AGENDA 21: UMA PROPOSTA DE DISCUSSÃO PARA O CONSTRUBUSINESS BRASILEIRO FICHAMENTO

INTRODUÇÃO A construção de uma sociedade realmente sustentável passa por uma radical transformação nos padrões de consumo e processos de produção. Novas formas de morar e a adoção de novas tecnologias de construção precisam ser implementadas em caráter de urgência, é sobre este ponto de vista que estaremos discutindo sustentabilidade da construção civil neste artigo. O conceito de Construbusiness inclui a indústria da construção em si e todos os segmentos industriais indiretamente ligados a suas atividades, formando um dos setores de maior expressão em qualquer economia. O impacto ambiental do construbusiness varia de país a país, todavia a indústria da construção e seus produtos consome em média aproximadamente 40% da energia e dos recursos naturais e gera 40% dos resíduos produzidos por todo o conjunto de atividades humanas. A massa de resíduos gerados de construção e demolição é igual ou superior a massa de lixo urbano, em torno de 400kg/hab.ano. A operação de edifícios consome cerca de 50% da energia elétrica no Brasil. Fica patente que não há desenvolvimento sustentável sem construção sustentável. Em 1999, o CIB publicou pioneiramente a Agenda 21 on Sustentainable Construction. Este relatório detalha os conceitos, aspectos e desafios apresentados pelo chamado desenvolvimento sustentável para a construção civil. No entanto, a maior parte das contribuições para esta publicação veio de países desenvolvidos, ou seja, a visão de primeiro mundo domina a discussão de desenvolvimento sustentável a nível internacional. O impacto ambiental de sociedades como a brasileira é diferente porque a estrutura industrial de consumo é diferente, isto explica o fato de a geração per capita de CO2 na América Latina ser seis vezes inferior a dos EUA e Canadá. Desenvolvimento sustentável também implica em equidade social, ou seja, a construção de infraestrutura e habitações para a população é uma demanda fundamental na Agenda 21 de países em desenvolvimento com realidades sócio-culturais diferentes e consequentemente com estratégias de implementação diferenciadas, inclusive para a construção. Em conferência realizada na Holanda em 2000 o Council for Research and Innovation in Building and Construction(CIB) conclamou a realização de um acompanhamento pró-ativo no sentido de estimular iniciativas e intervenções para a construção sustentável nos países em desenvolvimento e no mesmo ano em São Paulo, o CIB anunciou oficialmente o apoio ao desenvolvimento de uma Agenda 21 já em andamento neste sentido, cujos objetivos principais são: a) Identificar os desafios-chave; b)Identificar as maiores barreiras: c)Orientar investimentos internacionais em P&D; d)Estimular discussão sobre construção sustentável nestes países.Este trabalho mantém a Agenda 21 organizada em três grandes blocos a saber: a) Aspectos de edifícios e produtos de construção; b) Consumo de recursos; c) Gerenciamento e organização. Qualidade ambiental de edifícios, processos e produtos de construção: Qualidade do ar interno Sua crescente relevância é especialmente devido a (1) tendência a aumentar a estanqueidade do envelope das edificações em favor da conservação de energia, porém sem a devida renovação do ar; e(2) utilização de materiais e substâncias que causem prejuízo à saúde dos ocupantes, como abestos, chumbo etc. O aumento no uso de ar-condicionado em residências deverá atrair atenção para este campo em muito pouco tempo.

. As auditorias ambientais aplicadas às construções existentes. considerados perigosos. que no longo prazo influenciarão nos futuros projetos e execuções de edifícios. Boa parte do RCD gerado segue para aterros ilegais e sem controle. Primeiro para aumentar a produtividade e controle da qualidade do projeto e execução. podem identificar os componentes mais críticos no desempenho destas edificações e avaliar o impacto potencial das diferentes alternativas de renovação disponíveis. e P&D de metologias. entendidos como aqueles desnecessariamente incorporados aos serviços. Seleção de materiais ambientalmente saudáveis O banimento de produtos perigosos. Com uma política de incentivo à P&D. Segundo. Os resultados revelaram boas oportunidades de reduzir a parcela de resíduos pela alteração de procedimentos de projeto e gerenciamento. atividades de medição e gerenciamento do uso de água em edifícios. que acabam consumindo verbas das administrações municipais para desobstruir as redes públicas e tentar evitar inundações em áreas urbanas. Portanto é necessária a implementação de uma estratégia global de reciclagem com intervenções em dois momentos do processo de construção de edifícios. congregando membros da academia. e o Programa Nacional de Combate ao Desperdício de Água (PNCDA). há dois programas em andamento no Brasil que merecem destaque: o Programa para Uso Racional de Água (PURA). As avaliações ambientais de edifícios procuram identificar os níveis de (1) utilização de recursos naturais.Avaliação ambiental de edifícios e de produtos para construção com base em seu ciclo de vida A análise do Ciclo de Vida (ACV) é uma ferramenta fundamental para medir o impacto ambiental de medidas que visem reduzir a quantidade de recursos naturais incorporada à produção de bens e materiais. com resultados ambientais extremamente positivos no curto e médio prazos. Reciclagem de RCD e aumento no uso de reciclados como materiais de construção A incorporação de reciclados na produção de materiais de construção ajuda a reduzir o consumo de recursos naturais. porém este procedimento pode apresentar riscos de contaminação ambiental e da saúde caso não seja realizado de acordo com critérios técnicos. As avaliações ambientais podem sustentar a incorporação de requisitos globais de desempenho em normas de edificações. Por outro lado. o volume desnecessário de aterros. Redução de consumo de recursos naturais Redução de desperdício e gestão de resíduos Em recente projeto financiado pela FINEP. Uso racional de água Nesse campo. esta postura pode ser por um número ainda maior de indústrias. certamente devem fazer parte de uma agenda. tecnologias e equipamentos de baixo consumo. Esta estratégia de avaliação no Brasil está centrada na formação de uma rede nacional de pesquisa. foram mensurados resíduos diretos(entulhos) e indiretos. desenvolver e incluir esquemas de separação e coleta de RCD no planejamento dos canteiros e posterior aproveitamento destes resíduos no processo construtivo. (2) geração de poluição e emissões. representantes governamentais e do setor produtivo. para inicialmente trabalhar na identificação de itens mais importantes da agenda ambiental regional/local e na definição de um desempenho de referência compatível com a realidade brasileira. sendo o primeiro estadual. e pode resultar em materiais mais duráveis. Estes dois programas desenvolvem campanhas educativas. executores e empreendedores) com monitoramento de qualidade nos edifícios. e (5) contexto de inserção. Poluição em canteiro e indústrias Os canteiros de obras geram poeira e ruído e processos de construção limpa certamente serão necessários. (3) qualidade do ambiente interno. proporcionando redução de impactos às novas construções. para aquela parcela inevitável de resíduos gerados. como amianto e chumbo. (4) comprometimento ambiental dos agentes envolvidos (projetistas.

empregando reciclados na construção etc. O cumprimento de metas sociais depende em grande parte de vontade política. que instituiu um selo de conformidade de consumo para eletrodomésticos e sistemas de energia solar. Na busca de soluções para este problema as únicas iniciativas nacionais de relevo são: (1) o Programa de Conservação de Energia Elétrica (PROCEL). mas também de uma maior aproximação entre o setor de construção os agentes sociais interessados. A experiência internacional demonstra que o desenvolvimento de regulamentações de eficiência energética de edificações. de infraestrutura e serviços sanitários O princípio do desenvolvimento sustentável apoia-se na igualdade econômica e social. Apesar da disponibilização de manuais de usuários ser hoje uma prática comum. incorporando a dimensão humana. • Desenvolvimento de normalização orientada à qualidade ambiental de edifícios e produtos para construção. • Educação e conscientização pública. A implementação de Programas Setoriais de Qualidade (PQS). . más também a sua durabilidade funcional. No entanto. através da implementação de gerenciamento da qualidade total.esquemas de certificação e rotulagem ambiental têm papel fundamental no salto de desempenho ambiental do estoque construído e de novas edificações. contribuem expressivamente para o aumento do consumo energético nestas edificações.Uso racional de energia e aumento da eficiência energética do setor. • Re-engenharia do processo construtivo. infraestrutura e serviços sanitários.A declaração da vida útil de componentes de construção que é apresentada na norma ISO 15686-1 constitui-se numa informação-chave também para aplicar a metodologia de custo global na seleção das tecnologias mais competitivas em cada situação específica. Gerenciamento e organização de processos Alguns aspectos a serem considerados sob este ponto de vista são: • Definição de padrões e melhoria da qualidade ambiental das construções. visando minimizar as deficiências de projeto. Boa parte das ruas não é pavimentada e parcela crescente da população urbana vive em favelas.e (3) o programa energia limpa do MCT que investe no consumo de energia solar para aquecimento de água em habitações. não raro em áreas de proteção ambiental. (2) a discussão da norma ABNT que trata da arquitetura bioclimática. é conveniente que o conceito de qualidade seja ampliado para além dos aspectos técnicos. • Intensificação do caráter multidisciplinar do projeto. enfatizando a formação profissional. • Capacitação de recursos humanos e melhoria da segurança no ambiente de trabalho. demanda por tecnologias de conservação de energia As tentativas de melhoria de conforto nos edifícios energeticamente ineficientes levam à utilização de equipamentos para condicionamento que. reciclando RCD. A manutenção raramente é alvo da devida atenção durante o planejamento dos empreendimentos. iniciada nos anos 90 por alguns setores industriais. Melhoria da qualidade da construção A melhoria da qualidade precisa se integrar a Agenda 21 da Construção. embora também pouco eficientes. Agenda social: Déficit habitacional. para aumentar a eficiência global do processo. Aumento da durabilidade e planejamento da manutenção O conceito de vida útil compreende não apenas aumentar a durabilidade da construção em termos físicos. e os esforços para melhoria da qualidade ora conduzidos pelo construbusiness estão no caminho certo e devem ser intensificados. na maioria deles faltam informações detalhadas sobre manutenção. O Brasil tem ainda um grande caminho a percorrer para superar seus problemas de habitação.

torna-se. Engenheiros e arquitetos têm papel fundamental na seleção e adoção de tecnologias. funcionam como ferramentas de informação e marketing. Algumas associações industriais inclusive já adotaram metas de qualidade com reflexos ambientais evidentes.NECESSIDADE DA INTERAÇÃO INSTITUCIONAL O estabelecimento de redes de trabalho sinérgicas. comprar ou reformar que gerem menor impacto ambiental. como aquelas relacionadas à redução gradual do consumo de água em sanitários. portanto. ao demonstrar os benefícios ambientais de diferentes soluções. * Auxiliar no desenvolvimento de metodologias de avaliação ambiental de edifícios e de instrumentos que. * Desenvolvimento de soluções abrangentes para edifícios e outros produtos de construção. materiais e produtos menos agressivos. . pois somente através dela é que a sustentabilidade das habitações auto-construídas poderá ser atingida. a partir de interesses ambientais e econômicos comuns. componentes e equipamentos de construção seja engajada neste esforço. fortalecendo o apelo mercadológico facilitando a percepção de soluções disponíveis para construir. uma estratégia das mais eficientes para: * Transferência de conhecimento para profissionais do mercado da construção. É fundamental que a indústria de materiais.