Globalização e Subjetividade: apontamentos sobre os modos de subjetivação na atualidade e suas implicações educacionais

Jarbas Dametto*

Resumo: Através da abordagem sociológica, centrada nos trabalhos do autor português Boaventura de Sousa Santos e de reflexões psicanalíticas acerca do contexto atual, este artigo busca articular as mudanças tecnológicas, políticas e sociais presentes em nível global, aos fenômenos subjetivos emergentes, cujas manifestações se fazem presentes na clínica do sofrimento psíquico. Nota-se que a configuração da sociedade contemporânea, marcada pelo paradigma da visibilidade e pelo imperativo do consumo, favorece o surgimento de quadros psicopatológicos centrados na estética e na performance, no entanto, as condições proporcionadas pela globalização também abrem inúmeras possibilidades de subjetivação para além das fronteiras antes impostas ao homem, cuja existência limitava-se à restrita experiência local, gerando novas demandas e possibilidades à prática educacional. Palavras-chave: Globalização; Visibilidade; Subjetividade; Educação.

Globalization and subjectivity: notes about modes of subjectivation nowadays and their educational implications Abstract: By a sociological approach, focused on the work of the Portuguese author Boaventura de Sousa Santos and reflections psychoanalytic readings about the current context, this article seeks to articulate technological changes, political and social gifts globally, emerging to subjective phenomena whose manifestations are present in the clinic of psychic suffering. Note that the setting of contemporary society, marked by the paradigm of visibility and the imperative of consumption, favors the emergence of psychopathologic frames focused on aesthetics and performance, however, the conditions offered by globalization also opens up many possibilities of subjectivities beyond borders before imposed upon man, whose existence was limited to restricted local experience, generating new demands and opportunities to educational practice. Key words: Globalization; Visibility; Subjectivity; Education.

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JARBAS DAMETTO é Psicólogo, Mestre em Educação pela Universidade de Passo Fundo. Professor da Faculdade Anglicana de Tapejara-RS

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vêm determinando as condições sociais. muitas vezes desprovidos de uma identidade nacional ou mesmo com identidades locais “canibalizadas” (retiradas de seu contexto para compor um produto). mas sim como um misto de universalização. florescer de particularismos. revistas. o que reforça seu caráter não linear e conflitivo. 2005). negado pelo discurso hegemônico. músicas. ao mesmo tempo. eliminação de fronteiras e. que o supõe como uma condição pronta e consensual. políticas. que podem ser desde livros. 2005). religião. serão utilizados trabalhos de cunho sociológico e psicanalítico. muitas vezes obscurecido por estruturas maiores como as organizações e movimentos sociais. em última análise. A produção e circulação desses bens. programas de televisão. As manifestações culturais se orientam à produção de bens comercializáveis e consumíveis. visibilidade consumo e Nas últimas décadas. em que o Estado perde sua primazia enquanto centralizador das atividades humanas organizadas. A circulação internacional de informações. espaço onde emergem e devem ser trabalhadas questões da subjetividade contemporânea. que abordam ou se aproximam da temática aqui pontuada. O fato da globalização não se apresentar como uma plena homogeneização. agido ou reagido em relação às tendências e fenômenos sociais contemporâneos. Esta possibilidade não é algo necessariamente novo. que se caracteriza pela atenuação das fronteiras nacionais. bens culturais e simbólicos é permitida. O presente ensaio visa abordar esta problemática no âmbito do sujeito. na expansão da cultura e ideologia consumista e no apelo à visibilidade enquanto condição de existência. idéias e pesquisas científicas. mas que porta em si toda a dimensão ambivalente do deixar-se envolver e do reagir à tendência mundial que a ele se apresenta. a reforça enquanto campo de interação de múltiplos atores (SANTOS. lançando perspectivas para a leitura desta problemática no campo educacional. incidem todas as transformações que o mundo vem sofrendo. A análise desta relação Sujeito X Globalização centrar-se-á neste estudo no debate sobre o aparato tecnológico midiático em interação com as pessoas. além de fomentada pela utilização da moderna tecnologia de transporte e comunicação. situação em que o local e o distante estão intimamente relacionados em uma interdependência nem sempre desejada ou equitativa. Tal processo não ocorre sem resistências contra-hegemônicas ou diversas hegemonias regionais possíveis e com modos relativamente diferentes de ação. identidades regionais e étnicas. Cultura midiática. que as torna descartáveis. Para tal intento. até cursos em diversos níveis. economia e a 105 . refletindo somente uma proposta consumista. imagens.Introdução A globalização. buscam garantias em um suporte técnico-jurídico nos moldes neoliberais do direito transnacional à propriedade (SANTOS. a análise da cultura contemporânea não pode deixar de levar em consideração o seu vínculo com questões econômicas. há séculos. sendo sobre os sujeitos que. econômicas e culturais dos diversos povos de todo o mundo. Propõe-se buscar os pontos de convergência entre essas questões e a forma como os sujeitos têm percebido. culturas e ideais atravessavam fronteiras com a literatura.

HORKHEIMER.155) 106 . a Internet ou telefone. e outra.] transforma-os a todos igualmente em ouvintes. os monopólios culturais são fracos e dependentes. assim como do apelo ao consumo que a acompanha ou fundamenta... possibilidades de interação. p. onde o Estado já perde a primazia enquanto regulador da sociedade. Quando comentam o rádio. vem contribuindo para o extraordinário poder de formação de nossos corações e mentes.. rede de veículos de comunicação (. fundamental em tempos de concorrência acirrada. para entregá-los A obra de Adorno e Horkheimer é aqui trazida ao debate não com o intuito de criticá-la. vivida há séculos. eletricidade. mas sim por tratar de temas ainda em voga.. A “preferência da massa” tem perdido espaço para o “desejo individual” (cuja autenticidade também pode ser alvo de críticas. jornal. Esta situação foi abordada por Adorno e Horkheimer em Dialética do 1 Esclarecimento . HORKHEIMER. mercê das novas tecnologias ligadas à informática e de uma fantástica rede de comunicação instantânea via satélite. servindo à comparação entre realidades distintas: uma de acentuado poder estatal (meados do século XX). a tendência social objetiva se encarna nas obscuras intenções subjetivas dos diretores gerais.) (ADORNO. social e tecnológico bastante diverso do atual. A globalização do mundo moderno. dando lugar e tempo a ela..) que exerce uma decisiva influência no psiquismo de todos [. é simplesmente impossível sair ileso dessa intensa circulação cultural e simbólica. televisão. Não se desenvolveu nenhum dispositivo de réplica e as emissões privadas são submetidas ao controle” (ADORNO.18). no entanto. p. Eles têm que se apressar em dar razão aos verdadeiros donos do poder (. somente produtos padronizados. Outra afirmação dos autores acima citados necessita de um redirecionamento na realidade atual. Como afirma Zimerman (2004. bens consumíveis. etc. porém... mas também entre meios diferentes. em um contexto político.. para a grande parte da população mundial... 1 autoritariamente aos programas. possível através de uma união entre meios como rádio.ciência (SANTOS. é crescente a tendência à interatividade e a multiplicidade de opções. é a velocidade e onipresença de meios e mensagens.. pois frequentemente coincide com ideais consumistas). 1985. química. O que difere a atual situação desta. cada vez mais gigantesca e poderosa. Este mesmo sistema permaneceu. parece contribuir para a credibilidade e aproximação entre o público e a produção do programa em uma relativa interação. advindo de uma.114-5). os meios de comunicação de massa ofereceram ao seu público. afirmam que “[. com os quais não havia possibilidade de réplica. não só entre emissoras.] Durante grande parte do século XX. A crítica e participação dos espectadores. em diversos meios. publicado na década de quarenta do século passado. identidades e modos de existência. petróleo. 1985. afirmam eles: (. estas são basicamente as dos setores mais poderosos da indústria: aço. que disponibilizam ao sujeito uma multiplicidade. Não é exagero afirmar que.) em nossa época. 2005). das diversas estações. como a televisão. Os meios de comunicação social atuais vêm abrindo espaço à contribuição oriunda de seu público. e em alguns casos ainda permanece. sem igual na história. linguagens. de informações. p. iguais uns aos outros. Comparados a esses.

a uma interdependência entre elas. ideologia. como é o caso das tradições e dos hábitos culturais locais. nas últimas décadas. ainda amplamente praticados. o que foge ao modelo preconizado pelo projeto hegemônico é tomado como ignorante em relação aos saberes “oficiais”. É possível conhecer a diversidade de valores. linguagem e pelo nacionalismo. vem sendo afetado pela diminuição ou hibridização das diferenças engendrada pela globalização. já que a diferenciação é a base para a formação deste sentimento. quadros residuais e fazeres improdutivos. estão práticas constitutivas da identidade pessoal. Uma leitura 107 . pois estão superados e são inexpressivos. para além das rígidas fronteiras estabelecidas e vigiadas pela tradição. onde o show é o produto mais refinado do sistema produtivo (QUINET. e em que a imagem assume importância capital. possibilitada pelos meios tecnológicos e pelas condições políticas da globalização. este é o cogito da sociedade escópica. culturas e saberes. podem gerar leituras diversas sobre as disparidades existentes entre os povos “desenvolvidos” e as sociedades periféricas. logo existo”. “mostrar-se” é a condição básica para existir. química ou energética. o sentimento de identidade de indivíduos. baseado nas relações sociais face-a-face em seu território de origem. Mesmo setores em que não há concorrência de mercado. Se a exposição ao grande público é condição de existência. comunidades e nações. religiões. como é o caso das comunidades de imigrantes. particular e local. que não se inserem na lógica mercantilista global. inferior. modos de existência. No âmbito dos saberes e das práticas sociais. são tomados como fenômenos fadados à inexistência. em contrapartida ao global. Conforme Zimerman (2004). A visibilidade dos diversos contextos sociais que coabitam o mundo. um “direito às raízes”. Dentro deste amplo leque de experiências supostamente destinadas ao desaparecimento ou a manutenção como mero registro histórico ou exotismo. emergem localismos. uma diversidade de fazeres e conhecimentos. o homem não está preso à sua experiência local como ocorria até bem pouco tempo. ou sociedade do espetáculo. Como afirma Santos (2004). em um período onde a visibilidade é a condição necessária à existência. como denominou Guy Debord. deu espaço. Em aparente contradição com este fenômeno. utilizam-se da mídia na busca do reconhecimento social. Suas condições vêm possibilitando novos “direitos às opções”. assim como órgãos governamentais que aparentemente não necessitam de publicidade. ante ao progresso e produtividade crescente e constante. “Sou visto. No entanto. 2002). em uma concepção linear e única de tempo e progresso. Enfim. fatores que comumente agiam em conjunto. ou translocalizados. significativa parcela da sociedade teve sua possibilidade de existir confiscada pela dinâmica de mercado adotada pela mídia em geral. a não-existência é engendrada pelos discursos da globalização hegemônica. onde se constituem movimentos que buscam ativamente preservar as condições de existência das identidades locais − da diferença − em um ambiente globalizado embebido em discursos homogeneizantes (SANTOS.Esta submissão da indústria cultural aos monopólios da indústria metalmecânica. 2005). seria equivocado afirmar que a globalização trouxe somente dificuldades ao sujeito contemporâneo.

demonstra essa 108 . “Tanto pelas vias da televisão quanto da informática e do jornalismo escrito. rede que liga computadores do mundo todo. A criação intensiva de blogs e sites de relacionamento. 2005. p. constitui uma nova percepção da realidade. 2000. Sujeito visível. onde esses sujeitos são postos na posição de bodes-expiatórios. etc. apresenta-se como um leque de novas possibilidades. o paradigma atual norteado pela visibilidade. 2000. produção de imagens e modos de existência.) que começam a adentrar as fronteiras dos países centrais. e as coisas têm seu valor não pelo que são. podendo servir às duas causas. a cena pública se desenha sempre pelas imagens” (BIRMAN. em grande parte. Tomada de uma outra perspectiva. Como visto acima.327). A imagem. pensando suas condições precárias como inerentes a essas culturas.188). e não pela reflexão sobre si mesmo e pela interioridade como nos primórdios da Era Moderna. Desta vez. Este é apenas um objeto predatório para o gozo daquele e para o enaltecimento do eu” (BIRMAN. ao mesmo tempo. não traz em si um caráter unívoco de valor. esta primazia do visual sobre os modos de apreender e compreender o mundo. onde o conteúdo principal são fotos ou escritos de pessoas anônimas. cabe não fazer uma leitura ingênua ou demasiadamente otimista das possibilidades atuais. A Internet. p. dá a possibilidade de expressão pessoal a qualquer um que domine sua linguagem. e os imigrantes vindos desses locais como portadores de males (desordem. “Nesta medida. ainda serve. que ainda controlam a maioria dos meios de produção cultural. É uma via para a superação do anonimato. utilizando-se da mediação técnica. “podem servir de ponto de partida para mobilizações cívicas e intervenções políticas capazes de lhe fazer frente e de atacar nas suas causas nas condições que a geram” (NUNES. caos. ávidos consumidores e produtos descartáveis.188). os indivíduos entram na mesma lógica da mercadoria. Perdem-se os parâmetros que diferenciam o real da representação. No entanto. Nesta forma de sociabilidade. sujeito do (para o) consumo Esta nova ordem social incide sobre o sujeito criando uma nova versão do individualismo. ou seja. à produção maciça de visões de mundo saturadas dos ideais de setores historicamente favorecidos da sociedade. a hipervisibilidade das realidades sociais vivenciadas nas regiões mais precárias do mundo pode contribuir para a desnaturalização e visão crítica dessas situações. violência. No âmbito social. já que a técnica. pelos seus atributos estéticos. ao contrário dos meios de comunicação de massa nos quais apenas uma minoria “famosa” se apresenta. um simulacro que perpassa todos os níveis do social. hoje. um meio para a “existência” via visibilidade.acrítica pode atestar a “natureza inferior” de certas comunidades. embora mais democratizada que há pouco tempo atrás. como afirma Quinet (2002). o sujeito é regulado pela performatividade mediante a qual compõe os gestos voltados para a sedução do outro. dependendo das intenções que regem suas abordagens. a exaltação do eu se dá pelo valor da exterioridade. p. e são. dominante ou libertador. promovida principalmente pela mídia. mas pelas imagens que são capazes de produzir.

atenuando. a privacidade de pessoas públicas é vasculhada. é comum encontrarmos mensagens como “mandem comentários”.busca pelo olhar do outro. consumíveis e descartáveis. mesmo que virtual. etc. p. em busca da adequação do paciente aos preceitos éticos de uma sociedade que nega o sofrimento e estetiza a existência (BIRMAN. A clínica e as novas versões do malestar No campo da clínica psicológica. assim como a falta de amparo subjetivo. fazendo voltar sobre este saber grande fascínio e apreço. A fama. o que confirma o desejo de um retorno. De forma inversa. ignorando as afirmações contidas nas últimas obras de Freud. A própria psicanálise é posta em xeque ante aos impasses promovidos pela sociedade atual e seus valores. Há um estilo de sociedade em pauta que gera condições e possibilidades para produção de determinadas psicopatologias como típicas de sua época (MENEZES. se tornam evidentes. mas esta fama é extremamente volátil e difícil de ser sustentada. bulimias e anorexias. sustenta esta possibilidade de auto-afirmação. um observador que hoje pode estar em qualquer parte do mundo. Durante décadas. 2005. criando pequenas comunidades onde o grupo. a história individual. Através destes meios é possível “estar presente”. para onde se direcionam as queixas individuais ante ao mal-estar na cultura. Mas logo tenham “saído da casa”. constituindo novas demandas características da realidade atual. sendo oferecida como uma iguaria rara em diversos meios de comunicação. entrou no jogo das coisas fabricadas em massa. exposta e vendida indiscriminadamente. mas seguindo a mesma lógica. toxicomanias e da síndrome do pânico. a exaltação da imagem e da performance. no sentido de expressões dos modos de subjetivação promovidos pela sociedade contemporânea. pois ele pode ser o próximo jogador – ter seu momento de fama e celebridade por ter adquirido a visibilidade” (QUINET. assim como o anonimato e a privacidade. logo. p. esses indivíduos retomam sua posição. que atestam a inevitabilidade do desamparo e a necessidade de sua gestão permanente. a crença na possibilidade da felicidade plena e no fim do sofrimento humano é atualizada em novas teorias psicológicas − cognitivistas e neuropsiquiátricas.195).283). Certas formas de sofrimento psíquico podem ser consideradas psicopatologias da atualidade. Problemas ligados a tendências sociais contemporâneas vêm ganhando força. a psicanálise buscou sustentar esta posição ilusória. que centram o sujeito no aqui e agora. assim como novas “soluções” da psicofarmacologia. Dentro deste contexto. caindo no esquecimento. Hoje. Qualquer banalidade pode tornar alguém mundialmente famoso através da Internet. criando novas questões à clínica do sofrimento psíquico. como é o caso das depressões. 2000). 2002. na medida em que não se enquadra na lógica do melhor resultado no menor tempo e não se propõe a “cura” do desconforto ligado à vida civilizada. A existência cotidiana e íntima dessas pessoas sucumbe ao “valor de troca” de sua imagem pública. com suas promessas de fim do desamparo e 109 . é preciso saber que alguém o olha. não basta estar exposto. “deixe recado”. ou por vezes ignorando. Da mesma forma. os reality shows promovidos pela televisão “transformam espectadores em celebridades” e assim “a identificação do telespectador é facilitada.

estabelecido em relações verticais cujo protótipo é a paternidade. apud MENEZES. e nessas condições. que protegia contra o desamparo em épocas anteriores. 2005). há algum tempo. do pai onipotente. parecem ser anteparos para a manifestação dos afetos que. criava leis. violento. nos moldes do projeto iluminista que. mas mantendo a lógica da verticalidade: o assujeitamento voluntário. dando origem a fanatismos e atos violentos desmedidos. rompendo a díade simbiótica mãe-filho. a Ciência preserva seu status de redentora. O esporte. e ao mesmo tempo cobrava fidelidade. com a minimização de suas funções. criando o espaço da lei: a interdição. Percebe-se que. até meados do século XX. 2005. punia. estruturas. violência simbólica ou atuada. 2005). e que são expressos em jogos de inclusão-exclusão. condensavam-se sobre o nacionalismo. O apelo à proteção paterna. muitas vezes inconsciente. enfim. O Estado-nação. que na época vitoriana foi fruto do excesso de ordem e da liberdade escassa. é fruto do excesso pulsional e da fragilidade de simbolização” (MENEZES. mas que. nos moldes tradicionais. mas protetor. mostra-se falido (BIRMAN. não terminou com a atenuação deste modelo moral. O mal-estar social. Na medida em que a historicidade do sujeito dá espaço à identidade imaginária. aos olhos do grande público. o Estado. Esses são resíduos do remanejo das pulsões agressivas direcionadas ao diferente. Manter a diferença é arriscar-se. eleição de ídolos e bodesexpiatórios. tal qual concebido nas fantasias inconscientes do complexo de Édipo e corporificado nas instituições do Estado. foi antes re-configurado em uma marcante inversão. em uma condição de humilhação e servidão na relação com seus iguais. p. já que este processo se faz 110 . imputava obrigações. Atualmente. Ele proporcionava relativa estabilidade de referências simbólicas. é substituído pela sujeição ao outro. prefere-se a forçada homogeneidade (FORTES. que hoje se dilui frente às novas configurações políticas. é ter que enfrentar o desamparo. ao menos na leitura psicanalítica.da dor psíquica. Perspectivas educacionais em tempos de “subjetivação globalizada” Cabe afirmar que a ação do entorno social sobre a subjetividade não se dá dentro de uma perspectiva constitutiva do sujeito psíquico. mostram-se menos danosos que atos antes praticados em nome de “raças” ou bandeiras nacionais. limites. cumpria um importante papel na economia psíquica do homem moderno. grande parte da dimensão afetiva que ele comportava teve que encontrar novas representações. de qualquer forma. hoje centradas basicamente em aspectos técnicos e burocráticos (à semelhança do Estado mínimo preconizado pelo modelo neoliberal). 200). “O mal-estar contemporâneo é efeito da desregulamentação e do excesso de liberdade individual (privatização). aparentemente desproporcionais frente à causa que os originam. de certa forma encarnava a figura deste pai mítico para o qual se direcionava o apelo do sujeito frente ao desamparo. onde um terceiro impõe-se como autoridade. cuja importância e admiração crescem a cada dia. assim como certos fenômenos religiosos e artísticos. são ofuscadas as alteridades e é diminuída a importância do campo simbólico. dentre outros. Já o mal-estar atual reflete subjetividades que constituem seus laços de forma horizontal.

sem digladiar com as mudanças. em especial no campo da intersubjetividade: na forma como o indivíduo irá se confrontar com a diferença subjetiva do outro. assim como outros tantos temas poderiam adentrar na discussão. se necessário. como um ponto do qual é possível partir e. no caso. moral. torna-se difícil definir o que não se enquadra dentro dos limites do conceito “globalização”. retornar. As novas linguagens e tecnologias. devem adentrar ao diálogo escolar. Não cabe à educação formal reverter a ação do enquadre social sobre o sujeito. como trabalhará com a exposição de si.mediante as primeiras relações do ser humano com seus cuidadores. bem como nas questões globais. que foram dimensões reguladoras da existência humana. dimensões que frequentemente se confundem na atualidade. e criasse espaços para o desenvolvimento de um olhar crítico sobre esses. de um contexto globalizado com todas as possibilidades e conflitos que tal condição propicia e a vasta veiculação de imagens. A educação precisa auxiliar o educando na tarefa de traduzir os signos da cultura. há de se lançar na gama de potencialidades do incerto e do diferente. vai contribuir para a consolidação de características secundárias da personalidade (não por isso menos importantes). e possam ser percebidos em sua dimensão de possibilidade. mas preservando a solidez do já constituído. mas sim as incorporando em suas análises a fim de não tornar-se uma prática anacrônica e burocrática. seja ela religiosa. em um encontro fecundo com o já conhecido. parecem perder a capacidade 111 . política ou científica. Certamente boa parte do debate aqui esboçado extrapola tais limites. para que o aluno pudesse ter em mente as razões pelas quais age. Neste escrito procurou-se articular alguns dos fatores que possivelmente criam as condições para o surgimento de novas formas de se fazer sujeito. Considerações finais Dentro da diversidade de mudanças que nos últimos anos vêm re-configurando o cenário político e cotidiano do homem hodierno. consome. nas questões do seu cotidiano. definitivamente é uma característica do passado. ética e esteticamente. assim como os modos pelos quais esse sujeito atua no mundo. estudar e problematizar essas construções humanas que rodeiam a vida do educando e modulam sua existência. bem como os diversos códigos de valores. muitos deles alheios aos valores locais com os quais se está em contato. política. O contexto contemporâneo impôs aos sujeitos e instituições diversos desafios forçando a adaptação em um curto espaço de tempo. A segurança proporcionada por uma verdade incontestável. para que deste modo deixem a posição de exterioridade. Seria de primeira importância que o processo educativo empreendido principalmente nas escolas viabilizasse a percepção consciente dos fenômenos acima comentados. mas pode sim incidir sobre este processo desnaturalizando-o. e como este contato com o outro irá incidir nas estruturas psíquicas já constituídas. idéias e imperativos morais. esta tarefa vai além de seu alcance. interage e posiciona-se. A influência do meio circundante. em tenra infância. com suas vantagens e seus excessos. transformando-o ou reafirmando os paradigmas vigentes. tempo este que já não é um fator necessariamente presente quando se fala em relações a longas distâncias. Espaço e tempo. marginalidade ou estranheza. Neste contexto. toma-se como função da educação expor.

ainda o é para a própria vida. 2004.W. sentido nas últimas décadas. Entre nostalgias e empolgações.8. 777-820. é arriscado tecer um juízo de valor quanto às mudanças que o mundo vem sofrendo e quanto às possíveis respostas e construções subjetivas oriundas dessas transformações. Teoria crítica. 3. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. v. v. Os processos de globalização. e com suas formas específicas de felicidade e malestar. Pânico e desamparo na atualidade. MENEZES.S. Physis. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.E. Acesso em: 02 fev 2011. 2002.de limitar a experiência. BIRMAN. B. Acesso em: 10 abr 2011. com possibilidades e limitações como em todas as épocas. com as quais as pessoas precisarão se adaptar. que irão se somar às antigas formas. Porto Alegre: Artmed. Ágora (Rio J. lança o homem no fascínio e no pavor da diversidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. SANTOS.br/pdf/agora/v8n2/a03v8n2. In: SANTOS. _____.. São Paulo: Cortez. Rio de Janeiro.scielo. 2005. O mal-estar na modernidade e a psicanálise: a psicanálise à prova do social. HORKHEIMER. In: SANTOS. Mal-estar na atualidade: Psicanálise e as novas formas de subjetivação. 2000. São Paulo: Cortez. NUNES. A globalização e as Ciências Sociais.. T. Mais seguro seria conceber a atual condição como diferente das anteriores. que nenhuma navegação encontrará um novo mundo para o qual seja possível direcionar esperanças de uma vida sem sofrimentos. (org). A. constituídas ao longo de toda civilização. p. Este “encolhimento do mundo”. principalmente por meio da visão ampliada tecnicamente. p. Rio de Janeiro. (org) A globalização e as Ciências Sociais.S. ZIMERMAN. Para uma sociologia das ausências e uma sociologia das emergências. In: SANTOS. 25-102.2.pdf> . limitado. Manual de técnica psicanalítica: uma re-visão. Disponível em <http://www. se o tempo já não é empecilho para várias ações. Referências ADORNO. construir ou transformar o mundo em que vivem. 2004.ed. nem pior. M. 1985. pdf>. 2005. 301-344. 15. QUINET. no entanto.).ed. B. B. J.S. 3. Disponível em: <http://www. 2005. nas maravilhas de vislumbrar o mundo inteiro e no desencanto de saber que este é finito. cultura e ciência: O(s) espaço(s) e o(s) conhecimento(s) da globalização. ______. 2005. comportada em um recorte de tempo cuja brevidade salta aos olhos ante a enormidade de possibilidades que agora se pode conhecer. D. p. Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as Ciências revisitado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar.S (org). 112 . B. 2.br/pdf/physis/v15s0/v15s0a 10.scielo. Um olhar a mais: ver e ser visto na Psicanálise. a priori.A. n. nem melhor.ed. J. São Paulo: Cortez. Lucianne Sant'Anna de.