Requerimento: A.

Concepções gerais São quatro os erros que tornam inaceitável o modelo de avaliação de desempenho dos professores - criado pelo Decreto-regulamentar 2/2008: 1. baseia-se numa concepção distorcida de Escola, 2. confunde objectivos, 3. não salvaguarda a equidade entre avaliados, 4. é pesado e burocrático. Assim: 1. Uma concepção distorcida de Escola : • a escola é uma instituição (e não um serviço nem uma organização) que promove valores e • •
saberes; o seu desenvolvimento inscreve-se no longo prazo; o ensino é um sistema que, pela sua complexidade e variância, não permite que se exijam, aos que nele trabalham, resultados quantitativos definidos a priori: a sua validação científica será sempre de qualidade duvidosa; em vez de “obrigação de resultados” deve falar-se em “obrigação de competência” – isto é, “ter ou adquirir os meios para fazer face às situações educativas complexas, sem se limitar a observar procedimentos1”.

2. Objectivos não explícitos:

o presente modelo institui uma (muito) estreita relação entre avaliação de desempenho de professores e progressão na carreira, dificultando a possibilidade de todos atingirem o topo; ou seja, a contenção da despesa no sector da educação foi mascarada com um pretenso desejo de melhorar a escola, de a tornar um local de sucesso onde reinasse o mérito – ambos conceitos não definidos mas tomados aqui como universais e sem capacidade de evolução.

3. A falta de equidade entre avaliados: • este modelo pretendeu vender o conceito de avaliação inter-pares – mais democratizante e
aberto – esquecendo que, esvaziando-o dos seus objectivos essenciais e da formação que aos seus intervenientes se exige, restam os “efeitos perversos” que tal sistema introduzirá nas comunidades educativas; não relacionou também todos os impedimentos inscritos no Código de Procedimento Administrativo com a situação criada (cf. artigos 6º- Princípios da justiça e da imparcialidade; 44º - Casos de impedimento; 45º - Arguição e declaração do impedimento; 46º - Efeitos da arguição do impedimento; 48º - Fundamento da escusa e suspeição); omitiu o facto de a responsabilidade de muitas das decisões ser (oficialmente) construída e partilhada pelas várias equipas educativas que interagem nas escolas e, baseou o processo de avaliação em atitudes individuais – objectivos, entrevistas, observações, decisões, ….

4. Procedimentos pesados e burocráticos:
• • • ao não se querer perceber as diferenças entre professores em início de carreira e aqueles que já nela estão integrados há 10, 20 ou 30 anos levou a que se impusesse um sistema de controlo igual para todos, assente em registos exaustivos de procedimentos; o que se pode ler daqui é, não só ignorância, como desconfiança: o que não está registado não foi feito. Mas será que o que está registado foi feito? o tempo (inutilmente) perdido nesses registos é tirado ao estudo/discussão de novas estratégias, ao aprofundamento científico dos temas tratados em aula, ou soma-se a estas actividades - o que implica um aumento desproporcionado das horas de trabalho dos

1

  in Perrenoud, Ph. (2005). Obligation de compétence et analyse du travail : rendre compte dans le métier d›enseignant. In Cl. Lessard & Ph. Meirieu (dirs), L›obligation de résultats en éducation (pp. 207-232). Bruxelles : De Boeck.

professores; a determinação de que a avaliação de desempenho seja feita anualmente mais não faz do que mostrar, uma vez mais, a incapacidade do ME em analisar a escola, corpo orgânico que, ciclicamente, passa por fases de acentuado desenvolvimento, outras de maturação ou mesmo de estagnação. Os próprios Projectos Educativos têm uma duração de 3 anos, libertando-os da premência de mostrar resultados imediatos.

B. A leitura feita por esta escola
De todos os documentos produzidos, apenas se referirá a FICHA DE DEFINIÇÃO DE OBJECTIVOS INDIVIDUAIS. A sua leitura permite constatar que, lamentavelmente, foram aqui esquecidas as recomendações do CCAP, feitas ao abrigo do Decreto Regulamentar nº 4/2008, alínea b) do artigo 3º - onde se afirma que aquele Conselho deverá “ Promover a adequada aplicação e utilização do sistema de avaliação de desempenho do pessoal docente”. O próprio Decreto Regulamentar nº 2/2008 de 10 de Janeiro - no artigo 6º - já dizia que «Os instrumentos de registo …. são elaborados e aprovados … tendo em conta as recomendações que forem formuladas pelo conselho científico para a avaliação de professores». Ora, na recomendação nº 2 (Julho de 2008) do CCAP pode ler-se:

-

que em 2008-2009, o progresso dos resultados escolares dos alunos não [deverá ser] objecto de aferição quantitativa (4.6.); que, durante esse mesmo ano, cada escola [deverá aprofundar] os instrumentos de monitorização das aprendizagens, de forma a consolidar uma cultura de avaliação e estar em condições de interpretar os indicadores de resultados escolares, de acordo com critérios e instrumentos a construir (4.7.).

O que aqui está em causa é, como se vê, a obrigatoriedade de os professores emitirem, no início do ano, hipóteses sobre um previsível aproveitamento dos alunos (cf erro 1, acima referido). Esta tarefa só pode caber aos órgãos de direcção de uma escola, que lidam com macrogrupos de alunos. Depois de analisadas as causas de um problema e postos em funcionamento os meios de o resolver, podem/devem proceder a projecções de resultados. Mas, ao professor – que lida com indivíduos concretos – tal atitude é-lhe ética e deontologicamente vedada. É que, se o fizer, está a dizer que quaisquer que sejam os métodos, as estratégias e os recursos usados haverá sempre os alunos X e Y que não conseguirão ultrapassar as dificuldades. Ou seja, que não está ali a fazer nada. Só no final do ano é que um professor pode, retrospectivamente, verificar e justificar os esforços desenvolvidos no âmbito de determinada área. Nunca antes. Assim, os signatários consideram que: a. os quatro graves erros deste processo de avaliação exigem que o mesmo seja profundamente repensado e modificado, sendo para tal necessário revogar o Decreto que o implementa; b. o facto de, pelo menos duas das recomendações do CCAP não terem sido expressamente tidas em consideração, nesta escola, é motivo suficiente para solicitarem ao Conselho Pedagógico a suspensão de todos os procedimentos em curso. Só assim se poderá repensar a organização do documento aqui referido e estabilizar o clima de trabalho, tentando atenuar os graves malefícios do modelo de avaliação governamental, imposto a contrario dos que vigoram em todos os outros países da Europa. Parede, 27 de Outubro de 2008