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ÍNDICE

APRESENTAÇÃO 19

UM PAÍS DE ÁREA REPARTIDA 19 OS HOMENS E O MEIO 80


A IMPORTÂNCIA DO MAR E A LOCALIZAÇÃO TERRITÓRIO, SUPORTE DAS GENTES 82
DO ESPAÇO PORTUGUÊS 20
A POPULAÇÃO 86
O MAR QUE NOS ENVOLVE 25 EVOLUÇÃO RECENTE 86
A MORFOLOGIA DOS FUNDOS 25 UMA DISTRIBUIÇÃO DESIGUAL 86
CORRENTES OCEÂNICAS 26 BAIXOS NÍVEIS DE NATALIDADE E FORTES SALDOS
O MAR E A ATMOSFERA 28 MIGRATÓRIOS 93
VARIAÇÕES DE TEMPERATURA 29 UM ENVELHECIMENTO PROGRESSIVO 93
A TERRA QUE HABITAMOS 36 A EMERGÊNCIA DE NOVOS COMPORTAMENTOS 93
UNIDADES MORFOESTRUTURAIS 38 EDUCAÇÃO 94
EVOLUÇÃO GEOLÓGICA DO OESTE PENINSULAR 38 TERRA DE MIGRAÇÕES 98
O RELEVO DO CONTINENTE 43 A EMIGRAÇÃO 98
FISIONOMIA DAS REGIÕES AUTÓNOMAS 43 O REGRESSO 100
CLIMA E SUAS INFLUÊNCIAS 50 A IMIGRAÇÃO 102
ELEMENTOS CLIMÁTICOS 50 UMA POPULAÇÃO
A IRREGULARIDADE DO TEMPO NO CONTINENTE 54 QUE SE URBANIZA 104
AS ONDAS DE CALOR 59 UMA LEITURA ‘CLÁSSICA’ DO SISTEMA URBANO
O CLIMA DAS ILHAS 59 NACIONAL 104
A REDE HIDROGRÁFICA 61 UMA AVALIAÇÃO RECENTE 106
OS SOLOS 64 MUDANÇAS RECENTES 110
A VEGETAÇÃO ‘NATURAL’ 65 LISBOA E PORTO COMO REFERÊNCIAS 110
TIPOS DE PAISAGEM 66 ‘PRODUZIR’ CIDADE 111
DIVERSIDADE E GRUPOS DE PAISAGEM 66 COMUNICAÇÕES E MOBILIDADE
ÁREAS PROTEGIDAS 70
DA POPULAÇÃO 120
AS ILHAS 73
REDES DE COMUNICAÇÃO 120
REDE NATURA 2000 77
SISTEMA DE TRANSPORTES 123
ÁREAS DE PROTECÇÃO DE AVIFAUNA 77
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O PAÍS SOCIOECONÓMICO 130 PORTUGAL NUM MUNDO


ECONOMIA PORTUGUESA: ARTICULAÇÃO DIFÍCIL ENTRE DE RELAÇÃO 210
MUDANÇAS INTERNAS E AS EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS 132 A LÍNGUA PORTUGUESA: UM TRAÇO DE UNIÃO À RODA DO MUNDO 212

ACTIVIDADES DA TERRA 138 COMUNIDADES PORTUGUESAS 216


A AGRICULTURA 139 TESTEMUNHOS DE UM PASSADO LONGÍNQUO 216
AGRICULTURA EM MODO DE PRODUÇÃO BIOLÓGICO145 EVIDÊNCIAS CULTURAIS DE HOJE 217
PECUÁRIA 145
IDENTIDADE E CULTURA
ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO 149
EM TEMPOS DE MUDANÇA 222
PRODUTOS TRADICIONAIS 150
RIQUEZA E DIVERSIDADE DE CULTURAS 222
A FLORESTA 154
FRONTEIRAS DE UM PORTUGAL CULTURAL 223
A CAÇA 162
ACTUAL SUPORTE À CULTURA 223
A EXPLORAÇÃO DOS RECURSOS EXTRACTÍVEIS 164
PORTUGAL NA UNIÃO EUROPEIA 228
RECURSOS VIVOS MARINHOS 168 PORTUGAL NA EUROPA 229
UM SECTOR ESTRATÉGICO 168
A INTEGRAÇÃO DA EUROPA 229
O SECTOR DAS PESCAS 172
TRANSFORMAÇÕES NA UE-15 230
ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO PRIORIDADES SOCIAIS DA UE 230
REGIONAL 176 DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO
CRESCIMENTO ECONÓMICO 176 E NÍVEL DE VIDA 231
OS SECTORES DE ACTIVIDADE E A DIFERENCIAÇÃO ENERGIA: A MAIOR FRAGILIDADE DA UE 232
REGIONAL 177 PRESIDÊNCIA PORTUGUESA NA UE 233
MERCADO EXTERNO E COMPETITIVIDADE 183 O ALARGAMENTO DA UE 234
A COESÃO SOCIAL 186 UMA CONSTITUIÇÃO PARA A EUROPA 235
O DESENVOLVIMENTO HUMANO 189

TEMPO DE TURISMO 190 O ATLAS E O POSICIONAMENTO ESTRATÉGICO

O TURISMO BALNEAR 191 DE PORTUGAL 236

NOVOS PRODUTOS 192 ANEXOS 239


UM SECTOR ESTRATÉGICO DE FUTURO 195 PLANTAS ESPONTÂNEAS, SUBESPONTÂNEAS
E ORNAMENTAIS MAIS COMUNS EM PORTUGAL 240
POLÍTICAS DO TERRITÓRIO 198 CARTA DE PORTUGAL CONTINENTAL ESCALA 1: 550 000
A ADMINISTRAÇÃO 198 CARTA DAS REGIÕES AUTÓNOMAS DOS AÇORES
O PLANEAMENTO 202 E DA MADEIRA ESCALA 1: 200 000 242
A QUALIFICAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO ÍNDICE ONOMÁSTICO 260
SUSTENTÁVEL 204 DIVISÃO ADMINISTRATIVA POR CONCELHOS 268
NOTAS BIOGRÁFICAS DOS AUTORES 272
BIBLIOGRAFIA 273
CRÉDITOS 274
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ECONOMIA PORTUGUESA: ARTICULAÇÃO RECURSOS VIVOS MARINHOS TEMPO DE TURISMO


DIFÍCIL ENTRE MUDANÇAS INTERNAS E AS UM SECTOR ESTRATÉGICO O TURISMO BALNEAR
EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS
O SECTOR DAS PESCAS NOVOS PRODUTOS

ACTIVIDADES DA TERRA UM SECTOR ESTRATÉGICO DE FUTURO

A AGRICULTURA ECONOMIA E
AGRICULTURA EM MODO DE PRODUÇÃO DESENVOLVIMENTO REGIONAL POLÍTICAS DO TERRITÓRIO
BIOLÓGICO CRESCIMENTO ECONÓMICO A ADMINISTRAÇÃO
PECUÁRIA OS SECTORES DE ACTIVIDADE E A DIFERENCIAÇÃO O PLANEAMENTO
ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO REGIONAL A QUALIFICAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO
PRODUTOS TRADICIONAIS MERCADO EXTERNO E COMPETITIVIDADE SUSTENTÁVEL
A FLORESTA A COESÃO SOCIAL
A CAÇA O DESENVOLVIMENTO HUMANO
A EXPLORAÇÃO DOS RECURSOS EXTRACTÍVEIS

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O PAÍS
SOCIOECONÓMICO
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ECONOMIA PORTUGUESA:
ARTICULAÇÃO DIFÍCIL ENTRE
MUDANÇAS INTERNAS E
AS EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS
AUGUSTO MATEUS

A evolução da economia portuguesa, tomada no ciclo longo que nos trouxe


do rescaldo da segunda guerra mundial do século XX até aos primeiros anos
do século XXI, corresponde, nas suas grandes linhas, a sucessivas
manifestações de avanços e recuos, de sucessos e desaires, no
desenvolvimento do processo de articulação entre as exigências competitivas
da globalização das economias e dos mercados, em aceleração desde os
choques do petróleo, e o ritmo e alcance das mudanças internas em termos
de qualidade da organização empresarial, competência dos recursos
humanos e eficácia e sustentabilidade dos modelos de governo
e administração pública.

A dificuldade da articulação entre as dinâmicas internas e valorização dos produtos de exportação, com a progressiva
internacionais traduz, aliás, uma característica secular, quase internacionalização do comércio e do investimento,
permanente, que molda, afinal, a própria trajectória de sobretudo quando ela, acentuando a sua profundidade, se
muito longo prazo da: passou a designar por globalização (os mares, onde os navios
— Economia de uma sociedade europeia que, se foi precoce portugueses dominaram esmagadoramente, como se sabe,
(final do século XIV e século XV) na manifestação dos nos séculos XVI e XVII, com mais de dois terços dos efectivos,
primeiros sinais de afirmação da burguesia como classe e do exprimem com dureza este processo uma vez que, nos
capitalismo como forma de organização económica, foi nossos dias, bastante menos de 1% da frota comercial
tardia (final do século XIX e meio do século XX) na plena mundial tem origem portuguesa).
afirmação das realidades industriais e urbanas que A dificuldade da articulação entre as dinâmicas internas e
caracterizaram a plena afirmação de ambos; internacionais, que se justifica por um vasto e complexo
— Economia de um Estado europeu que, sendo dos conjunto de factores e fenómenos históricos, sociais,
primeiros a construir um império, beneficiando culturais, religiosos e políticos, muito para além dos aspectos
duradouramente do respectivo retorno económico, no plano estritamente económicos, prende-se, também, com duas
interno, foi o último a descolonizar, sendo, talvez, o que questões relevantes que importa referir.
revelou maiores dificuldades de adaptação na montagem de Em primeiro lugar, estas dificuldades apresentam um lado
novas, equilibradas e significativas relações económicas com particularmente estimulante, na medida em que
as antigas colónias, seja na América, na África ou na Ásia; representam como que um ‘preço a pagar’ pelas sucessivas
— Economia de referência de empresários europeus que, realizações em matéria de superação da pequena dimensão
tendo liderado, com os Descobrimentos, a formação da do território e da população que, em Portugal, suportam o
primeira configuração uma economia verdadeiramente Estado e estruturam a economia. Outras sociedades
mundial, e tendo tido a ‘sorte’ (ou o ‘azar’...) de encontrar europeias de pequena dimensão, como é o caso da Bélgica e
sucessivos ciclos de comércio internacional proveitoso, Holanda, na velha região da ‘Flandres’, terão encontrado
foram conhecendo dificuldades crescentes, seja na uma solução diferente, e eventualmente melhor, para estas
diversificação de mercados, seja na diversificação e dificuldades enveredando de forma mais determinada e

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qualificada para a plena especialização em funções de ideia de um desenvolvimento ‘a partir de dentro’, até porque
intermediação entre os grandes espaços económicos da esse foi, quase sempre, o sentido prevalecente dos
economia mundial e percebendo as vantagens da ‘abertura’ mecanismos de suporte das principais forças económicas
sobre o ‘fecho’ das respectivas economias, mas muitas outras e políticas.
não se conseguiram aproximar da relevância alcançada pela A democratização (1974) e a plena integração da sociedade
sociedade portuguesa. O último grande investimento portuguesa no processo de construção europeia (1986)
português em Macau (um moderno aeroporto sem qualquer constituem, simultaneamente, as grandes rupturas e os
ponto de contacto com a agenda portuguesa prática para grandes marcos na evolução da economia portuguesa nos
o início do século XXI) constitui, seguramente, um bom últimos sessenta anos, tendo criado, à entrada do século XXI,
exemplo da perda de coerência e do agravamento das um regime económico e social onde não é reconhecível
limitações surgidas das contradições suscitadas pelas quase nenhum dos traços do regime económico e social
oscilações entre as opções por uma ‘lógica de império’, vigente, à saída da segunda guerra mundial do século XX,
sem base dimensional, político-militar e técnico-económica, nomeadamente no que respeita
suficiente, ou por uma ‘lógica de intermediação’, sem às formas de regulação dos mercados, aos mecanismos
suficiente cultura de risco, abertura e cosmopolitismo. de protecção social e à própria dimensão do sector público,
Em segundo lugar, estas dificuldades apresentam um lado muito mais relevante como empregador, muito menos
bem menos estimulante, na medida em que representam relevante como produtor.
uma espécie de ‘deficiência’ associada a uma incapacidade A economia portuguesa encontra-se, assim, finalmente,
crónica de ordenamento do território e de valorização da plenamente inserida, nos nossos dias, nos exigentes desafios
diversidade da geografia física e humana do país, produzindo de uma complexa articulação entre o funcionamento
uma minimização e fragmentação da base espacial conjunto do ‘mercado’ e da ‘democracia’, enquanto grandes
da economia portuguesa e uma exagerada rivalidade mecanismos de coordenação em acção e onde quer a
regionalista alimentada pela difusão de referenciais qualidade das estratégias de investimento e consumo, quer
demasiado comuns e imitativos, para os modelos de a qualidade das formas de regulação e regulamentação
produção e de consumo, e por formas de centralismo que se tornaram ainda mais decisivas para o desenvolvimento
foram gerando progressivamente uma capital demasiado económico e social e para a qualidade de vida
grande para o país e demasiado pequena para a Europa das populações.
e para o Mundo. A resistência secular de uma organização
administrativa do país sem correspondência com a evolução O impulso da democratização...
das realidades urbanas e empresariais, bem como A democratização da sociedade portuguesa iniciou-se em
a proliferação, mais recente, da criação de ‘cidades’ sem 1974 que representou, igualmente, um momento explícito
a dimensão de vilas ou de ‘áreas metropolitanas’, sem de viragem à escala mundial, não só em termos económicos,
a dimensão de cidades médias, constitui uma boa expressão mas também com significativas transformações de origem
destas dificuldades associadas à gestão estratégica política, militar, social e cultural.
do território, onde o ‘grande’ (exigindo centralização Os anos 70 foram, com efeito, marcados, no terreno
e selectividade) e o ‘pequeno’ (exigindo descentralização económico, pela combinação e desenvolvimento de quatro
e equidade) parecem, quase sempre, assustar os modelos rupturas que moldaram a transição de um crescimento
estabelecidos de governação. económico rápido e regular, conhecido na fase pós-guerra,
As dificuldades de articulação entre as dinâmicas interna e para um crescimento económico bem menos rápido e bem
externa encontram expressão, também, neste muito longo mais irregular, na fase actual. Essas rupturas envolvem, em
prazo, no claro predomínio de estratégias incompletas linhas muito genéricas, os seguintes aspectos:
e unilaterais de crescimento económico, fossem elas — Uma ruptura energética que, para além dos efeitos dos
introvertidas (‘viradas para dentro’) ou extrovertidas vários ‘choques petrolíferos’, traduzidos em fortes oscilações
(‘puxadas de fora’), sobre algumas breves tentativas dos preços relativos, conduziu a uma alteração substancial
estratégicas, mais completas e equilibradas, polarizadas pela de normas de produção e de consumo criadas num

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ECONOMIA PORTUGUESA: ARTICULAÇÃO


DIFÍCIL ENTRE MUDANÇAS INTERNAS E
AS EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS

contexto, ultrapassado, de energia abundante e barata. a urbanização, a demografia, as estruturas familiares,


— Uma ruptura monetária e financeira, traduzida na os modelos culturais e de consumo e o grau e formas
instabilidade estrutural do ‘sistema’ monetário internacional de abertura ao exterior.
e no enorme dinamismo dos mercados financeiros, e que A evolução das grandes actividades económicas, intermédias
conduziu a uma muito difícil articulação entre a ‘economia ou finais, reflecte uma transformação estrutural igualmente
real’ e a ‘economia financeira’ no quadro, mais geral, da significativa, cuja tendência pesada é representada, mais
afirmação de formas de ‘capitalismo patrimonial’ suportadas detalhadamente, por três movimentos bem definidos:
pela financiarização generalizada de activos; — O reforço dos segmentos associados ao esforço directo
— Uma ruptura na natureza do crescimento industrial, e indirecto de exportação nas cadeias têxtil (‘puxado’ pela
traduzida no esgotamento das formas de organização do ascensão da confecção e do calçado) e metálica (‘puxado’
trabalho e de relação ecológica que estavam associadas ao pela ascensão do material eléctrico e dos componentes para
modelo então prevalecente, que tem conduzido a alterações, automóveis);
relativamente radicais, no conteúdo em emprego — A estabilidade de longo prazo, embora com algumas
do crescimento económico (muito menor, em termos oscilações mais ou menos significativas ao longo dos anos
quantitativos, muito mais exigente, em termos de 70, dos segmentos associados ao esforço directo e indirecto
qualificações); de satisfação do consumo nas cadeias alimentar e metálica
— Uma ruptura demográfica, traduzida em transformações e de exportação na cadeia florestal;
profundas nos perfis de natalidade e mortalidade e nos — O recuo mais ou menos acentuado dos segmentos
modelos de organização familiar, dominadas pelo associados ao esforço directo e indirecto de satisfação do
envelhecimento no ‘velho’ mundo e acentuação dos fluxos consumo, na cadeia têxtil, e de equipamento duradouro nas
migratórios, com reflexos relevantes no dinamismo cadeias metálica e de materiais de construção.
económico, moderando-o na Europa e no Japão,
acentuando-o nos grandes países emergentes. ...e da plena integração europeia
O crescimento económico português, no ciclo longo A plena integração da economia portuguesa no processo
em análise, produziu, neste quadro, um conjunto de de construção europeia possibilitou, para além de favorecer
transformações de grande alcance que são normalmente a consolidação do processo de democratização da sociedade
associadas, no referencial do emprego nos grandes sectores portuguesa, concretizar um significativo conjunto
de actividade, à perda da posição dominante da agricultura, de transformações num ambiente caracterizado por um
primeiro em favor da indústria, no final dos anos 60, depois significativo crescimento económico e por uma razoável
em favor do comércio e serviços, no início dos anos 70, que, estabilidade macroeconómica.
por sua vez, vieram a ultrapassar a indústria e construção no A economia portuguesa pode, assim, alcançar resultados
início dos anos 80. A economia portuguesa realizou, assim, positivos, quer nos seus esforços de convergência real,
em pouco mais de uma década, a passagem aproximando o seu nível médio de vida, medido em
da ‘desruralização’ à ‘terciarização’, processo que na paridades de poder de compra, do nível médio de vida na
generalidade dos países europeus tinha requerido mais União Europeia (UE-15), passando de cerca de 55%, no ano
do que uma geração a exprimir-se plenamente. da adesão, para cerca de 70%, no ano de entrada em vigor
A análise das três décadas de crescimento económico que da moeda única, no final dos anos 90, quer nos seus esforços
trouxeram a economia portuguesa da abertura comercial, de convergência nominal, reduzindo drasticamente as
nos anos 60, à concretização da plena adesão à União disparidades em matéria de inflação e taxas de juro, o que
Europeia, nos anos 80, no plano da repartição sectorial dos viria a permitir, em 1997, a entrada do país no grupo
recursos, do emprego e do valor acrescentado pelas grandes dos fundadores da moeda única europeia.
actividades económicas, revela uma alteração estrutural Os esforços de convergência nominal e real coexistiram,
realmente profunda com repercussões muito relevantes na no entanto, com alguns traços particulares de modelo de
configuração global da sociedade portuguesa, desenvolvimento, nomeadamente os que se traduziram num:
nomeadamente em aspectos como a ocupação do território, — Crescimento económico muito mais ‘puxado’ pelo

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aumento conjuntural do emprego apoiado numa do consumo de bens duradouros das famílias, ligado muito
conservação da especialização produtiva em actividades em particular à construção, habitação e imobiliário e
dotadas de insuficiente qualificação e diferenciação, do que induzido pela redução das taxas de juro, quer a expansão
‘empurrado’ pelo crescimento sustentado da produtividade da despesa corrente do Estado claramente acima do que
ancorado numa mudança da especialização produtiva e dos seria exigido por uma consolidação orçamental plenamente
modelos de negócio em direcção a actividades de maior orientada para concretizar os ajustamentos competitivos
produtividade e valor acrescentado; e as reformas estruturais necessárias para enfrentar com
— Crescimento onde o ritmo de expansão do consumo sucesso os desafios colocados pela globalização e pela lógica
público se revelou bem mais elevado do que o verificado de aprofundamento e alargamento da União Europeia.
no conjunto das economias da União Europeia, por ‘boas’ A progressiva perda de ‘fôlego’ da convergência real,
(recuperação de atrasos em matéria de infra-estruturas sobretudo em termos de produtividade, revela bem que a
e protecção social, nomeadamente) e ‘más’ (ineficiência economia portuguesa se foi aproximando de uma
e ineficácia dos aparelhos de administração e gestão, ‘encruzilhada estratégica’, isto é, de uma situação em que não
insuficiente planeamento e controlo das despesas correntes, só se esgotaram, em larga medida, quer o modelo de
baixa produtividade, nomeadamente) razões; crescimento económico, quer os factores competitivos em
— Crescimento com uma significativa tendência de acção nas duas últimas décadas, como se tornou claro que
desequilíbrio externo evidenciada por um ritmo de os efeitos de dinamização da procura interna não seriam
crescimento das importações de bens e serviços que foi sustentáveis no futuro, explicando, em boa parte, as
superando, fora dos períodos de recessão, quase sempre dificuldades de crescimento na economia portuguesa,
o das exportações e mantendo, desse modo, um défice sentidas de forma expressiva a partir da entrada no século XXI.
comercial de natureza estrutural (a evolução o défice A degradação do ritmo, e da qualidade do crescimento
comercial nas relações com a Espanha ilustra bem esta económico, manifestou-se através do duro confronto com
tendência). uma produtividade demasiado baixa e uma especialização
O modelo de crescimento adoptado, não implicando uma produtiva demasiado vulnerável para os desafios da
forte progressão qualitativa nem uma significativa globalização e da união económica e monetária, numa
transformação da especialização de actividades, privilegiando Europa em alargamento a Leste, através do desequilíbrio
investimentos centrados no capital físico, seja ao nível estrutural nas contas públicas, que vai reduzindo
empresarial onde a renovação e modernização de a capacidade de manutenção e desenvolvimento
equipamentos se sobrepôs, com clareza, aos investimentos das infra-estruturas e serviços colectivos de eficiência,
imateriais, de organização ou de desenvolvimento do capital coesão e competitividade.
humano, seja ao nível das infra-estruturas, onde a lógica da
respectiva construção se sobrepôs, também com clareza,
à lógica da respectiva utilização eficiente, da prestação de A união económica e monetária
serviços à logística, configurou-se, portanto, basicamente e o alargamento colocam novos desafios
como um modelo extensivo, apoiado, muito mais, na O problema enfrentado pela economia portuguesa foi,
criação de empregos num número limitado de actividades afinal, o da descoberta de que, num espaço europeu em
do que na obtenção de ganhos significativos em termos alargamento e aprofundamento, o início do caminho era
de produtividade (‘mais do mesmo’). bem mais fácil do que a respectiva consolidação, ou, noutras
A economia portuguesa manteve, nesse contexto, uma taxa palavras, parece bem mais fácil ser ‘bom aluno’ como ‘país
de desemprego relativamente associada a subidas moderadas da coesão’ do que como ‘país da moeda única’.
do salário médio real, desempenho obtido, em grande parte, A economia portuguesa encontra-se, na fase actual, numa
pelo dinamismo da procura interna suportado pelo fase crucial do seu processo de desenvolvimento e
progressivo endividamento das famílias e do sector público. modernização marcada, no essencial, pela necessidade de
Com efeito, nos factores internos de dinamização da desenvolver um vasto conjunto de ajustamentos estratégicos
economia portuguesa contaram, em muito, quer a expansão suscitados quer pelo novo regime económico resultante da

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ECONOMIA PORTUGUESA: ARTICULAÇÃO


DIFÍCIL ENTRE MUDANÇAS INTERNAS E
AS EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS

concretização da União Económica e Monetária, quer pelo factores competitivos em direcção à competitividade
alargamento da União Europeia a um vasto conjunto de não-custo, da especialização internacional em direcção
países dotados, de um modo geral, de níveis de remuneração a actividades de maior valor acrescentado.
bastante mais baixos e de níveis de educação e qualificação Portugal apresenta um dos maiores desequilíbrios na relação
da sua população activa bastante mais elevados do que entre evolução de preços e custos, penalizando
os verificados em Portugal. significativamente a rendibilidade das actividades de bens
As alterações verificadas na política económica portuguesa e serviços transaccionáveis e gerando uma espécie de
resultantes quer da perda dos instrumentos monetários ‘desconexão’ entre a evolução dos preços e custos internos e
e cambial, transferidos para a nova dimensão da política dos preços e custos internacionais.
monetária e cambial da União Europeia, conduzida com A afirmação desta forma particular de dualismo económico
independência pelo Banco Central Europeu e dominada por e, nesse sentido, de degradação da coesão económica do
um mandato centrado na defesa da estabilidade dos preços, País, traduzida em restrições cada vez mais duras para a
quer da redução da margem de manobra das políticas operação das actividades de bens transaccionáveis, seja em
orçamental e fiscal, sujeitas a um regime de rigor e termos de preços e margens reduzidos, seja em termos de
harmonização impostas por um Pacto de Estabilidade e ajustamentos mais fracos e lentos na melhoria do quadro
Crescimento, exprimem com clareza a necessidade e o alcance de remuneração dos factores produtivos (rendibilidade das
desses ajustamentos no plano das políticas públicas. empresas e/ou remuneração do trabalho), enquanto
As alterações verificadas nas condições de localização as actividades de bens e serviços não transaccionáveis vão
do investimento internacional na Europa, onde os países escapando a essas restrições com níveis de progressão
da Europa do Sul, e em especial Portugal, se tornaram bem de preços bem mais elevados, que tendem a atrasar os
menos atractivos do que os países do alargamento, enquanto processos de reorganização e desenvolvimento tecnológico,
‘nova fronteira’ de transição e crescimento económico necessários para gerar aumentos sustentados de
interna à própria União Europeia, seja por razões de custos produtividade, e a agravar, gerando uma inflação interna
unitários da produção, seja por razões logísticas, exprimem, mais elevada, as dificuldades competitivas das actividades
com igual clareza, a necessidade e o alcance desses expostas à concorrência internacional.
ajustamentos no plano do funcionamento das actividades A pressão sobre o nível de coesão interna da economia
económicas, do mercado de trabalho e das estratégias portuguesa é especialmente relevante no quadro da
empresariais. formação de uma Europa alargada, que coloca, como vimos,
As debilidades competitivas da economia portuguesa, novas questões e dificuldades, nomeadamente as que
traduzidas, num nível de produtividade que se tem mantido, relevam da articulação entre uma necessidade de acelerar
persistentemente, muito abaixo do atingido pelos nossos a mudança do padrão de especialização em direcção
parceiros da União Europeia, mesmo daqueles que a actividades e modelos de negócio baseados em factores
connosco partilham objectivos de convergência real, avançados e sofisticados, por um lado, e uma necessidade
correspondem, no essencial, a uma certa ‘cristalização’ de ganhar dimensão e corrigir as desvantagens de uma
da nossa especialização internacional em actividades de localização relativamente periférica, em relação ao novo
transformação de baixo/médio valor acrescentado, inseridas centro de gravidade desta Europa alargada, acelerando o
em formatos de subcontratação e sem especial espessura esforço global de abertura e internacionalização da economia
ao nível das actividades de investigação, concepção portuguesa.
e distribuição.
A economia portuguesa tem vindo a assistir a uma
progressiva deterioração da rendibilidade potencial do seu
sector exportador, a partir do momento em que, terminado
o ciclo de desvalorização do escudo que repunha,
artificialmente, a competitividade-preço das exportações,
não se assistiu a uma suficiente alteração estrutural dos

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SEIS GRANDES PERÍODOS HISTÓRICOS


NA EVOLUÇÃO MAIS RECENTE
DA ECONOMIA PORTUGUESA

Autarcia e Proteccionismo (antes de 1959) Melhoria generalizada das condições básicas de vida e
Protecção concorrencial interna e externa, salários e qualificações desenvolvimento rápido dos mecanismos de protecção social;
muito baixos; Permanência de uma relevância global do modelo Energia barata; Crescimento extrovertido e rápido, reflectindo
colonial; Preponderância do pequeno mercado doméstico sujeito a ascensão de novas actividades de exportação dinamizadas pelo
a uma forte regulação estatal suportada por múltiplos investimento estrangeiro (automóvel, electrónica); Forte
condicionamentos de tipo administrativo; Fraco dinamismo penetração das importações no mercado doméstico em resposta
económico estrutural e muito baixa produtividade num contexto à modernização do modelo de consumo; Conjuntura de elevadas
de ‘relações industriais’ congeladas pela organização corporativa; taxas de juro; Afirmação de desequilíbrios orçamentais e perda
Modelo de consumo truncado, limitado pelo baixo nível de vida da de eficiência fiscal; Passos na liberalização da ‘regulação estatal’
população e polarizado pela despesa alimentar; Muito baixos níveis dos mercados com a eliminação dos controlos de preços e o início
globais de escolaridade e persistência de níveis elevados de do processo de privatizações; Recessão e degradação financeira
analfabetismo. de muitas empresas no final do período.

Abertura Comercial (EFTA) e Emigração Convergência Real e Nominal no caminho


(1959/1973) da União Económica e Monetária Europeia
Desarmamento pautal controlado e maior acesso aos mercados (1993/1999)
europeus ‘atlânticos’ e ‘nórdicos’ para certos produtos industriais; Intensificação do papel dos fundos estruturais no crescimento
Formação de um sector exportador mais moderno apoiado em económico, com a consolidação do investimento público e dos
actividades de transformação de recursos naturais ou intensivas em incentivos ao investimento privado, através dos Quadros
mão-de-obra; Desenvolvimento de uma emigração massiva para Comunitários de Apoio a Portugal; Ligeira revalorização do escudo
o espaço central europeu (em especial, França e Alemanha) e estabilização com a adesão ao mecanismo de taxas de câmbio do
arrastando um maior crescimento salarial em segmentos de Sistema Monetário Europeu, no quadro da preparação da moeda
escassez ou qualificação mais elevada; Progressiva decomposição única; Desinflação sustentada, com convergência para os valores
do modelo colonial e da gestão administrativa das barreiras médios europeus, e redução sensível das taxas de juro; Aceleração
à entrada nas actividades económicas; Crescimento significativo do processo de privatizações e redução do peso relativo da dívida
da população nos centros urbanos; Passos muito limitados pública; Aumento da escolaridade no ensino superior; Empresas,
nos mecanismos de protecção social do ‘Estado Providência’; sectores e regiões com várias velocidades de modernização; Início
Lenta melhoria dos níveis de escolaridade. da internacionalização ao nível do investimento directo no exterior;
Abertura financeira e início do uso mais intensivo às tecnologias
Choques Petrolíferos, Descolonização de informação e comunicação.
e Democratização (1974/1985)
Inflação elevada; Energia cara; Descolonização e perda de Crise das Finanças Públicas e Dificuldades de
relevância do ‘comércio colonial’; Nacionalização dos principais Convergência numa Europa de Moeda Única
grupos financeiros (bancos, seguros, indústria); Consagração das e em Alargamento (depois de 2000)
liberdades democráticas, direitos laborais alargados, melhoria Progressiva dificuldade em lidar com as exigências do Pacto de
significativa das condições de remuneração e redução do tempo Estabilidade e Crescimento (défice excessivo em 2001, défices
de trabalho; Reorganização das associações empresariais e sindicais elevados, só contidos com receitas extraordinárias em 2002, 2003
num quadro não corporativo; Desvalorização continuada do e 2004); Manutenção de taxas de juro baixas; Aumento
escudo no quadro da resposta a crises na balança de pagamentos generalizado do endividamento, das empresas, do sector financeiro
(acordos com o FMI); Crescimento relevante do mercado e do Estado e, muito especialmente, das famílias; Perda de
doméstico pelo aumento conjugado da população (travagem competitividade agravada pela valorização do euro e por uma
abrupta da emigração e absorção dos retornados das ex-colónias) inflação interna tendencialmente superior à inflação média na
e do poder de compra; Alargamento da escolaridade no secundário; União Europeia; Progressiva transição da situação de ‘país
Maior presença nos mercados europeus e início da modernização da coesão’ para a de ‘país da moeda única’; Aceleração drástica das
do modelo de consumo pela expansão do nível de equipamento formas de integração económica entre Portugal e Espanha, que
doméstico associado à urbanização concentrada. se torna no seu principal parceiro, sucedendo ao Reino Unido
e ao eixo composto pela França e Alemanha; Os processos
Plena Adesão às Comunidades Europeias no de deslocalização industrial acentuam a necessidade de melhorias
caminho do Mercado Interno Europeu muito significativas no padrão de especialização, na organização
(1986/1992) empresarial e nos níveis de produtividade, pressionadas pelo
Início do acesso aos fundos estruturais europeus para desenvolver alargamento aos países da Europa Central com níveis de educação
infra-estruturas e apoiar o investimento produtivo privado; mais elevados e níveis de salários mais baixos.

ATLAS DE PORTUGAL IGP 137