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J4 ALIÁS

DOMINGO, 24 DE AGOSTO DE 2008 O ESTADO DE S.PAULO

DOMINGO, 24 DE AGOSTO DE 2008 O ESTADO DE S. PAULO

ALIÁS J5

ENTREVISTA

GILSONSCHWARTZ Economista, cientista social e professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade São Paulo (ECA-USP)

HOMMER

CAMPANHA

MANIPULAÇÃO

“Por perseguir a opinião média, tudo fica tão ralo que chega perto de perder o sentido”

“Legislativo e Judiciário mantêm o espetáculo em que os ingressos são restritos”

“O marqueteiro, às vezes, não passa de um corretor da ignorância”

A morte política da metrópole
Nossas cidades aumentam de tamanho, mas encolhem em civilização e fogem do controle
REPRODUÇÃO

A hora do Brasilzão
Campanhas revelam pouco sobre as intenções dos políticos. Mas demonstram como o eleitor brasileiro é um ‘bárbaro’
Fred Melo Paiva

José de Souza Martins*

Sevocêencontrar oGilsonpelos corredores da Escola de Comunicação e Artes da USP, a ECA, vai pensar que ele é o estudante e não o professor. Com seus cabeloslongos,rabodecavaloecamiseta despojada, a última coisa a se pensar sobre ele é que ali vai um respeitável economista. Seu avatar – ele adora o termo ressuscitadopelosinternautas–estámuitomaisparaumalunojubilado, daqueles que vão ficando, do que para um mestre cujos interesses não se restringem a uma só ciência. Gilson Schwartz, paulistano de 47 anos, é graduado em Economia e Ciências Sociais pela USP, possui mestrado e doutorado em Ciência Econômica pela Unicamp, pós-doutorado no InstitutodeEstudosAvançados da USP. Desde 2005, é professor do Departamento de Cinema, Rádio e TV da ECA, onde leciona a disciplina de pós-graduação Economia da InformaçãoeNovasMídias.Entre1986e 2006, trabalhou como articulista e editorialista do jornal Folha de S.Paulo. A experiência em redação (não o exercício da escrita, que já lhe era familiar muito antes,mas apresençanoespaço físicodojornal)lhevaleuoconvite para participar da criação dasrevistasÉpocaeÉpocaNegócios. Nesta última manteve coluna intitulada Iconomia – um conceito seu que diz respeito à “economia do audiovisual e dos ativosintangíveis”,sobreoqualvai falar, em setembro, na London School of Economics and Political Science. Desde 1994, Gilson Schwartz vematuandotambémcomoconsultor de instituições financeiras. Foi economista-chefe do BankBostoneassessordapresidência no BNDES. Suas maiores preocupações, no entanto, há muito migraram para questões como a “emancipação digital”– em1999,depois deserselecionado em concurso público no Instituto de Estudos Avançados da USP, implantou a Cidade do Conhecimento, um premiado projeto de pesquisa nessa área. Antes, tinha sido pioneiro na implantação de um Telecentro, no interiordoRioGrandedoNorte. A partir de 2007, Gilson passou a responder, também, pelo trabalho de curadoria do Centro CulturalBradesco–nãonomundo real, mas no Second Life, o mais famoso dos ambientes virtuais da internet. Diantedosimpedimentosimpostosaousodainternetnacampanha eleitoral deste ano – e dos invariáveis programas eleitorais gratuitos a que somos submetidos –, o Aliás convocou GilsonSchwartzparaanalisarodiscurso político que emana das telasdaTV.NaCidadedoConhecimento–umapequenasalinhano andartérreodaECA–eleconcedeu a seguinte entrevista.
Porqueospolíticosparecemtãofalsos e seus discursos, um engodo?

“Com a internet, o indivíduo tem agora onde publicar seu poema, seu hip hop, seu vídeo. Mas e a sua proposta política? Como fica sua candidatura? Onde ele vai pôr? Por que estamos reprimindo isso? A quem interessa todo esse impedimento? O olhar do TSE sobre a internet reduz o direito à cidadania. De repente, neste campo a China ficou mais liberal que o Brasil”
co se insere, estará sempre associada a um certo teatro – a uma certa falsificação, manipulação ou mediação –, que se tornou cada vez mais profissional nas democracias do Ocidente. No caso da política, a mediação feita por um ícone é sempre necessária. O grau de autenticidade, confiança ou admiração com relação a esse ícone é um problema de oferta e demanda: depende, de um lado, de que boneco – ou avatar – é esse que se apresenta; de outro, da capacidade que temos de dialogar com ele. A grande pergunta é: o político que aparece no vídeo é o responsável ele mesmo por sua falsificação ou ele é, antes, a falsificação de um processo que não quer aparecer? Esta pergunta tem lugar, por exemplo, quando se sabe que os políticos raramente explicitam os financiadores de suas campanhas.
Esse teatro político parece eficiente ao senhor, na medida em que a mensagempornóscaptadatemcaído cada vez mais em descrédito?

VALÉRIA GONÇALVEZ/AE

diantedatelevisãonohorárioeleitoral gratuito?

Não. A repressão ao uso da internetnacampanhaatingediretamente a geração dos nativos digitais. O alento é que a juventude sempre vai buscar novos caminhos de manifestação – e isso pode eventualmente surgir, ao longo do tempo, como a ineficácia dos modelos de campanha e comunicação política existentes. Mas, por enquanto, apenas a televisão está presente em 99% dos municípios, comoumoligopólio.Quandoos políticos e os tribunais eleitorais reprimem o exercício da política nos novos meios, apenas reforçam esse oligopólio das televisões e também das rádios. Porisso,além da internet,as rádios comunitárias sofrem tanta restrição. Rádio é um instrumento de custo muito baixo. Quando sua tecnologia apareceu, acreditou-se que, por ser bidirecional,orádioeraa democracia. A repressão aos novos meios, esse conflito setorial entre a telecomunicação e a radiodifusão – isso tudo suscita grandes questões: quem é dono da televisão no celular? Quem usa o celular para fazer programa de televisão? Como se divide o bolodessas receitas?Essasperguntas são parentes de outras: Quempode aparecer?Quempodeproduziraprópriamídiapolítica?
Causa estranheza que o País e o mundo tenham mudado tanto nas últimas décadas e a maneira como se “vende” o político brasileiro tenha permanecido basicamente a mesma–omesmoblablablá,osujeito beijando criancinha e comendo buchada de bode?

Judiciáriosãoos mantenedores desse espetáculo em que osingressoseoprogramaestão sob controle restrito.
Se a juventude é afeita à inovação,comoojovemingressarána política, sendo esse um campo tão refretário às novidades?

Ou esse jovem será herdeiro dealgum patrimônio político ou será um sujeito habilitado à manipulação dos ícones. Ele tomará a seguinte decisão: eu não vou cuidar de ações na bolsa, mas vou, por exemplo, trabalhar com a área de vídeo nas campanhas eleitorais – ou farei roteiro de filmes publicitários para candidatos, o que dá umagrana violenta.Aprodução do espetáculo político atrai muitos jovens, mas somente porque ali tem dinheiro. Claro que sempre haverá o movimento de resistência, de contracultura. No entanto,ésempre preocupanteobservar as reações a isso. Para evitar o desconhecido, proíbe-se tudo.
EmSãoPaulo,talvezseesperasse da Soninha, a candidata mais jovemàPrefeitura,umacampanha diferente.

Não tem jeito: o Hommer está lá esperando por ela.
Qualasuaopiniãosobreosmarqueteiros políticos?

FOCO – O professor Gilson Schwartz no novo estúdio de cinema da ECA: ‘Mundo hoje é audiovisual’

forma – ainda que, do ponto de vista da opinião mais esclarecida, vá ficando claro os limites de eficácia em termos de persuasão.Mas,seessacadeiasobrevive, é porque os limites estão longe de ser alcançados.
As campanhas políticas não têm, então, nenhum compromisso com quem pensa?

TERÇA,19 DE AGOSTO

Há uma expressão repetida exaustivamente, que no entantopermanecerelevante:asociedade do espetáculo. Nesse tipo de sociedade na qual vivemos a tecnologia do audiovisual é avassaladora– tanto por razões virtuosascomonão.Ainteligência audiovisual é mais rica do que a retórica tradicional ou apenastextual.Eassim elaenriquece nossa imersão no mundo. Mas há um outro lado, que não está restrito ao espetáculo digital contemporâneo: não existe representação sem máscaras,sejanacomédiaounatragédia. Preferimos a comédia, mas já os gregos apontavam que as tragédias, pessoais e coletivas, estão aí. O que quero dizeréque a questãoda representação,onde obviamente opolíti-

Háumaopinião pública mais esclarecida, que evidentemente é uma minoria. Por outro lado, muitos setores da classe média fazem parte da produção de todo esse espetáculo da política e por isso conseguem enxergar suas máscaras. Podem não estar diretamente envolvidos na campanhadesseoudaquelecandidato – mas estão, por exemplo, “infiltrados” nos tribunais eleitorais.Háumacadeiaprodutiva dessa imagem do político que acaba por alcançar todos os queestãointeressados emque a encenação continue da mesma

Estive na Globo com um grupo de professores da USP que foramdiscutircomo(editor-chefe) WilliamBonnercomoerafeitoo Jornal Nacional. A certa altura, questionamos se as notícias não eram veiculadas de uma forma simplista demais. Foi quando Bonnercomentouqueerapreciso levar em conta que as notícias estavam sendo comunicadas a um tipo como Hommer Simpson. O personagem de fato é um ícone do indivíduo menos consciente. Na época, estabeleceu-se um debate, e publiquei uma carta citando uma obra que faz a análise filosófica dos Simpsons, chamada Simpsons e a Filosofia. Hommer é o primeirocapítulo – e láestádito queele não é uma pessoa sem virtudes. É apenas um homem aristotélico, ou seja, sua virtude está no meio termo e muitas vezes na mediocridade. A mediocridade, claro, é um risco, da mesma forma que o juízo mal informado. No caso da política, a construção da informação sobre um candidato está em boa medida direcionada ao Hommer e não àquele sujeito mais consciente que talvez desejasse saber, em primeiro lugar, quem financiou sua campanha. Uma hora isso vai sair no jornal, mas apenas

Campanha chega à TV
●●● Na estréia do horário eleitoral

gratuito, os marqueteiros dos candidatos apostam na estratégia da repetição e da campanha negativa. O nome de Alckmin é citado mais de 20 vezes no horário reservado à sua coligação e um jingle de Kassab ataca diretamente o PT.

uma elite estará disposta a ler. Tem um site em que se poderá verificar as declarações do Imposto de Renda dos candidatos. Mas as pessoas têm mais o que fazer – têm o blog para ler, o Orkut. É importante que tenhamos uma elite crítica. Mas, de qualquer maneira, o sujeito que vaiconstruiraimagemdocandidato,nestasociedadetãopredominantemente audiovisual, vai tomar decisões muito parecidas com as do Bonner – que não são necessariamente ruins, embora, em muitos momentos, por perseguir a opinião média, tudo pareça tão ralo e repetitivo de clichês que chega perto de perder o sentido.
Como analisa as restrições ao uso da internet pelos candidatos nesta campanha eleitoral?

Nomundotodo,eemespecial no Brasil, houve, nos últimos cinco anos,umempoderamentodesetores sociais que de fato estavam na periferia não apenas urbana, mas também da indústria cultural. A ubiqüidade que vem juntocomamobilidadedossistemas de gestão de informação tem dois lados: aumenta o lixo quecircula,mastambémaspossibilidades de expressão. Proibir o uso da internet por causa do risco que está embutido na sua manipulação é o mesmo que proibir a venda de carros por causa dos acidentes. Isso diminuiria muito a mobilidade das pessoas, mas paciência – a partirdehoje,quemdirigirestápreso. Seria um absurdo e por isso estabeleceram-se regras para o sistema de transportes. No caso da informação, ela é intangível – não é como o carro, que vai ocupar espaço na rua; mas ela permitequeoindivíduoocupeespaço na mídia e na sociedade. Esse indivíduo tem agora onde publicar seu poema, seu hip hop, seu vídeo. Mas e a sua proposta política? E a sua candidatura? Onde ele vai pôr? Por que estamos reprimindo isso? A quem interessa esse impedimento? Certamenteaquemjámanipulaecontrola os meios onde isso é permitido. O olhar do TSE sobre a internet destrói potencial e reduz a capacidade das pessoas de exercer o direito à cidadania, queinclui direitoà comunicação responsável. De repente, nesse campo a China ficou hoje mais liberal que o Brasil.
Osenhorconsegueimaginarumjovem usuário da internet sentado

No Brasil ocorreram grandes transformações, sempre ligadasà globalização. No século16, os engenhos de cana de açúcar tinham uma tecnologia totalmente revolucionária. Depois vieramos ciclosdo ouro,da borracha, do café, da industrialização.Nos 500 anos em queoBrasil muda com o mundo, certas coisas, porém, não mudam ou mudam muito devagar. Em geral, elas dizem respeito a quem controla a divisão do poder e da riqueza – e, claro, a divisão do espaço onde se é visto e ouvido. Por isso o País é hoje notoriamentedesigualetem umbaixíssimo nível de desenvolvimento da informação, da comunicaçãoedaprópriacultura.Repetidamente, ocupamos sempre as piores colocações nos rankings relativos à educação. Ao mesmo tempo, não faz parte da nossa pauta exportadora os produtoseserviços intensivos emtecnologia e inovação. Se olharmos para trás, o Brasil é um país que sempre se reinsere nos ciclos mundiais. Mas apenas uma elite se apropria das novas oportunidades. Uma grande maioria fica para trás, sem possibilidade sequer de se autoeducar. Dentro disso, a internet é uma mudança radical. De fato, ela tem um potencial de democratização, no sentido de combinar negócios, tecnologia e cidadania. Mas por enquanto é apenas um potencial e, mesmo em muitas outras partes do mundo, o que se tem constatado é a tentativa de asfixia desse novo meio. No Brasil ocorre um reacionarismo não apenas instrumental, mas também estético e cultural. Quem tem medo da liberdade e da inovação tem medo também de mudar sua própria forma de aparecer. Por issoopolítico,grande responsável pela manutenção do status quo, vai se falsificando tanto em suaaparência.Porserreacionário no conteúdo, acaba sendo reacionário também na forma. Assim,apesardetantasmudanças, nós o vemos do mesmo jeito na televisão. O Legislativo e o

É preciso fazer a distinção entre o agente e o intermediário. Na sociedade em que vivemos, a intermediação faz parte do jogo e a mídia, da realidade. Há algum tempo atrás, não se considerava assim: a realidade era apenas aquilo que era real. O que o novo capitalismo está trazendo é justamente essa faceta híbrida, em que não dá para separar o material do imaterial – e portanto não existe coisa sem a representaçãodessa coisa,oque sugere a obrigatoriedade da mediação. Não há mal nenhum naatuação de quem faz oinevitável trabalho de mediar. Agora, há o agente que se empenha em criar, preservar ou explorar uma assimetria de informação. Se, no trabalho de mediação, um profissional contribui para aumentar o desnível entre quem está informado e quem não está, ele se coloca a serviço da opacidade e não da comunicação. Este é, em última análise, um preservador da ignorância, alguém que parasita sobre a tecnologia da mediação.
Hámarqueteirosquefazemprograma de governo.

Os municípios já tiveram seus grandes momentos na história política do Brasil. Por mais de 400 anos, o município foi o centro decisivo da vida política brasileira. Foi, durante esse longo tempo o embrião, ainda que mal acabado, de uma democracia no País porque constituía o baluarte de defesa da comuna contra o absolutismo monárquico, primeiro, a centralização do poder, depois,e, já combalido, os surtos autoritários da nossa mal traçada República. Nos séculos 16 e 17, as câmaras referiam-se, aliás, ao município, como república. É verdade que república oligárquica e conservadora, originalmente fundada na escravidão dos índios e dos negros e, portanto,nasdesigualdadesque interditavam aos desiguais a participação política. De vários modos, o instituto dainferioridadepolíticadossimples vigorou até recentemente, abolido com a Constituição de 1988 e com a supressão da interdição do direito de voto aos analfabetos. A demorada extensão dosdireitosdeigualdadeàtotalidade dos brasileiros adultos e sua lenta incorporação à condição de cidadãos teve efeitos amplos, que se refletem tanto na vida política dos municípios quanto dos Estados e da União. Num certosentido,essaampliaçãodemocráticadodireitodevotoacabou com a República dos bacharéis e estendeu ao extremo as possibilidadesdademagogiapopulista.Sehouve progressopolítico com a ampliação da cidadania dos brasileiros que ganharam direito a voto, houve também um conseqüente retrocesso no estreitamento da mentalidade eleitoral. Pessoas que foram secularmente mantidas à margem dos direitos políticos e ainda estão à margem de direitos econômicos e sociais tiveram um crescimento político mutilado por essa deformação que, inevitavelmente, se reflete nas eleições por meio da trans-

formaçãodecarênciasnãopolíticas em demandas políticas. Uma mediação social e eleitoral deformadapelodesencontroentre o social e o político preside a política brasileira. Justamente nas eleições municipais os efeitos políticos dessa mutação são mais visíveis. A alma do município é a cidade e deveria ser, portanto, a urbanização e a revolução urbana. Isto é, a revolução no modo de vida dos moradores que lhes abrisse plenamenteoacessoàcivilidade possível, a cidade como conquista e direito, como demonstrou o sociólogo francês Henri Lefebvre, um dos maiores estudiosos das cidades. A cidade só o é como baluarte da civilização contraabarbárie,dariquezadepossibilidades sociais e culturais contra as limitações da pobreza dorústicoepopular.Averdadeira cidade não é só um lugar em que se mora e se transita. É, sobretudo,umlugarem queoespírito da cultura vive em comunhão com o corpo do trabalho. A cidade é o espaço em que o ho-

sentamem termosde civilidade, bastacompará-lascomadministraçõesquedeixaramcomomarcososmonumentos dacatástrofe urbana: o Minhocão, a Praça Roosevelt, o tapete de concreto sobre o Rio Tamanduateí, a Radial Leste, imensas cicatrizes de cirurgiaplásticamalfeitanorostodeumacidadequejáfoilindíssima e fascinante. Processo que culminou com a transformação do centro em periferia, na concepção minúscula e equivocada de que governar em nome do bem comum é anular as virtudes civilizatórias do centro, como lugar monumental das conquistas humanas, como síntese da utopia urbana, o centro que se expande ao expandir o sonho de um mundo possível, a cidade como lugar de viver e não como lugar de sofrer, como anúncio do novo e não como resíduo das misérias políticas de um país inteiro. Apenas nos últimos anos, na restituição à cidade da cara que já teve, na revitalização do que é antigo e já foi belo, é que São Paulo começou a reconhe-

UNS COMPARTILHAM, OUTROS CONSOMEM A CIDADE: PREDADORES, ESPECULADORES...
OUSADIA – Antônio Prado tornou moderna uma cidade caipira de taipa

A CATÁSTROFE TEM SEUS MARCOS: RADIAL LESTE, MINHOCÃO, PRAÇA ROOSEVELT
política e dominam as cidades. Se tomarmos como referência a história republicana da cidade de São Paulo, veremos, com desalento, que ela teve apenas dois prefeitos que representaramousadaecorajosamentea utopiaurbanaentrenóseemnome dela promoveram aqui a revolução urbana: Antônio da Silva Prado (de 1899 a 1911) e Francisco Prestes Maia (de 1938 a 1945 e de 1961 a 1965). É evidente que ao longo desse período, de pouco mais de um século, houve outros prefeitos que fizeram o que lhes coube na preservação e na implementação da revolução urbana de São Paulo. Na administração Antônio Prado, a cidade caipira e de taipa,remanescenteaindadostempos coloniais, foi praticamente demolida para dar lugar a uma cidade moderna e funcional, bonita e acolhedora. Se foi a cidade dos fazendeiros de café, que optaram nessa época por deixar a roça para morar e viver aqui, foi também a cidade do imigrante, aberta à pluralidade de línguas e costumes, a cidade aberta à diversidade e à criação cultural. NaadministraçãoPrestesMaia, São Paulo ganhou a infra-estrutura de metrópole, da cidade de massas, do alargamento dos grandes espaços públicos. Parasecompreenderoqueessas duas administrações reprecer de novo os sinais da revolução urbana possível. Utopia que não está visível na plataforma da maioria dos candidatos atuais. O que se complica quando examinamos as biografias e propósitos dos candidatos a vereador no portal estadao.com. br:comóbviasexceções,ummelancólico cenário de pobreza de perspectiva, de alienação em relação à cidade que querem governar, um triunfo da periferia contra a própria idéia de urbano e metrópole. ●
*José de Souza Martins é titular de Sociologia na USP e autor de A Sociabilidade do Homem Simples (Contexto)

mem se ergue acima do chão e da natureza, no urbanismo, na arquitetura, no estilo, no belo e no bom. Na vida cotidiana dos que na cidade vivem a cidade tem como cidadão o usuário, aquele que a usa compartilhando, o altruísta, contraposto à figura daquele que a consome, o predador, o especulador imobiliário, o egoísta. Na perspectiva desse modelo, nossas cidades, que cresceram em número, estão encolhendo, escapulindo da civilização em direção à barbárie. Em eleições como a deste ano, já fica evidente o bloqueio dautopiaurbanapelasirracionalidadeseabsurdosque,infiltrando-se pelas eleições, chegam à

Democracia, só, já não basta
É hora de a América Latina buscar qualidade nos regimes
IVAN ALVARADO/REUTERS

Manuel Antonio Garretón*

Isso extrapola totalmente a mediação, para abrigar-se namanipulação das expectativas. Mas é importante perceber que o marqueteiro não age dessa forma por um viés de personalidade ou por uma maldade intrínseca. Ele atende a uma demanda: o candidato não sabe se pentear, precisa de um cabeleireiro; se tem de falar na televisão, precisa de alguém que filme; agora, e se ele não tem nada a dizer? Então tudo issodesaba. Aí, no lugardamediação, surge esse marqueteiro que redigirá para ele um programa de governo. Esse profissional não passa de um corretor da ignorância. Apesar disso, não temos de pôr a culpa nele. O fato é que o nosso Hommer é bem pior que o Hommer do desenho animado. Aquele é realmente aristotélico. O nosso é muito bárbaro – falta a ele civilidade e cidadania. E o acesso a isso é repetidamente negado. ●

Depois de superar o passado autoritário, os países da América Latina têm uma nova agenda institucional e social. Concluídas as transições e consolidados os regimes pós-ditatoriais, não obstante as desestabilizações e quedas de presidentes sob pressão popular – problemática dominante nos anos 80, 90 e ainda no início desta década –, uma nova questãopassou a predominar:a qualidade da democracia conquistada e consolidada. Embora seja verdade que, desde a instalação dos novos regimes, existiu em vários setores a preocupação com o tipo de democracia que estava sendo criada, a preocupação maior era com a mera existência do regime democrático e os riscos iniciais de um retorno das ditaduras. Além disso, essa preocupação se direcionava mais para a herança ou os enclaves legados pelas ditaduras do que para os novos aspectos da vida política. Agora que esse risco parece distante, a qualidade das democracias latino-americanas tornouse o tema principal de análise e do debate político. É isso o que nos mostram os rankings e indicadores oferecidos a partir de pesquisas que medem dados subjetivos como as impressões causadas pela realidade institucional ou pelo próprio funcionamento das democracias. Eles são refletidos nos resultados socioeconômicos, na qualidade das instituições, nos níveis de satisfação ou em alguma combinação de um ou de outro fator.

NA RUA – Confrontos testam a popularidade da presidente Bachelet

Há três aspectos que esses rankingseindicadoresapresentam. O primeiro é a observação de que a mera existência de determinadas instituições pró-

A IGUALDADE DE DIREITOS EXIGE UMA DISTRIBUIÇÃO EQÜITATIVA DO PODER
prias da democracia não garante uma democracia de fato. É o que acontece quando há elementos antidemocráticos na constituição ou quando a própria Carta foi herdada da ditadurasemqueumanova,edemo-

crática, tenha sido redigida. Elementos que em uma determinadasociedade podemsatisfazer os padrões de uma democracia plena, em outras pode miná-la. É o que ocorre com os sistemas eleitorais. É um lugar comum dizer que tais sistemas são neutros e que um não é mais democrático que o outro. Quem observa na prática seus efeitos na sociedade logo percebe que um sistema pode, sim, sermaisdemocráticodoqueoutro. Seus objetivos, os de garantir proporcionalidade, pluralismo, participação popular, não são igualmente garantidos por todos os sistemas eleitorais em todas as sociedades. É possível realizareleiçõeslivres,competi-

tivas e transparentes sem que o resultado final seja a expansão eaprofundamentoda democracia e sim a formação de uma elite fechada e excludente. O mesmo ocorre na formação do Poder Judiciário ou nas relações entre Executivo e Legislativo. Mas essa não é uma questão que pode ser mensurada com critérios quantitativos, então precisamos de uma análise comparativa. Quando a análise da qualidade democrática por um sistema de rankings e indicadores é a única forma de análise utilizada, criamos uma situação em que critérios tecnocráticos e midiáticos se sobrepõem aos argumentos. Mas são argumentos, não tecnocracia, que sustentam uma análise democrática. Um exemplo claro e direto: rankings põem o Chile nas primeiras colocações de qualidade democrática da região. O mesmo Chile herdou sua constituição da ditadura, tem um sistema eleitoral excludente e um Judiciário que defende a impunidade para violações dos direitos humanos. O segundo aspecto leva em conta que, sem menosprezar a importância da autonomia na democracia política, sua qualidade é afetada por elementos socioeconômicos e culturais. A igualdade de direitos, um dos princípios éticos fundamentais da democracia, exige a distribuição eqüitativa do poder, da riqueza e a existência de uma verdadeira comunidade socioeconômica. Já a diversidade cultural, ao invés de enfraquecer, fortalece a coesão social. Estes são elementos que, embora não possam ser considerados condições essenciais para a existência de uma democracia, são indispensáveis na hora de avaliar sua qualidade. Como os rankings de democracia não levam tais elementos em conta, eles desfiguram completamente qualquer análise comparativa e se prestam mais a um instrumento ideológico do que científico. FernandoVallespínapresentou o terceiro aspecto na reunião da Associação LatinoAmericana de Ciência Política,

na Costa Rica, há algumas semanas. Nem sempre, quando avaliamos a qualidade das democracias,levamosemconsideração a transformação das democraciasrepresentativas sustentadas por partidos políticos em democracias orientadas pela lógica midiática. Nestas, tanto candidatos quanto aqueles queocupamoscargosrepresentativos mais altos deixam de representar seus ideais partidários e terminam dominados pelalógicadosmeiosdecomunicação que podem ser tudo, mas não são o reino da democracia deliberativa ou argumentativa. Em determinados contextos,

MESMO ELEIÇÕES LIVRES NÃO SIGNIFICAM DEMOCRACIA PLENA
os meios podem exercer um papel fundamental para a importânciademocrática,masnãodevem ser a única fonte de informação e análise, tampouco devemencampar a idéia deque, se nãoestánosveículosdecomunicação, é porque não existe. A transformação dos meios em poderes de fato limita o caráter democráticodosprocessospolíticos, o que se agrava nas situações em que não existe pluralismo na mídia. A Itália de Berlusconi é, por exemplo, menos democrática do que muitas democracias que aparecem mais abaixo nos rankings. Não se trata, aqui, de negar o valor que índices e rankings de qualidade democrática podem ter, apenas de assinalar seus limites e aprofundar a análise com argumentos que levem em conta o contexto histórico e o impacto que estes marcos impõem aos índices. ●
*Professor das Universidades do Chile e de Buenos Aires, o cientista político e sociólogo chileno Manuel Antonio Garretón é autor de O Processo Político Chileno e Ditaduras e Democratização, entre outros