O PROFESSOR DE DESEJO

POR PHILIP ROTH

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A primeira vez que senti a presença da tentação foi na pessoa de Herbie Bratasky, diretor social, maestro, cantor, cômico e chefe da recepção do hotel de turismo de meus pais, na serra. Quando não está metido na malha de atleta, que usa para dar aulas de rumba à beira da piscina, seu traje mais comum consta de um paletó de malandro, creme e vermelho, e calças amarelo-canário que vão afilando até acima dos sapatos brancos pontudos. No bolso, sempre ao alcance da mão, um pedaço de chiclete que ele guarda enquanto masca petulantemente o outro, com uns modos que minha mãe chama com desprezo de "ganidos". Abaixo da cinta de crocodilo, bem estreita de acordo com a moda, e da corrente dourada, seu joelho vai se movimentando por dentro da calça, para marcar o compasso ao som de tambores que só ele ouve naquela África que é o seu cérebro. Nosso folheto (composto por mim em colaboração com o dono) apresenta Herbie como "nosso Cugat judeu, nosso Krupa judeu — os dois em um!" Mais adiante compara-o a "um segundo Danny Kaye" e conclui que todos devem compreender que setenta quilos e vinte anos não são para qualquer um e que o Hungarian Royale, dos Kepesh, não está exatamente aqui como "um outro Tony Martin". Tanto quanto eu, nossos hóspedes parecem fascinados pela desinibição de Herbie. Um recém-chegado nem bem se instala na cadeira de balanço da varanda, e logo vai sendo apresentado às maravilhas de nossa tribo por um veterano que chegou na semana anterior fugindo ao calor da cidade: "Precisa ver o bronzeado daquele garoto! Ele tem um tipo de pele que nunca se queima, só bronzeia. E isso, logo no primeiro dia de sol. Uma pele que vem dos tempos bíblicos". Em virtude de um defeito no tímpano, nosso "cartão de visitas" como Herbie gosta de se apresentar, a despeito da desaprovação de minha mãe — fica conosco durante toda a Segunda Guerra Mundial. Um comentário muito comum entre os freqüentadores das cadeiras de balanço é se essa incapacidade seria congênita ou teria sido provocada pelo próprio. A insinuação de não ter sido somente a Mãe Natureza a causadora da impossibilidade de Herbie combater Tojo, Mussolini e Hitler — bem, me deixa indignado, pessoalmente mortificado só em pensar nela. Entretanto, a gente

fica tentada a imaginar Herbie pegando um grampo de chapéu ou um palito com as próprias mãos — ou um furador de gelo! — para mutilar-se de propósito a fim de enganar a seção de recrutamento. — Acho que ele é bem capaz disso — diz o hóspede A-owitz. — Acho que ele é capaz de tudo, aquele patife! — Não diga isso, ele não faria tal coisa. Aquele menino é patriota como qualquer um de nós. — Vou lhe dizer como foi que ele ficou meio surdo, e depois pergunte ao doutor aqui se não estou certo: foi de tanto tocar aqueles tambores diz o hóspede B-owitz. — Oh, aquele garoto tocando tambores! — diz C-owitz. — Poderia agora mesmo apresentar-se no palco do Roxy. E só não vai porque, como diz você, ele não ouve muito bem os próprios tambores. — Mesmo assim — diz D-owitz —, ele não afirma totalmente se provocou ou não a surdez com algum instrumento ou coisa parecida. — Mas isso é a sua característica de artista, deixar você em constante suspense. Seu grande talento é ser suficientemente louco para fazer qualquer coisa, aí está toda a sua representação. — Contudo, andar por aí brincando com isso não me parece correto. O povo judeu já tem muita coisa contra ele. — Por favor, um garoto que se veste como ele, até a corrente da chave, com uma constituição daquelas, trabalhando dia e noite, além dos tambores, vocês pensam que ele ia mutilar-se gravemente só para escapar da guerra? — Concordo cem por cento. A propósito, quero gim. — Oh, você me pegou de surpresa, seu f.d.p., só porque estou com esses copos na mão. Sabe o que é difícil de encontrar? É um garoto bonito como esse, e ainda por cima engraçado. Ter aquele tipo especial, ser

engraçado e deixar-se arrebatar daquela forma pelo rufar dos tambores, na minha opinião é coisa rara na história do espetáculo. — E o que me diz da piscina? E do trampolim? Se Billy Rose visse suas acrobacias dentro da água, no dia seguinte ele estaria no Aquacade. — E a voz dele? — Se ele não levasse tudo na brincadeira, se pelo menos cantasse a sério. — Se aquele garoto cantasse a sério, poderia estar no Metropolitan Opera! — Se ele cantasse com seriedade, poderia ser solista no coro da sinagoga sem nenhum problema. E emocionaria a todos profundamente. Imagine como ficaria dentro de um talit branco, com aquela pele bronzeada! Durante essa conversa, eu estava no fim da varanda, ocupado com um modelo de Spitfire da RAF. — Ei, Kepesh, venha cá, você gosta de ficar ouvindo as conversas. Quem gostaria de ser quando crescer? Preste atenção. Pare um pouco de trabalhar nessas coisas. Quem é o seu herói, Kepaleh? Sem pensar duas vezes, ou mesmo sem pensar, respondi: — Herbie — provocando a risada dos homens e uma certa consternação nas mulheres. — É isso mesmo, minhas senhoras, e quem poderia ser? Quem é capaz de arremedar a pronúncia de Cugie, ao som do shofar, e, a meu pedido, imitar um avião de combate mergulhando sobre Berchtesgaden — com o Führer louco lá embaixo? Herbie faz essas coisas com tal entusiasmo e virtuosismo que meu pai às vezes o aconselha a guardar para si algumas imitações, por mais incríveis que sejam. — Mas protesta Herbie — minha imitação de peido é perfeita. Pode ser — responde o patrão —, mas não diante de gente estranha. — Mas estou treinando esse número há meses. Ouça! — Oh, por favor, Bratasky, não quero ouvir. Não é isso que os caros hóspedes desejam ouvir depois do jantar. Compreende ou não? Às vezes, não

que se espalha ao redor do vaso esmaltado. enfatiza ele. adivinhe esta! — Eram duas mãos se ensaboando. que lentamente vai escoando a água. eu ia ao banheiro do Automat e ficava sentado lá escutando. — Você ia? — Ia. Não se fala mais nisso. Herbie. acompanhado do gorgolejar sincopado da válvula. mas as explosões fecais wagnerianas do Sturm und Drang. e ainda encenar uma diarréia. invocando a lei mosaica. que vai do mais leve sussurro de verão até a salva de vinte e um tiros com que a humanidade expele seus gases. — Agora. a coisa é clara: o shofar é para os Dias Santos. e a outra coisa é para a privada. não? Então. as imitações de trombetadas e tamboriladas que meu pai. — Eu podia figurar no "Acredite se Quiser" de Ripley — diz-me. Não aquelas simples dores de barriga dos tempos do colégio. — Você conhece. Mas o fato é que ele é capaz de imitar toda a escala de sons. o de um abundante fluxo. sim. Então. ele vem fazer só para mim.sei onde você está com a cabeça. Herbie fazia o barulho com a boca. — Todo inverno. lhe proibira de apresentar em público. você também faz isso? — Mas a questão é que o seu velho é quem manda e para ele isso não passa de indecência! E ponto final! — acrescentou Herbie. — Ah. E até escuto a mim mesmo todas as vezes que vou ao vaso. com uma voz idêntica à do meu velho! . Ponto final. porém. seu tímido discípulo. Tudo isso Herbie executa com a própria boca. Sou capaz de ajoelhar-me a seus pés e adorá-lo. o da descarga. Em seguida. Depois. Não vê que essas pessoas respeitam o Kosher? Não compreende que isso não é coisa que se apresente a senhoras e crianças? Meu amigo. observe e julgue você mesmo! — Ouço o ruído de um zíper que se abre. evidentemente.

Bratasky vai embora. caminho penosamente dois quilômetros no meio de montes de neve que redemoinham e desço pelo caminho da montanha em direção à escola. Depois. administram as lojas e durante todo o ano trabalham para o país e para o Estado. Herbie (que durante o dia vende linóleo para um tio e nos fins de semana toca num conjunto latinoamericano) se esforça para aperfeiçoar a última das suas demonstrações de banheiro. Além dos telegramas de aniversários e dos cartões de reembolso postal. nas grandes cidades. como é que Herbie sabe tanta coisa e é capaz de registrar até o tintinar do vaso? E por que aqueles filisteus. ordenham as vacas. essas . e sinto os padrões e preferências da sociedade (tão enraizados em mim como a suscetibilidade nos exaltados e brilhantes) me dizerem que. -bergs e –steins dispersam-se para regiões tão remotas para mim quanto a Babilônia — jardins suspensos chamados Pelham e Queens e Hackensack — e o local volta para os nativos que cultivam os campos. Escreve-me relatando seus progressos em cartas que guardo bem escondidas no bolso de trás de minhas calças. como é. Compreendo que proceder de forma diferente — sem precisar que meu pai venha me lembrar — não me conduzirá a parte alguma. a não ser nas notas. tal qual aquele menino que aparece no calendário ilustrado. onde passo o inverno sobressaindo-me. não lhe dão valor? Assim se passa o verão. e eu sob o fascínio do seu tamborilar. E parte alguma não é o lugar a que pretendo chegar. onde tudo acontece. pergunto-me admirado. enquanto lá longe ao sul. os nossos -witzes. e de que me valeu aprender o que alguém como ele tem para ensinar a um garoto? Da noite para o dia. De maneira que. a despeito de toda a minha tentação para acender as espoletas e mostrar àqueles tabaréus alguns dos fogos de artifício de Herbie. para reler sempre que posso.Ele leva a sério tudo o que diz. Mas. Sou uma das duas crianças judias que freqüentam uma classe de vinte e cinco alunos. vem o Yom Kippur. totalmente surdos para a música como meu pai. não me diferencio em coisa alguma de meus colegas.

ao lado dos outros judeus. Provavelmente não permitirão que eu seja enterrado dentro dos muros do cemitério. a brilhante Madeline Levine. Já os vejo ao redor do meu corpo. tapando os narizes. por baixo dos cobertores. os hóspedes e as demais personagens. Isso será uma eterna vergonha para meus pais. ameaçava. calouro em Siracusa. dizia: "Por aqui.. Será que Bratasky realmente não compreende o que as pessoas decentes pensam dessas coisas? Será que ele não compreende que. estrangular o chefe que estava bêbado. E o trabalho que dá para limpar. "Estou chegando à perfeição de imitar o som do papel quando é puxado do rolo. Sou a própria personificação do nosso maltre romeno. O Hungarian Royale Hotel perderá a boa reputação e abrirá falência.. Madame. Personifico nossos amigos cristãos. só que. enviando uma carta como essa. e que o envelope com o timbre "Brooklyn. e depois dormir com ele. Herbert L. ao invés de fazer imitações à moda de Bratasky. ou quebrar o pescoço num passeio de trenó. mais um pouco de kishke?" Depois. no mais grosseiro ídiche. bem junto ao coração. NY" seja encontrado por meus colegas. eu imito o próprio Bratasky. quando estiver patinando no gelo. Monsieur Kornfeld.cartas são a única correspondência que recebo. À noite. É lógico que me apavoro só de pensar que posso afogar-me um dia. meu pendor para a mímica é quase igual ao do meu mestre. rapaz. que envergava um traje a rigor e com toda a pose. por que insisto em andar com esse documento acusador todo o dia? Está no meu bolso até mesmo enquanto luto para obter o primeiro lugar na competição ortográfica que se realiza toda semana. Bratasky e ninguém mais no mundo pode agora fazer pipi e cocô. que mão-de-obra!” Aos dezoito anos. minha correligionária de cabelos ondulados e futura pianista de concertos. na sala de jantar. tendo como opositor outra finalista. estará provavelmente infringindo a lei e fazendo de mim um cúmplice? Se assim é. trago-o no bolso do pijama. o que me dá um grande prazer. por favor. de volta à cozinha. para lê-lo à luz da lanterna. Tudo isso por causa do que Herbie ousa escrever em um pedaço de papel e enviar pelo correio a uma criança de nove anos que todos pensam (e ele também) ser pura. o desajeitado servente Jorge. . gemer de cólicas e depois desenrolar o papel higiênico.

na festa de estréia. cantando e até dançando. No início do meu segundo ano de estudos. mostrei-lhes todo o campus. já meio idoso. na noite anterior. observaram contrafeitos minha imitação. Chego até a encenar um longo diálogo (tragicômico-histórico-pastoral) dos meus pais. desempenhei papéis importantes nas representações de peças de Giraudoux. ao término da estação. e nada que possa me botar fora do palco. com a perfeita dicção que "vem vem de tão longe". Na manhã seguinte. à minha moda. também serve de acompanhante para as mães de família em férias e também. despindo-se para dormir. sobretudo por descobrir que nem todo mundo teve seus anos de formação tão densamente povoados de tipos tão vividos. que. a pedido do elenco. nosso musculoso salva-vidas. exaustos. Parece que não há nada que eu não possa fazer no palco. do que os dois juntos — e depois. procurando com dificuldade ocultar seu desapontamento. quando pode. meus pais vieram à faculdade para ver-me representar Tirésias — mais velho. e Big Bud. Tampouco tinha me dado conta de ser também uma personalidade tão viva. do magnífico rabino. com a ironia que lhe é peculiar. às vezes. de Poughkeepsie. para suas herdeiras casadouras.observando timidamente as aulas de rumba das senhoras à beira da piscina. Impressionada mas lembrando-me também. enquanto meu pai. pergunta mais uma vez: — E o curso de medicina? Não se fala mais nisso? . vários estudantes me deram parabéns pela minha espantosa interpretação da velhice. você já é famoso —. Quando nos dirigíamos à biblioteca. oficiando o culto divino dos Dias Santos. no cassino do hotel. Nos primeiros semestres da faculdade. que não há muito tempo era ela quem mudava e lavava os trajes das artistas de teatro — minha mãe diz: — Todo mundo o conhece. Participei de uma comédia musical. Verificar que os eventos mais sem importância de minha vida passada são considerados tão divertidos pelos outros é algo que me deixa um tanto admirado e espantado. segundo minha interpretação da personagem. mais empenhadas em bronzear ao sol o narizinho. Sófocles e Congreve.

Não. de repente. de um modo geral. afeiçoado à literatura e às línguas européias. a profissão de ator pareceu-me a mais sem sentido. Ele — o outro eu — transforma-se no jovem sóbrio. onde ninguém ainda conheça esse anseio egocêntrico pelos aplausos e pelos refletores do teatro. Vou seguir medicina. e as narrativas hassídicas e. indago a meus pais sobre a história da família no velho país. estudar para me tornar cirurgião. pela décima vez: — Eu quero ser ator! — e sempre acreditei nisso. . Porém. acham graça na maneira como abandono o palco e me retiro para morar num quarto alugado. não é sem esforço que me agarro às coisas substanciais. os . Ou. Os meses se passam. efêmera e pateticamente auto-enaltecedora das profissões. Estou de tal modo humilhado pela nudez a que me expus. levando como companhia os grandes escritores. ou diplomata. . estando já mortos. . serei advogado.já estou farto de todas essas representações! Basta de frivolidade e dessa mania de me mostrar! Aos vinte anos preciso deixar de personificar pessoas para Tornarme Eu Mesmo. não têm nenhum interesse. do meu malicioso charme em Finian's rainbow . a não ser o interesse sentimental. volto-me contra mim mesmo por permitir que todos me conheçam.— Foi então que eu lhe disse. meus companheiros. . onde poderei recomeçar tudo. que vislumbrem a vã e profunda vaidade que a repressão. solitário e culto. Li Eu e tu. e como seus filhos. nas férias. um novo objetivo. É ainda com a maior autorepulsa que me recordo da minha decrepitude em Édipo Rei. até aquele dia em que. Os atores. Com raiva. contemplativo. . resolvo em tempo interromper os interrogatórios e com eles a fantasia rabínica. por que não. Mas como psiquiatra talvez possa ser mais útil à humanidade. como já faz mais de cinqüenta anos que meus avós emigraram para a América. uma semana sim outra não. rabino. ou pelo menos personificar aquele que agora penso que devo ser. Todavia. . em casa. profundo. que penso em transferir-me para outra escola. familiar e a severidade dos castigos me impediram de exibir até mesmo a mim próprio. pelas nossas origens na Europa Central. no decurso dos quais me imponho. um rabino estudioso.

vejo Jorge que. Nos últimos anos de faculdade. Ouço o ruído das correntes dos carros chanfrando as estradas aradas. Os consertos e reparos continuam diariamente por todos os meses gelados. Jorge toca a buzina. do riso e da luz do sol que se despoja de sua exigência arrogante. de carro. Ou sou uma coisa ou outra. "É. parece-me que os Kepesh são agora três animais confortavelmente protegidos em hibernação. David abandonou o mundo". ouço as pranchas caindo na neve da carroçaria da caminhonete. Aceno com a mão. durante o inverno temos suas cartas. então. Mamãe e o Bebê. da forma como ele a vê. mas. — "Eles assinam o registro". quando o hotel estava fechado e eu lia centenas de livros da biblioteca. diz minha mãe. "os arquitetos da minha mente". E. "para tornar-se um homem do clero. tenho minhas atitudes e o poder. . Ao invés dos próprios hóspedes. sem qualquer deficiência na entonação ou volume de voz. o fato é que sou absolutista. e dessa vez é a clientela nostálgica do repolho recheado. Papai. assim parece. Vender a si próprio é a especialidade desse homem. Pelo peitoril duro de gelo da janela. . e os singelos. bem aconchegadinhos no Paraíso Familiar. a balança do poder pende um pouco. sugestivos ruídos do martelo e do serrote. desce junto com Big Bud para arrumar as cabanas do lado da piscina coberta. Entretanto. e não conheço outra maneira de mudar de pele senão pegando o bisturi e cortando-me de cima a baixo. pretendo desfazer contradições e transpor incertezas. a despeito da falta de educação que possam demonstrar. lidas em voz alta pelo meu pai à mesa do jantar. na qualidade de aspirante ao grau de bacharel. aos vinte anos. enquanto centenas de tempestades de neve caíam lá fora. "e qualquer carroceiro e sua sebenta mulher transformam-se de repente no Duque e na Duquesa de Windsor" — e passam a tratar meu pai como se também ele fosse um membro . fora da estação. Assim. de dramatizar a mim e às minhas escolhas. acima de tudo. assim como proporcionar a todos momentos bem agradáveis e.quais resolvo chamar. comenta-se que meu parceiro no elenco teria dito. um jovem absolutista." Bem. vivo mais ou menos como vivi durante os invernos da minha infância. tratá-los como seres humanos.

Seus proprietários. alto e belo. minha mãe datilografa cada uma dessas cartas no papel do Hungarian Royale. e não apenas o significado de seu hotel. moral e física. homens a cuja envergadura. reminiscências. Vou corrigindo a ortografia e pontuando onde ele traçou um travessão separando um único parágrafo ininterrupto. isso vem provar tudo. com o telegrama na mão. Após ler as cartas. diante de um prato cheio de rugalech feito por minha mãe. mesmo depois de partir para o Arizona. principia a escrever as respostas na sua letra esparramada. perspicácia. que vivia apenas para servir os aristocráticos advogados da Wall Street que a haviam contratado. desde que saíra do ginásio. começam a chegar umas quatro ou cinco cartas por semana. neto do fundador do escritório em que trabalhava. Segundo consta. paisagem de belas montanhas. com trechos longos e irregulares e cheios de filosofia. e ainda um P. . sem profissão. Abe e Belle Kepesh". Antes de encontrar meu pai durante umas férias naquelas mesmas montanhas — ele tinha então vinte e um anos. arranja um lugar na extremidade da mesa e.S. sonhadora. De fato. escrupulosa. continua a enviar-lhe telegramas de felicitações por ocasião do seu aniversário. minha mãe era uma moça ordeira. Ora é um programa em Jackson Heights. abaixo dos seguintes dizeres impressos: "Hospitalidade da velha pátria. por razões de saúde. e todos os anos. pedindo confirmação das reservas para o próximo verão e solicitando um pequeno depósito. trazendo notícias.pagante da espécie. . ela se referira respeitosamente até a morte. como ele gosta de receber notícias das coisas boas ou más que lhes acontecem. análise política e condolências. Depois. que homem ele era. O fato vem provar-lhe o que o Hungarian Royale significa para as pessoas. extraordinariamente competente. então pequenino: "Oh. Quando a neve é mais intensa. ao invés de ser o alvo do descontentamento deles e o homem certo para suas ridículas rotinas reais. também passando ali o verão em que se ocupava com o preparo de pratos ligeiros — ela trabalhava há três anos como secretária num escritório. ora uma mudança para Miami. Ah. estrita observação aos preceitos dietéticos. O caro Doutor Clark. ou a abertura de uma segunda loja em White Plains. e . ela exclama. para meu pai que já vai ficando calvo e para mim.

continue. . juntamente com um grupo de veranistas da cidade. a mim. batendo as respostas tagarelas de meu pai. a viu encostada ao piano cantando Amapola. quase a levaram a um colapso nervoso no fim do verão. segundo declaração do próprio . de tórax forte. Meu pai. . "Você é o dono de uma companhia de navegação". contas para conferir. que banque o executivo e lhe dite uma carta. Ainda me lembro dele. as qualidades que haviam feito dela o tesouro do chefe. que nada tinha de feitor de escravos naquela sua alma abatida e escravizada. Às vezes. com bíceps de Popeye e nenhuma credencial de classe. para que ela possa mostrar-me a magia de sua estenografia. as pernas e o busto tão bem torneados que. "Vamos. de pé." Sempre que pode. com orgulho. Jamais esquecerei aquela pose que ele tinha". roupa para contar. uma secretária de escritório de advocacia. a princípio. um menino de escola. Lamentavelmente. porque até mesmo num pequeno hotel familiar como o nosso sempre há reclamações a serem atendidas. e logo disse consigo mesmo: "É com aquela moça que vou me casar". Somente no inverno. isto é. e ela senta-se na correta postura da datilógrafa diante da grande e negra Remington Silenciosa. proeminente como uma pipa. comida para provar. confirma que ela foi. ela chega a propor-me. diz-me ela. quando meu pai e eu assumimos o inverossímil papel de Clark père e fils. pensou que ela fosse espanhola. porque sempre acha que não está sendo feito direito. E a mania de perfeição que tanto cativou o Doutor Clark Júnior foi precisamente o que a tornou ainda mais atraente aos olhos do jovem vigoroso e furão. empregados a vigiar. é que tenho um vislumbre da pudica e feliz señorita por quem ele se apaixonara à primeira vista. após o jantar. a mim que na verdade só há muito pouco tempo tive permissão para comprar meu primeiro canivete. a mais impecável secretária que jamais trabalhou para a firma. lembra-me a diferença entre uma secretária de escritório comum e o que ela foi. depois de casada. cristão e austero. E isso num crescendo tal que ela acaba fazendo o trabalho de todo mundo. o que aconteceu foi que um homem troncudo e cabeludo. quando entrei no seu escritório para ser entrevistada a fim de obter emprego. Seus cabelos e olhos eram tão pretos.tão distinto. Na verdade. na verdade. junto à mesa de trabalho.

quando lhe pareceu que eu já tinha idade para isso. o joão-ninguém. com as minhas numerosas leituras e anotações. me abandonando. sem nenhum amassado. Um dito atribuído ao não menos insigne e egotista Lorde Byron impressiona-me pela sua sabedoria melíflua e resolve em apenas seis palavras o que estava principiando a me parecer um dilema de proporções morais insuperáveis. Não que eu. amassado. surrupiado. estação solitária. Um insignificante cordeirinho que se desgarre a uma distância de alguns metros faz com que vá a todo o vapor pela descida irregular. e. tenha me tornado desprendido. pintado de novo. . quarto por quarto. Mas isso é no inverno. rachado. Então. os olhos pretos fuzilam furiosos. cuja sobrevivência depende de conduzir o rebanho indisciplinado ao mercado. No verão. Com uma certa estratégia audaciosa principio a repetir a citação em voz alta para minhas colegas. desinteressado. vai. . normais. Mas um “bé-é" vindo de qualquer outra parte já a atrai na direção oposta. rasgado. A essa pequenina mulher simples e metódica. com a graça de Deus. nem bem partiu o último hóspede e já tem de começar o balanço.Doutor Clark em carta de felicitações por ocasião do noivado deles. jamais me ensinou alguma coisa com tamanha candura e convicção. como "prejuízo total". e daquilo que precisa ser consertado. cujo maior prazer neste mundo é ver uma cópia de carbono perfeita. e seus gritos agudos parecem latidos de cães pastores. aos poucos. mesmo assim. para avaliar a extensão da violência descarregada sobre nossa fortaleza nas montanhas pelas hordas de vândalos que meu pai persiste em defender — apesar dos veementes protestos dela — como simples seres humanos. dizendo que sou muito . Ninguém. sinto que. . inocentes e sentimentais. ou jogado fora. influenciado pela solidão de Siracusa. ensinou-me a bater à máquina. . que resistem. cabe a tarefa desse inventário. E isso não pára até que os Dias Santos tenham terminado. substituído. o exibicionista. lascado. manchado. antes ou depois. É preciso! Agora mesmo! Tem-se que fazer um levantamento do que foi quebrado. rodeada de gente. em um desses invernos. Precisamente como os violentos invernos de Catskill nos transformam a todos novamente nos Kepesh mais suaves. vergado. assim também eu no meu quarto.

com rapazes cujos rituais de camaradagem ele também considera desprezíveis. "o que é que você quer Kepesh. e não posso me dar ao luxo de perturbar essas meninas. não através da pornografia ou de revista sensacionalista. palavra essa cujas ressonâncias mais profundas vêm-me. Estudando Macaulay para a prova de inglês. mas no interior do Estado de Nova York. Vai conseguindo cursar a universidade. faculdade. creio ser melhor substituir "dissoluto" por "desejoso". Porque ele não está preocupado. parece-me importante para o solene trabalho que denomino "compreender a mim mesmo". não estou num palazzo de Veneza. cursando filosofia. "Tire a mão". em agradar a quem quer que seja. grunhe. desajeitado e simples.inteligente para essas coisas. ao invés de viver no alojamento da universidade. Afinal. por toda parte. mas de uma leitura exaustiva do Ou isto ou aquilo. de Kierkegaard. dono de loja e. Só tenho um amigo. um homem nervoso. mais do que já o faço com o meu "vocabulário" e a minha crescente reputação de "solitário". Louis aluga um quarto em casa de família. na cidade." Contudo. e — eureca! — descubro outro ponto de extraordinária justificativa para as minhas notas altas e meus desejos baixos: "Um libertino entre eruditos. e carrega consigo. juntamente com o pensamento de Byron. é o meu mentor sobre Kierkegaard. por descuido ou simplesmente por alegria ou camaradagem. seus pais. Quando toco nele. com raiva ou por gozação. pelo que pude perceber. aqueles "bárbaros burgueses". graças a um emprego numa lanchonete (prefere isso a aceitar dinheiro dos Scarsdale. um cheiro de hambúrguer. bem acima dos nomes das moças que tenciono seduzir. em um campus da universidade. dá um salto como se tivesse receio de contaminar suas roupas fedorentas. o colaborador de Addison. senhorio. cujo nome é Louis Jelinek. está procurando alguém para foder?" Será que estou? Essa idéia não me havia ocorrido. família. Perfeito! Tomo nota. "Estudioso de dia". nossos colegas. digo-lhes. Com quem? O estranho é que tudo o que Louis possa dizer-me. de fato. que vejo regularmente. certamente. que despreza). os mais ínfimos de todos. e mesmo assim acho que ele está mais em contato com a realidade . Como eu. um erudito entre libertinos". leio uma descrição de Steele. "dissoluto à noite. e que.

Meu amigo? Não pode ser. em todo o decurso dos meus dezenove anos. pregado nas chinelas de corda. enquanto tinham as frontes e faces limpas e secas pelos escravos das galés. judeuzinhos ricos em férias. que "obviamente" meu amigo era homossexual "ativo". a fim de ficarem à sombra. desagregado. usando dois canudinhos. Mas. Mamãe e Titia. aquele dia. cabelos ondulados. acercou-se de . cascas e papéis — uma perfeita bagunça! Vejam só o bolo de lenços de papel ao lado da cama desmantelada. com o ar mais natural do mundo. enquanto Jelinek — o excêntrico. sem compreender. nascidos com os braços aparafusados como os das meninas.do que eu. Sou um desses rapazes altos. inexpugnável Jelinek — parece não se importar com nada do que o mundo saiba ou pense de suas copiosas ejaculações. conheço bem as bichas. chegavam ao nosso hotel algumas famosas. Exceto. sintome lamentavelmente banal: tão bem-arrumado. e mesmo sem poder acreditar. Por que não posso parecer-me mais com Jelinek. automaticamente arremesso no cesto de papéis o produto da masturbação. tresandando a cebola frita e olhando de cima para o mundo inteiro? Olhem só a lata de lixo onde ele mora! Cheia de caroços. até mesmo no recesso do meu quarto fechado. quando estava sozinho no mictório. um homem de meia-idade. e o que dizer sobre a prática do homossexualismo? Nunca. ainda não tão indiferente a aparências e reputações. naturalmente. quando tomei um ônibus sozinho para ir a uma exposição de selos em Albany e no terminal. tão encantador quando preciso e. Fiquei aturdido. quando um estudante do curso de filosofia disse. embora afirme o contrário. ou quando sorviam chocolate quente. logo depois de meu bar mitzvah. Todo verão. Eu os observava fascinado quando se dirigiam para longe dos raios do sol. havia também alguns desafortunados. Vovó. covinha no queixo. insolente. nunca. bem-vestido. É claro. para os quais Herbie me chamou a atenção pela primeira vez. invariavelmente. . Um minuto após o orgasmo. . a despeito de muitas aulas particulares de paciente instrução que lhes eram ministradas. no colégio. principalmente. Ao lado de Louis. E. que desenvolveu maneiras cativantes no ginásio e agora não pode livrar-se delas por mais que se esforce. que não conseguiam atirar uma bola. tão limpo.

Ao invés disso. espero com medo que qualquer dia Jelinek revele sem querer a verdade a seu respeito. cabelos já rareando. obrigado — respondi. garoto.mim. precisamente porque a idéia me apavora. Será tão improvável assim que uma dessas noites essa criatura inteligente. não faça isso! Oh! Louis. diretamente. como uma porção de buquês de flores. quer que eu lhe dê uma chupada? Não. meu Deus. . e o mais depressa possível (e esperando não ofendê-lo) saiu do banheiro dos homens. do . por favor. se era essa a razão. o dele em relação a mim é que ele é bicha? Como se quisesse provar o quanto sou normal. nunca pergunto. por princípio. por que uma pessoa tão positiva e sem cerimônias como Jelinek não me esclareceu logo tudo. será que é por isso que me disseram para ficar com as mãos junto ao corpo quando as mangas de nossas camisas roçassem uma na outra? Será que. pelo menos que eu saiba. você é espirituoso demais para fazer tal coisa! Por que não podemos apenas conversar sobre livros?” Mas. francamente? Ou será que. se precipite desajeitado por detrás da mesa onde faz suas preleções sobre Dostoievski e tente agarrar-me em seus braços? Será que vai dizer que me ama e meter a língua em minha boca? E a resposta que vou dar será exatamente igual à que as inocentes e tentadoras meninas me dão? "Não. como ele gosta de chamar-me quando discordamos sobre o profundo sentido de qualquer obra-prima. para ele. sussurrando-me ao ouvido: — Ei. sentando-me bem afastado. não estão ali para efeito publicitário? Como um convite? . Até encontrar Louis. . continuo a visitá-lo em seu aromático quarto. Mas com o passar dos anos. enquanto o meu vergonhoso segredo com Louis é o fato de eu ser absolutamente normal e respeitável. onde podia misturar-me à multidão de compradores heterossexuais. e que. não. de nariz adunco. Oh. despreza o uso do desodorante nas axilas. para longe do terminal. um verdadeiro Joe College. não. Ou a sua verdade tem estado comigo todo o tempo? Naturalmente! Aqueles montes de lenços de papel espalhados pelo quarto. e encaminhei-me para uma loja. nenhum homossexual tornou a falar comigo. porque tenho medo de vir a ser o "tabaréu" e o "matuto". um mero contato casual com outro rapaz acarreta sérias implicações? Mas.

foi-lhe negada matrícula no segundo semestre do penúltimo ano. Posto que a opinião fosse unânime sobre a capacidade intelectual de Louis. lá no campus. primeiro por não comparecer a uma única aula no decurso de um semestre inteiro. levando seu Kierkegaard e a caixa de lenços de papel.outro lado do catre. . desaparece de Siracusa (sem despedir-se. veio interrogar-me depois que Louis desertou do treinamento básico para escapar à Guerra da Coréia e (assim imagino) escondeu-se em um cortiço qualquer. quem? — Os garotos. O agente McCormack pergunta: — Que me diz de sua fama de homossexual? — Corando. Só soube de tudo quando um agente do FBI. Dizem essas coisas porque ele não era uma pessoa fácil de lidar. conversando horas a fio sobre as mais enlouquecedoras e vexatórias idéias e. de jeito nenhum. Da noite para o dia. — e novamente o rubor me volta às faces — é que não é verdade que ele tivesse fama de homossexual. respondo: — Não sei nada sobre isso. o que eu quero dizer. acima de nós. — Mas você se dava bem com ele. Antes que o faça. sardônico. movimentando e espichando o pescoço com rapidez. de olhar penetrante. senhor. — Que você era camarada dele? — Não. Louis é expulso da universidade. Bruscamente Louis exclama indignado. . não é? . rezando para que ele não pretenda consumar o que deseja. enojado: "Que problema?". — Eles? Eles. Era um tipo pouco comum. — Diz McCormack: — Mas eles disseram que você era o amigo mais íntimo dele. particularmente para as pessoas que andam por aqui. que lhe pedira para procurá-lo a fim de conversarem sobre o problema. — Isso é um comentário maldoso. é escusado dizer) e quase imediatamente é convocado. Não é verdade. e segundo por nem se dignar a tomar conhecimento das notificações de seu professor orientador. como se o "problema" devesse estar em algum lugar no ar.

caso você descubra. de que as meninas são apenas para tapear. e a vergonha que sinto de tudo isso. Que você vai mesmo é atrás das meninas. evitando o olhar dele. As meninas atrás das quais tenho andado. lugar comparável à passagem de emergência de uma casa de striptease (ou teatro de revista). patenteia-se logo (ou. senhor. conforme percebi pelo tom como falou. Onde acha que ele está? — Não sei. meus instintos colaboracionistas. não se pode dizer o mesmo de Louis — diz ele.— Dava—me. — O que quer dizer com isso? — Dave. Meu horror à prisão. — Muito bem. tenho certeza disso. diga—me uma coisa. da classe média americana. — Sim. Seja franco comigo. ou as levo ao salão de leitura da biblioteca. — Quando ele se retira. pode-se logo imaginar) nessa atmosfera impregnada de . — Entretanto. Aqui está meu cartão. ambíguo. E por que não? — Ninguém está dizendo que você não devia. — Então. . bem-educadas. seleciono-as. Em geral. — Sim. senhor. apavoro-me com a maneira pela qual me comportei. é? — Sim. É verdade? — Creio que sim — respondi. . O que quer que fique mal disfarçado naquelas meninas bem-vestidas. — Ah. e da insinuação. pela propriedade que tem de me estimular e concentrar o desejo. minhas maneiras à Lorde Fauntleroy. vai me avisar quando souber. na maioria das vezes. Ouça me contaram que você é um perfeito Casanova.

você não fala assim. — Mas vocês não vêem que é apenas o meu corpo? Não desejo relacionar-me com vocês em outro nível. não diga isso novamente. — Por favor — suplicam —. como o de um supliciado. . — É assim que elas me falam. estava docemente aconchegada na cadeira da sala de aula começa a balançar a perna debaixo da mesa da biblioteca sobre a qual está a revista Look que ela folheia calmamente. exceto saber se. Outra menina que. por que você não pode apenas conversar e ser agradável? Quando você quer. Na aula. isso me leva a procurar moças que. — Por favor. meu desejo é realmente desejo e não pode ser diminuído ou desprezado. observo-lhe os seios sob a blusa. — Sua bunda é sensacional. enquanto ela toma notas na enciclopédia com a mão direita. extasiado. Não posso fazer nada. — Oh. e os meus desejos não conhecem limites. — Seu corpo é sensacional. eretos entre os braços cruzados. eu acharia vulgares ou bobas ou chatas. como estou convencido de que a chatice nada tem a ver com o que possam dar. estudo a minha. — Você está sem sorte.respeitabilidade acadêmica. de outra forma. no dia anterior. uma terceira inclina-se sobre seu caderno de notas e eu. mas não quando me insulta assim. não seja grosseiro. não é preciso nada para que me aproxime de uma moça totalmente desconhecida. enquanto ostensivamente continua estudando a lição de história — enquanto eu. sem levar em conta quão insubstancial e singular. não pode deixar de delinear o círculo dos lábios com a mão esquerda. a moça que brinca com as pontas dos cabelos. Como desejaria ser aqueles braços! Sim. também ostensivamente. você é tão simpático. Olho. mas. Recuso-me — por mera incapacidade que erigi em princípio — a resistir ao que quer que seja que ache irresistível. Gosto de ouvi-lo. ou infantil e perversa possa a origem dessa atração parecer a qualquer outra pessoa. Naturalmente. reprimindo um gemido. Entrementes.

quando na realidade. consideradas suicidas. ao ver seus seios colados aos braços. por favor. depois de eu dizer quem estava falando. Agora. Não admira que no último ano da faculdade eu já tivesse adquirido a reputação de "terrível" para a irmandade feminina cujas participantes tentara seduzir com minha agressiva candura. num período de quatro anos. em vez de "conquistador". e cheguei perto disso com outras duas. No meu último ano de universidade. havia ocasiões em que o fone ficava totalmente mudo do outro lado. isto para mim é apenas meu assento. A julgar pela fama. deixe de gozação e de ser sarcástico. tão sério como ninguém jamais lhe falou em sua vida. Parece que é muito diferente. — David. — Não estou gozando. e as poucas meninas bem-comportadas que concordavam em arriscar-se a sair sozinhas comigo eram. só consegui comer mesmo duas. murmurando: "Oh! fora eu a luva naquela mão / Para poder tocar aquela face". Continuo a ser brindado com o divertido desprezo dos meus amigos altamente inteligentes do grupo de teatro. Você deve orgulhar-se de ter uma assim. Só assim você vai entender. Num arroubo de sinceridade calculada — que se tornou mal calculada — disse a uma daquelas meninas que. Sua bunda é uma obra-prima. Argumento o quanto posso que jamais tentei enganar ninguém sobre meus desejos ou sobre seus dotes e. Perfeita. os que dentre eles têm a veia satírica dizem que eu abandonei a carreira eclesiástica para entrar na . elas se deixam esfriar pela lógica (ou falta de lógica). sou apenas uma das poucas pessoas honestas que andam por aí. Na maioria das vezes. conforme elas mesmas me disseram. sob o balcão de Julieta. Sua bunda é maravilhosa. Estou falando sério. E pergunto se isso é muito diferente do perseverante charme de Romeu. — O cacete! Pergunte a uma garota que não tem uma dessas se não gostaria de trocar.— Insulto? Isso é um grande elogio. qualquer um pensaria que já transformara uma centena de universitárias em prostitutas. — Por favor. em vez de se excitarem. me deu vontade de ser aqueles braços.

na barriga de Marcella Walsh. fica bem longe da interpretação da angústia sexual de Strindberg e O'Neill. e vislumbrado de perto aquele abundante. na fila do restaurante da universidade. Uns desejos já enterrados ressurgiram quando. como é que podem aquelas pernas compridas e fortes como as de um rapaz e que estremecem ligeiramente quando se curvam. Nova York. Ouvem-se vivas quando as meninas das equipes colocam a mão nos quadris e com a outra levantada no ar vão batendo o compasso. que se arrastam pela quadra. enquanto arqueiam o corpo cada vez mais para trás. de simples saias brancas plissadas e largos suéteres também brancos. somente ela parece (para mim. e o mais irresistível dos bombons. Oh. certa noite. suplicando para ser satisfeita. e a minha torcida para que Siracusa vença o campeonato de basquete do NCAA ter sentido? . seu lábio inferior. de Plattsburg. que ondula vagarosamente. Quanto às outras sete moças. como podem aquelas mãos que me falam da mais agradável de todas as pressões. Na verdade. a seqüência dos movimentos parece apenas uma dinâmica demonstração de ginástica executada com grande dispêndio de energia e que toca as raias da comicidade. deixá-los pensar. a partir da cintura. e seus cabelos sedosos (de onde provém seu apelido). Bem. meu Deus. para mim) sentir que a veemência comportada e atrelada àqueles insípidos vivas não é senão um leve disfarce da rude melopéia que será declamada enquanto o pênis penetra. sem dúvida. o que. a sua pelve protuberante. como é que o meu desejo daquela pelve pode mostrar-se tão provocadoramente através dos berros da multidão ululante. Sim. Mas. "trivial" ou "indigna" para mim ou para ela. generoso colchão. para mim) de um oferecimento. até o êxtase. existe apenas uma animadora na minha vida capaz de despertar em mim agonias não corrompidas de uma suprema frustração e que torna ridículos os meus sonhos licenciosos: uma certa Marcella "Sedosa" Walsh.turma dos animadores de diversões. há a ardente sugestão (iniludível. já a tendo encontrado naquela tarde. uma volúpia impaciente e inconsciente. como pode a cobiça das menores pulsações do seu ser parecer "sem sentido". um convite. que me parece bem clara. eu assistia a uma partida de basquete unicamente para vê-la pular.

o FBI não me compreende. um infantil Dom Giovanni ou um Johannes. botar de lado toda tentativa razoável de persuasão — e. nem mais abaixo. "Sedosa" Walsh não me compreende. o departamento de alojamentos do King's College arranjou-me acomodação em casa particular. realmente. tenho de botar de lado lógica. Em vez disso. posso beijar-lhe o ventre sobre o qual falei tão "obsessivamente". com uma bolsa de literatura. e um longo passeio de metrô que me leva a um bairro denominado Tooting Bec. permitirá que eu faça cair uma chuva de beijos sobre seu diafragma desnudo. às horas de persuasão que poderiam ser passadas dando-nos vivas um ao outro em orgasmos oceânicos!). após seis dias de navio. nem mesmo Louis Jelinek jamais me compreendeu e. Meu pai não me compreende. argúcia. muito pouco cruel ou não suficientemente fria para reduzir mesmo um Romeu de mente suja. Conduzido ao meu minúsculo e sombrio quarto no sótão . nem a irmandade feminina ou os boêmios me compreendem. um BarbaAzul. de pretensas casas da época dos Tudor. nem mesmo eu próprio. Não. murmura "Sedosa" enquanto me aproximo dela. e nada mais. do porão do alojamento. espero utilizar no meu caminho para esses penetrantes prazeres eróticos que ainda tenho de aprender. 'quando se inclina junto ao tanque da lavanderia. Sendo ela. a própria dignidade também —. Chego a Londres para iniciar um ano de estudos. o meu mundo se interpõe a seus argumentos e limitações. o Sedutor.Essa é a linha de raciocínio que terei com a própria "Sedosa" e que. como eu havia pedido. candura. tenho de me tornar tão deplorável e pusilânime como um animal faminto aos olhos de "Sedosa". ninguém me compreende. sim. escura como breu. numa rua infindável. David. e erudição literária. apenas esse suposto homossexual (procurado pela polícia) foi meu amigo mais íntimo. nada de descer mais baixo — e eu digo: — Como pode pensar que eu faria uma coisa dessas? Assim. — Nem mais acima. afinal. o tempo. entre os anseios e a infinidade de objetos do desejo. uma viagem de trem a partir de Southampton. Aqui. que. por incrível que pareça. a um desprezível suplicante. e não em Bloomsbury. com o tempo (oh. a mais doce e bem-intencionada das moças. provavelmente jamais tendo visto alguém tão miserável.

não sou tão abnegado para sofrer assim!" Na presença do robusto capitão e de sua gentil mulher — que. mal faz uma hora que cheguei. Quase chorando (realmente. e seu finíssimo bigode? Tudo isso para quê? Para estudar as lendas do Rei Artur e as sagas islandesas? Por que todo esse castigo pelo único motivo de ser inteligente? Meu tormento é verdadeiro e colossal. sobre a qual ouvira falar durante a travessia. encontro o telefone no vestíbulo e disco. e naquele mesmo instante me vejo sem a animação com que atravessei o Atlântico.pelo capitão reformado do Exército e sua mulher. já deixaram de me sustentar. É verdade. e Tooting Bec? E esse minúsculo quarto? As refeições com o capitão à minha frente. a pura alegria ressentida ao abandonar todos os rígidos rituais da vida de estudante. presumo. Quatro ou cinco horas mais tarde — já tendo a noite caído sobre a Europa Ocidental. e já tendo eu quase digerido minha primeira refeição inglesa de espaguete fino sobre um pedaço de torrada —. do lado oposto da mesa. em cuja companhia. estou quase fazendo uma ligação a pagar. olho para a cama em que terei de passar trezentas noites. mesmo antes de assistir às minhas primeiras aulas sobre o épico e o romance. murmura durante todo o tempo algo sobre novos tapetes para a sala —. convencida pela cor de minha pele de que sou armênio. Mas. os quais. para um rapaz desconhecido. para os Catskill). e assim desligo o telefone. viajar . Chama-se Shepherd Market e fornece-me uma experiência que vem alterar completamente minha atitude em relação a ser estudante da Fulbright. que desejo renunciar à minha bolsa da Fulbright e voltar para o meu país? "Escolheram o candidato errado. começo a compreender que. ou mais ou menos isso. Mas como posso telefonar para esse alinhado intelectual e dizer-lhe. Na minha maleta tenho o número do telefone de um professor de paleografia do King's. um dos meus professores de Siracusa. e os cansativos cuidados de minha mãe e do meu pai. vejo que tenho ainda mais medo de confessar que estou com medo e infeliz. aos quais pertence essa casa de muita arrumação e pouco arejamento. com medo e infeliz pela minha situação. que me foi dado por um amigo. conforme fui informado. dirijo-me a uma praça de Londres. deverei jantar.

na Columbia Encyclopedia que carreguei comigo através do oceano. Mas qual o sentido de uma puta que não pareça e fale como as putas? Afinal. na noite seguinte. bem mais rápido do que havíamos planejado — como se. afinal das contas. imaginem só. Descubro o Soho por mim mesmo. não depois de ter sonhado em pagar por tal privilégio desde a idade de doze anos. Não obstante. do que no quarto de uma prostituta que faça tudo quanto eu desejo — não. descubro que. e que escolhi entre suas competidoras na base desses seios de paquiderme e bunda não menos ampla — provavelmente nasceu antes da deflagração da Primeira Guerra Mundial. após meu jantar com o capitão e sua mulher. ainda não ando à cata de namoradinha. quando ela está montada em mim e de repente larga todo seu peso para fazer o que quer. rápida e profissional. meu risco de morrer de gonorréia e não de velhice deve ser menor. . de Baugh. para ser mais exato) e em data anterior ao meu próprio nascimento. . enquanto procuro situá-la neste século. que as últimas fases de sua doença venérea acabaram com Maupassant na idade de quarenta e três anos. num restaurante perto do Harrods. tive em minha companhia uma prostituta — a primeira prostituta da minha vida e. Porém. chamado Sol da Meia-Noite. juntamente com a Literary history of England. também. não consigo pensar em outro lugar para estar. Realmente. Descubro. não será ao Soho que irei. um grande erro. alguns minutos após espreitar timidamente essa notória praça. se escolho putas cuja aparência não seja tão devassa. estou sendo acelerado para o meu grande final com o auxílio espontâneo de uma mão segura. percebo. Naturalmente. um de nós estivesse correndo para pegar um trem —. o que é mais importante. Não obstante. E quando estiver pronto para uma. na verdade. e os três volumes em brochura de Trevelyan. antes da publicação de Ulisses. Naturalmente. antes. fico aterrado com a idéia de morrer como Maupassant. com um estranho frêmito um tanto repulsivo. que aquela mulher cujos seios se chocam acima da minha cabeça como caldeirões.para um país também desconhecido não é. até então. a primeira das minhas parceiras de cama que nasceu fora dos Estados Unidos (fora do Estado de Nova York. quando ganhava uma semanada de um dólar para fazer o que bem entendesse. . certamente ainda não. mas a um almoço de arenque.

ainda se assusta quando isso acontece. igualmente. que mostram prodigamente as lindas pernas douradas e os corpetes de camponesas cruzados na frente. faço habilmente gazeta nos dias das aulas sobre a Escandinávia antiga. onde as garçonetes são conhecidas como jovens deusas escandinavas maníaco-sexuais. pois. habitada sobretudo por estudantes. para o Sol da Meia-Noite.O mito da moça sueca e de sua liberdade sexual está. em seus primeiros fulgores e. e ainda não atingiu esse objetivo para que possa voltar. topa todo e qualquer programa que lhe passe pelo caminho. época em que voltará para passar o verão com a família na casa de férias que possuem no arquipélago de Estocolmo. sem que a família de Elisabeth saiba. Birgitta. muitos dos quais têm a pele muito mais escura do que a das moças. Partamos. apesar do natural ceticismo despertado em mim pelas histórias dos insaciáveis apetites e estranhas predisposições que ouvi contar na universidade. Elisabeth tirou uma licença de um ano na Universidade de Lund. na passagem pelo corredor. não tem nenhum preconceito. a qualquer hora da noite. de salto de madeira. trabalha em Green Park. filha de amigos da família. Elisabeth resolve aceitar as agressões insignificantes do vestíbulo. juntando dinheiro para alugar uma espreguiçadeira e. até junho. . Elisabeth confidencia-me não gostar muito do lugar onde mora — os indianos. assim como a sórdida vizinhança. Entretanto. É aqui que encontro Elisabeth Elverskog — e ela também me encontra. a fim de procurar por mim mesmo a possível verdade sobre essas excitantes especulações de menino de escola. e os africanos. contra os quais ela não nutre nenhum preconceito racial. durante esses anos. que entrou na Inglaterra na condição de estudante e parece estudar na Universidade de Londres. pondo à vista o sedutor volume dos seios. como parte da aventura de viver no estrangeiro. sapatos pintados. que deixou a Universidade de Uppsala dois anos mais cedo para melhorar seu inglês. e mora com outra sueca. a incomodam cozinhando pratos com caril no quarto. Elisabeth partilha com Birgitta uma vaga no andar térreo de uma casa de cômodos na Earl's Court Road. com gênio complacente e bemaclimatado. e. às vezes se aproximam dela para lhe pegar os cabelos. embora ela perceba a razão e compreenda que eles não têm nenhuma intenção má. a fim de melhorar o inglês. contra os quais.

desde que resolvi almoçar no Sol da Meia-Noite — na verdade. o irmão e a irmã de Birgitta. isto é. hilariantes e aos gritos? E elas ensinam-me bránnboll e algumas noções de fly-catcherup e stickball. seja maior do que no tempo em que retínhamos a respiração e fazíamos de conta que não estava acontecendo nada. que nem me apercebo de que Elisabeth está lentamente se desagregando pelo esforço de participar integral e pecaminosamente do nosso ménage intercontinental. um debater-se desesperado. gin ou canastra. não com apenas uma. . Elisabeth. jogamos cartas. imitando o capitão e sua mulher quando esses me declaram não permitirem coabitação no prédio. a partir do dia em que deixamos de fingir. nem mesmo entre eles.Descrevo a Elisabeth minhas acomodações monásticas. a pequena Birgitta. em Estocolmo. desde que venci meus temores e entrei no Shepherd Market para procurar a mais puta das putas —. ou quando passamos o domingo em Hampstead Heath. morena. metade do que pode muito bem ser denominada meu harém. dentucinha e (na minha opinião) atraente. Nas primeiras semanas. Não creio que minha excitação. cabelos pretos. e certamente assim é quando nós três fazemos piquenique e jogamos tênis. assim me disseram. — Eu lhes ensino as "bases da corrida” — e pode existir alguém mais encantado do que Elisabeth ao ser alcançada na corrida que eu e Birgitta damos. Talvez não me aperceba disso porque também ela está em grande exaltação — uma exaltação transbordante. que é uma combinação de um jogo que elas jogavam no colégio. como também a mãe. Quando chove. O velho Rei Gustavo V era apaixonado pelo gin-rummy. a fim de manter-se à tona — e o resultado é que parece estar sempre se divertindo demais. o pai. e estou num estado de tamanho frenesi egoísta sobre essa coisa improvável que está me acontecendo. E quando arremedo o inglês arrastado e monótono da mulher do capitão ela ri ainda mais. Sinto-me de tal forma entusiasmado e inebriado com a mudança que se operou na minha vida. mas com duas suecas (ou se quiserem. européias). eu considero essa exaltação uma exaltação agradável. finge que dorme quando Elisabeth e eu chegamos ao seu quarto do rés-do-chão e fazemos de conta que não estamos trepando. o que a diverte enormemente.

ou tentar dormir. escrevo cartas para Elisabeth nas quais tento me explicar. Por que cargas-d'água ela está se desestruturando? Eu não estou! E o que dizer de nossas acaloradas discussões sobre a Segunda Guerra Mundial. na verdade. Elisabeth diz com tristeza. até mesmo quando eu ameaço botar algum juízo naquela cabeça à força. dezesseis dias após minha mudança de Tooting Bec para os aposentos das duas moças. triunfante. delicia-se com meu jargão e logo procura empregálo — da mesma forma que eu. adora perguntar (e eu adoro ouvi-la perguntando) à sua adversária: "Que jogo é esse. conforme resolvemos denominar no telegrama a seus pais o braço quebrado e os pequenos ferimentos de Elisabeth ao atravessar diante de um caminhão. sento-me diante da máquina de escrever para fazer a dissertação que devo brevemente entregar ao término do curso de saga . e aprendi tudo com Klotzer. quando tínhamos oito anos mais ou menos. Durante o jogo. que a guerra foi "culpa de todo o mundo". o jogo na mesa.cujos amigos perdem centenas de tardes jogando canastra. continuo a pendurar meu paletó no armário de Elisabeth e dormir. quando procuro explicar — e nem sempre com a devida calma — a essas duas orgulhosas neutralistas o que acontecia na Europa na época em que nós ainda éramos crianças? Não é Elisabeth quem insiste com mais veemência (e inocência também) do que Birgitta. Como posso então dizer-lhe que ela não só vai ficar em pedaços como também vai pensar da manhã à noite. em sua cama. quando baixa. Noite após noite. o Rei da Água Tônica (considerado por minha mãe o hóspede mais importante da história do Hungarian Royale — ao vê-lo deixar cair as pesadas nádegas na cadeira de vime. eu simplesmente não consigo me mudar agora. diante de Birgitta. ou antes. parceira?" Ah. acredito que estou ficando lá porque. enquanto embaralha e torna a embaralhar as cartas distribuídas por Birgitta: "Meu jogo está um futebol" e. ela precisava desviar os olhos — e que era o que mais sofria e resmungava na mesa de jogo). em como se refazer? Depois do "acidente". eu quase morro de prazer quando na canastra ela chama o curinga de "mele". E. no meu estado de choque. pega logo o ginrummy depois de observar por apenas meia hora algumas partidas entre mim e Birgitta.

desculpe-me. e que teria feito qualquer coisa que eu desejasse que ela fizesse. Era como se eu não fosse mais uma criatura humana. entretanto. Nas minhas cartas. o perdão de uma reflexão amadurecida: "Tusen pussar och kramar". no bar. "Não sou uma moça forte como Gittan. como Birgitta e eu próprio. no dia em que ela voltou para sua terra. com a maior inocência. como fui cego! “Alskade David!" principia. e o meu inglês é estranho quando escrevo. e "estranho" e. . de modo que a moça tola aprendeu alguma coisa. confesso-lhe repetidas vezes que estava cego sobre a natureza de seus sentimentos por mim. . . Foi como estar no inferno. abaixo do nome. acrescenta com uma letra quase imperceptível. terminando por dizer a Elisabeth que eu não havia percebido que ela só estava tentando agradar-me e. Por outro lado. e não posso fazer nada contra isso. chego quase às lágrimas. escrita do seu quarto. ao dizer-lhe que encontrei um . Sou tão imbecil. e cego quanto à profundidade dos meus sentimentos para com ela! Considero isso também imperdoável. E. Por diversas vezes — no metrô. Din Bettan” Depois. Amava alguém e o que fiz nada tinha a ver com o amor. . desamasso-a para reler essas primeiras frases de escola primária. começa a explicar como se apaixonou por mim. como fui insensível. mil beijos e abraços. e depois. estava acima de tudo fazendo o que lhe agradava. "totalmente imperdoável". durante a leitura — pego a sua primeira carta.islandesa sobre o declínio da poesia escandinava como resultado do emprego exagerado de imagens poéticas. e "triste". ao considerar essa minha ignorância. receia dizer que o faria novamente. que jamais deverei fazer de novo o que nós três fizemos. Sou apenas uma fraca Bettan. no inglês dela. caso voltasse para Londres. que todas as vezes me impressionam como o caso Sacco e Vanzetti que idiota eu fui. e que foi para a cama com os dois somente porque eu queria que ela o fizesse. o fato leva-me a fazer uma tentativa para nos dar a ambos um pouco de esperança. Sei. não por Gittan. acreditava que. por mais que viva. no entanto. acho tudo "aterrorizador” e falo sério.

vergonha genuína. ela deve remeter suas cartas para lá — caso ainda queira escrever-me — ao invés do antigo endereço. era invariavelmente Birgitta quem segurava a cabeça de Elisabeth.. fracos. saciados e confusos. os membros inertes entre as peças de roupa. Deixando a carta por terminar.quarto para ficar sozinho (pretendo daqui a dois dias procurar o referido quarto) na sede de uma organização da universidade. repulsa. Quando em funcionamento. uma sensação de indignidade. para o altar de nosso sacrifício —. Como se o comportamento de Elisabeth para conosco só competisse à consciência de Elisabeth avaliar. certamente. em vez de para mim. na maior parte das vezes. para ficar calmo. . meus braços. Birgitta não é menos culpada do que eu em abusar da natureza maleável de Elisabeth. Naquele ponto.. e que. a sensação de que não sou culpado de coisa alguma. murmurando-lhe palavras das cantigas de ninar como a mãe mais devotada. onde não há lugar para mais ninguém. e não a cama que usávamos.. certamente. e então as duas moças aconchegavam-se como companheiras de folguedos dentro de uma casa no alto da árvore. Contudo. e simultaneamente. totalmente indiferente — ou fingindo estar — ao meu drama de autorepulsa? Como se. que agora está deitada na cama no quarto defronte ao meu. estudando sua gramática inglesa. meus braços. Ou será que é? Não era para Birgitta. ao formular essas fervorosas desculpas e pedidos de perdão. nessas estadas provisórias. E o que dizer de Birgitta. atravessando uma parte de Londres (geralmente em direção ao Soho). nós três nos deixávamos ficar no tapete — porque era o chão. mãos ou palavras não tinham nenhuma utilidade para ninguém. ela se sentisse totalmente sem responsabilidade. que Elisabeth corria instintivamente para receber carinho quando mais precisava? Quando. a suposta protetora de Elisabeth. quando ali estávamos deitados. aos cuidados de Birgitta. acariciando-lhe o rosto docemente.. E. vou flanando rua afora. . à maneira de Raskólhnikov (um . que a culpa é tanto daqueles indianos que cozinham arroz ao caril às duas da manhã como da inocente e indefesa Elisabeth ter atravessado na frente daquele caminhão. E não à dela. Tento. para o futuro. E não à minha. sinto-me invadido pelas mais desenfreadas e contraditórias emoções. de forma igualmente intensa. esgotados. ou numa barraca. tendo Elisabeth quebrado o braço e não o pescoço. mãos e palavras significam tudo — até que eu gozava. remorso.

que deve valer para alguma coisa! Pense nisso. no chão. como agora está sendo interpretado por Pudd'nhead Wilson). . você sabe disso! A pessoa forte e realista também é humana (quando forte e realista é um ser humano) e a choradeira não assenta bem depois dos quatro anos de idade! Nem tampouco a dentada de menino malcriado! Elisabeth está absolutamente certa: Gittan é Gittan. E. naquele seu inglês encantador e musical. "pensar as coisas a fundo". confessou que desejava ser possuída por trás. Bettan é Bettan. se é que tal força existe — o que dizer de tentar raciocinar à minha maneira em sua cabeça? Sim. estive "pensando a fundo sobre tudo isso" dessa forma. só então ela capitulou. talvez não. o que mais? Isso não é nada!". ou fique onde está e saiba querer o que lhe convém! Birgitta também é humana. e agora chegou a hora de você ser você! Bem. E. Elisabeth começou a chorar baixinho e. Elisabeth. nem a você mesma?" Agarrando com as duas mãos a manta que ela puxou de cima da cama para nos cobrir a todos. . . uma vez que não consigo espontaneamente chegar a esse estado de calma. somente após perguntar: "Mas o que mais. que diabo! Não é tão difícil assim. Longe disso! Vocês não inventaram todas as coisas que fizeram apenas para agradar aos velhos em nossas respectivas pátrias. talvez ela quisesse. debruçada sobre uma cadeira. ou disciplinar essa força. gostaria. Ou volte e se entretenha fazendo um amor agarradinho com "Sedosa" Walsh. "confessando" que desejava que eu fizesse isso com ela de pés e mãos atados. se pudesse.verdadeiro Raskólhnikov. Você não se meteu com essas duas moças para aparecer nesse negócio como um santinho. e eisme a rememorar aquela noite em que Birgitta e eu começamos a perguntar insistentemente a Elisabeth sobre o que ela intimamente mais desejava — já nos havendo examinado sobre o assunto. Não julguei satisfatória a resposta. o que ela apenas ousara pensar sobre ela própria e jamais em sua vida tivera coragem de fazer ou deixar que lhe fizessem? "O que é que você nunca pôde confessar a quem quer que seja. Só depois de pressioná-la ainda mais. usar minha inteligência de bolsista da Fulbright. isto é. reciprocamente —. de ser capaz de encarar essa inesperada virada nos acontecimentos como Birgitta.

também. vem-me ainda um outro trecho de reflexão moral destinada à última carta." Mas a única coisa que ela dizia era "não". Elisabeth chora. "Quem. pergunte. murmura Elisabeth. onde finalmente acabo de pensar o que mais vou escrever a Elisabeth sobre o insondável assunto da minha iniqüidade. . de repente. sustenta que devemos satisfazer imediatamente todos os desejos que nos pedem para satisfazer? No entanto.. tal era a veemência com que sacudiu a cabeça em desafio. fui aquilo que os cristãos chamam cruel e o que eu chamaria desumano. pensando. . "Ou não continuar? Elisabeth. E o quê? Por quê? Eu ainda não sei nada sobre ela! "Não". de fato. você me compreende? Pergunte a ela em sueco. Mais uma vez. com a minha sabedoria. naquela insondável Birgitta. e sei que poderia fazer qualquer coisa. o que levou Birgitta a lhe tocar na face. aqueles cabelos de criança. minha queridíssima. dizendo: "Bettan.Passando por Piccadilly. por que não cinco? . e que desejo fazê-la e que a farei! Por que não quatro moças. Desafiando quem? Eu me pergunto. eu fico de tal maneira excitado por tudo aquilo — pela respiração ofegante. balançaram-se em suas costas nuas." Usamos a cinta das minhas calças e um cordão da mochila de Birgitta para atar Elisabeth numa cadeira de espaldar alto. pareceme que aquela era a própria lei do pacto segundo o qual nós três havíamos resolvido — havíamos concordado em — viver!” A essas horas.. procuro. com o fim de educar minha vítima inocente. dulcíssima. já estou numa arcada na Greek Street. por aquilo que estávamos fazendo — que toda a relutância desaparece. cor de âmbar. Será que ela não tem remorsos? . e minha mais preciosa das criaturas. com os recursos da prosa e dos modelos literários de que disponho. "Não. que lei estabelece que todo e qualquer desejo íntimo a solicitar satisfação por uma pessoa deve ser imediatamente satisfeito?. e novamente "não". perguntei. Birgitta observa e. Essa foi à única palavra pronunciada por ela do princípio ao fim. E a mim. "E mesmo que se você realmente tenha desejado o que nos disse que desejava. pelos ganidos iguais aos dos cães que nós três deixávamos escapar. De modo que eu continuei da forma que achei que ela queria. as lágrimas lhe corriam pelo rosto. e "não". Na verdade. compreender se. . você quer que a gente pare agora mesmo?" Mas as longas mechas de cabelos que pendiam molemente. o quê? Não parar?". senão os malvados.

com uma imaginação não inferior à da poetisa Elisabeth Barret Browning. uma cockney já passada. no momento. Contudo. mandando-me sentar. Mister Kepesh. ele me pede para passar em seu gabinete depois das aulas e. denominada Terry. descreve. volto. não tem lealdade. pergunta-me com um leve tom de sarcasmo: "Diga-me. na última vez em que o viu em ereção. dando por findas. ao constatar como sou um sultão profundo). os quinze minutos consagrados a incessantes esforços em cima daquela massa inerte não produzem resultados positivos. em cima da lavanderia chinesa. cuja resoluta lascívia produzia. tendo finalmente lido o meu erudito ensaio perante o supervisor do meu grupo. a Prostituta. censurando-me! Tão inacreditável como os meus dezesseis dias num quarto com duas moças! E como a tentativa de suicídio de Elisabeth Elverskog! Sinto-me de tal forma . Com o tempo. na sua famosa carta ao marido. para o nosso porão. no decurso da caminhada. principio a pressentir a verdade nas cartas prolixas que envio a Estocolmo regularmente. No entanto. ianque. empregada em fábrica de laticínios. eu poderia transformar esse assunto em algo com sentido. Ao contrário. as habilidades de Terry fracassaram. o senhor tem certeza de estar falando sério sobre a poesia islandesa?” Um professor chamando-me à ordem. mas parece que você está com sono hoje". De qualquer forma. "desculpe. no meu quarto (e que vai impressioná-la. Consolado pela maneira carinhosa com que Terry se comporta em relação ao incidente. nenhum limite? Que já deve ter lido a carta inacabada que deixei na minha Olivetti. as indagações daquele dia sobre o mal que eu possa ou não ter causado. atravessando Londres. tento a sorte com uma prostituta de trinta xelins.Não tem vergonha. Ela me apresenta sua extraordinária coleção de gravuras eróticas. ou então. naquela época. para mim teria sido melhor dedicar toda essa concentração ao estudo do excessivo emprego de imagens poéticas na última metade do século XII na Islândia. um extraordinário efeito na expulsão do meu esperma. as maneiras pelas quais ela vai me amar. No pequeno quarto. põe nas nuvens a grossura e o comprimento do meu pênis. enquanto. parece que me aproximo mais da verdade. que me acha um "bastardo muito sensual". assim como a profundidade de sua penetração.

E ele sempre repetia: "Está com câimbras. enquanto eu ficara melancolicamente deitado na cama de Elisabeth. e uma enfermeira. Já há algum tempo. Havia gente na sala de espera. . minha cara?" No princípio. Alto. Fiquei um pouco assustada. — Ele fez isso? E você pagou? — perguntei. não compreendi o significado daquilo. e não tinha certeza de ter entendido o que ele dizia em inglês. Pensei que aqui eles costumavam fazer isso. o que é isso que o senhor está fazendo?". necessitava colher a secreção vaginal. minha cara. Pediu-lhe que tirasse a roupa. — Então? — perguntei.petrificado e humilhado com esse castigo (principalmente no despertar da acusação que eu honestamente estava fazendo a mim próprio como um advogado da família de Elisabeth) que não tenho mais coragem de voltar ao curso. há dois anos. E. O médico lhe disse que. . e esta posição não me faz nada bem. depois. o que virá depois? Isto. se preparasse na mesa ginecológica e depois. muito bem-vestido. você pensa que tenho prazer nisso? Sofro de dores nas costas. que nem teve certeza —. Birgitta diz-me que. ele principiou a fazer massagens entre suas pernas. "Por favor. perguntou ela. vivendo o meu papel de "sacerdote pecador". você sabe. Uma noite. delicado. além disso. na ocasião. Como Louis Jelinek. peguei minhas roupas. foi procurar um médico para consultar-se sobre um problema digestivo. E. A conta foi de dois guinéus. ela fizera uma coisa "um tanto errada". — Não. Entretanto. Isso é possível? Estou a caminho de perder um curso. ele me olhava como um médico. hesitando entre a incredulidade e a excitação. ele teve a audácia de responder: "Olhe. segundo Birgitta. para fazer o diagnóstico. Como é que eu ia lhe pedir para parar? Chegara a Londres há apenas três dias. nem respondo aos bilhetes que me pedem para ir falar com o diretor do curso sobre o meu desaparecimento. com a mão ou com um instrumento — estava tão espantada. Em nome de Deus. quando chegara a Londres. preciso obter o material e esse é o único meio de consegui-lo". . bonito. vesti-me e saí.

. Ele a masturba. — Isso é verdade. . E o encontro. Será que isso é verdade? Então. o senhor tem de acautelar-se e tirar as mãos de cima de meninas estrangeiras. para o ensaio do meu segundo período do curso). ou o senhor vai se ver em grandes apuros". a primeira coisa que farei será telefonar-lhe. eu vou ao consultório dele uma vez por semana. depois a deixa partir. Porém não há mais nada. — E me pergunto: "Será que isso é verdade. algo ainda mais sensacional. Algumas horas mais tarde. É nisso que penso quando você escreve a Bettan. Entretanto. — Agora. pela manhã. sem qualquer hesitação. . . Estou doido para ouvir mais. segundo me afirmam. essas coisas acontecem? — Como é que ele se chama? Onde é seu consultório? — Fico surpreso quando Birgitta. Então? — Visto-me e volto para o parque. . com a mão. procuro o nome do médico na lista. . parece que minha intenção não é tanto corrigir o lascivo doutor como descobrir (tanto quanto puder) se a história de Birgitta é . Para lhe dizer (talvez com sotaque sueco): "Doutor Leigh. Gittan? — Fecho os olhos e ele faz aquilo comigo. Na minha hora de almoço. no endereço de Brompton Road! Amanhã. — E. corro à cabine telefônica no fim da rua onde moramos. . pronunciando o inglês deliberadamente com maior segurança do que antes — voltei lá de novo. Comecei a pensar o tempo todo sobre aquilo. me diz. não tendo conseguido compreender um único parágrafo do Arthurian tradition and Chrétien de Troyes (uma fonte inigualável. — E ele masturba você? Você deixa que ele a masturbe? — Deixo.— O mês passado — diz Birgitta. que alguma coisa seja verdade?" — E? — pergunto. .

Chamo-a de putinha. sim. tanta coisa tem acontecido desde que beijei o umbigo da "Sedosa" no dormitório ao lado da lavanderia. Atracando sua cabeça entre minhas pernas. minha puta! — Ah. cavalgar. ah. Agora. que não sabia o que era realmente ser alvo de tal assédio por parte de outra pessoa. "Diga-me coisas!". Ela e a submissão são unha e carne. Estou vestido. sim! Há apenas uma hora. exclama Birgitta. ou que eu. como se ele fosse. Com que autodomínio ela se submete. passo a noite dominado por uma paixão cujos terríveis ardores eu jamais havia experimentado. desejava ser assediado e investido. estamos extenuados. Será que ia adiantar muito se não fosse? De volta ao apartamento. a corda de salva-vidas que a impediria de sufocar-se e a arma de seu estrangulamento. ou talvez seja porque jamais conheci uma moça mais ou menos da minha idade para a qual tais excessos não puderam deixar de ser ultrajantes. como minha posição em relação a ela fosse a de uma sela. Sempre estive tão empenhado em persuadir. pudesse durar para sempre. medo de que meu castigo. e ela se submete.verdadeira. sim. enfiei o membro na sua boca. ainda na primavera passada! — Quero sentir que você está aqui — grita ela. E. minha puta? Minha sacana Birgitta. Não que eu ainda tenha certeza de querer que seja verdade ou não. para trilhar o caminho do prazer. Ela me pede para lhe puxar os cabelos. Se quer que puxe com muita força. suplicar. se é que houve castigo. Arquejantes. por minha vez. Faça mais! — Assim? — Sim! — Assim. dispo-a. não sei. pois ninguém jamais me pediu tal coisa. Meu Deus. ao mesmo tempo. seduzir. . tive medo de que levasse anos para me tornar potente de novo. "Gosto que me contem coisas! Conte—me todo tipo de coisas!" Na manhã . ela se colocou em cima do meu rosto e principiou a cavalgar cavalgar. . ela nua.

sim — replica. ela já curada e com saúde. continuo escrevendo a Elisabeth (não mais na presença de Birgitta). embora seja o jornal de Birgitta que eu realmente me mortifico traduzindo — durante o tempo anteriormente reservado para suar em cima da literatura islandesa —. No verso do retrato. — Creio que somos os dois da mesma espécie — digo. que toda semana apanho um Svenska Dagbladet na Charing Cross Road e tento. com o auxílio do dicionário de bolso inglês-sueco que ela me deu. Imediatamente lhe escrevo para agradecer o envio do retrato. ouviu? — Ouvi. Contudo. Seu rosto. Sim.seguinte. Ela ri e responde: — Sei disso há muito tempo. não há nenhum complexo de culpa por qualquer coisa dita ou praticada. pelo menos. E. — Sei disso. os cabelos âmbaravermelhados sobre os quais uma vez lhe disse — isso foi na noite em que recebi o dicionário com a dedicatória "De mim para você" — que. sozinho. poderiam ser melhor descritos como "tranças". penso que já estou apaixonado. ler as histórias da primeira página. — Esta é a razão por que fiquei com você. para o nosso futuro. uma palavra poética dos livros de fadas. longe disso. "olhe. . ela escreve: "Eu". seu idiota!" Os dentes que não poderiam ser mais brancos. eventualmente para lecionar literatura americana. as curvas roscas de suas faces. remetendo-a em seguida para mim. creio que ainda poderia apaixonar-me por essa moça que usa ao redor do pescoço um medalhão com o retrato do pai. Aos cuidados de uma casa de estudantes na universidade — um amigo deu um jeito de receber a minha correspondência em sua caixa postal. Na verdade. falo comigo mesmo. para que eu possa casar com ela e fixar-me em seu país. os enormes olhos azuis. escrevo a Elisabeth. . é tão adorável! "Olhe para isto". . — Elisabeth manda uma fotografia para mostrar que seu braço não está mais no aparelho. Conto-lhe que estou fazendo progressos na minha gramática sueca. e acredito que o estou fazendo para ela. em inglês.

como é incrivelmente emocionante uma pessoa inocente! Como aquele olhar desprotegido e confiante me põe sem defesa! Entretanto. nariz delicadamente arrebitado e um lábio superior sempre ligeiramente saliente. ela resolveu não retornar a Uppsala. Oh. para responder a uma acusação ou articular um desafio —. na sua absoluta ausência de orgulho ou pretensão. mas em Elisabeth é comovedor. tão cheias das venturas de sua infância! A leveza de seu riso! De seu inocente coração! Essa moça derrotou-me quando disse: "Minha mão parece um pé!" Oh. tomo o metrô que vai dar no parque e. a alguns metros de . diz Birgitta. sentado sob uma árvore.— "Comum" diz-me após olhar no dicionário — é a palavra que melhor designa meu tipo de nariz. "Acho que assim como estou terei uma melhor educação inglesa". num erotismo doido. Por causa das oportunidades de prazer e excitação que tais encontros propiciam. É óbvio que. que doces feições. após os anos de licença. Birgitta recebe quase diariamente convites de turistas em visita a Londres ou de homens que vagueiam à procura de algo. ao perambular pelos locais de Green Park onde se alugam espreguiçadeiras para os transeuntes. — O nariz dela é exatamente igual ao de milhões e milhões de pessoas. é com ela que continuo a levar a vida de bolsista estrangeiro. uma moça muito menos inocente e vulnerável — uma moça que enfrenta o mundo com seu rostinho ladino. por mais que me esforce quando olho para o retrato. Um nariz de moça da roça é igual àquela raiz que se planta no jardim para que nasçam tulipas. observo-a. quando necessário. ou que estão a caminho de casa onde encontrarão a mulher e os filhos. — Como é que se diz? — Bulbo de tulipa? — É isso mesmo. — Não exatamente. Uma tarde de março. uma boca pronta. abandonando também os cursos em Londres. quando o sol de repente aparece no azul do céu e se espalha sobre a triste cidade de Londres. Quando eu tiver quarenta anos vou ficar horrível por causa desse nariz de bulbo de tulipa. é com a esbelta e pequenina Birgitta.

. E que. um homem tocando Birgitta ou Birgitta tocando num homem. Seria algum conhecido? Algum compatriota? Seria o Doutor Leigh. ao ver-me horrivelmente excitado todas as vezes que avisto Birgitta. à noite: — Sabe quem me veio ver hoje? Mister Elverskog. Gittan? . sequer uma vez. no início. as duas famílias!" — Veio vê-la aqui? — Ele sabe onde eu trabalho — diz Birgitta. . cumprimenta-a inclinando-se formalmente. ao terminar. o senhor levanta-se. — O que está ele fazendo em Londres. e parte. em conversa com um senhor quase três vezes mais velho que ela. Nunca vejo. confortavelmente reclinado em uma das espreguiçadeiras. "Que dia hoje!". tenho estado aterrorizado pensando que Elisabeth pode fraquejar e nos denunciar. nada fazem além de conversar.distância. em frente a uma das espreguiçadeiras onde se senta um homem. No entanto. — Então veio. . espionando o que ela faz. Surpreendo-me. ela me surpreende quando me diz. — Quem? — O pai de Bettan. — Será que Birgitta está mentindo. . Poucas semanas depois. É tudo quanto posso ver. ou com um chicote. 0 e que o pai está vindo atrás de mim. da Brompton Road? Sem lhe dizer nada. fazendo novamente uma "pequena maldade"? Mas como pode saber que. . . ela poderia ir. Upa! que homens!" E se eu apenas lhe dissesse. todas as tardes dirijo-me ao parque. Naturalmente. com um detetive da Scotland Yard. "A Marinha portuguesa em peso está aqui. ela provavelmente o teria feito. assim como não vai com nenhum deles depois do trabalho. A conversa dura quase uma hora e. por que fui escrever a tal história de amarrar as mãos de Elisabeth na cadeira? Estão é atrás de mim. exclama ela certa tarde. se eu lhe propusesse semelhante coisa. E tenho certeza de que ela não marca encontro. o que me excita é que ela teria liberdade de ir. de pé. durante quase a semana inteira. durante todo esse tempo. escondendo-me na sombra das árvores. — Ponho-me a pensar: "Encontraram minhas cartas! Oh.

de modo que penso em tudo. pedindo carona. Ao levar Birgitta novamente para esse caminho. à noite. No entanto. ouvindo-me dizer "todo tipo de coisas". se eu dissesse a você para fazer? Você faria isso por dinheiro?" No entanto. distinto. negócios. nas caves e tabernas. . abstenho-me de perguntar. Birgitta e eu fizemos uma viagem ao continente. — "E você foi para o quarto do hotel onde ele se hospeda. não pelo mero receio de que ela diga sim (como certamente diria. à medida que vamos freqüentando esses lugares noturnos. sozinhos. nem Birgitta nem eu somos tão astutos ou corajosos. chego quase a perguntar: "Você faria isso com Mister Elverskog? E com um marinheiro. apesar da nossa habilidade e profissionalismo como grupo. quando ela me pede para excitá-la. No fim do período letivo. e nos levantamos os três a fim de procurar um lugar mais calmo para conversar. Encontrar outras moças foi. naquele ensolarado dia de março. "Uma outra moça" constituía uma dessas "coisas" com que despertávamos as nossas sensações continuamente. andando nos cafés. que ao se despedir inclinou-se diante de você. a fim de observar as moças que circulavam por lá. durante meses. quando desejei induzi-la a visitar Mister Elverskog no hotel. vá e faça sua prostitutazinha". encontrar um parceiro voluntário. olhando museus e catedrais durante o dia e. À noite. não tenho escrúpulos como tive em Londres. Certamente. também. adquirimos maior habilidade para seduzir pessoas totalmente estranhas. era ele? Era ele o velho a cujas palavras viram você prestando tanta atenção. Gittan? Você gostaria de fazer amor com o pai de Elisabeth? Aquele senhor alto. mas porque eu poderia responder: "Então. ainda me sinto um tanto confuso e vacilante quando parece que conseguimos. um dos motivos por que nos proporcionamos essas férias. não sei. realmente. mas. na verdade. creio que reforçamos imensamente a nossa obstinação e. muitos meses atrás? Ou era aquele que gosta de fazer de médico com você no consultório? Que lhe propunha aquele homem para prender sua atenção daquela forma?” Não sei o que pensar. só pela sensação de dizê-lo).— Oh. após a partida de Elisabeth. juntos. Apenas foi até o parque para me ver.

Mais possibilidades da juventude. em um bar não muito distante da Bastilha. onde o infame marquês foi castigado pelos seus crimes vis e audaciosos. uma prostituta senta-se a um canto conosco e. Em Paris. grávida do nosso primeiro filho judeu-sueco? Sim. vamos!" E. recobro as minhas qualidades — e o meu equilíbrio —. E por que não lhe dou um outro rumo? Por que não imaginar Elisabeth comigo. digo num misto de ironia e credulidade: "Vamos. de sua família. tudo isso não passa de minha louca imaginação. vemme à cabeça o pensamento que não me larga há muitos meses: "Será que isso está acontecendo? Isso também?" Porque. e eis também a insondável e maravilhosa audácia de Birgitta e qualquer uma que eu queira posso ter. E por que não vou? E me caso com ela? Seu pai não sabe de nada e jamais saberá. ou a lareira! Ah.Birgitta deixa transparecer idênticos sintomas. o detetive. Ah. na minha maleta. . então. remando ao longo da praia pedregosa e dos altos pinheiros. dando o braço a cada uma das moças e. o plano secreto para fazer-me pagar pelo que fiz à filha. enquanto pilhéria comigo. sobre meu cabelo de marinheiro. não é isso imperscrutável! Ou a fornalha. Sim. enviada logo que acabei de receber meu deplorável diploma e tomei com Birgitta a barca de conexão com o trem. em francês. com a minha experiência do mundo. as cenas de raiva assassina e vingativa. fazendo-nos sinais com as mãos quando voltamos no barco com o leite e a correspondência? Por que não imaginar a doce Elisabeth na soleira da nossa bonita casa vermelha. caras amigas. vai acariciando Birgitta. há uma fotografia da casa à beira-mar. que. vendo a minha parceira tão decidida e confiante. junto ao retrato de Elisabeth. tem coragem para aguardar os acontecimentos posteriores. por seu lado. sob a mesa. durante todo o tempo. sem a menor hesitação na voz. por toda a extensão da ilha até onde a barca de Waxholms atraca diariamente? Por que não imaginar a família dela toda sorrisos. deve ser isso que denominam as possibilidades da juventude. Recebi um convite para visitá-la na minúscula Trangholmen e permanecer na ilha o tempo que desejasse. já na rua. eis o amor insondável e maravilhoso de Elisabeth. ela conquiste a minha admiração por ser suficientemente afoita para afastar os cabelos do rosto da jovem estudante. O chicote. embora.

fujo para salvar minha vida. provavelmente Birgitta continuaria fazendo o que tem vontade de fazer. Volto para me formar. não obstante minha excelente pronúncia e construções gramaticais corretíssimas. Gittan. Os pais de Birgitta já foram informados de que ela pensa em estudar na América por um ano e. cada um pensa: considerando o que aconteceu. desta vez seriamente. acham que está bem. Nada do que eu digo parece certo. pega seu saco de viagem e vem comigo. . e que o que estamos fazendo é assunto nosso. Mesmo que assim não fosse. vituperando-me pelas indignidades a que estou submetendo minha jovem esposa. brandindo no ar. Estou fodido com minha bolsa da Fulbright. ele puxa um martelo do macacão. o que mais poderia acontecer? Quer dizer. mas deixa para lá. . que somos estudantes. quando eu partir. Quando ensaio a difícil conversa que mais cedo ou mais tarde deve efetivar-se. — E então? — Quanto a nós dois. sinto que vou ficando realmente vacilante e lamuriento. no entanto. que invento o diálogo.Em meio à nossa grande excitação. para explicar-lhe que nós não somos marido e mulher. "Espèce de con!" De mãos dadas com Birgitta. com o coração aos pulos. — vou para Stanford. Levanto-me. Não fazemos comentários sobre o que vai acontecer quando o mês chegar ao fim. — Então? — Tenho sonhos terríveis com o colégio. "Salaud!". sou eu. Ao contrário. mas. porque eu também tenho a mão ocupada sob a mesa. ele grita. naturalmente. e pela primeira vez. e Birgitta acha que. um homem surge. nada do que ela possa dizer me soa errado e. — Sim? Bem. aparentemente. Nunca me aconteceu nada disso. eu acho que a gente não tem nenhum futuro. antes. eu suponho que voltarei para a América para continuar minha educação. .

ter de voltar para o meu país. contra uma avalanche de objeções lisonjeiras. — Então. — Mas você bem sabe que a idéia não foi só minha. — Mas como é que você pode mudar de opinião sobre aquilo que é a sua própria natureza? Na verdade. — Quem. Por natureza. — Não é mais possível. não exige que eu exponha pontos de vista. é a segunda Elisabeth? — pergunta. mas não é isso. — Mas nós não podemos.. você. que você é uma segunda Elisabeth que eu corrompi? — Ela me olha com aquele seu atraente sorriso que descobre os dentes compridos. . você é um professor de sacanagem. Ou será que você quer dizer que eu a dominei todo o tempo. Não. talvez seja tolice minha tocar no assunto. não há necessidade de nenhum debate provocador sobre a minha . Nós ultrapassamos demasiadamente os limites. Não estou dizendo que foi. talvez eu tenha mudado de opinião sobre essas coisas. — Bem. Fomos longe demais para voltar. — Mas eu faço qualquer coisa que você queira. um tanto débil e levianamente. há em você até o estuprador.. você é um polígamo nato. — Fomos? — Penso que sim. — Você? Ah. então. Isso para nós não funcionaria. agora vamos deixar de ir longe demais. a fim de retomar seriamente meus estudos. Você sabe muito bem disso.— Você acha? — O que eu quero dizer é que jamais poderíamos voltar a praticar um ato sexual normal. . — Você mesmo é quem diz.

e dos retratos de Elisabeth. . no dia seguinte. senhora de si. digo. vou só. Estávamos nos despindo para deitar no quarto que alugamos por uma noite em uma cidade do vale do Sena. à pessoa com quem estou. Gittan. não há nenhuma necessidade.” Em poucos minutos ela se veste. diz: "Por que será que eu gosto tanto de você? Você é tão criança!" E é isso tudo o que tem a dizer sobre o meu caráter. tenho que ir para a Califórnia sozinho! Tenho que voltar para a escola!” Em resposta. por que estou fugindo? Em nome de quê? De mais lendas do tempo do Rei Artur e sagas islandesas? Vejamos. e de uma lascívia louca! Exatamente o que sempre desejei. Eu interrompo. para falar a verdade. muito de mansinho (porque. "Onde vai encontrar um quarto a essa hora? Oh. carros conversíveis. . a despeito de ser uma moça que brada quando lhe puxam os cabelos. ao que. nem lágrimas. se eu esvaziasse os bolsos das cartas de Elisabeth.. talvez. nem raiva e. a despeito de sua confiança amazônica diante das situações mais tenebrosas. James Dean."natureza" para eu me livrar dela e da nossa vida fantástica de prazeres sensacionais. nenhum sarcasmo. e grita pedindo mais. Califórnia. . pelo menos em face das circunstâncias. Então. a mochila pronta para a viagem. não obstante nenhuma admiração demasiada por mim. . Já na porta. e dos nervos de aço demonstrados . não mais o precoce dramaturgo do satírico e do lascivo. Tirasse da cabeça o pai de Elisabeth. seja realmente a minha natureza. é tão normal quanto eu. "Não seja ridícula". Santo Deus! É mais corajosa do que imaginei! Quantas moças há no mundo como ela? Ousa tudo e. Normal. . com um pouco do inexperiente estuprador também. corajosa. mestre das amantes e prostitutas.. com os diabos. que eu tencionava visitar... "apenas uma criança". inteligente. Não mais o jovem poderoso. sob o domínio das sensações pungentes em sua carne. pelo menos tudo o que sua dignidade lhe exige ou permite. Não. milionários. completamente só. de mansinho. como força carnal e impudica. o lugar onde nasceu Flaubert. quando Birgitta fala de suas reminiscências de sonhos infantis que a assaltavam na adolescência. . "vou para a Califórnia sozinha. Se eu me entregasse totalmente àquilo que tenho. Depois. no entanto. aproximadamente a trinta quilômetros de Rouen.

sentindo-me triunfante pela determinação. que consegui manter. Por fastio. . pergunta a si mesmo se algum dia encontraria alguém igual a ela e viveria semelhante aventura novamente. que me apoquenta e me diz que já sou muito velho para ainda estar sentado numa carteira e fazer testes sobre o que já sei. a filha muito bem-educada de um médico sueco e de sua mulher).nesse mundo incerto dos caronas. de completar a tarefa. cheguei à conclusão de que. nem na cidade de Lês Andelys. a qual desde aquela noite de Rouen eu já reconhecia prejudicial aos meus interesses. no local onde nasceu Flaubert ou onde Joana d'Arc foi queimada. talvez seja tarefa mais difícil. e de uma total imunidade ao remorso ou à dúvida sobre si própria. eu sabia como seria fácil ter ido ainda mais longe. teria de restringir uma faceta de mim próprio. com o fim à vista. Ficou acordado toda a noite pensando o que faria se Birgitta entrasse sub-repticiamente no quarto antes do amanhecer. por enquanto. como se tivesse de escalar o Matterhorn para me classificar na prova oral. Fica em dúvida se não deveria levantar-se e trancar a porta. Depois daquele ano com Birgitta. fecha a porta ao sair para não acordar a família que nos alugou o quarto. para realizar qualquer coisa duradoura. tendo ido muito longe com Birgitta. fortemente suscetível a mais desnorteadora e enfraquecedora espécie de tentação. exaltando-me com estas simples declarações: "Eu fiz" e "Eu consegui". Livrar-se do que ele é. na Catedral. Porque. nem em Rouen. botando de lado o surpreendente senso do direito alienável com que faz tudo quanto lhe apraz. do que a sua natureza é exatamente. Mais de uma vez. ela é também cortês. lembro-me da sensação que tive só de imaginar Birgitta com . Helen Baird aparece alguns anos mais tarde. todos os semestres penso em abandonar o curso. uma vez que o jovem Kepesh não parece estar bem certo. elogio-me em voz alta. impaciência e crescente embaraço. ao findar o dia. na Grosse Horloge. Depois. . Sim. que me fascinam mais do que qualquer outra coisa. debaixo do chuveiro. respeitadora e afável. quando entro na reta final dos meus estudos de literatura comparada. quando desponta a manhã e não a encontra em parte alguma. inquietação. Mas agora. ao nascer do dia. por natureza. foi assim tão facilmente que a jovem Birgitta Svanstrõm e o também jovem David Kepesh se viram livres um do outro.

mas àquela altura também eu não sentia nenhum constrangimento. sem qualquer justificativa ou explicação à família aturdida e mortificada (que durante uma semana julgou que ela tivesse sido seqüestrada ou morta). a universidade não encorajou absolutamente o seu desenvolvimento. De surpreendente formosura. Na verdade. Um destino que encontrou e só recentemente abandonou. é a sua própria antítese. segundo ouvi dizer. Sim. ou do que. abandonou os deveres escolares e. Será que é para que nunca me esqueça de que me casei com ela? Seu heroísmo é de uma marca diferente do meu. . para procurá-la insistentemente entre as centenas de pessoas que andavam de um lado para o outro na casa da municipalidade. "Espero jamais passar o que passei nesse último ano". em esquivar-me da moça com quem estava. E não menos sensibilizado com a minha virtude. foi a primeira coisa que me disse na noite em que nos conhecemos. . absorvendo o exotismo dos sítios deslumbrantes. sedutores e desconhecidos. eu presumia ser o meu. que estou redondamente iludido e equivocado. para retornar à Califórnia e começar vida nova. Então. depois. onde ele já vivia com a mulher e três filhos. Mas. temperamento fortemente romântico. qualquer que tenha sido o meu talento para essa profissão. foi-se com um jornalista que tinha o dobro de sua idade para Hong Kong. partiu atraída por um destino mais alegre do que o segundo ano de universidade no grêmio estudantil feminino. . trazendo-o para casa. Há apenas seis meses.outros homens. quando a batalha parece ganha. já abriu mão de todos e de tudo o que procurara há oito anos. . Um ano de use aos dezoito anos e. dos prazeres e do entusiasmo de perambular entre antigüidades. com exemplos e muitas frases. um porte admirável. recebendo dinheiro. sinto-me realmente bem por ter utilizado meu bom senso em favor de uma vocação séria. naquela época. será possível que eu chegasse a tal ponto com tanta facilidade? Tornarme cafetão de Birgitta? Bem. aparece Helen para dizer-me. Creio Helen pronta para contar sua história sem o menor sinal de timidez. depois de sermos apresentados. "que fazem parte do grupo das artes". para o meu bolso. numa festa oferecida pelos jovens patrocinadores de uma nova revista de San Francisco. . . .

predisponho-me a atribuir sua "candura" à mentalidade das revistas populares. porque já estou ficando coroa. em minha companhia e. Coisas maravilhosas. diga-me. . nunca passei em nenhum lugar seis meses consecutivos. nem amor. E eu penso: "Ó Deus.pergunto-lhe. Mister Kepesh? O senhor quer saber quem eu sou. tão bela e tão restrita! Pelas histórias que me conta. desde os meus tempos de universidade. — Mas. — Trata-se de uma completa saga — digo. até seria minha se eu a quisesse —. pura e simples. navegando pelos mares da China com homens que lhe ofertam jóias antigas e são casados com outras mulheres". Nada. Vamos. — Logo. mas ainda real. . — Olhe aqui — diz ela. por que voltou? — Nem homens. aqui. e ela responde sorrindo: — E por que não? Melhor que seja uma "saga" do que uma quantidade de outras coisas que estou pensando. se está tão apaixonada? — Porquê — Helen responde. por que é contra a paixão? Por que motivo esse desinteresse dissimulado. quem sabe. em outras palavras. ou tendência à promiscuidade. por que você está aqui e não lá. compreendendo de que forma eu interpretava as verdadeiras proporções de sua existência. — Como é que foi esse ano para você? O que aconteceu de errado? Bem. eu estou lhe dizendo. — Então. o que tem contra a paixão? Que mal esse sentimento já lhe fez? Ou.. Deus é testemunha. parece que já teve cinqüenta casos de amor.— Por quê? . afinal. — Então. de que me posso envergonhar. Bem. o que também me faz abandonar o tom irônico para ver que ela não só é de uma beleza admirável. nada disso. Coisas boas. dos quandos e comos que ela será obrigada a me responder. o primeiro dos porquês. a bordo de cinqüenta escunas. sem valer-se da ironia para protegerse. para início de conversa. que bem lhe fez? — A questão agora é o que a paixão fez ou não fez a você.

. já estamos sentados em um bar. o que faz você? — Bem. — Ah. O resto da família estava boquiaberto. meu par daquela noite. O fato é que tudo aquilo era tão bonito. de Shaker Heights. Mas eu não pensei assim. olhando para aquilo. Eu vivia em constante entusiasmo. Viver rodeada daquelas belezas. Para mim. É. a essa altura. Para falar a verdade. Pergunto a Helen como se sente por ter voltado. voávamos de Bangkok até Chiang Mai. Moças republicanas distintas não faziam o que eu fiz. predominou a sensação de alívio sobre a de decepção. com um príncipe que tinha elefantes. agora.. . tendo atrás de mim as minhas irmãs menores que me acompanhavam como a uma estrela de cinema. Você. Era irresistível. Em todos os meses de primavera ia para Angkor e. disse que gostaria de saber quando sua vida iria tomar um rumo. um defronte do outro.Aos vinte e seis anos. imperturbável. Um homenzinho idoso. Mas será que a quero? Será que devo? Ouçamos primeiro as sensações de quem volta após desaparecer. é apenas isso". que talvez tenha saído ofendida daquela festa sem mim. Era um prazer vê-lo com todos os seus elefantes. parece que essas foram às únicas que encontrei do Nepal a Cingapura. acha que está ficando velha. E a moça de vinte e quatro anos. Menos naturalmente do que eu. Era possível enrolá-lo duas vezes em uma única orelha daqueles elefantes. Agora. e eu estivera à deriva durante apenas um ano. O meu pensamento era: . mas ele andava no meio deles. assinei um armistício com a minha pobre mãe. provavelmente diria: "Bem. os animais gritavam. a julgar pelo que sinto quando acordo pela manhã. movendo-se como uma aranha em meio àquela manada de animais enormes. é a mesma coisa que estar chorando. Se eu a quiser. ela fugiu do companheiro com o qual principiara a noite. mas. Saímos da festa e. . candidata ao grau de doutora em filosofia. arrumando seu fichário. parece que aquela fase acabou. em geral. naquela mesma tarde. Eu até diria que metade das moças que voam de Rangum naquele calhambeque que vai para Mandalay são. primeiro tenho de descobrir um modo de parar de chorar. naturalmente. na biblioteca. cor de noz. . Nos primeiros meses da minha volta eu chorava todos os dias. na Tailândia.

e lá íamos entre aqueles barcos chineses. é claro que sei que as "fortes personalidades" são aquelas que vivem e se conservam vivas para traçar os seus destinos nas cidades exóticas do mundo. como é que ela conseguiu chegar a essa regia ostentação. A ótima vida nas colônias."Isso é que é". Eu costumava sair de barco à vela em Hong Kong. ou o zeloso auxiliar de ensino com seu terno de algodão indiano? Chego até a criticar e desconfiar de sua serena e feminil beleza. Mas eu continuo a não compreender exatamente por que você abandonou o seu. que parece emanar quase totalmente da maciez de sua pele. Cingapura. Por que não Júpiter. por que não Marte? Não há dúvida de que sei da existência desses lugares longínquos que vejo no mapa Rand McNally. pois para ela até seus pés parecem ter glórias encantadoras a serem exploradas. de seu nariz "flamengo"? . . e. ou. Ele ia com o rapaz que conduzia o barco para o trabalho todas as manhãs e. então. nariz. O que falta. continuo custando a acreditar — a despeito dos pequenos budas de marfim. para ópio. com os seus brincos cravejados de brilhantes. arrumados na mesa ao lado de sua cama — que esse tipo de vida realmente foi o seu. dos entalhes de jade e da fileira de pesos em formato de galo. então. dos membros longilíneos. E nas semanas seguintes. . em que traço o caminho de suas aventuras (como outrora eu seguia as aventuras de Birgitta na lista telefônica de Londres). De qualquer forma. colo. que ela denomina. pernas. para que me persuada de que a Helen que aqui está vivendo e respirando é uma delas? O fato de estar com ela? Será a inacreditável Helen. chamados juncos. Rangum. onde pela primeira vez os encontrei. do hálito de sua boca. . antes. voltávamos juntos para casa. Chiang Mai. e nos romances de Conrad. para buscar o meu amigo que saía do trabalho no fim do dia. de seus olhos penetrantes e do franzir da ponta do nariz. Mandalay. à noite. seios. e os contra torpedeiros dos Estados Unidos. . esse aristocrático senso de sua própria pessoa. sem a menor oscilação de suas pálpebras (levemente sombreadas de verde). da consideração que ela parece ter por seus olhos. quadris. Não é à toa que eles odeiam ter de entregar aqueles impérios.

ainda mais. deixando-os ficar ali ondulando como sempre fizera desde a idade de seis anos. apenas os escovava pelas costas abaixo. ou que pensam que não fica bem demonstrar essa preocupação. de fato. E Elisabeth. não fico apenas intrigado e estimulado: sinto-me também alarmado e profundamente incerto.Não estou de forma alguma habituado com alguém que ostente sua beleza com tal senso de realização e auto-valorização. a verdadeira dimensão de uma espécie de fidalguia que emana da sensação que Helen tem de ser um objeto idolatrado. assim mesmo. Bem longe disso. a fim de comprar laranjas para o café da manhã. tão envolvente e fascinante. salientava favoravelmente seu ar dissimulado. e traça uma linha escura sobre as pálpebras que encimam os olhos nem maiores. os efeitos sobre mim não se fazem esperar. Sempre fui sensível à beleza física das mulheres. para sair. fico profundamente desconfiado das prerrogativas do lugar que ela se confere na sua própria imaginação. tornando-a singular. uma auréola não apenas para embelezar ou adornar. mas para expressar. ou talvez seja. que poderia muito bem ter sido esculpido em cem libras de jade — mas quando ela prende os cabelos no alto. cujos cabelos abundantes não eram menos louváveis do que os de Helen. com um corte natural. mas. completamente subjugado pela autoridade com que ela faz jus à sua beleza. fora disso. ou uma torre. e. toda essa profusão de cabelos maravilhosos — cuja cor ficava bem perto da do setter irlandês — devia constituir uma coroa por sua própria natureza. mas. para simbolizar. com Helen. quando ela põe uma dúzia de braceletes e enlaça uma echarpe de seda franjada em volta dos quadris. Minha experiência — a começar pelas estudantes da Universidade de Siracusa. Talvez seja apenas para constatar o quanto a minha vida se tornou estreita e enclausurada. . como Carmem. para quem o elemento carnal devia ser pesquisado até as últimas sensações — foi com moças que não têm preocupação exagerada com os predicados físicos. que não quiseram "relacionar-se" comigo "ao nível" de Birgitta Svanstrõm. nem mais azuis do que os de Elisabeth. A sua concepção da pessoa humana e da experiência parece-me por vezes muito banal e. como devia emoldurar o seu rosto sem pintura não constituía assunto que desse para pensar de uma a outra manhã. em um nó atrás da cabeça. É verdade que Birgitta sabia muito bem que o seu cabelo muito curto. Entretanto. para Helen.

a felação no banheiro da primeira classe. meu pai dizia: "E é isso?" Minha mãe irrompia em lágrimas. Então. Porque. de saia escocesa. que podia ensinar-me muita coisa. não. o que ninguém parecia ter compreendido até então. belo e que sabia expressar-se. que compreendeu tudo o que eu era.. Deixe-me contar. encantadora. Não tenho saudade deles. até os ascéticos professores universitários ganham isso. e mocassins. enquanto sobrevoávamos o Pacífico. Os filhos do meu namorado eram quase da minha idade. e não é só com meninas de colégio — e ele disse: "Por que você não vem comigo?" Eu respondi que sim. Nem consegui comer com pausinhos. — Olhe aqui.Até onde posso ver. Lembro-me de uma noite. os primeiros seis meses não foram nenhum piquenique. acho que talvez ela tenha razão. na expectativa de esclarecer aquilo que é ficção nesse fabuloso tipo que ela se faz e no romance asiático que ela denomina o seu passado —. creio eu.. tinha tanto medo. quando chegava a sobremesa. como é que você abandonou a bela vida colonial. isso acontece. E fui. Apaixonei-me por ele — sim. encontrei um homem feito. — Em um avião calhambeque? — Dessa vez. Todas as noites. e minha família era como a de todo mundo. maravilhosas e não era realmente um tirano brutal. minha primeira festa em que se tomava . chata e respeitável. — Como é que você — pergunto. embora tão neuróticos quanto eu. isto é. em duas semanas. Um patê. — Eu apenas quis dizer que você poderia ter achado que mocidade e beleza não vão ampará-la indefinidamente. Helen? — Fui obrigada. A única alteração era na hora das refeições. era apenas uma garota bem-educada de Pasadena. — Porque o dinheiro da herança a fez independente? — São seis mil desprezíveis dólares por ano. 1. Como vê. com dezoito anos. vivendo todos esses anos debaixo de um lençol de gelo na Fern Hill Manor Road. David. segundo a concepção de tirano. interrogando ainda. e que tinha maneiras elegantes. eu era uma garota e o colégio para mim não valia nada.

— Isso me emudece por um instante: que maneira original de ver o famoso triângulo. graças a Deus. Era um homem realmente muito parecido com Karênin. com o tempo que me sobra? — Tomar pé na situação novamente. Eu não parava de rir. Ela diz: — Nada mal. devo dizer. — Aposto como há milhares de livros sobre isso. e repetia sempre "é surrealista". Aprendi tudo isso com Tolstói. — E talvez fosse bom você deixar de ler tudo o que escrevemos. levantando-se alegremente com um sorriso confiante. meu amigo. e me parece que é o seu caso também". — Há um livro sobre isso. vestidas de mulher e de sandálias douradas. Um outro marido — digo —. minha cara. só que não foi um Vronski. não valem nada e te chateiam mortalmente. nada enternecedor. A moça se chama Brett e é também muito superficial.ópio. dizendo: "Isso é surrealista". você tem dezenove anos". David. Eu costumava vê-los arrumados em ordem alfabética na biblioteca. você está se tornando um aplicado estudante da vida real. como um grande drama. . — E eu penso: "Há também um livro sobre você que se chama O sol também se levanta. — Aposto que há um livro sobre isso — Helen diz. Até que o mais gordo dos quatro baixou seu lornhão para mim e disse: "Naturalmente que é surrealista. — Parece misterioso. sabe? Chama-se Os embaixadores. e que me afundei em uma limusine com quatro bichas doidíssimas. tal como seu grupo todo. Dou-lhe Ana Karênina para ler. inglesas. — Mas você voltou por quê? — Isso eu não posso contar. apenas a metade do triângulo. E. — Quem era o homem? — Ah. Talvez fosse bom você escrever isso. — Errado. Os Vronskis. — E fazer o quê.

naturalmente. Pelo que posso me lembrar. era uma companhia divertida. — Horrível? — pergunto. — Não. afinal. Transformaram você em algo um pouco diferente. as escolas tendem a transformar a vida em alguma coisa ligeiramente diferente da realidade. . David. rindo (porque esse pequeno duelo se travou. . como se quase sentisse uma dor. como conseguiram . essa é uma palavra que você despreza. É como botar a mão dentro de uma panela escaldante. odeio livros e odeio escolas. Para ser franca.. Está intensamente empenhado em ser aquilo que não é. Meu Deus. — E o que foi? — Transformaram você em algo.. você também os detesta. Ela parece um pouco com um garoto e. . o que você vê em mim? — Oh. certo? A mesma coisa que dizer "calhambeque" em relação a um avião muito velho. . . mas. São aqueles pobres inocentes teóricos. para que não haja confusão.Olhe.. . exceto os seus olhos. . Nem posso olhar fixamente para eles por muito tempo. Na melhor das hipóteses. Mas. Pelo que lhe fizeram. deixe-me exagerar levemente o caso.. Tudo em você é um pouquinho falso. Pensando bem. É uma criatura intensa. . entre nós. Ligeiramente. — Você fala das coisas com muita vivacidade. é uma coisa horrível. Seu primeiro erro foi desistir daquela corajosa sueca de mochila. Sinto que está caminhando para uma queda muito séria. Esses ainda são você. Seus olhos também me chamaram a atenção. os "ratos de biblioteca". debaixo dos lençóis da cama e ao lado dos pesos de bronze onde se guarda o ópio). Odeio bibliotecas. Todas as vezes que falo em "divertido" vejo você realmente estremecer. parece-me que tem a boca como a de um esquilo. . ligeiramente diferente.. Errado. os professores. que transformam tudo no pior. não exatamente. — Você está se desvalorizando. a alteram "ligeiramente". — Então. Pela foto.

diz Helen. que com a idade de vinte anos estávamos tornando um ao outro corruptos. sabe que perdeu a energia. E não romantize a minha "energia" também. A propósito. daquele abandono decidido com o qual ela se entrega a quem quer que a procure com insistência. E. verdade. verdade. tentando descartá-la por achar sua mentalidade tacanha e banal. "trepar é uma coisa maravilhosa. tão absolutas são a determinação e a candura com que proclama seu desejo. sem se importar se no final aquilo lhe vai trazer dor ou prazer. gosto de me divertir. ao invés de admitir que ela não tem fantasia. Estava completamente enganado. Certo? De vez em quando. — A propósito. "Oh. mas logo. Deus". sobretudo a inexperiência da mente. também não procure me simplificar. verdade. você faz mais do que se divertir. que não há lugar para fantasia. cada um incendiário e incendiado.condicionar você. à medida que vou compreendendo melhor. pelo que vi com Helen. havíamos criado uma forte atmosfera hipnótica. . . Sentia-me intrigado e estimulado tanto pela idéia daquilo que fazíamos como pelas sensações. É o melhor tempo que já passou com alguém. cada um escravo do outro e seu senhor. renovadora. não era assim. divirto-me dormindo com você. verdade. depois do . espreguiçando-se languidamente pela manhã. começo a abrir mão de algumas suspeitas. meu caro amigo — acrescenta —. dentro da minha experiência. deixo de fazer perguntas e passo a considerar essas cenas apaixonadas como a emanação do próprio destemer que tanto me atrai em Helen. acho que. parece—me. pelo que senti. com seu jeito teatral. Trata-se de paixão arrebatadora. Exercendo tanto poder sexual um sobre o outro. inesgotável e. e. não comece a me simplificar demais. — Oh. quando dorme comigo. Claro que preciso primeiro acostumar-me no auge do meu ceticismo. condicionada por fotonovelas. do ponto de vista da minha nova oportunidade. Você é horrivelmente presunçoso.” É verdade. mas que influenciava. e contra pessoas totalmente estranhas. no entanto. Fazendo um retrospecto do meu caso com Birgitta. Agora. e com ela o sentimento. que vai aumentando minha familiaridade. no íntimo.

— Bem. começamos a dizer um para o outro que somos amantes. ela concordou em me contar por que motivo abandonara tudo o que tinha no Extremo Oriente. Nem mesmo sei o que responder em determinados momentos. Engulo a resposta da melhor maneira e lhe pergunto. sem ser pelo homicídio. talvez continue com a idéia e mande matar a mulher. já que nos amamos. — Onde é que ele está agora? — Ainda lá. existem coisas que essa moça sabe. Como poderia resistir? Mas. para você. . — Ele não tentou ver você? — Esteve aqui há uma semana. então. Bem. não podemos por que não posso — parar de tergiversar e de fazer contínuas perguntas? Finalmente. se não o mais solitário organismo sobre a terra. principiou com uma conversa de arranjar para que sua mulher fosse morta em um "acidente". Helen sabe. pelo teor de nossas conversas. não desejo. — Por que tem de caçoar dele? É tão difícil assim. . "Eu o amo". depois. Sou o menos protegido. Um deles é sair porta afora.orgasmo. — Você consegue agir assim com tanta simplicidade? É assim que fazem no departamento de literatura comparada? Eu me pergunto o que acontece quando vocês não conseguem o que desejam. de que trilhamos caminhos bem diferentes. de qualquer maneira. embora esteja convencido. o que poderia ter mais sentido? Assim. O amante. e muito bem. — Quem era ele? — Um homem muito conhecido e importante — eis tudo quanto ela se dignou responder. compreender que ele é tão humano quanto você? — Helen. quer para responder diretamente às minhas suspeitas. quer para adornar a mística a que não consigo resistir. No entanto. . todavia. Desejando convencer-me de que uma afinidade rara e inestimável constitui o fundamento e o incentivo de nossas apaixonadas relações. Por que. o último de seus Karênins. ela me diz. — E você dormiu com ele? — Naturalmente. Contou-me. há vários meios de se livrar de uma pessoa que viva com você. se alguma coisa deve ser dita. ver desaparecer a inquietação que Helen continua a despertar em mim. Foi horrível vê-lo partir para sempre. Sim. Quase morri. estou comovido pela gratidão e pelos sentimentos mais profundos de auto-rendição. mandei-o embora. só para cumprir o que planejou.

Bem. — Não podia ter certeza. na verdade. Ele só estava esperando isso. David. O que está errado é que você não tem a mínima compreensão do que havia entre nós. Continue. e falava seriamente. nem mesmo falar nela. — Muito inteligente. — Ah. Eu digo não. principalmente na parte das "conseqüências morais". talvez fosse para ouvir um não. — Só que ele talvez tenha pedido porque tinha certeza absoluta de que você diria não. Mas há quem tenha uma coisa e outra. o fato de ter encarado toda a história já como realidade. E você sabe como teria sido fácil dizer o que ele queria ouvir.. O fato de você fugir. Estava desesperado. ele provavelmente não imaginou tal atitude por parte de uma americana bela. . muito interessante. Fiquei aterrorizada pensando que ele pudesse ter tal idéia. aviões que explodem no ar. . lanchas que afundam. Nota máxima. . — Mas um homem tão conhecido e importante certamente podia ter tomado uma resolução e feito a coisa por sua própria iniciativa. Porque não podia suportar a idéia. Essa foi a razão. Se tivesse agido sem consultá-la. pois nem eu a tinha. Ou talvez a idéia fosse tão excruciantemente tentadora que resolvi sair correndo. Se pediu a sua opinião. que fugiu de casa. É só uma palavra. Só porque se trata de um homem poderoso. eu sou uma que abandonou tudo e quase morreu. você nem ia pensar no problema. que toma exatamente uma fração de segundo: "sim". . sem que se soubesse que ele era o autor? Certamente um homem tão conhecido e importante tinha todos os meios à sua disposição para afastar do caminho uma mulher desagradável: desastres de automóveis. pensa que ele não tem sentimentos. aventureira. Porque eu só tinha de dizer sim. teve conseqüências morais para você. Será que não podia. e o que é que ele ganha? — O que ele tem: a mulher e você.— Terei de arrebentar os miolos de alguém para conseguir? Terei de empurrar alguém no poço do elevador? — O que acha? Olhe. Obtém tudo e ainda faz uma bela figura em todo esse negócio.

porque você atingiu o limite. Quem sabe eu devesse ter ficado. — Mas também aconteceu à volta dele. As maquinações desse camarada não vêm ao caso. Nunca mudou. que arriscou e venceu. de eu nunca estar completamente seguro. Você não acredita que tais coisas aconteçam. O fato de nós nunca nos entendermos totalmente. afinal de contas. Mas isso aconteceu. Nunca menos. E mandá-lo embora aconteceu também. — Talvez eu estivesse errada e fosse apenas um grande sentimentalismo da minha parte.. posso concentrar todo o meu desejo. que não estava muito além de mim. e tanto para mim como para ele. minha curiosidade. toda a minha adoração. Oh. e agora. pensa que não têm importância. cujos mínimos movimentos do corpo têm uma tão poderosa e sensual influência sobre mim. até no dormitório. ultrapassado os meus limites. quando o lábio inferior de Walsh. de lhe faltar certa profundidade. uma mulher de quem não consigo tirar os olhos mesmo quando está apenas tomando café ou discando o telefone. . que a capacidade de renúncia amargurada. tudo isso não é nada — não é? — ao lado da estima que vim a ter por essa bela e dramática heroína. depois. Não é ela a singular criatura mais desejável que já conheci? Com uma mulher tão fisicamente cativante. de sua vaidade ser enorme. somente sobre ela. a "Sedosa". E. bem. então. .. valia mais do que qualquer coisa. ao botar à prova corajosamente o seu desejo. e minha volúpia? . . há a beleza em si. Essa criatura é para mim tão bela que sobre ela. — Você não podia e não fez. assim como aconteceram ainda o terror e a repulsa que você sentiu. quem é o sentimental? Parece. quase que não preciso preocupar-me de novo com as tentações imaginárias de renovadas aventuras vis e estonteantes. é que torna sua atração iniludível. aliada à aptidão para o abandono sensual. não é? Ou. Tinham importância para você. . E ver. me perturbava a ponto de persegui-la no café. Helen. Não é Helen a mulher sedutora que eu já procurava na universidade. no ginásio. Às vezes mais. se acredita. Nunca deixou de ser perfeito. e de novo perdeu muito. Ou talvez uma espécie de esperança infantil.Durante dois anos nós nos encontramos duas vezes por semana.

de ambos os lados. E se nós nos casássemos. . eu novamente me engane quando suspeito que o que ela secretamente espera obter no casamento é o fim de sua ligação amorosa com aquele antipático Karênin de Hong Kong. cuja perda quase a destruiu. Então. que até então permaneceu inalterável. eliminar qualquer impulso que ainda reste. Posso apenas almejar que. então? Quem poderá despertar meu interesse a esse ponto? E. que sou eu sempre o primeiro a salientar qualquer coisa e a dramatizá-la) terminará por estar absolutamente fora do problema da minha apaixonada fixação. não é isso que destinamos um ao outro a essa altura dos nossos sonhos. há tanta coisa ainda para despertar meu interesse. quem. desejos e temores. como me apresso a lembrar a mim mesmo — na hipótese de já ser mesmo um homem amadurecido —. ele. Além disso. das mãos e do membro do mais perfeito de todos os amantes. ai de mim. que mataria sua mulher a fim de tornar sua a própria amante. como meu pai. um pouco menos de outro. Resta-me apenas almejar que ela se case realmente comigo e não com a barreira que a minha pessoa representa em relação ao passado. entre dúvidas e esperanças. caso-me com Helen Baird. aquilo que chamo de "falta de profundidade" e "vaidade" é justamente o que a torna tão interessante! De modo que só posso esperar que uma mera diferença de "opiniões" (fato que me apressa a admitir. e o pior. a certeza de sua permanência. ao lado do piano. cantando . depois de quase três anos completos de dúvidas. desejos e temores (antegozando num instante o mais agradável e vivido de todos os futuros. Há homens. e não com as recordações da boca. Bem. que bastam ver uma mulher de pé. de presunção e autodefesa? Naturalmente não seria um jogo tão arriscado se Helen fosse apenas um pouco mais de um jeito. assim como me enganei quanto às suas razões anteriores. apesar dos nossos diálogos inflamados e um tanto evangélicos. o lado litigioso da questão simplesmente se consumirá ou não quando uma intimidade cada vez maior. Posso apenas esperar (porque nunca se pode saber) que é comigo que ela vai para a cama. Mas. no instante seguinte). se é que isso ajuda. . esperanças.Se não for Helen.

que implicam apartamentos separados e férias conjuntas. mais tarde. haveria alguém com disposições idênticas junto ao qual pudesse o outro fazer um retrospecto do charme ou da insipidez de certos convidados. No momento exato de impasse e exaustão que deve finalmente apossar-se de todos aqueles que passam anos e anos e anos em combinações delimitadas e confusas. subestimado. após um encontro um tanto fortuito no supermercado do bairro.Amapola para imediatamente se decidirem: "Lá está a minha mulher" e outros que dizem. juntos. É óbvio que um dos dois poderia cumprir sozinho a obrigação. nem ao se preparar para dormir encontraria o amigo ávido e sorridente. possivelmente. ou no compare cimento a um jantar com o qual os dois já se haviam comprometido há tanto tempo que não ficaria bem não ir e. fervoroso arrebatamento sexual. pressupostos de abnegação e noites deliberadamente isoladas. mas. nem depois. aquele que estivesse só não teria. lá está ela" somente depois de um interminável drama de hesitações que os levam à inelutável conclusão de que jamais deverão tornar a ver aquela mulher. fizeram uma ligação de três anos parecer tão cheia de acontecimentos como um casamento de meio século. E ela se casa comigo. caso-me com Helen. de certo modo. do outro lado da mesa. Assim sendo. .. reatadas com um delicioso e. ligações terminadas com alívio de seis em seis meses e já esquecidas no decurso de setenta e duas horas ou. Só quando finalmente tenho certeza de que isso deve terminar agora é que descubro quão profundamente casado eu já estou realmente pelos mil dias de indecisão. Caso-me com Helen quando o peso da experiência necessária para chegar à decisão monumental de deixá-la de uma vez por todas parece-me tão grande e comovedor que não me é possível imaginar a vida sem ela.... cumprirem esse dever social. de avaliações escrutinadoras das possibilidades que. num suspiro: "Sim. então. no regresso a casa. ou reiniciado após um telefonema à noite. deitando-se despido ali a seu lado. com intuito apenas de avisar o companheiro abandonado da reprise de um importante documentário às dez horas na televisão. a quem declararia que a única pessoa verdadeiramente insinuante presente no jantar vinha a ser o companheiro anteriormente manque. um aliado com quem trocar olhares de tédio ou satisfação.

Se. . O seu lugar é na lata que se encontra na área. razoáveis e afetuosos momentos. Se ao menos esse seu passado não fosse tão vivido. e quando você carrega o lixo. — É. penitenciamo-nos. ao invés de nos odiar mutuamente. como também da impressão persistente de que um outro homem é ainda merecedor de sua mais profunda ternura.Casamo-nos e. e que. as mútuas críticas e censuras continuam a envenenar nossas vidas. a vida reduz-se a fazer torradas. pergunto. sabe tão bem quanto eu que só é minha mulher por não haver outro meio. assim o creio. tomamos resoluções. Porém. . . tão grandioso ou operístico. . — Não concordo com essa discussão — diz ela. para que pudesse tornar-se a mulher daquele seu amante importante e conhecido. Quais os nossos maiores motivos de altercação? No princípio — é fácil para qualquer um imaginar quem. pedimos desculpas. a não ser o homicídio. Helen. nos nossos mais admiráveis. um de nós pudesse esquecê-lo! Se eu pudesse eliminar essa falta de confiança que ainda existe entre nós! Ou ignorá-la! Deixar isso para trás! Nos nossos melhores momentos. odiar aquilo que nos separa. depois de três anos de procrastinação. no princípio. e não depois? Dessa forma comeremos as torradas mornas ao invés de frias. com todas as nossas forças. Bem. senhora! — ouço-me mantendo o meu ponto de vista. e tampado. Quando você se senta para comer torradas. de qualquer modo. A vida não é fazer torradas! — acaba gritando. a vida é carregar o lixo. Você não pode deixá-lo no meio da escada. discutíamos por causa das torradas. atirou—se impetuosamente e quase convencido nas chamas do matrimônio —. Nos nossos melhores momentos. prova não apenas da profunda desigualdade de temperamentos que sempre existiu desde o princípio. Por que. fazemos amor. tentamos. os nossos piores momentos são tão ruins como os de qualquer um. por mais que ela tente ocultar o fato melancólico e se dedique a mim ou à nossa vida. ou provavelmente sempre o soube. . ou não poderia saber. sim. como eu deveria saber. não botamos o pão no forno enquanto cozinhamos os ovos. nos nossos maus momentos.

ou voltar sobre seus passos. . . surgem com certa regularidade nos bolsos de sua capa de chuva e das calças. Não. depois de fazer uma retirada no banco.. eu resolvi fazer as compras. A experiência. que diferença faz? Ela se esquece de assinar os cheques que faz e de selar as cartas que envia. No dia em que deixou o peixe apodrecer debaixo do assento dianteiro do carro. — Como é possível esquecer quando já está na sua mão? — Talvez seja querido. por seu lado. Onde é que você está com a cabeça. a cada passo que dou. — Mas. para pagar. aí está! Ver o céu! Vou respirar! — Mas. remediar a horrível incompreensão que nos separa): — vou fazer compras. pela manhã. ao invés de apontar seus enganos e descuidos. torro o pão. faz-me dizer: — Não. para começar. por engano. enquanto saía. você quer que eu ponha estas. Mesmo quando ela diz. — No dia em que ela perdeu a bolsa. — Não posso ficar pensando o tempo todo no diabo de suas cartas. obrigado. muitos meses depois de ela sair para depositá-las na caixa do correio. para comprar os filés de salmão para o jantar. invectivando contra ela). dos elefantes. . Afinal. da alvorada irrompendo como trovão. logo. ao sair com as cartas na mão? — vou tomar um pouco de ar. . Lembranças do "calhambeque".. eu assumi as transações no banco. levo o lixo. pago as contas e ponho as cartas no correio. No dia em que. das lagoas. o que é que você pensa que vai fazer. se não a prudência. mandou lavar . ou apanhar os objetos e conter-me (para em seguida trancar-me no banheiro. por se tratar de lixo. cozinho os ovos. Helen? O que a faz tão esquecida? Saudades de Mandalay. gentilmente (tentando..— Eu me esqueci. enquanto as minhas cartas que lhe peço para botar no correio e as contas da casa. .

Já está um tanto alta e. o precioso crânio pousado em um pequeno travesseiro cheio de ar. enquanto Helen bebe sem parar e toma drogas. A vida é fazer. sabugueiro e flores de camomila. Fala (tem falado nisso há anos) em planos de abrir lá um antiquário de coisas do Extremo Oriente. de gola alta. sobre a desilusão romântica na obra de Anton Tchékhov (assunto escolhido muito antes de conhecer minha mulher). ela está pronta para se vestir a fim de ir à aula de ginástica . a cabeça envolta num turbante e inclinada sobre um pote de água que exala vapor. — A vida é uma torrada — observa. declara estar decidida a ir a San Francisco. . são toda sorrisos: inconsciente. enquanto estou na universidade: — um vestido à moda chinesa. para "dar uma olhada". para torná-los sedosos depois de lavados. sandálias. com papoulas bordadas em vermelho-pálido e com pássaros amarelos nunca vistos em terra ou mar. tenra. lecionando para minhas turmas e reescrevendo minha tese. distorcida. Com óleo de oliva nos cabelos. muito justo. os olhos fechados. Quando. o anel de jade.ou a qualquer outro lugar. pintada e penteada. nos . ao banho segue-se a sauna facial: em seu quimono de seda azul-escuro. à hora do jantar. . os braceletes de jade e ouro. enquanto toma aos golinhos quatro dedos de rum. e o rosto untado com cremes de vitaminas. ela diariamente se deita vinte minutos na banheira. Depois desse tratamento. 0 ela senta-se na mesa da minúscula kitchenette. os brincos cravejados de diamantes. bem mais tarde. A vida são as solas de couro e os saltos de borracha. Seu dia começa com um banho de águas perfumadas com jasmim. — A vida são os restos. Movimenta-se apenas para retirar a calosidade dos pés com pedra-pomes. bolsa de palha. Três vezes por semana. O resultado é que ainda não se passara um ano e eu já trabalhava — com satisfação — cerca de dezesseis horas por dia. ela volta — depois da ioga —. para publicação. e eu tempero as costeletas de carneiro.normalmente o suéter de lã que devia ser lavado a seco. fendido até a coxa. resolvi tomar a meu cargo levar a roupa para a lavanderia. dentro do qual foram espargidos alecrim. A vida é o transporte do saldo para o novo talão de cheques.

os "devaneios de adolescente". se pelo menos sua mulher se lembrasse de que. . . inteligentes. talvez pela oportunidade que esse casamento nos propicia de investir de frente contra o que cada um de nós pensa ser o seu demônio (e. Ou uma joalheria. E a vida está horrivelmente cara. Tanto para espanto nosso como dos outros. . oh. no princípio. Ou uma psicoterapia para nós dois. . da maneira que mamãe fazia durante o inverno. nem ela a mim. para botar a mesa: — Se pelo menos sua mulher não se esquecesse nunca do assado no forno. nos jantares de David. sua mãe punha sempre o garfo à esquerda e a colher à direita.canhotos dos talões de cheques. um assentamento correto da quantia a ser paga. a combinação de um orçamento de doze mil dólares por ano. parecia a nossa salvação!). entretanto. deixando tudo queimar. — Tudo isso é verdade — digo. E o dia certo. mundanos (principalmente tratando-se de um jovem casal universitário). Passam-se dois meses e continuamos juntos. Ao passarmos dos trinta anos. à "afetação" dogmática e à "meticulosidade" em virtude das quais Helen me detesta com todas as suas forças.. nunca. Ou uma loja de objetos antigos só para Helen. nunca. em Arcadia.. isto é. não são menos evidentes do que a "negligência” de Helen. O pouco espírito que ainda me resta. pensando se por acaso um filho não iria de certo modo resolver esse impasse louco. observando-me andar de um lado para o outro. a "idiota dissipação". Um jovem caturra totalmente inexperiente — cujos defeitos.. — Você agora é realmente assim. mês e ano. David. Mais de uma vez ouvimo-nos descritos como um casal extraordinariamente "atraente": bem-vestidos. viajados. estamos casados há quase tanto tempo quanto fomos amantes. do mesmo lado. — Ah — diz ela.. se sua mulher soubesse ao menos lhe fazer batatas assadas com manteiga. etc.. Contudo. nossas antipatias estão de tal modo exacerbadas que cada um de nós ficou reduzido precisamente àquilo de que o outro tanto desconfiava no princípio. até que um desastre total torne simplesmente ridículo continuar esperando que um milagre nos converta. não consigo nunca deixá-la.. .

durante os últimos meses de casamento, só é visível durante as aulas. Afora isso, sinto-me tão inerte e distraído que corre um boato entre o pessoal do penúltimo ano da faculdade de que estou "sob efeito de tranqüilizantes". Desde a aprovação da minha tese, tenho lecionado, juntamente com o curso dos calouros, "Introdução à ficção", duas divisões da pesquisa sobre literatura "geral", para os alunos do segundo ano. Nas semanas que precedem o término do trimestre, quando estudamos os contos de Tchékhov, enquanto leio em voz alta alguns trechos que faço questão de que meus alunos tomem nota, descubro que cada um dos períodos parece, acima de tudo, aludir à minha própria situação, como se, agora, a mínima sílaba pensada ou articulada fizesse parte dos meus dissabores. Depois, vêm os meus devaneios em classe, subitamente tão numerosos quanto irreprimíveis, e tão obviamente inspirados por anseios de salvação miraculosa. . . Um retorno às vidas há muito tempo perdidas para mim, reencarnação como um ser totalmente diverso daquele que sou... Que chego algumas vezes até a ficar agradecido de estar deprimido e destituído de qualquer força de vontade para pôr em ação a mais leve das fantasias. "Compreendi que, quando amamos, devemos, ao pensar sobre esse amor, partir do que é mais elevado, mais importante do que felicidade ou infelicidade, pecado ou virtude, dentro de seu significado usual, ou então não pensar em coisa alguma.” Pergunto aos alunos o que essa frase quer dizer e, enquanto respondem, noto que, num distante ângulo da sala, a moça de personalidade e voz suave, que é a mais inteligente das minhas alunas, a mais bonita. .. Assim como a mais arrogante e entediada, está terminando de comer um pedaço de doce, com uma Coca, a guisa de almoço. "Oh, não coma porcaria", digolhe em silêncio, vendo-nos no terraço do Gritti, andando por entre as luzes tremeluzentes do Grande Canal, para chegar à fachada de cor ocre do pequeno e belo palazzo onde reservamos um quarto de persianas... Depois, eis-nos almoçando, ao meio-dia, uma pasta cremosa, acompanhada de tenras fatias de vitela temperada com limão... Na mesma mesa em que Birgitta e eu, arrogantes, jovens, nervosos, não muito mais velhos do que aqueles rapazes e moças que ali estavam diante de mim, sentamo-nos para

comer, naquela tarde em que havíamos juntado nossa fortuna para celebrar nossa chegada à Itália de Byron. . Entrementes, meu outro aluno muito inteligente explica o que o proprietário rural Aliócha quer dizer no fim de "Sobre o amor", quando fala “do que é mais elevado”. . . Do que felicidade ou infelicidade, pecado ou virtude, dentro de seu significado usual". O rapaz diz: — Ele arrepende-se de não ter cedido a seus sentimentos, fugindo com a mulher por quem se apaixonou. Agora, que ela vai embora, ele está desconsolado por ter permitido que a consciência e os escrúpulos, assim como sua própria timidez, o houvessem impedido de confessar o seu amor só porque ela era casada e mãe. Faço, com a cabeça, um gesto de assentimento, mas claramente sem compreender, e o aluno inteligente fica desapontado. — Será que estou errado? — pergunta, muito vermelho. — Não, não — digo, mas todo esse tempo estou pensando: "O que está fazendo, Miss Rodgers, jantando chocolate com amendoim? Nós devíamos estar degustando vinho branco..." E, então, ocorre-me que, no último ano de faculdade na use, Helen provavelmente teria parecido com minha chateada Miss Rodgers, nos meses que antecederam o dia em que aquele homem mais velho — da minha idade! a arrancou da sala de aula para uma vida de aventuras românticas ... Mais tarde, quase no fim da aula, afastei os olhos do livro A dama do cachorrinho, que eu lia em voz alta, para colocá-los fixamente no olhar inocente e ainda não corrompido da moça judia, gorda, séria, compassiva, de Beverly Hills, que se sentara na fila da frente, durante todo o período, anotando tudo quanto eu digo. Li para toda a classe o último parágrafo do conto, em que o casal adúltero, abalado ao constatar o quanto se amava, procura em vão "compreender por que ele devia ter uma mulher e ela um marido". "Parecia-lhes, então, que em apenas alguns minutos mais

encontrariam uma solução, e que uma vida nova e bela ia começar. Entretanto, ambos sabiam muito bem que o fim ainda estava muito, muito longe, e que a parte mais complicada e difícil estava apenas principiando." Ouço a minha voz falando da enternecedora transparência do final — nada de falsos mistérios, apenas os fatos rígida e diretamente apresentados. Falo da

proporção de história humana que Tchekhov consegue incorporar em quinze páginas, de que maneira o ridículo e a ironia gradativamente cedem lugar, mesmo em tempo tão curto, à tristeza e ao patético, de seu sentimento pelo momento da desilusão e por aqueles processos em que o momento presente aparentemente se apodera até das nossas mais inocentes ilusões, não falando dos grandes sonhos de realizações e aventuras. Falo de seu pessimismo e daquilo que ele denomina "esse negócio de felicidade pessoal", e durante todo o tempo desejo perguntar à roliça garota da primeira fila, que rapidamente passa para o seu caderno tudo quanto eu digo, se ela quer ser minha filha. Desejo pagar suas roupas e as contas do médico e, quando estiver se sentindo triste ou só, que venha e passe os braços ao redor do meu pescoço. Se apenas tivéssemos sido Helen e eu que a houvéssemos criado assim tão meiga! Mas como poderíamos nós dois criar alguma coisa? E, mais tarde, naquele mesmo dia, quando, ocasionalmente, esbarro com ela andando em minha direção no campus, continuo a sentir-me impelido para uma pessoa que provavelmente tem apenas dez ou doze anos menos do que eu e dizer-lhe que desejo adotá-la, que esqueça seus pais, sobre quem nada sei, deixando-me ser seu pai e protegê-la. — Alô, Mister Kepesh —, ela diz, com um aceno de mão, e esse gesto afetuoso aparentemente desperta a minha emoção. Sinto-me ficar cada vez mais leve, mais leve, com a presença de uma emoção que vem em minha direção, se apossa de mim, me vira e me deposita não sei onde. Será que vou ter um colapso nervoso aqui nesta calçada em frente à biblioteca? Tenho nas minhas as mãos de minha aluna. . . E vou dizer, com a garganta embargada pelo sentimento: — Você é uma boa moça, Kátia. — Ela abaixa a cabeça, a fronte enrubescida. — Bem — diz —, alegro-me em saber que alguém aqui gosta de mim. — Você é uma moça muito boa — repito, deixando ir a mão macia que prendo entre as minhas, e caminho em direção a casa para verificar se Helen, que não teve filhos, está suficientemente sóbria para preparar jantar para dois. Por essa época recebemos a visita de um inglês, um banqueiro de investimentos, chamado Donald Garland, o primeiro dos amigos que Helen fez em Hong Kong a ser convidado para jantar conosco em nosso apartamento. É

óbvio que ela teve oportunidade de fazer-se espetacularmente bela quando foi a San Francisco para almoçar com um ou outro do paraíso perdido, mas nunca anteriormente eu a vi preparar-se para o encontro nessa atitude de antecipação feliz, quase infantil. Na verdade, houve tempos em que, tendo gasto horas vestindo-se e preparando-se para ir a um almoço a que fora convidada, teria saído do banheiro com um roupão desmantelado, declarando-se incapaz de sair de casa, ou ver quem quer que fosse. — Estou horrorosa. — Não, absolutamente, você não está horrorosa. — Estou sim — e com isso voltou para a cama, onde passou o dia todo. Ela me diz, agora, que Donald Garland é "o homem mais gentil que ela já viu". — Na minha primeira semana de Hong Kong, levaram-me para almoçar em sua casa. Ficamos logo nos adorando. O centro da mesa estava coberto de orquídeas que ele apanhara no jardim, em minha honra, e o pátio onde comemos dava para a entrada da Repulse Bay. Eu tinha dezoito anos. Ele devia ter cinqüenta e cinco. Santo Deus! É possível que Donald tenha setenta anos! Jamais pensaria que ele tivesse mais de quarenta. Era sempre tão feliz, tão jovem, tão entusiasmado com qualquer coisa. Ele vivia com o mais camarada e bem-humorado dos rapazes americanos. Naquela época, Chip devia ter mais ou menos vinte e cinco ou vinte e sete anos. Esta manhã, pelo telefone, Donald deu-me a mais terrível das notícias.. . Certo dia faz dois meses, Chips morreu de um aneurisma, na hora do café da manhã; caiu logo morto. Donald levou o corpo para Wilmington, Delaware, enterrando-o, e depois não conseguia se afastar de lá. Começou fazendo reservas nos aviões e logo as cancelando. Agora, finalmente está voltando para casa. Chips, Donald, Edgar, Brian, Colin. . . Nenhuma reação da minha parte, nem interrogatórios ou reinquirições, nada que, de longe, parecesse simpatia, curiosidade, ou interesse. Há muito que ouço tudo quanto me é

Helen está representando. Em resumo: simples como poderia parecer a qualquer um. Numa vã tentativa de despir de minha pele esse piedoso. que agora tudo está bem em sua vida. . eu os desejo reprimir. Se esse é ou não o seu intento. por sua vez. "Não fale comigo desse modo. agora que a vida com Helen deixou de ter o menor sentido. que ela e seu marido não estão vivendo confortável e amigavelmente. também sofreu um golpe terrível. sei que estou sendo diminuído muito mais pelo rancor de tudo quanto ela faz ou fez do que por aquelas suas maneiras às quais eu deveria ter aprendido a não ligar. com esse tom terrível. É. redondas e . e que seu protetor não precisa mais se preocupar com ela. Ele era o meu mais querido amigo. rabugento. Só que. cujo coração palpita apenas ao som do chicote ou ao brandir da bengala. exatamente como o faria uma filha devotada. Aos setenta anos de idade. . porque. mas um professor absolutamente vitoriano.possível suportar sobre as atividades do abastado círculo de homossexuais que a "adoraram". eu me pergunto se ela o convidou ao nosso apartamento para que eu pudesse saber em primeira mão o quanto ela caiu do alto do pináculo ao ter levianamente unido o seu destino com o de um fóssil. Sua testa é tão frágil que parece poder quebrar-se com uma leve batida de colher e suas faces são pequenas. Na companhia deles eu não sou o simples e afável Chips. o delicado e delgado Garland ainda possui uma espécie de charme juvenil e uma maneira de ser a um tempo mundana e de menino. como se. Salvou-me a vida centenas de vezes. Ela fecha os olhos com força. ." E por que você a arriscou centenas de vezes? Mas o interrogatório acusador. esforço-me para acreditar que Helen está mostrando a esse homem que tanto significou para ela e foi tão bom para ela. a presença de Garland escapa completamente à minha compreensão. muito tempo. e o terrível tom que o acompanha. à medida que aquela noite vai passando. há muito. e Garland torna-se cada vez mais animado em suas reminiscências. agora. reprovador pedante. eu não pudesse descobrir a verdade sobre coisa alguma. como se precisasse fazer-me desaparecer de sua vista apenas para poder sobreviver. ou que deveria aceitar com certa benignidade. e que. o resultado o é. . que desejasse ocultar ao pai extremoso uma verdade penosa. De maneira grosseira expresso minha surpresa ao saber que vou participar dessa reunião tão especial.

intensamente melancólicos. castanhos. — Que horror. mas. sim. Uma espécie de vírus acabou com eles uma semana após a morte do dono. mas bastava que você lhe dissesse "Derek. muito desnorteado. Ah. Chip fez toda a casa para ela. Pobre homem. julgando que ele não lhes havia dado bastante dinheiro. aquelas duas nada terão a ver uma com a outra. quase escondendo totalmente as rugas. que coisa medonha. Bem.. na realidade. empurraram-no escada abaixo. dois rapazes chineses. só se evidencia a tristeza nos olhos suaves. Quando ela quer. Madge adotouos e Patrícia toma conta deles. Há um ano. — Helen tenta mais uma vez fazer-me voltar a terra. Madge adotou. como as de um cupido de alabastro. sim. basta" e logo se calava. — O pobre Derek foi morto.lustrosas. Derek quebrou o pescoço. Às vezes. Ela botou o pobre rapaz quase doido com o banheiro no andar de cima. era uma pessoa muito boa. — Ante a minha expressão inerte. aquela Madge é uma boa puta. Naquele rosto singularmente jovem. explicando que Madge e Patrícia são proprietárias das casas que ficam ao longo da baía em frente à casa de Donald e foram estrelas do cinema inglês na década de 1940. dirigindo-se a mim — era sócio da firma de Donald. Acima da camisa aberta. era um homem tão bom. etc. ele era muito bobo. costumava falar sem parar. . Tapou a boca com a mão. — De novo? — Ah. Donald enumera. — Helen não sabia. . O resto. . mesmo quando o tom de voz incisivo se recusa a denunciar o menor indício de amargura. único indício da idade. um lenço de seda de cor pálida envolve-lhe o pescoço. por hoje. — Mas como? Derek disse ela. os filmes que fizeram. você sabe. rapidamente. Helen volta-se rápida para Garland. e eu me dedicava a ele. — Sim — disse ele —. E o que — pergunta Helen aconteceu com os bichos que ele criava? — Os pássaros morreram. De outro modo.

Chip. deixando apenas uma casca de coco amarrada ao sexo e pequenas lâmpadas de Natal piscando em seus pescoços. Uma princesinha tailandesa começou a chorar quando a contemplou. de propriedade de seu amigo tailandês. — Por quê? — pergunto. — Oh. de seda. quando se maquila. conduzindo-nos por um atalho . o barco atracou. o espetáculo era impagável! Bem. — Bem. naturalmente. Pobrezinha. gostaria de ter trazido as minhas.Eu balanço a cabeça e torno a balançar como uma pessoa bemeducada. segurando na mão de Helen e fazendo-me a descrição da famosa festa à fantasia realizada em uma clareira da selva na pequenina ilha do golfo de Sião. já um tanto embriagado. — Chip. que desenhou o vestido de Helen. não deve usar biquíni. e um turbante prateado preso com um broche de diamante. meia milha ao sul da Tailândia. Quando ventava. fisicamente. Onde está agora o cinto. A noite termina com Garland. com o olhar que Helen me lança. Mas nunca pensei encontrá-la. de esmeraldas. e pensava que todo mundo ia desmaiar. tirou toda a roupa dos meninos nativos. no entanto. querida? — Não — disse Helen. não há dúvida quanto a isso. eu me pergunto? O que você tem de devolver. exceto o fogão da cozinha. mas a intenção do sorriso que me esforço por fazer nem sequer transparece o mesmo não acontecendo. Uma blusa de cossaco. Mas quem parecia uma personalidade real naquela noite era esta querida amiga que aqui está. Helen nunca lhe mostrou as fotografias? Você não tem as fotografias. e o que você pode guardar? Certamente que o que você pode guardar é as recordações. botou-a toda de branco. como o Príncipe Ivan. mas ninguém parece ter-me ouvido. e calças de seda muito largas metidas dentro de botas finas de couro prateado. como é que Madge está? Helen pergunta. ainda fica maravilhosa. "Estava arrebatadora. e todos aqueles meninos vinham dar as boas-vindas aos convidados. — Não as tenho mais. Ao redor da cintura um cinto. foi um total alvoroço. que parecia uma jóia. no Pássaro de jogo. Mas eu nem tinha consciência de quem eu era quando saí de casa. Oh." Esmeraldas? Compradas por quem? Obviamente por Karênin. Ela botou de tudo em cima dela. Lembra-se dos meninos? Depois de tomar um grande gole de conhaque. Naturalmente. — E.

Ela me disse: "Só se pode ir a esses lugares quando se tem algo maravilhoso para usar". muito grande. há? — É exatamente como você disse. na maioria das vezes. Então. Nunca gastava dinheiro quando podia evitá-lo... . E Madge disse: "Como é que pode ser muito decotado nas costas. E o seu rosto. Derek era mais o tipo dos oficiais da Guarda. Oh. não há necessidade de perguntar o que você pensa dele. e a pobre moça ainda vestia as roupas mais comuns possíveis). existe uma fotografia de Helen que você precisa ver David. era com o dinheiro que todos lhe queriam roubar. Muito decotado nas costas. Estava sempre aborrecida com algo. naquela fotografia.cheio de lanternas até a clareira onde seria servido o banquete. e todas aquelas bobagens repugnantes?” Eu disse: "Oh. que direito lhe assiste de transformar-me em juiz das paixões alheias? Você não ouviu? Este mundo é muito. Preciso mandá-la para você. mas Patrícia disse que ela tinha o jeito das estrelas. Esbelto. Deus. preste bem atenção: "Por que você não vai com o vestido de Derek? É de gaze branca coberta de Diamante. Helen diz: — Bem. é verdade. Patrícia disse-me que a primeira vez que lhe deitou os olhos (foi durante um almoço em minha casa. — Eu sei — responde o mestre-escola. e uma longa cauda. Com aquelas pernas longilíneas e toda aquela seda colada ao corpo. fazendo vibrar a bengala silenciosamente. quando fez quarenta anos. Era a mais arrebatadora das criaturas. Sempre o terá. Donald? Como é que Derek pode usar aquilo? E aquele cabelo caindo-lhe nas costas. Madge apareceu com o vestido que Derek usou na festa de aniversário. Ela ainda tem esse jeito. Você sabe — Garland me diz —. eu lhe disse. querida. Preciso mandá-la para você. mas. você precisa ter aquela foto. ele adora você. . e que sem nenhuma dúvida poderia tornar-se atriz de cinema. elegante. — Realmente. Ah. . a mais extraordinária pessoa totalmente imberbe. brincando apenas. É aquela onde Helen está sendo transportada do barco para a terra pelos pequeninos nativos cobertos de enfeites brilhantes. ele só corta os cabelos e faz a barba uma vez em cada três anos”. Você ficará linda dentro dele. a cútis muito rosada. minha querida". E poderia ter sido. ela era a própria perfeição. Quando ele sai. é clássico. e há lugar para todo mundo fazer aquilo que lhe agrada. Seu rosto. oh.

Por um momento. e maravilhoso. eu esteja abaixo da crítica. — Ah. pode ser rijo como ferro. Mas basta ver o que ele tem passado. você teve sorte. . É verdade que não sou bastante inteligente para fazer as tortas de banana e de cenoura. O que me arvoro em julgar você não acreditaria. — Donald Garland talvez seja o melhor homem vivo. — Fiquei sentado. Poderia ter-me casado com um desses homens que governam o mundo! E não teria precisado olhar para muito longe. se valem pouco. Helen. ou para cultivar minhas mudas de vagem e "cursar" seminários na qualidade de ouvinte. David. e aquela época foi ótima. seu sábio professore e suas dinâmicas e deselegantes mulherzinhas. Acontece. . Odeio ter de dizer coisas assim tão vulgares e desprezíveis sobre a minha pessoa. É o que dizem. mas as pessoas ainda olham para mim. — Ele gosta de tagarelice.. de contar casos e não há dúvida de que esta noite ele esteve um tanto lamuriento. De que estamos falando agora? — Estamos falando que eu ainda sou uma criatura de responsabilidade para muitas pessoas. mesmo que para você. um dia fez o que gostava. Há rumores de que meus alunos vão dar-me o exame final. A lealdade dessa espécie de homens é absolutamente maravilhosa e não deve ser depreciada por ninguém. Ele me protegia contra certas pessoas horríveis. E dedica-se a seus amigos. e não me lembro de ter dito coisa alguma sobre as paixões ou as preferências ou as partes íntimas de quem quer que seja daqui ou do Nepal. . Ainda estou . — Foi muito simpático comigo. o que você está tentando me dizer? Esse último dia não está captando o âmago das coisas. Por que você não se protegeu conservando-se longe dessa gente? — Muito bem — eu disse —. eu havia me esquecido. — Ele sempre aparecia quando eu precisava de alguém. mas é o que você tem de dizer a quem o julgue tão repulsivo. que ele sempre sabe o que as pessoas são. Ainda é!— Olhe aqui. Severíssimo com você. se valem muito. David. porém. e ouvi. até aos doidos. E não se engane: quando ele tem seus sentimentos. assim como "encabeçar" reuniões e estigmatizar a guerra em todos os tempos.Até você. — Eu não a acho repulsiva. — Tenho certeza de que foi um maravilhoso amigo para você. para ver se conseguiram reter algo do meu cérebro. Inflexível. aonde quer que eu vá. Houve um tempo em que passei semanas em sua casa. a você próprio. — Eu não me arvoro em juiz de ninguém.

Olhe aqui. . filho e herdeiro do fundador da Linha MacDonaldMetcalf. me esqueça.. nem a deixaram transpor a porta onde se encontrava o criado. . Informando-me de que minha companheira está numa prisão de Hong Kong. era o único homossexual que havia lá. ouço a porta da frente do nosso apartamento abrir. que se afogou. quando eu acabara de sentar-me à minha mesa de trabalho para fixar as datas dos exames. para a mansão de seu renomado ex-amante. E Donald também é repugnante para você.. O segundo é de Garland.surpreso por você ter-me escolhido em primeiro lugar. Dias horríveis. hesitante e perplexa. 0 Como é que uma pessoa incapaz até de terminar um pequeno folheto sobre Anton Tchékhov pode sentir outra coisa além de gratidão por estar vivendo com a segunda colocada para o título de Rainha do Tibete? Sinto-me honrado por ser o escolhido para seu tormento. Na casa de Jimmy Metcalf. Vem do Departamento de Estado. . finalmente. já no fim da primavera. há anos. vou-me embora! Então. de táxi. a dissolução daquele casamento irremediável e desigual havia principiado. Oh. quando esse tipo de gente quase não existia. Segundo me disseram. . — Helen. e tive um amigo assim. . eu nem gostei nem desgostei daquele homem. Helen partiu. . Eu lhe causo repugnância. que acrescenta alguns detalhes sombrios e esclarecedores: do aeroporto de Hong Kong. . Vários dias se passaram. é ele o Onassis inglês. num sábado. um deles com a mãe de Helen. Em 1950. pela manhã. Até onde eu tenho conhecimento de seu paradeiro.. principalmente depois de seu nome ser . O primeiro telefonema. . que insistiu em vir de Pasadena de avião e em acompanhar-me corajosamente na busca do corpo sem vida de uma mulher "caucasiana" de trinta a trinta e cinco anos. eu verdadeiramente me esforcei. eu tive um amigo bicha! Ainda nem sabia o que era isso. ao invés do presidente da ITT.. em Kowloon. o meu melhor amigo. é o tormento. e ainda o rei dos cargueiros que vão do cabo da Boa Esperança para a baía de Manila. que acarretaram duas visitas ao necrotério de San Francisco. com os diabos. Não ligo para quem usa a roupa de quem. — É discutível quem. ela foi diretamente. na universidade. Com os diabos. . E.. aqui. fechar.

agora como é que vai ser? — Eu a tiro de lá — diz Garland. — Entrementes. algumas horas mais tarde. — E você sabia que ela ia chegar? — Sim. — Como? — Como é que você pensa que vai ser? — Dinheiro? Chantagem? Moças? Rapazes? Eu não sei. se me procurasse em primeiro lugar. pelo presidente da MacDonald-Metcalf. o quê? Donald. — E o que está acontecendo agora? — pergunto-lhe. não perguntarei mais. por favor. O que quer que seja que dê resultado. faça-o. para fazer com que sua mulher fosse atropelada por um automóvel. por que ela não foi logo procurá-lo ao chegar aí? — Porque ela se convenceu de que tinha de ver Jimmy. Diga-me. tudo isso está um tanto confuso. — Pode conseguir? — Posso.anunciado à mulher de Metcalf. eu jamais teria deixado que se aproximasse dele. naturalmente que sabia. Sabia que. policial que estava a serviço ali no posto deu um telefonema e imediatamente um pacote de cocaína foi encontrado dentro de sua bolsa. — Pelo amor de Deus. Conheço o homem melhor do que ela. tanto faz. Donald. não posso saber o que é melhor. Entrementes. ela não pode se expor a ser presa novamente. Francamente. Posso proporcionar-lhe tudo quanto precisa para recobrar-se de novo e continuar sua vida. Desejo saber o que você acha melhor. — A questão é — diz Garland: — o que vai acontecer quando Helen for solta? Naturalmente posso mantê-la muito bem aqui. E. quando ela deixou o hotel para relatar à polícia um plano feito alguns anos atrás. .

creio que sim. Fico satisfeito de ter podido. porém. — Então. preciso saber agora. fez tudo à sua maneira. exceto em seu próprio benefício. — Não devia ter feito — eu disse. — Isso é evidente. . . exatamente. Mas ela devia ter telegrafado para mim. é. . Ainda tivemos muita sorte de ela já não estar a ferros. — Preciso saber qual é. . Ele faz tudo por atacado. Não permitirei que nenhum de vocês dois a torture de novo. — Não. Nunca — diz Garland. Ela tem passado anos infernais. — A questão é a seguinte: ela volta para você ou fica comigo? Gostaria de que você me dissesse o que acha melhor. terei de falar com ela. não é? Isto é.— Naquela noite em que você veio jantar aqui. o que acontece. a situação de Helen. Entretanto. não. Jimmy. Quando vejo algo que me agrada. . — Não quero que mais nada de mal aconteça a Helen. de que o processo será arquivado. a meio caminho da Malásia. . . e a vida a tem maltratado pavorosamente. — Você tem certeza de que ela vai sair da prisão. — Ah. — Eu não telefonaria para dizer outra coisa senão a que estou dizendo. Ela. Nosso chefe de polícia não é o mais caridoso dos homens. Era uma criatura maravilhosa. e seu rival não é Albert Schweitzer. soube apenas há uma semana atrás. ele me compra doze". Helen é quem decide. com voz baixa. deslumbrante. meu caro. Ela sempre dizia a ele: "Mas. Teria ido esperá-la no aeroporto. — Mas você não pode. — Ela costumava dizer-me: "É tão difícil fazer compras com Jimmy. eu só posso usar esses objetos um de cada vez". Bem. Jimmy nunca compreendeu Mister Kepesh.

preparo uma omelete. A diferença é que. completando-a cuidadosamente. um copo de vinho e uma fatia de torrada com manteiga. obrigada pelo telefonema. com tanto gosto. Nenhuma mulher. Como é a frase de Mauriac? "Deleitar-se nos prazeres do leito não compartilhado. — Bem. David. Mas. resolvo botar o pijama e fazer na cama a minha leitura noturna. não vou me torturar. este apartamento confortável. nem sei qual é a minha situação. um livro para terminar. senão agradecer os telefonemas e pedir que a mantenha informada? E o que faz o marido de uma aventureira enquanto sua mulher está na prisão lá no Extremo Oriente? Bem. .Mas não lhe posso dizer qual é a situação de Helen. Depois ele terá notícias minhas. para acalmar os seus temores. Em primeiro lugar. não a torturarei. Será possível? Voltei para onde estava há seis anos atrás. tenho o meu emprego. Ele não quer que eu a torture. naquela noite em que abandonei a moça que viera à festa comigo. só para mim. a resposta não parece perturbar a mãe da aventureira. tomo um banho de chuveiro quente e demorado. Em seguida. o que é muito melhor. — Prometo.” . animada. na temperatura certa. juntamente com salsa picadinha. a mãe de Helen perguntou delicadamente: — E quando voltará? — Não sei. Entretanto. e creio ter.. — Espero que me mantenha sempre informada — disse. . O que mais poderá fazer a mãe de uma aventureira. Isso virá. docemente. agora. ainda não. Depois do banho. Primeiro. na hora do jantar. . como tudo o mais. em seu devido tempo. — Ele terá? Por quê? Com o mesmo tom em que ela responderia se eu lhe informasse que a filha tinha ido a uma reunião do grêmio da escola. preciso comunicar-me com a família de Helen. Muito bem. levando para minha casa a Helen de Hong Kong. digo. sozinho. decorado com tanto encanto.

nem a mim. No entanto. como me sinto bem. o tempo dá para pensar. Não mais a torturarei. não foi isso que me fez agir assim. ele não pode viver sem aquilo. o que estou fazendo aqui? Se ela não é o meu destino. meu destino. e pensar. . Coisa de criança! Matéria para cinema! Roteiro de filme! Contudo. resta apenas o amor. com um empréstimo de Arthur Schonbrunn. quer não. Pode ser que eu a queira de volta. . Meu Deus. foi um amor como jamais senti durante todo esse tempo. Amor! A esta hora tardia! •Amor! Depois de tudo que foi feito para destruí-lo! Mais amor e. Nem uma palavra de tudo isso me convence. que não possa passar sem ela. . quer o saiba. Duzentos e quarenta minutos disso. uma pessoa ser lançada diretamente do próprio tormento para a alegria total? O bom senso comum diz o contrário. são palavras que acho desprezíveis: palavras do tipo que Helen usa. compro uma passagem de ida e volta e vôo para a Ásia. . se essa mulher não é a minha mulher.. e que ela seja meu destino. (No banco. por que fiquei ao telefone das duas às cinco da manhã? É apenas o meu orgulho que não me permite abdicar em favor de seu protetor homossexual? Não. mais ou menos. minha mulher. que Helen pensa: eu não posso viver sem isso.) No avião. Nem tampouco estou agindo por responsabilidade. nunca mais. ou prazer de vingança. ou masoquismo. para pagar a passagem e iniciar uma nova vida. . ou por vergonha. meu homem. Então. estou aqui para dizer também que em raras ocasiões isso acontece dessa forma.Por algumas horas. um colega que havia sido orientador da minha tese. e pensar. no dia seguinte. Em sua maioria.. Tudo está bem comigo. de repente. descobri que todo o saldo da nossa conta corrente havia sido retirado por Helen na semana anterior. que ainda esteja apaixonado por ela. minha felicidade é completa. Será que já ouvi ou li sobre algo semelhante acontecer.

— Tenho que lhe dizer algo terrível. digo a Garland: — Pensei que. O que talvez faça de mim um idiota de outra espécie. doces. — Ele tem que fazer isso! — E ele vai. Os olhos.. Me bolinaram. Donald vai botar você fora daqui. E Helen cheira mal. tenho de saber. muito bem escanhoado. O som do virar da fechadura fez com que ela agarrasse desesperadamente a minha mão. — Ele não pode continuar com isso — ela diz. ele lhes disse o que tinham de fazer comigo. — Ele não vai. Mas isso terá de resolver-se mais tarde.. — Eles puseram a cocaína em mim. Não sou tão idiota assim. simplesmente não posso obrigar-me a amá-la ali no chão. um detetive da polícia de Hong Kong e um rapaz do consulado americano. no chão. Quando deixamos o aeroporto para tomar o automóvel.. cortês. . que ali veio também para esperar o avião. E eles fizeram. foi lembrando cada uma das palavras encantadoras. Nunca antes fiz amor com ela assim. Riram de mim. — Eu sei. E. bem. naquele avião. agora. não os posso olhar sem que minhas entranhas se convulsionem. e não é agora que vou fazê-lo dentro de uma prisão. Depois de me revistarem.O resto das horas que passei acordado. exceto eu. sedutoras que ela pronunciou. Você sairá muito cedo. ele está tratando disso. no carro. . — Hong Kong o jovem secretário consular me informa ironicamente — é o berço da barganha coletiva. de modo que você não precisa se inquietar. agora impecavelmente banqueiro e homem de negócios —. obtenho permissão para sentar-me com ela num minúsculo cubículo cuja porta foi dramaticamente fechada sobre nós. por tudo isso que eu sinto no ar. A polícia roubou-o. . Quando você sair . Seu rosto está todo marcado. — Todo mundo. diga-me a verdade. — As negociações — responde ele — parecem acarretar maiores interesses do que imaginávamos. os olhos. a esta hora. Todo o nosso dinheiro se foi. parece saber o preço. fui conduzido à cadeia para ver minha mulher. os lábios inchados. ela já estivesse solta. Helen. Acompanhando Garland — severo. Todos nós temos de saber.

nem a outra coisa. As palavras de Helen estão bastante turvadas pela bebida e o cansaço. se isso o fizesse mais feliz. vi que enganar uma esposa tão pouco querida pelas outras mulheres. — Mas. um tanto apática. ele. "É. na casa dele? Ele disse que olhará por você. de súbito. e no rosto das quais eu podia ter cuspido quando compreendi o quanto a satisfação delas provinha de colocar Helen Kepesh em seu lugar. você não tinha que ser um rapaz tão bom assim. . Eu aceitaria isso. Não me preocupo em responder nem a uma. você quer ficar com Donald. agora que tomou um banho. serena. Ela agora deseja reassumir o seu lugar no mundo. não iria ser possível sem que me humilhasse com isso. . como Helen o era. se eu lhe dissesse quais foram as suas rivais. diz. Helen bebe tanto que a aeromoça declara que não pode servir-lhe mais uma dose. a primeira em muitos e muitos dias. .. e o meu. sim. garanto que foi". pretende ter comigo uma conversa. estranhamente loquaz.daqui. sabe disso? Você podia ter tido seus casos. no avião. mas. Ou quase muito rapidamente. . Muito rapidamente. Não. "Aposto que você até me foi fiel". Nem eu poderia esperar muita compreensão se fosse lhe explicar quão insatisfatório havia sido enganá-la com mulheres que não me seduziam nem com a centésima parte da atração que tinha por ela — que não tinham a centésima parte de sua personalidade. Não tinha eu a facilidade de um Jimmy Metcalf para voltar friamente atrás e desfechar o grande golpe fatal em meu inimigo. não como uma pessoa vencida. a melancolia controversa. comeu. agora que o uísque de certo modo diminuiu os horrores do encarceramento e que ela se sente livre do pesadelo da vingança de Jimmy Metcalf. Ela apenas riria. sem falar de sua beleza —. não me deixe aqui. ela diz. Sobre as duas cópulas sem importância do ano passado não há nada a dizer. eu não posso! Não! Oh. o estilo dele era a vingança. . — É bom saber — digo. mudou de roupa e teve oportunidade de retocar o rosto. — Bem — diz —. por favor! Jimmy me matará! Na volta. mas como ela mesma..

angustiado para sempre. por toda parte. Nunca. Sabe de uma coisa. . Para a América do Sul. porque teria sido horrível demais. Ao invés disso. — Você não sabe por que eu saía de manhã com o vestido de que eu mais gostava. — Você ainda não sabe aonde eu costumava ir depois da minha aula de ginástica. eu não fiz. E minhas jóias. para a África. — Tenho minhas suposições. que não poderia sobreviver intato. .— Seria você. E depois perguntavam se eu queria partir com eles. Isso é verdade. — De qualquer jeito. — Eram erradas. não sei. . eu andei por aí angustiado. — Não. . Nós dois andamos por aí angustiados. tenho sido fiel a você. nunca. Então. teria me perdoado. Nunca. e nunca mais voltaria a ser você mesmo. . Um homem até me convidou a partir com ele numa viagem de negócios a Hong Kong. Você teria ficado aniquilado. Ficava ali sentada lendo o jornal até que alguém me perguntasse se eu queria beber alguma coisa na sala de primeira classe. voltava para casa e você começava a ficar em cima de mim a respeito dos canhotos dos talões de cheques. — Sempre. Conversávamos. David. E? — Sentava-me na sala de espera da Panam com o passaporte na bolsa. Eu ia e tomava a bebida. Teria saído por aí. enquanto estivesse com você. Eu não tinha nenhum amante. acredite ou não. Nunca aceitei. . Você não agüentaria. — Acredito nisso? Posso acreditar? E se eu devesse? Aonde me leva isso? Nada digo. — E eu aposto que alguém sempre perguntava. Aonde você ia toda bem-vestida? — Ia para o aeroporto. O único homem a quem fui fiel na minha vida. .

. . — diz. e a verdade de tudo isso é que eu sou melhor. . Pelo menos eu era assim. Oh. com você. para ver se você ainda tinha poder. embriagada. eu não teria nada a dizer! Helen. Se você pelo menos tivesse admitido isso há muitos anos. há muito tempo. — Muitas para quê? Para ver se ainda tinha poder? — Não. a quem ele ama! Deixou que eles tirassem minha bolsa e roubassem meu dinheiro! E como eu amava aquele homem! Só o deixei para impedir que cometesse um assassinato! E agora me detesta por ser decente demais. Helen.. — Oh. — Eu já disse a você para se acalmar. não. há maneiras menos cruéis. . No princípio. de pé. . . . e não sabe o que está falando. . — Fique calma. — Minhas palavras a põem sem fôlego.— Quantas vezes você fez isso? — Muitas vezes — responde. você. . Ela ficou lá. seu idiota. a alguns metros do vestíbulo. seu merda. isso era desnecessário. — Você vai se admirar — pergunta — se eu disser que acho que deveríamos ter tido aquela criança? — Eu não o teria arriscado. mais forte e mais corajosa do que vocês dois. — Ela começa a soluçar. Como se você se importasse muito com isso de ter um filho. estou ansiosa para ver a pombinha com quem você arriscaria. Você devia vê-la. agora. Ela parece uma baleia! Aquele belo homem vai para a cama com uma baleia. por que eu não deixei Jimmy matá-la quando ele queria fazê-lo! — ela grita. se é que ainda lhe resta algum. Em mim. — Ele mandou que botassem cocaína em mim. . — Você precisava vê-la. você está exausta. E eu era assim quando tinha apenas vinte anos! Você não se arriscaria a ter um filho comigo? E com alguém como você? Já lhe ocorreu que eu poderia ter tido um filho com outro homem? Não? Sim? Responda-me! Oh.. olhando fixamente para mim. e você me despreza por ser indecente. .

Oh! Por que perdi a coragem. e eu o amava! Oh. eu esperei. É só olhar os bastardos bem dentro de seus olhos que eles já estão ou a seus pés ou agarrando-lhe o pescoço. . Não se assuste. você bem sabe. . Certo. — Mas ele não ia. e dizer a você para voltar para sua casa. seu idiota.. eu sei que estou falando de um modo horrível e tenho consciência do meu olhar sarcástico. Desejo. por que eu vim naquele avião com você! Podia ter ficado com Donald! Ele tem tanta necessidade de alguém como eu. Por que razão eles são ou brutos ou meninos de coro. minha senhora? — Você ainda não descobriu. Quando. meu Deus. por que razão eles sempre têm de ser ou uns brutos ou uns meninos de coro de igreja? Aeromoça — diz ela. Não posso compreender como conseguiria passar os milhões de horas de vôo que ainda faltavam sem me agarrar a esses papéis de exame. procure um outro tirano para essa tarefa. agarrando o braço da moça que passava entre a fila de cadeiras. . A próxima vez em que você quiser livrar-se de um tirano. E isso foi muito bom. A única maneira de tirar você desse mundo é a mesma que pôs você dentro dele. — Eu não quero bebida.— Eu quis muito. Deus. .Oh. — Sem eles.. naquela prisão! Você a perdeu por causa de seu Jimmy. — e vejome estrangulando Helen com as tranças de seu cabelo. há duzentas horas atrás aproximadamente. É por isso que vocês têm que andar de um lado para o outro sorrindo constantemente sem motivo. A cabeça bamboleando no meu ombro. Esperei por você seis anos! Por que você não me levou para o seu mundo como um homem? — Talvez você queira dizer por que não a tirei do seu mundo. seu viciado! Oh. Tiro da minha pasta os exames finais e principio no ponto em que os deixei para embarcar. Jesus.. Sim. mas nunca ataco uma pessoa que está por baixo.. esperei. apenas.. em suas viagens de um a outro continente? Eles têm medo até de uma criaturinha doce como você. . trouxe comigo o meu trabalho escolar. . fazer-lhe uma pergunta. . Eu não podia. você sabe? — Quem. Seria uma loucura! Ele só fez aquilo pelo grande amor que me tem. Confesso-me derrotado. finalmente. esperei. Devia ter ficado na casa dele. que lhe caíam até a .. Você pensou que ele ia matá-la ao sair dali. Helen adormece. oh. já bebi bastante.

um aeroporto. Bem. a responsabilizar-me por tudo o que poderia ter feito e não fiz. ao invés de rir . "bom". . esta viagem é o próprio casamento. a caneta com que dou as notas. mais uma vez. mas.. a julgar pelo que me foi dado ver. atravessar quatro mil milhas do globo exótico. Da mesma forma Donald Garland e seu impiedoso chefe de polícia. Suponho que eu. em qualquer trecho de Browning? Oh. . como sou um homem que há muito tempo extraiu o pouco do tirano que já tive em mim — e. querida. como sou professor de literatura e não um policial. releio e. depois da palavra "necessária". Um megalomaníaco vingativo e alguns policiais desonestos! E uma falsa Cleópatra! Todas as nossas economias se foram com essa desprezível novela sensacional classe B! Oh. Como o Imperador Metcalf iria deleitar-se com o espetáculo. lendo cuidadosamente cada uma das páginas escritas por Kathie. a moça que sonhei adotar. é de Kathie Steiner. sem razão nenhuma! Esforçando-me para fixar a atenção mais uma vez na tarefa que preciso cumprir — e não sobre se Helen e eu deveríamos ter tido um filho. um posto policial. As instruções de Jimmy Metcalf à polícia são desta ordem: "Dêem-lhe pontapés na bunda. Eu e os meus "exames finais".. fico pensando. . que importa! "A busca da intimidade. E. como isso nos faz bem! Hong Kong! O diabo dessa coisa toda podia ter acontecido em Cincinnati! Um quarto de hotel.cintura. não porque forçosamente traga felicidade. e meus clipes. durante todo o tempo. escrevo à margem. e enchendo a margem conscienciosamente com perguntas e comentários. Para recomeçar. ao lado da frase inicial. também. recusando-me. "Milhas abaixo estão as praias da Polinésia. enquanto domino minha emoção. tenho de me rir um pouco. Isso não aconteceu com alguém. é um dos constantes temas de Tchékhov. por ser necessária. mas. ou sobre quem tem a culpa de não o termos. deslumbrante criatura. Em seguida. . chamando-lhe a atenção para sua dificuldade em usar os particípios.” A dissertação que escolhi para principiar. faço uma marca de intercalação e escrevo: "à sobrevivência (?)". vão fazer bem àquela puta". tudo o que fiz e não deveria ter feito — volto ao exame final de Kathie Steiner. talvez o tenha extraído até um pouco demais —. emendando a mínima incorreção de vírgulas.

depois. então. legal e ordenadamente. que nos está levando de volta à pátria.. Não há dúvida de que Frederick é sólido: um camarada cordial. choro mais ainda ao compreender que ainda não foi destruída a última coisa e que. com a minha aquiescência. termine o segundo ano da universidade com a composição de um soturno e belo lamento.de tudo isso. chego à frase final da dissertação de Kathie. "sofremos terríveis desilusões antes de ganharmos experiência e. continuasse a minha terapia com o Doutor Frederick Klinger. finalmente.. Choro por mim mesmo. sou arrancado dos percalços do meu divórcio por um oferecimento de emprego. Já comecei a freqüentar um psicanalista em San Francisco — logo depois de constituir advogado — e foi o primeiro que me recomendou que. de cara redonda. e nos são concedidos apenas fragmentos de felicidade para compensar o sofrimento. em Long Island. de certo modo tenho de fazer com que essa filha de Beverly Hills. que deixou Stanford para tornar-se titular do curso de literatura comparada da Universidade de Nova York. mas . "um homem sólido. a quem conhece e pode recomendar como uma pessoa que não tem medo de falar com seus clientes. roliça. senti necessidade de virar o rosto. a fim de completarmos. desde o desaparecimento de Helen. o desmembramento das nossas vidas destroçadas. fuma charutos durante todo o tempo das sessões. Mas será que o Professor Kepesh lhe ensinou isso? Como? Como? Estou começando a aprendê-lo neste vôo! "Nascemos inocentes". Não gosto muito do aroma. sensato". O controle que exerci sobre mim. sentindo-me uma criatura arrasada. a fim de iniciar as minhas aulas. incólume e ainda sem temores. tememos a morte. ao voltar para leste. apesar da minha absorvente obsessão com a infelicidade matrimonial e o desejo romântico de chamar meus jovens alunos para virem em meu auxílio. que sintetiza o que ela chama "a global filosofia de vida de Anton Tchékhov". Mas será de sensatez e bom senso que eu necessito? Alguns diriam que botei as coisas a perder exatamente por uma observância muito rígida desses atributos. "um profissional de bom senso". dissipou-se num instante e eu.” Finalmente. cheio de vida e que. pressionando-o contra a janela obscurecida da sussurrante aeronave. choro por Helen e. doce. por parte de Arthur Schonbrunn. a moça escreve.

Às vezes. fico sem jeito com quase tudo ao seu redor: o terno de listas brancas. publicações e institutos de pesquisa. membro dos conselhos administrativos das universidades. ao invés de vivê-la. o casaco Chesterfield puído. Será possível que esse lesto. fico um tanto contrafeito pelo verdadeiro deleite com que o doutor parece devorar as suas responsabilidades — para ser franco. Minha mãe não poderia fazer melhor. . uma moça cristã. Toda aquela atormentação em cima dela.permito-o porquê o fumo parece acentuar ainda mais a perspicácia com que Klinger acompanha meu desespero. de Helen. além de fonte de esperança para um número infinito de almas desesperadas. as duas pastas arrebentando dentro do porta-documentos. ela não é a Helena nascida de Leda e Zeus. trespassado. natural de Pasadena. não eram? — Escute aqui. e tendo menos cabelos grisalhos do que me têm aparecido ultimamente. você sabe. transpira a satisfação e segurança do homem de meia-idade bem-sucedido. ele fala dos meus sentimentos confusos. da lavanderia e da torrada. Não muito mais velho do que eu. a propósito do lixo. depreendo que é uma figura-chave nos meios psicanalíticos. as fotografias de crianças sorridentes e sadias na mesa abarrotada de livros. que. Kepesh. a raquete de tênis no porta-guarda-chuva — fico embaraçado com a sacola escolar jogada para baixo da enorme cadeira Eames já gasta. para meu desespero. parece-me que preferiria dormir agora toda a minha vida. da qual. e o laço frouxo da gravata. que se casou com uma femme fatale? — Mas foi apenas para desfatalizá-la. dinâmico conquistador possa compreender que há manhãs em que. Tendo falhado na minha qualidade de marido — tendo falhado em compreender como fazer de Helen uma esposa —. ele recebe durante a minha hora. Eram os mínimos detalhes. com o decorrer do tempo. tenho de lutar para não me deixar cair em pleno chão da sala de estar e ali ficar encolhido? Eu mesmo não compreendo a extensão desse mergulho. de classe média. charuto em punho. ao caminhar da minha cama para a escova de dentes. apertado sobre o estômago já um pouco saliente. tirar-lhe o veneno. Pelos telefonemas. Ela é deste mundo. Como é que consegui ficar nessa situação terrível quanto à sensualidade? — Você — pergunta ele —.

bastante bonita para conseguir uma viagem gratuita para Ancara todos os anos. Estou dizendo que eram criaturas especiais. mas não passa disso no que se refere a realizações extraordinárias. — Naturalmente que tinha. Acredito que era. Não. — O telefone toca. Sim. ele viu o marido. ofertas de homens ricos e casados. não levando em conta a quantidade de jóias que possa ter acumulado no decurso de todos esses anos. nem aqui nem lá. extremamente cheias de curiosidade. Mas o que as torna especiais é justamente o fato de não serem vulgares. pelo menos para mim. E liberdade. — Eu também tive medo de Birgitta. pode continuar. você me disse que a única coisa que aprendeu em seus seis anos com Helen foi como enrolar um cigarro de maconha. não parece disposto a cooperar. sim. Mas não passe daí. Compreendo. acho que a única coisa que vocês dois fizeram totalmente sem caráter foi terem-se casado. está fingindo que não presta atenção. sim. Até logo. casando-se com uma dessas "criaturas especiais"? Passar os dias e as noites acariciando seus seios perfeitos? Associar-se à sua fuga pelo ópio? Outro dia. E depois. E telefone-me se continuar chorando. E torrada fria é torrada fria. — Meu Deus. Penso que dizer isso é o que se chama cortejar o analista. continua: — Claro que tinha medo. — O senhor compreende? Às vezes penso que preferiria classificá-las como pessoas vulgares. não podia confiar nela. ou eu não estou me expressando claramente. Não eram moças comuns.. — O trabalho é só uma questão de hábito — .. não. — Eu tinha medo dela. me telefone. Não. não. — Concordo. Ah. Sim. mas o que pensava em fazer. — O telefone toca. Não. com predileção por mulheres jovens. ou o senhor não quer me compreender.Califórnia. é possível que ele não possa estar no hospital antes do meio-dia. estou em sessão agora. Eram ambas excepcionais. Naturalmente que ele compreende. — Ela não era desonesta. Que valor poderia isso ter se vocês não tinham nada a ver um com o outro? Pelo jeito. o que é que há? Sim. isso é lamentável. Estava apenas fazendo um jogo consigo mesma. Não. audácia. nem uma nem outra. voltando-se para o cliente que também não está muito disposto a cooperar. Aprendi muito com ela. e ela me era fiel. aumente a dose para quatro vezes ao dia. Você tinha seu trabalho para fazer. De qualquer forma. quem não teria? — Olhe aqui. — Eu não confiava nela. — O fato permanece. Muito bem. — Concordo — continua —. É verdade.

. — Ah. Nem eu tampouco. aos vinte e poucos anos. — Talvez — sugiro desanimado — ler livros seja o ópio do intelectual. — Sim. Como está Madri? O quê? Bem. . . Helen e eu estávamos nus. — Certa vez. acendendo outro charuto. era se assim me posso expressar uma espécie de prodígio em matéria de sexo. — Klinger ri estrepitosamente. quando a encontrei pela primeira vez.digo. — Helen disse que fora Deus quem o mandara. . Respondemos negativamente. — com licença — diz. e ele nos deu um exemplar de um jornal para nudistas. tomando banho de sol numa praia em Oregon. distinguimos um camarada que nos observava de um matagal não muito distante. Ao voltar. tão estreito e equivocado me parece o senso comum no qual quer me enquadrar. eu realizava o que os mais exaltados masturbadores sonhavam realizar. . Estávamos de férias. pois já fazia seguramente noventa minutos que eu não lia nada. principalmente considerando a época reprimida de então. Mais audacioso do que a maioria dos rapazes. . Alô. — o senhor não imagina o que eu era. sem deixar de mostrar minha irritação por sua obstinada "desmistificação". que esteve prestes a destruí-lo com suas afirmações e insinuações. continue. . com seus trinta e tantos anos? Nem me dou ao trabalho de responder. Corremos para nos cobrir. mas assim mesmo ele veio ao nosso encontro e perguntou se éramos nudistas. — E quer continuar a sê-lo. quando comecei a viver por mim mesmo. — Novamente Klinger ri com gosto. é ele. Sim. Depois de algum tempo. posso ouvi-la muito bem. Mas era um rapaz destemido. O senhor não sabe como é que eu era. — Por que permitir que Helen — continua Klinger —. Na realidade. é? Está pensando em tornar-se uma flor de estufa? — diz ele. para o caso de querermos fazer uma assinatura. Não era para ficar tão por baixo. que se desfigurou tanto no esforço frenético de ser a grande sacerdotisa de Eros. e percorríamos de carro os locais ao norte. Sim. por que permitir que o julgamento dela ainda tenha poder sobre você? Quanto tempo ainda pretende aceitar a censura dela sobre os pontos em que se sente mais fraco? Quanto tempo pretende continuar a se sentir fraco perante essa loucura total? Qual era essa tal pesquisa "audaciosa" dela? — O telefone toca. Imaginar-me desse jeito. — Olhe digo. nem pode.

O que me passa pela cabeça. Ainda não sei quais são as suas alternativas. Isso. é que decididamente não voltarei para Birgitta. — Doutor Klinger. pelo menos deu. Kepesh. não é? E pelo que depreendo. quer mandar tudo às favas. ensinando-a até. Volte ao quarto e diga-lhe. Mas. Diga apenas isso. depois procure ter um pouco de coragem. Quer mudar-se para os mares do sul e ensinar as obras-primas da literatura às moças de sarongue na Universidade do Taiti? O senhor pretende ainda fazer outra incursão por um harém? Ser um destemido prodígio e brincar de Jack e Jill com a sua afoita sueca pelos bares proletários de Paris? Quer levar uma martelada na cabeça outra vez. — Muito obrigado pela lição de literatura. saiba disso. Muito bem. você sabe muito bem que pode. eu lhe garanto que estou muito imbuído da influência de Tchékhov para suspeitar disso. como você mesmo acaba de dizer. nesse caminho. Não. por outro lado — digo —.naturalmente ele desconfia. também. e continuará a dar. está realmente deprimido pelo que aconteceu com ela. Compreendo. Divirta-se. pelo que parece pensar ter feito a ela. o que é que você esperava? Diga-lhe apenas que está se portando estupidamente. e eu não posso ir para diante. quando muito. No momento presente. naturalmente você não pretende brigar. O que era essa busca por parte dela — diz ele — senão uma evasão. — Por favor. não . eu lhe garanto. ou está apenas tentando provar que é um homem de sentimentos e de consciência? Se for isso. mas de modo que esse segundo golpe não erre o alvo? — Caricaturar o que falo não me ajuda em nada. uma fuga infantil dos projetos reais e atingíveis da vida? — Então. Isto é ir para diante. O que é isso. tem suficientes predicados para isso. Diga-me uma coisa. Saia e divirta-se. Adeus. se me permite como Tchékhov também teve o bom senso de escrever. talvez "os projetos" sejam. e tendo-o também praticado. Em O duelo e outras histórias eu soube tudo o que havia para se saber a respeito dos que se entregam à idéia errônea do prazer sexual. seja de qualquer forma um embuste. e depois esqueça. Também li e estudei a grande ciência ocidental sobre o assunto. você gosta de ler e escrever coisas sobre livros. mas gosta de lecionar. lhe dá enorme satisfação. — Talvez for para diante. agora. uma evasão da busca. nos assuntos psicológicos: "Deus nos preserve de fazer generalizações". Você pode enfrentá-lo. Boa sorte.

me vejo impotente. tudo o que ele possa dizer. deste." Contudo. e. receitou-me antidepressivos que me tiram da cama pela manhã. é? Preferia ser cafetão a professor adjunto? — É uma maneira de dizer. Porque esta Helen estava fadada. a passar uma noite na prisão. ele creia ou não.. Matei-a. a carne de Helen não é há única que pouco a pouco se vai vingando ou se penitenciando..exagere. mas me deixam o resto do dia com uma vaga sensação de enclausuramento sobrenatural. Ouço falar de extensas erupções de pele naqueles dedos delicados "Você gosta deste?. meu querido. de vastas extensões intransponíveis entre mim e a multidão. foi assim que ela chegou até você. você sabe tão bem quanto eu.. você gosta dele!" e também nos seus polpudos e belos lábios. mesmo para um passatempo tão pouco ambicioso como a masturbação. — Ah.. ou a deixasse viver. mais saudável da sociedade. Não comendo quase nada. na esperança de salvar-se do xadrez e de outras humilhações inevitáveis. nada disso. caçoe. pela segunda vez em minha vida. — Então. por mais que me atormente. E isso. — Existe qualquer coisa em mim contra a qual me rebelei — disse num acesso de desesperança antes mesmo que a houvesse compreendido. cedo ou tarde.. a pedido meu. ou se retirando da luta. E por quê? Por que razão era necessário um assassinato? . — Eu devia ter ido até o fim. Destinada há isso muito antes de conhecê-lo. Sei que ela contraiu uma rinite que não cede a nenhum medicamento e que a obriga a viver constantemente limpando o nariz — aquelas narinas aflautadas e frementes. "O que você primeiro vê num rosto? Os olhos ou a boca? Eu gostaria que você tivesse primeiro percebido a minha boca. Entretanto. oh. que pareciam querer absorver o ar. ou perdendo a coragem. tornando-me cafetão de Birgitta. cheguei a um peso de esqueleto. desde o divórcio.. praticamente da noite para o dia. Tornar-me-ia um membro mais feliz.. ou induzir-me a colocar o casamento e o divórcio em segundo plano. . consegue evitar meu sentimento de culpa quando sei dos contratempos que estão transformando a antiga princesa oriental numa amarga megera. — Jamais devia ter voltado da Europa digo a Klinger que. Ao que me parece. Outro qualquer poderia ensinar as obras-primas da desilusão e da renúncia. ao terminar de fazer amor. ou até procure diminuir os fatos. diga-o de sua própria maneira. Estrangulei-a até morrer.

entre um telefonema e outro. na vigésima ou trigésima semana de nossos debates. Aqui. Volto a imaginação até Louis Jelinek. olhe para mim agora. até mesmo Herbie Bratasky. Peço-lhe desculpas por ter mencionado o nome de duas obras de arte. — E também — digo — sobre os autores de Macbeth e Crime e castigo. falo de tudo quanto eles representam para mim. continuo a ver como um "assassinato". — Doutor Klinger.. E. — A delinqüência moral — observa — exerce certa fascinação sobre você. — Começo a ter a impressão de que é um tanto contra os regulamentos da casa estar valendo-me das minhas reservas literárias nessas nossas escaramuças. a incerteza. no meu estado de fraqueza e desespero. Veja Helen. — Estou olhando. agora. brigando. inteligente. afinal. — Tipos totalmente inofensivos provavelmente levam uma vida um tanto restrita. — A minha intenção era apenas chamar a atenção de que não se trata de tipos totalmente inofensivos. eu não posso manter uma ereção. Preso a ninguém e a nada. tento descrever e contar a história disso que. o telefone tocou.Nas semanas subseqüentes. disputando. e de bom senso. doutor. flutuando. e de como cada um era tratado. de que forma cada um me excitava e me inquietava. Não posso sustentar um sorriso. e com o doutor inexorável. o isolamento e todas as coisas desagradáveis que porventura acompanhem a "independência" dessa espécie. Já estou habituado. e desconfio que ela esteja muito pior. ouço toda sorte de coisas. — Por favor. mas o único ponto que estou tentando salientar é que já há muito tempo a "delinqüência moral" tem estado na mente de pessoas sérias. — Está bem. debatendo. às vezes assustadoramente submergindo. por que "delinqüente"? Não poderia ser "espíritos independentes"? Não seria menos exato. — Sua galeria de patifes — é como Klinger os classificou um dia. não devemos subestimar o sofrimento. por causa disso. — Naquele instante. Olho. argumentando mais uma vez sobre o assunto que foi a origem de tanta amargura matrimonial — só quando . Você pelo menos não arriscou tudo numa só jogada. o senhor não acha? — Por outro lado. à minha moda. flutuando sem rumo.

todos nós costumávamos ficar na West End Avenue com o irmão mais moço de meu pai. ao que minha mãe sempre responde: — Um verão inteiro com ele não basta? Será que temos de ir ao Brooklyn em viagem especial? — Belle. Sempre que chega o inverno. uma vez no alto de nossa montanha. meus pais vêm à Nova York para passar três ou quatro dias. como se quisesse mostrar que o mínimo que eu merecia era uns bons cascudos.fico indolente é que defendo Helen. me obriga a ficar de cama pelo menos dois ou três dias. o "Rei dos Arenques" e o "Rei dos Pijamas" tudo sobre essas visitas a Nova York encerra para mim uma emoção secreta e. e sua mulher. Larry. com grande espanto e deleite de minha parte. Até a idade de catorze anos. Em tempos idos. por mencionar o "Rei do Peido" a minha mãe. minha tia preferida. tomar chocolate aos pequenos goles entre as espessas fazendas para estofados e a imponente mobília das lojas dos atacadistas em fazendas e roupas para homens ou dos negociantes de produtos agrícolas. aos amigos e aos hóspedes prediletos. ao faltar apenas segundos para partirmos. devido à” superexcitação". ainda por cima —. em visita à família. para recuperar-me. Sylvia. e que são denominados por meu pai o "Rei das Maçãs". na viagem de volta a casa. dormiam todos no mesmo quarto de minha prima Lorraine. sacode o punho em minha direção. a rainha da'torta e. Dormir ao lado da cama onde está uma menina em carne e osso — uma menina "que está ficando mocinha". — Não visitamos Herbie — digo mal—humorado. que vai jantar no Moskowitz e no Lupowitz (comida considerada por meu pai quase tão boa quanto a do Hungarian Royale). os quais eu conhecera vestidos só com suas volumosas camisas de mangas curtas e em roupas de banho escorridas. um próspero fornecedor de provisões kosber. mas. . sorrateiramente. enquanto ele se retesa na cadeira para tomar meu partido. esperar em temperatura geladíssima para ver os Rokettes. invariavelmente. na infância. ataca-me uma "séria inflamação de garganta" que. ele quer é apoquentar você — diz meu pai.

— É assim que eles chamam isso no teatro? Como é que você é. meia dúzia de perucas. por intermédio de anúncio no Times. que as gracinhas continuam. . subloquei-os mobiliados de um jovem ator que foi tentar a sorte em Hollywood. o telefone toca à noite e um homem me pergunta: — Onde está Mark? Está na Califórnia. . Wally. está bem. Fico parecido com a irmã da minha mãe. dou vazão à minha curiosidade e experimento duas. deixe dessas coisas. mas a voz. que se tornou áspera e agitada. — Mas ele não está aqui. — Ah. Olhe aqui. que liga o apartamento ao vestíbulo da entrada. você pode encontrá-lo lá. sim? — O que é que você quer que eu deixe. — Queria dizer a seu amiguinho. e então veremos se eu posso encontrar você. . . belezinha? Você também tem olhos azuis muito grandes? — Os telefonemas continuaram. deixe-me em paz. e eu mandei mudar o número do telefone. Logo que vim morar no apartamento. — Ah. em Long Island. Diga-lhe apenas que Wally está aqui na cidade. mas. As paredes do quarto de dormir são adamascadas de vermelho. Os dois quartos da West Seventy-Fifth Street não me pertencem realmente. ah. queridinho? O que você quer que eu tire? — E as graças continuam nesse tom. — Então. quem é você? — Inquilino dele. interrompe. — Principio a repetir o endereço. Vai ficar dois anos lá. Esta é boa. Ele partiu. benzinho? Venha até a entrada.Agora. mas então é pelo interfone. Na noite em que as encontro. Vá embora. na visita anual do inverno. que estou novamente de volta ao leste e que meus tios vivem em Cedarhurst. — Você também gosta do material forte? — Oh. nas caixas que descubro no fundo do armário de parede. . — Mark está na Califórnia. respondo por telefone a uma carta de meu pai e os convido para ficarem em meu apartamento. ao invés de num hotel. Como é que você se chama. enfileiram-se perfumes na prateleira do banheiro e. Eu tenho o endereço dele lá.

com medo de que um dos meus vizinhos ou. não iria gritar diante do espelho. Não o faço não porque ache que isso não teria sentido. — Você está cansada. outra lá. . o Persistente Wally. o que é pior. — David. mas. Naturalmente. Escreveria ou telefonaria. — Meu pai diz: E se ele deixasse para ler depois de você tirar o casaco e sentar-se? — Estou me sentindo muito bem. . há lugar de sobra — digo despreocupadamente. grito: "Quero alguém! quero alguém! quero alguém!" Às vezes. grito. quando principio a falar comigo mesmo e com as pessoas ausentes. E são meus pais que chegam.Nas noites em que me sinto a mais solitária das criaturas. Levo as malas deles para cima. . você tem bastante lugar no seu congelador? Eu não sabia o tamanho do seu congelador. minha mãe tira um envelope da bolsa — DAVID — datilografado exatamente no centro e sublinhado em vermelho. detalhes sobre o tempero. com sopa de repolho. será o carro da polícia de Bellevue. e é tudo? — exclama. kugeu e flanken. livre da ânsia de ter alguém junto de mim. na esperança de chegar a uma crise de choro que me deixe fraco e. sopa de pedaços de matzo. — Leia — diz ela e veja se tem alguma pergunta a fazer. Vou ao banheiro. quem é essa pessoa? Se eu soubesse. pelo menos por algum tempo. Se não for o meu admirador homossexual. quando ela abre a geladeira. fecho a porta e. "Eu quero alguém". tenho às vezes ímpetos de pedir socorro pelo interfone. Mas. . enquanto meu pai agarra o isopor dentro do qual estão arrumados meia dúzia de recipientes redondos e de plástico. por alguns minutos. — Mamãe. . . geme como se lhe tivessem retalhado a garganta. não estou assim tão doido para acreditar que gritando bem alto dentro do banheiro fechado vou fazer aparecer quem desejo que apareça. O envelope contém instruções destinadas a mim. Tempo necessário para degelar e aquecer cada um dos pratos. Chegando ao apartamento. Meu medo é da espécie de ajuda que vou receber. Além disso. ao contrário. consigo continuar gritando assim sem parar. — Uma coisa aqui. tudo gelado e cuidadosamente rotulado. datilografadas no papel do hotel. . inclinando-me para ver no espelho meu rosto desfigurado. não esteja na entrada justamente no momento em que meu grito se fizesse ouvir.

— E seu pai me disse que eu estava trabalhando demais. Se quiser outros títulos nos procure http://groups.— Olhe o limão. Cada um protegendo o outro da horrível verdade.. Meus pais como duas crianças corajosas e indefesas. — O que é que você tem. com um ar muito sério. então. . se espalhou pelo corpo todo. e disse que ela está morrendo de um câncer que.google.. partindo do pâncreas. foi caminhando comigo. parece mais velho do que eu. é a explicação do teor de sua carta: "Se nós pudéssemos ficar com você por esta vez. . — Você é quem deve cuidar-se — responde meu pai. É o resultado de todo o dinheiro jogado fora com doutores e exames." E também explica o desejo de visitar lugares que ela não vê há muitos anos? Chego a acreditar que talvez ela saiba o que está acontecendo e que essa demonstração de exuberância é para poupar a ele saber o que ela sabe. justamente no ponto onde Larry e Sylvia costumavam receber—nos na West End Avenue. E eu. . será um prazer recebê-lo em nosso grupo. . — Eu sabia que ele não estava se cuidando — geme ela. o que posso fazer? 1 1 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras. . Como é que você come? — Quase sempre fora. até que meu pai. Isso. a fim de comprar o jornal e coisas para o café.com/group/Viciados_em_Livros. Sinto uma dorzinha quando faço tricô por muito tempo. nem eu. — Você tem estado cansada — responde ele —. — O que é que está acontecendo? — pergunto. mamãe? — Eu tive uma pleurisia e seu pai está fazendo um drama. saindo em minha companhia. estava trabalhando demais. Ela não sabe.

. ela me diz novamente: — Você pode levar-nos a Greenwich Village? Pode levar-nos ao Metropolitan Museum of Art? Quando eu trabalhava para o Doutor Clark. em lágrimas. uma das moças costumava comer o mais delicioso talharim verde. com uma total inocência.. num restaurante italiano de Greenwich Village. finalmente. porque sou professor. como o Doutor Clark gostava do Metropolitan Museum! Todos os sábados. para ver se ainda existe um Tony's que serve talharim verde. — Oh. ao Jardim Zoológico. alguns dos quais não vejo há mais de quinze anos. . me fazem perguntas sérias sobre a situação mundial. articular. ao voltarmos ao apartamento. David. para visitar os seus amigos mais antigos e mais queridos. como sempre. ele os levava lá para ver as pinturas. virando-se para o meu lado.— Mas. E se estivesse — ela diz. Acho que não era Tony's. ela rememora o tempo em que trabalhou na firma. morrendo. para ver os famosos Rembrandts no Metropolitan. Abe? — Honeybunch — meu pai diz a voz já com uns laivos de amargura. finalmente. e depois. — Nem deve mais estar lá. — Isso é o pior de tudo — pode. Quando? — pergunto-lhe quando os dois voltamos ao apartamento. Eu os acompanho por toda a parte. Gostaria de me lembrar do nome. — Cinco semanas. será que era. . depois de tanto tempo. Vamos. Depois de almoçar no Bairro Chinês. quando os filhos já estavam maiores. por uma tarde gélida de sábado. Cada médico me diz uma coisa diferente! E. . Cinco minutos. ele não consegue responder. ao Planetário e. cinco anos.. Fico pensando como teria sido diferente . a uma peregrinação ao edifício onde ela foi secretária de um escritório de advocacia. vemo-nos na esquina das ruas Broad e Wall. e. Por muito tempo. mas que me beijam e abraçam como se eu ainda fosse criança. — Podemos ver. muito excitada. cinco meses. como antigamente.

quem haveria de surgir senão Elisabeth com o medalhão no pescoço e o braço partido já curado? Com que doçura. Minha mãe vai desaparecer. que muito breve se extinguira. vivendo mais de acordo com os seus gostos simples de asseio e de ordem. Sem os intermináveis trabalhos na direção de um hotel familiar de férias. de fornecer um ao outro o inimigo ideal. Nós nunca teríamos existido. com que hospitalidade ela receberia o meu pai viúvo! Quanto tempo ele poderá sobreviver sozinho? Oh. apenas um limão por companhia? À medida que se vão passando os minutos em claro ou por outra. Se ao menos o quê? Ela está com câncer. começo a . com que repugnância e remorso me lembram da série de erros — de erros. .. enquanto fico acordado. ao invés de ser dominada por eles. Eles dormem na cama de casal. numa extremidade da vida. Se ao menos. eu vou acabar com esta inútil.. na outra. ela jamais teria conhecido meu pai e eu.. Por outro lado. ela poderia ter tido mais calma. Ao invés de sermos inimigos. E a última lembrança que vai levar de seu único filho vai ser a sua existência estéril.. por que. . procura infundir-me uma nova resolução.. debaixo dos lençóis. por que Helen e eu não despendemos todo esse esforço em nos oferecer mutuamente uma vida sólida e dedicada? Será que agir assim era difícil demais para duas pessoas tão voluntariosas? Dever-me-ia ter dito logo no princípio: "Olhe aqui. Sua última lembrança será a daquele limão que encontrou na geladeira e que permanece comigo! Oh. ouvindo a respiração de minha mãe. A fim de livrar-me dessa insípida escravidão. se ao menos. enquanto absolutamente não passam — todos os pensamentos que podem atormentar-me parece fundirem-se numa inidentificável e absurda palavra que não me larga. .se ela continuasse toda a vida a ser uma das moças que trabalham para o Doutor Clark. nós vamos ter um filho"? Deitado ali. não. Eu preciso.. É isso que vai acontecer. despropositada. de um único e constante erro — que fez desses dois quartos o meu lar. desarraigada. precisam estar Helen e Birgitta e. uma dessas virgens solteironas que adoram o chefe paternal e tomam conta de seus filhos durante as férias. Nos meus pensamentos. . no sofá da sala de estar.

Todos os meus pensamentos são ou simples ou doidos e. nós dois nos arremessando contra enormes blocos de lajes. para além de Lake Placid? Lembram-se daquele quartinho minúsculo? Isso foi em 1940 ou 1941? E. abaixo do nome. Sinto como se estivesse meio acordado. tendo em vista a timidez inicial. E o sofrimento da minha própria vida. Mamãe achava que. Não foi na cabine de turistas. ensaio como o farei. durante as férias da Páscoa. Desejo ir ao quarto deles e deitar-me na cama. tentarei lembrar-lhes como vai longe o dia em que. seria bom que eu conhecesse as Mil Ilhas e as cataratas do Niágara. que puxam até o queixo. lado a lado nos travesseiros novos. Outra vez imerso nas agonias da claustrofobia da sala de operação. nós três nos aconchegamos sob um único cobertor. até que a palavra se reduz a nada mais que uma fileira de teclas. com raiva. Olhando para aquelas fisionomias queridas. Foi para lá que seguimos no Dodge. Fico pensando se será possível que eu consiga dormir um dia. é muito pior do que antes. Em pensamento. . nas quais minha mãe me ensinou a pousar a ponta dos dedos. A fim de deixá-los à vontade. falarei com eles dos melhores momentos do nosso passado. simplesmente me sentarei primeiro no beirado da cama e. agora. vejo-me discutindo com meu pai a respeito do epitáfio de minha mãe. lidas da esquerda para a direita. pela última vez. que vi pela última vez com a idade de doze anos — após uma operação de apendicite —.debater-me. Lembra-se de que você nos contava que o Doutor Clark levava seus dois meninos para conhecer a Europa? . se não me engano. após certo tempo. enquanto insisto com o mestre de cantaria para gravar as letras ASDFGHJKL no seu túmulo. Mas. Afinal de contas. não distingo uma coisa da outra. que sei o sentido desse banal amontoado de letras. de um lado para o outro do sofá. para os dois rostos que me espreitam por debaixo do lençol. . e que mantém no âmago de suas sílabas inexprimíveis toda a dor de suas baldadas energias e de sua vida frenética. Não consigo dormir. meio adormecido. calmamente. De súbito. papai pagou um dólar pela noite. é como se fosse uma palavra. numa anestesia profunda. quando aprendi datilografia com ela na Remington Silenciosa do hotel.

de roupão. eu me metia entre os dois. Resolvo falar no interfone mais uma vez. Antes da guerra e. Por que você não me deixa subir? Não sou meio mal. Algum conhecido seu? A estas horas? — Deve ser algum palhaço — digo. e que me importa o que ele. — Chame. mamãe. garotão. Meu pai. empalideceu. Nada do que eu estou fazendo é motivo para ação judicial. — Quem é? — minha mãe pergunta do quarto. depois. queridinho. lembram-se de mim e de vocês dois. pergunto: — Quem é? — É o bombeiro. vá dormir. no pequeno Dodge. pense disso? Já era quase meia-noite quando a campainha da porta tocou. Sou totalmente mau. antes de ela morrer. enquanto eles sorriam. de volta. nós vamos ficar juntos por uma última noite. Não é nada. exceto Klinger. — Ele conhece você? . — Acabe com isso. enquanto a campainha torna a tocar desta vez ao som de uma música caricata. E. E a goteira. — Papai — digo —. ou vou chamar a polícia. ou quem quer que seja. que já estava com o ouvido junto ao meu ombro. . — Não é nada. vá dormir. Na kitchenette. .Lembra-se de todas essas coisas que você me contava e que eu nunca ouvira antes? Meu Deus. ainda não mandou consertar? Não respondo. pelo interfone. Essas coisas acontecem em Nova York. na cama. Meu pai apareceu na sala. Ninguém vai saber. até de manhã.

— Não. Vou com você. ou qualquer outra coisa? — Não. . digo: — Porque o camarada de quem subloco este apartamento é homossexual. . — Jesus — retruca meu pai —. baixinho. . — Sozinho? — Não há perigo. um bastão. E pelo que me parece. — A esta hora? — exclama ela. — Papai. . Vamos lá embaixo para consertá-la. minha mãe pergunta: — O que há. — Esse camarada é judeu? — O camarada de quem aluguei o apartamento? É. . — Você tem uma bengala. que diabo há com um sujeito como ele? — Creio que tenho de ir lá embaixo. . como é que ele sabe vir aqui? Por que fala desse jeito? Uma pausa. — Voltamos já — meu pai responde. este é amigo dele. a campainha prendeu. Do quarto. — E. Já irritadíssimo. e a campainha continua a tocar. — Não seja doido. não. — Fique na cama. não é necessário. . Dois é melhor. dirige-se a mim. — Então. agora? — Nada — diz meu pai —.

— É que você saiu de casa. bem baixinho —. — Diga. Nunca falei com você sobre este assunto. não estou sofrendo "influência" de ninguém. . . Fechando a porta que dá para o quarto de dormir. a campainha parou de tocar. — ele pigarreia — com algo que queira me contar. sem dúvida. Entretanto. que a campainha recomece a tocar. — Não seja tolo. — Desejo fazer-lhe uma pergunta. . quando tinha dezessete anos e. a qualquer momento. Até hoje. sua mãe não a tratou sempre com respeito? — Sempre. Sempre a tratei como minha nora. — Foi embora — eu falo. e não é agora que vou começar. eu votei em Norman . . em 1924. . — Preferi não falar. Meu pai escuta. ela não pode queixar-se de nada contra nós. pelo menos? Entrementes. espero. — Não é a respeito de Helen. . por meu lado. E na política ainda mais. Encostado rigidamente no travesseiro. Durma. Sou uma pessoa liberal. penso que agimos otimamente. Você sabe que. . — Papai. Davey. está tudo bem. também absolutamente não relaxei. enquanto se prepara para falar. Eu. — E vem sentar-se em frente ao sofá. — Talvez tenha ido embora — digo. Não queria que ela ficasse nos querendo mal. Não é verdade? Não a tratei. meu pai absolutamente não se dispõe a voltar ao quarto para dormir. Percebo sua respiração opressa. — Saiu. agora mesmo. não interferimos em quaisquer influências em que tenha se envolvido. À vista das circunstâncias. — Você não está metido.— E se ele estiver armado? Você tem um guarda-chuva. meu filho. . — Psiu — dirige-se à minha mãe. desde então.

Mas isso não quer dizer que pudesse suportar outros fatos sobre sua pessoa e sobre suas atitudes. E por que têm de querer? Acredito na possibilidade de todas as raças e religiões viverem juntas e em harmonia. — Eu também não. Pela parte que me toca. — O que é que você quer perguntar? — David. Você sabe — e se não sabe. votei em Henry Wallace. mas a questão é que. um vidro cheio? — É um antidepressivo. A verdade é que. descrença. melhor. e o fato de você ter se casado com uma cristã nunca nos preocupou. provavelmente. . . Tofranil. o que ele não era. se deseja saber. e elas não vão se afastar só porque os pais. — Verdade? Então por que não caiu fora. nem a mim. . que são judeus. Eu devo tê-lo ouvido emitir aquele som pela primeira vez cem anos atrás. você tem razão. desprezo. nunca me preocupei pelo fato de ela não ser judia. deixando o sótão onde dormia o criado impregnado de mau cheiro. . nos três anos que você esteve casado. gostariam de uma moça também judia. com os diabos com essa história. devia saber. eu tenha sido o único dono de hotel em todo o país a votar em alguém que era por todos considerado comunista. e foi a primeira vez que votei? E. o que é Tofrinal. para início de conversa. eu nunca dormi tranqüilo. O que talvez não tivesse sentido e fosse um erro. por que se meteu naquela trapalhada? — Você quer que eu entre nesse assunto.Thomas para governador de Nova York. jamais. não é? — Não. que eu vi na caixa dos remédios. nem à sua mãe. . quanto menos ouvir o nome dela. de repugnância. Eu me importo é com você. quando se viu compelido a despedir um garçom que havia molhado a cama. Isso é um acidente na vida. sem hesitações? E. Creio que nos portamos muito bem nesse particular. Mas o que pretendo dizer é que jamais tive mentalidade estreita. não. frustração. em 194. Deu um assobio.

não — digo. — A cabeça de quem você vai arrebentar? . papai. . — Esqueça. Para compreender as coisas. meu filho. — Isso é que tive que ser toda a minha vida! Sem psiquiatras. Para ter com quem conversar. — Para não afundar de vez. . — E por que não uma esposa com quem conversar? É o papel da esposa! Quero dizer. e assim ele vai embora para sempre! A essa altura. abre-se a porta do quarto e minha mãe aparece. . — Você faz análise? — Faço. — Papai. . abaixando a voz. ele acabará indo embora. — Há tudo para eu me preocupar. .— E por que você precisa disso? Quem lhe disse para tomar semelhante coisa e metê-la no seu sangue? — Um psicanalista. com a outra mão. o punho cerrado. . Deixe tocar. mais uma vez. . — Não. uma mulher de verdade e não alguém que lhe deve ter custado um salário inteiro da universidade só para pagar os salões de beleza. Ele cobre os olhos com a mão e começa a chorar baixinho. desta vez. . . Tudo isso está muito errado. e gente que aparece a qualquer hora. — Por quê? — gritou. Gente que nem é gente. e tomando drogas muito fortes. há apenas mamãe para. Isso não é maneira de viver! Um psicanalista. — Não há nada que deva preocupá-lo. sem pílulas! Sou um homem que nunca se deu por vencido! E. . Confidencialmente. — Para depois voltar? Racho-lhe a cabeça pelo meio. a campainha lá embaixo. estendida em minha direção. vestida no seu roupão.

— Você sabe o que ia fazer esse filho da puta parar de uma vez por todas? — diz meu pai. Não se precisa de polícia para coisas como essas. seus olhos lacrimejantes. dois rápidos. ele já foi. Me pega na mão e a aperta. quantas vezes isso acontece? — Não muitas.— De uma bruxa nojenta e malcheirosa que não o quer deixar em paz! Novamente. . — Mas. Wally está bêbado. onde eles aparecem e aborrecem você? Você ainda quer se aborrecer ainda mais? . — E você não se importa tampouco? Por que se mete com gente dessa espécie? — Mas eu não me meto. — Abe! — exclama minha mãe. . — Então. Nós três ficamos atentos à campainha. a campainha: dois toques rápidos. um longo. Minha mãe entra na sala e vem sentar-se a meu lado. quando a polícia chegar. — Mas ía ensinar-lhe a não se meter onde não é chamado! — Papai. Por que você não dá queixa? — Porque. um longo. Agora. . minha pequenina mãe diz: — E. — Água fervendo. por que vive num lugar como este.. o senhor não deve se importar tanto com isso. — E você me jura — diz meu pai — que não é ninguém que você conhece? — Juro. pai e filho. Mãe.

A morte dela não foi assim tão inesperada. Ela disse que sempre que se lembrava de sua geladeira. há um mês apenas. antes de você nascer. Se você quer queimaduras de terceiro grau. Mas você se lembra do inverno? Como reinavam a paz e a calma? Como nós nos divertíamos? Lembra-se das cartas. a última que ela cozinhou nesta terra. — Ei.! Pegando no braço de minha mãe. leve a comida. leve tudo. Essas coisas acontecem aqui. Eu lhe digo: — E você. Estamos em Nova York. ela queria que você levasse.— Calma. minha mãe morre. Você não pode ficar aqui em cima sozinho. Leve o que ela fez para você. — Isso não quer dizer que você se deixe ficar desprotegido. quando os hóspedes se retiram. — Acabe com isso! Aqui quem fala é o pai de David. meu pai insiste para que eu coma a comida que ela botou para congelar. por aí. mas se tem amor à pele. ficava furiosa. . — Começa a soluçar. Belle! — Pulando da cadeira. ele já disse. — Eu me lembro . — Ninguém a compreendeu — diz.. Davey. — A culpa não é dele se pessoas doidas tocam à sua porta. . — Posso me cuidar muito bem. tudo a emocionava. por favor. até as menores coisas. eu me sentisse sucumbir totalmente. não se aproxime de meu filho! Dois meses depois.. — . ele corre para o interfone. nunca. pela primeira vez desde a morte de minha mãe. Aquele camarada não pode ouvi-lo. nós lhe daremos! Faça o que deseja fazer em alguma sarjeta. Leve-a. Após o enterro. — Os hóspedes. . calma. murmuro: — Está tudo bem. . num hospital em Kingston. à noite? — Suas palavras fizeram com que. por favor — diz minha mãe. nunca. — Papai. como é que você vai viver aqui sozinho? Como é que você vai se houver durante a estação? Por que você enxotou todo mundo? Não seja tão corajoso. Por favor. na manhã seguinte. você aí — grita. Não se preocupe. Só ficava nervosa no verão quando tudo era ardente e descontrolado. de qualquer forma ele não está sabendo usar o aparelho. o que vai comer? — Eu sempre comi pouco. mamãe. De modo que faziam troça dela. Quando era jovem. Ela era uma boa alma. Enlaço-o nos meus braços. Ela cozinhou para você — a voz dele tremia — e depois se foi embora. já esquelética.

até o meu carro. aproximadamente na época em que fui para a escola superior. Enumera. e continua. de quem sempre suspeitou como causadores dos incêndios. — Oh. volto à Nova York com a meia dúzia de vasilhas. Sim. — Além disso. mesmo recentemente. a fim de levar meu pai para Cedarhurst. apenas temporariamente. nem mesmo são anti-semitas. agora. a caminho de Thruluay. Tem certeza que. . não — responde ao oferecimento de meu tio de fazer uma análise em profundidade da origem das desordens —. — A gente se apruma. entre soluços: — E quem sabia disso? Ele leva a comida congelada. nessa ocasião ela era ela mesma. conservar os remanescentes da sua clientela que ia envelhecendo. o caseiro e a mulher estarão morando no local. com o famoso molho de passas da vovó: duas porções". dessa vez com meu tio Larry. a partir do tempo em que a região começou a sair de moda como lugar de veraneio dos judeus. — Não. A gente não se entrega a essas coisas — diz. eis-me de volta ao campo. cujo lugar é o hospício. às dúzias. meu filho. mantendo a casa principal aberta e o local com um bom aspecto. os incendiários jamais constituíram reais ameaça. e sempre há perigo de incêndio. até recuperar-se do choque. para meu tio e para mim. mas quem sabia disso? — Nós sabíamos — digo-lhe. Homens de trinta a quarenta anos. ele não pensa em outra coisa. idiotas. em hotéis abandonados e pensões.claro que me lembro. mas. é inverno. E assim. como ele declara enquanto colocamos sua valise no carro. é verdade que misteriosos incêndios têm ocorrido. Dentro de uma semana. Naturalmente. São muito estúpidos para isso! Simples inúteis. Mas. dentro de um saco de compras. todas com o mesmo rótulo à máquina: "Língua. porém ele repete raivoso. os desordeiros da região. como ele e minha mãe conseguiram. onde ficará com o irmão e a cunhada. porém o fato não constitui garantia contra a possibilidade de o hotel pegar fogo em sua ausência. — Trabalho desde a idade de catorze anos. . Apenas gente que gosta de ver fogo! E quando tudo . em poucos dias. Terá que ser. será ele novamente. não há outro remédio.

Tem de ser. papai. concorda em pôr à venda o Hungarian Royale. . Todas as noites falo com ele pelo telefone e me diz que não pode dormir preocupado com o incêndio. sabendo que é melhor mentir. Não podem ser mais gentis. . Agora. aos . enquanto o diabo daquela propriedade ainda está inteira! E seguem-se mais cinco dias. num domingo. vocês sabem quem eles acusam? Tenho visto isso dezenas de vezes: a mim! Que provoquei o incêndio para receber o prêmio do seguro. apenas as coisas mudaram. — Mas eu nunca desisto — exclama. E. É preciso voltar para lá. Lamentavelmente. que nunca na vida bateu em alguém. É verdade. aos vinte e dois anos. Mas não. — Não há nenhuma vergonha nisso. durante esse tempo. até que. valeu a pena ameaçá-lo. afinal. tem também outras coisas com as quais se preocupar. — Maravilhosamente. isso me parece tranqüilizador — digo. não há meio de acalmar-lhe os cuidados pelo império construído com suor e sangue. Diz. — Aquele bruxo nunca mais voltou? — Não — digo. — Bem. após um melancólico passeio de carro. há pessoas que só respeitam a força — diz meu pai. — E como estão o tio Larry e a tia Sylvia? — pergunto. Mesmo depois de confortavelmente instalado no quarto que foi de Lorraine. — Ninguém vai tomar sua resolução como desistência — digo. e o pior da dor de ficar sem ela terá passado. Como vê. ele me diz que mais uns dez dias. nos carros de bombeiro. Chego a pensar em escrever-lhe. quando era um prodígio de sexo. e mais outros cinco. e levo-o de volta para a casa do irmão. com o rosto entre as mãos: — Mas eu jamais me dei por vencido na vida.se reduz a cinzas. a moça que usava um medalhão no pescoço com o retrato do pai. quase não se passa uma única noite sem que eu pense na moça que conheci durante dois meses apenas. no meio da noite. equipados de capacetes e botas. Então eles correm para cima e para baixo. porque minha mulher morreu e eu quero sair dali! A culpa recairá sobre o meu bom nome! 99 E sabem quem eu às vezes acho que são os culpados? Os próprios bombeiros voluntários. Estão sempre repetindo "Fique".

no fim daquela noite. Levanto-me da cama e procuro. E. e do seu "dom" de "chegar ao âmago do problema". ficava muito tempo pensando. "Este certamente é o homem mais solitário que existe. e que em sua maioria se resumiam na "ultrajante" e dengosa tagarelice de Deborah.cuidados dos pais. aos vinte e três anos. é uma pessoa por quem nunca pude ter muito entusiasmo. Embora Arthur Schonbrunn. Mas a essa altura Elisabeth já deve estar casada e mãe de dois ou três filhos. . . belo. cuja maior e mais ambicionada meta se resumia em fazer o papel da senhora cujo charme sedutor se encontra todo numa petulante "candura"? Desde a primeira noite que jantei com o casal. sua mulher. Isto é. Naqueles primeiros anos de Stanford. muitos anos depois. . chefe do meu departamento. sentou-se ao meu lado e até as três horas da manhã fez tudo para dissuadir-me das soluções insensatas que costumam irromper no cérebro dos maridos infelizes." Como fiquei triste e desiludido. ao me dar conta da vida doméstica do meu paternal professor. o endereço de Estocolmo. lembro-me das minhas conjeturas. e ela a mais delicada e hospitaleira das anfitrioas. e certamente não pensa em mim com amor. quando Arthur e eu trabalhávamos em nossos escritórios até tarde da noite. imóvel diante de minha mesa. Deborah. no meio de meus papéis. na verdade tentando compreender o que é que prendia um homem tão escrupuloso em relação a vantagens. a convite de Arthur. no dia seguinte. . certamente nenhuma mulher viva pensa em mim. os que não conseguem . mesmo no tempo em que fazia meu curso de extensão universitária e era o aluno predileto de Arthur. Arthur trabalhando e eu. na mesma linha desses acontecimentos. e não nos sentíamos com força ou coragem para resolver. dotado de persistente charme e sensibilidade — uma personalidade que se destaca na sociedade da maneira mais fina e atraente que jamais vi —. sobre as conversas que tivemos na ocasião. bem-vestido. tão incansavelmente preocupado em opor seus mais elevados princípios às crescentes interferências políticas no currículo da universidade — o que é que unia um homem de tal envergadura àquela mulher. desesperançado como sempre pelo impasse a que Helen e eu havíamos chegado. Quando Arthur me viu com um ar mais acabrunhado do que nunca. lembrome de uma outra noite. seja um homem de meia-idade. me falou do "maravilhoso poder de observação" de sua mulher. Quando Arthur.

não tínhamos o direito de nos meter. como se fôssemos homens da mesma idade e posição. Por mais de uma vez. e subseqüente libertação. E enquanto Arthur tentava ajudar-me e orientar-me. Nada nos entristecia mais do que lembrar como você era quando chegou aqui e depois ver o que estava lhe acontecendo por causa dela. "Nós imaginamos. relembrou-me o primoroso trabalho que fora a minha tese. Agora. disse Arthur. a certa altura. de certa forma. e da qual também não conseguia se afastar — o ferira com um garfo durante o café da manhã. Àquela altura. a menos que você me procurasse. "Já imaginava que a coisa fosse grave". Eu. e você não costuma procurar ninguém. O resultado é que fica mais sozinho consigo próprio do que qualquer um. mais cedo ou mais tarde. ao meu trabalho e a Helen. também se metera com uma mulher "loucamente neurótica e destruidora". no lugar onde a cruel bibliotecariazinha — a quem ele não podia suportar. inclinei a cabeça sobre a mesa e chorei.. dois abortos dolorosos. por mais que gostássemos de você. e dali não passa. por minha vez. quando era auxiliar de ensino em Minnesota. Mas havia dias que dava vontade de dar-lhe uma sacudidela por ser tão ingênuo. Você não sabe quantas vezes falei com Debbie sobre o que poderíamos fazer para salvá-lo de tamanha infelicidade. sua espontaneidade é .. Brigas escandalosas em público. Mostrou-me uma pequena cicatriz na mão. muito do que Arthur me disse naquela noite assemelha-se bastante ao que ouviria mais tarde da boca do Doutor Klinger. Eu também sou assim. como é que você ousa? E o que acha do seu casamento atual? Debbie é tão vulgar. aquilo sempre acontece entre amigos.voltar para casa.. um desespero tal que ele chegou a ponto de pensar no suicídio como único meio de escapar de tais confusões e sofrimentos. com o que eu estava sofrendo. em relação à minha pessoa. Na verdade. descarreguei meus ressentimentos e. Você é uma criatura que só vai até certo ponto com as pessoas. o mais importante era revisá-la para publicação.” Quase no fim daquela vigília — e pela primeira vez Arthur falou de sua própria vida. Mas não podia fazer nada. só tive vontade de dizer-lhe: "Mas.. Aos vinte e poucos anos. já tínhamos bastante experiência para saber que. mas. David. associando seu infortúnio da mocidade.

. inteligência. esquema em que absolutamente não se enquadra nosso poeta. criou uma palavra — "abobolhado" — para definir o tipo de marido como Arthur Schonbrunn. Seu neologismo é uma espécie de aliteração com as palavras “bobas” e "bolha".. quando íamos saindo.. segundo Baumgarten foi imposto por gerações de mulheres a fim de desarmar e domesticar os homens." Mas é claro que não cheguei a tais limites de indignação. Enquanto Helen. Kepesh. Helen é mil vezes. . meio masoquista.postiça e artificial. Helen é cem vezes. não pronunciei palavras tão insensatas sobre a falsidade e superficialidade de sua mulher em comparação com a integridade. perguntou-me há quanto tempo Rita e eu nos conhecíamos. mas nem por isso ele deixa de agir abertamente em relação às mulheres. Afinal de contas. pelo menos naquela noite. sem preconceitos ou falsas delicadezas. só tinha em relação à minhas idéias homicidas. com seu jeito meio brincalhão e sua beleza vagamente desleixada. ou muito apaixonado? Ou será que Debbie.. e coragem da minha. Suas atitudes provocam o desprezo de alguns dos nossos colegas e suas castas esposas. isso não vale nada. Baumgarten tem razão em achar que seu contrato com a universidade não será renovado devido principalmente à forma como trata o sexo oposto. Arthur. Respondi que há apenas uma hora e meia e que já íamos saindo porque no museu não havia lugar apropriado para aprofundarmos . no meio de uma conversa amistosa. e designa os que se curvam servilmente aos padrões de respeitabilidade e decoro que. beleza. Esse cavalheirismo de Arthur deve causar piedade ou inveja? É o meu antigo orientador e atual benfeitor um pouco mentiroso. representa a dose de desordem necessária a tornar suportável uma vida que. .. Arthur. sua candura. é apenas um comportamento audacioso e sem importância. do contrário. será sufocante? Nosso poeta residente. Ralph Baumgarten. papai chamaria diabólica. ele adora a esposa. encontramos o casal. charme. enquanto eu. meu Deus. que a sociedade diria caprichosa. Debbie imediatamente agarrou a moça e levou-a ao toalete para dizer-lhe todas as verdades sobre mim. uma exibição canhestra. "Peguei uma garota no Modern Museum e..

realmente não gosta de ironia. É até muito interessante. e que abandonou o curso. Em vez disso. "Lembre-se de James. Quando nós dois andamos pelas ruas de Manhattan. muito obrigada. — E. Quer atenção. Quis saber o que Arthur achara dos quadris da moça. prestar muita atenção à resposta. fez-me uma preleção sobre a indulgência. e depois. na universidade de faz-de-conta. a Alice que nasceu em Montana. Por favor. de onde vêm e o que vestem é interessante. Certamente não deseja competir com você no terreno intelectual. E.. dramatize. já está pasmado (e sem fingimento) com o fato de a moça do casaco de imitação já ser divorciada e mãe de três criancinhas.” Não há dúvida de que Baumgarten atira uma rede muito grande para pescar pequenos peixes. com um ar preocupado. ei-la aqui em Nova York. não menos que Baumgarten. dirigindo-se com um sorriso largo a uma jovem de casaco surrado que empurra um carrinho de criança. Guarde essas sutilezas para seus artigos de crítica. — Hum. 'Dramatize. Bem.. ela corre a léguas da ironia. — Você ouviu essa. a mulher comum. que anda na rua. — Este? É uma imitação. É uma questão de caridade. Dave? Esta é Alice. ser bem tratada. Na verdade. Lá fora.nossas relações. não seja irônico. — É mesmo? — Em poucos minutos. por mais banal que seja. Kepesh. — De que é feito? Que pele de animal é essa? Nunca vi um casaco igual. Segundo minha experiência. empurrando um carrinho de bebê. abra-se. — Oh. no entanto. O problema é que você as afugenta com sua extraordinária tendência para complicar tudo.” . Baumgarten ensina-me que o sucesso com moças que você não conhece está em nunca lhes fazer uma pergunta que não possam responder sem hesitar. Afasto-me discretamente. As ruas foram feitas para isso. não há uma única mulher abaixo dos cinqüenta anos ou moça acima dos quinze que ele não aborde para pedir informações. mas ele me chama. não quis me dizer. que belo casaco! — diz. ' Faça com que sintam que o que são. a jovem mãe parece também admirada de ter percorrido tal distância em apenas vinte e quatro anos. na rua.

Kepesh. arrogante e realmente muito bronco. — Parece-me que. um bárbaro. bem. — Oh. Eu me pergunto por que você anda com ele. — E o que há nele para gostar tanto? — Vá para casa. ele não é tão ruim assim — digo a ela. — Primeiro. sem consciência. Naturalmente. Bem. até gosta muito delas. Nunca li nada mais desumanizado na minha vida.. E o que me diz do homem? Aquele andar gingado. É o que deveria . Na verdade até gosto dele. que a poesia não corresponda exatamente ao homem. Pelo que me foi dado observar. e estava ansioso para dizer por quê. — E o que há para desgostar tanto? — respondo. Ralph Baumgarten é abominável e a sua poesia também. mas já almoçamos juntos muitas vezes. aquelas roupas de militar. — Mas é ele: mesquinho e enfatuado. — Dou-me bem com ele — digo. — David. acabo meu drinque e vou para casa. seu desprezo pelas mulheres.Nos meus primeiros meses de universidade. à flor da pele. É um misógino. aquele rosto. — Ou falta alguma coisa nelas. e aquele sorriso irônico. Apenas tomo meu café e volto para Nova York. ele deve ter alguma coisa. não é? Apenas aqueles olhos mesquinhos. percebi que todas as vezes que se falava no nome de Baumgarten nas reuniões da faculdade. Logo chegaram aos meus ouvidos rumores do que o poder de observação de Deborah havia ocultado em nossa conversa. havia sempre alguém que não o suportava.. e um tanto agressivo. não há dúvida de qual é o seu lugar. Odeia as mulheres. Você pertence é àquele apartamento vazio. nem chega a ser realmente um rosto. Debbie Schonbrunn diz que o "abominável residente" seria cômico se não fosse "destruidor". ainda não li nada escrito por ele (uma mentira). palavra muito usada por ela e Arthur. encolhendo os ombros. Entre essa discussão profética e aquele apartamento decadente. Realmente. você está querendo me contradizer e está sendo insincero. — Por onde começarei? — pergunta Deborah. É um mistério o fato de haver moças que cheguem perto dele. ao contrário. Leia o primeiro livro dele e julgue por você mesmo se gosta de mulher. — Bem. Pode ser Deborah. não falo nada. não é tão criticável assim. você tem uma elegância inata e ele parece um urubu em cima da carniça. não sei por quê.

do meu casamento. . De outra forma. será muito difícil para mim continuar o mesmo com Arthur e. espero que no futuro você se abstenha de discutir com pessoas totalmente estranhas as minhas fantasias agressivas e minha vida. na sua maioria. evidentemente. e pensou estar me prestando um serviço. daquilo que você descreve como 'minhas fantasias agressivas contra as mulheres'. num jantar em sua casa. de minhas 'humilhações' e. Daria tudo para que me dissesse quem foi o f.d. e sem dúvida é o que mereço. e a minha vulnerabilidade.ter esperado. posso perguntar? E por que Helen e eu fomos assunto de conversa. O que é que você sabe de minhas fantasias.” "Caro David. Sinceramente David. Peço desculpas pela tagarelice com pessoas que você não conhece e prometo não fazer mais isso. com você. durante um jantar em casa dos Schonbrunn. ai!. eu jamais encontrei? Em consideração à amizade com Arthur. “““ Parece que. Realmente. isto é. "Cara Debbie. principiada por mim e. você andou falando um tanto levianamente de minha vida particular. as negociações. Esses detalhes me foram fornecidos por um homem muito bem-educado. a semana passada. que fez essa fofoca para que nunca mais ponha os pés na minha casa. segundo me contaram. de minha parte. Só isso... perpetuada por mim também. que também foi ao jantar. Inicia-se assim uma correspondência. sendo que. durante um jantar onde havia gente que. Os pormenores picarescos do início foram também narrados para gáudio de todos.p. a anfitrioa anunciou aos presentes que Baumgarten se tornara o “alter ego” de David Kepesh e que os dois” se entregavam a fantasias agressivas contra as mulheres”. o que há para admirar é a minha surpresa. que data de bastante tempo e que tivemos novamente oportunidade de reencetar. mas que não tinha nada a ver com a história. a polícia. Chegaram até mim rumores de que. tal atitude vinha em conseqüência de meu casamento desastrado e seu desfecho humilhante em Hong Kong: a cocaína.

se você considera sua amizade por ele sob um prisma e eu sob outro. Contudo. Você quer vir jantar conosco. Se for uma jovem. não vejo como aceitar seu convite. tornando-se por conseguinte o principal assunto de conversa em qualquer grupo. assim sendo. O fato de eu ter feito certas confidências a Arthur. que não deu para ser assunto de uma noite inteira. . ela tenha se mostrado muito pretensiosa. meu caro David. e. Todavia. sozinho ou com alguém que queira trazer. inclusive entre seus próprios amigos. digamos. E você mesmo também falava dela conosco. é um direito que me assiste — como creio ser também o seu.” "Cara Debbie. sempre que vinha à nossa casa em companhia de Arthur. P. Realmente não é vergonha nenhuma que seu rancor por ela tenha se transformado agora em amizade por um jovem que trata as mulheres como carniça.S. que as contou a você. desde que não seja o Bárbaro.A fim de não ferir suas suscetibilidades. Você parece não compreender quanto é indiscreta em relação ao que sabe e pensa saber a meu respeito. Com a amizade de Debbie. que certamente não diminui quando sei que está sendo comentado como qualquer opereta. Não achei sua resposta satisfatória. quanto menos falarmos nesse assunto. sexta-feira? Venha. Creio que está plenamente justificado seu ressentimento com Helen. por pessoas com as quais desabafei sobre alguns de meus infortúnios. em Stanford. como você bem sabe. desejo primeiro dizer que seu nome veio à baila apenas por alguns instantes — ai de você. não melhora nada. se eu falei de Helen irrefletidamente talvez tenha sido porque. Compreende por quê? Tampouco consigo entender como você ainda não se deu conta de que meu casamento continua sendo motivo de sofrimento para mim. melhor. O som de sua carta veio apenas piorar a situação para mim. Finalmente.: Daria tudo para saber o nome do cafajeste que me denunciou. prometo não dizer nada sobre a sua misoginia enquanto estiver aqui.

não quer dizer que seja. Debbie está respondendo à sua última carta. quase chegando a humilhar-se. lembra-se? —. depravação ou malícia. Penitencio-me por falar levianamente de sua pessoa com estranhos. pelo simples fato de acreditar que é. Parece-me que Debbie se esforçou. porque sei que o faço algumas vezes. Pensei que se ajustava melhor ao que você acha um crime de minha parte. deixando ao mesmo . Rememorando a opinião que você tinha de si próprio. e isso naturalmente é monstruoso. em pedir-lhe desculpas pelo que julgou uma justa queixa. mas.David” "Caro David. Considera-me realmente uma megera. que quer a todo custo manchar sua imaculada reputação ou invadir sua intimidade com insinuações malévolas? É óbvio que considera. não por indelicadeza. Admito que nunca o julguei um perfeito anjo no que se refere às mulheres. Presumo que o que lhe chegou aos ouvidos foi isso — insensatez e leviandade. mas também nunca pensei que isso o definisse como pessoa. jamais sonhei que se julgasse acima de qualquer censura. foi propositalmente que lhe dei aquele tom superficial. Devo dizer-lhe que para mim seria motivo de tristeza se ouvisse dizer que se afastou de seus amigos da Califórnia apenas porque foram indiscretos e mencionaram seu nome no decorrer de uma conversa. mas agora sinto-me também na obrigação de envolver-me no assunto. Sinto muito que tenha achado minha carta insatisfatória. Debbie” "Caro David. Sei que nada disse de tão horrível que o pudesse fazer sofrer. mas tão-somente por saberem de tudo por que você havia passado. em relação às mulheres — histórias de seu tempo de estudante. Na verdade. Eu o apreciava e gostava de você como amigo. Receio que sua carta tenha revelado mais sobre a sua pessoa do que eu gostaria de saber.

É também inacreditável que não perceba que sua explosão de mau gênio a respeito dessa situação vem corroborar muito bem a verdade da observação de Deborah sobre a natureza agressiva de sua atitude em relação às mulheres. David” "Caro David. o fato de continuar a ser. Tenho minhas suspeitas de que você falou muito mais de Deborah em conversa (provavelmente.tempo transparecer. Sinceramente Arthur. leva-me a considerar seu lapso como algo mais do que um exemplo de 'eventual fraqueza' demonstrada por um amigo. Ao invés de reforçar suas agressões. não apenas tão obtusa. nesses últimos tempos. exasperado e autopiedoso. mas posso afiançar-lhe que não passou de conversa de mesa. durante um jantar. ou. Segundo o que me foi dado saber da situação. Naturalmente. com aquele teor agressivo. Acho inacreditável que pudesse imaginar por um só instante que Deborah tenha querido prejudicá-lo. porque ela me deixou com muito pouco a dizer. Entretanto. é muito mais ofensivo do que qualquer erro por parte de Deborah. porém tão displicente em relação a tudo isso. como ela mesma diz. do que Deborah possa ter falado a seu respeito (uma pequena documentação auxiliaria). num tom 'propositalmente superficial' porque expressava melhor a sua atitude perante o que estava me aborrecendo. Não tenho a mínima idéia. a indiscrição de Debbie é perdoável e eu o disse na minha primeira carta. por assim dizer. Você não pode misturar as duas hipóteses: a de que Debbie falou 'em tom de troça'. não diante de estranhos). e a de que 'ela se esforçou quase chegando a humilhar-se'.” "Caro Arthur. Parece-me que os amigos devem ter mais boa vontade e perdoarem-se mutuamente as eventuais fraquezas. e que durou uns poucos minutos. concordo com ela e penso que sua última carta. sem qualquer desabono à sua pessoa. por que não faz uma pausa para refletir sobre sua falta de tato em recusar as . através de um tom de troça. Hesitei sobre a resposta que daria à sua última carta. que o que havia feito não era tão grave como você julgava.

Arthur. ela faz fofocas a seu respeito.já com o segundo rascunho pronto e datilografado — a respeito do vínculo freudiano ao qual quer me prender. preferindo. . Agradeceria quaisquer sugestões. com os diabos.desculpas de Deborah. duas cartas atrás (feita entre parênteses). . de "uma pequena documentação". desde que voltei ao leste. candidato à pós-graduação e orientador de tese? Aquelas cartas não foram enviadas para ele corrigir e dar nota. concentração e sabedoria que pude armazenar para botar no papel.” Coube a Klinger pronunciar misericordiosamente a fórmula mágica que pôs fim à situação. ao invés. sem significação. prejudicar nossa amizade e aniquilá-la pela sua conduta? Não sei o que fazer para satisfazê-lo. O que está ele pensando que nós somos? Ainda estudante e professor. . Por que passo noites inteiras retocando-as para conseguir concisão e . a não ser divorciar-me de Deborah ou abandoná-la na rua e restabelecer as relações de amizade entre nós. quem sofre com isso?” Apenas algumas palavras e. sinto-me mortificado e vejo como sou um bobo neurótico. imediatamente. Klinger disse: "Então. Toda a perseverança. . e.não quero que digam que sou aquilo que não sou! Não quero ser denegrido e menosprezado pela calúnia arrogante e neurótica de Deborah! Nem permitirei que Helen seja caluniada também! "Fantasias agressivas"! Tudo isso significa que eu não a suporto! E por que diabos ele não a abandona na rua em frangalhos? Que idéia maravilhosa! Eu o respeitaria se fizesse isso! Toda a universidade o respeitaria! Quando terminei minhas invectivas daquele dia. Sem um único amigo! E só fazendo inimigos! Minhas cartas cheias de ira contra o Extremoso Casal constituem toda a minha crítica. Sinceramente. Sem concentração. E ainda tão convencido! Tão sem determinação. Conto-lhe o que pretendo dizer na minha próxima carta a Arthur .. E ainda estou meio irritado com sua sugestão.. Não me importa que julguem que lhe devo favores .

agi . . já o fez. ao voltar de uma visita ao meu pai. brigar com Debbie e pendurar-me aos cordões de seu avental para salvaguardar esta adorada vida. bem perto de onde morávamos. no fim da Broadway. . Oh. até que um dia. Desafiar até a morte. por que. Mas. . ardente! Inteligente. Sim. E desaparecida. na verdade. Porque. Baumgarten não é exatamente a pessoa por quem eu chorava defronte do espelho do banheiro. esse alguém tão desejado pode muito bem jamais aparecer... apenas iniciada. na verdade. meu Deus. movido por um impulso que julguei inofensivo naquela ocasião. . . por outro lado. . o que cheguei a pensar que era o que mais queria. então. Seguindo o que considero "ordens do médico". Enquanto meu Tchekhov fica de lado. Apago o fogo da sopa que estava aquecendo na panelinha de solteirão e telefono a Baumgarten. e se perdeu. Logo passamos a nos encontrar uma vez por semana. Estava aqui. tendo em vista a ânsia acumulada de poder opinar sobre minha nova existência. misteriosa. ao invés de considerá-la tudo o que tenho e tudo o que faço? É estranho que minha contenda com os Schonbrunn tenha servido para reavivar uma amizade com Baumgarten que. tenho saudade de Helen! De repente.estilo?. em Nova York (o luto que precedeu àquele pelo único de nós que realmente morreu). . Oh. não é tão estranho assim. graciosa. quero Helen! Como todas aquelas brigas parecem-me agora ridículas e sem sentido! Que criatura deslumbrante. nunca fora grande. Rascunhos e mais rascunhos. já no fim da tarde. e para quê? Nada! Doutor creio que não encaro as coisas de maneira muito normal. No domingo à noite. num pequeno restaurante húngaro. . viva. Mas. . . Evitar Wally. era minha. desafiar. destruída por um terrível mecanismo que me faz desafiar. para convidá-lo a compartilhar da última porção de comida preparada por minha mãe. chego à conclusão de que naquele apartamento estou me tornando um lobo solitário. abandono a correspondência com os Schonbrunn — embora fique esta manhã toda pensando em respostas indignadas e argumentos definitivos enquanto sigo pela estrada a caminho da escola —. nos primeiros meses de luto. como poderei transformar essa trivialidade em verdadeiramente nada. paro à porta do gabinete de Baumgarten e o convido para o café. Imaginem.

mostro-lhe uma antiga fotografia de Helen. e vigiada pelos zangões. entre minhas anotações de aula sobre François Mauriac. declarou. embora saiba que qualquer desafio seu à perspectiva aberta por Klinger — e a vontade que sinto agora de entregar-me a ela — possa realmente . com a ansiedade de um estudante que passa de ano na base da cola. Por um tempo demasiadamente longo. Enquanto comíamos salada de pepinos e repolho recheado (nada mau. Retirei-a de sua carteira internacional de motorista. porém incomparável ao do Hungarian Royale no seu apogeu. sinto que não foi só minha experiência com o casamento que foi mau. e não por amabilidade. se é que existe?! Assim. diz. Trago a fotografia de Helen para jantar comigo e fico em dúvida se devo tirá-la da carteira. com pouco mais de uma década de vida adulta." Fica muito tempo admirando o retrato. e me pergunto por que devo fazê-lo. "Sim. a fim de provar-lhe que. "Uma verdadeira beleza". não o era para tudo. Bem. Na verdade.assim? Poderia ter sido tão diferente! E quando encontrarei outra mulher como ela. Dez dias antes. já sinto que perdi todas as oportunidades. . creio que pelo menos ele não vai depreciá-la. "Chego a ter inveja". que encontrei um dia desses — cada um com suas discordâncias e incoerências — numa caixa com os papéis de Stanford. digo a Baumgarten. com um tom não muito diferente do de meu pai). agora hesito em prosseguir e tento compreender tudo que diga respeito a minha pessoa estimulado pela presença de Baumgarten. e que meu temperamento me impede de viver em paz com qualquer mulher. eu havia levado a fotografia para o consultório de Klinger. diz Baumgarten quando. mas também todas as outras com o sexo feminino. . certamente a mais atraente e sedutora que jamais passou na alfândega. olhando para aquela caçarola esmaltada que fora nossa. senhor. Contudo. eu lhe entrego por cima da mesa o retrato de Helen! "Uma verdadeira abelha mestra". ao meditar sobre meu passado. embora parecendo cego para certas conseqüências extremas. nem a mim.

Um dia. da plataforma do metrô e do trilho eletrificado. ou verificar que há um lado meu que compartilha da opinião negativa de Debbie Schonbrunn sobre Baumgarten. O pai. que vive em Nova Jersey com três filhos e o marido. morreu recentemente. pela manhã. em Woodside. Contudo. Naturalmente não é agradável sentir-me tão vulnerável à perplexidade ou tão desprotegido em relação à terapia. como as de Helen. à medida que a nossa amizade se estreita. que não são cobertas pelo governo e que Baumgarten paga com o que recebe da universidade. e desde então passa os dias a olhar para as paredes de um asilo judaico. o Sunday News debaixo do braço. também é verdade que minha ligação com Baumgarten é cada vez mais marcada pela incerteza. do forno a gás. da caixa de fusíveis e até de um martelo e dos pregos. A verdade é que espero com ansiedade a hora de sairmos juntos à noite e ouço com interesse suas histórias. infeliz . livre finalmente da agressividade humana: "Adivinhe quem está aqui. para despertar aquela frágil e pequenina mulher. que. tinha medo das escadas do porão. Todos os domingos. sentada como um saco na cadeira.desestruturar-me e fazer-me voltar ao estado caótico em que me encontrava quando iniciei o tratamento. indigente e abandonado. na enfermaria de um hospital — abandonara a família quando Baumgarten era ainda adolescente (antes tarde do que cedo) — e só depois de muitos anos de sofrimentos que transformaram a vida da família num vale de lágrimas. teve uma trombose que a deixou inválida. quando o filho mais novo vai visitá-la — com seu sorriso sardônico. são as de uma pessoa que se relaciona bem com suas emoções e que combate com confiança e bom humor as condições adversas. A história da família de Baumgarten é um longo desfiar de amarguras. padeiro. que às vezes chega a transformar-se em dúvida. do caixeiro. com um doce para você! Seu professor!” Além das despesas com a manutenção da mãe. Ao chegar em casa. e na mão um pequeno pacote com um doce —. couberam-lhe ainda responsabilidades paternais para com a irmã mais velha. quando Ralph estava na escola. com medo do patrão. Mildred. a enfermeira entra antes no quarto e exclama. A mãe de Baumgarten trabalhou trinta anos cosendo luvas numa pequena loja perto da Penn Station.

Contudo. Ao ouvir as histórias desse clã. depois de ver Baumgarten separar com os incisivos a carne do osso duma costeleta de vitela. no conjunto residencial onde a família mora.dono de uma lavanderia. procura em minhas estantes à coleção de contos de Kafka e releio o último parágrafo de Um artista faminto. após ter Baumgarten como livro de cabeceira. agora quase com minha idade. por outra. ou por que razão não pode ignorar sua destruição. Entretanto. um caráter cujo abandono às próprias necessidades não pode deixar de suscitar curiosidade. Nem uma só palavra a esse respeito em seus dois livros de poesias. no meio e embaixo. surpreende-me que Baumgarten não tenha que eu saiba escrita uma única palavra sobre as circunstâncias que tornaram sua família diferente de qualquer outra. no princípio. às vezes. até seu jeito de servir-se ao jantar desperta minha curiosidade. por menos que o assunto me mobilize — ou. a irmã uma "derrotada". e. no fetichismo microscópico. o primeiro. segundo o tio Baumgarten. e o outro. criada desde a infância entre os terrores maternos e as depressões paternais. ou ele não mastiga o alimento com delicadeza só para não fazer o que todo mundo faz? Uma noite. são uns "palermas". passou invulneráveis desde o shtetl. implacavelmente derrotado. aberta. não reage a nada exceto a um sem-número de superstições. com o título petulante de A anatomia de Baumgarten. e as coisas estranhas que diz aos colegas dos filhos. Devido à sua aparência. suas roupas. é conhecida como "a cigana". ao chegar a casa. Os três garotos. e que. as quais. no qual há a descrição de uma pequena pantera que foi colocada na jaula para substituir o faquir que morrerá de inanição. escrito aos vinte e quatro anos. na frente. os interesses que venho a muito mantendo sobre a adaptabilidade e constância do sexo oposto ficou saciada. os recursos empregados para explorá-lo —. segundo Baumgarten. Será realmente o animal indômito dentro dele que o faz despedaçar a carne com os dentes com uma força muscular prodigiosa. Ela nem . Devo confessar a mim próprio — se não a Schonbrunn — que. encontro no amálgama da erotomania. denominado. é tão difícil olhar quanto desviar os olhos. mais recente. contadas por seu indestrutível sobrevivente. a despeito da repulsa que lhe causa a lembrança de sua infância naquela casa de mortos. "A comida predileta do animal foi imediatamente trazida pelos empregados. segundo um verso do poema erótico de Donne: Atrás. e na extraordinária arrogância.

Ou um artigo de algum bom velhinho de Vanderbilt sobre a hospitalidade no romance sulista: "Sinta-se em casa. E não se esqueça do Menschlickkeit. e o que se esconde naquelas fortes mandíbulas? A liberdade. Kepesh — ele é cinco anos mais jovens do que eu. Será que ainda há interesse em contar a história de mais um filho e mais uma filha. e a bondade. E aquela frustrante procura da dignidade. Oh.parecia sentir a falta de liberdade. Eis uma palavra favorita de Baumgarten. — Por quê? Para que eu o leia. parecia carregar consigo também a liberdade. Eles gostam de tê-los. não suporto isso nem em Tchekhov. — Eu apenas me perguntava se não iria despertar outros sentimentos. também? Ou a capacidade daquele que um dia quase foi enterrado vivo? São as suas mandíbulas as da nobre pantera ou as do rato faminto? Pergunto-lhe: — Por que você nunca escreveu sobre a sua família. O tema da hospitalidade no conto de Faulkner Uma rosa para Emily". na Associação Hebraica de Moços? Oh. que é o máximo dos máximos. lançando—me um olhar indulgente. todas aquelas refeições. Ele ri. Ouvi dizer que alguém acaba de publicar um livro a respeito da nossa literatura judaica sobre a bondade. todo aquele ódio. com a casa cheia. Por que o animal nunca é Anton. — Eles — respondo — e você. Espero a qualquer momento ler que um crítico irlandês publicou um livro sobre a jovialidade em Joyce. mas sempre outro palerma? . Yeats e Synge. ainda por cima. OK? Eles estão habituados a isso. Mas a virtude não é o meu forte. um irremediável quadrado —. — Olhe — diz ele —. poupe-me o assunto da família judia e suas lutas.. e não obstante gosta de falar-me como se eu fosse um menino e. Seu nobre corpo.. — Deixo aos outros a tarefa de despertar sentimentos. Ralph? — Eles? — diz. Não se pode escrever sobre essa droga sem falar na bondade. É muito chato. Por que ele está sempre metido nessa merda? Você é autoridade para dizer.” Sim. e mais uma mãe e mais um pai atirando pedras um no outro? Todo aquele amor. Em algum lugar de suas mandíbulas parecia ocultar-se. repleto de tudo quanto necessitava.

Na verdade. chamada crítica literária. "Nenhuma 'cultura'. esperando Celine. e para aquela encenação ídiche que eles criaram. Não. Além disso. e. Então. Pelo menos não tenho essa impressão quando você me conta aquelas visitas a Paramus. o livro só tem valor — inclusive os meus — quando o escritor se acusa. segundo afirma) do "estilo professor" que arrasou seu livro de poemas numa crítica literária do Times. Ou Genet. Agora ele está a todo o vapor. esses nobres filhos de Israel. que. Veja. a impressão é mais de estar lendo Tchekhov. todos esses judeus sofridos defensores da cultura judaica precisam de um judeu decadente e burro para expiarem seus pecados. O escravo da família. quem tem virtude? O maior explorador judeu desde Meyer Lansky no seu apogeu. Talvez o palerma também não seja sempre Baumgarten. o que é pior. . nenhum 'sentimento'. e contribuem largamente para o Brandeis Kollege of Musical Knowledge. virtude. dão às namoradas a oportunidade de chuparem alguém sensível ao sofrimento. com seus rituais de rebelião e expiação! Você nunca os leu na primeira página do Times dos domingos? Todos aqueles caçadores de xoxota nas privadas posando em Tolstói. ou ao asilo. . e — não sem prazer com a torrente de sua bile — continua a decantar a lascívia (conhecidíssima por toda Manhattan. eles não ficam satisfeitos quando você vai e se esconde só por causa do aspecto dúbio de seu rosto. Toda essa simpatia pelos humildes da terra. toda essa preservação da chama sagrada. . para que se dar ao trabalho? Para acusar outra pessoa? É melhor deixar isso para os nossos superiores. se você é um verdadeiro . entretanto não lhes custa um único miserável tostão. Oh. — Não tenha tanta certeza. sem se importar com o tom da voz nem com a gesticulação. Como se o estimado professor tivesse perspectiva histórica quando está enfiando em algum assistente de pósgraduação! Não. nenhuma 'perspectiva histórica'. . E refeito? É preciso que eu escreva meu nome no Muro das Lamentações? Para mim. Todos os anos. você sabe. . leio nos jornais que alguns figurões estão lhe pregando condecorações na lapela. Virtude.— É uma maneira estranha de abordar Tchekhov. Ou você. por que razão vou me dar ao trabalho de escrever esse troço? Isso já não foi feito. por que não os meus? Assim. você não acha. Senão. mantêm suas mulheres na penumbra.

à sua virulenta influência e assim imunizar-me para sempre? Ou será que tenho esperanças de ser reinfectado? Será que tenho nas mãos a minha própria cura. há ocasiões em que. .". . enquanto deita olhares para as roliças nádegas da gorda copeira húngara que vai rápida com suas sandálias deslizando pelo tapete em direção à cozinha para pedir mais um pouco de chá para nós. BAUMGARTEN: — Tess of the d'Ubervilles. preso no canil. Enquanto ele é Kepesh. ao terminar os últimos bocados da sobremesa. Talvez Baumgarten me veja do mesmo modo. a correr desvairadamente! Por que razão está aqui com ele? Passando o tempo? Mas o que se passa dentro e fora de mim? Na presença desses Baumgarten tão sensual. a corrente solta. . Sou um Baumgarten trancado na casagrande. . Uma paródia. um Baumgarten Klingerizado e Schonbrunnizado até a submissão. assemelha-se bastante com as minhas próprias recordações. e principia a falar. de outro setor de seu conhecimento. será que pretendo expor-me. impunemente. tal como várias das histórias sobre as agradáveis surpresas que surgem daquelas buscas. sintome assistindo à paródia da minha própria pessoa. . uma possibilidade. não é o que você tem aí? A MOÇA (olhando para a capa do . você só tem perspectiva histórica quando está trabalhando. ao ouvi-lo relatar com tanto despudor a infinidade de seus prazeres. BAUMGARTEN: — Hardy? A MOÇA: — Sim. no inverno passado". . ah. O que ele conta. e imediatamente vejo-o jantando. ou já terei passado do estágio da convalescença e estou pronto a principiar a conspirar contra o médico ou contra suas chatas advertências? "Certa noite. com uma outra espécie de prazer bem diferente.. e que Kepesh! Com a boca espumando. pois já presenciei o fato uma dúzia de vezes no mínimo. a grande língua rolando.homem de letras da tradição humanística.” Só quando acabamos de tomar nosso chá e comer a torta foi que ele terminou (por aquela noite) o relato das hipocrisias. Para dizer a verdade. principalmente quando se manifestam através de críticas aos seus livros e aos membros de seu departamento. diz. e isso explica a curiosidade que temos um pelo outro. religiosidades e chatices em geral do mundo literário e da tradição humanística. Sim. "estava jantando no Marlboro's.

disse. Levei quarenta e cinco minutos trabalhando. Você fica compreendendo melhor os anormais. Kepesh. acabamos a conversa e fomos para o apartamento dela. ele afastou-se e começou a correr para fora da estação. Você precisava ouvir os ruídos que ela fazia e ver sua fisionomia excitada. Bem. sentado um pouco adiante dela. 'Vá. e perguntei se queria que eu fosse buscar. que me contou que acabara de chegar de uma visita à família em Westchester. eu não pego numa corda desde os meus tempos na Tropa . Disse-lhe que tinha cocaína em casa. do outro lado do East River. todos haviam desaparecido. . é o livro. Perguntei-lhe o que ela fez e ela me respondeu: 'O que é que você acha? Olhei-o bem dentro dos olhos e quando chegamos à Estação Central dirigi-me a ele e disse: Ei! Gostaria muito de conhecê-lo melhor'.livro): — É isso mesmo. Então fui. Depois. admirava-lhe a coragem. "e eu principiei a conversar com aquela moça simpática. mas o camarada desapareceu dentro de um táxi antes que ela pudesse convencê-lo de que estava tudo bem. enquanto se masturbava por baixo do casaco. Parece que uma de suas amigas os havia roubado. de faces rosadas. No trem. pediu-me para tirar-lhe toda a roupa e amarrá-la na cama. Como ela pediu. eram metros e mais metros de fio. mas quando desci do meu apartamento para me dirigir ao dela. Quando lá chegamos. entornou o copo em cima de mim com a manga do casaco. Por razões ignoradas. num daqueles bairros decadentes. Uma imagem verdadeiramente perturbadora. ia um camarada de terno. Kepesh. disse. gravata e sobretudo. e. Bem. procurando explicar-lhe que falava sério. mas consegui. ela mostrou-me a vista do rio e a cozinha com todos os livros de receitas. eu estava bloqueado". dei-me conta de que não sabia seu nome nem qual era seu apartamento. . que se virava constantemente e a olhava por cima do ombro. ela pediu-me para tirar os pacotes de maconha da caixa de remédios. De qualquer forma. mas a moça foi atrás. traga-a. Como você pode imaginar. amarrei-a com os braços e as pernas abertos. estava profundamente lisonjeada com o que ele havia feito. que gostava do seu físico. traga-a'. Baumgarten sempre come de paletó. esticando o braço por cima da mesa para pegar os pedaços de torta que eu deixara no prato. Tive que usar fio dental.. Não havia nenhum. Talvez .

quando eu ia todos os dias a caminho da universidade. tocava a campainha. A própria Jane. principalmente quando inverte as situações. Finalmente. e com um sorriso a iluminar-lhe a fisionomia. — Desculpe — diz —. Este verão. não é?” — Dave. olhando para o alto. de modo que. porém rindo. Quando saí. mas naturalmente não é a primeira vez. via-a na fila para a próxima sessão. Procurava sempre o jornal para ver se a polícia tinha encontrado um esqueleto amarrado a uma cama com fio dental.Jesse James o fizesse também. E sabe o que ela me disse? Reconheceu-me. de modo que fiquei por ali alguns minutos. tirou do bolso do casaco um punhado de papéis e envelopes. O que você fez? — O que poderia fazer? Nada. sempre seca. Naturalmente não podia achá-la. e. é só andar pelas ruas e dizer alô para as pessoas. Tudo acontece. quando saía de um cinema na Eighth Street. Respondi-lhe que devia estar no edifício errado. Seu primeiro nome era Jane. pelo menos foi esse que ela deu. Comecei a vagar de um edifício a outro. sempre que eu via um J. Cético. pergunta: "Você mora sozinha. respondeu: "Isso acontece. Certamente "opa" é a palavra de três letras que com mais freqüência lhe sai dos lábios. De repente. Após esse episódio. exclama ao ver o copo cair. onde há um telefone. Depois. Baumgarten perguntou à empregada nova no restaurante — cuja idade e descendência camponesa ele resolvera pesquisar — se podia recomendar alguém para dar-lhe aula de húngaro. deixei de procurar. "Opa". Eva?". comprava o Daily News. onde pude ver que já havia tomado nota dos nomes e endereços de outras mulheres que haviam cruzado . embora encetasse conversas para chegar a uma conclusão. disse: "Você demorou muito. vai para o fundo do restaurante. Depois fui para casa. olhando para os nomes nos quadros. apareceu um guarda que me perguntou o que eu estava procurando. rapaz". pedindo licença. ele me seguiu até a entrada principal. E. naquele decadente East Side. A fim de escrever o número do telefone de Eva. depois de anotar o nome e o número. não se molhou muito? — Seca logo — digo —. a admirar a lua. Continue.

". num outro pedaço de papel? Em todas as linhas. Eu mesma procurei-a para você. Peço-lhe expressar suas intenções por meio de sinais quando for para o trabalho. já que isso não lhe custará nada e levará um raio de sol à pálida vida de uma solteirona que vai (rapidamente) se estiolando. recuso-me a desculpar-me pelo que aconteceu a noite . Chama-se Rona. no "Kremlin"? Alguma diretora ou supervisora do Centro de Saúde? E quem é "L". "O" ou "P". Quanto mais. Sua camarada. deixando o monte de papéis. não sei onde. juro que jamais notará a diferença e. "N". é só me dar o nome e eu digo que ouvi de outra pessoa que não você. 9 ser a principal qualidade do poeta). se preferir. caso queira mesmo (admitindo que ainda se lembre dessa fantasia). Penso que a única razão plausível para um não é: (a) você mesmo está envolvido e nesse caso. um piscar de olhos para dizer sim. posso simplesmente desistir desses encontros. ? "Ralph. ponha-me em contato com os orgiásticos. a julgar pelo corpo. e como vamos almoçar juntas a semana que vem. não sei o que poderia desejar mais. Agora vou lhe dizer a minha parte nessas transações. dois.. ou (b) você tem medo de se comprometer por alguém do Kremlin. para que eu possa olhar à vontade aqueles papéis e as vidas que eles encerram com a ponta da unha posso descobrir o último parágrafo de uma carta muito bem batida à máquina em papel creme. mas uma verdadeira beleza. com uma caneta esferográfica quase branca. Acho que vai dar pé. apresentarei as condições nessa ocasião. quinze anos dá cadeia). para não. T.. à vista desses requisitos. meiga e experiente.o seu caminho durante o dia. .. em troca de estar procurando para você o que tanto deseja: por favor. O que ela deseja do poeta cujo coração está um tanto atrofiado? Será que a voz suplicante que Baumgarten ouve com tanta paciência na cabine telefônica é a de "L"? Ou a de "M".. Levou para o telefone o número daquela com quem está falando agora. as palavras são riscadas e novamente escritas. Consegui sua garota de quinze anos (dezoito para ser precisa. não apenas jovem. de modo que. porém.” E eu me pergunto quem é "T". de qualquer forma. uma roliça segundanista de universidade. e assim sendo. por que não dar uma sacudidela na sua faculdade (um tanto atrofiada) de solidariedade humana (que li. .

embaixo. BAUMGARTEN: — Villette ou Jane Eyre? A MOÇA: — Nunca ouvi falar do primeiro. Às vezes. Tinha a impressão de que você não vivia num mundo de sonhos. Parece que não quero admitir claramente que você me perturba. Jane Eyre. e entre os poemas eróticos de seu habitante. foi consultada se gostaria de fazer um teste para um emprego de modelo para a nova revista erótica ilustrada. distância. e depois do bebê. a necessidade de falar com alguém. que certamente nenhum terá tempo de ler. onde. inaugurada na costa ocidental . que estava comprando uma brochura para a aula de inglês.passada. (BAUMGARTEN: — Emily ou Charlotte? A MOÇA: — Charlotte. a quem supostamente devo dizer tudo. muitas vezes duvido se também vivo. no seu tapete mexicano. um de nós paga cinco dólares por cinco livros da sessão de saldos. em cima. para me sentir em condições de contar ao psicanalista. uma vez lá. a menos que você explique de maneira aceitável o que há de mal em desejar vê-lo. parece que você só tem capacidade para remover gavetas de senhoras. exclama meu parceiro secreto. Pensei que pelo menos pudesse ficar no mesmo quarto com um homem que não tentasse forçar-me ou convencer-me. enquanto o outro insiste em que o que eu quero realmente é sua amizade. Levei duas semanas inteiras. ou confundir-me. embora de certa forma deseje envolver-me.. Não mais farei visitas espontâneas depois das dez da noite. Dentro da cabine telefônica. rumamos para a livraria mais próxima. seis sessões. com quem não estivesse envolvido. no meio. Não queria fazer amor. com quem me aproximasse mais de algo dentro de mim que valesse a pena e fosse real. Foi apenas uma vontade. que naquela noite encontramo-nos com uma ginasiana.) Buliçosa mas comportada e um tanto apavorada. pois acho melhor deixar sua "camarada" do telefone sozinha por esta noite. alguém de que eu gostasse e que respeitasse. Pagamos a Eva. acompanhou-nos ao único quarto de Baumgarten e. ao citar certo trecho de sua lavra: atrás. "Inebriado de xoxotas e letras!". mas isso não quer dizer que eu não pense que você tem alguma coisa de louco. seus conselhos e. de modo que interrompo a leitura da correspondência das fãs. Baumgarten arrecada seus pertences e juntos.. como de costume.. que me fez escolher você. Baumgarten desliga.. pois há um lado meu que deseja estar em seus braços. na frente.

Então. o que aconteceu? Baumgarten e eu compreendemos. vá. durante a Idade da Exploração —. que o limite dela seria respeitado. sentada no sofá. rosada como um morango. "Os Schonbrunn". ela fecha as revistas que estavam no seu colo. — Você podia fazer isto. E você. deitá-la de barriga para cima. por uma série de posturas provocantes. um tanto trêmula diante dos nossos quatro olhos dirigidos para baixo. e nem sequer sua carne foi tocada com a ponta dos dedos. tire tudo. conseguimos. — E o que não é demais para você? — pergunta. isso é até onde ela pode ir. como jogadores que se esforçam para colocar a bola no meio do campo. Pigarreando. — Diga-me o que não é. Isso diz-nos a estudante de dezessete anos. este lhe deu uma de suas revistas dinamarquesas para ver e inspirar-se. os Schonbrunn. só de calcinhas e botas. quer também um sorvete de chocolate?"). à medida que a íamos despindo. algo mais na linha da Playboy — ela responde. Então. ou iguais a dois metódicos trabalhadores diaristas que fixam um poste no chão com pancadas alternadas de seus macetes — algo semelhante à Birgitta e eu. sem quaisquer explanações. "estão enjoados e cansados de fazer força. E depois. tire duas porções. A revista se chamaria "Boceta".por nossos patrões. com a outra. aluna do segundo ciclo do Washington Irving High. e a calda. nós dois juntos. contra uma defesa cerrada. na Europa. segura a casquinha de sorvete da Baskin-Robbins que Baumgarten (o impecável cenógrafo) não pôde deixar de comprar-lhe quando voltávamos para casa ("Qual o sabor que você prefere Wendy? Por favor. David. exclamou ele. — Talvez. nenhuma força empregada. . Disse-o bem claramente a Klinger — e ainda ressaltei que nenhuma lágrima foi derramada.” Esbelta. no quarto de Baumgarten. enquanto ela. dá uma dentada no remanescente da casquinha e diz simplesmente: — Isto é demais para mim. Wendy? — pergunta muito sério. — Isso aconteceu quando? — Klinger perguntou-me. ainda na livraria. vai passando as páginas das revistas com uma das mãos e. que não teria nenhum acanhamento em tirar a roupa diante de um fotógrafo. a moça foi logo nos dizendo.

lá sou apresentado a Claire Ovington. desde que me tornei um homem intrinsecamente sem mulher. entre as fotos de seus dois filhos. para ela e seu cão de caça de pêlo dourado. longe das quais minha entorpecida e assexuada carcaça vai se reconstituindo. E depois. logo ao voltar ao leste. nas proximidades da praia de Orleans. Mais ou menos dez dias depois daquela manhã que passamos juntos conversando na praia. E saio. a jovem vizinha que alugou. não consigo deixar de portar-me como uma criança excessivamente atenta na aula de dança. após ter-lhe enviado. aquela onda espontânea de ternura. valho-me de toda a coragem e volto a Orleans. da confiança. O que primeiro me atraiu foi o mesmo olhar de suave voluptuosidade. Na semana que passo no hotel. para passar um fim de semana em Cape Cod. mas o pequeno retrato colorido da filha adolescente de Klinger. Assim sendo. que tinha contribuído tanto (contra quaisquer reservas supostamente razoáveis) para aproximar-me de Helen e que fez surgir. em terreno de rosas silvestres. sem paixão. só tive pensamentos para ela.— Há duas semanas — digo. mesmo então. que conheci recentemente. em jeans e blusa de malha. pela primeira vez em um ano. quase até o fim da minha hora. sem prazer. de Nova York. Será a sensação da renovação do desejo. . como diria meu pai —. Retive a confissão por duas semanas inteiras e. encontro uma moça totalmente diferente daquele pequeno bando de consoladoras. onde me instalo no hotel local. no verão. conselheiras. após a breve visita do fim de semana. numa moldura de três faces. tentadoras e provocadoras — as "influências". tirado numa praia qualquer e colocado em cima de sua mesa. Convidado por um casal da faculdade. e levanto-me do sofá para pegar o paletó. da capacidade? Ainda não. uma carta constrangedoramente afetuosa e de haver consultado Klinger tensamente por duas horas. De volta a Nova York. um pequeno bangalô revestido de seixos. posso ir embora sem ter que acrescentar — e jamais o farei — que não foi à vergonha da reincidência a razão que me impediu de contar antes o ocorrido.

tudo isso ordenado em favor de algo mais do que uma aventura sibarita. admitindo sentir-me envergonhado. . segurança e decisão. . . depois de escrever a você naqueles termos e chegar. se bem que não possa compreender por que razão ainda me preocupo com amor-próprio. um pouco antes de partir. antes que eu comece mais outra explicação sobre a "esquisitice" que eu sou — foi tão agradável. tão meiga no íntimo como na aparência! Que habilidade! Que calma! Que sensatez! Para mim. — Mas — ela diz. vá. para variar.. envolvendo-me totalmente. É bom saber que isso ainda existe neste mundo de total desamparo. Não sei como sair dessa. — O que é que foi tão agradável? — Ver alguém acanhado. e. De certa forma. — Eu devo ter parecido estranho a você. o que ele vai perder se eu falhar? Onde está a sua visão dramática da vida. nos intervalos das panquecas de amora. tento redimir-me um pouco. tão sedutora quanto Helen. a vergonha que eu devo ter imaginado poder evitar desaparecendo. pelo menos com um pouco de amor-próprio intato. chego ao bangalô bem cedo. fazendo ainda parte do corpo docente de um colégio particular. até chegar à raiz dos cabelos.incapaz de passar por uma porta ou de pegar num garfo sem a mais estrita demonstração de boa educação. O que estou tentando dizer é que nada que você tenha dito ou feito foi motivo do meu comportamento tão frio. depois de tanto alarido. na minha cama de hotel. . Meu Deus. — Então foi-se apoderando de mim. em psicologia experimental. e licenciou-se em pedagogia pela Universidade de Columbia. diabos a levem! A impotência não é brinquedo. para tomar o café da manhã com ela. E depois da auto-ostentação daquela carta. foi a coisa mais deliciosa que me aconteceu. Já faz tempo que eu me acho estranho. A essa altura. assim. eu mesmo me acho estranho. — Foi? — digo. da corajosa demonstração de inteligência e segurança! Por que dei ouvidos a Klinger? "Naturalmente. em . Atitude. após mais uma noite em que me distanciei de Claire. — Parece que vim de tão longe. em Claire. parece que surgi em cena e. Mas nesse ponto cessa a semelhança. até aqui. Com vinte e quatro anos graduou-se pela Universidade de Cornell. ele. com medo de ser humilhado de maneira imprevisível.. repentinamente. o que é que você pode perder?" Mas. porém. é um flagelo! Há gente que se mata! E só. posso compreender por quê? Na manhã que devo voltar a Nova York. Desapareci.

uma aura de recato. ao exuberante e otimista Klinger. com os três filhos. ou devo tudo que agora tenho àqueles seios de Claire dentro da roupa de banho? Se essa é a razão. na praia. e que professora gentil e . mil vezes louvado seja cada um de seus seios! Porque agora. que veraneia na ilha de Martha's Vineyard. onde leciona para alunos de onze a doze anos. devendo no próximo semestre dirigir a comissão encarregada do exame dos currículos. após as aulas. para uma pessoa que emana nas suas atribuições. . de presença plácida. submeter-me a um teste de última hora.Manhattan. ela é surpreendentemente inocente e franca sobre o lado pessoal de sua vida e em relação aos seus amigos. tal era o medo do que um desejo em vias de recuperação me reservaria se eu tentasse. admirado. Ela é tão reservada como uma robusta menina de dez anos. seu cão. sinto uma pancada no estômago ao pensar que escrevi a Claire aquela carta inteligente e galanteadora e depois estive quase deixando o assunto morrer. No entanto. já com a maleta numa das mãos e a passagem aérea na outra. Em resumo. era uma prova do quanto haviam se tornado sem esperanças as minhas perspectivas. essa fina associação de uma sóbria segurança social. quanto à paciência quando fazemos amor. sua irmã Olivia. Grato a tudo quanto a rodeia. O que quero dizer é que nenhuma resistência é necessária. tanto em relação à presteza com que ela ordena sua vida. Estive quase resolvido a não aparecer para o café naquela minha última manhã em Cape Cod. seu jardim. agora estou positivamente exultante. serena e inexpugnável. Como é que consegui fazê-lo passar por cima do meu vergonhoso segredo? Devo-o à pura sorte. sua arte culinária. assim como quanto àquela habilidade de perceber quanto de pura sensualidade ou de terna solicitude é necessário para mitigar a tenacidade da minha angústia ou renovar a confiança no ato de fazer amor e em tudo que poderá advir de seu ressurgimento. . suas plantas. E agora. Toda a proficiência pedagógica aplicada nos seus alunos do sexto ano é agora consagrada a mim. Cheguei a dizer a Klinger que o fato de eu ter escrito subitamente à voluptuosa mulher com quem falara incidentalmente por duas horas. entusiasmos familiares e suscetibilidades juvenis é simplesmente irresistíveis. Uma espécie de tentação à qual posso finalmente sucumbir. vibrante.

dentro de um ano. assim como fotografias de sua vida particular. Oh. que me foi transmitida pelos cromossomos maternos. Extremosa afeição”. E. mesas. E as listas! Aquelas extraordinárias listas. Ambientes sadios". sempre a mesma mulher ardente! E aqueles seios. Subloco o apartamento sublocado e. a reconstituição de minha vida é uma dessas tarefas. tão bem organizadas! Eu também escrevo no bloco amarelo meus planos de cada dia. O mesmo não acontece com Mrs. porém na hora de dormir não encontro nunca o consolador sinal confirmando que a carta foi posta no correio. quer seja difícil ou árida. o dinheiro retirado do banco. e cada uma por seu turno é acompanhada com afinco até a conclusão. embaixo. só para mim. cada um dos itens salvadores convenientemente chegado. o que não me apraz fazer um dia eu transfiro para o seguinte sem que isso me cause preocupações. Chego até a aceitar o convite para um jantar em casa . Ovington — toda atenção é dispensada a qualquer tarefa que se lhe apresente. o olhar daquela moça robusta acima de mim.discreta vem todos os dias ao meu apartamento. no princípio com uma Brownie e depois com o melhor equipamento japonês. a tarefa é concluída. as instruções a serem observadas a seguir: “Proporcionar a DK: 1. há dias em que nem consigo localizar as listas feitas na noite anterior e. pratos e cadeiras. Para grande sorte minha. sem saudades dos belos tapetes. macios e vulneráveis. Abandonei os antidepressivos. quando está ainda meio despida! E note-se. que antes pertenciam a Helen e a mim e agora só a ela. e. em geral. É como se ela houvesse escrito o meu nome no alto de um de seus blocos amarelos e. e não vejo nenhum abismo abrindo-se a meus pés. Apesar de minha forte tendência para a ordem. Abraços ardentes. em sonho profundo. com ela. 3. tão morno e cheio em minha mão como um animalzinho polpudo. também! Sim. 2. o telefonema feito. cada um pesando como um úbere sobre meu rosto. muito ordeira. arranjo uma outra moradia. com sua letra arredondada. o artigo xerocado. ela faz o histórico de cada dia que passa em agendas que remontam aos tempos de universidade.

Escute aqui. Na saída. como você mesma deve saber. enquanto Arthur e Claire terminam uma conversa principiada durante o jantar (sobre o currículo que Claire está planejando para os ciclos superiores). Tão simples. Elas ficam lindas nos esquis aquáticos. Debbie. — Debbie. Debbie e eu conversamos um instante. parecia dito para me diminuir. Eu me lembro como. Mas. nem isso é verdade. ingestão de bebidas alcoólicas). — Isto é o que importa. supondo que fossem exatamente iguais aos de Claire. com os cabelos escorrendo água. mas parece muito mais simpática. Tenho certeza de que tem uma personalidade e uma vida interior maravilhosas. é um termo depreciativo. Por que não admitir que você tem uma queda por louras altas e pronto? Não tem nada de que você possa se envergonhar. Os cabelos de Helen eram castanhos. . Nós dois achamos que é encantadora. — Oh. você se leva muito a sério. da qual nada sei. usado para diminuir as mulheres bonitas. — Não. em Stanford. você não acha que já é tempo de me deixar em paz? O que você quer dizer com "as minhas louras"? — Trata-se da verdade. Onde vocês se conheceram? — Num bordel de Marrakesh.dos Schonbrunn e no fim da noite delicadamente dou um beijo na face de Debbie enquanto Arthur paternalmente beija Claire. de ambos os lados. —Aposto que são lindas em qualquer lugar. Isso também. você gostava de chamar a atenção dos outros sobre a anomalia de um literato como eu descender do "Cinturão do Borscht". vamos fazer um acordo: eu não me meto na sua vida e você não se mete na minha. E acredito que o termo está repleto de conotações desagradáveis quando dirigido a homens com a minha origem e cor de pele. na época. estamos de mãos dadas! — Mais uma de suas louras — diz Debbie —. E muito inteligente. Por qualquer razão (penso que. Tão fácil. É pegar ou largar. — Feito — diz ela. o fato é que a expressão "louras" nesse contexto e nesse tom.

Boba na aparência. — Ela enganou você. eu não me esforçava muito em convencê-lo a vir. Ainda almoçamos juntos algumas vezes. porém os grandes festins eu o deixo partilhar sozinho. . bem. — Aquela mulher é uma aberração digo. uma vez por mês. enquanto comia as nozes: "E aquele cara. foi a você que ela enganou. nada mais. na mesa de jantar já limpa. querido — diz Claire —. sobre a ascensão e queda do déspota. antes do novo apartamento e Claire para ajudar na conversa e no preparo da comida. no fundo uma fera. O homem dentro da casca. apenas boba. Até que ele um dia disse. não voltou mais para apoquentá-lo?” E. o que é que Arthur vê em você? Este é um dos mistérios da vida. diz o . O que é que você tem que eu não vejo? — Tudo — responde. Meu Deus. depois de jantar no meu apartamento. e não o apresento a Claire. agora ele toma o trem em Cedarhurst para jantar em Manhattan. enquanto Claire prepara a aula do dia seguinte. afastei-me um pouco daquele redemoinho que é Baumgarten. encontro cinco páginas dignas de serem lidas — reflexões extraídas do pequeno conto de Tchekhov. dois órfãos no Bairro Chinês. — "Confesso".— Nós dois começamos a rir. — Ah. sem dúvida. na estante por mais de dois anos. Já no carro. não — responde Claire —. Não é possível persuadi-lo a vir mais vezes. mas na verdade. e como é árdua quando não corre! Uma noite. Clarissa. Quanto a meu pai e sua terrível solidão. como a vida é fácil quando corre sem embaraços. Em meio à laboriosa e imensa competência desses fragmentos de capítulos destinados a focalizar a questão da desilusão romântica. No que toca à minha reabilitação e volta à sociedade é só. ou não mais preciso de "coragem" para reler o que escrevi sobre meu Tchekhov. para evitar ficarmos sentados olhando um para o outro sem dizer nada. eu finalmente tomo coragem. faço um resumo da conversa. Eu falo: — Diga-me. . — Oh.

bondoso narrador depois do enterro do tirano. não obstante. aos poucos.. assim como com a sua falta de talento. mas a quem. volto todas as noites à ficção de Tchekhov. o vai transformando num desamparado misógino. aparentemente estabelecidos e seguros de si. as esposas bem-educadas. há a jovem esposa que procura "um pouco de emoção" para contrapor-se a uma parte de sua própria enfadada respeitabilidade. formando uma série de ponderações anedóticas a respeito dos vários sofrimentos causados pela repressão espiritual — despotismo mesquinho.. Em Ariadne. eu não tenho talento. e os maridos." E há ainda O duelo. a ascensão e a queda de um funcionário do ginásio de província cujo amor das proibições e ódio a qualquer afastamento das normas consegue manter uma cidade inteira de "gente circunspecta e decente" sob o seu domínio. cerceada e desditosa. "que é um grande prazer enterrar gente como Belikov" —. com um caderno de anotações nos joelhos e algumas observações na mente. por quinze anos. "que estão impregnados de verdade e dissimulação convencionais". que durante o jantar. habitual complacência humana e. relêem a obra- . uma seqüência do primeiro. com simplicidade e clareza. finalmente. todas as noites (com Claire a dois passos de mim). "Vejam. o poder demolidor daqueles que procuram a maneira de sair da casca de restrições e convenções. revela as humilhações e os fracassos — e o que é pior. Em Uma história sem graça. Começo a reler o conto. No mês seguinte. e em seguida leio novamente Groselhas e Sobre o amor. embora não tão impiedosamente quanto Flaubert. No decurso de uma semana. com as primeiras experiências no teatro e com os homens. Em Infortúnio. só presunção. em companhia das visitas. há a jovem atriz. observo de que modo Tchekhov. um proprietário rural confessa com desânimo "herzogiano" sua romântica desventura com uma vagabunda que. fora da penosa situação matrimonial e da endêmica falsidade social para entrar naquilo que pensam ser uma existência vibrante e atraente. está irremediavelmente amarrado. ouvindo o grito de angústia da criatura social. pensam: "Por que estou sorrindo e mentindo?". fora do tédio envolvente e do desespero asfixiante. inibições relativas a sentimentos necessários para apoiar o sentido de decência de um homem escrupuloso. Ao mesmo tempo. cujo ardente e esperançoso entusiasmo pela vida do palco e pela vida entre os homens se transforma em amargura.

Birgitta era indiscreta. relaxado. consolo. surge para fazer um desafio ao sentimento de vergonha e culpa a que foi totalmente reduzido Laievski. Foi esse mergulho em O duelo que finalmente induziu-me a transformar. e do qual. consentimento. em quarenta mil palavras. prazeres proibidos e sofrimento decorrente de ambos.” — Enquanto ela é calma — digo a Klinger (e a Kepesh.O. ai dele. nobres e dúbios pelos quais os homens e as mulheres de seu tempo tentam. o sedutor literário Laievski. inteligente. que nunca. com o título de O homem dentro da casca: ensaio sobre a licenciosidade e a repressão no mundo tchekhoviano — desejos realizados. em vão. em quatro meses.prima de Tchekhov sobre Laievski. o irresponsável. nunca poderá esquecê-lo) —. realizar "esse sentido de liberdade pessoal” a que o próprio Tchekhov é tão sensível. E o que resultou daí — declaro triunfante — foi a "confiança". conter-me. Pelo menos. trata-se apenas de viver com dedicação e firmeza. esta é a interpretação que dou à história: Van Koren. Enquanto ela é sensata. — Naquela tarde de primavera. doses profissionais de comportamento maternal. fico pensando se é verdade que não precisarei mais armar-me de coragem. na figura do promotor ferozmente racionalista e impiedoso. o loquaz cientista Van Koren. odiosos. as cinco páginas extraídas da velha e inacabada síntese de minha tese sobre a desilusão romântica. Meu primeiro livro! Com a seguinte dedicatória: "Para C. A tudo isso. aplauso e oposição — em suma. ouvir conselhos. Klinger finalmente responde: — Então. não pode fugir. Confio nela. Helen era impetuosa. imerso em sua mentira e na sua autocomiseração. adeus e felicidades. Nisso tudo não se intromete nenhum devaneio. cuja consciência implacavelmente punitiva por pouco não o mata. e essa é a questão. . É realmente espantosa a maneira pela qual ela encara cada dia. encorajamentos. a atenção que presta a cada minuto. à porta de seu consultório. Um estudo essencialmente daquilo que constitui o difuso pessimismo de Tchekhov sobre os métodos — escrupulosos. e o seu opositor. Nunca vi tanta dedicação aos afazeres da vida de todos os dias.

. depois do jantar. Todas as noites. nas proximidades da Accademia. uma vez na rua. Claire e eu voamos para o norte da Itália. — Fique sempre em contato comigo — diz Klinger. repito alto as palavras inacreditáveis. Não pude olhar fixamente para ele. igrejas e fontes.paternal e amigável. costumamos fazer um passeio de gôndola. não posso deixar que nossos olhares se encontrem no momento da despedida. força e discernimento de um homem. . Em Veneza. eu me distancio e fico vagando. há uma década. pudesse eximir-me de seu julgamento ou do meu próprio —. com sapatos apropriados. e firmemente suprimindo qualquer emoção. atividade. ao despertar. no fim do ano letivo para nós dois. passamos cinco dias numa tranqüila pensione. Todas as manhãs tomamos café no jardim aromático da pensione e depois. três vezes por semana. apertando-me a mão. se esse contentamento. andamos para baixo e para cima. afastando aquele fato. Mas agora vejo que foi porque preferi não expressar minha alegria e gratidão num surto de lágrimas. é real. através das pontes e vielas que conduzem aos pontos que Claire marcou no mapa para visitarmos naquele dia. Escondendo toda a emoção no nariz que fungava. sem o menor domínio sobre seu corpo. Com Claire ao meu lado. voluptuoso e repousante do mundo". 0 a primeira vez que volto à Europa desde o tempo em que por lá andei vagueando com Birgitta. pergunto-me mais uma vez se essa serenidade existe realmente. sozinho. essa harmonia. Será possível que eu consegui vencer? Só assim? Só por causa de Claire? E se amanhã. durante uma hora. . eu me vir novamente como um homem com uma cratera em lugar do coração. disse: — Esperemos que não precise — mas. piazzas. sempre olhando para trás para registrar sua beleza simples. inteligência e sentimentos. em cadeiras que Mann descreve como "o assento mais macio. sob as árvores do jardim. só agora com a emoção adequada: "Consegui vencer!” No mês de junho. Enquanto ela tira fotografias dos palazzos. Da mesma forma que naquele dia deixei de mencionar o impacto causado pelo retrato de sua filha sobre minha consciência como se. mais uma vez sem capacidade.

pergunte ao gondoleiro. Sentado confortavelmente — eu com um copo de vinho gelado. uma mocidade longa e mal-orientada que já ultrapassei? — Tem certeza de que não morremos — pergunto — e fomos para o céu? — Não sei — responde ela —. como estou dramatizando as coisas! Esse "tudo" consiste em quê? Nada mais. na minha sala de aulas. olho para as águas tremeluzentes dessa cidade indescritivelmente bela e pergunto: — Você acha que Veneza está realmente afundando? Tudo parece estar na mesma posição desde a última vez que aqui estive. depois do que aconteceu. Pedi exatamente a mesma coisa que comemos aquele dia em Palo Alto quando estudávamos os contos de Tchékhov sobre o amor e. — Quem era ela? Ah. resolvi gastar dinheiro e fomos almoçar no Gritti. do que aquilo que um jovem marinheiro procura encontrar ao saltar no seu primeiro porto no exterior. — Quem estava com você naquela ocasião? Sua mulher? — Não. como uma digna filha de pais que beberam demais —. . penso que é . dessa vez nós dois somos reais e eu estou bem. na infância. dou uma gorjeta ao garçom e escolho a mesma mesa que sonhara ocupar na companhia da bonita aluna que costumava almoçar amendoim. mas. realmente. não estou imaginando esse almoço delicioso na companhia da minha companheira viçosa e sem artifícios. . para uma pessoa tão ponderada e metódica. então. nem estômago nem força de marinheiro..Terá o pior passado? Não mais cometerei terríveis erros? E não mais terei que pagar pelos outros? Aquilo tudo foi apenas um princípio de vida. para quem canalizou toda a extraordinária energia para tornar normal e comum aquilo que tinha sido tão dolorosamente irregular no seu lar. Foi no ano da Fundação Fulbright. se me arriscasse a recordar. senti-me às portas de um colapso nervoso.. se tivesse coragem e contasse tudo. desta vez. Claire com a sua acqua minerale. No terraço. como se sentiria confusa e ameaçada. Eu estava com uma moça. Na nossa última manhã. Só que. Um paladar de marinheiro para as coisas um tanto sombrias. Oh. Entretanto.

o malcasado marido recordara-se de dias melhores no terraço do Gritti. Sinto desejo pela minha lasciva e desaparecida camarada espiritual. Oh. a uns trinta quilômetros de Rouen. uma pessoa sem importância". no seu íntimo. e que isso é uma coisa que ela não gosta de fazer. gritava "bar!"'. aonde vim para celebrar o princípio de uma vida agradável e estável. à noite em nosso apartamento térreo de Londres. quando perguntei a Birgitta qual a coisa que ela mais desejava. à meia-noite. enquanto Elisabeth. inclinada sobre a cama. no terraço do Gritti. não queria nada daquilo. dos quais não teme falar e que nós principiamos a satisfazer. a onda de volúpia que me envolve não é para esta bela jovem. audacioso jovem Kepesh ainda errando pela Europa gratuitamente. O que Elisabeth mais desejava deixamos para o fim — ela não sabia. pela testa. . . recordo-me de Birgitta ajoelhada defronte a mim. e deixo morrer o assunto.melhor responder: "Oh. de roupão de lã rosa. Alguém que nada tem sido em minha vida por mais de dez anos é tudo em que posso pensar. Agora. era bem-vinda tão fervorosa e alegremente como eu recebia o ato incomum e o pensamento estranho. muito antes que minha sensação de permissividade principiasse seu íntimo colapso. . como íamos descobrir quando o caminhão a atropelou. com quem recentemente principiei uma vida que promete a mais profunda das realizações. mas sim para a pequena camarada dentucinha que vi pela última vez saindo do meu quarto. Sim. ingratidão. para celebrar a extraordinária renovação de uma vida e de uma felicidade. que me diz que a sensação do meu sêmen a encher-lhe a boca faz com que tenha a impressão de estar se afogando. Naquele estilo de Tchékhov. estupidez. que. Porque. insensibilidade pela perda lunática e suicida de qualquer perspectiva. pelo nariz. olhava com glacial fascinação a nudez de seu masturbador e sua semivestida suplicante. Porém. "Hãr!". o ileso. sentado em frente à Claire. há dez anos. o rosto levantado para receber os jorros de sêmen que fluíam. O que eu mais desejava elas duas já me deram. realmente. Como se isto tivesse importância! Como se Claire estivesse retendo algo que importasse! Contudo. caindo-lhe pelos cabelos. recordo-me das primeiras e mais impetuosas horas de meu papel de homem irresistível. Birgitta tem desejos. por mais que eu me repreenda por amnésia. Não.

Birgitta. como se entregues a eles próprios. e eu digo. começo a fustigá-la entre as pernas abertas. Retenho o impulso de precipitar—me da mesa e telefonar ao Doutor Klinger. o desejo de Birgitta suplicando-me. através de Birgitta — que agora prefiro afastar como "uma mocidade longa e desorientada" —. estávamos em nosso quarto bem aqui. Não serei um daqueles clientes histéricos. até que simplesmente passe aquilo que nos afastou. em Veneza. Observo que movimenta os quadris. . ressentimento pelas pequenas coisas que ela não se digna fazer. As listas. falar de seus planos para a comissão de revisão dos currículos. E o rancor dissipa-se também. resolve fingir ignorância. . como jamais disse antes para qualquer pessoa ou a qualquer coisa. para ser substituído por uma tristeza repleta de vergonha. de Birgitta em cima de mim. todos esses desejos principiaram a desaparecer. . . ressurge uma sensação de lascivo parentesco. numa rua estreita. . revolta. contida. Tudo. A comissão de revisão dos currículos. Amarro-lhe um lenço ao redor dos olhos. a fim de que cada vergastada do meu cinto a atinja entre as dobras do sexo. naquele tempo. Então. isso não. não muito distante da pequena ponte onde Claire tirou meu retrato naquele mesmo dia. Desprezo por tudo quanto ela faz tão maravilhosamente. para cima. ao longo do Zattere. de Birgitta debaixo de mim. Observo aquilo como jamais observei coisa alguma na vida. num hotel. Como a refeição que me foi trazida e na hora de pedir a sobremesa. muito levemente para principiar. a seguir. Se Claire pressente o fluxo e o refluxo desse desespero — e por que não? De que outra forma compreender minha tristeza silenciosa e gélida? —. que fazem ligações internacionais. surge rancor. atando-o firmemente atrás. Os instantâneos. Não. E através de Claire. rosnada. murmura Birgitta. "Diga aquelas coisas". em voz baixa. e depois vejo-me de pé diante da moça com os olhos vendados. desilusão. Vejo como seria fácil eu não valer nada para ela. desta minha salvadora verdadeiramente apaixonada e extremosa. vá embora! Mas. A boca que não beberá o meu líquido.

Embora parte de seus vinte e cinco anos tenha sido frustrada pelas brigas de seus pais. vai colá-las no álbum. sentada no chão com as pernas cruzadas — a postura da tranqüilidade. Um dia. ela e Olivia fossem os pais pressurosos. da concentração. o norte da Itália ficará nos álbuns ao pé da cama onde estão guardados seus volumes de fotografias. e Nova York. E eu ficarei ali ao pé da cama. e ultimamente. telefonemas regulares —. junto com seus lugares. Claire tira outras fotografias. cama. trata-se do único passado que tem para relembrar. Hospedamo-nos em um hotelzinho numa cidade montanhosa onde encontramos um quarto. a postura de uma menina muito bemcomportada —. Ela as mandará revelar quando chegarmos à nossa terra e depois. Ithaca. Mais uma vez. de presentes. retratos. Como gosta de dizer. na verdade. onde foi para o colégio. onde mora e trabalha. agravadas pelo excessivo número de garrafas de uísque — ela acha que vale a pena registrar o passado. Agora. para organizar uma vida decente. Tanto Claire como sua irmã mais velha cumprem com entusiasmo as agradáveis amenidades da vida familiar — troca de fotografias. Ovington empregarem todos os seus esforços para serem inimigos ao invés de companheiros de seus filhos. onde ela nasceu e foi criada. e de lá rumamos para Verona e Vicenza por um dia. apaixonou-se. pelo menos para saber que sobreviveu à tristeza e à desordem. e seus pais os filhos inexperientes. Qual é o contrário do ruído de um prego batido num caixão? Bem. segundo uma seqüência cronológica. por mais duro que tenha sido quando os conflitos estouravam ao seu redor e ela procurava sair intata daquilo tudo. Não seria pelo fato de Mister e Mrs. alugamos um carro e fomos a Pádua para ver os Giotto. relembrando-o. Retratos. tenho a impressão de ter sido guardado e selado dentro de algo maravilhoso. e um terraço do qual avistamos um panorama arcádico. retratos. juntamente com Schenectady. como se. que ela precisaria negar a si própria os prazeres normais de uma família normal (se é que existe tal coisa) e além disso gozar esses prazeres como legítimos. comemoração de aniversários. caminhamos através de pastagens com nosso . e agora o norte da Itália será para sempre seu. sua família e seus amigos. é o que ouço com os cliques da máquina fotográfica de Claire.De Veneza.

e os diários de Kafka. para Praga. dei um curso sobre Kafka. uma infinidade de pequeninas flores azuis. Sento—me e Claire deita—se ao meu lado. apoiado num braço. Depois da proeza do Gritti. aborda a preocupação de Kafka com a carência espiritual e sua substância. arranja no copo de água e coloca à minha cabeceira. assim como suas . Sim. que haviam lido toda a obra de ficção. deixando—me gozar mais uma vez a minha grande ventura. corrigi as provas do último exame escrito.farnel para o almoço. suplicando para obter aquilo que mais a estimula. Na nossa última tarde. sempre surge para visitar-me. Sim. em seu fino vestido de verão. depois. mas ainda não vi a cidade onde nasceu Kafka. ela já não aparece tão sensacionalmente. voamos para Viena — e a casa de Sigmund Freud — e. Nem "Birgitta" parece significar mais nada. A palavra "mais" não tem sentido. então digo a mim mesmo: "Claire é o suficiente". Um pouco antes de partirmos. Satisfeito. sempre de joelhos. mas depois vai embora e eu fico verdadeiramente em cima da mulher com a qual faço amor. Nas noites seguintes. de olhos verdes. Posso caminhar com Claire por horas a fio. espiritual — a beleza. apenas isso faz com que eu partilhe de todo o "mais" que poderia desejar ou querer desejar. seu corpo musculoso levemente subindo e descendo em compasso com a sua respiração. compreendo agora. que descortina elevadas montanhas até os altos cumes dos Dolomitas. em silêncio. do qual participaram meus quinze alunos. na universidade — e o trabalho que vou apresentar dentro de poucos dias. sobretudo quando Claire e eu fazemos amor — põe-se de joelhos. Olhando atentamente para esta grande mulher. nacarados botões de ouro e papoulas irreais. oval e intato. para seu rosto pálido. e a indesejada visitante desaparece. para sua beleza limpa. entre os campos floridos. No ano passado. em Bruges. Não sinto necessidade de nada mais. e tudo isso. de uma jovem da seita amish ou shaker —. a não ser em livros e fotografias. a biografia de Max Brod. apego—me firmemente a Claire. como se” Birgitta" e "mais" fossem maneiras diferentes de dizer a mesma coisa. De Veneza. reclino-me no chão. observando-a colher flores silvestres que leva para o nosso quarto. "Claire" e "suficiente" são também uma só palavra. pequeno. carregamos o almoço para o alto de um campo.

demonstrou uma sensibilidade amadurecida em relação ao isolamento moral em que se encontrava Kafka. ao descrever as íntimas expansões de um filho mais que excepcional ao mais convencional dos pais. Mas o que não constitui um manancial de prazeres durante os meses que passei na companhia de Claire? Antes de partirmos. “ Fiquei satisfeito ao verificar o número de estudantes que acolheram minha sugestão. têm a tarde livre. uma despedida entre nós.. também professor de literatura. — Pior para ele — diz o professor tcheco •— e melhor para o mundo da ficção. ao falar ao pai. Uma das questões que formulei no exame foi à seguinte: "Em seu livro Carta o meu pai. suas peculiaridades de perspectiva e de temperamento. Sentados no banco da Praça da Cidade Velha. felizmente (mas o que é que não sai bem nesses dias?). resolvendo tomar o lugar do melhor amigo e biógrafo do escritor e que. estou satisfeitíssimo com o seminário de Kafka e com a minha atuação. embora o senhor tenha forçado essa decisão. À direita. diz 'Tudo quanto escrevo é sobre o senhor' e ao acrescentar 'ela seguiu seu curso na direção determinada por mim'? Se quiser imagine-se no lugar de Max Brod e escreva você mesmo uma carta ao pai de Kafka. e os processos de imaginação pelos quais um fantasista tão rebuscado em sua vida diária quanto Kafka transforma em fábula suas lutas cotidianas.cartas a Milena e ao pai. uma pequena janela que dá para um apartamento contíguo . . Trata-se verdadeiramente de um grande afastamento. em uma das paredes da nave destaca-se. ela seguiu seu curso na direção determinada por mim. — Na imponente igreja gótica ali perto. olhamos do lado oposto para o palacete onde Franz Kafka freqüentou o ginásio. vê-se. Kafka diz: 'Tudo quanto escrevo é sobre o senhor. explicando o que estava na mente do filho. de modo que podem mostrar-nos a cidade de Praga." O que Kafka quer dizer quando. tudo o que disse foi para lamentar aquilo que não podia chorar em seu peito. . a casa comercial de Hermann Kafka. ele e um seu amigo tcheco. — Nem no colégio ele conseguiu fugir do pai — digo. deram-me o nome e o telefone de um professor americano que já está há um ano em Praga dando um curso e.. no andar térreo. e. Oh. bem no alto. Afinal.

Claire tira o retrato dos três professores de literatura diante da câmara de tortura do escritor perfeccionista. devíamos. Ali são vendidos cartões-postais e lembranças de Praga. e onde traçara as sardônicas figuras sensaborronas de si próprio. os "ideogramas secretos" que ele escondia. na Rua do Alquimista. Nas proximidades das muralhas do castelo. com suas garçonetes viçosas. com suas tavernas enfumaçadas. Claire e eu. De modo que. . tudo isso. A pequena casa é atualmente uma loja de souvenirs. no mesmo local em que Kafka meticulosamente escrevera e repetira dez vezes variações do mesmo parágrafo em seu diário. mas acredita-se que um pequeno castelo de aldeia ao norte da Boêmia. deve ter sido motivo de inspiração para Kafka. E o interior dessa igreja deve ter fornecido se não todos os detalhes. digo. E essas ruas abruptas e angulares do outro lado do rio que vai seguindo o seu curso tortuoso até chegar ao acachapado Castelo Habsburgo. aproveitar para pernoitar no campo.” Pela primeira vez. tenho a sensação de haver muito mais naquele acadêmico pequeno e de óculos do que uma simples cordialidade — pressinto algo que essa cordialidade procura ocultar.. e verão quão profundamente realista era Kafka. Muito . responde o professor tcheco. que Kafka conheceu quando visitava seu avô. de ajudar o irmão solteiro a afastar-se do pai e da família. diz o professor tcheco. Talvez. vê-se a pequena casa que a irmã mais moça de Kafka havia alugado durante o inverno para ele morar. mais uma vez. viveu a família de Kafka.. pelo menos a atmosfera da catedral em O processo. na gaveta. Se tivéssemos tempo. a adequada habitação de um gnomo ou duende —. junto com praticamente tudo o mais. a pequena aldeia onde sua irmã ficou um ano dirigindo uma propriedade agrícola e onde Kafka ficou em sua companhia durante um surto de doença.onde. no intuito. calçada de pedras arredondadas — que parece. com certeza. Kafka podia ter-se sentado ali furtivamente a olhar os pecadores se confessando e os fiéis rezando. informam-me eles. Depois. tenha sido o principal modelo para a topografia de O castelo. "Visitem uma dessas cidadezinhas xenófobas. . segundo a discrição dos livros infantis.

e depois o quê? O que vou fazer quando minha úlcera deixar de sangrar? Continuar a representar o papel . que jamais leu uma palavra escrita por ele. Entreolham-se quando acontece algo e dizem: "É Kafka". No princípio pensei: "Muito bem. Todas as noites freqüentava reuniões secretas em companhia de amigos.. um dia não agüentei e fui parar no hospital. novamente com o mesmo sorriso. o passo rápido. Soska foi exonerado de seu posto na universidade e. tomarei os remédios e os caldos. ficarei deitado aqui por um mês. as quais circulavam em samizdat entre meus colegas. cientista e pesquisadora. "aposentado" com uma diminuta pensão. Entretanto. na mais precisa e lúcida das prosas. há um ano. escrevia.breve essa fotografia estará em um dos álbuns. ao lado de sua cama. e depois. muitos dentre nós sobrevivem unicamente em Kafka. no seu devido lugar. Quase todo dia eu fazia circular um abaixo-assinado clandestino. minha agitação era constante. com uma úlcera perfurada. a fim de sustentar uma família de quatro pessoas. Sua mulher. para dar uma volta pelos arredores do castelo. é verdade. o que se reduz a: "O que mais você esperava?” — E o rancor? Também diminui quando vocês sacodem os ombros e dizem: "É Kafka"?— Nos primeiros seis meses da chegada dos russos. com a idade de trinta e nove anos. inclusive o povo. Quando os russos invadiram a Tchecoslováquia e deram fim ao movimento revolucionário denominado Primavera de Praga. numa fábrica de carne enlatada. bem. a fala animada e precisa — como é que ele consegue isso? O que é que faz com que ele se levante pela manhã e durma durante a noite? Como é que ele consegue prosseguir todos os dias? — Mais uma vez Kafka — diz ele. — Sim. levando consigo a máquina. foi também despedida de suas funções por razões políticas e. com as frases mais refinadas e circunspectas. enciclopédicas análises da situação. como datilógrafa. Seu terno é impecável. está trabalhando. Enquanto Claire vai com o professor americano. Eu me pergunto de que forma esse professor aposentado conseguiu manter a serenidade. fico tomando chá com o Professor Soska.. nosso guia tcheco. E no tempo que me restava. o que quer dizer: "Agora é assim que acontecem as coisas aqui".

"Agora. subir ao topo. fins e. parecia-me que elas pululavam daquela tripulação do navio de Ahab. os acontecimentos vão se desenrolar. diz: Senhor deixei clara minha posição. esse ambicioso projeto. atravessando a cidade ansiosamente à procura de novos acontecimentos que conduzirão. acima de tudo. isto é. o mais fantástico de tudo. como. os fins. Mas trata-se de uma coisa sobre a qual sempre pensei. Não há nenhuma necessidade de outra. Andando pelas ruas. o que faz? — Traduzo Moby Dick para o tcheco. os fatos poderão mudar se não houver oposição? Com um sorriso que disfarçava só Deus sabe que espécie de expressão.de K. muito boa mesmo. é que eu gostaria de traduzir em tcheco. meios. Aqueles seus patéticos e esperançosos Ks. para o Castelo e a Corte deles? Isso pode continuar indefinidamente. segundo eles. Subindo e descendo as escadas como doidos. Se é que isso pode ser traduzido em tcheco. não posso queimar o que ainda resta do meu aparelho digestivo. E tudo isso. Começos. será totalmente inútil por duas razões. . então. Todo o país deu a conhecer sua posição. febrilmente à cata de uma solução. como Kafka e seus leitores sabem muito bem". a raiva. Primeiro não há . ser considerado "o campeão". eu via ainda um outro Ahab esbravejante. botando de lado Kafka e seus leitores. quando terminado. . como o senhor pode imaginar. para continuar a tornar bem claro esse fato às autoridades do meu país durante os sete dias da semana. De minha parte. A energia para botar as coisas em seus devidos lugares. mas em virtude de uma raiva enorme. A maneira como vivemos atualmente não é a que imaginávamos. — Contudo. grande ou pequeno. que não há nada urgente para fazer. ao leme de tudo. num programa de intercâmbio. — É isso. — Na década de 0 vivi um ano em Nova York. por que não? — E por que este livro? Por que Melville? — pergunto-lhe. que ele gostaria de mostrar ao mundo. — Em lugar disso. ao sucesso. e agora. E. Na verdade. não à força de energia apenas. já existe uma tradução muito boa.

passou. dignos e lógicos. continua a ser a coisa mais importante que tenho para fazer na minha aposentadoria. também assim me parece. de auto-escárnio. Não obstante. Essa moça com a qual está viajando é muito atraente. Pelo menos. com votos de castidade que parecem ter sido feitos sem que eu soubesse. Mas enquanto durou. também. Dessa forma. Segundo. Talvez isso para o senhor não signifique senão uma pretensiosa forma de capitulação. E o senhor". no momento. E podem-se fazer todas as petições desejadas.necessidade de outra tradução. — Bem. ainda não sei como situar a questão. quando trabalho até tarde. de uma longa história. . só posso comparar a total parcialidade do corpo e a frígida indiferença e absoluto desprezo pelo bem-estar do espírito a determinados regimes autoritários inflexíveis. bem. como vê. "o que o atrai tanto em Kafka?” — Trata-se. estou fazendo uma coisa que. — Que se refere a quê? — Não é uma questão de desesperança política. o pior passou. Na verdade. o senhor não parece ter suprimido totalmente seus impulsos. — A julgar pelas aparências. Ou eu me rebelava contra a minha carne. — Trata-se — digo — em grande parte de desespero sexual. ou ela se rebelava contra mim. com os quais vivi contra minha vontade. Em certas ocasiões. se me permite. parece-me que a inutilidade do que estou fazendo constitui a minha mais profunda fonte de prazer. enquanto não pude ser o que eu sempre quisera ser. que será provavelmente inferior à ótima tradução que já temos. não ousaria fazer sem me preocupar se devia ou não fazê-lo. dirigir apelos os mais sentidos. o senhor é o único de nós dois que conhece de perto o totalitarismo. sem obter nenhuma resposta. — Acredito que não. Naturalmente. se não fossem as circunstâncias. nenhuma tradução de minha lavra poderá ser publicada nesse país. pergunta inteligentemente. mas. nada se assemelhava ao que eu conhecera anteriormente. Deve ter passado.

— Posso imaginar. principiei a ter a sensação de ter sido intimado. nenhuma compensação. Quando principiei a falar sobre Kafka. . de procurar atingir um resultado. não precisa dizer essas coisas. — Então. E posso lhe afiançar que empreguei argumentos e perorações não menos intrincados e tediosos. o meu modo. em face de toda conseqüência comprometedora ou ridícula.. um obstáculo para os Ks. — disse com atitude de solidariedade.0 Quando muito. Como vê. Repentinamente. Que desejavam bater com a cabeça nas suas paredes invisíveis. mas gentilmente como dantes e com uma infatigável amabilidade. O senhor compreende que. Votei durante esse período. . comparada com a que o senhor. tornei-me incapaz de lutar. de fato. para ser "casto". De repente elas tiveram uma perturbadora e nova ressonância para mim. bem. — Por favor. Assim é que o professor está profundamente . uma risada. O senhor pensa que K. vivi algum tempo como se o sexo fosse uma zona sagrada. . nesse particular. dia não. Não é uma situação agradável. e. ligado ao bloqueio erótico de Kafka: um livro vigoroso em todos os níveis sem atingir um clímax. no entanto. argutos e ininteligíveis do que as situações que se encontram em O castelo. Submeti minhas petições a um psicanalista. eu me pergunto se O castelo não está. Ia a seu consultório dia sim. aquelas histórias que constituíam um impedimento. e o direito ao voto não fornece. sobre a leitura de Kafka. . e vi que o fato não me fazia mais feliz. — Às vezes. tudo ficou menos vago do que o Kafka que eu lera no colégio. Ele ri da minha teoria. — Muito desagradável. para ver se conseguia a restauração de uma possante libido. Não se trata de uma situação agradável. — Isso é verdade. ou imaginei que fora intimado a um apelo que se tornara superior a mim. Sou inteligente. eu queria que o senhor me visse procurando esconder minha impotência. . — Naturalmente.

Nos livros. sugeriu a visita ao túmulo de Kafka. os que gostam de livros nada têm a ver com as grandes obras que lêem. pois Kafka é um escritor proscrito. pousando a mão no meu braço de maneira terna e paternal. afasta-se com um passo rápido e cômico.comprometido. — E cada homem zangado. com uma pequena inclinação de cabeça —. naquele dia. ilustrados. e os lugares na cidade de Praga ligados à sua vida e à sua obra. — mas ferram-lhes os dentes. pegamos o bonde cujo número o Professor Soska escrevera a lápis no pacote de cartões-postais que cerimoniosamente presenteou a Claire. — Mais do que certeza — disse Soska. — Bem — disse ele. Exatamente. Trata-se do homem em roupas civis que costumava segui-lo assim como a Mrs. após a ocupação da Tchecoslováquia pelos russos. seu próprio Melville — respondo.. então. — Tem certeza de que é ele? — perguntei. — E. espero — disse Claire —. como . ao qual não seria aconselhável acompanhar-nos. permita-me. explica Soska. como dentro de uma engrenagem. e curvando-se rapidamente para beijar a mão de Claire. o escritor proscrito. entre a consciência e o regime — e entre a consciência e a aguda dor de estômago. Soska.. A bela coleção não está mais à venda. e não nas mãos daqueles que os reprimem. nos meses da invasão russa. — Todo cidadão reprimido tem seu próprio Kafka. Os cartões. E fazendo um sinal com a mão. sua família. época em que ele auxiliava a organizar a oposição clandestina ao novo regime e seu duodeno ainda estava intato. então. Por favor. com as costas voltadas para um estacionamento de táxis a alguns metros do bulevar onde se encontrava o hotel. preso. para o senhor? — Miss Ovington — responde. — Mas. Mais tarde. chamou nossa atenção para um homem parado. trazem fotografias de Kafka. Estou certo de que todos os que a conhecem têm vontade de darlhe um presente. à porta do nosso hotel. — Mas o senhor tem outra coleção. eu tenho Praga.

de um lado. o portão abre-se. muitos temerosos milhões: "Khrobu / K Moriuie / Zum Grabe / To the grave of / à La tombe de / FRANZE KAFKY". branca. E essa escada! Estamos ambos um tanto aterrados.se corresse disfarçadamente. A segunda é que aquele filho assediado pela família está enterrado para sempre — ainda! — entre a mãe e o pai. com o passaporte americano e a jovem mulher ao meu lado. Apanho um seixo do chão. levantando para cima seu membro pontudo uma pedra tumular fálica. O letreiro está escrito em cinco idiomas diferentes — tantos são os que estão fascinados pelas temerosas invenções desse atormentado asceta. O portão do cemitério judeu está fechado com uma corrente. e ela manda o garoto nos acompanhar enquanto seguimos o aviso que indica o caminho. Uma mulher acompanhada de uma criança surge lá de dentro. com um cemitério cristão mais extenso — através da cerca vemos os visitantes arrumando os túmulos. O bonde nos conduz do centro de Praga para um bairro distante onde Kafka está enterrado. eu não menos que ela. Sacudo a corrente e chamo em direção ao que parece ser a casa do zelador. Como marco dos restos mortais de Kafka e diferente de qualquer outra coisa vistam no local. Uma chave aparece. Jamais fiz . diz. passando-lhe um punhado de coroas através das grades. Explico que sou professor de literatura e judeu. o cemitério judeu faz divisa. com uma árida via de tráfego intenso onde passam caminhões indo e vindo da cidade. Ela parece entender. ajoelhados e tirando os matos e as ervas daninhas como pacientes jardineiros e do outro lado. uma pedra ereta. colocando-o em cima de um dos pequenos montes ali empilhados por outros que me precederam nessa peregrinação. por sentir-me tão livre e inviolável. Todos esses sorrisos terríveis. que morreram depois. isso é tão triste. Essa a primeira surpresa. — Meu Deus exclama Claire —. alongada. "Voltem na terça-feira". Cercado de um muro alto. e desce as escadas que levariam à estação do metrô. mas diz que hoje não pode. Explico em alemão que viemos diretamente de Nova York para visitar o túmulo de Franz Kafka.

o Professor Soska vai receber também uma foto de Claire. com inscrições em memória dos judeus de Praga exterminados em Terezin. e falando por mímica pede-lhe que escreva seu nome e endereço num pedaço de papel. naquele mesmo dia.. Belsen e Dachau. junto de dez mil outros. Os túmulos continuam indefinidamente. Dentro de duas ou três semanas. há uma pedra com o nome de seu grande amigo Brod. Os outros mortos não possuem sobreviventes nas proximidades para arrancar a vegetação rasteira e cortar a hera que se enrosca nos galhos das árvores. Goldschmidt. Lá chegando. Claire bate uma foto do garoto tímido. coloco um pequeno seixo. em frente ao túmulo de Kafka. Auschwitz. e tampouco visitei o túmulo de minha mãe à sombra das árvores de Catskill. Onde haverá mais ironia do que no túmulo de Franze Kafka? Embutida na parede. essa tirada um pouco antes. olhando por cima do ombro de minha mãe. Não há seixos . porém só o de Kafka parece ser bem-cuidado. Acompanhados da criança que caminha silenciosa atrás de nós. Com ampla gesticulação e expressões teatrais. reparo numas placas afixadas ao longo da parede do cemitério. Hirsch. o registro dos hóspedes do Hungarian Royale: Levy. nas proximidades de uma linha de trens. que me fazem subitamente pensar o quanto ela é infantil — e em que homem infantilizado e dependente me tornei —. Schneider. desde que acompanhei meu pai para erguer a pedra tumular. Ali também. Então. suficientes para todos.semelhante coisa com minhas avós enterrados. ou no balcão de recepção. pela primeira vez. formando uma cobertura que une o túmulo de um judeu a outro.. Somente o solteirão sem filhos parece possuir descendentes vivos.. As lajes escuras e retangulares perto do túmulo de Kafka registram nomes familiares de judeus. Claire e eu rumamos para o portão. na porta da loja de souvenirs onde Kafka certa vez passara o inverno. É como se eu estivesse procurando no meu próprio livro de endereços. a vinte minutos de meu apartamento em Nova York. ela consegue dizer-lhe que enviaria uma cópia logo que a fotografia ficasse pronta.

— Talvez seu garoto seja um grande escritor judeu quando crescer. Senhor. ela diz: — Ele não se importa com isso. Ele foi um grande homem. sorrindo para mim com muita simpatia — sim. Novamente. como o senhor. porém sempre gente distinta. de revés. — Ele quer ser aviador. — Ele também era barbeiro do pai do Doutor Kafka. Franz Kafka. professores. é somente para o professor judeu que ela dá aquele gracioso sorriso —. — Vá. Explico a Claire o oferecimento da mulher. Tornamos a trocar algumas palavras em alemão. Ela repete as minhas palavras em tcheco. levo-o ao túmulo do barbeiro de Kafka. como é o nome de sua universidade? Eu lhe digo. e jovens estudantes compenetrados. é muita amabilidade de sua parte. — Há muitos visitantes ao túmulo de Kafka? — pergunto. — Não muitos. Ele também está enterrado lá. Tivemos grandes escritores judeus em Praga. e ela responde. mas agora — diz. uma troca de palavras com o menino e. Depois traduz a resposta do menino.Por que razão considero infantil aquilo que me aproxima dela? Por que desejo dar nomes a essa felicidade? Que aconteça! Que seja! Acabe com o desafio antes que ele surja! Você precisa do que precisa! Aceite essa realidade! A mulher saiu da casa e veio abrir o portão. — Muito obrigado. Max Brod. . deitando um olhar rápido. — Diga-lhe que as pessoas não vêm de todas as partes do mundo para visitar o túmulo de um aviador. — Se o senhor quiser. Oskar Baum. se você quiser. que fica com os olhos baixos em direção aos sapatos. Franz Werfel. para minha companheira — todos já se foram.

Saiu-se de seus cuidados para abrir o portão em dia que não está aberto aos turistas. mas na companhia de uma mulher nitidamente ariana. Entretanto. para sempre. levando sua mão aos meus lábios —. — Naturalmente. o que é uma verdadeira tolice para uma moça saudável de Schenectady.— É melhor não — digo. Nova York. sua mulher pode vir também — ela me informa secamente. Deixei para trás meus dias de bloqueio — avante com os dias sem bloqueios. parece-me. Não tenho mais arrependimentos nem temores. sentindo-me de repente livre de outro fantasma. ele viu o camarada comendo uma salsicha e falou: "A única comida própria de um homem é a metade de um limão". ao lado um do outro. ficou desbirgittizado de uma vez por todas após aquela visita ao restaurante em Veneza. Ela suspira e tristemente acrescenta: — Pobre viciado — achando que a exortação do grande escritor fosse de desdém pelos prazeres ingênuos. à meia-noite terminaremos no túmulo do seu fabricante de velas. quando sentamos no bonde. e meu comportamento não é o de um homem sério. . apenas de um curioso. do mesmo modo como. — Muito obrigado. digo a Claire: — Você sabe o que Kafka disse ao seu colega de escritório na companhia de seguros? À hora do almoço. é como se o passado não pudesse mais me prejudicar. mas temos que voltar ao hotel. Para a zeladora do cemitério digo: — Creio que agora não é possível. Então. E é tudo. Acabaram-se os "mais". tomo-lhe a mão. ela me olha de alto a baixo com uma desconfiança que não procura ocultar. um judeu talvez. Penso que o deus das mulheres. No ponto do bonde. talvez pensando que eu não seja de uma importante universidade americana. — Clarissa — diz. Tudo isso porque a encontrei. — Se principiarmos pelo barbeiro de Kafka. deskafkaizado pela peregrinação ao cemitério.

Claire adormece sobre as roupas que colocara em cima do cobertor. então.. em conversa animada. porque são os mais apreciados por professores como Baumgarten. terminando os trabalhos daquele período letivo com três obrasprimas relativas às paixões ilícitas e incontroláveis. que vá para o inferno". devendo retornar dentro de uma hora.que as escolhe para os homens. Resolvi dar nos primeiros semestres assuntos relativos ao erotismo. ele respondeu-me que a maioria das prostitutas de Praga são secretárias e empregadas de lojas e que. enviou-me Claire. saem para fazer a vida com a tácita aprovação do governo. Passando pelo saguão do hotel. Arrumando os seus pertences. Aquela noite. E. Depois. depois do jantar. Sem despertá-la. sinto-me avassaladoramente apaixonado. aos pares. naquele mesmo dia. Gombrowicz e Genet. atrás da grande porta de vidro do café. disse: "Impossível contentá-lo. destinados ao curso de literatura comparada do próximo ano.. à noite. Enquanto arrumo minha roupa na valise. Algumas trabalham em tempo integral no Ministério do Interior. deixo-lhe um bilhete dizendo que fui dar uma volta. subiu ao nosso quarto a fim de nos prepararmos para partir na manhã do dia seguinte. romances nos quais o autor está visivelmente envolvido em situações morais alarmantes). juntamente com os livros que estivera lendo nos aviões e à noite. Quando perguntei ao Professor Soska como é que tudo isso se organiza sob o regime socialista. As moças de minissaia que vejo no café provavelmente ali estão para receber os membros da missão comercial que . a fim de obterem informações das várias delegações. na cama. sentadas à mesa. Ana Karênina e Morte em Veneza. Mais cedo. Além do diário de Kafka e da biografia de Brod — meus guias suplementares para a velha cidade de Praga —. começando pelos inquietantes romances contemporâneos que tratam do sexualismo lascivo e perverso (assuntos perturbadores para os estudantes. tenho comigo livros de Mishima. tiro as roupas de Claire de cima da cama e ponho-as na valise. que se manifestam por outros meios: Madame Bovary. tanto do Oriente como do Ocidente. noto a presença de quinze ou vinte jovens prostitutas sentadas sozinhas. havia apenas três delas. que passam pelos grandes hotéis. olhando para baixo em minha direção.

sorri para meu lado. exceto mistério e enigma. meu olhar vai percorrendo o vulto indistinto de Jan Hus até pousar na igreja. Já passa das nove horas quando chego. Acompanhada de uma amiga cujo animalzinho de estimação parece ser o próprio cabelo. É aqui que principio a estruturar na minha cabeça o que de início me parece não passar de capricho.". impregnado pelo espírito de sátira com que principiei. "Honrados membros do curso de literatura 34 — estas são as minhas primeiras palavras. de todo o coração. isto é. que me parece uma das mais encantadoras e extraordinárias da literatura: "Ilustres membros da Academia! É para mim uma grande honra o convite de Vossas Excelências para que eu faça perante esta academia o relato de minha vida passada na qualidade de macaco". conto que fala de um macaco que se dirige a uma reunião de cientistas.. agora só há a fonte de pedra lisa e gasta. que acaricia a barriga do cachorrinho marrom aconchegado entre seus braços. a caneta na mão. e a imensa e melancólica praça está totalmente vazia. Alisa-o como se fosse de uma outra pessoa. mas a essa altura já estou de volta ao hotel. Trata-se de um conto de apenas umas mil palavras. No lugar onde horas antes os ônibus de turismo haviam estacionado. as primeiras linhas da aula inaugural do meu curso de literatura comparada. Uma delas.. escrevo no papel timbrado do hotel uma aula inaugural formal (não insensível à prosa impecável e professoral do macaco) que desejo. através da fina camada de névoa. digo ao garçom para levar um . Sento-me num banco debaixo de um lampião e. Levantando a cabeça do trabalho que estou fazendo. O lugar está totalmente vazio — de tudo. onde Kafka e Brod costumavam passear à noite. sobretudo a introdução. está a prostituta do cachorrinho. do qual gosto imensamente. e. ornada apenas pelas sombras das antigas fachadas que a circundam. sentado numa mesa vazia a um canto do café. mas agora mesmo! A uma distância de duas mesas. não em setembro. cujos pontos mais obscuros o escritor judeu desvendava espiando pelas aberturas secretas. de Kafka.ocupa a maior parte do andar abaixo do nosso. dar. Correspondo ao sorriso (não custa nada) e sigo para a Praça da Cidade Velha. inspirada no Relatório a uma academia.

Não tenho obrigação de fazê-lo e até chegar a esta sala e sentar-me no meu lugar eu não tinha certeza de que o faria. Como já devem ter imaginado — tanto pela minha maneira de vestir como pelo estilo de minhas observações iniciais —. mendigos. caso se preocupem com isso. Embora. continuo a escrever o que me parece ser da maior importância para minha nova existência feliz. que em tais circunstâncias um grande vínculo de amizade pode se criar. "Saúde". nenhuma delas mais velha que Claire. pois qual é a justificativa de desvendar a vocês os fatos mais íntimos de minha vida particular? É verdade que vamos nos encontrar para falar sobre livros por três horas semanais. E. mesmo durante os tumultuados últimos anos. enquanto estivermos lado a lado conversando. diz a prostituta acariciando o cãozinho. eu ainda prefiro aparecer diante de vocês para lhes dar aula de paletó e gravata. também sabemos que o fato não me autoriza a condescender com o que não passar de impertinência ou mau gosto. Disseramme que eu sou um dos poucos professores que ainda se dirigem aos estudantes na sala de aula tratando-os por 'senhor' ou 'senhorita' ao invés de chamá-los pelo nome. E quando estudantes do sexo feminino vierem ao meu gabinete para tratar comigo de qualquer assunto. durante os dois semestres vindouros. Entretanto.. e sei por experiência própria. e depois de trocarmos sorrisos sedutores por rápidos instantes. e peço um para mim também. como acabo de fazer a apenas uns poucos minutos.. E ainda posso mudar de idéia. como alguém mais observador poderá notar. verão. serão sempre o mesmo paletó e a mesma gravata. as convenções que tradicionalmente regem as relações entre aluno e professor são mais ou menos as que sempre adotei. . Alguns de vocês acharão graça quando me virem tirar o relógio do pulso. como vocês também sabem. ciganas ou ladrões de gado. "Ao invés de passar o primeiro dia de aula falando da bibliografia e da finalidade deste curso. que durante todo o tempo de sua permanência em minha sala a porta que dá para o corredor ficará aberta.conhaque para cada uma dessas belas meninas trabalhadoras. gostaria de contar a vocês algumas coisas sobre a minha pessoa que jamais divulguei anteriormente a nenhum de meus alunos. embora vocês resolvam se vestir como mecânicos.

até os mais excêntricos e rebarbativos.colocando-o em cima das minhas notas no início de cada aula. nos seus momentos mais valiosos e de maior perplexidade. Faço essa sugestão na esperança de que. mas parece que deve ter causado uma grande impressão sobre mim. afastando a tentação de incluí- . como modificadoras de tudo quanto possa existir na face da terra. naturalmente. A essa altura. Vocês deviam fazer uma experiência. usadas por muitos dentre vocês e no intuito de dar maior ênfase às suas observações. Tudo isso não quer dizer que deseje esconder de vocês o fato de que sou feito de carne e osso — ou que ache que vocês desejam. Posso apresentar-me a vocês de paletó e gravata. mas não obstante vou pedir-lhes que se abstenham de falar em 'estrutura'. juntamente com as tão decantadas palavras. 'símbolos' na minha frente. Quando chegarmos ao fim do ano talvez vocês já estejam um tanto cansados da minha insistência sobre a relação entre os romances que são lidos por vocês para este curso. 'existencial'. abandonando os termos 'trama'. Na verdade. 'persona' e. 'forma'. Vocês descobrirão (e nem todos aprovarão) que não concordo com alguns de meus colegas que nos dizem que a literatura. num relacionamento mais apropriado à heroína de Flaubert. ao falar de Madame Bovary na linguagem mais ou menos semelhante à que vocês falam com o quitandeiro ou a namorada. é 'fundamentalmente sem referência'. ao desejo erótico fez-me pensar que a escolha de leituras cujos assuntos lhes são familiares poderão auxiliá-los ainda mais a localizar esses livros no mundo da experiência. Parece-me que muitos de vocês foram bastante massacrados no primeiro ano de universidade e devem agora ter oportunidade de se recuperar. direi mesmo. o fato de todos os romances a serem lidos no primeiro semestre se referirem. com maior ou menor grau de intensidade. mais interessante. e o que vocês conhecem da vida. posso dirigir-me a vocês tratando-os de 'senhor' e 'senhorita'. tentando não empregar qualquer terminologia de sala de aula. tais como 'epifania'. tornando justificados esses interesses e entusiasmos que os levaram a ler a ficção da qual agora não devem envergonhar-se. até mesmo no decurso deste ano. como sinal de um profissionalismo que ainda admiro. 'personagem'. não me lembro mais qual de meus professores costumava prestar atenção a cada minuto que passava dessa forma. vocês se situem em um relacionamento mais íntimo.

Para mim. ilusão. Perguntome se sabem como é comovente ouvi-los falar. mas como o primeiro tema deste semestre? Permitam—me que lhes responda do fundo do coração. raramente encontrarão alguém. com uma única frase. . textos escolhidos e gente como vocês. 0 que vá lhes falar ou ouvir o que vocês falam e ouvem uns aos outros e a mim. quer leigos. não na qualidade de professor. calamidade e morte. Às vezes.los nesse reduto profundo e manipulável de recursos narrativos. quando a maioria dos homens e mulheres preferem ou guardar tais assuntos totalmente para si próprios. Raramente fico tão satisfeito como quando estou aqui. meus jurados. paixão. O que havia a dizer para ganhar tempo já foi dito. Tampouco é provável que vocês encontrem facilmente oportunidade de falar sem constrangimento daquilo que teve maior significação para homens tão marcados pelos conflitos da vida como Tolstói. Muito bem. meus confidentes. sofrimento. se encontrarem. Por que razão escolhe um auditório. agora. chegou a hora de revelar o que não é revelável: a história do desejo do professor. Mann e Flaubert. muitos dos quais não conhecia anteriormente. esperança. nem mesmo como estudantes. ao término dos anos de universidade. espero que. Apenas não posso ainda começar sem que tenha dado a mim próprio. no decurso da argumentação sobre a obra — quando um de vocês. se não aos seus pais. doença. de metáforas e de arquétipos míticos. ou revelá-los somente aos seus confessores da máxima confiança. tão profundamente e com a maior seriedade. medo. por que razão exponho meus segredos a gente com metade da minha idade. nesta pequena sala luminosa e despojada. Acima de tudo. . jovens estranhos. de solidão. tenho vontade de gritar: 'Caro amigo. ao ler esses livros. Eu mesmo espero aprender alguma coisa. . guarde bem esta frase!' Por quê? Porque. com minhas anotações. vocês aprendam alguma coisa de valor sobre a vida em seus aspectos mais intricados e exasperados. não existe nada na vida que se compare à sala de aula. saudade. quer religiosos. amor. Por que razão se torna urgentemente necessário ou mesmo conveniente que eu me apresente a vocês. perda. Adoro lecionar literatura. corrupção. atinge a essência do livro que tem em mãos —. uma explicação satisfatória dessa idéia de escolhê-los para meus voyeurs.

meias pretas rendadas. minissaias de cores pastel.Comovente porque vocês têm dezenove ou vinte anos. outros vestem filactérios ao raiar do dia. Sou devotado à obra de ficção e asseguro que lhes falarei de tudo quanto sei a esse respeito. Uns se põem de joelhos para o culto dos sábados. Oportunamente falarei desse assunto também. por estranho e triste que pareça. — Uma carta para sua mulher? — pergunta a que acaricia o cãozinho e fala inglês. quer queiram. . da paciência e do dinheiro de vocês? A fim de tornar mais peremptória a minha declaração. dentro de seus suéteres brancos de angorá. ainda sentadas defronte a mim. Na verdade. Certamente. pouco profissionais e condenáveis. em sua maioria.. desejo apenas apresentar-lhes as minhas credenciais como professor do curso de literatura 34. gostaria de continuar agora. se possível. mas na verdade nada é tão vivo dentro de mim quanto a minha própria vida. E eu compareço três vezes por semana. e fazer-lhes uma exposição clara da vida que anteriormente levei como ser humano. que lhes parecerão indiscretos. para ensinar-lhes as grandes obras.” As duas pequenas prostitutas continuam sem ser atendidas. Entrementes. alguns de vocês ficarão surpresos com certos trechos dessas revelações. Meus amigos. peçolhes que sejam indulgentes com meu humor variável.. são de classe média abastada. com o maço de papéis na mão. Não obstante. de gravata no pescoço e relógio em cima da mesa. este ano fui vítima de uma grande emoção. talvez esta seja a última oportunidade que vocês terão de refletir seriamente sobre as forças inexoráveis contra as quais um dia terão de lutar. quando me levanto para deixar o café. digo que a sala de aula é para mim o que a igreja é para o verdadeiro crente. se vocês me permitirem. sapatos de saltos altíssimos — mais pareciam crianças que houvessem saqueado o guarda-roupa da mamãe para se vestirem como "vaga-lumes" numa sala de filmes pornográficos —. Será que me expliquei bem por que razão creio que a sala de aula é realmente o lugar mais apropriado para a história do meu erotismo? Será que o que acabo de dizer torna mais legítima minha apreensão do tempo. não têm um passado de experiências depressivas — mas também porque. quer não.

— Adeus. minha verdadeira companheira do outro sexo. elas já conhecem todos os tipos. Melhor. C. verdadeiramente capaz. um deles certamente com a pequena prostituta tcheca e o seu cãozinho —. verifico que não consigo reconstituir os emaranhados meandros dos sonhos que tanto me desafiaram e agitaram a noite toda. — Para as crianças — digo.. aquele tépido animal da minha espécie. Ao acordar de manhã bem cedo com o bater de uma porta no quarto abaixo do nosso — onde os búlgaros dormem. vou fazê-lo feliz. Dobrando as folhas em duas. coloco-as com os livros no fundo da valise. Talvez pensem que tive um momento de emoção por ter pago a bebida para elas. abençoadamente..” Oh.Não resisto ao olhar lânguido que ela me lança. acordo banhado em suor. Ela faz um sinal para a amiga que alisa os cabelos. Aos dezoito anos. muito boa noite — diz a mais sabida. no entanto. amei-o tanto hoje. Sim. Sinto-me absolutamente triunfante. Depois. eu venci. senhor. juntamente com o bilhete de Claire que promete fazer feliz seu querido. se na cama e com quem. por alguns intempestivos segundos sem noção de onde me acho. Talvez seja verdade. Pensei que iria dormir maravilhosamente e. dando-me um sorriso afetado e inofensivo como lembrança do encontro. encontro Claire. Há um bilhete para mim em cima do travesseiro: "Meu querido. elas conhecem o meu tipo. vejo que Claire vestiu a camisola e já está debaixo dos cobertores. Aqui está a prova! E as frases escritas nas folhas de papel em minhas mãos? Quase não parecem repletas de conotações com meu futuro como pareciam quando. . e cingindo-a em meus braços atraindo essa pura forma da criação de encontro ao meu corpo — principio a recordar o longo e ofensivo episódio que se desenrolou mais ou menos da seguinte forma: . eu vinha da Praça da Cidade Velha em direção ao hotel. doido para encontrar um pedaço de papel onde pudesse fazer meu relatório à minha academia. Em nosso quarto. apressado. .

quase oitenta anos. mas não faço nada para ter certeza. A mulher. Aposto como você não é anarquista. explica-me ele. Meu pai e eu até hoje nos amamos. — Desde a idade de doze anos — X responde. Aonde quer que vá. as mãos cheias de artroses. numa casa carcomida à beira do rio. — Não. — E como estava Veneza sem a sueca? — X pergunta ao entrarmos no bonde do cemitério. bochechas caídas.Encontro-me no trem com um guia tcheco. Gostaria de encontrar a prostituta que Kafka costumava visitar? — Essa pessoa existe? E ainda vive? — Gostaria que o levasse para falar com ela? Respondo só depois de certificar-me de que ninguém está espreitando: — É o que mais desejei na vida. — Nada. Chama-se X. . cabelo branco. — Então. — Morta. Viu o corpo do pai morto e pensou: "Este homem que sorria para mim e me amava não vive mais. Parece que os anarquistas são assim. serei um estranho e um inimigo pelo resto da vida". Nunca mais alguém vai sorrir-me e amar-me como ele. Desconfio de que é realmente Herbie Bratasky. tenho uma coisa para você começar. Pergunto a mim mesmo: "A viúva de um anarquista recebe pensão do governo?” — Ele foi anarquista toda a vida? — pergunto. Acredito nos mandamentos da lei. — Desde quando o pai morreu. "como no alfabeto". Vive sentado na cadeira de balanço na pensão de seu falecido marido. olhos azuis e doces. Para ir ao apartamento tem-se de subir quatro lances de escada. um anarquista. Certa vez ele me explicou como é que o fato se deu. estou acabando de chegar. nosso mestre-de-cerimônias. — E o que viu até agora? — pergunta X quando eu desembarco.

Da janela do apartamento, vejo a impetuosa corrente do famoso Moldau. "Olhem lá, rapazes e moças", dirijo-me aos meus alunos, na classe, "esta é a piscina onde Kafka e Brod iam nadar juntos. Vejam, é como contei a vocês: Franz Kafka era real, Brod não o inventou. “Eu também sou real, ninguém está me fazendo diferente do que sou.” X e a velha conversam em tcheco. X diz-me: — Disse a ela que você é um americano muito importante, uma autoridade na obra do grande Kafka. Pode fazer-lhe as perguntas que desejar. — O que pensa ela de Kafka? — pergunto. — Quantos anos ele tinha quando ela o conheceu? Quanto ano a tinha? Em que data, exatamente, tudo isso aconteceu? X (traduzindo): — Ela diz: "Ele chegou, eu olhei para ele e pensei: 'Por que razão este menino judeu está tão deprimido? '“ Ela pensa que foi em 1916, e diz que tinha então vinte e cinco anos. Kafka tinha trinta e poucos. — Trinta e três — digo. — Nascido em 13. E, como aprendemos nos anos que estivemos na escola, três para seis são três, oito para um não pode, tem-se que pedir emprestado do algarismo precedente, oito para onze são três, oito para oito é zero, e um para um é zero, de modo que a resposta certa é trinta e três. Quantos anos tinha Kafka quando visitou esta prostituta? A outra pergunta: Qual é, se houver, a relação entre a prostituta de Kafka e o conto O artista com fome? X diz: — E o que mais gostaria de saber? — Ele era capaz de ereção regular? Podia, em geral, ter orgasmo? Acho que os diários não chegam a uma conclusão. Ela responde com os olhos brilhantes, mas as mãos aleijadas pousam inertes em seus joelhos. Em meio ao indecifrável idioma tcheco, pego uma palavra que me arrepia:

"Franz"! X meneia a cabeça com ar grave. — Ela diz que isso não era problema. Ela sabia como lidar com um rapaz como ele. Devo perguntar? Por que não? Afinal, não vim só da América, mas do esquecimento, para o qual retornarei. — E como era? Ainda com toda a naturalidade, ela conta a X o que fazia para despertar o autor de... “Citem as principais obras de Kafka em ordem cronológica. As notas serão afixadas no quadro. Os que desejarem sugestões para os estudos superiores de literatura queiram fazer fila defronte do meu gabinete para serem chicoteados até não agüentarem mais.” X diz: — Ela quer dinheiro. Dinheiro americano, e não coroas. Dê-lhe dez dólares. Entrego o dinheiro. Qual a sua utilidade na região do

esquecimento? "Não, não será no final.” X espera que ela acabe para traduzir: — Ela lhe dava chupadas. Provavelmente, por muito menos do que me custou para saber. Existe uma coisa chamada esquecimento, e uma chamada fraude, contra a qual também me rebelo. Naturalmente! Esta mulher não é ninguém, e Bratasky fica com a metade. — E Kafka conversava sobre quê? — pergunto com um bocejo, para mostrar o quanto me importava com aquelas coisas. X traduz a resposta da velha, palavra por palavra: "Não me lembro mais. Talvez nem me lembrasse no dia seguinte. Olhe aqueles meninos judeus às vezes não diziam nada. Eram como pequenos pássaros, nem mesmo piavam. E vou lhe dizer nunca me batiam. Eram rapazes limpos. Roupa de baixo limpa, colarinhos limpos. Jamais pensariam em vir aqui com alguma coisa suja, nem mesmo um lenço. É verdade que eu sempre os lavava com um pano. Sempre me preocupei com a higiene. Mas eles nem precisavam

disso. Eram limpos e eram uns cavalheiros. Nunca me bateram, Deus é testemunha. Mesmo na cama eram bem-educados.” - Mas há alguma coisa em particular a respeito de Kafka da qual ela se lembre? Eu não vim até ela, a Praga, para falar sobre meninos judeus bem-educados. Ela ouviu a pergunta e pensou um pouco antes de responder ou, o que é mais provável, não pensou. Apenas conserva-se ali sentada, fazendo tudo para parecer morta. — Ele não era tão especial assim — diz finalmente. Não quero dizer que não fosse um cavalheiro, todos eram uns perfeitos cavalheiros. Viro-me para Herbie (pois me recuso a fingir que acredito que é um tcheco chamado X): — Bem, sinceramente, não sei o que vou perguntar mais, Herb. Tenho a impressão de que ela está confundindo Kafka com outra pessoa. — A mente desta mulher está afiadíssima — Herbie responde. — Entretanto, ela não é exatamente um Brod. A velha prostituta, pressentindo que eu talvez tenha percebido isso, toma a palavra de novo. Herbie diz: — Ela deseja saber se você quer ver sua xoxota. — Para quê? — pergunto. — Devo perguntar? — Por favor. Eva (Herbie diz que é este o nome da senhora) responde finalmente: — Ela acha que pode ter algum interesse literário para você. Outros, como você, que vieram procurá-la por causa de seu relacionamento com Kafka, teve muito interesse em vê-la e, após averiguar as credenciais dos referidos senhores, ela condescendeu em mostrá-la. Está dizendo que, pelo fato de você estar aqui recomendado por mim, ficaria encantado se você também desse uma olhada rápida.

— Eu pensei que ela apenas tivesse dado uma chupada em Kafka. Realmente, Herb, qual poderia ser meu interesse por sua xoxota? Como sabe, não estou em Praga sozinho. Tradução: — Ela admite francamente não ver razão para que alguma coisa nela interesse a alguém. Está muito satisfeita com o dinheiro que consegue ganhar em virtude de sua amizade com o jovem Franz, sentindo-se lisonjeada pelo fato de seus visitantes serem também pessoas distintas e cultas. E, se o cavalheiro não tem interesse em examinar. .. E por que não? Por que razão vir ao destroçado âmago da Europa senão exatamente para examinar isto? Por que ter jamais vindo ao mundo senão para vê-la? "Estudantes de literatura, vocês precisam vencer os escrúpulos de uma vez por todas! Vocês precisam olhar de frente as coisas indecorosas! Vocês precisam descer de sua superioridade! “Ali, ali está o seu exame final.” Vê-la custariam mais cinco dólares. — Esta história de Kafka é muito bom negócio — digo. — Antes de mais nada, considerando o seu campo de interesse, esse dinheiro é dedutível do seu imposto. Segundo, por apenas cinco dólares você está dando um golpe nos bolcheviques. Ela é a única em Praga que ainda trabalha por conta própria. Terceiro você está auxiliando a preservar um monumento literário nacional... Você está prestando um serviço aos nossos escritores que sofrem. E por fim, mas não menos importante, pense no dinheiro que você já deu a Klinger. O que são cinco dólares mais para servir à causa? — Como? Que causa? — A sua felicidade. Queremos fazê-lo feliz, fazê-lo finalmente ser você mesmo, querido David. Você já negou muita coisa a si própria. Apesar da artrose das mãos, Eva consegue puxar o vestido para cima, enrolando-o na cintura. Herbie, entretanto, teve que agarrá-la com uma mão, virá-la com as nádegas para cima e arregaçar as calças para ela. Hesitante, ajudo, segurando a cadeira de balanço.

Além disso. — E o que era? — Não creio que seu pai quisesse que você ouvisse isso. — Ela gostaria de saber — diz Herbie — se o cavalheiro teria vontade de tocá-la. significará o fim para ela. para mim. Dave. Talvez ela tenha dito isso porque você a insultou. obrigado. com a recusa de tocar com um dedo sua famosa xoxota. E novamente o cavalheiro cortesmente recusa. Além disso. uma triangular mancha preta colada como um bigode. Sua grande excitação. etc. os circunspectos eruditos não mais voltarão para lhe apresentar seus respeitos — o que. pelo menos para você. o que foi que ela disse agora? — Creio que não devo repeti-lo. naturalmente. e. Ou o pai do seu pai.Uma barriga coriácea e pregueada. Mais uma vez ela assegura ao cavalheiro que não vai lhe custar nada. o fim também da iniciativa . a língua ainda rosada. se posso expressar-me assim. — O que foi Herbie? Quero saber! — Uma coisa indecente — disse Herbie. ela tem medo que você. Como vê. pernas descarnadas e estropiadas e. o mais espantoso de tudo. gratuita. Agora Eva sorri — entre os lábios entreabertos. conte a seus colegas que ela é uma fraude. — E em quanto vai ficar isso? Herbie repete a pergunta em tcheco. você lançou dúvidas — não involuntariamente — sobre o próprio significado de sua vida.. A polpa da fruta ainda rosada! — Herbie. sem nenhum fundamento. Fico em dúvida quanto à autenticidade dos pentelhos. ao voltar para a América. retrocedendo até o Pai dos Fiéis e Amigo de Deus. talvez tenha sido apenas uma observação maliciosa. E então. rindo entre dentes — sobre o que Kafka mais gostava. Depois. com uma mesura elegante: — Cortesia da casa. — Não.

é verdade. esfrega a face no ombro de Herbie. li minha dissertação intitulada "A arte com fome" — resolvemos dividir o aluguel de uma pequena casa no campo. você não mudou. quando nenhum de nós podia nem ver os sapatos do outro no armário. e três dias mais tarde para Bruges. cerrando os olhos azuis. poderia enganar qualquer um mas não a mim. de avião. A polpa do fruto. onde. e. Quando voltamos de nossa viagem pelas belas cidades — depois do sonho que tive em Praga de uma visita à prostituta de Kafka. Digo claramente a palavra "desagradável". oh. Qual outra maneira melhor de passar o verão? Entretanto. meiga Claire — compreende muito bem o que quero dizer quando digo isso. enquanto o corretor que fez o contrato de aluguel. seguimos para Paris. Vejo-a espichar a ponta da língua para fora da boca. Brataski. os dias funestos anteriores ao fiasco de Hong Kong. Constituiria nada mais do que a vitória final dos bolcheviques sobre os homens livres. a qual. e. agora com as faces tristemente inundadas de lágrimas. desde que nasceu até a época em que pôde ir para a universidade e viver . Nessas condições. coloca as mãos entre as pernas nuas da mulher. Então Herbie aproxima-se da velha. não penso em outra coisa a não ser na última vez que convivi diariamente com uma mulher. devo dizer. entrelaçando os dedos como se fosse captar o fio de água de uma nascente. — Oh — gorgoleja ela —. — É pena que não possa dizer o mesmo de você. excetuando essa nova vida rotineira. nem um pouco. mas dessa forma sempre haverá um lugar para onde nos retirarmos se algo desagradável acontecer. uma vez tomada à decisão. Claire — a prudente. lá de seu gabinete. ainda rósea. Criada por pais em constantes e severos conflitos. antes de assinar o contrato de aluguel da perfeita e pequenina casa que havíamos encontrado. numa conferência sobre a nova literatura européia. paciente.privada em nosso país. a caneta na mão. — Bem. oh —. para ali passarmos os meses de julho e agosto. sugeri que talvez fosse melhor não sublocar nenhum dos apartamentos na cidade durante aqueles dois meses — um pequeno sacrifício financeiro. me dirige olhares muito pouco satisfeitos.

a vinte milhas ao norte de Catskill. ficamos cada vez mais em forma. que verão! Com o regime de nadar todas as manhãs e caminhar durante as tardes. a não ser o travesseiro! Mais tarde — ainda não são onze horas? Realmente? Já havíamos comido nossa torrada com canela. Chegar à sala caiada de branco. como também a compartilhar de uma casa. E para mim. se bem que isso não pareça interessá-la tanto quanto no ano passado. Não. não se opõe a ter um cantinho para onde correr. tornando-se a partir dos dezessete anos uma jovem independente. concorda. interiormente. isto é. as aprazíveis colinas verdes e as distantes montanhas azuladas que vejo da janela do sótão recordam-me o panorama descortinado de meu quarto na minha infância exatamente aquele que via do alto do anexo —. de dois andares. finalmente estou vivendo de acordo com meu verdadeiro gosto. quão diferente dos meses e meses em que eu acordava sem nada para me agarrar. ensolarada. inteiramente no "meu lar". Oh. ido à cidade para comprar o jantar. enquanto. E que festa para o espírito levantar-se bem cedo pela manhã!. pelo tempo em que tudo correr bem. com a solenidade de um comandante-emchefe japonês que se prepara para assinar a rendição de um império a bordo do navio de guerra de MacArthur. vemo-nos tão gordos quanto os porcos da fazenda dos vizinhos. Trata-se de uma casa de campo de madeira. Escolhi o distrito de Sullivan. ao longo de uma estrada silenciosa e sem movimento. para alegria do espírito. do outro lado de Cape Cod. dado nosso mergulho no mar. meditado sobre as notícias da primeira página . situada na encosta de uma colina coberta de dentes-de-leão e margaridas. E. corroborando o fato de que. Conseqüentemente. com os braços ao redor de seu corpo robusto. como gosto do tamanho de Claire estendida na cama! Aquele corpo palpável! E o peso daqueles seios em minhas mãos! Oh. a aldeia onde me criei.sozinha. afixo minha assinatura ao contrato de aluguel. o que também é muito bom para Claire por causa da proximidade do Vineyard e de Olivia. com ela. não alugaremos nossos apartamentos.

Nosso pomar de macieiras. de Schenectady. inclinada sobre seu jardim. a história da minha vida em seus mais desconcertantes e loucos aspectos. e não passa de dez e quinze? — mais tarde. enquanto no outro. Basta-me vê-la arrastando-se de joelhos. A música. Empilham-se a meu lado dois blocos de notas. — Por que não vem ajudar-me a tirar as ervas daninhas? — ela me chama. A arte com fome. o que cativa realmente não é nada. como queira — ela diz. em suas linhas gerais. tudo quanto me agrada. minha crítica das iniqüidades. nas montanhas de Catskill. professora do sexto ano. — No seu tempo. — Tolstói o teria feito. deixe-me dizer a você tudo quanto eu quero. envergando um macacão do próprio Tom Sawyer. Os churrascos. a guisa de título) "Como David Kepesh vem a estar sentado em sua cadeira de balanço de vime numa varanda coberta. Resolver qual o passeio da manhã e qual o da tarde. Clarissa. Um. As conversas na cama. . minúsculo como o de um animal carnívoro. e o pequeno rosto inocente de menonista inteligente. . Mas eu não.do jornal. Nova York. . observando com satisfação uma jovem de vinte e cinco anos. ele era um grande romancista — digo — e naquela época eles tinham que fazer essas coisas para ganhar experiência. sujo de terra como se fosse para um baile índio no congresso de bandeirantes — e com a felicidade nas mãos". cujo prólogo principiei no café de Praga. abstêmia. As tempestades. após a conferência de Bruges. A piscina onde nadamos. Ah. o cabelo preso por um pedaço de cordão que ela cortou do carretel de barbantes com o qual escora a begônia quase murcha. Olhar para você de cabeça baixa tirando a casca dos pêssegos e debulhando o milho. — Bem. da cadeira de balanço onde faço meu trabalho matinal. Entretanto. cujas páginas escrevo com mais emoção e ansiedade — e no qual obtenho melhores resultados — . que nada! Nações vão à . (ou. observo-a nas lidas de jardinagem. denominado. Oh. contém o projeto de um livro sobre Kafka. . das coisas incontroláveis e impetuosas. 0 entro no âmago da conferência. O chá gelado de sua avó.

como também o misto de crueldade e ternura. Não mais sucumbimos ao desejo. uma vez iniciado. certo dia. devesse continuar imutável por quase um ano. línguas e membros. no seu clímax. a insinuação de total sujeição que se adivinha na vermelhidão da equimose. Nossos dentes. em outras circunstâncias. o ente depravado. em que não nos podíamos largar em cima da cama. tendo já arriscado tanto e perdido tanto da minha volúpia sob a bandeira de Sua Majestade Real. esteja de certo modo sendo impelido para um despenhadeiro e já bem próximo do gélido e solitário abismo ao qual. . tomar banho juntos e depois sair para respirar ar puro antes que o sol de inverno declinasse. idealistas e industriosos tivessem se unido como as conchas do mar e que. Na verdade não sou mais uma criatura animalesca nem tampouco é vulgar seu comportamento.guerra por essa espécie de nada. semelhantes a presas de animais. Naturalmente agora a paixão entre nós não é mais a dos domingos. agora são simplesmente nossos dentes. pegando-nos. como disse Claire. o supliciado sem cura. com aquela inextinguível loucura tão estranha ao que. e. Será possível que eu pense diferente. finalmente. o violentador inflexível. A nossa exaltação ultrafrenética está se transformando em afeição física. nem nos tocamos por todo o corpo. Está havendo um equilíbrio. ao invés de repousar em suave intimidade e recato. será possível que. chegassem ao ponto de se dilacerar como dois canibais — eis o que eu jamais ousaria prognosticar para mim mesmo. descerei? Não há dúvida de que o elemento brutal já desapareceu. ali permanecendo até as três da tarde — "o caminho florido da nossa loucura". para mudar a roupa da cama. na ausência desse nada. Que o nosso amor. somos ou fazemos. a lascívia com que nos comprazemos na palavra grosseira murmurada no auge do prazer. havendo feito mais do que me era permitido fazer. apalpando-nos. que terminavam quando nos levantávamos como dois viajantes exaustos. as pessoas murcham e morrem. Nenhum de nós continua a ser o lunático insaciável. que dois professores responsáveis. que naqueles tempos pareciam navalhas e pinças afiadas. Assim explico o que está acontecendo com a nossa paixão no decurso desse verão feliz. ao descrever essas demonstrações de paixão voraz.

ou então uma que fale sobre ela. ela. assim como eu. Dessa forte excitação. assim como com uma infinita sensação de bem-estar. numa das mais belas tardes do mês de agosto. Não farei uma religião do que se esvai da minha ânsia pelo manancial no qual mergulho o rosto como para extrair o último trago de um néctar que não pode saciar meu desejo.. com a lembrança de cinqüenta dias maravilhosos e a profunda satisfação de saber que ainda restam mais uns doze. E perante quem estou de joelhos procurando fazer esse pacto? Quem vai decidir a que ponto me distanciarei de Claire? Prezados participantes do curso de literatura 341. e duas que. imaginando que é Helen voltando todas as vezes que o telefone toca ou ouço o roncar de um motor de carro subindo a rua íngreme. horas do dia ou da noite constituem uma ridícula intromissão. Ao acordar no meio da noite e me lembrar de como vivia e como vivo agora — e isso acontece com demasiada freqüência —. assistem —. associados no amor. Não desejo nutrir ilusões de renascimento do drama que estivemos prestes a viver. agarro-me a minha companheira na cama. Todas as manhãs espero uma carta dela. temperatura. Não farei da maravilhosa visão da sua nudez uma religião. na paixão avassaladora. onde preocupações de higiene. lamentando nada me restar por sentir-me esgotado e insensível. dizendo que mais uma vez fugiu para Hong Kong ou que morreu. nem desejarei ou me desesperarei. sem censuras. serei eu próprio. nem brigarei. não sou mais um homem novo — e sei quando o meu número acaba: agora. não censurarei. sou um novo homem — isto é. palpitantes. recebo a visita da minha ex-mulher. esse teatro clandestino. como . não imaginando ninguém mais feliz nem de maior sorte que eu. continuará até que tenha extraído a própria vida do meu corpo. seria. Eu lhes digo. acordar todas as manhãs entrelaçado a ela. Mais tarde. tão forte. E não procurar o algo mais. de quatro furtivas criaturas — duas ativas e arquejantes. subterrâneo. se não reclamo. nessas condições. tão inflexível que. Sim. basta acariciar-lhe o cabelo longo e sedoso. desse espasmo penetrante. estou pronto a me fixar aí. vocês devem estar pensando que tem de ser.Assim. repousar a seu lado na nossa cama. . Pensarei muito nisso nos dias seguintes.

cuja capacidade de auto-avaliação está em perfeito equilíbrio com a capacidade de se deixar levar. robusto e burguês de . de vez em quando. ou pelo preconceito de classe ou social. fico pensando se existiu na América uma romancista com pontos de vista sobre a tomada e o recebimento do prazer pelo menos vagamente semelhantes aos de Colette. . que. Não decidi ainda — dessas decisões meus dias são feitos — se a acompanho à piscina ou se fico calmamente fazendo meu trabalho até a hora de regar os cravos-de-defunto e abrir a garrafa de vinho. ou pelas ambições sinistras. tão profundamente despertado como ela pelo olfato. ou pelo impulso assassino. tão em harmonia com todas as ofertas sensuais do mundo. um devoto fanático da própria sobrevivência honrada. homem ou mulher. Folheando a pilha de livros dessa escritora. as pernas ao sol. Uns a consideraram egoísta. entretanto. tanto americanos como europeus. trinta anos mais velha — e não o contrário. . um conhecedor das mais sutis gradações do sentimento amoroso. Estou lá fora no pomar. o cão de Claire. e. A sua natureza parece ter sido finamente suscetível a todo desejo que almeja e promete "esses prazeres levianamente denominados físicos" — no entanto totalmente inatingidos pela consciência puritana. alguém tão familiarizado com toda a variação das solicitações do corpo. A parte superior do meu bloco amarelo já está salpicada de tinta e rabiscada com as anotações iniciais do plano de aula — em uma das margens há uma longa lista de romancistas modernos. na mais severa e clara acepção da palavra. onde Claire se prepara para ir nadar. a cabeça na sombra. como Colette. agora já conhecido por toda a casa como "Desejo 341". ou pela megalomania. a mais pragmática das mulheres sensuais. e. esteja imune ao fanatismo de qualquer espécie. o velho perdigueiro Dazzle — lendo Colette e tomando notas para o curso. as abelhas e as borboletas. um escritor americano. na cadeira de lona. Desde o café da manhã estou ali — apenas eu. quando ouço o telefone tocar no interior da casa. dentre os quais o paganismo decente. o calor e a cor.se ela é que fosse dez anos mais velha do que eu — vinte.

— Pensei que estivesse usando seu próprio nome novamente. O livro que tem na mão é o Young Tõrless. Ainda não saíra da cadeira. a menos que não queira. como um único auxílio. acariciando a barriga de sua perna: — por que razão não há uma Colette americana? Será Updike o que mais se assemelha? Certamente não é Henry Miller. — Diga-me uma coisa — pergunto. — Há alguém chamando você no telefone — diz ela. de Musil. Claire encolheu os ombros. — Pegaria muito mal se eu colocasse o fone no gancho? . — Helen Kepesh. e Hawthorne tampouco. — Ah. — Ela disse Helen Kepesh? — Sim. — Meu Deus — olho para o relógio. o exemplar no qual eu tomara notas a noite anterior.Colette ainda me parece único — quando Claire passa pela porta de tela da cozinha. é? — Penso que sim. — Você disse que eu estava? — Quer que eu diga que não está? — Que será que ela quer? — Só perguntando — diz Claire —. — Que horas serão na Califórnia? O que quererá? Como conseguiu achar-me? — É uma chamada local. Como fico encantado com a sua curiosidade sobre os livros que vou ensinar! E olhar para a ondulação de seus seios acima do cordão do biquíni constitui ainda uma das alegrias daquele dia maravilhoso. de roupa de banho e carregando no braço o roupão de esponja.

oh. — Apenas desnecessariamente ansioso. é? — Pensei que não podia ir embora sem falar-lhe ao menos ao telefone. "é a única coisa sensata que poderei fazer. aquela senhora. Um verdadeiro poço. Mas ela foi inflexível sobre a privacidade do Professor Kepesh. Helen ainda é uma delas. De uma meia dúzia de pessoas mais chegadas à minha vida.— Errado não seria — diz Claire. Olhe. Como vai você? — Como é que você soube que eu estava passando uns tempos aqui? — Procurei falar com você há alguns dias. . em frente ao escritório imobiliário. Mas acontece que estou aqui na sua terra. — Oh. — Mas eu me sinto desnecessariamente ansioso. eu quase não telefonei. David. Telefonei para a universidade e a secretária do departamento disse que não tinha autorização para me dar o endereço. Tudo isso é tão perfeito. Respondi que era uma antiga aluna e que você não se importaria." Alô — digo. minha querida. Estamos no posto da Texaco. muito bem. — Alô. — Volto já! "Não serei nem cruel nem covarde". olhando para o fone na mesa da cozinha. Sinto-me desnecessariamente feliz. — E eu vou nadar com você. alô. — Ah. minha querida companheira. — vou esperar lá fora — diz. Passo os dedos em sua carne palpitante acima da alça do biquíni. me sinto estranha falando com você. falo comigo mesmo. — Então.

Ela está mentindo. a caminho da piscina. Agora vamos para Vermont. Por algum tempo sofri muito. Eles têm uma casa de verão lá. Agora estou casada. — Nem existe mais Rangum. Sei que é estranho. — Que deseja. — Você acredita que nunca fui à Nova Inglaterra? — Bem — disse —.. Gostaria de. — Estávamos em Nova York. . — Se for possível gostaria de vê-lo um pouco. — Como tem passado de saúde? Ouvi dizer que esteve muito doente. não é tão estranho como as coisas que acontecem. E você. Mas já passou. Helen? — Você quer dizer. não é como Rangum. de você? Nada.. um riso muito suplicante. — Não sabia.— Então. Já podíamos estar no carro. mas é verdade. e eu não acho graça. — Ela ri. — Mas paramos aqui para abastecer o carro por mero acaso. só por pouco tempo.. — Agora estou melhor. mas. como me encontrou? — Telefonei aos Schonbrunn. vejo Claire com o livro fechado nas mãos. como vai? — Meus maus momentos já passaram também. absolutamente nada. — Mas. Afinal de contas. visitando a família do meu marido. Pela janela. Estamos muito longe de sua casa? Gostaria de falar com você. Faz-me lembrar dela na cama. — Sobre o quê? .

— Ou a ela — diz Claire. . — Helen vem aqui. — É melhor você ir nadar sem mim — digo. . Claire está agora virando as folhas do Times. E se nós não estivéssemos em casa? — Diz que estão a caminho da casa de campo da família do marido em Vermont. — Ela se casou? — É o que diz. — Prefere que eu não esteja aqui? — Absolutamente. — Você não me deve nada. — Mas eu preciso dizer. — Então não diga. na minha cadeira. essas coisas são difíceis de dizer rodeada por latas de gasolina. O que eu quis dizer foi que pensei que você preferisse ir nadar. ? Não compreendo. eu estava ficando louca. — Onde estão eles agora? — Na cidade. de jeito nenhum. David. . — Eu estava doida. . — Só se você preferir. Lá fora. David. nem eu a você. A mim.. ficaríamos muito bem sem explicações. a essa altura. com o marido. — Então por que disse Helen Kepesh? — Talvez para identificar-se a você. — Não. — Ela deu toda essa caminhada. Creio que.— Devo-lhe algumas explicações.

esperando juntos. . já deve ter perdido os que ganhou e alguns mais. Afora isso. ainda é a Assombrosa Criatura. diz: — Olhe. Lowery tem barba preta cortada rente. mas eu vou reconhecê-la? Poderia explicar a Claire — será que devo? Que tudo que desejo ver é. Nesse instante. ela fica de pé e. sua palidez não é do tipo anêmico ao qual agora me habituei.. De modo que eis-nos perto do barracão. Helen não terá dificuldade em reconhecer-me. o que é mais visível. Apenas a magreza dos braços e do pescoço denuncia a falta de saúde e. Corro atrás dela. Se assim foi.— Eles não vieram pela estrada direta? — Querida. Talvez viessem pelas estradas internas para ver a paisagem. Esperava um homem mais alto e mais velho — creio que é sempre assim. Ao sair do carro. . Foi você quem me disse para não ficar desnecessariamente preocupado. — Rapidamente. e o cão atrás de mim. A palidez de Helen é luminosa.. ela havia engordado alguns quilos. Não me recordo se está mais pálida. está claro que você não me quer aqui. quando os Lowery chegam. quase chorando (nunca a vi assim!). . transparente. — Se esta é a razão de você permanecer aqui. que há com você? Não. indumentária que talvez possua desde os tempos de Siracusa. ou melhor. pensando que tudo não passa de brincadeira. perto da lata de lixo e do barracão velho. corre para o carro estacionado do outro lado da casa. eles não tomaram a estrada direta. Claire veste o roupão de esponja em cima da roupa de banho. Enquanto o carro segue o caminho ensaibrado que vai dar na casa. — Mas não quero que você se aborreça. já estar por volta dos trinta e cinco anos. Eu estou de short de veludo e camisa de malha desbotada. no período mais agudo de sua moléstia. Qual a diferença? Eles virão e voltarão. Helen parece exatamente a mesma. Ouvi dizer que. tênis velhos. O marido estende-me a mão. não se preocupe.

Enquanto andávamos pela casa e pelo jardim. Claire conversava. Claire já havia mostrado aos Lowery as estranhas conchas de Cape Cod. No princípio do verão. vigorosa compleição atlética. agora sem nenhuma significação. um tanto excitada. Agora. nem me seduzir. Eu mesmo nem me dei conta da freqüência com que lhe narrei àqueles fatos. antes que saia de perto de mim — sem dúvida à vista do meu embaraço quando desliguei o telefone —. Claire caminha na frente com Lês Lowery. ou eles mesmos. que esta mulher não pode me prejudicar. considerando as histórias que lhe contei dos embaraços que ela me causou. Tudo isso nada diz. Alguns minutos antes. ou novos moradores da rua que vieram se apresentar. no cofre. ter-lhes dado o endereço de nosso retiro perfeito não é nem loucura. minha ex-mulher com o seu novo marido. dispostas em cima . pois ela também ficou preocupada sem razão. A única jóia é o anel de casamento. Ambos estão de jeans e sandálias e de suéteres coloridos e o cabelo cortado à Príncipe Valente. Percorremos a casa como se eles fossem compradores em perspectiva. mas um pouco infantilmente também. Provavelmente. na entrada. segundo descobriram. De outra forma. também é assinante da Natural History e da Audubon Magazine. como poderia eu saber se estou totalmente des-Helenizado. um erro perigoso. Dirigem-se ao local onde se encontra uma árvore escura e carcomida. Falava excitadamente. a não ser do mais amoroso e benigno dos espíritos femininos. Sim. enviados pelos corretores de imóveis. só Deus sabe. Como Claire advertiu-me. inclusive na idade. um velho carvalho situado na orla do bosque. Não admira que Helen tenha se apegado ao marido tranqüilo. Nunca pensei quão ameaçadora Helen seria para ela. as esmeraldas estão em casa. não há dúvida. que estou desenfeitiçado de tudo. retirados de uma escavação arqueológica num dia qualquer. que na verdade parece ter mais afinidades com ela. não vale à pena preocupar-me sem razão. nem. a árvore fora atingida por um raio que a partira em dois.óculos redondos de tartaruga e uma sólida. sobre os terríveis temporais do princípio de julho. e que. por ocasião de um tremendo temporal que durou o dia todo. nos primeiros meses de nossa união.

você sempre foi. . — Tenho certeza de que também seria irônica — replica — se eu fosse você e pensasse que ainda era. vejo Lowery deixar o carvalho e dirigir-se ao atalho que atravessa o bosque e vai dar no aglomerado de rochas abruptas. . tantas vezes fotografadas por Claire durante a semana. Lá fora. com duas filhas adolescentes. Helen. É advogado. muito natural. . mas esta gíria. Surpreendeu—me você ter vindo ao telefone. como é que foi a sua conversa com os Schonbrunn? — Falei com Arthur. Você pode estar levando uma nova vida. divorciado. da qual ele participa..de uma bandeja de vime. esteve em evidência devido a uma pesquisa destinada a uma comissão. . Aliás.. — Oh. que está acontecendo? Exceto o "homem bem-educado" há muita coisa para fazer meu epitáfio. para descobrir possíveis cumplicidades entre o crime organizado e a Polícia Marítima . alpinista. Conta-me tudo sobre ele. . Ultimamente. entre os antigos castiçais de estanho. ela não estava em casa. Mas não desejo saber. Digo a Helen: — Ele tem um ar muito jovem para ser um tal Karênin. esquiador. De sociedade com um arquiteto. — Diga-me — interrompo-a —. presente da avó por ocasião de sua formatura na universidade. conseguiu amealhar uma pequena fortuna construindo conjuntos residenciais. — E como foi a reação dele ao ouvi—la depois de tanto tempo? — Oh. Enquanto a minha mulher e o marido de Helen examinam o tronco de árvore atingido pelo raio. tive muito tempo para pensar. — Quando estive doente. Mas isso é porque você é um homem muito bem-educado. no centro da mesa. Meditei sobre. de legislação do Estado da Califórnia. Helen e eu nos encaminhamos para a entrada.

— Oh. custa-me acreditar. admira-me que ele a tenha auxiliado e que você lhe tenha pedido auxílio. Veio depois do trabalho — eram nove horas — e falou sobre nossa infelicidade por quase uma hora. — Desde quando? Você costumava troçar muito dele. ele nunca foi seu grande fã — nem você dele. com a qual quase chegara a se casar em . e foi aí que ele me beijou. ainda mantinha com Debbie ardorosas relações sexuais. fazendo-me sentar junto a ele.— Francamente. — Arthur e eu mudamos nossos pontos de vista sobre nós dois. Em seguida. declarei não saber o que tudo aquilo tinha a ver comigo agora. Depois. Se não me falha a memória. e você mudou-se e eu fiquei sozinha. Estava muito preocupado com você. bibliotecária. contou-me uma dolorosa história sobre uma jovem muito louca. Era muito bem-casado ainda. admitem aquilo que não têm. sentia-me muito infeliz. depois de tantos anos. Helen. e então ele perguntou se nós dois podíamos nos encontrar em San Francisco para almoçar. Não ridicularizo pessoas que admitem aquilo que querem. ele telefonou-me uma noite perguntando se podia vir ao apartamento para conversar. Finalmente. ou pelo menos. explicou-me detalhadamente que não pretendia ter feito aquilo e que o ato não significava o que aparentava ser. e na verdade devia a ela toda a sua vida. Respondi que não sabia. — E em que é exatamente que tenho de acreditar agora? — Quando nós dois voltamos de Hong Kong. e. — Não o faço mais. — E o que deseja Arthur? Está querendo dizer que durante todo aquele tempo ele a desejava? — Não sei se o tempo todo. — Jamais ouvi nada mais fácil de acreditar. um daqueles dias.

a cujo amor e devoção deve tudo que realizou. O que dizem essas cartas? — Oh. Quem iria pensar? — Estou sorrindo — digo — porque também tive minhas cartas da família Schonbrunn. Cleópatra e Helena de Tróia. Nunca se recobrou do que podia ter-lhe acontecido. e quando eu disse que não devia insistir. este verão. Depois. concordei.Minnesota. é uma coisa muito simpática. escritas por ela. onde. Às vezes. de uma forma ou de outra. Então. tão claro e firme como a espinha de um peixe". Na verdade. ou talvez não seja. tudo acabaria num crime. Ainda as recebo de vez em quando. de maneira que não o faço. De qualquer jeito. na hora do café. — Deve escrever aquelas frases umas dez vezes antes de ficar completamente satisfeito. cansada de tanta confusão. Arranjou um lugar qualquer no Bairro Chinês. ferindo-o na mão. e como certo dia ela fora procurá-lo com um garfo. quando se mudaram e foram viver no leste. que não tenho de responder. — Continue. podia nos ver juntos. — Aquela que é o desejo do mundo? — Isso mesmo. "O tempo. Entretanto. Mostrou-me a cicatriz. — É difícil de acreditar. Por que está rindo? Na verdade. principiou a escrever-me cartas. respondeu-me que eu estava perfeitamente certa e que me julgara aquilo que não era. tentou novamente beijar-me. altas horas da noite. acho isso um tanto ofensivo. mas insistiu no convite para almoçarmos juntos. porque trata-se de algo tão "grandioso". realmente. e assim por diante. ou qualquer outra pessoa. E é só. . para sua namoradinha em Smith. são maravilhosamente bem escritas — disse sorrindo. caso tivesse cedido e se casado com ela — chega a acreditar que. já é alguma coisa. inclui poemas sobre Vênus. Bem. ele sempre deixa claro. Acredita que sua salvação foi ter encontrado Debbie. ninguém que eu ou ele conhecíamos. posso lhe garantir. Creio que devem ser da mesma espécie das que o editor de poesia de uma revista universitária escreve.

vejo nosso carro descer a colina em direção à estrada. — Que fim levou Lês? — perguntou Helen. Minha intenção não foi esta. petrificada. Imediatamente estacou. Claire ainda está a uns poucos metros de distância. — Foi dar uma volta. Helen diz: — Ela é extraordinariamente encantadora. se você as visse. Para que não viesse ver-me sentado em frente à Helen. De onde estou. até logo. não recitei um poema. qualquer coisa para que Claire não viesse. e se retira. pela porta de tela. no entanto nós nos calamos quando vemos que volta. tomando uma decisão. — Ela está muito bem. — Uma simples frase em direção à visita. encantado. Fico silencioso. — Por que não tomamos chá gelado? — Não. Esta não foi à razão de minha vinda aqui. ouvir esse silêncio de conspiradores. Para mim.— Não. . e. — E eu sou um homem "muito agradável" — digo. mesmo contra a minha vontade. Trata-se de uma moça forte. Por quê? Quem saberá o porquê? E se nós não nos houvéssemos calado! Por que razão não conversei apenas bobagens. disse: — vou nadar. — E não quis lhe fazer mal. — Vocês não querem um pouco de chá gelado? — pergunto a Claire. O que será que Claire pensa que estamos combinando? Quando o carro desaparece. não houve grandes lances poéticos. — Desculpe-me se aborreci sua amiga ao vir aqui.

foram os malditos ovos que se queimaram. — Se não me engano. Foi confusão. — Oh. — Sempre detestei o modo pelo qual as pessoas matavam o tempo. mas não foi por maldade. As desgraçadas torradas jamais foram ao forno. Mister Lowery não dá a impressão de constituir uma sobra. Tem o ar de uma pessoa vigorosa. — Eu queimava aquelas malditas torradas de propósito. que sabe o que quer. — Bem. E não parece sê-lo. — Você está reescrevendo história. se fosse por maldade. agora. quis prejudicá-lo. Não é preciso. está certo. pego aquilo que posso. não exagere o papel da "castigada". Helen. — Você não foi a única responsável pela nossa desdita. não quero sabê-lo. Parece mais um corajoso homem do mundo.— Outrora. — Você acha? . — Eu me lembro. não teríamos ficado juntos tanto tempo. e porque eu o provocava. — Era propositalmente que eu não punha suas cartas no correio.diz. É a pessoa indicada para você. contra a Máfia e a polícia. Tem-se a impressão de que está dando certo com você. Agora. — O que você me fez foi sem querer. mas. aquilo também morreu. Tem a aparência de um conspirador. Como sabe. Tudo isso está morto. Nós nos atormentamos mutuamente. eu planejara toda aquela grande vida. se é isso que quer dizer. para absolver-se ou apenas para tentar provocar uma reação? Mesmo que seja verdade. e agradeço a Deus por isso. Mas. — Por que está dizendo essas coisas? Para castigar-se. ignorância e outras coisas mais. Isso é verdade . penso que realmente minha intenção era torturá-lo.

esperar nas farmácias para aviar receitas. Olhamos. Meu nariz não parou de correr durante mais de um ano. e um outro me explicou com todos os pormenores de que forma eu era alérgica a mim própria. não deva. Talvez. Então. Ao invés dos maravilhosos cremes e loções. sem pestanejar. E arrependo-me de tê-lo dito. finalmente. só estragavam o estômago. Queria que você visse a minha gaveta de remédios. mais que um pouco — de flerte. Então. depois tomar comprimidos na esperança de que iam curar-me naquela hora. fazer aplicações de raios X. tirar sangue. . que desaparecessem de uma vez por todas de manhã. não podia respirar. Um alergista aconselhou-me a mudar-me para o Arizona. Tudo que fazia era esperar nos consultórios médicos. acrescento: — Você está com uma aparência maravilhosa. outro disse que não adiantava porque tudo estava na minha cabeça.. rezava para que no dia seguinte aquelas rachas desaparecessem como tinham vindo. e terminei com o corpo todo rachado. tomar injeções de cortisona. havia vidros e mais vidros daquelas horrorosas pílulas — e não adiantavam nada. um para o outro. — Você esteve doente de quê? — pergunto. fui para casa. olhar-se abertamente e sem ambigüidade — o prelúdio de uma entrega imediata a mais impudica e excitada das cópulas. Devo ter consultado cinqüenta médicos. — Doente de quê? Creio que tive tudo. — Mas você melhorou. com o qual eu podia ficar todo o resto de minha vida. Talvez deva dizê-lo. meu rosto ficou intumescido. Quase enlouqueci. não sei por quê. meus olhos coçavam sem cessar. ou algo parecido.. deitei-me na cama cobrindo o rosto com os lençóis e sonhei acordada que o meu sangue estava sendo todo retirado do meu corpo e substituído pelo sangue de alguém. Novamente ficamos em silêncio.— Você está com uma aparência terrível — digo. como se fôssemos estranhos que ousam. Certos dias queria atirar-me da janela. Talvez devesse apenas desviar os olhos. Assoavame horas a fio. Quando ia me deitar. novamente penso. Creio que não há meios de evitar um pouco — ou antes.

doente como um cão. porque não sei como ele conseguiu até fazer-me deixar de beber. Só quando tudo acabou. . Então.— Comecei a me encontrar com Lês — diz Helen. Todas as moléstias principiaram a declinar. eu fiquei de tal forma aterrorizada. e a sodomia não me interessa". Não sei como ele pôde me suportar. estou com trinta e quatro anos. petulante. que não nutre nenhuma dúvida sobre si próprio. saímos juntos. Parece-me que ele se apaixonou por você. O que pode fazer aquela que uma vez foi o desejo do mundo? Ser dona de uma elegante loja de antigüidades? Ser uma dessas belezas apagadas? Tirar um diploma e ir trabalhar em alguma coisa? Ser uma dessas belezas no ocaso? . — Meus parabéns. —apaixonou-se por mim — e naturalmente pelo fato de me salvar. Mas eu não o amava. apavorei-me. — Talvez não tão horrível quanto você pensava. e não gosto de ser sodomizada" e ele respondeu: "Sei a sua idade. com uma aparência tão forte. Mister Lowery. Tinha mulher e dois filhos quando ainda cursava a faculdade de direito já estava no negócio de construções durante os anos de faculdade — e agora quer ter comigo uma segunda família. Eu lhe disse a primeira vez que ele foi buscar-me. — vou ter um filho — diz. um tanto brutal. Como vê. e a beber também. David. Tudo quanto desejo é não ser torturada. Que me casei com ele. terei dez filhos. esperando apenas algum tempo para acabar com ele. e ele era tão maravilhosamente seguro de si. não me importo mais em ser feliz. Eu estava horrível. Parece que foi assim. Farei tudo. Sem responder. uma por uma. Achava que sem ele eu começaria a adoecer outra vez. eu disse: "Olhe aqui.. E teremos. olho para o lado. — Quando me restabeleci. E ele deve. Ali está um homem. Já abri mão disso. e todo mundo fica doente uma vez ou outra. Quando? — O mais breve possível. quando devia ter acabado. terei vinte se ele assim desejar.

e sob o roupão parece muito bela. está visto e. tem qualquer coisa de infantil e inocente que eu nunca tive. por mais estranho que isso lhe possa . — Ela é jovem. — O que o impede? Não respondi. . E além disso. — Não. bonita e boa. sem querer. Eu nada mais tenho com isso. não é a mesma coisa. — E sobre a sua vida? Você vai casar-se com Miss Ovington? — Pode ser. bonito e bom. mesmo porque você é um mestre da repressão. bonito e bom. Não respondo. — com suas conchas. Você pode fazer o que quiser. Como é que conseguem ser assim. . — Ela não o deixa um pouco atormentado sendo tão viva. não foi isso. bonita. educada. Viva. seus canteiros de flores. Outras mentiras mais. inteligente. Helen? — Não. Leslie é vivo. para melhor. tampouco o pobre Arthur Schonbrunn. bonita e boa? — Helen indaga. como é que você agüenta isso? — Porque eu também sou vivo. Pensei que até pudesse me enganar. Naturalmente que não foi. meu querido e antigo camarada. . Você é um homem inteligente e sabe muito bem por que vim. Não vim aqui para dizer nenhuma dessas coisas. Essas pessoas sabem ser felizes. . seu cão e as receitas pregadas em cima da pia? — Você veio aqui para me dizer isso. Para mostrar-lhe como mudei.— Você não pode ter sempre vinte anos e navegar entre os bambuzais ao pôr-do-sol. vim aqui porque precisava conversar com um amigo. Você não é um deles. Oh. você não é como eles. David. Foi para mostrar-lhe o meu marido. Eles chegam a esse ponto naturalmente. Mas já discutimos muito sobre o assunto. David. você sabe? Como é que podem ser tão boas? Eu imagino que ela seja assim.

O único que consegue é ele. Quero que me diga uma coisa. Como sabe. porque. Queiram ou não. e não tenho mais coragem. tenho que continuar e ter a criança. e o resultado é essa terrível infelicidade. Às vezes penso em você como o único amigo que me resta. E nem pensaria nela também. porém não posso mais suportá-las juntas novamente. Eu não teria tido um momento de culpa. Não é estranho? Quase o chamei. Dentro de mim. Tudo que as pessoas dizem parece-me errado e me põe louca. estou grávida. Eu não ousaria. Foi por demais horrível e implacável. agito-me na cama com o pesadelo de que não gosto de ninguém. bem. creio que não há mais coragem. totalmente sozinha. Mas não posso mais ficar doente como fiquei daquela vez. Finalmente. se demorar mais um pouco. concordo e sorrio. Recusei-me a ser implacável. Não quero dizer com isso que me indisponha com as pessoas. tudo estaria bem e eu teria tido aquilo que almejava. Foi quando estive doente. Nada disso tinha que acontecer! Porque se aquela mulher de Jimmy fosse atropelada como ele havia arranjado. e a dor física também. vejo Lowery que sai da mata. Ouço. uma noite . coçando-me doidamente. E ela receberia o que merecia. se eu não fizer isso. esta é a verdade sobre a minha pessoa. E não o posso suportar mais. porque isso não faz com que a doença se vá. um final demasiado longo. Sim. impossibilitada de respirar — e não adianta convencer-me de que tudo está dentro de minha cabeça. Havia tirado a camisa e . ele fez com que tudo desaparecesse! Oh. É como se eu houvesse gasto tudo. Não posso abandoná-lo. Mas o fato é que não posso suportar quem quer que seja. Queria que você visse como agrado às pessoas hoje em dia. Todas as noites. faço um sinal afirmativo com a cabeça e sorrio. Não há nada que ele faça agora que não me irrite mortalmente.mas eu sabia que aquilo não era mais de sua conta. descendo a rampa em direção a casa. e. Tenho que lhe dizer que estou grávida — e ter o filho. Teria sido feliz. Ouço o que Lês fala. Estou de dois meses.parecer. Posso suportar a solidão. Alguém tem que dizer. Tenho horror de ficar doente outra vez. fui boa — e ela nos fez a ambos miseráveis. Tenho que ter esta criança. Diga-me o que você pensa que devo fazer. pensando que morrerei de chateação. não sei o que me acontecerá. Não é possível. Ao invés disso. tudo isso é tão doido.

— Talvez eu venha a amar a criança — diz. há sempre Jimmy. — Talvez — digo. o que é isso? . sem sentir. . .carregava-a nas mãos. essas coisas acontecem. Depois que saem — iguais ao novo casal do fim da rua. o mais baixo possível. um grande sucesso no mundo dos negócios. . não fique triste. Quando subo para ficar ao seu lado. Algumas crianças brincam com pás e enxadas e baldes na beira da piscina. Ainda aqueles sonhos do que poderia ter sido se a repugnância moral não interviesse. e sua presença na vida de Helen de certo modo restabeleceu-lhe a saúde. com sorrisos e desejos de felicidade para todos — ponho meu calção de banho e caminho alguns metros ao longo da estrada para chegar à piscina. Nós dois fomos tomados de surpresa. — Às vezes. Sem pensar. depois segue seu caminho. minha querida. — Não fique triste. verifico que esteve chorando. — Mas. O roupão de esponja de Claire está em cima da pedra onde sempre colocamos nossos pertences. poderei desprezar meu filho — diz Helen. Apenas a má sorte de Helen a impede de suportá-lo. É um belo jovem. Na sua mente. Ela principiou novamente a chorar. — Desculpe por ter-me portado assim — diz. para receber o marido. ileso. estou entorpecido como alguém à beira de um terrível acidente ou explosão. Não acredito que essas coisas possam se resolver muito bem. . — Penso também que isso algumas vezes acontece. e então a avisto tomando banho de sol numa balsa. levantando-se. vigiadas pelo cão de Claire e por uma moça que levanta a cabeça e diz: "Oi!" A jovem está lendo Jane Eyre. também. As primeiras lágrimas que a vi derramar. — O que é isso. que olha rápido e petrificado para uma poça de sangue. séria. para as lides diárias.

Eu só estava pensando. Embora surpreso. Bem. — Não consigo ouvi-la. sou tão privilegiada. Perdi um pouco a cabeça. por que você ainda está tão perturbada? Não há razão. — Eu os convidei. — Você escreveu a eles? Explique-se. não . — Eu me tornei? Ela começa a rir. porém nunca fui tão feliz como agora. — Você fica um tanto assustado em ouvir-me dizer isso. Claire. Estou ansioso para saber o que há de mal. — Você quer dizer depois que você saiu? Antes de vir para cá? — Na cidade. — Gostaria que eles nos visitassem. Eu o amo. respondo: — Então. por favor. — Quando? — Não tem importância. Penso que sim. — Não quero entrar no assunto. Foi uma loucura e um sonho. convide-os. .— Tenho tanta sorte. Não pensei que fosse verdade até hoje. . pensei. — Você telefonou para eles? — Sim. — Clarissa. sim. ou há? Ela vira o rosto e murmura alguma coisa sobre seus pais. — Quando? — Antes. Você tornou-se toda a minha vida.

Tive certeza quando voltamos. Você não está encantada por ela. Ela nunca se refere ao que não tem. ou quer ir para casa. Não falaremos nisso nunca. não vamos falar nisso agora. mas intato. começo a pensar neles. . erguendo-se e sentando-se —. De você. principio a fazer o jantar. quando tudo é tão calmo e belo. Nunca o faço. — E como foi à coisa? — Nada agradável. Uma hora e tanto mais velho. Nunca dá certo e jamais dará. eu sei. diz: — Há outra coisa da qual acho melhor falarmos agora. Quando se senta ao meu lado. quer ficar aqui comigo. não — diz Claire. tomar um bom chá gelado e descansar um pouco? Eles já foram? Já — E está tudo bem como você? Estou intato. tão contentes. Ela mergulha partindo da beirada da balsa. É a criatura extraordinária mais comum que me foi dado conhecer.— Nunca devo telefonar-lhes sem um aviso prévio. infelicidades. Aquelas reuniões para as quais eu ia. quando estamos jantando. Mais uma coisa que preciso lhe dizer. mas essa mulher está num mau caminho. o dia de hoje será muito agradável quando terminar. . — E a "infecção"? . desilusões. oh. Terá de ser torturada para se queixar. Fiz um aborto. Eu não sabia. depois surge na superfície perto da escada. — Grávida de quem? Quando? Um sorriso pálido. — Na Europa. Tem idéia de quando será? — Claire. permanece debaixo da água por alguns segundos. Quer ir para casa? — Já. Olhe. Ponho um disco. Não ia contar a você. nunca se detém um instante sobre perdas. ou nadar. ou quer ficar sozinha. Bem. à noite. meu amor. . Eu estava grávida. — Oh — ela diz. mas agora acho que devo. eu passei um dia no hospital. mas eles permanecem lá. . Entretanto.

. Você estava se entregando a alguma coisa e isso tinha que ficar bem claro para nós dois. Na verdade. deixeme dizer o que tenho para lhe contar. foi justamente no momento em que você estava se libertando. Mas não antes de você estar decidido. Não queria um mínimo de responsabilidade de sua parte. não hesito em pensar que o que emana da minha pessoa é o que torna tudo tão triste. — Por que não me contou? — Bem. a questão é que eu jamais desejaria que você o quisesse até certificar-se de que é comigo. — O aborto? — Não. — David. Por favor. nunca fui capaz de ser uma coisa ou outra. da minha maneira. Você não precisa dizer nada sobre o que você teria ou não teria dito se eu lhe contasse o que estava fazendo. — E quando você fez isso. o filho.. Claire? Como é que eu não soube? — Oh. . inclusive a mim próprio. e eu sou a única pessoa que sabe. Compreendeu? — Mas você o queria. um filho seu. — Por que você fez isso sozinha? — perguntei-lhe. mas sintome muito fraco para distinguir o que é. Tenho a sensação de algo muito triste no fundo das confidências e segredos desse dia. Não quero que ninguém sofra por minha causa. Helen está grávida de dois meses. como. Não desejo fazer ninguém infeliz. Claire esteve grávida de mim e eu de nada soube. e esta vida que você gostaria de viver. — Naturalmente que desejo ter um filho. e provavelmente nunca serei. Não posso imaginar ter um filho de outro. como tenho sempre fracassado em ser o que as pessoas querem ou esperam de mim. Não pretendo prender ninguém. e essa responsabilidade . como jamais agradei a quem quer que fosse. Isso é a pior coisa que pode acontecer a alguém. exausto mais do que previra por tudo quanto acompanhou a visita de Helen. arranjei-me — ela diz.. e então pensei que aquilo tinha que vir por si.— Não tive infecção. por mais que tentasse.

graças a Deus. de repente pensei: "Não posso fazê-lo feliz. — Estou ouvindo. antes que seja preciso um serrote. Sei que me recuperaria lá. E o fato me deixou tão perturbada. eu não tive ciúmes dela. e não poderá existir. jovem e. não digo amanhã. . Nunca possuí uma família que tivesse um mínimo de sentido. Neste instante. Depois. De qualquer forma. Se houve erro. esse erro foi meu. Não estou propondo coisa alguma. e desejo possuir uma que tenha. prefiro arrancar as raízes agora. Ou talvez saiba. Ia tirar o retrato dos dois juntos. saberei haver-me sozinha. nem mesmo depois de amanhã. Mas não quero me envolver ainda mais com uma coisa que não sei se um dia vai se transformar numa família. Há grande risco de se ser mal interpretado quando se dizem essas coisas. Para mim seria um tormento deixá-lo mas estou preparada para isso. quando o vi sentado sozinho com ela. porque. se você não está verdadeiramente satisfeito em minha companhia. não sou "complicada" nem "sofisticada". longe disso. Não é isso que eu quero. peço-lhe encarecidamente que não me interprete mal. É muito melhor agora do que daqui a três ou quatro anos. Na verdade. David. E depois. Se for possível. Talvez você também não saiba. não temi coisa alguma que ela pudesse fazer e se temesse não estaria vivendo aqui. Sou bem bonita. a fim de fazer o jantar. E fiquei pensando se havia alguém que pudesse. 0 quando você estiver presente até no ar que eu respiro. que tive de sair dali. e quero que você as ouça. então. se você tem uma resposta à minha pergunta. pensei que era uma das maneiras de agüentar aquela visita. Mas. — Meu querido. desejo dizer-lhe certas coisas.não houve. se é assim que se diz. Não sei se o que pensei era ou não verdade. nem o estou propondo mesmo remotamente. gostaria que me dissesse logo. se for necessário. com Olivia. até o início das aulas. Preciso ter isso. porém voltei a casa apenas para apanhar minha máquina fotográfica. então. mas no devido tempo. não serei capaz". Ao contrário. desejo que a nossa separação não seja uma amputação sangrenta. Fiquei um tanto confusa quando você pretendeu afastar-me do caminho. irei para casa. deixe-me ir para o Vineyard. Mas.

faço-lhe um apelo pessoal. veio a visita de meu pai. De outra forma. — É tudo quanto ainda me resta de força para dizer. Dê antes que seja tarde.” . Mas você não precisa dizer nada e desejo que não o faça. não diga nada. Nunca mais devemos permitir um holocausto. Trata-se apenas de um esclarecimento. e não é. Não é necessário relembrar nosso compromisso de manter uma pátria judaica. embora o sol lhe houvesse secado o corpo. e que deseja que eu conheça. nada mais. meu pai pergunta se pode trazer um amigo. pois a solicitação para trazer o amigo vem no verso de um papel com o seguinte timbre: FEDERAÇÃO JUDAICA DE NASSAU. E depois. Apavorei-me. Eu nem queria fazê-lo. A essa altura. vamos para casa. não há nada. Mas agora é o tempo que deverá se encarregar de mim.Naquele momento. Peço-lhe. a menos que seja para revelar algo que eu precise saber. "Caro amigo. — Não. pelo menos agora. Como judeu. cujo estilo reconheço tão facilmente quanto os de Hemingway e Faulkner. vem impressa uma breve e oportuna epístola aos judeus. ele já deve ter esgotado todos os papéis de carta e os respectivos envelopes do hotel. o que acabei de dizer parecia um ultimato. por favor. Sinceramente. Precisamos da ajuda financeira de todos os judeus. De repente tudo pareceu se transformar numa terrível desilusão. ela tremia dos pés à cabeça. que ficou viúvo recentemente. Por favor. porque achava que o tempo se encarregaria disso. que não venha me consolar. Abe Kepesh Apartamento Garfield Garden Presidente adjunto. — Então. Anexo seu cartão da Federação Judaica de Nassau. Abaixo. Na carta em que nos agradece profundamente pelo convite por telefone para passar o feriado do Dia do Trabalho em nossa casa. com quem travou relações de amizade nos últimos meses.

eles ficam olhando para você como se nunca tivessem ouvido falar no assunto. Olhe. ela já se preparou. Tente pedir dinheiro às pessoas. — Ele é uma pessoa maravilhosa. — Detesto deixá-lo aqui sozinho. . — Oh. que ganhou dinheiro há muitos anos no contrabando de bebidas. fazer com que as pessoas sintam. principalmente agora. naturalmente teremos muito prazer em que venha com ele. cuja morte da mulher parece tê-lo aliviado de um fardo — pois está sempre com um novo xaveco pelo braço todo mês.Na carta dirigida a mim e a Claire. como se Hitler e os pogroms fossem invenção minha para tomar dinheiro. com a dor surda e o sofrimento penetrante de um sentimento selvagem reprimido. Davy. e só Deus sabe o que mais. Quando você lhes diz que o que aconteceu não pode mais acontecer. E eu preciso dele. com o máximo prazer. e veja o que consegue. que agora na velhice o afligem de manhã à noite. Se não fosse por isso não ia incomodar vocês. maravilhosa — assegura meu pai a Claire. leva-as para assistir aos espetáculos da Broadway e ao salão de beleza em seu carro. Mister Barbatnik. Veste-as com roupas caras. Não quero sobrecarregá-la. mais velho do que eu uns três anos. que lhe garante já haver terminado há muito tempo os preparativos para as aulas e poder recebê-los. telefono-lhe para o escritório de meu tio Larry para dizer que. um viúvo recente. como se tivéssemos motivos para suspeitar que um amigo seu pudesse ser bêbado ou farrista —. se ele não se importa em compartilhar com seu amigo. num feriado. no fim de semana. uma pessoa que já passou por coisas que vocês nem podem imaginar. No dia em que recebo a carta. Há um camarada que mora no edifício em frente. não se incomode com isso e passo o fone a Claire. Só desejo que a ida dele não dê muito trabalho para Claire. com todo o trabalho que deve estar tendo para se preparar. eu apenas não pensei nisso quando aceitei seu convite tão depressa. nosso pequenino quarto. Ele me ajuda a angariar fundos para a UJA. escrita com uma caneta esferográfica naquela grafia exagerada — porém não menos reveladora que a mensagem em letra de forma apelando para a solidariedade judaica (cujos hieróglifos infantis são ainda mais reveladores) —. no início das aulas. perpassam as lealdades pródigas.

No entanto, basta você pedir-lhe duzentos dólares para a UJA que ele praticamente chora dizendo que levou na cabeça nas especulações da Bolsa. É muito bom quando consigo controlar-me, mas aqui entre nós, nem sempre posso, e é Mister Barbatnik quem tem de me afastar antes que eu diga àquele f d p. o que penso dele. Oh, como esse camarada me enche. Todas as vezes que falo com ele tenho de passar na casa de minha cunhada para pedir-lhe um barbitúrico, eu, que nem acredito em aspirina. — Mister Kepesh — diz Claire —, por favor, fique à vontade para trazer Mister Barbatnik com o senhor. Mas ele não concorda enquanto não consegue uma promessa de Claire no sentido de que, se ambos vierem, ela não vai ter de cozinhar três refeições por dia. — Quero que prometa que nem vai pensar em nós. — Mas, qual é a graça? Para mim é um prazer saber que vocês estão presentes. — Ei, ouça — ele diz —, você fala como uma criatura feliz. — E sou. Minha taça de felicidade transborda. Embora Claire esteja com o fone no ouvido, do outro lado da mesa, ouço claramente o que ele diz, porque meu pai comporta-se em relação aos telefonemas interurbanos da mesma forma que encara muitos dos mistérios que se furtam à sua compreensão — acreditando que as ondas elétricas, ao transportarem sua voz, não o fazem sem o seu fervoroso e ilimitado auxílio. Sem um trabalho árduo. — Deus a abençoe — brada ele — pelo que está fazendo ao meu filho. — bom — ela cora sob o bronzeado —, bom, ele também está me tratando muito bem. — Não duvido — diz meu pai. — Estou radiante de ouvir isso. Mas, de qualquer forma, ele praticamente afastou-se de seu caminho para trazer dissabores à sua vida. Diga-me, será que ele se dá conta da felicidade que desfruta em sua companhia? Ele tem trinta e cinco anos, já é um homem feito,

não pode se der ao luxo de bancar o inexperiente. Claire, será que a essa altura ele já avalia o que tem? Ela procura esquivar-se da resposta, rindo-se, mas ele insiste, mesmo que no fim ele mesmo tenha que dá-la. Não há necessidade de ninguém se desorientar, basta à vida, que já é bem confusa. Ninguém enfia uma faca na sua própria barriga. Mas foi isso que ele fez quando se casou com aquela moça glamourosa, vestida como Sósia Wong. Oh, quanto menos se falar dela e daquelas roupas, melhor. E dos perfumes franceses. Perdoe-me a linguagem, mas ela cheirava a salão de barbeiro. E que necessidade tinha ele de morar naquele apartamento sublocado, com paredes de pano vermelho, e tudo mais que havia lá, que nem consigo me lembrar? Claire querida, você é uma pessoa que vale a pena. Se você pudesse fazê-lo estabelecer-se numa vida verdadeira. — Oh — diz Claire, nem um pouco confundida por toda aquela emoção que flui em sua direção —, não há nada mais estabelecido por esses lados. . . Antes que ela, com a idade de vinte e cinco anos, pudesse imaginar como terminaria a frase, meu pai, aos berros, exclama: — Maravilhoso, maravilhoso, esta é a melhor notícia que tenho dele desde que terminou aquela bolsa de estudos e foi ser cigano na Europa e voltou naquele navio em frangalhos. Na estação rodoviária, ele desce cautelosamente o alto degrau do ônibus procedente de Nova York, e apesar do calor escaldante e da idade avançada, precipita-se para frente, não em direção a mim, mas à pessoa que ainda não é bem um membro de sua família. Algumas vezes ela lhe serviu o jantar em meu novo apartamento, e posteriormente, quando fiz a minha primeira conferência aberta ao público sobre O homem na casca, no departamento de letras, foi Claire quem o levou juntamente com meu tio e minha tia até a biblioteca, sentando-se a seu lado no pequeno auditório, identificando a seu pedido, entre os presentes, quem era o chefe do departamento e o reitor. Não obstante, agora que se aproxima para abraçá-la, é como se ela já estivesse grávida do primeiro de seus netos,

como se de fato ela fosse à geradora do que há de mais estimável naquela raça, à qual ele está ligado pelo sangue e pela qual ele nutre uma admiração ilimitada. . . Isto é, quando esta não anda se exibindo despudoradamente, com as presas à mostra e as garras visíveis, o que põe meu pai quase louco. Vendo Claire ser abraçada por um estranho, Dazzle começa a pular de um lado para o outro, entre as sandálias de sua dona. Meu pai, que jamais teve confiança ou admiração pelos membros do reino animal, que procriam fora do casamento e defecam no chão, não deixa que a exibição canina de Dazzle desvie sua atenção da moça que ele cinge em seus braços. A princípio, pergunto a mim mesmo se a cena que estamos presenciando não é destinada a pôr Mister Barbatnik à vontade com o casal que não está legalmente casado ou se, pela própria veemência com que ele aperta o corpo de Claire de encontro ao seu, não quer acalmar suas não de todo inesperadas dúvidas nesse particular. Não me lembro de tê-lo visto tão vigoroso e animado, desde antes da doença de minha mãe. Na verdade, hoje o acho um tanto estranho, porém ainda melhor do que esperava. Em geral, quando telefono todas as semanas para lá, noto em cada uma das frases otimistas que ele repete um traço de melancolia tão estranho que me pergunto como é que ele consegue encontrar condições de continuar, como vai fazer, dizendo que está tudo bem, maravilhoso, não podia ser melhor. O sombrio "alô" com que atende o telefone é o suficiente para informar-me o que existe realmente atrás de seus dias "ativos" — todas as manhãs, ajudando meu tio no escritório, onde esse não necessita de auxílio e, às tardes, no Centro Judaico, discutindo política com os "fascistas" durante a sauna, homens a quem ele se refere como Von Epstein, Von Haberman e Von Lipschitz — os Goering, Goebbels e Streicher locais, que o põem com palpitações. E depois, as intermináveis tardes em que vai à casa dos vizinhos a fim de solicitar um auxílio para obras filantrópicas, e mais uma vez lendo e relendo todas as seções de Newsday, do Post, e do Times, esperando as notícias da CBS duas vezes no espaço de quatro horas, e finalmente na cama, sem poder dormir, espalhando as cartas da caixa de papelão sobre a cama, para rever sua correspondência com os hóspedes queridos e desaparecidos, mais queridos agora, que desapareceram, do que na época em que estavam no hotel e se

queixavam de que havia cevada demais na sopa, muito cloro na piscina e poucos garçons na sala de jantar. E a sua correspondência. Cada mês que passa, torna-se ainda mais difícil para ele saber quem entre as centenas e centenas de antigos hóspedes está aposentado e morando na Flórida, e portanto em condições de lhe responder, e quem já morreu. E tampouco se trata de perda das faculdades — é uma questão de perda dos amigos, "sem interrupção", como graficamente descreve as baixas ocorridas nas fileiras de sua clientela, neste último ano. "Escrevi cinco páginas inteiras cheias de notícias para aquele querido e encantador Julius Lowenthal, que é um príncipe de homem. Cheguei a colocar recortes do Times comentando de que forma eles arruinaram o rio em Paterson, onde ele tinha seu escritório. Pensei que seria interessante para ele, lá onde se encontra, pois essa questão de poluição parece feita de encomenda para a qualidade de homem que ele era. Julius Lowenthal era uma pessoa com o maior espírito cívico que você podia encontrar. A sinagoga, os órfãos, os inválidos, os negros, com todos ele dividia seu tempo. Aquele homem era o artigo autêntico, o melhor. Bem, vocês sabem o que aconteceu. Ponho o selo e fecho o envelope, colocando-o ao lado do meu chapéu para levar ao correio no dia seguinte, e depois de escovar os dentes e deitar-me é que me lembro de que o meu querido amigo já está morto desde o outono. Lembrava-me dele jogando cartas à beira da piscina, em Miami, e também o besigue, como só ele sabia, com aquela mente jurídica, e, na realidade, agora o que resta dele?" O último pensamento é demais, mesmo para ele, especialmente para ele, de modo que passa a mão raivosa no rosto, como se quisesse espantar um mosquito impertinente, esta imagem terrível, espantosa, de Julius Lowenthal em decomposição. "E o pior", diz, recobrando o equilíbrio, "é que a coisa está se tornando um acontecimento semanal, o tempo de lamber o envelope e pregar o selo.” Passam-se horas até que Claire e eu fiquemos finalmente a sós e ela possa afinal contar-me a ordem decretada em seu ouvido, enquanto nós quatro formamos um grupo diante do ônibus, que se põe em movimento para partir, em meio a exalações de fumaça. O sol nos derrete tanto como o

alcançando (ainda com um resto de desespero no olhar) o bolso da calça de lã — está vestido. o murmura aos ouvidos de Claire. E eu respondo que provavelmente essas foram às únicas palavras que ele proferiu. Jesus — lastima-se ele —. perfeito namorado. Mister Barbatnik dá um passo à frente e. Para ele. perdeu-se. Pobre. seu rosto está iluminado. de orelhas grandes e espantosas mãos. "jovem". que há muitas semanas já deve estar preparado. "Jovem". por favor!” Ela me disse. como se essa palavra. ficou no ônibus! — Então. Porém. com todo o capricho —. confuso. . começa a bater no forro do casaco como se estivesse realizando manobras de ressuscitamento. . pelo menos no momento. Meu Deus. "não permita. tira um pequeno embrulho e o coloca na palma da mão de Claire. . colada como estava ao seu vasto peito. como se diz. meu pai tem de tratar primeiro de uma importante incumbência como o mensageiro na tragédia clássica que logo ao entrar no palco profere rapidamente aquilo por que viajou tanto tempo para dizer. diz em voz baixa: — Nas suas calças. Tendo. tímido como uma menina de colégio. penduradas a poderosos antebraços entrelaçados de fortes veias — mantém-se afastado. semelhante aos duendes das lendas irlandesas. tão discreto quanto o padrinho de um noivo meio aturdido. decretado o futuro. a essa altura. Abe. . esperando que aquele vibrante. na hora de dormir. Então. pois foi assim que a visualizou alegoricamente. faça as apresentações. Agora. asiático. não permita. com aquele rosto largo.. Dazzle (apenas habituado a seu rival) continua pulando à roda dos pés de meu pai. enquanto Mister Barbatnik — um senhor pequenino. — Oh. dessa forma. Procura no bolso do pequeno casaco de linho dependurado em seu braço e parece não encontrar nada. o paletó cuidadosamente dobrado no braço. — Naturalmente — meu pai rápido põe a mão para trás e.asfalto. dizem tudo. ele apronta-se para passar ao próximo acontecimento do cerimonial de sua chegada. meu pai. que essas foram às únicas palavras que pôde ouvir. tivesse o poder de tirar meu pai da influência de seus devaneios.

com um buquê de rosas lavrado. Mister Barbatnik se veste de prateado e azul. e como adora as flores. — Não é verdade que eu disse. jeitosamente desfaz a fita e retira o papel de embrulho. que afirma ser muito bonito. É melhor do que dinheiro. E espere para ver a maravilhosa arte disto. E só então ele me abraça. minha afável companheira. . na escola. beija meu pai na face. achei que essa cor seria do seu gosto. que apostava como ela gosta de amarelo? Claire retira da caixa forrada de veludo um pequeno peso para papéis. Provavelmente quinze. e talvez mais. com a diferença de que. Finalmente. — Espero que esteja — digo. acalmando Dazzle com o olhar. um lindo presente — ela concorda. Seus alunos vão adorar. virando-se para o companheiro. ele está livre para apresentar seu companheiro. Deve ser feito a mão. que se veste de forma absolutamente idêntica na combinação de cores. — É lindo — diz ela e. . não foi.— Não falei pelo telefone — diz-lhe — para que fosse uma grande surpresa. Está na minha bolsa. — É lindo. Enquanto nós continuamos a torrar no estacionamento. — Trouxe uma coisa para você também. É fantástico. De ano em ano este objeto terá seu valor acrescido de uns dez por cento. Pode colocá-lo na sua mesa. Ande. Sol? — pergunta. — Escolhi o papel também — meu pai conta —. . — Pode-se até enxergar os pequeninos espinhos. no mínimo. abra-o. enquanto meu pai usa tons de bronze e marrom. — Rapaz prudente — e nos beijamos. que sabe como agradar e gosta de agradar. Obra de artista. — David contou-me que você trabalha muito no jardim. — Veja o artesanato — diz.

O nosso pára-choque. — E que se pode fazer com aqueles fanáticos? Pelo menos fazê-los ouvir o que outras pessoas pensam deles! O povo judeu está tão cheio de ódio que vai e vota em George Wallace. meu pai não pára agora de falar sobre Mister Barbatnik: um homem fora de série. do Centro. com os dizeres: "ESTRADA LIMPA. . mas eu odeio ardentemente aquele indivíduo. não são todas as pessoas que dizem isso — acrescenta Mister Barbatnik.”Dou graças a Deus por ter a companhia deste homem". com os olhos baixos. por obra de Claire. Pegar gente de verdade e exterminá-la. — Não é — diz Mister Barbatnik filosoficamente. atrás de um caminhão que tem escrito no pára-choque: "só o AMOR CONSTRÓI". . POVO CIVILIZADO". Você não precisa ouvir as coisas que as pessoas decentes pensam intimamente. — Isso é idéia de uma pessoa ou outra. expomos nossas idéias. defende a ecologia. Desculpe. diz meu pai. com um sotaque bastante acentuado — que isso faça muita diferença. Se não fosse ele. — Mister Barbatnik é a pessoa de quem lhe falava. porém boas idéias. . É uma desgraça. naturalmente. Por quê? Um povo que sempre foi perseguido ter coragem de defender a idéia de botar em fila todos os pretos diante de uma metralhadora e passá-los à bala. teria pregado no deserto contra aquele filho da puta do George Wallace. da mesma forma que nos velhos bons tempos ele costumava "vender" que um verão em nosso hotel prolongava a vida. nojento como uma barata. à pessoa mais fina que já conheceu. Excitado e tagarela como um menino — como eu era quando era ele quem dirigia por essas estradas —. Apenas Mister Barbatnik e eu. Claire. Isso está além de minha compreensão. Mister Barbatnik está sentado a seu lado. que constituímos um grupo. encabulado com a presença opulenta de Claire e com o fato de meu pai o estar "vendendo" para nós. enquanto vamos de carro vagarosamente. — Naturalmente.

a essa altura dos acontecimentos. Entretanto. desculpe-me. e depois vieram os negros. homens feitos. ele corta a análise histórica para dizer a Claire e a mim: — Mister Barbatnik só veio para cá depois da guerra. estamos satisfeitos só com o aluguel. acrescenta: — Ele é uma vítima dos nazistas. por acaso? Que nada! Ele próprio! Continue. Pelo menos. Eu só queria mostrar a eles com que espécie de ditador nós lidamos. Procure sondá-lo sobre o assunto. — Dramático. Não custa nada. Mister Barbatnik diz: — Não admira que vocês dois pareçam tão felizes. perguntem a ele se isso não é o mesmo que Hitler fez com os judeus. e veja se ele pega a isca.— Olhem para Mister Barbatnik. tudo se reduz a fatores econômicos. que criaram famílias e dirigiram. e o que está se propondo é um negócio honesto. Quando o carro dá a volta e aponto a casa no meio da encosta. E vocês sabem o que eles respondem. — A casa é alugada — diz meu pai. — Alugar é jogar dinheiro fora. Posso ajudá-lo. no momento. veja se você consegue ter alguma coisa. — Já falei. e quando procuraram tirar o que haviam investido foram derrotados. e alguns até negócios. Sol.. se gostam tanto dela. o tio Larry também pode. — Bem — digo —.. abruptamente. e foram bem sucedidos em seus negócios. e naturalmente com orgulho. — O que os está atormentando — continua Mister Barbatnik — é que eles possuíam casas. por que não a compram? Façam uma oferta àquele camarada. Pagamento à vista e imediato. — Naturalmente. — E alguém o designou dirigente. Digam que pagarão à vista. quando se vai ao fundo das coisas. você precisa . É sempre assim. Não foi o mesmo com os alemães? Não foi o mesmo com a Polônia? — Nesse ponto. e que agora vivem em seus condomínios como gente civilizada? "Como é que vocês podem comparar negros com judeus?” — O que está corroendo essas pessoas e quem as dirige é.

antes que possamos lhes oferecer refrigerantes ou mostrar-lhes o quarto e o banheiro. Nunca pôde. não devia ter comprado um presente tão valioso. Claire. Davey. Meu pai as chama "Medalhas de Shakespeare" — a cena de uma das peças é representada em uma das faces. Não deve perder a oportunidade. papai — digo —. Depois as camisas lavadas e o estojo com o aparelho de barbear. Até onde vai a propriedade? Até a linha de árvores? Muito bem. cada um dentro de uma abertura transparente de acetato. — Oh. — Pode haver efeitos químicos prejudiciais às medalhas quando em contato com pele humana. No interior da casa. No meu tempo. você podia comprar uma pequena casa como esta por menos de cinco mil dólares.. cinco acres. Hoje em dia. Nós esperamos. digamos. Subindo a rampa de terra passando pelo jardim florido. e com seu único ente querido que esteja vivo e que. . parece finalmente ter sido arrancado da fornalha para cair diante da lareira. Meu presente é um álbum forrado de couro preto. ele continua com a conversa de corretor de imóveis. Primeiro saem seus sapatos. contendo trinta e dois medalhões do tamanho de um dólar de prata. .ter uma pequena propriedade. rindo. As medalhas vêm acompanhadas de instruções para colocação no álbum. em letra bem pequena. 0 a julgar pela aparência exterior. — Seu presente — anuncia. olhe para isso.. Claire. meu pai principia a tirar as coisas da mala na mesa da cozinha. Uma começa assim: "Coloque um par de luvas que não peguem fiapos de tecido. — Já era tempo — responde. muito bacana. o que eles gravaram para você. ." Meu pai entrega—me por último as luvas. e com um gesto amplo que abarca toda a cozinha: — Olhe. há uma citação da peça. do qual tanto ouviu falar. e na outra. esta pequenina casa e. — Use sempre estas luvas quando pegar nas medalhas — diz—me. tão encantado está de ver-se de volta a Sullivan.

Realmente é muito bonito. Qual era mesmo a questão? Ah. principalmente devido à forma de pagamento. no canto inferior à esquerda da página. Você tem de colecionar apenas uma medalha por mês. — Creio que nós conferimos. e uma rosa com outro nome teria o mesmo suave perfume": Romeu e Julieta. Levou tempo para que pudessem localizar a medalha representando Romeu e Julieta. — Mas então onde coloquei a Vida e morte do Rei João? — pergunta. — Acho. para iniciar. Sol — diz a Mister Barbatnik. pois na abertura que lhe era destinada.. cerrando o sobrolho. . lendo palavra por palavra. minha querida.No centro do desenho ornado de prata. — Gostou? Mas o preço não é tão pesado assim. .. Quero que Claire leia o que está escrito atrás. O único que sabia era Mister Barbatnik. sim. "PRIMEIRA EDIÇÃO DO CONJUNTO EM PRATA DE LEI LAVRADA PARA A COLEÇÃO PARTICULAR DO PROFESSOR DAVID KEPESH” — Não sei o que dizer. . sob o rótulo "Tragédias". que constitui a guarnição da capa. a questão é. venha olhar de perto. . . . o que está atrás. Claire lê a inscrição em voz alta: — ". eles tinham colocado Dois cavalheiros de Verona. para que todos possam ouvir. Eles conferiram. Nós quatro finalmente conseguimos descobri-la sob o rótulo "Dramas históricos". Falo: — Isso deve ter custado uma fortuna. ato 2. há três linhas que meu pai aponta para nós com o indicador. — Você não acha que isso é uma beleza? — ele pergunta. . Principia com Romeu e Julieta e vai fazendo a coleção até ter todas. — De qualquer forma — diz meu pai —. Leia isto. Venho economizando para você todo esse tempo. venha cá. na abertura com a indicação Vida e morte do Rei João. Claire. — Mister Barbatnik sacode a cabeça afirmativamente. — Onde diabos está Romeu e Julieta? — pergunta. cena 2. — Pensei que tivesse colocado todas nos lugares certos.

— E ele pode levar para a universidade também, não é? Por isso é que eu acho este estojo tão útil. Não é para a casa exatamente, porém poderá tê-lo por dez, vinte anos para mostrar aos alunos durante as aulas. E, também como o seu, é de prata de lei, que, posso garantir, acompanhará a inflação, mesmo depois que o papel-moeda não valer nada. Onde vai colocá-lo? — A última frase foi dirigida a Claire, não a mim. — No momento — ela responde —, na mesa do café, para que as pessoas possam vê-lo. Todo mundo vem à sala de estar, de modo que o colocaremos lá. — Maravilhoso — diz meu pai —, mas lembre-se: não deixe as visitas pegarem nas medalhas, a menos que coloquem as luvas. O almoço foi servido no alpendre. Uma receita de sopa de beterraba fria que Claire encontrou em Comida russa, um de seus doze manuais de cozinha de uma série publicada pela Time-Life, "Comidas internacionais", muito bem arrumada na estante, entre o rádio que parecia só querer tocar Bach e a parede onde estavam penduradas duas suaves aquarelas do oceano e das dunas, pintadas pela irmã de Claire. A salada de pepino com iogurte, bastante condimentada com alho e hortelã fresca, colhida na nossa horta, foi tirada do mesmo grupo de receitas, do volume relativo à cozinha do Oriente Médio. O franco assado frio, temperado com alecrim, é uma antiga receita da própria Claire. — Meu Deus — diz meu pai —, que banquete! — Excelente — acrescenta Mister Barbatnik. — Muito obrigada exclama Claire —, mas aposto como já tiveram melhores. Nem mesmo em Lvov, quando era minha mãe quem cozinhava — diz Mister Barbatnik —, nunca provei borscht tão maravilhoso. — E Claire, sorrindo, diz: — Desconfio que é um pouco exagerado, contudo, mais uma vez, muito obrigada. Ouça, minha querida — exclama meu pai —, se eu tivesse você na cozinha, ainda estaria na minha antiga forma. E você ganharia mais do que lecionando, pode acreditar-me. Um bom maitre, mesmo antigamente, até mesmo durante a Depressão. . . No final, o maior sucesso de Claire não foram os exóticos pratos orientais que, à sua própria maneira, ela havia experimentado hoje pela

primeira vez, no intuito de fazer todo mundo — inclusive ela própria — sentir-se à vontade, mas o chá forte e gelado, que ela preparou em infusão com folhas de hortelã e cascas de laranja, de acordo com a receita de sua avó. Meu pai não pára de tomar mais um pouco, de elevar aquele chá às nuvens, principalmente depois que soube, ao lhe passarem o prato de framboesas, que todos os meses Claire toma o ônibus para Schenectady, a fim de visitar essa mulher de noventa anos, com a qual ela aprendeu a preparar uma refeição, tratar do jardim e provavelmente também a cuidar de crianças. Sim, a julgar por aquela moça, parece que o renegado de seu filho decidiu tomar o caminho certo, e em grande estilo. Depois do almoço, sugeri que os dois fossem descansar um pouco até o calor abrandar, para em seguida darmos um pequeno passeio. Absolutamente não. De que é que estou falando? Logo após fazermos a digestão, diz meu pai, devemos ir de carro até o hotel. Isso me surpreendeu, como também me admirei, na hora do almoço, Quando o ouvi falar tão naturalmente de sua "antiga forma". Desde que se mudou para Long Island, há um ano e meio, não demonstrou nenhum interesse em ver o que haviam feito de seu hotel, que já passara pelos nomes de Esqui Real e Cabana de Verão. Pensei que ele preferia não voltar lá, mas na verdade está novamente fervendo de entusiasmo, e, depois de ir ao banheiro, anda pelo alpendre a passos largos, esperando Mister Barbatnik acordar do rápido cochilo na minha espreguiçadeira de vime. E se ele caísse morto do coração, após todas aquelas emoções? Antes que me case com aquela moça dedicada, compre a casa confortável, e crie as encantadoras crianças. . . Então, que é que estou esperando? Se vai ser mais tarde, por que não agora, para que ele também possa ser feliz e considere sua vida um sucesso? O que é que estou esperando? Descendo a rampa que dá para a entrada e penetrando pelas lojas, ainda à espera do início da temporada, meu pai vai andando à frente, o único de nós três insensível ao calor.

— Lembro-me de quando havia quatro açougues, três barbeiros, um boliche, dois mercados, duas padarias, três médicos e três dentistas. E agora, vejam — diz, sem tristeza, ao contrário, com a orgulhosa sagacidade de quem realmente sabe —, nem açougue, nem barbeiro, nem boliche, apenas uma padaria, nenhum dentista e apenas um médico. Sim declara, dando uma vista geral, um pouco parecido com o seu amigo Walter Cronkite —, a era dos antigos hotéis de luxo já passou. . . Mas valia a pena! Queria que vocês vissem esse lugar durante o verão! Sabem quem costumava passar as férias aqui? Adivinhem! O Rei do Arenque! O Rei da Maçã! — E, dirigindo-se a Mister Barbatnik e a Claire (que não deixou transparecer já ter feito a mesma viagem sentimental, há algumas semanas, com o filho dele, que na ocasião explicou o que era um rei do arenque), inicia uma rápida e viva história anedótica do maior bulevar de sua vida, passo a passo, ano a ano, desde a posse de Roosevelt até Lyndon Johnson. Com o braço à volta de sua camisa de manga curta encharcada, digo: — Aposto que, se quiser, poderá iniciar sua história antes do Dilúvio. — Ele gostou da piada; sim, hoje ele gosta de tudo. — Ora se posso! Isto é um tratado! Isto é realmente a Rua da recordação! — Está horrivelmente quente, papai acautelo-o. — Estamos com quase trinta e oito graus. Se nós andássemos mais devagar ... — Andar devagar? — grita e, para se mostrar, dá o braço a Claire e sai em corrida pela rua afora. Mister Barbatnik sorri e, enxugando a testa com o lenço, diz-me: — Há tanto tempo que ele espera por isso. — Que fim de semana! — meu pai exclama, animado, enquanto eu, rápido, penetro na área próxima à entrada de serviço do edifício principal. Exceto a área do estacionamento que foi aplainada e o cor-de-rosa com o que o prédio foi pintado, pouca coisa parece ter mudado, exceto naturalmente o nome do hotel. À sua frente está agora um camarada nervoso, apenas pouco mais velho do que eu, e sua jovem e pouco atraente segunda mulher. Conheci-os rapidamente quando aqui vim em companhia de Claire para fazer minha viagem sentimental. Entretanto, para esses dois não

existe nenhuma nostalgia dos velhos tempos. Tal como os restos que se agarram nas bordas quando o riacho engrossa, não sentem falta dos barcos de madeira. Quando meu pai, tendo apreendido toda a situação, pergunta por que motivo não há casa cheia para o fim de semana — fenômeno que desconhece, como se apressa em deixar claro —, a mulher fica ainda mais calada e o marido, pesadão, pueril, olhos azul-claros, pele marcada de espinhas, cujos credores vivem em seus calcanhares, explica que ainda não conseguiram "fixar uma imagem" no espírito do público. — Como o senhor está vendo — diz hesitante —, ainda estamos modernizando a cozinha.. . A mulher o interrompe para explicar as coisas como elas são: os jovens não se interessam por julgar que se trata de hotel para gente mais velha (pelo tom com que o disse parece achar que meu pai é o responsável), e as famílias assustam-se porque o camarada para quem meu pai vendeu o hotel — e que não pôde pagar o que devia em agosto, seu único verão como proprietário — não passava de um Hugh Hefner fajuto, que procurou fazer clientela com uma gentalha da pior espécie. — Primeiro — replica meu pai, antes que eu possa levá-lo dali —, o maior erro foi mudar o nome, pegar trinta anos de freguesia e riscar do mapa. Podem pintar o exterior como quiserem, embora fosse boa aquela bonita e limpa cor branca, mas cada um tem seu gosto. Mas será que as cataratas do Niágara mudaram de nome? Em negócio de turismo, não se mudam nomes assim. — A mulher diz grosseiramente: — Tenho que rir na sua cara. — A senhora, e por quê? — pergunta meu pai, indignado. — Porque não se pode chamar um hotel de Hungarian Royale e esperar que se forme uma fila na porta, o senhor compreende? — Não, não — diz o marido, procurando amenizar as palavras dela, enquanto retira duas placas de dentro de embrulhos —, o problema, Janet, é que estamos colocados entre dois estilos de vida e isso é o que temos de aplainar, logo que acabarmos com a cozinha... — Meu amigo, esqueça-se da cozinha — diz meu pai, afastandose ostensivamente da mulher e virando-se para o marido, com quem podia

Por que razão estou convicto de que ele vai morrer. será que meu pai. fique com o hotel aberto todo o inverno. — Aquele camarada que comprou nosso hotel após a morte de sua mãe. para condenar isso nele? E que diabos queria ela dizer com "gentalha da pior espécie"? Será que ela quis dizer o que eu estou imaginando? Será que quis? Ou disse-o mesmo? — Eu respondo: — Ela apenas quis dizer que agiram desonestamente. por exemplo? Se o senhor desejar. — Certo. faça um favor a si próprio e volte ao nome antigo. porém fracassar é fracassar. E por que deseja usar um nome como "Esqui". Aguardo. como se um homem com mais de sessenta e seis anos soubesse de tudo e tivesse obrigação de ser astuto para com os mais moços. deseja passar as férias num lugar que parece um mausoléu. dei-lhes uma boa e sólida tradição e uma clientela leal. para interceder ou chamar uma ambulância. — Quer dizer — pergunta meu pai com todo o sarcasmo — que hoje em dia o passado não vale nada? — E principia um confuso monólogo filosófico sobre a relação integral do passado. mas para que usar um nome que só pode afastar o tipo de gente que gosta daqui? — A mulher responde: — vou lhe dizer uma coisa: ninguém. Ao ver o motivo de toda a sua vida tão mal administrado por esse marido caloteiro e sua desagradável mulherzinha. — Uma pausa.finalmente ter uma conversa razoável —. e meu domingo vai ser o de um filho sem pai? Mas ele continua forte — ainda um pouco excitado quando entramos no carro a caminho de casa. Ainda sente um amargo aborrecimento na própria carne. e que isso a aborrece. vai irromper em lágrimas ou cair morto? Ambas as hipóteses me parecem possíveis. hoje em dia. por que usa cabelos longos? Quem sou eu. Você pensa que. mas por que razão responsabilizar-me? Dei a essa gente as últimas galinhas de ouro. neste fim de semana. principalmente quando o consideram causador de suas atribulações. e tudo que eles . um reacionário. de livre vontade. superexcitado. presente e futuro. Ele vale quase a metade do que o senhor pagou. — Como é que você sabia que ele ia virar hippie? — Quem? — pergunto. Então. eu ia vender alguma coisa a um hippie? Aquele homem tem cinqüenta anos de idade.

Claire. feitor de escravos e dinâmico. Naquela época. já contei a você de quem recebi um convite para assistir ao casamento da filha? Não adivinhará. tolerante. À noite.ele vem para onde estou preparando o assado para colocar na churrasqueira atrás da casa. com a cabeça virada para o lado. . aquele paskudnyak magrinho transformou-se numa pessoa. está transacionando com uma grande companhia japonesa. enquanto prepara a salada e a sobremesa. meus cabelos eram pretos como os dele. — Isso é verdade — digo. e sabe quem é o dono da loja de utensílios? Jamais vai adivinhar. se pudéssemos abreviar o sumário de culpas. e outras que iniciam nas melhores circunstâncias e perdem tudo. servidas na hora. Mister Barbatnik dorme. e agora. como se estivesse estrangulado. segue Claire até a cozinha. então. conseguiu a GE. para ser o único distribuidor em Long . o júri declararia: "Inocente como uma criancinha!" mesmo sem se retirar para deliberar. arguto. olho para trás e me admiro de ter conseguido tanto. . e está indo extraordinariamente bem. e espessos também.tinham a fazer era conservar o que lá havia. segundo me disse. E é tudo. pode acreditar—me. abanando a cabeça com simsim-sim ao ouvir a história de nossa hospedaria e como floresceu graças ao desvelo desse joão-ninguém trabalhador.e para recobrar as forças . cozinhava comidas ligeiras. as histórias fluem ininterruptamente. pensa ser tão culpado? Minhas negligências. nem que viva milhões de anos. meus pecados? Oh. Ao lado dele. Primeiro. Ele conseguiu a Waring. Quando ela se retira para tomar banho e aprontar-se para o jantar . — Ele mesmo! Será que já lhe contei isso? — Não. . e. é o meu mágico. — Herbie Bratasky — eu digo. Tive que ir a Hampstead para levar o liquidificador de sua tia para consertar. Davey! Esqui! É só os meus clientes ouvirem isso que vão correr como do inferno. amável. se é que você acredita nisso. Existem pessoas que podem construir um hotel no Saara e obter resultado. se é que se lembra dele. Só que ele não pode. muito maior do que a Sony. Existe um homem vivo que tenha levado vida mais exemplar? Existe alguma coisa que o tenha impedido de cumprir seus deveres? Do que. Um joão-ninguém como eu! Quando principiei. Mas era o próprio. — Agora. — Mas eu me lembro.Ei. Claire — amável. Entretanto. generosa e de boa vontade continua a sorrir.

Estava pensando. Disse-me que contou a todos os fregueses. E. encostar no meu peito sua boca que incessantemente fala.Island. E ainda conserva aquele bronzeado. Ele mostrou-me o retrato — e depois. Como é que você soube? — Adivinhei. — digo-lhe. Não tem nem um quilo a mais. e entra dentro de casa "para ver como ela está bonita". igualzinho a ele. Será que Herbie ainda é como naqueles tempos? Como é ele agora. que belo peso de carne. E a filha é uma bonequinha. — Bem. No quadro de cortiça com o boletim que ela pendurou acima da pia. Até que a morte nos separe. . na verdade. nunca mais terá de partir. Mas. Leu a notícia de sua conferência na universidade. pensemos sobre o caso. o senhor veio para ficar. um lombo de alcatra assim. — Bem. a tremenda união e a tremenda distância entre mim e meu pai terá de continuar nas mesmas desconcertantes proporções que existiram durante toda a nossa vida. Seria uma surpresa para Herbie. — Então. Quando Claire volta para a cozinha.. você e Claire podiam ir comigo ao casamento. Viu-a no calendário da Newsday. deve ter quarenta e cinco a quarenta e seis. aos quarenta anos? — Oh. A quanto vocês compram aqui o quilo? Há anos. Que acha? Deve tomar banho de luz. mas é a mesma coisa que pedir a um garoto para ficar calmo a primeira vez que penetra num estádio. Minha mulher o faz trabalhar debulhando milho. — vou mandá-lo — diz — e você vai sentir um impacto. ele me deixa tomando conta do carvão que começava a queimar. naturalmente. — Acalme-se. — Ele havia arrumado as malas com dois dias de antecedência. . junto com as receitas do Times. você é psicólogo. Herbie Bratasky. tão vivo e bonito como quando era garoto. pelo correio. cheguei a pensar isso.. . Ainda parece um dínamo. E tem um filho pequeno. em menos de duzentas horas.. todos nós devemos partir. falei-lhe de você. folgadamente. caiume do céu esse convite que recebi há dois dias. e ele disse que já sabia. Tencionava trazê-lo. você acertou. que relata tudo que está acontecendo na região. — Mas. e ainda conserva todo o cabelo. . mas esqueci. e dizer: — Está bem. Opa. Talvez fosse. pode-se debulhar milho e conversar. tenho vontade de enlaçá-lo em meus braços. na verdade tanto que até parece uma peruca. que toca bateria! Naturalmente. Claire pegou.

o mais cedo possível. Caro Professor Fairbairn. sentada nos meus joelhos? . trata-se de uma carta do departamento de inglês. o que mais? Quando me sentar no meu lugar para jantar. na sua segunda revisão. deu-nos o seu nome como pessoa familiarizada com seu trabalho. você é um camarada surpreendente e infernal. à qual entreguei O homem na casca. assim como sobre sua idoneidade moral. e dispondo de tempo antes que o assado fique pronto. . não posso deixar de pensar que os horizontes de seus alunos ficarão imensamente ampliados. e que fornece o primeiro momento frívolo do dia. porém ficaria muito grato se pudesse enviar-me.” Caro Professor Fairbairn. Só novamente. uma vez que não eram o que estava esperando. talvez o senhor gostasse de saber também minha opinião sobre o vento. será que haverá um prato a mais na mesa para Birgitta. e que botei no bolso da calça desde que fomos à cidade há muitas horas. Meto a carta no bolso. John Fairbairn Presidente. Oh. começo a abrir o envelope enviado da minha caixa postal na universidade. Não me preocupei em abri-los. da editora da universidade. ou ela vai preferir jantar junto a mim. a fim de pegar a correspondência e esperar nossos hóspedes. e ponho o assado no fogo. uma carta com sua opinião sobre a obra de Mister Baumgarten. desde já.algumas fotografias enviadas recentemente de Manha's Vineyard por Olivia. Posso lhe garantir que seus comentários serão mantidos dentro do mais estrito sigilo. da Universidade Cristã do Texas. Peço desculpas por incomodá-lo em meio a seus inúmeros afazeres. fico pensando. "Caro Professor Kepesh. Baumgarten. Mister Ralph Baumgarten. depois que voltamos da Europa. E. Fico-lhe. assim como a compreensão das possibilidades da vida grandemente enriquecidas. Pelo biombo da cozinha ouço-os conversando sobre os filhos de Olivia. com cujo trabalho estou familiarizado. candidato ao cargo de professor residente da Universidade Cristã do Texas. Não. . . Cordialmente. sua atuação como professor. muito grato pelo auxílio que nos puder prestar. . absolutamente.

A julgar pelo tom da pergunta. deixe-me que lhe diga. E a bebida. para expressar o que tinha a dizer.Mas por quê? — ele pergunta. Hesitante. Talvez essa constitua . Claire responde. emociona-se quase às lágrimas. com a caneta na mão e o bloco à minha frente. à noite. eu me esforçava. . quando. e eles próprios. na frase de Tchékhov. . Mas não. que Claire e meu pai chegaram finalmente aos comentários sobre os pais dela. pessoalmente. . vão deixando cair suas gotas sobre a mesa.. que vieram de Vineyard pelo correio. Velas de cera de abelha consomem-se invisivelmente nos antigos castiçais de estanho e as velas perfumadas. sempre me dizia para ter bons sentimentos para com todo mundo. e não dizer exatamente o que queria. nunca tive as vantagens de uma educação. depois de tanto falar e falar. não lhe será desconhecida nem compatível com seu apaixonado meliorismo. é claro. a venci? Tornamos a jantar na varanda coberta. seja qual for a resposta. o anjo do silêncio passa sobre ele. — Mas com duas belas filhas. na verdade. . onde. Por todos os lados vêem-se velas — Claire as adora no alpendre. parece-me uma estupidez. ambos com excelentes colocações de executivos. mas minha mãe. Mas não tive. da cozinha. . no dia anterior. posso dizer que. — Provavelmente porque eles nunca se punham juntos no mesmo plano. Ou será que estou atribuindo a ele o estado de alma que me assalta? Por que razão sinto como se tivesse perdido uma batalha sangrenta.Ouço. E que mulher! Eu lhe perguntava: "Por que a senhora está novamente esfregando o chão? Larry e eu lhe daremos dinheiro para que arranje uma empregada para lavar o chão". É durante o jantar que. finalmente. por quê? Não leva a nada. Com todo o respeito.. Se eu tivesse. Será que vai sucumbir finalmente e chorar. e pronto. Não compreendo. educados em universidades. Eu. mas apenas para se fazer acompanhar da sombra fugaz da melancolia.

meu pai — já sentado à mesa. Entre os dois anciãos empapuçados. parece ter a maciez da maçã. o ente que lhe era mais chegado. Ouvimos o piar de "nosso" mocho — assim é que Claire identifica para os nossos hóspedes essa criatura que jamais vimos e cujo lar é a "nossa" mata. quando principiou a andar pela casa. considerando-o seu melhor companheiro na ausência de Olivia. e está com ela desde seus catorze anos. enrugados. ele olha em redor para ver se nada pegou fogo. já Dazzle dorme calmamente. agora. Vendo o silêncio abater-se sobre nós. quando a brisa mansa penetra na varanda. o rosto de Claire. . seu brilho. Ela não permite que Dazzle as amedronte com seus latidos. quando ainda cursava o ginásio. . e mais uma vez há apenas o grande e vivo finale do mês de setembro. nos últimos vinte anos. Essa noite. mais do que nunca. Ouvimos. . Ela respondeu que seria prudente. Sim. sua pequenez. Nunca dantes tão. O cão fica arquejante ao ouvir seu nome pronunciado pela dona. e por que estou deliberadamente cego à fatalidade de que um dia nos separaremos? Por que continuar afetando achar que tudo está bem para sempre e não permitir que penetre em mim nada que não me dê prazer? Não existe certa dubiedade e ilusão em torno de tanta adoração fina e sutil? O que irá acontecer quando a outra parte de Claire começar a me importunar? E o que acontecerá se não houver nenhuma outra parte? E o que dizer da outra parte de mim mesmo? Por quanto tempo veremos ainda um no outro apenas o que nos agrada? . com o guardanapo amarrado no cinto — começou a enumerar os nomes dos hotéis em Catskill que se tinham tragicamente queimado por completo.sua única extravagância. como nas gravuras do Velho Mestre. Não obstante. cujos ruídos constituem os mais belos e suaves cantos estivais que nos são dados ouvir. um pouco além da casa. . sua singeleza. no pomar. Em alguns segundos. Um pouco mais cedo. que a luz das velas ilumina. emitido pelos sapos e grilos. . Nunca tão sincero e imaculado. ela conta aos dois velhos — como se fossem duas crianças — que as corças saem da mata para pastar ao redor da macieira. Tem onze anos. de castiçal em castiçal. . o ruído das primeiras maçãs maduras que caem ao solo. fazendo tremular as chamas. até o dia que me encontrou. com uma caixa de fósforos. seu frescor. não posso tirar os olhos do rosto dela. que foi para o colégio.

aqui. moldam-se de forma tão palpável e terrível como se fossem pontas perfurantes. . a mãe do meu filho que ainda não nasceu. Jamais conhecerei algo durável. . Apenas uma pausa.. ela me é mais querida do que nunca. em seu cafetã claro bordado nas barras que. isso também desaparecer. dentro de pouco tempo — e tudo parece requerer apenas tempo —. no entanto. no início do verão. o pretendente de Helen. pelo amigo íntimo e defensor de Baumgarten. E. o que será? . pelo pseudofilho pródigo e tudo quanto ele está ávido de possuir. a alugar a casa para os fins de semana e as férias escolares. tenho certeza de que. brilhantes entre as longínquas constelações. se não for isso. por sua vez. do outro lado da mesa. a me enfastiar. pelo pseudo o quê? Quando. . e o homem que agora segura a colher do creme feito por Claire será substituído pelo aluno de Herbie. mais do que nunca a minha verdadeira mulher.Quanto tempo ainda me restará antes que me farte de tanta suave inocência. falando a meu pai e a Mister Barbatnik sobre os planetas que vai lhes mostrar mais tarde. então. sob cujo sombrio presságio tenho vivido todo esse dia. E. penso. ela costurou a máquina e que empresta um ar um tanto régio à sua irresistível simplicidade. conforme combinamos. Foi apenas uma pausa. e eu me veja mais uma vez chorando o que perdi e procurando o meu caminho? E com dúvidas por tanto tempo reprimidas e que finalmente se fazem ouvir — em consonância atroadora — as emoções. como se tivesse sido apunhalado. as forças me abandonam em borbotões. Com os cabelos suspensos. sim. e. Nada excede essa saga de todas as coisas que não deram certo que se prolonga indefinidamente . da minha esperança e de meu contentamento. sinto-me como se fosse cair da cadeira. Embora continuemos. deixando à mostra a vértebra vulnerável que sustenta a haste de seu esguio pescoço. . o cúmplice de Birgitta. esta noite. Jamais conhecerei coisa alguma a não ser as persistentes memórias do descontínuo e do provisório. Quanto tempo para que a vida suave em companhia de Claire comece a me saciar. Não resta a menor dúvida de que Claire ainda está comigo.. o que nós dois possuímos juntos desaparecerá gradativamente. já me sinto despojado de minha força.

cair da cadeira durante o jantar. Depois. Para que eu não me sentisse responsável? E que a escolhesse só por ela? Mas será que a noção de dever é assim tão horrenda? Por que ela não me disse que estava grávida? Será que não existe um ponto na nossa maneira de viver em que nos entregamos ao dever. de Bach? Um disco com um trio das sonatas. que ouvimos durante toda a semana. Procuro levantar-me da mesa antes que algo alarmante aconteça. mais uma. só ouvimos música. Na semana passada. resolvera fazer aquele aborto. E os discos também são dela. antes dessa. — Aquele novo. até não querermos mais. Em nossas andanças pela casa. que ela mesma coseu para pendurar nas janelas. acolhemos o dever da mesma forma como anteriormente nos entregávamos . munida pelo menos com isto.Não posso. a caminho da escola. a coberta de veludo cote lê para esconder o sofá meio estragado. continuaria a luta em casa. em cima da lareira. que pertenceram à sua avó e que ela ganhou quando fez vinte e cinco anos. essas composições que ressumbram nosso senso de bem-estar. Costumamos botar um disco uma vez. — E se puséssemos um disco? — digo a Claire. Tudo o que ouvimos resume-se na mais bela música que há. o concerto de Elgar. ela parava a fim de tomar chá com torradas com a avó e estudar piano. Tenho medo de estender a mão para alcançar o copo de vinho e não ter força suficiente para levá-lo à boca. depois mais uma. assim como as cortinas. que os trouxe da cidade. em consideração a todos os presentes. O toca-discos e os alto-falantes pertencem a Claire. Por sua livre iniciativa. Contudo. e os dois cachorros de porcelana. tanta música que até parece constituir um subproduto de nossas idas e vindas. para violoncelo. foi o quarteto de Mozart e. no carro. mais uma vez vejo-me possuído por uma terrível fraqueza física. Quando criança.

à paixão. à aventura — uma ocasião em que o dever constitui o prazer. diga simplesmente Claire — ela diz. Com todo o amor que possa ter. É melhor que o faça. e. Como conseguiu? Importa-se se lhe pergunto? — Professor. A música maravilhosa principia. o amante sente-se na verdade mais profundamente envolvido na sua própria vida do que jamais tivera lembrança . agora no apogeu de seu frescor. comprime na sua e. Agradeço ao meu novo e querido amigo. pois finalmente sente-se em casa (tal como ela planejara e contribuíra para que assim fosse). — Por favor. Talvez eu tenha até me esquecido de ser feliz com as pessoas. você possui um entendimento das coisas além de sua idade. meu pai contou-nos que o senhor é sobrevivente do campo de concentração. em meio a tudo isso. observa aquela generosa criatura do sexo feminino. que a segura. Consigo focalizar meus pensamentos sobre outro assunto. . Sim. ele olha para a plenitude de seu corpo sensual e para a pequenez de seu rosto acima do vaso de flores que colhera para ela. E. pela primeira vez com fluência e desembaraço. No decurso de muitos anos. Foi um belo dia. principia a falar. — Claire. Muito obrigado a todos. Sento-me à mesa e começo a degustar o vinho. — Mister Barbatnik — digo —. estender a mão ao seu tímido hóspede. cada qual de um lado de Claire. sem largá-la. por favor. e o amante bem em frente: com todo o amor que lhe é possível concentrar. este é um dos dias mais felizes para mim. deixe que em primeiro lugar expresse meus agradecimentos por sua hospitalidade a um estranho. aperta. Volto ao alpendre.ao prazer. . seu maravilhoso pai. não tão pálido como na ocasião em que me retirei. Durante todo o dia desejei apresentarlhe minha profunda gratidão por todas as belas coisas que pretende fazer pelos outros. posso erguer e baixar o copo. Miss Ovington. Os dois velhos estavam sentados. . é ainda tão jovem e adorável. . ao invés de o prazer constituir o dever. quando de seu passeio matinal.

para ver se conseguia durar até a noite. Foram dias e dias e dias até que deixei . Quem. — Mas como foi que não o mandaram para os fornos? Como é que o senhor está aqui conosco? Por que Claire está aqui? E por que não Helen e nosso filho? Por que não minha mãe? E daqui a dez anos. Com os poloneses. Como se fosse um corpo que cai inerme. Então. Trabalhei para eles nas minas de carvão. partindo do nada. Só quando os russos de repente começaram a chegar. Viverei para ver o fim dessa monstruosidade. — Alguém tem de sobrar. leva a última colher de creme à boca. E foi assim que sobrei. — Houve um princípio — Mister Barbatnik diz —. Naquele tempo. Dizia a mim próprio que aquilo era o que queria fazer. assim é que deveria ser!". com nós quatro juntos. nem que seja uma só pessoa. . eu dizia a mim mesmo. para onde me mandaram. Mas.— o verdadeiro eu no seu estado mais puro. quando estiver com quarenta e cinco anos? Começar tudo novamente aos cinqüenta anos? Ser eternamente o carpidor de minha situação de réprobo? Não posso! Não quero! — Eles não podiam matar todo mundo — diz Mister Barbatnik. . foi que os alemães nos pegaram às três horas da manhã e nos puseram em marcha. ele continua a pensar que está sendo afastado por uma força tão incontestável quanto a da gravidade. a qual também não é nenhuma mentira. amarrado por todas as sensações ao seu único e verdadeiro lar! Contudo. então? Construir uma vida íntima de novo. herdada de meu pai. que se desprende e vai descendo em direção à terra sedutora. era moço e forte. este alguém serei eu. Trabalhei como se a mina de carvão fosse minha. em sua língua materna ou com qualquer uivo primitivo ou animalesco: "Não me abandone! Não vá! Não suportarei sua falta! Este momento. para escutar a história da sobrevivência que pediu para ouvir. que aquele trabalho que fazia era para meu filho. tem que haver um fim. todo santo dia. Isso é o que eu digo a mim mesmo toda manhã e toda noite. como qualquer pequenina maçã do pomar. ao invés de gritar. Convencia-me de várias coisas.

Então. é verdade — diz. que aconteceu? — pergunto. Como é que eles o identificaram? — Eles sabiam. à noite. com seus delicados ossos e articulações —. . — Como é que o senhor se salvou. O que restava de nós. Pensei que estivesse mentindo. comecei a correr. Claire diz: . mas ele continua a olhar para baixo. Mas. indo. e envolvidos dentro dela os dedos finos e delgados de Claire.O senhor devia estar parecendo tão estranho. os agricultores alemães me deram de comer. um irmão. como se tivesse sido espetada com uma agulha. enquanto olha fixamente para sua grande mão que. estamos lhe perguntando coisas demais. duas irmãs e uma filha de três anos. não devíamos. Todos nós estávamos saindo de nossas tocas. individualmente. Eu não era o primeiro. depois de semanas e mais semanas de marcha sem parar. — Mister Barbatnik. mãe. parece quase tão larga quanto à pá de cavar terra e tão pesada quanto uma alavanca. E foi assim que fugi. se alguém sobrasse. E as coisas foram indo. Mister Barbatnik? — Uma noite. para onde quer que fosse. Entretanto. então. — E depois. como se quisesse decifrar o enigma dessa mão na outra. não é tão mau. Sim. à luz das velas. Escondi-me na mata e. pois ela podia estar tramando algo que não era bom. com uma estrela branca. pai. quando lá chegasse eles matariam qualquer um que sobrasse. Achei melhor não voltar para aquelas bandas. esse alguém seria eu. gritando com todas as forças de meus pulmões. vi através das árvores um tanque rodando pela estrada. . uma alemã da fazenda disse-me que os americanos estavam lá. mas basta botar três alemães juntos dentro de um quarto para não haver mais paz no mundo. gente morrendo por todos os lados e mais uma vez eu dizia a mim próprio que. . eu sabia que. Perdi minha mulher. o alemão. Claire deixa escapar um gemido — Oh —.de acompanhar o curso da nossa marcha. no dia seguinte. se seguisse para o lugar do nosso destino.

como se estivessem sonhando. — Se ele escrevesse um livro — diz meu pai — o título deveria ser O homem que nunca se desesperou. Se lessem. Meu pai podia me matar. Mas eu. por iniciativa própria. pessoalmente. quando declarei a meu pai que eu me recusava a fingir. "Não tive força para segurar o pato". estou me sentindo mal". quando ouvi o barulho de uma queda na cozinha: "Socorro. pronunciando pato em vez de prato. depois do jantar. O que é que o senhor queria ser? Provavelmente por causa da força de seus braços e do tamanho de suas mãos. Acreditar no que não existe. e não me contentar com mentiras.Ele sacode a cabeça. talvez meneassem a cabeça pensando como é que podiam ser como são e este homem ser tão delicado e bom. . Uma noite. . Na América. — Uma criatura humana — responde — que pudesse ver e compreender de que modo vivíamos. No mês que vem. esperava ouvi-lo dizer que desejava ser carpinteiro ou pedreiro. Entretanto. — E aqui. — Eu digo a ele — exclama meu pai — que devia escrever um livro. assim como a realidade das coisas. Nem mesmo ficou doente. não. não. E há judeus fanáticos também — ele diz a Claire —. Desde criança. um bom menino cheder. encontro-a no chão. contando tudo por que passou. de câncer. Como sua mãe. — Minha querida. o senhor casou outra vez? — pergunto. foi motorista de táxi por mais de vinte anos. Parece que é assim. Talvez esta seja a razão de nossa vida. aos dezesseis anos libertei—me daquilo tudo. e andam por toda parte. esta era a minha ambição. ela diz.O senhor era muito jovem. os fanáticos. um dia vivemos e fazemos perguntas. Corro à cozinha. . Estas são justamente as pessoas que odeiam os judeus. — E antes da guerra? — pergunto-lhe. foi lavar os pratos e eu fui ligar a tevê. mas eu absolutamente não queria ser fanático. No princípio. Gostaria que algumas pessoas o lessem. faz três anos que morreu. Fiquei muito . era como todo mundo. aquilo não era para mim. Nem por um segundo. Ela também esteve no campo de concentração. desde a idade de dezesseis anos. — Sim.

” Pela janela da sala de estar. Lado a lado. como faz com seus alunos do sexto ano — e como fez comigo na primeira noite que aqui passamos —. Claire vira o disco e o repõe no prato do toca-discos para tocar. Depois. venha ver o pôrdo-sol!" "Claire. responde a perguntas sobre as estrelas cadentes. ele acrescenta: — Mais alguma coisa? — Tudo isso é horrível — diz Claire. apenas para fazer um registro completo. tardes e manhãs. Não sei o que pensar. Foi horrível. mesmo as que estavam apagadas. Depois que meu pai foi de vela em vela a fim de apagá-las. a fim de se qualificarem para as batalhas. à volta da mesa do café. Caso acordem antes de nós. no alto da colina. Todas as noites fazemos isso. fomos para o jardim.perturbado só de ouvir aquilo. meu Deus — diz. para aquela mera partícula de estrela adjacente à Ursa Menor. que os soldados gregos tinham de distinguir. Não sei onde principiou. Permaneço no jardim. Parece ler em voz alta o verso das medalhas. Dois dias depois. — Sem nenhuma hostilidade. — Oh. Alguns minutos depois. vejo os três de pé. Sinto-a respirando o ar. gritando da cozinha para o alpendre: "Clarissa. como é o nome daquela estrela?” Pela primeira vez em todo o dia ela sucumbe à exaustão. comunicam-me que o câncer já estava no cérebro. subir sozinho até o alto da colina. . aponta. E os seus olhos. Meu pai tem nas mãos o álbum das medalhas de Shakespeare. Claire faz explanações sobre a via-láctea. que estava perdida. que olhavam para cima. quer que saibam onde encontrar o café e os sucos. para Claire mostrar-lhes os outros planetas. apenas para certificar-se. através de seus óculos. Lembro-me dos nossos passeios de gôndola em Veneza. acompanha-os até a casa. ela vem ter comigo no desgastado banco de madeira. então. pousando a cabeça no meu ombro. que lentamente entra e depois também lentamente sai de seu corpo. sem nos falarmos. olhamos novamente para as conhecidas estrelas. visíveis naquela noite. Tudo que fizemos durante o verão foi feito quase todas as noites. "Você tem certeza de que não morremos e fomos para o céu?" "Você terá de perguntar ao gondoleiro. Falando para aqueles dois homens. com Dazzle. Não desejo saber. Quero. Vi. olhe um beija-flor!" "Querida. apenas. Todos os dias.

inteligentes e confiantes. onde estão sentados juntos. E é isso. tendo-se finalmente recuperado dos erros dos vinte anos. depois do jantar à luz das velas. "E ambos compreenderam que a parte mais complicada e difícil estava apenas principiando. Umas nove ou dez páginas. pensando o que poderão temer. e é tudo. Entretanto. O dia de hoje. Dois velhos vêm ao campo a fim de visitar um jovem casal. que lhe acaricia os cabelos. A mais bela música que jamais houve. Ontem no supermercado vi que tinham aparelhos de oxigênio portáteis na prateleira. e a casa de verão do casal. digo-lhe: — É um simples conto de Tchékhov. não acha? — Mas de quê? Seus olhos verdes tão suaves. a linda cabeça da moça reclinada sobre o ombro do rapaz. Amam-se. tão aconchegante e convidativa. O rapaz da loja mostrou- . não sei. saudável e belo. em grande parte devem isso um ao outro. Depois de uns instantes. — Você está realmente com medo de alguma coisa? — Parece que estou dizendo que sim. Ouve-se uma música tocar dentro de casa. e ambos sentem como se tivessem sido salvos. um dos velhos conta a história de sua vida." Esta é a última linha de A dama do cachorrinho. O rapaz tem uns trinta e cinco anos. uma sobrevivente de uma penosa mocidade e adolescência. estão agora pousados em mim. chamadas A vida que eu levava antigamente. na encosta da montanha. A história acaba assim. Toda aquela sua atenção perceptiva de sala de aula está focalizada sobre a minha pessoa. da total devastação do mundo. transbordante de contentamento. e sobre os golpes que continuam sempre. não é? — Não é o quê? — Isto.Depois de inventar da minha própria cabeça uma constelação entre as cintilações mais vivas do céu. Parece. os hóspedes em suas camas recém-feitas. as constelações em seus devidos lugares — assim como os medalhões —. respondo-lhe: — Realmente. O verão. e sobre o que vou dizer. o mocho piando. A moça está com seus vinte e poucos anos. Ambos têm todos os motivos para acreditar que são vitoriosos.

atrás das toalhas de praia. no entanto. Oh. você não compreendeu e eu não lhe posso dizer. Intimamente ligado — ligado a você como jamais fui a alguém! — e. Coloquei-o no armário do banheiro. depravada. não tem nada. que corre à agência do jornal para botar um louco anúncio classificado onde pede a volta do nariz que decidira dizer adeus ao seu rosto. ele não vai morrer só porque se exaltou quando falou do passado. é estúpido! Idiota! Injusto! Ser assim roubado de você! E desta vida que eu amo e quase não conheci ainda! E roubado por quem? Sempre acaba sendo eu mesmo! De modo que me vejo de volta ao consultório de Klinger! E. Não. Estarei sem desejo desta carne na qual fui enxertado e nutrido para voltar em direção a algo que domina minha vida. no entanto. meu querido — ela diz. não. Já está morrendo e temo nada poder fazer para salvá-la. Não posso dizer. É hora de dormir. não sou nenhum simpático e discreto sofredor saído de um conto mudo de Tchékhov acerca dos sofrimentos humanos comuns. ao vê-lo no estado em que ficou. é tão bem-intencionado. Oh. inexplicável! O senhor aí. E você também não pode fazer nada. nada mais. serei muito mais horrível. Oh. esta noite. caso alguma coisa aconteça a um deles esta noite. Ele é tão ativo que chega ao ponto de nos desgastar. nada mais. beijando-me a mão e levando-a as suas faces —. É hora de dormir. Por que iria acontecer? — Não há nenhum motivo. muito mais semelhante ao frenético e mortificado mutilado da história de Gógol. nem que seja de leve. mas dentro de um ano a minha paixão estará morta. estou de volta . arrependi-me de não ter trazido o aparelho comigo no carro. falando do passado com aquele casal lá do hotel. Sim. Você é que está exausto.me como funcionam e eu comprei um. no futuro não serei capaz de estender a mão para tocar em você. a despeito da presença ali de todos os Newsweeks e New Yorkers. inocente adorada. Está com ótima saúde. você está esgotado. — Oh. é o que sobrou de uma pilhéria ridícula. — David. Só que. mas não vai acontecer nada. seu terapeuta charlatão. e é só. sem que tenha de me lembrar primeiro que devo fazêlo.

procurei inalteravelmente observar o mais salutar dos regimes — a ponto de atribuir-me a tarefa de fazer. obviamente. seu valor intrínseco e sentimental. aquilo que procuro nunca esteve em meu poder. segui todas as instruções. E eis o resultado! Eu sei. . cabelos louros. eu imagino. acordo e me certifico de que a casa não está em cinzas. nem fui abandonado na cama como um incurável. com um metro e setenta e dois. mesmo quando protejo todo o meu acúmulo de felicidade e toda a minha esperança contra uma transformação ainda por vir. devo aprender a viver sem aquilo que se perdeu . eu imagino. infantil. descrevendo-o quando visto pela última vez. E a resposta do médico? Que. Pela noite afora.professora numa escola particular de Manhattan. eu imagino. entrego ao diligente. começa a formar grânulos e seus gemidos se fazem ouvir. Entretanto. a mais afável. sessenta e três quilos. é como se eu nada soubesse! E pode ser que o senhor também não saiba nada! E não me encha com as tais consolações do princípio de realidade! Basta achá-las para mim antes que seja tarde demais! A mulher perfeita está à espera! O sonho de ter a meu lado uma jovem e a mais agradável das existências! E aqui. Minha indulgente Clarissa ainda está a meu lado! Levanto-lhe a camisola ao longo do corpo inconsciente e. cada um em sua cama recém-feita. para início de conversa. e quando o pior acontece. eu sei. . Ou que. . .e muito pior do que antes! Fiz tudo o que o senhor mandou. . detenho-me para ouvir o mais horroroso som imaginável emergir do quarto onde Mister Barbatnik e meu pai estão deitados sós e insensíveis. imponente e inteligente doutor o anúncio com o título PERDIDO. e a recompensa a quem prestar informações relativas à sua recuperação: meu desejo por Miss Claire Ovington . afetuosa e leal das criaturas — que se esvaeceu misteriosamente. aveludado. eu sei. na sala de aula.. sonhos maus deslizam velozmente sobre mim como água em guelra de peixes. olhos verdes e brilhantes. principio a fazer pressão e a puxar os bicos dos seus seios até que o círculo pálido. o estudo das paixões. com os lábios. mesmo quando sorvo em desesperada exaltação o bocado mais apetitoso de sua carne. submetendo à observação minuciosa aqueles que haviam esmiuçado o assunto mais impiedosamente. Ao amanhecer..

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