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Breve Comentário sobre as Partes no Processo

Publicado no JurisWay em 17/7/2007.


http://www.jurisway.org.br/v2/dhall.asp?id_dh=324
O artigo trata do conceito de parte em decorrência da evolução histórica da natureza do
processo e a sua desvinculação com os titulares do direito material.

O conceito de parte modifica-se de acordo com a evolução científica do


Direito Processual, e o acompanha desde a fase imanentista – prévia à autonomia
científica – à fase atual do instrumentalismo do processo.
Tem-se que num primeiro período – até a segunda metade do século XIX – “o
processo (era) mero conjunto de formalidades para a atuação prática daquele (do
direito material)”, o que implica na concomitância entre os sujeitos da relação
material e as partes do processo, já que este, de caráter meramente adjetivo não
existia por si mesmo. Sendo essa a corrente mais difundida entre os praxistas e,
sobretudo entre os civilistas, muitos dos quais, negam a superação científica dessa
tese, e avaliam o Direito do Processo como apêndice de Direito Civil.
Com a publicação do livro “Die Lehre von den Processeirenden und die
Processvoraussetzungen”, em 1868, do alemão OSKAR VON BÜLOW inicia-se a
fase científica do Direito Processual e surgem os primeiros conceitos e formulação
dos princípios fundamentais da nova ciência.
Atrelado a essa mudança contextual o conceito de parte passa a perseguir a
autonomia e deixa de confundir-se com o dos integrantes da relação jurídica de
direito material deduzida no processo.
Nesse sentido expressa-se CHIOVENDA, para quem, parte é “aquele que
demanda em seu próprio nome a atuação de uma vontade da lei, e aquele em face
de quem essa atuação é demandada”. Sendo autor aquele que age, enquanto em
réu é aquele em nome de quem se age.
Segundo ATHOS GUSMÃO CARNEIRO “as doutrinas atuais buscam o
conceito de parte apenas no processo, não na relação substancial deduzida em
juízo”, o que reitera a autonomia da relação jurídica processual, frente à de direito
substancial.
A melhor doutrina é uníssona quanto a existência dessa autonomia,
condição sem a qual nem sequer poderia se falar em ciência, e nesse sentido
encontram-se: Leo Rosenberg, Moacyr Amaral dos Santos, Araújo Cintra, Grinover,
Dinamarco, Arruda Alvim, Calamandrei, Ovídio Baptista, entre outros.
Vencida a crucial análise da cientificidade conceitual do tema em análise,
passemos a comentar o momento em que surge, no processo, essa figura, que por
conseqüência lógica, incorpora intrínseco antagonismo, por figurar nas
extremidades dos segmentos que convergem na formação do ângulo processual,
antecipado por PONTES DE MIRANDA.
Aquele que demanda em seu nome é o autor da ação, já que atua com
fulcro a permitir o funcionamento da máquina jurisdicional do Estado, retirando-a
do modo de inércia inicial, e, por conseguinte essa qualidade de autor se dá
concomitantemente ao momento de propositura da demanda.
Por outro lado, tendo em ótica o pólo passivo processual, temos que réu
passa a integrar tal relação desde o momento da juntada do mandado de citação,
validamente cumprido, aos autos do processo.
As hipóteses acima previstas, de composição dos pólos da relação
processual não se esgotam nesse ponto, justamente por existir a possibilidade de
sucessão processual – hereditária ou entre vivos – e ainda pela admissão da
intervenção de terceiros.
Em linhas gerais tem-se que a qualidade de autor e réu advém, conforme
dito acima, da propositura, em nome próprio, da ação, para o autor, e da citação
para o réu, corroborando a tese que não há absolutamente nenhuma relação entre
partes do processo e a existência da substância do direito em discussão. Tanto é
assim que é possível que os pólos processuais sejam invertidos durante o processo,
como na reconvenção, ou ainda, que os pólos processuais sejam inversos, desde o
início, ao do suposto direito material, como na Ação de Consignação de Pagamento,
e por fim, a legalidade da admissão de sucessor ou de terceiro interveniente na
relação jurídica, como fortes argumentos na defesa dessa tese.
Bibliografia
1. Alexandre Freitas Câmara, Lições de Direito Processual Civil, vol. I, São
Paulo: Lúmen Iuris, 12ª ed., 2005, p. 8.
2. Chiovenda, Instituições de Direito Processual Civil, trad. Port., Saraiva, v.2,
m.214.