CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2012

Que a saúde se difunda sobre a terra!
(cf. Eclo 38,8)
Geni Maria Hoss
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O tempo da Quaresma chama para a conversão: “Converte-te ao Senhor, abandona os teus pecados!” (Eclo 17,21). É tempo de abandonar tudo aquilo que nos afasta do caminho do Senhor. É tempo de olhar para o coração e identificar o que como pessoa chamada por Deus para uma missão pessoal neste mundo, preciso transformar em mim de forma a tornar-me discípulo missionário, capaz de me engajar de forma profética pelo Reino de Deus. É tempo de olhar para a comunhão de pessoas que professam a mesma fé no Ressuscitado, para identificar nas comunidades a urgentes necessidades de conversão de forma que elas se tornem significativas para todos. É hora de olhar para toda sociedade, com suas diferenças, suas demandas e clamores por um mundo mais solidário e humanizado, para que cada pessoa e cada grupo, independente de suas condições e convicções possa, através da ação solidária dos discípulos missionários, fazer a experiência de um Deus de ternura, amor e misericórdia. A proposta da Campanha da Fraternidade 2012, Fraternidade e Saúde Pública, nos desafia a refletir sobre a práxis como discípulos missionários naquela dimensão humana que Cristo constituiu como centro de sua ação, ou seja, a razão de ser de sua missão entre nós: “Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância!” (Jo 10,10). Vida, cuja plenitude nos é dada pela ressurreição nele, sendo o mundo da saúde importante dimensão desta missão. Analisando o impacto da atual conjuntura sócio-política e econômica sobre o sistema de Saúde Pública, não se pode ignorar que se trata de “uma realidade que
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Assessora em temas de Pastoral da Saúde, Humanização hospitalar, Bioética... geni.maria@yahoo.com.br; http://www.scribd.com/Geni_M_Hoss

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clama por ações transformadoras” e que “a conversão pede que as estruturas de morte sejam transformadas”2 em espaços de promoção, prevenção e cuidados em saúde pessoal e coletiva. Realidade necessitada de contínua ressurreição da vida no cotidiano das pessoas, ressurreição daqueles que carecem de vida e saúde, saúde esta também limitada por um planeta adoecido pela destruição humana. Esta é a forma de, como Cristo, inclinar-se mediante a grandeza do outro, “Templo do Espírito Santo” (cf. I Cor 3,16) e criar as condições de tratamento e cura, como fez o Bom Samaritano (Lc 10, 30-35), que levou o homem caído e ferido à beira do caminho para uma hospedaria. Ele não se esquivou de abraçar a causa do irmão com tudo o que o cuidado do enfermo inclui. Urge que os cristãos, os discípulos missionários, protagonizem um mundo mais humano, especialmente num campo tão delicado que necessita de cuidados urgentes e qualificados. É preciso ser cristão que participa da construção de espaços e condições de vida, pois a "a participação é um dever a ser conscientemente exercitado por todos, de modo responsável e em vista do bem comum.”3

A Saúde – uma questão de direito e também dever do cidadão.

A saúde é um tema sempre em pauta em organizações públicas, sociais e eclesiais. Importante passo em prol da saúde no Brasil foi dado quando garantida de forma universal, equitativa e integral na legislação brasileira. Constituição Brasileira de 1988, seção II, Saúde, art. 196:
A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

Saúde, no entanto, não se garante apenas por leis e decretos. São necessários desdobramentos e ações efetivas que façam cumprir a lei. Trata-se de um processo de longo prazo e de contínuas adequações e readequações sempre orientadas pela lei maior, ou seja, na saúde como “direito de todos”
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CNBB, Texo-base da Campanha da Fraternidade 2012.Brasilia: Ed. CNBB, 2011, p.9. JOÂO PAULO II, Doutrina Social da Igreja Católica, 2004, § 189.

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O Sistema Único de Saúde (SUS) é a estrutura necessária desenvolvida para concretizar o direito universal de acesso à Saúde Pública. A abrangência do SUS, no entanto, é bem mais ampla daquela que se percebe imediatamente quando se busca atendimento em alguma instituição de saúde: unidade básica de saúde, hospital, centro de especialidades. O SUS inclui cuidados em diversas instâncias e dimensões, todas elas afins de saúde quer seja no nível de promoção, prevenção ou tratamento. O SUS deve atuar em diversas frentes, especialmente em relação àqueles fatores que incidem sobre a saúde humana.
O processo saúde-enfermidade de uma coletividade é resultante de diversos fatores sociais, políticos, econômicos, ambientais e biológicos. Destacam-se entre os determinantes sociais: a urbanização; e a industrialização crescente, bem como as condições de moradia, de saneamento básico, de nutrição e de alimentação, de escolarização, de recreação e lazer, de acesso aos serviços de saúde de trabalho, de 4 emprego e de renda.

Em 2011 a Campanha da Fraternidade tratou de um tema afim de saúde: O Meio Ambiente. Não se pode desprezar a incidência das condições do entorno, do habitat sobre a saúde. Isto explica que no campo da saúde haja também ações de melhorias ambientais.
A humanidade de hoje, se conseguir conjugar as novas capacidades científicas com uma forte dimensão ética, será certamente capaz de promover o ambiente como casa e como recurso, em favor do homem e de todos os homens; será capaz de eliminar os fatores de poluição, de assegurar condições de higiene e de saúde adequadas, tanto para 5 pequenos grupos como para vastos aglomerados humanos.

Portanto, engajar-se pela melhoria da saúde inclui, entre outros, o meio ambiente, a vigilância sanitária, saneamento básico... O sistema de Saúde Pública é um emaranhado complexo para o qual é preciso um orçamento adequado, gestão qualificada e superação de muitos entraves. Entre eles, a prestação de serviços desconectados entre as diversas instâncias responsáveis, especialmente quando se trata do atendimento clínico,

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Texto-base CF 2012. João Paulo II, Discurso aos participantes num Congresso sobre “Ambiente e Saúde ”(24 de Março de 1997), 5: L’Osservatore Romano, ed. em Português, 5 de Abril de 1997, p. 9
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exigindo que os usuários tenham de fazer verdadeiras “peregrinações” para conseguir atendimento – isto quando conseguem em tempo hábil. Ao tomarmos, também aqui, a parábola do Bom Samaritano como modelo de cuidado no campo da Saúde, cabe salientar a hospedaria (com a mesma raiz de hospital - lugar de acolhida e cuidado), que aqui significa o lugar de cuidados do enfermo, hospedaria onde as condições próprias para os cuidados em saúde permitem que os enfermos possam ter esperança e conforto. O Samaritano não levou o ferido para sua casa ou para algum templo, levou-o para a hospedaria por ser um lugar próprio, adequado, com as condições de cuidado garantidas. O Sistema Público de Saúde, segundo suas atribuições próprias, constitui e garante, de forma universal, este espaço de cuidado? A questão é: Como está a hospedaria? De quem é a responsabilidade de cuidar da hospedaria? Na prática, todos têm acesso à hospedaria? E para os cristãos, que compromissos advêm do direito universal à saúde? Ou teria apenas direitos? Seria irresponsabilidade ou até mesmo fuga da missão por parte dos cristãos entender que a hospedaria, ou na atual realidade, o Sistema Público de Saúde seja de única responsabilidade do Estado. É preciso refletir sempre na responsabilidade conjunta, conforme prevêem as leis que regem o sistema de saúde como um todo. É, sim, responsabilidade de toda a sociedade, portanto, também dos discípulos missionários, dentro da função do controle social, assumir o compromisso de cuidar da hospedaria. Sociedade e Estado, cada qual segundo suas atribuições protagonizam um sistema eficiente (ou decadente) de saúde. Ao Estado cabe garantir o acesso universal ao sistema de saúde para cada cidadão, mas cabe ao cidadão usar o sistema de acordo com sua organização própria. Ou seja, conhecer o sistema, saber como e onde recorrer em caso de emergência ou de atendimento seletivo, saber orientar seus irmãos – cristãos ou não – a fazer uso do seu direito de acesso à Saúde Pública. Cabe ao Estado informar e esclarecer questões de saúde pública coletiva – promover a educação popular em todas as dimensões da saúde - especialmente quando se trata riscos de epidemias, contágios.... e cabe ao cidadão engajar-se efetivamente em programas e políticas de saúde, assumir a responsabilidade pelos cuidados necessários, especialmente quando comportamentos pessoais incidem sobre a coletividade. Aqui pode se avaliar questões como a dengue. Em muitos 4

casos, somente a intervenção do Estado, com pesadas multas consegue garantir ações simples que, se não eliminam, ao menos diminuem os riscos da disseminação da doença. Cabe ao Estado criar espaços de debate sobre a saúde, próximo do cidadão, mas cabe ao cidadão efetiva participação e comprometimento... Não seriam as cadeiras vazias dos Conselhos de Saúde, as cadeiras dos cidadãos discípulos missionários? Como cristãos, sabemos orientar nossos irmãos e ajudá-los a chegar à hospedaria de acordo com a organização do sistema? Sabe como e onde reivindicar o direito à saúde quando estes não são respeitados?

Palavra de Deus e Saúde

Ao criar o ser humano como sua imagem e semelhança, pessoa e comunhão, Deus incumbiu-lhe com uma missão especial: Cuidar e cultivar a vida na terra! “Escolhe, pois a vida!” (Dt 30,19). Uma missão que requer uma opção continua, no exercício da liberdade, dádiva de Deus a cada ser humano. Escolher a vida implica em viver segundo os desígnios de Deus, em relações interpessoais, relações com as outras criaturas de Deus, que sejam harmoniosas, construtivas, geradoras de vida. “A pessoa humana alcança sua plena realização quando vive sua amizade com o Deus da vida”.6 Estar de bem com todos significa estar bem. Isto também é fator de produção de saúde tanto pessoal como coletiva. Especial cuidado, no entanto, é preciso ter para não olhar a saúde-doença exclusiva e diretamente de acordo com o binômio bênção e maldição, como aparece nos primeiros livros da Bíblia, pois isto levaria os cristãos a julgar e condenar em vez de cuidar e curar. Jesus, que veio redimir e reconciliar todas as coisas, ajudou a superar esta interpretação quando, interrogado pelos seus discípulos, os fez reconhecer que a cegueira não era conseqüência de um pecado cometido pelos antepassados. E ele curou o cego e fez a glória de Deus manifestar-se nele!
Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que

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CELAM, Guia para a Pastoral da Saúde na América Latina e no Caribe, São Paulo: Centro Universitário Camiliano, 2010, p. 43.

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nascesse cego? Jesus respondeu: Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus. (Jo 9, 1-3)

A Saúde é gerada nas constantes interconexões do bem-estar psíquico, social, espiritual e físico. E necessário considerar este sistema complexa da vida humana para promover / restabelecer a saúde.. O livro do Eclesiástico, 38, tomado para as reflexões da Campanha da Fraternidade 2012, reconhece e enaltece a missão dos profissionais da saúde e a necessidade que deles temos para recuperar a saúde.
Se antes, recorrer à medicina e a seus profissionais era visto como falta de fé no Deus Altíssimo, o Eclesiástico considera os remédios, os médicos, e a ciência como possibilidades de cura que vêm do próprio Deus e, 7 consequentemente, devem ser buscados quando necessário.”

O cuidado do novo testamento se pauta classicamente na passagem do Bom Samaritano:
Jesus então contou: Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu nas mãos de ladrões, que o despojaram; e depois de o terem maltratado com muitos ferimentos, retiraram-se, deixando-o meio morto. .Por acaso desceu pelo mesmo caminho um sacerdote, viu-o e passou adiante..Igualmente um levita, chegando àquele lugar, viu-o e passou também adiante..Mas um samaritano que viajava, chegando àquele lugar, viu-o e moveu-se de compaixão.Aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho; colocou-o sobre a sua própria montaria e levou-o a uma hospedaria e tratou dele. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo-lhe: Trata dele e, quanto gastares a mais, na volta to pagarei. (Lc 10, 30-35)

Cuidar é ver além de si mesmo, é interromper o caminho dos desejos próprios, é estender a mão, é ter compaixão, é renunciar os próprios bens e investilo no cuidado do outro, é conduzir para o lugar adequado onde estão criadas as condições de cuidado. O que o cuidado não é: ter pena, sentir-se mais forte em relação ao outro, querer ensinar sem aprender...

O grande objetivo da Campanha da Fraternidade 2012.

Quando se fala em sistema público de saúde, o SUS, imediatamente nos vêm à memória, a doença, o posto (unidade) de saúde, o hospital... No entanto, SUS

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MESTERS, Carlos. Os profetas e a saúde na Bíblia. São Leopoldo: CEBI, 1985, p. 5.

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é um sistema muito complexo, que compreende ações em áreas afins, nem sempre relacionados a estas estruturas tradicionais. Veja-se o cuidado com a água potável, os ambientes de trabalho, as condições do meio ambiente (incidência de desequilíbrios ambientais sobre a saúde), etc... São diversos aspectos

interdependentes que constituem o sistema saúde-doença. A Campanha da Fraternidade 2012 se propõe a “refletir a realidade da saúde no Brasil em vista de uma vida saudável, suscitando o espírito fraterno e comunitário das pessoas na atenção aos enfermos e mobilizar por melhoria no sistema da saúde.”8 Embora a Campanha da Fraternidade não seja uma Campanha de responsabilidade exclusiva da Pastoral da Saúde, é esta que mais tem presente os desafios que se colocam no cotidiano desta Pastoral bem como de afins tal qual a Pastoral da Sobriedade, Pastoral da AIDS, entre outras, de acordo com a organização de cada diocese/paróquia. Por isso, é importante salientar neste grande objetivo o alinhamento com os grandes objetivos da Pastoral da Saúde. O espírito fraterno é o que move os discípulos e missionários a se engajarem de forma efetiva na dimensão solidária da saúde, ou seja, “ser presença de Jesus, Bom Samaritano, ao lado dos doentes e dos que sofrem no ambiente familiar, nas comunidades e nas instituições de saúde.”9 A palavra amiga, o sorriso, o aperto de mão são insubstituíveis e importantes componentes do amor fraterno do cristão e da produção de saúde. São ações que humanizam o atendimento. A visitação dos agentes de pastoral da saúde, além deste cuidado, é a oportunidade que se tem para identificar as necessidades neste campo e a dar uma resposta à luz dos valores do Evangelho. O espírito comunitário inclui tanto abraçar a causa do sofrimento alheio como missão da comunidade, bem como a preocupação com a promoção e prevenção em saúde no âmbito da comunidade. Alinha-se com a dimensão

comunitária do cuidado da comunidade com a saúde dos seus. Os discípulos missionários devem, por isso, empenhar-se para “favorecer a promoção e a educação em saúde, com ênfase na saúde pública e no saneamento básico, agindo

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CNBB, Texo-base da Campanha da Fraternidade 2012.Brasilia: Ed. CNBB, 2011, CELAM, Guia para a Pastoral da Saúde na América Latina e no Caribe, São Paulo: Centro Universitário Camiliano, 2010, p.70.

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de maneira preferencial no campo da prevenção das enfermidades e da promoção de estilos de vida saudáveis.”10 Promover e prevenir constitui uma relação responsável diante da vida, segundo os desígnios de Deus. “Não matar!” significa também não causar danos à saúde. Não matar! Imperativo que deve ser vivido de forma positiva: Ou seja, é preciso cuidar do corpo através de hábitos que favoreçam uma vida saudável. Ser discípulo missionário no campo da saúde implica uma práxis profética nas difíceis realidades da sociedade no que tange à qualidade de vida da pessoa. Mobilizar por melhoria no sistema público de saúde constitui um dos maiores desafios da atualidade em nosso país. Não se questiona a concepção e estruturação da Saúde Pública, mas especialmente sua concretização, na aplicação de seus princípios, que afirmam e se propõe a aplicação também da lei maior. Como Jesus, também os discípulos missionários precisam aproximar-se da realidade do sofrimento alheio. As curas, os cuidados não acontecem como um passo de mágica nos templos, mas lá onde o povo, o enfermo se encontra. Reconhecendo a ciência médica como uma dádiva divina, é ali nos espaços próprios onde o discípulo missionário cumpre sua missão.

Mais propostas da Campanha da Fraternidade:  Conscientizar toda a sociedade da difícil situação da saúde e motivar para uma efetiva melhoria do sistema;11

Conhecer as condições deficitárias da saúde é o primeiro passo para se vislumbrar melhorias uma vez que este conhecimento permite que sejam traçadas as melhores estratégias, perseguir objetivos ininterruptamente, e tudo isto, quando feito de forma coletiva, ganha força. Não se pode ficar acomodado na solução de problemas pontuais. Não convém ao cidadão, também ao cristão, discípulo missionário, acomodar-se com soluções via favores e jeitinhos dos mais próximos e esquivar-se de uma ação global de todo o sistema que o transforme em atendimento universal com qualidade. É necessário um empenho para que todos, em qualquer
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CELAM, 2010, p. 72 Cf.texto-base, CF 2012.

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tempo e lugar, tenham acesso ao sistema de saúde. E esta responsabilidade é compartilhada entre Estado e a sociedade, como está previsto na instituição e cabe a um Estado democrático e, no âmbito eclesial, como parte da implantação do Reino aqui e agora.  Criar, ampliar e aprofundar a Pastoral da Saúde como instância permanente de debate e práxis em prol da saúde da comunidade.

Recentemente ouvi alguém falar, quando interpelado sobre a criação da Pastoral da Saúde em sua paróquia: “Nem consigo implantar as pastorais principais como posso implantar mais a pastoral da saúde?” Sinceramente, este

questionamento me fez refletir muito: O que é principal no Reino de Deus? Existe algo mais importante numa Igreja cristã a não ser seguir Cristo? Cristo não curou, não se inclinou diante dos doentes, os fortaleceu, pediu que se levantassem, tomassem seu leito, ou seja, tomassem a iniciativa de seguir seu caminho, fortalecidos pela graça divina? “Jesus percorria toda a Galieia, ensinando nas

sinagogas deles, anunciando a Boa Nova do Reino e curando toda espécie de doença e enfermidade do povo” (cf. Mt 4,23). A cura de Jesus tem uma dimensão maior, ele não cura somente a doença, mas a pessoa do enfermo: “Com sua ação evangelizadora, Jesus não apenas cura os doentes, mas resgata o ser humano para o meio da sociedade, dando-lhe dignidade e apresenta uma nova forma de relacionar-se com as pessoas necessitadas.”12 É hora de criar ou ampliar a Pastoral da Saúde na paróquia que, de um lado, pautem sua práxis no Evangelho e, de outro, tenham coragem de evangelizar o mundo da saúde pela sua participação efetiva como cidadãos nas diferentes esferas de produção da saúde.  Preparar a comunidade para o exercício da cidadania especialmente para acompanhar a gestão e aplicação dos recursos em saúde, a superação da corrupção, entre outros.13

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CNBB, Texo-base da Campanha da Fraternidade 2012.Brasilia: Ed. CNBB, 2011. cf. texto-base, objetivos específicos

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A comunidade cristã é formada de cidadãos cristãos, portanto, igualmente responsáveis pela saúde pública. Não é exatamente uma tarefa fácil, numa sociedade onde a corrupção é uma das piores doenças, engajar-se com postura ética e, como partícipe da sociedade a quem cabe o controle social do sistema de saúde, para que os recursos previstos na legislação sejam efetivamente aplicados na produção de saúde.
Fazer o bem, dentre as ações a serem desenvolvidas pela Pasto235. ral da Saúde, inclui também fomentar a participação da comunidade no controle social das políticas públicas. Esta ação significa a cooperação estreita da sociedade civil e organizada na condução das políticas públicas, pelas vias já asseguradas pela Constituição, nos Conselhos de Saúde ou nas 14 Conferências de Saúde.

Os cristãos não podem separar o Evangelho da vida concreta da pessoa. isto implica trazer para as preocupações da comunidade eclesial, aquelas situações e condições que preocupam e afligem todos os seres humanos. Como Concílio Vaticano II, não é mais somente a comunidade cristã, a destinatária dos cuidados da Igreja, mas toda a humanidade.

Considerações
Às vezes pensamos que a pobreza é apenas fome, nudez e desabrigo. A pobreza de não ser desejado, não ser amado e não ser cuidado é a maior pobreza. É preciso começar em nossos lares o remédio para esse tipo de pobreza. ( Madre
Teresa de Calcutá)

É tempo de superar a pobreza da carência de cuidado. Num país cristão como o Brasil urge que surjam samaritanos de grande visão que, na humildade e simplicidade de suas ações cotidianas, contribuam para um atendimento no campo da saúde humanizado, ético e pautado nos valores do Evangelho. O cuidado universal, equitativo e integral é o cuidado que Jesus dispensou aos seus, quando lhe eram apresentados enfermos. Para Jesus, o enfermo não era um pobre coitado. No final, apelava sempre para a força interior do próprio enfermo:
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cf. texto-base CF 2012.

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“Levanta-te!” Jesus, que vê o interior, sabe que o cuidado faz promover e crescer o interlocutor. Levanta-te! É isto que se deve fazer também hoje: ajudar que os enfermos possam “vir para o meio” da vida eclesial e se tornem agentes de sua própria cura, tratamento, cuidado. Facilmente visitamos os enfermos, mas que condições oferecemos que eles possam sair de suas casas e participar, dentro de sua condição, da vida da comunidade? De que forma somos discípulos missionários no âmbito da Saúde Pública? Como nos envolvemos nestas questões? Os enfermos de nossa comunidade, também como usuários, são motivados ao engajamento pelo acesso universal a saúde, conhecem seus direitos e deveres? E os outros membros estão cientes da missão como cidadãos cristãos? A missão que é confiada à comunidade eclesial no âmbito da saúde a identifica com o serviço de Jesus à humanidade e faz cada cristão a ser portador da vida e vida em abundância (cf. Jo 10, 10).

Referências CELAM, Guia para a Pastoral da Saúde na América Latina e no Caribe, São Paulo: Centro Universitário Camiliano, 2010, CNBB. Texto-base Campanha da Fraternidade 2012. Brasília: Edições CNBB, 2011. JOÂO PAULO II, Doutrina Social da Igreja Católica, 2004. João Paulo II, Discurso aos participantes num Congresso sobre “Ambiente e Saúde ”(24 de Março de 1997), 5: L’Osservatore Romano, ed. em Português, 5 de Abril de 1997. MESTERS, Carlos. Os profetas e a saúde na Bíblia. São Leopoldo: CEBI, 1985.

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