Ensaio Acerca das Teorias Fenomenológicas de Edmund Husserl (Jefferson Luis Brentini da Silva

)

³Eu existo, e tudo o que não sou eu, é um mero fenômeno que se dissolve em ligações fenomenais´. (Husserl)

O presente artigo tem o intuito de explanar a respeito de uma doutrina filosófica muito prestigiada e que possui a sanha de reduzir tudo aos fenômenos nos quais (o modo como) nos são apresentados, tal doutrina filosófica é denominada como Fenomenologia e, darei ênfase nas doutrinas de Husserl. Porém, inicialmente, é imprescindível explicitar o que é, de fato, o fenômeno. O fenômeno é apenas o ³vivido´, e nada tem a ver com ³objeto em si´. Para os antigos, fenômeno era a unidade entre o ser e o aparecer, e também ³aparência enganosa´ (Platão: ³mundo sensível´); para Hume, o fenômeno está separado da coisa; para Kant há o fenômeno e a coisa em si (noumeno), que é o limite da pretensão do fenômeno, algo fora do alcance da razão humana, o incogniscível; o fenômeno, ao contrário, é o objeto da experiência. Para Hegel, o ser e/ou o Absoluto é cognoscível (a mesma noção que se tem para o Espírito). Para Husserl, a noção de ser é verossímil a noção de fenômeno (tudo que se dá para a experiência atual é coisa verdadeira). No aparecer do fenômeno dá-se a essência. As essências não existem independentemente das coisas. Não há um amarelo fora do muro amarelo. A essência é o invariante; e a fenomenologia é a ciência das essências, e essência são as maneiras de aparecer o fenômeno; ela não vem da comparação ou abstração de várias: para proceder à comparação é preciso ter captado a essência, o que nelas é semelhante. O procedimento que busca descrever, não explicar,

nem analisar ³Retorno às coisas´ é o que propõe numa época em que a juventude estava saturada de especulações, uma filosofia da essência e do objeto é ³explorar o dado, o que se percebe´ sem forjar hipóteses. É apenas descrição, é crítica da ciência; é busca de bases sólidas e de ³saída da ciência´. E, por transcendental podemos pensar acerca de como se apresenta o objeto em geral; quer dizer, sempre como ³intencionalidade´, sempre como um ³objeto para´ uma consciência (Transcendental é diferente de transcendente: aquele é interior, ideal; este é exterior, real) e a fenomenologia é a ³vivência imediata da consciência´, tudo aquilo que não aceita pressupostos das ciências empíricas (noções matemáticas, físicas, etc.), como também não aceita a primazia do racional (Galileu), na qual só nos leva a ³objetividades ideais´. É o contínuo ³pôr a descoberto´ nos níveis que constituem o mundo; é a reconstituição do mundo; é o ³conhece-te a ti mesmo´, o penetrar do homem dentro de si mesmo (é interpretação de si mesmo e é vivência do eu transcendental). É um estudo das vivências da consciência nos diferentes significados do ser e do existente à luz das funções da consciência. A consciência deve passar da atitude ingênua (ciências positivas) à transcendental (consciência que constitui o mundo como fenômeno puro), pois, é na análise das vivências intencionais da conscência que percebemos o sentido dos fenômenos; é o estudo da constituição do mundo da consciência, é a ciência descritiva eidética da consciência pura transcendental. É teoria dos fenômenos puros ou da consciência pura. A fenomenologia procurou desenvolver substancialmente conceitos que revolucionaram a filosofia, a saber: a evidência, a percepção e a verdade; a evidência em Husserl possui três vias, denominadas como: evidência originária (percepção ou esperiencia de algo em sentido amplo; evidência derivada (ou secundária - que está

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diretamente ligada à memória, a recordação de algo); e, finalmente, a intuição confusa, sendo esta ligada apenas ao modo verbal (semeada na qualidade de memória, recordação, só que tal memória é colocada como confusa e deturpada ± incerta ± de um fato - e, consequentemente, tal evidência é vazia, por essa ser pensada e cultivada apenas no ambito do simbólico, sem esta possuir uma relevância, um arcabouço, para além deste). A evidência, pensada como conceito, é a forma temporal de como a verdade se engendra na temporalidade vivida da consciência concreta, e, por sua vez, a mesma não pode ser encontrada em uma qualidade do sentimento. Nesse sentido pode ser denotado que a evidência é pensada como uma ³vivência da verdade´; e essa vivência é determinada pela intencionalidade, efetivamente. Logo, a atualidade é privilegiada na dimensão em que nos é dada a própria coisa com a qual os juizos se referem, ao passo que todas as modalidades da consciência são remetidas enquanto fundamento do seu valor de verdade, sendo tais valores elencados na esfera da atualidade, como veremos mais tarde. Outro ponto essencial acerca da fenomenologia é a distinção do modo originário de doação em sentido absoluto, sendo caracterizada pela evidência perceptiva, mesmo se tratando de objetos e ideais, dos sentimentos ou dos valores. Vale ressaltar que na fenomenologia (principalmente) todas as discussões em torno da verdade de um modo derivado de consciência se reduzem à busca de uma evidência idêntica aquela que obteriamos caso a coisa imaginada estivesse presente em ³carne e osso´. Como a evidência dá-se na atualidade vivida da consciência temporal é próprio do seu modo de existência ³passar´, sendo assim, as vivências se constituem, antes de tudo, em um fluxo temporal interior.

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A definição fenomeno lógico da evidência enquanto fundamento da verdade (como um em-si) independente das consciências que o visam e nos permite superar a abstração da atitude teórica, pois a evidência e a experiência vivida na qual a verdade se constitui como tal, são identificados na própria coisa. Já a respeito da percepção, poder se a inferir que como percepção pode-se pensar como uma ideação em ato, na qual antecipa a concordância dos perfis, antes mesmo da consciencia e toda a percepção é inadequada e, ao mesmo tempo, absoluta, sendo assim a forma mais perfeita da evidência é a percepção que, por sua vez, possui esse caráter absoluto concatenado com a temporalidade da percepção (nesse ponto vale dizer que a verdade e a percepão nasce e morrem juntas), ou seja, a percepção, bem como a verdade, só pode ser refutada quando é lançada outra forma de conhecimento na qual possua um caráter sólido (menos dubitável). Logo, se o percebido é dubitável, a própria percepção e os atos da consciencia em geral não o são. Todo o vivido intelectual e todo o vivido em geral no instante em que se efetua podem tornar-se objeto de uma visão (intuição) e apreensão pura e nesse sentido ele é um dado absoluto. Reside, pois, precisamente na intuição imediata e evidente da cogitatio, o fundamento de todo o conhecimento racional possivel. Tomado na correlação intencional acerca da redução fenomenológica, a noiésis é o ato de perceber, e o objeto percebido é a noema. A coisa como fenomeno é a coisa que importa (as coisas em si-mesmas, em ³carne e osso´), pois, é aqui que o objeto ém ao mesmo tempo, imanente e transcendente, dado e constituido, ideal e empiricamente presente (correlação noéticonoemático).

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Todo objeto da percepção é a unidade do mundo, é a de uma totalidade objetivamente aberta, resultante de sinteses unificantes das percepções, ideais e virtuais (redução). Mas, se posso duvidar de tudo aquilo que percebo, não posso por em duvida o prórprio ato de perceber ou de pensar e aquilo que nesse percebe ou no pensar é visado de forma imanente. Na reflexão ou percepçao interior o aparecer e o que não é identico. A vivencia é o único ser que, na reflexão, pode ser dado de modo absolutamente adequado. Assim a percepção imanente das qualidades de um objeto físico, independe da existência (ek-sistencia = fora de si) real ou não do objeto do qual seriam qualidades. Toda a percepção é, de certa maneira, interior a correlação intencional da consciencia. O que tem existencia verdadeira e assegurada eram os fatos da consciencia. Deste modo, torna-se imprescindivel o ver, pois o ver é essencial ao conhecer e é a função mais reveladora da verdade (³ver é ver mais do que nos é dado ver´). O ideal do conhecimento é o preenchimento total, pleno, de todas as potencialidades significativas. Ele será sempre um misto de preenchimento e de intenção, aberto a um campo perceptivel ou cultural, a uma situação, um horizonte de passado e futuro. Em Husserl, a própria ideia do mundo, externo é criado pela consciencia. Tudo o que é captado sensivelmente passa pelo conteudo a priori, da consciencia e esta acaba por coincidir fato e conhecimento; existir é estar pensado e processado na forma de seu exterior. A verdade então é a descoberta da essencia que estes fenomenos encerram sendo puramente mentais e estendidos como tais, e etc.

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Quando caminhamos para o ideal encontramos a racionalidade voltando-se para as coisas mesmas (aqui fundamental) o ideal, dessa forma, pode-se inferir que a fenomenologia resolveu o problema da verdade possuindo em caráter absoluto porém temporal. Vale ressaltar que toda a consciencia é um esforço para esforço para encontrar seu objeto sob a forma de um dado absoluto. A claridade perfeita é a medida da verdade e que os enunciados que conferem seus dados, uma expressão fiel, não precisa se preocupar com argumento, por mais refinados que o sejam. A verdade é, originalmente, em seu processo constitutivo, a significação intencional do objeto enquanto numa vivência atual presente a si mesmo de forma adequada. Assim, a evidência pertence à nóesis (ato) enquanto a verdade caracteriza-se pelo conteúdo noemático. Há quatro vias para a verdade, são elas: I) Um acordo completo entre o que é visado pela consciencia e o dado, vivido na experiencia da evidência; II) Idéias, mais que experiência ou percepção imediata, como uma espécie de recordação (ligado a memória); III) O próprio objeto da plenitude da sua doação original e imediata, e que confunde com o verdadeiro (em oposição aos modos derivados; e, finalmente, IV) Que é uma retidão da intenção de julgar a partir da presença originária da própria coisa visada.

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Segundo Lauer, os conceitos I e III referem-se aos objetos intencionais enquanto o II e IV estão ligados aos próprios atos intencionais. Em suma, os atos são verdadeiros na medida em que são orientados pelo principio da busca do ver intencional. Os objetos são verdadeiros enquanto fazem parte da sua doação intencional originária. Uma percepção é verdadeira se for evidente e será conforme a experiencia da presença imediata do objeto dado em ³carne e osso´.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

Husserl, E. (1994 [1928]), Lições para uma Fenomenologia da Consciência Interna do Tempo. Lisboa: Imprensa Nacional ± Casa da Moeda;  LAUER, Q., Phénoménologie de Husserl. Paris: PUF, l955;  MERLEAU-PONTY, M. Phénoménologie de la Perception. Paris: Gallimard, 1945;  FURTADO, J. L., A Crítica fenomenológica da fenomenologia em Michel Henry. In: XII Encontro nacional de filosofia da ANPOF, 2006, Salvador. Livro de atas. Salvador: ANPOF, 2006. p. 291-292;  FURTADO, J. L., A Carnalidade do cogito; ensaio de uma fenomenologia do cartesianismo. Dissertatio (UFPEL), Pelotas, n. 7, p. 99-112, 1998.

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