Modernismo

Não quero mais saber do lirismo que não é libertação. (Manuel Bandeira) Fases do modernismo 1ª fase: 1922-1930 (fase “heróica”, revolucionária, antipassadista, e iconoclasta); 2ª fase: 1930-1945 (fase de consolidação da proposta modernista, incorporação de uma temática social, por alguns, e espiritualista, por outros); 3ª fase: 1945-195... (fase de maior apuro formal e de abandono da radicalidade que marcara a primeira fase); 4ª fase: 195...-196... (fase das vanguardas poéticas: Concretismo, Poema-Praxis, Poema Processo, e da poesia de comprometimento social: Violão de Rua); 5ª fase:197...-198... (fase da “geração do mimeógrafo”, da poesia “marginal”, de uma poesia discursiva sobre o cotidiano das cidades).

Modernismo: 1ª fase (1922-1930)
•Referências históricas •Início do século XX •I Guerra Mundial •Crise de todos os valores europeus •Movimentos de vanguarda: Cubismo Futurismo –Expressionismo- Dadaísmo – Surrealismo Vanguardas européias Em meio as mudanças que ocorreram durante o séc. XIX e que transformaram, em vários aspectos, a sociedade, surgiram movimentos artísticos que questionavam o passado e buscavam novos caminhos. Entre 1907 e 1910, obras e manifestos já anunciavam o que seria a modernidade artística. Surgiram, dessa forma, as vanguardas. (séc. XX) Cubismo: A valorização do presente. Na pintura, decompunha os objetos da realidade cotidiana em diferentes planos geométricos para sugerir a sua estrutura global, como se fossem vistos de diferentes ângulos. O espanhol Pablo Picasso e o francês Georges Braque podem ser considerados os iniciadores desse movimento. A literatura cubista valoriza a proposta da vanguarda européia de aproximar ao máximo os vários movimentos artísticos (pintura, música, escultura, etc.), preocupando-se com a construção do texto e ressaltando a importância dos espaços em branco e em preto da folha de papel e da impressão tipográfica. Valorizava também: Subjetivismo;Ilogicidade;O tempo presente;A enumeração caótica;Humor;Palavras em liberdade;Invenção de palavras;Substantivos soltos, jogados de forma anárquica;Verso livre, negação da estrofe, da rima e da harmonia;Negação dos verbos, adjetivos e pontuação. Futurismo: A valorização do futuro. Movimento lançado pelo poeta italiano Marinetti, em 1909, que propunha a destruição do passado, a exaltação da vida moderna, o culto da máquina e da velocidade, pregando uma arte voltada para o futuro, agressiva e violenta, enaltecendo a guerra, o militarismo e o patriotismo.

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ainda sufocados pela linguagem anacrônica da arte dominante. etc). a irreverência e a aproximação com o mundo dos loucos e das crianças. o sarcasmo. angústia. O Dadaísmo: O movimento dadaísta foi iniciado pelo francês Jean Arp e o romeno Tristan Tzara. Daí o automatismo psíquico. dos sonhos. cheiros ouve barulhos. apresentam rostos e corpos distorcidos. escreve um artigo feroz intitulado “Paranóia ou mistificação”. na Suíça. quer verbalmente. trivial e sem ousadia pictórica. quer por escrito. acostumado com o realismo acadêmico. através de jornais paulistas. da pátria. depois de Estudar na Europa e nos Estados Unidos. São temas recorrentes de suas obras: o sexo. ilógico. pelo contrário. o surrealismo tinha como características principais: busca da emancipação do homem fora do lógico. as livres associações. Gauguin e Van Gogh. principalmente as idéias futuristas de Marinetti. Ditado do pensamento. a sua pintura surpreende o público. de Duchamp. buscava-se uma antiare. Conferiam importância ao sonho e à exploração do inconsciente. a invenção de palavras. Oswald de Andrade. absurdo e incoerente. as reações são favoráveis. O Surrealismo: A valorização do inconsciente. a eliminação da pontuação e a abolição do adjetivo. a memória. Anita Malfatti retorna ao Brasil e realiza uma mostra de seus quadros em São Paulo. Com isso. o sono e o sonho. Mas. a não ser em grupos reduzidos de jovens intelectuais. Em Salvador Dalí.Preconizava-se também a destruição da sintaxe. a rigor. a deformação da realidade O expressionismo moderno já se manifestava em obras de Edvard Munch (O Grito)." No período que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. da moral e da religião. antiburguês. em grande parte derivado do Dadaísmo. do advérbio e das conjunções. Com uma técnica de vanguarda. recém-chegado da Europa. A exposição de Anita Malfatti Em 1917. o último dos grandes movimentos de vanguardas: o surrealismo. Daí o caráter anárquico. floresceu na Alemanha e teve seu melhor momento entre os anos de 1905 e 1920. as novas correntes estéticas européias. Em resumo. No momento. fora de qualquer preocupação estética ou moral.Ex: a roda de bicicleta enxertada numa cadeira. anti-racional. As cenas traziam aspectos que eram apelos às sensações do observador (que sente frio. Expressionismo: a valorização do dos sentimentos. dor e ansiedade por meio do choque provocado pelas cores vibrantes. da família. em Zurique. praticando o automatismo psíquico e a expressão. calor. Esses artistas já manifestavam expressões de medo. irracional e anárquica. O primeiro manifesto aparece em 1924. As figuras humanas retratadas pelo expressionismo não tem traços bem definidos.m: Automatismo psíquico puro pelo qual se pretende exprimir. antiimperialista. da razão. até que Monteiro Lobato. distorções e exagero de formas. com os substantivos dispostos ao acaso. a influência de Freud é marcante. surge. a caricaturas. quer por qualquer outra maneira.made que consiste em extrair um objeto de seu cotidiano e. assinado por André Breton. em geral. Mas. assemelham-se a máscaras. que havia participado das últimas rodas dadaístas. sem nenhuma ou pequenas alterações. no qual acusa toda a Arte moderna: 2 . libertada da censura e sem o controle da razão. vivia-se a Primeira Guerra Mundial.Ressalta-se ao técnica do ready. da fantasia "Surrealismo s. Antecedentes nacionais: Por volta de 1912. começa a divulgar. crítico de artes de O Estado de São Paulo. atribuirlhe um valor. essas idéias não encontram grande receptividade. o funcionamento real do pensamento. a exaltação da total liberdade de criação. na ausência de qualquer controle exercido pela razão.

Percebe-se neles o quão forte era a herança parnasiana.Há duas espécies de artistas.) Embora eles se dêem como novos. metaforicamente. par que os jovens "futuristas" brasileiros. Mas sabemos o que não queremos. nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranóia e com a mistificação.. que confiava cegamente nas opiniões e gostos pessoais do autor de Urupês. recitais. com a conferência equivocada de Graça Aranha. se unam em torno de um ideal comum: destruir as manifestações artísticas que remontavam ao século XIX. quadros devolvidos. o qual não comparecera ao teatro por motivos de saúde: “Os sapos”. até então dispersos. Menotti del Picchia.Manuel Bandeira A Semana de Arte Moderna Finalmente. entretanto. e mesmo a simbolista ou a romântica. uma procura. no caso da literatura. Oswald de Andrade sintetiza o clima da época ao afirmar: "Não sabemos o que queremos. Quatro estréias promissoras Ainda em 1917. música e artes plásticas. O objetivo dos organizadores era acima de tudo a destruição das velhas formas artísticas na literatura. o parnasianismo poético. Programaram-se conferências. Uma composta dos que vêem normalmente as coisas (. Mas. O Teatro Municipal foi alugado. com sua iconoclastia pesada. a exposição de Anita Malfatti funciona como estopim de um movimento que explodiria na Semana de Arte Moderna.) Essas considerações são provocadas pela exposição da senhora.. Paralelamente. interrompendo a sessão. “A emoção estética na Arte Moderna”. realiza-se em São Paulo a Semana de Arte Moderna. Desde a abertura da Semana. gritos. eles intentavam caminhos alternativos: Há uma gota de sangue em cada poema . é imediata: escândalo. etc. surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. Oswald de Andrade e outros. leituras. precursores de uma arte a vir. que ainda dominavam o gosto do público. Toda uma atmosfera de provocação se estabeleceu nos círculos letrados da capital paulista. isolados em pequenos agrupamentos. foram só três noites) implicava uma amostragem geral da prática modernista. Malfatti onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia. (.. O artigo demolidor serve.) A outra espécie é formada pelos que vêem anormalmente a natureza e interpretam-na à luz de teorias efêmeras.. exposições. o público se manifestaria por vaias e aplausos fortes." A proposição de uma semana (na verdade. Trata-se de uma ironia corrosiva aos parnasianos. sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes. em fevereiro de 1922. Principais participantes da Semana 3 . Porém. quando Ronald de Carvalho lê um poema de Manuel Bandeira. são editados livros de poemas de quatro jovens autores.Guilherme de Almeida Cinzas das horas . ainda que eles mesmos estivessem confusos a respeito de seus projetos artísticos.(. mas se pode vislumbrar também algo de novo. A reação da elite paulistana. o momento mais sensacional da Semana ocorre na segunda noite. até a leitura de trechos vanguardistas por Mário de Andrade. Ainda com timidez. patadas.Mário de Andrade Nós . uma tentativa de agressão à pintora. o poema delimita o fim de uma época cultural. Havia dois partidos na cidade: o dos futuristas e o dos passadistas. Neste sentido. procuravam apresentar e afirmar os princípios da chamada arte moderna. a mostra fechada antes do tempo.. Este reage através de vaias. especificamente. Mais uma ânsia. um grito abafado que propriamente uma realização. medíocre e superado.

Caberia ainda ao próprio Mário de Andrade . por outro lado. certa destrutividade gratuita. O estilo parnasiano e o bacharelismo são os alvos prediletos dos ataques modernizadores. É possível. que a Semana não tenha se convertido no fato mais importante da cultura brasileira. certa ironia superficial e enorme confusão no plano das idéias.Sérgio Milliet Música e Artes Plásticas: Anita Malfatti . A atualização intelectual com as vanguardas européias.Guilherme de Almeida .verdadeiro líder e principal teórico do movimento . a expressão gasta.e instaura o império da experimentação. o romantismo musical e o parnasianismo literário esboroam-se por inteiro. como queriam muitos de seus integrantes.Adoção das conquistas das vanguardas 4 . De qualquer maneira.Santa Rosa . ela significa também o atestado de óbito da arte dominante.Ronald de Carvalho Menotti del Picchia .Villa-Lobos . e no período que a sucede imediatamente (1922-1930). com suas fórmulas envelhecidas. o sarcasmo. uma maior impregnação "com a angústia do tempo". os autores que organizaram a Semana colocaram a renovação estética acima de outras preocupações importantes. Há dentro dela. algo de indispensável para a fundação de uma arte verdadeiramente nacional.Graça Aranha . As questões da arte são sempre remetidas para a esfera técnica e para os problemas da linguagem e da expressão. sob o domínio de doutrinas européias nem sempre bem assimiladas.Oswald de Andrade . busca da expressão nacional 1. a rebelião modernista destrói o imobilismo cultural . O direito permanente de pesquisa e criação estética. 2. preocupada em expressar a realidade brasileira.Guiomar Novaes A importância estética da Semana Se a Semana é realizada por jovens inexperientes.que entravava as criações mais revolucionárias e complexas .Di Cavalcanti .Desintegração da linguagem tradicional Questiona-se toda a arte acadêmica. usa-se a paródia. O academicismo plástico. a piada. a linguagem convertida em clichês. conforme acentuam alguns críticos. de Oswald de Andrade. levam essa prática às últimas conseqüências. O principal inimigo eram as formas artísticas do passado.sintetizar a herança de 1922:    A estabilização de uma consciência criadora nacional. adoção das conquistas de vanguardas.. Mário de Andrade dirá mais tarde que faltou aos modernistas de 22 um maior empenho social. certa vaidade. Ela cumpre assim a função de qualquer vanguarda: exterminar o passado e limpar o terreno. Com efeito.Literatura: Mário de Andrade . O MODERNISMO DE 22 A 30(FASE DE DESTRUIÇÃO E EXPERIMENTAÇÃO) O projeto dos modernistas de São Paulo pode ser dividido em três linhas básicas que se conjugam e confundem: desintegração da linguagem tradicional. Os romances Serafim Ponte Grande e Memórias sentimentais de João Miramar. Para efetivar tal destruição.

a afirmativa de que os modernistas seriam antieuropeus. porque certamente nestes classificados pululam os dramas mais banais e os interesses mais comuns da humanidade. Características da Literatura Modernista •Liberdade de expressão A importância maior das vanguardas residiu no triunfo de uma concepção inteiramente libertária da criação artística. Manuel Bandeira sobrepõe a humildade do beco: Que importa a paisagem. Drummond celebra as dentaduras postiças. a linha do horizonte? . o prosaico. A revista Klaxon. questionando a tonalidade usual. elementos dos quais se apropriará. . Agora. À grandiosidade da paisagem. todas as normas foram abolidas. Oswald de Andrade assiste a uma exposição de máscaras africanas. A aventura do cotidiano leva o artista a romper com os esquemas de vida burguesa. O nacionalismo surge no horizonte do grupo modernista apenas em 1924. Em resumo. O pintor. a visão amorosa e crítica do cotidiano. o artista está consciente de que todos os objetos podem se tornar literários.O que eu vejo é o beco. Não tem fundamento. Acima de tudo. portanto. de 1922. Ele descobre o folclórico e o popular. Busca da expressão nacional Em 1924. de Manuel Bandeira. •Incorporação do cotidiano Uma das maiores conquistas do modernismo. o grosseiro. pois. a linguagem coloquial e outras inovações desenvolvidas pelas vanguardas européias são assimiladas. de uma alma verde-amarela. A liberdade só poderá ser cerceada por regimes autoritários que proibirem a circulação dos objetos artísticos. a Glória. ainda que desordenadamente pela geração de 22. algo de inimaginável no século anterior: 5 . Antes. Sonha-se com a delimitação de uma cultura brasileira. apenas assuntos "sublimes" tinham direito indiscutível ao mundo literário. o resíduo e o lixo tornam-se os motivos centrais da nova estética. começava a delinear-se a luta por um abrasileiramento temático. em um de seus curtos poemas em prosa. a valorização da vida cotidiana traz para a arte uma abertura temática sem precedentes. as questões fundamentais eram estéticas. o vulgar. a baía. Elas parecem expressar toda a identidade dos povos negros da África. A partir de agora passam a ser ideológicas: vai se discutir o nacional e o popular em nossa literatura. Picasso não pintará mais o real e sim a sua interpretação do real. o escritor ou o músico não precisa se guiar por outras leis que não as de sua própria interioridade e de seu próprio arbítrio. Oswald se interroga: "E nós. Compositores como Schönberg e Stravinski levarão a música a novos limites. “Poética”. A identificação com as velhas matrizes culturais ainda é evidente. Mário Quintana afirma. até então. os brasileiros? Quem seríamos? Qual o nosso retrato? Alguma arte nos representaria tão significativamente como aquelas máscaras?" Atrás dessas perguntas. Nesse momento.A liberdade de expressão. 3. que "os verdadeiros poetas não lêem os outros poetas e sim os pequenos anúncios dos jornais". e os primeiros textos publicados no ano da Semana mostram essa preocupação com a contemporaneidade. com seu célebre verso final: Não quero mais saber de lirismo que não é libertação. em Paris. o diário. é um manifesto dessa nova postura.

A contribuição milionária de todos os erros. admite erros gramaticais. Vejamos um trecho de “Consideração do poema”. Há que contentar-me com uma ponte móvel e esparsas coroas.. Rimarei com a palavra carne Ou qualquer outra... quanto no da ficção. As principais conquistas foram: Verso livre O verso já não está sujeito ao rigor métrico e às formas fixas de versificação. Também a rima se torna desnecessária.  Influência do Futurismo: Destruição dos nexos sintáticos 6 . Também Manuel Bandeira admite a contribuição da linguagem popular: A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros Vinha da boca do povo na língua errada do povo Língua certa do povo Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil (. a linguagem torna-se coloquial. Há uma forte aproximação com a fala. esta dessacralização dos conteúdos encontra correspondência na linguagem. isto é. liberto da escrita nobre. mesclando expressões da língua culta com termos populares. o estilo elevado com o estilo vulgar. Natural e neológica. conforme Oswald de Andrade preconiza no Manifesto da Poesia Pau Brasil. Além das inovações técnicas.Dentaduras duplas Inda não sou bem velho para merecer-vos.(.. tanto no domínio da poesia. por exemplo. Sem erudição. como o soneto. espontânea. Ele próprio ironiza esta questão em “Vício na fala”: Para dizerem milho dizem mio Para melhor dizem mió Para pior pió Para telha dizem teia Para telhado dizem teiado E vão fazendo telhados. o artista volta-se para uma forma prosaica de dizer. com a oralidade.) •Inovações técnicas O rompimento com os padrões culturais do século XIX implicaria no aparecimento de novas técnicas.) •Linguagem coloquial Este anticonvencionalismo temático.. Assim. inclusive. feita de palavras simples e que. de 1824: A língua sem arcaísmos. de Carlos Drummond de Andrade: Não rimarei a palavra sono com a incorrespondente palavra outono.. todas me convêm.

as têmporas da romã. que se torna mais solta. o tempo temporã. que permite múltiplos níveis de leitura. por exemplo). de Gonçalves Dias. preposições. mais descontínua e fragmentária e. flashes cinematográficos. obra que não apresenta univocidade. Uma rede de significações.. Um dos livros de crítica literária de Mário de Andrade chama-se A escrava que não é Isaura. com vistas à substantivação da linguagem. Paronomásia Figura muito usada depois de 1922. Poucos poetas resistiram à chance de parodiar a antológica “Canção do exílio”. em lugar do substantivo acompanhado do adjetivo (praça-funil. Ou seja. de Manuel Bandeira. vinculados a uma idéia ou várias idéias básicas. É a chamada obra aberta. Agora. Uma mulher experiente que o poeta deseja? Uma prostituta? A própria vida a que Bandeira pela doença foi obrigado a abdicar? Paródia Os modernistas realizam.• Abolição dos adjetivos e advérbios. por exemplo. No final da leitura. “Canto do regresso à pátria”: Minha terra tem palmares Onde gorjeia o mar Os passarinhos aqui Não cantam como os de lá 7 . sem ligação evidente entre si. ou seja. Influências cubistas: Fragmentação da realidade. mas de significado diferente. não sabemos com absoluta convicção o que essa estrela simboliza.• Emprego de verbos no infinitivo.• Abolição da pontuação• Destruição do eu psicologizante. é um poema representativo do polissenso da literatura contemporânea. consiste na junção de palavras de sonoridade muito parecida. Enumeração caótica Consiste no acúmulo de palavras que designam objetos. conjunções.Os chamados nexos sintáticos. ele oferecia ao leitor apenas um sentido. ele tem um caráter variado e polissêmico. predominância dos substantivos. Carlos Drummond é um especialista em paronomásias: Melancolias." Da mesma maneira. mais sintética: Destruição da sintaxe e a disposição das “palavras em liberdade”. as têmporas da hortelã. as têmporas do tempo. sensações. em todas as artes. como o de Oswald de Andrade. mercadorias espreitam-me. seres. etc. os modernos terminar por reescrever alguns dos textos consagrados sob uma perspectiva de humor: é a paródia. Com freqüência. conforme podemos verificar num conjunto de excertos. fundamentalmente. que não se esgota numa única interpretação “Estrela da manhã”. No universo literário. numa evidente alusão ao romance de Bernardo Guimarães.• Uso do substantivo duplo. mulhergolfo. uma aproximação crítica das obras do passado. Ambiguidade O discurso literário perde o sentido fechado que geralmente possuía no século passado. a releitura de textos famosos das escolas anteriores torna-se uma forma de rejeição ou de admiração. Murilo Mendes escreve: "As têmporas da maçã. são eliminados da poesia moderna. uma interpretação.

A ironia contra o bacharelismo: "O lado doutor.A luta por uma nova linguagem: "A língua sem arcaísmo. Riqueza vegetal..) Contra a cópia.. pela invenção e pela surpresa. A hospitalidade um pouco sensual. O sabiá. Comovente. amorosa. o lado citações. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela. cubos de arranha-céu e a sábia preguiça solar..A descoberta do popular: O Pau-Brasil descortina para os modernistas o universo mítico e ingênuo das camadas populares: "O Carnaval é o acontecimento religioso da raça. da ausência de pontuação. Wagner submerge ante os cordões de Botafogo. o lado autores conhecidos. e da dicção humorística." Exemplo do conjunto da visão oswaldiana.(. O carnaval. A energia íntima.) A riqueza dos bailes e das frases feitas. sem erudição. o contraste que o autor estabelece entre a natureza européia. entre o português que veste o índio com seus valores repressivos e o índio que poderia ter despido o português desses mesmos valores. Como somos.A junção do moderno e do arcaico brasileiros: "A poesia existe nos fatos. A saudade dos pajés e os campos de avaliação militar.." .." . Antropofagia: 8 .. tendo a locução interjetiva "Que pena!" como indicadora da posição do poeta perante os fatos.. sob o azul cabralino.. Pau-Brasil.) Não permita Deus que eu morra Sem que eu volte para São Paulo Sem que eu veja a rua 15 BUSCA DA EXPRESSÃO NACIONAL :OS MOVIMENTOS PRIMITIVISTAS Pau-Brasil: Lançado em março de 1924.) Falar difícil. encontra-se em “Erro de português” (1925): Quando o português chegou Debaixo de uma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português Observe-se no poema. A reza.Minha terra tem mais rosas E quase que mais amores Minha terra tem mais ouro Minha terra tem mais terra (. são fatos astéticos (. (.) obuses de elevadores. A contribuição milionária de todos os erros. além do verso livre... com a tropical. na época. Pau-Brasil. Como falamos. o Manifesto da Poesia Pau-Brasil trazia como idéias-chave: . A formação étnica rica." . marcada pelo frio e pela chuva. marcada pelo sol. (. Natural e neológica.

Além disso.br/manifestos/antropofagico/ 9 . centrada numa sociedade matriarcal.. o poeta teve a intenção de criticar a burguesia através dessas inovações." . Ode ao burguês Morte à gordura! Morte às adiposidades cerebrais Morte ao burguês-mensal! ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi! Padaria Suíssa! Morte e vida ao Adriano! “-Ai. . “burguês-níquel”. Oswald de Andrade não produz nenhuma obra ficcional ou poética dentro do espírito antropofágico (a não ser..uol. Verde-Amarelo (1924) e Anta (1928): Com a participação de Cassiano Ricardo.P.A postura antropofágica como alternativa entre o nacionalismo conservador.a realidade sem complexos. “homem-nádegas”. Menotti del Picchia e Plínio Salgado. sem loucura. a tentativa de levar para o espaço da criação literária as idéias do Manifesto.1 lançado em 1928.A insistência radical no caráter indígena de nossas raízes: "Tupy or not tupy that is the question".) Fizemos Cristo nascer na Bahia. Caberia a Mário de Andrade. com o romance Macunaíma. sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama. usando palavras. com o poema Cobra Norato.B.. a peça Rei da vela). cadastrada por Freud .O humor como forma crítica e traço distintivo do caráter brasileiro: "A alegria é a prova dos nove". estas tendências opõem-se ao primitivismo destruidor e debochado dos "antropófagos" através do reforço do "sentido de brasilidade" e de uma tendência conservadora e direitista no plano social. criando expressões com dois substantivos. Ou em Belém do Pará.A criação de uma utopia brasileira. anti-europeu e a pura cópia dos valores ocidentais: "Nunca fomos catequizados.. que rejeitava a incorporação de elementos da música pop internacional à música brasileira. O Futurismo e Mário de Andrade Mário de Andrade utilizou a técnica futurista no poema “Ode ao burguês”. anárquica e sem repressões: "Contra a realidade social.O Manifesto antropofágico. vestida e opressora. por exemplo.filha. .(." Curiosamente. através dos seguintes elementos: . Caetano Veloso e outros compositores populares voltam a acenar com os princípios antropofágicos para combater a estreiteza da chamada M. amplia as idéias do Pau-Brasil. -Conto e quinhentos!!! 1 Disponível em: http://antropofagia. Vanguardas européias e modernismo no Brasil 1.que te darei pelos teus anos? -Um colar.com. talvez.. Nos anos de 1967. e a Raul Bopp.

por exemplo. Oswald de Andrade e o Cubismo Oswald de Andrade se aproximou em sua poesia pau-brasil. O poema “Hípica” é uma sobreposição de imagens. com palavras soltas.O estilo cubista na literatura. a técnica chamada ready-made. Hípica Saltos records Cavalos da Penha Correm jóqueis de Higienópolis Os magnatas As meninas E a orquestra toca Chá Na sala de cocktails 3. torrinhas e tolices”. Ele usou recorte e colagem e poemas-piadas. sem preocupação com rima ou harmonia. o do sonoro e do sentido. não criativa. vemos isso em outro poema de Mário de Andrade. Oswald de Andrade e o Dadaísmo O manifesto antropófago. O movimento futurista defendia também a seqüência desordenada de elementos. torreõs. Oswald também utilizou outra técnica do dadaísmo. encontramos substantivos no aumentativo. no diminutivo e seguido de adjetivo. É o que podemos ver. Mário também usou o mesmo recurso futurista.Mas nós morremos de fome!” Mário de Andrade No poema Inspiração. exatamente como fizeram os futuristas. Os versos são como flashes cinematográficos. identificando o movimento de vanguarda cubista. ora reúne palavras ao sabor de seu som. ora ao sabor de imagens contrastantes. que se atraem umas às outras. ora utilizando-se dos dois recursos. onde temos: “Torres. mostrando fragmentos diversificados da realidade. de tendências do Cubismo. O intuito foi constituir uma frase com elementos desordenados. publicado na revista por Oswald de Andrade. nas paródias e colagens no seu poema “Pero Vaz Caminha” : PRIMEIRO CHÁ Depois de dançarem Diogo Dias Fez o salto real 10 . valoriza o humor. utilizou uma forma de linguagem pronta. A linguagem é simples. afugentando a monotonia das modernas sociedades industrializadas. manteve um diálogo com o dadaísmo. 2.

or not tupy that is the question. A ironia vem pelo título: ‘primeiro chá' leva-nos a crer que este foi o primeiro intercurso físico que se deu entre portugueses e as índias. e foram-se para cima Aqui. deu sim um outro sentido ao escrito original. um sentido bem sexual. Filosoficamente. Expressão mascarada de todos os individualismos. De todas as religiões. de todos os coletivismos. O poeta foi além de copiar ou resumir Caminha e recontá-lo em forma de poema. e salto real. Mário de Andrade. Economicamente. O cinema americano informará. Lei do antropófago. ele estava disposto a ridicularizar Diogo Dias. Nesta parte do poema. Neste caso. o absurdo. Estamos fatigados de todos os maridos católicos suspeitosos postos em drama. Equilibrou-se no azul. tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses. o impermeável entre o mundo interior e o mundo exterior. Caminha expõe a cena do seguinte modo: Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito. Única lei do mundo. A reação contra o homem vestido. O que atrapalhava a verdade era a roupa. Só me interessa o que não é meu. De tonta não mais olhou Para mim. 1976. O ‘salto real' ganha aqui uma malícia típica em Oswald. 293-300. Freud acabou com o enigma mulher e com outros sustos da psicologia impressa. Lei do homem. a atmosfera onírica Anexo MANIFESTO ANTROPÓFAGO2 Só a antropofagia nos une. De todos os tratados de paz. Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro. para ninguém! Cai no álbum de retratos. pp. 4. Petrópolis: Vozes. andando no chão. as imagens surpreendentes. O Surrealismo : Oswald de Andrade. E contra a mãe dos Gracos. 2 In: TELES. Tupy. que segundo Caminha “é homem gracioso e de prazer”. Contra todas as catequeses.Na Carta. percebemos a primeira intervenção mais incisiva de Oswald. Observamos as características surrealistas como o ilogismo. Socialmente. de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. 11 . bem revelador da concupiscência marcante das nossas origens. Uma noite abriu as asas Cansada de tanto som. Murilo Mendes e Jorge de Lima Pré-história Mamãe vestida de rendas Tocava piano no caos. Gilberto Mendonça.

O contato com o Brasil Caraíba. Fingindo de Pitt. O rei analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia. Contra o Padre Vieira. Fonte das injustiças clássicas. Morte e vida das hipóteses. pelos imigrados. à Revolução surrealista e ao bárbaro tecnizado de Keyserling. Ou em Belém do Pará. suburbano. Contra as elites vegetais. Antropofagia. Sem nós a Europa não teria sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem. A ciência codificação da Magia. Autor do nosso primeiro empréstimo. Foi porque nunca tivemos gramáticas. fronteiriço e continental. Preguiçosos no mapa-múndi do Brasil. nem coleções de velhos vegetais. à Revolução Bolchevista. Encontrados e amados ferozmente. Gravou-se o açúcar brasileiro. Roteiros. O indivíduo vítima do sistema. Fez-se o empréstimo. A idade de ouro. E a mentalidade prelógica para o Sr. Necessidade da vacina antropofágica. pelos traficados e pelos touristes. Fizemos Cristo nascer na Bahia. Vivemos através de um direito sonâmbulo. Conhecimento. Mas nunca admitimos o nascimento da lógica entre nós. Antropofagia. mãe dos viventes. Roteiros. Já tínhamos a língua surrealista. Das injustiças românticas. E as inquisições exteriores. Já tínhamos o comunismo. Filiação. Oú Villegaignon print terre. O instinto Caraíba. Roteiros. Queremos a revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de todas as revoltas eficazes na direção do homem. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. para ganhar comissão. Roteiros. Ou figurando nas Operas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses. Montaigne. Rousseau. Subsistência. Catiti Catiti Imara Notiá Notiá Imara 12 . uma rítmica religiosa. A idade do ouro anunciada pela América. Em comunicação com o solo. Só podemos atender ao mundo orecular.Filhos do sol. Contra todos os importadores de consciência enlatada. O stop do pensamento que é dinâmico. Cadaverizadas. O índio vestido de Senador do lmpério. A idade de ouro. Uma consciência participante. O espírito recusa-se a conceber o espírito sem corpo. Fizemos foi Carnaval. com toda a hipocrisia da saudade. E nunca soubemos o que era urbano. No país da cobra grande. Levi Bruhl estudar. O antropomorfismo. A existência palpável da vida. E o esquecimento das conquistas interiores. Da Revolução Francesa ao Romantismo. Roteiros. O homem natural. Caminhamos. Da equação eu parte do Kosmos ao axioma Kosmos parte do eu. E todas as girls. Roteiros. Roteiros. Nunca fomos catequizados. Contra o mundo reversível e as idéias objetivadas. A transformação permanente do Tabu em totem. Nunca fomos catequizados. Tínhamos a justiça codificação da vingança.

Ele me respondeu que era a garantia do exercício da possibilidade. Só a maquinaria. É preciso partir de um profundo ateísmo para se chegar à idéia de Deus. Não tivemos especulação. O índio filho de Maria. Mas que temos nós com isso? Contra as histórias do homem. Sem Napoleão. Comi-o. A magia e a vida. Se Deus é a consciência do Universo Incriado. Contra as escleroses urbanas. Tínhamos Política que é a ciência da distribuição. o Brasil tinha descoberto a felicidade. Antropofagia. A fixação do progresso por meio de catálogos e aparelhos de televisão. Guaraci é a mãe dos viventes. Contra os Conservatórios. Esse homem chamava-se Galli Matias. A experiência pessoal renovada. Sem César. A fuga dos estados tediosos. Contra a verdade dos povos missionários. onde há mistério. Contra as sublimações antagônicas. Perguntei a um homem o que era o Direito. Mas não foram cruzados que vieram. Jaci é a mãe dos vegetais. dos bens dignários. Foram fugitivos de uma civilização que estamos comendo. Contra o índio de tocheiro. Depois Moisés divaga. que começam no Cabo Finisterra. e o tédio especulativo. No matriarcado de Pindorama. E os transfusores de sangue. Contra a Memória fonte do costume. E sabíamos transpor o mistério e a morte com o auxílio de algumas formas gramaticais. E um sistema social-planetário. definida pela sagacidade de um antropófago. Não rubricado. o Visconde de Cairu: — É a mentira muitas vezes repetida. Porque tinha Guaraci. De William James a Voronoff. Mas o caraíba não precisava. Antônio de Mariz. afilhado de Catarina de Médicis e genro de D. dos bens morais. A alegria é a prova dos nove. A transfiguração do Tabu em totem. Que temos nós com isso? Antes dos portugueses descobrirem o Brasil. Mas tínhamos adivinhação.Ipejú. Só não há determinismo. porque somos fortes e vingativos como o Jabuti. O pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + falta de imaginação + sentimento de autoridade ante a pro-curiosa (sic). Trazidas nas caravelas. O mundo não datado. O objetivo criado reage como os Anjos da Queda. 13 . Tínhamos a relação e a distribuição dos bens físicos. As migrações.

De carnal. Peste dos chamados povos cultos e cristianizados. ano 1. cadastrada por Freud — a realidade sem complexos. Antropófagos. Chegamos ao aviltamento. Absorção do inimigo sacro. O que se dá não é uma sublimação do instinto sexual. Desvia-se e transfere-se.Somos concretistas. É preciso expulsar o espírito bragantino. Afetivo. n° 1. Revista de Antropologia. A alegria é a prova dos nove. que traz em si o mais alto sentido da vida e evita todos os males identificados por Freud. Pelos roteiros. 1° de maio de 1928. Especulativo. (Revista de antropologia: São Paulo.) 14 . ele se torna eletivo e cria a amizade. é contra ela que estamos agindo. só as puras elites conseguiram realizar a antropofagia carnal. Contra Anchieta cantando as onze mil virgens do céu. o amor. antes que algum aventureiro o faça! Expulsamos a dinastia. vestida e opressora. As idéias tomam conta. sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama. Contra Goethe. Porém. João VI. OSWALD DE ANDRADE Em Piratininga Ano 374 da Deglutição do Bispo Sardinha. na terra de Iracema — o patriarca João Ramalho fundador de São Paulo. queimam gente nas praças públicas. Suprimamos as idéias e as outras paralisias. É a escala termométrica do instinto antropofágico. sem loucura. Antropofagia. põe essa coroa na tua cabeça. João VI: — Meu filho. A luta entre o que se chamaria Incriado e a Criatura-ilustrada pela contradição permanente do homem e o seu Tabu. A nossa independência ainda não foi proclamada. O amor quotidiano e o modus vivendi capitalista. as ordenações e o rapé de Maria da Fonte. a ciência. a usura. n° 1. Contra a realidade social. o assassinato. A baixa antropofagia aglomerada nos pecados de catecismo — a inveja. Para transformá-lo em totem. A terrena finalidade. Frase tipica de D. a mãe dos Gracos. reagem. e a Corte de D. Acreditar nos sinais. a calúnia. males catequistas. acreditar nos instrumentos e nas estrelas. A humana aventura. maio de 1928.