpado. seu pêlo macio. porém.” — imitou o macaquinho. e condoeu-se também do macaquinho. seu pêlo alisou-se e sua caretinha expressou uma alegria indescritível. ou uma pequena e trêmula alma de macaco. com galanteria e cavalheirismo.O macaquinho assustou-se horrivelmente. Justamente no momento em que ele colheu a segunda folha da tamareira para soluçar. não era nada arrogante. sentiu como se um rabo de macaco o cingisse e uma voz lhe sussurrasse um pensamento. como recompensa. Tudo na vida é o apetite. e pensava em papai e mamãe e na filha maior do macaco vizinho. esperarei até que o apetite o obrigue a descer da árvore. entretanto. — “Faz-se de importante como se fosse um petisco maravilhoso. jogando caroços de tâmara na 7 . de jeito nenhum!” — respodeu-lhe choramingando. pondo em debandada os estranhos cacetes. — “Não. Aliás.” — fungou o crocodilo com malícia.

— “Onde a gente pode se patentear?” — perguntou ele. começa a atirar caroços de tâmara.” — “Claro. entreanto.” O macaquinho cruzou os braços compridos sobre o peito e olhou com superioridade para o crocodilo.” — disse-lhe ele — “sem isso a gente não é gente bem. estava certo mesmo. É um escritório.cabeça do crocodilo — “o senhor é patenteado?” — Quanta gente é assim! Mal se sente bem. e os macacos se parecem tanto com os homens! — “Por que patenteado?” — perguntou-lhe o crocodilo desconfiado — “quero devorá-lo e fá-lo-ei. Disso quero ter certeza. Isto é humano. No 8 . mas ficou com a pulga atrás da orelha porque gostaria de ser gente bem. — “Atualmente todas as pessoas decentes do deserto se deixam patentear. no deserto.” O crocodilo refletiu.” — disse o macaquinho. como todos os escritórios.” — pensou o crocodilo zangado.” — “Você é que vou possuir logo. Logo passou em frente de uma choupana e então pensou: “logo vi!” Quantos já não pensaram “logo vi!”. Faço votos que tenha sorte!” O crocodilo arrastou-se para a margem e rumou devagarinho para o deserto. menor é o cérebro) esgotou-se logo sua força refletiva. precisa possuir alguma coisa que os outros não têm. porque na choupana via-se escrito com letras grandes: Comissão de Patentes do Deserto. — “Como é que eu chego melhor lá? É preciso que não seja muito longe e que você me espere aqui. Felicidades. Porém. Desta vez. — “O escritório é. sem existir coisa alguma. esfregando as mãos de contente. — “Na comissão de patentes do deserto. porém. Porque o cérebro do crocodilo não é grande (quanto maior a goela.

” — “Em quê?” — “Isto me é indiferente. e escancarou a goela. O crocodilo entrou e viu-se em frente da Comissão. recomendando-a. Sua expressão subalterna sublinhava-se ainda mais pelo lábio inferior caído.” O crocodilo ficou com raiva. fazia as unhas. — “Que é que o senhor deseja?” — perguntou-lhe o camelo. vendo que a Comissão inteira era comestível. A maioria dos homens possui uma bem 9 . O crocodilo. como podemos verificar in loco. — “Pare de ranger. e. mas como ansiava por uma patente. empurrando o beiço subalterno para cima. usava o distintivo honorário do deserto: um pequeno moinho com as cores do país. de apetite. sentada a uma mesa.mesmo instante saiu dali o rinoceronte. Meu apetite.” — expressou-se o marabu. Formavam a Comissão o camelo.” — “Então minha grande fuça.” — “Ridículo. O camelo tinha de redigir as atas e executar todos os outros trabalhos de escritório. no pescoço. o marabu e uma pantera. colocou devagar e com modéstia uma queixada sobre a outra. rangeu com as mandíbulas. — “Quero ser patenteado.” — disse-lhe o crocodilo timidamente. como conselheiro-jurídico — “porém neste ponto o senhor não está só. — “Sua venerável fuça é bem grande. como representante das autoridades. e a pantera. O marabu era careca e conselheiro-jurídico. por exemplo. acenando amavelmente com a cabeça.” — gritou-lhe a pantera irritada — “isso dá nos nervos.” — resmungou a pantera — “isso todos têm.

Seção — artigos de ótica. Seção — artigos de bijuterias. Poderíamos registrá-la como máquina de cortar carne.maior.” — cacarejou o marabu com gentileza e desejo de apaziguar — “aconselhar-lhe-ia patentear sua dentadura. Por fim ficou bravo e bateu com o rabo escamado para todos os lados. 10 . batendo com a pata na mesa. 2: ao canguru. 3: ao rinoceronte.” O crocodilo derramou uma das conhecidas lágrimas de crocodilo. pelo chifre sobre o nariz. passando a pata no focinho — “leia o registro!” O camelo leu com voz monótona. espiando de soslaio a pantera. Seção — artigos de moda. silêncio” — blaterou o camelo. por um desenho de óculos na cabeça.” — disse a pantera ao camelo. 1: à naja. e. e esbugalhou os olhos com desamparo e tristeza para a Comissão comestível. Patente nº.” — vociferou a pantera. única no gênero. sem dúvida. — “Silêncio. por uma bolsa sobre o estômago.” — “Qual é a melhor?” — perguntou-lhe o crocodilo desconfiado. — “Mas eu quero ser patenteado!” — gritou sufocado de raiva. — “Sobre a inglesa está escrito Made in Germany e sobre a alemã. blaterando. Façon de Paris. serviçal.” — disse o marabu ao crocodiloo. Patente nº. — “Pois é.” — “Agora o senhor pode escolher entre uma patente inglesa e uma alemã. pois era de opinião que não fica bem para um funcionário salientar por conta própria uma palavra: “Patente nº. a dentadura é de dimensões respeitáveis. — “Se me permite dar-lhe um conselho.” — “Então vamos. e deixou cair com devoção o lábio subalterno. Conforme consegui constatar na hora em que abriu sua estimada fuça. se não quer ser posto fora.

porém. Pegou cuidadosamente o diploma entre os dentes.” — disse-lhe o crocodilo.” — respondeu-lhe o outro. . não estava mais lá. a Façon de Paris. porém. diplomas são apenas algo decorativo.4: ao crocodilo. encolhendo penalizado as asas.” E o conselheiro-jurídico almoçou o veme comprido que sua esposa havia embrulhado num papel de sanduiche. não o engula! Meus respeitos.” — disse-lhe o marabu. escolheu sem hesitar. considerando a situação política da Austrália. fabricado com material muito rijo e totalmente indigesto pelo assim chamado processo de auto-sugestão.— “Isto depende exclusivamente de gosto. aconselharia a patente inglesa. enquanto o rinoceronte.” — “Chega!” — vociferou a pantera — “escreva: patente nº. — “Tenha muito cuidado. e abandonou o local rosnando. — “Eu. pela máquina de moer carne na goela. o crocodilo sentiu-se mal. O camelo aprontou o diploma. — “O canguru. o marabu entregou-o ao crocodilo com algumas palavras explicativas. aliás um processo internacional. — “Isso não é possível. . desde que se trata de máquina para moer carne.” Dizendo isso a pantera levantou-se. portanto. Este. Vendo o conselheiro-jurídico almoçar. e afastou-se depressa em direção à margem do rio para comer o macaquinho. que só dá valor à elegância. .” — “Eu quero as duas. 11 . Seção — artigos para cozinha. . Até logo. o expediente estava encerrado. escolheu a patente inglesa. por exemplo. Hum. colocou o rabo sobre as patas como manda o regulamento. Os marabus moravam perto de uma habitação européia e eram tremendamente cultos! Daí o papel de sanduíche e os conhecimentos jurídicos.

“Como as pessoas são irresponsáveis hoje em dia!” — pensou o crocodilo. — “Não é de admirar que se patenteie o antigo e o bom.” — Estufou-se de orgulho e enterrou-se bem dentro da lama. Assim ficou durante horas. Entardeceu e juntou muito público na margem e na água para apreciar o pôr-do-sol. — “Por que o senhor não toma uma refeição, colega?” — perguntou um pequeno lagarto ao crocodilo, nadando por perto. Apresentava um aspecto satisfeito e bem nutrido, e engolia com cara jovial os restos de um parente. O crocodilo teve dificuldade para falar. — “Estou patenteado,” — sussurrou com orgulho — “não posso comer, estou segurando meu diploma na boca. Em troca sou agora gente bem.” — “Eu, de minha parte, prefiro estar bem nutrido,” — disse-lhe o pequeno lagarto — “porém, o senhor tem a aparência de quem não tem comido nada desde cedo. O verde saudável de seu rosto tornou-se cinza. Coloque o seu diploma na margem e jante alguma coisa!” O crocodilo lutou em seu íntimo — o apetite era enorme! — “Não,” — acabou sussurrando — “na margem os macacos poderão roubá-lo.” — “Então cuspa-o simplesmente fora!” — disse-lhe o pequeno lagarto com malcriação. — “Para que lhe serve o diploma? Se o diploma tem de ficar constantemente na boca é melhor desistir dele, porque, no fim, a gente não pode mais comer, e acaba sendo comido e, ainda, debochado pelos outros.” Isso é uma grande verdade, mas refere-se naturalmente, só aos crocodilos. O crocodilo não se mexeu. Continuou segurando o diploma e olhou para
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o primo, zangado e morrendo de fome. — “Já que o senhor continua com o diploma entre os dentes, permita-me comer sua pata traseira à guisa de sobremesa?” O crocodilo, de medo e raiva, deu uma viravolta, e nesta exaltação engoliu o diploma. Na mesma hora sentiu-se muito mal, tão mal como nunca, e perdendo os sentidos foi levado pelo rio e comido pelo pequeno lagarto e outros parentes prestativos. Assim termina esta triste estória. Posso acrescentar apenas ainda uma notícia familiar: enquanto isso sucedia, o macaquinho ficou noivo da filha mais velha do vizinho. Formavam um casal feliz de noivos e, logo no dia seguinte, tomaram parte de um piquinique com parentes e amigos, naturalmente acompanhados por uma dama de honra, pois macacos — como todos sabem — têm muita coisa humana. Durante a festa souberam da morte do crocodilo patenteado. Um macaco bem velho comunicou o fato, acrescentando “sim, sim.” Isto ele dizia sempre, pelo que era considerado muito inteligente. O macaquinho, porém, sabia muito mais sobre o assunto; claro, pois ele conhecia o finado pessoalmente, tão pessoalmente, que por um triz teria sido devorado por ele. É o conhecimento mais pessoal que se possa fazer. E aproveitando o momento em que a dama de honra subiu a uma tamareira para comer (pois não sentindo mais amor, comia o dobro), o macaquinho contou à sua amada a estória horripilante. — “Não se deixe nunca patentear, Maquinho” — disse-lhe a jovem, cingindo-o com o rabo. — “Não, nunca,” — disse-lhe o Maquinho, e vasculhou com carinho e presteza o pêlo de sua noiva.

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O C.d.M.

As minhocas convocaram um congresso. Era um congresso moderno. Por isso não se chamava Congresso das Minhocas, mas C.d.M. O C.d.M. realizava-se num canto muito poeirento do jardim. Foram tratadas apenas questões do cultivo do solo. O horizonte das minhocas não ultrapassava essa questão. Elas se arrastam na terra e comem terra. São gente pobre e modesta, porém, útil e indispensável. Sem elas a terra não seria fértil. Seu trabalho tem de ser realizado. Era de tarde. O crepúsculo cobria os caminhos pelos pelos quais se arrastava o C.d.M. Um velho e comprido minhocão presidia a sessão. Discursou sobre questões de interesse local, como as condições do terreno do jardim em que trabalhavam. Os resultados mostraram-se satisfatórios. — “Já penetramos bem fundo na terra,” — disse o presidente do C.d.M. — “Trouxemos à superficie muitas camadas, cuja existência ninguém suspeitava anteriormente. Porém, a terra parece aprofundar-se mais do que pensávamos. Nós a dividimos e esmiuçamos. Parece ultrapassar aquilo que conseguimos trazer para cima. Carece arrastarmo-nos com afinco por toda parte e comermos terra. É uma grande tarefa. Com isso, termina a sessão do C.d.M.” O minhocão enrolou-se respeitosamente. A parte oficial do C.d.M. terminara. Vizinhos e amigos juntaram-se em grupos informais, conversando sobre a prática de desenvolvimento dos membros. Era desejo geral tornar-se
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— “O método mais moderno para se tornar comprida. — “Queira desculpar. Venho de muito longe. — “Quem é a senhora?” — perguntou-lhe a minhoca. O C. inteiro.” — “Não.M. Agora não posso mais. andando sempre na poeira. — “deve comer um pouco de terra. Vejam: assim!” Ela apalpou um caule e fez demosntração do novo método com energia e convicção. obrigada.” — disse uma minhoca jovem — “chama-se: enrosca-te no caule. Sentiu que essa “coisa” era áspera e cabeluda. — “Nossa. é tão cansativo curvar as costas a cada passo. o que é isto? Tem cabelos e está se mexendo!” Assustada. Nisto consistia o progresso. estou fraca demais para comer. Isto fortalece os músculos e revigora os membros. arrastou-se para perto dela. Sinto-me tão esquisita 15 . desenroscou-se do caule. Sou um pouco fraca de natureza. Também. Seus tocos de pernas tremiam.d. Estou cansada demais. Os novos métodos para consegui-lo interessavam sempre. compadecido. — “Sou taturana de profissão. — “A senhora deve fortificar-se” — disse-lhe uma minhoca gentilmente.” A taturana estava completamente empoeirada e exausta.” — disse-lhe a “coisa” cabeluda. Mortalmente cansada.mais comprido. Raramente encontrei alguma coisa verde. eu estava tão cansada! Por isso me sentei sobre o caule. Não me teria sentado sobre o caule de maneira nenhuma. arrastando-se para mais perto. porém estou cansada demais. Nisso enroscou-se nalguma coisa.

d. porém. Do seu interior. saíam finíssimos fios e enrolavam seu corpo cansado e empoeirado. estou cansada demais para refletir. Eu apenas não sei como fazê-lo.” — disse-lhe a taturana. e mais tarde torna-se uma borboleta multicor.M. tão esquisitas.” A taturana não respondeu mais. devemos viver e tornarmo-nos bem compridos. Passaram-se algumas semanas. O presidente e as sumidades 16 . — “A senhora está simplesmente indisposta. Agarrou-se ao caule. Não quero mais me arrastar pela terra. — “Isto é uma doença terrível!” — disseram as minhocas.d. — “Voar? — À luz do sol? — O que é isso? — Isso não existe! — A senhora está doente?” — “A senhora usa palavras estranhas. — “Vamos observá-lo.d.” — “Acho que a gente não morre.M. É a macrobiótica. sentiu escurecer ao seu redor.” — disse-lhe o presidente do C. a gente se encasula. Também. Não o conseguindo fazer mais.” Diversas sumidades acenaram com os anéis da cabeça concordando.. Nós. Então. arrastar-se na terra e comê-la. Fica voando ao sol e ouve o badalar das câmpanulas. — “É um fenômeno!” — disse o presidente do C.” — disse-lhe o presidente do C. — “isto é a vida. porém.M. Estava cansada demais. Posso recomendar-lhe diversos métodos. vem a morte.” — “Tenha paciência. — “Quando a gente se cansa demais e não tem força para se arrastar na terra.” As minhocas enroscaram-se desamparadas e agitadas.em geral.

M. Estava totalmente encasulado e jazia inerte no chão. Ficaram fortes e brilhantes. a borboleta abriu-as e voou longe da terra. quão cansada estivera. O fenômeno era branco. — “Agora ela está morta mesmo. — “É apenas um casaco. . 17 ..” — disseram as minhocas. Bem alto. — “Ressurrexit!” — cantavam mil vozes no espaço. — “Sobrou só a doença.” — disse a terceira. — “O casaco era a doença. reuniu-se o C.d. Encontraram somente a capa. por cima de suas cabeças cegas. Em baixo. cresceram à luz do sol. As asas. mortalmente cansada. As câmpanulas badalavam.” — disse a primeira sumidade decepcionada. para dentro da luz do sol.” — disse a segunda. Finalmente. Uma pequena borboleta colorida saiu de lá e olhou admirada em seu redor. numa madrugada. Conservava as asas dobradas e não sabia o que fazer com elas. . Então. balouçava-se a borboleta no ensolarado ar azul. Porque havia esquecido tudo o que imaginara e aspirara enquanto taturana.arrastavam-se diariamente para junto do fenômeno e o apalpavam. e todas as sumidades a examinaram. na poeira. a “coisa” encapuçada mexeu-se. porém.

Os pássaros migratórios vinham do sul e partiam para o sul. — “Se não fossem as varas da gaiola! Se a porta se abisse uma vez. Depois nunca mais.” — pensava o passarinho. uma única vez! Então chegaria o momento supremo. “São tão próximas. raiou um claro e ensolarado dia de outono. Era uma ave canora e aconteceu num país culto — pelo menos num que assim se denominava. e com algumas batidas de asas eu estaria atrás das montanhas azuis!” As garças emigravam.” — disse o passarinho. “Atrás das montanhas está o sul. esperava o momento supremo. Era a saudade que as aproximava das varas da gaiola. A porta da gaiola ficou 18 . Passaram-se muitos anos. Chegara o inverno e ele tornou-se quieto.” As montanhas distantes pareciam-lhe bem próximas. O passarinho debateu-se contra as grades da gaiola. ora cinzentas. — “Viajei para lá só uma vez. Passaram-se muitos invernos e muitos estios. No horizonte azul erguiam-se montanhas azuis. Era o chamado para o sul. Seus gritos dolentes ressoavam através do ar outonal — queixoso e convidativo.O MOMENTO SUPREMO De dentro de sua gaiola um passarinho olhava com ânsia para a luz do sol. Então. O caminho para o sul jazia gélido e nevoento. Caíra neve e as montanhas azuis ficaram acinzentadas. O passarinho atrás das grades. As montanhas ficavam ora azuis.

Esqueceram-se de fechá-la por descuido. os homens não o fazem. As garças emigravam. e desdobrou as asas largamente. Distantes demais para as asas que não se moveram durante anos. Chegara o momento supremo! O passarinho tremia de alegria e agitação. ou foi alguma coisa que se atrofiou nele? Ele mesmo não o sabia. Não estava mais habituado. Tudo em seu redor o perturbava. timidamente. para o vôo ao sul. pareciam agora mui distantes. Elas sumiram atrás das montanhas azuis. De propósito. Através do ar outonal soaram seus gritos dolentes e convidativos. 19 . longe demais para ele. atrás das grades.aberta. pulou para fora e esvoaçou para a árvore mais próxima. Com cuidado. As montanhas azuis estavam longe. atrás das montanhas azuis. Porém. O momento supremo terminara. Então ele voou devagarinho de volta para a gaiola. bem largamente. O passarinho inclinou a cabeça e a escondeu em baixo da asa. Era o chamado para o sul. Atrofiaram-se-lhe as asas durante os longos anos. Todavia não chegou além do próximo galho. Mas tinha de ser! O momento supremo havia chegado! O passarinho encheu-se de coragem e de toda força que tinha. No horizonte azul erguiam-se montanhas azuis.

Estavam negociando. — “Nada se sabe de positivo. O estranho aproximou-se do rebanho com passos firmes e examinou algumas peças com olhos de perito. No pescoço do carneiro puseram uma corda. Passou por lá quando ia para o pasto.” — “Isto deve ser o começo. Ali estava o pastor a conversar com um estranho. porém. — “É algo fabuloso. Havia cheiro de sangue junto ao portão do recinto escuro. — “Não sei. alguma verdade nisso. Também ela não viu tudo. depois nunca se volta. um grito horrível. Em todo caso é medonho.” Todos estremeceram. Era um portão que levava a um recinto escuro. O bicho gelou. Depois pegou no jovem carneiro. O cão pastor latiu e tocou o rebanho para a outra ponta do pasto.” — “Sua avó não vive mais?” — perguntou-lhe um jovem carneiro. medonho! Não se sabe o que é. Mas ela escutou um grito de carneiro lá dentro. Não se via nada.” — disse-lhes o carneiro — “deve haver. Um velho carneiro narrava: — “Minha avó viu-o.” — disseram vários. 20 . A mão não se parecia com a mão do pastor.SÚPLICAS SILENCIOSAS Os carneiros arrebanhavam-se agitados. isso já faz muito tempo — vieram buscá-la. que antes havia feito a pergunta. ela própria.” — dizia-lhes. Então voltou ao rebanho correndo. tremendo de pavor. que não tinha a aparência de pastor. Não eram olhos de pastor.

” — pensava.” Tal é a confiança dos animais que são tratados com mansidão.” — disse o estranho. Agarrando a corda. O vento os trazia. um pouco de água. Um ser vivo lhe pertencia. tirando uma carteira suja do bolso. O caminho era longo. Estava com pressa. assustado e sem compreender. Foi uma súplica silenciosa. O carneiro olhou para trás. para aquele que partia. Talvez vão me levar para lá. Que é que adiantava? “Não precisava ser aquilo medonho. Alguma coisa nele se contraiu.— “Fico com este. Continuaram a andar. gostaria de descansar um pouco. Agora dobravam uma esquina.” Mas ele não reagiu. arrastou o carneiro do pasto para a estrada. O homem estranho andava rápido. “vêm buscar a gente. Foi uma súplica silenciosa. Fazia muito calor e havia muita poeira. Pagou. 21 .” pensou. Não se via mais nada do rebanho. Só de longe ouviam-se os latidos do cão e os sons da flauta do pastor.” — disse-lhe o carneiro. “Este é o começo. consolando-se — “existem mais outros pastos. Estava desamparado. “Estou cansado. “Por favor. O rebanho olhava. alguma coisa lhe disse que se livrasse e voltasse correndo. Seus olhos procuravam parentes e companheiros de folguedos.” — pediu-lhe o carneiro. Ele o comprara. O pasto sumira.

O carneiro tremeu com o corpo todo. pois é gado — gado de abater. Pararam diante de um portão que se abria para um recinto escuro. “Quero ir para casa!” — disse o carneiro e olhou para o estranho. o espantoso. sim. Um medo despertou-se-lhe no subconsciente. As pernas cansadas e duras apressaram-se. Foi uma súplica silenciosa. Foram só poucos momentos. “Agora vem o fantástico. em que não havia pasto.” — disse o carneiro assustado. mas pareceram muito longos. Não se julga necessário remover isso antes. —— — —— — 22 . Passaram por ruas estreitas e tortas.” — pensou ele. Esta esperança fora em vão. Um horror que o dominou totalmente. O homem laçou a corda com um golpe hábil em torno das pernas traseiras do animal e arrastou-o para frente. o cheiro de cadáveres de seus semelhantes. E veio. Espalhava-se no ar um cheiro nauseabundo de sangue e despojos. um medo sem limite. Assustou-se com o cheiro e com a entrada escura. Um horror que o fez esquecer-se de todas as súplicas silenciosas anteriores. Um horror paralisou o carneiro. “Sim. A corda cortava. O carneiro virou a cabeça e emitiu um balido queixoso.Finalmente chegaram a uma pequena cidade. já vou. Daí ele se encontrou no recinto escuro. Um cheiro asqueroso bateu na cara do animal. As súplicas silenciosas não são ouvidas.

os olhos de Gotama Buda dirigem-se para a cultura européia. É impossível anotar essas súplicas silenciosas. 23 . Bem abertos e observadores. elas todas vêm sendo anotadas e escritas no livro da vida. São tantas! Porém. São homens os que não as ouvem.O mundo está cheio de súplicas silenciosas que não são ouvidas.

não daquele que os homens julgam ser. — “Vá buscar um osso para você na cozinha. sobre nós!” — “Sim. naturalmente. .” Ele rosnou baixinho. e é por isso que resolvi. É um tema muito espinhoso. — “Então sobre os bípedes nus. sobre os homens. assim como nós fumamos um charuto após as refeições. um dia. que havia requisitado na cozinha. Pensei em aprender muita coisa desta maneira. por exemplo. Necessito do seu parecer. é assim que vocês se chamam. agradecendo. uma olhadela para a diferença entre as naturezas é sempre muito útil. Estou escrevendo um livro.” — disse-me o sujeito da cara preta sem perder a calma. entrevistá-lo. Declinei. — “Hoje quero fazer-lhe algumas perguntas. — “Que quer dizer com isso: bípedes nus? Eu pensei. O sujeito da cara preta estava roendo um respeitável osso. não acha também?” 24 . estupefato.” O osso estalou. Fiquei.” — disse-me ele em tom paternal (nós nos tratamos por você). verdadeiro. . — “A denominação é muito acertada.A ENTREVISTA O sujeito da cara preta é um boxer. Somos grandes amigos. de certo modo. e talvez o sujeito da cara preta pudesse dar-me algumas explicações interessantes do ponto de vista canino.

O andar deles é muito esquisito e assemelha-se ao da cegonha. aparentemente. O resto se dá por si mesmo. não lhe poderei dizer nada além do que nós.” — “Mas alguma coisa você podia me dizer. aprendemos enquanto novos ainda. Sabe. que causa impressão deveras ridícula. — “Para ser franco. melhor. Os espécimes femininos possuem-na mais densa. o valor dos bípedes é exclusivamente de ordem econômica: quanto mais perto da cozinha. mormente visto de longe e quando 25 . Em primeiro lugar. excessões. Tudo isso causa uma impressão muito singular. estou justamente na hora da minha sesta. — “Claro. O tema é como uma fatia de carne: um pedaço bom.Então também o achei. . A gente não tem idéia certa sobre si mesmo. naturalmente. cachorros. o outro tão duro que pode quebrar os dentes. que criam alguns poucos cabelos no focinho e tratam-no com carinho. sofreram em tempos remotos.” O sujeito da cara preta atacou o osso do outro lado. De um pêlo verdadeiro não se pode falar. e só em forma de bate-papo. Alguns pontos gerais. o que é que vocês aprendem sobre os bípedes nus. Mais é impossível. de uma espécie de sarna. embora isso não tenha o mínimo sentido. Existem. do ponto de vista pedagógico. Cientificamente podemos dizer o seguinte: os bípedes nus. Erguem-se nas patas traseiras e movimentam-se com passos graves e comicidade grotesca. — “Está bem. ou balançam-nas no ar. não gosto de dar informações sobre esse assunto. pois perderam todo o pêlo. enquanto são cachorros novos?” — “Somente o indispensável.” — disse-me ele condescendendo — “porém. com exceção da crina na cabeça. bastante devagar. e também varia muito. .” — e apontou o osso com a pata. ao contrário dos bípedes nus masculinos. isto é apenas uma entrevista. não quero perturbá-lo de maneira nenhuma! Então. enquanto que as patas dianteiras deixam-nas penduradas. Só assim. Também poderei dar-lhe só dados objetivos.

ainda por cima. ou tornam-se brancos.” Na realidade sentia-me um tanto deprimido. acenam com a cabeça. então” — continuou — “não têm pêlos. Correm por todos os lados como se farejassem alguma coisa. com exceção dos poucos cabelos que. — “Os bípedes nus” — intercalou com benevolência — “não pareceriam tão incrivelmente cômicos se não se julgassem tão importantes. e pensei em muita gente naquele momento. porém.” 26 . — “Somente quando os bípedes nus se reúnem.” Desviando o olhar com discrição. que nos fazem considerar nosso corpo como algo indecente. . — “O rosto e as patas dianteiras ficam lives” — continuou o sujeito de cara preta. Os filhotes — raramente mais do que um de cada vez — nascem também nus e ficam. . as pobres criaturas indefesas não podem agir de outra forma senão morrem congeladas. fazendo muitas vênias e inclinando a cabeça. ou soltam uma risada gozada. caem-lhes quando ficam idosos. você tem razão. — “Os bípedes nus. O sujeito da cara preta percebeu a minha reação. ele roeu um pouco o osso. mesmo o mais fácil. durante muito tempo. muito parecida com o relinchar do potro. desajeitados. Para não sentirem frio.” — “Sim. não quero cometer rata. Entretanto. possuem um nariz deficiente e quase nunca encontram um rastro. é que cobrem também as patas dianteiras. você compreende. Porém. Fica muito feio. Não tive vontade de explicar-lhe nossas normas morais. quanto aos ares importantes. Estou a magoá-lo?” — “De maneira alguma. os bípedes nus protejem-se com trapos coloridos. — “O resto é um pouco novo e inesperado para mim.” — disse-lhe eu suspirando. Por quê? Ignoro-o.” Fiquei calado. pois fui eu que o pedi.andam em grandes grupos. De vez em quando inclinam-se.

Possuindo este metal sujo podem conseguir as coisas mais lindas. embora gostem de comer e comem muito.” 27 . Também não gostam de se desprender dele. redobram suas inclinações. Sei ainda uma porção de coisas.” O sujeito da cara preta terminou seu osso. — “Está vendo? Mas o pouco que lhe expliquei pode contar sossegado. trocando uma porção de amabilidades. pelo contrário.” — disse-lhe eu. ultrapassaria. Mostram os dentes quando estão alegres.” — “Os bípedes nus são esquisitos também em outros assuntos. São assuntos pessoais sobre os quais refleti. Não sabem catar pulgas. Ainda não tive oportunidade. — “Seus dentes são fracos. Nunca os vi se pegarem.Eu também o ignorava. como os macacos. É apenas sabedoria de cão novo. e todos abanam o rabo perante ele (se é possível falar em abanar. com os quais em geral. e aquelas inúmeras rugas picantes? Muito estranha também é a predileção dos bípedes nus por um determinado metal sujo. O que é que nós diríamos se as damas dos boxers não tivessem aquela tez aveludada e preta.” — “Entre nós também é assim.” — respondi encabulado — “infelizmente não. As patas dianteiras são extremamente desenvolvidas. Correm o dia todo e trabalham para adquiri-lo. procuram arrancar reciprocamente as patas dianteiras. e os bípedes servem-se delas com muita habilidade. tratando-se de tão triste ausência de rabo). A todos falta-lhes o rabo. por isso não podem abaná-lo. porém. estando os bípedes nus enfurecidos um com o outro. têm muita semelhança. verifiquei com freqüência que. Quando se encontram ou se despedem. Os filósofos nunca dizem tudo para não serem amordaçados. — “Não lhe posso dizer mais que isso. o que me é permitido dizer. Você o sabe?” — “Não. Muitos não compreenderão nem isso. e quem mais o possui é o tal. Por exemplo: consideram bonitos os rostos lisos e brancos. pois sou filósofo.

— “Estou convencido disso,” — respondi. — “Em última análise,” — disse ele para rematar, — “não deixe pender as orelhas, mesmo sendo apenas um bípede nu! Qualquer um pode ter uma alma: tanto um bípede nu como um qaudrúpede peludo. Até logo.” O sujeito da cara preta deu a pata. Despedi-me. Senti-me mal como um cachorro. — “Quer dizer que você, de maneira nenhuma, desejaria ser um bípede nu?” O sujeito da cara preta arreganhou os dentes: “Rrrrrrr!”

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MÃE

No sótão, dentro de uma cesta, estava deitada uma gata com dois filhinhos. Os gatinhos nasceram havia poucos dias e eram ainda muito desamparados, com suas pequeninas patas que sempre escorregavam, e suas enormes cabeças de olhos cegos que se enterravam no pêlo da barriga de sua mãe. Eram muito esquisitos. A gata, porém, achava-os lindos sobremaneira, pois eram seus filhos: um, cinza e preto como um tigre, igual a ela mesma, isto é, uma beldade, modéstia à parte; o outro, rajado igualzinho ao pai, com elegantes calças e luvas brancas, uma pinta no nariz, cantava com muita expressão. Como eles cantavam lindo, juntos, no jardim, nas primeiras noites do mês de março: a duas vozes. . . tantas canções bonitas!. . . Não era de se admirar que esses filhotes de patinhas escorregadias e cabeças enormes, se tornassem criaturas tão maravilhosas, não somente gatos — o que já por si significa o máximo, como todos sabem — mas gatinhos como a terra nunca ainda tinha visto! A mãe gata espreguiçou-se numa curva orgulhosa e pôs-se a contemplar, ronronando amorosamente, os pequenos milagres de seu mundo. O agradável quarto do sótão parecia um lugar próprio em todos os sentidos, tranqüilo e sossegado; uma cesta macia, cheia de feno, quente e bem apropriada às primeiras tentativas de engatinhar; muita bugiganga em redor, muitas surpresas e material de investigações, tudo alegremente iluminado pelo luar de maio através da janela; largo espaço para folguedos, e. . . que refúgio admirável para a caça de camondongos! Que vasto território para a formação perfeita das aptidões profissionais! “Seria bom eu mesma procurar uns camondongos”, — disse a gata. — “Os pequerruchos estão dormindo e uma distração far-me-á bem; tratar de filhotes é cansativo e, de mais a mais, estou com um considerável apetite.” A gata levantou-se do seu leito de feno, deu ainda uma rápida lambida
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nos filhos, e esgueirou-se em seguida, silenciosamente, farejando ao longo dos caixotes e cestos. Não obstante ter já alcançado certa idade, não deixava de sentir agradável excitação ao procurar camondongos. E, de repente. . . não se ouviu um farfalhar? Não estava cheirando tão bem a camondongo? Não era o perfume delicado, inconfundível para o nariz de um gato? Mais alguns passos cuidadosos com os seus chinelinhos de veludo — ninguém a imitava nisso — e ei-la perante um ninho de camondongos, com dois pequeninos filhotes nus. “Só filhotes,” — pensou a gata — “então não havia necessidade dos chinelos de veludo, pois estes bichinhos não sabem correr, nem enxergam. Nem vale quase a pena, somente duas pequenas dentadas, mais nada. Mas enfim, sempre é alguma coisa para enganar o estômago, por assim dizer. . .” Preparou-se para abocanhar. Porém, alguma coisa falou dentro dela: “Eles não sabem correr, não enxergam, igualzinho a seus filhos. São totalmente desamparados e a mãe deles está morta possivelmente. Estão tão desamparados como seus filhos quando você não está junto deles. Verdade é, são camondongos, porém camondongos pequenos, muito pequenos, são filhotes; na verdade, você sabe o que quer dizer filhotes?” Era o amor maternal que falava, e dentro dele o amor universal, seu espírito no futuro. Ele só pode falar dentro de um amor maternal muito grande, assim como o amor maternal de uma gata, pois este é um dos maiores. A gata inclinou-se, apanhou cuidadosamente um dos ratinhos com os dentes e levou-o ao seu cesto de feno. Em seguida, voltou para buscar o outro. Ela lhes deu o peito e amamentou-os junto com seus filhos. Os ratinhos estavam quase entorpecidos, porém esquentaram-se rapidamente no pêlo de sua barriga. Estavam quase mortos de fome, porém saciaram-se logo no peito da gata. Sentiam-se perfeitamente protegidos pela mãe e não imaginavam que esta fosse uma gata. Como haveriam de saber? Eles eram cegos e desprotegidos. Cobria-os agora, protegendo-os, uma pata de gato, sem unhas, macia, aveludada.

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Os homens sabem tão pouco. abriram-se-lhes os olhos e a primeira coisa que viram foi a mesma mãe e o mesmo amor maternal. Nela renasceu um mundo novo de uma criatura pequena em um pobre sótão. Lentamente. Esta estória é verdadeira e pequenina. E nem sempre se repetirá isso. degrau por degrau. em momentos de angústia. se os bichos rezam. Eu creio. sabem aqueles que imaginam saber mais que todo o mundo. pois ele cingiu a cabeça da mãe gata com uma coroa dourada. e cingia a cabeça da mãe gata com uma coroa dourada. Eles não sabem. também. que os bichos também imploram. olhando pela janela. Eram pequerruchos e brincavam juntos. porque o amor universal é uma força viva dentro da alma desta terra. oh! não. o sol de maio. porém. e isso já aconteceu muitas vezes num pobre quarto no sótão. e se essa gata pedisse. As leis do mundo são fortes e duras. 31 . mui lentamente. a Virgem Maria atendê-la-ia. a um poder que está acima deles. muito grande.Os gatinhos cresciam e os ratinhos cresciam também. O sol de maio sabia o que os homens ignoram. mas os homens nem ficaram sabendo. porém. brincava com eles. mas foi um acontecimento grande que se deu. e menos que todos. o mundo velho transforma-se num novo. contudo serão dominadas.

dificultada e tolhida pela densidade da água. No brejo. e.” — pensava ela. uma existência cheia de instintos salvagens e fome. e sua boca. e a razão da vida eram agora as asas que brilhavam no ar azul. Aproximou-se devagar e cuidadosamente. ao lado daquela água. prontas para levantar vôo através do infinito banhado pelo sol. Liberta daquilo que antes fora ela mesma. Sua existência de larva já lhe parecia um sonho distante. 32 . — “A criatura gorda duplicou-se. Parecia-lhe haver ainda algum peso a dominar. “Que criatura gorda! Tenho de comê-la sem falta. algo sempre pressentido. Será que se transformarão em três? Qual delas é a mais gorda? Qual comerei?” — resmungou ela. tirou a pele. e esticou suas asas finas sob o sol de junho. porém. seguindo um desejo inconsciente. “Ué!” — disse a rã. arrastou-se devagar até a margem. Terminara uma forma de existência. com a prática de um profissional. Leveza e luz foram as primeiras sensações alegres desta transformação. Tarde e Noite. da qual saíra a mosca para uma nova vida. sob a luz doirada do sol. continuando imóvel com toda a paciência de rã madura e experimentada. acocorava-se uma grande rã verde. abria-se e fechava com apetite. de ricas dimensões. uma outra estava para se iniciar.A MOSCA EFÊMERA A mosca emergiu da água. por toda a longa vida de Manhã. que olhava a estranha criatura com olhos esbugalhados e sentimentos totalmente diferentes. Incrível. Algo novo principiava agora. e suas asas tremiam de alegria. a nova existência chamava-a para a dança do silfo no éter. de repente. — só hoje — real. e ficou novinha em folha diante de sua própria máscara — a forma daquilo que era antes e agora não o era mais. A mosca esticou de novo as asas e os membros. arrastou-se para fora de si.

— “Devemos conservar-nos em atividade. . . — “Quando me movimento sinto sempre grande necessidade de pensar.Na margem. Os olhos da rã saltaram para fora. porém.” 33 .” — “É uma maneira muito insalubre de encarar a vida. sabe?” — “Depende. de que o besouro era vegetariano. . Será que temos ainda mais comida? Que é que se engole agora? Como a vida é complicada! — “Olhe!” — disse-lhe a formiga. .” Ele apontou com uma pata dianteira a parte traseira das asas. A formiga assegurou-se antes. Por exemplo. porém. muito estranho. está vendo? Aqui.” — respondeu-lhe a formiga que arrastava com dificuldade um pedacinho de palha. . — “A senhora também? É tudo tão estranho. e ter sempre em mira o bem-estar do povo. também tenho pontos sobre minhas asas castanhas. Este aqui. um besouro bonachão que se alimentava de cereais. três pontos. Também outras criaturas multípedes movimentavam-se nesse lindo dia de junho. Deve existir um ponto a partir do qual. — “São justamente esses pontos sobre os quais devemos refletir sem falta. porém. era um peregrino inofensivo. é claro. mostrando com as antenas a mosca e sua carcaça abandonada — “ali está sentado alguém e está sentado mais uma vez! Nunca vi coisa igual. peregrinavam uma formiga e um besouro.” — disse-lhe o besouro. esses dois. dentro de uma simples roupa castanha. Nunca se sabe. encontraram-se para um bate-papo. como a senhora deve ter notado. de certos pontos. se algum deles não é justamente um consumidor de formigas — a gente sente tremerem as antenas só ao dizê-lo — e só é possível conversar sossegadamente após uma investigação cuidadosa.” — disse-lhe o besouro — “vai ser necessário procurar os pontos que explicarão este fenômeno.” — disse-lhe o besouro.” — “Estranho. simplesmente o mais prático. estou trajado com a maior modéstia. . nessa família numerosa de multípedes. e aqui. porém.

luz e sol. Os olhos da rã. Trata-se de economia popular que talvez seja aplicável aos nossos princípios estatais. uma coisa assim ainda não encontrei na vida. sua roupa. A roupa não se mexe. um dia. e a criatura balança as asas. saltaram. só que não posso me lembrar direito. por assim dizer. porém.” — disse-lhe a mosca. que continuava atenta. terminei o curso estadual de ovos e sou enfermeira diplomada em larvas. — “Vou dar um pulo até lá. — “Isso é preciso encarar pela maneira prática da economia popular.” — “Deixe de falar difícil. Do que a senhora vive?” — “De ar. O que sou eu mesma voa para a vida repleta de luz solar.” — disse-lhe a mosca — “é alguma coisa minha que. e. Mas que semelhança da roupa com a criatura! Não.” — disse a formiga à mosca. 34 . — “A senhora me interessa do ponto de vista nacional. não é essencial.” A formiga correu apressada em direção à mosca.” No pequeno besouro surgiu uma espécie de recordação: não estivera ele também. tome conta. e a outra. contudo não sei como. Uma deve ser a criatura. entretanto. pois não se deve balançar as asas dessa maneira numa sociedade decente. — “Isto aqui é a senhora mais uma vez. — “Preciso investigar.” — disse ele e coçou pensativo a cabeça com as antenas. enquanto isso.” — disse-lhe a formiga. incluso numa larva e depois ficou livre.” — disse-lhe a formiga com decisão. das órbitas. multípede e com pontos? Como é que isto se deu mesmo? — “Sinto. Deve ser um ente muito leviano. ou é parte do seu guarda-roupa?” — “Não sei. porém sinto-o realmente. da minha bagagem.— “Ah! pare com seus pontos.

” A rã não conseguiu mais se dominar. “Isto não é ninguém. A mosca abriu as asas bem abertas. voltando. este é o único ponto que deve preocupá-lo agora. Iniciava-se uma nova existência: Manhã. não é?” — “Uma criatura decente vive anos. A formiga voltou apressada ao besouro. Esta pareceu-lhe ser a mais gorda das duas pessoas gordas. Meio-dia e Tarde. e voou para a luz. deve existir um ponto. apenas um estojo.” — “Pois eu vivo só um dia.” — “Não sei o que é isso. Deu um salto sobre a casca da mosca. hei de tamborilar tanto nos seus três pontos. 35 . difícil de imaginar.” — “Naturalmente. — “primavera. inanimado e insignificante. aquilo em que ela estava antes envolvida: seu estido. e retirou sua bagagem sem agradecer.— “Isto é tapeação. não é possível fazer mais. Não posso imaginar outra coisa. um Meio-dia e uma Tarde. porque a senhora não tem instrução estatal. Meio-dia e Tarde. deixando para trás.” — coaxou a rã furiosa. — “Cuide melhor da minha bagagem. verão. uma Manhã. inverno.” — “Encontrou o ponto?” — gritou-lhe o besouro. Pois a vida inteira é só Manhã.” — disse-lhe a formiga. o ar e o sol. . . talvez a senhora esteja apenas usando termos diferentes. que o farei esquecer-se de todos os outros. Disso poder-se-ia viver um dia. É uma infinidade. outono. — “O senhor com seu ponto!” — disse-lhe a formiga. Se eu. Contudo.” — “Estou sentado sobre a sua bagagem. e pulou zangada na água. não encontrar minha bagagem. não mais.

moscas. e abandonamos assim apenas a terra e o brejo. . um Meio-dia e uma Tarde. — “Deve ser possível. .— “A criatura diz que vive de ar e de sol. Porém. a aurora de um novo dia — a vida toda é uma eterna Páscoa. um ponto qualquer.” — repetiu o besouro. Logo imaginei quando a vi balançar as asas daquele jeito. também. A rã verde e grande. e em toda existência respira a grande intuição dos pequenos besouros: toda vida é uma Manhã. e não deixamos também para trás larvas que se parecem conosco. . Não somos nós. um ponto qualquer. Tarde. Carece mesmo encontrar aquele ponto. que vive só um dia.” Multípede e penosamente continuaram os dois a peregrinação. e depois da noite. encontrar um ponto. . estava com o pescoço inchado de tanta raiva. coçando a cabeça com a antena.” “Manhã. é uma leviana. porém. o que é uma tarde? Um momento e mil anos são igualmente efêmeros e inconstantes. Conforme diz: uma Manhã. A mosca balouçava-se com asas reluzentes na luz brilhante duma nova existência de um dia — uma Manhã. para esticar nossas asas no éter azul da eternidade ensolarada? Todo presente encerra seu misterioso prenúncio do futuro. É uma vigarista. 36 . sentada no brejo. um Meio-dia e uma tarde. como dizia o pequenino besouro peregrino. Meio-dia. um Meio-dia e uma Tarde.

Não era um macaco simples. 37 . Todos os macacos o sentiam. se porém. Quando um simples macaco tem reumatismo. eram senhores bondosos e. apalparam e examinaram as pernas reumáticas. dava uma bofetada no curioso. isso incomoda apenas a ele próprio. e mostrou as pernas mal-humorado. Os marabus inclinaram-se com garbo mundano e estufaram-se cheio de perícia. Todavia. Um dos marabus possuía ainda um pouco de plumagem na cabeça: era o Conselheiro Médico. Ambos caminhavam sobre altas pernas de pau e tinham grandes bicos. pois um reumatismo graduado não é nada comum. chefe de numerosa família. e sim. pois tinha um reumatismo nas pernas. médicos célebres. isso não é apenas desagradável para ele próprio. o outro estava totalmente calvo e era Conselheiro Médico Privado. Afinal. Estava muito aborrecido. ou pisava-o com sua perna reumática.TRATAMENTO BALNEÁRIO Um velho macaco resmungava zangado. era um macaco graduado. tornara-se evidente que isso não podia continuar mais assim. como também altamente penoso para o seu ambiente. Os dois marabus apareceram de bom grado. um macaco graduado tem reumatismo. sentado em cima de um coqueiro. pois quando alguém dizia ao velho macaco: “Bom dia. além do mais. e. ele arreganhava os dentes. Mediram com as garras o pulso do velho macaco. era um macaco-prefeito. o caso interessava-lhes profissionalmente. ficou resolvido curar este reumatismo graduado. Vossa Peludeza!”. e se alguém se informava sobre a sua saúde. numa reunião íntima de macacos. Concordaram então em consultar dois velhos marabus. e autoridades no seu campo. O velho macaco desceu da árvore resmungando.

Além de estar prejudicando minha autoridade. Os exames clínicos sobre o assunto ainda não foram concluídos. uma perturbação nas atividades tanto familiares como sociais. — “rheumatismus musculorum. muito compreensível.” “Tenho a impressão de que é reumatismo muscular. — “indicação muito preciosa. — “A bem dizer. porém. e a satisfazer-me com simples bofetadas.” — disse o Conselheiro Médico Privado.— “Seu reumatismo incomoda-o muito?” — perguntou-lhe o Conselheiro Médico. — “Uma indicação preciosa. 38 . isto. bem nitidamente e articulado. empolgado com os dois Conselheiros Médicos. — “Portanto. estou cada dia melhor. Que acharia do método de auto-sugestão? Diga uma vez. olhando de lado para o velho macaco. com profunda convicção: não tenho mais reumatismo.” — “Continue dizendo.” disse o Conselheiro Médico. incomoda-me pouco ao trepar profissionalmente. de grande alcance. percebo claramente que não o faço mais com o impulso juvenil que me era comum.” — disse-lhe o Conselheiro Médico. — “arthritis urica no local predileto do dedão. quando piso nalgum de meus familiares. e sinto até uma dor. Por exemplo. colega.” — aconselhou-o o Conselheiro Médico Privado. coçando a plumagem da cabeça.” — “Compreensível. de conseqüências perigosas. Gostaria de insistir no rheumatismus musculorum.” — “Estou cada dia melhor. Fui obrigado ultimamente a renunciar a este hábito que me era tão caro. não me fará bem.” — “Eu piso nos meus familiares com a planta do pé e não com o dedão.” — disse-lhe o velho macaco.” — disse-lhe o velho macaco. — “Nos assuntos de família.” — disse o velho macaco — “não tenho mais reumatismo. com o tempo.” — “Poderia ser também gota. atrapalha-me muito. pigarreando pelo bico.” — disse-lhe o Conselheiro Médico Privado.

” — disse o velho macaco. são gente muito ativa.” — repetiu o velho macaco — “estou cada dia melhor. a não ser pulgas.” — “Banho eu não tomo de modo algum.” — “É um caso persistente. Gostaria de sugerir um tratamento de águas. banhos de lama. Todos lhe diziam guinchando.” — “Piso nos meus familiares comodamente e sem dor. e lhe asseguravam que os marabus eram verdadeiras capacidades. — “Os exames clínicos sobre o assunto ainda não foram concluídos.” — disse o Conselheiro Médico Privado.” — “Continuo a favor do tratamento balneário. pontos obscuros nunca tive.” — disse o Conselheiro Médico — “rheumatismus musculorum chronicus.” — “Compreensível.” — disse-lhe o velho macaco — “quero ficar em casa.” disse-lhe o Conselheiro Médico Privado — “talvez possamos tentar ainda a psicanálise. e estas não me podiam contaminar com reumatismo porque elas mesmas não o têm. 39 . O senhor não tem algum ponto obscuro na sua vida? Talvez consigamos então descobrir a causa desse rheumatismus musculorum. — “gostaria de que estes dois marabus cacarejantes me deixassem em paz. balnea limosa.— “Diga: piso nos meus familiares comodamente e sem dor. — “Quero subir na minha árvore. Ai! que pontada me deu de novo!” — “O método de auto-sugestão parece não surtir efeito neste caso especial. que experimentasse o maravilhoso tratamento balneário. não há nenhum reumatismo. seguiu-o e pendurou-se no seu rabo. muito compreensível.” — disse-lhe o velho macaco.” — disse o Conselheiro Médico Privado. não há nenhum reumatismo. A família. porém. e rumou com seus longos braços em direção a uma palmeira. — fique na sua árvore e alimente-se bem.” — “Para ser franco.

papagaios — uns mais coloridos que os outros — conversavam sobre as últimas notícias. realmente no padrão europeu e cheio de lama. uma senhora valente e de muita confiança. e as instalações seguem padrões europeus. mostrando com sua asa um elefante que abanava a comprida tromba para lá e para cá. tem mais de cem anos. — “Depois do seu banho ele lhe 40 . com dois chifres no nariz. Movimentavam-se com imponência sobre as suas pernas compridas. gesticulando com as asas. de braços dados com o macaco o levaram ao balneário. A responsável é minha conhecida. é o recepcionista?” — perguntou o velho macaco preocupado. — “Ele soca o chão para dar-lhe melhor aparência. sobre as árvores. e falando sem parar sobre o rheumatismus musculorum. este é o chefe do balneário. grunhia de alegria. Era um balneário distintíssimo na margem do Nilo. focinhava por toda parte e enfiava seu chifre em coisas que não lhe diziam respeito.” — disse-lhe o Conselheiro Médico Privado. Toda a turma de macacos os seguia guinchando e cheia de expectativa. Quando encontrava alguma coisa totalmente inútil. Chegaram logo.— “É bem perto daqui. Em geral o ambiente aqui é totalmente europeu.” Ambos os Conselheiros Médicos.” O rinoceronte pisoteava pressuroso. — “E este. — “Não. — “O chefe tem de ser assim?” — perguntou-lhe o velho macaco. Na beira do rio. — “um balneário distinto e muito confortável.” — explicaram-lhe os marabus. A praia estava livre e justamente naquele momento um rinoceronte alisava-a pisoteando.” — disse-lhe o Conselheiro Médico.” — disse-lhe o Conselheiro Médico. — “Aquele senhor grande e gordo é o responsável-mor. — “Os exames clínicos sobre o comportamento das autoridades ainda não foram concluídos. Encontrará ali todas as comodidades.

— “Basta o senhor enfiar as pernas com rheumatismus musculorum. pentear. — “Qual o que!” resmungou o velho macaco — “meu princípio é: pegar piolhos só em casa. Ainda não possuímos uma. É exclusivamente por gentileza que ele o faz. caçar piolhos — preço: uma banana. o sangue desce. bonitos souvenirs!” — “Vou me lembrar deste balneário até morrer. — “Coçar o couro. substitutindo assim a orquestra balneária. As pernas estando dentro. caso não lhe agrade mergulhar inteiramente. grunhir e gargarejar. todas as noites. Daria muito por estar na minha árvore!” Os outros dois macaquinhos aproximaram-se. Nos intervalos.” — “E as pulgas sobem. Infelizmente exigem pelo seu trabalho uma vítima para devorar. sem nenhum dos souvenirs!” — “Eis o local do banho.” Os três macaquinhos dançavam com afã em redor do velho macaco. Se fizer assinatura. e à tona apareceu um enorme hipopótamo. porém.aplicará uma ducha. em negociações com várias hienas que deverão cantar regularmente. mais barato!” — gritou um deles. está vendo? É um verdadeiro balneário moderno. Do fundo do rio fez-se ouvir um tremendo roncar. anéis de caniço. pegar pulgas. isto se torna caro demais. Estes macaquinhos aqui são mascates. canções do deserto. — “Deseja folhas secas para fricções? Uma tâmara cada.” — “Cascas de noz de coco. boas folhas secas para fricções. Estamos. e enquanto não temos ainda muitos clientes. 41 . é um tratamento terapêutico de grande valor.” — disse o Conselheiro Médico Privado. ele toca trombeta.” — disse-lhe o velho macaco.

afastando as magras pernas de pau dos Conselheiros Médicos.” — “Pois não. o senhor primeiro.— “É a responsável. Num segundo estava de novo fora d’água. — “Entre logo!” — comandou o rinoceronte — “deixe de encrencas. 42 . — “Quero ir para casa” — gritou o velho macaco. e o velho macaco teve a impressão de que o rheumatismus musculorum se precipitou das pernas para as mãos. Os marabus cacarejavam com aprovação. o senhor primeiro. quero subir à minha árvore!” A responsável sorriu com uma boca de vários metros. O elefante era um mestre na ducha. e a família do macaco exultava de alegria. piscando os olhos.” — disse-lhe o velho macaco. e caiu na água de cabeça para baixo. — “Este paciente deseja tomar um banho de lama balnea limosa. — “Quero ir para casa. pulou da margem do rio para um lugar mais seguro. Nisto apareceu ao lado da responsável um crocodilo verde. pois era uma criatura de muita experiência e jeito. mostrando suas patas à guisa de propaganda — “deseja uma massagem?” O velho macaco. da cabeça para o rabo e do rabo para fora. mas já sentiu o chifre da autoridade nas costas. quase nos braços da responsável. a responsável sorria gentilmente.” — exclamou o Conselheiro Médico satisfeito. das mãos para a cabeça. e acenou com a garra. com um inacreditável e grande salto. No mesmo momento o responsável-mor esguichou água com sua tromba.” — “Esta é a responsável?” — gritou o velho macaco. e principiou a remexer a lama com muita maestria. verde e irreconhecível de tanto lodo. ele sofre de rheumatismus musculorum. — “Deseja uma massagem?” — perguntou. também eu quero entrar. pois não. há mais gente ainda que quer tomar banho.

não pude mais recomendar o massagista. Este. O reumatismo sumiu durante a massagem. colega.” — disse-lhe o Conselheiro Médico. No dia seguinte os dois Conselheiros Médicos puseram-se a caminho para fazer uma visita de praxe ao velho macaco. Porém. Não chegaram longe.— “Colega. — “Os exames sobre as vantagens da massagem com patas de crocodilo não foram ainda concluídos. Desde aí. Não aguentaram o aspecto do massagista. preciso refrescar o galo.” — disse-lhe o 43 . — “Colega. — “Conheço esse massagista. e toda a família de macacos com ele.” — “Compreensível.” — “Compreensível. todavia. mas o clinte também.” — disse-lhe o Conselheiro Médico Privado. muito compreensível.” Ambos procuraram o velho macaco.” — disse o Conselheiro Médico. muito compreensível. no entanto. o que o senhor acha.” — disse-lhe o Conselheiro Médico. O velho macaco estava sentado numa árvore e jogava cocos. — “Tenho também a leve impressão de que faríamos melhor se desistíssemos da visita planejada. colega. — “uma vez ele fez massagem num cliente que sofria também de rheumatismus musculorum. os exames clínicos também sobre isso não foram concluídos.” — perguntou o Conselheiro Médico Privado — “será um massagista experimentado?” — “Parece-me antes que é um massagista que experimentou outros. havia sumido.” — disse-lhe o Conselheiro Médico Privado. colega. Um dos cocos atingiu o Conselheiro Médico na cabeça. — “Existem sempre médicos que ainda defendem o ponto de vista de que a eliminação da doença não está ligada obrigatoriamente à eliminação simultânea do paciente. formando um galo que inchou consideravelmente.

joga cocos. jactatio nucis. e o Conselheiro Médico Privado anotou. O cliente sarou. Rheumatismus musculorum nas pernas. Ali o Conselheiro Médico refrescou o seu galo. causando galo na cabeça do Conselheiro Médico assistente. banho de lodo. porém. confeccionado com folhas de palmeiras. Os exames clínicos para verificar se jactatio nucis é conseqüência de balnea limosa ou decorrência do rheumatismus musculorum ainda não foram concluídos.Conselheiro Médico Privado. balnea limosa. Anotou com exatidão científica: “Cliente: um macaco graduado.” 44 . o resultado do tratamento pela água no seu livro de doentes. cuidadosamente. Método de auto-sugestão e psicanálise sem resultado. tumor capitis. Tratamento com águas. e ambos procuraram um riacho.

mas na realidade elas são bem outras. — “pois sou descendente de uma raça melhor. — “Não. no comedouro. — “Eu vi o grão primeiro!” — disse um galo. Os galos. Ambos atacaram-se mutuamente. Atrás deles. no lugar de encontro da maioria dos galos briguentos. fui eu que reparei primeiro!” — “Porém. o suficiente para saciar muitos galos. — “Não. o parque sonhava num silêncio de verão. Mas tinha de ser justamente aquele grão. o único. somente aquele. foi escolhido para mim!” — disse o outro. — “Este grão é meu!” — disse um dos galos. o bicos.HEROÍSMO Dois galos brigavam na frente do galinheiro da fazenda. bateram agitados as asas e abriram com raiva. — “O grão me pertence” — gritou um galo. ele é meu!” — disse o outro. não percebiam nada da paz das velhas copas e nada do sagrado silêncio do verão ensolarado. desmesuradamente.” 45 . Costuma-se chamar a isso: “razões econômicas”. ergueram-se desajeitadamente um poucono ar. lá. encaravam-se e brigavam. ele foi-me destinado!” — disse o primeiro. porém. — “Não. Enfrentavam-se. Os galos chamam a isso heroísmo. através dos sussurros de velhas árvores seculares. No terreiro havia grãos em abundância. e é muio gozado de se ver. estufando-se zangado. cheias de passarinhos que cantavam suavemente.

— “Não. na realidade. um gavião desenhava seus círculos. Todas as galináceas fugiram céleres para dentro de casa. dançavam esquisito. eu!” — cacarejo o outro. — “Sou duma família mais antiga!” — cacarejou o primeiro. Agitavam-se com fúria. — “Não. que como se costuma dizer. meio por terra. ou mesmo por nada. que passeava com seus pintinhos amarelos no parque. no espaço azul. eu sou de raça melhor!” — gritou o outro. Em cima. mas como se pode explicar isto a um galo? — “Não briguem!” — disse-lhes uma velha galinha. com fúria. Chamam a isso guerra — e julgam-na necessária por causa de um grão. Depois. no silêncio do verão ensolarado. batiam com os esporões e martelavam um no outro com ódio. o que é tolice. eu!” — “Razão tem quem é mais forte!” — grasnavam ambos. penas arrancadas voavam em todas as direções. era a “causa econômica” — já há tempo jazia enterrado na lama. com saltos muito tolos e grotescos. atirou-se de repente sobre o galinheiro. Os galos atacaram-se de novo. sob as copas das velhas árvores. os dois galos 46 . Devagar descia sempre mais. meio no ar. — “Eu saí de um ovo vermelho!” — “E eu de um branco!” — “Vermelho é mais distinto!” — “Não. branco é mais distinto!” — “Eu estou com a razão!” — “Não. e o grão.

Só a choca não conseguiu alcançar mais a casa. Depois aconteceu algo inesperado. até que. que ele foi obrigado a se defender. criou e guiou. ficou indeciso. pisou-o e mordeu-o com tanta fúria. amarelos e desamparados pintinhos voltaram para casa. O gavião sangrava. com suas patinhas fracas e desajeitadas. qual leve silhueta sobre um vidro azulado. A luta foi desigual. começou a esvoaçar. vencida e castigada. em direção da galinha e de seus pintinhos. pelo azul celeste e para a morte — uma dessas pequenas criaturas piantes que ela chocou. tanta coragem e desespero. Os pássaros canoros calaram-se nas árvores. algo que a orgulhosa ave de rapina ainda nunca presenciara. pairando. Por isso ela ficou. Não faltou nenhum deles. desiludida e zangada. havia um terrível silêncio deprimente. 47 . e deslizou com o farfalhar medonho e assustador de suas pesadas asas. Só se ouviam as batidas do coração da pobre galinha. O gavião aproximou-se da terra. nervoso. De repente o gavião se assustou. seus pintinhos não podiam fazer tão depressa o trajeto do longo caminho do parque. espantoso. E em baixo das asas feridas da mãe. mas a galinha sangrava ainda mais. chamou assustada seus filhotes e esperou o temível inimigo com o coração aos saltos. Da casa vinham correndo as empregadas que escutaram o grito desesperado da galinha e enxotaram o gavião. A galinha saltou para ele. longe do coração materno. Um deles ele apanharia. sumiu no ar transparente do verão nórdico. pela primeira vez na vida. rasgá-lo-ia com seu horrível bico.briguentos na frente. A galinha estava cheia de sangue. A luta não podia demorar muito. bem alto. A ave de rapina. subia sempre mais e mais. um de seus filhos! A choca soltou um grito dolente de tremenda queixa. subiu no ar e. mas os ferimentos não foram graves. os pequenos. pois o mais forte está sempre com a razão. e levaria depois consigo para longe dos prados verdes da vida.

Alguns deles ganham até nomes tonitruantes na história mundial. Desde aí nunca me impressionei com briga de galos. Galos briguentos sempre existiram e existem. porém. como nos é ensinada. desconhece — esses receberam a galinha nas suas fileiras imorredouras. A galinha nunca foi sacrificada. mais do que o suficiente. certamente com muito mais razão e direito do que o fazia para a maioria das pessoas. — e existem muitos que a história mundial. 48 . Aconteceu há muitos anos na velha quinta de Paltemal. ainda hoje. Eu mesmo a conheci em garoto e tirava o chapéu ao encontrá-la. Os verdadeiros heróis. como nos é ensinada. recebeu a ração até sua morte natural e todos a respeitavam muito. Não são heróis.—— — Esta é uma estória verdadeira. terra da minha infância.

Primeiro. Uma reunião de macacos elegia o seu chefe. do contrário não existiria legítima palhaçada. levantando-se sobre suas pernas-colunas. desencadeia-se uma terrível algazarra. na Índia e no resto do mundo. altamente agitados e inesperados. Depois. eles começam a se morder mutuamente. pernas. o que lhe formou muitas rugas no nariz. e do último. aparece o chefe. “Muito sábio e preclaro é este mundo.” — disse o elefante Nalagiri Trapelhudo. que é eleito desta maneira. Por isso ele era o macaco-chefe. provocando assim uma expressão pouco amável. são um acontecimento ligado a efeitos secundários. sob a bênção de Brahma. como todas as eleições no mundo inteiro onde há macacos. 49 . o que os macacos querem em toda parte. Ao seu redor. e sua alma era clara e calma como o céu matinal da Índia. E. acordando. quedou-se pensativo nessa posição. Nos galhos das árvores agitava-se uma grande multidão de cabeças. Ele assentou-se no mais alto galho da árvore e arreganhou os dentes. até que um novelo após outro se desenrola. Para chefe sempre se escolhe um de focinho maior e mandíbulas mais fortes. enrolar-se em novelos. pois alcançara grande experiência. a larga cabeça virada para o oriente. e eleições desse gênero. e o macaco-chefe do novo dia chamava-se Krakelius Krequequeque. não estava nada calmo. que conseguiu se livrar de todos os outros. a bater-se.KRAKELIUS KREQUEQUEQUE O céu matinal derramava seu anil sobre as campinas da Índia. Assim aconteceu também desta vez. Assim ninguém mais entende o que o outro está a dizer — o que nas eleições não é necessário. mãos e rabos. em toda parte onde há verdadeiros macacos — e os há bastante. Sempre que macacos se reúnem. porém. mergulhando todos os milagres da existência na luz do novo dia. escolhem o seu chefe.

” — disse-lhes Krakelius Krequequeque — “não existe liberdade para macacos. Vocês devem restringir-se e eu já estou restringido porque estou restringido como autoridade. Sei um pouco de cada coisa porque o sei como autoridade. Dobrou com dificuldade e resignação as grandes orelhas e mudou a posição de suas pernas-colunas para refletir. Tudo tem de ser restrito. — “Em seguida” — disse Krakelius Krequequeque — “a mocidade não 50 . — “Doravante me incumbo do governo” — disse Krakelius Krequequeque. como eu. Isto amimalha a geração vindoura. — “Um governo consiste em impor restrições. arreganhando de novo os dentes.” — “Que é que você sabe sobre a criação de filhos?” — chacotearam as macacas mães. . — “Não permitiremos que nos tire nossos doces pequerruchos. — “Antes de mais nada.“Muitas criaturas desta terra são tão barulhentas!” — disse o elefante Nalagiri Trapelhudo. Por isso sou o macaco-chefe!” Grande algazarra. Por isso sou o macaco-chefe!” — “Sabe um pouco de cada coisa e não sabe nada. os filhotes macacos não têm necessidade de ficar sempre deitados e ser acariciados nos braços de suas mães. em primeiro lugar. arreganhando os dentes. a larga cabeça virada para o oriente. nós necessitamos de macacos rijos e corajosos.” — “Sei muita coisa sobre educação infantil porque sou um governo. .” — “Não queremos restrições! Queremos liberdade!” — vociferaram os macacos. nem para um legítimo governo de macacos. depois. — “Calem a boca.” — disse-lhe uma jovem macaca mãe.

” Grande algazarra. coço-me como autoridade. Um verdadeiro governo de macacos sempre guarda todos os frutos que os outros colhem. Não é bonito. Por isso sou o macaco-chefe!” Nesse ínterim sentiu coceira e se coçou como autoridade. — “Certamente. trazer para mim. sinto-as como autoridade. e quando me coço.” — disse-lhes Krakelius Krequequeque — “quando sinto coceiras. como-os como autoridade. — “Viver sempre comendo sem trabalhar o governo não permite.” — “Para devorá-los!” — vociferaram os macacos.” — “Isso é diferente. Da mata cerrada apareceu a tigreza. — “Nós nos coçamos quando sentimos coceira.” — gritou Krakelius — “e comendo-os todos sozinho. Melhor será fazer exercícios com as pernas.deve se coçar tanto em público. — “Isso é o que faltava!” — disse-lhes Krakelius Krequequeque. Repentinamente cessou todo o barulho. — “Outra coisa: todos os macacos devem apanhar frutos e não vagabundear. num elegante vestido de pele 51 . Essas serão nossas provisões para os tempos das vacas magras e essa é a disposição do governo.” — gritaram as mocinhas e os mocinhos — “você também se coça.” — “Queremos comer e não guardar provisões!” — gritaram os macacos. Não se entendia mais nenhuma palavra sequer. Vocês têm de colher e o que colherem. isso cria a juventude que precisamos. Por isso sou o macaco-chefe!” Um guinchar sempre mais forte de todos os macacos e macacas. Nosso futuro está nas pernas.

Krakelius Krequequeque estendeu uma perna e um braço em juramento. não compensa mesmo a senhora se incomodar por minha causa. — “Nunca fui um macaco-chefe. — “Meus filhinhos.” — disse-lhe um macaco pequenino. A senhora viu como me tiraram do buraco em que caí de fraqueza. debatendo-se veementemente com as mãos e os pés. tiraram Krakelius do buraco e colocaram-no sobre seus membros cambaleantes. Ele esforçava-se muito para voltar ao buraco. uma criaturinha totalmente inocente. tem de falar com a senhora Patamole. Puxando essa pata de autoridade. Não. — “Que é que significa esse barulho infernal?” — bramiu a senhora Miesimissa Patamole. os outros macacos.listrada. batendo perigosamente com a pata num tronco. com expressão zangadíssima na cara. Minha carne não tem saúde e sou muito magro. pois em gente que não é tigre este animal causa facilmente um mal-estar. Finalmente encontraram uma solitária pata traseira saindo de um buraco num tronco de árvore. nunca! Como poderia ter ficado macaco-chefe? Sou tão fraco e doentio. lambendo o focinho de maneira desagradável.” — “Precisamos cacarejar tanto porque temos um governo e um macaco-chefe. Todos se afastaram rapidamente para as alturas. — “É você o macaco-chefe?” — perguntou-lhe a senhora Miesimissa Patamole. porém. Nem o meu pêlo presta. não conseguem dormir por causa desse estúpido cacarejar. macaco-chefe!” — gritaram os macacos assustados e correram desordenadamente a procurá-lo. — “Macaco-chefe. de pura 52 . — “Onde está o seu macaco-chefe?” — perguntou-lhe a senhora Patamole. seguravam-no. juro. Onde está o macaco-chefe?” Mas o macaco-chefe sumira. — “O macaco-chefe tem de nos defender. os pequenos Patamole. pois estou cheio de traça.

— “Como poderia ter dito isso se não entendo nada de educação? Nunca entendi nada disso. mas ela usou realmente essa expressão.” — “Porém você estava querendo guardar os frutos que eles colhessem.” — disse-lhe Krakelius Krequequeque bamboleando-se todo. — “Então você é o macaco-chefe!” A mão e o pé em juramento moveram-se convulsivamente.fraqueza!” — “Você não acabou de falar sobre educação de crianças? Não disse agora mesmo que é firme e corajoso?” — perguntou-lhe a senhora Miesimissa Patamole. Das profundezas do jangal ouviu-se então um miado suave e queixoso. juro com as mãos e os pés. — “E eu corajoso? Meu Deus. — “Nunca. 53 . pobre criatura indefesa! Não creia em semelhantes coisas. — “Você não falou agora mesmo da coceira da juventude?” — peguntou-lhe Miesimissa Patamole. — “Juro pelo templo de Benares. e rosnou assustadoramente. Krakelius Krequequeque movimentou nervosamente a mão e o pé em juramento. minha cara senora Patamole!” — “Não sou sua cara senhora Patamole. nunca falei semelhantes coisas! Como poderia ter dito isso? Ai de mim. Vou tirar-lhe as pulgas do pêlo!” A senhora Miesimissa Patamole era uma dama. nunca!” — assegurou — “fico feliz quando não sinto coceira. Custa-me dizê-lo. pelo couro dos meus antepassados. meu bom Deus!” — choramingou comoventemente o macaco.” — disse-lhe Miesimissa Patamole. seu macaco bobo.

Ele investigará todo esse assunto. Os macacos resolveram.de várias vozes. é claro. meu marido assim que ele voltar da caça. Especialmente tola e barulhenta é a macacada desta terra. braços. os pequenos Patamole. À frente de todos fugia Krakelius Krequequeque. Por isso era o macaco-chefe! Tudo silenciou nos galhos das árvores. céus!” — disse Miesimissa Patamole — “meus doces filhotes. são mui tolas e mui barulhentas. e mudou a posição de suas pernas-colunas para refletir. e os mais tolos e mais barulhentos são os macacos-chefes. não esperar a chegada do senhor Patamole. — “Inúmeras criaturas. sob a bênção de Brahma. porém.” — disse o elefante Nalagiri Trapelhudo. a larga cabeça virada para o oriente. que vocês acordaram. mamando de olhos cerrados. Preciso voltar para casa. pernas e rabos. mergulhando todos os milagres da existência na luz do novo dia. Mandarei. O céu matinal derramava seu anil sobre as campinas da Índia. e ronronando alto e delicados. cambada de macacos!” Miesimissa Patamole sumiu na selva e logo os Patamole estavam aconchegados entre as patas maternas. iniciou-se um debandar desordenado. Estão com fome. “Muito sábio e preclaro é este mundo. No momento em que a senhora Miesimissa Patamole sumiu. — “Oh. estão me chamando. pois ele fugia como autoridade. Vocês vão ver. porém. um emaranhado confuso de cabeças.” 54 .

Estamos ao pé do catafalco de um homem excepcional. continua a viver. com voz cheia de emoção. que penetrou profundamente em todos os corações. são geralmente esquecidas nos discursos fúnebres. estava emoldurado por círios ardentes. na sua frente.GLÓRIA POST MORTEM Os funerais do célebre anatomista e diretor do Instituto Fisiológico da antiga Universidade decorreram em forma de comovente homenagem dos círculos acadêmicos aos méritos do grande finado. envolto no esplendor de toda sua vida laboriosa. porque ser um grande pesquisador significa ser também um grande homem. ao lado da família encontrava-se o senado da Universidade paramentado. com a alma cheia de tristeza por que ele nos foi tomado. durante sua vida. “Foi um homem exemplar e um cientista exemplar. que ostentava uma corrente de ouro no pescoço. os representantes das corporações montavam guarda de espada em riste. “foi um por ser também o outro. Porém.” assim terminava ele. e ninguém reparou que o sacerdote. que o Grande Morto. defendeu durante sua vida inteira a convicção da não existência de Deus. aparentemente. e está agora perante o trono do Todo-Poderoso. O catafalco. não nos devemos entristecer nem lamuriar. mergulhado em flores e folhas de louro. o corpo docente em peso. tinham colocado numerosas insígnias que o eminente cientista havia usado. com justificável orgulho. O sacerdote acabava de pronunciar seu discurso. levantou-se o Reitor da Universidade. havia se esquecido de um pormenor insignificante. ornamentado com coroas de flores e fitas de seda. Dos dois lados do catafalco. como diz a escritura: “Eles descansam do seu trabalho e as suas obras os acompanham!” Todos ficaram em silêncio. isto é. e. pois este Grande não está morto. Essas minúcias. porém. sobre uma almofada de veludo. e pronunciou. e os representantes do governo. 55 . Em seguida. que devia encontrar-se nesse momento perante o trono do Todo-Poderoso.

em parte por causa do título Excelência. — “Ainda poucos dias antes de sua morte. ao pé de suas cinzas. e nós. apenas. queremos jurar. para o bem da ciência européia e glória da nossa amada pátria. um exemplo para nós e para todos que virão depois. “Ele foi sempre um ornamento da nossa velha alma mater e um ornamento da ciência. que pesavam vários quilos. à qual consagrou toda sua existência. não faltaram ricas distinções ao nosso Grande Morto.” — Todos os olhos dirigiram-se com admiração para a almofada de veludo com as condecorações. continuar e ampliar sua obra. para toda a eternidade. e nós. isto é. e assim. aos quais igualou-se por suas obras.cálidas palavras de despedida para o seu célebre colega. passeando nos Campos Elísios na companhia dos grandes espíritos de todos os tempos. que nos indicou tais caminhos. que o choramos. homenagem que fez vibrar com ele nossa Academia inteira. São imprevisíveis as grandiosas perspectivas que se abriram para a humanidade sofredora e para a ciência por meio de fatos totalmente novos na medicina. e mesmo honrosas demonstrações de benevolência chegaram-lhe dos mais altos poderes. de a ciência européia considerar os Campos Elíseos uma fábula. os grandes espíritos do passado. e a instrução que está em voga atualmente 56 . apontar como reunia provas e mais provas baseando-se em incansáveis experiências com animais. fazemos votos que descanse agora do seu trabalho. maior ainda ela será após a morte. também eu quero concluir com as palavras do conferencista eclesiástico que me precedeu: “e as suas obras os acompanham!“ Todos estavam cheios de reverência. Como podemos felizmente constatar. Resta-nos imitar o grande pesquisador. Neste momento profundo e festivo bem pouco posso falar da grandeza do seu espírito. recebera com alegria a nomeação de Conselheiro Privado Efetivo. para a qual ele foi um guia à verdadeira dignidade humana. com o título Excelência. Isto porém são insignificâncias. por maior que tenha sido sua fama durante a vida. Porém. em parte por causa da ciência européia. O Magnífico Reitor não se lembrou porém de uma insignificância. e afirmar terem se dissolvido em substâncias químicas. porque seu nome brilhará eternamente nas letras douradas do cabedal da cultura humana. assim como a juventude acadêmica que o admirava.

Um grande silêncio o envolveu. Muito suave e irreal. Os contornos do espaço escureceram e diluíram-se no nada. . uma canção antiga de tempo remoto. como será. quando entrarmos em Salém. espalhava-se o canto pelo espaço: “como será. nenhum peso. a cidade das ruas douradas?. Então existe uma vida após a morte? A antiga ciência estava certa e a nova. como de vozes do além. Recordava apenas ter vislumbrado um brilho muito claro. . O coro da igreja cantou um coral. Os títulos e as condecorações faziam-lhe falta. embora houvesse algo de atroz em não poder falar mais com ninguém. . errada? Porém. aonde chegaríamos na nossa atual civilização e na ciência européia? O representante do governo declarou haver sido o falecido o sustentáculo do regime moderno. . homens diferentes. e o representante da cidade disse haver a Prefeitura resolvido unanimemente conceder o nome do Grande Morto a uma das suas ruas. Não obstante. nenhuma matéria densa. ––– ––– O morto estava o tempo todo assistindo aos funerais. com princípios diferentes criaram essa canção que não se harmonizava com as tonitruantes palavras de hoje.” Nisso o caixão baixou. Parecia-lhe não haver mudado muita coisa. depois voltou tudo a ser como antes. quase 57 . mal se dava conta de ter morrido. Se quiséssemos pensar um pouco — meu Deus. não lhe era possível tocá-los.permite usar palavras gregas para as coisas que mais nada representam. Todavia não continuava ele sendo sempre ainda o grande cientista. e em nenhum dos seus parentes e colegas perceberem quão próximo deles se encontrava. o célebre pesquisador? Não diziam: “e as suas obras os acompanham? . apenas bem de longe. Ficou perplexo. Sentia-se apenas mais leve. consolava-o muito ouvir como o homenageavam e com quanta certeza falavam do trono do Todo-Poderoso e dos Campos Elíseos.” Ficou só. assim era mais belo e proporcionava-lhe muita calma.

e a Jerusalém espiritual.impercepitíveis. de inexplicável. Aqui estão os gatos. cujos ouvidos destruiu com tremendos suplícios. e nesta tensão havia algo de medo. a cidade das ruas douradas. Também ficou tão escuro que não se via mais nada. Você não via também o sol durante toda sua vida? Devo levá-lo adiante? É uma fila muito. Estendendo seus membros ensangüentados ao morto.” — “É horrível. Como era belo tudo isso! Mas o anjo parecia sério e muito triste.” Isto ia acontecer agora. Aqui estão os macacos e os coelhos que você cegou. Um grande portal escuro abriu-se sem ruído e eles entraram num recinto ofuscantemente iluminado. — “Para onde quer ir?” — perguntou-lhe ele. 58 . Deus deu-lhes a vista para poderem ver o sol. chegavam os sons da canção: “quando entrarmos em Salém. o paraíso que você criou. Nunca teve filhos que amou? Quando seus filhos morrerem e procurarem o pai no paraíso. De repente clareou e um anjo surgiu à sua frente.” — “Venha. encaravam-no com olhos ofuscados e apagados. É o seu paraíso. Deus deu-lhes um ouvido tão sensível que é uma maravilha da criação. Suas fileiras alongavam-se até se perderem de vista. Sentiu uma grande tensão. — “Ao paraíso. e os inúmeros mortos que continuavam vivos. uma grande interrogação que o enchia por completo.” — disse-lhe o morto. muito longa. Então isto também existia? Neste caso existia também um Deus. As paredes tinham cor de sangue e no chão acocoravam-se inúmeros bichos mutilados que gemiam. talvez já. Você não ouvirá nada mais a não ser isto. hão de encontrá-lo aqui. — “Eis aqui as cadelas que você martirizou para tirar os filhotes.” — disse-lhe o anjo.

O que está vendo aqui são suas imagens de outrora refletidas. — “Todos estes bichos continuam vivendo?” — “Todos estes bichos vivem ao lado de Deus.” — disse-lhe o morto. pois eles estão lá acusando-o. que representa fielmente todos os seus traços. e estarão com você. Não o deixarão passar. embora tenha cometido esses atos?” — “Os grandes espíritos eram irmãos dos bichos. e segurava uma faca numa das mãos. torturando-a. Eles iriam virar-lhe as costas. Mais tarde.” — disse-lhe o anjo. Fique com ele. lave sua roupa 59 .— “É sim. são suas obras. É um caminho longo e triste. na esperança de decifrar por acaso alguma coisa dos mistérios da natureza. por isso. — “Quem é este espantalho? Terei de olhar sempre para ele?” — “Isto é você. Está percebendo isso tudo? Pode vê-lo claramente no seu reflexo. no meio de todas as suas obras!” O morto olhou para cima e viu um repugnante fantasma com carranca humana. Porém você nem pode se aproximar deles. Você tinha consciência de ser uma nulidade. possuído de pavor como nunca tinha experimentado. — “E a ciência?” — perguntou-lhe o morto assustado.” — disse-lhe o anjo — “você não pode chegar até lá. terá ainda um outro: olhe quem está à sua frente. — “Isto é mais horrendo do que qualquer outra coisa que jamais vi na minha vida. Você foi uma nulidade e não um grande espírito. de pura vaidade. não seus carrascos. a loucura de dominar os seres inferiores.” — disse-lhe o anjo. de nunca poder descobrir nada. cometia todas essas monstruosidades. acrescentou-se-lhe a volúpia de matar. Mas não serão seus únicos companheiros. e. Sofrerá no próprio corpo os tormentos deles até tornar à terra para expiar. caso pudesse chegar até lá. — “Não lhe prestei serviços? Não pertenço aos grandes espíritos. Trajava roupa cheia de sujeira e sangue.

e esta forma é a única que pesa. pois todos nós temos de morrer um dia. pelo menos não cientificamente. É seu companheiro e estas criaturas de Deus. . quase inaudíveis. são o seu Paraíso. não estimulava eu o conhecimento científico? Não terei a proteção da ciência?” — “Conhecimento através do crime?” — perguntou-lhe o anjo.” — “Tudo isso é verdade. todos os anos. mutiladas. A vossa ciência não ensina também que não existe Deus. sua Excelência o Conselheiro Privado 60 . nem remissão. pois não lhe pode escapar. uma rajada de vento derrubava-as. ou talvez mais. agarrando-se às vestes do anjo em busca de proteção. a cidade das ruas douradas? . Isso não pode ser medido pelo tempo. a construir casas de baralho com as mãos ensangüentadas.” Uma feia luz amarela piscou e o morto viu um bobo sentado. — “Isto é tudo”. mas o bobo continuava sempre a construir. . — “Isto é tudo?” — perguntou-lhe o morto. porém. nem vida após a morte? Devo ir-me agora. pensa nisso hoje. Fique com ele. grande pesquisador e cientista. — “Conhecimentos a ciência tinha outrora quando era um templo.” Talvez esta canção signifique alguma coisa. Vou mostrar-lhe o que a vossa ciência representa hoje.imunda e ensangüentada até ela se tornar branca como a neve! Poderá durar mil anos. Quem. todos os dias. fique no seu Paraíso!” O morto ficou no seu Paraíso e teve-o perante seus olhos em todas as horas. e cada vez mais fracos: “Como será quando entrarmos em Salém. porém. não é? De muito longe chegavam os sons de uma canção antiga de um tempo remoto. na época da esclarecida ciência européia? Os jornais publicaram longas colunas necrológicas sobre o célebre. pensando e agindo dessa forma.

Glória a esses Grandes Mortos! Sim. porém. como o foram os melhores antes dele. cujo nome. e as suas obras os acompanham. eles descansam do seu trabalho. sendo uma página gloriosa na história da humanidade. cuja morte representa uma perda insubstituível para a ciência. permanecerá por todos os tempos. um símbolo magnífico da nossa cultura avançada e um monumento para todas as gerações vindouras. 61 .Efetivo.

pois é uma estória de união fraternal. de outra forma. O que passo a narrar. contudo. mas passará muito tempo até que se purifique. porém. no mundo espiritual. porém. nem precisa ser 62 . Talvez aconteça hoje ou amanhã. e esta estória também se encontra gravada no mundo espiritual. talvez ontem. e nenhuma pobre sabedoria humana pode dizer algo sobre a sua duração. creio ter se repetido muitas vezes nos tempos idos. Tem de ser assim. de acordo com a época em que se desenrole. Os fatos verdadeiros. usar exteriormente aquele hábito para andar pelo caminho que aquele irmão seguiu. e nela vive o espírito do Santo de Alverne. Talvez há cem anos.A TERRA DA PROMISSÃO O caminho da selva Não sei dizer quando aconteceu a estória que passo a narrar. no entanto. Eis porque esta estória aparecerá sempre com outras roupagens. porque o tempo é ilusão e o que vemos aqui não é outra coisa que um molde de mil facetas. acham-se atrás dos objetos palpáveis. A estória que pretendo narrar decorreu na selva. Sempre estamos vendo a aparência das coisas. acontece ainda hoje e terá ainda de se repetir muitas vezes até a remissão total da terra. imensurável. Sabemos apenas que é muito penoso e cansativo para os poucos que por ele hoje caminham. precisamos nos esforçar para entender a essência das coisas por meio da sua aparência. Não é necessário. porque. e onde respira. ou depois de centenas de anos e nem cheguemos a ver. a eternidade. Pois é longo esse caminho. É difícil dizer quando as coisas acontecem. da culpa e do engano. e sua personagem principal usava o hábito dos Irmãos de São Francisco de Assis. a pobre sabedoria humana não poderá compreendê-la. onde nascem e se transformam todas as formas. Pois já faz muito tempo que a terra se livrou do sangue.

como a vida de hoje não é mais que uma selva para quem segue pelo caminho de Francisco de Assis. cada qual no lugar em que Deus o colocou. causando asco a si mesmos. e despediu-o com uma benção. ou bem. e que as verdadeiras estórias da existência se processam no mundo espiritual. porém. Isto é muito fácil de contar. deve procurá-lo fora. da Santa Ordem de Francisco de Assis. Botou tudo na sacola. Estes. mas devo dizê-lo porque é verdadeiro.obrigatoriamente uma selva onde se passa ou se passará esse fato. — “Se não encontra Deus na cela. despediu-se de seus irmãos para ir morar na selva. Ficou possuído de horror pela humanidade.” — disse-lhe o superior do convento. — “Chegará o tempo em que todo o mundo terá de procurá-lo fora. Siga seu caminho. atrás das coisas e daquilo que nós chamamos acontecimentos. Talvez seja difícil compreender o que estou dizendo. Levou também um pequeno sino. nem nas mortificações e meditações. e rezar o terço em silêncio e resignação. sua alma era robusta demais para deixá-lo olhar tudo com um sorriso cansado e distante. Poderá ser uma cidade com modernas fábricas e máquinas. talvez sejam apenas nossos sonhos. porém. na selva. discutiam. Entretanto. Devemos compreender que todos nós vivemos sobre um limiar. Frei Emanuel não conseguia encontrar a paz em sua cela. a outros homens e aos animais. Tudo isto é indiferente e é apenas uma roupagem. de culpas e de enganos. assim como a via dia a dia. enquanto os homens. fora dos muros do convento. e não compreendia porque viera para a terra. e tampouco na oração ao pé da imagem do Salvador. colocando por cima a cruz do Redentor. Assim foi — vendo o acontecido com estas roupagens — que Frei Emanuel. único meio que leva à paz neste mundo de ilusões. agrediam-se e caluniavam-se. Ele está em toda parte. carregue sua cruz e assim encontrará Deus. Não conseguia aprender a contemplação. que emitia um delicado som argentino. poderá ser uma aldeia com roças e campinas. e porque sonhamos não percebemos o que de fato é real.” Então Frei Emanuel arrumou seus poucos pertences: alguma ferramenta e sementes de hortaliças da horta do convento. certamente. uma estrada empoeirada. para poder tocar na mata a 63 . não é fácil iniciar-se um novo caminho.

um caminho à paz e ao seu Deus.Ave-Maria ao pôr-do-sol. Certamente isto era difícil para ele e para os outros. A vida é um caminho infinito aqui na terra e não uma morada. porém. seus pinheiros sombrios. suas cascatas. Era a época da Páscoa. para enfrentar um novo dia de trabalho. tornaram-se pontos quase invisíveis. o que é uma despedida? Tudo é despedida aqui na terra: despedida do dia. Os vultos dos irmãos diluíram-se ao longe. Frei Emanuel peregrinou com sua sacola nas costas pela longa estrada empoeirada. conforme esperava. Também ele sumiu. começava a pressentir algo da compreensão universal do seu grande Mestre de Alverne. para sempre. prímulas e violetas. e não daquilo que os santifica com um sopro que envolve tudo num mesmo amor. Invadido de repugnância pelos homens e deles se afastando. e a selva — o novo caminho o acolheu. um dia. e as borboletas sorviam o néctar nos cálices das flores. animais e flores. Mangangabas e abelhas zumbiam em redor das primeiras árvores em flor. Pondo a sacola nas costas. e o pico da igreja do convento apareceu pela última vez. da manhã. iluminado pela aurora. da tarde. “Esta montanha com suas rochas. A natureza ressurgia no milagre da Páscoa que tão poucos entendem porque julgam que toda a vida origina-se dos próprios objetos. e os transforma no mesmo mistério do nascer e morrer. da noite com o seu silêncio. tornar-se-á. despediu-se de todos os irmãos. Os sinos da Sexta-feira Santa ressoavam no ar de azul diáfano. esperança que nunca lhe nascera no claustro. e nos prados floresciam anêmonas. e. o que serve de consolo é que é um caminho que leva ao lar que todos os homens de boa vontade procuram. Uma esperança penetrou na alma de Frei Emanuel. Alverne para mim? Chegarei a contemplar Deus aqui? Encontrarei a paz que nunca consegui encontrar entre os homens?” — perguntava a si mesmo. sentia contudo atração fraternal por animais e flores. despedida dos homens. e iniciou uma peregrinação penosa. sempre a 64 .

que todos fugiam do homem que nele havia. Frei Emanuel. contudo. Sombras profundas e escuras caíram sobre a calma pascal. as corças corriam através das moitas. confiando nos espíritos dessa aurora pascal. assim como você. Ah. os pássaros emudeciam nos galhos. Frei Emanuel. é tremendo. todas as criaturas fugiam apavoradas. cheio de susto e pavor. na qualidade de espírito de um reino cheio de amor a todos os seres. Quando ele se aproximava. e os animais. Caindo de joelhos ao lado da sacola com seus pobres pertences. para a paz. era um desprezado dentro da criação divina! Era feito nos mesmos moldes daqueles que matavam homens e animais e ensangüentavam uma terra florescente. e ele compreendeu. uma fonte argentina cantava baixinho. cheio de horror. a terra tornava-se muda. porém. Compreendeu como é horrível ser homem. Pois sua estória não é ligada ao tempo. pisavam leve e suavemente sobre o macio tapete de musgo e de sempre-vivas. ele. Em vão chamava-os em nome do Irmão. que devia ser a imagem de Deus. É tremendo ser homem. A pesada sacola machucava-o. e as pontas dos pinheiros sussurravam ao vento que lhes balouçava as copas. Os pássaros cantavam e pareciam chamá-lo sempre mais para dentro da sua selva feliz. Lá em cima. longe da discórdia dos homens. e os ouriços e ratos escondiam-se nos seus buracos. só a roupagem mudou. uma paz à distância. dele fugiam porque ele era um homem. com a transformação das coisas. a criatura mais pavorosa no mundo de Deus. Onde pisava. compreenderam todos os que andaram pelo seu caminho e hão de compreender todos os que o percorrerão no futuro. Era. e o caminho até o cume da montanha tornou-se triste e solitário. e. Frei Emanuel chorou. E o que você compreendeu. sem vida. seus pés. sentia-se tão solitário como nunca na vida: os homens dos quais se afastara não estavam mais com ele. ter de habitar um 65 . choraram todos os que andaram pelo seu caminho e hão de chorar os que o percorrerão no futuro. nos quais reconhecera seus irmãos.subir em direção ao fundo da floresta sem caminhos. e dos quais tudo o que tem vida se esconde. porém.

Mergulhou a mão na água e esfregou a testa. bem longe. Talvez esse caminho não seja somente dele. . As estrelas brilhavam sobre ele. em tempos idos. porém. ele vislumbrou sua imagem. Isto. em cuja margem Frei Emanuel estava ajoelhado. contudo. e ver o caminho que leva à remissão da vida. e a noite chegou de mansinho com os seus véus e as suas sombras. marulhava e descia em ondulações prateadas para o vale. se tornou confuso depois do primeiro fratricídio. e. e somente o aprendem aqueles olhos que choraram milhares e milhares de lágrimas. com medo do homem. ainda está longe. mas nenhuma água da terra lava a marca de Caim. no espelho calmo dessa água.corpo humano que. que a humanidade gravou na imagem de Deus. Não foi a paz que Frei Emanuel encontrou. Mas Frei Emanuel ainda não sabia ler a escrita das estrelas. É tremendo ser uma marcado num mundo maravilhoso. O primeiro irmão 66 . Ao longe. e em sua escrita luminosa podiam-se ler todas as peregrinações solitárias. cantava um passarinho. grande e bem visível. todavia. ainda vai demorar bastante até que a terra esteja remida. A nascente. Um dia terá de ser de todos. . Isto é difícil. um feio sinal encarnado — a marca de Caim. foi a imagem de Deus. É tremendo ser homem. Mas viu lá dentro algo mais que não tinha percebido até agora: na sua testa aparecia. Entardeceu suavemente na selva. traço por traço. mas se transformou em caricatura a partir dos tempos de Caim. mas não se aproximava. a gélida solidão que todos atravessam à procura de Deus nesta terra profanada. Diante dele formava uma pequena enseada rodeada de flores. Frei Emanuel continuou ajoelhado ao lado de seus pobres pertences rodeado pela infinita solidão dos que andam pelo seu caminho. que. Não foi uma noite de paz. mas a grande.

porém. no entanto eram almas adormecidas — nem homens. e Frei Emanuel partilhava a sua maldição. comeu o último pedaço de pão do convento. Dos homens ele fugiu para procurar Deus. A vida é muito pobre nesta selva. e é necessário muita humildade e devoção. com muito esforço. o homem que deixa de ser uma fera. como as têm todos que vivem assim. tecem. Construiu. o porvir e o passado. e. Podemos andar muito longe. encheu de musgo a sacola em que havia trazido os pertences. entretanto. os únicos irmãos que ele possuía agora. e os animais fugiam dele. que começa a preparar seu corpo para se tornar um templo de Deus e de seu ego. mas isso costuma demorar muito. e amarrou o sino num caibro do telhado. É preciso antes aprender a dominar sua tristeza. No começo. de tal forma que os primeiros raios do sol matinal a tocassem. Nos canteiros. Mas que a peregrinação havia começado. vive com pouquíssima coisa. Cheio de devoção e de lembrança de seus irmãos humanos. Frei Emanuel esperava com humildade e resignação. porque as hortaliças. O caminho a Alverne é um longo caminho. esperar muito tempo. ele o percebia claramente em sua alma. obedecendo às leis eternas.Passaram-se muitas semanas desde que Frei Emanuel se mudara para a selva. Pois os homens haviam-na destruído em si mesmos. É preciso esperar até que tudo isso se esclareça. e este dia festivo ainda não chegara desde aquele dia em que percebera o sinal de Caim na testa e a Sexta-feira Santa estendera suas sombras sobre ele. Era como se esperasse por um dia festivo para repicar o sino. e com isso fez seu leito. cujas sementes trouxera do convento e semeara. embora continuando no mesmo lugar com 67 . que formavam um jardim em redor da cabana. por detrás de todas as coisas e acontecimentos. a fera mais feroz que a criação conhece. as visões eram confusas. Pendurou a imagem do Salvador numa das paredes. não o fez repicar uma só vez. porque não conseguiam mais reconhecer a imagem de Deus no homem. eram os primeiros sinais do mundo espiritual que. apareciam os primeiros brotos. desde então. e a grande e gélida solidão. ainda não estavam maduras. Frei Emanuel costumava ter muitas estranhas visões. vivia só de raízes e de água da nascente. nem animais. que as imagens comecem a se mover e as leis a falsar. Não se atrevia. todavia. ao lado das flores do mato que Frei Emanuel plantou. nem ele mesmo o sabia porquê. uma simples cabana de troncos fortes.

Toda a criação não era mais que uma união fraternal. assim. Era Pentecostes quando ele encontrou um irmão. Era o primeiro que devia se penitenciar e expiar. mas o resultado era diferente do daqui. como o fazia no princípio da sua vida na cabana. as plantas e as pedras. e percebia que todos esses sons significavam alguma coisa. As forças do céu e da terra penetravam livres de qualquer influência humana no seu corpo purificado. ouvia os pássaros cantarem nos galhos e o longínquo clamor dos bichos. para redimir assim a terra do primeiro fratricídio e de milhares e milhares de outros posteriores? O irmão mais velho. Via as árvores e as flores nas suas cores e formas. sentia quando a natureza se preparava para festejar o domingo. Frei Emanuel andava como um vulto leve dentro do corpo terreno. os animais. As coisas em seu redor também começaram a se transformar. podemos ver e ouvir muita coisa quando se afrouxam as correntes do corpo e começamos a reconhecer-nos a nós mesmos na prisão desta terra. Entrando bem para o interior da floresta. procurou raízes e ervas. Não era obrigação do irmão maior debruçar-se sobre o irmão menor. era o homem.nosso corpo físico. e foi ele que trouxe o fratricídio ao mundo. Era uma corrente contínua da existência que tudo envolvia — ele próprio. mesmo de dia. que lhe parecia não ser mais que uma cabana tecida de pedras e plantas. incansavelmente e cheio de piedade. Havia vida universal em tudo e ele estava nela. porém. Sentia o milagre de Pentecostes na respiração da terra e ouvia o Espírito Santo falar nas copas dos pinheiros e nas coroas das flores. da transformação da vida universal em amor universal. e de mansinho despertou-se nele o pressentimento do caminho da salvação. e. É certo que também antes Frei Emanuel jejuava e se mortificava na sua cela. como o fazia amiúde. O fluxo da existência era mais forte neste dia e estava impregnado 68 . e enchiam-no como a uma taça. Não precisava mais contar os dias e entalhá-los num pau. Adormecer e acordar não eram mais momentos tão separados como antes. Então Frei Emanuel pediu a Deus que lhe desse um irmão. e que a vida inteira era um todo indivisível.

olhou para 69 . muito agitado no princípio. procurando. Francisco de Assis parou ao lado da cabana de Frei Emanuel. libertou a pobre criatura com a máxima precaução. acalmando-se. seu mestre Francisco de Assis. porém totalmente inundado por uma luz que emanava de si própria.de algo novo. de aparência humana. Frei Emanuel foi até a nascente. A patinha estava quebrada. como se a terra estivesse impregnada de um material mais fino do que habitualmente. desesperadamente. seguindo sua direção. o mesmo fizeram as flores e as árvores em redor do ribeiro. encontrou um esquilo preso numa armadilha. Ajoelhou-se então. os pássaros não fugiam mais e os animais selvagens não se escondiam. Avistando-o. porém. no mato. deixava-o fazer tudo. Lavou o ferimento e enfaixou a patinha. O animal não sentia medo dele. sentado na sua mão. O corpo de Frei Emanuel pisava no musgo mais silenciosamente. Uma festa humana de Pentecostes no meio da criação divina! Frei Emanuel viu-se dominado pela mesma sensação daquela tarde de sua chegada à selva: é terrível ser homem! Sem perder tempo. O vulto usava o hábito dos franciscanos. cujo retrato existia no convento. procurou pinhas. dormiu sob a imagem do Crucificado. leve. Enterrou a armadilha e levou o esquilo para sua cabana. Ao longo do ribeiro veio um vulto. Mas talvez nem fosse estranho. pelo menos ele o tentaria. e saudou-o com profunda inclinação. e a leveza dos seus pés quase não dobrava os talos das ervas. aos poucos. Foi buscar água para o esquilo. O animal emitia sons guturais. e. e arrumou-lhe um ninho macio de musgo em baixo da imagem do Salvador. Então sucedeu algo estranho. libertar dos ferros a patinha amassada. apavorados. De repente chegaram-lhe sons dolentes e queixosos. e Frei Emanuel reconheceu nele. Por fim. Ele também passou por uma transformação — aquela que leva da Sexta-feira Santa a Pentecostes. e agradeceu a Deus por ter encontrado um irmão. o mesmo lugar onde se havia ajoelhado no seu desespero em meio à enorme solidão quando chegara. mas talvez ficasse boa de novo. pois na natureza era domingo de Pentecostes.

escutando-o. porém leva a Alverne.dentro e fez o sinal da cruz sobre o esquilo ferido. — disse-lhe — “é um caminho cheio de espinhos. Este foi o presente de Francisco de Assis àquele que andava pelo seu caminho. É dificílimo andar na frente. porém. — “Obrigado. segurando uma pinha nas patinhas. Frei Emanuel entrou na cabana para ver seu irmão menor. é um caminho cheio de solidão. — “Como vai sua patinha. quando percebemos que o fazemos pelos irmãos menores. não enxergou apenas as coisas ao seu redor. O santo de Alverne traçou o sinal da cruz sobre Frei Emanuel e foi como se a luz azul tivesse erguido uma ponte para o espaço celeste. mas também as almas de toda a criação. Poucos o percorrem atualmente e a terra está cheia de sangue e culpa. Torna-se fácil. O esquilo estava sentado no seu ninho sob a imagem do Salvador. aos quais ele havia pregado. Alguém esteve aqui e a curou.” — disse o esquilo — “minha pata está boa. e entendeu o que os bichos falavam. salvo pelo santo das mãos do açougueiro. Quando Frei Emanuel se levantou e abriu seus olhos terrenos. acompanhado pelo lobo de Gobbia. no entanto. meu pequeno irmão?” — perguntou-lhe Frei Emanuel.” 70 . um dia. e os pássaros. Foi um Irmão Maior. todos terão de caminhar por ele até a terra ficar remida. são os irmãos mais velhos que devem fazê-lo. Frei Emanuel. sentado nos galhos. Tudo isso estava se passando neste mundo — mas não bem neste — mergulhado numa luz azul transparente que emanava de si própria. olhando para São Francisco. viu ao seu lado o lobo de Gobbia e o carneiro. Frei Emanuel”. vendo que a faixa havia caído. Depois dirigiu-se a Frei Emanuel: — “Seja abençoado seu caminho.” Frei Emanuel. onde encontrei Jesus Cristo. a atravessasse em direção à terra prometida. pelo carneiro e pelos pássaros. e como se Francisco de Assis.

desde seu restabelecimento. O esquilo procurou mostrar-se útil em vários sentidos. mas agora trilharei também o caminho do Irmão Maior.” — disse-lhe baixinho — “é o caminho de Alverne.Frei Emanuel ouvia os sons guturais que o animal emitia. O encadeamento das coisas — “É verdade. Nesta tarde. porque isso magoa os pássaros. Pulando de árvore em árvore. mas entendia com clareza também seu sentido. e uma tarde cheia de paz derramou-se sobre a selva. porém. Não pensava assim antigamente. Examinou a pata doente e viu que estava boa. Frei Emanuel tocou o sino pendurado sob o telhado de sua cabana.” O sol de domingo de Pentecostes caiu atrás das escuras copas dos pinheiros. — falou o esquilo. para a terra prometida. meu pequeno irmão. pela primeira vez. até bem dentro da floresta. Inclinou-se sobre o esquilo. parecendo sangue translúcido e transfigurado. anunciou por toda parte ter encontrado um Irmão Maior que lhe enfaixara a pata ferida. — “Andaremos juntos pelo caminho da nossa vida.” É singular um ente tão pequeno pronunciar uma palavra tão grande. no encadeamento das coisas. cingiu-o com as duas mãos. e um outro que a curara. comi ovos que não me pertenciam”. o sino cantou a Ave-Maria na solidão da floresta. porém. contada por alguém de toda confiança 71 . passando a pata pela cara. como se quisesse afastar uma recordação pecaminosa — “porém não tornarei a fazê-lo. Com sua voz suave e argentina. a menor transformação é um acontecimento. como se não tivesse sido machucada. A estória era extremamente curiosa.

Uma corça lhe ofereceu leite. também os membros mais afastados da tribo. além disso o bichinho jurou. em sinal de agradecimento. nozes. e. Frei Emanuel ajudou também várias vezes. no início do outono. quando esta caiu de costas e não pôde mais se levantar. Acontecia freqüentemente que os pais iam agradecer-lhe. e ele teria valorizada sua alimentação. Eles não o receavam mais desde que o esquilo lhes serviu de fiador. nunca mais comer ovos que não lhe pertencessem. para as abelhas não faria falta. Desta maneira conseguiam armazenar grande quantidade de alimentos para o inverno. e a rainha dirigiu-lhe muitas palavras de gratidão. muito cuidado e arte nas suas exibições canoras. e empregavam. filhotes a voar para seus ninhos. Alguns construíram seus ninhos ao lado da cabana. quando eles confiavam cedo demais na sua arte de voar. Carecia fazer algo para sua manutenção. tendo se espalhado a singular estória. e assim surgiu muita vida ao redor daquele que estava tão só no começo.devia ser verdadeira. desde que ele se mostrara tão prestimoso. Frei Emanuel ensinou-lhe a enfiar os cogumelos num cordão e guardá-los desta forma. levantando a patinha. caso necessitasse. Isto impressionou sobremaneira os pássaros. nessas ocasiões. No começo apenas parentes mais próximos.” Frei Emanuel aceitou de bom grado. à disposição de todos os esquilos.” — zumbia — “que sempre teremos mel para você. Traziam frutos. Teremos prazer em mostrar a nossa gratidão. cogumelos nos galhos para que secassem. Frei Emanuel acudira também uma abelha. e em conseqüência disso apareceram muitos esquilos à porta da cabana de Frei Emanuel. e eles compreenderam que devia ter acontecido algo realmente maravilhoso na cabana da floresta. — “Queremos dizer-lhe. Assim Frei Emanuel e o esquilo abasteceram-se de alimentos para o inverno. Logo depois veio uma delegação de abelhas do mato pousar na sua batina. O esquilo sabia enfiar. Frei 72 . mais tarde. A outros bichos teve também ocasião de prestar auxílio. com muita habilidade. Ele salvara seu filhote que havia tropeçado e ficara preso num emaranhado de raízes.

Emanuel agradeceu. e como o homem a dilacerou. Ele ia com freqüência bem longe. e não respondiam quando ele as cumprimentava. de maneira que os elos não mais se encontram. já não estava mais só. não lhes querendo tirar o leite. Basta chamar-nos. e alcançamos a corrente que nos originou. O homem fitou-o com espanto. fazia ginástica no telhado da cabana. Embora convencidas da veracidade dos relatos do esquilo. preferiam aguardar os acontecimentos futuros. O homem era uma criatura perigosa demais e não se devia confiar nele tão depressa. pense nisso quando tiver alguém doente em casa. mas declinou. Era como se ela o atraísse e o repugnasse ao mesmo tempo — a imagem de Deus em caricatura. retraíam-se porém. Há muito tempo isso já não sucedia. e uma de nós certamente terá leite. Podia aguardar com paciência. ou convidava alguém da família para uma pinha. de estar com o hábito roto e os cabelos 73 . pelo mato adentro. Elas não atacavam Frei Emanuel. Frei Emanuel aceitava resignado e esperava. Conseguir isso significa muito. até onde começava a terra dos homens. Vivia agora dentro do encadeamento das coisas e elas dentro dele. sobre o caminho do Irmão Maior. Disse que não havia necessidade. Somente as feras se retraíam ainda. e ele teve a impressão de ver sua terra natal numa imagem confusa. Frei Emanuel não se dava conta de estar vivendo muitos meses longe dos homens. Nessas ocasiões ficava em casa. Num desses passeios aconteceu a Frei Emanuel de encontrar um homem. então. arrumava as nozes.” — disse-lhe a corça — “estaremos sempre às ordens. Sentimo-nos de certa maneira protegidos. Até lá o esquilo não o acompanhava. das abelhas e da corça. Frei Emanuel cumprimentou-o e perguntou-lhe do que sofria. O homem trajava-se pobremente e tinha uma das mãos enfaixada.” Frei Emanuel via cada vez melhor como a vida toda é entrelaçada pelo encadeamento das coisas. sobre o trecho do caminho ao alcance de um esquilo. dos pássaros. — “Em todo caso. Conversavam.

A essa nascente vão os bichos.” — “Não é coisa pequena que a minha mão quebrada sare ou não. onde há bétulas novas e jorra uma nascente duma rocha. resmungando desconfiado.” — “Ela não vai sarar enquanto você montar armadilhas nas quais os bichos quebram suas patas. — “Você esmagou a mão numa armadilha que armou para pegar bichos.” — disse-lhe o homem.” — “Como poderei fazê-lo. de que está falando. nenhum homem é capaz disso. Frei Emanuel fitou-o com muita calma.” — respondeu-lhe o homem. porém. — “gostaria muito se pudesse dizê-lo. agora vive comigo: é meu irmão. olhos que o outro não possuía. sem saber se o que sentia era medo ou alegria. — “Pelo espírito de Deus e pela falta de espírito dos homens. por vontade de Deus. pois vivo de montar armadilhas e matar animais? Sou muito tolo para qualquer outra coisa. há de sarar assim que procure e enterre todas as armadilhas.” — “Sabe enxergar atrás das coisas?” — perguntou-lhe o homem. — “Ninguém vê atrás das coisas grandes.” — “Como o sabe?” — perguntou-lhe o homem. para beber. Porém. de modo que nenhum dos seus irmãos menores possa se machucar. posso ver.” — disse-lhe Frei Emanuel.emaranhados. atrás das coisas pequenas. — “Esmaguei minha mão. — “Libertei uma criatura de uma dessas armadilhas. e não para serem apanhados pelas armadilhas dos homens. Desde a minha 74 . com os olhos interiores que adquirira. como se elas fossem de vidro.” — disse-lhe — “foi numa clareira.

” — disse baixinho e desamparado — “mas do que viverei? Sou pobre e muito simples e os homens caçoam de qualquer trabalho que eu faço. não a um inteligente. não consegue compreender o encadeamento das coisas. caro irmão. Porém. eles não lhe estão ainda tão distantes quanto os que são inteligentes neste mundo. e como o homem rasgou essa corrente de modo que os elos não se juntam mais.” — “Há de me encontrar prosseguindo no caminho. porque viu muitos irmãos menores erguerem os membros aleijados a recriminá-lo pelo fratricídio. e uma grande tristeza invadiu-o pelo que havia feito.infância não consigo outro trabalho lá na aldeia.” — “Aja de acordo com o que você viu. querido irmão. Muitas forças existem latentes na cadeia das coisas para aquele que a viu.” Era um simplório. por que ele há de se tornar o caminho do Irmão Maior pelos seus irmãos menores. pensando bem.” Separaram-se em seguida. um certo tempo não representa nada. — “Talvez precise do seu conselho ou auxílio porque me parece que estarei muito só agora entre os homens. Deus ajuda aos simples. porque alguém que possui aquilo que os homens chamam inteligência. Viu também como os irmãos menores aguardam esperançosos a salvação pelos Irmãos Maiores. — “Onde poderei encontrá-lo?” — perguntou-lhe o homem. — “Não posso mais fazer isto. mas talvez fosse bom ser assim. no sentido da inteligência deste mundo. 75 . Deus abençoe seu caminho. Então o simplório viu como todas as coisas se entrelaçam numa corrente na criação de Deus. e igrejas e reis procurarão seu trabalho. ficará durante certo tempo muito solitário. Um sábio pode mostrar isto somente a um simplório. Frei Emanuel pegou a mão do simplório e fê-lo olhar para dentro da cadeia das coisas.

Tinha visto o encadeamento das coisas e sabia que andava pelo caminho do Irmão Maior. porém. pelo encadeamento das coisas. Porém não as encontravam depois. porque desde que enterrara todas as armadilhas apareciam-lhe muitas imagens. O simplório procurava-as todas e enterrava-as. É tão maravilhoso este mundo. Todos o tratavam por Mestre. esperava. “É um tolo.” — diziam todos e iam à floresta colocar as armadilhas sem ele. tornaram-se mãos de Mestre por terem recebido toda a habilidade das patas dos animais que ele salvara. porém. e é muito esquisita e delicadíssima a cadeia das coisas. Durante certo tempo o simplório viveu muito pobre e solitário. próxima a Deus. porque era um tolo e dele caçoavam. Mas ninguém na aldeia suspeitava dele. Reis e conventos procuravam seu trabalho. Um dia pegou uma faca para recortar certa figura que havia visto. porém. abandonaram essa prática.Frei Emanuel deu meia volta e a escuridão dos pinheiros o acolheu. mas assim mesmo era muito duro. era uma obra de arte e muita gente veio admirá-la. comumente tão desajeitadas. e longe da inteligência deste mundo. Entalhou novos bancos para o coro da igreja de sua aldeia. porque sabia que sua mão fora curada em um único dia. assim. quando terminou. quando visto da maneira como os homens não o vêem habitualmente. A ursa e seu filho 76 . Ele. tornou-se muito respeitado. aos poucos. e recusava-se obstinadamente a fazê-lo quando solicitado. Nunca mais caçou. ele. Um trecho de tempo não é nada. Sabia que toda arte verdadeira não é mais que a contemplação da criação. pensava ele e dizia-o sempre de novo com seus botões. de que suas mãos. sua fama correu longe. com paciência. aos animais e flores. e. Chegando a casa viu sua mão curada. Suspeitava também. Davam-lhe um pedaço de pão por caridade. continuava reservado e modesto. mas nenhum serviço. O simplório partiu e enterrou todas as armadilhas que havia preparado. Entalhava com dificuldade e julgava que fosse apenas passatempo.

aconteceu-lhe receber a visita do simplório que se tornara Mestre. Levou pão. que não tocariam nas cenouras cultivadas por Frei Emanuel. porém. porém. e os dias às noites. e as árvores e flores advinham-no. e desenvolvia múltiplas e grandes prendas caseiras. e prometendo não tocar no mel das abelhas do mato. os pequeninos tomavam banho de sol na relva. tinham filhotes engraçadinhos e Frei Emanuel os aceitou. dando cenouras aos ouriços e mel às formigas. fora todos os outros louvores que ouviram sobre o Irmão Maior. porque não havia muita coisa guardada. Juntava também sementes para o futuro. as noites seguiam-se aos dias. visivelmente. Compreendera profundamente como dentro de nós 77 . alguma ferramenta e pano simples para uma batina. outrossim. Os grandes corriam para lá e para cá.Frei Emanuel trabalhava aplicadamente com o esquilo no seu jardim. mas só aos domingos. e neles deixava cair sementes. Nem precisou procurar. Frei Emanuel dividiu as provisões. Aumentavam. Frei Emanuel não precisava mais do que isso. parecida com aquela certeza com a qual ele percebia e depois criava suas figuras. formigas construíram um formigueiro. pedindo licença antecipadamente. pois levavam em conta a possível chegada de visitas que nada tivessem preparado para os meses de neve. Nisso. Não podiam se gabar de muita habilidade. Os bichos sabem distinguir exatamente o domingo. Apareceram. Garantiram. e o esquilo escavava com cuidado pequenos buracos nos canteiros preparados. Removia a terra com a enxada que trouxera consigo. Este encontrou o caminho à selva e à cabana do seu Irmão Maior sem a mínima dificuldade. Assim. Havia uma luminosidade que ia à sua frente. Era uma turma bem movimentada. embora justamente o perfume destas últimas tivesse atraído sua atenção. mesmo pela primeira vez. repetidas vezes. cada vez mais profundamente. como se unia a toda a vida que o circundava. e Frei Emanuel sentia. Ao lado da cabana. Os depósitos para o inverno eram modestos. alguns ouriços oferecendo pressurosos seu auxilio na jardinagem.

” — disse-lhe o simplório que se tornara Mestre. como foi uma vez. É como se no íntimo nos libertássemos do tempo. — “Nós todos que caminhamos para a frente devemos regressar ao princípio.” 78 . animais. contudo não presa a ela por algum desejo. observo todas as cores e formas. parte de uma grande alma. e a terra ficasse nova como no primeiríssimo dia. É como se a gente revivesse conscientemente a infância da história da humanidade. É mister lembrar-lhes aquele lugar onde eles também estiveram uma vez naquela terra sem pecado. a bem dizer.” — disse-lhe o outro.” — “Isto é muito difícil. — “Não o está percorrendo. é uma alma. vejo aquilo que é a verdadeira árvore. Como se a árvore que temos aqui à nossa frente ficasse totalmente transparente. e aguardam sua redenção pelo Irmão Maior. a alma deve ficar dentro do corpo como uma borboleta abrigada numa flor. de seus galhos e suas folhas. e será de novo um dia. torna-se tudo muito fácil. árvores e flores. depois sobrevem a grande solidão e em seguida. em todos eles vive aquele desejo que ainda dorme nos outros.” — “Gostaria de andar como você pelo caminho do Irmão Maior. Veja: quando hoje contemplo os homens.nasce um homem novo quando se faz tudo com as próprias mãos. a terra das crianças. e todas as almas. porém. Atrás de sua maravilhosa casca.” — disse Frei Emanuel ao simplório que se tornou Mestre — “devemos voltar muitos milênios até os tempos em que se formaram as forças que hoje trabalham. mas reconheço que são todos corpos de um único material. são ligadas umas às outras no encadeamento das coisas. que ainda não estão acordados. o desejo ardente de redimir a terra? Os caminhos dos Irmãos Maiores diferenciam-se muito entre si meu caro irmão. e vejo as forças que plasmam a pluralidade dentro de uma unidade. dependendo só de nós mesmos e das leis da natureza ao nosso redor. de certa forma. O corpo deve se tornar flexível e leve como uma planta que está dentro da terra. — “Somente no princípio. contemplando imagens dentro de sua alma e formando-as em seguida para que os outros as vejam com os olhos terrenos? Não desperta nos outros.

Frei Emanuel foi para a sua cabana e deitou-se. com um lobo e um carneiro ao seu lado. e lá. Assim. Volte para casa. envolto numa luminosidade.” O simplório que se tornara Mestre dirigiu-se então para casa. caro irmão.— “Quando e como surgirá esta terra nova?” — perguntou-lhe o simplório que se tornara Mestre. o material para essa nova terra será o espírito do amor em penitência e anseio. não existe tempo. Esta foi a coroa de toda sua obra. A floresta e as campinas estavam mergulhadas nas profundas sombras da noite cerrada.” — disse-lhe o outro.” — “Amiúde não sei o que criar. e bem no fundo da floresta encontrou alguém que logo modelou. Frei Emanuel não dormia e olhava através da pequena janela para a escrita que formavam. Pelo caminho encontrará alguém. Só os que não são Mestres não o dizem nunca. e por sobre a cabana brilhavam as estrelas. Na escuridão 79 . — “Um espaço de tempo não é nada pensando bem. quem podia nesta selva bater à porta? Era incrível! Contudo Frei Emanuel levantou-se da cama e abriu a porta. molde sua imagem! Encontramos sempre o que procuramos quando nossa alma caminha para o lar. Tal coisa jamais havia acontecido. e também nela encontrava a imagem de Francisco de Assis inscrita com letras grandes e salientes que nunca se apagarão. pois Este estará sempre ao seu lado. Acontece freqüentemente a um Mestre dizer isto. meu caro irmão. quando chegar a hora. Era um homem de grande bondade. onde se resolvem essas coisas. — “Deve chamar os outros e seguir Aquele que o chama. o simplório que se tornara Mestre criou a imagem do Santo de Alverne. em baixo do crucifixo. Já ia tarde quando de repente bateram à porta da cabana. e pássaros sentados em seus ombros. Agora já sabia ler a escrita das estrelas. Proclame-o! Temos de estar vigilantes e chamar aqueles que estão dormindo. Contudo. O esquilo já dormia no seu ninho.

80 . — “Também entre vocês existe certa desordem no encadeamento das coisas.” — disse-lhe ela — “mas desta vez não deu resultado. Ela cheirou-o mas não quis comer porque estava preocupada com a cria.” Frei Emanuel passou mel em um pedaço de pão e ofereceu-o à ursa. É bom também por outra razão comermos juntos o pão. — “Esta erva medicinal nós não conhecemos. senão vocês não poderiam ficar doentes. percebeu que a ursa se encontrava em dificuldades. Frei Emanuel. — “Vamos comê-lo juntos.” — “É preciso conhecer ainda algumas outras ervas.” O esquilo levantou-se resmungando e fungando.” O esquilo sumiu na escuridão e Frei Emanuel cobriu o ursinho com cuidado. inclusive. cara irmã.” — disse-lhe Frei Emanuel com muita bondade. — “Caro irmão. Ela floresce no caminho que o Irmão Maior percorre. sem nenhuma dúvida. — “É bom para você não só por estar cansada da viagem e preocupada com o filhote. desenhou-se à sua frente. pois trazia consigo seu filhote doente.da noite. uma grande ursa. Frei Emanuel tomou o bebê-urso nos braços e deitou-o com todo cuidado na sua própria cama. A ursa seguiu-os devagar e um tanto desconfiada. O ursinho deixou-se levar sem medo.” — disse-lhe a ursa. porém. e chame a corça. — “Tentamos com algumas ervas que conhecemos. porque necessito de um pouco de leite para um doente.” — disse-lhe Frei Emanuel — vá procurar para mim a flor vermelha que floresce no caminho dos espinhos. — “Vão conhecê-la também quando as coisas mudarem. Um dia isso há de desaparecer. Outro poderia ter se apavorado. como uma sombra enorme.” — disse-lhe Frei Emanuel. Assim.

de outra forma não lhe poderia ter feito este pedido. Porque o que ela fez foi muito mais do que dar o leite. — “Isto não é remédio. Eu também o estou percorrendo.” Então a corça deu do seu leite e Frei Emanuel lhe agradeceu muito. aproximando-se desconfiada para apreciar melhor. Dando o leite. Fora da cabana. Frei Emanuel sentou-se ao lado do ursinho e começou a recortar uma bola rústica de madeira. — “Agradeço-lhe muito por ter vindo. andará pelo caminho do Irmão Maior. sabe. De certa forma ainda estava preocupada com o filho. curar o seu pequeno.” A ursa pegou o pão e comeram juntos. — “É uma coisa simples. eles mataram muitos dos nossos na floresta.torna-se mais fácil para mim.” Então a ursa lambeu as mãos que recortavam a bola e acreditou que Frei Emanuel era de fato um Irmão Maior. justamente porque os ursos lhe causaram mal no emaranhado do encadeamento das coisas. Só este leite pode salvar a cria. quando acordar restabelecido. amavelmente. Um elo se libertou no emaranhado do encadeamento das coisas. O esquilo voltou.” — disse-lhe Frei Emanuel — “porém.” — disse-lhe — “é para a ursa e sua cria que deve dar seu leite. trazendo a flor vermelha que colhera no caminho dos espinhos.” — respondeu-lhe Frei Emanuel. e com isso foi dado um passo no grande caminho da salvação.” — “É verdade. a corça esperava. — “Isso é magia?” — perguntou-lhe a ursa. e Frei Emanuel foi ter com ela.” — “Aos ursos não darei nada do meu leite. Será uma bola de pau para seu filhote brincar amanhã cedo. Talvez o que aconteceu foi 81 . é o filho dela que não poderá sarar se não lhe der um pouco do seu leite.

deu-lhes este leite.insignificante nesta terra de ilusões.” — disse-lhe Frei Emanuel. Frei Emanuel colocou a flor vermelha do caminho dos espinhos com o leite da corça numa tigela e deu para o ursinho. nem curar por mim mesmo. no mundo da realidade espiritual foi um acontecimento poderoso. — “Não posso fazer milagres. — “Os milagres e as curas estão dentro de vocês mesmos. à corça e a si própria. — “Eu velarei ao pé do seu filho. — “Nunca mais mataremos uma corça. O bebê-urso tomou tudo e adormeceu profundamente. Amanhã seu filhote estará bom.” A ursa vislumbrou o acontecido e despediu-se de Frei Emanuel e do esquilo com muitas vênias.” — disse Frei Emanuel à ursa. pois a bola era muito bonita. A ursa agradeceu muito ao esquilo pelo trabalho que teve. — “Cara mana. porém. a corça. e ao Frei Emanuel pelo milagre da cura. Não faço mais do que preceder vocês no caminho do Irmão Maior.” Dentro da alma da ursa aconteceu algo que ela nunca ainda havia experimentado. deu com o ursinho fazendo folia pela cabana. nem seus filhotes. estendendo uma pata.” — disse-lhe a ursa. suspirou profundamente e adormeceu. na floresta. Na manhã seguinte. agradeça-o ao esquilo. — “Eu o direi a todos os ursos e eles o compreenderão. ao acordar. o ursinho fez o mesmo. brincando com a bola de pau.” A ursa deitou-se a seus pés.” — “Agora pode dormir. E se a sua cria ficou curada. cujos numerosos parentes vocês mataram. bramindo de alegria. 82 . Foi uma noite deveras milagrosa.

Com a outra segurava a bola de pau que levava para continuar a brincar. acontecia-lhe freqüentemente vislumbrar. um brinquedo feito pelo Irmão Maior. porém. e ainda ia acontecer de um matar o outro para se alimentar. e entrou em acordo com eles: na montanha onde se erguia sua cabana nenhum bicho poderia fazer mal a outro. o que foi um grande acontecimento na terra. isto não deveria mais suceder. Era apenas um brinquedo. Assim cerrou-se mais um elo no encadeamento das coisas. e um muito maior no mundo das realidades espirituais. entretanto. não somente as almas dos animais e as forças das plantas e das coisas. As taças de barro e de cristal Frei Emanuel não vivia apenas com os bichos. e o cumpriram. O encadeamento das coisas ainda não estava desemaranhado. Nessa montanha. benzia-os a todos com o sinal do Irmão Maior. Claro. e quando Frei Emanuel passava por lá. Porém. e é sempre assim quando se anda pelo caminho do Irmão Maior. todavia. ronronavam. ou ficavam sentados no aconchego da sua cabana a 83 . não estaria só. A ursa fazia vênias. com esses olhos internos. vultos que andavam ao seu lado. havia algo diferente. Nessa floresta nunca mais foi morta uma corça ou um veadinho. com polidez. avistando-o. as feras cumprimentavam-no de longe. o maior dos grandes acontecimentos daquela noite maravilhosa. que se lhe abriram. O simplório que se tornara Mestre também não era a única alma humana que ele encontrava. não. Assim eles compreenderam o sentido do direito de asilo. Ele. Frei Emanuel via com os olhos internos. mesmo se assim fosse. e as onças. os bichos prometeram cumpri-lo. os lobos e as raposas uivavam baixinho.

pelo menos um pouco da consciência luminosa trazida da outra margem. e ficam a contemplá-la. bastante da sua taça de barro. Isto parece certamente muito importante para os homens de hoje. O “eu” continua a viver na taça de cristal. Mas que importância tem isso? Continuamos a viver dentro da taça de cristal. ficavam sentados ao lado de Frei Emanuel. esquecem-se de haverem chegado da outra margem e de terem de voltar para lá. Um corpo de materiais grosseiros. pois a taça de barro se torna inútil e não pode ser aproveitada na outra margem. na realidade. Pois os mortos e os vivos trabalham na construção das pontes para a Terra da Promissão. apenas não o percebíamos porque nos preocupávamos somente com a taça de barro. para levar dentro dela. que já atravessaram a corrente. muitas vezes. não precisa ser tão importante. Este corpo mais delicado. todavia. e ninguém poderá compreender a vida e a morte se não compreender este mistério. de dia ou de noite. afastam-se. e entrando nela esquecem-se de tudo. através da corrente escura. metidos no seu corpo mais fino. Revestidos com esses corpos mais finos da outra margem. e dão à alma da terra sempre novas formas. já o possuíamos também antes. presos a seus corpos. Por isso é tão importante tornar a taça de barro o mais fina possível. e a taça de cristal deve iluminar a taça de barro. mesmo enquanto ela estava ainda dentro da taça de barro. E é só. na qual vivíamos sempre. Isto. continuando apenas como que ligados à mesma por um fino fio de prata.conversar com ele. os homens o percebem porque então abandonam a taça de barro. é muito simples. pois a taça de barro deve apenas sustentar a de cristal e não escurecê-la. enquanto estávamos dentro da taça de barro. Eis um mistério deste mundo e do outro. onde o material é diferente. É simplesmente uma taça de cristal dentro de uma de barro. e os homens não percebem até que ponto o é só porque a taça de barro é grossa demais. levados na barca da morte. Após a morte dissolve-se também esse fio. conversando com ele sobre os caminhos dos Irmãos Maiores e sobre a terra prometida. porém. que servia de taça de barro a um corpo mais delicado. No sono. Os homens. e preparavam sendas idênticas na outra margem deste mundo. Às vezes era Frei Emanuel que 84 . os Irmãos Maiores. é abençoado. Eram os Irmãos Maiores que palmilharam o caminho antes dele.

esperando pacientemente a sua volta. O caminho. e o essencial tornou-se próximo. no sono. e a distância entre as margens não é grande para eles. Vim pedir-lhe auxílio. a não ser que os ajude. conversava com os vultos dos seus Irmãos Maiores sobre a essência das coisas. quando desejava falar-lhes. na cabana. e sentou-se no colo de Frei Emanuel. Todos eram também sempre muito gentis com ele. os Irmãos Maiores na outra margem. Um grande mocho veio voando sem ruído. vigiava o esquilo. Nessas ocasiões bastava cuidar de não partir o fio de prata. A corrente sombria também não é mais que um riachinho para os que andam pelo caminho do Irmão Maior. Trazem enormes lanças. enquanto Frei Emanuel. 85 . apesar de ser ainda cedo. é longo e eles trazem os filhotes que não podiam abandonar portanto não se salvarão. chegou-lhes da floresta um tremendo barulho.” O mocho estava exausto e suas asas tremiam. sentado diante da cabana. e ia visitar. Uma vez. Precisei dizê-lo para não pensarem que a vida de Frei Emanuel era solitária e absorta. Mas quem havia de rasgá-lo? Frei Emanuel vivia longe dos homens que mexem em tudo com as mãos rudes. pois sou o único que sabe voar depressa no escuro. porém.” — disse o esquilo que já acordara. — “Um rei com grande séquito. — “Deve ter acontecido algo de horrível. irrompeu na floresta para uma caçada. Ele era muito curioso e gostava de ouvir as conversas dos Irmãos Maiores. dentro da taça de cristal. e muitos bichos assustados vieram correndo em direção à montanha em cujo cume erguia-se a cabana de Frei Emanuel. muitos cavalos e cães.abandonava sua taça de barro. e todos os bichos fogem espavoridos em direção à sua cabana. que o ligava à sua taça de barro e se estendia por sobre a corrente sombria. e ao pé da sua taça de barro. apenas o insignificante se afastou.

e os cães não encontrarão rastros. deu de comer ao mocho e ao esquilo.” 86 . foram para a outra margem. — “Mande os pássaros dos ninhos de sua cabana avisar a todos os animais que podem estar tranqüilos.Então.” — disseram os Irmãos Maiores. em frente do esquilo e do mocho. os cavalos e os cães. — “Espere até a noite” — disseram os Irmãos Maiores — “então vá e fale com o rei. felizes de poder anunciar a paz. Ele é um tolo e tem de se tornar um sábio. ofuscado. e juntos esperaram chegar a noite. Meu irmão mocho está acostumado a voar. — “Fique com a minha taça de barro. e Frei Emanuel entrou na sua cabana. tal como a gente tira a roupa.” — disse ele ao esquilo — “para você o caminho é muito longo. Por sobre os animais da floresta subiu o sol que lhes iluminou o caminho. estava ele no seu translúcido corpo sutil a persignar-se antes de partir. De pé. seus Irmãos Maiores da outra margem.” Dizendo isso. vá com sua taça de cristal. e nós o acompanharemos. ante a imagem do Salvador. Quando apareceram as primeiras estrelas.” Os pássaros voaram em todas as direções. a fim de que repousasse durante o dia. — “Quando devo partir para chegar a tempo? Quantas horas levarei daqui até lá?” — “É indiferente a distância. os homens e os cavalos não penetrarão mais. — “A neblina que cobriu o rei e seu séquito não cederá sem você o querer. cerrou os olhos. envolveram o rei e seu séqüito. enquanto a de barro estiver dormindo. Frei Emanuel deitou-se no seu leito e abandonou seu corpo material com a maior facilidade. a pedido de Frei Emanuel. ele pode acompanhar-me. O mocho. e Frei Emanuel levou-o à cabana. numa densa neblina cinzenta.

caro irmão. pois era translúcido.” O rei olhou-o assustado. e todos foram dormir aborrecidos e queixosos.” — disse-lhe — “sou o rei desta floresta.O mocho deslizou para a escuridão da noite com um silencioso bater de asas. Mais estranho ainda era o corpo deste homem. No acampamento do rei ninguém pôde dar um passo sequer durante o dia todo.” — disse Frei Emanuel ao rei — “pois veio aqui para matar. perceberam. Ou. na realidade é assim.” Quis chamar os guardas mas não o conseguiu. mas não deram alarme porque sentiram que era algo da outra margem. Foi muito estranho: mesmo os cães não perceberam haver chegado alguém. queria ouvir tudo que ia ser dito.” — disse-lhe Frei Emanuel — “chamei-o assim por bondade. Aborrecia-o existir algo mais poderoso que ele a lhe estragar o prazer. e olhava sombrio para uma pequena fogueira acesa à frente da sua tenda. e é preciso dizê-lo por ser verdade. para contá-lo depois aos bichos da floresta. pois a densa neblina cinzenta embaraçava a visão. para ele não havia obstáculos. Era estranho ver de repente um homem desconhecido diante de si. Era de um material que transpassa tudo que não seja da outra margem. porém. lembrou-se que era rei e dono de todas aquelas terras. — “Não sou seu irmão. Suma-se. porém. Somente o rei estava acordado. O mocho sentou-se no topo da tenda real. — “Você ainda não é meu irmão. Aqui não manda ninguém a não ser eu. e mais silencioso. Frei Emanuel deslizou e parou diante do rei. deslizava o vulto de Frei Emanuel ao lado da ave. — “Você deve abandonar esta floresta. e os guardas terem-no deixado passar. Os animais são amiúde mais sensitivos que os homens. nem galhos. porque um dia o será. tão diferente de todos. É muito difícil explicá-lo a alguém que vive exclusivamente na consciência da sua taça de barro. nem árvores. Um pavor tomou conta do rei. mais cedo ou mais 87 . quem sabe. mais irreal.

tarde. pois não soube o que responder. Não havia ameaça em suas palavras. conforme sua vontade. Levá-lo-ei para trás. como quando se constata um fato. porque eles são tolos também. que a eles são ligadas pelo encadeamento das coisas. e para você é melhor que o seja quanto antes. saia daqui. querendo avançar um passo. Acha uma grande vantagem ser o maior dentre os tolos? Os anjos que o guiaram e lhe fizeram a vontade. Não acredito. No país da outra margem. sua aspiração foi satisfeita e na reencarnação tornou-se rei entre os homens. Um dia terá de sê-lo.” — disse-lhe Frei Emanuel tranqüilo e amavelmente. caro irmão. Você diz que é rei. que você também terá de percorrer um dia. e os internos principiaram a enxergar. — “Sou irmão dos bichos e ando pelo caminho do Irmão Maior.” — continuou Frei Emanuel. é algo de ridículo no país da outra margem.” — “Não sei quem é você. Ele deu-a de presente aos bichos. sentado ao lado do rei — “precisamos retroceder muitos milênios. e as outras criaturas. sou o rei!” — “A ordem de um rei que não é rei. caminham junto. está a me fazer medo. porém. Ainda hoje em dia os homens escolhem seus reis entre os tolos. e o rei emudeceu sem querer. Deixe sua lança.” — disse-lhe o rei. É desatino querer atingir-me com ela. e estendeu a mão para a lança. Todos os homens atravessam muitas vidas terrenas. nem quero sabê-lo. porque não é rei no país da outra margem. ordeno-lhe. pois não estou na minha taça de barro como você. O rei desta floresta não é você. esse desejo tornou-o mendigo.” — Colocou-lhe uma das mãos sobre os olhos. de tal forma que os olhos terrenos do rei se fecharam. — “Está vendo. Deus é o rei desta floresta. — “Está vendo os milhares de anos para trás? Perante Deus eles não são mais que um dia. foi servo de um homem grande e desejou ser grande também. 88 .” — “Você próprio é um bicho!” — gritou o rei furioso. — “Saia daqui. e não entre os reis espirituais. Na sua vida passada.

” — “Ninguém precisará guerrear. e a encontrar-se a si mesmo dentro da taça de cristal! 89 . pois somente isto é realeza. que lhe encobre o país da outra margem e a sabedoria deste mundo e do além. Também nunca teria sido rei nesta terra se os homens não o merecessem como tal. O indivíduo. Ainda se orgulha de ser rei?” O rei percebeu aquilo que Frei Emanuel via. — “Estou vendo que sou mendigo e não rei. pode evitar muita coisa. Continua sendo servo de uma força negra.” — disse-lhe Frei Emanuel. porque olhava para a vida com seus olhos internos. Caminhe pela estrada do Irmão Maior.” — “Que devo fazer?” — perguntou-lhe o rei que era mendigo. Ninguém que ordena e mata é rei.” — “Mesmo se viver como santo. É uma corda bamba cheia de sangue. porém. Não se deixe guiar pela guerra. e não terá necessidade de travar batalhas nem com os homens. Viva de maneira a deixar sua taça de barro tornar-se sempre mais fina. Não é a neblina que desceu sobre vocês. Você. se for sábio.” — “A neblina desaparecerá assim que o quiser.pensavam que você talvez ainda se tornasse um rei ao agarrar em suas mãos uma responsabilidade. deverei travar guerras enquanto for rei. abandonarei a floresta assim que a neblina desaparecer. mas as guerras que mandam nos reis. Meus Irmãos Maiores estenderam esta neblina usando os pensamentos de vocês mesmos. porque só pode dominar quem sabe respeitar o mais ínfimo ser como irmão. — “Não são os reis que mandam na guerra. dentro da taça de cristal. nem com os animais. — “Nunca mais mate nem homens nem bichos! Santifique a vida. Eu saí da minha taça de barro e aqui estou. Veja. você vive dentro da consciência de sua taça de barro. só aprendeu a ordenar e a matar. como o tenho feito. a qual não está reconhecendo por ser tolo demais. cuja taça de cristal é límpida.

deslizou para dentro da sua taça de barro na cabana. e o esquilo dormiu em seus braços.” — disse o rei que havia sido mendigo. e desde então foi considerado o pássaro mais sábio entre os animais do mato. A partir daquele dia. tornara-se rei de verdade. conscientemente. anseio. pelo anseio e amor. pois falou de penitência. tornar essa taça de cristal tão livre de desejos. Igualmente sem ruído. a taça do Graal. Frei Emanuel desapareceu na escuridão da noite. porém. Os hóspedes de Deus É muito duro para os bichos quando começa a nevar e os milagres da 90 . Conserve sua taça de cristal preparada pela penitência. que cada criatura de Deus traz dentro do seu ser. para o Graal. amor. ninguém mais entrou na floresta para matar. porque a guerra não o seduzia mais desde que se tornara um rei espiritual. límpida e preparada pela penitência. que toda a luz da outra margem possa penetrar nela. as cornetas não ressoaram e os cães não latiram quando o rei voltou para casa. para repousar. e das taças de barro e de cristal. Desta maneira tornar-se-á um rei espiritual. O rei não caçava nem guerreava. Seus raios caíram dentro da taça de cristal que havia ficado clara. porque é a taça do Graal. seguido pelo mocho. O mocho contou pela floresta inteira tudo o que vira e ouvira. E assim que pronunciou essas palavras.Procure. seguido de sua corte. pois essa luz inunda todas as taças que estejam prontas para recebê-la.” Sem ruído. e nenhum rei terrestre pode vencer um rei espiritual. — “Andarei pelo caminho do Irmão Maior. do mistério que abrange a vida e a morte. da mesma maneira como chegou. O rei não era mais mendigo. pelo anseio e amor. desapareceu a neblina e surgiu o sol da manhã. tão pura e cristalina. Os homens mantiveram-se calados. no seu íntimo. e trazia.

como se toda a floresta fosse um mar de pequenas luzes. não podendo suportar tamanho frio. gazelas e lebres. Só de vez em quando levantava-se. realmente. Ao se aproximar o Natal. porque era pouco. A morte. e a Noite Santa se aproximava. talvez seja uma missão no decorrer misterioso dos acontecimentos. como se todos os germes nela escondidos irradiassem pequeninas chamas. se tornava sempre mais resplandecente. e muitos animais se escondem em tocas e ninhos para hibernar e aguardar. e a consciência disso deprimia-o muito. Mas há muitos que enfrentam a luta com o inverno. Frei Emanuel preparara bastante sementes da sua safra para os pássaros. embora envolta em gelo e neve. Frei Emanuel se perguntava se haveria comida suficiente para todos os que queria convidar para a festa de Natal. contudo não podia ajudar a todos. Frei Emanuel auxiliava-os com os parcos meios que possuía. Assim. Em todo o caso resolveu servir tudo o que tinha e o esquilo ajudava com boa vontade a arrumar os mantimentos de maneira bonita e atraente. Deve existir uma razão para isso. nozes e cogumelos para os esquilos e outros roedores. e se juntassem em suas múltiplas formas. Muitos pássaros emigram. nas suas profundezas. levando em consideração a quantidade de bichos que iam aparecer. que deveria acordar na Páscoa. o novo desabrochar da vida. o reverberar da terra aumentava dia a dia. Percebia claramente que o Natal se aproximava porque via com os olhos internos como a terra. para ficar logo visível que não era uma mesa comum. sua pobreza abatia-o ainda mais perante os irmãos menores. Fora desses dias de preparação. desenhando uma escrita da vida futura. Para as feras e os peixes preparou pão. repolho e nabo para os veados. para comer uma noz 91 . como num manto mortuário. o esquilo dormia muito. levava-lhe com mais freqüência. nesta época. esfregando os olhos com as patinhas. porém. Também nas árvores expostas ao gélido vento via-se essa reverberação interna. no limiar entre este mundo e o outro. Estes passam melhor do que os outros. também ele não suportava bem o inverno. e era. é uma ilusão em toda a parte. sendo convidados.floresta voltam para o seio da terra. mas um banquete de Natal. que o simplório que se tornara Mestre.

entretanto.” — “O milagre do Natal não é difícil. mas talvez sejamos muito novos ainda para entendê-lo. porque é muito difícil. Essas criaturas. Muito antes do Natal. e. olhava com devoção a chama calma e silenciosa. Perante a imagem do Salvador ardia um círio bento. Assim. fica profanada. O esquilo. são eles que devem abrir o caminho dentro da Noite-Santa e do amor por serem 92 . Enfeitou a porta com grinaldas de pinheiros. os bichos acorreram e se agruparam no espigão da montanha. ou jogar uns gravetos ao fogo que Frei Emanuel não deixava morrer. Os bichos agradeciam o convite e transmitiam-no uns aos outros. são seus irmãos. — “Agradecemos-lhe muitíssimo. porém. e pediu que partissem com ele o pão do Natal da floresta. disse-lhes. é porque ainda ninguém nô-lo explicou? Certamente um Irmão Maior é quem deve fazer isto. — “Ele é difícil somente para os que não o querem compreender. e diante dela colocou todas as iguarias preparadas. em seu nome. Frei Emanuel reavivou o fogo na sua lareira. não queremos comer seu pão. sentado em frente dele. Todos nós o sentimos quando se espalha pelo mato. contar-lhes-ia o milagre do Natal.” disseram-lhe alguns bichos. Frei Emanuel foi à floresta dizer aos bichos que encontrava. chamando os bichos para a festa do seu Natal e do Natal deles. na véspera do Natal. Era tudo o que possuía. então Frei Emanuel convidou-os para comer. Ouvindo o sino. a noite. e em nome de todos os outros — “porém.ou um cogumelo. quem sabe. a maior parte dos homens não o quer. Os homens estão longe da Noite-Santa por estarem longe do amor. e abriu a porta para a branca imensidão gelada que ficou iluminada pelo zigue-zaguear das chamas. A tarde. Frei Emanuel fez repicar o sino de voz argentina. Gostaríamos contudo de ouvir a explicação do milagre do Natal. que todos os irmãos menores estavam convidados a festejar o Natal com ele. ao invés de santificada. Ou. Pois os homens festejam o Natal matando inúmeras criaturas de Deus. trazido para esta ocasião pelo simplório que se tornara Mestre.” — disse-lhes Frei Emanuel. Em seguida. Como você viveria então? Não viemos para isso.

Os bichos pareciam lembrar-se de algo que se haviam esquecido. e contou que isso sucedeu 93 . e os bichos puderam comer com fartura. Guardei-o para vocês e muitos aqui estão com fome. E a terra floresceu no meio do inverno.” A noite começava a cair. e será novamente na Terra da Promissão. ficou dia sobre a montanha. Sobre a terra livre de neve. e as duas margens se tocaram. Dois grandes anjos apareceram de cada lado da cabana. Este é o meu Natal: vocês serão meus hóspedes. festejando comigo o Vosso Natal. e todos os seres que o reconheceram tornaram-se juvenis de novo. Também a terra tem as suas duas taças: a de cristal e a de barro. e gostaram tanto como nunca imaginaram poder gostar. que corriam por baixo da montanha. Frei Emanuel viu que a comida não ia dar. Dirigindo-se à imagem do Salvador com o círio bento. Também as feras comeram e saciaram-se. com o esquilo no ombro. porque os anjos chamaram as correntes quentes. De repente. e o Natal será meu e seu se comermos o pão juntos. os anjos estenderam os braços.” Então os bichos começaram a comer. e assim será um dia. a terra cobriu-se de capim e flores. do amor que nasceu na terra para iluminá-la sempre mais. E foi como se a de cristal tivesse transpassado a de barro. quando a Estrela se encontrava sobre Belém.os irmãos maiores. Contavam-lhes terem lhes anunciado outrora o nascimento do Salvador. Quando os bichos ficaram saciados. porque muitos estavam com muita fome e o número deles era grande. deste modo a montanha ficou verdejante como na primavera. algo de que sabiam bem lá no fundo de suas almas. e que se havia emaranhado na corrente dos acontecimentos. contou-lhes o milagre do Natal. e. e a tivesse iluminado pelo amor a todas as criaturas. Frei Emanuel sentou-se ao seu lado. e até de plantas nunca vistas naquela zona. Os anjos andavam entre os bichos e conversavam com eles como se conversa com irmãos menores. e. Vocês devem comer o meu pão. na mesma hora. e a neve e o gelo começaram a derreter. quando todos andarem pelo caminho do Irmão Maior. quando a terra ficar remida. para que subissem e aquecessem a terra. como havia sido uma vez. Porque era Natal. disse: — “Peço-Vos que meus irmãos se saciem.

Ao se despedirem. É um mistério da criação. escondendo o rosto com as mãos. tornaram-se tiranos e assassinos para os outros homens e os bichos.quando nasceu em rei na mangedoura de um estábulo e os animais estiveram presentes e viram o rei. mas tão fácil de compreender como o milagre do amor. é horrível ser homem quando se deseja andar pelo caminho do amor e se percebe. — “Você não está mais marcado com o sinal de Caim. Foi este o Natal de Frei Emanuel e de seus irmãos. Os homens. Esta foi a luz que resplandeceu nas trevas. Creiam-me. porque eu não sou como o Santo de Alverne. Os homens. os bichos. Mas estas lágrimas eram diferentes daquelas que ele chorara na tarde da solidão. as lebres. caros irmãos menores. estendiam-lhe a pata. os esquilos e todos os outros. mas as trevas não a compreenderam. e é por isso que levam o sinal de Caim na testa. os pássaros sentavam-se na sua mão. É por isso que vocês fugiam de mim. encontrando sua imagem. assim como o lobo de Gobbia 94 . depois daquela tarde sombria em que chegara a essa montanha. a estrela de Belém brilhava sobre o rei e os bichos. com máximo espanto.” — disse-lhes Frei Emanuel — “e todos os Irmãos Maiores o percorreram na frente dos irmãos menores. ao invés de Irmãos Maiores. Os bichos entenderam que esse devia ser um verdadeiro rei. ser um marcado entre as criaturas de Deus. e os lobos. as onças. E os anjos colocaram-se ao seu lado e cruzaram as asas sobre ele e sobre o esquilo que se havia tornado seu primeiro irmão. os veados e as gazelas inclinavam-se. porque não era uma coroa. — “Este é o único caminho à salvação. debaixo de uma estrela. em penitência. O rei que nasceu. e todas as criaturas de Deus fogem.” — “Nós não percebemos mais a marca na sua testa.” Pela primeira vez.” — disseram-lhe os bichos. os peixes saudavam-no dentro do ribeiro. disse aos homens que fossem pelo mundo pregar o evangelho a toda a criatura. porém. as raposas. e porque tenho o sinal de Caim na minha testa. não sob uma coroa. Frei Emanuel chorou. mas sim uma estrela que brilhava sobre seu berço. aproximaram-se uma a um. não eram de boa vontade e não o são nem hoje. mas. anseio e amor.

Naturalmente é uma estória muito singela. na medida que isso for possível. está acontecendo hoje. é apenas uma das numerosas roupagens com que a revesti. Deu-se muitas vezes há centenas de anos. fui eu quem recebeu o presente maior. e sobre ele tivesse sido construída uma ponte para a Terra da Promissão. de terem os anjos falado com eles. Também não posso precisar 95 . e há muitos entre nós que estão querendo seguir o caminho do Irmão Maior. aos anjos e a você por nos terem dado de comer.” — disseram-lhe os bichos — “e agradecemos muito. todos os bichos que ali pediam asilo.” A montanha em que se erguia a cabana de Frei Emanuel permaneceu sempre verdejante a partir daquela Noite-Santa. pois. pois é longo o caminho à remissão total da terra. encontravam comida e não precisavam padecer. dentro do emaranhado do encadeamento das coisas. porém. mas justamente por esta razão não pertence a nenhuma época. e de haverem sido hóspedes de Deus. prestando-lhe juramento. e havia algo de muito sagrado nisso para mim. e terá de se dar ainda muitas e muitas vezes. também. no inverno e no verão.” — “Tive desejo de convidá-los. A Terra da Promissão Não há muita coisa mais a contar desta estória. passou-se ontem.estendera a pata a São Francisco. e nunca mais se viu neve nem gelo sobre ela. Os bichos nunca se esqueceram de terem sido convidados por Frei Emanuel para a festa de Natal da floresta. afinal. Na realidade vocês não foram meus hóspedes. Assim. mas hóspedes de Deus. São coisas grandes que se deram hoje. Era como se um torrão da terra tivesse sido expiado. Foi Ele quem os convidou para Sua mesa do amor. — “Agradecemos-lhe muito por tudo que nos contou.

” — disse-lhe o anjo — “todas as criaturas de Deus chegam à outra margem em suas taças de cristal. esses acontecimentos foram de muita importância. Pode ser que a vida terrestre de Frei Emanuel tenha sido encurtada e a do esquilo. que o anjo de Frei Emanuel dele se aproximou.” — “Nós já pensamos nisso. preciso. De acordo com o desenrolar normal das coisas. não queria deixar meu irmão menor sozinho. Eu os li neste mundo. prolongada. porque os grandes acontecimentos sempre se escondem atrás das coisas.” — disse Frei Emanuel ao esquilo. apesar de terem sido aqui uma estória simples e insignificante. aconteceu um dia. e no mundo das realidades espirituais apenas os acontecimentos essenciais estão inscritos. onde poderia tê-lo feito? No mundo da outra margem. pode-se supor talvez que o esquilo tivesse morrido antes do seu Irmão Maior. irmãozinho. Talvez seja difícil compreendê-lo. e não sei precisar quando. a bem dizer. — “Frei Emanuel” — disse ele com muita brandura — “deve preparar-se agora para desatar o fio prateado entre sua taça de barro e a de cristal. porque ele se habituou a andar aqui na terra comigo. Basta segurar nos braços seu pequenino irmão na hora em que o chamarmos.” — “Logo atravessaremos juntos uma ponte. e seguir à outra margem para continuar a construir ali o caminho dos Irmãos Maiores. Eles se deram. como os que todos nós temos para a nossa peregrinação terrestre. porém. Não sei dizer também durante quanto tempo se desenrolaram os fatos que narrei. por ser verdade. Tudo isto é sem importância. Assim. se não.quanto tempo Frei Emanuel viveu com o esquilo e com os outros bichos naquela maravilhosa floresta. No país para 96 . porém. dizer tudo isto desta forma.” — “Fá-lo-ei com muito gosto. porém. e tem sido tão bom irmão para mim como poucos. O tempo é algo supérfluo para quem vive fora dele. e ali não existe o que nós chamamos de “tempo”. assim nem perceberá se o caminho é longo ou curto. eu o levarei nos meus braços. Foi seu anjo da guarda. no reino das realidades espirituais. — “Isso não tem importância.

” — disse-lhe o simplório que se tornara Mestre. Na verdade. quando quiser me ver. o encadeamento das coisas se desembaraça sempre mais.” E quando o simplório que se tornara Mestre o visitou. Mas o entardecer de uma vida não é mais que o entardecer de um dia. até que eu possa partir também. que estamos nesta margem juntos. Você. disse-lhe: — “É pela última vez.” Frei Emanuel despediu-se do simplório que se tornara Mestre. caro irmão. uma temporada é pouco. e verá que tudo o que era essencial aqui. Deus abençoe seu caminho. porque o fim não está marcado. apareceu de novo o anjo do Frei Emanuel e disse-lhe com brandura: — “Agora deve vir para a outra margem. permaneceu como se nada tivesse mudado. e este caminho é muito diverso para a maioria. e é somente nesta margem que costuma entardecer.” 97 . se pensar bem. deve completar muitas obras aqui. de maneira que ninguém pode dizer o que é perto e o que é longe. Não é preciso mais vir até aqui. Foi num entardecer de um dia e de uma vida. Assim poderemos nos encontrar em nossas taças de cristal!” — “Isso será tão difícil para mim!” — disse-lhe o simplório que se tornara Mestre — “porque eu não estou ainda tão longe quanto você no caminho que andamos. ninguém está perto ou longe. querido irmão.” — “Veja. mesmo eu partindo. — “Não pense assim. ao amanhecer. porque é o caminho do Irmão Maior nesta margem e na outra. chame-me antes de adormecer. pensando bem. Nós dois andamos pelo caminho do Irmão Maior nesta margem e na outra.” — “Será para mim uma temporada triste.aonde iremos aprenderá a conhecer o essencial. porém. talvez não seja nada mesmo. No dia seguinte.

Foi um acontecimento real e 98 . O fio prateado entre as taças de barro e de cristal acabara de se desatar. Enorme quantidade de bichos da floresta chegaram à montanha onde estava a cabana de Frei Emanuel. O filho não era mais um bebê. transparente como neve translúcida. que viviam nos seus ninhos no telhado da cabana. Porém. porém. Muito estranho: os traços do seu anjo mudaram.Frei Emanuel deitou-se no seu leito e pegou o esquilo nos braços. seria demais enumerá-los todos. Reinava grande silêncio e o sol da manhã atingia as paredes de ouro. Foi como se o anjo da morte tivesse se revezado com ele. como irmãos menores. Não posso contar quais foram todos os bichos que chegaram à cabana de Frei Emanuel. ficaram pálidos e sérios. suas asas tornaram-se pretas. só que hoje não brincava mais com ela. E isto não importa. Não sei dizer se foi exatamente no domingo de Páscoa. Na cabana de Frei Emanuel. Mas nesse luto vive a idéia da outra margem. Devagar afrouxou-se o fio prateado entre a taça de barro e a de cristal. Somente dois grandes ursos choravam alto. Os pássaros. e houve um grande luto entre eles por ter ido embora seu Irmão Maior. e as lágrimas corriam-lhes pelo focinho. e por isso ele deve continuar a existir neste mundo. levaram a notícia da morte de Frei Emanuel aos bichos da floresta. era domingo de Páscoa. que repousava em paz. O importante é que todos se sentiam unidos. Também. Eram uma ursa e seu filho. Os traços do anjo da morte transformaram-se em traços do Salvador na cruz. até que as duas margens se encontrem. com o esquilo nos braços e a imagem do Salvador sobre ele. como naquele tempo. e o hábito escureceu. entrando pela porta da cabana. apesar de não ser mais um bebê. ficou forte e poderoso e mais alto que sua mãe quando se erguia nas patas traseiras. Eles eram ainda irmãos menores e viviam na consciência desta margem. trazia uma bola de pau nas patas. e nenhum deles molestava o outro. perante este leito fúnebre. Um após outro entrava na cabana para contemplar a taça de barro de Frei Emanuel. Os bichos mantinham-se também em silêncio. Isto aconteceu na época da Páscoa. as asas ficaram douradas e o hábito branco.

Depois. Compreenderam também que ninguém fica sozinho se tiver boa vontade. — “Eu não os abandonei. levou um irmão 99 . eis que viram Frei Emanuel no meio deles. com o esquilo nos braços. Isto é um grande mistério que abrange a vida e a morte. como quando se deposita uma relíquia.” — disse-lhes ele — “apenas abandonei minha taça de barro e estou agora com vocês em minha taça de cristal.” — disse o urso. como lhes contou o mocho. Em redor da cabana de Frei Emanuel cresceram rosas silvestres que a cobriram com um manto florido. e sentiram-se todos muito abandonados. Os bichos ficaram mais alguns minutos perante o túmulo do seu Irmão Maior. Quando. cobriram-no com terra e puseram flores por cima. Colocaram os dois com o máximo cuidado dentro dele. Há sempre Irmãos Maiores perto dos menores. porém. voltarei todos os dias para tratar de vocês. a mais ínfima. que não se dá sempre quando alguém morre. encaminharam-se tristes de volta à floresta. pois ele o viu. contudo. — “Vamos abrir um túmulo para o nosso Irmão Maior. e ficaram muito agradecidos por terem podido entendê-lo. anseio e amor. pois é este o caminho da salvação em penitência. cada um para a sua morada. Então sentiram-se livres daquele grande desamparo e voltaram para casa. Assim ela se tornou um templo num torrão de terra redimida. Francisco de Assis. e que qualquer criatura.grandioso. iam separar-se. mas é muito simples. contudo. caros irmãos. e ninguém ficará só. não os abandonarei. Preciso ir agora à outra margem para ajudar a preparar os caminhos dos Irmãos Maiores. A ursa e seu filho abriram um túmulo na cabana para Frei Emanuel e seu esquilo. depositando com o maior cuidado sua bola na relva. É um grande mistério.” Os bichos compreenderam que em comunidade estão unidas todas as criaturas de Deus. sempre tem um acompanhante na sua insignificante peregrinação.

homem e um irmão bicho pela ponte à outra margem. Esta estória já se repetiu muitas vezes. 100 . anseio e amor. e sobre ele resplandece a estrela de Belém. ela se deu ontem. e inúmeros o andarão ainda. e desembaralhar-se o encadeamento das coisas. muitos o andam hoje. e terá de acontecer ainda muitas vezes antes de desaparecer o sinal de Caim na testa dos homens. está se dando hoje. há muitos milênios e muitos séculos. Todavia só depois de todos andarem por ele é que será redimida a terra e suas duas margens encontrar-se-ão numa Terra da Promissão. Muitos percorrem o caminho do Irmão Maior pelos seus irmãos menores. É um caminho cheio de espinhos em penitência.

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