O Instinto de Nacionalidade em

Órfãos do Eldorado
Um olhar regionalista
Jéssica de Souza Carneiro

46 TUCUNDUBA

segundo Coutinho. proposto por Afrânio Coutinho. é caracterizado por Machado de Assis. as últimas academias e certos intelectuais ilustrados. “a origem da literatura brasileira se efetua em pleno estilo barroco”. em ensaio redigido na década de 1870. Mas. do sistema literário brasileiro? Qual o elemento comum entre essas partes? Há alguns pontos de divergências entre teóricos da área no que se refere ao período exato de formação da literatura brasileira enquanto sistema autônomo. a forma. que surgem homens de letras formando conjuntos orgânicos e manifestando em graus variáveis a vontade de fazer literatura no Brasil”. a caracterização de personagens e a seleção de assuntos genuinamente brasileiros na literatura. em Formação da literatura brasileira. Ambos os autores. quais são as partes. em Formação da literatura brasileira. Antônio Cândido. a temática. É nesse contexto que o presente ensaio pretende abordar o conceito de “instinto de nacionalidade”. segundo o qual o aspecto estético e de literariedade observado nos primórdios da literatura brasileira se manifesta na encarnação do traço nativista e do espírito nacional. TUCUNDUBA 47 .LITERATURA Literatura é um sistema que se compõe de unidades organizadas responsáveis por uma certa finalidade. em segundo. Para Afrânio Coutinho. Tal aspecto ainda se encontra visível nas formas contemporâneas de representação do Brasil através da literatura. concordam que o elemento que existe em comum entre as partes do sistema literário produzido no país se caracteriza pela busca de autenticidade e da construção de sentidos plurais para o Brasil no que consiste à formação do imaginário e das tradições nacionais: a integração do par língua nacional/terra natal à imagem e à memória de brasilidade. por exemplo. O instinto de nacionalidade. como se poderá perceber por meio da análise da narrativa (pós)moderna Órfãos do Eldorado. porém. afirma que “é com os árcades mineiros. de autoria do escritor amazonense Milton Hatoum. a literatura compreendida como instrumento de um ideal nacional de expansão e domínio político de um povo ou raça. “três são as principais formas apresentadas pelo nacionalismo em literatura”: em primeiro lugar. entretanto. a estrutura. Conforme o autor. como aquele “sentimento íntimo” que busca a expressão de qualidades nativas sobre a matéria. A saber.

sozinho.a valorização do pitoresco sob todas as manifestações nacionais. Onde canta o Sabiá. à noite– Mais prazer eu encontro lá. e. Não permita Deus que eu morra. Em cismar. A título de exemplificação. Ao buscar no interior do país a síntese do próprio Brasil. à noite. Gonçalves Dias. Nossas várzeas têm mais flores. Sem que eu volte para lá. uma vez que a obra se concentra na descrição das especificidades da região Norte do Brasil: a Amazônia. nasce daquela aspiração patriótica de fundar a Exílio do pé quebrado Minha terra tem açaizeiro que um palmiteiro boliu as mangueiras já não enfeitam a catorze de abril Minha terra é Ver-o-Peso da Bahia do Guajará Os periquitos daqui não cantam como os de lá Minha terra é curiosa Tem caveira de sapo enterrado A gente toca carimbó só que escuta marujada Que prazer encontro eu lá nas manhãs de chuva fina a garoa vai brotando feito xixi de menina Não permita. As aves. Esta aspiração põe o regional acima do nacional. por último. Não gorjeiam como lá. Onde canta o Sabiá. Onde canta o Sabiá. Nossos bosques têm mais vida. mas não faz do sentimento de patriotismo referido por Machado de Assis enquanto instinto de nacionalidade menos autêntico Canção do exílio Minha terra tem palmeiras. Em cismar –sozinho. é possível citar a esse respeito a poesia indianista de Gonçalves Dias que. Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá. minha Senhora. no século XIX. Santinha de amor e de fé Que eu desmanche sem voltar ao Círio de Nazaré Paulo Nunes. O que acontece. que aqui gorjeiam. Mais prazer eu encontro lá. Onde canta o Sabiá. o regionalismo também reflete a linguagem do brasileiro sob a perspectiva da universalidade do sentimento nacional. Nossa vida mais amores. identificado principalmente em virtude do tema indianista. Nosso céu tem mais estrelas. Minha terra tem palmeiras. mas de maneira centrada e reflexiva. como no caso de Órfãos do Eldorado. Que tais não encontro eu cá. pode-se dizer que Órfãos do Eldorado se desenvolve a partir da manifestação da segunda forma de nacionalismo literário apontada por Coutinho. 1847 no texto literário em questão. muitas vezes apoiado em um passado mítico. À primeira vista. Sem qu’inda aviste as palmeiras. o da autenticidade de um “brasilismo interior”. que é a do pitoresco. numa tentativa de compreender um momento histórico particular ou as singularidades de um cenário específico. é que o autor regionalista descreve sua terra e sua gente não apenas com exaltação. Minha terra tem primores. 2001 48 TUCUNDUBA . Minha terra tem palmeiras.

que confere à obra um olhar regional. Assim. a do poeta paraense Paulo Nunes. mas não por isso menos patriótico ou nacionalista. dispõe-se a ouvir um velho com fama de louco. de exotismo e referência à natureza. ódio. É o que basta para Arminto Cordovil começar a contar a história de Órfãos do Eldorado – a história de seu próprio amor pela índia Dinaura. O espírito nacionalista de Hatoum. de uma região e de toda uma época que. um passante vem procurar abrigo à sombra de um jatobá e. entende-se que a narrativa Órfãos do Eldorado é marcada pela nostalgia que permeia o olhar de Hatoum sobre Manaus/Amazonas. a vida. Hatoum busca imprimir em sua obra literária um olhar nacionalista com enfoque regional. a mata. em Órfãos do Eldorado. de caráter otimista. Uma índia. à base da seiva da seringueira. observa-se o humano em suas relações com o meio. percorre as diversas partes da Amazônia: a cidade. com a linguagem. falência. como amor. contos de botos que engravidam virgens e mulheres que largam o mundo para viver numa cidade encantada no fundo do rio. Tal poema foi adaptado em inúmeras versões. que fugi da casa do meu professor e fui para a beira do Amazonas. nota-se um sentimento de idealização. desestruturação familiar. um pedaço do país muitas vezes desconhecido pelos próprios brasileiros. que a narrativa se fundamenta nas lembranças de um tempo e um lugar muito peculiares e traz à tona a abordagem de temas universais. O personagem principal usa os espaços de sua vida para contar lendas e mitos amazônicos. passou a morar definitivamente em São Paulo. desvendando. e da qual se auto-exilou em 1998. À luz desses exemplos. vingança. etc. incauto ou curioso. então. o rio. mas também a crônica de uma família. “Numa cidade à beira do rio Amazonas. uma das tapuias da TUCUNDUBA 49 . No primeiro poema.. Percebe-se. quando. insatisfeito com a política local. cidade onde nasceu em 1952. no segundo. a história e os modos do Norte. ao passo que. a paisagem e a cultura de uma determinada região. dentre elas. A voz da mulher atraiu tanta gente..nobreza do país sob um olhar de nostalgia e nacionalismo: a célebre Canção do Exílio. encara os sonhos seculares de um Eldorado Amazônico”.

já aí. Florita foi atrás de mim e começou a traduzir o que a mulher falava em língua indígena. brasileiro. De acordo com Coutinho. culturais e reivindicar os direitos de uma fala que se 50 TUCUNDUBA .cidade. O narrador em primeira pessoa. em seguida. Na tarde úmida. “da cabeça cortada”. a cor dos traços. impresso na literatura de Hatoum. Duvidava das palavras que traduzia. Arminto Cordovil. e eu sabia que a guerra na Europa prejudicava a exportação da borracha. que tiveram impacto decisivo na formação da identidade nacional e até mundial. “enfatizar os valores de nossas características raciais. assim. a Bélle Époque. também faz referência às tradições e características do povo nativo. deixando-a sozinha na Aldeia. sim: vermelha. Vê-se. como se observa no trecho: “Fazia tempo que eu não pisava em Manaus. “da mulher seduzida por uma anta-macho”. reflete o que Machado de Assis caraterizou eAfrânioCoutinho conceituou como “instinto de nacionalidade”. logo na primeira linha desse trecho que inicia a narrativa de Milton Hatoum. falava e apontava o rio. como a Guerra dos Cabanos. vêm narrados com a “história do homem da piroca comprida”. o Ciclo da Borracha. Não lembro o desenho da pintura no rosto dela. um arco-íris parecia uma serpente abraçando o céu e a água. a história é ambientada tendo como cenário principal a beira do rio Amazonas e. bem como às lendas. lá no fundo das águas. bem como o caráter regionalista da obra. A guerra e as seringueiras plantadas na Ásia”. Esse cunho nacional. Até o dia em que foi atraída por um ser encantado. sumo de urucum. desconfiada. Dizia que tinha se afastado do marido porque ele vivia caçando e andando por aí. descreve e faz parte de uma família tradicional da região e remete-se a uma série de momentos marcantes na história da Amazônia. que. Ou da voz. traduzia umas frases e ficava em silêncio. sociais. mitos e crenças do local que. Agora ia morar com o amante.

Leite de índia ou o suco leitoso do tronco do amapá (p. que cita o regionalismo como expressão da “alma brasileira a falar uma língua que só brasileiros entendem e sentem.especializou no contato da rugosa realidade nacional” constitui uma constante na história intelectual e na literatura brasileiras. o comércio. tanto que os temas nacionalistas.) pensamento de ‘fazer Brasil dentro do Brasil’. quando voltava pela beira do rio.19). tinha um apego doentio pela terra natal (p. “nossas frutas. exemplifica com os seguintes trechos de Órfãos do Eldorado: Uma tapuia me amamentou. as pessoas só falavam em crescimento. (. O coração e os olhos de Manaus estão nos portos e na beira do Rio Negro (p. o turismo: tudo crescia. nossos hábitos”.... um vapor que descia o Amazonas para Belém. Flechávamos peixinhos. nossos feitos. Meu pai gostava de Vila Bela. Próximo da floresta. a narrativa de Hatoum cria símbolos que traduzem literariamente a vida social no país em um contexto histórico determinado e nacionaliza as singularidades de uma região particular. Li nos jornais um desabafo do meu pai: reclamava dos impostos TUCUNDUBA 51 . “O que pretende o nacionalismo brasileiro é afirmar o Brasil”. não entendiam como poderia existir um colosso de arquitetura no meio da selva (p.16). Eram loucos para conhecer o Teatro Amazonas. Manaus. tomávamos banho no rio e corríamos na praia (p.17).21). via os casebres tristes da Aldeia.21).. Essa afirmação se Assim. é o mesmo pensamento brasileiro nacional (. via barcos pesqueiros atracados na rampa do Mercado. ouvia palavras em língua indígena. e. a exportação de borracha. observa Coutinho.”. o Norte brasileiro: “Em pouco tempo o humor de Manaus se alterou. o emprego. subíamos nas árvores. como no caso de Órfãos do Eldorado.) Uns anos antes da morte do meu pai. podem ser vistos ainda na literatura (pós)moderna. murmúrios. barcos carregados de frutas.

na obra. Rio de Janeiro. das “indiazinhas” comparadas às mulheres européias. ficam muito claras com a exaltação das singularidades do cenário amazônico: o povo. na estrutura e na temática. e que ele e todos os brasileiros fariam tudo para derrotar os países do Eixo. do couro. afinal de contas. diante da perspectiva exposta. Nenhum elemento em Órfãos do Eldorado ganha maior destaque do que os rios da região. foi o barco Paraíso. esperanças e até os seus desassossegos de amor. As características regionais de Órfãos do Eldorado. que serve de inspiração para a narrativa de Hatoum. no Amazonas. que. nos tempos atuais. COUTINHO. identificada como parte da cultura indoeuropéia e que também se manifesta na cultura amazônica e ameríndia. à custa unicamente das qualidades nativas. ainda que sob olhar regionalista. cortando os laços com a comunidade humana”. Trouxe dos seringais do Madeira mais de cem homens. representa uma das versões ou variações possíveis na crença da Cidade Encantada. o sertanismo. que “o nacionalismo literário no Brasil é a incorporação à literatura da realidade local – em tipos. A partir da análise desenvolvida é possível concluir. como nos trechos “O Amazonas arrastava tudo: restos de palafitas. o Teatro da Paz. Os cargueiros voltaram a navegar nos rios da Amazônia. 6ª edição. era o que se dizia. Soldados da borracha. em Manaus. de uma obra com feitio brasileiro típico. na beira do barranco. a obra de Hatoum faz ainda referências a fatos ocorridos na Amazônia de fundamental importância para a constituição da história nacional. Atracou aí embaixo. os recursos naturais. Belo Horizonte: Itatiaia. que permite a fusão dos imigrantes estrangeiros com os índios. É também na água que Arminto deposita as histórias de infância. Portanto. do valor das taxas alfandegárias. A riqueza hídrica da Amazônia é que fornece o modo de vida da família Cordovil. o que mais uma vez remete ao caráter universal da obra. da crença do próprio “mito do Eldorado. quem não deve favores para Amando?”. a narrativa de Hatoum também salienta a beleza do povo local. Como já mencionado. quase todos cegos pela defumação do látex. da seca. habitada por um bom selvagem”. Os sonhos e as promessas também voltaram. Do ponto de vista cultural. HATOUM. Milton. Afrânio. “Expressões dessa presença impositiva da natureza na literatura brasileira são o indianismo. 2008. juntamente com Coutinho. que exemplifica claramente o conceito de instinto de nacionalidade: o elemento comum entre as partes que constituem o sistema literário brasileiro. Antonio. No mais. a Cidade Velha. costumes e instituições”. os diversos ciclos da cana. a temática nacionalista constitui uma linha permanente na literatura brasileira de prosa e verso desde as primeiras experiências literárias que se manifestaram no país até chegar nos dias atuais. transportavam borracha para Manaus e Belém. da balbúrdia na nossa política. Então milhares de nordestinos foram trabalhar nos seringais. só que pálidas demais”. em Belém. 52 TUCUNDUBA . rica e farta. a cultura. São Paulo: Companhia das Letras. SAIBA MAIS CANDIDO. Afrânio Coutinho afirma que “nenhuma cultura se constrói no isolamento. Em outros trechos. do péssimo funcionamento do porto. Expressões populares e próprias do vocabulário local também podem ser observadas em Órfãos do Eldorado. é um exemplo perfeito. e eu não esqueci nunca. e depois os hidroaviões levavam a carga para os Estados Unidos. sempre influenciou fortemente a literatura nacional. O que existiu. conforme exposto no trecho a seguir: O presidente Vargas disse que os Aliados precisavam do nosso látex. do cangaço. a loja Paris N’América e o Ver-o-Peso. canoas e barcos de bubuia” e “Mano. do regionalismo”. Acadêmica. a literatura praieira. O fato é que a exaltação lírica da terra ou da paisagem.absurdos. o Largo de Nazaré. as correntes literárias contemporâneas. se entrosam e se vivificam na relação entre o nacional e o universal. 1981. Órfãos do Eldorado. por exemplo. Coutinho chama atenção ainda para o fato de que.”. ressalta-se a referência ao mito do Eldorado. Formação da literatura brasileira. O paraíso estava aqui. 1960. Órfãos do Eldorado. Conceito de literatura brasileira (ensaio). da terra prometida. “boas e belas em tudo. Hatoum cita alguns dos cartões postais da Região Norte: o teatro Amazonas.

TUCUNDUBA 53 .

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful