JESUS CRISTO HISTÓRIA E MISTÉRIO

Joaquim Carreira das Neves, Fr. OFM

FICHA TÉCNICA TÍTULO: JESUS CRISTO - HISTÓRIA E MISTÉRIO AUTOR: FREI JOAQUIM CARREIRA DAS NEVES, OFM EDITORA: Editorial Franciscana, Apartado 1217 R. Areal de Cima 4711-856 BRAGA CAPA: Ilustração da capa, Ecce Homo, Escola Portuguesa, século XV, Museu Nacional de Arte Antiga Arranjo gráfico, impressão e acabamentos: Oficinas Gráficas da Editorial Franciscana O copyright Editorial Franciscana, Novembro de 2000 ISBN: 972-784-143-0 Depósito legal: 157728/00 Reservados todos os direitos legais. Joaquim Carreira das Neves - OFM (Atenção - As páginas referidas neste Índice reportam-se ao ficheiro informático de que o livro foi extraído e não ao próprio livro)

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ÍNDICE INTRODUÇÃO 1. O JUDAÍSMO DOS TEMPOS DO PÓS-EXÍLIO 1.1. O judaísmo no período persa 1.1.1. Do tempo bíblico ao tempo das Escrituras Sagradas 1.1.2. Do tempo de Israel ao tempo de Judá 1.1.3. Do tempo dos profetas ao tempo dos sacerdotes 1.1.4. Do tempo do hebraico ao tempo do aramaico 1.1.5. Do messianismo davídico ao novo messianismo 1.2. Do tempo da profecia ao tempo da apocalíptica 2. OS JUDEUS E O IMPÉRIO GREGO 3. OS JUDEUS E O IMPÉRIO ROMANO 4. A GEOGRAFIA DE ISRAEL NO TEMPO DE JESUS 5. OS GRUPOS RELIGIOSOS DE ISRAEL 5.1. Os fariseus 5.2. Os saduceus 5.3. Os escribas 6. INSTITUIÇÕES RELIGIOSAS DE ISRAEL 6.1. Sábado 6.2. Templo 6.3. Lei 7. A QUESTÃO SINÓPTICA 7.1. Pai Nosso 7.2. Bem-aventuranças 7.3. última Ceia 7.4. Ascensão do Senhor 7.5. Pregação de João Baptista 8. O JESUS DA HISTÓRIA 9. O JESUS DA TRADIÇÃO 10. O JESUS DA REDAÇÃO 11. AS DUAS FONTES 12. A FONTE QUELLE (Q) 13. A DOUTRINA DOS TEXTOS EVANGÉLICOS DA FONTE QUELLE 14. DO JESUS DA HISTÓRIA AO CRISTO DA FÉ 15. JESUS E OS JUDEUS 16. EVANGELHOS DA INFÂNCIA 17. JESUS E JOÃO BAPTISTA 18. BATISMO DE JESUS 19. TENTAÇÕES DE JESUS 20. REINO DE DEUS 21. MILAGRES DE JESUS E REINO DE DEUS 22. PARÁBOLAS E REINO DE DEUS 23. DISCÍPULOS E REINO DE DEUS 24. JESUS E A IGREJA 25. ENTRADA EM JERUSALÉM E PURIFICAÇÃO DO TEMPLO 26. CEIA PASCAL 27. PROCESSO DA PAIXÃO E CRUCIFICAÇÃO 28. A RESSURREIÇÃO DE JESUS 29. PARUSIA OU SEGUNDA VINDA DE JESUS CRISTO BIBLIOGRAFIA

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O JUDAíSMO NO PERíODO PERSA. Quando o Novo Testamento se refere às Escrituras que contêm o plano de Deus sobre a humanidade. da Apocalíptica e dos diversos grupos sociais e religiosos que vão surgindo dentro do povo de Israel. dos especialistas na Bíblia. uma nova civilização humana? A finalidade deste livro é. É o tempo em que as Escrituras Hebraicas começam a fazer parte integrante da fé judaica.. Por isso mesmo. os leitores encontrarão Bibliografia mais atualizada sobre cada um dos capítulos. o que é absolutamente normal porque se trata duma religião histórica. há que compreender as idéias gerais e fundamentais do judaísmo nestes três tempos históricos para compreendermos também a pessoa de Jesus. Do tempo bíblico ao tempo das escrituras sagradas. sobretudo o primeiro sobre o mundo da geografia humana. Procuramos evitar. do Messianismo. mas também das suas 5 .) dão-se muitas modificações políticas e religiosas internas ao judaísmo em comparação com os tempos antes do exílio da Babilônia. que começa sob o domínio do império persa (559-333 a. o tempo do império helênico e o tempo do império romano.INTRODUÇÃO A pessoa de Jesus Cristo divide a história em duas partes: antes de Cristo e depois de Cristo.1. que tem como pontos fundamentais a questão de Israel como nação dependente dos três impérios. muitas evoluções e modificações. mesmo para aqueles que não acreditam nele à maneira dos cristãos. política e religiosa do tempo de Jesus. Não começamos pelo tempo histórico de Jesus mas pelo tempo do pós-exílio para compreendermos melhor as linhas culturais e religiosas dos judeus que desembocaram no tempo de Jesus.1. a fé israelita dos tempos dos patriarcas é bem diferente da dos tempos de Moisés e dos profetas. com raras exceções. precisamente. a Lei e os Profetas. mas sim de a apresentar à luz da história e cultura do seu tempo. no tempo de Jesus.1. Neste período histórico há que distinguir entre o tempo do império persa. 1. C. No fim do livro. o mais santo de todos? Foi apenas um grande revolucionário religioso. a partir do "novo judaísmo".. mormente dos evangelhos sinópticos. sobretudo depois da reconquista dos Macabeus. de grupos religiosos e até de traduções gregas. Devemos começar por compreender que o Judaísmo sofreu. determinou uma nova maneira de ver Deus e o homem. A última fase da religião bíblica também é chamada a fase do Segundo Templo ou do "período intertestamentário". isto é. assim. Mas retocamos e alongamos alguns desses programas. Sem este estudo histórico e cultural dificilmente poderemos perceber a grandeza e a história de Jesus. C. as notas de rodapé. 1. por isso mesmo. Quem foi Jesus? O verdadeiro e único Filho de Deus. por enquanto. isto é. apenas as duas secções mais importantes das mesmas Escrituras: a Torá (a Lei ou o Pentateuco) e os Nebiim (os Profetas). o que o torna um judeu igual aos outros e diferente dos outros. até aos nossos dias (1948). O tempo do judaísmo de Jesus é fruto deste "novo judaísmo". e esta da dos tempos do pós-exílio. os leitores. que vai desde a reconstrução do Templo de Salomão por volta de 515 a. Desde o exílio da Babilônia. tendo em conta os estudos mais recentes dos exegetas. responder a todas estas questões. uns setenta anos depois da sua destruição pelos babilônicos. ao longo dos tempos. sobretudo. a começar pela própria pessoa de Jesus e pelos seus discípulos só tem em vista as duas primeiras secções. segundo os dados mais recentes dos estudos históricos e bíblicos. C. incluindo. 1. em grande parte. nunca mais os judeus tiveram uma nacionalidade própria. O JUDAÍSMO DOS TEMPOS DO PÓS-EXÍLIO 2. estas sagradas Escrituras também já tinham sido objeto de interpretações de rabinos e de escolas interpretativas. até à sua destruição final no ano 70 da nossa era. igual a Deus e ele próprio Deus? Foi apenas um simples homem. Mas. Não temos a intenção de debater a pessoa de Jesus apenas através das variadíssimas posições de historiadores e exegetas. juntando-lhes também os Salmos. Durante este "período intertestamentário". Seguimos. a questão das Escrituras Sagradas. Por isso. Teríamos. A terceira parte. e o último sobre a Segunda Vinda de Cristo. os chamados Ketubim (os Escritos) só aparecem um pouco mais tarde. o modelo que apresentamos no programa televisivo da Igreja Católica Ecclesia ao longo do ano dois mil. que. e à luz da fé das comunidades cristãs primitivas de acordo com o estudo dos evangelhos. Continua a ser a personagem mais importante da humanidade. Tanto Jesus como as igrejas primitivas não dependiam exclusivamente do Livro. para não sobrecarregar o texto e. um "antigo judaísmo" e um "novo judaísmo". no século VI A.

seguindo de perto as reformas de 6 .) e nos Talmudes (400-500 p. A palavra Israel passa. não aceitaram semelhante ajuda por causa da religião meio judaica e meio pagã dos samaritanos. Também é por causa disto mesmo que os judeus consideram como importante. mais a doutrina da Mishna e dos Talmudes do que as suas sagradas Escrituras. E foi assim que surgiram as inimizades entre judeus e samaritanos que vamos encontrar no tempo de Jesus. 1. passaram a ser chamados de Judeus. Esdras e Neemias. os israelitas deixam de se chamar israelitas (os B'nai Yisrael . Esdras e Neemias). os profetas eram a alma espiritual e crítica da teocracia.. e Jesus Cristo. Em conclusão.").interpretações.C. Os samaritanos bem quiseram juntar-se aos Judeus na reconstrução do Templo. a escola interpretativa de fariseus e saduceus.).2. Já que os judeus não aderiram a Jesus. uma vez que tanto a Mishna como os Talmudes não são mais do que interpretações das mesmas Escrituras aplicadas ao tempo histórico. há que ter em conta o novo paradígma histórico e geográfico e o novo paradigma religioso motivado pelo desaparecimento dos profetas e da monarquia.C. tanto hoje como antigamente. Ora Deus não abandona nem os judeus nem qualquer outro povo. Quanto ao novo paradigma histórico e geográfico. 200 p. o que levou a uma tomada de posição.filhos de Israel) para se chamarem apenas Judeus. Tudo isto tem o máximo interesse porque nos leva a concluir que os hagiógrafos ou autores finais das sagradas Escrituras Hebraicas tinham em vista a apresentação da Palavra de Deus de acordo com o desenvolvimento da história. Nas suas sinagogas. A partir de agora aquelas Escrituras eram cânon de vida. Depois do exílio temos apenas os três profetas Ageu. "as Escrituras falam através da linguagem humana". Do tempo dos profetas ao tempo dos sacerdotes. o Rabbi lshmael. a significar o Israel histórico do passado e o Israel de um futuro ideal e messiânico. mas esta rejeição é histórica e não divina. Zacarias e Malaquias ligados à reconstrução do Templo e ao restabelecimento do sacerdócio e do novo estado de Judá. 1. Mas uma vez que deixou de haver teocracia real devido ao desaparecimento dos reis também desapareceram os profetas. Antes do exílio. pessoas da terra de Judá. ao longo dos séculos. o mesmo Deus os teria abandonado e rejeitado para os substituir pelo novo povo de Deus. e é por isso que as Escrituras já incluem dentro de si mesmas a sua própria interpretação histórica. comandados pelo seu rei Ciro. pois todos os povos são de Deus. ao longo dos séculos. os israelitas. mas os responsáveis judeus. A Palavra não cai do céu à terra de qualquer maneira. quer vivessem fora de Israel.1. E é a partir de todo este conjunto de fatores que se constituem as novas Escrituras cristãs do Novo Testamento. Basta considerarmos a interpretação apocalíptica.. as Escrituras hebraicas e cristãs são fruto dum dinamismo de fé em que o autor principal. mas incarnada na história. espalhados pelas 127 províncias do império. a tradução grega dos Setenta.1. por vezes. Ne 5. Deus. Foi a história que levou os chefes judeus daquele tempo a rejeitarem Jesus. É o que acontece também com a doutrina dos chamados Padres da Igreja em relação aos cristãos. a causa primeira e as causas segundas. a interpretação dos essênios ou qumranitas. Ao longo do nosso estudo. etc. ou dentro de Israel. desde agora. Como essas igrejas sofriam a pressão contrária dos judeus daquele tempo.3. Neste falar de Deus "através da linguagem humana" junta-se Deus e a história. Os hagiógrafos são homens sujeitos às leis da história. O mesmo acontece com os antigos israelitas da Galiléia misturados com os colonos da antiga Babilônia e da Assíria e com os novos colonos do império persa (cf. que libertaram os judeus do jugo da Babilônia. Os próprios samaritanos construíram o seu Templo no monte Garizim para rivalizar com o de Jerusalém. para não dizer sagrada. Para os persas. Outro aspecto importante relaciona-se com os profetas. respectivamente. a partir dos tempos pós-exílicos. veremos como esta relação de confronto entre judeus e cristãos se estabeleceu a partir do próprio Jesus e se radicalizou a partir das comunidades cristãs primitivas. Como escrevia um rabino judeu do século segundo da nossa era. que não podem ser separadas de qualquer maneira e feitio. isto é. 14: "Desde o dia em que o rei me estabeleceu como Governador da região de Judá. precisamente porque ficaram reduzidos ao pequeno território de Judá com a sua capital em Jerusalém e à sua vida cultural centrada no seu Templo (cf. nos falam pela história e seus mediadores. defendendo uma certa linha fundamentalista das tradições sobre a santidade cultual. da parte dos cristãos. a tradição judaica que desemboca na Mishna (ca. O Novo Testamento cristão contém a pregação de Jesus de mistura com a pregação dos responsáveis das igrejas cristãs primitivas. negativa e anti-semita. O que eles escrevem são as suas tradições de fé judaica. A teologia e a história são como que duas irmãs siamesas. as mesmas Escrituras cristãs apresentam os judeus por vezes com cores muito negativas. a tradição de Hilel. como catequeses fundamentais para a sua vida de fé no presente e no futuro. os judeus referem. Do tempo de Israel ao tempo de Judá Para compreendermos melhor este "novo tempo judaico".

já não estavam a viver nos tempos bíblicos.Escriba" e Sacerdote sobre as leis do casamento apenas com judeus e sobre as leis do sábado e do Templo. o castigo do exílio. Wylen. The Jews in the Time of Jesus. depois. para os ídolos. nesta interpretação da Lei intervém um novo fato. they were no longer living in biblical times. pelo menos em certa medida.(1) lida. the Torah became scripture to the Jews. a lingua comum do povo judaico durante o período do pós-exílio até ao tempo dos romanos. Josué. isto é.estavam a viver o que se viria a tornar a Bíblia! Quando os Judeus tiveram a Bíblia.5. atribuem tal castigo ao fato dos antepassados não terem ouvido a voz atenta dos seus profetas. porque é que isto acontece. Este foi o evento final dos tempos bíblicos. 22: "When Ezra read the Torah in public and the people acceted it. (1) CL Stephen M. 7 . o da própria língua. Paulist Press. neste "novo judaísmo" têm a máxima consideração pelo Sumo Sacerdote e também. 1. Mas o fato histórico é que Deus não enviou ao seu povo mais algum profeta à maneira dos tempos bíblicos.1. Tudo o que viesse a mais seria como que aumentar as Escrituras já consignadas. pelos próprios sacerdotes. Um ponto alto na atividade de Esdras consistiu no fato de ele ler ao povo o Livro da Lei que trouxera da Babilônia. E é desta maneira que surge o desejo e a nostalgia pelos tempos passados em que Deus se fazia ouvir diretamente pelos profetas. portanto. o povo interroga-se. 8). Os profetas são substituídos pelos sacerdotes e pelos escribas ou sábios. Credo e Cânon.o . sobre os profetas. Os Patriarcas. detentora do grau Proficiency em inglês. antes do exílio. O ciclo cultural e religioso ficou fechado. Do tempo do hebraico ao tempo do aramaico. e que vai influenciar a natureza da pessoa de Jesus com o seu messianismo profético. Mas o aparecimento das Escrituras Hebraicas implica.Quando Ezra leu a Torah em público e o povo o aceitou. e todos eles do tempo de Esdras e Neemias. onde não faltam lendas ou contos para melhor explicitar essa interpretação.(1) Tradução de Marta Baptista. outrora. uma vez que não há mais profetas nem rei. mas também "explicavam o seu sentido. dos quais conhecemos alguns de tempos mais tardios. como vimos. encontramos críticas duras dos mesmos profetas por causa das tendências dos israelitas para os cultos pagãos da fecundidade.4. Os tempos bíblicos não foram tempos de Escritura. o que vem a dar nos célebres Targumes bíblicos. com altos e baixos. se tornam Escritura.são referidos. sobretudo. Mas também sabemos que as traduções implicavam a própria interpretação.que as velhas tradições hebraicas sobre a Torá e. Foi. pouco a pouco. Uma vez que os velhos profetas desapareceram e que apenas três . Salomão e os Profetas não tinham uma Bíblia.they were living what became the Bible! Once Jews had a Bible.Ageu. David. traduzida e interpretada. Do messianismo davídico ao novo messianismo. Como vimos. uma vez que se passa do hebraico para o aramaico. O hebraico passa a ser a língua sagrada dos antepassados e das Escrituras enquanto que o aramaico se torna a língua falada. traduzidas em aramaico e explicadas pelos sacerdotes e pelos escribas. o desaparecimento dos profetas porque a Palavra de Deus está ali representada naquela Torá e naqueles profetas. p. a língua de Jesus e dos Doze Apóstolos. e língua comum daqueles povos do Próximo Médio Oriente durante vários séculos. Enquanto que nos profetas. como mediadores entre Deus e o povo. a Torah tornou-se escritura para os Judeus.1. Semelhante leitura e interpretação significa . de certo modo. Este capítulo oitavo de Neemias compendia numa única ação e num único dia a prática sabática e sinagogal dos Judeus que liam e interpretavam a Torá. os judeus. Moisés. de modo que se pudesse compreender a leitura" (Ne 8. An Introduction. Zacarias e Malaquias . Ao relembrarem o passado e. Isto significa que os judeus liam as suas Escrituras em hebraico e traduziam-nas para aramaico. importada da Babilônia."Esdras . New York 1996. Jews in biblical times did not have a Bible . o cinismo dos sacerdotes que passaram a representar o centro vital da própria religião judaica. O novo povo de Judá tem as suas Escrituras. 1. lidas em hebraico. Apenas viveram a história da sua fé monoteísta. Criticam. pelos sacerdotes e pelos escribas/sábios. Mas. agora fala pelos sacerdotes e pelos escribas/sábios. segundo o capítulo oitavo de Neemias. a leitura da Lei feita por Esdras confunde-se com a leitura da mesma Lei feita por outros responsáveis. que não se limitavam apenas a ler o livro da Lei. e foi esta história de fé que agora se faz Bíblia escrita e sagrada. Mesmo assim. o seu novo Templo e os seus sacerdotes. O aramaico foi. falou pelos profetas. agora tais críticas não aparecem nos três profetas pós-exílicos. Os Judeus dos tempos bíblicos não tinham Bíblia . Trata-se de obras em que se mistura o texto bíblico com a sua tradução e respectiva interpretação. sim. Deus que. pela Cambridge University .o que é de suma importância . This was the final event in biblical times. também.

então. 10.. os profetas e os salmistas vão repetindo que Deus manterá a sua palavra sobre este messias/ungido real da dinastia de David. esta promessa foi transformada. Na realidade histórica. exceto Jesus de Nazaré. 14. A teocracia passa do rei para o Sumo sacerdote. 5). exceto Jesus. mas pelo meu espírito que Zorobabel ha de governar. à vinda de um Messias. como. neste período. A palavra messias significa ungido. daqui para o futuro. . SI 18. mais tarde. com justiça e com verdade. Mas no judaísmo da Torá e dos Profetas. Mais ainda. E. Hb 3.e com razão . 6b). Flávio Josefo só emprega a palavra Christos . 11-12. Faltou. Ez 29. mas pelo meu espírito . Um pouco mais adiante lê-se ainda em Zacarias 4. embora sincopada. vai surgir uma nova idéia messiânica à volta de várias figuras. Mas a verdade é que o império persa deixa cair Zorobabel por razões que nós desconhecemos e são os Sumos Sacerdotes que. C. Basta ler com atenção Is 7. E é assim que. Eram os "alter ego" do próprio Deus. a proteção de Deus. pouco a pouco. O célebre exegeta R. em messianismo davídico. Por isso mesmo." Esta sobreposição messiânica entre o Sumo sacerdote e o rei faz com que Zacarias classifique Josué e Zorobabel de "dois ramos de oliveira" como "os dois ungidos que assistem o Senhor de toda a terra" (4 14). Brown afirma . 12-16: "Quando chegar o fim dos teus dias e repousares com teus pais. A tua casa e o teu reino permanecerão para sempre diante de mim. 28-38. Deus à sua palavra sobre a proteção prometida para sempre para com a dinastia davídica? A verdade é que Zacarias mantém-se na corda bamba entre o messianismo do rei Zorobabel e o do Sumo Sacerdote Josué. um tanto ou quanto confusos apenas nos dizem que estas duas figuras foram importantes e que. daqui para o futuro. suscitará no meio de vós. e era aplicada sobretudo aos reis davídicos. primeiramente. também através de profetas e sacerdotes. Ageu. 1). 9-15). vão representar o próprio Deus. os ungidos do Senhor. As antigas idéias messiânicas baseavam. 132.. o Messias de Deus. Por isso. ainda subsistia a idéia messiânica ligada à casa real de David através de Zorobabel. defendendo sobretudo os mais pobres: peregrinos. não existe qualquer "Credo" normativo sobre a figura do Messias. mas também se diz que o rei pagão Ciro era um "ungido de Deus" (Is 45. que Deus ha de mandar. surgem as figuras "messiânicas" do Rei e do Sumo Sacerdote como resposta aos fracassos dos tempos passados da monarquia davídica.. a palavra mashiah significa ungido. à pessoa de Jesus.. Nós. e o teu trono estará firme para sempre".e apenas duas vezes -." Como vimos. teu Deus. Os velhos textos bíblicos nunca se referem. a ele deves escutar. aparece identificado coma figura do Filho do Homem de Daniel. Sobre a figura do profeta futuro. não temos qualquer prova de que um judeu vivo seja referido como o Messias. estamos habituados a falar do Messias e do messianismo como se se tratasse duma única realidade ou personalidade por causa da pessoa de Jesus. Mas também se lê sobre Zorobabel: "Eis a palavra do Senhor a respeito de Zorobabel: 'Não é pelo poder nem pela força. estes textos. mais tarde.que "na história do judaísmo antes de 130 p. Aquilo que o profeta promete a David e à sua dinastia é que Deus nunca mais abandonará essa linha real. Também nenhum judeu. Ele vai mais longe e fala dos tempos messiânicos 8 . mas a sua significação. Mas o livro de Zacarias não apresenta apenas as duas figuras his tóricas de Josué e Zorobabel como prefigurações messiânicas. cristãos.se na promessa de Natan feita a David sobre o presente e o futuro da sua dinastia como aparece em 2Sm 7. E quando a monarquia acaba com a conquista de Jerusalém por Nabucodonor em 583 a. especialmente os reis. manterei depois de ti a descendência que nascerá de ti e consolidarei o seu reino. diante de crises e dificuldades da "casa de David".Neste "novo judaísmo" aparece também uma nova maneira de compreender o messianismo. 21. 8. Referem. um profeta como eu [Moisés]. 10: "Todos hão de rejubilar. como afirmamos.C. 13.". 15: "O Senhor.diz o Senhor do universo" (4. que deviam reger o seu povo segundo a vontade do mesmo Deus. no judaísmo do pós-exílio. ao verem a pedra escolhida na mão de Zorobabel. e eu firmarei para sempre o seu trono régio.. neste tempo. Assim se explica que os três profetas do pós-exílio. também. este "velho" messianismo tinha a ver.89. 51. 6. não se encontrem muito à vontade com este assunto uma vez que a dinastia de David tinha soçobrado. 11. Zacarias e Malaquias.16. Josué recebe a tiara limpa (3. com a proteção de Deus através dos seus intermediários. que em grego se diz christos ou Cristo. lê-se em Dt 18. órfãos e viúvas. dentre os teus irmãos. é clara: "Não é pelo poder e pela força. Diante das crises políticas e sociais. sim. através dos reis davídicos e. é chamado o Gérmen messiânico (3. Tanto Jesus como a posterior cristologia é que interpretaram os velhos textos bíblicos referindo-os à pessoa de Jesus-Messias e à cristologia messiânica. A frase está incompleta. Tudo começou pelos reis. de maneira clara. Ele construirá um templo ao meu nome.

. 10. que são maus. pelos quais os homens da comunidade começaram a ser instruídos. que preside à assembléia da comunidade no fim dos tempos. até que surja o Messias de Aarão e de Israel.o que é importante . O Messias de Israel. e na sua misericórdia. filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti. Ele ficará à cabeça de toda a congregação de Israel e de todos os [seus] irmãos. a questão messiânica recebe novas dimensões. razão porque não entenderam o messianismo de Jesus e a sua pregação sobre o "Reino de Deus". 3. o primeiro a abençoar o pão e o vinho. como veremos ao longo do nosso estudo. nem o bastão de comando à sua descendência. o [Messias de Ysrael tomará [o seu lugar] ". Aparecem. 7. e eles formarão grupos de dez homens. Os chamados Salmos de Salomão.que se hão de realizar na utopia dum novo povo dirigido diretamente por Deus (Zc 8) ou dirigi do por um rei futuro diferente dos reis do passado: "Exulta de alegria. 14-15: "Em seguida. Jr 23. onde se lê: "O cetro não escapará a Judá. Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim e os cavalos de Jerusalém. 2 [e tudo aquilo que] existe neles não se afastará dos preceitos dos santos. suspiram pelo ungido davídico. 35-20. 6 Colocará o seu espírito nos humildes. vós os que procurais o Senhor! 4 Porventura não encontrareis o Senhor nisto. seguindo de perto a obra recente de J. 5. os sacerdotes. 6. 2. o arco de guerra será quebrado. 1." O método exegético que explicita o que no texto original é apenas implícito também ( um método recorrente em todo o Novo Testamento. 1QSa 2. montando num jumentinho. lss. Fitzmyer sobre este assunto. neste caso. até que venha um profeta e o Messias de Aarão e Israel ". O contexto tem a ver com os responsáveis qumranitas dos "conselhos da Lei". Uma vez mais. Este Messias davídico vem a seguir ao Messias Sacerdotal. 12-13. 23-13. 1QSa 2. 12 porque curará os feridos e fará reviver os mortos e proclamará a boa nova aos aflitos. 10 o fruto duma boa obra não será retardado a ninguém. O Messias Sacerdotal tem sempre a primazia. o Sacerdotal e o davídico.18. 11-12: "[Esta é a assembléia dos homens famosos [convocados] para a reunião do conselho da comunidade. E os judeus ficarão sempre com um "sabor amargo" na boca pela não realização das promessas messiânicas. 3 Sede fortes no seu serviço. 5). endireitando os coxos. 4QpGen (4Q252) 1. 8 libertando os prisioneiros. 12.. Com a descoberta dos textos de Qumran. filha de Sião! Solta gritos de júbilo." O comentador junta o Messias de justiça ao rebento (tse. pois. como disse. 19. agora relacionados com o final dos tempos.". 20-21: "Em seguida. e os milhares de Israel são os "estandartes" até que venha o Messias de justiça. 19). sempre em sentido amplo de libertação política. o Messias de Aarão ou Sacerdotal à passagem de Zc 6. filho de uma jumenta. Como no texto anterior. Vamos apresentar os textos principais. 10 e 19. 8 e 6. ele os recompensará. e com a sua força renovará os fiéis. se juntará à assembléia da comunidade "no fim dos tempos". 3-4: " . até que chegue "o fim dos dias.II + 4: 1 "porque os céus e a terra hão de ouvir o seu Messias. humilde. mas eles serão governados pelos primeiros regulamentos. IQSa 2." 5. os filhos] de Aarão. quando [Deus] criar o Messias entre eles. de feição farisaica e do tempo de Jesus. Estes "conselhos" têm validade até à chegada do tal profeta e dos Messias de Aarão e de Israel. é o Messias davídico que. o Messias de Israel é precedido pelo "Sacerdotal" (2. o rebento de David" Estamos diante de um pesher ou comentário profético sobre o livro do Gênesis 49. rei e soberano. O profeta só pode referir-se à passagem do Dt 18-. 13 saciará os 9 . 9 Inclinar-me-ei para sempre sobre os que esperam. que acabaria com todos os inimigos de Israel e implantaria um reino de paz e justiça. o Messias de Israel porá a sua mão sobre o pão. dando a vista aos cegos. até que venha aquele a quem pertence o comando. 4Q2521 2 col. 7 Ele honrará os piedosos num trono de realeza eterna. 11: .fala explicitamente do Messias e não apenas "daquele a quem pertence o comando. 11 O Senhor fará ações gloriosas como nunca se viram. como já sabemos. 9-10).". O seu império irá de um mar ao outro E do rio às extremidades da terra" (Zc 9. Documento de Damasco (CD) 12. 18.. a partir de Israel e se estenderia a todos os povos (SI.." Neste texto só aparece um Messias ou o Messias (com o artigo definido). ele é justo e vitorioso. 4.. 15.A. Zc 3. 1. aparecem os dois Messias. Todos sabemos que estes textos vão ter a máxima importância para os cristãos primitivos. O mesmo se afirma em CD 14. 18-19. quando os aplicarem ao próprio Jesus como o verdadeiro Messias de Deus. e o Messias de Israel às passagens já apresentadas sobre o rei davídico. Proclamará a paz para as nações. vem. vós os que esperais nos vossos corações? 5 Porque o Senhor observará os piedosos e chamará os justos pelo nome. 1: "São os que caminham de acordo com estes (estatutos) nos tempos finais.. mah) de David e . A figura do rebento davídico com sentido salvífico e de messianismo abrangente aparece em Is 11. três figuras "messiânicas". No chamado Manual de Disciplina (lQS) lê-se em 9.

10 lê-se: "então Israel será resgatado das nações do mundo e aparecer-lhes-á o Messias. dará a vista aos cegos . 14 e os instruídos [. 4. pois os melhores serão sempre menos em quantidade que os piores (7.. O povo esperava que Deus interviesse.. e apresentam-nos a pessoa do Messias não duma maneira vaga e indefinida. guiará os desviados e enriquecerá os esfomeados. a liberdade e a salvação. mas também sacerdotal e profético.uma pessoa . 1. Deixando a literatura de Qumran e passando para a formalmente apocalíptica destes tempos intertestamentários. cai por terra. a figura do "Filho do Homem" é a mais usada . 21: "Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura. as atribulações da época messiânica (ou "as dores de parto do Messias". Mas esta personagem também aparece com sentido messiânico no 1Enoc 48. o que significa que a obra sofreu várias camadas redaccionais.que os qumranitas esperavam que havia de chegar um dia para libertar a comunidade e Israel. inclusivamente com a de Jesus. apresentaremos os principais conteúdos mesiânicos da obra de 4Esdras. colocará o seu espírito nos humildes ..6 . de Qumran.. 10 e 52. Em 4Esdras 7. apocalípticos. os fiéis qumranitas apelam ao "Filho de Deus" e ao "Filho do Altíssimo. no Enoc 48. A tese dos estudiosos judeus que falam da idéia messiânica judaica apenas em tempos do império romano e apenas com caraterísticas político . na sinagoga de Nazaré refere a sua pessoa como sendo este profeta (Lar..para simbolizar o Messias do juízo e da salvação. 1 e todos serão como santos. 4. Enoc.religiosas. mas filius meus ("o meu filho") pode pertencer ao texto judaico. a figura do Messias aparece juntamente com outras figuras. para acabar com os maus e salvar o resto de Israel. Diez Macho .pobres. E não se trata de um Messias apenas davídico. virá realizar o profetizado nas Escrituras Sagradas. como acabamos de ver no último texto. e o anjo responde-lhe: "Todas estas coisas que viste serão para o poder do Messias.. vamos encontrar a figura do Messias nos livros de Enoc. Em conclusão. 35. que acabais de ouvir"). enriquecerá os esfomeados. e serão poucos os que se salvam (7. hablé masiah). 51-58) . 7. II e I a. A variedade de figuras e de modos messiânicos tem a ver com este estado social. a pessoa do Ungido aparece juntamente com a do "Senhor dos espíritos" ('Eles negaram o Senhor dos espíritos e o seu Ungido"). 51.. Enoc pergunta ao anjo: "O que é que são todas estas coisas que eu vi em segredo?". O reino messiânico durará quatrocentos anos.. depois dos quais o Cristo e todos os homens morrerão e toda a terra voltará ao silêncio primordial durante sete dias. 1.que tanto é apelidado de Messias davídico e sacerdotal como de Eleito. Is 34. Justo e Filho do Homem -. que. Jesus. através do seu Ungido .e apenas por Jesus . isto é. Concluindo. Nos evangelhos sinópticos. em parte. mas em lQSam 2... 12 fala-se de Deus e do Messias gerado por Deus. a importância destes textos da comunidade de Qumran reside no fato deste Messias ser alguém . 10. se confundem com as escatológicas e apocalípticas. Testamentos dos Doze Patriarcas e 4 de Esdras. Os textos de Qumran são do séc. "O ensino primordial da visão é a promessa de vitória que obterá o Messias sobre a águia romana e a promessa de que um resto de ísraelitas será salvo para participar no reino messiânico até que venha o juízo final". Os textos intertestamentários e. mas com toda a precisão de Alguém que um dia virá. O sujeito operativo de todas as benfeitorias é Deus: "o Senhor observará os piedosos . só demonstram o mal-estar político. volta a aparecer a mesma idéia sobre "um resto de Israel para gozar o tempo messiânico até que chegue o dia do juízo final. trazer a paz. libertará os prisioneiros. 28). e em 40246. Este Messias." Neste texto. depois dos quais terá lugar o juízo final e o Altíssimo julgará segundo as obras de cada um (7. aqui e além.C. O importante consiste nesta esperança do céu e da terra sobre a vinda futura do Messias de Deus. o mesmo acontecerá com a pessoa de Jesus. No 4Esdras 11. quatro de Esdras e nos Testamentos dos Doze Patriarcas.e é bom repeti-lo . da parte de Deus. religioso e social destes tempos e a resposta messiânica para a situação.. 5 e 61. Jesus é uma interpolação cristã evidente. Assim se explica o sufixo "seu": o seu Messias. sobre a figura do Messias. Como vimos .60. 26ss. 28-35)." No quarto livro de Esdras. Seguindo de perto a 5ª edição de A. que os fará subir a Jerusalém com grande alegria. No Enoc 48.os céus e a terra hão de ouvir o Messias de Deus.7. Vejamos alguns textos. isto é. que passariam a governar este mundo na paz e na justiça. desaguam na pessoa de Jesus e das comunidades cristãs 10 . o anjo "Uriel volta a recordar os signos finais. este ambiente de esperanças messiânicas. 4. O texto é um pequeno "florilégio" do Si 146. a pessoa do Messias mistura-se com a pessoa de Deus. entre as quais "revelabitur filius meus Jesus" ("o meu filho Jesus será revelado") (7. uma vez que o Messias era considerado "filho de Deus" segundo o SI 2." Ainda no Enoc 52.61). O Messias que os céus e a terra esperam é um Messias profeta e não um rei. os seus eleitos.. para que seja forte e reconquiste a terra. o Messias de Deus . 1-12. 47.

Só Deus poderá salvar Israel e restabelecer o novo Israel.23: "It is also worth bearing in mind that the Gospels. "horroroso. No AT é o livro de Daniel que melhor representa este estado de coisas: "No tempo destes reis. é uma literatura de militância e de emoção. os apocalípticos judeus estabelecem um corte na historicidade de Israel. para muitos. também já não tem qualquer sentido. pelo sentido final do novo Israel. através de vários registos pessoais. O novo mundo será comandado diretamente por Deus e não por reis e sacerdotes. enquanto ele subsistirá para sempre" (Dn 2. Todos os demais. 7). então. a palavra apocalipse simboliza tempos de caos. como o novo mundo histórico. A única saída será. Tanto Jesus. vai terminar um ciclo histórico e nascer outro completamente diferente. logo a seguir. pela fé. mas o ângulo de visão religiosa e histórica é bem diferente. Era diferente dos animais anteriores. especialmente Marcus. os cristãos. eis que surgiu 11 .por Marta Baptista: Também vale a pena atentar em que os Evangelhos. Este último animal só pode representar o império grego. acreditavam que aqueles tempos seriam os finais . os apocalípticos esperam com ansiedade o fim de um mundo e o começo de outro mundo. neste sentido. Ibid. grego e romano." (1) Tradução da anotação em inglês. DO TEMPO DA PROFECIA AO TEMPO DA APOCALíPTICA. (1) Como escreve Ben Witherington. p.2. aterrador. especially Mark. significa o abandono da profecia clássica para um novo tipo de profecia. pois tinha dez chifres" (7. grego e romano. e de uma força excepcional. é outra coisa. No capítulo sete de Daniel. a de Deus. muito brevemente. Trata-se de homens crentes em Deus mas descrentes dos homens que governam o mundo e Israel. o urso. A literatura apocalíptica. Fundamentalmente. que isso vai acontecer e está para muito breve. classificado. social. though not a completely incomprehensible. e. sobretudo. e que os responsáveis judeus bem como os seus discípulos e o público em geral o interpretassem também de diferentes modos e maneiras (1). os apocalípticos. Esmagará e aniquilará todos os outros. Deus vai intervir e desvelar com essa intervenção o sentido final da história. com toda a sua literatura apocalíptica. O mundo de Deus.os escatológicos e. 44). uma das muitas províncias do império persa. o rei Antíoco IV Epifânio. Fala-se das profecias apocalípticas de Nostradamus sempre associadas a qualquer coisa de trágico como se apresentam filmes intitulados de apocalipse para representarem as guerras do Vietname ou a hecatombe final desta nossa humanidade. mas o messianismo que se confunde com a intervenção divina direta. que representa o império babilônico. Na literatura e cultura atuais. necessariamente.e no gênero literário apocalíptico só temos videntes vê quatro grandes animais a saírem do grande mar. sem qualquer mediação histórica. de destruição e de fim de mundo. a pantera. que representa o império dos medos. Deus governará o novo mundo com os seus eleitos judeus. então. Para tanto. sugerem que o significado de Jesus era difícil de compreender. Como é que tudo isso vai acontecer. vai entrar na liça final duma guerra cósmico-divina que tudo transformará. apenas sabem. O novo messianismo não será o da mediação davídica ou sacerdotal. 1. política e religiosa) em que vivem. constituído pelo próprio Deus e seus Anjos. que procurou acabar com a religião judaica. desta maneira: "Quando eu contemplava os chifres. Concluem que Israel entrou num beco sem saída política diante do império persa. O tempo dos reis e dos profetas pertence ao passado e o novo tempo dos Sumos Sacerdotes que governam o pequeno estado de Judá. nada tem a ver com o velho mundo. helênico e romano. o Deus dos céus fará aparecer um reino que jamais será destruído e cuja soberania nunca passará para outro povo. depois fazia em pedaços e o resto calcava-o aos pés. figure. com enormes dentes de ferro com os quais devorava. e um quarto animal. que passa. mas não completamente incompreensível. São eles o leão. a literatura apocalíptica do tempo do império persa. O passado histórico de Israel como o passado histórico de todas as nações levam os apocalípticos a concluir que. que é o símbolo de toda a maldade.primitivas e concentram as várias manifestações messiânicas antigas e recentes na única pessoa de Jesus e na comunidade messiânica e escatológica dos cristãos. Só os "santos de Deus" ou os santos judeus é que se salvam. desde os pagãos aos maus judeus serão arrasados e. O velho homem dará lugar ao homem novo completamente renovado na sua natureza. A literatura apocalíptica continua a literatura profética. não admira que Jesus as tratasse de maneira aberta e franca. Chegam a um ponto de desencanto total perante a realidade histórica (cultural. No nosso caso bíblico. suggest that Jesus meaning was difficult to understand. muito especialmente. A palavra apocalipse significa revelação e revelação significa tirar o véu que encobre uma realidade ou uma verdade. os apocalípticos não sabem. que representa a monarquia persa. E diante desta variedade e ambigüidade de doutrinas messiânicas. como. that he was to some extent an enigmatic. que ele era até certo ponto uma figura enigmática. Mas este novo Israel. Mas o apocalipse bíblico. o vidente .

a julgar por estes textos de Daniel. Como vemos. Não há mais lugar para a liberdade humana nem para a fé a dialogar com a cultura e a política. situados sob os céus. Esdras e Baruc. confundindo-se este último com os "santos do Altíssimo". depois explicados pelos anjOs. até que viesse algum profeta verdadeiro e decidisse o que se lhes devia fazer" (l Mac 4. Os santos viverão sob a sua alçada. Os santos do Altíssimo são os que hão de receber a realeza e guardá-la por toda a eternidade" (7. mais e melhor. relata-se que os judeus. A realeza. como é o caso presente de Daniel e das figuras de Enoc. e também com o fim de aclarar. que acaba pelo triunfo total do bem com o esmagamento também total dos maus judeus e de todos os pagãos. determina as regras do jogo. comandada pelos visionários que tudo vêem a partir do Alto. mas cuja explicação aparece muitas vezes em forma de "segredo". Deus abandona a história e o mundo para se refugiar no seu mundo celestial com os seus anjos e os seus eleitos.desde a destruição do Templo. O autor refere-se com toda a certeza aos grupos apocalípticos que surgiram depois do exílio da Babilônia.) que aparece no Talmud : ". desaparece. nesta literatura apocalíptica não há lugar nem para a história nem para a fé. para o suprimir e aniquilar definitivamente. Gabriel e Satanás. Muitos judeus viviam tristes pela falta de profetas no seio da sua comunidade e pelo novo judaísmo dirigido pelos sacerdotes e baseado apenas na Lei e nos ritualismos derivados da Lei e da Tradição. que deve ser também do tempo de Esdras e Neemias. O mais importante deste pequeno livro reside no seu terceiro e último capítulo. Por isso. que simboliza o próprio Deus. II d. Para estes judeus. apenas para um pequeno grupo de eleitos e iniciados. batizando as suas obras através da pseudonímia. Pensará em mudar os tempos sagrados e a religião. Quem 12 . A velha humanidade e a velha história em que se sucedem reis e impérios vai acabar para dar lugar à soberania do Ancião e do Filho do Homem. conjuntamente com Ageu e Zacarias. geralmente com Miguel. para tal. com os seus anjos e os seus santos. Na nova religião dos apocalípticos não há lugar para o pecado e desobediência a Deus. A literatura clássica dos profetas não necessita destes Anjos como intermediários. mas eles aparecem sempre na literatura apocalíptica. Para dar lugar a este chifre. os apocalípticos também reconhecem que a sua doutrina não é aceite pela maioria da comunidade judaica. a literatura apocalíptica. a autoridade do profeta era necessária para repor a vontade de Deus. É uma literatura críptica. mostrando. 17-18). são quatro reis que se levantarão da terra. E. e não para toda a humanidade ou para todo o Israel. há que considerar o último dos profetas bíblicos.. Estabelece-se um dualismo radical entre o bem e o mal. 25-27). Estes heróis dialogam com os anjos de Deus. depois da profanação de Antíoco IV Epifânio. Ainda dentro do judaísmo deste tempo pós-exílico. uma espécie de "seita" metidos no seu "gueto" fundamentalista. Este mesmo chifre (Antíoco IV Epifânio) é descrito. do nome de figuras heróicas do passado. esta ambivalência entre profetismo clássico e apocalíptica. O seu reino é eterno e todas as soberanias lhe prestarão preito de obediência" (7. o Deusconosco. é muito diferente da literatura dos profetas. O Deus dos apocalípticos não é o Emmanuel. que apresenta um autêntico adeus ao profetismo clássico. serão então devolvidos ao povo dos santos do Altíssimo. que são em número de quatro. a profecia foi arrancada aos profetas e dada aos loucos e às crianças" (T. mais adiante. pois era com os profetas que Deus falava e não com os apocalípticos.. 46). e a do Filho do Homem juntamente com os santos do Altíssimo". de maneira historicisante com estas palavras: "Proferirá insultos contra o Altíssimo. isto é. C. resolveram transportar as pedras do altar profanado "para um lugar conveniente sobre a montanha do Templo. No entanto. Mas o julgamento continuará e tirar-lhe-ão o domínio. Por isso é que os videntes têm sempre visões ou sonhos esquisitos e estranhos. Malaquias.lhes as maravilhas de Deus como prenúncios da vitória final do mesmo Deus sobre os maus da terra. 8). Este fundamentalismo anti-histórico desencadeia ondas de oposição no seio dos judeus que anseiam pelos velhos tempos dos profetas. Estes quatro animais são explicados pelo vidente (mas só depois de ter apresentado a figura do Ancião. nunca dão a cara de maneira clara. servindo-se. para dar lugar ao golpe final do drama humano: agora é Deus que. a ação de Deus a premiar e a castigar.do meio deles um outro chifre mais pequeno. Eles são uma minoria. três dos primeiros foram arrancados. no primeiro livro dos Macabeus. que os conduzem a viajar pelos céus. que representam os detentores da nova humanidade e soberania) desta maneira: "Estes portentosos animais. perseguirá os santos do Altíssimo. o império e a grandeza de todos os reinos. A literatura histórica onde se mistura o drama humano do bem e do mal. O que agora predomina são os símbolos. apenas durante um determinado espaço de tempo. quando da purificação do Templo. Baba Batra 12b). Como é fácil de perceber. como era o caso dos profetas. É o que se lê na afirmação do Rabbi Jonathan (séc. Este chifre tinha olhos como um homem e uma boca que proferia palavras arrogantes" (7.

servem-se dela para provar a tese messiânica de Jesus. não cumprem com as leis e preceitos da religião estabelecida pela Torá mosaica e pelos sacerdotes. Então. dia grande e terrível. pois.. seja em relação ao amor ao próximo.. Lc 21. 1. Mt 24. hoje em dia. Na sua presença foi escrito um livro de memórias: 'Dos que temem o Senhor e prezam o seu nome. chamada a tradução dos Setenta. Desde os dias dos vossos pais.diz o Senhor do universo . os judeus. E agora temos de chamar ditosos aos arrogantes.. A cultura grega. no dia que eu preparo . o seu Gymnasium.. Mas o Senhor ouviu atento. mas muito depois... o império foi dividido em duas partes pelos seus generais. pois eles fazem o mal e prosperam.. Isto significa que os escritos apocalípticos não apareceram logo a seguir aos primeiros tempos depois do exílio. a oferta de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor como nos dias antigos. 5 c 10). Embora Malaquias seja o último profeta dos judeus. Quem suportará o dia da sua chegada? Quem poderá resistir. III e II a. a não ser o envio de Elias "antes que chegue o dia do Senhor para converter o coração dos pais ao dos filhos e o dos filhos ao dos pais" (v. a dinastia dos SELÊUCIDAS com a capital em Antioquia.comanda na nova dimensão da vontade de Deus não são os profetas mas os intérpretes das Escrituras: "Eis que eu vou enviar o meu mensageiro. antes que chegue o dia do Senhor.. nem violar o direito do estrangeiro (v. nada há de apocalíptico no seu livro.. Os judeus que quiserem receber a retribuição divina desse dia grande e terrível" devem obedecer aos preceitos sacerdotais: pagar os dízimos. que partia da língua e se centrava na polis (cidade) tinha como infra-estruturas da mesma cultura o Conselho (a boule) da cidade. que se perguntam se Jesus não teria uma consciência apocalíptica quando pregava a sua doutrina fundamental sobre o Reino de Deus ou quando se apresentava como o verdadeiro Filho do Homem.... que aparece cinco vezes. Calcareis os pecadores. 5-37.23). nem ramos.diz o Senhor do universo.diz o Senhor do universo. que serão como cinza debaixo da planta de vossos pés. Assim falavam uns com os outros. .C. O centro teológico deste texto consiste no tema do dia do Senhor. Basta ter em conta os apocalipses dos evangelhos sinópticos (Mc 13. Quando morreu em 323. como nos anos de outrora. Nunca devemos esquecer que o Novo Testamento foi todo escrito em grego. a fim de que ele prepare o caminho à minha frente. tanto mais que semelhante título só se apresenta na boca do próprio Jesus. quando as esperanças de muitos judeus começaram a enfraquecer diante da política dos impérios pagãos que se seguiram e dominavam os judeus.24)... no dia em que agir . E assim eles serão para o Senhor os que apresentam a oferta legítima. uma parte no Egito e outra na Síria. aqueles que temem o Senhor. Por isso. O assunto é deveras importante e será objeto do nosso estudo. afastastes-vos dos meus preceitos e não os observastes.. Então vereis de novo a diferença entre o justo e o ímpio. OS JUDEUS E O IMPÉRIO GREGO Tudo começou em 333 com o império de Alexandre Magno. não acreditam na verdade desse dia abrasador e terrível.. eis que vem um dia abrasador como uma fornalha. quando ele aparecer? . 4-36. 8-36) e o Apocalipse de João. A nova linha bíblica dos apocalípticos também aparece no Novo Testamento.' Eles serão meus. Esta tradução teve a maior importância porque os evangelistas e os responsáveis cristãos das comunidades primitivas. O grande homem imperou apenas dez anos.Foi no pagamento dos dízimos e nas ofertas [que vos afastastes de mim].. e.diz o Senhor do universo. No Egito governou a dinastia dos LAGIDAS com a capital em Alexandria.. No Egito governaram os Ptolomeus e na Síria os Antíocos. Há muitos exegetas. Eis que vou enviar-vos o profeta Elias. na Babilônia. decidiram traduzir a Bíblia hebraica para grego. 2. a viúva e o órfão. na Síria. Paulo.. Ei-lo que chega! . põem Deus à prova e ficam impunes. onde os jovens eram 13 ." (3. não oprimir o operário. Como existia uma diáspora muito grande de judeus em Alexandria e como o grego e a civilização grega imperavam em Alexandria. este dia que vai chegar queima-los-á .e nada ficará deles: nem raiz.. Mas tanto os temas do dia do Senhor como o dos preceitos eram temas recorrentes nos profetas pré-exílicos. seja em relação ao Templo. a começar por S. mas reforçada com os preceitos sacerdotais dos tempos do pós-exílio. Todos os soberbos e todos os que cometem a iniqüidade serão como a palha. Trata-se da moral religiosa tipicamente judaica de todos os tempos. E imediatamente entrará no seu santuário o Senhor que vós procurais e o mensageiro da aliança que vós desejais. nos sécs.. Os judeus que só se interessam com os seus negócios e vida fácil. entre quem serve a Deus e quem não O serve.

tentar saquear o tesouro do Templo de Jerusalém. Acerca da criação do mundo 69. etc. o maluco. Foi este sincretismo da religião grega que levou os judeus a contínuas tensões e algumas guerras. finalmente. Viveu. da figura do sumo Sacerdote Simão o Justo. Colocou uma guarnição militar síria numa fortaleza. Mesmo assim. persas. passa por ser a abominação da desolação (Dn 11. Uma vez que os judeus viviam numa terra cheia de ídolos temiam que o seu Deus os amaldiçoasse. arte.C. mesopotâmicos. existia uma certa pacificação entre judeus e helênicos. no tempo do imperador Trajano. A maneira como apresenta a vida de piedade religiosa dos judeus do seu tempo. Havia respeito de parte a parte. C. dar um estatuto de polis à cidade de Jerusalém e. Numa palavra. etc. pois ia contra o monoteísmo judaico. milhares de judeus do Egito.. Mc 13. Ficou célebre na história a tentativa do general Heliodoro. como em tudo o mais. a Academia. portanto. criar condições de melhorar a vida dos judeus através do comércio aberto com as outras polis. ou que as leis de Moisés se deviam entender como virtudes para o bem da polis e da sociedade (cf. que obedeciam @às leis rituais e cultuais dos sacerdotes. Creta e Chipre foram mortos. determinou a abolição da circuncisão e a abolição da religião judaica. que viveu entre 20 e 50 p. 12. os judeus que viviam nas cidades helênicas não abdicavam dos seus direitos de cidadãos helênicos. das ofertas e orações no Templo. e o seu autor era um sacerdote de Jerusalém. na tradição judaica. que reinou entre 175-164 a. o Stadium. Antíoco III venceu os Ptolomeus e a Palestina ficou a pertencer aos Selêucidas da Síria. 27) explicando que a palavra imagem significava mente / entendimento / espírito. C. ao entrar em Jerusalém e no seu Templo. através do método alegórico para conquistar as boas vontades dos intelectuais gregos. como acabamos de ver. mormente no Egito e na grande cidade de Alexandria. Filão de Alexandria. de tempos a tempos. O mesmo se diga da guerra dos zelotes entre 66-70 p. C. sempre pronto a abençoar o seu povo. pai de todos os deuses. Mas a camada intelectual dos judeus. 31. festas. Por isso. só por si. A Palestina pertencia ao princípio aos Ptolomeus. de mãos dadas com os mitos politeístas tipicamente gregos e com toda a espécie de sincretismo religioso. pois tudo o que era desporto. ao mesmo tempo. esta cultura grega chocava com a cultura judaica baseada na religião de um único Deus e não na lógica e na filosofia gregas. É muito possível que a idéia inicial de Antíoco fosse a melhor. determinou que acabasse o culto judaico no Templo de Jerusalém e se colocasse no altar do Templo uma estátua de Zeus. Foi escrito por volta de 200 a. onde se desenrolavam os desportos masculinos.C. e. Para os gregos não havia qualquer problema em cultuarem os seus deuses juntamente com os deuses egípcios. C. O livro do Ben Sirac ou Eclesiástico é bem sintomático deste ambiente e cultura. Só não entendiam como é que uma tal religião não tinha qualquer imagem do seu Deus. do tesouro do Templo de Jerusalém. o divino. 14). que tentaram helenizar pouco a pouco o povo judeu e servirem-se. isto é.. e tentou helenizar as Sagradas Escrituras. Basta olhar o exemplo do grande filósofo e crente judeu. Se não havia imagem a quem é que os sacerdotes ofereciam incenso e sacrifícios? E foi por causa desta atitude de Pompeu que os judeus se puseram do lado de Júlio César na sua luta política contra Pompeu. Mas neste assunto. onde tinham lugar as representações épicas e trágicas dos grandes autores gregos. na generalidade. mas rejeitavam os ritos civis que se confundiam com os ritos religiosos. estátua essa que. Necessariamente. chamada Akra. para poder controlar todas as manifestações hostis dos judeus. Sobre as virtudes 119-120). leva-nos a concluir que os judeus estavam habituados a esta vida de mãos dadas com o helenismo. Foi por esta razão que na guerra religiosa de 115-117 P.iniciados na mesma cultura. os judeus chamavam-lhe Epimanes Antíoco. e estabelecer. em 223-200 a. uma vez que direitos civis e ritos civis faziam uma só coisa. olhavam para a religião judaica com o seu único Deus como se esse único Deus fosse uma espécie de Zeus onipotente. a manifestação de Deus na terra. Foi esta a razão de Pompeu. mas sem qualquer atrito e dificuldade. a cultura grega 14 . nos princípios do reinado dos Selêucidas sobre Israel. com isso. As dificuldades começaram a aparecer no reinado de Antíoco IV Epifânio. 11. E como os judeus não podiam com semelhante megalomania. ao epónimo Epifânio = Antíoco. o rei determinou que a língua aramaica fosse abolida e a grega fosse obrigatória. na cidade de Jerusalém. ele divinizou-se a si mesmo e queria ser tratado como uma encarnação divina. tinha a ver com o culto aos deuses. convivia em harmonia com os gregos. onde ensinavam os filósofos e eram educados os políticos. filho de Seleuco IV. que significa. A si mesmo se intitulou de Epifânio ou Epífanes. mas. Por tudo isto. Contudo. África do Norte. havia judeus que patuavam com a cultura grega e que viviam a sua religião sem qualquer fricção ou atrito e havia outros que defendiam fanaticamente a condenação de qualquer cultura pagã no meio da sua terra "santa". o Teatro. Interpretava a verdade bíblica do homem como "imagem de Deus" (Gn 1. julgar a religião judaica como uma religião menor e sem sentido porque não encontrou qualquer imagem no Templo.

40-41: "E disseram uns aos outros: Se todos agirmos como os nossos irmãos. que subsiste até à tomada de Jerusalém pelo romano Pompeu no ano 63 a. Uma vez que as tropas do rei atacavam sobretudo ao sábado. 15 . Devemos juntar também um fato importante que tem a ver com o descanso sabático. perseguidores dos judeus. que significa martelo. o único sobrevivente dos cinco filhos de Matatias derrotou os Tobíades. os romanos detinham as vestes dos sumos sacerdotes no palácio real e os mesmos sumos sacerdotes submetiam. Jónatas e Simão. ao mesmo tempo. desenvolvendo uma atividade diplomática a seu favor com Roma e com Esparta. De igual modo. o sumo sacerdócio até era comprado aos romanos pela aristocracia das famílias sacerdotais geralmente saduceus . por isso. Os seus dois filhos. começou. utiliza figuras de reis da Babilônia do séc. Judas determinou combater também ao sábado para poderem salvar as suas vidas (lMc 2. literatura. mais tarde. Uma das conseqüências reside no fato de Simão Macabeu se auto proclamar rei e sumo Sacerdote. para reporem o sacerdócio sadoquita no templo de Jerusalém. com a queda final de Jerusalém pelos romanos. mandou destruir o santuário dos samaritanos no monte Garizim. nos seus esconderijos). e foi continuada por um período de 35 anos pelos seus filhos Johanan. nenhum fariseu aceitava semelhante situação. acabando. Tomaram. Outra conseqüência tem a ver com o cânone das Escrituras Hebraicas. naquele dia. mas sofreu a oposição dos "religiosos". que governou entre 103-76 a. o rei Antíoco V Eupator. e. como fizeram os nossos irmãos. etc. depressa nos exterminarão da face da terra. Simão Macabeu. A vitória dos Macabeus teve conseqüências políticas e religiosas que vão determinar uma nova fase dentro do judaísmo. Judas Macabeu foi derrotando as tropas do rei Antíoco. que se formaram os saduceus. duma maneira críptica. que. aumentar as suas fronteiras.C. Judas. a dos Asmoneus. isto é. dirigida pelo patriarca Matatias. C. Os reis babilônicos e persas. mas. para descrever o papel dos governantes sírios. através de várias guerras.conforme a lei da compra e da oferta.através da língua. teatro. Em 167 a. Herodes e. no tempo de Jesus.C. seguindo-se a purificação e dedicação do Templo de Jerusalém com a respectiva festa chamada Hallukkah. Semelhante estado de coisas vai suscitar a revolta da família dos Macabeus e originar o livro de Daniel. Os judeus pediram a ajuda dos romanos. que era sacerdote. que ainda hoje é celebrada pelos judeus. então. Matatias pertencia à família dos Asmoneus e quando a guerra acabou duas famílias disputaram o poder: a dos Asmoneus e a dos Tobíades. O mesmo fez a sua mulher Salomé Alexandra. o sumo sacerdócio foi-se degradando cada vez mais.C. depois. entretanto viúva e que governou entre 76-69. sobretudo o papel de Antíoco Epifânio. que perdurará até ao ano 70 d. começou a cunhar moeda e auto proclamou-se Sumo Sacerdote e Nasi. a partir deste estado de coisas.C.se às autoridades pagãs para receberem as suas vestes. de tipo apocalíptico. que tinha como alcunha o macabeu. não são mais do que figuras retóricas e crípticas para simbolizarem o rei Antíoco. aí nomeados. combateremos contra eles e não nos deixaremos matar a todos. Foi. A certa altura. subjugaram-nos ao seu grande império. que era filho de Simão Macabeu. que mandou matar aos milhares. o patriarca Matatias entregou a chefia da guerrilha ao seu filho Judas. não combatendo contra os estrangeiros para salvarmos as nossas vidas e as nossas leis. VI a. Quem recusasse era morto. C. devido à sua força e estratégia na guerrilha contra as tropas do rei. A guarnição militar de Akra é vencida em 141 e os judeus readquirem a sua liberdade política e religiosa. e. Por causa disto é que surgiram os religiosos de Qumrân.. os tais chassideus. mais tarde. Eleazar. A esta família juntou-se um grande número de apaniguados chamados Chasideus ou "Piedosos". o que acicatou ainda mais os velhos ódios entre judeus e samaritanos. Os Asmoneus permaneceram como Sumos Sacerdotes até ao tempo dos romanos. com o sacerdócio sadoquita estabelecido por David. no tempo dos romanos. os fariseus e os essênios. Para que tal acontecesse havia que acabar com a língua aramaica e com a religião específica dos judeus. O último livro sagrado é o de Daniel cujo conteúdo de gênero apocalíptico descreve os tempos difíceis dos judeus na sua luta contra Antíoco Epifânio. que reconheceram a sua independência. a revolta dos Macabeus. em 164. príncipe. O rei Alexandre Janeu. esta resolução: Se alguém nos atacar em dia de sábado. Com o desaparecimento dos filhos de Matatias Macabeu terminou uma dinastia e surgiu uma nova dinastia. inimigos de Deus. servindo-se sempre do sistema da guerrilha. Hircano II e Aristóbulo II. João Hircano I (134-104 a. O seu filho Aristóbulo (104-103) recebeu o título de rei e esta mistura de rei e de sumo sacerdócio vai durar 45 anos e ser causa de mal entendidos entre os políticos judeus e os religiosos judeus. que vamos encontrar. assim. Realmente.). conseguiu. de tal modo que. Pouco a pouco. A política dos Macabeus acabou por agradar a Roma e por vencer. pois.

Como Herodes "tinha a mania da perseguição". com o nome de César. na parte alta da cidade. Como Herodes era apenas um meio judeu. C. mas o seu coração estava com Roma e com a cultura grega. A partir de então. batizando-a de Sebaste. e foi por isso que apareceu Roma para impor a ordem e enviou o seu general Pompeu. neta de Hircano II e Aristóbulo II no ano 29 a.tal como se apresenta também hoje em dia -. neta de Aristóbulo e de Hircano II. subindo depois para Jerusalém. no ano 44 a. divide a terra de Jesus em duas partes bem distintas. cujas ruínas ainda hoje se podem admirar e. onde. Depois do assassinato de Júlio César no ano 44 a. de cujos restos apenas podemos contemplar e apreciar o muro das lamentações. Em Roma foi.. de que mais tarde iremos falar. segundo os parâmetros romanos. Constrói o palácio real de Jerusalém. 3. acerca dos ritos de purificação. mais tarde. e toda a 16 . aquele que estava contigo na margem de além-Jordão (Transjordânia). manda matar o seu filho primogênito Antipater e deixa o testamento a favor dos seus dois filhos Arquelau e Herodes Antipas. através do rio Jordão. onde entrou triunfalmente no ano 63 a. e com alguns dos sobrinhos. Este Antipater II começou por ser conselheiro do rei Hircano e tornou-se procurador da Palestina devido aos bons serviços de Júlio César. Auranítide e Paneias. A esta cultura de divindade pagã respondem os evangelhos e a fé cristã que só Jesus é o Salvador.C. Assim. OS JUDEUS E O IMPÉRIO ROMANO E foi assim que entrou em cena o rei Herodes. C. recebe os territórios da Traconítede.. C. Por isso. Semelhante atitude de fé vai revolucionar toda a cultura e história ocidental depois de Constantino. e de seu filho Filipe. batizando algumas delas com nomes dos imperadores romanos.C. que significa "Augusto" em honra do imperador. casou-se com Mariamme I. o Homem Divino. reconstrói Samaria. o império romano é governado por Otaviano e Marco Antônio. Foram ter com João e disseram-lhe: 'Rabi.. a fortaleza de Massada. que levou a uma certa anarquia. mandava matar todas as pessoas que pensava que lhe pudessem fazer sombra. se chamavam a Cisjordânia e a Transjordânia. onde se comemoram todos os seus feitos e a sua política religiosa de homem divino. com a mulher que mais amava. a torre "Antônia" em Jerusalém para agradar a Marco Antônio. variando de política segundo as circunstâncias. 25-26: "Então levantou-se uma discussão entre os discípulos de João e um judeu. em pleno deserto de Judá. A GEOGRAFIA DE ISRAEL NO TEMPO DE JESUS O mapa da Palestina. os romanos tomaram conta da política da Palestina. No ano IV a.. o Grande. reconstruiu o Templo de Jerusalém para agradar aos judeus. que eram filhos da sua mulher Malthace. com dois dos seus filhos. pois descendia de Idumeus. samaritana. Lemos por exemplo em Jo 4. constrói a cidade de Cesaréia Marítima. onde viviam os monges essênios. para agradar aos judeus.entraram na política da guerra familiar. a Verdade final de Deus. Otaviano vence Marco Antônio e é nomeado "Augusto" no ano 27 a.lhe dedicado o altar da paz. 4. o que era um crime de blasfêmia contra Deus e o seu Templo. Em 37 a. C. mais tarde. aquele de quem deste testemunho. Foi descoberta em Halicarnasso uma inscrição onde Augusto é nomeado "salvador do mundo".C. a começar pela destruição do mosteiro de Qumran. pelas tropas de Tito. Mateus constrói a história "lendária" da matança dos inocentes. onde vai ser sepultado. Alexandre e Aristóbulo. O seu filho Herodes tornou-se um político muito arguto e megalómano. a tal judia. passou-se para os novos donos do Império romano jogando na balança entre Octávio e Marco Antônio. para onde fogem os últimos resistentes zelotes quando da tomada de Jerusalém no ano 70 d. Mariamme I. está a batizar. Com o assassinato do imperador César. Estabelece a pax romana e desfaz-se de todos os inimigos que queriam fazer perigar semelhante paz. No ano 43 a. Assim acontece. perto de Belém. esta última na Transjordânia. o pai Antipater é morto por envenenamento.C.João Baptista. de Fasaclis. sobretudo. foi martirizado S. do Maqueronte. para agradar a César. entrou também no Templo com as suas tropas. que o evangelista S. E foi com este pano de fundo de mortes e crueldades. torna-se rei efetivo da Judéia e. palácios e fortalezas. Para poder resistir aos seus inimigos constrói as fortalezas de Antipatris.C. E como era um político megalómano construiu grandes cidades. no tempo de Jesus . filho do idumeu Antipater II. Bataneia. o Herodium. Vamos apresentar alguns textos evangélicos para vermos como Jesus se movimentava tanto na Cisjordânia como na Transjordânia. que arrasou tudo o que era contra a ordem. Para marcar bem a sua entrada e a sujeição da Palestina a Roma. pressentindo a morte.. suja e fratricida.

Chitópolis. uma outra saída à sua cidade de Nazaré (6. 21). Estas cidades formavam uma liga e tinham uma administração própria. Damos o exemplo do SI 24. Hippos. 4). 24-26: "Partindo dali. e deu-lhe autonomia debaixo da tutela do governador da Síria. o que aparece de modo mais claro na terceira afirmação: "Estavam assombrados e seguiam-no temerosos". 1-2: "Chegaram à outra margem do mar (Transjordânia). ouvindo falar dele. na vizinha Síria (7. 3). Gerasa. muito importantes porque determinam tanto o tempo como o espaço. onde é incompreendido pelos seus concidadãos. e pedia-lhe que expulsasse da filha o demônio". e o deserto só podia significar o deserto da Judéia."' Ou então em Mc 5. pois foi sobretudo aí que Jesus passou a maior parte da sua vida pública. Filadélfia.no caso concreto a pessoa de Jesus. o filho de Maria e irmão de Tiago. 12-13). onde Jesus discute o problema do divórcio (10. Pella. terra das dez cidades não judaicas). mais uma ida à Transjordânia. a terra dos gregos era a chamada decápole (isto é. Estejamos agora atentos a alguns textos dos evangelhos sinópticos sobre a geografia da Cisjordânia. onde Pedro faz a sua confissão de fé em Jesus como Messias. sempre à volta da cidade de Cafarnaum e outras pequenas cidades e lugarejos ribeirinhos ao lago ou mar da Galiléia. Pompeu separou-a em 63 a.12). Em Mc 7. saído dos túmulos. uma ida a Cesaréia de Filipe. mas não me encontrareis. 33-36: "Entretanto. um homem possesso de um espírito maligno". Isto quer dizer que os discípulos não concordavam com a deslocação do Mestre a Jerusalém. Uma vez que os evangelhos são narrativas históricas. 32: "Iam a caminho. Depois de João Baptista ter sido preso. Neste caso. Haveis de procurar-me. Eram elas: Damas. É o mesmo Marcos que refere as tentações de Jesus no deserto durante quarenta dias (Mc 1. onde cura o demoníaco epiléptico. Entrou numa casa e não queria que ninguém o soubesse. 4: "Para lá sobem as tribos. seus amigos. pois bem sabiam que os seus grandes in'migos se encontravam lá e não percebiam como é que o Mestre se ia "meter na boca do lobo". como já vimos (Mc 5. como também já vimos. que toma a dianteira. Dion. 17 . Gadara. e. a ida definitiva de Jesus para Jerusalém com esta abertura muito significativa em 10. veio ao seu encontro. Até acontece que há alguns Salmos chamados Salmos ascendentes ou Salmos de peregrinação por narrarem a subida dos crentes judeus ao Templo de Jerusalém. no extremo norte da Palestina (8. apenas com as seguintes exceções: uma ida a Gerasa. que é um cântico processional. realmente. de Judas e de Simão? E as suas irmãs não estão aqui entre nós?" (6. porque logo uma mulher que tinha uma filha possessa de um espírito maligno. Os judeus por isso disseram entre si: Para onde tenciona ele ir.. 1).gente vai ter com Ele. Em Jo 7. que não o possamos encontrar? Tenciona ir até aos que estão dispersos entre os gregos para pregar aos gregos? Que significam estas palavras que ele disse? . Kenatá e Abilá. É importante que reparemos em três afirmações neste pequeno texto. lendo-se no versículo 3: "Quem poderá subir à montanha do Senhor?" e o do SI 122. como se pode ler em Mc 1. finalmente. Logo que Jesus desceu da barca. faz com que quase todos os relatos usem o verbo "subir". Peguemos sobretudo no evangelho de Marcos. Marcos fala da tal vida pública de Jesus na Galiléia. onde cura a filha duma mulher pagã. 1-20). sem as cristologias desenvolvidas de Mateus. Primeira afirmação: "subiam para Jerusalém". e não podereis ir para o lugar onde eu estiver. subindo para Jerusalém. aquele que apresenta a pessoa histórica de Jesus duma maneira mais pura. Jesus veio de Nazaré da Galiléia e foi batizado por João no rio Jordão". com o fim de fortalecer a cultura grega contra a cultura hebraica. mas não pôde passar despercebido. por se tratar do primeiro a ser escrito. também os espaços geográficos são. Jesus foi para a região de Tiro e de Sidon. veio lançar-se a seus pés. pois irei para aquele que me enviou. siro-fenícia de origem. que lhe dizem: "Não é ele o carpinteiro. Estavam assombrados e seguiam-no temerosos". Segunda afirmação: "JesUs seguia à frente deles". uma ida a Tiro e Sídon. e é através desse tempo e desse espaço que melhor se compreendem as pessoas que os preenchem . 27). O texto também refere a vida penitente e profética de João Baptista no deserto (Mc 1. C. Marcos começa por apresentar a geografia de João Baptista ligada ao seu batismo no rio Jordão. seus discípulos. Era pagã. Lucas e João. O fato de Jerusalém se situar a 800 metros acima do nível do mar. e Jesus seguia à frente deles. de José. à região dos gerasenos. as tribos do Senhor". o povo duma maneira geral e também os seus inimigos. 9: "Por aqueles dias. 1. Jesus começou a dizer: 'Já pouco tempo vou ficar convosco. Foi incorporada no reino da Judéia por Alexandre Janeu. Trata-se do rio Jordão na sua passagem pela Judéia e não pela Galiléia. que se situava no norte da Transjordânia. enquanto os discípulos vão atrás e "temerosos". isto é.. o que significa que Jesus é o Mestre. sem medo.

O resto do evangelho continua a narrativa da subida de Jesus para Jerusalém.numa geografia. primeiro Betânia e só depois Betfagé (11. Esta listagem em que se misturam os dados geográficos com os dados vivenciais de Jesus com doentes." Logo a seguir. Chegando o sábado foi à sinagoga de Cafarnaum e ensinava a doutrina do Reino de Deus. 14-15: "Depois de João ter sido preso. ao contrário de Marcos e Mateus que usam apenas alguns versículos. para as aldeias vizinhas. amigos e inimigos. Curou lá um homem com uma mão paralisada. escreve Marcos: "Novamente entrou na sinagoga". a Morte no monte Gólgota e a respectiva sepultura. vive a ceia pascal com os discípulos e institui a Eucaristia (14. onde Jesus curou a sogra de Simão Pedro. escreve "Entraram em Cafarnaum. 13-17). porque situam a vida de um homem . Jesus tem a sua entrada triunfal (11. em 2. depois de narrar o batismo de Jesus e a tentação na Ju deia. Tudo Isto tem a ver com a verdade do Jesus da história. 1). E é interessante repararmos que Lucas narra esta subida de Jesus desde a Galiléia para Jerusalém ao longo de dez capítulos (de 9. seguindo-se depois a negação de Pedro. 51: "Como estavam a chegar os dias de ser levado deste mundo. para narrar o chamamento dos primeiros quatro discípulos. lá para si. escreve assim em 1. de modo que todos se maravilhavam pela doutrina e pelos milagres". a resolução de deixar a Galiléia. ao que Jesus responde: "Eu não vim chamar os justos mas os pecadores. ainda escuro. o discurso escatológico (13). uma vez que o Sinédrio judaico de Jerusalém não tinha jurisdição sobre os judeus galileus. É uma história que não foi Inventada. 29. que Jesus estava a blasfemar uma vez que só Deus e mais ninguém é que pode perdoar os pecados. portanto. escreve em 1. aí está a geografia da Palestina do seu tempo." Um pouco mais adiante. detenhamo-nos um pouco na geografia de Jesus apenas na Galiléia. 13. e levantou-se a terceira controvérsia por causa de colherem espigas em dia de sábado. a apresentação de Jesus no tribunal judaico e no tribunal romano. escreve: "Passando ao longo do mar da Galiléia vi Simão e André. 46. a prisão de Jesus. Literalmente.. 35: "De madrugada. em 2.. dizendo: 'Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos. para o provar. por Betfagé e Betânia (devia ser ao contrário. Lemos em Lc 9. que correspondem mais ou menos às mesmas deslocações em Mateus e Lucas. em 1. Viu o publicano Levi no seu escritório de finanças e chamou-o para seu discípulo. o evangelista ainda é mais preciso.No lugar paralelo de S. em Cafarnaum e arredores. Uma vez em Jerusalém. passando por Jericó. Mais tarde. Jesus dirigiu-se resolutamente para Jerusalém". deu-se a primeira controvérsia porque os doutores da Lei. e seguir resolutamente para Jerusalém e enfrentar o seu destino." Um pouco mais adiante. e levantou18 . escreve Marcos: "Jesus saiu de novo para a beira mar. a doutrina sobre o tributo a César (12. em 1. 1. Marcos. o texto reza assim: "Como se estivessem a cumprir os dias da sua assunção. depois de um breve diálogo. tendo Jesus voltado a Cafarnaum. Lucas. Um pouco mais adi ante. mais precisamente. escreve o evangelista: "Ora num dia de sábado. na Galiléia e. discípulos. Logo a seguir. 1-12). Um pouco mais adiante. foram para a casa de Simão e André. a Paixão.. portanto. a fim de pregar aí. onde se sentia seguro e em paz. termina por proclamar que ele como "Filho do Homem até do sábado é senhor. pois foi para isso que eu vim". 12-25). em 1. ouviu-se dizer que Jesus estava em casa." É..a de Jesus . levantou-se e saiu para ir orar num lugar solitário. Por causa disto mesmo. seu irmão . 51-19. Ele tomou. em 3. Curou naquela ocasião um paralítico e perdoou-lhe os pecados. A expressão "endurecer o rosto" significa tomar uma resolução firme. 16.. em 2. mas foi real e. pensavam. Um pouco mais adiante. 1-11). mas Jesus." Os fariseus ficaram todos escandalizados. [Jesus] endureceu o seu rosto para ir para Jerusalém". Jesus foi para a Galiléia. e disse-lhes: "Vinde comigo. 15-19). indo Jesus através das searas. que se vão passar "os três" anos da vida pública de Jesus. Continuando o nosso estudo sobre a geografia física e humana de Jesus. 27). onde cura o cego Bartimeu (11. os discípulos puseram-se a colher espigas e a comê-las. sempre junto ao mar ou ao lago da Galiléia. é deveras importante. Um pouco mais adiante. 21. centrada na cidadezinha de Cafarnaum e arredores.. Mas os discípulos vieram ter com ele e disseram-lhe: Todos te procuram. ao que ele lhes respondeu: Vamos para outra parte. apresenta a parábola dos vinhateiros homicidas (12. de modo que surge a segunda controvérsia com os doutores da Lei que diziam: "Por que é que ele come com cobradores de impostos e pecadores?". 1 escreve o evangelista: "Dias depois. a oração de Jesus no Getsémani. ceou com ele e outros publicanos. acreditai no Evangelho. purifica o templo (11. 23. e proclamava o evangelho de Deus. e farei de vós pescadores de homens"'.52). num tempo e num espaço bem conhecidos e bem comprovados. Vale por isso a pena estarmos atentos à maneira como Marcos apresenta as deslocações de Jesus no seu evangelho. escreve: "Saindo da sinagoga. que estavam presentes.

A semântica que está por detrás do verbo separar tem a ver com o rigor da sua disciplina moral. e que os separava do resto do povo. Mas não viaja ou passeia simplesmente pelo prazer de viajar. geralmente à volta do que era puro e impuro. ainda escuro . Depois disto. na barca.. entra no barco.se a quarta controvérsia por causa de mais uma cura em dia de sábado. Em Mc 5.. mas é preciso contarmos também com os essênios.. Por tudo isto. entra nas sinagogas. 1 lemos: "De novo começou a ensinar à beira mar. geralmente de confronto e polêmica e. à região dos gerasenos.. E o que ele diz e faz é novidade para os judeus. pela lei dos contrastes. sem a alienação religiosa.". Entre eles sobressaem os fariseus. " O interessante de todas estas pequenas narrativas é que todas estão enquadradas por um parâmetro geográfico. e... continua a narrativa de Marcos em 3. porém. 1: "E partiu dali.. perdoa pecados. O que acabamos de descrever refere-se apenas aos três primeiros capítulos de Marcos. Jesus levantou-se .1. Mas o mesmo estilo de narração continua por todo o evangelho. nas narrativas evangélicas. é senhor do sábado. Isto não significa. Jesus entrou . Eu não vim chamar os justos.. 5....." Em Mc 6. 6: "E Jesus percorria as aldeias vizinhas a ensinar.. escreve Marcos: "Jesus subiu a um monte" e escolheu os doze discípulos.. assim. Jesus subiu. como faziam os doutores da Lei. ensina de modo totalmente diferente do dos fariseus e doutores da Lei." A conclusão é sempre a mesma: os evangelhos são narrativas históricas em que a geografia física e humana fazem um todo e estão em função da doutrina do evangelho. uma vez mais. os "separados". mas consiste numa ação direta sobre os doentes e numa declaração solene sobre as instituições sagradas dos judeus. dar-nos-emos conta disto mesmo.. OS FARISEUS A nossa palavra fariseu depende do hebraico parash. que todas as palavras e atos de Jesus estejam devidamente assinalados num tempo e espaço completamente enquadrados. funcionam como parâmetros da vida de um homem histórico." Em Mc 6. passando ao longo do mar da Galiléia. ao entardecer.. Em Mc 5.. A humanidade nova é a humanidade sem sofrimento. Quando estendermos a "questão sinóptica".".. Ao lermos os evangelhos deparamos continuamente com os grupos religiosos dos judeus com os quais Jesus entra em conflito. e esta doutrina não consiste apenas em pregação acadêmica à volta da Lei de Moisés e tradições judaicas. batistas e zelotes. Marcos volta a escrever: "Jesus retirou-se para o mar com os discípulos" e curou todos os que sofriam de enfermidades. em 3. Vamos estudar sobretudo os três primeiros grupos. seja de geografia física. Foi para a sua terra [de Nazaré]..tornemos a dizê-lo . Jesus voltou .". Sem este espaço geográfico e humano. sobretudo o sábado. para a outra margem. e os discípulos seguiam-no. por serem os mais importantes. sem pecados. O tempo e o espaço.é que a geografia física e humana fazem um todo com a doutrina revolucionária de Jesus. Jesus responde-lhes em Mc 2. de madrugada. Toda a geografia física e humana estão em função da verdade maior que é o evangelho da libertação. procurando entremear a história com alguns textos evangélicos.. seja de geografia humana. quando os discípulos se aproximaram e disseram.. Jesus não é um Rabbi metido dentro de casa ou metido na sinagoga a ensinar a doutrina de Moisés. 7. As narrativas de controvérsias têm a ver com dados doutrinais: Jesus cura doentes físicos e psíquicos. bem assim. 5. 20: "Tendo Jesus chegado a casa. come com justos e pecadores. Em Mc 5. Logo a seguir. perceberemos melhor a pessoa de Jesus. nem come simplesmente pelo prazer de estar com amigos e pecadores. mas os pecadores". 21: "Depois de Jesus ter atravessado. 35: "A hora já ia muito adiantada. os saduceus e os escribas. na casa das pessoas. em 3.". 17: "Não são os que têm saúde que precisam de médico. a vida e o amor. herodianos. temos que concluir que Jesus veio trazer uma outra maneira de ver as coisas. sai de manhãzinha para orar em lugares solitários. Recordemos.. 1: "Chegaram à outra margem do mar. apelidado pelos demônios de "Santo de Deus".. as afirmações: Jesus saiu .... Eles eram os "santos". Jesus entrou na sinagoga . vamos estudar a pessoa do mesmo Jesus através dos vários grupos religiosos daquele tempo. Ele caminha pelas estradas poeirentas da sua terra. os "justos".. do perdão e do amor. Jesus nada diz e nada faz. 13. em casa . Em Mc 4. É a humanidade que tem como primazia a pessoa.. OS GRUPOS RELIGIOSOS DE ISRAEL Vimos até aqui a pessoa de Jesus situado na geografia da Palestina. O importante de tudo isto .. 35: "Naquele dia. passa duma margem à outra. em Lucas e Mateus. mas não como parâmetros de uma biografia. A partir de agora. que tanto significa "separar" como "explicar".. 19 . Logo a seguir. Em Mc 6. mas sim os enfermos. passeia junto ao lago.

os fariseus discutiam. é que os fariseus voltaram a dominar o mundo judaico e a salvar Israel de perder a sua identidade religiosa. geralmente em diálogo e controvérsia de escolas rabínicas. que significa "caminhar". com as suas regras de jejuns. e. a "haggadáh" sobre a ressurreição. Moisés disse: Se algum homem morrer sem filhos. Mc 2. 1-8 (par. os fundamentos teológicos das suas posições. deixando a mulher a seu irmão. etc. mas serão como anjos no Céu. não lestes o que Deus disse: Eu sou o Deus de Abraão. E foi assim que os fariseus perderam bastante da sua autoridade moral e política junto do povo e os saduceus aproveitaram-se desta situação para subirem na consideração de Herodes e da camada mais rica dos judeus. que João Hircano e Alexandre Janeu os perseguiram de maneira cruel. narrativa. Esta questão dos reis João Hircano e Alexandre Janeu (que apresentamos no nosso primeiro capítulo contra os fariseus do seu tempo só se entende no contexto histórico precedente. para suscitar descendência ao irmão. do casamento. que criticavam. com as suas reuniões próprias e confrarias próprias. os fariseus apresentam comentários à Lei de Moisés que têm a ver COM as disposições jurídicas ou com a jurisprudência segundo a qual eles e todo o povo deviam viver ou encaminhar a sua vida. Herodes Magno. A semântica que está por detrás do verbo "explicar". do verbo halak. A partir do ano 63.000 que se negaram a prestar semelhante fidelidade) mandou matar muitos fariseus. Por isso serviam-se das tradições orais e das próprias histórias verdadeiras ou fictícias. entrou no templo e comeu os pães da oferenda. Eles tornaram-se. purezas rituais. como vimos. nem os homens terão mulheres nem as mulheres maridos. porque eles eram amados pelo povo. após a derrocada de Jerusalém. Por isso. o seu irmão casará com a viúva. Neste estudo e interpretação. O primeiro casou e morreu sem descendência.: "Nesse mesmo dia. 1-5). Basta ouvirmos a parábola de Jesus sobre o fariseu e o publicano no evangelho de Lc 18. fala de 6. visto que o foi de todos?' Jesus respondeulhes: 'Estais enganados porque desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. com a entrada de Pompeu na Palestina e a influência romana. sucedeu o mesmo ao segundo. e terminado o poder dos saduceus e dos sacerdotes. muito radical e. os saduceus. foram ter com Ele [Jesus] e interrogaram-no: 'Mestre. por volta do ano 75 d. por isso mesmo. refrão. máxima. que também sentiu fome. por vezes. de pé. os fariseus seguiam duas linhas: a halakáh e a haggadah. 10-14: "O fariseu. 23-28 e Lc 6. seja no campo da família. na ressurreição. A história contada por Jesus sobre David é bastante diferente da original que vem no lSrn 21. quanto à ressurreição dos mortos. que significa dito. Jesus serve-se da história de David. depois ao terceiro. de qual dos sete será ela mulher. Semelhante sistema de ler e interpretar as Escrituras fazia com que os fariseus formassem uma espécie de ordem religiosa laica. morreu a mulher. Por "haggadáh". mas dos vivos é que Ele é Deus!"' Vejamos agora uma "haggadáh" do próprio Jesus a respeito da lei sabática. ao princípio. fazia interiormente esta oração: ó Deus dou-te graças por não ser como o resto dos 20 . Isto aconteceu sobretudo com o sínodo de Jabne (ou lamnia). obrigou-os a serem-lhe fiéis e ao imperador Augusto. Mas. que separava os fariseus do resto do povo. com fome. elaboraram 613 regras das quais 248 eram preceitos a cumprir e 365 eram interditos a evitar com todo o rigor. que vem em Mt 22. relaciona-se com a explicação da Lei de Moisés e das tradições orais. etc. a aristocracia judaica que se dava bem com judeus e pagãos.C. Na ressurreição. mas apenas do assunto duma proibição infringida por David. que não acreditam na ressurreição. C. Jesus é criticado pelos fariseus por causa dos seus discípulos. devido à lealdade dos fariseus para com a Lei e tradições. definição e determinação. Lembremos. apanharem espigas ao sábado e comerem os seus grãos. que só os sacerdotes podiam comer. o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Não dos mortos.Foi devido a esta maneira de ser. não obstante todas estas peripécias históricas. dízimos. 23-33 e par. Perante a desobediência de muitos deles a tal imposição (um historiador judeu do século 1 d. dos funerais. e havia muitos homens e mulheres na corte de Herodes e até no seu harém que admiravam os fariseus. lenda. os fariseus continuavam a ser amados e admirados pela gente simples e humilde. com o andar dos tempos. havia sete irmãos. das comidas. Por "halakáh". Mas Herodes Magno. não os enfrentou de maneira direta. que tem como raiz hebraica o verbo parash. até porque no caso de David não se trata do assunto sobre o sábado. bem como os que o acompanhavam. entre nós. os fariseus foram perdendo a sua importância. Então. Depois de todos eles. que vem em Mt 12. uma espécie de diretores espirituais do povo simples. com o seu noviciado de algums meses para serem provados. Ora. fundamenta lista. martirizando muitos deles. por exemplo. tal como os seus discípulos o fizeram em relação ao sábado. tornando-os uma espécie de seita. Só depois do ano 70. e assim até ao sétimo. E. um pouco mais tarde. do vestuário. por extensão. 2-7. ao norte de Jerusalém. Nada da vida podia escapar a esta jurisprudência. devido ao seu radicalismo e até fundamentalismo.

gente simples dos campos. 37-53 (paralelos em Mt 23. e é precisamente esta maneira de ser que Jesus combate. A primeira vem em Lc 7. Mc 4. porque enquanto os saduceus apenas estavam ligados às Escrituras. em casa de um dos principais fariseus para comer uma refeição. os fariseus aceitavam também a tradição oral. 6-13. Em todas estas cenas. que são ladrões. a verdade é que eles estão ausentes nos relatos da paixão. 38-40). Para se distinguirem de todos os demais. faziam uma espécie de pato secreto com eles por causa de imporem as suas leis de impureza ritual a todo o povo. A segunda narrativa vem em Lc 11. mas isto não significa que os fariseus fossem assim tão maus e perversos. 6-10) e as expectativas messiânicas. e pôs-se à mesa. injustos. Jesus entrou em casa do fariseu. quando davam esmola. os fariseus caíam no exibicionismo e na incoerência. Para tanto. os fariseus. e foi por causa desta cura que surgiu a controvérsia uma vez que a cura acontecia em dia de sábado. Os fariseus perscrutavam as Escrituras Sagradas e as tradições para encontrarem a vontade de Deus em todos os pormenores da sua vida. nem como este cobrador de impostos. Depois curou um hidrópico que se encontrava também ali. adúlteros. Temos que ter em conta que quando os evangelhos foram escritos. Além do mais. que os fariseus marginalizavam por pensarem que eram uns amaldiçoados de Deus.. Os fariseus seguiam a lei do Levítico que prescrevia a santidade: "Sede santos porque Eu [vosso Deus] sou santo" (Lc 12. tinham as suas reuniões semanais em assembléias de pequenos grupos e serviam-se especialmente das ceias de sexta feira e de sábado para semelhante estudo e doutrinação. muito vivas no contraste doutrinal entre Jesus e os fariseus. 1-24 (paralelos em Mt 12. e é a partir deste estado de coisas que Jesus lança o seu repto contra o farisaísmo que só se interessa pelo exterior e aparências. Jesus dialoga com o fariseu sobre aquela atitude e termina por declarar que ele mesmo tem poder para perdoar os "muitos pecados daquela mulher. isto é. já não havia nem saduceus. 1-36 e Mc 12. devido a esta abertura à tradição oral que aceitavam a ressurreição e a imortalidade (Ac 23. O Jesus de Mateus é o que mais combate este exibicionismo e incoerência dos fariseus (Mateus 6. Embora os evangelhos apresentem Jesus em diatribes constantes contra os fariseus. Simplesmente. o seu zelo fosse excessivo e pouco humano (Mt 15. limpais o exterior do copo e do prato. pois gostavam de dar nas vistas e de mostrar as suas boas obras. obrigando-os. nem qualquer outro tipo de judeus. 3-9. a um sábado. porque muito amou ". aplicando às suas vidas o que há de mais perfeito neles tanto na prática como na doutrina". no entanto. sem ir ao interior das coisas: "Vós. 1-20). Lembremos apenas três narrativas dos sinópticos. 1-2 e 23. Sem dúvida que os sacerdotes. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo"'. na lógica destes rituais. Mas os fariseus eram pessoas muito mais abertas e compreensivas do que os saduceus. É por isso que os evangelhos nos apresentam Jesus a ser convidado pelos fariseus para jantar e a maneira como Jesus se servia desses jantares para a sua própria doutrinação. a não ser os fariseus que combatiam ferozmente a Igreja cristã nascente. O fariseu estranhou que Jesus não tivesse feito as suas abluções rituais antes de começar a comer. 1). todos o observavam". 2.. Jo 12. 9-14. Mas reparemos que a finalidade de Mateus é catequética e se dirige à multidão e aos discípulos (Mateus 5. pedindo aos seus discípulos que façam precisamente o contrário. 133). comerciantes. Seguiu-se a posição doutrinal de Jesus sobre a maneira de fazer bem em dia de sábado e a sua diatribe contra os fariseus que só se interessam pelas aparências e pelos primeiros lugares. o que mais sobressai é o amor de Jesus pelos pecadores e pelos doentes. quando jejuavam e quando oravam. A narrativa começa assim: "Um fariseu convidou Jesus para comer consigo. mesmo os não fariseus." Depois segue-se a cena duma mulher pecadora que unge os pés de Jesus com um perfume muito raro como sinal de amor. tantas vezes. um fariseu convidou-o para jantar em sua casa". terminando desta maneira: "As cidades renderam homenagem a tantas virtudes [dos fariseus]. É. Flávio Josefo descreve os fariseus de maneira muito positiva na sua obra Antiguidades Judaicas XVIII. 1-17 e 23. nem sacerdotes. a santidade foi transformada no cumprimento exterior de leis e regras sobre as prescrições do puro e impuro ritual. também abre com um convite de um fariseu a Jesus para ir jantar a sua casa: "Mal Jesus tinha acabado de falar. escribas. 36-50 (paralelos em Mt 26. Como na cena anterior. Os fariseus eram recrutados de todas as camadas sociais: havia artesãos. a evitarem todo o contato com os pecadores e os doentes. às leis escritas. Mateus carrega as cores da crítica contra os fariseus para que os cristãos não caiam nos mesmos defeitos. embora. mas o vosso interior está cheio de rapina e maldade". 45). 1-6) que começa desta maneira: "Tendo entrado. A terceira narrativa vem em Lc 14. sacerdotes. Mc 3. porque o processo final contra Jesus 21 .homens. 1-11).

rei e sacerdote (153 a. estabelecendo a ponte entre Aarão. interessante ouvirmos o texto de Flávio Josefo das Antiguidades Judaicas no cap. aqueles homens. a imortalidade e os anjos (Mt 22. que defendiam o resto das Escrituras. O profeta Ezequiel. 46. dos doutores da Lei e.) e com Herodes Magno. agarrados ao poder e ao tradicionalismo político e religioso.). sempre de mãos dadas com os políticos da ocasião. No tempo de David. cediam as suas posições a favor dos fariseus quando se tratava de agradar ao povo. 43.50). e Salomão. do meu rei]" (1 Sm 2. 26). Assim aconteceu com Alexandre Janeu depois de João Hircano.6. depois do exílio. de dois pesos e duas medidas. como 22 . quando chegam ao governo. surgiu a contestação da verdadeira família dos sacerdotes sadocitas contra este estado de coisas. 2. mas que são as primeiras em dignidade. 23. porque eram menores em relação aos fariseus e tinham menos Influência junto do povo. uma linhagem hereditária] e duradoira. Bellum Judaicum 2. Assim se explicam as palavras da Escritura postas na boca de Deus: "Suscitarei para mim um sacerdote fiel. quando Jesus começou a ser realmente perigoso para a ortodoxia judaica. 5. os saduceus mantinham uma atitude mais liberal e mais laica. que procederá segundo o meu coração e a minha vontade. e não se preocupam em observar qualquer outra coisa que não sejam as leis [isto é. 12. 15. que aparece nos evangelhos. faziam parte dos sacerdotes da casa real de David (2 Sm 20. portanto. para os saduceus. governavam o Israel político e religioso. especialmente. como se pensava antigamente. Esta linhagem de Sadoc permaneceu até ao exílio. apesar disso e por necessidade. Apresenta-se a primeira vez quando Jónatas Macabeu. com a rainha Alexandra (76-67 a. 19. que tentou agradar e controlar os dois partidos consoante as suas conveniências.. 164-166. só aceitavam como Escritura normativa e sagrada o Pentateuco e rejeitavam as tradições dos fariseus. 20-21). representados no Sinédrio e que.C. Por isso é que se explica que as relações de Jesus com os saduceus são muito menores do que as relações com os fariseus. saídos do clã dos Macabeus.AntiquitatesJudaicae. Mas o partido dos saduceus. com Aristóbulo II (67-63 a. ora apoiavam mais os fariseus. C. 12. 35). OS SADUCEUS A origem dos saduceus não provém da palavra saddiq. mas quando se deu a reconstrução do Templo de Jerusalém. se autodenominou. de modo que os reis Asmoneus. 12: "A doutrina dos saduceus afirma que as almas se desvanecem ao mesmo tempo que os corpos. na prática. para que o povo não se vire contra eles. 18. Para eles é uma virtude estarem em desacordo com os mestres da sabedoria [alguns escribas do grupo dos saduceus] que eles professam." Por aqui ficamos a saber que. fala dos sacerdotes do seu tempo. primeiro com os Asmoneus. um sacerdote que Salomão colocou à frente dos sacerdotes no Templo de Jerusalém. 12). 23-33. Necessariamente.só podia depender das autoridades que tinham o poder de julgar a favor da vida ou da morte.. Serviam-se. 13. 47. 27-38. no tempo dos Macabeus. Não acreditavam na imortalidade da alma e na ressurreição. possivelmente porque. Mas. Flávio Josefo. Esta doutrina penetrou apenas nalgumas pessoas. por isso mesmo. portanto. recrutados entre a classe sacerdotal e a nobreza laica. 173. mandou eliminar os seus inimigos. ao mesmo tempo. e ele viverá sempre na presença do meu ungido [isto é. conforme as conveniências. Abiatar não defendeu a causa de Salomão. no tempo de Jesus. sacerdote irmão de Moisés.2. Jo 11. como já vimos. a ressurreição. Ao contrário dos fariseus. tem a sua origem no século II a. como verdadeiros "filhos de Sadoc" em 40. juntamente com outros. apareceram outros sacerdotes a defenderem a sua legitimidade sadocita. Sadoc e Abiatar. que era o Sinédrio. ora mais os saduceus. tentando dar-se bem com Asmoneus e Romanos. no ano 515 a. mas do nome Sadoc. lMc 10. mas não sadocita. por assim dizer. dos sumos sacerdotes. que significa "o justo". Mesmo assim os evangelhos apresentam também os fariseus de acordo com o Sinédrio na questão da morte de Jesus (Mc 3. e o atual sacerdócio. C. formado sobretudo pelos representantes dos saduceus. substituindo Abiatar. Se Jesus contatava diretamente com o povo e não com os políticos e com as autoridades religiosas era natural que os seus conflitos tivessem mais a ver com os fariseus e menos com os saduceus. só os sacerdotes eram os intérpretes autênticos da Lei. por isso mesmo. concedem tudo o que diz o fariseu. 48. nenhuma função. defendiam um tradicionalismo político e religioso. 44. que era de família sacerdotal.C. Mas quando Salomão subiu ao trono. Hei-de edificar-lhe uma casa sólida [isto é. ao contrário de Sadoc. O grupo ou o partido dos saduceus designa. mas. o Pentateuco]. 18.C.. de modo que foi Sadoc que esteve na origem genealógica dos sacerdotes futuros (1Rs 2. foram os saduceus que determinaram a sua morte e não os fariseus. 8. Não têm. Ac 4. Lc 20. E que. Por isso mesmo.35). E foi também deste modo que os saduceus e os fariseus começaram a degladiar-se. que era sacerdote. depois com Herodes e com os romanos. opondo-se desta feita aos fariseus que eram leigos. dos anciãos.

Nos evangelhos.11. o poder é entregue aos sacerdotes e aos escribas. os escritos encontrados em Qumran. Por outro lado. Mesmo assim. 9. Ezequiel. ao menos. era natural que os sacerdotes e os escribas dessem as mãos para que a vontade de Deus fosse conhecida e cumprida através do culto e das leis. para ser morto. que dependem da sua linhagem sacerdotal. Os saduceus entregaram Jesus a Pilatos. Esdras. ou com a morte. por motivos religiosos e políticos. Só se é escriba através do estudo. dão uma grande importância à linhagem sadocita e criticam mordazmente os sumos sacerdotes de Jerusalém como usurpadores do verdadeiro sacerdócio. ao longo da história de Israel. Uma vez que a monarquia desaparece depois do exílio. tem o direito de interpretar as Escrituras. 1. Mt 16. contra a qual Jesus se sobrepunha. ou com uma multa ou. Aparecem com uma grande responsabilidade na morte de Jesus porque eram eles que julgavam sobre a ortodoxia clássica e histórica do judaísmo. ninguém nasce escriba. Mas como o poder corrompe. 34). para se falar apenas dos "filhos de Sadoc". o escriba facilmente acabava por se manifestar como alguém superior e a quem se deviam honras e uma certa veneração por parte do povo. o que equivalia a ser julgado como blasfemo e digno de morte (Mt 16. Viram nele um blasfemo e um homem de idéias messiânicas capaz de arrastar multidões e pôr em perigo a estabilidade religiosa e política que sempre defenderam (Jo 19. 5. na dependência do Sumo Sacerdote. Ml 1. que aconselhavam também os homens da política e da religião. OS ESCRIBAS A nossa palavra "escriba" ou "escrivão" deriva do latim "scribere". Assim se explica a diatribe mordaz de Jesus contra escribas e fariseus no capítulo 23 de Mateus (ver 23 . os sacerdotes tornaram-se os senhores do Templo e do poder. Eram uma espécie de oficiais do ministério da cultura e da religião. a partir de 1947. 1-10. 9) por não cumprirem as leis da aliança de Levi. e no grego bíblico do grammateus. como aconteceu com S. 3). que estudam a lei e a aplicam às circunstâncias de cada tempo. Todo aquele que não observar a Lei do teu Deus e a lei do rei será castigado rigorosamente. seja de Israel como na de todas as cortes reais do Próximo Médio Oriente. 23.. ou com o desterro. Assim se explica a veneração pelo sacerdote e pelo escriba. A partir do século III a.já vimos. Geralmente. com a prisão": cf. que liam. que tem a ver com um grupo bem determinado de judeus que liam. que era o chefe da nação. Com toda esta importância. do verbo sápar. Realmente. os escribas são sobretudo leigos e no tempo de Jesus há escribas leigos. os escribas são leigos. 25-26: "E tu. Em conclusão. mas nos judeus trata-se do sôper. Por isso. C. que exigia um cumprimento rigoroso da Lei para que não se incorresse no castigo divino. que viveu antes do exílio e durante o exílio. deixa de se falar dos "filhos de Aarão". Por volta dos 40 anos. que atua no exílio e no pós-exílio já é sacerdote escriba (Es 7. que tinham sobretudo a ver com o culto do Templo e cuja formulação dependia dos escribas. o que originou o aparecimento dos essênios na célebre comunidade de Qumran. de acordo com as Escrituras e as tradições. na corte real. mas operam lado a lado com os sacerdotes. E uma vez que o jovem se torna escriba e mestre. O jovem judeu que desejava ser escriba procurava um mestre e sujeitava-se a ser seu aluno durante alguns anos. o mestre ou doutor ordenava-se escriba através da imposição das mãos e ficava com o direito de fazer parte do Sinédrio e com o direito de atar e desatar (cfr. é um profeta sacerdote. mas também sacerdotes e levitas. 6-2. escreviam e interpretavam as Escrituras sagradas. verbera com diatribes contínuas a falsidade dos sacerdotes daquele tempo (cf. e é por este tempo que o cânone das Escrituras hebraicas vai recebendo forma pouco a pouco. existiam os escribas ou os secretários da corte. Ao contrário dos sacerdotes. segundo a sabedoria do teu Deus na qual és versado. 22. 18). estabelecerás juízes e magistrados para fazerem justiça a todo o povo da outra margem do rio e a todos aqueles que conhecem as leis do teu Deus: e hás-de ensiná-las aos que as ignoram.3. 19 e 18. Paulo em relação ao mestre Gamaliel (Ac 22. este múnus estava ao encargo dos sacerdotes. 15). Depois do exílio da Babilônia. uma vez que não existia o rei e os profetas também tinham perdido a autoridade moral e religiosa dos tempos de antes do exílio.6. os fariseus eram o grupo religioso que sobressaiu quando os evangelhos foram escritos. o profeta Malaquias. mas Esdras. 17. ser membro dum tribunal e dar os seus pareceres de jurisprudência. Ao princípio. mas distinguem-se dos fariseus tanto pelas suas crenças como seu comportamento político. aparecem por vezes em companhia dos fariseus. É assim que se estabelece a teocracia. o grupo dos saduceus fraturou-se por causa precisamente da mistura entre política e religião no tempo dos Asmoneus e dos Romanos. interpretavam e explicavam a Lei e a Escritura. Ne 8). um dos poucos depois do exílio. 22.

e ver como é que o mesmo Jesus se comportou em relação a essas instituições. vamos agora estudar as instituições religiosas mais importantes de Israel do seu tempo. mas da possibilidade dos cristãos se portarem da mesma maneira que os escribas e os fariseus.). não se dirige diretamente a eles. 3 (Mt 21. Jesus afirma sem rebuços que ele mesmo é superior ao sábado. muitas vezes. 45: "Quando todo o povo o escutava. Os outros viviam das tais esmolas de que falamos e dos seus trabalhos manuais.. não exigirem qualquer pagamento aos seus alunos vivendo. INSTITUIÇõES RELIGIOSAS DE ISRAEL Depois de termos apresentado os vários grupos religiosos e a sua importância para a compreensão da pessoa de Jesus. 26:") e de todas as suas atitudes em relação ao Templo (Mc 11. escribas. os escribas não podiam gostar de Jesus porque ensinava com autoridade sem ter freqüentado qualquer escola rabínica (Mc 1. 24 . quando Jesus critica mordazmente os doutores da Lei bem como os fariseus. repreendido pelos fariseus e doutores da Lei. pois toda a multidão estava maravilhada com o seu ensinamento"). Chammai como carpinteiro. contra a vida e contra o amor (Mc 7.16)... 11. Reparemos nos sete epítetos de Jesus em Mt 23. Na intenção dos evangelistas.1. nas críticas contra a hipocrisia dos escribas ou doutores da Lei em Lc 21. 8: "Jesus respondeu: "Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés permitiu que repudiásseis as vossas mulheres. 1-2: "Ao ver a multidão. como professores da Lei mosaica. ao perdão dos pecados (Mc 2. 27: "Tão assombrados ficaram que perguntavam uns aos outros: que é isto? Eis um novo ensinamento. que eram os fariseus e os doutores da Lei. 27). os sumos sacerdotes. Gostam das saudações nas praças públicas e de serem chamados Mestres pelos homens"). Jesus falou assim à multidão e aos discípulos: "Os doutores da lei e os fariseus instalaram-se na cátedra de Moisés. que o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado (Mc 2. das esmolas dos alunos. 23-27). Reparemos. Apenas os escribas funcionários do Templo e os escribas sacerdotes recebiam um salário mais ou menos fixo. cf. São elas o Sábado. não foi assim". Purifica o Templo com toda a autoridade que lhe vem de si mesmo (Mt 21.. os discípulos aproximaram-se dele. Jesus subiu a um monte. até mesmo contra a própria Escritura. Depois de se ter sentado. Então tomou a palavra e começou a ensiná-los.5.15-16). "meu grande mestre").VV.. tanto aos daquele tempo histórico de Jesus como aos de hoje.". mas de si mesmo.6-7: "Gostam de ocupar o primeiro lugar nos banquetes e os primeiros assentos nas sinagogas. ao princípio. o que está em causa é uma catequese a todos os cristãos para que não ajam à maneira dos escribas e dos fariseus. 1: "Então. 18 "Os sacerdotes e os doutores da Lei ouviram isto e procuravam maneira de o matar. mas ao povo e. de orar e de jejuar. 11) e a todas as tradições judaicas que vão contra a pessoa. 1-23 e par. 27-28: "Regressaram a Jerusalém e. 6. Jesus tanto ensina as bem-aventuranças como a maneira de dar esmola. portanto. a autoridade não lhe vem dos livros. aos seus discípulos. Mt 23. os doutores da Lei e os anciãos aproximaram-se dele e perguntaram-lhe: 'Com que autoridade fazes estas coisas? Quem te deu autoridade para as fazeres?"'). mas. 13-33 ao mesmo tempo contra os doutores da Lei. Paulo de Tarso como tecelão. sobretudo. ". 5. 18. andando Jesus pelo Templo. o Templo e a Lei. ainda. e é por isso que interpreta várias questões de suma importância de maneira própria e única. mas temiam-no. em relação ao sábado (Lc 6. e feito com tal autoridade que até manda aos espíritos malignos e eles obedecem." Neste último caso.". Este aspecto é importante porque Jesus não se está a dirigir aos fariseus e aos doutores da Lei. doutores da Lei e fariseus hipócritas. Jesus disse aos discípulos: "Tomai cuidado com os doutores da Lei. Mt 5. de modo diferente da dos hipócritas (Mt 2. 6. O grande rabi Hillel trabalhava como jornaleiro. 3-5 e par. mas sim ao povo e aos seus discípulos: Lc 25. É de realçar o fato dos escribas. do dízimo dos pobres e das esmolas do Templo. Há que reparar que.. Necessariamente. sendo. que atingiam o grau de "rabbi" ou de "rabun" ("meu mestre". Não se trata de chamar à atenção os escribas e os fariseus do tempo de Jesus. por isso mesmo.lhe!"'. por isso. e uma vez que se trata do sermão da montanha. como é o caso do divórcio em Mt 19. 45-47 e paralelos. SÁBADO Ao lermos os quatro evangelhos é freqüente encontrarmos Jesus a fazer os seus milagres em dia de sábado. e contra os fariseus: "Ai de vós. Para Jesus. 15. v... O mesmo se diga da sua autoridade doutrinária acerca da ressurreição em resposta aos saduceus (Mc 12. defende a aclamação messiânica das crianças recorrendo à autoridade dc Salmo 8.).

menos o sábado. Esta ambiguidade está patente na cultura judaica: o sábado é um dia de festa. o teu servo e a tua serva. é sabido. GenR 11 [8b]. e a tua filha. que bastaria que os judeus cumprissem dois sábados com todo o rigor para que o Messias viesse. Juntamente com a circuncisão.A palavra sábado aparece. Não farás trabalho algum. mas endureceram a sua cerviz para não me escutarem nem receberem a instrução. Deus fez cair todas essas desgraças sobre vós e esta cidade. Mas o sétimo dia é sábado consagrado ao SENHOR teu Deus. IV. carregavam molhos e transportavam em jumentos vinho. como nós. nem façais trabalho servil. 12-15). Repreendi os notáveis de Judá e disse-lhes: "Procedeis muito mal. tanto antigamente como atualmente. Em segundo lugar. ou. Os principais textos do AT sobre a sacralidade do sábado aparecem. Deus trabalha durante os seis dias da semana e descansa ao sábado. nada mais nada menos. então. 8-11: "Recorda-te do dia de sábado. "não trabalhar" ou "deixar de trabalhar". Em Jr 17. o mar e tudo o que está neles. o teu filho. diminuindo o efá. não se pode trabalhar. a observância do sábado faz parte integrante da aliança de Deus com o seu povo (Êx 31. Para a cultura da Mesopotâmia. Eles. Assim sendo. em terceiro lugar. os teus animais. o povo seguia um calendário lunar. porque em seis dias o SENHOR fez os céus e a terra. sagrado. Dt 5. Estas leis e prescrições multiplicam-se ainda mais com o exílio da Babilônia. como é ainda hoje. 22-23 o profeta pede: "Abstende-vos de tirar cargas para fora das vossas casas no dia de sábado. profanando o sábado?" Estas leis sabáticas não agradavam aos comerciantes judeus que queriam fazer riqueza. para o santificar. por isso. o dia correspondente às quatro fases da lua era um dia "nefasto" ou "sagrado". O mesmo acontece com os Macabeus (1Mc 2. 1082s). A palavra "sábado" e o verbo "shabat" significa "descanso" e "descansar". uvas. para vendermos o nosso trigo. profanando o dia de sábado. mas eram impedidos pelas leis que proibiam o comércio em dia de sábado (Am 8." O mesmo acontece com os queixumes de Neemias em 13. e. para melhor compreendermos a pessoa de Jesus. É com este fundo cultural e religioso que nasce a narrativa do primeiro capítulo do Gênesis sobre a criação. 15). não se tratava já dum dia nefasto. como ordenei a vossos pais. 5: "Vós [os ricos exploradores] dizeis: 'Quando passará a Lua Nova. sem Templo e sem sacrifícios. "Naquela época encontrei em Judá homens que pisavam uvas ao sábado. O que nos espanta. o estrangeiro que está dentro das tuas portas. que levavam para Jerusalém em dia de sábado. É interessante notar que os judeus contam os dias da semana por números. que traziam peixe e toda a sorte de mercadorias. Por isso. o sábado era. figos e toda a sorte de fardos. De tal maneira o sábado é importante e sagrado que. dedicado a Javé e. Desta maneira. no Decálogo. para abrirmos os nossos celeiros. Na Mesopotâmia e em todo o Médio Oriente. A santificação do sábado é fundamental na religião de Israel. uma nota característica e distintiva de Israel. como lei do descanso por causa do descanso do próprio Deus (Êx 20. que vendiam em dia de sábado aos judeus. as quatro fases da lua determinavam os tempos propícios ou nefastos para estas atividades. mas descansou no sétimo dia. E vós ireis inflamar a sua cólera contra Israel. como tal. Por isso. O significado do descanso sabático perde-se na bruma dos tempos. Marca o ritmo sacral do tempo. Havia também alguns habitantes de Tiro estabelecidos na cidade. igualmente. portugueses. são algumas leis sabáticas que terminam por impor nada mais nada menos do que a morte a quem infringir a lei sabática! Será que tal legislação alguma vez se consumou? Há razões para duvidarmos porque há vários textos do tempo antes do exílio e do depois do exílio que apresentam a infração à lei sabática. os rabinos afirmam que a sua observância até se deve cumprir no inferno (bSan 65b. Billerbeck. os judeus que inventaram o descanso sabático. Os vossos pais faziam o mesmo e. fundamental para a pastorícia e a agricultura. em Jerusalém. porém. 3238). Trabalharás durante seis dias e farás todo o teu trabalho. então. a sacralidade do sábado tem a ver com a libertação do Egito (Dt 5. 12-17). tu. pela negativa. e o sábado. o sábado da lua cheia era. Em Canaã. Não foram. que se deixam matar às mãos dos seus inimigos por não se poderem defender em dia de sábado. Admoestei-os a respeito do dia em que vendiam os seus produtos. em primeiro lugar. os judeus sacralizam o sábado e rodeiam-no de inúmeras leis e prescrições. mas de alegria e celebração. temos que compreender o que é que se passava no AT e no tempo de Jesus acerca do sábado. mas sem qualquer conseqüência. correspondendo a criação do sábado ao sétimo dia. Mas santificai o dia de sábado. não prestaram ouvidos. aumentando o siclo e 25 . cf. do que 68 vezes em todo o NT. por isso. em que não se podia trabalhar. mais tarde. quando os judeus estão longe da sua terra. ou. pela positiva. o SENHOR abençoou o dia de sábado e santificou-o". sobretudo depois do exílio da Babilônia. 15-18. Finalmente. para que as pessoas possam ir ao Templo ou à sinagoga celebrar o seu Deus.

falseando a balança para defraudar?"'). Mas para os crentes de Deus era um dia de festa e de delícias (Is 58, 13-14). Depois do exílio da Babilônia, no chamado período do Segundo Templo (515 a.C. - 70 d. C.), uma vez que a vida dos judeus se modificou significativamente, porque viveram sempre na dependência dos vários impérios (Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma), a Lei ganhou foros de grandeza divina até então desconhecida, e foi assim que surgiram os rabinos "canonistas" com o papel de definirem com precisão o que era permitido e proibido em dia de sábado. Todo o problema girava à volta da semântica da palavra obra. O que é proibido tem a ver com uma obra e, assim sendo, aparecem as listas das obras proibidas em dia de sábado (Jub 2, 29-30; 50, 6-13; CD 10). Claro que os escribas não partem do nada, mas das obras proibidas já no AT como era o caso de acender o fogo (Êx 35, 3), o transporte de cargas (Jr 17, 21-22), viajar e tratar de negócios (Is 58, 13), lavrar e ceifar (Ex 34, 21). Também fica estabelecido que a liturgia do Templo, com os seus sacrifícios de animais e ofertas da agricultura, têm precedência sobre o descanso sabático (Nm 28, 9-10; lCr 23, 31), e, bem assim, a prática da circuncisão. As leis sabáticas chegaram a um tal rigorismo que durante o tempo da revolta dos Macabeus, muitos judeus que estavam em pé de guerra contra os seus inimigos se deixaram matar por ser dia de sábado (lMc 2, 32-38). É fato que, perante tal chacina, Judas Macabeu e os seus apaniguados decidiram "combater contra tudo o que viesse atacar-nos em dia de sábado...". Mas o livro dos Jubileus [um livro intertestamentário, não canónico, do tempo de Jesus] em 50, 12-13 proíbe também combater em dia de sábado. Segundo este texto, em dia de sábado não se pode "caminhar, cultivar o campo, acender o fogo, cavalgar, viajar de barco, ferir ou matar qualquer ser, degolar animais ou aves, capturar animais, aves ou peixes, lutar na guerra." O texto termina afirmando: "E o homem que fizer qualquer destas coisas em dia de sábado, morra." Nos tempos de Jesus, tanto os romanos como os demais povos "pagãos" viam a legislação sabática dos judeus, como as demais festas e ritos, seja com admiração (Flávio José Ag. Ap. 2, 39 & 282; Filão, Vit. Mos. 2, 21), seja com desprezo (Flávio José A. Ap. 2.2 && 20-21). o império romano legislou a favor dos judeus em relação às leis sabáticas, e isentou-os também de participarem no exército (cf. Flávio José Ant. 14, 10.12 && 226-227). A religião judaica fazia parte, assim sendo, das muitas manifestações do império romano. Inclusivamente, os judeus ofereciam sacrifícios no Templo de Jerusalém em honra do imperador. As questões complicaram-se definitivamente com o levantamento dos zelotes contra Roma a partir do ano 66, que só terminou no ano 70 com a derrocada total da cidade de Jerusalém às mãos das tropas de Tito. Depois de termos estudado a doutrina dos judeus sobre a sacralidade do sábado, ao longo dos tempos, vamos agora compreender como é que Jesus se comportava em relação ao mesmo sábado. É, realmente, neste ambiente complexo de leis a favor da sacralidade do sábado e de proibições por tudo e por nada para o defender, que a pessoa de Jesus se defronta. O que lemos em Mc 2, 23-28, que termina por apresentar a afirmação de Jesus: "O Filho do Homem até do sábado é Senhor" e 3, 1-6, depois da cura, em dia de sábado, da mão paralisada de um certo homem, pode não ter sido totalmente histórico, mas não há dúvida que corresponde totalmente às atitudes de Jesus a respeito do sábado. Jesus aceitava o sábado como o dia do Senhor Deus e, por isso, freqüentava as sinagogas ao sábado e tomava a palavra como qualquer outro judeu (Lc 4, 16ss). O mesmo fazia Paulo e os seus companheiros quando queriam falar aos judeus sobre Jesus Cristo (Ac 13, 14; 17, 2; 18, 4; 16, 13; 13, 27.42.44). Mas, para Jesus, não há nada mais sagrado do que Deus e a sua imagem, o homem e a mulher. O sábado, bem como a circuncisão ou o Templo, só têm sentido se estiverem a favor da vida de Deus e desta sua imagem, o homem e a mulher, o que não acontecia a maior parte das vezes com as leis sabáticas. Neste aspecto, o que é relatado em Lc 14, 1-6 e par. é bem paradigmático: "Tendo entrado, a um sábado, em casa de um dos principais fariseus para comer uma refeição, todos o observavam. Achava-se ali, diante dele, um hidrópico. Jesus, dirigindo a palavra aos doutores da lei e fariseus, disse-lhes: "É permitido ou não curar ao sábado?" Mas eles ficaram calados. Tomando o hidrópico então pela mão curou-o e mandou-o embora. Depois, disse-lhes: 'Qual de vós, se o seu filho ou o seu boi cair a um poço, não o irá logo retirar em dia de sábado?' E a isto não puderam replicar" (cf. também no IV evangelho 5, 1-18; 7, 22-23; 9, 13-16). Neste texto é interessante repararmos que Jesus dá a entender que há exceções, quando se trata da vida duma pessoa ou dum animal; havia, portanto, uma corrente menos rigorista dentro do próprio judaísmo. Isto leva-nos a concluir que havia mais do que uma única 26

interpretação sabática. Esta linha também é iluminada pelo documento de Qumran chamado Documento de Damasco (CD XI, 13.16), onde se lê: "Que ninguém ajude um animal a parir em dia de sábado. E se ele cair num poço ou numa fossa, que não seja tirado de lá no dia de sábado. E todo o homem vivo que cair na água ou noutro lugar, que ninguém o tire com uma escada, ou uma corda, ou outro utensilio." O texto distingue entre os animais e os humanos. Estes podem ser salvos em dia de sábado desde que não se trate dum trabalho de salvamento por uma corda, escada ou outro utensílio. Assim se explica que num outro documento de Qumran (4Q 26521) se diga: "Que ninguém salve um animal que caiu à água em dia de sábado. Mas se for um homem que caiu à água em dia de sábado, que se lance uma veste para ser puxado para cima através dela". Jesus tem em vista toda esta variedade de interpretações, mas corta a direito" porque, para ele, o que interessa é a vida das pessoas e não a casuística jurídica. A vida é olhada na perspectiva original de Deus e não na perspectiva das leis e tradições judaicas que punham obstáculos à mesma vida, fosse perante a fome das pessoas (Mc 2, 23-28 e par.), fosse perante a doença das mesmas pessoas (as cinco curas de Jesus em dia de sábado: Mc 3, 1-6 e par.; Lc 13, 10-17; 14, 1-6 e par.; Jo 5, 1-18; 9, 1-38). É evidente que, por detrás destas histórias humanas de necessidade e doença, está a autoridade de Jesus como intérprete do sábado e de toda a Lei mosaica. Quando se trata de Jesus defender os seus discípulos que colhiam espigas em dia de sábado, ele defende-se com a atitude de David (Mc 2, 23-26 e par.), não por causa do exemplo de David, mas para se apresentar como superior ao próprio David na interpretação da Lei. Os fariseus e os doutores da Lei perceberam isto muito bem. Por isso, já não se tratava apenas de um taumaturgo ou de um bem pensante filantrópico, mas de um subversor da ortodoxia judaica e suas instituições mais sagradas; numa palavra, de um blasfemo que se arrogava o direito de interpretar a vontade primigénia do próprio Deus, para além de Moisés e da Halaká. Por isso, os fariseus e doutores da Lei, sobretudo por causa do sábado, pensaram que era a vontade de Deus destruir este homem Jesus (Mc 3, 6; Mt 12, 14). Mais tarde, a comunidade cristã que vivia em Colossos, recebe de Paulo estas palavras: "Por isso, não vos deixeis condenar por ninguém, no que toca à comida e à bebida, ou a respeito de uma festa, de uma Lua Nova ou de um sábado. Tudo isto não é mais que uma sombra das coisas que hão de vir; a realidade está em Cristo" (CI 2, 16-17). 6.2. TEMPLO A questão do Templo é fundamental na vida de Jesus, tanto mais porque foi por causa da sua atitude em relação ao Templo que o Sinédrio decidiu, finalmente, a sua morte. Trataremos, em primeiro lugar do Templo ao longo da sua história de séculos, e, depois, duma maneira mais precisa, da pessoa de Jesus confrontada com o Templo. A realidade do Templo de Jerusalém tem a ver com muitos sécu los de história e os textos bíblicos e extra bíblicos, bem como as atitudes dos judeus em relação a ele nem sempre são concordes. Antes da construção do Templo por Salomão, os israelitas adoravam o seu Deus em vários santuários, mas sobretudo no de Silo, que foi destruído por volta de 1050 a.C. pelos Filisteus (lSm 4), levando com eles a Arca da Aliança. Finalmente, deu-se a construção magnífica do Templo, em Jerusalém, por ordens de Salomão, cujo relato vem no lRs 6-7 e no 2Cr 3-4. Este Templo foi completamente destruído por Nabucodonosor em 587 a.C. e voltado a construir em 515. Por isso, os únicos dados que temos para o descrever são os dos textos bíblicos e as comparações que podemos fazer com os templos pagãos sobretudo da Síria e da Fenícia. O Templo estava dividido em três partes: o átrio exterior (ulâm), um grande espaço interior (hêkál) e um pequeno espaço ao fundo, chamado "o Santo dos Santos" (dbir ou qodesh q'dashim), onde se guardava a Arca da Aliança. No espaço do hekal estava o altar dourado do incenso, a mesa dos pães da preposição e o candelabro. Na parte exterior estava o altar de bronze para os sacrifícios dos animais. A Bíblia fala também do "mar" de bronze, que era uma espécie de grande bacia de bronze com água para as abluções dos sacerdotes. E de cada lado da entrada havia dez bacias de bronze também com água, cinco de cada lado, que serviam para a purificação das rezes a sacrificar pelos sacerdotes. E todos estes elementos constitutivos do Templo fizeram parte integrante do novo templo de 515 a.C., o de Zorobabel, e do magnífico Templo reconstruído, mais tarde, por Herodes Magno. Sobre este templo de Herodes Magno, que foi o de Jesus, temos bastantes dados no tratado middot da Mishna e nas duas obras de Flávio Josefo (A Guerra Judaica 5.5.1-6 & 184-227 e as Antiguidades 15.11.1.3 && 380-402). Com a destruição do Templo pelas tropas romanas de Tito, no ano 70 p.C., não ficou pedra sobre pedra, exceto o chamado "muro das lamentações", mas todo o espaço ocupado hoje em dia pelas duas mesquitas, a "dourada" e a "El Aksa", juntamente com as 27

descrições bíblicas, podem fornecer-nos uma imagem do que seria a beleza e magnificência deste Templo, aliás celebrado em todo o império romano daquele tempo. Foi no espaço exterior do Templo que aconteceu o que narra Mateus em 21, 12-14: "Jesus entrou no Templo e expulsou dali todos os que nele vendiam e compravam. Derrubou as mesas dos cambistas e as bancas dos vendedores de pombas... Aproximaram-se dele, no Templo, cegos e coxos, e ele curou-os. Perante os prodígios que realizava e as crianças que gritavam no Templo: 'Hossana ao Filho de David', os sumos sacerdotes e os doutores da Lei ficaram indignados...". Neste espaço exterior havia os claustros exteriores onde Jesus e mais tarde, os seus discípulos ensinavam (Mc 14, 49: "Estava todos os dias junto de vós, no Templo, a ensinar, e não me prendestes..."; Ac 2 46: "Como se tivessem uma só alma, [os cristãos] freqüentavam diariamente o Templo..."; 3, 1-2: "Pedro e João subiam ao templo, para a oração das três horas da tarde. Era para ali levado um homem, coxo desde o ventre materno, que todos os dias colocavam à porta do Templo ... 11). No espaço dedicado às mulheres orava freqüentemente a idosa Ana, de que fala Lucas em 2, 37, e foi também ali que Jesus viu a pobre viúva a deitar na caixa das esmolas as suas duas moedinhas, que eram tudo quanto tinha para o seu sustento (Mc 14, 41-44 e par.). No espaço dedicado aos homens - e só para os que se encontravam ritualmente puros estava o altar dos sacrifícios. Foi aqui que se deu a narrativa da oração do fariseu e do publicano (Lc 18, 9- 14: "Dois homens subiram ao templo para orar: um era fariseu e o outro cobrador de impostos. O fariseu, de pé, fazia interiormente esta oração: 'ó Deus dou-te graças por não ser como o resto dos homens, que são ladrões, injustos, adúlteros; nem como este cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e pago o dízimo de tudo quanto possuo'. O cobrador de impostos, mantendo-se à distância, nem sequer ousava levantar os olhos ao céu; mas batia no peito, dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador"'). Foi aqui, igualmente, que, segundo o último versículo de Lc 24, 53, se diz que os discípulos, depois da Ascensão, "estavam continuamente no Templo a bendizer a Deus". Uma vez que o Templo não constitui apenas um epicentro religioso, mas também social, comercial e político, Herodes Magno mandou construir, paralelo ao Templo, na parte norte ocidental, uma fortaleza, chamada Antônia, de onde os soldados romanos podiam facilmente controlar todas as atividades do Templo. A sua função era a de obrigar os judeus a não se envolverem em motins político -religiosos contra Herodes ou Roma. Foi o que aconteceu com Paulo quando, no final da sua terceira viagem missionária, foi ao Templo com quatro judeo-cristãos para cumprirem um voto de sacrifício. Os seus inimigos judeus prepararam-lhe uma armadilha e acusaram-no de se ter metido no Templo com pagãos. Segundo o relato dos Ac 21, 27-40, quando Paulo saiu do Templo, os judeus agarraram-no e quiseram matá-lo, mas, perante o motim que se formou, os soldados da fortaleza Antônia desceram imediatamente e tomaram conta do assunto (vv.35-38: "Quando [Paulo] chegou aos degraus, os soldados tiveram de o levar, por causa da violência da multidão, pois o povo seguia em massa, a gritar: 'À morte!' Já quase dentro da fortaleza, Paulo disse ao tribuno: "Ser-me-á permitido dizer-te uma palavra? Disse o tribuno: "Tu sabes grego? Não és, então, o egípcio que, há tempos, provocou uma rebelião e arrastou para o deserto os quatro mil sicários?' Paulo respondeu: 'Eu sou judeu, de Tarso, cidadão de uma notável cidade da Cilícia. Peço-te que me autorizes a falar ao povo."' Os soldados romanos confundiram Paulo com um zelote judeu, emigrante no Egito, que se tinha revoltado contra Roma, e há muito que esperavam encontrar este cabecilha precisamente no Templo. Depois de termos apresentado a história do templo de Jerusalém ao longo dos séculos e algumas histórias narradas no NT relacionadas com o mesmo Templo, vamos agora tentar perceber a intenção de Jesus acerca do Templo. A pergunta é, então, a seguinte: como é que se comportou Jesus perante o Templo? Já vimos que muitas passagens evangélicas como também dos Atos dos Apóstolos se passam no Templo. Se tivermos em conta as passagens dos Atos, concluiríamos que os primeiros cristãos se davam bem com o Templo, pois continuavam a freqüentá- lo normalmente, embora celebrassem a Eucaristia nas casas particulares (Ac 2, 46). O que Jesus pensava ou não do Templo só o sabemos pelos evangelhos, mas estes divergem bastante uns dos outros sobre este assunto, aliás tão importante e decisivo para a vida de Jesus. O que podemos concluir, depois duma leitura atenta a todas as passagens, é que os evangelhos nos apresentam duas atitudes de Jesus, a positiva e a negativa. Na atitude positiva, os evangelhos apresentam Jesus a pagar o imposto do Templo (Mt 17, 24-27), a referir o juramento "pelo santuário" e "pelo altar" como algo de normal (Mt 23, 1622) e a ver no Templo a morada de Deus (Lc 6, 4 e par.). Na atitude negativa, aparecem-nos três textos fundamentais: 1) a narrativa da purificação do Templo (Mc 11, 15-17 e par.); 2) o 28

Acontece com esta parábola o 29 .logion atribuído a Jesus pelas testemunhas dúrante o julgamento de Jesus perante o Sinédrio sobre a destruição. substituindo -se. que apareça um novo sacerdócio. Do mesmo se queixa o profeta Ezequiel em 8. Os pronunciamentos negativos de Jesus sobre o sábado. os céus abrir. e que. tal como o fizeram Isaías e Jeremias. e no qual colocais toda a vossa confiança. diziam: "Olha o que destrói o Templo e o reconstrói em três dias! Salva-te a ti mesmo. O mesmo acontece com o autor do livro dos Jubileus (cerca de 170 a. Jesus se pronunciou como Messias que vinha substituir o próprio Templo. que tem o meu nome. 3 critica o Templo por causa do sincretismo religioso. 6: "Deus disse-me: Filho do homem. É sintomática a pergunta dos responsáveis judeus: "Com que autoridade fazes isto? E quem te deu tal poder?" (Mt 21. onde o próprio Deus determina a Moisés o modelo de Templo que quer para si. O profeta Jeremias ataca a política do rei e dos sacerdotes que se agarravam ao Templo pensando que Deus.. Também Isaías em 63. Rejeitar-vos-ei como rejeitei todos os vossos irmãos. vês o que eles fazem? Todas as abominações horrorosas que a casa de Israel pratica aqui. vão neste sentido. Não se pode duvidar que a figueira representa simbolicamente o Israel que não dá os frutos que Deus quer. 14 e par. esperando. chamado Testamento de Levi. Será que para vós. antes de apresentarmos o pensamento final de Jesus sobre o Templo. deixaram-nos dois textos. muito perto do lugar onde S. 29 acerca das testemunhas que injuriavam Jesus suspenso na cruz do Calvário: " Os que passavam injuriavam-no e. por isso mesmo. o autor do escrito considera os sacerdotes que exercem funções no Templo como indignos e impuros. temos que compreender que já nas escrituras hebraicas e nalguns textos intertestamentários. sobretudo em relação à narrativa da purificação do Templo. por isso mesmo. a Lei.). por outro lado. Mt 24 e Lc 21. isto é..). não apenas para os judeus. João Baptista também habitava. e a recomstrução em três dias. tanto alguns profetas como outras personagens. ao Sábado. Estes últimos textos têm todos em comum uma atitude de Jesus muito negativa contra o Templo: ele vai ser destruído porque os judeus o transformaram num centro de comércio. a parábola sobre a figueira seca com as palavras trágicas de Jesus: "Nunca mais ninguém coma fruto de ti" (Mc 11.). descendo da cruz!" Também é deveras significativo o fato da narrativa sobre a purificação do Templo incluir.11. este lugar que vos entreguei como aos vossos pais. não estavam contentes com a maneira como os sacerdotes e a política vigente viam o Templo. por um lado. pelo contrário. teriam por finalidade chamar a atenção dos judeus sobre a própria pessoa de Jesus e sua respectiva identidade. chamados respectivamente Rolo do Templo e Nova Jerusalém. para me afastarem do meu santuário?". este Templo. abanando a cabeça. 3) a profecia de Jesus sobre a destruição do Templo na narrativa apocalíptica dos chamados capítulos apocalípticos de Mc 13. quando deveria ser um lugar sagrado de oração e de presença de Deus. Também é sintomático o que descreve Marcos cm 15. que correspondem a atitudes históricas de Jesus contra as instituições mais sagradas da ortodoxia judaica daquele tempo. tem de ser substituído.seão e surgirá um Templo glorioso e cheio de santidade. na mesma unidade literária. o santuário de Jahvé. do culto ao mesmo tempo monoteísta e pagão praticado pelos judeus no Templo de Jerusalém.C. do Templo (Mc 14. na qual Jesus expulsa os cambistas e os vendedores de pombas e animais para os sacrifícios. o seu julgamento diante do Sinédrio e a sua morte se deram precisamente por causa da sua atitude contra o Templo. que tem o meu nome. como tratei o santuário de Silo. uma vez que semelhante Templo nada teria a ver com a vontade original de Deus. Não há dúvida que a prisão de Jesus. Vou tratar este Templo. onde manifestam o seu repúdio por aquilo que se passa no Templo de Jerusalém. Num escrito judaico mais ou menos do tempo de Jesus.. A tudo isto acresce ainda o fato de muitos judeus não concordarem com a construção do Templo de Salomão e do segundo Templo de ZOrobabel porque não estaria de acordo com o prescrito no livro do Êxodo 25-31. Mas. por isso.).. nunca poderia deixar que os seus inimigos conquistassem Jerusalém.. que viviam na comunidade de Qumran. Todos estes pronunciamentos. é se Jesus tem em vista apenas uma declaração profética contra o estado atual do Templo. A comunidade judaica dos essênios. numa casa de ladrões. toda a gente de Efraim". O que se pergunta. etc. Ele veio desencadear historicamente o Reino de Deus. por habitar nele. não passa dum refÜgio de ladrões? . mas também para todos os povos. ou se. o santuário de Jahvé! . e. o divórcio.14: "Não vos fieis nas palavras mentirosas: É o santuário de Jahvé. 58 e par. 23 e par. Por isso proclama vigorosamente em 7. 4. à Lei e ao Templo. que não vê outra solução que não seja a de um novo Templo com outras estruturas completamente diferentes. com ele.

tanto é chamada "a Lei do Senhor" (Lc. uma vez que nada existe sem a Lei de Deus pois constitui a ordem do Sábado e do Templo. de fato. já que os evangelhos foram escritos muito depois do ano 70. como dissemos acima.39) como "a Lei de Moisés" (Lc 2. onde se adorava. o judaísmo daquele tempo discriminava as pessoas e os dirigentes serviam-se destas instituições para interesses próprios. que hoje te prescrevo.que acontece com a dos vinhateiros. por isso. os seus discípulos recordaram-se de que ele o tinha dito e creram na Escritura e nas palavras que tinha proferido"'). frente a Israel e frente ao Templo. Não lestes esta passagem da Escritura: A pedra que os construtores rejeitaram tornou-se pedra angular. Em cinco lugares. em resposta: 'Destruí este Templo. ainda. o Sábado e a Lei porque. fugindo. a Lei aparece de mãos dadas com os profetas na frase "A Lei. falava do Templo que é o seu corpo. pela leitura que fazem os responsáveis de Israel. foi escrito antes do ano 70. sofreram penas e castigos da parte dos seus inimigos. ao sincretismo religioso dos "lugares altos". teu Deus. e a verdade é que todos os textos coincidem pela negativa. tem a ver com toda a Bíblia Hebraica ou com todo o AT: as Escrituras Sagradas. Por aqui se vê que a Lei se refere a maior parte das vezes ao Pentateuco. sobretudo o castigo do exílio para a Babilônia (583-538 a. e. que inventaram tais narrativas? Não se tratará de profecias ex eventu. sem nunca chegarem a um consenso unívoco. 44). Jo 7. Juntamente com o Templo e o Sábado perfaziam uma trindade de vida ou de morte. e uma vez com a frase: "tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés. também aparecem as palavras entolè (mandamento) e dikaioma (decreto). Entre as três. quando Jesus ressuscitou dos mortos. procurando observar todos os seus mandamentos. mas não se pode duvidar que por detrás de todas elas está o Jesus histórico.3. que. em 622. teu Deus. Todos os judeus se movimentavam em torno desta trindade institucional. Por isso. e. precisamente nas vésperas da festa da páscoa. a referência pura e simplesmente a Moisés. Jesus está descontente com o Templo. a Lei era o fundamento das outras duas. além da palavra nomos (LeI). 23). para apreciarmos a posição de Jesus em relação ao Templo temos que apreciar também a sua posição em relação ao Sábado e à Lei. nos Profetas e nos Salmos" (Lc 24. sobre a historicidade de todos estes textos. Já antes. 1: "@ escutarás a voz do Senhor. Nem a alegorização do evangelho de João sobre a destruição do Templo para significar a própria morte e ressurreição de Jesus como novo Templo teria qualquer fundamento sem o fato histórico que a pressupõe (Jo 2. LEI O tema da Lei constituía um centro vital na religião judaica. O Reino de Deus que Jesus vem apresentar como alternativa não pode estar de acordo com semelhantes instituições sagradas. 18-22: "Então os judeus intervieram e perguntaram-lhe: 'Que sinal nos dás de poderes fazer isto?' Declarou-lhes Jesus. o Deus Jahvé e os deuses da fertilidade. que termina desta maneira: "Que fará o dono da vinha? Regressará e exterminará os vinhateiros e entregará a vinha a outros. o Senhor. 22.C.). mas quando se fala de Lei e Profetas. porém. 23-24. Em conclusão. os judeus foram. Com o decorrer dos anos e dos séculos. E tal razão de ser ou argumentação realmente grave foi a atitude de Jesus frente ao Templo como epicentro de toda a religião judaica. A palavra "Lei" aparece 31 vezes nos evangelhos e significa corpo legislativo ou o corpo dos mandamentos que Deus deu a Moisés para governar o seu povo. outras vezes a todo o AT e ainda às leis tradicionais dos judeus. E também é consentimento geral entre os exegetas que o evangelho de Marcos. A Lei de Moisés é o tal corpo legislativo com que se comserva Aliança de Deus com o seu povo. Geralmente. O Sinédrio tinha que arranjar uma causa grave para o prender e o denunciar. Mas no NT. te tornará superior a todos os povos da terra"). a Lei tem a ver com o Pentateuco.). o piedoso rei Josias tinha feito uma reforma religiosa para que os judeus centralizassem toda a sua liturgia em Jerusalém. influenciados pela destruição de Jerusalém e seu Templo no ano 70. atualmente. 6. se excetuarmos Marcos? Sem dúvida que as querelas entre o judaísmo e as comunidades cristãs primitivas influenciaram estas narrativas. e tu vais levantá-lo em três dias?' Ele. a partir destas instituições sagradas. Primeiramente dá-se a gratuidade e Aliança e só depois é que aparece a Lei para a defender (Dt 28. Não foram os evangelistas. É por demais consabido que os exegetas discutem. ou de Moisés. ao mesmo tempo. infiéis. os Profetas". e em três dias eu o levantarei!' Replicaram então os judeus: 'Quarenta e seis anos levou este Templo a construir.2. se apresenta na Mishna e no Talmude. 9-12 e par. razão de ser do eu judaico. A conseqüência desta reforma está patente na escola Deuteronomista 30 . com todo o seu drama. à sua Halakah. Profetas e Salmos. Tudo isto é obra do Senhor e é admirável aos nossos olhos?" (Mc 12. desta maneira. Por isso. Mas o argumento principal consiste no fato de que aquela morte de Jesus não apareceu por acaso.

escrita "sagrada". 1 e 2 dos Reis).. não anula esta última Lei.(Deuteronómio. o que quiserdes que vos façam os homens.Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas. do funcho e do cominho e desprezais o mais importante da Lei: a justiça. deparamos com estas duas linhas sobre a Lei judaica. os doutores da Lei. encontramos o mesmo pensar de Jesus: "Ai de vós. precisamente contra as "obras" proibidas nesse dia pela Lei mosaica e pelas leis halákikas. Neste caso concreto. Porque eu não vim chamar os justos. depois desses dias.justos" são os fariseus e saduceus. 23. só depois. os ". Jesus vai.. Assim. aliança que eles não cumpriram. surgindo. a misericórdia e a fidelidade. Em Mt 7. também têm a mesma função: primeiro é preciso salvar as pessoas. 27). ele responde com o mandamento do amor: "Amarás o Senhor teu Deus e amarás ao teu próximo como a ti mesmo. à primeira vista um pouco antagónicas: a linha apocalíptica que não acredita mais na Lei de Moisés e da tradição e a linha tradicional de fariseus e saduceus que privilegia Moisés e a tradição. Nos evangelhos sobressaem sobretudo as atitudes e palavras de Jesus que. Os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão. e lhe perguntam: "Qual é o maior mandamento da Lei". configurado com os sacerdotes. 13: "Ide aprender o que significa: prefiro a misericórdia ao sacrifício. Não será como a aliança que estabeleci com seus pais. apenas renovar e espiritualizar a Lei de Moisés e as tradições do passado. com a casa de Israel . mas submete-a à primazia da pessoa. os autores perguntam-se se Jesus." As curas que Jesus faz em dia de sábado. Esta Lei do amor que privilegia as pessoas tem igualmente a ver com os textos tipicamente de Mateus em que Jesus insiste na "Lei da misericórdia" contra a "Lei ritual" (Mt 9. fazendo um grande exame de consciência. parecem anular a Lei de Moisés e demarcar uma nova Lei. Em princípio. nem a Halakah têm força de Lei se não estiverem sujeitas à Lei do amor: Deus e os seus filhos. 31-34 apresenta a nova aliança fundada numa lei "impressa no íntimo de cada judeu e gravada nos seus corações": "Dias virão em que firmarei uma nova aliança com a casa de Israel e a casa de Judá . E foi com o exílio que os judeus mais responsáveis começaram a reler toda a sua história do passado.la-ei no seu coração. nas suas críticas à Lei. embora eu fosse o seu Deus . cf. fazei-o também a eles. Jesus não se apresenta de maneira direta contra o sábado. que. para entendermos também a própria pessoa de Jesus. aparecem os dois vectores da Lei: um ligado às tradições de Moisés. 34-40 e par. mas os pecadores". 31. que coloca a pessoa necessitada por cima de qualquer Lei. cumpridores das leis rituais.com a Lei. 1. 1 e 2 de Samuel. por isso. pelo contrário. paralelamente 'a esperança dum futuro mais fiel. Vamos colher alguns pareceres de Jesus tal como nos aparecem nos evangelhos e tentar compreender a situação.oráculo do Senhor. fazendo com que sigais as minhas leis e obedeçais e pratiqueis os meus preceitos. Lc 6. necessariamente . Dentro de vós porei o meu espírito. porque pagais o dízimo da hortelã.o. Assim sendo. Jesus pronuncia a mesma afirmação com a chamada "Lei de ouro": "Portanto. à primeira vista. 12 e par. Quando chegamos ao tempo de Jesus. Josué. quando os tomei pela mão para os fazer sair da terra do Egito. Serei o seu Deus e eles serão o meu povo": Também Ez 36. e. salvaguardar o sábado.." Já vimos que a expressão "Lei e Profetas" engloba todas as Escrituras judaicas. e outro perspectivado prolepticamente para um futuro messiânico e escatológico. a Lei do amor e da misericórdia. quando os fariseus e os saduceus se reúnem para pôr à prova Jesus sobre a Lei. "Depois disto. Daqui provém o arrependimento nacional em relação ao passado e a necessidade de não perderem o mesmo passado.e uma vez mais . Esta "fidelidade" tem que ver. Esta será a aliança que estabelecerei. Por isso." Esta nova linha teológica desemboca nos profetas do pós-exílio e na apocalíptica intertestamentária em que a Palavra e o Espírito substituirão os ritos litúrgicos (cf. 7). dar relevo à pessoa e não à Lei. por isso mesmo. mas submete-o à pessoa. Jesus afirma que nem a Torah. punham de parte os tais "pecadores" que as não cumpriam.oráculo do Senhor: Imprimirei a minha lei no seu íntimo e gravá.oráculo do Senhor. é que são objeto da Lei e tudo o mais fica relativizado a esta Lei do amor. Juizes. criados à sua imagem e semelhança (Gn 1. Em Mt 22. derramarei o meu espírito sobre toda a humanidade. levitas e.. porque isto é a Lei e os Profetas". venha ela de Moisés ou da tradição. os vossos anciãos terão sonhos e os vossos jovens terão visões"). 26-27 fala de Deus a converter o seu povo a partir dum novo coração "Dar-vos-ei um coração novo e introduzirei em vós um espírito novo: arrancarei do vosso peito o coração de pedra e vos darei um coração de carne. Na crítica feroz de Jesus contra os doutores da Lei e contra os fariseus em Mt 23. mais tarde. doutores da Lei e fariseus hipócritas. É desta forma que Jr 31. Mt 12. tinha por intenção anular a Lei e fundar uma nova Lei e uma nova ordem ou. Jl 3. por sua vez. curando-as dos seus males ou da sua fome. tornando. 31 .

precisamente. esta lei do amor é realmente chamada de @@novo mandamento" (Jo 13.27. então. para vos prenderdes à tradição dos homens". 17-22 e par. Perante esta atitude de Jesus é difícil estabelecer qualquer coordenada legislativa porque não há lei nem instituíção sem a primazia da pessoa. só que este "próximo" é exclusivamente o ". 3-12 e Lc 6. como imagem e semelhança de si mesmo. ao contrário de Jesus. eu.43: "Ouviste o que foi dito aos antigos . neste caso. à vontade primeira e frontal do próprio Deus. Jesus interpreta-as sempre a partir do epicentro da pessoa. os apóstolos. Jesus responde: "E vós. depois. 18: "Não te vingarás nem guardarás rancor aos filhos do teu povo. mesmo que tenham a ver com os dez mandamentos. divórcio. 32 .. 33. vem e segue-me. sobre o jovem rico que quer "alcançar a vida eterna". A novidade. por causa da vossa tradição"? E um pouco mais adiante."). lei de talião. que o jovem "cumpria desde a juventude". Realmente. etc. sente afeição por ele" e diz-lhe: "Falta-te apenas uma coisa: vai.. 2-10 e par.38. o que está em questão é a tal liberdade com que Jesus trata todas as questões. não admira que os ouvintes fiquem espantados (Mt 7.).. por que transgredis o mandamento de Deus. segundo o contexto signático da ceia "de adeus" com o "lava-pés".Mas esta submissão da Lei mosaica e da Lei das tradições religiosas ao absoluto de Deus e da pessoa não é o mesmo que anular a própria Lei? Os comentadores biblistas dividem-se sobre este assunto. porque ele ensinava-os como quem possui autoridade e não como os doutores da Lei"). Assim se explicam as bemaventuranças (Mt 5. referindo-se. Jesus refere a Lei e as tradições acerca do homicídio. nasce a vocação e a opção do crente como novidade que mana da eternidade e se faz história na vocação e opção do mesmo crente. No quarto evangelho. a multidão ficou vivamente impressionada com os seus ensinamentos. em Mt 15. 2. legislação ou jurisprudência. Sem dúvida que o amor ao próximo também é recomendado no Pentateuco.. não consiste tanto em amar o próximo. citando Gn 1. 24 (Mt 5..21. Jesus "receita-lhe" os dez mandamentos. digo-vos. Ou. O "mandamento de Deus" e a "palavra de Deus" dizem a mesma coisa: é o pensar e a intenção primigénia de Deus sobre a humanidade. A legislação e a jurisprudência de Jesus têm que passar sempre pelo humano. da oração e do jejum. até mesmo quando Jesus concorda com a Lei mosaica dos dez mandamentos. como aconteceu com os profetas. 24 (Mc 10. devemos ter em atenção também o refrão dos v. vende tudo o que tens. 1-4. 28-29: "Quando Jesus acabou de falar. E por detrás desta liberdade está a vontade criacional do próprio Deus."). Jesus "fita nele os olhos. não entrareis no Reino do Céu". isto é. enquanto os escribas fariseus e saduceus insistem na observância literal das leis. não há dúvida que Jesus anula a Lei de Moisés do Dt 24. Descendo a alguns casos mais concretos. A "sacralidade" do seguimento não é contra a "sacralidade" da Lei. É o que Jesus profere em Mc 7. Há em Jesus um excesso de vida quando confrontado com a Lei. 8-13 ao referir-se à "tradição dos anciãos": "Descurais o mandamento de Deus. porém. Diante da liberdade de Deus. Jesus não é o novo rabino que vem interpretar a Lei para a transcender. Desta feita. 34: "Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei. 20: "Porque eu vos digo: Se a vossa justiça não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus. mas em amá-lo como Jesus o ama. ao lado do amor a Deus. sempre "incompreensível" ao simples olhar da razão e da lei dos homens. mas amarás o teu próximo como a ti mesmo"). a vivência da esmola.. por mais "sagrada" que seja e por cima de todas as tradições que interpretam a mesma Lei. amor aos inimigos. 20-26) bem como as propostas de contraste nas antíteses entre o viver dos judeus segundo a Lei e o viver dos cristãos em Mt 5. juramentos. Em todas estas antíteses e propostas de contraste com o "normal religioso dos judeus". Jesus pronuncia-se da mesma forma: "E assim em nome da vossa tradição. está por cima de toda a Lei de Moisés. anulastes a palavra de Deus". É o que acontece com a narrativa de Mc 10. mas está de acordo com a vontade de Deus para casos singulares. em total doação e entrega. Por isso." O centro da narrativa está no verbo "seguir" (akoloutheô). Este caso particular é bem elucidativo do pensar geral de Jesus sobre todas as instituições judaicas: a intenção primigénia ou criadora de Deus sobre as suas criaturas. que permitia a lei do divórcio. que Jesus vem restaurar precisamente com a instauração do "Reino de Deus". à pergunta de alguns fariseus e escribas: "Por que transgridem os teus discípulos a tradição dos anciãos?".judeu" (Lv 19. 17-6. 27 e 2. mas o enviado do Pai que vem repor a vontade do mesmo Pai. dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu. É neste mundo de Deus que Jesus se situa e não no mundo dos homens e suas leis. nem forma uma nova Lei. Esta é a novidade de Jesus que só a pessoa atinge no mais íntimo da sua fé e nunca nos parâmetros das leis por mais sagradas que sejam. que tem a ver com a Lei dos dez mandamentos e com o que é mais do que a Lei. adultério.

Assím. Em relação à Lei tratase dum sentido figurado . Porque em verdade vos digo: Até que passem o céu e a terra. ao mesmo tempo. a que nós também chamamos de "perícopa". 1. etc. não se trata da Lei jurídica como objeto. era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés. completar. Não vim revogá-los. isto é. isto é.18 formam uma unidade textual e apresentam o desígnio de Deus sobre a salvação de Jesus Cristo . Pondo de lado o chamado evangelho da infância de Lc 1-2 e Mt 1-2. e. Em Mt 3. Jesus responde a S. 33 . O mesmo aparece com o verbo "cumprir" em Marcos 1. Igualmente lemos também em Lc 24. de ensino. Em Mt 5. mas do que ela significa em relação ao tempo novo do Messias. diatribes retóricas.segundo o nosso parecer -. os três sinópticos narram os mesmos passos mais significativos da pessoa de Jesus de Nazaré: Jesus e João Baptista. mas a salvação tem que se cumprir e acontecer. Da mesma maneira se lê em Lc 4. que umas vezes o compreendem e outras nem tanto. o ensino . que não aparece em Marcos. a salvação e a nova humanidade. em Mc 1. "cumpriu-se o tempo". ao mesmo tempo. portanto. é visto numa perspectiva profética e escatológica. ou em Mateus e paralelos. no contexto do texto. Este infinitivo plèrôsai (cumprir). isto é. todo o AT. mas que é fundamental para compreendermos o Jesus real da história conjuntamente com o Jesus não menos real da nossa Igreja. Os leitores devem ter reparado que utilizo freqüentemente esta expressão: como está escrito em Marcos e paralelos. 44: ". 17-18 temos um texto muito interessante. inclusivamente a Lei. "cumpriu-se esta Escritura". A partir de agora. Mas. porque é que se apresenta.passa pela pessoa de Jesus. ou se encontra apenas em dois deles. mas fazer com que a mesma Lei se realize no seu climax escatológico. Neste "realizar" a Lei. toda a vontade de Deus. Mateus e Lucas." Esta Lei de Cristo tem a ver com a lei nova do amor fundada na maneira de ser do próprio Senhor Jesus Cristo. Nos três evangelhos aparece Jesus rodeado dos doze discípulos e apóstolos. só pode significar "fazer respeitar a lei e os profetas" "para que tudo aconteça". não passará um só jota ou um só ápice da Lei. e que aparece 87 vezes no NT. seja ele de narrativa. morte e ressurreição. E é por isso que da Lei de Moisés se passa para a Lei de Cristo. tão semelhante e tão diferente? Mais complicado ainda é quando os respectivos evangelhos apresentam textos muito importantes que só aparecem num evangelho. a história da paixão. 15. Por isso.. como se lê em Gl 6. tai hè graphè autè.significa que a Lei e as suas exigencias práticas se devem cumprir ou realizar. 21: peplèr. Jesus não veio abolir a Lei. o tempo da atividade salvadora de Jesus corresponde ao cumprimento daquilo que escreveu Isaías em 61. realizar. tinha que cumprir.. Mateus e Lucas serem. e a Lei entra dentro desta promessa. João Baptista. tal como os Profetas ou os Salmos. Todo o AT é uma promessa que se realiza ou se cumpre na pessoa de Jesus. o tempo da salvação ou da nova idade acaba de se cumprir na pessoa de Jesus Cristo. Mateus e Lucas. ao mesmo tempo. Trata-se duma questão textual ligada aos evangelhos de Marcos. O verbo "cumprir" do v. A questão sinóptica surge. quer dizer que o tempo de todas as esperanças messiânicas acaba por acontecer. E nós temos que perguntar: se se trata da mesma história ou do mesmo ensinamento. Mas acontece que as mesmas narrativas se exprimem de maneira. pregação de Jesus na Galiléia. Vamos tentar compreender a chamada questão sinóptica. finalmente. Convém que cumpramos assim toda a justiça". tendo como centro o Reino de Deus (Mateus diz Reino dos Céus) através de pequenos discursos. porque à primeira vista parece que Jesus está a defender a Lei e os Profetas contra quem quer ir para além do AT: "Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. 2: "Cumprireis a Lei de Cristo. Só ele tem a autoridade final e definitiva para ensinar qual é o desígnio escatológico de Deus. Isto significa que determinado texto. Em conclusão. nos Profetas e nos Salmos". por exemplo do mesmo milagre ou da mesma parábola.. sem que tudo aconteça (heôs an panta genètai) ".a terra e o céu passam. . se encontra nos três evangelhos de Marcos.Tudo quanto acabãmos de explicar encerra-se no verbo grego plèroô.se tudo o que foi dito por Moisés e pelos profetas com vista ao Messias. milagres e parábolas. para que aparecesse o Senhor Jesus Cristo. encher". mas cumpri-los. do fato dos três evangelhos de Marcos. quando. muito semelhantes e diferentes. ou em Lucas e paralelos.e não uma simples lei jurídica . A QUESTÃO SINÓPTICA Passemos agora a um novo capítulo no nosso estudo sobre a pessoa de Jesus. 15: peplèrôtai ho kairós. que o quer impedir de se batizar: "Deixa por agora. que significa "cumprir. semelhante e diferente.17 e o verbo "acontecer" (gènetai) do v. 7. em que consiste o Reino de Deus. por exemplo. deveriam aparecer nos outros dois. 15: "O tempo cumpriu-se".

realmente. orai assim: Pai nosso que (estás) nos céus. Ascensão e pregação de João Baptista por serem muito significativas e paradigmáticas. nem mandou escrever. Os exemplos que iremos apresentar a seguir irão ilustrar-nos sobre a riqueza evangélica . 12 e perdoa-nos as nossas dívidas como nós também (já) perdoamos aos nossos devedores. Só bastante mais tarde. às das aparições do Ressuscitado. já tinham sido crivados pela fé dos cristãos na Ressurreição. que se deu quarenta dias depois da ressurreição (Ac 1. Escolhemos as perícopas do Pai Nosso. última ceia. 50-53). 9ss)? Estes poucos exemplos já são suficientes para nos levantarem uma quantidade de dúvidas e interrogações: os autores dos três evangelhos são mesmo historiadores? De que história se trata? Há. contradições entre eles? O que eles afirmam é para se tomar à letra como história factual ou. Nenhum discípulo ou apóstolo andava de caderno e caneta na mão a tomar notas e apontamentos dos feitos e da doutrina de Jesus. 16-20) e Lucas na cidade de Jerusalém (Lc 24. 10 venha o teu reino. pois. Marcos e Lucas viviam em comunidades muito diferentes. 7. é que os evangelhos foram escritos para não se perder a memória desses feitos e dessa doutrina de Jesus que. não numa perspectiva apenas biográfica. Como iremos ver através destes exemplos e de muitos outros. Eles não tinham sido discípulos diretos de Jesus. E Jesus nunca escreveu nada. o Pai Nosso tenha quatro pequenas diferenças? Como se compreende que as chamadas bem-aventuranças." 34 . tratar-se. afirmando no evangelho que a Ascensão se deu no próprio domingo da Ressurreição e. no Jesus da história e no Jesus Ressuscitado. 1. 9-15 lemos assim: 9 "Vós. dá. PAI NOSSO Na versão de Mateus 6. duma Madre Teresa de Calcutá. 36-49) e com conteúdos tão diferentes? Como compreender que Marcos nem sequer atribua qualquer importância às aparições do Ressuscitado uma vez que o Marcos primitivo terminava em Mc 16. estes feitos de Jesus. os diálogos com discípulos e demais judeus são os mesmos. muitos anos depois da morte de Jesus e depois da morte dos discípulos e apóstolos que tinham andado com Jesus. que também só aparecem em Mateus e Lucas. 8 com a narrativa da ida das mulheres ao túmulo de Jesus? Como compreender que só Lucas tenha a narrativa da Ascensão (Lc 24. pelo contrário. sejam igualmente diferentes tanto no número como nos conteúdos? Como se compreende que a última ceia seja descrita com bastantes variantes entre os três sinópticos? Os exemplos podem estender-se às narrativas da paixão e morte e. Os cristãos viviam a fé messiânica e salvadora no Jesus Messias e Salvador. isto é. quando se trata dos mesmos milagres e das mesmas parábolas. nos Atos dos Apóstolos. O problema reside em compreender por que é que há esta semelhança e esta diferença.(o) a nós hoje. já era vida e alimento da pregação cristã. logo a seguir. os milagres. bem-aventuranças. as parábolas. seja santificado o teu Nome. os evangelhos não nos apresentam uma biografia de Jesus. apresentar uns tantos traços da vida de Jesus que servissem de modelo atrativo para fundamentar a fé dos cristãos das comunidades primitivas. seja feita a tua vontade como no céu também na terra. 13 E não nos introduzas na tentação mas livra-nos do Maligno.A palavra sinóptico provém do grego syn-oraô. etc.da pessoa de Jesus e da pessoa das comunidades. entre tanto. dum Napoleão.á de um outro tipo de história? E não será que os autores destes evangelhos inventaram ou criaram histórias que nada tiveram a ver com a verdadeira história da figura central que foi Jesus de Nazaré? Para melhor compreendermos esta questão sinóptica vamos apresentar alguns textos e tentar solucionar os tais porquês das semelhanças e diferenças. Como compreender que Mateus narre a única aparição do Ressuscitado no monte da Galiléia (Mt 28. Assim se explica que os evangelhos sejam tão iguais e tão distintos e que os evangelistas descrevam aquelas doutrinas e feitos de Jesus. É esta história e esta fé que alimenta a nossa liturgia e a nossa vida de cristãos e de Igreja. 11 O nosso pão quotidiano. Mas esta doutrina. bem assim. sejam também diferentes nos seus conteúdos? Como se compreende que a oração do Pai Nosso só apareça em Mateus e Lucas. Se os discursos. mas também catequética. Mas Mateus. como se explica que haja também enormes diferenças? Como se explica que os três divirjam no número das parábolas e dos milagres e que as narrativas. narrados agora nos evangelhos. que significa precisamente visão de conjunto: os três evangelhos mantêm uma visão de conjunto mais ou menos semelhante. e não apareça em Marcos? E como se compreende que mesmo em Mateus e Lucas. Os evangelistas não tinham por intenção narrar os feitos e a doutrina de Jesus como hoje nós lemos as biografias dum Gandhi.e é preciso sublinhar evangélica . A tradução terá que ser o mais literal possível para melhor apreendermos a questão. Por isso aquelas narrativas evangélicas têm a ver com a vida de Jesus e com a vida da fé das comunidades cristãs primitivas. A sua finalidade era catequética.

sendo o Pai Nosso de Lucas um texto mais curto que o de Mateus. Por outro lado. saduceus. a origem histórica e geográfica do Pai Nosso é outra muito diferente. que é o primeiro dos cinco grandes discursos de Mateus: cc. Assim se explica porque é que no seu Pai Nosso também diga que Deus (está) nos céus. mas do Maligno. ensina-nos a orar. como João ensinou também os seus discípulos. dá-(o) a nós em cada dia. a tentação é personalizada na figura do Maligno. venha o teu Reino. pois sabemos que as diferentes correntes judaicas ou movimentos religiosos judaicos tinham as suas próprias orações: fariseus. por muito falarem. 1). a oração (6. segundo a qual o texto mais curto é o que mais se aproxima da fonte. que os discípulos pedissem a Jesus para lhes oferecer uma oração que os distinguisse dos demais. E não nos introduzas na tentação". 2-4 lemos assim: 2 "Ele disse-lhes: Pai! Seja santificado o teu Nome. como é usual nas nossas traduções bíblicas e litúrgicas. Lucas tem pecados. pois enquanto Mateus tem cinco versículos. mas Mateus tem a necessidade de explicitar em que consiste este Reino: consiste em fazer a vontade do mesmo Deus na terra como já acontece no céu. litúrgicas ou pastorais das respectivas comunidades onde teve origem o evangelho e a quem é dirigido. é fácil de concluir que a mão redacional de Mateus está bem patente no seu Pai Nosso uma vez que Mateus nunca diz Reino de Deus. uma vez que na boca de Jesus o Reino já comporta a vontade de Deus. serão atendidos. Em Mateus. e é natural que o pater grego seja a tradução do aramaico Abba. o Pai Nosso é seguido duma parábola sobre a necessidade de recorrermos a quem nos possa ajudar 35 . É também importante olharmos não apenas à origem do Pai Nosso . Por fim. O mesmo se diga da adição de Mateus seja feita a tua vontade como no céu também na terra. o Pai tem a ver originalmente com o Pai/Papá de Jesus. Mateus ou Lucas? Os exegetas partem do princípio que o mais original é o texto de Lucas pelo simples fato de ser o mais curto.Na versão de Lucas 11. Dizer que Deus é Papá/Paizinho era um puro escândalo para os judeus daquele tempo. "(6. seja feita a tua vontade como no céu também na terra. Não se trata apenas do mal. Em Lucas não aparece: que estás nos céus. Como veremos. não sejais como os pagãos. ao contrário de Lucas e Marcos. 1-4). Assim se explica que Mateus escreva "Pai nosso que estais nos céus".5-7. 7). Em Lucas. disse-lhe um dos seus discipulos: "Senhor. 5-15) e o jejum (6. porque nós também (já) perdoamos a todo aquele que nos deve. uma simples leitura comparativa entre o Pai Nosso de Mateus e Lucas apresenta-nos quatro diferenças. Para Lucas basta dizer venha o teu Reino. Altíssimo.como de qualquer outra perícopa -. Ao contrário de Lucas. que usam de vãs repetições. Mateus refere os judeus hipócritas e os pagãos: "Nas vossas orações. mas sempre Reino dos Céus. como o seria também para os judeo-cristãos das primeiras comunidades. O pronome pessoal nosso tem a sua origem na liturgia cristã primitiva da comunidade mateana. Outra diferença importante entre Mateus e Lucas reside na origem temporal e espacial do Pai Nosso em relação à pessoa do Jesus histórico. enquanto que o mais extenso se explica por razões catequétícas. No c. 10. Para Mateus. para quem o nome sacrossanto de YAHVÉ não devia ser pronunciado. mas livra-nos do Maligno. quando rezardes e quando jejuardes não o deveis fazer à maneira dos judeus hipócritas. Era natural. 13. Por tudo isto concluímos que a redação de Lucas está mais próxima da fonte e que a redação de Mateus é um desenvolvimento do Pai Nosso primitivo. Esta necessidade de explicitação aparece igualmente no fim do Pai Nosso. o vocativo Pai é uma pura invocação. Lucas tem apenas três. 18. E quando acabou. A primeira pergunta a fazer é esta: Quem é que é mais original. Nome. 16-18).. Mateus pertence a uma escola judeo-cristã. Enquanto que em Lucas. Jesus começa por referir o tripé fundamental da piedade judaica: a esmola (6. o Pai Nosso vem incluído no chamado "Sermão da Montanha" (Mt 5-7). substituindo-se por Céu. pois. 24-25. joanitas. Tudo isto vai trazer conseqüências muito importantes para a compreensão dos evangelhos e para a compreensão da pessoa de Jesus. E em relação ao Pai Nosso. Semelhante explicitação é indício que o texto mais curto de Lucas é o mais original. Ele narra que Jesus estava a orar algures (11. Como é fácil de ver. essênios. uma vez que há uma regra exegética fundamental. etc. porque pensam que. para melhor compreender a tentação. em Mateus o Pai tem a ver com o Pai comum da comunidade cristã. mas também à conexão final com a perícopa que se segue. Em Lucas. que significa Papá/Paizinho. a quarta diferença é que em vez de dívidas. opondo as atitudes judaicas às novas atitudes cristãs: quando derdes esmola. " Esta situação enquadra-se muito melhor com o Jesus histórico. Mateus tem Pai nosso. Mas em Lucas.6 do tal "Sermão da Montanha". Mateus adiciona: mas livra-nos do Maligno.. zelotes. 4 e perdoa-nos os nossos pecados. 3 O nosso pão de cada dia.

21 Bem aventurados os que tendes fome. A versão de Mateus aparece no cap. 5. nada tem a ver com a nossa justiça social. 8 Bem aventurados os puros de coração. Por seu lado. "(6. de acordo com a realidade social de então (e de todos os tempos). então. os que estais fartos. porque a vossa recompensa (é) grande nos céus: porque (foi) assim que eles perseguiram os profetas que (existiram) antes de vós. também só aparecem em Lucas e Mateus. 4 Bem aventurados os mansos. dos que têm fome e sede de justiça (v. os que agora sois odiados pelos homens (v. Mateus apresenta nove bem-aventuranças. e. 26 Ai.vós. porque vós sereis saciados. mas com a justiça da nova realidade da fé cristã. 25 Ai de vós. vós. enquanto que Mateus moraliza ou espiritualiza as mesmas bem-aventuranças. 22 Bem aventurados sois vós. E. precisamente em oposição às bem-aventuranças. Mas Lucas. e de maneira bastante diferente. o termo justiça (dikaiosynè) é muito importante para Mateus porque determina a nova moral cristã.21a). não conter a oração do Pai Nosso. Se perguntarmos qual dos dois é que está mais próximo das bem-aventuranças pronunciadas por Jesus. Ai (de vós) os que rides. sobretudo porque Mateus espiritualiza-as ao falar dos pobres em espírito (v. também o vosso Pai celeste vos perdoará a vós. 5 Bem aventurados os aflitos. que. 6). 6. dos puros de coração (v. se perdoardes aos homens as suas ofensas. os que chorais agora (v. ainda há o fato de Marcos." A versão de Lucas vem no cap. porque a vossa recompensa (é)grande no céu: porque da mesma maneira os seus pais tratavam os profetas. 24 Mas ai de vós. mentindo por causa de mim. Por isso Mateus usa a terceira pessoa do plural e Lucas a segunda. porque verão a Deus. agora. Mas em Mateus. quando todos os homens disserem bem de vós. também de maneira diferente. Como já vimos em relação ao Pai 36 . Como veremos mais tarde. há também algumas diferenças substanciais. porque recebestes a vossa consolação.aventuranças. quando os homens vos odiarem.. além das quatro bem. a concluir. BEM-AVENTURANÇAS Vamos agora estudar as BEM-AVENTURANÇAS. agora. Este significado é mais claro quando se refere aos perseguidos por causa da justiça.21b). 9. porque deles é o Reino dos Céus. 11Bem aventurados sois vós. 7. por causa da fé cristã e de tudo aquilo que essa fé implica. como o PAI NOSSO. que os leva a redigir. Será que o primeiro evangelista não conhecia o Pai Nosso? É pergunta cuja resposta só entenderemos com outras explicações fornecidas ao longo deste ensaio sobre a pessoa de Jesus.13). porque gemereis e chorareis.que foi o primeiro evangelho a ser escrito -. Por isso é que emprega por duas vezes este termo carregado de significado próprio nas bem-aventuranças. 8) e dos perseguidos por causa da justiça (v.3). 20b-26 desta maneira: 20b "Bem aventurados vós os pobres porque o reino de Deus é vosso. Isto significa que Lucas apresenta as bem-aventuranças duma maneira mais radical. agora. 5-8) e dum pronunciamento de Jesus sobre a confiança na oração dos discípulos ao Pai (11. apresenta também quatro maldições. Quanto às diferenças. enquanto que Lucas apresenta apenas quatro. os pobres (v.em situações de dificuldade (11. . Ter fome e sede de justiça. Jesus continua com o assunto do perdão e não da oração: "Porque. agora. porque serão consolados. Nas quatro bem-aventuranças. vós. mesmo assim. porque da mesma maneira os seus pais tratavam os falsos profetas. depois. devemos responder que é Lucas. porque vós haveis de rir. 3-12 desta maneira: 3 "Bem aventurados os pobres em espírito. Quanto às semelhanças. os que tendes fome agora (v.22). e quando vos expulsarem e vos insultarem e vos rejeitarem como maus por causa do Filho do Homem. comuns a Mateus e Lucas. 2.nos. que os dois evangelistas têm uma tradição histórica. A maneira como Mateus e Lucas apresentam a oração do Pai Nosso leva. 12 Exultai e alegrai-vos. quando vos insultarem e perseguirem e disserem todo o mal contra vós. isto é. 14s)." Este quadro sinóptico patenteia muitas semelhanças e diferenças. Bem aventurados os que chorais. 6 Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. porque serão chamados filhos de Deus. trata-se de apresentar as quatro primeiras bem-aventuranças. 9 Bem aventurados os artífices da paz. oral e litúrgica diferentes.. 7 Bem aventurados os misericordiosos.10). porque receberão misericórdia. com algumas diferenças. a mesma oração. Lucas é mais direto e incisivo: bem-aventurados vós. porque deles é o reino dos Céus.. 10 Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça. 23 Alegrai-vos nesse dia e exultai. e que não vêm em Mateus. porque tereis fome. os ricos.2ob). porque herdarão a terra.

É que a última ceia. mas já nesta vida. Lc 22. não tereis a vida em vós.e uma vez mais . mas sim através da tradição oral e litúrgica da 37 . é mais natural que seja um relato redacional do próprio evangelista. Paulo recebeu esta história. pobres e infelizes. através da pregação oral. João. 7. dos esfomeados reais e dos que choram pelas dificuldades reais da vida. os que chorais.. porque o recebeu da tradição. ÚLTIMA CEIA Passemos agora a estudar a questão da última ceia. Como é possível que nem o Pai Nosso. puros de coração. vós. não apenas no Reino dos Céus. Mas esta asserção choca com o evangelho de S. Por isso devia ter usado a segunda pessoa do plural e proclamar urbi et orbi com toda a clareza tanto as bemaventuranças como também as maldições: Deus está convosco. 23-26. Mas. é fácil discernir que Mateus aplica as bem-aventuranças aos cristãos da sua comunidade. depois da morte. É fato que o Jesus de Lucas é o grande amigo dos pobres e dos pecadores. 22-25. vós. Deus está com eles. 15-20) e na 1Cor 11. 23-26. também agora Mateus desdobra e explicita as bem-aventuranças. Nós. 23: "Com efeito.aventurados. vós. e com a carga real que lhes dá Lucas. tal como acontecia com os profetas. terão a certeza de obter o Reino dos Céus na outra vida. E perguntamos como é que o quarto evangelista não nos apresenta nem uma ceia pascal nem uma ceia eucarística. Ele vai falar-nos desta ceia eucarística com a seguinte introdução na 1Coríntios 11. e não percam a fé quando forem perseguidos por causa da justiça (isto é. seja em interpretação.. Com certeza que Jesus se referiu muitas vezes a estes bem. Importa é que este simples fato deve obrigar-nos a pensar que os evangelhos não nos apresentam uma mera biografia de Jesus como muita gente está habituada a pensar. com a respectiva instituição eucarística. por causa da sua religião cristã). exaltados. nem as Bemaventuranças apareçam em Marcos? Não as conhecia? Deixamos . sejam misericordiosos. que só vêm em Lucas. sem qualquer instituição da eucaristia. e com freqüência. vós. que narra no seu cap. seja em quantidade. É importante repararmos que se a "instituição da eucaristia" se apresenta num quadro sinóptico de quatro autores diferentes: os três sinópticos mais Paulo na 1Cor 11. os pobres. quando é apenas um evangelista a narrar um feito de Jesus. Mc 14." Mais tarde veremos porque é que o autor do IV evangelho. de maneira bem consciente. foi o próprio Jesus que a criou nas vésperas da sua morte. os esfomeados. o título perifrástico de Filho do Homem para designar a sua pessoa. A resolução estará na chamada fonte Quelle (palavra alemã que significa precisamente fonte) como veremos mais adiante. VI do seu evangelho. 13 uma ceia de "Adeus". 11) é um bom indício da originariedade de Lucas. É que. Paulo há muitas diferenças. lhes forneceu. tenham fome de justiça. em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue. Não é possível lermos o relato da última ceia como fizemos em relação ao PAI NOSSO e às BEM-AVENTURANÇAS.Nosso. De fato lemos em João 6. Paulo. Segundo Lucas trata-se dos pobres reais. aparece em quatro autores: nos três sinópticos (Mt 26.a pergunta em aberto porque iremos encontrar muitos textos evangélicos que só aparecem em Mateus e Lucas e não em Marcos. 26-29. temos que saber conjugar estas bem-aventuranças com a carga espiritual que lhes dá Mateus. mais reforça esta idéia. dizendo: Como pode ele dar-nos a sua carne a comer?! Disse-lhes Jesus: Em verdade. puseram-se a discutir entre si.". os judeus. Se assim for. isto significa que estamos diante duma narrativa histórica. Tudo dá a entender que Jesus era direto e certeiro quando se referia aos pobres e deserdados... A razão de ser está na maneira como S. surge o mesmo problema que já encontramos com o Pai Nosso.3. sejam eles pobres ou ricos. Paulo não recebeu do Senhor o que vai escrever sobre a instituição da Eucaristia através duma revelação direta. uma vez que só Jesus usa. onde o Jesus de S. Necessariamente. artífices da paz. Mateus e Lucas apenas nos apresentam estas duas versões que a tradição cristã. como veremos. eu recebi (parelabon) do Senhor o que também vos transmiti (paredôka ymin). Será que na sua comunidade não se celebrava a eucaristia? A resposta vem no cap. Uma vez que Marcos não tem as bem-aventuranças. Também já iremos ver que na narrativa da última ceia de Jesus dos três evangelhos sinópticos e de S. esta pincelada tem a ver com o Jesus da história e com o Jesus como Lucas o vê. E o contraste das quatro maldições. não nos quis apresentar a última ceia de Jesus como ceia pascal e como eucaristia cristã. porque a minha carne é uma verdadeira comida e o meu sangue uma verdadeira bebida. 52-56: "Então. O que interessa é que sejam pobres de espírito. O simples fato de Mateus mudar a expressão por causa do Filho do Homem em por causa de mim (v. Em relação à Eucaristia a Igreja não inventou a Eucaristia. Quem realmente come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e Eu hei de ressuscitá-lo no último dia. cristãos de hoje. João nos apresenta as palavras consacratórias que aparecem também nos três sinópticos e em S. como vimos. os mal amados por causa (da vossa fé) no Filho do Homem.

Lucas começa por apresentar Jesus a pronunciar a sua homilia. Já vimos acima. da bebida da primeira taça. repete esta sacramentologia da memória em relação à taça: "Fazei isto. o mais importante é constatarmos que há duas correntes da tradição histórica: uma de acordo com Marcos e Mateus. Ez 16. Depois.. diante dum sacramento. mas. até que o reino de Deus venha". Jr 31.. da mesma forma. Lucas e Paulo dizem: "Esta taça é a nova aliança no meu sangue. Uma outra conclusão importante é o fato dos quatro autores não descreverem a eucaristia ou a ceia pascal cristã com todo o ritual da ceia pascal judaica. os 38 . Uma questão interessante .17). O primeiro refere-se ao pão-corpo de Jesus.. então." Não vamos entrar em pormenores de análise exegética e perguntar quem é que está mais de acordo com a historicidade dos fatos naquela última ceia pascal e eucarística de Jesus... Lucas distingue entre a primeira parte e a segunda parte do ritual judaico. Têm-se escrito livros e artigos sem conta sobre o assunto. sempre chanceladas com o sangue dos animais. Paulo . depois da refeição". "(v.Mateus. Realmente.é a forma como Marcos descreve a entrega da taça de vinho oferecida por Jesus aos discipulos."(22. Sem esta memória sacramental. Será que Marcos não deu pela "gaffe" quando escreveu o seu evangelho? Não temos qualquer tipo de resposta lógica para este "erro".. Enquanto a tradição de Marcos e Mateus diz apenas: "Tomai (Mateus ajunta: "comei"). Lucas apresenta a primeira taça de vinho (v. Mas. 26-27). 31ss. com as palavras consacratórias: "Esta taça é a nova aliança no meu sangue derramado por vós. e a proposta da nova aliança de alguns profetas (cf. Paulo segue também a tradição de Lucas.mas.própria Igreja. no reino do meu Pai. Por isso." O segundo elemento comum a Lucas e Paulo tem a ver com a taça do vinho.. única e definitiva aliança. concluiríamos que é a corrente ou a tradição paulina a mais antiga. que todos nós conhecemos.. E a segunda adição: Fazei isto em minha memória interpreta a ceia pascal cristã como verdadeiro sacramento daquele pão e daquele vinho a ser vivido liturgicamente por todos os que acreditam que estão. Enquanto Marcos e Mateus escrevem: " . Lucas refere explicitamente o começo da segunda parte: "E a taça. no reino de Deus" (Mateus diz: " . até que ele venha. na ceia pascal havia duas partes bem distintas. mas a verdade é que Lucas. A segunda era preenchida com a bebida da segunda taça e com os cânticos do Salmo 118 (Hallel). Lucas escreve: . devemos concluir que pelos anos cinqüenta a eucaristia era um rito cristão normal nas comunidades cristãs. aparentemente insignificantes. Jesus afirma que nunca mais ha de beber "do produto da vinha até ao dia em que o beber. Lucas e Paulo terminam doutra maneira.. novo. Segue-se. mas ele próprio. a ação de beber.. Isto é o meu sangue da aliança. 36. Lucas e Paulo escrevem: "Isto é o meu corpo entregue por vós. 59-60.. 15). só ele . depois de dar graças. em minha memória.. isto é o meu corpo". A primeira abria com a explicação do pater famílias sobre o rito. deu-a [aos discípulos] e eles beberam todos dela. 19b).".. Fazei isto em minha memória. sempre relacionada com a libertação dos judeus do Egito. seguida depois da comida dos "aperitivos". mas sem qualquer palavra consacratória ou eucarística. e Paulo: " . É isto o que significa o verbo receber (paralambanô). E como Paulo é o primeiro escritor do Novo Testamento. significativos." Só depois é que Marcos apresenta as palavras consacratórias: "E ele disse-lhes: Isto é o meu sangue da aliança. que não aparece em Marcos." Neste particular. O terceiro elemento está relacionado com as últimas palavras de Jesus. e que foi ele quem influenciou a redação de Lucas.. realmente. ao contrário de Marcos. sempre que beberdes. Partindo do princípio que Paulo foi o primeiro a escrever. a partilha e manducação do pão ázimo com as palavras consacratórias: "Isto é o meu corpo. uma vez que a eucaristia cristã foi instituída no decorrer da ceia pascal judaica. Todas as alianças do AT desaguam nesta nova. O fato de sublinharem que se trata da nova aliança é deveras importante se tivermos em conta as alianças do AT. em contrapartida. à maneira do pater famílias. é fácil perceber-se que a corrente ou a tradição paulina e lucana explicitam a marciana e mateana. " A primeira adição: entregue por vós (to yper ymôn didomenon) tem um significado sacrificial ou redentivo. e outra de acordo com Lucas e Paulo."E tendo tomado uma taça. Mesmo assim. A única coisa que interessa aos três evangelistas e a Paulo é a eucaristia cristã e não a ceia pascal judaica. agora.e embaraçosa .". Para o nosso caso.. Segundo Marcos e Mateus. deveras. mas à sua própria Páscoa: não é o cordeiro pascal que se imola. da partilha do pão ázimo e da manducação do cordeiro pascal. O mesmo se diga de mais três pormenores. que interpretam e reforçam as suas palavras performativas ou consacratórias sobre a taça. a última ceia ou eucaristia pascal só afectaria diretamente os discípulos. Mateus e Paulo são lógicos ao apresentarem primeiro as palavras consacratórias. que vai ser derramado por muitos. que Paulo segue a tradição de Lucas ao distinguir as duas partes da ceia. Terminada esta primeira parte."). Jesus não refere a sua última ceia pascal com as referências à primeira Páscoa judaica no Egito. e... só depois. "Eu desejei ardentemente comer convosco esta Páscoa antes de morrer.

Como todos os demais evangelistas. ao abençoá-los separou-se deles e era levado para o céu. Lucas afirma que Jesus abençoou os discípulos. 3. e muitas outras figuras.50). a grande conclusão a tirar é esta: a última ceia de Jesus é-nos apresentada em quatro autores.36. Em Lucas 24. Silas. mas apenas da Ressurreição e. no evangelho. (1) Neste particular há que ter em linha de conta a simbólica do número quarenta e a simbólica da nuvem. e que louvavam a Deus continuamente no Templo. Se os outros dois sinópticos. durante quarenta dias. uma vez em Lc 24.44. é importante o estudo das narrativas da ASCENÇãO DE JESUS. 10 E como eles tinham os seus olhos fixos no céu. que só aparecem em Lucas. Os evangelistas e S.problemas continuam todos em aberto. Seja como for. 52 E eles. portanto. assim como João e Paulo nunca falam da Ascensão de Jesus. Quanto ao tempo. e. Lucas é precisamente um evangelista. 9-11. os sete diáconos. Porque é que Lucas escreve em At 1. foi elevado. mas uma ceia cristã. 20 chama-lhe kuriakon deipnos. 5053 e outra vez em At 1. O estranho está no fato. como bom helênico é que gosta de distinguir os diferentes estádios do mesmo mistério. Paulo apenas nos transmitem o rito sacramental da eucaristia cristã e não a descrição da ceia pascal judaica. que regressaram a Jerusalém com grande alegria. tendo dito isto. voltaram para Jerusalém com grande alegria. 19. Barnabé. o objeto da narrativa de Lucas é a Palavra e o Espírito Santo. nem é um mau historiador. Ele conhece bem a literatura apocalíptica das Ascensões de Enoc. Lucas. quando nós celebramos todos os domingos a nossa eucaristia não estamos a celebrar uma ceia judaica. As diferenças são puramente literárias e sem grande importância. isto é. nos Atos dos Apóstolos. Por isso. 51 E aconteceu. 1. com ela. e a literatura simbólica à volta do número quarenta. 11 que lhes disseram: 'Homens da Galiléia. Lucas coloca a Ascensão no mesmo dia da Ressurreição (24. 2) os discípulos voltam para Jerusalém. como eles [os discípulosapóstolos] olhavam. enquanto Jesus se afastava. não tanto de Marcos e Mateus passarem ao largo do acontecimento (Marcos descreve-a no c. da nova situação do Ressuscitado à direita do Pai. Para ele não existe uma história puramente objetiva e factual. 53 e estavam continuamente no Templo louvando a Deus". No evangelho. Os agentes da Palavra e do Espírito é que são históricos: Pedro. e falando-lhes também a respeito do Reino de Deus"? A resposta é puramente catequética e depende da intenção de Lucas acerca da importância da Ascensão e dos quarenta dias. 9 "E. que adoraram Jesus. abençoou-os. que estes se prostraram [por terra]. Perguntamos então: como é possível que o mesmo autor descreva o mesmo fenômeno com a diferença de quarenta dias um do outro. Ascensão e Glorificação à direita de Deus são o mesmo acontecimento. S. erguendo as mãos. como agora o vistes partir para o céu". Por isso. a "refeição do Senhor". 1. e de acordo com duas correntes ou tradições semelhantes no essencial. Adão. O evangelista trabalha a história em função do evangelho. como nós concebemos hoje em dia os historiadores. Paulo. Para tanto. 4. e uma nuvem subtraiu-o aos seus olhos. não simplesmente. AsCENSÃO DO SENHOR Vamos continuar com o estudo da chamada questão sinóptica para melhor entendermos a finalidade dos evangelhos como literatura cristã de boa nova.16. 3: Jesus apareceu vivo aos Apóstolos "depois da sua paixão e deu-lhes disso numerosas provas com as suas aparições. surgiram de repente dois homens vestidos de branco. etc. Quanto ao número quarenta. Mas não é Lucas que inventa este paradigma narrativo da Ascensão. enquanto que nos Atos coloca-a quarenta dias depois da Ressurreição (1. A dificuldade não está. de acordo com a liturgia cristã vivida a partir dos primeiros tempos da fé cristã. Na narrativa de Atos 1. 50-53 temos a seguinte narrativa: 50 "Então ele [Jesus] conduziu-os [os discípulos-apóstolos] até Betânia e. formando os dois livros uma unidade. Esdras. os Doze. 39 . 9-12 lemos assim: 1. depois de se terem prostrado diante dele. isto é. por que estais assim a olhar para o céu? Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira.9). mas no tempo em que ela se deu e no porquê da mesma Ascensão. mas de Lucas descrever o mesmo acontecimento de duas maneiras muito diversas. Nos Atos é importante a pincelada de Lucas sobre a nuvem que subtrai Jesus aos olhos dos discípulos. na 1 Coríntios 11. mas não pertence ao evangelho primitivo). Os pontos de contato entre o evangelho e os Atos consistem apenas em duas coisas: 1) Jesus é elevado aos céus. 7. e seguindo-se as duas narrativas imediatamente uma à outra? Que tipo de historiador é Lucas que cai em semelhante erro histórico? Lucas não está a enganar os seus leitores. e tanto uma como outro não podem ser objeto de historicidade objetiva. o que é diferente de ser um historiador. Estevão. Paulo. como uma mera biografia de Jesus. na descrição da Ascensão. 1. Elias. mas diferentes em detalhes significativos. quer dizer que Ressurreição. uma vez que Mateus e Marcos não a descrevem.

Na narratíva da Ascensão temos uma narrativa teológica do mistério da Ressurreição e não uma narrativa de história factual. enquanto que nos Atos é uma elevação numa nuvem (1. Lucas refere esta vinda: "Esse Jesus que vos foi arrebatado para o Céu virá da mesma maneira. mas que se vai completando e realizando na vida dos discípulos. viver com os animais selvagens e ser servido pelos anjos tem a ver com a recriação do Gênesis. 9.Exaltado . Ex 40. 8). 18. mas com um presente absoluto da Presença continuada. Jon 3. 33. como agora o vistes partir para o Céu" (1.messias". Jesus continua para sempre presente no meio dos discípulos e da sua Igreja. Ex 16. 1Sm 17. A nuvem simboliza. É um símbolo comum nas teofanias do AT e do NT (cf. o Filho do Homem vem como juiz "sobre as nuvens do céu". que.sobre a Ascensão entre o terceiro evangelho e os Atos reside no verbo abençoar. Temos que olhar para o significado do texto e não para a historicidade do mesmo texto. sem cessar. Esta recriação passa-se . à imagem da benção final dos Patriarcas. Nínive vai ser destruída"). estando ainda vivo. 9). 19.. à maneira da vinda do Deus do AT.patriarca . simboliza o espaço de tempo absolutamente necessário para uma catequese amadurecida (cf. a narrativa evangélica não refere a vinda de Jesus. Ibid. 3. 34). segundo a modalidade verbal dos tempos hebraicos. falava aos discípulos sobre o Reino de Deus. Afinal. No evangelho. 11).em simbólica representativa no deserto e na tentação. No evangelho. O virá significa. durante quarenta dias. 11. 26 temos o plural. 35). 1R 8. dizem a mesma coisa. Por isso. e que tem por sujeito a pessoa do Ascensionado. a viver no deserto durante quarenta dias entre animais selvagens e a ser servido pelos anjos. Diez Macho. 34-35 e par. onde Adão vivia igualmente com os animais selvagens e falava com Deus. 12-13 temos a descrição da tentação de Jesus. Nos sinópticos têm importância as narrativas sobre a Transfiguração (Lc 9. a vinda não tem tanto a ver com um futuro apocalíptico ou escatológico. para longe dos que moram 40 . 30 e Mc 13. Diez Macho. 21-22. 3. 4) criticam os discípulos que ficam extasiados de olhos no céu à espera da parusia final: "Homens da Galíleia. nuvens. Os evangelhos são história e teologia. que aparece duas vezes no evangelho (24. em que Jesus. e se tivermos em conta o seu gênero literário apocalíptico em Atos e de benção final no evangelho.rabbi .o Ressuscitado . Ex 24. A Ascensão não existiu como fato real. É precisamente por isto mesmo que os dois homens da Ascensão (1. Embora as narrativas da Ascensão no evangelho e nos Atos pareçam tão distintas. 35. os quarenta dias e as quarenta noites de Moisés no monte Sinai. exclusiva dos Atos como vimos. com grande poder e glória"). Lc 9. Trata-se duma catequese como preparação para a vinda do Pentecostes. umas vezes mais história e outras mais teologia. guiado pelo Espírito Santo. 18. Reparemos apenas na narrativa da Ascenção de Enoc.e não tanto histórica . O fato de Jesus estar no deserto. Vol. a Ascensão é apenas uma separação dos discípulos (24.22. 1 E aconteceu que depois de tudo isto. O mesmo acontece com At 1.10-12). Ex 40. o que significa que o Adam. Ex 13. pois.) e sobre o discurso apocalíptico (21. Em Mateus e Marcos. Por isso mesmo. que somos todos nós. 14-18. que representa simbolicamente a presença divina na pessoa do mesmo Jesus. Madrid 1984ss. se considerarmos a intenção catequética do mesmo autor Lucas numa e noutra. 13. Entrar na nuvem ou ser coberto por ela é o mesmo que penetrar na intimidade de Deus (cf. que se realizará no Pentecostes (24. Esta diferença surge ainda na figura da nuvem. toda a "história" narrativa dos Atos não é outra coisa que esta vinda contínua e sempre presente de Jesus através da Palavra e do Espírito. enquanto que Lucas usa o singular. Dn 7. IV. neste caso. o centro da Ascensão reside na benção final de Jesus aos seus discípulos. 5051). em Lucas a nuvem significa sobretudo a vinda do Filho do Homem . e até contraditórias. também os dois homens do túmulo vazio em Lc 24. Com esta benção e com a promessa do Espírito. 18. 27: "Então verão o Filho do Homem vir numa nuvem. é o envio da "promessa do Pai". p. em quatro volumes: Apocrifos del Antiguo Testamento. a sua pessoa foi assumida diante desse Filho do homem e do Senhor dos espíritos. pela tardinha (Gn 2. segundo a edição de A. que se manifesta ao seu povo em êxodo (Nm 9. passa pelo Adam genesíaco e pelo novo Adam cristianizado. Mas. que o tempo de Jesus não acabou na Ascensão. Golias a desafiar os israelitas durante quarenta dias.e que. nos Atos. 51). por que estais assim a olhar para o céu?". a própria presença de Deus (cf. (1) Uma boa introdução aos Apócrifos do AT é a obra de A. cf. 48). 20). 93s: "70. A diferença teológico -catequética . no primeiro livro de Enoc. 4 e o profeta Jonas a caminhar pela grande cidade de Nínive e a proclamar em voz alta: "Dentro de quarenta dias. O símbolo da nuvem revela e oculta a presença divina. Em Mc 1. 16. Nessa benção aparecem as últimas vontades do "pai . que tem mais a ver com a intenção de Lucas em relação à vivência da Igreja do que com um fato histórico segundo o sentido moderno da história. 10. Neste último texto é importante notarmos que nos paralelos de Mt 24.no nosso caso concreto. vem para o meio dos homens. 16. 24.16.

das pedras que estão aqui. toda a árvore que não der bom fruto é cortada e lançada ao fogo. que esta pregação de S.como no caso da Ascensão . procurar entender como explicar esta concordância e discordância. que muitos dos fariseus e saduceus vinham ao batismo. finalmente. Assim sendo. além de Marcos." 7. João esperava um messias apocalíptico que viesse desencadear o Reino total de Deus através duma manifestação arrasadora. seja nos três evangelhos. Existia. por volta dos trinta anos. E como nestes quatro versículos temos as mesmas palavras. O JESUS DA HISTóRIA A primeira etapa tem a ver com o chamado Jesus da História. pois enquanto Mateus refere os fariseus e os saduceus. João Baptista é de características apocalípticas. João Baptista. isto não se explica pela tradição oral. pois. de profeta e de taumaturgo para anunciar a vinda 41 . uma espécie de evangelho escrito. mesmo que pouco saibamos das suas origens e da sua juventude. É fato que Marcos narra o encontro de Jesus com S. ou só em dois deles. o machado já está posto à raiz das árvores. Bem-aventuranças. tomavam as medidas para me medir o lugar dos eleitos e dos justos. e. 3 Desde aquele dia não fui contado entre eles.se dum judeu que viveu a maioria dos seus anos em Nazaré. onde os anjos. Fixemo-nos bem na doutrina: "Raça de víboras! Quem vos sugeriu fugir à cólera que está próxima . que mais adiante iremos estudar.no mesmo evangelho. houve desentendimentos profundos entre S. O nosso estudo vai.o caso da última ceia -. com eles e através deles. ou . finalmente. mas também a tradições das comunidades cristãs primitivas que interpretavam esse mesmo Jesus da história à luz do mistério pascal . Reparemos.. 10 O machado já está posto à raiz das árvores. pois. A primeira alternativa não parece que se possa defender se tivermos em conta os dois evangelhos. por isso mesmo. Mas não foi isso que Jesus veio fazer e.5. concluímos que. que Mateus e Lucas conheceram. à própria redação do autor . 2 E subiu no carro do Espírito e a sua pessoa desapareceu do meio deles. toda a árvore que não der bom fruto é cortada e lançada ao fogo. ou os dois copiaram duma fonte que lhes era comum.como é o caso da Ascensão apenas em Lucas. É historicamente certo que. Lucas refere as multidões. Há um fundo comum de profundas semelhanças e diferenças. Trata. porém. mas não esta pregação. mas que não chegou até nós. a tal Quelle. mas inclusive nas próprias palavras. um fruto digno de arrependimento 9 e não vos iludais dizendo a vós mesmos: 'Nós temos por pai Abraão. por isso. A única diferença reside nos destinatários. Ao longo das achegas exegéticas que já apresentamos foi fácil percebermos que cada evangelista vai beber o seu evangelho à figura histórica de Jesus de Nazaré . Notemos depois esta realidade. João Baptista e o próprio Jesus no que diz respeito à vontade final de Deus através do seu Messias.sobre a terra. onde as diferenças e as semelhanças são mais do que muitas. mas não no de Marcos. ele disse-lhes: 'Raça de víboras! Quem vos sugeriu a fugir à cólera [que está] próxima? 8 Fazei.o chamado Jesus da história -.o célebre evangelho da infância. portanto. Ceia do Senhor. a começar pelos dois primeiros capítulos . 7-10 e Lc 3. como já vimos em relação ao PAI NOSSO e às BEMAVENTURANÇAS: todos estes textos só se encontram nos evangelhos de Mateus e Lucas. mas só por uma fonte comum a Mateus e a Lucas. temos que saber distinguir as três etapas que condicionam os mesmos evangelhos. 7-9. João Baptista) é fundamental para o estudo que vamos expor a partir de agora. norte e ocidente. embora em tempos passados se tivesse falado de figura lendária e mitológica. 4 Ali pude ver os primeiros pais e os justos que moram desde a eternidade neste lugar. por isso. Não se trata apenas dum acordo completo nos conteúdos do discurso. 8. A resposta só pode ser esta: Lucas e Mateus conheciam uma fonte comum. fazer surgir filhos a Abraão..' Porque eu vos digo que Deus pode. Ninguém duvida hoje em dia de que Jesus existiu. que diz o seguinte: 7 "Vendo. A conclusão a tirar é a seguinte: ou Mateus copiou de Lucas e vice-versa." Existe um completo acordo entre Mateus e Lucas neste discurso de João Baptista. Ascensão e pregação de S. a pessoa de Jesus. PREGAÇÃO DE JOÃO BATISTA Vamos terminar este confronto de textos sinópticos com a pregação apocalíptica de João Baptista em Mt 3. deixa os seus familiares em Nazaré e começa uma vida itinerante de pregador." S. A conclusão final do percurso por estas cinco perícopas ou unidades literárias (Pai Nosso. e (o Senhor) pôs-me entre os dois pontos cardeais. para compreender os evangelhos sinópticos e. como veremos mais tarde.

pregador e profeta. 5). Filho de Deus. mas. o Filho de Deus e o Salvador que havia de vir ao mundo. 4) o critério da coerência (quando a doutrina de Jesus ou as suas ações concordam com a mesma doutrina e ações autenticadas pelos outros critérios. saduceus e Sinédrio. Ao longo do nosso estudo abordaremos estas posições. que se distinguiu profundamente de todos os profetas do AT. Vamos agora apresentar o chamado Jesus da Tradição. 3 e par. Rm 8. da sabedoria oral judaica e da apocalíptica. O mesmo se diga dos seus milagres. controvérsias e diatribes com os seus amigos e inimigos. milagres. 7-8 e par. no emaranhado dos evangelhos sinópticos. depressa se forma um pequeno grupo de homens e mulheres que crêem que este homem é mais do que um simples pregador. Ainda hoje os estudiosos do NT continuam e hão de continuar a investigar sobre o significado histórico e teológico deste sintagma . O que os evangelhos sinópticos nos apresentam são memórias desse verdadeiro Jesus. uma vez que o tempo histórico da tradição e da redação intervêm naturalmente neste assunto.próxima do Reino de Deus. como um simples fariseu reformador. profeta e taumaturgo. isto é. perscrutam as Escrituras Sagradas dos seus antepassados (o AT ou as Escrituras Hebraicas) e encontram nelas os tipos ou a prefiguração deste Jesus de Nazaré. como um marxista. as suas próprias palavras. Este grupo de homens e mulheres concluem que o plano de Deus sobre a humanidade atinge o seu clímax precisamente em Jesus de Nazaré. não apenas como pregador e profeta. por exemplo. 7) o critério das origens cristãs. narrativas de seguimento. a descoberta do Jesus histórico é um estudo académico relativamente recente. Uma vez que a história de Jesus (jesuologia) se mistura nos evangelhos com a cristologia e soteriologia. Quer isto dizer que é sempre difícil chegarmos a concluir com precisão quem foi e como foi o verdadeiro Jesus histórico e quais são as suas ipsissima verba. mas também os seus milagres e os seus pequenos discursos. rabi. e é por isso que os autores procuram encontrar critérios exegéticos capazes de nos aproximar o mais possível desse Jesus histórico. 36. etc. 3) o critério do duplo testemunho (quando os mesmos textos se encontram em mais do que uma fonte ou tipo de materiais. 18. muito se tem escrito sobre Jesus como essênio. ou o caso dos irmãos e irmãs de Jesus em Mc 6. O JESUS DA TRADIÇÃO Apresentamos acima os sete critérios para encontrarmos. que não depende nem do judaísmo nem das comunidades pós-pascais. como foi apanágio de evangelhos posteriores não canónicos (o exemplo do proto evangelho de Tiago e todos os evangelhos gnósticos). como é o exemplo da proibição de jejuar (Mc 2. Ele é o Messias. social e religioso do seu tempo é absolutamente necessário para não cairmos em fantasias lendárias e gnósticas. da ceia pascal. 22 e par. Uma vez que Jesus nada escreveu nem mandou escrever. A sua vida faz um todo com esta pregação. como é o caso da proclamação do Reino de Deus. como conseqüência normal política e religiosa da sua pretensão messiânica e da sua pregação pouco ortodoxa quando comparada com a ortodoxia de fariseus. acreditam que ele ressuscitou. discursos. mas continua sempre por estudar quais são as autênticas parábolas.. inclusive de Moisés.). uma vez que Jesus apenas o enunciou. que não têm explicação se não aceitarmos o dado histórico da vida de Jesus. confluem nos seguintes: 1) o critério do embaraço (quando os evangelhos afirmam dados que nos embaraçam porque nos apresentam situações da vida de Jesus em aparente contradição com a fé cristã sobre o mesmo Jesus.como já vimos no estudo que fizemos aos grupos judaicos daquele tempo e às instituições religiosas de então . Tudo quanto Jesus fez e disse já tinha a marca da 42 . cf. As suas parábolas são histórias fictícias que nos demonstram as várias facetas deste Reino de Deus. que têm a ver. 5) o critério da língua aramaica (como é o caso da evocação de Deus como Abba em Mc 14. por isso.) ou a proibição do divórcio mosaico (Mc 10. GI 4. como um zelote ou guerrilheiro. como é o caso do batismo de Jesus em Mc 1. 2) o critério da descontinuidade (quando se trata de material próprio de Jesus. Semelhantes critérios variam de autor para autor. duma maneira geral. a começar por algumas mulheres. como é o caso de Jesus se servir da catequese de tipo oral e não lógico -racional. de algumas parábolas. pelo seu mistério pascal. 15. na medida em que os seus discípulos mais próximos. mas nunca o explicou. mas também como Messias.e que. como um mago. Modernamente. diatribes e controvérsias com amigos e inimigos. . Salvador e Senhor. Saber situar o Jesus da história no contexto político. 9. 6) o critério da rejeição e execução na Cruz. com a proclamação do Reino que já veio e que ainda ha de vir). o verdadeiro rosto do Jesus histórico. e uma vez que Jesus não morreu como todos os outros mortais. É absolutamente certo que Jesus pregou o Reino de Deus em parábolas. tanto em número como em conteúdo. é depois acreditado. paixão e morte). usando. 2-12 e par.o Reino de Deus -.. Para tanto.

14ss).. o dom e o carisma que está por cima de todos os demais. Mesmo assim.. Reparemos no exemplo das palavras de Jesus sobre o divórcio em Mt 5. as profecias que são lidas todos os sábados.autenticidade divina naquelas Escrituras. já muito antes. Deus a cumpriu em nosso benefício. então.. Paulo apresenta-nos um hino ao amor. e é esta fé que aparece nos nossos evangelhos. o da ciência. isto é. Paulo faz esta afirmação: "Vós sois o corpo de Cristo e cada um. 5.. Neste tempo. que naquelas primitivas comunidades. A justificação -salvação residia. 3.24: "E... 22: " . passe-lhe um documento de divórcio'. profetas e doutores. evangelistas. discípulos. sobre a vida de Jesus. Nesta perspectiva. 18..32s: "E nós estamos aqui para vos anunciar a Boa Nova de que a promessa feita a nossos pais. 8-11: o dom da sabedoria. profetas e doutores". sem disso se aperceberem. na fé em Jesus Cristo. mas também nele próprio e em tantos outros que o acompanham como enviados por Jesus Cristo para a obra da nova fé ou boa nova (evangelho). todos os profetas que falaram desde Samuel anunciaram igualmente estes dias. catequistas. Em Mt 19. 27: "Sem dúvida. Na continuação da narrativa. Deus cumpriu o que antecipadamente anunciara pela boca de todos os profetas.. .". agora. Paulo escreve aos Coríntios sobre a diversidade de dons e carismas de maneira livre e de acordo com o Espírito Santo (cf. a saber. do governo e da glossolalia. cf. 19. v. das obras de assistência. É durante este período.. enquanto que agora estes evangelistas cristãos falavam em grego para judeus. depois de entregue. mas. 22: " . as cartas de Paulo. 1Cor 12. 2-53) há um exórdio ou abertura. em primeiro lugar. jamais recuei." (1Cor 12. encontro-me aqui a ser julgado por causa da minha esperança na promessa feita por Deus a nossos pais. quando era preciso anunciar-vos todos os desígnios de Deus.". logo a seguir ao mistério pascal. o da interpretação da mesma glossolalia." Em Mt 5.".. Mc 10. por fim. estão cheias de alusões bíblicas ao AT. das curas.. em segundo. ". vv. que encabeçam todos os demais ministérios. 13. 16-41. o das curas. e sempre na dependência do Espírito Santo.. v. conforme o desígnio imutável e a previsão de Deus. por outro lado. Jesus apresenta a sua própria autoridade: "Foi dito: 'Aquele que repudia a sua mulher. 27: " . Só a simples passagem do aramaico para grego tem as suas implicações nos evangelhos. no meio de dificuldades internas e externas. O Jesus da história era um judeu da Galiléia que falava em aramaico para galileus. que hoje chamaríamos apologéticas. Ainda hoje continuamos a discutir sobre os conteúdos de cada um destes dons e carismas e a necessidade dos mesmos para um bom crescimento e organização do corpo de Cristo-Igreja (1Cor 12. 26. pela sua parte. etc. e não na Lei.. E. que começa precisamente com este plano de Deus exarado nas Escrituras e agora completado na vida do mesmo Jesus (At 2. mas desde a origem não era assim. 6: "E. gregos e romanos. o da glossolalia.. Em Mateus e Marcos Jesus responde de maneira negativa aos judeus que defendiam a possibilidade do divórcio de acordo com a lei de Moisés em Dt 24. se adaptava às novas circunstâncias consoante os destinatários da mesma pregação. que apóstolos.. o dos milagres. . condenando-o. sem nada dizer além do que os Profetas e Moisés predisseram que havia de acontecer"). Por volta do ano cinqüenta. segundo a qual advinha a justificação para os judeus que a cumpriam.. que espalham a fé cristã um pouco por toda a parte. 27-28).. 4-12 e Lc 16.. o do discernimento dos espíritos. 7-9. fossem eles rurais ou citadinos. e ao qual todos os outros devem obedecer (1Cor 13). agora. profetas. 20. o da fé. ". Por isso mesmo. e era preciso que esta nova maneira de acreditar fosse espalhada por todo o mundo. v.. 10. os habitantes de Jerusalém e os seus chefes não quiseram reconhecer Jesus. . o Apóstolo distingue entre "apóstolos. 18: "Dessa forma. o da profecia. da força divina do Pai e do Filho que tudo determina e a todos impulsiona. 3 1.". profetas. . se anunciava a nova fé cristã de maneira muito livre. Em Mc 10. para que não haja confusão e vaidade espiritual. este [Jesus]. Em quase todos os discursos de Pedro e Paulo nos Atos dos Apóstolos (e também de Estevão em 7. ao falar de apóstolos. Só depois é que vêm os que têm o dom dos milagres. ainda não há os chamados ministérios eclesiais bem estabelecidos. Paulo não pensa apenas nos Doze. Ficamos. Jesus refere a dureza 43 . não há dúvida de que a pregação apostólica destes apóstolos.". 43: "É dele [de Jesus] que todos os profetas dão testemunho. muito estática em todos os seus mandamentos e preceitos.. 31-32. tanto mais que. 1.". O que Paulo quer significar com estes ministérios da Palavra é a sua oposição à Lei de Moisés. Mas também não nos é fácil estabelecer conteúdos precisos para estes três ministérios. em terceiro doutores [mestres]... é um membro. São estes apóstolos. mas eu digo-vos.. profetas e doutores. evangelistas. mormente nas paulinas (nas cartas chamadas pastorais e nas chamadas católicas o assunto já é diferente). cumpriram. anunciam o kerigma cristão centrado na morte e ressurreição de Jesus. ". os evangelhos e. E aqueles que Deus estabeleceu na Igreja são. apóstolos.. 8 Jesus apresenta o critério do próprio Deus: " .. doutores.

mas segundo a tradição sinóptica nunca batizou nem se referiu jamais ao batismo cristão. estudar a última etapa da elaboração dos evangelhos sinópticos. a história transforma-se em história da salvação. batizando-os em nome do Pai.. também o de João) que mais influências absorveu deste tempo apostólico. apenas em Mateus (Mt 5. que depois se tornaram servidores da Palavra. é o evangelho de Mateus (mas. na assembléia de Jabne. que já antes dele muitos outros tinham escrito sobre o mesmo assunto. tanto mais que. segundo Jesus.como se viu no último exemplo apresentado-. os zelotes. a não ser em caso de adultério da mulher". O mesmo se diga da doutrina da Trindade. no ano 70. Esta adjunção de Marcos só se pode compreender dentro da moral matrimonial de gregos e romanos. Mas uma vez que estes fatos são a base sólida para a Palavra. E são precisamente estes fariseus que. e não Jesus que abre esta exceção. Lucas afirma. Como veremos. a prática do batismo cristão influenciou a doutrina trinitária e vice-versa. 10.admite a possibilidade de também a mulher se poder divorciar do marido (Mc 10. onde. porque os três critérios obedecem à tal pregação apostólica dos apóstolos. Todos eles têm formas próprias gramaticais e uma semântica teológica própria. da semântica e da intencionalidade. mas girava em torno duma narração (diègèsis) dos fatos que entre nós se consumaram. Como estes exemplos. o evangelho que melhor espelha este tipo de influências é o de Mateus. 22 e 16. como vimos. o Sinédrio. mas a sua base histórica para que a pregação da Palavra tivesse um sentido ou um acento bem histórico."). especialmente contra os fariseus. Em caso de infidelidade da mulher. descobrimos que os autores dos evangelhos não foram apenas compiladores de tradições históricas mas também verdadeiros autores. 9). 2) e estabelecem uma oração própria contra os minim (cristãos). Esta inculturação ainda é mais patente na versão de Marcos uma vez que este evangelista . chamada precisamente a etapa do Jesus da redação. a seguir. há muitos outros que poderíamos aduzir. profetas e doutores. resolvi eu também. 44 .. do batismo e da eucaristia. E trata-se de testemunhas oculares. sobretudo na questão da oração. como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram servidores da Palavra. então. mas nunca na dos judeus. realmente. Deste período da pregação e tradição apostólica advém muito do material das controvérsias de Jesus contra os judeus. Por isso mesmo é que ele termina com o sermão do Ressuscitado no monte da Galiléia a pedir aos onze discípulos: "Ide. fazei discípulos de todos os povos. Autor é aquele que dá forma e sentido à sua investigação histórica. Jesus foi batizado. Mas todos sabemos que Jesus ia à raiz das questões e não admitia exceções deste gênero. Por isso. Lucas é o evangelista que melhor serve de modelo como autor. caríssimo Teófilo. E é por isso que os exegetas procuram encontrar em cada evangelho a sua estrutura através da sintaxe. a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído" (Lc 1. Iremos. depois da queda de Jerusalém. e do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28." Qual foi o verdadeiro critério que o Jesus histórico usou? É impossível qualquer conclusão de modo absoluto. tanto mais que a finalidade de Lucas é apresentar fatos a Teófilo para que a sua fé em Jesus Cristo tenha solidez. a mulher também tinha o direito de se divorciar. Uma vez mais. impõem a expulsão dos judeus cristãos das suas sinagogas (Jo 9. expô-los a ti por escrito e pela sua ordem. Isto leva-nos à conclusão de que é o próprio Mateus.e só ele . do sábado. o marido podia divorciar-se dela. O JESUS DA REDAÇÃO Pela etapa da Redação. pois. comete um adultério. Nesta época da pregação apostólica. deve ter influenciado bastante a doutrina evangélica. a liturgia . 32 e 19. A Palavra não era uma filosofia. Este é um resultado da vivência da Igreja à luz do Espírito Santo. Semelhante doutrina sobre o batismo e sobre a Trindade vai muito além do Jesus histórico.do coração dos judeus: "Por causa da vossa dureza do coração Moisés deixou-vos este preceito. tanto mais que nas cartas de Paulo temos fórmulas triádicas e não propriamente trinitárias. mas permanecem os fariseus que vão salvar o judaísmo da derrocada.1-4). 19). O que interessava a estas testemunhas oculares não era tanto a realidade histórica factual. O assunto é tanto mais interessante quanto Jesus. uma gnose ou uma iniciação de mistérios de salvação. 12: "E se aquela que repudiou o seu marido se casar com outro. Trata-se de fatos e não de mistificações ou lendas. depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem. pois. o Templo e os sacerdotes. desaparecem os saduceus. refere uma exceção para a possibilidade do divórcio: ". por razões pastorais da sua comunidade. uma vez que começa o seu evangelho com um prólogo de fundamentação histórica: "Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos fatos que entre nós se consumaram. agora.

e dão-nos a tônica catequética. quando se confundia verdade bíblica com verdade histórica factual. mas Lucas. a começar pelos próprios Apóstolos. com o estudo que fizemos da narrativa da Ascensão. Marcos. Vejamos o exemplo do sermão da montanha. Realmente Mateus 5. A sua verdade tem a ver com a história em função da fé e da salvação e não o contrário. hoje em dia. Também não conhecemos nenhum manuscrito desses autores. É por isso que Papias. pelo menos no que se refere a Mateus e a João. procurava falar com as pessoas que tinham contatado diretamente com as testemunhas oculares de Jesus. não significa que corresponda à verdade histórica. mas foi a Igreja. mas na intenção do evangelista como autor da sua respectiva obra. A catequese passava pela oralidade e não pela escrita. IV. João". Surge. O fato de a Igreja escolher Mateus. A sua intenção. Marcos . o que interessa é a afirmação de que os autores dos evangelhos. A Igreja depende da tradição sobre este assunto. segundo S. Mas não há dúvida que muitos outros terão escrito sobre aquilo que se pregava acerca de Jesus. Como autores. o que significa que não foram os autores que hoje conhecemos como Mateus. em 6. de cada um. E quem foram estes "muitos" que empreenderam compor antes de Lucas o que também ele agora compõe? Como veremos. mas a tradição fundamenta-se na apostolicidade dos autores. Assim sendo. um dos problemas 45 . 17 chama-lhe sermão da planície. assim. Os manuscritos mais antigos em códices que possuímos de todo o NT remontam ao séc. enquanto que Lucas não tem essa maneira de ver a pessoa de Jesus tão ligada à figura de Moisés. Depois veremos que cada autor apresenta materiais próprios. só aparecem nos princípios do século terceiro. tantas vezes.Lucas não é um historiador que apresente ao seu amigo Teófilo a verdade factual duma vida de Jesus. bispo de Hierápolis. A solução não está no concordismo. Mateus . os evangelistas são também teólogos quando direccionam as suas tradições ou quando adicionam o seu material próprio às mesmas tradições com fins ou objetivos específicos. um na montanha e outro na planície ou de um só sermão? Claro que se trata de um só sermão.. Antes desta data temos códices e pergaminhos parcelares. Lucas e João que puseram o seu nome na respectiva obra ou evangelho. a questão sempre presente. cerca de 115 p. a conclusão mais importante a tirar é a seguinte: os evangelhos foram compostos com uma ordem lógica e não necessariamente com uma ordem cronológica.. Mas também compreendemos que muitos cristãos tenham perdido a fé. Mateus e João. 1 chama-lhe sermão da montanha.. Por isso. pois vê Jesus como sendo o novo Moisés que sobe à nova montanha do Sinai para nos dar a sua doutrina. que só aparece em S. sejam eles quem forem. teológica. em tempos passados. alguns escritos dos chamados Padres da Igreja e já alguns textos evangélicos em traduções antigas (copto. Lucas. Marcos. Os chamados "cabeçalhos" dos evangelhos: "Evangelho segundo S. cristológica. segundo S. Entre uma e outra não há qualquer contradição ou oposição desde que partamos do pressuposto de que os autores dos respectivos evangelhos não tiveram por intenção escrever uma biografia de Jesus como hoje entendemos o gênero literário biográfico. Naquele tempo dava-se mais valor à verdade da Palavra saída através da tradição oral do que à escrita propriamente dita. entre a verdade bíblica e a verdade histórica. mas a verdade da fé fundamentada em fatos. eclesiológica. em Mateus.C. E também compreendemos que. A redação final tem a ver com uma organização interna bem ordenada das tradições escritas e orais que os respectivos autores possuíam. A história está em função da Palavra e da Fé e não o contrário. Marcos e Lucas. o evangelho de Marcos e a fonte Quelle. são verdadeiros autores e não simples compiladores de fatos e narrativas. A estes textos chamamos de redaccionais. a fim de fundamentar a sua fé nas testemunhas pessoais e não tanto nos escritos.. é fundamentar a fé dos seus leitores e ouvintes. exclusivos a cada autor. e dois discípulos de apóstolos. Quem lê os evangelhos (e toda a Bíblia) de maneira fundamentalista e historicista procura explicar estas divergências através do concordismo bíblico. dois apóstolos.. Lucas e João para autores dos respectivos evangelhos. chama-lhe sermão da "montanha".. então.5-7 de Mateus. Teríamos. Lucas. Mas como a palavra montanha. mas cujos escritos não chegaram até nós. Era preciso que os autores fossem apóstolos ou discípulos diretos dos apóstolos. que abrange os cc. segundo S. não estranha que cada autor possa compor as suas tradições segundo objetivos próprios. aliás. Trata-se de dois sermões de Jesus. O fato dos evangelhos não terem sido escritos por testemunhas oculares explica mais facilmente as divergencias entre eles. como já vimos com o prólogo de Lucas. como já vimos. Mas a moderna crítica bíblica conclui sobre a incerteza de semelhantes atribuições. No nosso caso. Veremos como isto é fundamental para compreendermos as profundas divergências no chamado evangelho da infância de Lucas e Mateus. tem um significado especial. apenas nos chegou às mãos antes de Lucas. pneumatológica.. mas apenas cópias de cópias. siríaco e latim).

tudo estaria resolvido uma vez que não haveria a possibilidade de compararmos vários textos. nunca chegarão a uma verdade histórica absolutamente comum e neutral. para quem acredita. argumentos de ordem interna muito pertinentes. 12 e 9. A prioridade de Marcos prova-se ainda pelos dados evangélicos sobre as proclamadas profecias "ex eventu" de Jesus. Esta solução é relativamente recente. e tem a ver com o material evangélico comum a Mateus e Lucas. cristológicas e eclesiológicas bastante distintas. Mateus absorve oitenta por cento dos versículos de Marcos e Lucas sessenta e cinco por cento.como já Vimos -. efetivamente. Enquanto que Marcos se refere à profanação do Templo. enquanto que em Mc 13. ao descrever a destruição da cidade de Jerusalém. como já foi aludido. Por tudo quanto já vimos e iremos estudando ao longo do nosso trabalho. razão porque os autores costumam chamar a atenção para o paralelo com Flávio Josefo. ficai sabendo que se aproxima a sua desolação" (eremôsis). sobretudo por causa do aparecimento das novas igrejas de tipo fundamentalista e historicista. tu que matas os profetas. e não deixarão pedra sobre pedra. sem dúvida alguma. concluiremos que Marcos foi o primeiro evangelho a ser escrito e que Lucas e Mateus o tinham à mão e o seguiram como fonte inspiradora para os seus evangelhos. ao contrário de Lucas. nunca discordam um do outro. finalmente. 20 fala-se de Jerusalém cercada de exércitos: Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos." Esta terminologia lucana é tipicamente militar. te rodearão por todos os lados. Quando é material exclusivo de cada um dos evangelhos . No discurso "escatológico" de Jesus sobre o templo. consiste na Quelle. realmente. A favor da prioridade de Marcos sobre Mateus e Lucas há. Mas como temos três sinópticos . tudo o que temos nos evangelhos vem de Jesus Cristo e vem da Igreja. Como já vimos. Dn 11. os autores concluem que se trata duma referência à cidade de Jerusalém destruída no ano 70. embora Marcos possa concordar com Mateus ou com Lucas ou com os dois em conjunto. ao descrever a derrocada de Jerusalém no ano 70 pelas tropas de Tito. Para provarmos a prioridade de Marcos. sobretudo no evangelho de Lucas. Em Lc 19. com uma alusão ao profeta Daniel. tanto é verdade o que vem de Jesus Cristo como o que vem da Igreja. uma vez que se trata de quatro evangelhos com visões teológicas. tivéssemos apenas um evangelho. 46 .. o problema tem que ser enfrentado sem medo. Com raras exceções. então. 11. Comecemos por reparar no número dos versículos dos três sinópticos. porque não reconheceste o tempo da tua visitação. e. o problema não se punha com esta acuidade. Marcos parece que não tinha ainda conhecimento da destruição de Jerusalém quando escreveu o seu evangelho. mas. a ti e aos teus filhos.068 e Lucas 1. mas já fora intuído pelos próprios Padres da Igreja. Até ao séc. se tivermos em conta o v. a Jerusalém.34: "Jerusalém. AS DUAS FONTES Chegados a este ponto da nossa investigação sobre a questão sinóptica. Jerusalém. Quando aparece apenas em Lucas e Mateus e não em Marcos. É que. 14 temos uma referência à "abominação da desolação" (cf. Jesus refere-se. pelo contrário.te-ão.para além de João -.43. como este estudo é importante para a compreensão das chamadas duas fontes que presidem à feitura dos três evangelhos sinópticos: a fonte do evangelho de Marcos e a fonte chamada em alemão Quelle. que estão no meio de ti. classificamo-lo de "dupla tradição". terminamos com a hipótese das duas fontes como a solução mais provável para o assunto. XVIII. Se. mas que não aparece em Marcos. que perfazem uns 220-235 versículos.149. refere-se à destruição da cidade de Jerusalém.fundamentais no estudo da Bíblia continua a ser esta tônica da verdade. segundo o método das profecias "ex eventu". Especialmente no v.". A segunda fonte. 43-44 descreve-se a tomada de Jerusalém: "virão dias sobre ti em que os teus inimigos te circundarão com tapumes. por mais que investiguem. em Lc 21. Marcos contém 661. Quando o mesmo material evangélico aparece nos três sinópticos classificamo-lo de "tripla tradição". reparemos que Mateus e Lucas sempre que estão de acordo com Marcos. 27). O desenvolvimento de Lucas em relação ao original de Marcos parece ser claro. Em Lucas 13. classificamo-lo de material redaccional de cada um dos autores.. esmagar. tão semelhantes e tão díspares. os exegetas servem-se de critérios para atingirem o mais possível os ditos e os fatos do Jesus histórico. Veremos. e não significa que seja a última palavra da exegese. 35a Jesus prediz: "eis que a vossa casa está abandonada" (fica abandonada). Lucas. Mateus 1.

ao fato de Marcos não conter o "evangelho da infância". Ultimamente. os autores referem ainda o prólogo de Lc 1. finalmente. mas cujo texto original não chegou até nós.. mas Mateus e Lucas suprimem este verbo. 18). dado o montante e a identidade do material. isto é." e Lc 6. referem a possibilidade da existência de protoevangelhos. por exemplo. sobretudo em Lucas (Cf. e que esse fenômeno só se podia explicar através duma fonte documental conhecida por Lucas e Mateus. estaria também Marcos. regra que nós seguimos também. e por estes absorvidos. Haja ainda em vista que. para provar a existência da Q como fonte escrita independente. como já aludimos. em primeiro lugar. inclusivamente. 14: "Jesus indignou-Se/enfadou-se. E Mateus tinha que ser o primeiro por ser o evangelho que contém mais discursos doutrinais e uma eclesiologia mais desenvolvida. Trata-se das mesmas palavras de Jesus que aparecem em dois lugares distintos. Quando Mateus e Lucas escrevem os seus evangelhos. muito possivelmente antes do ano 70 da nossa era. os estudiosos apresentam Lucas como o mais fiel à própria fonte. vários autores. igual nos dois evangelistas. em capítulo anterior. A FONTE QUELLE (Q) Vimos acima que o evangelho de Marcos foi. a pessoa histórica de Jesus tinha que ser apresentada de maneira mais hierática e menos humana. 33 com o mesmo provérbio sobre a luz ou a lâmpada.. E é.. Foi S..Para provar a teoria das duas fontes e a prioridade de Marcos. Como dissemos. ou.. Geralmente. Lc 8. Mas também vimos que os evangelhos de Lucas e Mateus têm muito material evangélico comum que não aparece em Marcos.e com razão -. e entre esses muitos da primeira geração. o Pai Nosso e as Bem-Aventuranças. ao contrário de Mateus e Lucas. Os exegetas continuam a discutir sobre a quantidade e a ordem desta matéria Mas todos admitem a existência desta fonte. costumam apresentar o critério ou o argumento dos "duplicados". Já numa perspectiva de critérios internos cristológicos.". provavelmente por caracterizar de maneira tão dura os sentimentos de Jesus). A composição da sua obra situar-se-ia num período posterior. É importante também repararmos no fator literário dos três sinópticos. chamado koine. 1-4. A esta fonte. Lucas e não Mateus.. os autores aludem. Antigamente pensava-se que Mateus teria sido o primeiro evangelho a ser escrito. mas que não aparecem em Marcos. 10: "Olhando-os a todos em volta. João Baptista em Mateus 3. de evangelhos de menor dimensão que teriam existido antes dos atuais evangelhos. 5: "Então [Jesus] olhando. Nem admira que. e que os evangelhos de Lucas e Mateus dependem deste evangelho de Marcos. a cristologia já estava mais desenvolvida e. Isto indicaria que Mateus e Lucas representam um desenvolvimento posterior duma cristologia incipiente de Marcos. a das testemunhas oculares e a sua própria geração. que quando se apresenta o material evangélico da Q se cita. mas Mateus e Lucas. Mc 3. 27 e 17. Ainda dentro deste capítulo. Trata-se de 220-235 versículos ou partes de versículos. Só o conhecemos através destes textos comuns a Lucas e Mateus. 16 e 11. o primeiro a ser escrito. que tem como pano de fundo o aramaico popular."(16. Quando. O fato de Lucas nos apresentar dois discursos de 47 . Lc 14. Mateus suprime pura e simplesmente esta passagem. 8).". melhoram o grego de Marcos demasiadamente popular. com toda a probabilidade. até meados deste século. vimos que as palavras são as mesmas que em Lucas 3. por isso.. supostamente escritos em aramaico. já estudado. e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. como é o caso concreto do sermão da montanha. O mesmo se diga de textos fundamentais como são.os com ira. tenha sido o evangelho de Marcus o mais estudado e comentado ao longo dos tempos. sempre que podem. Todos eles utilizam o grego popular de então. 16 acerca da promessa de Jesus a Simão Pedro: "Tu és Pedro. 7-10. esta teoria é bastante recente. por isso. na solução do problema sinóptico. Em Mc 10. onde o autor parece distinguir duas gerações. que escreveram antes dele. suprimí-las (cf. sobretudo por causa do cap. embora por vezes numa ordem diferente e com palavras um pouco diferentes. uma vez que Mateus parece ter trabalhado o material desta fonte de maneira mais livre. chamamos fonte Quelle (uma palavra alemã que significa precisamente "fonte"). 33 com a mesma frase sobre a renúncia para se seguir Jesus). os autores . 7-9. nem o "evangelho das aparições" (o Marcos primitivo terminava em 16.. apresentamos o exemplo da pregação de S. 12.Agostinho quem mais influenciou esta teoria ao afirmar que Marcos abreviou o evangelho mais desenvolvido de Mateus por razões catequéticas. Mateus e Lucas procuram suavizar algumas expressões de Marcos um pouco "escandalosas".

29-32 A geração que procura sinais. 1-2 6. 10.19-22 9.45." 7. fazei-o vós também.41-42 O cisco no olho do irmão e a trave no próprio olho.18-28 João Baptista manda discípulos a Jesus. 7-16 10. 7. 6b-10 A cura do criado do centurião (milagre).2-3 12. é porque cada um o trabalhou à sua maneira ou.10. 8. 39b-40.32-33. estar preparado para a vinda do Filho do Homem.57-60 O Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça.. Senhor entrará no reino do Céu.missão. 3-5 6.58-59 Pensar bem antes de se meter com as autoridades.10. 1-2. 31: "O que quiserdes que os outros vos façam.27-30 Amor aos inimigos. 15.21-24 Oração ao Pai: "Bendigo-te. que edificais os túmulos dos profetas. 5. 7. 10. 6.25-33 12.39-44 Crítica contra os rituais dos fariseus.4.24-26 O espírito impuro que sai e volta a entrar. 35b-36 Amar os outros com o amor de Deus Pai. 37-38. 14. nem árvore má que dê bom fruto.48 6. 7-13 e Lucas 10 com a Q de Mateus também no c. o que deveis dizer"). também deve ter a sua origem na fonte Q. quando os vossos pais é que os mataram.7-11 11. quem vos recebe. 23. 12.10. pois o Espírito Santo vos ensinará. porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos..6.38-42 11." 23. Mateus e Lucas teriam acesso à Q de modo independente.39-40. 26-33. na medida em que Lucas 9 coincide com Marcos 6. 11. não temer os que matam o corpo. 12. 37a. 24-25a 6. porque carregais os homens com fardos insuportáveis e nem sequer com um dedo tocais nesses fardos. 16. 13-16 Maldições contra Corazin e Betsaida.11-12. 19-20 12.33-35 Não pôr a lâmpada debaixo do alqueire. então o que não é de excluir -. a luz do corpo são os olhos.4. Ai de vós.39-40 Um cego não pode dirigir outro cego. 11. 24. ó Pai.49-52 A sabedoria de Deus envia profetas que serão perseguidos.19-21 12. 10.25-26 12. 2b-1a 4. 10. 10. 46-49 : "Nem todo o que me diz: Senhor. dessa maneira.2-13 As tentações de Jesus. 5. 23.13 7.27 11.23. 3.44. um no c. 12. 13 11.54-56 Discernir os sinais dos tempos.9-13 11. doutores da lei.42 6.2-10 O encoberto será revelado. 16-20 6.2-12 A ceara é grande e os trabalhadores são poucos. Senhor do Céu e da Terra. 21-23. 7. a mim recebe. declarar-se a favor do Filho do Homem.2-11 7.. 6. 16-17 10.45-51 12.21.31-35 Esta geração não acredita em João Baptista nem no Filho do Homem." Cada árvore conhece-se pelo seu fruto.12 6. 9.29-31 11. 5. não se colhem figos dos espinhos. se há pequenas diferenças entre os dois evangelistas no mesmo material. haveria mais do que uma cópia e. 13. 11.17-23 O forte e o mais forte. 4. 7b-12. 48 ." 8. 25-27. nem uvas dos abrolhos." 5.34-36 12." 6.51-53 Não vim trazer a paz mas a espada. 10. 6.24-27 6.11-12 6. O Espírito Santo ensinará os perseguidos ("Quando vos levarem às sinagogas. 43-45: "Não há árvore boa que dê mau fruto.16-17 A pregação de João Baptista (texto analisado). 22-23 11. 12. 15. aos magistrados e às autoridades.22-31 Não se preocupem com o corpo. 11. Os autores também concluem que a fonte original era em grego e que se tratava mesmo duma fonte escrita e não apenas duma fonte oral porque a quantidade e a qualidade literária do material não se poderia explicar doutra maneira. 34-36.6-7a.46-48 "Ai de vós.. 25-26..2-4 Oração do Pai Nosso. não vos preocupeis com o que haveis de dizer em vossa defesa. 20b-23 As bem-aventuranças.9 e outro no c.42-46 O dono da casa e o ladrão. 12. 43-44.43-45 11. Mateus Lucas Conteúdos 3.33-34 Não entesourem na terra mas no céu. 46-47. o discípulo não está acíma do mestre.22-30 11. 38c Não julgar para não ser julgado. Vamos agora apresentar este material evangélico de Lucas e Mateus e mais tarde faremos algumas considerações importantes de ordem literária e doutrinal. no momento próprio. mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está no Céu.. 3. 7.9-13 Pedi e recebereis.16-19 7. 5. 5a-10.7-9.14-15. 7. Mas.

a da cura do servo do centurião (o único milagre em toda a Q) e o envio dos discípulos de João Baptista a Jesus para lhe perguntarem se é ele que ha de vir ou devem esperar ainda por outro.9. e ela havia de obedecer-vos.30 Os discípulos julgarão as doze tribos de Israel.37). além das narrativas históricas. 21). seja das comunidades (Lc 11. A fonte Q deve ter nascido por causa dos apóstolos itinerantes que iam de terra em terra a pregar o novo "Caminho" de Jesus Cristo. 9) A figura e a vinda do Filho do Homem (Lc 12. 5) A oração dos cristãos (Lc. 7.12. 16-17. 30 Como nos dias de Noé assim será também nos dias do Filho do Homem. 39-46). 34. Começando sempre com a citação de Lucas que. 37-38 14. Contudo. 10.7. 17-19). 8) A chegada dos últimos tempos (Lc. 10).34-35 Jerusalém que mata os profetas.37-39 17.versa (Lc. que não aparece no evangelho de Marcos. 35.29-32. 13-14. 24. deve ser mais original que Mateus. 18.21-22 17. esta tese é insustentável porque o material da Q também nos apresenta o Jesus que ha de vir para batizar no Espírito Santo (Lc 3. 19.37-39 13. 2) A pregação escatológica e ética de Jesus (sermão da montanha/planície.9-13). 49 .31-33 13. 12.16s). 9. 57-62. 26-27 Preferir jesus á família. o dono da casa fecha a porta.15. 7. 11) O contraste entre a falta de fé desta geração. um pouco à maneira dos filósofos itinerantes.20 17. perde-a. uma de duas pessoas será tomada. 1.30.11. Aparecem apenas três pequenas narrativas: a das tentações. 10. No entanto é importante sabermos que. os sofistas e os cínicos. 12.13 Não se pode servir a dois senhores. 24 16. que ha de ser rejeitado e sofrer (Lc 7. 6. 16-24. representada pelos escribas e fariseus (Lc 11.23-29 A porta é estreita. 25. A DOUTRINA DOS TEXTOS EVANGÉLICOS DA FONTE QUELLE Acabamos de apresentar o quadro da doutrina de Jesus comum aos evangelhos de Mateus e Lucas. 14-26. 57-60). como vimos. 13. diríeis a essa amoreira: 'Arranca-te daí e planta-te no mar.11.21-24). 29). 8s. 5. os temas principais da Q são os seguintes: 1) A pregação escatológica do Baptista (Lc3. 1-4. 9. 7) A decisão a favor ou contra Jesus (Lc. 13. 2-16. 7. a doutrina contra o divórcio.3b-4 Ai dos escandalosos.10. 14-23). Ele é como o Filho do Homem que ha de vir para julgar (Lc 17. 10. 5. 7.34-35 Nessa noite. 2-10 14. 12) O contraste entre Jesus e Beelzebú na questão dos milagres (Lc. 31-32). 11. 18-21 O Reino de Deus é semelhante a um grão de mostarda e ao fermento na massa.26-28 17.12-27 A parábola dos talentos. 28s). Jesus é maior que Salomão e Jonas (Lc 11.30. 13. são 220-235 versículos.26-27.40. juntamente com um certo destaque para a ação taumatúrgica de Jesus (Lc 10. 13-15. 28s. que deve ser preferido acima de todo o amor familiar (Lc 14.22-23. 3) O confronto entre a pessoa de Jesus e a do Baptista (Lc 7.22-34)." 24. 5159). 19. 10) A revelação do Filho pelo Pai e vice.12. a lei do perdão. 12-14 15.6. 6) A necessidade de vigilância (Lc.40-41 17. 17. 13-15. 22. 14. e é por isso que alguns autores separam a Q do resto do evangelho e transformam a pessoa de Jesus num simples profeta filósofo. 5) Os conflitos de Jesus e dos seus discípulos com o statu quo daquele tempo.13.26. 9. 58s. 13.33 Quem poupar a vida.39 17. 13.6 A fé como um grão de mostarda ("Se tivésseis fé como um grão de mostarda. 34-35 A metáfora do sal. 18-35). Um tal Jesus e uma tal cristologia está muito longe de se reduzir a uma simples sabedoria moral e filosófica. 16-18 A lei e os profetas até João Baptista. que dará o poder aos seus discípulos . 16-24 A parábola do banquete 10. 18-32 16. 8s. 26-27). 12-27). 7. 11.apóstolos de julgarem as doze tribos de Israel. Mas este último evangelho tem laivos de gnosticismo e só pode ser uma colcção mais tardia de expressões postas na boca de Jesus. 30-32.37 Os sinais da vinda do Filho do Homem 24. O que mais nos "escandaliza" é que na Q não se fale da paixão.10. 29-32) e os estrangeiros crentes (Lc. Jesus aparece apenas como um grande pregador ou profeta dum novo "Caminho" moral e espiritual. 23s. morte e ressurreição. 23-27. que apresenta exclusivamente "ditos" doutrinais de Jesus. Alguns autores costumam comparar a Q com o apócrifo evangelho de Tomé. 31-35. 18-23).13 14. 24. 12-13. existiam nas igrejas primitivas estas coleções estruturalmente doutrinais.28 22.39-52. Como dissemos. Lc.2-10. 12. 17. 4) discipulado e seguimento cristão (Lc 9. seja do Jesus da história. 23.23-24. e trata-se realmente de material evangélico doutrinal. 11. 4-7 A parábola da ovelha perdida. os estrangeiros virão ocupar o Reino. 18. 14-30 19.

que não vem em Marcos. em relação às figuras e ações correlacionadas. embora a iminência do juízo apareça sublinhada (Lc 12. Basta reparar nas citações diretas e indiretas do AT. por um lado. a pessoa de Jesus. As cartas paulinas são preclaras neste assunto. está aqui'. DO JESUS DA HISTóRIA AO CRISTO DA FÉ Como vimos.").A incidência doutrinal da Q é de tipo escatológico. profetas e doutores. Feliz daquele que não se escandalizar por minha causa. o seu ambiente histórico. aconteceu ao longo do tempo da tradição com a pregação oral de apóstolos. da realização profética da lei até às últimas conseqüências (Lc 16. de modo que o juízo de Deus realçado na Q realiza-se no "aqui e agora" da pessoa de Jesus. 29-30). Mesmo assim. e. e até de obediência à Lei.. relacionando-se o "typos" com o "antitypos". seja. da qual provém o material evangélico comum a Mateus e a Lucas. o sinal de Jonas (Lc 11. em relação ao quarto evangelho.. a rainha do Sul e os ninivitas (Lc 11."). de sofrer as conseqüências da fé cristã (6. A matéria evangélica da Q é variada e complexa. Como muito bem escreve J. os coxos andam. que esperavam a parusia do Filho do Homem com poder e majestade. a formação final da Q tanto pode pertencer a uma comunidade particular como a um profeta cristão individual ou a um movimento maior que tinha como pano de fundo alguns aspectos fundamentais da pregação doutrinal de Jesus em volta do julgamento. é mais fácil acabar o céu e a terra do que cair uma só vírgula da lei"). por serem seguidores do Filho do Homem. tal como ele viveu durante os três anos da 50 . 19. a perseguição dos enviados da sabedoria (Lc 11. 14. e a tradição joânica. como depois nos foram transmitidas nos quatro evangelhos: a tradição de Marcos. Mas não vão atrás desses boatos. Isto significa que temos pelo menos três tradições originais acerca da pessoa de Jesus. isto é. da doutrina do Jesus histórico. porque o Filho do Homem virá quando menos o esperam"). 31-32). da qual provém também Mateus e Lucas. Por isso. 12). 22: "Felizes quando vos odiarem. por outro lado. de expectativa e sobreaviso sobre a chegada do Reino final. Estes dois textos da fonte Q são paradigmáticos porque nos mostram. do crescimento da semente. de curar os doentes e de anunciar o evangelho (Lc 7. sobretudo. do seguimento e desprendimento e da consumação iminente do Reino. os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a Boa Nova. 22-23: "Então Jesus respondeu aos enviados: 'Vão contar a João isto que agora viram e ouviram : que os cegos vêem. E digo-vos que já não me hão de ver mais. das três cartas de S. não esgota o alcance do recurso à Escritura".13) e na declaração de Jesus sobre o caráter profético do Baptista (Lc 7. O juízo escatológico da Q transforma-se em cristologia atualizada."). ou 'está acolá'. que está na origem do evangelho de S. 38). João. 1. a tradição da "Quelle". aparece novamente na narrativa da entrada "triunfal" de Jesus em Jerusalém (Lc 19. estejam também preparados. os surdos ouvem.. do pôr a render os dons que Deus nos deu (I-x. Todos estes textos têm como fundo catequético o juízo de Deus: assim como foi antigamente. a dimensão escatológica. e como "modelo de ação". rejeitarem. pelo estudo que fizemos à chamada "Questão Sinóptica"."). isto é. vão ficar com a casa abandonada. A citação do SI 117. os leprosos são curados. 17: "No entanto. senão quando chegar a altura em que disserem: Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor. 28-29). 40: "Portanto. O tempo atual é o tempo do fermento na massa. a teologia e a cristologia "profética" da fonte Q. os três evangelhos sinópticos são muito semelhantes e muito diferentes e. Em todos estes escritos. João. embora dominante. pois tanto aparece com ditos e sentenças apocalípticos. seja em relação aos textos propriamente ditos. O AT é interpretado de maneira profética. 34-35) e em muitos outros textos. llss). uma vez que o centro de toda a doutrina tem como Sujeito o próprio Jesus e a sua ação na história presente como última instância do plano de Deus sobre a humanidade. a luta "divina" pelo Reino entre o "opositor" e o Messias. porque o Filho do Homem virá no seu dia próprio como um relâmpago que ilumina o céu de um extremo ao outro. com abundância de avisos em relação a um futuro iminente da vinda do Filho do Homem. João e do Apocalipse de S. de apóstrofes e invectivas para a conversão em função do juízo de Deus.. Schlosser: " . 35: "Agora. A leitura atenta da Q leva-nos a concluir que. não se pode cair na paranóia dessa vinda (Lc 17. 26: "Bendito o que vem em nome do Senhor". assim será também agora. insultarem e disserem que são maus. 26-27) e Sodoma (Lc 17. O já e o ainda não deste juízo e desta história aparecem mais determinados em Lc 13. 26-27).vos: 'Olha. 49-51). As citações explícitas aparecem apenas na cena da tentação (Lc 4. o dilúvio (Lc 17. Esta orientação sobre o juízo aparece de maneira muito precisa na apóstrofe contra Jerusalém (Lc 13. Nas figuras e ações correlacionadas sobressaem o castigo de Sodoma (Lc 10. as diferenças são abissais. o seu Sitz im Leben. 23-24: "Alguns hão de dizer. como com ditos e sentenças puramente sapienciais. para além dos "logia".

Não há nenhuma tarefa histórica mais pessoal do que escrever uma vida de Jesus. Reimarus afirma. Schweitzer escrevia: cada nova época da teologia descobria em Jesus as suas próprias idéias e não se podia imaginar que fosse doutra maneira. a partir do séc. Wrede. Já há cem anos. E em relação à questão do Jesus histórico muitos problemas continuam em aberto. Bultmann e W. que imediatamente começaram a pregar a Boa Nova sobre a pessoa de Jesus. a elaboração literária dos quatro evangelhos. que produziu muitas vidas de Jesus caracterizadas pela precompreensão do positivismo histórico. com critérios científicos. Desde que o NT começou a ser estudado. E o tempo da teologia liberal. das "précompreensões" e "interesses" dos respectivos estudiosos. e os muitos pseudocientíficos fazem dele uma figura de novela. e isto significa exatamente "segundo o estado atual dos nossos saberes e erros". No Prólogo. antes. Neste sentido. E não se refletiam nele apenas as distintas épocas: cada indivíduo interpretava-o segundo a sua própria personalidade. como nós estamos habituados a ler as biografias modernas sobre os grandes homens/mulheres da história. portanto. Esta fé determina. Sem este pressuposto histórico resvala-se imediatamente para a possibilidade do gnosticismo. mas "este é o nosso resultado a partir de determinados métodos". afirma que os evangelhos não passam duma criação da fé pascal e. tem a ver com uma hermenêutica existencial e com uma preocupação teológica e pastoral ao mesmo tempo. XVII. O quarto é que a ciência é consciente de que os seus resultados são mais efémeros do que os problemas a que procura dar respostas.que Jesus nos trouxe. Por isso é que se fala do Jesus da história. Bultmann parte sempre do pressuposto ideológico luterano de que a fé cristã deve subsistir apenas a partir do mistério da cruz do Calvário e nada mais. pois equivaleria a destruir a mesma fé porque seria cair na "justificação pelas obras". que era a de ser um judeu libertador. anos mais tarde. Mais ainda. ou seja. não nos podem servir de base para u estudo sério sobre o Jesus da história. O primeiro é que a ciência não diz "assim foi". os estetas exaltam-no como o amigo dos pobres e o reformador social. mistura-se com o chamado Cristo da fé. Bultmann.pois é isso que significa a palavra Evangelho . O terceiro é que a ciência não diz simplesmente "este é o nosso resultado". inclusivamente mais". profetas e doutores. o autor alemão A. uma biografia da pessoa de Jesus. A primeira é a do tempo do Iluminismo. que originou o tempo da chamada "new quest". os dois exegetas alemães Gerd Theissen e Annette Mertz publicaram um livro volumoso precisamente com o título o Jesus Histórico. que acharam que era legítimo e importante o estudo do Jesus histórico. sobressaindo as figuras de Reimarus. mas que resultou num fracasso. Outro grande estudioso alemão sobre o Jesus histórico foi J. que os discípulos de Jesus foram para além da intenção original de Jesus. É que os evangelhos foram escritos muito depois do mistério da morte e ressurreição de Jesus. mas não dialogam". Jeremias. o estudo histórico de Jesus não interessa à fé cristã. e não há dúvida de que quando os evangelistas os escreveram foi a partir do ângulo da fé no Ressuscitado. onde estudam com profundidade todos os assuntos relacionados com a questão. nem só fé. os idealistas como a quinta essência do humanismo. mas uma Boa Nova . por isso. nem só história. a questão do Jesus da história veio imediatamente à tona da água e tem seguido o seu processo consoante as perspectivas de cada investigador e das posições históricas e ideológicas das respectivas escolas ou correntes. mas "assim poderia ter sido tendo em vista as fontes" que nos servem de base para o estudo. ressalvam quatro aspectos sobre os mesmos resultados. mas sim história e fé. Esta investigação. mas "assim estão as coisas segundo o estado atual da investigação".sua chamada "vida pública". da tradição e da redação. o Jesus da história. a começar por Kãsemann. para o distinguir do tempo da "old quest". O segundo é que a ciência não diz "é assim". necessariamente. Os evangelhos não são. Kãsemann parte do princípio de que os evangelhos têm em primeiro lugar uma intenção querigmática. mas cujo querigma não renuncia de modo algum à realidade histórica de Jesus. por vezes. que se passa sobretudo nos meios protestantes. discípulos. No estudo desta questão sobre a investigação do Jesus da história podemos distinguir três grandes etapas. a começar pela própría historicidade dos relatos da ressurreição. depois de confirmarem a importância destes últimos duzentos anos de estudos científicos sobre a pessoa histórica de Jesus. "a crítica histórica mais radical e a fé cristã coexistem. os evangelistas não nos relatam uma biografia histórica. que escreveu: Os racionalistas descrevem Jesus como o pregador mor. isto é. E esta Boa Nova tem a ver com a história e com a fé. Schweitzer. a pressupõe. porque dependem. na pregação de apóstolos. A segunda etapa aparece com a reação de alguns discípulos de Bultmann. E isto significa que "a via pela qual a ciência alcança o seu objetivo é para ela tão importante como o próprio objetivo. Para eles existe uma certa continuidade entre o Jesus histórico e a fé no Jesus que a Igrej'a 51 . Em 1996.

23-9.. para depois se tornarem também rabbis. os judeus estavam habituados a conviver com os pagãos desde os velhos tempos da conquista de Sargão II em 722 a. O Cristo da fé não é de modo algum uma criação das comunidades cristãs primitivas. foram G. de desempenho dum papel único para a chegada do Reino de Deus. Na Galiléia. Jesus é um judeu de raça pura e um anti-judeu de cultura religiosa. mas na escola do próprio Jesus. mestre e rabbi? Porque é que se comporta desta maneira tão estranha e inaudita? Na procura do Jesus histórico. O fato de ter abandonado a sua família. como vem a acontecer mais tarde. 15. Por isso é que Mateus classifica a Galiléia como "Galiléia dos pagãos" (Mt 4. G. mas duma "cristologia implícita". em 7. servem-se muito das ciências humanas. A terceira etapa aparece por volta de 1980. de contato imediato com Deus. portanto. 11. 36-50 e par. Braun. É com ele que vivem e é segundo ele que ensinam a vinda do Reino de Deus.primitiva prega. mormente da sociologia. Ultimamente esta etapa ganhou novo ânimo. E em João 7. nem admira que alguém o classificasse de homossexual. Ebeling. "Jesus não reivindicou para si próprio os títulos da cristologia da Igreja. antropologia e arqueologia. o posterior mistério pascal em nada contradiz este sentido da consciência única de Jesus como figura escatológica e messiânica." 52 . O fato de Jesus permanecer sempre celibatário ia contra a cultura patriarcal de então. um pouco mais adiante. Robinson. mas apenas um desenvolvimento e explicitação duma possibilidade de sentido que já existia nela. são seus discípulos por toda a vida. Se os evangelhos apresentam um Jesus. familiar e social. Os autores que mais sobressaíram neste período. Sem dúvida que esta cristologia explícita já pressupõe a fé no acontecimento pascal. 41 alguns judeus perguntam: "Mas pode lá ser que o Messias venha da Galiléia?" e. como se pode depreender da frase de Jesus sobre os "eunucos" em Mateus 19. e não aprendem na escola de Moisés. sobretudo partindose do princípio de que era filho único . da liturgia na sinagoga.). 22-29 e par. partilhando das refeições dos seus compatriotas. para além de Kãsemann. mas a investigação histórica descobre em Jesus uma pretensão de autoridade. onde expunha as suas idéias de ruptura ou de contra cultura em relação à cultura e aos valores patriarcais e familiares daquele tempo.o primogênito . fazia com que os seus detratores o classificassem como possuído de Beelzebú (Mc 3. antes o pressupõe. Conzelmann. H. nem sempre segue os costumes ritualistas das purificações e. como temos vindo a expor. esta fase do "Third Quest" também dá muito valor à especificidade da Galiléia. 52. Assim se explica que os próprios familiares o julgassem como alguém pouco ajuizado (Mc 3. pelo contrário. o Sinédrio responde a Nicodemos: "Investiga e verás que da Galiléia não sairá nenhum profeta. Os discípulos-apóstolos de Jesus. e tudo isto constitui uma cristologia implícita e explica porque é que posteriormente surge a cristologia explícita. Tanto a exegese como a cristologia católica e protestante da hora atual se fundamentam nestes pressupostos: o Cristo da fé está na continuação do Jesus da história. etc. para formar uma família de discípulos. 11-12.) O fato de ter escolhido doze discípulos especiais ia contra o costume rabínico em que os alunos escolhiam o seu rabbi. inverte por completo toda a sociologia antropológica de então (Lc 7. da pesca no lago de Tiberíades. 1). da peregrinação anual ao Templo de Jerusalém.e que tinha como dever sagrado velar pelo resto da família. citando Isaías 8. 20-21). sobretudo em relação aos chamados "possessos". 37-41 e par. O seu poder taumatúrgico. Quando o convidam para as refeições. ao Templo. Mas esta inculturação viva e existencial também lhe servia de púlpito de doutrinação.C. uma vez que o judeu da Galiléia era um tanto ou quanto diferente do judeu da Judéia. W. dentro do mesmo contexto. Por isso. mas não é uma tergiversação da realidade histórica. E é por tudo isto que chamava tanto a atenção das pessoas que se perguntavam: mas quem é este homem. constituía outro escândalo. H. quando se dirige aos anfitriões. os investigadores estão voltados para uma orientação interdisciplinar e. Neste sentido. apenas por alguns anos. Trata-se não duma "cristologia explícita". Bornkamm e M. Marxzen. E. A sociologia e antropologia apresentam-nos os costumes e os parâmetros da vida social e familiar dos tempos de Jesus: quais eram os valores familiares e tribais da cultura e civilização mediterrânicas daquele tempo e como é que Jesus se moldou aos mesmos ou reagiu contra eles? Os textos dos evangelhos apresentam-nos um Jesus completamente inserido no judaísmo de então. à sinagoga. mas uma criação do próprio Jesus frente à sua novidade histórica se tivermos na devida conta o critério da "descontinuidade" que Jesus nos apresenta ao confrontarmos a sua pessoa e propostas religiosas e a religião histórica do judaísmo do seu tempo. Nesta etapa. sobretudo a partir dos anos 80 e dos estudos de alguns exegetas dos Estados Unidos da América do Norte. que se autoproclama com uma autoridade única frente à Lei. Fuchs.

ao libertar do jugo judaico as cidades helenizadas da chamada "Decápole". sobretudo da socíologia e antropologia.. Séforis. Um pouco depois. Sempre dentro desta perspectiva. iluminam tanto pela negativa como pela positiva o mundo religioso de Jesus e de todo o NT. mesmo que não concorde com as ilações deste ou daquele investigador. no séc. terra da subversão judaica contra os romanos. A parábola dos vinhateiros homicidas (Mc 12. no reinado de Aristóbulo I (104-103 a. deixando agora os possíveis contributos das ciências humanas. a exegese dos pesharim (comentários a textos proféticos). por isso mesmo. o mundo bíblico e extrabíblico daquele tempo. no séc. sobretudo. tanto o imediatamente antes de Jesus. um sumo sacerdote macabeu. sobretudo. A parábola de Mateus 18. 21ss). um pouco à maneira dos filósofos da escola filosófica dos gregos "cínicos".C. Outro elemento importante é verificarmos que as duas maiores cidades da Galiléia eram cidades de influência grega e romana. significa que Jesus se dirigiu sempre ao povo tipicamente judeu e sobretudo aos humildes dos campos e das aldeias. e Tiberíades. como pensa por exemplo R. Jerusalém e o seu Templo viviam fora da Lei de Deus. a 16 quilômetros de Cafarnaum.A. Quanto a Qumran. No tempo de Jesus. e a minoria judaica da Galiléia pede ajuda aos da Judéia (cf. se tal corresponde à história. igualmente. Assim sendo. Esta posição político-religiosa é invertida por Pompeu no ano 63 a. não há dúvida de que tudo começou quando. para o "Mestre de Justiça". à maneira dos zelotes. especialmente se tivermos em conta uma leitura sociológica de algumas parábolas. que ficava apenas a 6 quilômetros de Nazaré. como pensam alguns investigadores? Por causa de ter vivido na Galiléia. a Galiléia acaba por ser conquistada e unificada à Judéia.e. mas sem as dez cidades da Decápole. tanto num caso como noutro. refugiarse no deserto e esperar que Deus castigasse os sacrílegos de Jerusalém e restabelecesse a ordem sadoquita e enviasse o seu Messias a partir da comunidade de Qumran. É sintomático que as relações de Jesus com os pagãos da Galiléia não fossem nem freqüentes nem amistosas. para inferir dados que possam iluminar a sua figura histórica. depois de ter passado a febre do qumranismo. seguindo-se por grupos das horas do dia (Mt 20.). 1-16). ninguém duvida de que as expectativas messiânicas dos monges de Qumrân .C. Jesus realiza as duas curas à distância. pois temos que partir do princípio de que Jesus foi Alguém que pensou demorada e atentamente a sua "vocação" religiosa. porque tal não acontecia com o direito judaico: as dívidas de judeus para com judeus nunca levavam os devedores à prisão (cf. A parábola dos trabalhadores da vinha. Os evangelhos sinópticos. e. e só havia uma coisa a fazer: sair de Jerusalém. e também da arqueologia. mormente o pesher a Habacuc. Trata-se. os investigadores da "Third Quest" pesquisam.. são bastante preclaros em nos mostrarem as tensões entre os ricos latifundiários da Galiléia e os pequenos agricultores e trabalhadores à hora. percebemos que Jesus nunca foi a estas cidades. o chamado "sacerdote sacrílego" dos escritos de Qumrân. II a. Para quem crê que Jesus é o Filho de Deus e o Salvador do mundo não são estranhas todas estas posições e interrogações. As críticas aos ricos e a defesa dos pobres e humildes também têm a sua explicação a partir desta sociologia e desta geografia. também Mt 5. se outorgou o poder de rei e sumo sacerdote ao mesmo tempo. tem que ir para a prisão. dos textos de Qumran e dos textos dos evangelhos não canónicos. Em que é que o fato de ser galileu poderá ter influenciado Jesus nas suas opções? Terá influenciado a sua revolução teológica? A abertura galilaica ao mundo greco-romano terá influenciado a sua atitude de "Rabbi" carismático. como o imediatamente depois. sempre a partir do fator histórico e político -religioso do seu tempo. que era a alma religiosa da comunidade. o seu zelo pela Lei e. deixando cair o sacerdócio sadoquita tradicional. 1Macabeus 5. será que podemos classificar Jesus de um subversivo da ordem.Durante a revolta dos Macabeus. Embora ainda persistam muitas dúvidas sobre a razão de ser dos essênios e da comunidade de Qumrân. 14s). sem eira nem beira. Nesta 53 . Simão. o nome "Galiléia dos estrangeiros" é bastante comum. indica a influência do direito romano.. 25ss).C. recolheu muitos judeus da Galiléia e transferiuos para a Judéia (1Macabeus 5. as suas comidas rituais. II a. a saber. lss) demonstra que os trabalhadores não querem entregar a terra ao patrão. juntamente com a Pereia e a Judéia. Um dos filhos de Judas macabeu. apresenta a "murmuração" pela injustiça do patrão em pagar igualmente aos que trabalhavam de sol a sol e aos demais. Lendo os evangelhos. a Galiléia formada pelos habitantes judeus era um país de condição judaica.como já estudamos no primeiro capítulo -. Horsley? Todas estas interrogações são pertinentes. 23-34 sobre o servo que não tem dinheiro para pagar as dívidas ao patrão e que. Há apenas dois relatos em que Jesus se encontra com pagãos com a mulher sirofenícia e com o capitão de Cafarnaum . C.

passo a passo.C. intitulado Jesus at 2000.ajuntamos nós . sobre a real pessoa de Jesus: o seu nascimento. "irmão de Jesus") são textos independentes dos nossos canónicos e muito primitivos. Estudamos a história de Israel daquele tempo. De fato. dando. os seus principais grupos religiosos. R. no entanto. a sua geografia. parentes das famílias dos sumos sacerdotes legítimos. os "filhos de Sadoc". à luz da história e dos evangelhos. isto é. À mística qumrânica da Torah. Apenas como exemplo de grande divulgação referimos o artigo de fundo da Time. apreciamos. Aguirre Monasterio. Simão ou João Hircano. quando está cheio de aspectos fantasistas e secundários. Embora estas vozes sejam contraditadas pela grande maioria dos exegetas e historiadores. Mas antes de entrarmos neste estudo vamos dedicar ainda um capítulo particular ao Jesus dos judeus: como é que os nossos irmãos mais velhos. Inscrevem. e que o primeiro estrato do Evangelho de Tomé (que teria sido redigido em Jerusalém a mando de Tiago. Acima de tudo. O fundador. para a comunidade de Qumran. enquanto que em Qumran era a comunidade em si que desempenharia essa função. 54 . explicava os profetas em função da própria comunidade. muito ao contrário de Jesus. ainda. os evangelhos. serem mais antigos que os canónicos. viram a pessoa de Jesus nos tempos passados e a consideram hoje em dia.comunidade cultual. tinham a parte de leão. que o Evangelho dos Egípcios e o Evangelho secreto de Marcos se devem datar pelo ano 70. Crossan. Agora vamos entrar numa segunda parte e estudar o que é que os evangelhos sinópticos nos dizem. à própria comunidade. o Evangelho da Cruz (que seria o núcleo do Evangelho de Pedro). um estatuto teológico de escatologia realizada: os profetas falaram em função da comunidade. acompanhado por um rosto de Jesus na própria capa. o tal "Mestre de Justiça". Como afirma um exegeta espanhol. [quando. O que Jesus anunciava sobre o Reino de Deus também os qumranitas o anunciavam. neste caso os autores H. O próprio D. Crossan admite que o chamado Evangelho Egerton é dos anos 50. Quanto aos judeus. refere-se à literatura apócrifa dos judeus e dos cristãos. as suas principais instituições. e a maior das diferenças consistia na vertente pessoal e individual do próprio Jesus como entidade central desse mesmo Reino.. isto é. as fontes literárias que nos apresentam a pessoa de Jesus.tem notas específicas de gnosticismo]. que o Papiro Oxirinco 1224. o Evangelho dos Hebreus. além do mais . a começar pelo sumo sacerdote e demais sacerdotes de Jerusalém. Os qumranitas têm consciência de que expiam os pecados do povo infiel. há quem pense que o chamado Evangelho de Tomé contém palavras autêntícas de Jesus que terão influenciado a fonte Q. desta feita. Jesus responde com a mística da graça e do amor. de 6 de Dezembro de 1999. E quanto aos cristãos sobressaem os evangelhos apócrifos descobertos em Nag Hammadi e demais literatura dos primeiros séculos cristãos. o sumo sacerdote sacrílego só pode ser um dos três macabeus: Jónatas. que conferem valor histórico a alguns apócrífos e descobrem. textos que podem ter a ver diretamente com o próprio Jesus e. O problema que se põe é o das fontes e a pergunta que se faz é esta: haverá escritos mais antigos que os nossos textos canónicos? Enquanto a maioria dos investigadores responde pela negativa. o problema levantado pelos estudiosos sobre o Jesus da história e o Cristo da fé.se. todo o artigo se fundamenta em literatura apócrifa sobre a pessoa de Jesus. Marcos e Lucas. nem é possível que o Evangelho da Cruz seja a fonte dos relatos da Paixão dos nossos evangelhos canónicos. isto é. os seus milagres. como já vimos. que eram os comentários litúrgicos das sinagogas em que o hebraico era traduzido para aramaico acompanhado de alguns comentários internos. inclusivamente. sobressaem os estudos em volta dos targumes. neles. há. E. os judeus. a sua morte e a sua ressurreição. 15. a vinda do Reino de Deus consistia na observância estrita da Torah. alguns autores que respondem pela positiva. E uma vez que os dados arqueológicos nos levam para os anos 125100 a. não é possível admitir que o Evangelho de Tomé seja anterior e independente dos evangelhos canónicos. que nestes últimos tempos tem interessado os estudiosos do Jesus histórico. JESUS E OS JUDEUS Chegamos ao fim duma grande primeira parte do nosso estudo sobre Jesus. veiculadas também em parte pela imprensa americana e muito difundidas entre um certo público ávido de novidades contra tudo o que seja tradicionalmente católico ou protestante. a sua pregação. embora com perspectivas diferentes. e é por isso que as questões sobre a pureza sacerdotal e sobre o calendário litúrgico assumem papeis de teologia fundamental. defrontamos a chamada questão sinóptica de Mateus. a verdade é que vieram para a rua. O mesmo autor defende. Koester e D. Um outro aspecto muito importante.

Sinto a sua mão fraterna que me convida a segui-lo. no Yad Yashem. judeus e islâmicos. contidos num pergaminho. O corolário de tudo isto aconteceu com a Shoá ou o holocausto nazi em que foram sacrificados seis milhões de Judeus. Outros apresentam Jesus como simpatizante dos zelotes guerrilheiros e outros. não o tendo encontrado. Então Jesus voltou a Jerusalém para ver se readquiriria o talismã. Subjacente à pessoa de Jesus está sempre o eterno problema do Jesus e do Cristo: do Jesus humano. que também o diferenciava dos outros escribas. mais tarde. graças a Deus. um escrito judaico do século IX. 55 . este estudioso pensa que Jesus foi um reformador e intérprete da Lei. ao longo destes vinte séculos . Shalom Ben-Chorim. e. Temos presente as imagens do nosso Papa João Paulo II. Os judeus cada vez mais o consideram como um irmão judeu fora de série. Judas. mas o meu irmão judeu. São impressionantes as suas palavras. embora critiquem a Igreja por fazer dele o Salvador e o Messias. À semelhança de David Flusser. apresenta as origens de Jesus (em hebraico Toledot Jesu) e os seus poderes de maneira aberrante. ) eis o que nos poderá unir a nós. que passamos a citar: "Para mim. e a sua morte por ter sido um traidor. estes libelos acusatórios e infamantes dos judeus do passado contra Jesus ainda subsistem hoje. A primeira tem a ver com a corrente clássica que percorreu o judaísmo nestes dois mil anos e julga Jesus como um traidor ao judaísmo devido à heterodoxia da sua doutrina para com Moisés e tradições judaicas. Infelizmente. embora falasse com uma certa autoridade pessoal. seja no museu do holocausto. Maria foi abandonada pelo marido devido ao seu adultério e Jesus. venha e declare-o'. obcecado pelo amor a Israel". histórico. apresentam Jesus como um fariseu reformador do judaísmo daquele tempo.mas com muitas exceções. Klausner e Gesa Vermes. e os seus discípulos. Jesus não tinha a consciência de ser o Messias. judeu. e não só o irmão humano.e são a maioria -. E durante os quarenta dias que precederam a execução um arauto saía e gritava: 'Ele vai ser lapidado porque praticou a magia e seduziu Israel a apostatar. mas uma mão humana em cujas linhas está estampado um enorme sofrimento. É a mão duma grande testemunha religiosa de Israel. J. nestes últimos anos. A sua pessoa configura-se com a dos escribas daquele tempo. a sua confiança absoluta no Deus Pai (. E desde que Israel se tornou independente. ele foi pendurado na vigilia da Páscoa. Duma maneira geral apresentam Jesus. Entre estes estudiosos judeus da pessoa de Jesus sobressaem David Flusser. mas separa. Enquanto que o Sinédrio judaico. já não o veem como apóstata e blasfemo. os judeus têm publicado mais obras sobre Jesus. que. Mas como ninguém se apresentou em sua defesa. Esta mão chagada não é a mão do Messias. era "um trágico visionário.nos a fé em Jesus". Jesus é visto como um mago e um sedutor perigoso. acreditaram que tinha ressuscitado. mas sem jámais sair da mundividência da mesma Lei. uma vez adulto. Para explicar o poder taumatúrgico de Jesus. seja no muro das lamentações com o pedido de perdão em nome de toda a Igreja. certamente.Actualmente há três correntes judaicas na apreciação da pessoa de Jesus. desta maneira. foi expulso da sinagoga. embora tivesse uma certa "vocação messiânica" em relação ao Israel de então. sobretudo em Espanha e Portugal. o mago Jesus conseguiu descobrir os segredos do nome inefável de Deus. ao tempo de Jesus. enviado pelos sacerdotes contra ele. Se houver alguém para testemunhar qualquer coisa em seu favor. e a tradição popular judaica. Une-nos a fé que Jesus vivia. do que nos dois milénios desde Jesus até hoje. perseguiram muitos até à própria morte. Jesus.objeta Ulá . fingiu ser seu discípulo. Jesus seria filho de Maria e dum tal José Pandira. Jesus (o nazareno) foi pendurado (na cruz). A sua fé incondicional. apreciou Jesus como um apóstata e um blasfemo. com a Inquisição e as leis contra os judeus. Martin Buber. que ele mantinha escondido.procurar alguém que o defendesse? Porventura não era ele o sedutor de que fala a Bíblia: Não o deveis poupar e não deveis ocultar-lhe a culpa? Infelizmente era preciso agir desta maneira porque ele andava de relações com o governo". como foi o caso da boa convivência ecuménica na nossa Península Ibérica nos séculos nove a onze entre cristãos. Esta visão clássica contra Jesus procura explicar a origem virginal de Jesus como tendo sido um adultério da sua mãe. E o que lemos no tratado Seder Neziqin do Talmude da Babilônia: "Na vigília da Páscoa. Em Jerusalém. alguns exegetas e istoriadores judeus modernos. e conseguiu arrancar-lhe o pergaminho com o nome divino. segundo ele. não e. Maria e os Apóstolos como verdadeiros judeus de fé judaica. e o do Cristo e Filho de Deus acreditado pelos cristãos. uma mão divina. a pregação e milagres de Jesus através dos seus poderes mágicos. os chamados Toledot Jesu. pôde realizar prodígios extraordinários. mas há a juntar que os cristãos pagaram da mesma maneira aos judeus considerando-os a todos como pérfidos deicidas e. Jesus é o eterno irmão. Mas seria realmente preciso . ainda . Para Chalom Ben-Chorin... judeus e cristãos.

Jesus termina a sua carreira histórica numa cruz. é considerado o teólogo judeu que mais estudou a pessoa de Jesus. nunca devemos esquecer que a figura de Hillel foi a que mais determinou o judaísmo depois de Esdras. lutaram politicamente e religiosamente pelo Estado atual de Israel. a julgar por uma tradição rabínica. até ao ano 70 da nossa era. É o caso de David Flusser que escreveu um livro sobre Jesus e tem dedicado grande parte da vida a investigar a sua pessoa. Hillel foi um homem muito querido pelos judeus. e chegou até nós. . Gamaliel II e o Rabi Judah. como já sabemos. Hillel estudou com os rabinos Shemaiah e Abtalyon. realizou-se em Jerusalém um congresso de teólogos e historiadores judeus e cristãos. no século VI A.. celebrando os sacramentos do Baptismo e da Eucaristia. de modo que começaram a reverenciá-lo e a adorá-lo. isto é. foi criado como um judeu. o responsável maior do Sinédrio durante 40 anos. Tanto Hillel como Jesus eram simplesmente doutrinadores e não escritores. a Mishna. Hillel foi um homem do regime e da Lei enquanto Jesus entrou em conflito aberto com o regime religioso judaico e com o regime político romano. Mark Tully é um jornalista protestante inglês que se interessou seriamente pela pessoa de Jesus e escreveu um livro. que teve como discípulo S. mundialmente considerados. enquanto Jesus termina a sua vida.". David Flusser que. que está muito na moda. terá sido eleito Nashi. A conclusão a tirar é a de que a maioria dos historiadores e exegetas judeus contemporâneos consideram Jesus como um fariseu reformador do seu tempo. comparações. que foi o compilador da Mishnah. ao contrário de Jesus. ao contrário de Jesus. que "mostra como eles próprios eram diferentes entre si. Hillel só é recordado como o grande Rabi. c.o Pentateuco -.e não é pouco -. Neste mesmo congresso. A grande diferença. entretanto. através de histórias. altamente considerado.. A minha relação pessoal. como um indesejado de judeus e romanos. nos dias 8-11 de Junho. pregou como um judeu e morreu como um judeu". Estas discussões não tinham qualquer novidade porque havia entre os fariseus sete tipos de farisaísmos. Em 1992. Nasceu como um judeu. que ainda vão mais longe. No que diz respeito à Lei. são as tradições dos ensinamentos e dos feitos de Jesus e. sobretudo o seu neto Gamaliel I. isto é. Para mim era coisa muito séria o fato dos cristãos verem nele um deus e redentor. Hillel optimizou o mandamento do amor ao próximo na linha do que diz o Levftico 19. Paulo (Ac 22. enquanto que Jesus pregava o Reino de Deus através da aggadah. E é por isso que o Talmude lembra Hillel desta maneira: "Nos tempos antigos.. intitulado Vidas de Jesus. mas só Jesus tem o mandamento do amor também para com os inimigos (Mt 5. bem assim. Veremos. e que tem a ver com as várias maneiras dos biblistas e historiadores judeus e cristãos verem a pessoa de Jesus. fraterna e franca para com ele. as suas tomadas de posição sobre o 56 . Hillel nunca se referiu ao Espírito. que lhe apresentou a sua maneira de encarar a pessoa de Jesus. Hillel era a favor da lei do divórcio. e morreu entre os anos 10 e 20 depois de Cristo. O que os evangelhos nos apresentam. milagres e parábolas. começa por afirmar que tanto Hillel como Jesus tinham a autoconsciência de serem pessoas que queriam determinar os destinos religiosos do seu tempo. enquanto que Jesus não freqüentou qualquer escola rabínica. o babilônico. 44). Seja como for. na legislação religiosa e cultual do que devia ser o dia a dia de qualquer judeu. medeiam três a cinco séculos. As grandes diferenças entre Hillel e Jesus podem resumir-se ao seguinte: Hillel era provavelmente da Babilônia e Jesus da Palestina. 17. Para este rabino e teólogo judeu Jesus "foi um rabino judeu. Tenho a certeza que ele tem um lugar eminente na história religiosa de Israel e que tal lugar não cabe em nenhuma das categorias usuais". Esdras veio da Babilônia para a restabelecer. a Tosephta e o Talmude no que se refere a Hillel. Pertencia à linha dos fariseus e discutia com eles abertamente. embora por processos diferentes. que há muitos judeus. apareceu e tornou a restabelecê-la". confessava acerca de Jesus: "Desde a minha juventude que reconheci em Jesus o meu irmão mais velho. Hillel foi o maior representante do farisaísmo no seu tempo. a nível literário. Hillel interessou-se sobretudo pela Torah . é que entre aquilo que Hillel disse e fez e aquilo que foi escrito sobre ele. numa cruz. 3). isto é. Depois foi novamente esquecida até que Hillel. o Príncipe. enquanto que em relação a Jesus medeiam apenas alguns anos. mas os seus discípulos dão testemunho de que ele lhes apareceu como Ressuscitado. que. Hillel estava mais interessado na halakah. para exprimirem o resultado das suas investigações sobre as duas personagens judias mais importantes no tempo de Jesus: o rabi Hillel e o próprio Jesus. Hillel era um homem casado e os seus descendentes foram famosos. como dissemos. quando a Torá foi esquecida por Israel. Pelo contrário. Foi a sua doutrina que determinou a religião judaica depois da destruição de Jerusalém e seu Templo no ano setenta da nossa era. Para ambos. Por isso foi a Jerusalém falar com o rabino David Rosen. e Jesus pelos profetas interpretados à luz da escatologia e apocalíptica. fortalecia-me sempre cada vez mais e hoje vejo-o com olhos de profundidade e de pureza como nunca antes. hoje em dia.juntamente com Theodor Herzl.

Para cativar os seus irmãos judeus que não crêem em Jesus. E quando abrimos os evangelhos de Mateus e Lucas deparamos imediatamente com os chamados evangelhos da infância nos dois primeiros capítulos."aqui e o agora" eram decisivos. Oficialmente. 21-22 e par. Também fazem parte do movimento muitos cristãos católicos e protestantes de origem judaica. simboliza o próprio Jesus (Lc 11. "A carreira histórica de Jesus não estava confinada ao seu ministério terrestre.27: "Eu te dou graças. 2122). que era estranho para a escatologia dos essênios e dos batistas (Mt 11. o seu próprio tempo. enquanto que Jesus tem a consciência da sua importância única na determinação do Reino de Deus. Afirma ainda que as palavras de Jesus dirigidas ao Pai como o "meu Pai". mas também com esta posição histórica de Jesus. Hillel é um representante da humanidade legal perante Deus. 25. mas os judeus messiânicos encontram-se espalhados pela Rússia. e já dispõem de comentários e dicionários próprios da Bíblia na perspectiva da sua doutrina. testemunhos e literatura. só nos Estados Unidos há entre 25 mil a sessenta mil adeptos. e o tempo final da vinda do Filho do Homem. ao assumir-se como alguém que tem um papel decisivo e único na história da humanidade. acham absolutamente necessário que se evangelizem os judeus com palavras. David Flusser aceita como histórica a passagem de Lucas 10. 57 . Este salto foi dado e está a ser dado até certo ponto por milhares de judeus que. Mas Jesus tinha uma consciência de enviado escatológico e messiânico que Hillel não tinha. publicam o jornal mensário Jews for Jesus Newsletter. que vence o forte. ultimamente. incluindo bispos. como conclusão de tudo isto. Para tanto. ó Pai. Israel. sempre à luz dos evangelhos. Mesmo assim . Mateus 11. só podem manifestar uma experiência unica da relação de Jesus com o Pai. Os seus seguidores têm como lema: "Nós existimos para dar a conhecer que o messianismo de Jesus é um assunto inevitável para o nosso povo judaico espalhado pelo mundo". Por isso. Senhor do céu e da terra. lss e paralelos. precisamente porque o Deus Pai o investiu nesta missão.porque acreditam que Jesus é o único Messias e Salvador dos judeus e do mundo -. França. David Flusser aceita como históricas as palavras de Jesus em Lucas 11. ó Pai. profeta escatológico e Filho próprio de Deus para o Ressuscitado. 16. vamos agora começar por estudar alguns passos mais significativos da pessoa de Jesus. Para David Flusser. sim." E. estes judeus messiânicos não se servem de qualquer campanha missionária. Isto mesmo se prova com a parábola dos vinhateiros de Marcos 12. mas sem confrontos doutrinais e com total amor. Salvador e Redentor. David Flusser afirma que Jesus tinha consciência de ser o Filho de Deus de modo diferente de todos os outros filhos de Deus. desconhecido aos olhos humanos. O que o referido judeu teólogo nos diz sobre a pessoa histórica de Jesus é o máximo até onde se pode chegar. 11-12). enquanto que Jesus foi um líder carismático. um taumaturgo e um santo. 28: "Se é pelo dedo de Deus que eu expulso os demônios. EVANGELHOS DA INFÂNCIA Como ficou dito. Inglaterra. Jesus introduziu e modificou o conceito rabínico do Reino de Deus. e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai. Hillel foi um sábio e pensador judeu extraordinário. há diferenças abissais entre Hillel e Jesus. pois tinha também um papel a desempenhar no futuro escatológico". Trata-se do movimento intrajudaico chamado comumente Jews for Jesus ou os judeus messiânicos. o jornal bimensal Issues: A Messianic Jewish Perspective. Jews for Jesus. Segundo o "site" da Internet. a revista Havurah. mas apenas do seu testemunho e do seu amor. aceitam Jesus como o seu Messias. 20 e Mateus 11. etc. Jesus determinou os três tempos da salvação: o tempo até João Baptista. sacerdotes e religiosos. então o Reino de Deus está no meio de vós". messiânico e escatológico para o Cristo da dogmática cristã. África do Sul. Actualmente é seu Presidente o judeu David Brickner. portanto. A finalidade do movimento é a de divulgar e proclamar que Jesus é o Messias de Israel e o Salvador do mundo. Neste particular. diferente de "o vosso Pai". porque assim foi do teu agrado. Flusser afirma que a imagem do "homem forte" simboliza o diabo e a do "mais forte". que lança as raízes duma nova sementeira na história da humanidade. Tudo me foi entregue por meu Pai. Neste sentido. não tem apenas a ver com o mistério da ressurreição. porque escondeste estas coisas aos sábios e cultos e as revelaste aos simples. A partir daqui só a fé no mistério pascal nos leva a dar o salto qualitativo do Jesus messiânico. nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho. este movimento começou em Setembro de 1973 com o judeu Moishe Rosen. A passagem do Jesus histórico como profeta carismático.

mas com a teologia e a cristologia. de Jesus e João Baptista." A narrativa de Mateus continua com a cena da matança dos Inocentes. então. mas é muito estranho nesta narrativa que Herodes só se lembre dos Magos passados dois anos. em quarto lugar. toma o menino e sua mãe. dos dois jovens adultos: o deserto de João Baptista e a terra de Nazaré do menino e do jovem Jesus. que este autor. do Israel novo ou igreja de Deus. que lhe aparece. em sexto lugar. Porque é. dos discípulos de Jesus. como a entendemos hoje. também traduzido em português. para uma pequena cidade chamada Nazaré. foge para o Egito e fica lá até que eu te avise. e as dúvidas de Maria. advertido em sonhos. Se compararmos as narrativas de Mateus com as de Lucas é fácil de concluir que Lucas nada tem a ver com Mateus.". Mateus começa com a genealogia e depois narra a gravidez de Maria com grande "escândalo" para o seu noivo José. Uma vez em Jerusalém vão procurar o rei Herodes e perguntam-lhe: "Onde está o rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo". mas. O rei fica perplexo e convoca o Sinédrio que lhe diz que o rei dos judeus havia de nascer em Belém da Judéia.o Benedictus .Se pegarmos em qualquer bom livro de exegetas católicos ou protestantes sobre a pessoa histórica de Jesus. o sacerdote Zacarias e a sua mulher Isabel. De fato. em segundo lugar. jovem moça. Nos doze capítulos do livro trata-se da situação política e religiosa em Israel no tempo de Jesus. Apresento como exemplo o livro muito bom do exegeta católico alemão Joachim Gnilka.e o hino do profeta Simeão . em nono lugar. razão porque manda matar todos os meninos de Belém com menos de dois anos. que aquilo que Mateus nos narra é completamente diferente do que narra Lucas exceto em duas proposições: a concepção virginal de Jesus e o seu nascimento em Belém. foi para a Galiléia. que se vê muito atrapalhado para resolver aquela situação. o evangelista narra que Herodes morreu e que novamente o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e a dizer-lhe: "Levanta-te.pior ainda -. como está escrito no profeta Miqueias 5. mas pode escandalizar os mais incautos: é que os evangelhos da infância não têm a ver com a história. o discurso do Anjo a Zacarias e a Maria sobre os respectivos filhos. pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo". a aparição do Anjo ao pai Zacarias. entregá-la às autoridades judaicas para a julgarem e condenarem. não temas receber Maria como tua esposa. como tantos outros. Reparemos nos paralelos que representam verdadeiros "clichés" literários e respectivas mensagens evangélicas: em primeiro lugar a apresentação dos pais de João Baptista. em undécimo lugar. O rei deixa partir os magos e pede-lhes para o avisarem do nascimento daquele rei dos judeus. dos conflitos de Jesus com os grupos religiosos de então e com o Sinédrio. no dizer do texto: "era um homem justo e não queria difamá-la". a reação de alegria dos circunstantes sobre o nascimento das duas crianças: os vizinhos e parentes dos pais de João Baptista. em terceiro lugar. é 58 . pois Herodes procurará o menino para o matar. 1. depois de os magos adorarem o menino são avisados em sonhos "para não voltarem junto de Herodes". finalmente. filho de David. Entretanto. enquanto exercia as suas funções sacerdotais no Templo de Jerusalém e à mãe Maria de Nazaré. porque este quer matar o menino. É. para que assim se cumprisse o que foi anunciado pelos profetas: Ele será chamado nazireu. pessoas avançadas em idade.nos dois pontos: conceição virginal e nascimento em Belém. .o Magnificat . Mateus narra a vinda dos magos do Oriente. José vem do Egito e tem intenção de morar na Judéia. as dúvidas de Zacarias em poder ser pai por ser avançado em idade. em sétimo lugar. não apresenta um capítulo sobre os evangelhos da infância? A resposta é simples. exceto . geralmente nenhum deles trata dos evangelhos da infância. toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel. da mensagem de Jesus sobre o Reino de Deus. a nota histórica sobre a circuncisão e respectivo nome de João Baptista e de Jesus. O mesmo acontece com José: o Anjo do Senhor apareceulhe em sonhos e disse-lhe: "Levanta-te. por um lado. já sem poderem ter filhos. do processo religioso e político que conduziu Jesus à morte e do epílogo pascal. Entretanto. em duodécimo lugar. porque também ele o quer ir adorar. e de família simples e pobre de Nazaré. o lugar de permanência.o Nunc dimittis -. isto é. a perturbação de Zacarias e a de Maria. então.como já assinalamos . portanto. o Anjo do Senhor e lhe diz: "José. Vamos tentar perceber isto por partes neste capítulo. em quinto lugar. em oitavo lugar. ainda não casada. a maneira como os dois bebês cresciam e. a resposta do Anjo tanto a Zacarias como a Maria. mas apenas noiva. Comecemos por reparar que as narrativas do evangelho de Mateus e de Lucas não vêm em Marcos e. e a apresentação da mãe de Jesus.e o hino de Maria .. Lucas apresenta o seu evangelho da infância num quadro ou pintura narrativa servindo-se do díptico das duas famílias: a de João Baptista com os seus pais e a de Jesus com os seus pais. uma vez que. em sonhos. por outro lado. que vêm a Jerusalém conduzidos por uma estrela. Nada. o hino de Zacarias . por não ser casada. tal como a sua mulher. Em seguida. mais tarde. e os anjos e os pastores de Belém. em décimo lugar. o tempo do nascimento tanto de João Baptista como de Jesus..

como se as visse do exterior. são personagens tipológicas e não históricas. depois de passar o tempo da pregação primitiva à volta do kerigma ou anúncio pascal. Tem. um sobre a narrativa de Lucas e outro sobre a narrativa de Mateus. tão. sobretudo. se acontece a 59 . isto é. Sobre a narrativa de Lucas. construída com um objetivo estritamente teológico. Tudo o mais é uma narrativa chamada midráchica. se não é possível conciliar os dois textos. Ele põe a falar as personagens para demonstrar a progressão da ação: Isabel dá graças pela sua gravidez fora do tempo (1. Pouco a pouco. que servem para explicar passagens da Escritura: a) pela ausência deste material em Marcos.somente. 5-6). enquanto nos leva ao AT. Ele apresenta uma "releitura" das origens de João Baptista e de Jesus. uma vez que não havia nenhuma tradição histórica igual que passasse de boca em boca nas respectivas comunidades. No total. Narra tudo a partir da pessoa de Maria. ainda hoje subsistem em muitos católicos e protestantes. Mas o resultado reside realmente na tonalidade da sua mentalidade midráchica. Por isso não podemos conciliar. c) pela impossibilidade histórica das suas principais asserções (a estrela que vem do oriente. mas. é para se cumprir o que diz o profeta Oscias 11. Todas as tentativas de concordismo bíblico. a ingenuidade de Herodes. 22. que concluir que Mateus não conhecia Lucas e vice-versa. para que possamos compreender os seus papéis futuros segundo o desígnio de Deus. Tais tentativas de concordismo historiográfico vão contra a intenção do texto sagrado. Um tal resultado não tem apenas um valor tipológico. se Jesus vai para o Egito com sua mãe e Pai. a sua morte e a sua ressurreição. escreve o célebre exegeta francês Pierre Grelot: "De fato. a matança dos inocentes). Paulo nos Atos dos Apóstolos. 34-35). E como Marcos nada nos diz sobre tal evangelho da infância. como desenvolvimentos narrativos. segue para Nazaré. Mas não está preocupado em objetivar as visões de Zacarias e de Maria. E para que os leitores não fiquem um pouco perplexos com estas afirmações vou citar dois grandes exegetas católicos. é para se cumprir o que está escrito em Miqueias 5. para o nascimento de Jesus. A nível literário vimos que a finalidade dos dois evangelistas é teológica e não biográfica. e. também não podemos concluir que haja uma contradição histórica ou biográfica consciente. os cristãos acabaram por perguntar: mas onde é que Jesus nasceu? como nasceu? As respostas dependem das tradições teológicas e não históricas. sobre o evangelho da infância de Mateus o que escreve o exegeta católico Alberto Mello: "Podemos considerar todas estas narrativas [de Mateus] como aggadot. Paulo e dos discursos de S.igual em Mateus e em Lucas. os vizinhos de Zacarias interrogam-se sobre a futura vocação de João (1. 60-64). não têm qualquer fundamento. 25). Pensemos apenas nesta contradição dos dois textos: enquanto Mateus coloca a "sagrada família" durante dois anos no Egito. a fuga para o Egito. Lucas até introduz na narrativa do nascimento de Jesus uma cena apocalíptica (2. Vamos agora ouvir. 15). Descendo um pouco mais ao pormenor. Simeão anuncia o futuro de Jesus e as dificuldades da sua mãe (2.)13. se Jesus nasce em Belém. os dois evangelistas. Lucas coloca a "sagrada família" em Belém. O que narra Lucas não é narrado por Mateus e vice-versa. b) pela analogia com as aggadot judaicas. 48-49). temos de concluir que estes dois evangelhos da infância só apareceram alguns anos mais tarde. Naturalmente. não afirmo que tudo seJa obra da improvisação de Mateus: ele pode servir-se de modelos literários ou de tradições orais. 1 (Mt 2. porque a mãe de Jesus desempenha um papel capital na vinda ao mundo de Jesus. sobretudo com aquelas que se referem ao nascimento de Moisés. o objetivo de Lucas é estritamente teológico. isto é. uma exposição midráchica em que as personagens são determinadas pela teologia. até. reparemos como Mateus põe a funcionar os acontecimentos e as personagens. ou. 66). Só não há contradição porque os autores não têm em vista uma biografia histórica. Lucas fala-nos de duas ou três semanas da "sagrada família" na Judéia. Por cinco vezes Mateus afirma que tudo quanto está a acontecer à volta do nascimento de Jesus é a realização do que já fora anunciado pelos profetas: se Maria concebe virginalmente é para se realizar ou cumprir o que está dito pelo profeta Isaías em 7. 914: os anjos que aparecem aos pastores e entoam o hino: "Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens do seu agrado .23). que é o evangelista mais antigo. muito mais do que a uma intenção historiográfica". que. o seu mistério pascal. um valor Prefigurativo: cada episódio do evangelho da infância de Jesus prefigura outros acontecimentos da sua vida adulta. Temos. 14 (Mt 2. à luz da história. Esta conclusão tem a ver com os conteúdos narrativos de cada evangelista. a única tradição igual que subjaz a Mateus e a Lucas é a tradição da conceição virginal e do nascimento em Belém. os pastores saúdam o nascimento de Jesus (2. como é próprio das cartas de S. Maria e Jesus dialogam na cena do Templo (2. e imediatamente a apresenta no Templo de Jerusalém para a circuncisão do menino. Por isso. então. E. 1: Do Egito chamei o meu filho. Isabel e Zacarias dão o nome de João a seu filho (1. dali. isto é. Pedro e S. Tudo isto nos conduz a um desígnio teológico bem preciso.

E como estamos diante duma proposta de fé por causa da conceição virginal de Jesus e de toda a sua vida. Jesus é o "consagrado" e o "santo de Deus" por excelência. vai realmente e historicamente percorrer. e nezer. muito simplesmente. é muito semelhante às palavras hebraicas nazir. oferecido ao menino de Belém. mas "rei dos Judeus". e nasce da raiz de Jessé. aplicando a lei da assonância. bem assim. Os anjos e os sonhos são a garantia desta ordem da fé ou." O correcto seria escrever: "José gerou Jesus. 20). filho de David. tua esposa. a Maria e aos pastores. no julgamento de Jesus levado a efeito pelo Sumo Sacerdote e todo o Sinédrio (26. 13. 11. é a visão profética ligada ao AT e a escatológica. que. Se Mateus apresenta uma estrela e os magos é para dar cumprimento à estrela de Balaão segundo o livro dos Números 24.29. 17: "Uma estrela surge de Jacob e um cetro se ergue de Israel". para acentuar a verdade da conceição virginal usa de estratagemas literários muito interessantes. por isso mesmo. porque morreram todos aqueles que queriam a tua vida. quando. desta verdade da fé. 60 .37). Basta notar nas semelhanças literárias entre Êxodo 4.. Jesus tem que percorrer tudo o que Moisés e o povo de Israel percorreram.. pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo"(1. como seria lógico. e regressar de lá para a sua terra natal como aconteceu com Moisés. O mesmo acontece com Moisés. e isto porque foi este o título que ocasionou o processo e a condenação de Jesus à morte (27. Mateus não se refere a um profeta explícito. Os sonhos e os anjos são fundamentais em muitas narrativas bíblicas para significarem aspectos que transcendem a simples história factual. no Egito. com Samuel ou com David na historiografia do AT.. chega a José e escreve contra a lógica da genealogia paterna: "Jacob gerou José. Quem comanda.10. sempre na linha direta do pai. Mateus. É importante repararmos que os magos não dizem "rei de Israel". ficou em alvoroço. Mas o plural é exigido por causa do mesmo plural na narrativa sobre Moisés: "porque morreram todos aqueles que queriam a tua vída". ligada à realização messiânica e ressurreccional. O ouro. Reparemos que o verbo vem no plural: porque morreram. não há nem anjos nem sonhos. finalmente. para além da narrativa fundamental sobre o anjo em sonhos a José: "José. tanto Mateus como Lucas nos apresentam uma narrativa em que os anjos e os sonhos nos oferecem essa mesma garantia. A única diferença que há entre os dois evangelistas é que Mateus refere sempre o anjo que aparece em sonhos. Reparemos que nesta última profecia. por sua vez. que se chama Cristo. o mundo da fé.2 1). com Sansão.e uma vez mais . 57) e. se Jesus vai viver em Nazaré e não na Judéia. a começar pela narrativa do túmulo vazio.20. toda a cidade. como homem. mas "pega no menino e sua mãe " (2. enquanto que Lucas refere o anjo diretamente a Zacarias. 1. depois de falar da genealogia de 39 nascimentos. Pois bem. 10-12 e a Isaías 60. incenso e mirra dos magos. toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel.. o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José. 'Levanta-te. melhor ainda.". como se lê profeticamente em Isaías 11. faraós.. porque . como tal. a história da infância de Jesus.como não podia deixar de ser. uma vez que estamos diante da história real.". é para se cumprir o "que foi anunciado pelos profetas: Ele será chamado Nazoreu". 19. Mas a verdade é que em nenhum texto do AT se diz que o Messias devia viver em Nazaré. portanto.matança dos Inocentes. como aparece em Mateus 21. regressa ao Egito.20 Ç'Yahvé disse a Moisés em Madian: 'Vai.". Se apresenta o rei Herodes e todo o Sinédrio perturbado é por causa do que vai acontecer.7. temos que abordar as angelofanias ou aparições de anjos tanto em Mateus como em Lucas. 10: "Quando Jesus entrou em Jerusalém. mas os anjos voltam a aparecer nas narrativas da ressurreição. 2-3 e em Juízes 13. Por isso mesmo é que sempre que se refere a José e ao seu filho nunca diz "pega no teu filho e sua mãe". Os anjos e os sonhos simbolizam o mundo de Deus e. da qual nasceu Jesus. não temas receber Maria. Por isso é que tem que ir ao Egito. nas literaturas clássicas daquele tempo. pelo alvoroço de toda a cidade de Jerusalém quando da chamada entrada triunfal de Jesus na cidade santa. e disse-lhe. que significa raiz. como aparece em Números 6. pô-los em cima de um jumento e regressou à terra do Egito") com Mateus 2. O que Mateus nos quer dizer é que o menino Jesus.estamos perante uma narrativa de história de fé. Chegando a este ponto. porque morreram os que atentavam contra a vida do menino").. Esta é uma maneira literária de apresentar as grandes figuras de reis. Na genealogia. que consiste no fato da palavra nazoreu ser muito semelhante a Nazaré. conquistadores e homens de Deus. que significa consagrado a Deus. esposo de Maria. Moisés tomou consigo a sua mulher e os seus filhos. é para se cumprir o que escreve o profeta Jeremias em 31. O evangelista Mateus. E vale a pena reparar que. segundo Mateus. . já faz todo o percurso que mais tarde. onde nasce o povo. na vida pública de Jesus. é uma referência analéptica ao Salmo 72. mas usa o plural: "o que foi anunciado pelos profetas. 5ss. mais tarde. na verdade só era Herodes que queria desfazer-se do menino rei. serve-se dos métodos exegéticos dos rabinos. 15. e só a José. 5. 19-21 ('Morto Herodes.

João Baptista é fundamental para compreendermos a pessoa de Jesus. reliam as Escrituras hebraicas sem as nossas exigências modernas de fidelidade ao texto ou de objetividade. Em conclusão. como vimos. JESUS E JOÃO BAPTISTA A figura de S. Os anjos e os sonhos legitimam a verdade dos acontecimentos. depois. mas também por representar a nova Sião e a nova Jerusalém que dá à luz o seu Messias tão desejado e suspirado. a figura de José é central por causa dele ser da descendência de David e. no seu sentido universalista. a batizar "na água. 3: "Preparai o caminho do Senhor. para designar a ordenação divina na história da salvação. 116 de Flávio Josefo. modo das relações dos pais e demais atores a seu respeito. Por isso. a propósito da substituição de Judas: "Portanto. o Cristo ressuscitado. Marcos. A função catequética destas vozes angélicas é precisamente a de ser função da visibilidade de Deus e não da visibilidade de história factual. em contraste com aquele que irá batizar no Espírito Santo". como seria normal na dinâmica desta exegese. Para tanto. 34-35). foi visto como exemplo a seguir em todos os tempos de crise religiosa e acabou por configurar-se como o "precursor" do Messias. vêem João Baptista como este Elias redivivus (Mc 9. pastores) o ser dessa criança. a verdade é que apenas a segunda parte tem a ver com Isaías (v. Ele aparece não apenas nos quatro evangelhos como também nas Antiguidades Judaicas XVIII. Todas as demais figuras se revêem no contraste significativo com a de Jesus. Não se trata duma verdade que vem da razão. a partir do batismo de João Baptista até ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto . mas sempre de acordo com as Escrituras hebraicas. para Mateus. o plano divino chancela a última figura da revelação divina. não sobre o modo de ser concebido. a sua natureza e a sua função. sempre através das Escrituras hebraicas. mas. 1 conjuntamente com Êxodo 23. os meus olhos viram a salvação que ofereceste a todos os povos. enquanto que a primeira parte (v. enquanto que Lucas centra toda a narrativa em Maria. luz para se revelar às nações. não apenas por ser a mãe biológica de Jesus.. São sempre as Escrituras hebraicas que classificam a natureza de tais figuras e a natureza da história. Perante elas.. Por isso é que a entrada em cena da vida de Jesus. voz daquele que grita no deserto: 'Preparai o caminho do Senhor. seja das figuras que o envolviam. É um apelo à credibilidade do mistério e da fé. o Cristo e o Filho de Deus. é a de informarem os seus leitores acerca do menino Jesus.. logo nos seus inícios. nos seus evangelhos da infância. aparece depois do chamado "evangelho da infância". e glória de Israel. Na tradição judaica. 20 (LXX). quando o original de Isaías se refere ao próprio Deus. Este simples fato é importante para entendermos como os cristãos. aplanai as suas veredas"' (Mc 1. Jesus. Esta referência aos povos e às nações só se pode entender. ". poder falar do messianismo davídico de Jesus. 2-3). começam por apresentar uma série de episódios em que não são pessoas humanas mas vozes angélicas e sonhos que anunciam a pessoas humanas (Zacarias. 23@ dada a importância que Elias tinha desempenhado no seu tempo para repor o monoteísmo judaico. a partir daquilo que nós chamamos história. só se pode referir a Jesus. ao citar o texto de Isaías 40. mas sobre a modalidade do ser dessa criança. José. que. 30-32). a finalidade de Mateus e Lucas. o nome 61 . da história e da inteligência dos homens.3. seja fundamentalmente por causa de Jesus. O que lhes interessava era provar a verdade de Deus. é o mesmo processo por ele usado para a manifestação da transcendência da Ressurreição e da Ascenção de Jesus aos céus. esta figura acaba por ser o Elias redivivus [mas "redivivo" nada tem a ver com reincarnação] de Malaquias 3. Assim hão de revelar-se os pensamentos de muitos corações" (Lc 2. Por isso é que Simeão diz a Maria: "Este menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição. A pessoa do Baptista aparece descrita de maneira histórica. Embora o narrador se refira ao profeta Isaías. É o que lemos em Atos 1. uma espada trespassará a tua alma. este evangelho da infância tem a ver com uma profunda reflexão teológica apresentada à luz de Jesus. começa com o seu encontro com João Baptista. No caso concreto da narratologia de Lucas. apresenta-o a partir do que está escrito no profeta Isaías: "Eis que vou enviar-vos o meu mensageiro diante da minha face. a viver no deserto vestido "de pele de camelo e alimentado de gafanhotos e mel silvestre". antes de descrever a sua figura como "proclamador dum batismo de conversão para a remissão dos pecados". No AT. 17. 21-22.".2) é retirada de Malaquias 3. Assim sendo. de entre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós.. Os evangelhos. que preparará o teu caminho. O mensageiro que havia de aparecer antes do Messias era uma figura muito importante na apocalíptica judaica antes e depois do tempo de Jesus.. se tivermos em conta o livro dos Atos dos Apóstolos do mesmo evangelista Lucas. No v. João Baptista não podia fugir à regra. teu povo" (3. Em Mateus e Lucas. 11-13). modo de nascer.. Marcos. Jesus é a figura escatológica final preparada pelo Elias redivivus. desta forma.3). mas do próprio Deus. Maria. É preciso ainda termos na devida conta as afirmações de Simeão no mesmo cântico: ".Reparemos ainda que. mas sobretudo a interpretação dos mesmos acontecimentos.

tanto mais que a afirmação de Marcos sobre o perdão dos pecados do batismo de João está em contradição com o que depois vai afirmar pela boca do próprio Baptista: "Eu batizei-vos na água. e é desta feita que Marcos. razão porque. apenas na água.como é Ele seu filho?").e a tradição que a suporta . e. quem vos ensinou a fugir da cólera que está mesmo a chegar? . O próprio David chama-lhe Senhor. e o de Jesus. devemos salientar três aspectos: 1) "o batismo de conversão para o perdão dos pecados" .Jesus como Deus. 35. No prólogo. no entanto. e os primeiros discípulos de Jesus. tanto em Marcos como em Mateus e Lucas. o mais pequeno no Reino do Céu é maior do que ele" (Mt 11. 62 . 2) a atitude do Baptista como servo daquele que virá depois dele. Por causa disto mesmo é que no evangelho de Lucas 3. 3551). não em santidade de vida moral ou de austeridade moral. embora de maneira velada. Criador. 20. o quarto evangelista sublinha isto mesmo com cores mais carregadas (Jo 3. Vida e Luz de todos os que nele acreditam -. É João Baptista que anuncia Jesus como "o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo" (1. enviando-lhe alguns discípulos a perguntar-lhe: "És Tu aquele que ha de vir. que pregava uma doutrina apocalíptica. que o caracteriza muito bem. o batismo de Jesus às mãos de João só acontece para que se "cumpra toda a justiça". Há que recordar o que já dissemos sobre a questão sinóptica e sobre a questão da fonte Quelle. Quanto ao segundo aspecto. 3) o contraste entre o Baptismo de João. 19). 28. E a resposta de Jesus aos enviados de João encerra esta frase. no entanto. 15. Assim sendo.8). Tudo dá a entender que a narrativa de Marcos não se pode compreender sem a prática do batismo cristão. sobretudo as judeo-cristãs. pois parte-se do princípio de que Jesus não tem pecados. na esperança de que o Messias viria trazer um evangelho de mudança social. não é João quem batiza Jesus.o do Baptista assumir conscientemente uma atitude de servo -. mas sim arrancados à pessoa de João. realmente. pois eram seus discípulos (1. Mais tarde. Por isso é que os quatro evangelhos acentuam o papel do Baptista apenas como percursor e servo.. É por causa da posição de Marcos sobre o batismo de João "para o perdão dos pecados" que o batismo de Jesus está envolvido em contradições internas. Quanto aos conteúdos da pregação do Baptista. não apareceu ninguém maior do que João Baptista. mas sobretudo em 12. 3. porque. no Espírito Santo". Vimos que o primeiro exemplo desta fonte Quelle é precisamente esta pregação de João Baptista em Mt 3. . 7-12 com as mesmas palavras em Lc 3. não é um batismo na água que pode perdoar os pecados. todo o desígnio de Deus. Por tudo isto. à primeira vista bastante misteriosa: "Em verdade vos digo: 'Entre os nascidos de mulher. a grande figura do Baptista aparece apenas em 10 versículos. mas só pelo fato de ter entrado no mistério pascal de graça e amor. atribui a Jesus toda a sua qualidade divina (o mesmo aparece em Mc 7. a figura de João Baptista levantou. mas que. mas ele batizar-vos-á no Espírito Santo" (v. 28). ou devemos esperar outro?" (Mt 11. Mas Jesus não atuou assim. 30: "Ele é que deve crescer. No evangelho de Marcos. por mais santo ou menos santo ' é maior do que João Baptista. e toda a árvore que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo". mas nos evangelhos de Mateus e Lucas temos um pequeno discurso do mesmo Baptista. João dirigese ao povo judaico de então com palavras trágicas e apocalípticas: "Raça de víboras. 13. o Baptista tivesse duvidado do messianismo do próprio Jesus.divino YHwh é traduzido geralmente na tradução grega dos LXX por Kyrios. tem a ver precisamente com o contraste de desigualdade entre ele e a pessoa de Jesus. não são arrancados às fainas da pesca em Cafarnaum. Há que ter em consideração que para as primeiras comunidades. 11 e Lc 7. foi batizado por João Baptista. 6-8 e 15 apenas como "testemunho da Luz" e como " o mais pequeno frente Àquele que já existia antes dele". ao contrário do que vem nos sinópticos. política e religiosa através do castigo e desaparecimento de todos os maus. 36-37: "O próprio David afirmou.. já na prisão do Maqueronte. inspirado pelo Espírito Santo: 'Disse o Senhor ao meu Senhor: Senta-te à minha direita. Este era o real João Baptista. muitos problemas porque o Baptista tinha muitos seguidores que faziam dele o Messias e não Jesus. O machado já está posto à raiz das árvores. atravessa-se a figura de João Baptista nos vv. seja dos cristãos. profeta austero do deserto. até que ponha os teus inimigos debaixo dos teus pés'. O que Jesus quer dizer é que qualquer cris tão. e eu diminuir"). a afirmação de Marcos . a que João Baptista não teve acesso. e. quando tal acontece. João já está na prisão. E é também por causa disso mesmo que o quarto evangelho dá tanto realce à pessoa de João Baptista ao longo dos primeiros três capítulos. 7-9.. 3). no evangelho de Mateus 3. Semelhante atitude é uma imagem para caracterizar as duas pessoas e os dois batismos. 11. de quem "não é digno de desatar a correia das suas sandálias" . isto é.desencadeou posteriormente uma reflexão cristológica seja em relação ao batismo de Jesus. que é um hino à pessoa do Logos .

Como o Espírito é indizível e invisível. E eu não o conhecia. trata-se da embalagem que envolve o presente. 9 e par. Em bom português.). e o presente é o Espírito e as palavras que saem da voz. Quanto à declaração da voz celeste dos evangelhos sinópticos: "Tu és o meu Filho muito amado"." Neste texto. os evangelistas ajuntam que o Espírito veio ao encontro de Jesus como uma pomba. A mesma afirmação aparece na cena da Transfiguração (Mc 9. BAPTISMO DE JESUS Como dissemos. ao expormos os vários critérios sobre os textos evangélicos para estudarmos a vida histórica de Jesus. o que significa uma ação passada e agora realizada: o Jesus que veio de Nazaré e foi batizado por João já era o Filho de Deus antes do batismo. ele vê os céus que se abrem e o Espírito a descer sobre Ele como se fora uma pomba e ouve a voz dos céus (do Pai) a classificá-lo: "Tu és o meu Filho muito amado. Como é que Jesus foi ter com João Baptista para se batizar. Estejamos atentos ao texto do quarto evangelista: "Eu [João Baptista] não o conhecia bem. O batismo de Jesus aconteceu historicamente e foi administrado por João Baptista. e afirma também duas vezes: "vi o Espírito descer sobre Ele". Pois bem: eu vi e dou testemunho de que este é o Filho de Deus. Mas isto não significa que Jesus se tornou Filho só a partir do Baptismo. trata-se de textos que embaraçaram os primeiros cristãos sobre a pessoa de Jesus." A teofania e as palavras saídas dos céus são uma parábola em ação ou uma encenação sobre a verdade da pessoa de Jesus. O adjetivo grego agapètos tanto significa "muito amado" como único. 19-20). em ti pus o meu encanto. se não tinha pecados? Se os evangelhos sinópticos nos falam do batismo de Jesus. um dos critérios era o do embaraço. da Transfiguração ou da Ressurreição. A sua pessoa ganha em identidade. João Baptista afirma duas vezes: "Eu não o conhecia". em sete traduz a idéia de filho único. Todas as tentativas dos evangelistas darem a volta ao texto é para fugirem à célebre questão do Baptismo de João Baptista estar relacionado com o perdão dos pecados. Em Mateus. mas por causa da pessoa de João Baptista. à imagem e semelhança das teofanias do AT e da literatura intertestamentária. apesar desse grande "handicap". Tanto o Baptismo como a Transfiguração não se podem entender sem o mistério pascal. mas sem resultados. Os autores procuram pesquisar na literatura bíblica e extra bíblica analogias sobre esta pomba. que das vinte e duas vezes que aparece no AT. literatura apocalíptica e textos de Qumran. faz de Jesus um Filho diferente de todos os outros filhos que aparecem na literatura do AT. mas tal batismo de Jesus não é administrado diretamente por ninguém. Trata-se dum "cliché literário" tal como os céus que se abrem e a voz dos céus que ressoa. em João. Lucas coloca João Baptista na prisão e só depois é que narra o batismo (Lc 3. já vimos que a forma dos quatro evangelhos narrarem o batismo de Jesus. emprega o verbo eudokein no aoristo grego. É a partir do seu batismo que Jesus entra no centro da macronarrativa evangélica. e desde que viu o Espírito a descer sobre Jesus fica a conhecê-lo como o Filho de Deus e como "Aquele que batiza com o Espírito Santo". Por isso. isto é. não pelo batismo em si. a condizer com a tradução grega dos LXX. temos uma pequena narrativa sobre o ser de Jesus como Filho de Deus relacionado com o seu batismo. diverge substancialmente. como 63 . E o evangelho de João é o que leva mais longe e mais fundo esta mesma verdade ao misturar o batismo de Jesus ligado exclusivamente ao Espírito com o batismo cristão: "Aquele sobre quem verdes descer o Espírito e poisar sobre Ele. Agora. e. E o fato da Transfiguração se ligar diretamente ao mistério pascal tem a ver com a verdadeira identidade de Jesus se revelar definitivamente no mesmo mistério pascal. ao sair das águas do Jordão. porque a declaração que se segue nos sinópticos: "em Ti pus o meu encanto". As duas afirmações teológicas mais importantes têm a ver com a descida do Espírito e com as palavras de identificação sobre o Filho. se comparada com o que vimos em relação com o contraste entre João Baptista e ele mesmo. Tanto o Espírito que desce sobre Ele como a voz celeste apenas confirmam com toda a autoridade divina a verdade de Jesus. E João testemunhou: "Vi o Espírito que descia do céu como uma pomba e permanecia sobre Ele. mas foi para Ele se manifestar a Israel que eu vim batizar com água". E entre esse conjunto de textos sobressai a narrativa do batismo de Jesus por João Baptista uma vez que o mesmo batismo tinha a ver com o perdão dos pecados. e Tu vens a mim?" (Mt 3. Qualquer doutrina adopcionista. é porque ele aconteceu e representa um ponto fundamental na sua vida. é o que batiza com o Espírito Santo". é o que batiza com o Espírito Santo. 14). Por outro lado. João Baptista pergunta a Jesus: "Eu é que preciso de ser batizado por ti.18. mas quem me enviou a batizar com água é que me disse: Aquele sobre quem virdes descer o Espírito e poisar sobre Ele.

como de purificação e conversão. Para Jesus. o diabo leva Jesus ao pináculo do tempo e oferece-lhe o espetáculo de ser agarrado pelos anjos se Ele se deitar dali abaixo. 4) é servido pelos anjos. numa perspectiva escatológica e apocalíptica em que Satanás tenta Jesus durante o tempo simbólico da prova (o número 40). O evangelho de Marcos é classificado como evangelho dos conflitos na medida em que Jesus. a doença. as leis e a tradição sobre o puro e o impuro. os seus próprios discípulos. as ondas encapeladas do lago. está sempre em conflito com os seus "inimigos". mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. dos anjos. Israel estava entregue a Satanás e seus demônios porque quem dominava Israel não era a teocracia do antigamente mas o império romano com a sua legião de demônios (Mc 5. Segundo a mentalidade judaica de então. 1-11) e dos treze de Lucas (4. ordena que estas pedras se convertam em pães". como acontece na nossa perícopa. Na terceira tentação. / A criancinha brincará na toca da víbora / e o menino desmamado meterá a mão na toca da serpente. Mas uma vez que Jesus é dominado pelo Espírito. que caracteriza a mundividência de Jesus. o mundo da luta entre o Espírito e Satanás. estava entre as feras e os anjos serviam. 32. / o novilho e o leão comerão juntos. O deserto é um tema tipicamente bíblico. tentação e morte. é este mesmo Espírito de Deus que o impele para o deserto. razão porque iremos estudar primeiramente as tentações segundo Marcos e depois segundo Mateus e Lucas. Marcos oferece-nos apenas dois versículos (1. " Na segunda tentação. Por isso. pensando trazê-lo para a sua política de morte. No deserto é tentado por Satanás. 9). Ao fim e ao cabo. / e um menino os conduzirá. Este conflito inicial no deserto durante quarenta dias (analepse simbólica de toda a história passada do povo de Israel) indicia o acontecimento que Jesus vai começar a realizar: o triunfo sobre tudo quanto não seja Espírito e vontade original de Deus. A narrativa de Marcos faz um todo com a do batismo através do advérbio temporal imediatamente: "Imediatamente. realizando-se. 1-18). os animais selvagens convivem em paz total com ele.13). Na primeira tentação diz-lhe o diabo por causa do jejum de 40 dias e 40 noites: "Se tu és o Filho de Deus. da conversão dos animais selvagens (símbolo da conversão messiânica). está estruturada em quatro afirmações: 1) Jesus vive no deserto durante quarenta dias.45. 3) convive com os animais selvagens. o diabo leva Jesus a um monte muito alto e oferece-lhe as 64 . desde o seu começo de vida messiânica. 16: "Não tentarás o Senhor teu Deus!". o Espírito impeliu Jesus para o deserto.35) e de tentação. 1. e o evangelho de João o seu prólogo ou hino ao Logos preexistente e incarnado no meio dos homens (Jo 1. / e as suas crias repousarão juntas. A narrativa coloca-nos. ao que Jesus responde com o texto do Dt 6. a narrativa da tentação. / o leão comerá palha com o boi. a profecia de Is 11. ao que Jesus responde com o texto do Dt 8. a narrativa de Marcos não deve ser estudada em contraste com os outros dois sinópticos. que tanto significa a terra onde habitam os demônios." O mundo de Jesus é o mundo do Espírito. Por isso. o sábado. 35. mas convive com os animais selvagens e é servido pelos anjos. não tem razão de ser. em Marcos. o narrador oferece-nos uma descrição de tipo simbólico. o deserto também tem estes dois significados: lugar de encontro com o Pai na solidão do deserto (Mc 1. tudo se resolve no contraste entre o Espírito e Satanás. 6-8: "Então o lobo habitará com o cordeiro. o Sinédrio e Pilatos. 12-13). Era tentado por Satanás. ou as pessoas: fariseus e saduceus. E é por isso mesmo que Mateus e Lucas antepõem à vida pública de Jesus os seus chamados evangelhos da infância.no. ao contrário dos onze versículos de Mateus (4. o Templo. / e o leopardo deitar-se-á ao lado do cabrito. Numa única frase. TENTAÇõES DE JESUS Há uma diferença fundamental entre a maneira de Marcos apresentar a tentação de Jesus no deserto e as de Mateus e Lucas." Uma vez que Jesus está cheio do Espírito. E ficou no deserto quarenta dias. terra de perdição. Os evangelhos de Mateus e Lucas oferecem-nos três tentações do diabo que têm como pano de fundo as tentações do povo judaico no deserto. Como já vimos. sejam eles os demônios.aconteceu em grupos cristãos dos primeiros séculos. Diante desta missão abrem-se dois caminhos: o de Deus e o de Satanás. assim. O autor quer significar que a vida de Jesus está totalmente na dependência do Espírito. 19. / A vaca pastará com o urso. 6. até à Cruz. 3: "Nem só de pão vive o homem. 2) é tentado por Satanás. mormente a de feição apocalíptica. Mateus e Lucas apresentam-nos a primeira narrativa da fonte Quelle. Jesus vai para o deserto meditar na sua missão a iniciar brevemente. então.

no séc. é fácil vermos que a sua reta final reside no c. teu Deus. na realidade. com Jesus. Ele. 32-39 e par. te tornar feliz. E é por causa disto que os historiadores e exegetas crentes e não crentes apresentam este Reino de Deus de diversas maneiras quanto à sua concretização. o Unigênito.Toma cuidado em não esquecer o Senhor. No AT. acumular a tua prata e o teu ouro e multiplicar tudo o que te pertence. teu Deus. REINO DE DEUS A partir de agora iremos tratar da doutrina central de Jesus. que hoje te ordeno.. VIII. o teu coração se tornaria soberbo e tu esquecerias o Senhor. Ao pregar o Reino de Deus. pois que.. vai introduzir-te numa terra ótima. Estes textos dizem-nos que Deus põe à prova o seu povo diante da aliança que estabelece com o mesmo: ou Deus ou os deuses pagãos. Reparemos que em Mt 4. o Filho de Deus. de grandeza humana. a partir de então. ou Deus ou a vaidade humana. que conquistou o Israel do Sul e. segundo a dimensão e os valores do próprio Deus? E como nós já sabemos que toda a vida messiânica de Jesus esteve sempre em conformidade com os valores do próprio Deus. E. é a questão do ser de Jesus como Filho de Deus. sobre o que é que entendia por Reino de Deus. 21. E estes capítulos têm a ver com a aliança entre Deus e o seu povo." A compreensão bíblica destas tentações resulta das respostas de Jesus. as chamadas tentações de Jesus mais não dizem do que a fidelidade do mesmo Jesus ao projeto do Pai. ouvir os seus queixumes. VI. bem definido. que tem a ver com o Reino de Deus. para te humilhar. ou Deus ou o orgulho do povo. observando os seus mandamentos. à maneira dos valores do diabo. que vai alimentar com o novo maná o seu povo (Mt 14. no futuro. Por isso. adorarás e só a Ele prestarás culto. como vimos atrás. romãs. ele não nos deixou um tratado doutrinal. 8. porque o mesmo Simão Pedro queria afastar Jesus da obediência ao Pai para o conduzir para um messianismo em contradição com o do Pai. Ao pegarmos nestes três capítulos. depois foi Nabucodonosor. cevada. preceitos e leis. realmente... 20. 65 .." em Mt 4. foi por isso que ele entrou em conflito com as instituições e com os vários grupos dos judeus do seu tempo. com os seus valores de vaidade e riqueza. 13: "Ao Senhor. ou a riqueza de Deus e o pão de Deus ou a auto-satisfação humana.6. terra de torrentes de água. figos. passaram pelas mãos dos babilônios.riquezas de todo o mundo se Jesus lhe cair aos pés e o adorar. Irá anunciar um messianismo de vaidade. mas foi fiel à nova aliança de Deus com o seu povo estabelecida através da sua própria pessoa. que está para entrar na Terra Prometida. onde Moisés proclama em nome de Deus: "O Senhor. o diabo se refere a Jesus duas vezes com este condicional: "Se tu és o Filho de Deus. 3. que te tirou da terra do Egito. Poderias dizer no teu coração: 'Foi a minha força e o poder do meu braço que me proporcionaram esta riqueza"'. Primeiro foi Sargão II.20. 10. também o disse a Simão Pedro em Mt 16. aumentar o teu gado miúdo e graúdo. Satanás. teu Deus.6-8. Então. está em prova a natureza do seu messianismo que ele vai começar a efetuar. persas. decidas construir boas casas para nelas habitar. agora. Foi Ele quem te alimentou neste deserto com um maná desconhecido dos teus pais. que não caia na tentação dos seus antepassados diante do teste ou da prova que Deus lhes dirigiu. e dar as respectivas respostas a esses queixumes e ansiedades de há séculos. nem às do Satanás... Poderíamos dizer que tudo quanto estudamos até aqui foi por causa disto mesmo. para te pôr à prova e. Moisés pede ao povo. há séculos que os judeus suspiravam por uma pátria livre dos estrangeiros. ou um outro messianismo. que nada mais são do que a citação de três textos do livro do Deuteronômio entre os cc. como também já expusemos mais do que uma vez. 13-21 e 15. O que está em causa é a natureza deste : se és o Filho de Deus. Não suceda que depois de teres comido e estares saciado. Ele é o verdadeiro Filho de Deus porque não cedeu às provas ou tentações dos antigos filhos de Deus. terra de trigo. Sem dúvida que Jesus tinha por intenção dizer aos judeus do seu tempo que a expectativa secular dos mesmos judeus por este Reino / Reinado/ Realeza / Soberania estava a chegar ou já acabava de chegar.. ao que Jesus responde com o texto do Dt 6. bem diferente do projeto dos homens. que jorram por vales e montes. Por isso. Mas. no séc. terra de azeite e mel. de espetáculo. é que quando disse a Satanás: "Vai. Jesus queria dizer aos seus ouvintes que o seu Deus ia. realmente. macedônios e.) e estabelecer a sua nova aliança na obediência ao Pai e não na obediência a Satanás. finalmente. teu Deus. Jesus passou os anos da sua vida de pregação e ação messiânicas a pregar o Reino de Deus. que conquistara o Israel do Norte.". O que está em causa. de fontes e de nascentes profundas. É que. 7. uvas. portanto. Agora. da casa de servidão..te.

aliás. Jesus abriu-o em Is 61.. porque o ano da graça do Senhor.. é agora que vais restaurar o Reino de Israel?" (At 1.dos romanos. absolutamente necessária ao texto de Isaías. ou como um zelote guerrilheiro. O evangelista Lucas não nos transmite este sumário.). 21-23. 21 e par. Mas a verdade é que ainda hoje há quem pense que Jesus tinha por intenção esmagar os inimigos dos judeus e os maus judeus através duma ação apocalíptica. ao que Jesus responde: "Não sabeis o que pedis.a mandar em liberdade os oprimidos. pois simbolizam toda a situação de degradação. mas que espelha bem o que é que Jesus entendia pelo tal Reino de Deus. Deus apresenta o seu mensageiro . só se concretizava se o povo fosse liberto dos seus inimigos pelo castigo correspondente contra esses inimigos. o mesmo Jesus se encarrega de mudar a linha de pensamento. sempre que os discípulos ou outras pessoas põem o acento tônico no messianismo político de Jesus para realizar o tal Reino de Deus. quando Jesus pergunta aos discípulos: "Quem dizem vocês que eu sou?". 1. e sereis minhas testemunhas em Jerusalém. mas queimará a palha num fogo inextinguivel" (Mt 3. a recuperação da vista. Logo. morte e ressurreição: "Deus te livre. aos cegos. Pedro responde: "Tu és para nós o Messias". Ao que Jesus lhe responde: "Afasta-te. Por isso. ao que Jesus responde: "Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. por toda a Judéia e Samaria e até aos confins do mundo" (Ac 1. Diante das grandes dificuldades e amarguras do exílio e pós-exílio. O machado já está posto à raiz das árvores. Ele tem na sua mão a pá de joeirar. O mesmo se depreende do pedido que a mãe dos filhos de Zebedeu faz a Jesus: "Ordena que estes dois meus filhos se sentem um à tua direita e o outro à tua esquerda. cheio do seu Espírito. É deveras interessante este texto de Lucas em 4. enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e. limpará a sua eira e recolherá o trigo no celeiro. muitos terão pensado numa libertação divina de teor político. Senhor! Isso nunca te ha de acontecer!" (16. contraditando. Em Mt 16. as palavras de Jesus sobre as suas afirmações acerca dos seus sofrimentos. o que corresponde a um tempo do exílio da Babilônia ou imediatamente ao pós-exílio. Basta considerar alguns textos. 15: "O tempo está completo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho. Mas o Jesus de Lucas não lê de maneira literária o tExto original de Isaías. 2-12 e par. O texto de Isaías encontra-se no chamado Trito Isaías. isto é." Mateus escreve mais ou menos a mesma coisa: "Convertei-vos. o que pensaram os seus próprios discípulos. inominado .2. porque se trata dum texto redaccional de Lucas. por tal motivo. precisamente por corresponder aos antípodas de toda a ação de 66 . quando os caros leitores pegarem em livros que apresentem Jesus como um revolucionário político. Satanás! Tu és para mim um estorvo. também devia entender aquela entrada como a de um Messias de salvação política. mas os dos homens!" (16. Seria pensar como. quem vos ensinou a fugir da cólera que está para vir?... aliás. lhe perguntem: "Senhor. a do Espírito Santo. porque os teus pensamentos não são os de Deus. pobreza e falta de liberdade em que vive o povo. Podeis beber o cálice que Eu estou para beber?" (20. que corresponde ao programa narrativo de Marcos e Mateus e o explicita através da citação de Isaías 61. cego e prisioneiro. levantou-se para ler as Sagradas Escrituras (a chamada haphtarah ou ashelematah) e o encarregado da sinagoga (o chamado hazzan ou shamash) lhe entregou o rolo das mesmas Escrituras. LembreMOS Mc 1. Os evangelhos sinópticos deixaram-nos vários sumários sobre a pregação fundamental de Jesus acerca deste Reino de Deus. na mentalidade do AT e neste caso concreto de Isaías. no teu Reino" (Mt 20. para infundir esperança ao seu povo classificado de pobre.). que descerá sobre vós. pois elimina a parte final : um dia de vingança para o nosso Deus. 25-26: "Hossana ao Filho de David! / Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor! / Hossana nas alturas". Mas Pedro estava a pensar num Messias de libertação política.aliás. Mas o Jesus de Lucas não refere esse dia de vingança contra os inimigos do povo. 23). A multidão que aclama Jesus na chamada "entrada triunfal em Jerusalém" com a citação do Si 118. cativo. sem paralelo com Marcos e Mateus. Escreve Lucas que Jesus entrou na sinagoga de Nazaré num sábado. mas substitui-o pela pregação inicial de Jesus na sinagoga de Nazaré. porque está próximo o Reino do Céu" (4. pensava João Baptista quando pregava: "Raça de víboras. 17). 16-30. lembrem-se destes textos e de como Jesus procurou desfazer todos estes mal entendidos.. porque me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres. Mas ides receber uma força.).. 6). que nós passamos a estudar. Como é fácil de ver. já depois da ressurreição. a proclamar um ano da graça (jubilar) da parte do Senhor". como era próprio da liturgia sabática daquele tempo. quando os ouvintes de Jesus o escutavam e ele lhes dizia que o Reino de Deus chegara. Nem admira que os doze apóstolos abandonem Jesus quando o vêem morrer numa cruz e que. Foi. 7-8). ou como um sublevador das massas populares daquele tempo. 22 e par. 22). Estas quatro classes sociológicas em que vive o povo são bem expressivas. 1-2 e leu: "O Espírito do Senhor está sobre mim.

para haver apenas o ano jubilar da graça para todos. como meio pedagógico de chamar a atenção dos responsáveis religiosos judeus para a tal conversão. Libertar do cativeiro é salvar do cativeiro. Além do mais. Mt 9. por aquilo que ele disse e fez em relação ao Reino de Deus. quem foi o Jesus real da história? Estas cinco controvérsias são chamadas apotegmas. tanto nas parábolas como nas ações. perdoar e não para castigar. Agora deixa de haver amigos e inimigos. O ano jubilar de Jesus corresponde ao Reino que ele pregou e viveu e deve corresponder ao nosso ano jubilar. Mt 9. 24. porque é o único texto do NT que refere o ano jubilar que estamos a viver. o ter enrolado novamente e o ter entregado ao funcionário. 9-13 e Lc 5. O verbo "libertar" diz o mesmo que "salvar". onde se narra a vocação de Levi ou Mateus. 3. à sempre debatida pergunta: mas. Segundo a narrativa. Jesus começa por dizer ao paralítico: "Filho. os teus pecados estão perdoados. ficamos a saber que Jesus. 10. O fato de Jesus convidar um homem destes para seu discípulo e apóstolo já era de si um autêntico escândalo." Os doutores da Lei que estavam presentes acharam que Jesus estava a blasfemar uma vez que só Deus é que tem poder para perdoar os pecados. está a proclamar o seu programa narrativo sobre o Reino ou Soberania de Deus. perguntando. 18). 6 e respectivos paralelos sinópticos em Mateus e Lucas. 14-15 e Lc 5. Mt 9. mas os pecadores. portanto. Trata-se duma libertação ao mesmo tempo política e religiosa em conformidade com o contexto de Is 61 e 58. Neste sentido é importante determo-nos um pouco na macronarrativa de Mc 2. agraciar. Se Jesus curasse apenas o paralítico já era algo de muito especial. 18-20 e par. Eu te ordeno: levanta-te. e. A terceira controvérsia e respectivo apotegma vem em Mc 2. Mas o escândalo adensa-se muito mais quando Jesus come com Levi e outros seus colegas publicanos. Trata-se da cura de um paralítico na casa habitada por Jesus. 13-17 e par. 5@ 31. na medida em que Jesus. judeus e pagãos. Já sabemos que estes judeus publicanos eram mal vistos pelos demais judeus. A identidade de Jesus passa. 26. Ac 2. trata-se da sua atividade como pregador. pega no teu catre e vai para tua casa. para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar os pecados. de maneira a verem as pessoas segundo o plano original de Deus e não segundo as observações e as tradições da Lei. E há que ressaltar este último aspecto do ano jubilar. aos discípulos de Jesus: "Por que é que Ele come com cobradores de impostos e pecadores?" A isto Jesus responde com o segundo apotegma ou declaração doutrinal sobre a sua própria pessoa: "Não são os que têm saúde que precisam de médico. " Pelos evangelhos fora. isto é. narrativas que têm por centro uma declaração de Jesus sobre a sua própria pessoa. O que é que Lucas pretende com esta libertação torna-se claro se tivermos em conta o verbo aphesin no v. que era um publicano ou cobrador de impostos.totalmente nova em relação a todas as demais personagens da Bíblia Hebraica. 6d: libertar os oprimidos. Trata-se de cinco controvérsias de Jesus com os seus inimigos fariseus e doutores da LeI. portanto. 1-3. 67 . que tem por pano de fundo a questão do jejum. E quando Jesus. mas cura-o apenas com a sua própria autoridade. Proclama alto e bom som: "Hoje mesmo se cumpriu esta Escritura que acabais de ouvir". ao contrário de todos os demais taumaturgos judeus e não judeus. A segunda controvérsia vem em Mc 2. que é a de Jesus. Mas a blasfémia está no fato de perdoar os pecados. tinha por hábito receber os marginalizados da sociedade judaica de então.Jesus: ele veio para salvar. 3. tidos por pecadores. Eu não vim chamar os justos. afirma a sua identidade . os presentes exclamam: "Nunca vimos coisa assim!". não reza a Deus para o curar. depois de ter lido o texto de Isaías. por isso. pois estavam ao serviço do império romano. 38. ou é livre e libertadora ou não é Igreja. libertação e salvação. onde apresenta a sua autêntica identidade. razão porque os doutores da Lei do partido dos fariseus o criticam. taumaturgo e exorcista. 47. ao que Jesus responde: "Pois bem. 1-12 e par. E estas três atividades de Jesus só aparecem e só se compreendem depois do batismo do mesmo Jesus em que o Espírito Santo de verdade e libertação que o possui também liberta os cativos políticos. mas sim os enfermos. como aparece claro em vários textos de Lucas (1. 18: libertar os cativos e libertar os oprimidos. O hoje de Jesus é o hoje da Igreja: um hoje de graça. Perante a fé dos que transportaram o paralítico para ser curado. 13. É nisto que consiste a sua novidade de identidade pessoal. 32-35. afinal de contas. Na pessoa de Jesus. 38. Responde. desta maneira." Perante esta afirmação ou apotegma colada à cura do paralítico. eram tidos por pecadores públicos. há ainda a acrescentar que Jesus introduz no seu texto isaiano a frase de Is 58. a nossa Igreja. 77. 27-32. 1-8 e Lc 5. 43. que vem acentuar um pouco mais a semântica da opressão ao texto de Is 61. 17-26. os doentes físicos e psíquicos dos seus males. o tempo desta controvérsia passava-se num dia em que tanto os discípulos de João Baptista como os fariseus estavam a jejuar. Por isso mesmo. Logo. A primeira controvérsia vem em Mc 2.

Segundo o que se lê no AT, os judeus jejuavam no dia das expiações ou do perdão (o célebre yom kippur: Lv 16, 29-31; 23, 26-32), e, ainda, em outros dias segundo as tradições devocionais (Ne 1, 4; Dn 9, 3: Salmos de Salomão 3, 8; Didaké 8, 1). Os evangelhos devem referir-se aos jejuns devocionais a que Jesus pura e simplesmente não ligava. A resposta de Jesus é, de fato, revolucionária, não tanto pelo fato de Jesus e os seus discípulos não jejuarem, mas pela causa que Jesus apresenta: "Poderão os convidados para a boda jejuar enquanto o esposo está com eles? Enquanto têm consigo o esposo, não podem jejuar. Dias vírão em que o esposo lhes será tirado; e então, nesses dias, hão de jejuar." O que Jesus afirma através da metáfora do esposo/noivo é que ele, a partir de agora, é esse esposo/noivo da nova humanidade e, sendo assim vem estabelecer os tempos da festa e não da tristeza. Os veLhos temas bíblicos dOs profetas sobre a festa ou o banquete e sobre o noivo (Is 25@ 6-8; 551, 1-21; 61, 10) realizam-se, agora, na sua pessoa. A força do texto consiste não tanto na apresentação da metáfora sobre as bodas e a festa, mas na definitiva presença do noivo. Convenhamos que é um arrojo inaudito, da parte de Jesus, propagar urbi et orbi que é ele o noivo da nova humanidade, quando as velhas profecias se referiam sempre ao próprio Deus. É mais uma afirmação enunciativa sobre a identidade de Jesus. A quarta controvérsia vem em Mc 2, 23-28 e par. Mt 12, 1-3 e Lc 6 1-5, que, desta vez, tem por detrás a sacralidade do sábado, que já estudamos anteriormente. Os fariseus queixam-se a Jesus pelo fato dos seus discípulos, através das searas, colherem espigas em dia de sábado. Jesus responde-lhes com o exemplo de David e termina com a afirmação solene: "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. O Filho do Homem até do sábado é Senhor." O que interessa a Jesus, segundo os evangelhos, é a importância da figura de David ter passado por cima duma lei sagrada das Escrituras Hebraicas. Se David o fez, com muita mais razão Jesus o poderia fazer. Sem dúvida que o dia de sábado era uma instituição sagrada para os judeus, só comparável ao próprio Templo, e a razão era deveras divina, já que Deus repousou no sábado (Gn 2, 2-3). Pois bem, se Jesus se auto proclama como Senhor do sábado, modIfica por completo o sentido bíblico e tradicional da sacralidade do sábado. Ser Senhor do sábado é uma outra afirmação ou enunciação teológica demasiado ousada porque nos apresenta a identidade de Jesus paralela à do próprio Deus. Assim como em Mc 2, 10 o Filho do Homem tem poder para perdoar os pecados, o mesmo se afirma, agora, sobre o próprio sábado. Nem devemos deixar passar em vão a força da partícula grega kai: "O Filho do Homem até do sábado é Senhor." Também devemos reparar na partícula grega conjuntíva de modalidade consecutiva HÔste: " ... de modo que o Filho do Homem é Senhor até do sábado." Finalmente, a quinta controvérsia e respectivo apotegma vem em Mc 3, 1-5 e par. Mt 12, 9-14 e Lc 6, 6-11. Trata-se também duma cura de Jesus em dia de sábado. Mas o apotegma doutrinal é um pouco diferente do que acabamos de estudar. Agora Jesus pergunta: "é permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou matá-la?" Enquanto que nas outras controvérsias, Jesus apresenta a sua doutrina de maneira afirmativa: "o Filho do Homem tem na terra poder para perdoar os pecados"... "Eu não vim chamar os justos mas os pecadores"... "Enquanto têm consigo o esposo não podem jEjuar"..."O Filho do Homem até do sábado é Senhor", nesta última apresenta-a de maneira interrogativa, como, aliás, acontece em muitos outros lugares evangélicos. Trata-se duma retórica dialogal em que o destinatário é interpelado a responder às suas próprias dúvidas. O que Jesus quer significar nesta quínta controvérsia com a interrogação: "É permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal, salvar uma vida ou matÁ-la?", é responder a um ponto fundamental que tem a ver com a natureza ou a identidade do próprio Deus, uma vez que para o Deus da Bíblia, a vida é só uma: a terrena e a escatológica. Deus é a VIDA por excelência e quer que os seus filhos também a possuam. É o que afirma o Jesus do quarto evangelho em 10, 10: "Eu vim para que tenham a vida e a tenham em abundância". Nestas cinco controvérsias e respectivas afirmações ou apotegmas de Jesus sobre a sua própria pessoa temos a primeira Cristologia de Jesus. Estamos com o Jesus histórico e não com o Jesus Cristo da Ressurreição, mas neste Jesus histórico já reside toda a Cristologia posterior. Não existe nenhuma contradição entre o Jesus da história e o Cristo da Ressurreição, Senhor e Salvador. E é por isto mesmo que estas cinco controvérsias, segundo Marcos, acabam com a narrativa dos fariseus se reunirem com os partidários de Herodes para deliberarem como haviam de matar Jesus. Quem leva Jesus à morte são as suas próprias afirmações dogmáticas sobre a identidade da sua pessoa. E desta identidade Jesus nunca fugiu nem podia fugir.

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21. MILAGRES DE JESUS E REINO DE DEUS Os milagres fazem parte integrante da ação de Jesus, uma vez que ele não se limitou apenas a anunciar a vinda do Reino de Deus através de pequenos discursos e parábolas, mas também pela ação libertadora das curas, a que nós chamamos milagres. Tem havido historiadores e até exegetas bíblicos que não dão grande valor aos milagres de Jesus por os julgarem um assunto do mundo mitológico. Mas semelhante atitude não é séria. Seria pôr de lado uma quantidade muito signiFicativa das narrativas evangélicas. Há, no entanto, também autores que vêem a pessoa de Jesus apenas como um taumaturgo ou um carismático curandeiro, ao lado de tantos outros carismáticos curandeiros judeus e não judeus daqueles tempos. São dois extremos que nada condizem com o real significado dos milagres de Jesus. Por isso, os milagres evangélicos não são simples narrativas de tipo jornalístico, como diríamos hOje, uma vez que a historiografia daquele tempo era bem diferente da de hoje. Comecemos por reparar que no AT há poucos milagres. Nem os patriarcas, nem os profetas faziam milagres, se excetuarmos Elias e Eliseu. Os grandes feitos de Moisés relacionados com as célebres pragas do Egito no livro do Êxodo 7-14 ou com o maná em Ex 16 não sÃo curas nem milagres, mas interpretações "teológicas" de realidades naturais. A atividade taumatúrgica de Jesus é de outra ordem. E devemos começar por afirmar que Jesus realizou realmente curas ou milagres porque são os seus próprios opositores que o corroboram ao querereM explicar essas curas e exorcismos pela ação de Beelzebu. Segundo Mt 12, 22-24 e par. Lc 11, 14-15, depois de Jesus ter curado um cego e mudo, as pessoas que viram tal milagre exclamavam: "Não é este o Filho de David?", ao que os fariseus logo juntaram: "Este expulsa os demônios porque está feito com Beelzebu, o príncipe dos demônios." De seguida, o próprio Jesus vai dizer-lhes: "Se eu expulso os deMónios por Beelzebu, por quem os expulsam os vossos filhos" (Mt 12, 27)? Esta narrativa é realmente muito estranha e tem todo o sabor de narrativa histórica. Por ela ficamos a saber que a doença de um surdo e mudo (Lucas diz apenas mudo) era fruto dum demônio, tal como aparece também em Mt 9, 32, e que aquilo que Jesus fazia também outros o faziam. o povo estava, portanto, familiarizado com a atividade dos exorcistas e carismáticos. Assim sendo, há que estudar o assunto com respeito e sentido criterioso. Dos quatro evangelhos, é o de Marcos que mais realça os milagres de Jesus. No evangelho de João, não se trata de milagres, mas de sinais", e tudo indica que os doze primeiros capítulos do evangelho de João, onde se narram os sete "sinais", dependem duma fonte da tradição histórica, onde o quarto evangelista vai beber as suas informaçÕes sobre os tais sinais, a que chamamos a "fonte dos semeia ou sinais". E o que distingue substancialmente os sinais de Jesus no evangelho de João dos milagres nos evangelhos sinÓpticos é precisamente a caraterística simbólica-teológica do quarto evangelho. Daqui advém que cada evangelista tem a sua tonalidade própria e significativa ao narrar os milagres de Jesus. Para Marcos os milagres significam a luta de Jesus contra Satanás. É o próprio Jesus que o afirma em Mc 3, 23-27 com esta parábola dirigida aos seus opositores que o acusam de curar as pessoas por estar feito com Satanás: "Como pode Satanás expulsar Satanás? Se um reino se dividir contra si mesmo, tal reino não pode perdurar; e se uma família se dividir contra si mesma, essa família não pode subsistir. Se, portanto, Satanás se levantou contra si próprio, está dividido e não poderá subsistir; é o seu fim. Ninguém consegue penetrar em casa de um homem forte e roubar-lhe os bens sem primeiro o amarrar; só depois poderá saquear-lhe a casa." Para Marcos, portanto, Jesus é o mais forte que vem prender o forte, isto é, Satanás, que dominava a sociedade. Em Mateus, os milagres têm menos força do que a palavra e apenas querem explicar a força da mesma palavra. Por isso, Mateus apresenta-nos cinco grandes discursos de Jesus e os milagres - embora importantes -, decorrem da ação da mesma palavra. É paradigmático o resumo de Mt 4, 23: "E [Jesus] percorria toda a Galiléia, ensinando nas suas sinagogas e pregando o evangelho do Reino e curando toda e qualquer doença e enfermidade do povo"(o mesmo em Mt 9, 35). Finalmente, no evangelho de Lucas, os milagres de Jesus realizam o programa narrativo que ele apresenta no cap. 4, 16-30, que já estudamos: Jesus veio para "anunciar a Boa Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos, dar a vista aos cegos, pôr Em libErdade os oprimidos e proclamar o ano jubilar do Senhor". Em conclusão, os milagres de Jesus, na intenção de cada evangelista, não valem por si mesmos, mas pelo que simbolizam e significam no contexto cristológico e teológico do anúncio do tal Reino de Deus. Para haver Reino ou Soberania de Deus não deve haver doença, opressão, dores e lágrimas. Pois bem, os milagres de Jesus definem e simbolizam um aspecto importante deste Reino de Deus. Um outro aspecto importante nos milagres de Jesus é repararmos que o mesmo Jesus não dava valor aos seus milagres como fatos extraordinários. Quase dá a entender que não 69

gostava lá muito desta sua ação taumatúrgica. No quarto evangelho Jesus diz expressamente: "Se não virdes sinais e prodígios, não acreditais" (4, 48). Em Mc 8, 11-12 e par. de LC 12, 5456 e Mt 16, 1-4 os fariseus pedem um sinal/milagre a Jesus, de ordem extraordinária, para poderem acreditar nele, ao que Jesus, profundamente entristecido, lhes responde: "Por que pede esta geração um sinal? Em verdade vos dIgO: sinal algum será concedido a esta geração." Nos três evangelhos sinópticos aparece o chamado "segredo messiânico" relacionado com o silêncio que Jesus impõe aos miraculados e parentes e, bem assim, aos próprios endemoninhados já curados. Em Mc 1, 32-34, depois de Jesus curar muitos doentes físicos e psíquicos, a narrativa termina assim: "... e ele não deixava que os demônios pudessem falar uma vez que eles o conheciam." Em Mc 1, 40-45, Jesus impõe o silêncio a um leproso curado com estas palavras: "Tem cuidado em não dizeres nada a ninguém ... ". Em Mc 5, 37-43, o evangelista descreve a cena da ressurreição da filha de Jairo, com as recomendações finais: "Recomendou- lhes vivamente que ninguém soubesse do sucedido...". Em Mc 7, 31-36 descreve-se a cura de um surdo-mudo e Jesus "iMpôs aos presentes que a ninguém revelassem o sucedido". Em Mc 8, 26 Jesus dá a seguinte ordem a um Cego que acaba de curar: "Não entres sequer na cidade!". mas Jesus também impõe o segredo messiânICo aos prÓprios discípulos quando se trata da identIdade da sua pessoa COmo Messias e Filho de Deus (Mc 8, 30 e Mc 9, 9 e par.). A pergunta que se impõe é esta: como explicar semelhante "segredo Messiânico?" Não vimos já que em Mc 2, 1-36, o pRÓprio Jesus realizou alguns milagres e manifestou através dos chamados "apotegmas" a sua própria identidade de Filho dO Homem que tem na terra poder de perdoar os pecados, de ser o SenhoR do próprio sábado, de ser o noivo da nova humanidade? E por que é que, agora, proÍBe os endemoninhados curados, os doentes curados e seus familiares e, até, os seus próprios discípulos, de o aclamarem como taumaturgo de Deus? A resposta que imediatamente nos parece ser a mais consentânea com a intenção dos evangelistas e, através deles, do próprio Jesus, é que Jesus não queria passar por um simples taumaturgo curandeiro à maneira de tantos outros curandeiros e carismáticos daquele tempo. Os milagres, só por si, prestavam-se a ambigüidades sobre a identidade de Jesus. Para os gregOs daquele tempo, um carismático milagreiro passava por ser um Theosanèr, Isto é, um homem divino diante do qual toda a gente se curvava em adoração e admiração. Para estes "homens divinos" o que estava em questão eram os feitos extraordinários, mas nÃo a fé. o mesmo se diga dos judeus se tivermos em conta os tais feitos extraordinários de Moisés, Elias e Eliseu, Razão porque S. Paulo escreve na 1Cor 1, 23: "Enquanto os judeus pedem sinais e os gregos andam em busca da sabedoria, nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios." Os evangelhos sinópticos - e, especialmente Marcos -, apresentam- nos o "segredo messiânico" não por causa de qualquer estratégia "cristã", mas por causa da estratégia do próprio Jesus. Ele quer que o aCeitem na fé e não por causa de feitos extraordinários de curas e milagres. Por isso é que não fez muitas curas, numericamente falando. Nos evangelhos encontramos apenas umas vinte narrativas de curas e de exorcismos, se excetuarmos os chamados relatos -sumários, que nos apresentam as curas em massa (Mc 1, 32-14 e par.; 3, 7-12 e par.; 6, 53-56 e par.). E também é por causa disto Mesmo que Jesus, muitas vezes, antes de fazer o milagre, pergunta pela fÉ das pessoas (Mc 2, 5 e par: "VEndo Jesus a fé daqueles hoMens..."; Mc 5, 34 e par: "Disse Jesus à mulher: Filha, a tua Fé salvou-te; vai em paz e sê cuRada do teu mal"'... Mc 5, 36 e par.: "NãO tenhas receio; crê somente" ... Mt 15, 28 e par.: "ó mulher, grande é a tua fé. Faça-se coMo desEjas." ... Mc 9, 23 e par.: "Tudo é possível a quem crê". Em sentido contrário, Jesus ressente-se do fato dos seus concidadãos de Nazaré não acreditarem nele. Segundo o dizer de Mc 6, 6 e par. ELE [Jesus] estava admirado com a falta de fé daquela gente. Modernamente alguns exegetas bíblicos apresentaram a tese de que este segredo messiânico de Marcos tinha a ver com a posição cristã do mesmo Marcos contra uma certa idéia triunfalista de muitos cristãos da Igreja primitiva que desprezavam a Cruz de Cristo e só viam o triunfo do Jesus Cristo, profeta e sábio de Deus, vencedor da morte pela sua Ressurreição, que iria trazer a paz total com a sua sobErania divina .através da parusia iminente. Diante das perseguições de Nero e da divinização dos imperadores romanos, Jesus iria dar a sua resposta de Triunfalismo messiânico sobre romanos e imperadores. Contra esta corrente cRIstã é que Marcos terá escrito, em Roma, o seu evangelho. Seria também por isso que Marcos não apresenta nenhum texto da fonte Quelle, dE que já falamos, e nenhuma narrativa das aparições do Ressuscitado. Só lhe interessa a Cruz de Cristo, diante da qual o centurião romano faz a sua profissão de fé: "Verdadeiramente este homem era Filho de Deus!" (Mc 15, 39). 70

4: "Mais forte que o bramido das ondas caudalosas. a política e a religiosa. é partilhada pelos evangelhos sinópticos" mas é importante notar que no quarto evangelho não há qualquer exorcismo de Jesus. naquele tempo. ameaçadores e assassinos. temperada e forte. Os evangelhos sinópticos estão muito mais de acordo com a mentalidade popular de então sobre as doenças e demônios. 28). Quanto aos milagres ou curas de doenças físicas. libertador político e soberano de Deus neste mundo. Lemos no SI 93. serpente fugidia. e ele põe-se a espumar. que hoje classificamos de foro psicótico. que. Mas para os judeus e cristãos daquele tempo não se faziam estas distinções porque a realidade era uma só. 1: "Naquele dia. 1: "Vi. mas para o homem do AT e do NT a realidade de Deus é uma e única. O que interessa é o sinal e não o fato em si mesmo. um novo céu e uma nova terra. Jesus curou um paralítico. uma vez que não havia Messias sem sEr da linhagEm de David. e não da medicina. mas transmitir uma mensagem: a de que os poderes caóticos e maléficos estão submetidos a Jesus. o monstro Leviatã. serpente sinuosa. cegos e coxos.Não cremos que esta tese tenha alguma base sólida. Todos estes "milagres" são sinais simbólicos do poder divino de Jesus. 14-27 e par. Esta mistura entre demônios e doença pertence às representações antropológicas e cosmológicas daquela época. 71 . SI 74. Quando se apodera dele. Tudo gira à volta do significado Da pessoa do Messias. Realmente. Já vimos que no tempo de Jesus havia muitos carismáticos ou taumaturgos. como todos sabemos. as curas eram todas fruto de homens santos." Não há dúvida de que estas descrições nos apresentam o quadro clínico de um epiléptico. atira-o ao chão. que provocam o sofrimento fisico e psíquico. e no Ap 21. trouxe-te o meu filho que tem um espírito mudo." O AT fala muitas vezes do monstro marinho chamado Leviatã como personificação de todas as forças ameaçadoras (Is 27. A pessoa do Messias. o evangelista apresenta-nos o quadro clínico de um jovem levado à presença de Jesus: "Mestre. através da sua pessoa. é que obriga Jesus a impor o segredo messiânico aos discípulos. Mesmo assim." No paralelo de Mt 17. é o SENHOR lá nas alturas". Por isso. o pai do rapaz diz a Jesus: "o meu filho é lunático (selèniadzetai) e está muito mal. A crença do demônio.". 14. e essa tinha a ver com o mundo de Deus e não com o mundo dos homens. isto é. porque. o mar é o símbolo dos poderes maléficos. Reparemos apenas na caminhada de Jesus sobre as águas em Mc 6. Por causa dos ataques repentinos em que o doente ficava inconsciente pensava-se que existia uma ligação mágica entre a doença e a Lua. a ranger os dentes e fica rígido. os seres humanos são dominados por demônios. por ser ambígua. O mesmo acontecia com os endemoninhados ou possessos do demônio por causa das caraterísticas da doença. na ressurreição de Lázaro. déspotas terríveis. mais poderoso que o rebentar das vagas. Para provarmos a existência real dos milagres de Jesus temos que distinguir entre milagres da natureza e milagres de curas físicas e psíquicas. Nestes milagres da natureza mistura-se o real com o ficcional. Em Lc 14. Nem podia ser doutra maneira. existente no mundo antigo. 104. o que significa que estamos diante de tradições distintas. Só quando a ciência deixa de explicar a cura é que se pode chamar "milagre". o SENHOR ferirá com a sua espada grande. cf. vamos continuar a estudar os milagres de Jesus na sua real dimensão relacionada com o Reino de Deus e com a figura messiânica de Jesus. na caminhada de Jesus por cima das águas. 1-12 e par. pois o primeiro céu e a primeira terra tinham desaparecido e o mar já não existia. são os próprios evangelistas que nomeiam diferentes doenças. "De acordo com estas representações. para além das suas virtudes heróicas. o Messias teria que se apresentar com as duas vertentes. o histórico com o imaginário. É fato que a ciência moderna está a pôr em causa esta visão clássica do milagre porque já não existem as tais leis científicas da natureza como se pensava há alguns anos. Em Mc 9. em Mc 2. 16-21. cai freqüentemente no fogo e muitas vezes na água. e matará esse dragão do mar. o monstro Leviatã. Hoje falamos de leis naturais e falamos de milagre quando a cura vai para além das tais leis da medicina ou da ciência. então. Ainda hoje os nossos irmãos judeus continuam a pensar mais ou menos da mesma maneira. Não se tratará duma lenda porque só nas lendas é que as pessoas caminham sobre as águas? O que devemos responder é que a intenção dos narradores evangélicos não é contar um evento miraculoso. 2-4 Jesus curou um hidrópico. Mt 14. Outros textos falam da cura de leprosos. Os milagres de natureza não têm a mesma realidade ou objetividade histórica que as curas físicas e psíquicas. e é também por isso que nenhum católico pode ser beatificado e canonizado sem a apresentação dum milagre de Deus. 22-33 e Jo 6. Pensemos na multiplicação dos pães. 15. judeus ou não judeus. não existia. 45-52 e par. É por isso que existe em Lourdes e Fátima uma comissão de médicos para estudarem cientificamente os milagres. nas bodas de Caná em que a água é transformada em vinho. Por isso tratava-se duma doença sagrada. aos curados e seus familiares e aos endemoninhados. Para o comum dos judeus. segundo a mentalidade judaica e do Médio Oriente.

embora toda a Bíblia tenha a ver com história. Já sabemos que tanto o AT como o NT se servem de formas literárias que têm a ver com o figurativo e não com o concetual. É como um rei que tenha perdido na sua casa um objeto de ouro ou uma pérola preciosa. 22. fenômenos naturais. 25 e par. Isto significa. Jesus é o terapeuta do corpo e do espírito. porque através duma parábola o homem pode chegar a compreender a Torá. de abandono e terror. mas também em muitos católicos fundamentalistas. a personificação. Por isso. só encontramos dois relatos de exorcismos nos sinópticos : Mc 1. edificou-lhe uma torre de vigia. O exegeta católico Joachim Gnilka fala desta maneira sobre toda a problemática dos demônios e das doenças dos nossos evangelhos: "Será possível encontrar explicações mais precisas para esta atividade. Assinalou-se que as guerras. construiu um lagar. O projeto de existência e de vida assim delineado afecta o ser humano que se encontra numa situação de extraordinária opressão. .lhe as pedras. pensou-se em anomalias extraordínárias e terríficas. reparemos apenas nalgumas metáforas dos Salmos que nos caracterizam a pessoa de Deus: Deus é uma "torre forte" (SI 9. a opressão. neuróticos profundos. Os seus exorcismos atuam de forma libertadora sobre as pessoas que se encontram nesta situação difíCil. para que a nova humanidade tenha vida e paz. 1). PARÁBOLAS E REINO DE DEUS Vamos agora procurar compreender o que é que Jesus queria dizer com a pregação sobre o Reino de Deus ou Soberania de Deus através das suas parábolas. utopias. a "mulher encurvada por causa de um espírito" em Lc 13. os jogos de palavras. então. o romance. Os rabinos diziam: "Não seja a parábola qualquer coisa de insignificante aos teus olhos. alímentação e proteção. sobretudo quando se trata de doenças ou perturbações psíquicas. neurasténicos. A crença em demônios compreende-se. onde as nutre e as protege. encantos. a metáfora. tal como acontece com a história do amor e dos sentimentos. a poesia. um "refúgio na montanha" (SI 18. como algo provocado por sentimentos de temor e solidão. a apocalíptica e a história.e uma vez mais o afirmamos. confundindo disfunções psicóticas com diabos e demônios. o SI 23 apresenta Deus como um pastor e o seu povo como ovelhas que Deus conduz a boas pastagens. O mesmo acontece com a alegoria da vinha em Is 5. e Mc 5. Jesus não criou esta situação. doenças. mas reparemos também que a ação dos demônios não está associada ao pecado. a ironia. católicos ou evangélicos. loucura. ou no fenômeno de perda de identidade. 1). que também se fala de possessos nalgumas doenças fíSicas: assim o "possesso mudo" de Mt 9. A literatura bíblica é estruturalmente imagética e figurativa. 23.28 e par. Ela já existia. plantou-a de bacelo escolhido. 13). a alegoria. 32. a Bíblia usa muitas formas literárias: o mito. 1). ainda. Esta maneira de falar de Deus nada tem a ver com a maneira concetual dos gregos de apresentar Deus como o SER supremo ou a causa primeira. Da passagem da metáfora do "pastor" passa-se à alegoria das pastagens. E nada melhor do que uma literatura imagética e figurativa para veicular esta história. 2). ao contrário da doutrinação filosófica dos gregos. mas duma historiografia bíblica. um "pastor" (SI 23.se excetuarmos os "sumários". para que fique bem claro -. o símbolo. Ao fim e ao cabo. a que também chamamos "seitas". não a poderá encontrar servindo-se apenas duma lâmpada de pequeno valor? Assim também a parábola não deve ser 72 . 1-20 e par. tirou. Para melhor percebermos tudo isto. Esta mentalidade está muito presente nalgumas novas igrejas. a "filha possessa de um espírito maligno" da siro-fenícia de Mc 7. que não estamos diante de uma historiografia à maneira da historiografia científica dos nossos dias. Terminamos este assunto chamando a atenção aos fundamentalistas cristãos. a saga. como já temos afirmado várias vezes. sonhos. 9). a Bíblia é um romance de amor entre Deus e os homens com os seus dramas. 11. a miséria são capazes de intensificar e provocar nas pessoas simples o medo do demônio. Notemos. E se a Bíblia é um grande romance de amor entre Deus e a humanidade. fraquezas e fidelidades. para que tenham o cuidado de não ler a Bíblia à letra. um "escudo" (SI 3. uma "luz" (SI 27. uma "rocha" (SI 28. ainda existente em povos "primitivos"? Nos casos de possessos do demônio. O que interessa a Jesus é libertar as pessoas das suas doenças. Só no fim é que falei de história. da qual ele dificilmente será capaz de se libertar. a hipérbole. traições. Os demônios são projecções objetivadas destas experiências terríveis. como afirmamos há pouco. sejam de ordem física ou psíquica." Esta introdução serviu para melhor compreendermos o porquê das parábolas de Jesus. que tem a ver com a salvação e a fé. especialmente em doentes dos nervos ou mentais. êxtase. 1-7: da passagem da metáfora de Deus como dono da vinha passa-se à alegoria dos cuidados que Deus tem com a vinha: "cavou-a. sob a forma de sonhos.

a sua palavra e o Reino de Deus. Os estudiosos perguntam-se se Jesus utilizou o método parabólico porque já era muito comum entre os rabinos do seu tempo ou se Jesus teria sido original na utilização desse método. Deixa imediatamente as noventa e nove e procura a ovelha perdida. porque este meu filho estava morto e reviveu." Por estas parábolas. Os rabinos serviam-se das parábolas para se compreender a Torá. Lucas apresenta a pessoa de Jesus como Aquele que procura ou vai ao encontro da pessoa perdida e. Não foi Jesus que expôs estas cinco parábolas no mesmo dia e no mesmo espaço: "à beira mar e sentado num barco" (4. Por isso devemos distinguir entre semelhança. põe-na aos ombros e. não faz como Marcos e Mateus que a apresentam estando Jesus junto ao mar e sentado num barco. Lucas apresenta a parábola separada de todas as demais e em circunstâncias diferentes das de Marcos e Mateus. a da lâmpada. a da dracma perdida e a do filho perdido ou filho pródigo. Quando apresenta a parábola do semeador (8. e. faz uma grande festa. A pergunta tem razão de ser porque as parábolas dos rabinos estão contidas no Talmude cuja compilação é do séc. 15. à pequena história como parábola."' Os pecadores representam. C. dizendo: 'Este acolhe os pecadores e come com eles. é a Palavra de Jesus." O mesmo acontece com a mulherzinha quando encontra a sua dracma perdida: " . funde nesta mesma Palavra as parábolas da lâmpada e da medida (vv. com o fim de apresentar uma mensagem. a do fermento. o pai diz aos seus servos: vamos fazer um banquete e alegrar-nos. descobrindo aí a identidade. metáfora e parábola. As parábolas da dracma perdida e do filho perdido são exclusivas de Lucas. ao chegar a casa.. e de todas as cidades viessem ter com ele. enquanto que a parábola apresenta um caso singular e único. a do tesouro e da pérola e a da rede. 73 . enquanto que Jesus se serve delas para compreendermos o Reino de Deus. porque encontrei a minha ovelha perdida. porque encontrei a dracma perdida. neste caso. contudo. convoca os amigos e vizinhos e diz-lhes: "Alegrai-vos comigo. quando a encontra. mas o evangelista Marcos que assim o entendeu por razões catequéticas. 1-8). O mesmo faz Mateus em todo o capítulo treze com a apresentação de sete parábolas: a do semeador. Assim acontece com as cinco parábolas de Marcos em Mc 4. sem se referir. 15 com a apresentação de três parábolas seguidas umas às outras: a da ovelha perdida." E quanto ao filho perdido. 4: "Como estivesse reunida uma grande multidão.. a do trigo e joio. Lucas segue o mesmo esquema catecquético de Mateus e Marcos no seu célebre cap. seguida de outras parábolas. que tem a ver com a realidade concreta do contador ou narrador. uma parábola é uma história fictícia. O pastor tem cem ovelhas e perde uma. Mas os fariseus e os doutores da Lei murmuravam entre si. porque graças a uma parábola um homem pode chegar a compreender a Torá".qualquer coisa de insignificante aos teus olhos. Reparemos que Mateus tem aqui três parábolas que só aparecem no seu evangelho: a do trigo e do joio. 1). Se tivermos em consideração o princípio da narrativa deste cap. estava perdido e foi encontrado. quando a encontra. portanto. enquanto que os fariseus e doutores da Lei representam o filho mais velho. esta: Jesus falou muitas vezes em parábolas para chamar a atenção dos ouvintes sobre a sua pessoa. 33). Mas à parábola do semeador junta a da lâmpada e a da medida de Marcos e Mateus. a personalidade e a consciência do próprio Jesus.16-18). a da pérola e a da rede. Lucas segue um sistema diferente. portanto. os evangelhos sinópticos estão cheios de parábolas e é por elas que devemos ir ao Jesus da história. a do grão que germina e a do grão de mostarda. como se lê no v. E esta atitude de Jesus caiu de tal modo na tradição da pregação das igrejas primitivas que os próprios evangelistas as dispõem em unidades literárias catequéticas. disse esta parábola". a ovelha perdida. mas agora reencontrados e salvos para o Reino de Deus com os quais o próprio Deus faz uma grande festa. E já sabemos que o ensino parabólico é muito mais significativo do que o ensino discursivo. Em qualquer parábola há aquilo a que os autores chamam o "tercium comparationis" ou o termo de comparação entre a realidade da história parabólica e a realidade da mensagem do autor da mesma parábola. a imagem aparece sempre da mesma maneira: o fermento leveda sempre a farinha (Mt 13. A conclusão é. IV d. Seja como for. À luz da ciência da linguagem. a da medida. a do grão de mostarda. Na semelhança. convoca as amigas e vizinhas e diz: 'Alegrai-vos comigo. A tradição condensou umas tantas parábolas e os evangelistas apresentam-nas nos seus evangelhos dispondo-as de acordo com a tradição catequética e com a sua própria catequese. a dracma perdida e o filho perdido. que. São classificadas de parábolas da misericórdia porque apresentam a mesma tipologia. que é sempre a primeira. A semelhança apresenta uma situação típica ou regular. que não aceita o regresso do irmão perdido. Como ele interpreta de maneira alegórica a parábola do semeador em função da Palavra de Deus. 1-34: a parábola do semeador e a sua respectiva explicação. o pai dá sempre coisas boas aos filhos (Lc 14. facilmente percebemos porque é que o Jesus de Lucas narra estas três parábolas: "Aproximavam-se dele todos os cobradores de impostos e pecadores para o ouvirem.

Mas Jesus chamou a tais "milagres" tentações. retirada dos contextos em que aparece usualmente.. Por isso. Jesus apresenta a parábola num contexto de fracasso: a maior parte da semente perde-se e apenas uma pequena parte vinga em bom terreno para proporcionar uma boa colheita. Se Jesus anunciava continuamente que este Reino estava próximo a chegar. temos que compreender as parábolas como chegaram até nós na redação dos respectivos evangelistas. em si. "pastor". o que é que ele oferecia como dados observáveis ou como critérios para que o povo visse a verdade deste Reino de Deus? Geralmente responde-se que Jesus oferecia o critério ou as razões dos seus milagres.. 3-6 e par. conforme a explicação alegórica que se segue. como ficou claro com os exemplos que apresentamos em cima. e. "refúgio na montanha". coxos e leprosos.. diante de tais feitos. mas que. enquanto que a parábola se refere àquilo que acontece uma vez. Se Jesus expulsava os demônios. A que fracasso se refere Jesus? Precisamente ao fracasso da sua pregação sobre o Reino.. em terra cheia de espinhos e que só uma pequena parte cai em boa terra dando fruto cem por cento? Referir-se-á Jesus à sua palavra. como entre os gregos e romanos. Mas terá sido esta a intenção primeira e histórica de Jesus? Tudo dá a entender que não. para não dizer de maneira muito triunfalista. acreditam por algum tempo. desta forma. "torre". tal como eles esperavam. parece ser um autêntico fracasso. apresenta um significado diverso. tanto para o tempo de Jesus como para todos os tempos.). mas vêm as provações que tudo deitam a perder. Os seus ouvintes acham que nada acontece de real.. estabelecer o Reino de Deus. Para explicar este paradoxo e este "mistério" é que Jesus se serve das parábolas. 35-40.10. acabaram por concluir que aquele profeta de Nazaré tinha mesmo o poder de Deus e. Depois desta longa introdução sobre as parábolas de Jesus temos que voltar à pergunta: o que é que as parábolas de Jesus nos querem dizer sobre a sua pessoa e sobre o Reino de Deus? Como ficou mais ou menos claro no estudo que fizemos à questão sinóptica e aos três estádios da elaboração dos evangelhos sinópticos. A semelhança refere-se àquilo que é universalmente válido. ou que já estava no meio deles. Na mentalidade do povo. na dependência da transmissão oral.. 19 e par. muitos outros. deita-te daqui abaixo. no fim. que tem a ver com uma palavra que. a semente que cai à borda dos caminhos são os que ouvem a palavra. Isto tem muita importância porque os judeus. Embora a parábola contenha semelhanças dentro de si mesma. Esta alegorização transforma a parábola inicial em doutrinação e catequese. a parábola. através de três vertentes ou três dimensões: a dimensão histórica ou primeira de Jesus frente aos seus interlocutores. 33-37. 6) e o povo em geral. a tradução comum da abertura de muitas parábolas por: "O Reino de Deus é semelhante. Reparemos que as primeiras parábolas de Jesus. Também devemos distinguir entre parábola e alegoria porque a parábola só apresenta um termo de comparação enquanto que na alegoria cada imagem significa uma realidade distinta.). na orgânica dos respectivos evangelhos. os próprios apóstolos (Mc 9. O que é que Jesus pretende com aquela história do camponês que vai semear a sua semente. como já vimos. só aparecem depois de Jesus já se ter manifestado como um grande taumaturgo. Extraordinários seriam os milagres de Jesus se ele tivesse concretizado o pedido de Satanás: converte estas pedras em pão . não é uma semelhança. É o caso dos exemplos que apresentamos há pouco sobre a identidade de Deus como "rocha". O mesmo se diga da parábola da semente lançada à terra que germina 74 . a semente que cai em boa terra. Todos sabemos que os judeus daquele tempo esperavam a vinda do Reino ou Soberania de Deus duma maneira concreta. tanto entre os judeus. Comecemos pela parábola do semeador (Mc 4..". A parábola apresenta um caso típico. que cai em terra rochosa. que os anjos de Deus te segurarão com as suas mãos. dependente das pessoas (terrenos) que a ouvem? Segundo tal alegoria..11-13). não é uma tradução muito feliz. muito visível. No fundo. como para acabar com a servidão política e. acabará por ser um sucesso. se era assim. A semente que cai no meio dos espinhos são os que sufocam a palavra com os cuidados e prazeres da vida. a dimensão atual e eclesial das parábolas. etc. O mesmo se diga da metáfora.". tanto tinha poder divino para curar cegos. Ac 1. por vezes estranho e fora do comum. Assim o entendiam. "escudo". cegos e leprosos. A melhor tradução será: "Acontece com o Reino de Deus como acontece com a história que a seguir vos vou contar. Finalmente. finalmente. aparentemente. e Jesus responde com a parábola da semente que. refere-se aos que têm coração nobre e virtuoso. a dimensão evangélica dos próprios evangelistas. Mas também já vimos que os milagres de Jesus não são algo de espampanante se tivermos em conta que naquele tempo havia curandeiros de coxos. os expulsavam também.(Mt 4. como ele mesmo afirmava. verdadeiramente extraordinários tinham sido os milagres de Moisés a fornecer o maná ou a abrir as águas do Mar Vermelho. Jesus proclamou as parábolas para responder aos problemas levantados com a sua pregação sobre o Reino de Deus.

como era o costume daquele tempo. melhor.. o que é que Jesus quereria dizer com aquela história do banquete? Reparaste como ele se referiu aos ricos e aos maiorais da nossa terra. os surdos ouvem. os pecadores e os cumpridores das leis. 1524. Mas se os detentores da religião. da Lei de Moisés e do Templo não fazem caso dele. Há que pôr tudo de lado para os possuir. Quer esteja a dormir. 44. Assim se compreende a parábola dos trabalhadores da vinha de Mt 20. que deve ser apanhada. a da dracma perdida e a do filho perdido. 5: "Os cegos vêem. Um homem rico preparou um grande banquete e enviou o seu criado a dizer aos convidados ricos: "Vinde. enquanto ceavam." E o senhor disse ao criado: "Sai pelos caminhos e azinhagas e obriga-os a entrar. A justiça de Deus não se baseia em leis de equidade distributiva e comutativa ou reivindicativa. 26-29). porque tinha comprado cinco juntas de bois e outro porque se tinha casado. embora fique irritado. A equidade e a justiça de Deus só têm um nome: o amor. e que. Não terão mais do que razão as vozes descontentes dos trabalhadores da primeira hora: "Estes últimos só trabalharam uma hora e deste-lhes a mesma paga que a nós. outro. os santos e os pecadores. está mais de acordo com a história primigênia de Jesus. um porque tinha comprado um terreno. enquanto que na pena de Lucas é mais parábola e. analfabeta e de muitos doentes. recebem o mesmo salário que os que trabalham uma só hora. Neste sentido é que apresenta as três célebres parábolas do cap. no mérito e demérito do cumprimento da Lei. já está tudo pronto". os coxos andam. outros critérios e outras balanças bem diferentes das dos homens. mas sobretudo para levar as pessoas a tomarem uma posição diante de Deus e de quem as pronuncia. tem mais os ares de alegoria. Pois digo-vos que nenhum daqueles que foram convidados provará do meu banquete. os estropiados. os terem tratado mal. A história narrada.por si só. com todos os rigores do sol e do cansaço. pobre. e ainda há lugar. Os que trabalham de sol a sol. quer se levante de noite e de dia. leva o seu tempo e tem a sua hora. E a razão de ser de semelhante ousadia vem expressa na parábola dos vinhateiros homicidas de Mc 12. na prisão do Maqueronte. os cegos e os coxos. Chegou a hora da descoberta do coração de Deus. O mesmo se diga da parábola do banquete de Mt 22. não seria isto mesmo um sinal de que ele é alguém de quem se deve desconfiar? Imaginemos um casal daquele tempo que ouvira esta parábola. os pobres." -Aos seus interlocutores duvidosos. à noitinha. racionalista. 5). dizendo: Hão de respeitar o meu filho". Neste caso concreto. ó marido?" Era assim que Jesus levava os seus interlocutores a descobrirem a nova face das coisas. sem a intervenção do semeador (Mc 4. Também o próprio João Baptista. Jesus responde que a manifestação do Reino está nas mãos de Deus . Mas eles desculparam-se."' Caminhemos. e diz ao criado: "Sai imediatamente às praças e às ruas da cidade e traz para aqui os pobres.." O criado voltou e disse-lhe: "Senhor está feito o que determinaste. saduceus. com a realização da profecia de Is 35. 1-16. os leprosos são purificados. ou. tanto há dois mil anos como hoje. Como se lê no próprio texto: "O Reino de Deus é como um homem que lançou a semente à terra. os milagres funcionam como uma parábola em ação. outros pesos e medidas. de que já falamos: a da ovelha perdida. enviou-lhes o seu próprio Filho. Mas as parábolas não são uma espécie de tratado de teologia. que o seguimos e gostamos dele? Reparaste no brilho dos seus olhos e na convicção das suas palavras? Mas o que é isso do banquete.46). para que a minha casa fique cheia. duvida de Jesus. Mas o bom homem do banquete não desanima. os mortos ressuscitam e aos pobres é anunciada a boa nova" (Mt 11. Ao contrário dos fariseus. Ele é rodeado de gente simples. É esta consciência de Jesus como filho. a semente germina e cresce. e depois dos vinhateiros. tinham entrada no banquete do Reino de Deus por obra e graça do mesmo Deus. com Jesus pelas terras da Galiléia. segundo Mateus. se punham a dialogar: "ó marido. por duas vezes. portanto. através dos seus mensageiros. Jesus oferece uma oportunidade única. Jesus não apresenta uma nova Lei de Moisés sobre os puros e impuros. Não é só para fazer pensar que Jesus as pronuncia. mas a lei performativa da nova humanidade em que os sãos e os doentes. e como se referiu a nós. Por isso pronuncia as parábolas do tesouro escondido e da pérola preciosa (Mt 13. Chegou a hora de inverter os valores e a maneira de pensar Deus demasiado humana. Lc 14. agora. que o criticam. à maneira dos nossos sindicatos. enviou-lhes o seu próprio filho. 1-10 e par. O Reino de Deus é este tesouro e esta pérola. 1-12 e par. Como diz o texto: "Finalmente. sem ele saber como. e Jesus responde-lhe. Os senhores grandes da terra desprezam-no. As parábolas são um método didático que obrigava as pessoas a pensar uma nova maneira de ver Deus e a sua religião. baseada no conhecimento da Lei e das tradições. há dois mil anos. essênios e zelotes. Depois do dono da vinha ter mandado os seus servos aos vinhateiros para receberem dos mesmos a parte que lhe cabia. que suportamos o cansaço do dia e do seu calor?" Se o patrão paga o aprazado e de igual modo a quem trabalhou de sol a sol e a quem trabalhou apenas uma hora é porque Deus tem outras vistas. 15 de Lucas. esta experiência de Jesus como filho que lhe dá toda a autoridade para levar até ao fim a sua revolução teológica e 75 .

18). da comunidade dos essênios de Qumran. das relações de João Baptista com Jesus. levavam a sua vida própria. João e Tiago.. É óbvio que Jesus nada faz sem os seus discípulos. 25-37). para tanto. viveu e nos entregou. Estes vivem na dependência do mestre. levantou-se e seguiu Elias na qualidade de servo. mas quando se efetua. comem e fazem vida comum com ele. na sua própria família. e a dos primeiros quatro discípulos de Jesus. Assim sendo. que imediatamente deixam as suas tarefas e os seus familiares e se põem à sua disposição. os discípulos é que escolhiam o mestre.Paulo em Atenas a falar a epicurístas e estóicos (Ac 17. deixa a Judéia e segue para a Galiléia. 16-20 e par). pois que te fiz eu? . Agora vamos tratar deste assunto de maneira mais ordenada. Sócrates e Confúcio. Filho de Deus. Já vimos que os rabinos tinham os seus discípulos. 2R 2). nem Jesus. misturado com os discípulos deste (Jo 3. ou. mas também Buda.10. ouvem a sua doutrina. No AT vemos Moisés rodeado dos seus conselheiros (Ex 18. Os profetas do AT eram casados (exceto Jeremias e. ele próprio conduzia a duodécima junta. e enviá-los a pregar o mesmo Reino. epicuristas e estóicos. seu Filho. ouviam as suas doutrinas durante alguns anos. que quer realizá-lo. e os grandes filósofos gregos tinham as suas escolas de discípulos. Até mesmo no caso de Elias. É a partir dela que pode propor o samaritano "herege" como exemplo de humanidade (11. 21-27. Basta lembrarmo-nos de S. Fizemo-lo quando tratamos das instituições judaicas. Quando decide deixar a sua família e seguir o seu próprio caminho.social. Jesus passa e chama os discípulos. Foi por ela que viveu e morreu. das relações entre Jesus e Hillel. Mas este sabe que o Reino é para ser vivido pelos homens e. e. pescadores do lago de Genezaré: "Farei de vós pescadores de homens" (Mc 1. Quando João Baptista é preso.).. A vocação teve o seu processo de amizade e de admiração dos discípulos em relação ao mestre. Eliseu abandonou os bois. se tivermos em conta o símbolo do manto sobre os ombros de Eliseu. não é propriamente Elias que chama Eliseu. É fora de dúvida de que se trata dum esquema de vocação. Vale a pena ler 1Rs 19. na parábola do fariseu e do publicano. modifica completamente a vida dos discípulos. apresentar o publicano arrependido como aquele que recebe a graça e o perdão. Elias passou perto dele e lançou sobre ele o seu manto. a fim de viverem com ele o Reino de Deus. ainda. na narrativa dos evangelhos sinópticos (Mc 1. correu atrás de Elias e disse: 'Deixa-me abraçar o meu pai e a minha mãe. Tanto num caso como no outro. porventura. E não há nada melhor do que as parábolas para entendermos Jesus de Nazaré. Com Jesus é a sua autoridade carismática e a sua palavra criadora que tudo determina. relacionada com o seu mestre Elias. porque nem Elias. e abandonavam o mestre depois do tempo estabelecido da doutrinação. Elias respondeu: 'Vai e volta. através de Jesus. Elias e Eliseu). Dáse uma mudança de 180 graus na vida dos discípulos."' Com os discípulos de Jesus acontece a mesma coisa. Tanto a vida de Jesus como a dos seus discípulos dependem da urgência da vinda do Reino ou Soberania de Deus. 22-36). eram uns ilusionistas manipuladores de consciências. Jesus tem um duplo objetivo na eleição dos seus discípulos: doutriná-los ou ensiná-los. Antes de Elias encontrar e convidar Elíseu e antes de Jesus encontrar e convidar Pedro e André. o Reino não é de Jesus e dos discípulos. são enviados a doutrinar como ele e convidados a segui-lo em todas as coisas. Depois. mas levavam a sua própria vida. DISCíPULOS E REINO DE DEUS Já tivemos ocasião de falar da relação de Jesus com os seus discípulos várias vezes. escolhe alguns homens como exemplos vivos para viverem com ele a nova dimensão do Reino/Soberania de Deus e a levarem ao Israel de Deus. depois seguir-te-ei. E é precisamente aqui que reside a diferença do que acontecia entre os rabinos e os seus discípulos ou entre os filósofos gregos e as suas escolas. ao contrário do fariseu orgulhoso da sua própria religião baseada no mérito de si mesmo. já eram conhecidos. Jesus é este Filho de Deus que substitui a teologia da Lei e do mérito próprio pela teologia da Graça e do Amor. ao contrário de Jesus e dos seus discípulos. como era o caso de Hillel e Shamai no tempo de Jesus. Entre o mestre Jesus e os seus discípulos dá-se uma comunhão de vida e não apenas uma 76 . ainda. segundo a imagem do próprio Jesus dirigida aos quatro primeiros discípulos. Nm 11. mas o mesmo Deus. No tempo de Jesus as mais famosas eram a dos cínicos. rodeando-se imediatamente de alguns discípulos. e os seus discípulos eram mais ouvintes do que propriamente seguidores. vai ter com João Baptista e anda com ele algum tempo. e o Reino de Deus que pregou. mas de Deus. 24-29) e a comunidade de Elias e Eliseu com os seus discípulos (1R 19. em várias outras ocasiões. 19-21: "Partindo dali. (Elias) encontrou Eliseu filho de Safat trabalhando com doze juntas de bois diante dele. 23. 17 e par. No caso de Elias há um paralelo muito estreito entre a vocação de Eliseu.

Em relação aos rabis e seus discípulos. que passava pela nova doutrina do Reino. Jesus repreende os discipulos quando entra na casa em Cafarnaum. nem muda de roupa. Procurem primeiro o Reino de Deus. de ser o noivo da nova humanidade e o médico de todos os doentes e marginalizados do Reino. de Mt 8. Nesta segunda parte.). Mas ele respondeu: "Senhor." Jesus replicou: "Deixa lá os mortos enterrar os seus mortos. os discípulos tinham que estar preparados. faz poucos milagres e entrega-se duma maneira especial a doutrinar os discípulos por causa dos acontecimentos que se avizinham. a sua doutrina liga-se dírectamente aos milagres e às institucionais judaicas daquele tempo. por causa do primeiro anúncio da sua paixão e morte. a verdade da pessoa de Jesus e a verdade daquilo que é ser discípulo há uma lógica interna que determina toda a vida de Jesus e é o paradigma do que deve ser a Igreja. nem ensinava os seus discípulos para serem. Eles pensavam o Reino de Jesus duma maneira estruturalmente político-religiosa e restauracionista. estranha. Toda a pessoa que quiser salvar a sua vida. semelhante maneira de atuar já tem a ver com o ensinamento cristão das comunidades primitivas nas suas casas particulares." (Mc 8. mas aquele que perder a sua vida por causa de mim e da minha doutrina. Embora alguns textos nos digam que Jesus ensinava os seus discípulos. com ela." (Lc 9. depois de Pedro confessar Jesus como Messias. exceto desapertar-lhe as sandálias" (bKeth 96a). Recordemos a célebre passagem de Lc 9. mas primeiro deixa-me ir despedir da família. A vida vale mais do que a comida e o corpo mais do que a roupa." Depois disse a outro: "Vem comigo". uma vez que a doutrina de Jesus sobre o que devem ser os seus discípulos anda de mãos dadas com as três profecias ou anúncios sobre a sua paixão e morte. Jesus deixa as grandes multidões. e. tem de se esquecer de si próprio. porque pelo caminho tinham vindo a discutir quem seria o mais importante. Na urgência de anunciar por palavras e ações a vinda do Reino de Deus é que devemos entender as suas exigencias radicais em relação aos discípulos. que ensinavam os alunos nas suas próprias casas. nem dinheiro. Nesta linha recomenda aos discípulos: "Não andem preocupados com o que hão de comer. chamou os doze e disse-lhes: "Se alguém quer ser o 77 ." Jesus respondeu-lhe: "As raposas têm tocas e as aves têm ninhos. porque nem ele tinha estudado para ser rabi." (Lc 12. Jesus então sentou-se. eu quero ir contigo. Jesus chamou a multidão juntamente com os discípulos e disse: "Se alguém quiser acompanhar-me. 2-3 e par. Ao contrário dos rabis judeus. Depois do segundo anúncio. por sua vez.. 36). morte e ressurreição. 19-22: "Quando iam a caminho.. A literalidade de tais exigências é. Para tal. Esta maneira de ser radicaliza-se ainda mais na segunda parte dos evangelhos sinópticos. nem saco. e não uma relação de professor e aluno da Torá. Apontemos os tempos e os temas principais seguindo a versão de Marcos." Houve outro que lhe disse: "Senhor. rabis.. está escrito no Talmude: "O discípulo deve fazer para o seu mestre todos os trabalhos que um escravo faz para o seu senhor. deixa-me ir primeiro fazer o enterro do meu pai. por isso mesmo. Como vimos em relação aos chamados apotegmas.). No centro está a sua pessoa ou a identidade da mesma como Filho do Homem que tem poder de perdoar pecados. chegando Jesus ao ponto de lhe chamar "Satanás". nem com a roupa de que precisam para vestir. desta maneira: "O que é que vocês vinham a discutir pelo caminho?" Mas eles calaram-se. "' É nesta mesma linha que envia os doze discípulos-apóstolos a anunciar o Reino de Deus com as seguintes recomendações: "Não levem nada para o caminho: nem cajado. realmente." Jesus respondeu: "Todo aquele que pega na charrua e olha para trás não serve para o Reino de Deus. Vemos como Jesus tinha uma atitude radical para com os seus discípulos devido à urgência da pregação do Reino de Deus e como isso o distinguia de todos os rabis do seu tempo e também das grandes figuras do AT. Mas Jesus não fornecia um ensinamento à maneira dos rabis. a verdadeira identidade da sua pessoa. Entre a verdade do Reino.. que tudo o mais vos será dado. perde-a. 34-35 e par. 57-62 e par. nem pão. mas tu vai anunciar o Reino de Deus. Jesus era um "mestre" itinerante. Depois da primeira confissão de Pedro sobre o messianismo restauracionista de Jesus e respectivo desacerto entre Jesus e Pedro. houve alguém que disse a Jesus: "Irei contigo para onde quer que fores. 22-31 e par. Jesus passa a última parte da sua vida a doutriná-los sobre a verdadeira identidade do Reino de Deus e. na própria casa (Mt 13. e que tinham a ver com a sua paixão. de passar por cima da lei do sábado. e levar a sua cruz para vir comigo. e nos lírios dos campos . O seu ensinamento confunde-se com a sua própria ação e esta com os seus sinais. Reparem nos corvos .). o que só comprova a sua veracidade. O discípulo tem que estar inteiramente à disposição do mestre e ao anúncio do Reino. fora das sinagogas e fora das casas dos rabis. esse salvaa. mas o Filho do Homem não tem onde encostar a cabeça.comunhão de doutrina. A relação era uma relação de nova vida. em particular. Este trabalho era uma espécie de paga pelas lições do rabi aos seus discípulos...

o batismo da morte do nosso egoísmo. para que os valores do espírito do Reino estejam sempre por cima dos contravalores da nossa vã glória de mandar. política. os Atos dos Apóstolos e o IV evangelho não fogem a apresentar-nos todas estas dificuldades. uma vez que Jesus nada deixou escrito e determinado sobre este assunto. Sem dúvida que a Igreja se viu a braços com a sua direcção: morto Jesus. mas no serviço a Deus e à Igreja do mesmo Deus. as narrativas que acabamos de ouvir só ganham em grandeza se as compreendermos a partir de Jesus e a partir das dificuldades internas das igrejas primitivas. a nora e a sua sogra : os inimigos de uma pessoa serão os da sua própria família. Pois também o filho do Homem não veio para ser servido. de entrega ao Pai e à humanidade. A solução evangélica não está na vã glória de mandar. é outra vez a pessoa de Pedro que entra na questão. de fato. agora. 33-35 e par. leis do puro e do impuro. templo. ainda hão de beber o cálice de amargura que eu vou beber e ser batizados como eu vou ser. pois lá diz a Escritura: Ferirei de morte o pastor e as ovelhas ficarão dispersas. opõe-se o programa dos discípulos à volta do poder e da honra. mais tarde. As reações anti-cristãs dos discípulos acontecem sempre depois dos anúncios de Jesus sobre a sua paixão e morte. de Apolo e. quem é que mandava na Igreja daquele Crucificado e Ressuscitado? O fato dos dois filhos de Zebedeu serem os "filhos do trovão". morte e ressurreição? Claro que os evangelhos foram escritos numa segunda geração depois do Jesus histórico. assim. tem que se tornar o último e o servo de todos. Pedro! Ainda esta noite. Choca. ou. Ao programa de Jesus."' (Mc 10. O pensamento original de Jesus punha tudo na dependência do valor maior do Reino: casamento. o fato de Pedro ser o primeiro a manifestar-se e o fato de existirem desavenças e ciúmes dos doze entre si.6: "Porque o filho trata o pai com 78 . Imediatamente depois do terceiro anúncio. relata Marcos: "Tiago e João. dinheiro. os filhos do trovão.' E todos os outros afirmavam o mesmo"(Mc 14. Toda esta doutrinação de Jesus com os seus discípulos termina de maneira trágica precisamente logo após a última ceia pascal e respectiva instituição da eucaristia. tudo tem a ver com o que.' Pedro. Agora. As cartas de Paulo. E se Pedro. Ouçamos a narrativa: "Jesus disse aos discípulos: @Todos me vão abandonar. e aquele que quiser ser o primeiro deve ser o criado de todos. tanto mais que. Judas e todos os demais fracassaram neste programa de Jesus. eles espelham os discípulos dos tempos do Jesus histórico e os discípulos dos tempos da Igreja subsequente." Em primeiro lugar é preciso ter em atenção que a primeira parte desta sentença de Jesus já vem em Mq 7. então. surgiram as grandes figuras de Paulo de Tarso. a morte de si mesmo. só nos resta a total disponibilidade. que vem em Mt 10. e o que amar o filho ou a filha mais do que a mim não é digno de mim. mas a guerra. É fácil perceber que há em todos estes relatos uma metodologia e catequese que tem a ver com o Jesus da história e com o Cristo da Igreja. 26-27: "Não pensem que vim trazer a paz à terra. dizia ainda com mais força: 'Mesmo que seja preciso morrer contigo. Eram. 34-39 e Lc 12. mas isso de ocuparem os dois primeiros lugares não depende de mim. Sobre este assunto. Aquele que amar o pai ou a mãe mais do que a mim não é digno de mim. Jesus voltou a responder: "Vocês nem sabem o que me estão a pedir. antes do segundo canto do galo já tu me terás negado três vezes."' (Mc 9. Por isso. Então Jesus chamou-os a todos para perto deles e disse-lhes: "Como sabem. entretanto.nos profundamente a falta de compreensão dos discípulos. na tradição do IV Evangelho. "Podemos. Então Jesus acrescentou: "Realmente. Nem podia ser doutra maneira. sábado. Mas depois de eu ressuscitar irei antes de vocês para a Galiléia. Mas entre vocês não pode ser assim. Por isso.primeiro. filhos de Zebedeu. aproximaram-se de Jesus e disseram-lhe: "Mestre. a filha e a sua mãe. mas para servir e dar a sua vida para resgatar a humanidade. E Jesus respondeu: 'Então digam lá o que querem que eu faça.."' A narrativa continua desta maneira: "Os outros dez discípulos ouviram a conversa e ficaram indignados com Tiago e João. 3545). tão falhos de inteligência perante as declarações repetidas de Jesus sobre a sua paixão. depois da última ceia. Pelo contrário. vai acontecer nas discussões sobre a responsabilidade de cada um no governo da Igreja. família. nunca te renegarei. Perante este serviço.disseram eles.. os que governam os povos têm poder sobre eles. sim!" .' E eles disseram: "Deixa-nos ocupar os dois primeiros lugares quando estiveres no teu reino glorioso". 27-3 1).). figuras da nossa catequese para que não nos aconteça o mesmo. Esses lugares são para quem Deus os preparou. e os grandes são os que mandam neles. a figura do "discípulo amado". há um dito de Jesus que nos "escandaliza" sobremaneira. 51-53 e 14. porém. aquele que quiser ser grande deve servir os outros. eu é que não!' Mas Jesus disse-lhe: 'Olha. Pedro então disse: 'Mesmo que todos te abandonem. Julgam que podem beber o cálice de amargura que eu tenho de beber e ser batizados como eu vou ser?". Vim. Não vim trazer a paz. queríamos fazer-te um pedido". trazer a divisão entre o filho e o seu pai. a leitura dos evangelhos vem lembrar-nos que essas figuras cimeiras dos discípulos e apóstolos são. de serviço e de amor. da política restauracionista do Reino e respectivos primeiros lugares.

1) e os "Doze apóstolos" (10. Para Paulo. Mas esta ligação entre discípulos e Igreja tem os seus cambiantes. que é preciso compreender. Também devemos reparar que a distinção entre os "Doze" e os "Apóstolos" depende da prática recorrente dos responsáveis das igrejas paulinas: Apóstolos. proclamando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. os Doze foram o grupo que Jesus escolheu entre os muitos discípulos para o acompanharem e viverem com ele desde os tempos de João Baptista até à sua Ascenção. as palavras de Jesus sobre o "odiar o pai ou a mãe" ou "amar o pai ou a mãe mais do que a mim". Também temos que distinguir entre estes Doze "apóstolos" e os demais "apóstolos" que vamos encontrar na 1Cor 15. 5. a partir do batismo de João até ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto. 17. uma vez que as mulheres não podiam ser discípulas dos rabinos. como a um aborto. entre Jesus e o Reino de Deus e entre Jesus e a Igreja. 5: Jesus "apareceu a Cefas e depois aos Doze. Para Lucas. mulher de Cuza. a lista destas mulheres ainda é mais significativa. 24. no NT..22). de aldeia em aldeia. Em último lugar apareceu-me também a mim. a maior parte dos quais ainda vive. aplicada a Tabita. 35. apareceu a mais de quinhentos irmãos. entre elas Maria de Magdala. 6. 13. os inimigos são os da própria família. 21. administrador de Herodes. A soberania de Deus introduz uma nova ordem. por todos os discípulos de Jesus. como acontece. uma vez que Judas ainda não tinha sido substituído. 9. Lucas é o único que descreve a substituição de Judas por Matias. Assim como Jesus teve que escolher entre o Reino e a sua própria família. não contavam para nada no culto da Sinagoga. só se aplicam diante dum estado de conflito ou de escolha. que tinham sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria. não eram obrigadas a observar o sábado como os homens. Maria. 14.desprezo. e muitas outras que tinham subido com ele a Jerusalém. pois ele mesmo se classificava também de Apóstolo." E o fato de Jesus se deixar acompanhar por mulheres devia ser mais um dos "escândalos". que Buda exigia aos seus monges no caminho da meditação e da mortificação. constituem simultaneamente uma ilustração da soberania de Deus anunciada por Jesus e por eles próprios. que caracteriza os filósofos no seu distanciamento perante o mundo e os seus bens. Jesus ia de cidade em cidade. a seguir. Embora a palavra discípula. 40-41: "Também ali [junto à cruz] estavam algumas mulheres a contemplar de longe. 17). 2). nem sequer a superação do mundo. os Apóstolos eram mais do que os Doze. 22. 1-3. enquanto alguns já morreram. Aos discípulos de Jesus pertenciam homens e mulheres. " (Ac 1.. 10). 36. da riqueza e do desprezo pelas pessoas". 11. Joana. "O determinante para os discípulos não é a paz interior resultante da indiferença. com os islâmicos. assim pode acontecer com os seus discípulos. não recitavam a oração do Schemá. 10. a todos os Apóstolos. não há dúvida de que as mulheres também faziam parte do número maior dos discípulos de Jesus. Profetas e Doutores. e Salomé. que os serviam com os seus bens. não liam a Torá. no percurso da vida histórica de Jesus. que. só apareça em Ac 9.. que já não deve ser a dos bens. do lucro. também." Diante deste contexto. 11. A Igreja é formada por todos os batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.". não participavam na ceia pascal. 7. a filha revolta-se contra a mãe. Lemos em Mc 15. de uma só vez. sobretudo se tivermos em conta que elas aparecem conjuntamente com Jesus e com os doze no anúncio da boa nova do Reino: "Em seguida. chamada Madalena. e Pedro apresenta como critério para tal substituição a escolha de um homem "entre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de nós. portanto. isto é.. o que significa que o grupo dos Doze era já uma instituição no seio da comunidade. JESUS E A IGREJA Não há dúvida de que existe uma relação muito profunda entre Jesus e os discípulos. discípulos/as de Jesus. 14. Em seguida." Neste texto devemos reparar que Paulo devia escrever: "apareceu a Cefas e depois aos Onze. mãe de Tiago Menor e de José. 24. Entre estes homens e mulheres. Tudo isto se compreende se tivermos em conta a cultura estritamente patriarcal de então. Depois apareceu a Tiago e. Em Marcos são apenas denominados os "Doze" (3. há que distinguir os Doze." Em Lc 8. Acompanhavam-no os Doze e algumas mulheres. 9. e em Lucas acentua-se muito mais a terminologia dos "Doze Apóstolos" (6. mas em Mateus também são chamados os "Doze discípulos" (10. Susana e muitas outras. da qual tinham saído sete demônios. 79 . Os discípulos que viviam carenciados e dependentes de ajuda exterior. que o seguiam e serviam enquanto ele esteve na Galiléia. a nora contra a sogra. 14. no caso concreto designa os "cristãos".

16. nos discursos de adeus de Jesus aos seus discípulos. e eu disponho do Reino a vosso favor. em Jo 14. logo após a ceia de despedida. 14). 1. A pessoa divina do Espírito Santo. cf. com ele. nos tempos messiânicos. permanecei na cidade até serdes revestidos com a força do Alto. o sintagma "Reino de Deus" pouco dizia à cultura dos novos cristãos. E eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu.19 c par. que têm a ver com as experiências espirituais dos primeiros cristãos. ao contrário de Igreja ou assembléia dos convocados em nome de Deus. é difícil compreender semelhante tomada de posição se tivermos bem presente a pessoa de Judas. pela associação íntima entre Jesus e estes Doze que ele escolheu para que estivessem com ele e para os enviar a pregar (Mc 3. vós é que o conheceis. Mais ainda. uma vez que os Doze. mas a Igreja ou as Igrejas de Jesus Cristo e do próprio Deus. ora com fé e dedicação. portanto. e esteja em contradição com a verdade dos fatos. Também aqui se trata de textos tipicamente joânicos e redaccionais. no meu Reino. 1-5 sobre a conversão de todos os povos ao Deus de Israel. não estiveram com Jesus nas suas provações. haveria de voltar a reunir-se e a impor-se ao mundo inteiro por obra e graça do mesmo Messias. Depois do mistério pascal. e ha de recordar-vos tudo o que eu vos disser. realmente. Uma vez que Jesus decidiu muito conscientemente anunciar por palavras e obras a vinda do Reino de Deus. " Embora o texto seja exclusivamente de Lucas e redaccional. 15-17 diz Jesus: "Se me tendes amor. pois simbolizava todo o seu povo que. São textos etiológicos sobre a realidade teológica do Espírito Santo. os Doze Apóstolos e a Igreja de Jesus. em tronos. A Igreja de Jesus começa precisamente com esta escolha dos Doze com todo o seu simbolismo. 2-4 e Mq 4. a fim de que comais e bebais à minha mesa. Profetas e Mestres das igrejas primitivas já não pregam o Reino de Deus. porque não o vê nem conhece. 2) e o autor do Apocalipse de S. Aqueles discípulos e apóstolos. e. e a tempos espaçados. no tempo do Jesus histórico (Mc 3. e está em vós. no pensamento de Jesus. Como é que Judas. mas sempre de parceria com discípulos e apóstolos. o Ressuscitado diz aos Doze Apóstolos: " Vós sois testemunhas destas coisas. É por isso que o texto nos diz: "permanecei na cidade [de Jerusalém] até serdes revestidos com a força do Alto. Também em Qumran havia um grémio de doze homens relacionado simbolicamente com as doze tribos de Israel (IQS 8. a nova Jerusalém com as "doze portas". Este número doze era sagrado para os judeus. mas sobretudo na pessoa do Espírito Santo que só se apresenta na dimensão trinitária depois do mistério pascal. que o mundo não pode receber. os "doze anjos"." A terceira 80 . para julgar as doze tribos de Israel. a visibilidade do novo Israel com as doze tribos de Israel. Em Lc 24. ora com dúvidas e traições." A Promessa do Pai não é mais do que o Espírito Santo que os Apóstolos vão experimentar duma maneira própria no Pentecostes. IQM 2. e eu apelarei ao Pai e ele vos dará outro Paráclito para que esteja sempre convosco. o traidor. doze mil de cada tribo. Entretanto. mas como estes o não reconheceram. É fato que Jesus veio anunciar o Reino de Deus e não a Igreja de Deus." Um pouco depois. pouco a pouco a todos os povos. mas entre os judeus. o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome. como meu Pai dispõe dele a meu favor. representam todos os cristãos que haviam de acreditar em Jesus através da sua história de salvação que termina no mistério pascal. mas entre estas duas denominações existe um laço estreito. esta história de salvação continua também depois do mistério pascal não apenas na pessoa de homens e mulheres cristãos. sobretudo aos cristãos de língua grega. a sua Igreja foi-se abrindo.)? Sem dúvida que o número Doze simboliza. o mistério da própria Santíssima Trindade. cumprireis os meus mandamentos. esse é que vos ensinará tudo. E haveis de sentar-vos. vale pelo significado profético e simbólico no tempo do Jesus histórico e do Jesus da Igreja. É muito significativo o texto de Lc 22. largura e altura o mistério total de Jesus e. as "doze tribos" e os "doze nomes dos Doze Apóstolos do Cordeiro" (20. tanto mais que Paulo e os demais Apóstolos. Em Jo 14." O Jesus do quarto evangelista diz a mesma coisa se bem que com outras palavras. mas o Paráclito. João apresenta-nos a multidão dos 144000 assinalados ou salvos. 25-26 diz Jesus: "Fui-vos revelando estas coisas enquanto tenho permanecido convosco.pascal.Embora alguns autores afirmem que os Doze foi uma fundação pós. representa. Jesus não veio implantar o seu Reino/Soberania entre os pagãos. o Espírito da Verdade. bem assim. mormente com os Doze. por isso mesmo. Ele veio para os judeus. a última etapa do desvendar desta história de salvação. porque permanece junto de vós. Assim se realizaria a profecia de Is 2. 28-30: "Vós sois os que permaneceram sempre junto de mim nas minhas provações. A Igreja de Jesus começa. São sobretudo Lucas e João que nos apresentam esta verdade da nossa fé. que tem como função a conversão dos corações e a iluminação dos mesmos para que os cristãos possam compreender em profundidade. 12-14). aParece em todas as listas dos Doze. Acabamos de ver a relação que existe entre os discípulos de Jesus. temos que concluir que a sua e nossa Igreja já começa na vida histórica do mesmo Jesus. 48.

Na idéia de Jesus trata-se da última geração no processo da história da salvação. 19). 31ss).. A Verdade do evangelho e de toda a sua revelação vai. não podemos determinar qual foi o momento e acontecimento próprio em que Jesus fundou a sua Igreja. tivessem sido realizados os milagres que em vós se realizaram. e não pereça a nação inteira. como a galinha recolhe os seus pintaínhos debaixo das suas asas. Jerusalém. vestindo-se de cilício e cobrindo-se de cinza. eu vo-lo enviarei.se manifestando e explicitando sempre mais e mais através da Igreja. 7ss: "É melhor para vós que eu vá [para o Pai]. a história é um "locus theologicus". Diante da liberdade dos homens. já tem que ver com a intenção de Jesus em relação à própria Igreja. batizando-os em nome do Pai. Com ele ' irrompia em Israel o tempo escatológico de Deus: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. tinha em vista a conversão de Israel às suas idéias messiânicas. Jesus nada mais podia fazer do que lançar as suas invectivas e lamentações. outros que terá sido na ceia pascal." A quarta promessa vem nalguns versículos a seguir. foram mal colocadas. Mas aqui está algo mais do que Salomão. o Espírito da Verdade. há muito se teriam arrependido. mas não sois capazes de as compreender por agora. Mas reparemos que todos estes textos são exclusivos de cada evangelista e que são todos redaccionais. 18). um anticristo e que devia desaparecer para que o "verdadeiro" Israel de Deus se salvasse. bem à maneira dos profetas do AT: "Jerusalém. quando Jesus pede aos Apóstolos: "Fazei isto em minha memória" (Lc 22. No dia do julgamento. de complementariedade e de profundidade. do Filho e do Espírito Santo. se eu for." (Mc 1. Mas aqui está algo mais do que Jonas" (Mt 12. O diálogo profundo entre a razão e a fé. pois. mas. Lc 11. Ela continua sempre em aberto e ao sabor do Espírito Santo. de fato. cultura e fé. 18-20). e que eu vos hei de enviar da parte do Pai. com a pregação do Reino de Deus. com a Verdade da pessoa de Jesus e com a Verdade da própria Igreja.. outros inclinam-se mais para a eclesiologia de Lucas que arranca no dia de Pentecostes. quantas vezes eu quis juntar os teus filhos. Ide. que procede do Pai. Esta Verdade tem a ver com a Verdade das realidades do AT.promessa do Espírito aparece em Jo 15.. se eu não for. o próprio Deus lhes fica sujeito. 12-15: "Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos. e é por causa desta opção do Israel de então que Jesus pronuncia as suas sentenças de juízo: "A rainha do Sul levantar-se-á no Julgamento juntamente com esta geração e condená-la-á. Mas o simples fato de Jesus escolher Doze discípulos-apóstolos. É o que pronuncia o Sumo Sacerdote em Jo 12. ele dará testemunho a meu respeito. realizada nos seus filhos. Finalmente. O quarto evangelista ora chama ao Espírito Santo o Paráclito. Quando ele vier. Concluíram que Jesus era um blasfemo. Lc 11. Já sabemos que Jesus.. "Ai de ti. 15). mas também nos seus pecados e ofensas ao próprio evangelho ou contra o próprio evangelho. A revelação não termina com a morte e ressurreição do Senhor Jesus. em Jo 16. nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo. Nele se realizavam todas as ansiedades e saudades do velho Israel. Por isso mesmo. Quem é cristão vive da fé e não apenas da razão. 26: "Quando vier o Paráclito.. entre a história. A Igreja está. ora o Espírito da Verdade que ha de guiar os cristãos para a Verdade completa. que fala na Igreja através da história. ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. e não há mistério pascal completo sem a presença do Espírito Santo. Neste sentido. um "lugar teológico". 49ss: "Vós não entendeis nada. que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados. mas tu não quiseste" (Mt 23. e condená-la-ão. isto é o "Consolador" e "Advogado". a experiência das diversas eclesiologias consoante os diversos evangelistas. pois. Os habitantes de Nínive levantar-se-ão no Julgamento. daqueles saduceus e fariseus. o Paráclito não virá a vós. juntamente com esta geração.. porque eles se converteram pela pregação de Jonas. Mas a geração daquele Sinédrio." Perante isto. outros que terá sido quando o Resssuscitado diz aos Apóstolos na aparição da Galiléia: "Foi-me dado todo o poder no céu e na terra. fazei discípulos de todos povos. e era precisamente isso mesmo que Jesus queria e desejava. E sabei que eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos" (Mt 28. ha de guiar-vos para a Verdade completa. não quis. sem dúvida que tudo tinha sido diferente. a quinta promessa vem em Jo 16.". Uns diziam que Jesus fundou a sua Igreja quando disse a Simão Pedro: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja." Finalmente. 31ss e par.". Por isso. Betsaida! Porque se em Tiro e Sídon. Se o Israel dos tempos de Jesus se tivesse convertido a este Jesus e ao seu Reino ou Soberania. o Espírito da Verdade. porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão. haverá 81 . A revelação objetiva ficou completa com Jesus e o seu evangelho. a Igreja olha para o seu passado e revê-se não apenas na Verdade do evangelho. Corazim! Ai de ti. As velhas questões dogmáticas e eclesiais sobre quando é que Jesus fundou a sua Igreja. pois. 37 e par. 49). Representam. "A Lei e os Profetas chegam até João.. é um diálogo importante.. o Reino de Deus exige violência." (Mt 16. mas a sua explicitação é um continuum sempre em aberto. Daí para diante. na dependência do mistério pascal completo.

a sua doutrina sobre o Reino de Deus na cidade mãe da religião judaica? Ou foi. conseqüentemente. sob a ação do Espírito Santo. as opiniões dividem-se e. Este distingue-se dos sinópticos sobretudo na narrativa da purificação do Templo. E é desta maneira que nasce a Igreja de Jesus como proposta de fé na pessoa de Jesus e no seu Reino. 28s). Sobre estes três assuntos. a sua última ceia. Para compreendermos tudo isto temos que estudar a última semana de Jesus em Jerusalém: a sua entrada dita "triunfal e messiânica" em Jerusalém. e na narrativa da ceia. ENTRADA EM JERUSALÉM E PURIFICAÇÃO DO TEMPLO Iremos agora debruçar-nos sobre a paixão e morte de Jesus. profetas. por um lado. E tu. acabavam assim a vida devido a desordens contra a pax romana. os evangelistas não nos apresentam uma narrativa puramente neutral. e o dos romanos. o jejum. por vezes. mais se conformará à missão de Jesus. Há três questões fundamentais a ter em conta. seguida também de perto pelo quarto evangelho. ao passo que os filhos do Reino serão lançados nas trevas exteriores. ao contrário dos sinópticos. também superou a sacralidade do povo como único povo de Deus. no Reino do Céu. à luz de algumas narrativas. a Lei. Isac e Jacob. Trata-se da única narração em que os evangelhos sinópticos seguem uma unidade geográfica e cronológica iguais. que coloca na primeira semana ativa da vida de Jesus (Jo 2. sobretudo em relação aos judeus. onde haverá choro e ranger de dentes" (Mt 8.nos o assunto de maneira mais complexa. E foi porque o Israel de Jesus não o quis que o mesmo Jesus se pronuncia profeticamente sobre os estrangeiros pagãos: "Virão muitos do oriente e do ocidente e sentar-se-ão à mesa do banquete com Abraão. finalmente. Comecemos pelo aspecto narrativo das cenas. pois todos os condenados à morte por crucifixão. finalmente. extremam-se. e. anota logo no cap. Porque é que Jesus decide deixar a pacatez e a segurança da Galiléia e descer a Jerusalém. A primeira consiste em apreendermos a consciência de Jesus sobre a sua paixão e morte e sobre o significado das mesmas. catequistas e evangelistas. O Reino de Deus é a grandeza definitiva. lls e par. 13-22). em várias questões. a sua ação contra o Templo. que é o primeiro evangelista a escrever. mas não há dúvida que a intenção dos evangelistas é ao mesmo tempo histórica e cristã: aquele crucificado é o próprio Filho de Deus. Messias e Salvador de Israel e da humanidade. por causa da doutrina de Jesus sobre o sábado. 120). A Igreja é uma realidade transitória. à maneira do que vai acontecer com os zelotes nos anos 66-70. Quanto mais ela o reconhecer e se deixar determinar pelo definitivo. Mas Jesus." 25. a sua prisão no Getsêmani. na morte de Jesus. Basta reparar nas citações bíblicas do AT. l-e 10. "A Igreja surgiu da morte e ressurreição de Jesus. modernamente bastante divulgada. 21-24 e par. para demonstrar o plano divino de Deus naquela paixão e morte do seu Filho. por ser apenas uma ceia de "adeus" e não propriamente pascal (Jo 13. A segunda consiste em compreender qual foi o papel dos judeus. no tempo de Jesus. Tais invectivas de Jesus sobre os descrentes de Israel não significa que ele tenha abandonado o seu povo de raça e de origem. Marcos. o perdão dos pecados. 13-15). 6: "Os fariseus saíram da sinagoga [de Cafarnaum] e foram imediatamente juntar-se aos herodianos para resolverem como haviam de matar Jesus". que. umas explícitas e outras implícitas. Este aspecto de unidade narrativa tem a ver com a importância que os responsáveis cristãos da primeira hora. Os evangelhos apresentam. Para tanto. as suas atitudes para com os pecadores e publicanos. o seu julgamento pelo Sinédrio e por Pilatos. Reino esse que é mais do que a Igreja. A terceira tem a ver com uma opinião. biblistas e historiadores. porque tinha consciência de que era a vontade do Pai que havia de morrer ali e ali ressuscitar? Para quem acredita em Jesus 82 . a sua paixão e morte. por outro lado. defende que Jesus acaba por ser julgado e condenado à morte de cruz pelo fato de ser um religioso político que queria acabar com o reinado do império romano em Israel. Uma vez que Jesus acaba por morrer numa cruz. Cafarnaúm. 3. que iremos estudar. apóstolos. só podia ter acontecido devido a uma questão política. como determinava a Lei e a tradição? Foi para pregar. Este conflito final entre Jesus e os judeus e Pilatos já vinha de muito longe. davam a este final da vida de Jesus. um assunto de que muito se tem escrito e que divide. assim como superou a sacralidade do templo e do sábado.menos rigor para Tiro e Sídon do que para vós. para se meter na boca do lobo? Foi como simples peregrino para viver em Jerusalém a festa da Páscoa. Lc 13. julgas que serás exaltada até ao céu? Serás precipitada no abismo" (Mt 11. Comecemos com a narrativa da entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Mas a última gota de água acontece naquela semana final de Jesus em Jerusalém.

Bell. ele é justo e vitorioso. nem Pilatos se servem desta entrada como prova política contra Jesus. Mas o mesmo já não acontece com a narrativa da purificação do Templo. filho de uma jumenta. 45-48." Mateus segue a narrativa de Marcos. que vem em Mc 11. entrando no templo. vem. Semelhante parecer não tem qualquer viabilidade. 2. toda a cidade ficou em alvoroço. uma vez que a profecia de Zacarias se está a realizar.como vimos . " Por esta citação.37-38). e. teriam que intervir imediatamente. o profeta de Nazaré. em alta voz. E como estamos em ambiente de preparação para a grande festa da Páscoa. os sumos sacerdotes e os doutores da Lei ficaram indignados e disseram-lhe: "Ouves o que eles dizem?" Respondeu Jesus: "Sim. 1-11) narra a mesma coisa. notarmos as diferenças: "[Jesus e os seus discípulos] chegaram a Jerusalém. Jesus começou a expulsar os que vendiam e compravam no templo. Alguns autores tiram partido desta cena para concluírem que Jesus tinha mesmo uma intenção política de tomar conta de Jerusalém e acabar com o reinado dos romanos. o arco de guerra será quebrado. no Templo. Nunca lestes: Da boca dos pequeninos e das crianças de peito fizeste sair o louvor Perfeito?". Mateus (21. mas evita a palavra Hossana e acrescenta o título de Rei. se tivermos em consideração a citação de Zc 9. 262. o que não aconteceu. cf. o que não acontece. montado num jumento. mas carregada de sentido messiânico. por todos os milagres que tinham visto.com uma entrada de libertação política contra os romanos. Jesus vem a Jerusalém para proclamar alto e bom som que aquela cidade santa lhe pertence. filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti. cegos e coxos. juntamente com o cântico dos anjos aos pastores de Belém: "Paz no céu e glória nas alturas!" (Lc 2. consoante os outros três evangelistas. mas apresenta-nos alguns pormenores importantes. 2. Hossana nas alturas! A narrativa é muito simples e viva. o narrador afirma duas coisas: que Jesus se encontrava em Betânia e enviou dois dos seus discípulos para lhe arranjarem um jumentinho na povoação vizinha. se a entrada "triunfal" de Jesus em Jerusalém fosse uma entrada de sabor político. Perante os prodígios que realizava e as crianças que gritavam no Templo: "Hossana ao Filho de David". E ensinava-os. Sem 83 . e nada mais. reparemos que nunca é Jesus quem dá o tom de uma entrada triunfal em Jerusalém. os soldados romanos. mas temiam-no. Nem o Sinédrio. não há dúvida de que o povo. e não permitia que se transportasse qualquer objeto através do Templo. O seu império irá de um mar ao outro / e do rio [Eufrates] às extremidades da terra. humilde. " Além do mais. Lucas cita o salmo 118. 26. E diziam: 'Bendito seja o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!"' (vv. mas tal pensar não é o de Jesus. acantonados na Torre Antônia.perguntavam.11.como Messias e Salvador. Os sacerdotes e os doutores da Lei ouviram isto e procuravam maneira de o matar. E o fato da narrativa apresentar as duas citações bíblicas. mas termina assim: "Quando Jesus entrou em Jerusalém. Jo. da Galiléia. filha de Sião! Solta gritos de júbilo. a de Zacarias 9 e a do Salmo 118."' Lucas (19. que tinha ouvido falar deste profeta de Nazaré. Se os evangelistas vissem nesta entrada a intenção de messianismo político de Jesus teriam adicionado a Zc 9. Jesus teria que instruir os seus discipulos nesse sentido. para depois. Para terminarmos. 12-17 e Lc 19. dizendo: "Não está escrito: A minha casa será chamada casa de oração para tOdOs os povos? Mas vós fizestes dela um covil de ladrões. 13-18). Esta entrada em nada condiz . e Ele curou-os. sobre um jumentinho. E a multidão respondia: 'É Jesus. 20. pois toda a multidão estava maravilhada com o seu ensinamento. mas adiciona o seguinte: "Aproximaram-se dele. etc. 9 também o versículo que imediatamente se segue: "Ele exterminará os carros de guerra da terra de Efraim e os cavalos de Jerusalém. esperava que ele se manifestasse no sentido messiânico-político. ao contrário de tantas outras manifestações messiânicopolíticas de falsos profetas e messias guerrilheiros. a terceira pergunta e respectiva resposta é a da verdade cristã. Tanto como Marcos e Mateus. logo nos indicam que a narrativa foi interpretada pela Igreja como uma entrada messiânica de Jesus em Jerusalém. 9: "Exulta de alegria. ". Comecemos por ler a narrativa segundo Marcos. Mas condiz com a verdade da história? Em Mc 11. 'Quem é este?' . 1 . deitou por terra as mesas dos cambistas e os bancos dos vendedores de pombas. Proclamará a paz para as nações. 169. 26. Para ser viável. mas trata-se duma interpretação lucana. É fato que Lucas acentua a questão de Jesus ser Rei (Bendito seja o rei que vem em nome do Senhor). E o primeiro a referir-se a este assunto seria o próprio Flávio Josefo como aconteceu com a sua narrativa acerca do egípcio que quis conquistar Jerusalém e com as narrativas de muitos outros falsos messias (Ant.). 14). 29-40) segue na esteira de Marcos. Ele afirma que "o grupo dos discípulos começou a louvar alegremente a Deus. mas apenas o povo que ansiava por essa libertação política. e que entrou na cidade montado nesse jumentinho com as aclamações do povo: Hossana! Bendito seja o que vem em nome do Senhor! Bendito o Reino do nosso pai David que está a chegar. 15-19 e par Mt 21.

deste lugar que vos dei. os judeus perguntaram a Jesus: "Que sinal nos dás de poderes fazer isto?". e em três dias Eu o levantarei!" Então os judeus replicaram: "Quarenta e seis anos levou este Templo a construir. sendo o episódio mais prolixo em termos narrativos. um covil de ladrões? . Por outro lado. o mesmo que fiz a Silo. onde o meu nome é invocado. ovelhas e pombas e dos cambistas nos seus postos". sobre a verdade divina do sábado. em Jesus mostrar a sua autoridade sobre o mesmo. depois o SI 8. embora muitos autores defendam a tese do Jesus revolucionário. que tinha à sua cabeça o sumo sacerdote. as falsas testemunhas apresentam diante do tribunal judaico a prova de condenação contra Jesus nas suas palavras sobre o Templo: "Ouvimo-lo dizer: "Demolirei este templo construído pela mão dos homens e. Não há dúvida de que esta ação de Jesus é a última gota de água que leva ao rubro o conflito entre Jesus e o Sinédrio. E diante de tudo isto. com palavras e gestos. edificarei outro que não será feito 84 . Fala dos "vendedores de bois. Em Mc 14. em oposição ao comércio. citando. 11: "Está escrito: "a minha casa será casa de oração. O acontecimento só podía ter tido lugar no chamado átrio dos pagãos. este Templo. também não se compreende lá muito bem. quando da entrada de Jesus em Jerusalém (21. Na versão de Lucas afirma-se apenas que Jesus "começou a expulsar os vendedores".." Numa segunda parte da narrativa entram os discípulos que se lembraram do SI 69. Eu farei da casa em que é invocado o meu nome e na qual depositais a vossa confiança. Paulo ao Templo (Ac 21. " Para Lucas. mas vós fizestes dela um covil de ladrões. teriam descido imedíatamente ao lugar de combate para manterem a ordem. no evangelho de Marcos. A ser real tal acontecimento.estes querem. os cristãos servem-se desta ação de Jesus para contrapor o culto cristão ao culto judaico do Templo. 4-15). ao que Jesus respondeu: "Destruí este Templo. todos os discípulos de Jesus se teriam colocado ao seu lado. de que falara um pouco antes. conforme terão saído da sua boca. a vós e aos vossos pais. 10: O zelo da tua casa me devora.. mas teológico. acrescentando de imediato uma citação de Is 56. que tinham por missão vigiar o que se passava de anormal no Templo. com a destruição de Jerusalém e do seu Templo. Assim sendo. Por outro lado. 9). outras vezes. em Jerusalém." É evidente que. o acento recai na oração." (Jr 7. Não façais da casa de meu Pai uma feira. dum pequeno discurso profético. da Lei. Jesus faz o que já Jeremias também tinha feito em relação ao Templo: "Não vos fieis em palavras de mentira. os soldados romanos da Torre Antônia. tanto em relação ao chicote como em relação à expulsão de todos aqueles vendedores.. a partir de agora. O quarto evangelista usa da hipérbole. onde Jesus fez uma declaração sobre a verdade divina do Templo. Como toda a narrativa de João tem por fim apresentar o Jesus ressuscitado como o novo Templo. pois. Jesus era um blasfemo perigoso ao pôr de avesso a ortodoxia religiosa dos judeus. 58. imediatamente depois do milagre das bodas de Caná. uma vez que. 3 sobre o louvor dos pequeninos. para tanto. Templo do Senhor! Este é o Templ o do Senhor. e todas as demais apresentam a ação de Jesus através dos olhos da fé e da teologia. tanto mais que repete o "Hossana ao Filho de David". que tinha começado na Galiléia e iria terminar. simplesmente. para alguns vendedores. matá-lo. é a vossos olhos. cuja manutenção e verdade competia ao Sinédrio. do casamento. desconhecemos. A cura de cegos e coxos no templo. da esmola. a narrativa que mais se aproxima da verdade histórica é a de Marcos. se a narrativa de João fosse histórica. servindo-se. portanto. expulsando eles também os vendedores de bois. Porventura. dizendo: Templo do Senhor. termínando Jesus por dizer aos vendedores de pombas: "Tirai isso daqui.. Por muito menos o fizeram quando da ida de S. que o evangelista refere a atitude dos sumos sacerdotes contra Jesus . João coloca a purificação do Templo na primeira semana de atividade de Jesus. cujas palavras. entre outras.e uma vez mais .. dum "chicote de cordas que Jesus fez" para expulsar toda aquela gente do Templo. O significado desta purificação do Templo consiste. do jejum. Mateus tem em vista uma teologia e não uma história 'isto é. Esta atitude é típica do seu evangelho e das críticas do seu Jesus contra as riquezas deste mundo. estamos diante de mais um sinal de fundo teológico e não tanto de uma narrativa de história factual. É a primeira vez. ovelhas e pombas e derrubando as mesas dos cambistas. sobre o significado da sua ação. todos os doentes têm o direito de entrar no novo Templo de Jesus e serem curados. e Tu vais levantá-lo em três dias?" Mas o narrador anota imediatamente que Jesus "falava do Templo que é o seu corpo. agora. A revolução de Jesus . sem especificar que tipo de vendedores. certamente teria havido uma batalha campal com muitos feridos e sangue. havia que chamar a atenção. 7 e Jr 7..dúvida que este acrescento de Mateus é da sua própria lavra. se assim fosse. em três dias. da oração. 29-40).não é de teor político. como tinha feito. porque estes doentes passavam por serem impuros e não podiam entrar no Templo. o que em nada condiz com a figura de Jesus em todos os evangelhos.

14). Esta espécie de leitmotiv do autor do quarto evangelho que acentua o julgamento e a morte de Jesus antes da festa pascal ou ceia pascal é." Para não haver confusões entre a ceia eucarística cristã e a ceia pascal judaica. saíram para o monte das Oliveiras. em Jo 19.." Finalmente. realmente. seguida duma série de diálogos e monólogos entre Jesus e os mesmos discípulos (Jo 14-17). cf. ao tratarmos da questão sinóptica. CEIA PASCAL A ceia pascal com a respectiva eucaristia cristã é uma parte integrante do mistério pascal. 14. a comida do haroshet. 3137). uma ceia de despedida de Jesus com os seus discípulos. A ação de Jesus é. e também por ocasião da sepultura de Jesus: "Como para os judeus era o dia da Preparação da Páscoa e o túmulo estava perto. no 15 de Nisan. depois. então. 1)..". o verdadeiro Cordeiro de Deus é o próprio Jesus Cristo (Jo 1. Quando o autor do quarto evangelho escreve. 31). Esta Páscoa judaica já nada tem a ver com eles. segundo os sinópticos. Assim sendo. Paulo só se interessam pela ceia pascal de Jesus na perspectiva cristã. "não lhe quebraram as pernas" (Jo 19. 12-16 e par. nos finais do século primeiro d. não têm qualquer sentido. 15s).. os cristãos da tradição joânica distinguem a eucaristia cristã da festa da Páscoa judaica.pela mão dos homens.. enquanto que a eucaristia cristã celebrava-se todos os domingos. a comida do cordeiro pascal e a bebida dum segundo e dum terceiro cálice de vinho. no cordeiro pascal. que tanto os sinópticos como S. isto é.. Já vimos. uma parábola em ação. mas que o mesmo não aconteça com a narrativa do quarto evangelho? Realmente. todas as tentativas de harmonizar os evangelhos sinópticos com o quarto evangelho através da distinção do calendário solar seguido pelos homens de Qumran e pelos apocalípticos e o calendário lunar seguido pela ortodoxia judaica. Mc 14. o autor do quarto evangelho apresenta-nos. seguindo-se. 23-26. Por outro lado. Paulo na 1Cor 11." Na narrativa da última ceia não se fala da parte central da celebração judaica. Sabemos que a ceia tinha lugar durante a noite (cf. no cap. 55: "Estava próxima a Páscoa dos judeus. daquele Jesus crucificado que exclama precisamente antes de morrer: "Tudo está consumado" (19. É o que se lê em Jo 11. ainda durante o tempo do julgamento de Jesus diante de Pilatos. que era celebrada dentro dos muros da cidade de Jerusalém e que consistia em duas partes: na primeira havia uma espécie de homilia da pessoa mais importante sobre o significado da festa. 22: "Após o cântico dos Salmos [do Hallet]. fez o mesmo com o cálice. antes de padecer. 15: "Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco. na liturgia cristã da eucaristia. isto é. porque a intenção do autor do quarto evangelho é de ordem teológica e eclesial e não histórica. termina diante da nova Páscoa cristã.. C. A eucaristia cristã é apresentada em Jo 6. o autor do quarto evangelho abre a narrativa da última ceia desta maneira: "Foi antes da festa da Páscoa" (13. Jesus conferiu a esta última ceia um sentido de despedida ou de adeus aos seus discípulos e um sentido de memória sacramental ligado diretamente ao programa narrativo de toda a sua 85 . o cordeiro pascal é o próprio Cristo morto e ressuscitado. que tem por centro a manducação do cordeiro pascal e o seu significado. O que é que esta ceia tem a ver com a morte de Jesus e qual foi e continua a ser o seu significado? Comecemos por perguntar como é possível que a última ceia de Jesus. do pão ázimo e a bebida dum cálice de vinho e.. por isso mesmo. Lc 22. porque as palavras consacratórias ou performativas de Jesus só incidiram sobre o pão e sobre o vinho e porque. para compreendermos o verdadeiro significado da última ceia pascal de Jesus temos que nos agarrar às narrativas dos evangelhos sinópticos e também à narrativa de S. v. A ceia pascal. Ele quer demarcar muito bem que a ceia e a morte de Jesus nada têm a ver diretamente com a festa pascal judaica. 30.. tenha lugar no dia e na hora da ceia pascal judaica (Mc 14.20: Depois da ceia. Jesus terá falado da destruição dum Templo e da reconstrução doutro Templo (Cf. não tereis a vida em vós. 23). 1Cor 11. na segunda parte. quando crucificado.35) que.. o autor anota: "Era a Véspera da Páscoa.. concluindo com o cântico do Hallet (cf Lc 22. em verdade vos digo: se não comerdes mesmo a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue. Ac 6. a ceia pascal judaica só se celebrava uma vez ao ano. Semelhante destruir e construir tem a ver com a sua morte e ressurreição. 42). por volta do meio dia. sem dúvida. sobre o seu destino que se cumpriria dali a poucos dias.". Para o quarto evangelista. 30). 26. E quando se trata do julgamento de Jesus diante de Pilatos o autor escreve: "Era de manhã cedo e eles [os judeus] não entraram no edifício [do governador romano Pilatos] para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa. foi ali que puseram Jesus" (Jo 19.". intencional.. Assim sendo. e o mesmo acentua já depois da morte de Jesus: "Como era o dia da Preparação da Páscoa" (Jo 19. 13 do seu evangelho.. 52-57: "Em verdade." O que interessa neste testemunho é concluirmos que.

mas os seus enviados. Mas a verdade é que essa conversão não aconteceu. PROCESSO DA PAIXÃO E CRUCIFICAÇÃO Depois de termos estudado alguns aspectos fundamentais da vida de Jesus na sua última semana em Jerusalém. se não esperasse essa mesma conversão. Jesus dirige-se diretamente aos que "tinham vindo contra ele. o pão e o vinho em signo sacramental da sua própria pessoa que. sustentadas pela confiança e perspectivadas pelo Reino de Deus. pelo que a sua morte se situa no horizonte da sua missão". 3. na sua morte. O "sangue da alíança derramado por muitos" e o "corpo entregue por vós" conferem à última ceia a verdade redentora e salvífica daquela morte e do destino final de Jesus. Mas na narrativa de Lc 22. como. no processo diante do Sinédrio e de Pilatos e. que se opõe ao desígnio de Deus. isto é. debruçandonos na prisão de Jesus. Uma vez mais. a ceia termina com as palavras de Jesus que chegaram até nós em duas versões. Como aconteceu em todos os outros passos fundamentais da vida de Jesus. As diferenças fundamentais entre os quatro evangelhos consistem sobretudo na qualidade e quantidade das pessoas que foram prender Jesus ao seu refúgio do Getsémani. Claro está que a narrativa de Lucas não pode condizer com a história porque não foram os sumos sacerdotes e os anciãos que prenderam Jesus. aos oficiais do templo e aos anciãos". isto é. as palavras escatológicas de Jesus. pelos representantes do Sinédrio. A sua confiança inclui a sua disponibilidade para aceitar esta morte das mãos de Deus. de algum modo. cuja autenticidade nunca foi seriamente contestada. para perdão dos pecados". e da liberdade do homem. então." Trata-se duma profecia da sua morte ligada diretamente à vinda do Reino. Por isso. "No seu sentido geral. Comecemos com a narrativa da prisão. sangue da Aliança. 25 Jesus declara: "Em verdade vos digo: não voltarei a beber do fruto da videira até ao dia em que o beba. as diversas narrativas estão carregadas de citações do AT para demonstrarem que tudo estava de acordo com o desígnio salvador de Deus. até chegar o Reino de Deus. contava com uma morte violenta. Segundo os sinópticos. este logion ou sentença. 18 as palavras são um pouco diferentes: "Pois digo-vos que não tornarei a beber do fruto da videira. Surge-nos. nos últimos momentos da sua vida. tantas vezes já acontecera no Israel concreto desde os patriarcas até Jesus. Tal fracasso. portanto. Marcos não fala de soldados ou de tropa. se vai entregar ao Pai e à humanidade. Portanto. finalmente. que começou com ele e que vai consumar-se com o seu mistério pascal e com o seu memorial sacramental através dos seus seguidores. marcam o novo ritmo da salvação e da comunhão oferecida por Deus a todos nós. [enviados] pelos sumos sacerdotes. pelos doutores da Lei e pelos anciãos". 43. Judas é acompanhado de "muito povo com espadas e varapaus. Se ele aceitou o destino de morte em conformidade com a vontade do Pai. a saber: a sua entrada triunfal na cidade. um fracasso. aliás. O importante é repararmos que a última ceia se relaciona com toda a vida de Jesus e esta com a vinda do Reino ou Soberania de Deus. no Reino de Deus. também agora vamos encontrar muitas semelhanças e diferenças entre os três evangelhos sinópticos e entre estes e o quarto evangelho. torna-se um ponto de partida importante para a reconstrução daquilo que. o responsável pela prisão de Jesus é o Sinédrio. a tenha referido sobretudo à sua própria pessoa e se tenha referido a uma expectativa pessoal. 52. mas também de que ele manteve a expectativa da vinda da basileia. vamos terminar com este estudo sobre a paixão e morte de Jesus. Segundo Mc 14. O mesmo se diga da narrativa de Mt 26. novo. "não provoca em Jesus. Estamos diante da vontade de Deus. aos sumos sacerdotes. a saber. dificilmente se pode excluir desta conformidade a sua tarefa messiânica. 27. aqui. a pergunta: será que Jesus só agora se deu conta de que a sua pregação do Reino ao Israel concreto do seu tempo. que vai ser derramado por muitos. nem o desespero. O fato de Lucas se referir aos "oficiais do Templo" é importante porque historicamente o Sinédrio dispunha de soldados judeus para tomarem conta da ordem do templo. definitivamente. os protagonistas já são diferentes quando refere Judas 86 . nesta ceia. Segundo Mc 14. ainda que. reabilitada através desta ceia e desta morte? A pergunta é pertinente porque. a purificação do Templo e a última ceia. mas de povo. foi. 47. Na narrativa de Jo 18.vida sobre o Reino de Deus. estão dírectamente ligadas à sua morte e à efetivação do seu Reino. Nesta última ceia. Jesus não viria falar a Israel propondo-lhe a conversão para a vinda do Reino. de fato. através do destino do Messias e Filho de Deus. Por aqui ficamos a saber que as palavras consacratórias de Jesus: "Isto é o meu corpo" e "este é o meu sangue. através do seu Filho. Jesus converte o pão em corpo e o vinho em sangue. nem a resignação. que constituía o fulcro da sua pregação. Esta "nova aliança" ou esta nova comunhão entre Deus e os homens." Segundo Lc 22. constituem uma confirmação de que Jesus. teve um significado especial".

e dificilmente aceite como histórica. tanto para agradar aos judeus. tinha uma sala própria nas dependências do Templo. era um "escândalo para os judeus e uma loucura para os gregos" (1Cor 1. e capitaniado pelo sumo sacerdote em funções (cf. sobretudo para o caso dum veredicto de pena de morte. os sumos sacerdotes reuniram-se em conselho com os anciãos e os doutores da Lei e todo o Sinédrio. tanto mais que a pregação de Jesus sobre o Reino de Deus e sobre a messianidade do mesmo Jesus facilmente se transformava em argumento político. o que aconteceria se fosse a autoridade romana a tomar conta do assunto. isto é. como para agradar a Roma. apenas nos diz . Embora esta confissão política seja exclusiva da narrativa de João. não foi um julgamento formal. dos anciãos e dos escribas. É claro que as narrativas já têm a ver com a apologética cristã por causa daquela condenação que. mas apenas uma reunião informal do Sinédrio para decidirem a maneira de entregarem Jesus a Pilatos. João quer implicar a responsabilidade romana porque segundo o seu evangelho Jesus não é julgado diretamente pelo Sinédrio mas apenas por Pilatos. Para tanto só havia duas soluções: ou a morte por lapidação conferida pelo Sinédrio aos casos de judeus blasfemos. Passemos agora ao estudo do julgamento de Jesus diante do tribunal judaico. E não há qualquer dúvida que a última palavra de Pilatos. a perigosidade da sua doutrina para com a ortodoxia religiosa e as possíveis implicações políticas que daí poderiam advir." O julgamento de Jesus diante de Pilatos demonstra muito bem as ambiguidades entre as causas religiosas e as políticas neste julgamento. podia. 1 está de acordo com as verdadeiras intenções do Sinédrio: "Logo de manhã. os seus discípulos. com Estêvão (Ac 7. como aconteceu. O veredicto do Sinédrio sobre a morte de Jesus já tinha sido tomado. 18). com o movimento que instaurou e que já envolvia muitos discípulos. Neste sentido. E o Sinédrio só se interessava pela prisão de Jesus e não pela dos seus discípulos. e muito menos nas vésperas do sábado e da festa da Páscoa. Basta repararmos que a reunião do Sinédrio se deu em casa do Sumo sacerdote. Mesmo assim. Aliás. embora a expressão de Pilatos: "entregou Jesus para que 87 . A conclusão a tirar é que Jesus foi preso a mando do Sinédrio. Segundo Jo 19." Não é possível que a coorte ou o destacamento romano formado por 600 soldados e comandado pelo chefe militar (chiliarchos) fosse prender Jesus. 54-60) ou a morte pela cruz (o ius gladii) apenas conferida pelo tribunal romano. Estariam os judeus à espera que Pilatos instaurasse um julgamento formal? Possivelmente não. e depois de muito dialogar com os judeus termina condenando Jesus porque se deu conta que ele com a sua pregação dum novo Reino de Deus. Reparemos que. 23). e que as respostas de Jesus vieram confirmar o que eles já sabiam. Sem dúvida que o Sinédrio. foi a ação de Jesus naqueles últimos dias. O paradoxo e o anacronismo da situação chega ao ponto dos judeus dizerem a Pilatos: "Se libertas este homem. segundo o direito romano. o Sinédrio pediu a Pilatos para condenar Jesus na Cruz por causa da perigosidade de Jesus para a religião e para a paz romana. Mas a verdade é que Pilatos instaura um julgamento formal. se os soldados romanos fossem os responsáveis pela prisão de Jesus. Nm 11. e. isto é. a coorte. sobretudo a sua ação relacionada com a "purificação" do Templo que levou o Sinédrio a concluír pela sua morte. Não se trata dum julgamento formal com todos os requisitos que eram exigidos. 13. teriam levado Jesus imediatamente a Pilatos e não ao Sumo Sacerdote. A solução estava em passarem a responsabilidade para Pilatos. 6. 12. o sinédrio não podia reunir-se de noite. ao condenar Jesus à morte da cruz. senão César" (Jo 19.acompanhado duma " coorte de soldados romanos e dos guardas ao serviço dos sumos sacerdotes e dos fariseus". por exemplo. Para tal. com as suas virtudes carismáticas. ser perigoso para a sua política frente aos judeus e frente a Roma. a narrativa de Mc 15. a sua messianidade.pelo seu aspecto extremista . a presença de testemunhas de acusação.. por outro lado. as diversas narrativas não fogem à verdade fundamental histórica. Não temos outro rei. o comandante militar e os guardas das autoridades judaicas prenderam Jesus e manietaram-no. que exigia. o que está contra a lei.15). tendo manietado Jesus. mas não tinha sido formalizado. Embora os sinópticos nos descrevam aparentemente um julgamento formal de Jesus diante do Sinédrio. segundo o relato do quarto evangelho. encontra-se pela primeira vez com Jesus e lhe fez várias perguntas sobre a sua pregação do Reino. realmente.como as narrativas passam da religião para a política. com a sua auto consciência de ser o Messias tão suspirado. não és amigo de César! Todo aquele que se faz rei declara-se contra César . levaram-no e entregaram-no a Pilatos. Sheb 22). Como vimos. repetindo. o que aconteceu. formado por 70 membros de entre os responsáveis das famílias dos sumos sacerdotes. mais tarde. se por um lado. Pilatos sentou-se na cadeira de juiz (bèma)..12: "Então. condenando-o à morte por blasfémia. para estes casos. no v. é "a força de Deus para os que se salvam" (1Cor 1. na sua totalidade ou apenas representado por alguns membros. 16 e Michná Sanh 1. do Sinédrio. uma vez que o Sinédrio. depois. realmente. foi um ato político.

Ele não fala nem caminha como falava e caminhava quando vivia entre os seus discípulos. não é fácil dissertarmos sobre a ressurreição porque se trata de acreditar que Jesus continua a viver numa vida diferente. Contudo. Lembremos as narrativas mais significativas. como homem de Deus e como reformador teológico da religião judaica do seu tempo.17. julgavam ver um espírito. Não é preciso acreditar que Jesus foi um homem extraordinário como pregador e taumaturgo. somos os mais miseráveis de todos os homens" (1Cor 15.. enquanto outros disseram: 'Ouvir. Disse-lhes. é vã a nossa pregação. que a punha em causa. como que por encanto? Não há dúvida que se trata duma narrativa catequética que tem por finalidade apresentar a ressurreição ligada ao sacramento da eucaristia e a toda a liturgia sacramental que consiste na leitura da sagrada Escritura e na fração do pão.' Isto. a força dos Apóstolos e demais crentes e evangelistas das comunidades cristãs primitivas residia na fé da ressurreição de Cristo que. e no fim de tudo. Aquela morte tem a ver com toda a vida pública de Jesus. mas apenas na "fração do pão". na maior parte dos conflitos da humanidade. Os coríntios eram gregos e estavam habituados às filosofias gregas que distinguiam o mundo das idéias e do espírito do mundo da matéria. freqüentemente. motivos religiosos e políticos acabam por se confundir. Paulo disserta sobre a ressurreição de Cristo por causa da nossa própria ressurreição. mas Ele desapareceu da sua presença". Comecemos pela narrativa de Lc 24. uma vez que a ressurreição exigia a ressurreição da própria matéria ou corpo de Jesus fazendo com que o Ressuscitado fosse um corpo espiritual. O seu corpo não tem mais carne e sangue. Realmente." O mesmo acontece no fim do seu discurso em Ac 17. S. As dúvidas dos cristãos de Corinto sobre a ressurreição de Jesus tem a ver com a dialéctica entre a fé e a razão. 26. 15. Por isso. embora algumas narrativas o apresentem a caminhar e a comer mesmo depois de ressuscitado. Paulo quando pregou o seu discurso no Arcópago de Atenas a epicuristas e estóicos. Foi o que aconteceu com S. o mesmo Jesus de Nazaré e da Cruz mas em forma de Ressuscitado. Já Paulo afirmava: "Ora. isto é. 36-42: "Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: 'A paz esteja convosco!' Dominados pelo espanto e cheios de temor. mas o Cristianismo nunca aconteceria sem a ressurreição de Cristo. então: "Por 88 . depois de o partir. está todo o percurso da história da salvação: Ele foi entregue por causa da nossa salvação. necessariamente. porque Paulo anunciava a Boa-Nova de Jesus e a ressurreição. O mesmo acontece com a narrativa da sua aparição aos onze em Lc 24. se se prega que Jesus ressuscitou dos mortos. 12-19). Mas é preciso acreditar que ele ressuscitou. 20). simultaneamente. Contudo. Quem decidiu a morte de Jesus foi a religião judaica daquele tempo por causa da revolução teológica de Jesus. um homem divino. porque nesta entrega. achavam isso muito estranho e indigno de gente culta e amiga dos mistérios. 32: "Ao ouvirem falar da ressurreição dos mortos. depois. o Salvador. tomou o pão. também Cristo não ressuscitou. ) E se nós temos esperança em Cristo apenas para esta vida. Então. A RESSURREIÇÃO DE JESUS Se a história da humanidade continua a dividir-se em antes de Cristo e depois de Cristo é por causa da ação que o Cristianismo determinou na mesma humanidade. Jesus. e vã é também a vossa fé. como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos. Jesus Cristo é as primícias de todos os demais ressuscitados (1Cor 15. Como é que os discípulos não reconheceram Jesus quando lhes falou. Ultimamente. Jo 19. com a força do verbo paradidonai. lhes explicou as Escrituras. uns começaram a troçar. 18: "Até alguns filósofos epicuristas e estóicos trocavam impressões com ele. ( . Uns diziam: 'Que quererá dizer este papagaio?' Outros: 'Parece que é um pregoeiro de deuses estrangeiros. os seus olhos abriram-se e reconheceram-no. 28. É importante recordarmos a narrativa de Lucas em Ac. era-lhes fácil ver em Jesus um anèr Theos."' Realmente. foi o que aconteceu no desfecho dramático da passagem do Filho do Homem. É a fé na ressurreição que faz com que o Cristianismo seja o que realmente é. Esta é uma visão unilateral que não corresponde à realidade. Mas se Cristo não ressuscitou. proporcionava a ressurreição da cada um dos crentes. desaparecendo.. entregou-o. Ele é. 13-35 sobre Jesus que caminha e dialoga com os discípulos de Emaús. totalmente outra. 16) tenha um sabor teológico especial. é preciso não perder de vista que.te-emos falar sobre isso ainda outra vez.fosse crucificado" (Mc 15. cheio dessa mesma força divina para pregar um novo tipo de religião e para realizar as suas ações taumatúrgicas. Mt 27. muitas obras literárias e cinematográficas têm interpretado o julgamento e a conseqüente morte de Jesus através da questão política que envolvia Pilatos. Mas os discípulos só o reconheceram quando "ele se pôs à mesa. Porventura. pronunciou a benção e.

mas é o mesmo da Galiléia. pois muitos falsos profetas apareceram no mundo. não deis fé a qualquer espírito. Para além das narrativas sobre a identidade do Ressuscitado há também as narrativas sobre a missão que o Ressuscitado confia aos apóstolos e discípulos. que o Ressuscitado é o mesmo Jesus de Belém. na ressurreição. Esse é o espírito do Anticristo. A comensalidade tinha sido importante para Jesus e seus discípulos porque foi através dessa mesma comensalidade que se formou o grupo. onde está Jesus. Nessa comensalidade comiam o pão. E como. acreditaste. Jesus pede qualquer coisa para comer. Enquanto em Lucas se fala de "mãos e pés". não queriam acreditar de assombrados que estavam. E não sejas incrédulo. Por isso mesmo. O mesmo acontece na descrição de Jo 20. Eles apenas pensam que estão a ver um espírito ou um fantasma. com medo das autoridades judaicas. da Galiléia e do Gólgota. pois bem. Para demonstrar a fé no Ressuscitado. como símbolo do batismo e da eucaristia (Jo 19. de onde "saíu sangue e água". Jesus entra na casa e mostra aos discípulos as mãos e o peito. 1-3: "Caríssimos. mas devem ser interpretadas. mas dum Jesus Cristo que nada tinha a ver com o Jesus Cristo terrestre. mostrou-lhes as mãos e os pés. às ordens de Jesus. Desconhecemos imensas coisas sobre as eucaristias primitivas e seu significado sacramental como signo da presença viva do ressuscitado no meio dos discípulos e da comunidade.' Dizendo isto. através da roupagem literária das aparições físicas. em João. mesmo assim. pôs-se no meio deles e disse-lhes: 'A paz seja convosco!' Dito isto. Por isso é que se fala tanto de peixe na comensalidade do Ressuscitado com os discípulos. Para os que afirmavam que o Jesus histórico era diferente do Jesus ressuscitado temos a doutrina da primeira carta de S. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor. 19. Tudo isto só se pode explicar se tivermos em consideração que os discípulos e os primeiros cristãos realizavam os seus encontros eucarísticos com o pão e o vinho. A mesma catequese acontece com a aparição de Jesus a Tomé em Jo 20. estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam. os apóstolos apanham 153 peixes. Felizes os que crêem sem terem visto!". 34). Reconheceis que o espírito é de Deus por isto: todo o espírito que confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal é de Deus. As narrativas não têm por intenção descrever esse como mas apenas a verdade da ressurreição de Jesus. do qual ouvistes dizer que tem de vir. alguns. tomando-o. às mãos e ao peito é uma forma de demonstrar que o Jesus da cruz com as mãos e os pés pregados é o mesmo que está. mas examinai se os espíritos são de Deus. Quando o viram. que é o mesmo. bebiam o vinho e comiam o peixe do lago. mostrou-lhes as mãos e o peito. uno e indivizível. muitos cristãos. para o monte que Jesus lhes tinha indicado. da Galiléia e de Jerusalém.que estais perturbados e por que surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. 21 de João. com elas." Reparemos que neste texto. sim. e depois da pesca chegam à praia. aqui. Ninguém duvida que Jesus apareceu aos apóstolos e discípulos. de Jerusalém. o que nos leva a concluir que também precisaram de acreditar como nós acreditamos. Quando os evangelhos foram escritos. João é o único a falar do peito trespassado. adoraram-no. Repare-se que no relato de Lucas nem com a aparição os discípulos ficam a acreditar. é que os evangelistas emprestam a roupagem da eucaristia (ou eucaristias) e apresentam os sinais físicos das mãos e dos pés ou das mãos e do peito. 16-20: "Os Onze discípulos partiram para a Galiléia. até os próprios discípulos duvidavam de Jesus quando este lhes aparecia. agora. João 4. como verificais que eu tenho." Acabamos de ver que as aparições não se devem tomar à letra. No cap. a intenção do evangelista é provar que o Ressuscitado não é um espírito ou um fantasma. 27: "Olha as minhas mãos: chega cá o teu dedo! Estende a tua mão e põe-na no meu peito. e. embora em forma de Ressuscitado.20: "Ao anoitecer daquele dia. sobretudo de origem grega acreditavam. 13). Assim se explicam as narrativas das aparições sobre a identidade do Ressuscitado. Uma vez mais. 89 . fazendo o mesmo com o peixe" (Jo 21. mas também tinham as suas refeições com o pão e o peixe. Ele perguntou-lhes: 'Tendes aí alguma coisa que se coma?' Deram-lhe um bocado de peixe assado. ele já está no mundo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos. diante deles. mas fiel. Jesus apresenta as "mãos e o peito" porque no relato da morte de Jesus." Também. E como prova. Entre elas sobressai a de Mt 28. na sua alegria. as portas estão fechadas. As narrativas são catequeses cristãs que nos querem provar. que "tomou o pão e deu-o. receberam a sua identidade. As narrativas das aparições do Ressuscitado que temos vindo a estudar referem-se todas a uma catequese sobre a identidade de Jesus: o Ressuscitado é o mesmo que o da Cruz. agora. que os discípulos receberam instruções de Jesus e. e todo o espírito que não faz essa confissão de fé acerca de Jesus não é de Deus. mas não sabemos como é que apareceu. mas. o primeiro da semana. trata-se duma catequese para que os discípulos acreditem que Jesus está mesmo vivo. veio Jesus. comeu diante deles." O mais importante desta narrativa são as palavras finais de Jesus: "Porque me viste. O fato do evangelista se referir à comida do peixe.

de uma só vez. fazei discípulos de todos povos. o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: 'É o Senhor!' Simão Pedro ao ouvir que era o Senhor. Aproximando-se deles. como a um aborto. Por isso anuncia a primeira aparição a Cefas e individualiza também a pessoa de Tiago. acentua as pessoas de Tiago e dele próprio. estão relacionadas com sua autoridade e primazia na Igreja primitiva. 37. Comecemos por S. Paulo e as narrativas dos Atos dos Apóstolos.. Em último lugar. do Filho e do Espírito Santo. que. Jo 21. Li.. dos quais alguns ainda vivem. batizando-os em nome do Pai. Jo 20. portanto. Pedro. Depois apareceu a Tiago e. 25). em primeiro lugar. precisamente por causa da importância que teve no comando da igreja primitiva de Jerusalém. mas foi uma aquisição da fé da Igreja. Paulo consiste no fato do Apóstolo não nos apresentar uma narrativa de aparição do Ressuscitado à maneira dos evangelhos. o que é estranho. os de há dois mil anos como os de hoje em dia. Jo 21. o que não condiz com os evangelhos. apareceu-me também a mim. ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. 2: "[Maria Madalena] correu e foi ter com Simão Pedro e com o outro discípulo. O Apóstolo escreve muito antes dos evangelhos. 90 . E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos. o que nos leva a concluir que. e o mesmo entre os "Doze" e os "Apóstolos". é transposta para a vida pública de Jesus (16. Senhor. fazei discípulos de todos os povos. Finalmente. O segundo aspecto importante na narrativa de Mateus tem a ver com a doutrina da Santíssima Trindade: "Ide. A narrativa de Mateus tem por fim a missão da Igreja. Paulo também tem em linha de conta a importância ou a autoridade dos Apóstolos. a maior parte dos quais ainda vive. ainda duvidavam. que afirmar: também os apóstolos e discípulos precisaram de fé para acreditar na ressurreição. pois." Mas o exemplo maior de descrença acontece com Tomé ao dizer aos demais apóstolos: "Se eu não vir o sinal dos pregos nas suas mãos e não meter o meu dedo nesse sinal dos pregos e a minha mão no seu peito. e lançou-se à água". de Tiago. apareceu a mais de quinhentos irmãos. a fim de provar catequeticamente a tal identidade do Ressuscitado e a missão da Igreja a partir duma palavra fundamentadora do próprio Ressuscitado. não pertencia aos Doze. Mas é a figura de Pedro que acaba por se impor e as aparições do Ressuscitado a Pedro chancelam esta posição da própria Igreja. no entanto. tu amas-me mais do que estes?" Pedro respondeu: "Sim. iluminada pelo Espírito Santo. Ide. 7: "Ide. de Paulo.". a todos os Apóstolos. batizando-os em nome do Pai. pois. Todos sabemos que o problema da substituição de Jesus como autoridade visível na comunidade dos crentes foi um problema sério e complicado. e dizei aos seus discípulos e. apertou o saio. devemos compreender um terceiro tipo de narrativas de ressurreição que têm a ver com a autoridade dos próprios apóstolos. Jesus disse-lhes: "Foi me dado todo o poder no Céu e na Terra. e só depois. facilmente concluímos que a doutrina sobre a Santíssima Trindade não foi anunciada diretamente por Jesus. mais tarde. Todos estes textos nos dão a entender que as aparições do Ressuscitado a Simão Pedro. aliás.24. Se tivermos presente a doutrina das cartas de S. A pessoa do Ressuscitado mistura-se com a pessoa dos ressuscitados. Paulo na 1Cor 15. Em seguida. Os próprios crIStãos andavam divididos entre a figura de Pedro."' O primeiro aspecto importante a ter em conta nesta narrativa é a afirmação do texto: "alguns.no entanto. Neste particular. a pessoa de Cefas sobressai em muitas narrati vas. a seguir. apareceu a Cefas e depois aos Doze. pois. 34: "Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!". pois. não acredito" (Jo 20. segundo as Escrituras. todos os descrentes na ressurreição. enquanto alguns já morreram. mas apenas enunciar uma lista de pessoas a quem o Senhor apareceu. ao princípio. filho de João. "dominados pelo espanto e cheios de temor. segundo as Escrituras. O mesmo acontece em Lc 24. finalmente. 15-17: "Depois de terem comido. Tomé simboliza. Felizes os que crêem sem terem visto!" Há. acreditaste. de maneira direta ou indireta. e. do discípulo amado e de Apolo.. o que Jesus amava.. Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão. 7: "Então. basta consultar Mc 16." Jesus disse-lhe: "Apascenta os meus cordeiros. 3-8: "Transmiti-vos. Fala do aparecimento a mais de quinhentos irmãos. Tu sabes que eu sou deveras teu amigo. Mas a lista de S. porque estava sem mais roupa. do Filho e do Espírito Santo". em Mateus. Paulo distingue entre Cefas e os Doze. ainda duvidavam" da ressurreição de Jesus. Reparemos que em nenhuma narrativa dos evangelhos se evidencía a pessoa de Tiago que. e disse-lhes: 'O Senhor foi levado do túmulo e não sabemos onde o puseram"'. o que eu próprio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados. onde se diz que os Onze. foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia. por volta do ano 54-55. julgavam ver um espírito. E é por isso que Jesus lhe diz: "Porque me viste. é que se foram formando as narrativas como vêm nos evangelhos." O estranho desta tomada de posição de S. a tradição da Igreja apenas anunciava as pessoas a quem o Senhor ressuscitado tinha aparecido.". 17-19).

ao contrário dos fariseus. e em Marcos. Mas as pessoas a quem Jesus apareceu são históricas. Jesus aparece duas vezes em Jerusalém e outra vez no lago de Tiberíades. fotografou ou filmou o momento da ressurreição de Jesus.É fácil apercebermo-nos de que as narrativas da ressurreição não obedecem a qualquer tipo de concordismo histórico. PARUSIA OU SEGUNDA VINDA DE JESUS CRISTO Vamos acabar o nosso estudo sobre a pessoa de Jesus com a questão da parusia ou segunda vinda de Jesus Cristo. a carta de Barnabé. já que o evangelho primitivo de Marcos terminava no cap. 1). que viveu entre 110-165. É um assunto que anda na boca de milhões de cristãos. Ao longo dos dois mil anos da era cristã sempre se acreditou nesta segunda vinda. Senhor. para julgar os vivos e os mortos. Os textos do NT tanto falam de parusia como de dia do Senhor ou de juízo final. esta doutrina. de Tiago e do próprio Paulo na 1Cor 15. Os Apóstolos tiveram uma experiência única: a de que Jesus estava vivo e que este Vivo lhes falava e que eles lhe podiam falar. Jesus não aparece nenhuma vez. no cap. A palavra parusia é um termo grego que tem a ver com presença. para que. para os anos 500. Ninguém viu. por volta de 172. ajudados pela vossa misericórdia. de hoje e de sempre. os Apóstolos ainda duvidam. Justino Mártir. e. Os judeus só começaram a acreditar numa ressurreição colectiva. que determinou o fim do mundo primeiramente para os anos 500. que viveu entre 170-236. ora a missão que o Ressuscitado confia aos Onze ou somente a Pedro. em Lucas aparece também uma só vez. que viveu entre 60-130. O mesmo pensou Júlio Africano. a partir dos textos bíblicos. Dos vinte e sete livros do NT. Nas nossas eucaristias proclamamos de acordo com o Credo de Niceia: De novo ha de vir em sua glória. agora. Por tudo isto. 16. Esta idéia apareceu por causa dos mártires judeus no tempo de Antíoco Epifânio e aparece narrada no primeiro livro dos Macabeus. por causa do advento do ano 2000 e do milenarismo a ele vinculado. Muitos Padres da Igreja deram o seu assentimento a esta doutrina. Apresentamos as figuras principais: Papias. A doutrina da "parusia" tem. Trata-se da escatologia final e do fim deste mundo. Jesus aparece apenas uma vez aos Onze no monte da Galiléia. que viveu entre 160-220. O Ressuscitado apenas diz: "Sou Eu". portanto. 7. mesmo assim. Em todas estas aparições os conteúdos doutrinais são diferentes porque têm em vista ora a identidade da pessoa do Ressuscitado. aparece em vinte e um. Vem do verbo grego pareimi que significa estar presente. escrita entre 96-130. sejamos sempre livres do pecado e de toda a perturbação. Jesus fez com que eles o vissem. a ver com a segunda vinda de Jesus Cristo e faz parte integrante do credo cristão e de toda a tradição. No tempo de Jesus. ora a chancela duma autoridade própria. que viveu entre 140-202. enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador. e o seu reino não terá fim. no fim de tudo. nem os próprios Apóstolos esperavam qualquer ressurreição. É o que diz Marta a Jesus acerca do seu irmão Lázaro: "Eu sei que ele ha de ressuscitar na ressurreição do último dia" (Jo 11. Aliás. os saduceus ainda não acreditavam nem sequer nesta ressurreição final. como é o caso de Pedro. Geralmente as narrativas usam um aoristo passivo: Jesus deu-se-lhes a aparecer. a começar pelo judaísmo. Em Mateus. Fora dos Padres da Igreja surgiram algumas figuras ligadas a movimentos separatistas da própria Igreja como foi o caso dos gnósticos e dos montanistas. A partir daí eles perdem o medo e anunciam a ressurreição por toda a parte. Por isso. Ireneu de Lião. aparecimento e vinda.C. mais tarde. e que acreditava que a segunda vinda teria lugar muito em breve. 9. para os anos 800. mas. Em João. concluímos que a ressurreição de Jesus não obedece a critérios de verificação "histórica". sobretudo nestes últimos tempos. e dai ao mundo a paz em nossos dias. sinal de que também eles precisaram de acreditar. O espírito da ressurreição entrou neles e tudo vai ser diferente a partir de então. Tertuliano. Não se trata dum acontecimento histórico que possa ser comprovado por métodos das ciências históricas. se Paulo tem a consciência de ser Apóstolo como os demais por isto mesmo: Jesus apareceu-lhe (1Cor 9. pois. precisamente depois de orar o Pai Nosso: Livrai-nos de todo o mal. 91 . Esta é. mas. expressa de diversas maneiras e modos. a novidade de Cristo e a novidade do Cristianismo de ontem. O sacerdote que preside à eucaristia suplica a Deus Pai. Hipólito. escrito por volta do ano 100 a. em Jerusalém. A ressurreição de Jesus não tem qualquer paralelo em nenhuma outra religião. Montano. 24). ou no juízo final. e que determinou o fim do mundo. 29. tanto da Igreja Católica como de todas as demais confissões cristãs.

transformando-o em tempo de santidade e de Espírito. as idéias obsessivas sobre a segunda vinda de Cristo surgiram dentro do próprio protestantismo em grupos radicais. Fichte. Neste sentido divergiam profundamente dos católicos que também atacavam o papado e o classificavam de Anticristo. Hegel. Também ele se revoltou contra os males e pecados da Igreja e da sociedade do seu tempo. Para ele. que. sobretudo a figura dos papas. mas só o papado como o Anticristo do Apocalipse. Disto mesmo falou com Ricardo Coração de Leão. O primeiro foi o do AT. Para ele. XVIII os Estados Unidos da América do Norte tornaram-se o centro de todos os movimentos apocalípticos e parusíacos. Diante duma cristandade em guerra com o Islão. E. repemsou a história em três tempos. segundo eles. Diante do estado de pecado da Igreja e do mundo do seu tempo. portanto. os reformadores protestantes apontavam a instituição da Igreja Católica. o do Espírito Santo. isto é. Entretanto. Afirmava que a segunda vinda teria lugar na Ásia Menor. mas a sua purificação. sobressaindo os Espirituais Franciscanos. Nem admira que os Espirituais Franciscanos se revissem nas doutrinas joaquímitas e julgassem ser eles os senhores espirituais da nova Igreja e do novo mundo. que viveu entre 1135 .1202. Ficaram célebres os Shakers com a sua dinamizadora Ann Lee Stanley (1736-1784). o movimento da chamada New Age. em que Deus se apresentou de maneira terrível. como os Papas os combatiam. O que mais sobressai neste homem é a sua visão de esperança num futuro reino de Deus de acordo com o evangelho e não com as políticas dos homens. Joaquim de Fiore partiu do evangelho de Mateus que apresenta 42 gerações desde Adão até Jesus.apresentou as suas idéias apocalípticas e foi seguido por muita gente. Era. Um seu admirador. O segundo foi o tempo desde Jesus até ao séc. A era do Espírito Santo iria chegar brevemente e o mundo seria radicalmente diferente com uma Igreja completamente purificada e dirigida por monges e místicos. segundo ele. fora o lugar onde Jesus teria anunciado a sua segunda vinda -. Jan Huss. Mais tarde apareceu o grande pregador e professor da Universidade de Praga. Outro movimento da máxima importância para o nosso estudo foi o de Joseph Smith (18051844). profetizaram que o fim do mundo dar-se-ia em Fevereiro de 1420.por causa do monte Tabor que. A partir do séc. O terceiro seria o tempo futuro. tornando-se num líder religioso e político na cidade de Florença. na Nova Jerusalém. como mais tarde acontece com Calvino em relação a Zurique. que queria transformar na Nova Jerusalém do Apocalipse. a influenciar muitos pensadores e movimentos cristãos. Esta esperança e novidade numa sociedade mais perfeita e governada por gente santa e sábia veio. Com a reforma protestante. Modernamente. Outra figura muito semelhante a Jan Huss foi a do dominicano Jerónimo Savonarola. Carlos VIII de França seria o último imperador. mais tarde. acreditando que o mesmo sistema se deveria aplicar ao resto da história. a começar pelos Anabatistas. que viveu entre 1452-1498. Os seus seguidores. por sua vez. mais conhecido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos últimos Dias ou pelos 92 . viram nesses papas a figura do Anticristo do Apocalipse. XII. como sendo a personificação do Anticristo. como também os filósofos Lessing. o tempo de Jesus Cristo e da sua Igreja que. etc. Jan Matthys. que seria destruído brevemente. Schelling. o pico mais alto desta doutrina aconteceu com o monge cisterciense Joaquim de Fiore. que se apresentou como a incarnação feminina de Deus. ou Era do Aquário faz de Joaquim de Fiore um dos pais ou profetas do seu movimento. passou a nova Jerusalém para Münster. por isso mesmo. em que os santos e os monges haviam de tomar as rédeas do mundo e da sociedade. não se portava espiritualmente de acordo com o Evangelho. pensou que a figura do Anticristo já estava em ação. A finalidade não era o fim do papado. Tudo terminou num grande banho de sangue entre os zelotes populares defensores da parusia e os governantes protestantes luteranos e católicos defensores da paz e da ordem. neste aspecto. chamados Taboritas . ligados ao mitológico Gog de Ezequiel (Ez 38-39). uma espécie de profeta utópico em relação ao futuro. que viveu entre 1371-1415. mais tarde por Thomas Müntzer e por Melchior Hoftnan. não por ser uma instituição anticristã. de tal modo que a segunda vinda de Cristo teria começado com ela e seu respectivo movimento. Durante a Idade Média. Veio a morrer precisamente numa prisão em Estrasburgo. mas que brevemente seria vencida pelas forças do Espírito. cada geração continha uma média de trinta anos. Este último apontou várias datas para a parusia do Senhor e a cidade de Estrasburgo como a nova Jerusalém. Karl Marx. É interessante. que etiquetava de Anticristo. que deveria acontecer em 1533. transformada. logo. ver a posição de Lutero que considerava os Turcos como a personificação política dos inimigos de Deus. Acabou na fogueira em 1498. Jan Huss acabou por ser queimado como herege. a segunda etapa da história de 42 gerações terminaria entre 1200 e 1260. abraçou as mesmas idéias. mas por causa da política mundana deste ou daquele@Papa. Também ele criticou fortemente o papado.

Em 1992 cerca de duzentas mil pessoas da seita coreana Dami. afirmando que se tratara dum erro de cálculo. 1984. incluindo empregos e casas. depois de ter afirmado que seria a 21 de Março de 1843. Só com a segunda vinda de Cristo é que o Reino de Deus terá lugar. sejam políticas ou religiosas. apareceu em primeiro lugar aos americanos. o movimento Adventista refez-se deste "grande fracasso" (Great Disappointment). Importante para o nosso estudo é também o movimento fundado por William Miller que originou os Adventistas do Sétimo Dia. Mas este pós. finalmente. Embora se proclamem cristãos. E é por causa desta cultura apocalíptica que se deram tragédias colectivas e até suicídios colectivos. Marcos 13. as duas primeiras cartas de S. Mesmo assim. Todas as instituições humanas. Poderíamos continuar com a enumeração de dezenas de Novos Movimentos Cristãos da linha apocalíptica. Hoje em dia continuam a afirmar que a parusia está para muito breve se tivermos em conta os dados bíblicos de Daniel e Ezequiel. não aceitam nem as monarquias. e para que as pessoas não sofressem semelhante catástrofe. que responde à pergunta de um ser "celestial" sobre o tempo do "holocausto perpétuo. seguindo-se. os seus responsáveis procuraram acalmar os fiéis com a explicação da parusia invisível: Jesus veio realmente. João sobre o Anticristo e o livro do Apocalipse de S. através de cálculos estranhos arrancados a outros textos da Bíblia. depois deísta e. após uma sondagem. Em 1983 a célebre agência Gallup levou a efeito uma sondagem sobre este assunto e concluiu que 62 por cento dos americanos acreditavam que o dia do Senhor aconteceria nesta geração. aparecimento de falsos profetas e do Anticristo. não acreditam na divindade de Jesus Cristo e não aceitam. 1918. interpretando a "vinda do Senhor" não como uma vinda histórica e física mas como uma vinda espiritual ao Santuário celestial definitivo para. sofreram um desaire total porque. concluiu que 60 por cento dos americanos acreditava que o fim do mundo estava para breve. de tal modo que os analistas religiosos já consideram que este movimento se tornará. energia nuclear. a sua aparição última. 1881. por causa da fé no fim do mundo. quando ressuscitou. 1910. os Mormons. As datas passaram e o Advento do Senhor não aconteceu. Assim sendo. o juízo final. constituídos pelas tribos judaicas que emigraram para a América por ocasião do exílio da Babílónia. Uma vez que todas elas falharam. entretanto.News and World Report. a U. 14. William Miller vai concluir. Defendem que Jesus Cristo. Foi assim que nasceu o livro de Mormon.S. 1914. que os Adventistas atuais afirmam estar para muito breve. Na sequência da importância dos Novos Movimentos Cristãos com incidências parusíacas sobressaem também os Testemunhas de Jeová. mormente nos Estados Unidos.Mormons. culturais ou de desporto. O anjo Moroni apareceu ao jovem Joseph Smith. finalmente. Outras vezes pediram desculpa. 1925. tinham-se desfeito dos seus próprios bens. desfasamento das famílias. A seita da Verdade Suprema do Japão. descendentes da tribo de Efraim. mas de maneira invisível. regressou aos batistas com o desejo decidido de encontrar as datas precisas do Advento do Senhor. logicamente. Destas tribos judaicas é que teriam nascido os índios americanos. colocou gaz letal em Março de 1995 nalgumas carruagens do metropolitano de Tóquio. depois disso o santuário será restaurado". Mateus 24.milenarismo não substitui o milenarismo parusíaco da última vinda do Senhor através duma ação cósmica universal. revelando-lhe que as Sagradas Escrituras finais se encontravam escondidas em placas de ouro e que seria ele o último profeta de Deus a receber essas Escrituras e a divulgar a última mensagem divina aos homens. Durante muitos anos desenvolveu o maior movimento parusíaco dos Estados Unidos. Então. São eles os únicos Santos dos últimos Dias que formarão o milénio final de benção e glória no novo Sião restaurado. William Miller foi primeiramente batista. que o Advento final do Senhor iria ter lugar a 22 de Outubro de 1844. Por isso já estabeleceram várias datas para tal acontecimento.13) com a seguinte resposta de um outro ser celestial: "Dois mil e trezentos dias. possivelmente. O profeta 93 . Partem do princípio que este mundo está nas mãos de Satanás enquanto não se der a parusia do Senhor. Em 1994. estão dominadas pela força do Mal. que esperava a vinda de Cristo para os dias 20 ou 28 de Outubro. 1975. daí. Pegando no texto de Dn 8. da abominação devastadora. Hoje em dia. depois. O próprio título do Movimento já indica tudo: trata-se de cristãos que esperam o Advento do Senhor. a verdade cristã da Santíssima Trindade. sobretudo as datas de 1874. do abandono do santuário e do exército dos fiéis calcado aos pés" (v. juntar-se-ão aos da tribo de Judá e às outras dez tribos perdidas. preparar. no mais numeroso e poderoso entre os Novos Movimentos Religiosos nascidos nos Estados Unidos no séc. Em Outubro de 1994 quarenta e oito membros da seita apocalíptica do Templo Solar perpetraram um suicídio colectivo na Suiça. É um movimento que ganha todos os dias novos adeptos. nem as democracias da nossa sociedade. 1878. João com os sinais de sempre: guerras. um terço da população de matriz cristã acredita na vinda próxima de Jesus Cristo. A América era agora a Nova Jerusalém. tremores de terra. XIX. possuidora das últimas promessas de Deus através da última e definitiva parusia do Senhor Jesus Cristo.

a 18 de Setembro de 1988. terá alguma coisa a dizer-nos? Se eles interpretaram os mesmos textos bíblicos como profecias que se estavam a realizar no campo político e religioso do seu tempo. Vão ser dez anos decisivos. O termo parusia aparece 24 vezes no NT. no México. A Hal Lindsey juntam-se os grandes teleevangelistas com dezenas de milhões de ouvintes. de fome e desespero social. Nossa Senhora ter-lhe-á dito: "Estes próximos dez anos vão ser muito importantes. mas histórica. Late Great Planet Earth. interpretada de maneira literalista e fundamentalista. mas mudou-o para David Koresh com o fim de se autenticar como o novo rei David e o novo libertador da humanidade. qualquer pessoa que pesquise nas grandes livrarias dos Estados Unidos e da Europa vai encontrar dezenas de obras sobre este assunto. o termo encontra-se apenas nas cartas: onze vezes nas cartas paulinas autênticas. sobretudo de Ronald Reagan. na esteira do rei Ciro da Pérsia. Em 1998 dez dos principais evangelistas americanos publicaram um livro sobre As razões porque Jesus está mesmo a chegar. por vezes. no Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. em 16 é. Oral Roberts. incluindo dezassete crianças. Jim Bakker e muitos outros. em Novembro de 1978. da parusia. além de terem falhado na perspectiva histórica? 94 . todos os segredos que eu revelei a alguns dos meus filhos hão de acontecer e todos os acontecimentos que te foram preditos por mim vão ter lugar. The Road to Armageddon (A estrada para o Armagedon). Rex Umbard. Neste período de dez anos. O nome Koresh é uma metonímia de Ciro. Nossa Senhora ter-lhe-á revelado que o regresso final do seu Filho aconteceria no ano jubilar de 2000 (Movimento Mariano dos Sacerdotes. Neste período de dez anos o mistério da iniquidade. número 532). O mesmo se diga a nível de cinema. e foi o maior best-seller literário de 1970. em Jonestown. estão a concretizar-se nos dias de hoje. em Dezembro de 1994. E passando revista à história dos nossos dias. fundador dos Cenáculos. que culminará com o triunfo do meu Imaculado Coração na vinda gloriosa do meu Filho Jesus. Pat Robertson. do fim do mundo e juízo final? Será que os textos bíblicos são assim tão precisos e concretos que respaldem esta doutrina? Como vimos. cheios de guerras e tremores de terra. como é o caso dos filmes: The Rapture (O arrebatamento aos céus). Peço-te que os passes comigo porque vais entrar no período final do segundo Advento. mas com exceção do capítulo 24 de Mateus. que vendeu mais de 25 milhões de exemplares. desde a Patrística até aos nossos dias. preparado pela apostasia cada vez mais alastrada. e se todos eles falharam ao longo destes vinte séculos. Mas não estarão semelhantes "revelações" em contradição com a Bíblia. Marcos 13 e Mateus 24. Nossa Senhora dá-lhe a graça de audições interiores sobre os males do mundo e da Igreja. Refiro apenas o caso do célebre Padre Stefano Gobbi. que dinamiza milhares de sacerdotes e de leigos católicos. entre os quais sobressaem Jerry Falwell.. Como explicar toda esta fé. concluem que aqueles textos bíblicos têm que ser interpretados profeticamente e que. A nível de literatura. um termo técnico para indicar a vinda de Cristo no fim dos tempos. para não dizer esta febre e. " Mais tarde. Esta doutrina também anda na boca e no coração de milhares de católicos agarrados a visões e aparições de Nossa Senhora e a videntes apocalípticos. conselheiro de vários Presidentes dos Estados Unidos. Será que os textos poderão ter uma outra significação? E não será que o exemplo dos apocalípticos dos tempos passados. Segundo ele. A questão consiste em saber interpretar os textos. A Thief in the Night (Um ladrão na noite). que libertou os judeus no ano de 539. e morreram todos através do fogo em Abril de 1993. Sobressai a obra de Hal Lindsey. que também acreditava que o mundo estava próximo do seu fim. Dos vinte e sete livros do Novo Testamento. alguns textos de Paulo e o livro do Apocalipse. vinte e um referem esta doutrina. As razões referem sempre as mesmas profecias de Daniel e Ezequiel.. O seu nome era Vernon Jowell. Guyana. Entre eles sobressai o célebre pregador Billy Graham. Numa dessas audições. Image of the Beast (A imagem da besta). Para eles. estes textos bíblicos não devem ser interpretados de maneira figurativa. não será tudo isto um sinal de que os profetas apocalípticos do presente estão a cometer o mesmo erro? Mas não pensemos que esta realidade é apenas uma idéia peregrina de grupos evangélicos e de americanos que tudo vêem e perscrutam à luz da Biblia. tornarse-á manifesto. David Koresh vivia no seu rancho "apocalíptico" de Waco com 86 pessoas. como tal. e à política da independência de Israel e do mal estar político e social um pouco por toda a parte. como meio de salvar os seus fiéis do dia do fim do mundo. três vezes na segunda aos Tessalonicenses e seis nas cartas Católicas. sem dúvida que a doutrina sobre a segunda vinda de Cristo faz parte integrante da tradição cristã desde as suas origens. em Lurdes. uma certa paranóia à volta do Dia do Senhor.apocalíptico Jim Jones realizou um suicídio colectivo com mais de novecentas pessoas. numa locução interior. Destas 24 vezes. realmente.

29) também como prova da ressurreição dos mortos. e. para irmos ao encontro do Senhor nos ares. escrita por volta do ano 50. Em seguida nós. 15 da primeira carta aos Coríntios tem a ver com a questão da ressurreição e do modo da mesma ressurreição. O centro é sempre a ressurreição e não o dia do Senhor. Cristo. nem vos aterrorizeis com uma revelação profética. não precederemos os que faleceram. No entanto. Na comunidade falava-se. irmãos. à ordem dada. ele apresenta o batismo pelos mortos (v. 16 pois o próprio Senhor. era falso. e já sabemos que este gênero literário tem a ver com uma literatura figurativa e imagética. descida do céu. em que as imagens são evocativas de realidades escatológicas sobre as últimas realidades. não queremos deixar-vos na ignorância a respeito dos que faleceram. De fato. Marcos 13 e par. Trata-se duma iluminação interior? Trata-se. Será que Paulo se enganou? A mesma idéia aparece na primeira carta aos Coríntios: 15. Mateus 24 e Lucas 21. pura e simplesmente. Daniel. Mas não há uniformidade entre a ressurreição de Jesus e a nossa própria ressurreição: primeiro. E. 13-14). Só depois é que fala da vinda do Senhor. como todos morremos em Adão. de modo algum.. e os mortos em Cristo ressurgirão primeiro. Paulo disserta "per longum et latum" sobre a verdade da mesma ressurreição. Semelhante atitude só se compreende a partir da ressurreição de Jesus. o contexto do texto apresenta a idéia de que Paulo espera a ressurreição final para muito breve. Desta forma. 22. Na segunda carta aos Tessalonicenses . depois@. Mas o pensamento de Paulo é confuso porque. 1ª e 2ª carta de João e o Apocalipse. e assim estaremos sempre com o Senhor. O próprio Paulo pensa estar vivo nesse dia final: nós.. um pouco mais adiante. os vivos. 1. assim também Deus reunirá com Jesus os que em Jesus adormeceram" (4. E estas falsas idéias tinham a ver com invenções de alguns cristãos sobre alegadas cartas de Paulo: 2. da doutrina tradicional do Antigo Testamento sobre o Dia Javé. 1ª e 2ª carta aos Tessalonicenses. pedimo-vos.. vos engane. mas tudo isso. E para que os cristãos fiquem mais 95 . Na primeira carta aos Tessalonicenses. não é a da parusia do Senhor.. Pois bem.que nós não sabemos lá muito bem o que significa só se compreende se os mortos já ressuscitam desde agora. para não andardes tristes como os outros. som da trombeta . que ele classifica de vinda (parusia).o autor apresenta novamente a vinda do Senhor por causa das falsas idéias sobre o assunto que corriam na comunidade. os que ficarmos para a vinda do Senhor. como se o dia do Senhor estivesse iminente. baseando-se numa palavra do Senhor..12b: "como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos?"). A que palavra é que o Apóstolo se refere? Não sabemos. Paulo morreu e o dia do Senhor não se efetuou. Todo o cap. Paulo distingue entre a primeira ressurreição de Cristo e a segunda ressurreição. No seu conjunto trata-se de literatura apocalíptica.. atendendo ao seu contexto. só depois. nesse dia não haverá diferença para vivos e para mortos. de "revelações proféticas". os vivos. Cristo. o autor da carta pede aos crentes que tenham calma e que não façam caso de tais falsos boatos. 3 Ninguém. Por isso. uma palavra ou uma carta atribuída a nós. os que ficarmos para a vinda do Senhor. A questão central do texto. de tal modo que o "dia de Javé" passa a ser o "dia do Senhor Jesus"? Não devemos esquecer que a fé crístã sobre Jesus como O SENHOR é que revolucionou todo o esquema teológico do AT. mas a da ressurreição. Nem admira que Paulo utilize as imagens apocalípticas: voz do arcanjo . os que ficamos. 15: Eis o que vos dizemos. se acreditamos que Jesus morreu e ressuscitou.Comecemos por reparar que os textos mais recorrentes são os dos livros de Ezequiel. os primeiros a serem escritos na cronologia do Novo Testamento. Como havia dúvidas nos cristãos de Corinto sobre a verdade da ressurreição (v. aqueles que pertencem a Cristo. É claro que a doutrina sobre a parusia já aparece nalguns textos paulinos. semelhante batismo . portanto. desde os Padres da Igreja até aos nossos dias. 2 que não percais tão depressa a presença de espirito. Tais boatos "aterrorizavam" as pessoas. seremos arrebatados juntamente com eles sobre as nuvens. aqueles que pertencem a Cristo. por ocasião da sua vinda (en tè parousia autou). Uma vez mais. descerá do céu. Acerca da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e da nossa reunião junto dele. 23 Mas cada um na sua própria ordem: primeiro. escreve o Apóstolo: 4. Os cristãos de Tessalónica andavam muito preocupados com o problema de quem estaria nas melhores condições de salvação final no dia da ressurreição final: os que ainda viviam ou os que já tinham morrido? Paulo escreve: "Irmãos. Mas isto não significa que as últimas realidades se devam interpretar em perspectiva de historicidade física e cronológica como fizeram todos os movimentos e personagens que examinamos. assim em Cristo todos voltarão a receber a vida. agora revista pela fé cristã. de "palavras" e de "cartas" atribuídas a Paulo sobre a "vinda do Senhor". à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus. baseando-nos numa palavra do Senhor: nós. segundo o nosso autor.que a maioria dos exegetas afirma ser um escrito pseudonímico . 17. os vivos. que não têm esperança. a alusão à segunda vinda do Senhor aparece como mais uma prova da ressurreição do Senhor e da nossa ressurreição.

. Estavam todos reunidos. Quem é esta personagem? É uma só ou são várias? Os apocalípticos. Quem é esta personagem ou instituição que detém o tal homem da iniquidade. O mesmo assunto é descrito na 2Pd 3. Quando Lucas escreve os Atos dos Apóstolos. 3. ". Antes de mais. A questão do tempo fica ainda mais precisa no versículo seguinte: "Com efeito. contra o império e contra a religião imperial. o mistério da iniquidade já está em ação. então. O que interessa para o nosso estudo é vermos que o autor espera a segunda vinda de Cristo para o seu tempo ou para tempos muito próximos. não passa duma farsa. entregou-nos a missão de o anunciar ao mundo inteiro.. têm procurado descobri-la em instituições políticas. pois só o Senhor é eterno e vencedor. As imagens da besta (c. Lucas substítui a febre parusíaca pela verdade do Pentecostes. Trata-se . tenham visto nestas figuras pessoas e instituições políticas e. basta que seja afastado aquele que agora o detém. A Igreja é a Igreja do Pentecostes e não a Igreja que espera pela parusia e pelo Reino de Deus. o filho da perdição. Jesus veio uma só vez. A febre parusíaca naquelas primeiras comunidades aparece igualmente nos Atos 1. por toda a Judéia e Samaria e até aos confins do mundo. hão de vir uns impostores trocistas. O livro do Apocalipse é o último livro do Novo Testamento. os cristãos andavam a ser enganados. não devemos esperar por uma nova vinda ("é agora que vais restaurar o Reino de Israel?") mas viver da Ressurreição -Exaltação do Senhor e do seu Espírito. religiosas. 4 vos perguntarão: 'Em que fica a promessa da sua vinda? Desde que os pais morreram.96). mas simplesmente usa de paciência para convosco. agora. Sem dúvida que o autor do Apocalipse acredita nesta vinda para breve. caríssimos. afirmandolhes que a perseguição é passageira. em personagens religiosas ou instituições religiosas. quando lhe perguntaram: "Senhor. que desencadeou uma forte perseguição aos cristãos da Ásia Menor.. 3. 8 Mas ides receber uma força. 17 só podem significar Roma e o seu império. dez séculos ou vinte séculos depois. tal figura já existia naquele tempo. e sereis minhas testemunhas em Jerusalém. pois não quer que ninguém pereça. filho da perdição e adversário? Também não sabemos. Se ele se referisse a um século.6: "E agora sabeis o que o detém para que se manifeste no momento que lhe toca". Os apocalípticos de todos os tempos interpretam de maneira literal estes mil anos e procuram encontrar o fim do mundo e o dia do Senhor a partir de falsas cronologias desde Adão até hoje. Mas o certo é que. nos últimos dias. Andar hoje em dia à procura de identificar estas personagens em figuras políticas ou religiosas do nosso tempo é correr contra o tempo. 9 Não é que o Senhor tarde em cumprir a sua promessa. o adversário. segundo o texto. ao longo destes dois mil anos. a começar pelo erro de não aceitarem o evolucionismo científico. O autor usa uma linguagem simbólica contra Roma. um dos mais usados e manipulados pelos adeptos da "parusia" iminente do Senhor. como um só dia. que não deveis esquecer: um dia para o Senhor é como mil anos..13).dum escrito pseudonímico. da prostituta (c. possivelmente no tempo do imperador Domiciano (81. que já devia ter vindo e mudado a face da terra. é agora que vais restaurar o Reino de Israel?' 7 Respondeu-lhes: `Não vos compete saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou com a sua autoridade. O livro foi escrito num período de grandes tribulações para a Igreja. aquele que se ergue contra tudo o que se chama Deus ou é objeto de culto. 1-9 e passim). E como não concordava com semelhante doutrina desfaz a mesma doutrina substituindo-a pela ação do Espírito Santo. especialmente o papado. O autor da carta afirma no v. até ao ponto de ele próprio se sentar no templo de Deus e de se ostentar a si mesmo como Deus (2. ficai a saber que. Já passou a primeira geração e a vinda do Senhor não aconteceu. que descerá sobre vós. mas que todos se convertam. como desde o princípio do mundo!' . Os exegetas concluem que esta carta deve ser o último escrito do Novo Testamento.. como também católicos de outras eras. E. como vimos. mas a verdade é que tudo continua na mesma. se assim é. 3-4). Se Jesus era o Senhor e o Messias devia mudar a face da terra conforme vem nas Escrituras Hebraicas (Is 11. deixou-nos o seu Espírito e. como alguns pensam. que confiança e esperança podia dar aos 96 . a fé cristã e messiânica no Senhor. A única resposta que encontra para acalmar as hostes desgarradas é a do tempo de Deus: o tempo de Deus não é como o nosso tempo pois um dia para o Senhor é como mil anos. 3-13. o autor vai-lhes dizer que o dia do Senhor só virá depois de se manifestarem as seguintes personagens: o homem da iniquidade.. que viverão segundo as suas más paixões e. 13 e a grande prostituta do c. O autor da carta escreve como um pastor que deve conservar a fé dos cristãos. a febre parusíaca estava em maré alta.e uma vez mais . sobretudo. 8 Mas há uma coisa. troçando. Segundo ele. Se a besta do c. mas tudo em vão. o autor do Apocalipse tem por fim infundir esperança e confiança aos cristãos perseguidos do seu tempo. tudo continua na mesma.calmos.17) e da Babilônia (c. e mil anos. embora muitos evangélicos de ontem e de hoje. 6-8: 6. a do Espírito Santo. logo.18) só podem significar Roma e o seu império.

os cristãos de hoje. Esta conclusão fica mais clara se tivermos na devida conta todo o contexto pastoral dos versículos 34-38. O texto e o seu conteúdo tem a ver com o que Jesus afirmara um pouco antes. 3-13 e 2Ts 2. com os santos anjos". e os de sempre.. 28) a vinda do Filho do Homem no meio daquela geração adúltera e pecadora. 12). Basta reparar no v. as coisas que brevemente devem acontecer" (1.apresentam-nos o próprio Jesus a falar não propriamente da sua segunda vinda. também o Filho do Homem se envergonhará dele. A partir da fé e da esperança destas comunidades é que nós. Umas vezes refere a vinda iminente do Reino de Deus e outras a vinda iminente do Filho do Homem. falar da batalha do Armaguedon como se fosse acontecer nos nossos dias ou para tempos muito em breve. duas categorias de logia ou palavras de Jesus sobre o assunto. 13. esta repetição de figuras distintas e de vindas iguais sobrecarregam o texto e a sua doutrina. quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho. tanto no AT como no NT. Temos que regressar agora à pessoa de Jesus e dos Evangelhos e perguntar se a doutrina da segunda vinda do Senhor j'á arranca do próprio Jesus da história ou se é um dado doutrinal que tenha nascido e se tenha desenvolvido a partir das próprias comunidades. Mais ainda.. nos devemos reler à luz daqueles tempos e daqueles testemunhos. 11) para indicar a batalha final entre Deus e os seus inimigos. Como fica claro. estabelecendo o paralelo entre esta grande cidade e a cidade da Babilônia (v. mas da vinda do Reino e do Fílho do Homem. O mesmo acontece ou pode acontecer com o NT em relação à pessoa de Jesus. Logicamente. Virei brevemente!" (22. "Sim. em Mc 8. como vimos. 16 é uma metonímia do Armaguedon do AT. o evangelista só se pode referir a um tempo eclesial em que os cristãos sofriam perseguição por causa da sua fé ou do evangelho cristão. e no versículo seguinte (9. por causa da energia nuclear ou por outra causa qualquer. é fugir à intenção do texto.ao contrário do quarto evangelho . e alguns até combatam a tal febre parusíaca como é o caso da 2Pd 3. Para compreendermos tudo isto temos que rever quanto dissemos sobre a questão sinóptica e as três etapas da composição dos evangelhos sinópticos: o tempo do Jesus histórico. 3) . 38: "Pois quem se envergonhar de mim e das minhas palavras entre esta geração adúltera e pecadora. quem quiser salvar a sua vida. Há. uma cidade da planície de Esdrelon ligada à derrota do santo rei Josias (2Rs 23. Se tomarmos este texto ao pé da letra . Se assim é. Todos os textos do NT que vimos até agora são textos de Paulo. Assim sendo. 29. 1: "Em verdade vos digo que alguns dos aqui presentes não experimentarão a morte sem terem visto o Reino de Deus chegar em todo o seu esplendor". 1) a vinda do Reino de Deus. e nem sempre é fácil distinguir o que é do Jesus da história e o que é do Jesus da Igreja porque tudo nos Evangelhos é de Jesus e é da Igreja. dos Atos dos Apóstolos. isto é. A célebre batalha do Armaguedon descrita no livro do Apocalipse 16. 10.10). assim. no seu comentário em dois volumes ao Evangelho de Marcos: LÉvangile de 97 . 1."pois o tempo está próximo (22.. do Apocalipse e de outras cartas do NT.e não há motivo para não ser assim Jesus afirma que o Reino de Deus.. com imagens apocalípticas. 11 que só pode significar Roma. a palavra Armaguedon significa "montanha de Meguido". A pergunta não é nenhuma heresia uma vez que. Jesus afirma em Mc 9. por ele tantas vezes proclamado. quando vier na glória de seu Pai. Zc 12. a fim de lhe dar a taça do seu vinho. 35: "Na verdade. 110.(1) (1) O célebre exegeta católico Simon Légasse. Exceto o texto dos Ac 1."Eis que venho em breve" (. No nosso texto concreto. e que constitui. Os evangelhos sinópticos .. afirma que alguns dos presentes o hão de ver. 22-24). Sobre o Reino de Deus.. 20). ha de perdê-la. 9-11). que vai contra a maré parusíaca. 6-8.seus leitores? Tanto os profetas do AT como os do NT tinham sempre em vista as comunidades e os leitores do seu tempo. o evangelista apresenta num versículo (8. Em hebraico. todos demais exprimem essa fé e doutrina. o cerne de toda a sua mensagem. será manifesto em todo o seu esplendor na geração dos seus ouvintes. Sem dúvida que anda aqui a mão pastoral do redator final.." Já sabemos que o Jesus da história sempre falou do Reino de Deus e não do Evangelho. o lugar de Armaguedon recebe um significado simbólico (cf. embora os textos nem sempre sejam claros. O autor refere a derrocada da grande cidade (16. Esta vinda iminente do Senhor transparece claramente nas frases do Apocalipse: " . 29-. o tempo da tradição e o da redação. há muita doutrina de fé judaica que os judeus colocam na boca de Deus e Deus na boca de Moisés. do furor da sua ira"). mas. 2Cr 35. Com o mistério pascal é que Paulo e os demais cristãos deixam de falar de "Reino de Deus" e começam a falar de "Evangelho" (Mc 1.1 "Deus recordou-se da grande Babilônia. A partir daí.. Esta mistura entre o Jesus como Filho do Homem e a Igreja é uma constante ao longo dos evangelhos. as palavras de Jesus sobre a vinda do "Reino" e sobre a vinda do "Filho do Homem" têm a ver com os tempos da própria Igreja. ha de salvá-la. 1) porque o tempo está próximo" (1.

puisque ayant quitté ce monde." E um pouco mais adiante sobre o v.38: "Le Christ est ici inséparable de ses "paroles"... na exposição da parábola do grande banquete em Mt 22..lesus: Christian Prophecy in the Synoptic Tradition. depois daquela aflição. 13 de Marcos. A vinda inesperada do Filho do Homem aparece igualmente em Mt 24. On traduirait tout aussi bien : "à cause de lévangélization" qui proclame le Christ. Trata-se de capítulos muito complexos precisamente por causa da 98 . com os seus anjos. verão o filho do Homem vir sobre as nuvens com grande poder e glória. le Christ est communiqué dans ce monde par le message chrétien que répandent apôtres et missionnaires. addition opportune comme celle de l'Évangile" au verst 35. que é exclusiva de Mateus. por ver as coisas acontecer como antes e constatar que o Reino de Deus pregado por Jesus se fazia esperar (. finalmente. 14-46 e ter em consideração o contraste entre a parábola de Mateus e os paralelos de Lucas e Marcos na parábola da rede em Mt 13. Cf. Paris. e então retribuirá a cada um conforme o seu procedimento. tendo deixado este mundo. a Igreja estabelece a soberania do próprio Jesus ressuscitado e exaltado. 1 escreve o nosso autor na p. 47-50." E acerca de Mc 9. da extremidade da terra à extremidade do céu. a sua pessoa e a sua obra de salvação. est l'oeuvre de quelque prophète chrétien s'adressant aux premières communautés palestiniennes [ . Sayings (jf the Risen. a doutrina cristã sobre a segunda vinda do Senhor das comunidades primitivas sobrepõe-se à doutrina de Jesus sobre a vinda do Reino e do Filho do Homem. a vinda do Filho do Homem é assim descrita: 24 Mas naqueles dias. mas o Jesus duma Igreja que necessita de ter uma Lei e viver segundo essa mesma Lei." É hoje ponto assente na exegese moderna que os profetas cristãos tiveram um grande papel na elaboração da tradição evangélica.estudante de medicina em Lisboa: Morrer por Cristo também é morrer pelo Evangelho. Depois da sua morte.Boring.). Jesus é agora submetido ao encontro direto dos seus e comunica com eles por uma palavra: essa que transmite nas e para as Igrejas (. 2324 (fonte Q) e em Mt 24. Lc 17. 25 as estrelas cairão do céu e as forças que estão no céu serão abaladas.] visando reconfortá-las enquanto os seus membros se preocupavam. constituem os três apocalipses dos sinópticos. 513. Enquanto que Jesus estabelece o Reino de Deus..) Estes comentários levam a crer que uma tal promessa. T. ] et visant à les réconforter... 29-31 e par. 26 Então.luso-francesa. E é assim que se explica a obrigação inadiável da missão a todas as cidades de Israel antes que chegue o Filho do Homem. c'est aussi mourir "à cause de l'Évangile". sa personne et son oeuvre de salut. A mesma doutrina aparece no paralelo de Mt 16. O cap. M. 24-27. 36-43. 1997. Poder-se-ia traduzir também pela "causa da evangelização" que proclama Cristo. 24-27 e Lc 21. 35: "Mourir pour le Christ. 27 Ele enviará os seus anjos e reunirá os seus eleitos dos quatro ventos. em vez de ser formulada pelo próprio Jesus. é obra de algum profeta cristão dirigindo-se às primeiras comunidades palestinianas [. 25-28. (. Mateus é o evangelista que faz sobressair a salvação através das obras (cf. Cambridge 1982. Em todos estes textos. plutôt que d'avoir été formulée par Jésus lui-même.E. 25.Marc. Tradução das partes da nota em francês. 11-14). 518: "Ces remarques portent à croire qu'une telle promesse. por Vânia Sacramento . A nota redaccional de Mateus está bem clara na afirmação sobre a retribuição a cada um conforme o seu procedimento. du moment qu'à l'heure oú Marc écrit. Cristo é comunicado nele pela mensagem cristã que os apóstolos e missionários propagam. 27-28: Porque o Filho do Homem ha de vir na glória de seu Pai. Por isso perguntamos: a escatologia apocalíptica da segunda vinda do Senhor Jesus não é um fruto amadurecido das igrejas cristãs primitivas na linha da fé cristã na ressurreição messiânica do Senhor? O mal estar das comunidades e o mal estar do mundo de então exigia esta segunda vinda para repor. alors que leurs membres s'inquiétaient de voir les choses se dérouler comme avant et de constater que le Royaume de Dieu prêché par Jésus se faisait attendre. Jésus est désormais soustrait à Ia rencontre direte des siens et communique avee eux para une parole: celle qui se transmet dans et par les Églises. p. castigando os maus e recompensando os fiéis com um reinado definitivo de paz e amor (Ap 20). uma vez que. Mc 13. o Sol vai escurecer..11. juntamente com os paralelos de Mt 24 e Lc 21. não se trata da vinda do Senhor ou do dia do Senhor.) Cristo é aqui inseparável das suas "palavras" adição oportuna como a do Evangelho ao V. escreve sobre o nosso v. Em Mc 13. na explicação da parábola do trigo e do joio em Mt 13. Em conclusão. antes de terem visto chegar o Filho do Homem com o seu Reino. Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui presentes não hão de experimentar a morte. 1-14. 35 do momento e da hora em que Marcos escreveu.se e a lua não dará a sua claridade. os cristãos transferiram a "vinda do Reino de Deus" e do "Filho do Homem" para a vinda do seu Senhor. com o final redaccional de Mt 22. mas da vinda do Reino de Deus e da vinda do Filho do Homem... ao contrário de Paulo e demais textos anteriormente examinados. 27 e par. a ordem e a paz definitivas de Deus.. O Jesus de Mateus não é o Jesus da gratuidade.

29 e 30. também. Em Marcos a mensagem é apenas de esperança e não de castigo. 16. até porque semelhante doutrina converte muita gente à pessoa de Jesus Cristo. e a "queda das estrelas do céu" aparece da mesma maneira em Is 34. 7. se atendermos bem aos vv.e que é fundamental para a nossa tese -. A elaboração destes textos tem muito a ver com o gênero literário midráshico que já encontramos na análise que fizemos aos evangelhos da infância.17LXX. 23. para quem a evangelização cristã é uma obrigação pertinente e inadiável até que venha o Filho do Homem. de muita gente.20b). Jr 23. Se Jesus é o Ressuscitado e o Senhor exaltado à direita do Pai. 28. as imagens do "sol que se escurece" e da "lua que não dá a sua claridade" dependem de Is 13. embora o texto termine afirmando no v. 14: Este evangelho do Reino será proclamado em todo o mundo. 5) ou numa personalidade celestial (4Esd 7. mas em Marcos e paralelos trata. IQM 11. sim. E então virá o fim. abreviou esses dias (v. Em conclusão. pois. 53. ainda por cima corroborada com a parábola da figueira (v. o evangelista espera esta vinda do Filho do Homem para muito breve precisamente por causa dos eleitos: mas. Estes "eleitos" não são os judeus. às portas (v.32: Quanto a esse dia ou a essa hora. 19-21. agora. 8-11) que. no NT. 4QTest 9-13 . por causa dos eleitos que escolheu. 3. 28: Em verdade vos digo: alguns dos que estão aqui presentes não hão de experimentar a morte. 2Sin 7. As imagens figurativas que aparecem nestes textos são a reprodução de muitos textos do AT. isto é. os cristãos espalhados pelo império romano no tempo da composição de Marcos.se da pessoa de Jesus Cristo que dispõe dos seus anjos para reunir os seus eleitos dos quatro ventos. o Filho do Homem. Em verdade vos digo: Não acabareis de percorrer as cidades de Israel. 13.28). Jesus nunca fala da sua vinda. 31. e da incerteza.só o Pai. mas da vinda do Reino de Deus e da vinda do Filho do Homem. Em Dn 7. O que mais estranha nesta composição de Marcos é o fato da vinda final do Filho do Homem sobre as nuvens e com grande poder e glória não referir a ressurreição dos mortos nem um julgamento que recompense os bons e condene os maus. O mesmo aparece em Mt 16. ao contrário do que afirma o paralelo de Mateus 25. Mq 5. 31-46. 23: Quando vos perseguirem numa cidade. sabei que ele está próximo. 18. O narrador joga com a ambiguidade da certeza. 1. ApBar 29. A sua elaboração depende profundamente dos dois últimos estádios da formação sinóptica: o estádio da tradição e o da redação. No nosso texto concreto. 29). Trata-se duma ambiguidade pastoral e catequética diante das muitas idéias que grassavam nas comunidades primitivas sobre o assunto da "parusia". fugi para outra. quando virdes acontecer estas coisas. os cristãos que viviam em dificuldade e dispersos pelo império romano que esperam para os seus dias (para a sua geração) a vinda do Filho do Homem. mas em Mc 13. por outro lado. também é o Messias que vem instaurar a paz e o amor definitivos. Uma vez mais. segundo a tradução grega dos LXX. em Qumran CD 7. mas. é o vidente que contempla a vinda do Filho do Homem. ao contrário dos textos já examinados de Paulo e de outras cartas do NT. 4. Qualquer leitor pode estranhar o fato de Jesus pedir aos discípulos que fujam duma cidade para outra no caso de serem perseguidos. 12s. sem "desvitalizar" uma fé que deve o seu dinamismo a esta tensão da esperança que alimenta a expectativa dum desfecho próximo ?" Outro texto de Jesus que aparece sempre citado pelos defensores da parusia iminente vem em Mt 10. do mundo inteiro (Nm 24.. 20. As expectativas messiânicas do AT concentravam-se numa personalidade terrena que seria o salvador de Israel e.complexidade dos conteúdos. Como escreve Jacques Dupont: "Marcos não está disposto a abandonar de modo algum a idéia dum fim iminente: é possível renunciar a essa idéia sem terminar numa "desmobilização" dos crentes. Mais ainda . Mas quando é que se dará o fim? Em 10. enquanto no AT é o próprio Deus que intervém com o seu "Dia" de juízo final. O narrador é um evangelista que adere à tradição parusíaca. antes de terem visto chegar o Filho do Homem com o seu Reino. Trata-se. o fim tem a ver com a vinda do Filho do Homem. 5. o significado parece claro: trata-se dum apelo à missão evangélica (vv 5-23) para a conversão de Israel a Jesus. Deus intervém através do Filho do Homem.. Não se esperaria que Jesus pedisse aos seus discípulos que sofressem as perseguições em vez de lhes fugirem? Simplesmente. através dele.Assim. 6. nem o Filho. Isto significa que Jesus anunciou a vinda do Reino e que as igrejas primitivas anunciaram a vinda do próprio Jesus Cristo. nalguns textos. para se dar testemunho diante de todos os povos. tanto mais que a vinda do Filho do Homem está para muito breve. mas também o evangelista que fala em vez de Jesus. o verbo aparece no plural: verão. 10. 12. antes de vir o Filho do Homem. 26. ninguém os conhece: nem os anjos do Céu. se chama o tal Filho 99 . Em verdade vos digo: não passará esta geração sem que todas estas coisas aconteçam (v. Mas. Esta maneira de apresentar a vinda do Filho do Homem só se pode explicar se o narrador tiver em vista os "eleitos".30). Em Daniel o Filho do Homem tem a ver com os santos de Deus. SISI 17. 21. não é só Jesus que está a falar. O mesmo aparece em Mt 24. por um lado.

lss. Isto é. quer estejamos vigilantes. Deus não nos destinou à ira mas à posse da salvação por meio de Nosso Senhor Jesus Cristo que morreu por nós. já é uma nova criação e já está totalmente reconciliado com Deus.. a fim de que. então. "Em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso" (Lc 23. exortamo-vos a não receber em vão a graça de Deus. O que era antigo passou. E é assim que nasce naturalmente a fé na segunda vinda do Senhor. falta ainda repararmos nos textos do NT que nos apresentam uma escatologia realizada no tempo presente. sociais e religiosos. 6. O Apóstolo é bem claro: quem tem a fé cristã já vive o dia da salvação. o cristão espera e aguarda o encontro com Cristo. sobre a parusia.. 17 Por isso. 23-24: "Estou pressionado dos dois lados: tenho o desejo de partir e estar com Cristo. San Francisco 1998. "É dificil identificar os rasgos absolutamente essenciais das variadas maneiras de falar. no dia da salvação. 43).nesse dia ressuscitariam para que a justiça final acontecesse. That is. Basta lermos com atenção 2Cor 5. e pondo em nós a palavra da reconciliação . a segunda vinda das palavras de Jesus. 1 sce them as a product of the community." Neste último texto. created after Easter to express thc conviction that Jesus would soon return as lhe Son of Man". sobretudo os da linha apocalíptica. etc. 4. Escreve: "This view also emphasizes that the coming Son of Man sayings are in fat the second coming of Jesus sayings. lTin 4. 6. é uma nova criação. ss. lss. 3s. em The Meaning ofJesus. Rathcr. Em todo o caso. no caso 100 . 17-6. vim em teu auxílio (cf. e isto muitos anos antes da destruição de Jerusalém. aqui e além. que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. lss. Além do mais. 1 E como seus colaboradores. como já expusemos. reparemos que Paulo é o primeiro a escrever sobre a segunda vinda do Senhor. Como compaginar a esperança apocalíptica com a fé na escatologia realizada no tempo presente? É um enigma teológico que continua sem solução linear. Radl. em Cristo. defendendo que até os logia de Jesus sobre a vinda do Filho do Homem e do Reino de Deus nasceram dentro das comunidades cristãs primitivas. também devemos ter em consideração o fenômeno da destruição de Jerusalém com o seu Templo. não há nem paz social nem amor por causa dos inimigos judeus e romanos. Assim sendo.. também a escatologia final acaba por acontecer. 2: 5. Mas a verdade concreta é que. A doutrina normal de Paulo é precisamente a da escatologia realizada no tempo presente: o cristão batizado já vive a vida eterna no tempo histórico da sua existência. 8). 18 Tudo isto vem de Deus. se alguém está em Cristo.. quando estiveres no teu Reino". quer durmamos. mais tarde. também afirma em 5. já que isso seria muitíssimo melhor. é este o dia da salvação. lembra-te de mim. 2Tm 3. 13ss. 2Pd 2. 53. a fé da segunda vinda do Senhor está em total tensão com esta doutrina de Paulo. Mesmo assim. mas também por causa de falsos profetas cristãos e anticristos que estavam a surgir nas igrejas (lJo 2. embora os textos jesuânicos sobre a vinda iminente destas duas figuras já estejam carregados de pastoral e catequese cristãs dos evangelistas e respectivas tradições. nos novos tempos cristãos. que se revela a si mesmo como o Senhor" Os mesmos evangelhos sinópticos.). embora Paulo nos apresente a segunda vinda do Senhor em 4. Is 49." (1) Marcus J. Como escreve W.do Homem (Dn 7. É este o tempo favorável. logo.(1) Finalmente. Na primeira carta aos Tessalonicences. Enoc etíope 46. 1 do not think that Jesus spoke of the imminent coming of the Son of Man and that the community later saw these as referring to Jesus. eis que surgiram coisas novas. uma aquisição normal da fé cristã a partir da fé na Ressurreição e no Messias e uma variante lógica da vinda do Reino e do Filho do Homem. eu vejo-o como produto da comunidade criado depois da Páscoa para expressar a convicção de que Jesus voltaria em breve como o Filho do Homem". tenha visto isto como referente a Jesus. o Apóstolo apresenta um bom exemplo da escatologia realizada no tempo presente. 2Jo 7. ouvi-te e. 131-XX. O mesmo acontece em Fl 1. Borg. Mas a ambiguidade persiste por causa dos males políticos. Em vez disso. 18ss. as igrejas têm que esperar pela segunda vinda do seu Senhor. em Cristo. 19 Pois foi Deus quem reconciliou o mundo consigo. Tradução: "Este ponto de vista também enfatiza o fato de que as palavras do vindouro Filho do Homem são. apresentam-nos narrativas de uma escatologia realizada a partir da própria ressurreição do Senhor. Pois ele diz: No tempo favorável. Como para os cristãos a mesma ressurreição já aconteceu. com ele vivamos unidos. 1. com marcado caráter apocalíptico. que foi visto como o prenúncio do fim da história para judeus e cristãos. mas continuar a viver é mais necessário por causa de vós. na verdade. 4Esd 13. p. É o que Jesus responde ao bom ladrão após o seu pedido: "Jesus.. A doutrina da parusia do Senhor é. 3. O advérbio temporal grego sèmeron.194 vai um pouco mais longe. Sabemos pelo AT e pelas tradições judaicas posteriores que a fé na ressurreição implicava para os judeus a fé no fim dos tempos .32). não penso que Jesus tenha falado da vinda eminente do Filho do Homem e que a comunidade. como já expusemos. 9-10: "De fato. não imputando aos homens os seus pecados.

nompson (eds. Cohen. a terra tremeu e as rochas fenderam-se.). cf. John Day (ed. 3 vols ( T & T. definitiva e total. Creyer e nomas L. Sheffield 1998). The Jews in the Time of Jesus (Paul ist Press. os mortos aparecem aos vivos . 51-53 apresenta a mesma doutrina ao narrar que. Peabody MA 1987). E. imediatamente a seguir à morte de Jesus. Qumran betweeii the Old and New Testaments (JSOTSupl 290.). de alto a baixo.Jewish Lawfrom Jesus to the Mishnah (Trinity Press. Lc 4.. The Works of Josephus (Hendrickson Publishers. Karl P. Robert A. Schiffman. Sheffield Academic Press.em que os mortos hão de ouvir a voz do Filho de Deus. Leipoldt e W. e. Ib. De modo algum podemos traduzir como fazem as Testemunhas de Jeová: "E ele [Jesus] lhe disse: Deveras. em verdade vos digo: chega a hora . Philadelphia 1990). Jacob Neusner. que estavam mortos.e é já . porque Ele é Filho do Homem. 2 vols. Jesus Within Judaism (Doubleday. Willíam Whíston.".. Textos de Qumrán (Ed. " O midrache de Mt 27. Florentino García Martínez. Oxford 101 . 3 vols. Introducción al estudio de los primeros escritos cristianos (El Almendro.Eerdmans. Emil Schürer. El Nuevo Testamento. o "santo" do "santo dos santos". Shayne J.(Doubleday. os sacerdotes do Sumo Sacerdote. Frederick H. Nickelsburg (eds. ) para demonstrar que não pode haver qualquer segunda vinda de Jesus Cristo. O evangelista serve-se de imagens apocalípticas (as rochas fendem-se .. The Mishnah. Charlesworth.). e os que a ouvirem viverão. JESUS CRISTO É DE ONTEM. 27 e deu-lhe o poder de fazer o julgamento. Sheffield Academic Press. Fitzrneyer.. The Herods ofJudea ( University Press.B. Steve Mason (ed.. é um ótimo exemplo da escatologia realizada a partir da morte e ressurreição de Jesus.P. ainda Lc 5. NY 1962). 28 Não vos assombreis com isto: é chegada a hora em que todos os que estão nos túmulos hão de ouvir a sua voz. From Text to Tradition: A History of Secolid Temple and Rabbini (Judaism (Ktav. 4 vols. (Cristiandad. Mas é sobretudo o quarto evangelho que melhor apresenta a chamada escatologia realizada. New Ilaven 1988). 26. Esta tradução quer significar que o "bom ladrão" só estará com Jesus no Paraíso quando se der a segunda vinda do Senhor. assim como O Pai tem a vida em si mesmo. Atlanta 1986). nem uma segunda ressurreição. The Dead Sea Serollv and Christiaiz Faith: In Celebration of the Jubilee Year of the Discovery of Qumran Cave I (Trinity International. Madrid 1993). Understanding. Trotta. 5. Jones. NY 1987). London. Charlesworth e Walter P. Elias Bickerman. A partir daquela morte e ressurreição acontece a ressurreição final para todos os santos. Flavius. Clark Ltd.9).fosephus: Seven Perspectives (JSPSup 32. 26 pois. 1935-48). especialmente em 5.Sanders. Sheffield 1998). O JUDAíSMO DE ESDRAS A JESUS James Charlesworth. A partir daquela morte e ressurreição de Jesus começa um mundo novo: o Templo de Jerusalém não divide mais os pagãos dos crentes judeus. Grand Rapids 2000). "o véu do templo rasgou-se em dois. The Old Testament Pseudepigraplia. Philadelphia 1985). Jesus and the World of Judaism (Fortress Press. 21: "Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura. El mundo del Nuevo Testamento. ressuscitaram. The History of the Jewish people in the age ofJesus Christ. os túmulos abrem-se .. Sheffield Academic Press. 29 e sairão: os que tiverem praticado o bem. The Dead Sea Scrollv aiid Christian Origins (W. Geza Vermes. James H. Harrisburg 1998). Judaism and Christianity in the First-Century Rome (Grand Rapids. Kraft e George W. NY 1988). para uma ressurreição de vida e os que tiverem praticado o mal. para uma ressureição de condenação. Mirielle Hadas-Lebel. Eerdmans 1998). Diez Macho. Grundmann (ed..).5 (Scholars Press. The Babylonian Talmud ( Soncino Press.E. Weaver (eds. M.D. Philadelphia 1983). HOJE E SEMPRE. Cordoba 1995).concreto de Lucas significa precisamente hoje mesmo (Cf. também deu ao Filho o poder de ter a vida em si mesmo. Edinburgh 1973). 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