80 ANOS D’OS AMIGOS DE SPARTACUS O povo e o novo Eu acredito que os cineclubes bebem basicamente de duas fontes, que nutrem

o movimento desde o seu nascimento e se combinam e recombinam, ao longo de sua história, em variada proporção e das mais diversas maneiras, apontando para uma síntese ideal. Os primeiros cineclubes, o CASA – Clube dos Amigos da Sétima Arte, de Riccioto Canudo, e o Ciné-club, de Louis Delluc e tantos outros, surgiram do impulso irresistível de compreender o cinema, então uma arte e uma linguagem que ainda discutia sua essência e existência, que brigava por afirmar sua autonomia em relação a outras linguagens e, ao mesmo tempo, por resistir a uma padronização, a uma domesticação imposta pela consolidação do modelo comercial de cinema. O grande motor desses primeiros cineclubes era a necessidade de reunir os artistas, os críticos, em torno de um compromisso essencial com a arte. Os cineclubes nasciam para estabelecer, ampliar o contato das vanguardas artísticas com a intelectualidade e, se possível, com o público, que também constituía uma das características novas e exclusivas dessa nova arte: afluía aos milhares, diariamente, às salas de exibição. Nesse primeiro momento, o que sobressai na evocação desses cineclubes são os nomes de seus fundadores, que foram os primeiros teóricos do cinema, os primeiros críticos, os cineastas (*) que forjavam um cinema de expressão e de compreensão do universo e do potencial humano. Naqueles anos, os anos mais ricos do século XX, em que explodiam movimentos artísticos, questionava-se e ousava-se tudo, também se organizava numa escala inédita o movimento popular e operário – além da própria Revolução Soviética fundavam-se partidos comunistas (**) em todo o mundo. Esses dois movimentos, “artístico” e “político”, se imbricavam e eventualmente se arreliavam de diversas maneiras. Assim, em certos círculos, esses primeiros cineclubes eram vistos como excessivamente burgueses, uma vez que a intelectualidade que os prestigiava não se confundia com um público mais popular, que não tinha recursos, morava longe dessas salas, entre outras dificuldades. Aliás, a própria crítica ao caráter “burguês” dos cineclubes vinha da mesma intelectualidade que os freqüentava. No entanto, foram esses primeiros cineclubes que trouxeram para a França, por exemplo, os filmes soviéticos – que divulgavam e promoviam a Revolução - proibidos para as salas comerciais: O Encouraçado Potenkim foi exibido pela primeira vez no Cinéclub de France, em 1925 (o filme ficou proibido na França até 1952). Enfim, como dissemos inicialmente, essa dialética entre vanguarda e popularização me parece um dos elementos dinâmicos que mobilizam o cineclubismo, que incomodam e impedem a acomodação, frutos dessa estrutura que nos é própria e exclusiva: sermos organizados de forma coletiva, democrática e sem ter a acumulação de lucro como móbil. Nos melhores momentos, o movimento cineclubista consegue unificar esses propósitos, promovendo a crítica sem trégua e a renovação constante do cinema, sem perder um vínculo orgânico com o público, entendido como o

Dessa forma. entre os quais Nascimento do Cinema (1925). que tem especial interesse para o desenvolvimento do cineclubismo: foi no Congresso que se propôs a criação de uma Liga Internacional de Cineclubes e uma Cooperativa mundial de produção e distribuição independente. Caballero (Espanha). há muitos anos. Nessas ocasiões. Colega de Delluc. Bela Balázs (Hungria). a mais importante escola de cinema da época. Rosenfeld (Áustria). Contemporaneos y el cineclub mexicano: revistas y cine clubes. Moussinac contribuiu em inúmeras publicações de cinema. e foi colaborador do L’Humanité por mais de dez anos. numa sessão que marcou época também por causa da presença dos surrealistas.. 2002). está também fazendo 80 anos agora em 2008. citada na tese de Gabriel Rodríguez Alvarez (Gabriel Rodríguez Alvarez. Moussinac foi um dos promotores do 1º. teórico.. J. Alberto Cavalcanti e outros (França). e Guye. Prampolini e Sartoris (Itália). Franken (Holanda). movediços. eram delegados no congresso: S. a integralidade da população. Por aí andava o cineclubismo. em 1929. essa bandeira genial que ouvi pela primeira vez do Aluísio Leite. Walter Ruttmann e Hans Richter (Alemanha). assim como do Ciné-club de France. Eisenstein e G. G. cineclubista León Moussinac nasceu em 1890 e morreu em 1964. diretor da Escola Nacional Superior de Artes Decorativas e do IDHEC (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos). a partir de 1922. la experiência mexicana. Segundo a revista Close-Up daquele ano. e que para mim sintetiza perfeitamente o compromisso cineclubista. Trata-se do cineclube Os Amigos de Spartacus. León Moussinac. UNAM. foram . desde Film e Cinéa (editadas por Delluc) e La Gazette des Sept Arts (de Riccioto Canudo). Robert Aron. Autor de vários livros. em 1925. foi o grande responsável pela exibição de Potenkim. Também são contraditórios. criado por León Moussinac e os comunistas. Suíça. os cineclubes conseguem realizar seu compromisso com o povo e o novo. em março de 1928. Mas nem esses momentos são estanques. foi fundador da Associação dos Escritores e Artistas Revolucionários. Moituro Tsuytia e Hiro (Japão). crítico e militante de cinema. Cinema: Expressão Social (1927). que de certa forma constitui um momento fundador do cineclubismo. Kholer e Masset pela Suíça. Congresso Internacional do Cinema Independente. Os amigos de Spartacus Os cineclubes franceses usavam um expediente legal que lhes permitia exibir filmes sem um “visto” obrigatório para salas comerciais. Alexandrov (Rússia).conjunto. que ali descobriram o potencial renovador do cinema soviético. F. Montgomery Evans (EUA). León Moussinac. Uma dessas oportunidades. combateu na guerra de 1914-18 antes de tornar-se cineclubista. Neste último. Isaacs e Yvor Montagu (Inglaterra). M. Escritor e poeta. e se inscrevem numa trajetória que precisa continuamente se adaptar a novas realidades. no castelo de La Sarraz. participou da fundação do Ciné-club em 1920. O Cinema Soviético (1928) e uma infinidade de ensaios.

incluindo os filmes franceses. e imediatamente. mas a programação era bastante ampla. mas chegaram a 15. segundo Jean Lods. reunindo os avanços da linguagem cinematográfica e a divulgação da organização operária. O grande destaque e sucesso desses cineclubes eram os filmes soviéticos. Da direção faziam parte vários críticos e artistas ligados ao cinema. Como a legislação obrigava a associação das pessoas. Foi um acontecimento memorável.000 associados. mas também dirigentes do partido. Lyon e Toulouse. Marselha. mas também de uma grande vaga de cinema soviético. por isso. mostrou A Mãe. Os relatos falam do comparecimento de 4. Filmes educativos e de vulgarização científica foram também exibidos. e as cidades de Strasburgo. realizada em 15 de março daquele ano. atraiu toda a intelectualidade e. Diversos estudiosos convergem para a cifra de 80. como Moussinac e Jean Lods. em Paris. Bagnolet. suecos – enfim. na seqüência das atividades do cineclube.os grandes divulgadores não apenas de filmes de vanguarda ou que não tinham. Como os filmes soviéticos eram proibidos por toda parte. Nice.000 pessoas na enorme sala. proibido em praticamente todos os países capitalistas. que repercutiu enormemente em Paris. O público incluía todos os segmentos sociais. Moussinac. esteve na União Soviética em 1927 e tinha uma grande preocupação com a expansão do público do cinema de melhor qualidade e de maior conteúdo crítico. por qualquer razão. foi visto por entre 25 e 30 mil pessoas no cineclube. No entanto. também filiados ao partido. de Pudovkin (1926). O cineclubista Moussinac viu aí a oportunidade de criar uma entidade que juntasse os dois objetivos: divulgar o cinema soviético e criar um cineclube realmente popular. depois de seis meses de atividades dessa rede que incluía os subúrbios de Montrouge. Neuilly-Plaisance. Puteaux-Nanterre e Bezons. a atividade crescente da Internacional Comunista e de organizações operárias internacionais de ajuda mútua começava a se colocar a questão do cinema como elemento de propaganda do comunismo. foi objeto de uma acerba polêmica com os surrealistas. foram feitas várias exibições de O Encouraço Potenkim que. Bordeaux. que atacaram – com sua poderosa verve – a presença dos automóveis e de pessoas da burguesia na platéia. com apoio do Partido Comunista Francês. . que comportava 1. Montreuil. Denis. Evidentemente. St. O cineclube Os Amigos de Spartacus foi registrado como uma sociedade civil independente em 9 de março de 1928. Os Amigos de Spartacus transformou-se também. interesse comercial. L’Hayle-Rous. Quase imediatamente o cineclube tornou-se uma verdadeira “organização de massa”: uma nota de Moussinac diz que eles esperavam ter 10. eliminando a aparente contradição entre “cinema de minorias e cinema de maiorias”. Além disso. Malakoff-Vanves.500. Para a realização das exibições foi alugada a sala do Casino de Grenelle.000 associados até o 1º de maio. para terem acesso ao cineclube. uma credencial simples e uma taxa módica foram criadas.000. A primeira sessão. numa rede de cineclubes através dos subúrbios operários de Paris e pelo interior da França. alemães. pensava-se em criar formas de circulação desses filmes. operários e empregados de escritório. comunista desde 1922. Villejuif. Clermont-Ferrand.

Havia gente de todo tipo: operários. Uma jornal. Por outro lado. Não existem. os filmes soviéticos. cujos automóveis lotavam a Avenida Émile Zola. interpretadas de diferentes formas pelos poucos historiadores que se interessam pelo assunto. Jean Chiappe. três anos depois. de contestação jurídica? O próprio Moussinac reclamaria no jornal do partido. de que estavam proibidas as exibições de filmes sem “visto”. lembra Moussinac. isto é. intelectual do partido. Há uma certa dificuldade em reconstituir os últimos momentos do cineclube. mas igualmente gente da “sociedade”. obtido graças a um “furo” na legislação. por que não houve nenhuma forma de resistência. Mas Moussinac. no mesmo L’Humanité. que deve ter sido realizada no começo de novembro. contudo. as lideranças partidárias foram presas em massa e o L’Humanité apreendido. deixou um saldo de mais de 1300 prisões. Henri Barbusse. Ficam. Os empresários de cinema se irritavam com as técnicas de divulgação do cineclube: havia sessões especiais para a imprensa. Também parece provável que os interesses do cinema comercial contribuíssem nessa “frente” anticineclube. quando um cineclube de Strasburgo conseguiu na justiça o direito de exibir filmes soviéticos. com outros filmes: há registro de uma sessão em 25 de outubro de três filmes do Chaplin. Nada disso. que poderia estar preocupada com os custos de toda a operação – ameaçados com a proibição dos maiores sucessos? Poderia ser uma postura da Internacional Comunista. em Ivry. foi acusado de espionagem. empregados de escritórios e funcionários públicos. sempre atuando no sentido de conquistar grandes públicos É preciso também situar o clima político: em maio de 1928 um enfrentamento entre comunistas e a polícia. então. O fato é que o cineclube encerrou suas atividades. é claro. . que fez outras atividades. interessada exclusivamente na propaganda da revolução soviética? É indiscutível que a repressão contra os comunistas era muito forte e se desdobrava na perseguição ao cineclube. Apesar da importância desses filmes. Em outubro daquele ano. A polícia não gostava desse sucesso todo. A decisão de encerrar as atividades teria sido uma intervenção da burocracia do partido. responsabilizou principalmente os interesses comerciais pela evolução dos acontecimentos. chamava aquilo de “intolerável”. algumas dúvidas. juntamente com parte da imprensa.Repressão ou instrumentalização? As sessões d’Os Amigos de Spartacus no 15º. François Coty pedia formalmente que a entidade fosse proibida. mais tarde. arrondissement eram uma gloriosa mescla de entusiasmo político e cinefilia de um público altamente misturado. isso não acarretou o imediato fechamento do cineclube. agradava às autoridades e outras vozes da “situação”. documentos sobre a última reunião da direção do cineclube. no Le Quotidien. Ás vezes ficavam até depois do fechamento do metrô e aí havia uma multidão deslocando-se a pé para bairros distantes. Parece que naquele mesmo mês de outubro o cineclube recebeu a notícia do chefe de polícia de Paris.

e pelo pluralismo. a crítica e a realização cinematográfica.Conclusões Os Amigos de Spartacus foram um acontecimento meio meteórico. entretanto. (**) Os partidos comunistas dessa época não podem ser plenamente identificados no perfil dos partidos que hoje usam a mesma denominação: naquele momento a esquerda em todo o mundo. sem uma postura que “facilitasse” e paternalizasse esse público de massa. O impacto desse meteoro. entretanto. também ficou ligado a essa herança.. Mas isso já é um outro artigo.. Ed. Um cinema de caráter mais social. Arcádia. indelével e seus efeitos. valorizando os setores populares. havendo em boa medida abandonado o anarquismo e ultrapassado a social-democracia. em certo momento. foi tremendamente importante. Sua ação ficou marcada pela abertura para a renovação. uma programação popularesca. No ano seguinte. Depois da experiência francesa.que foi uma reedição ampliada do circuito popular de cinema de Moussinac . duradouros. fundamentalmente por essas ligas (***). Sem. para a experimentação. Os Amigos de Spartacus criaram um circuito de sucesso. sua marca. Essa experiência. convergia para um comunismo que ainda não se dividira em muitas correntes. que Guido Aristarco (Guido Aristarco. que não tinha muita expressão na França até então. O que também é outra história. em todos os ambientes sociais. em seguida ao Congresso de Cinema Independente. que permitia o acesso de todos os segmentos da população. significava para este último exatamente a experiência integral que envolvia o estudo. 1961) atribui a Delluc. firmou de forma imorredoura na tradição cineclubista um objetivo maior: o compromisso com o povo e com o novo Notas: (*) O termo cineasta. foi fundada a Federação Francesa de Cineclubes. (***) Praticamente todos os cineastas franceses estiveram ligados à experiência do Cine-Liberté . Ligas Operárias de Cinema e organizações similares foram criadas em muitos países.na época do governo do Front Populaire. Segundo Germaine Dulac – outra cineclubista “fundadora” – havia pelo menos 19 cineclubes na França nessa ocasião. Lisboa. ainda que breve na aparência. História das Teorias do Cinema. Do modelo esboçado n’Os Amigos de Spartacus derivaram as Ligas de Cinema de Trabalhadores – a própria existência do cinema independente estadunidense foi garantida. e existiram até mais ou menos a II Guerra Mundial. . que durou apenas 8 meses. ter um conteúdo.

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