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Fotos Cedoc

estilo > valores simples

dez

segredos

de uma casa

feliz

Valorizar o simples, o cotidiano, a luz que invade a sua mesa na primeira hora do dia, as plantas que brotam inesperadamente. Enxergar os detalhes que cercam o seu lar pode ser a fórmula para ser feliz agora

Texto Carolina Nogueira

50 | janeiro 2012 | CASA E JARDIM

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P ode ser que nem você saiba ainda o que vai querer da sua vida daqui a cinco

ou dez anos, mas a designer holandesa Lidewij

Edelkoort tem uma boa ideia a respeito.

Aos 61 anos, 20 deles dedicados a estudar comportamento de consumo em vários países,

Li é conhecida como a maior autoridade em

previsão de tendências do mundo. De seus escritórios em Nova York, Paris e Tóquio, ela antecipa para clientes como Nissan, Lacoste e Coca-Cola quais serão os nossos próximos dese-

jos. Não só na estação seguinte, mas na próxima década. “As pessoas falam como se eu fosse uma mística, uma adivinha. No entanto, tudo o que faço é prestar atenção no mundo”, diz ela.

A última novidade da moda, do design e da

arquitetura, as culturas tradicionais, as mu- danças sociais, os movimentos políticos – nada escapa ao seu caderninho de anotações, no qual

cola fotos, desenhos, pedaços de tecido e recor- tes de notícias de jornal. Quando estuda um hábito de consumo, mais do que saber onde se comprou ou quanto se gastou, Li persegue os desejos profundos que nos movem quando escolhemos uma colcha ou decidimos pintar uma parede de azul.

O resultado de suas análises é editado em ca-

tálogos exclusivos para seus clientes e na revista

semestral Bloom – em que, ao contrário do que

se possa imaginar, não se encontram projetos,

paletas de cores nem tendências batizadas com algum nome criativo. Nada disso. São cadernos de inspiração, de convite à criação, à reflexão sobre nossos desejos pro- fundos, instintivos, que normalmente acabam

soterrados pela correria da vida. São conceitos abstratos e imagens etéreas que ser vem como excelente ponto de partida para a concepção

de todo tipo de produção – inclusive dos seus

projetos de construção e reformas. Numa tarde nublada do outono parisiense,

Li apresentou alguns desses conceitos, dessas

vontades que ela batiza de “culturais”.

parisiense, Li apresentou alguns desses conceitos, dessas vontades que ela batiza de “culturais”. 23/12/2011 17:06:11
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1. O dom da luz A janela é um espaço privilegiado da casa. Ela emoldura

1. O dom da luz

A janela é um espaço privilegiado da casa. Ela emoldura a paisagem e funciona como uma ponte entre o que está dentro e o que está fora. Ela convida a sair e traz para a casa um pedaço do resto do mundo. Quando pensar em cortinas, não queira isolamento. Modelos pesados – como os de veludo vermelho do

teatro – só são bem-vindos como um jeito inteligente de dividir ambientes, no interior da casa. Nas janelas, cortinas são cúmplices da luz, não seus algozes. Devem ser de fibra natural, para balançarem ao vento, como

o vestido de uma criança correndo pelo corredor, depois de um banho fresco no meio de uma tarde de verão. A luz não é um detalhe: ela é a vida por completo. Deixe o sol da manhã acordá-lo, tocando de leve a sua pele. Sinta no seu corpo a alegria de estar vivo.

leve a sua pele. Sinta no seu corpo a alegria de estar vivo. CJ684_p50a56_Casa Atual.indd 51
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estilo > valores simples 2. O cuidado dos outros Talvez você já tenha presenciado a cena

2. O cuidado dos outros

Talvez você já tenha presenciado a cena de um reencontro

de pessoas queridas em um aeroporto e, mesmo sem conhecer os envolvidos, tomado aquela alegria como sua.

A explicação para esse sentimento: você faz parte da gran-

de família dos homens. Cada vez que um idoso segurar um bebê no colo ou você tocar a barriga de uma mulher grávida, ou que a mão calejada de um homem segurar delicadamente a de um menino, você vai fixar essa cena em sua mente. Pense na sua família, nos seus amigos, na necessidade que cada ser carrega de trocar experiências e de entrar em contato. Não negligencie a conexão íntima, rústica, que

não passa pela palavra. Valorize a simplicidade da amizade entre todos os espíritos – até mesmo com seu cachorro, com um gatinho de rua. Apaixone-se pelo ciclo da vida

e compartilhe com o outro a essência desse modo de viver.

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2012 | CASA E JARDIM CJ684_p50a56_Casa Atual.indd 52 3. A beleza do inacabado Há milênios, os

3. A beleza do inacabado

Há milênios, os japoneses cultivam uma estética baseada na aceitação da transcendência e do eternamente inacabado. Concebida como a beleza do imperfeito, do impermanente e do incompleto, a filosofia wabi-sabi se expressa no ritual do chá, nos arranjos de ikebana, no exercício interminável de manter um jardim feito de pedrinhas e areia, na qual você de- senha e redesenha com a ajuda de um ancinho. Mais do que o resultado final, é o ritual que importa. Amar o inacabado é aceitar que viver não se trata de atingir um objetivo – que, no fundo, a gente nunca chega lá. O que importa é o caminho. Celebre o assimétrico, o instável. Ninguém precisa recupe- rar o jardim zen que teve um dia para entrar em contato com essa filosofia. O desafio é construir seu jardim zen interno, espiritual. Encontrar o seu ritual eternamente inacabado, que não tenha nenhum objetivo maior a não ser fazer você feliz.

o seu ritual eternamente inacabado, que não tenha nenhum objetivo maior a não ser fazer você
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4. A ordem das coisas Você já percebeu como nossas casas estão cada vez menores?

4. A ordem das coisas

Você já percebeu como nossas casas estão cada vez menores? Mas pense bem: por que isso é ruim? Em menos cômodos há mais convivência. Estamos mais perto de quem amamos. Não é uma questão de espa- ço, mas de organização. Em uma casa menor, só cabe o que importa – então livre-se de tudo o que entulha a vida. Delete o supérfluo. Arquive as memórias. Seus móveis precisam servir para alguma coisa: tenha estantes, use gavetas, crie caixas. Ouse reciclar, acolha os materiais baratos – pense em papel kraft, em caixas de feira, em nichos de madeira. Nutra o hábito de classificar o essencial. Faça da organização um ritual de purificação – não uma penitência. Resuma. E, sobretudo, permita o vazio e o celebre. Ele é um convite à criação.

permita o vazio e o celebre. Ele é um convite à criação. CJ684_p50a56_Casa Atual.indd 53 5.
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é um convite à criação. CJ684_p50a56_Casa Atual.indd 53 5. As habilidades das mãos Disponha um arsenal

5. As habilidades das mãos

Disponha um arsenal sobre a mesa: lápis, lã e agulha de tricô, uma xícara de farinha, um pedaço de tecido. Agora desafie suas mãos a escolher suas armas. Ao ataque: crie. Usar as habilidades das mãos dá sentido à vida. “Muitas vezes ouvi, e tenho certeza de que você também, pessoas dizerem “no dia em que eu tiver meu

ateliê, vou pintar quadros”, ou então “vou fazer escultu-

ras

de nada disso. Simplesmente vá lá e faça.” Grandes criadores contemporâneos, como o arquite- to italiano Andrea Branzi, concebem móveis nos quais acoplam criações: gravuras, pinturas, esculturas que já vêm como parte de uma estante. Mas logo ao lado há um nicho, um espaço vazio, convidando a ser ocupado – por você. Para que comprar, se você pode criar?

”,

diz Li. “Todos nós sabemos que não precisamos

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criar? ”, diz Li. “Todos nós sabemos que não precisamos CASA E JARDIM | janeiro 2012
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criar? ”, diz Li. “Todos nós sabemos que não precisamos CASA E JARDIM | janeiro 2012

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estilo > valores simples 6. A cura pelas plantas Aprenda com as plantas a viver o

6. A cura pelas plantas

Aprenda com as plantas a viver o momento presente. Ama- nhã a flor pode já ter murchado. Amanhã pode ser que não chova – ou que falte o sol. Aprenda com as plantas a não economizar experimentações. Viva o hoje intensamente. Aprenda a aceitar o eterno ciclo da mudança de estações como uma bênção. Receba cada fase como um novo começo – e não como um novo fim. Tenha em mente que é sempre possível replantar, mudar de terra. Celebre, numa simples mudança de jardineira, a promessa da terra nova. Os budistas dizem que, se pudés- semos perceber claramente o milagre que representa uma simples flor, nossa vida mudaria por completo. Contemple a vida em suas infinitas escalas – da planta inteira, raiz, caule e folhas, ao microcosmo de cada nervura de folha. Cerque-se de plantas, aprenda com elas. Acredite numa vida mais saudável e mais perto do natural, em que as plantas sejam acolhidas numa casa como seres e não como objetos.

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e não como objetos. 54 | janeiro 2012 | CASA E JARDIM CJ684_p50a56_Casa Atual.indd 54 Sergio
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Sergio De Divitiis
Sergio De Divitiis

7. O sentimento de liberdade

Vivemos uma era nômade, sonhamos com evasão. Que- remos ter raízes – mas precisamos poder nos livrar delas de vez em quando. A mobilidade tornou-se uma urgência. Poder mudar permanentemente sua casa de lugar tornou- se o idílio do nosso tempo. “Nas minhas férias, conheci um jovem que viajava por uma rota de praias em seu coupé conversível, luxuoso”, conta Li. “A cada dia ele chegava a uma cidade diferente e instalava ao lado do carro uma minúscula tenda de cam- ping para uma única pessoa, onde passava as noites. No contraste de seu belo carro com esse estilo de vida de uma simplicidade fundamental, extrema, eu vi o sonho contem- porâneo de liberdade.” O verdadeiro luxo de hoje em dia é poder ser livre. Dormir numa rede. Não seguir a moda. Desenvolver uma relação mais profunda com os objetos que estão em seu entorno, buscar o essencial. Ter uma vida portátil.

mais profunda com os objetos que estão em seu entorno, buscar o essencial. Ter uma vida
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8. Assar o pão Do cheiro de pão no forno emana a promessa de um

8. Assar o pão

Do cheiro de pão no forno emana a promessa de um belo dia pela frente. Água, farinha, sal e fermento. Nenhum alimento é mais simples. Nada pode ser mais essencial. Toque o relevo da casca, saboreie o barulho que ela faz ao ser partida com as mãos. Experimente a textura do miolo que se desfaz lentamente enquanto uma fumaça suave e quase transparente convida: me saboreie. Ame o cotidiano com o mesmo amor incansável com que todas as manhãs celebramos a nossa paixão pelo pão. Cultive pela vida esta mesma instigante e insaciável fome.

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estilo > valores simples

estilo > valores simples 9. A alegria do lar No fundo, a ideia é esta: a

9. A alegria do lar

No fundo, a ideia é esta: a sensação que você tem quando volta de uma longa e cansativa viagem. Você deita na sua cama, encosta a cabeça no travesseiro, coloca sua música preferida para tocar, fecha os olhos e constata: “enfim, em casa”. Ao seu redor estão seus livros favoritos. Seus quadros favoritos. Suas comidas favoritas. Suas pessoas favoritas. Você vai andar de pijama. Vai beber leite. Vai cozinhar. Vai dormir debaixo de camadas e mais camadas do lençol mais macio que tiver. E vai almoçar no chão da sala – se decidir assim. Pense nos seus sonhos de criança, quando tudo o que você queria era morar numa cabana na árvore. O que você levaria para lá? Seu brinquedo preferido, sua comida prefe- rida, seu amigo preferido – e não muito além. É disso que se trata ter uma casa, um refúgio no qual você se reconhe- ça em todos os objetos e móveis.

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os objetos e móveis. 56 | janeiro 2012 | CASA E JARDIM CJ684_p50a56_Casa Atual.indd 56 10.
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2012 | CASA E JARDIM CJ684_p50a56_Casa Atual.indd 56 10. Patchwork de culturas Um quimono e um

10. Patchwork de culturas

Um quimono e um turbante árabe. Uma louça chinesa sobre uma tapeçaria mexicana. O cocar de um índio brasileiro enfeitando uma máscara africana. Artefatos de todos os povos, de todas as épocas, contam as mesmas histórias de valentia, de valores, de respeito. Conectar culturas é celebrar o que existe de comum em toda a humanidade. Antes de os europeus chegarem às Américas, povos indígenas de norte a sul do continente desenvolveram o ikat, uma técnica de tecelagem feita a partir de fios retorcidos. Nunca foi possível identificar onde a tradição começou. Estampas semelhantes e técnicas idênticas surgiram em di- ferentes pontos do continente americano ao mesmo tempo. “O ikat é a metáfora perfeita das conexões que existem entre as culturas”, ensina Li. “A força espiritual que conecta as diferentes tradições. Um jeito nômade de descobrir cone- xões e celebrar as ligações invisíveis dos povos.”

Um jeito nômade de descobrir cone- xões e celebrar as ligações invisíveis dos povos.” 23/12/2011 17:06:39
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