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ÍNDICE

APRESENTAÇÃO 17

UM PAÍS DE ÁREA REPARTIDA 19 OS HOMENS E O MEIO 80


A IMPORTÂNCIA DO MAR E A LOCALIZAÇÃO TERRITÓRIO, SUPORTE DAS GENTES 82
DO ESPAÇO PORTUGUÊS 20
A POPULAÇÃO 86
O MAR QUE NOS ENVOLVE 25 EVOLUÇÃO RECENTE 86
A MORFOLOGIA DOS FUNDOS 25 UMA DISTRIBUIÇÃO DESIGUAL 86
CORRENTES OCEÂNICAS 26 BAIXOS NÍVEIS DE NATALIDADE E FORTES SALDOS
O MAR E A ATMOSFERA 28 MIGRATÓRIOS 93
VARIAÇÕES DE TEMPERATURA 29 UM ENVELHECIMENTO PROGRESSIVO 93
A TERRA QUE HABITAMOS 36 A EMERGÊNCIA DE NOVOS COMPORTAMENTOS 93
UNIDADES MORFOESTRUTURAIS 38 EDUCAÇÃO 94
EVOLUÇÃO GEOLÓGICA DO OESTE PENINSULAR 38 TERRA DE MIGRAÇÕES 98
O RELEVO DO CONTINENTE 43 A EMIGRAÇÃO 98
FISIONOMIA DAS REGIÕES AUTÓNOMAS 43 O REGRESSO 100
CLIMA E SUAS INFLUÊNCIAS 50 A IMIGRAÇÃO 102
ELEMENTOS CLIMÁTICOS 50 UMA POPULAÇÃO
A IRREGULARIDADE DO TEMPO NO CONTINENTE 54 QUE SE URBANIZA 104
AS ONDAS DE CALOR 59 UMA LEITURA ‘CLÁSSICA’ DO SISTEMA URBANO
O CLIMA DAS ILHAS 59 NACIONAL 104
A REDE HIDROGRÁFICA 61 UMA AVALIAÇÃO RECENTE 106
OS SOLOS 64 MUDANÇAS RECENTES 110
A VEGETAÇÃO ‘NATURAL’ 65 LISBOA E PORTO COMO REFERÊNCIAS 110
TIPOS DE PAISAGEM 66 ‘PRODUZIR’ CIDADE 111
DIVERSIDADE E GRUPOS DE PAISAGEM 66 COMUNICAÇÕES E MOBILIDADE
ÁREAS PROTEGIDAS 70
DA POPULAÇÃO 120
AS ILHAS 73
REDES DE COMUNICAÇÃO 120
REDE NATURA 2000 77
SISTEMA DE TRANSPORTES 123
ÁREAS DE PROTECÇÃO DE AVIFAUNA 77
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O PAÍS SOCIOECONÓMICO 130 PORTUGAL NUM MUNDO


ECONOMIA PORTUGUESA: ARTICULAÇÃO DIFÍCIL ENTRE DE RELAÇÃO 210
MUDANÇAS INTERNAS E AS EXIGÊNCIAS COMPETITIVAS 132 A LÍNGUA PORTUGUESA: UM TRAÇO DE UNIÃO À RODA DO MUNDO 212

ACTIVIDADES DA TERRA 138 COMUNIDADES PORTUGUESAS 216


A AGRICULTURA 139 TESTEMUNHOS DE UM PASSADO LONGÍNQUO 216
AGRICULTURA EM MODO DE PRODUÇÃO BIOLÓGICO145 EVIDÊNCIAS CULTURAIS DE HOJE 217
PECUÁRIA 145
IDENTIDADE E CULTURA
ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO 149
EM TEMPOS DE MUDANÇA 222
PRODUTOS TRADICIONAIS 150
RIQUEZA E DIVERSIDADE DE CULTURAS 222
A FLORESTA 154
FRONTEIRAS DE UM PORTUGAL CULTURAL 223
A CAÇA 162
ACTUAL SUPORTE À CULTURA 223
A EXPLORAÇÃO DOS RECURSOS EXTRACTÍVEIS 164
PORTUGAL NA UNIÃO EUROPEIA 228
RECURSOS VIVOS MARINHOS 168 PORTUGAL NA EUROPA 229
UM SECTOR ESTRATÉGICO 168
A INTEGRAÇÃO DA EUROPA 229
O SECTOR DAS PESCAS 172
TRANSFORMAÇÕES NA UE-15 230
ECONOMIA E DESENVOLVIMENTO PRIORIDADES SOCIAIS DA UE 230
REGIONAL 176 DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO
CRESCIMENTO ECONÓMICO 176 E NÍVEL DE VIDA 231
OS SECTORES DE ACTIVIDADE E A DIFERENCIAÇÃO ENERGIA: A MAIOR FRAGILIDADE DA UE 232
REGIONAL 177 PRESIDÊNCIA PORTUGUESA NA UE 233
MERCADO EXTERNO E COMPETITIVIDADE 183 O ALARGAMENTO DA UE 234
A COESÃO SOCIAL 186 UMA CONSTITUIÇÃO PARA A EUROPA 235
O DESENVOLVIMENTO HUMANO 189

TEMPO DE TURISMO 190 O ATLAS E O POSICIONAMENTO ESTRATÉGICO

O TURISMO BALNEAR 191 DE PORTUGAL 236

NOVOS PRODUTOS 192 ANEXOS 239


UM SECTOR ESTRATÉGICO DE FUTURO 195 PLANTAS ESPONTÂNEAS, SUBESPONTÂNEAS
E ORNAMENTAIS MAIS COMUNS EM PORTUGAL 240
POLÍTICAS DO TERRITÓRIO 198 CARTA DE PORTUGAL CONTINENTAL ESCALA 1: 550 000
A ADMINISTRAÇÃO 198 CARTA DAS REGIÕES AUTÓNOMAS DOS AÇORES
O PLANEAMENTO 202 E DA MADEIRA ESCALA 1: 200 000 242
A QUALIFICAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO ÍNDICE ONOMÁSTICO 260
SUSTENTÁVEL 204 DIVISÃO ADMINISTRATIVA POR CONCELHOS 268
NOTAS BIOGRÁFICAS DOS AUTORES 272
BIBLIOGRAFIA 273
CRÉDITOS 274
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PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO

Maria Assunção Gato

IDENTIDADE E CULTURA
EM TEMPOS DE MUDANÇA
A longa História de Portugal deixou pelo mundo um património de elevado valor e, dentro do seu
território preservado no último século a devastações como nenhum outro país europeu, subsistem marcas
de cultura tradicional que deverão ser aproveitadas como factor de identificação e desenvolvimento.
A construção da moderna identidade cultural portuguesa é o resultado de cruzamentos profundamente
dispares: sobre um estrato herdado na sua maioria dos Romanos e Árabes (sem esquecer Fenícios, Celtas
e outros) ganham forma os traços culturais portugueses. Até aos anos 50/60 do século passado, Portugal era
um país fechado; em parte mais por via do regime político de então, e do entendimento que esse mesmo
regime fazia da cultura portuguesa, do que pelo afastamento geográfico. Depois de 1974, a chegada
de portugueses e africanos das ex-colónias e o regresso de muitos emigrantes, viria a ser engrossada pelas
primeiras levas de imigrantes do Leste: Portugal torna-se permeável a traços de culturas diferentes que
lhe conferem, hoje, um lado verdadeiramente genuíno do ponto de vista cultural e duplamente interessante
pela diversidade e multiplicidade, dada a reduzida dimensão do País.

Riqueza e diversidade de culturas

Nas décadas de 40/50 do século passado o território conti- Na leitura de Boaventura Sousa Santos (1994), o ensaio de
nental foi percorrido por equipas de especialistas em várias Jorge Dias é classificado como um dos textos mais representa-
áreas do conhecimento, com o objectivo de conhecer os usos tivos dos discursos míticos sobre Portugal, que, à força de tan-
e práticas dos portugueses. As pesquisas conduzidas por to ser repetido, se torna evidente e verdadeiro. Mas não obs-
Orlando Ribeiro (Geografia), Jorge Dias (Etnografia), Lin- tante esta crítica, as suas reflexões sobre as contradições de um
dley Cintra (Linguística) e Keil do Amaral (Arquitectura) Portugal que foi simultaneamente centro de um grande impé-
confirmaram a riqueza e a diversidade de um Portugal plural. rio colonial que não conseguiu gerir convenientemente, e a
Jorge Dias apresenta, em 1950, o ensaio Os Elementos Fun- periferia de uma Europa que se vai desenvolvendo sem quase
damentais da Cultura Portuguesa no qual faz depender a defini- o incluir, não deixam de ir ao encontro da dupla representação
ção de uma personalidade-base da Nação de uma herança do carácter do homem português e da plasticidade, ambigui-
cultural, fatalmente afectada pela diversidade cultural ineren- dade e indefinição de que falava Jorge Dias. Neste sentido, a
te às várias regiões espaciais que a compõem, bem como pelos concepção de cultura de fronteira que Sousa Santos aplica à cul-
diferentes estratos sociais da sua população, inevitavelmente tura portuguesa para a caracterizar, não deixa de corresponder
influenciada pelo exterior e naturalmente transformada no à capacidade de adaptação reconhecida por Jorge Dias.
decorrer da sua própria evolução. Nesta cultura de fronteira cabem igualmente as regiões autó-
Apesar do reconhecimento de tão ‘arriscada e difícil’ tare- nomas da Madeira e dos Açores que, pelas suas características
fa, Jorge Dias assentou a cultura portuguesa em bases estru- geográficas e históricas, não só reclamam uma autonomia
turais geográficas e históricas: se por um lado os lusitanos político-administrativa como também cultural, visto a sua
resultam de uma variada fusão étnica entre povos do Norte e heterogeneidade populacional – devida à diversidade de colo-
do Sul, compondo à sua maneira a herança de traços de per- nizadores idos de Portugal e de alguns países da Europa do
sonalidade obtidos de uns e outros, por outro lado, foi a situa- Noroeste – funcionar como uma identidade homogénea face
ção geográfica de Portugal que contribuiu indiscutivelmente às culturas do continente. Por contraste, os ilhéus dos Açores
para o carácter expansivo da cultura portuguesa. e Madeira são uns portugueses diferentes. Importará aqui des-
Com mais de meio século passado sobre esta caracteriza- tacar tanto o aspecto cosmopolita de algumas destas ilhas
ção, tanto se pode questionar a actualidade deste retrato como devido à emigração e aos habitantes e visitantes estrangeiros,
a aparente inércia do nosso carácter, num tempo repleto de como o grande isolamento a que outras estão votadas pela sua
grandes e rápidas mudanças. pequena dimensão e posição geográfica.

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PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO


Identidade e cultura em tempos de mudança

Nas palavras de Vitorino Nemésio, citado por João Leal alheios à ampla e rápida difusão de referências culturais divulgadas
(2000), os Açores surgem como “um corpo autónomo de terras essencialmente pelos meios de comunicação social, que nos envol-
portuguesas”, “um Portugal requintado” porque recebeu dele vem em culturas de consumo tipicamente urbanas e que nos aju-
toda a glória e prosperidade da época quatrocentista e assim dam a definir e a compor novos estilos de vida cosmopolitas. Mas
permaneceu; daí a reflexão sobre a “açorianidade” se fixar no importará não esquecer que a cultura portuguesa não começa – e
português de Quatrocentos, valorizando também as especifici- tão pouco se esgota – nas novas imagens e símbolos de moderni-
dades culturais devidas à realidade geográfica das ilhas. dade que têm vindo a transformar as principais cidades do País.
Para além destas, permanecem territórios mais esquecidos e com
ritmos diferentes de mudança que, contribuindo de igual forma
Fronteiras de um Portugal cultural para a complexa caracterização de uma identidade nacional, conti-
nuam a viver em muitos casos, na total ausência de uma produção
Num tempo que está para além da modernidade e em glo- cultural que não seja o seu próprio quotidiano, sequiosos de infor-
balização cada vez mais intensa, verifica-se que com alguma fre- mação e entretenimento que não se esgote nos vulgares aparelhos
quência se continua a recorrer à forma paradoxal de ser e agir de televisão e rádio que possuem, quando é esse o caso.
dos portugueses – entendidos enquanto grupo cultural homo-
géneo – para justificar bons e maus resultados que vão conse-
guindo nas mais variadas tarefas e projectos, bem como para Actual suporte à cultura
reinventar especificidades culturais e recuperar memórias que
se vão desvanecendo na descaracterização que a todos afecta. Quando falamos em Cultura Portuguesa não deixamos de
Não obstante as grandes transformações sofridas após a con- pensar na enorme diversidade de testemunhos que, de Norte
quista da democracia, parece teimar-se no comum discurso do a Sul do Continente e da Madeira aos Açores, marcam as nos-
sonho e da glória para nos projectarmos no exterior, quando sas especificidades de carácter, reflexão e acção enquanto
internamente nos ligamos irremediavelmente a um fado dema- membros de um único País.
siado fatalista para justificar as grandes dificuldades estruturais Mas se falarmos em Produção Cultural, imprimimos uma
de que o País sempre padeceu e que ainda não soube contrariar. dimensão bem mais dinâmica a esse património existente,
A propósito da definição da identidade cultural portuguesa, reconhecendo-se que é através de uma actividade cultural
Boaventura Sousa Santos propõe como hipótese de trabalho o
esvaziamento do seu conteúdo, restando-lhe apenas a forma,
que é a fronteira ou a zona fronteiriça. Nas suas palavras, “a nos- Bibliotecas, 2001
sa cultura nunca se conseguiu diferenciar totalmente perante
culturas exteriores, no que configurou um défice de identidade
pela diferenciação. Por outro lado, a nossa cultura manteve uma
enorme heterogeneidade interna, no que configurou um défice
de identidade pela homogeneidade.”.
Perante estas palavras, torna-se mais evidente a construção
e contínua divulgação do anterior discurso identitário, tal
como se compreende melhor porque é que os portugueses
insistem na criação de ícones para se reconhecerem enquan-
to grupo cultural, num tempo em que se torna cada vez mais
difícil falar de identidades nacionais. Por 10 000 hab.
Enquanto nação multicultural, cosmopolita e europeia, os 4
nossos ícones ou símbolos de distinção são os novos heróis 3
2
do momento que nos projectam no exterior e os eventos 1
internacionais que ocasionalmente vamos organizando:

Exposição Mundial de Lisboa – Expo'98 –, Campeonato
Europeu de Futebol – Euro 2004 –, Festival internacional de 482

música de iniciativa brasileira – Rock in Rio Lisboa; de figu- 83


8
ras de renome internacional – Figo, Eusébio, Amália, Mariza,
Siza Vieira, Manoel de Oliveira, José Saramago e outros, de
cujo mérito nos apropriamos para alimentar o nosso orgulho
N
em ser português no mundo.
Entretanto e na convivência quotidiana interna, não ficamos 0 25 50 km

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PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO


Identidade e cultura em tempos de mudança

Museus, 2001 Cinemas, 2001

53
20 Por 10 000 hab.
15 10
10 4
5 3
Os dados apresentados 2
correspondem aos museus
que, no ano de referência,
cumpriam os seguintes
critérios: Nº
Existência de, pelo menos, 35
uma sala ou espaço de
exposição. 9
Abertura ao público,
2
permanente ou sazonal.
Existência de, pelo menos,
um conservador.

0 25 50 km

constante, abrangente, participativa e não-selectiva que as — uma certa inércia, descrédito ou até mesmo ausência de
sociedades conseguem atingir níveis de desenvolvimento de um prazer quotidiano pela Cultura nas suas múltiplas moda-
qualidade superior e mais igualitários. lidades que parece existir numa parte da população portugue-
Em termos de uma ‘cultura posta em prática’, não são sa, independentemente da sua localização, nível de instrução
necessárias as estatísticas para que facilmente se perceba que, e grupo económico.
em Portugal, também se fazem sentir grandes disparidades no É obvio que esta tentativa de interpretação da realidade cul-
sector da produção cultural. Esta realidade pode ser atribuída tural em Portugal não esgota as razões que explicam o porquê
a factores tão diversos como: da hegemonia (quase ditadura) da televisão enquanto meio pri-
— os profundos atrasos no campo da educação e que a ainda vilegiado de informação e elemento cultural massificador. Tão
recente democracia nem sempre parece conseguir recuperar; pouco explicam os elevados níveis de iliteracia na população
— a centralização dos bens culturais nas principais cidades jovem e os baixos níveis de leitura e compra de livros pela
do País (sobretudo no litoral), não só devida às maiores con- população em geral, quando até se verifica o aumento do
centrações de público mas também por causas que se pren- número de bibliotecas disponíveis em todo o território nacio-
dem com as políticas públicas de desenvolvimento regional nal.
que contemplam o dinamismo cultural; Apesar do destaque dos jornais desportivos, a imprensa
— os parcos investimentos que as administrações locais diária também se pauta na generalidade do País por tiragens
fazem, de uma maneira geral, no sector da Cultura; insignificantes se comparadas num contexto internacional. A
— a crescente tendência para a privatização da actividade imprensa especializada dirige-se a segmentos sociais específi-
cultural e respectiva sujeição às regras de um mercado cada cos, definidos em função do género, geração, instrução ou
vez mais massificado; categoria socioprofissional, reconhecendo-se o sucesso que a
— as dificuldades económicas de uma boa parte da popu- chamada ‘imprensa cor-de-rosa’ parece ter junto de um públi-
lação e a sua incapacidade de aceder a bens culturais cujos co económica e socialmente tão distinto daquele que retrata.
preços ditados pelas entidades privadas continuam a fazer da Face a estes breves exemplos, não será de estranhar a ‘capaci-
cultura algo de muito erudito, selectivo e discriminatório; dade de absorção’ que uma boa parte das população urbana por-

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PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO


Identidade e cultura em tempos de mudança

Distribuição do Património Classificado, 2004

Antas e menires Fortes, castelos e torres

Capelas e igrejas Palácios e paços

0 25 50 km

tuguesa parece ter em relação aos modelos, modas e estilos cul- dos quais 30 no Continente, 2 na Madeira e 1 nos Açores, a
turais massificados. Os recentes desenvolvimentos dos meios de somar aos 201 que já existiam; e também ao acréscimo de
informação e comunicação têm tido um papel determinante na mais um milhão de visitantes registados na totalidade dos
criação e divulgação de uma cultura que tende cada vez mais para museus nacionais no mesmo período (2000/2001).
a globalização e descaracterização local, embora deixando nichos Para esta realidade contribuirão factores como a crescente
que favorecem o fortalecimento dos seus laços identitários. procura do turismo e de visitas escolares, mas também o evi-
Contudo, não se podem dissociar estas tendências do dente esforço de modernização que estes espaços de cultura
suporte consumista que lhe está associado e tão pouco se têm vindo a desenvolver, oferecendo cada vez mais conforto
pode ignorar o crescimento e a transformação urbanística que e serviços complementares aos seus visitantes.
as cidades do litoral, de um modo geral, têm demonstrado. Apesar de ser significativo o investimento que algumas
Neste cenário é também importante a referência ao surgi- vilas e cidades de menor dimensão estão a fazer no sector da
mento de mais 33 museus em Portugal em apenas um ano, cultura, o protagonismo continua a pertencer às duas grandes

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PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO


Identidade e cultura em tempos de mudança

Património mundial, 2004 Monumentos nacionais por concelho, 2004

59
30
15
6
2
nenhum

0 25 50 km

Data de Se na área metropolitana do Porto existem 7 espaços comer-


classificação
ciais que correspondem a esta descrição (e entre os quais se
1. Centro Histórico de Angra do Heroísmo 1983 encontram 70 salas de cinema) na área metropolitana de Lisboa
2. Mosteiro dos Jerónimos e Torre de Belém em Lisboa 1983
3. Mosteiro da Batalha 1983 o número de centros comerciais com idênticas características é
4. Convento de Cristo em Tomar 1983 de 25, com o total de 175 salas de cinema, estendendo-se desde
5. Centro Histórico de Évora 1988
6. Mosteiro de Alcobaça 1989 as áreas mais centrais da capital até às novas urbanizações dos
7. Paisagem Cultural de Sintra 1995 concelhos periféricos.
8. Centro Historico do Porto 1996
9. Sítios Arqueológicos no Vale do Rio Côa 1998 Estas novas pequenas salas de projecção em centros
10. Floresta Laurissilva na Madeira 1999
11. Centro Histórico de Guimarães 2001
comerciais estão na origem do desaparecimento de algumas
12. Alto Douro Vinhateiro 2001 das grandes salas de cinema e teatro, sobretudo nas grandes
13. Paisagem da Cultura da Vinha da Ilha do Pico 2004
cidades, ou ainda de umas quantas reconversões sob a forma
de auditórios ou centros culturais. Mas também existem
áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, que parecem apostar casos de novos espaços culturais, alguns de natureza privada,
cada vez mais num modelo de consumo cultural em espaços que têm feito um reconhecido trabalho ao nivel da promoção
multifuncionais, onde as novas temporalidades das sociedades e divulgação de programas culturais bem diversificados, tal
urbanizadas fazem conjugar o consumo e o lazer no espaço do como é merecedor de destaque o trabalho de conquista de
shopping. A proliferação dos centros comerciais – que reúnem novos palcos para as diversas artes do espectáculo, como palá-
num mesmo espaço o hipermercado, as lojas de vestuário, cal- cios, jardins, conventos, igrejas, praças de touros, armazéns,
çado, electrodomésticos, electrónica, decoração e restauração fábricas...
das grandes cadeias internacionais, espaços de divertimento e Mas as duas grandes cidades de Lisboa e Porto continuam
várias salas de cinema de projecção contínua e simultânea – é a liderar em termos de frequência de espectáculos e na exis-
um claro exemplo de um modelo de cultura de consumo que tência de grandes espaços para esse efeito quando o ritmo da
poderá ser adjectivada como volátil, efémera, inconsistente ou adesão da população aos eventos parece cada vez mais marca-
superficial, mas que não deixa de espelhar a sociedade urbana do por uma sazonalidade estival e pela moda dos festivais de
que, de uma forma geral, a põe em prática. música em espaços públicos.

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PORTUGAL NUM MUNDO DE RELAÇÃO


Identidade e cultura em tempos de mudança

A típica silly season televisiva de verão parece ser, simulta- Guimarães ou Sintra) e múltiplos festivais – gastronomia, fol-
neamente, uma das causas/efeitos da crescente onda de festi- clore, fumeiro, vinho, fotografia, teatro, cinema, etc. – que um
vais musicais, que do Rock ao Jazz, passando pelos clássicos e pouco por toda a parte vão enriquecendo a agenda cultural do
pela dança, vão acontecendo um pouco por todo o País, aju- território português e promovendo os sítios onde se realizam.
dando a descentralizar a cultura e a divulgar sítios e culturas A enorme quantidade e variedade de património classificado
locais mais esquecidas. Importará não esquecer que o verão na totalidade do território português, do qual se destaca o Patri-
português há muito que se divide entre o Litoral que vai a mónio Mundial, não só permite a representação do passado e a
banhos e o Interior que renova a sua fé nas romarias e festas evocação de uma memória colectiva, levando-nos a recordar
religiosas, as quais não dispensam espectáculos públicos que muitas terras do interior já tiveram uma dinâmica cultural
variados – como touradas, concursos, bailes, concertos musi- bem mais significativa do que actualmente, como também não
cais de cantores com sucesso no momento. nos deixa esquecer os variados testemunhos originais da histó-
Mais recentemente, parece haver uma tendência para con- ria do País e património arquitectónico, cultural e identitário da
ciliar tudo isto num modelo de férias ‘vá para fora cá dentro’ sua gente.
através dos Festivais de Verão, privilegiadamente dirigidos a Mas para além de tudo isto, importará referir igualmente
grupos mais jovens. Será esta uma nova forma de descentrali- os dividendos turístico-económicos que se retiram da patri-
zar a cultura portuguesa, levando a população urbana a desco- monialização reconhecida internacionalmente, o incremento
brir ‘velhos’ territórios; mas para as populações locais, também nas ofertas culturais e a procura da preservação das paisagens
representa a oportunidade de contacto com uma realidade dos lugares classificados que, simbolicamente, pertencem ao
extra-quotidiana, cuja promoção identitária poderá vir a ser globalizado mundo contemporâneo.
aproveitada de diferentes formas. A tendência observada em algumas povoações com carac-
Fazendo nossas as palavras de Augusto Santos Silva, terísticas patrimoniais mais emblemáticas mas, que apresen-
“A aposta em eventos marcantes, crescentemente aceites nos tam sérios riscos de abandono e destruição, tem sido a sua
círculos críticos, com eco na imprensa de referência e atraindo musealização e, em complementaridade desta tendência mas
consumidores culturais tidos por regulares e esclarecidos, é tam- a uma escala diferente, também se tem assistido, um pouco

Exemplos de locais classificados como património mundial


Centro de Angra, vinhas do Pico, Mosteiro da Batalha e centro histórico do Porto

bém uma aposta em ‘pôr no mapa’ – pôr em vários mapas várias por toda a parte, ao sucesso do turismo rural e de habitação,
coisas. No mapa dos sistemas culturais, nalguns casos interna- que não deixa de ser uma espécie de ‘museu vivo’ de modos
cionalizados, e também no mapa do território português e na de viver que caíram em desuso nas rotinas urbanas.
competição política e simbólica entre cidades e regiões, ou no Será precisamente a necessidade de fuga a estas rotinas que
mapa dos circuitos turísticos e patrimoniais, ou no mapa dos também tem contribuído para reavivar o interesse pela preser-
investimentos públicos e privados.” vação das ‘aldeias’ e ‘vilas’ históricas portuguesas que, de um
Parece cada vez mais frequente a procura de projecção modo geral se vêem cada vez mais divulgadas nos roteiros
internacional do país através de realizações culturais, patrimo- turísticos internos. Actualmente, Monsanto continua a ser
nialização de conjuntos urbanos e promoção turística. Nesta uma referência bem portuguesa, mas não o é mais do que
situação podem-se incluir as referidas candidaturas à realiza- Penha Garcia, Idanha-a-Velha, Marvão, Óbidos, Monsaraz,
ção de Exposições Internacionais ou Mundiais e a eventos des- Mértola ou Barrancos... Entretanto e porque a expressão cul-
portivos, as candidaturas a Capitais Europeias da Cultura (Lis- tural de um País não se resume a alguns eventos marcantes,
boa 94, Porto 2001, Coimbra 2003, Faro 2005), a elevação a serão necessárias políticas culturais bem mais efectivas, des-
património mundial de conjuntos urbanos significativos centralizadas, mobilizadoras e menos elitistas para alterar, um
(como os centros históricos de Évora, Angra do Heroísmo, pouco que seja, o sentir e o viver da cultura em Portugal.

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