vários

A céu aberto
decidindo os nossos próprios passos

raividições
2010

raividita.blogspot.com raividita@yahoo.com

raividições

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Títulos originais
A tradução destes textos foi feita a partir dos originais e de versões publicadas por outros companheiros em Inglês e em Francês. Para saber mais dessas versões, ou partilhar ideias sobre os textos, podes escrever para o e-mail que está no final desta publicação. - Sim, mas no fundo o que é que vocês querem? Si, ma cosa volete in fondo?, publicado na folha de crítica social Adesso (em Rovereto), nº19, em Setembro de 2004

- A céu aberto: notas sobre a repressão e afins All’aria aperta: note su repressioni e dintorni, publicado por Un amico di Ludd, em Setembro de 2004

- Enfrentar a repressão: reflexo condicionado ou movimento próprio? Contrastare la repressione: riflesso condizionato o moto próprio?, publicado em Dezembro de 2003

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Índice
Prefácio - 5 Sim, mas no fundo o que é que vocês querem? - 7 A céu aberto: notas sobre a repressão e afins - 24 Enfrentar a repressão: reflexo condicionado ou movimento voluntário? - 45

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É por isto que pensamos que a melhor maneira de discutir sobre o que fazer contra a repressão. se desejamos verdadeiramente o soltar da tempestade. 4 57 . não há razões para o escondermos. Mas também é verdade que. aparte toda a possível consideração e combinação de carácter técnico. Porque é verdade que sopram ventos difíceis. consiste de facto em questionarmo-nos constantemente sobre o que fazer de forma a danificar esta sociedade na sua totalidade. e em encontrar respostas no decorrer da acção. o problema do vento que sopra só pode ser um falso problema.

Em suma. Nesse terreno incerto. em vez de pararmos e darmos por nós em frente aos muros de uma prisão a exigir a libertação dos que lá estão fechados. porque é a forma de mostrarmos a inutilidade de tais detenções àqueles que as ordenam e executam. Talvez ao compreender e escapar da lógica reacti- 56 5 . com cada vez mais força e em todas as direcções. visto que a consciência de que existe quem continue a percorrer o caminho que se tinha iniciado é mais reconfortante do que uma saudação ruidosa. não fixando os nossos olhar e atenção naquilo que vemos imediatamente à nossa frente. O nosso calendário não deveria ser traçado nem pelo do governo. isto porque a prisão é. de facto. muitas vezes. acima de tudo. mas decidindo as nossas próprias datas por nós mesmos. uma provável consequência de toda a luta autónoma que saiba encontrar os seus próprios tempos e métodos. podemos experimentar o alastrar de relações de cumplicidade e a necessidade de acção directa. numa nervosa tentativa de manter um controlo e uma paz sociais que ameaçam escapar-se-lhe. levando connosco as nossas maneiras próprias de vermos. mas. e muito menos pelo dos variados grupúsculos políticos que andam atrás das luzes da ribalta. E é simplesmente cada vez mais a consequência de um sistema social que treme perante os olhares até dos mais distraídos. Prefácio Publicamos os textos seguintes como contributo para uma discussão rica em vontade mas. seria melhor continuarmos a correr.dedicar-nos a agir para criarmos as condições para a sua libertação e para a de outros. não ficando obcecados com as datas estabelecidas à partida. pobre em desenvolvimento: a discussão sobre o aventurar no terreno do conflito social. Não só porque esta é a melhor maneira de expressarmos a nossa solidariedade com eles. nem pelo do sistema judicial. fazermos e sentirmos as coisas. e que dispara paranoicamente em todas as direcções. mas tornando-nos imprevisíveis. retomando-as noutros contextos. transportando também as prisões e a repressão para fora do seu isolamento.

sobre o movimento nada mais do que uma maneira de nos impedir de.va da repressão. e ninguém está fora da prisão graças aos que estão lá dentro. ou do medo que nos paralisa e. Ninguém vai parar à prisão em vez daqueles que estão do lado de fora. realmente. não devemos deixar que ela se torne o fim ao qual tudo é subordinado. Ao invés. é e deverá continuar a ser um problema técnico. do reflexo condicionado que nos limita. é preciso rejeitarmos a chantagem moral que nos é lançada sempre que um companheiro é preso. com base numa projectualidade própria. Embora a sua libertação seja uma das nossas principais preocupações. nos tornarmos um perigo? Talvez seja necessário esclarecer algumas questões. devíamos 6 55 . ultrapassarmos a separação. Por mais cruel que possa parecer. A questão de o que é que desejamos fazer contra este mundo intolerável é de uma natureza completamente diferente. o isolamento e as ligações que nos são impostas pelo poder. uma triste eventualidade que se está a tornar cada vez mais concreta para toda a gente e que deveria ser alvo de raividições maior consideração. talvez assim seja possível sair do pântano em que nos encontramos. O apoio material aos que vão parar à prisão. não devíamos parar de correr porque alguém que corre ao nosso lado foi travado. Não há qualquer obrigação de solidariedade à qual temos de obedecer.

E. a repressão põe o movimento na defensiva. com as recentes detenções de anarquistas em Trento e por toda a Itália. Sim. estar presentes nas sessões de tribunal. como o envio de cartasbomba.te fraco (mesmo que potencialmente perigoso para a ordem dominante). e di-las-emos em breve. mas no fundo o que é que vocês querem? Este número da Adesso vai ser diferente dos outros.. condicionando-nos a seguir apenas os seus passos. até um cego consegue ver como o poder está a golpear de forma cada vez mais aberta toda a forma de dissidência. mas no fundo. arranjar advogados. dos procuradores. ela faz com que todos nos tenhamos de ocupar com os companheiros detidos. eles estão a reprimir-nos a todos nós. Hoje em dia. a repressão não deve cortar-nos a respiração. e apesar dos polícias. podemos dizer estar satisfeitos com a nossa actividade. especialmente neste momento. É certo que coisas a dizer sobre tudo isto não nos faltam. como bem sabemos. que conduzem a novos protestos que conduzem a novas detenções. desleixando todo o debate crítico. não escapam a esta lógica: o estado contra o movimento. o que é que vocês querem?”.. organizar manifestações em frente às prisões. Haverá quem fique surpreso com a escolha de um tema tão geral como este. Desta forma. ainda assim. o movimento contra o estado. dos jornalistas e dos guardas prisionais. Mas será que podemos afirmar que somos um perigo por causa dessa repressão? Ou será toda a repressão que se está a abater 54 Sim. Mesmo aqueles que recorrem às práticas de protesto mais extremas. numa frenética sucessão de detenções. 7 . com a repressão que se faz sentir. Além disso. Talvez seja por isso que sentimos a necessidade – porquê agora?. Tentaremos responder a uma pergunta que nos é colocada muitas vezes: “Sim. O papel de eternas Cassandras não nos serve. protestos contra as detenções que conduzem a novas detenções. sem termos de nos questionar como a melhorarmos. por muito ausente que ela esteja. visto que muitas vezes ele é considerado uma perda de tempo. arranjar dinheiro. não é fácil dizer – de escrever algumas linhas sobre a vida pela qual nos batemos. para lá das lutas e episódios específicos.

mesmo que nos estreitos limites da nossa folha de crítica social. Agora. ideal. a de uma sociedade sem prisão – serão apenas afloradas. Ele dá-nos a todos nós a ilusão fatal de que somos fortes. que são. etimologicamente. a ilusão de que o nosso lutar tem significado. por esse simples facto. simultaneamente. se é que não confundimos causa e efeito. Trata-se. quando. de já estar a fazer algo em concreto. se assim não for. Porque. Ainda assim. mas bem conhecido. a prefiguração do mundo em que queremos habitar. à visão.As questões que levantamos – por exemplo. na verdade. não é. mapas detalhados da terra da Utopia. por assim dizer. Ideia. evitando ao máximo ser arrastados pelo reflexo condicionado provocado pela repressão. a nossa crítica teórica e prática. Prefigurar não significa construir minuciosas arquitecturas de mundos alternativos. entre companheiros e bófias. terreno da oposição entre nós e eles. precisamente. terreno do conflito social em troca de assumirmos uma posição defensiva no estéril. à capacidade visual. Mas. Será a mesma coisa? Não. acabamos por abandonar o fértil. de uma faculdade imaginativa. Lutar e defendermonos contra as forças da ordem não significa. é nelas que devemos focar a nossa atenção. literalmente. isso seria seguir uma ideia de sociedade oposta à que queremos: seria uma sociedade planificada por uns quantos com a inten8 o estado consegue dar a alguém que é reprimido a ilusão de ser perigoso. de prefiguração. num conflito rico em espectadores mas pobre em cúmplices. mas desconhecido. E numa altura em que estas relações sociais são particularmente instáveis. por onde começar? Sabemos que é impossível chegar ao fundo dos nossos desejos. ele é extremamen53 . um ideal é um modo quotidiano de viver e. Simultaneamente. Além de impossível. em si e por si só. Para nós. são conceitos que apelam. defendem. com o simples acto de investigar e deter. Precisaríamos de bem mais do que um número da Adesso. sem fundo. gostaríamos de tentar. não temos qualquer problema em admitir que temos um ideal. subverter as relações sociais dominantes.

de técnicas e de saberes. sobre como rasteirar estes cães de luta com o objectivo de chegarmos àquilo que eles protegem. As definições. de outra forma. É sobre isto que falaremos neste número. não seriam possíveis de propor. e portanto também na nossa prática. Esta imagem nutre-se de lutas e de valores. as palavras não nos metem medo. somos indivíduos. conscientes de que aquilo que nós queremos não pode mais que “levar o pânico à superfície das coisas”. Para nós. Queremos sublinhar como. levando alguns a ocuparem-se exclusivamente de curar as feridas infligidas pelas suas dentadas. Em vez disso... quando não são grades. onde as possibilida- Como já dissemos.tivo de criar um alarmismo capaz de justificar publicamente medidas que. Por que somos anarquistas? 9 . são como pedras lançadas à água: criam círculos cada vez mais largos. mesmo que. mas nenhum deles consegue conter completamente a nossa individualidade. Isto deveria fazer-nos reflectir sobre as possibilidades que se abrem perante nós. de espaços e de tempos. em ambos os casos. toma lugar um declínio nos nossos objectivos. a prefiguração é uma imagem que atravessa a mente. sendo a luta contra o existente substituída pela luta contra as forças que o 52 des do passado encontram a ruptura do presente. é verdade que este ladrar grosso dos cães de guarda do poder provoca medo. e também de provocar o pânico necessário sobre falhas na segurança que o encoraje. Cientes disto. uma imagem em que a experiência se mistura com a tensão e a esperança. e outros a desafiarem-nos pelo prazer do conflito ou porque não conseguem ver mais além. visto que o nosso alvo é modificado. Como pedras na água Acima de tudo. parece-nos que o ladrar se está a tornar uma obsessão para demasiados companheiros. mas ele também denota uma certa fragilidade. ção de “melhorar a humanidade”. contra a sua própria vontade.

sinónimos. mas antes porque eles estão fracos. ela encontra-se limitada a levantar a voz e intimidar os seus inimigos. Ou seja. ou que está militarmente vulnerável. para nós. a precariedade está a atingir até a classe dominante. aqueles que são livre e reciprocamente criados e definidos. Estamos apenas a dizer que ela avança mais por um movimento de inércia do que por uma acção propulsiva. porque sabemos que a justiça não basta se não for acompanhada de um sentimento de solidariedade consciente e voluntária. que vê na liberdade do outro um limite à nossa própria. não na dominação e na exploração. nós sentimos que a nossa liberdade se estende até ao infinito através da liberda10 nião. A lei é um modo bastante particular – baseado na coerção – de conceber a regra. ou algo do género. não interessa. Contrariamente ao modelo liberal. se preferirem. Para sermos claros. porque ainda pode tomar a liberdade de o fazer. Ciente da sua própria fraqueza.Porque queremos um mundo baseado na reciprocidade e no apoio mútuo. Resumindo. regras e leis não são. nada disso. ela fá-lo agora. não estamos a dizer que esta ordem social é incapaz de impor a sua vontade. mas os alicerces estão cada vez mais podres e o rachar ouve-se cada vez mais alto. com o objec51 . apoiando-se mais numa resignação passiva do que num consenso activo. não os que são impostos unilateralmente por quem tem o poder de fazer as leis e tem a força militar para as fazer serem respeitadas. não somos reprimidos porque nós sejamos fortes. procuramos viver já hoje com base no livre acordo. Para nós. não aceitando autoridades que decidam por nós. de regras – para vivermos juntos. reais ou supostos. Somos pelo apoio mútuo. é porque a situação social na sua totalidade é hoje tão fraca e frágil que não permite à classe dominante correr demasiados riscos. Dentro das possibilidades. mas os únicos acordos dignos desse nome são. num contexto tão dilacerado que é incapaz de garantir qualquer estabilidade duradoura que seja. Isto leva-a a exagerar tudo o que acontece. de maneira nenhuma. Reconhecemos a necessidade de acordos – ou. O edifício está ainda de pé com toda a sua monumental grandiosidade. Um mundo sem Estado e sem dinheiro.

Mesmo a irrupção de Génova. Um modo diferente de conceber as regras determina também uma maneira diferente de abordar os conflitos. no seu sentido mais geral. em segundo lugar. os quais não fariam mais que recriar aquele poder opressivo e arbitrário do qual todos conhecemos a natureza e Mas então. sabemos que a igualdade é a irmã do despotismo. que aconteceu há mais de dois anos.riamente ao que os líderes de massas das diferentes facções militantes pensam. como experimentação de novas relações. Para sermos honestos. para nós cada um responde apenas pela violação de regras que ele próprio definiu e aceitou – e não de leis que outros estabeleceram em seu nome. Em suma. antes de mais. parece-nos que o movimento. Contrariamente ao comunismo autoritário. de dos outros. Em primeiro lugar. por que razão é que estamos a testemunhar esta contínua repetição de detenções e intimidações? Em nossa opi50 as consequências. esses mesmos conflitos são abordados de modo não repressivo. por outro. incorporando-se em aparelhos especializados que tendem. na verdade o aumento da repressão não corresponde a um crescimento da ameaça revolucionária do movimento ou de qualquer dos seus componentes. se o movimento em si não é assim tão forte nem perigoso para o sono dos senhores. do que a uma suposta maturidade alcançada pelo movimento aqui em Itália (o vazio que imediatamente se lhe seguiu é prova disso). a “justiça” não deve nunca ser separada da comunidade que a exprime. como sinais de acordos inadequados. se ela não for o espaço onde exprimir as diferenças individuais. Em qualquer caso. a ter a sua fatia de tarte mediática e institucional e. parecenos mais devida a um convergir de circunstâncias. com toda a gente ocupada. por um lado. a solução dos contrastes não deve institucionalizar-se em órgãos repressivos – como são as prisões e qualquer tipo de segregação -. está a atingir um dos seus níveis mais baixos. a espernear em todas as direcções numa crónica falta de perspectiva. realizadas acima de tudo a nível internacional. a reproduzir-se a si próprios e aos seus privilé11 .

Isto significa que. e “maus”. em todo lado aquele segundo o qual a repressão seria equivalente a um certificado de radicalidade: “Sou reprimido. por sua vez. infelizmente. baseia-se precisamente no contrário: alguns dirigentes organizam enquanto a massa executa. a convicção que leva algumas pessoas a acreditar que quanto mais se é reprimido. separados por algo bem diferente do que o simples nível de conduta no cartão-relatório do estado. hoje em dia. cria hierarquias em todo o lado e torna os indivíduos incapazes de compreenderem o produto das suas relações sociais. Porque o pensamento está unido à acção apenas no indivíduo – as forças sociais são sempre cegas –. Uma civilização de massa. Para podermos decidir em conjunto sem um poder centralizador é necessário podermos dialogar de modo directo e horizontal. apenas uma sensibilidade anti-autoritária a afinar sobre as ruínas de todas as prisões.gios. num momento em que a repressão se estende a todos os sectores da sociedade. assim como de compreender o produto da sua própria actividade. especializa as tarefas até ao extremo. num delírio de auto-elogio que. mas poderá contribuir para pormos de lado um velho e insípido lugar-comum que está. A sociedade pela qual nos batemos é uma sociedade de cara a cara. mais se existe. O facto de. É apenas nas mentes autoritárias que o universal e 12 ou acção nos seja totalmente vedado. abunda em sacrifício. então. controlada e compreendida pelos próprios indivíduos. como a civilização industrial. um mero apêndice –. todo aquele que não esteja pronto a pôr-se em sentido acabar por cair sob o olhar da repressão significa que a divisão entre “bons”. Nenhuma receita. O trabalho assalariado. incapaz de dominar e reparar as máquinas – das quais se torna. para acariciar. É óbvio que. obviamente. É certo que isto não provocará uma união entre os diferentes espíritos do movimento – para desagrado de tantos ecuménicos –. torna-se ridículo pensar que ela só ataca aqueles que atacam a segurança do estado. contra49 . deixou de existir. é necessário que a actividade realizada seja directa. para maltratar. logo existo”. Comecemos com uma premissa. em qualquer caso.

a discussão pública parece-nos realmente urgente. a humanidade viveu durante milhares de anos em sociedade sem Estado e sem poder centralizado. Contrariamente à visão de progresso que nos é imposta. Infelizmente. o local se opõem. programas de televisão satíricos são censurados por serem demasiado satíricos. A redescoberta de uma nova autono13 . mais adequados às necessidades e desejos de cada um. estão a aumentar com alguma rapidez.. como por exemplo a furiosa reacção à greve selvagem dos trabalhadores do trânsito em Milão que deixou a cidade a andar a pé por um dia: se da direita se pediu um duro castigo para os grevistas. de poluição e de angústia existencial –. Pelo contrário. E é fácil imaginar o que acontecerá quando as novas leis sobre as drogas começarem a ser aplicadas. De maneira mais geral. ou caminharemos cada vez mais em direcção à desintegração de toda a autonomia individual e ao colapso ecológico.pedido no parlamento por ter propagado vozes que se encontravam fora do coro nacionalista.. ou reinventamos uma vida social assente em bases mais pequenas – do pequeno ao grande. Agora. para experimentarmos outros. para a qual a história é uma espécie de linha recta desde as cavernas até ao Fundo Monetário Internacional. antes que todo o espaço para discussão 48 do as relações e técnicas que nos podem ajudar a transformar o presente. e poderíamos continuar. exemplos não faltam. É urgente dissolvermos os laços massificados – fonte de conformismo. para as quais não existe via de saída do gigantismo da cidade e do aparato produtivo. escolas inteiras são invadidas em busca de drogas. da esquerda vieram os apelos à intervenção do exército [para guiar os táxis e autocarros] no caso de uma nova interrupção no serviço. através de uniões horizontais -. não se trata aqui de sonhar com o regresso a uma mítica Idade do Ouro. sobre técnicas mais simples. centenas deles são postos fora de casa em pleno Inverno. mas de redescobrir no passa- Face a isto. Na realidade. estrangeiros possivelmente suspeitos seja do que for são expulsos do país em poucas horas.

é a sociedade no seu todo que está a sofrer um apertar do parafuso. etcétera) é. e que devemos voltar atrás sempre que uma suposta eficiência técnica é conseguida através de uma maior especialização. nós acreditamos que as técnicas devem sempre ser sobrepostas por considerações éticas e sociais. transformando-as em mercadoria. entre o campo e o burgo. Contrariamente à propaganda tecnológica. de um maior poder ou de um empobrecimen14 de possibilidades oferecidas pelo código penal com o objectivo de por um travão em toda a forma de actividade. não é apenas o movimento – nas suas múltiplas tendências – que a repressão está a visar. entre a floresta e a cidade. inseparável de um processo revolucionário de destruição do Estado e de desmantelamento da sociedade industrial. aspectos inseparáveis. O capitalismo está a atacar as próprias fontes da vida – a comida. não é somente uma tensão ética: é uma necessidade vital. foram arrastados para um quartel e interrogados. Mas. uma ilusão. para a qual tudo aquilo que é tecnicamente eficaz é socialmente positivo. para nós. emitindo em grande número ordens de expulsão e proibições de entrada em cidades a companheiros que residem em aldeias vizinhas (a encantadora versão moderna da velha residência forçada).mia (alimentar. Pensar em retirar para uma qualquer reserva neste gigantesco supermercado é. Expandir os espaços de autonomia – experimentando outras formas de vida e relações – e subverter a actual ordem das coisas são. o encerramento de um website informativo como o Indymedia foi 47 . mais importante ainda. culpados de terem pendurado faixas contra a guerra. médica. alguns estudantes menores. repetimos. o ar. A proibição da crítica à presença de soldados Italianos no Iraque alcançou níveis críticos: um clube de futebol foi desclassificado porque os adeptos da equipa não mostraram as lamentações devidas pelos soldados mortos em Nassiriya. outros estudantes que distribuíram um flyer sofreram buscas nas suas casas. É fácil antever o aumento deste tipo de práticas repressivas. energética. para nós. a água –. Reinventar a relação entre a solidão e o encontro.

sendo que nos métodos de luta antevemos já a vida pela qual nos batemos. Simultaneamente. buscas. ou de ter ocupado um edifício. ou de ter impedido uma identificação ou uma rusga policial. toda a discordância. onde quer que apareça. Alguém disse que não se pode combater a aliena15 . até a simples acusação de sujar com tinta montras de lojas que estão abarrotadas de mercadorias será razão suficiente para acabar atrás das grades. O que nos distingue como anarquistas. investigações. da “transição para o comunismo” (que jamais transita. em breve. ou de ter expulso um paisano de uma manifestação. Os portões da prisão abrem-se para todos: é suficiente ser-se acusado de um ataque. e. sendo cada uma delas pontualmente isolada. é que nós consideramos os fins como inseparáveis dos meios. difamada. das excepções tácticas e estratégicas. ou de ter participado numa vigília. Em ditaduras implacáveis ou em sociaisdemocracias assassinas. fechada à chave. No seio do “movimento”.de banir toda a crítica. Em detrimento do maquiavelismo dominante. Aprendemos com uma série de exemplos históricos onde vingou a lógica do oportunismo. espancamentos e intimidação estão a alastrar cada vez mais e a atingir praticamente toda a gente. as autoridades vasculham os milhares 46 Algumas destas reflexões são hoje em dia comuns a muitas pessoas. detenções. circunscrita. mas que tudo justifica). passando pelos tépidos. sejam elas revolucionárias ou tenham simplesmente um sentido crítico. E então? Bastará olhar rapidamente para o que se tem estado a passar nos últimos tempos por toda a Itália. sufocada. desde os cabeças-quentes até aos mais frios. precisamente porque estes estão sempre contidos nos primeiros. sabemos que ao recusarmos empregar certos meios recusamos também certos fins. toda a oposição. ou de ter formado mais uma associação subversiva. to geral das relações humanas.

as hierarquias. De facto. a direita nunca esqueceu a sua tradicional inclinação por óleo de rícino e bastão. é inútil escondê-lo. defendemos a auto-organização da luta. numa verdadeira coerência na abjecção. Tal como rejeitamos o circo eleitoral – com o qual se oculta a ditadura do capital -. é por isto que as forças sociais são imprevisíveis. somos pela autonomia em relação a todas as forças partidárias e sindicais. a censura e a proibição são o dia-a-dia que qualquer forma de governo nos impõe. os comités centrais. é este mundo unidireccional que obriga a uma vida unidireccional. somos pela conflitualidade permanente com o poder. as suas estruturas. no imediato. desertar das instituições em vez de mendigar por subvenções. Tão difíceis que se espalha uma certa preocupação mesmo por entre a boa gente da esquerda. e não na medida dos resultados quantitativos. Atacar o poder em vez de o reproduzir. os seus homens. A isto podemos responder que o sentido daquilo que se faz está na actividade em si. as suas ideologias. futuros cabecilhas políticos). independentemente de qual seja essa forma.ção com formas alienadas. Chegando ao ponto 45 . são métodos que. podem parecer pouco eficazes e andar lado a lado com um certo isolamento (preparado pelo constante linchamento mediático).. e a implementação de uma “ditadura” por parte do actual governo é denunciada de forma cada vez mais veemente. constituída por um pensamento unidireccional e um comportamento unidireccional. os porta-vozes mediáticos (ou seja. É verdade. do mesmo modo recusamos os líderes. ou seja. Não podemos reproduzir nas nossas relações e nas nossas práticas as mesmas dinâmicas do domínio que se combate. Neste sentido. porque não se medem com nenhum instrumen16 Enfrentar a repressão: reflexo condicionado ou movimento próprio? Sopram ventos difíceis. mas não deixa de ser um facto que a repressão.. por detrás da facção política temporariamente encarregue de o administrar.

Não acreditamos nos sóis esplendorosos do futuro que surgem de cálculos realizados em quartos A revolta é onde a leviandade e o rigor se encontram. Então. um modo bastante concreto de experimentar a existência. e isto não por uma adesão cheia de sacrifício a uma doutrina. Além disso. que é renovado o pacto do espírito com o universo. a procura da coerência é a força que contém todas as forças. e algo que se assemelhe a uma experiência comum irá nascer. comunicarem. aquilo que possa assemelhar-se a “purismo” (como afirmam depreciativamente os realistas) é. não colaborando com as Un amico di Ludd Setembro de 2004 instituições. os mundos mútuos.assim. Ela é uma experiência humana 44 17 . É na união do pensamento e da acção. muitas vezes os limites estão. de finalmente fazermos os modos de viver. Assim. mas pelo prazer que advém de um espírito em concordância consigo próprio. na nossa resolução e na nossa imaginação. to. ninguém poderá jamais atirar-nos à cara que comemos do mesmo prato – e isto também conta. deitadas abaixo pelo peso do hábito nos nossos gestos. mas antes uma oportunidade de aprendermos uns com os outros. Um encontro mais alargado entre as várias realidades locais acontecerá a partir dos respectivos caminhos autónomos de pensamento e luta. palavras e relações. dizia Simone Weil. Por outro lado. escondidos. isto é. E então a discussão não será uma dança imóvel de frases feitas. ao invés. acima de tudo. não de um aglomerar de forças ditado pela urgência. A auto-organização de que falamos não é uma mera divagação mental. a confiança e o entusiasmo serão novamente descobertos. O mundo em que queremos viver deve estar contido o mais possível nas nossas próprias relações e comportamentos. “no prazer visceral do conflito social”. e no fundo aquilo que vemos são apenas os primeiros círculos formados pelas pedras que lançamos.

É certo que existem dificuldades. são inumeráveis. seja como método de luta em conflitos mais específicos (pensemos. do trabalho à paranóia de controlo) com uma prontidão para agir quando o momento é oportuno. daqueles que atraíram sobre si os raios de todos os juízes. um enorme arsenal teórico e prático que o passado transmitiu ao presente. De forma a sermos catalizadores da alegria de viver. os hábitos e os preconceitos da sua época. a partida diz respeito a cada um de nós. nas assembleias de bairro na Argentina ou na aarch na Algéria). considerando a perda progressiva de espaços autónomos. Sendo o mais sério dos jogos. ainda 43 . E. O grande jogo Parece-me que o grande jogo consiste na capacidade de unir uma certa quantidade de audácia diária (a quebra da normalidade social é possível em todo o lado. os exemplos de comunidades que aboliram a propriedade privada e o Estado. de 18 nos ser apanhados nas ilusões mediáticas). seja como prática social durante as explosões insurreccionais (pensemos. Há efeitos que continuam a produzir as suas próprias causas. A auto-organização é uma realidade que existe neste mundo. nos bloqueios do pessoal de limpeza dos caminhos de ferro. por exemplo. e não poderia ser de outra forma. numa tentativa apaixonada de alcançar na Terra a felicidade que as religiões sempre encerraram no domínio dos céus. Muito daquilo a que chamamos teorias foi sugerido pela realidade das lutas. Mas não precisamos de um passado no qual procurar as justificações para os nossos desejos. de debates públicos a feiras de consumo e estupefacção cultural. tragicamente degradados pelo sistema social actual e pelos seus muitos narcóticos tecnológicos. Demasiado vago? Claro que sim. tanto pelas experiências comunitárias como pelas revoltas audazes e solitárias daqueles que tiveram a determinação para desafiar o poder. Da Idade Média aos dias de hoje. mais recentemente. antigos e modernos. e não Cassandras do futuro colapso capitalista.que existe desde sempre. Porque a acção anónima e destrutiva exprime a construção de uma vida que não é anónima.

sobre as nossas próprias bases . em vez de corrermos atrás das nossas próprias caudas. Como é óbvio. Aqueles que continuamente repetem que a melhor teoria é a prática. ofuscados pelos efeitos especiais do espectáculo. muitos explorados metem-na em prática nas suas lutas porque sentem o capitalismo na própria pele. Mesmo a exigência de alimentos não envenenados 19 . caso contrário.). não temos áreas de intervenção exclusivas. intervimos . por proclamações lançadas ao vento e por uma distinção prática (e ética) evidentemente carente de clareza acerca de quem são os inimigos. não por ideologia. para favorecer práticas de auto-organização e de acção directa. E nós. em tudo isto? Não possuindo qualquer mentalidade vanguardista. simplesmente damos o nosso contributo. sempre que podemos. mas estas foram esporádicas. mas por ser a única maneira de arrancar algumas melhorias reais aos patrões. rodeadas pelo clamor causado por uma retórica inútil. Precisamente numa altura em que esta clareza é necessária face à violência indiscriminada que cada vez mais toma lugar nos momentos de resistência e potencial libertação dos danados da terra. A acção directa é experimentada por milhares de explorados. Aquela crítica anti-capitalista que os intelectuais acham vã. etc.Teremos de estudar melhor as nossas possibilidades. obsoleta ou criminosa. Talvez seja que. precisam particularmente desta clareza. ou então exageremos a sua importância (deixando42 Scanzano Jonico. e isso porque esta sociedade atingiu um tal grau de interdependência entre as suas partes que não é possível modificar profundamente um aspecto significativo sem pôr tudo em questão. mas que depois deixam muito do que fazem ao sabor do acaso. alguma sabotagem contra a guerra. existiram umas quantas nobres excepções (várias acções depois de Génova. outras contra a biotecnologia ou os mecanismos de expulsão. Quando é possível. da Campania. ou nas greves selvagens dos condutores de eléctricos). nós ou tenhamos demasiada falta de confiança nas consequências das nossas acções (permitindo-nos tornarmo-nos desleixados). Não sendo especialistas. propomos nós próprios situações de luta social.em conflitos determinados por outros.

de maneira nenhuma. durante a tragédia de Cap Anamur. do desmantelamento de todo o sistema de produção. Muitos atirámo-nos. Alguma reflexão prática nasceu com base nos vários bloqueios realizados por trabalhadores e outros. Do problema da devastação ambiental ao da guerra. nem tão pouco uma talvez maior atenção da nossa parte. pois sabemos 20 humanos vivem. Não faltarão outras oportunidades. da mesma forma que não existem coveiros de revoluções que não as tenham reconstruído. Uma vez mais. uma vez mais em grupos pequenos. bem vistas as coisas. de cabeça. Quantas oportunidades é que perdemos (depois de Génova. para ser satisfeita. neutralizáveis – pelo domínio. o problema em si da prisão reenvia-nos para o da autonomia nas decisões e para o de termos aquilo que precisamos para viver. Para que não aprendamos a preferir o livre acordo à imposição. é inconcebível um poder sem prisões. É certo. e a revolta é feita de oportunidades. 41 . Mas isso não chega. etc)? O tempo é o elemento em que os seres Somos pela ruptura revolucionária. A questão é que ela devia estar melhor ligada aos contextos sociais. há questões que estão mais no coração do que outras. Se é possível conceber um poder que produz menos incineradoras ou determinadas tecnologias altamente nocivas. nós próprios. quando a crítica se aprofunda ela vê-se face à sociedade inteira. durante os bloqueios dos comboios da morte.– como alguém escreveu – necessita. exigindo destas lutas muito mais do que aquilo que elas podiam dar – seguros para depois virarmos costas e queixarmo-nos do servilismo dos explorados. a altura para abandonarmos o gosto pela acção directa. juntamente com os seus cães de guarda. a lógica do castigo reconstruirá as suas jaulas e os seus horrores. algumas tentativas locais. Penso que esta não é. e isto porque as consideramos menos recuperáveis – ou seja. à insatisfação perceptível. mas que não chegaram ao ponto das dificuldades instrutivas típicas dos conflitos alargados. depois de Nassiriya. a solidariedade à competitividade degradante. encontramo-nos num impasse. troca e transporte existente. Portanto.

Se para vencer fosse necessário erguer uma forca. dizia Malatesta. Que o coro das mentes submissas repita que uma revolução é impossível não nos impressiona nem sur21 . (Quem sabe. os bancos. um papel crucial. não é uma panaceia. e não queremos nunca anularmo-nos em alianças com os estranguladores de toda a espontaneidade subversiva e de toda a liberdade. é aquela que defende a possibilidade de cada um viver da sua própria maneira. a sua visão da sociedade permaneceu a mesma: resumidamente. Paralelamente a esta fraca sensibilidade em relação a lutas que rompem a massificação – mas que. desenvolveu-se uma certa capacidade de intervenção autónoma. Hoje algo está a mudar. É só que muitas vezes. partido ou comité central. defenderemos com unhas e dentes a nossa possibilidade de viver sem impor nem receber ordens de nenhuma autoridade. como se uma necessidade individual confusa se deparasse com novas condições sociais – e disto saem os companheiros que falam inesperadamente de luta de classes. pondo de lado a retórica dos flyers. em tudo isto. a militar. A experiência histórica ensinou-nos que os piores opressores podem vestir as roupas do revolucionário. a única violência aceitável é a que liberta e não subjuga. ainda assim. o equipamento de controlo tecnológico e os laboratórios de vivissecção). nascem da massificação –. talvez tenha sido isto que deu origem a um certo rancor que transpirava nas disputas entre companheiros). a de que estamos cercados por cúmplices do poder. chegando talvez ao ponto de pedir emprestadas interpretações e gíria ao Marxismo. então eu preferiria perder. Para nós. Dispostos a unirmo-nos a qualquer pessoa que queira verdadeiramente derrubar a dominação existente. Existiram de facto 40 que a mentalidade subserviente precisa de um violento abanão juntamente com as instituições sociais. com um significativo alastrar de práticas de ataque contra as estruturas de dominação (entre elas a indústria nuclear.possibilidades colectivas. Penso que a falta de experiência em lutas sociais directamente vividas e estimuladas tem. mas sabemos também que uma insurreição é somente o início de uma mudança possível. Impor a liberdade é um contra-senso.

só para clarificar) vem sendo dada. alguns difíceis de decifrar. os sociólogos aos “lobisomens” (como os chamava a Pravda) do Maio Francês? Aqueles que fazem as revoluções por metades escavam a sua própria sepultura. E este é o único ensinamento que podemos retirar daqueles que nos precederam no caminho de uma revolução anarquista. pouca atenção aos conflitos sociais e às formas mais ou menos significativas de auto-organização dos explorados. Muitos companheiros que falavam de insurreição – um evento inquestionavelmente social – viam a sociedade como um espaço habitado quase na totalidade pelos servis e resignados. Era assim que começava um conhecido autocolante anti-militarista de há muitos anos. os aristocratas aos burgueses. a nossa determinação para atacar aqui e agora. Não é precisamente o que os trinta tiranos repetiam aos democratas atenienses. isto é devido a um problema de atitude.preende. os democratas aos anarquistas Espanhóis. outros claros porque nítidos como as barricadas. geralmente. Desde há alguns anos – pelo menos quinze – que no movimento de acção directa anarquista (aquele que é autónomo da Federação e do sindicalismo. os burocratas Estalinistas aos insurgentes Húngaros. permaneciam assim suspensos entre declarações de princípio e aquela que era a sua experiência de facto: indecisos relativamente a uma revolta assumidamente solitária. os latifundiários aos camponeses Mexicanos. O terreno da cedência e da submis22 Diz apenas que somos. Em seguida continuava dizendo que tudo não passava de uma nuvem negra que escurecia o céu. Não era apenas um artifício de optimismo. Aparte as razões históricas (a enorme pacificação dos anos 80). mas uma experiência real. pensamos que a nossa impaciência. Os próximos anos serão repletos de conflitos. Com esta visão. Consideramo-nos explorados junto com outros explorados. Não admitimos hierarquias fundadas nos riscos previstos pelo código penal: um folheto tem a mesma dignidade que uma sabotagem. fazem parte do conflito de classe. alguém disse. porque para nós a acção directa não se opõe à difusão das ideias. lentos a abrir a porta a 39 .

e que não desperdice o fôlego contra os servos do poder – porque procura libertar-se deles. Existe a necessidade de uma nova generosidade. Não digas que somos poucos. Prisão de Trento. capaz de tornar o desprezo pelo dinheiro um comportamento individual e social. mesmo com violência.. são ganha fissuras. capaz de subverter os cálculos típicos de donos de lojas dos nossos contemporâneos. Aqui reside o alpha e o omega de toda a subversão social. 38 23 .. constantemente. mesmo arriscando pôr a sua própria em jogo. porque é no quotidiano que o capital tece a sua rede de alienação. de dependência. Em suma. do seu consumo e da sua moralidade – diariamente. Os nossos cúmplices são e serão todos os indivíduos dispostos a bater-se para conquistar a liberdade juntamente com os outros. insaciavelmente. armada e resoluta. A auto-organização voltará a bater com força à porta da guerra social.confunda opressores com oprimidos. 23 de Julho de 2004. de grandes e pequenas capitulações. existe a necessidade de descobrirmos maneiras de exprimir a insuportável realidade deste mundo – dos seus empregos e das suas casas. mas para ir mais além. vários sinais de insatisfação demonstram-no. A guerra social joga-se nas nossas vidas.

” Mas não será a melhor coisa a fazer pelos companheiros presos fazer com que essas exigên- As notas que se seguem derivam de uma necessidade: a de reflectirmos em conjunto sobre a situação actual. Se estas notas contêm críticas desagradáveis. e que ataque a miríade de nódulos da exploração diária. Não no sentido dramático e auto-promocional preferido pelos que têm uma veia artística – notoriamente do tipo cadavérico –. Nem têm qualquer pretensão ou ilusão de preencher os vazios – de vida e paixão projectual – com um acordo mais ou menos formal sobre umas quantas teses. Não são a linha de um grupo em competição com outro. Elas são fruto de várias discussões nas quais o balanço crítico da experiência passada. Existe a necessidade de um ódio de classe que não saiba o que fazer com as antigas queixas.A céu aberto: notas sobre a repressão e afins panheiros que estão dentro. não é com o objectivo de as lançar como um fim em si mesmas. Existe a necessidade de uma tensão ética que nunca 37 . Como todas as palavras neste mundo. Mais vale uma nudez consciente do que qualquer tecido de ilusões. mas antes porque penso que continua a ser necessário dizerem-se coisas desagradáveis. com o objectivo de encontrar o fio condutor de uma possível perspectiva. por tantas razões. existe a necessidade de um corte que traga tanto para as relações individuais como para as praças públicas um comportamento de que ainda não ouvimos falar. a insatisfação com comportamentos de luta actualmente em curso e a esperança de potencialidades existentes se fundiram. Mais vale recomeçarmos do zero. Assim. é inútil olharmos para espelhos políticos que nos digam que não estamos nus. encontrarão eco apenas naqueles que sentem 24 cias por vida pelas quais eles foram presos se tornem socialmente perigosas? Neste sentido. mas antes no sentido de uma nova urgência por vida que se afirma sem vergonha. entretanto a repressão está a perseguir-nos. longe do cheiro a cadáveres e do lixo ideológico incompreensível aos indesejáveis deste mundo.

como disse Simon Weil. e com quem. para fazer pouco do controlo policial. Devemos abandonar todos os modelos. é renovado o pacto do espírito com o universo. Alguém pode responder “Sim. ou então determinar anexações rígidas a identidades e a suspeições mais ou menos paralisantes. uma pequena base para discussão de forma a alcançarmos uma compreensão daquilo que podemos fazer. não da humilhante frivolidade. e estudar as nossas possibilidades – E. gostaria ainda assim que estas notas fossem criticadas 25 . Poe Sabemos por experiência própria que uma das maiores forças da repressão é espalhar a confusão e instigar a desconfiança nos outros. A. É portanto aqui que reside o entusiasmo que deveria informar a nossa prática – o entusiasmo da leviandade consciente. Assim. Deixemos certas palavras de triste militantes para outros e evitemos os modelos que o poder conhece e espera. mas entretanto há com36 uma necessidade semelhante.o comportamento fora-da-lei é contagioso para aqueles que amam a liberdade. estas são possibilidades de reinventarmos por entre milhares de obstáculos. Não seremos capazes de atravessar o rio em que nos encontramos através de uma só iniciativa. Em resumo. seria bom examinar certos problemas em profundidade. porque não há festa sem uma ruptura com a normalidade. para experimentarmos com novas formas de acção colectiva articuladas e imaginativas. Porque “levar o pânico à superfície das coisas” é apaixonante. assim como em nós próprios. É melhor assumirmos que vai levar algum tempo. que vão pôr em questão muitos dos nossos hábitos mentais e práticos. Avizinham-se anos difíceis. o mais cedo possível. Se é verdade que o preconceito mais perigoso é pensar que não se tem nenhum. porque relações de amor sem restrições podem ser mais sinceras e completas. Para descobrirmos a verdadeira afinidade. porque na união de pensamento e acção. independentemente do quão boa ela seja.

de alargar. está a colapsar por 26 Com o retrocesso geral reformista. oculta o facto de estarmos a defender uma casa em ruínas num bairro inabitável. Fourier disse que uma paixão é revolucionária se oferece um aumento imediato da alegria na vida. Parece-me que a única saída possível é pegarmos fogo aos postos de defesa e sairmos para céu aberto. Mas não é aí que está a nossa força. o que é que isto significa? A época em que vivemos é tão pródiga em dilaceração que até a nossa capacidade de interpretar e. metáforas à parte. Nós baseamo-nos nisto. as poucas realidades de posições anti-capitalistas e anti-institucionais são como um incêndio na noite – e por isso há uma forte tentação de as manter firmemente apertadas num dos lados de certas barricadas. res de segundo grau das forças autoritárias que sufocaram tantas tendências subversivas estão nas lonas em termos de números e projectos. Sei por experiência própria que vários jovens abraçaram algumas realidades anárquicas porque descobriram que. Tanta discussão acerca de abrir para o exterior. em solidariedade e com a coragem das nossas próprias ideias. Mas. de prever acontecimentos. sacudindo o cheiro a mofo. por que razão é que os devíamos ajudar a resolver os seus problemas? Porquê arrastarmo-nos por entre as múmias quando sopra um vento forte? Eles fazem cálculos políticos. sem interpretações préfabricadas. nós não. Porquê? Porque o peso da mercadoria e do trabalho não é tão grande se o enfrentamos juntos. mais ainda. A situação em que nos encontramos parece-me ser a de alguém que se barrica no interior de quatro paredes para defender um espaço em que ninguém deseja viver.por aquilo que dizem. É na Uma casa inabitável experiência prática que realmente se vê quem é pela auto-organização. porque 35 . de aliar. vivemos melhor. Este parece-me ser o padrão mais fiável. Este desejo explicará o tom e também o estilo.

contra deportações ou por habitação – o problema das prisões (e. auto-defesa contra a repressão. tecnologias e conhecimento – a eventos como a luta de guerrilha em curso no Iraque. toda a luta autónoma enfrenta a repressão (enfrentando-a abertamente ou retirando-se. Da transforma- De certa forma. as lutas que rebentam com a pacificação não deixam espaço para administradores. uma repugnância relativamente à ditadura do Número – corresponde. debaixo dos destroços. Se isto é válido para todos os revolucionários. tornase cada vez mais misterioso. Mais cedo ou mais tarde. em parte. dos guetos e das prisões. em conflitos tanto pequenos como grandes. A auto-organização social é sempre. dos nossos companheiros presos). mas expondo as verdadeiras ligações com base na experiência comum. A ilusão do partido – em todas as suas variantes – é hoje o cadáver de uma ilusão.em tudo o que fazemos e dizemos – seja numa luta contra incineradoras. dos interesses que eles defendem. portanto. tentando evitá-la). Aquilo que sempre foi o nosso traço distintivo – uma visão de força nãohomogénea e não-cumulativa. o alinhar e a dissolução de forças no terreno. podemos 27 . Não simplesmente justapondo e colando a “questão prisional” para os outros. As ocupações de casas também apresentam o problema da polícia. as visões do mundo e da vida baseadas em modelos autoritários e quantitativos deram-se particularmente mal. também. Os administradores mais ou menos sabedores das lutas dos outros administram somente inúteis representações políticas de conflitos já pacificados. O alastrar. Saltar para o centro da oportunidade às actuais condições sociais e às imprevisíveis possibilidades de ruptura que lhes está inerente. Se os seguido34 ção da própria ordem dominante – através da sua rede de estruturas. nós temos uma oportunidade: a oportunidade de intervir em conflitos sociais – já existentes ou ainda por vir – sem mediação.

E incluindo 33 . companheiros ou não – fazem parte da defesa de uma casa que me é inabitável. porque é que em vez de nos quererem juntar aos seus comités. E isto independentemente do quão porreiras. Agir com bases claras. Desta forma. em resposta a Bordiga. continuamos a achar que agir em pequenos grupos é necessariamente sinónimo de agir isolados. correctas ou simpáticas estas pessoas possam ser. Frentes unidas. como afirmam esses Marxistas. por outro propomos esforços que assim o representam. Se tal consciência existe a nível teórico. Penso que temos de começar a procurar as formas de acção mais adequadas às nossas características. Malatesta disse “mas se. mas dirigindo-nos a todos os explorados. vêm sempre ao de cima as propostas do costu28 vidas a falarem por si próprias. nem sempre somos capazes de a manter nas propostas práticas. afirmamos que o poder não é um quartel general (mas antes uma relação social). É uma questão de perspectiva. às nossas forças (quantitativas e qualitativas). Se outros revolucionários aplicarem os mesmos métodos. Uma ordem dominante composta por milhares de centros de pontos vitais leva os seus inimigos a tornarem-se mais imprevisíveis. fazer as coisas entre anarquistas? De todo. face à detenção de companheiros e ao aumento da repressão em geral. É por isto que. não se juntam eles aos nossos?” E então.retirar algumas lições. união de acção entre forças revolucionárias – longe de qualquer objectivo de luta específico no qual qualquer pessoa que tivesse interesse se poderia encontrar. Uma vez. Posto isto. e cada vez mais sob a forma de uma miríade de acções dispersas e incontroláveis. a diferença entre nós e eles não é assim tão substancial. mas também mais eficaz contra as redes de controlo. qualquer pessoa que queira participar como um igual entre iguais é bem-vinda. todos beneficiarão. Por um lado. a todos os insatisfeitos com esta prisão social. Parece ser claro que os conflitos acontecem cada vez menos sob a forma de confronto entre dois exércitos ou frentes. Infelizmente. uma maneira não-centralizada de conceber acções e relações é não só mais libertária. mesmo com grupos pequenos. Existe uma atmosfera de aliança baseada em favores recíprocos que considero irrespirável.

em vez de cem anarquistas. e para isso temos de assinar manifestos e flyers escritos num palavreado relativamente impenetrável. mas a mentalidade que normalmente as acompanha. não é uma questão de criticar estas formas de acção em si. é melhor manter as nossas propostas alargadas e claras.. se quisermos.. Não quero que esta atitude seja interpretada como um “fechamento ideológico” ou uma procura de hegemonia sobre outros grupos. Obviamente. Se.certo a longo prazo). interpretações ideologicamente condicionadas e formalismo. podemos intervir de maneiras interessantes em marchas gigantes. que estão a redescobrir um uso apaixonado dos bloqueios de vias. Mesmo com uma centena. Precisamente de forma a evitar pensar em termos de acrónimos. sem nenhum grupo político em particular a actuar como porta-voz. a marcha. principalmente contextos locais – a marcha ou a concentração podem ter significado como parte de uma série de esforços. e em especial quando pensamos no limitado círculo de companheiros. mas antes todas as pessoas que se sentem envol32 me: a concentração. penso que a repetição de certos modelos acaba por criar um sentimento de impotência e por reproduzir o conhecido mecanismo de datas marcadas mais ou menos militantes. será que isto se trata mesmo de “expansão”? Não teria possivelmente mais significado mesmo que apenas dez pessoas organizarem uma iniciativa que confronte problemas sentidos por muitos e que expresse conteúdos mais perto do nosso modo de pesar e sentir? Quanto à solidariedade relacionada especificamente com companheiros dentro. etc. Em determinados contextos – na actualidade. têm para nos ensinar? 29 . Mas quando este interlaçar de várias formas de acção não existe. Também aqui há uma necessidade de ar fresco. pergunto-me: por quê uma marcha? O que podem uma centena de companheiros fazer numa cidade onde conhecem bem os pontos chave? O que é que as lutas em curso por todo o mundo. existem cento e cinquenta pessoas envolvidas numa determinada iniciativa porque cinquenta Marxistasleninistas se juntaram. Mas se somos apenas uma centena e pronto. existem formas bastante diferentes.

não apenas nos isolamos dos restantes explorados que sentem o peso do controlo social e do policiamento tal como nós. cumplicidade). mais arriscamos dar uma ajuda para reavivar teorias autoritárias que estão felizmente em ruínas. apesar da consciência do alcance social e universal da lâmina repressiva. os quais são completamente antagónicos aos nossos desejos anti-políticos. A solidariedade contra a repressão que atinge revo30 lucionários com os quais não temos qualquer afinidade tem de ser claramente distinta de apoio a projectos políticos que não partilhamos. à defesa dos seus companheiros detidos. Aqui nascem alguns problemas. os elementos revolucionários. É portanto surpreendente que. Por outro lado. no seio da totalidade da vida. ou seja. então toda a gente vai defender os seus próprios amigos e companheiros. A repressão – tanto directa como indirecta – envolve porções da população cada vez mais vastas. Sem nos debruçarmos sobre as razões de tudo isto. quanto mais vasta é esta esfera. paixões e projectos – e isto é inevitável. Ela é a resposta de uma ordem dominante que sente o chão a escapar-se-lhe por debaixo dos pés.Muitos aperceberam-se de que o problema da repressão não pode ser reduzido à esfera dos revolucionários. ciente do quão larga se está a tornar a fossa entre a insatisfação geral e as capacidades dos seus servos históricos (partidos e sindicatos).. mais fácil parece ser distinguir os dois níveis (o de solidariedade contra e o de solidariedade com. Desta forma. Agora. é suficiente dizer que os subversivos falam tanto sobre prisões porque é muito fácil ir parar lá dentro. quanto mais limitamos a esfera dos nossos esforços a revolucionários. mas por 31 .. a “solução” proposta pela maioria dos lados seja a união de acção entre. Se apenas nos conseguirmos opor à repressão com base naqueles sobre os quais ela se abate. como também nos enganamos a nós próprios acerca de um aspecto importante: essa “união de acção” tem um preço (talvez não imediatamente. aqueles com os quais se partilham ideias. e ao mesmo tempo sentem a necessidade de não se limitarem. se a relação de forças for favorável.